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18/12/2017 Educação Pública - Etnoconhecimento e a escola para um futuro sustentável

EDUCAÇÃO

Etnoconhecimento e a escola para um futuro sustentável


Eduardo Beltrão de Lucena Córdula
Biólogo, mestrando do Prodema (UFPB), pesquisador do Gepea-Gepec (UFPB)
Envie esta
página Glória Cristina Cornélio do Nascimento
Bióloga, doutoranda do Prodema (UFPB), mestre em Meio Ambiente e Desenvolvimento (UFPB)

Tradição e saberes (Etnoconhecimento), duas palavras


cuja epistemologia implica diferentes conceitos; a Etnoconhecimento são os
sociedade contemporânea buscar resgatar em suas saberes, tradições (cultura)
passados de geração a
comunidades tradicionais saberes que podem direcionar o geração nas comunidades
futuro, a partir do entendimento do passado e das tradicionais, aprendidos
com a vida cotidiana e a
relações e percepções destes povos sobre o meio interação direta com o
ambiente e a cultura (BORGES; BRITTO; BAUTISTA, meio que os cerca e seus
fenômenos naturais
2008). (NASCIMENTO, 2013).

Para Japiassu (1991, p.15), saber possui todo um


significado epistemológico, sendo “todo um conjunto de conhecimentos metodicamente
adquiridos, mais ou menos sistematicamente organizados e suscetíveis de serem
transmitidos por um processo pedagógico de ensino”. Porém, a construção do saber não
se procede apenas na academia; antecedidos a ela temos os sabres tradicionais, cujos
valores são incomensuráveis, já que transitam entre as populações de geração a geração
(DIEGUES, 2001).

As tradições envolvem simbologias, oralidade e expressões comuns de um povo e, muitas


vezes, únicas, influenciadas pela região, pela ancestralidade, pela relação entre ser
humano e natureza e demais fatores, perpetuando suas

histórias desde os mais remotos tempos. Quando ainda não havia a escrita, havia a
palavra. E havia a memória. E as histórias eram guardadas como verdadeiros
presentes, relicários feitos de ar, lembranças, emoções; objetos para encantar o outro,
seduzir o outro, ensinar ao outro, abrandar o outro, comprometer o outro com seu
passado, sua gente e seu tempo (SISTO, 2010, p. 1).

Para Morin (2010), os conhecimentos atuais estão preenchendo o pensamento e a mente


da civilização atual, com a quantidade de informações que são produzidas, porém,
desconexas umas das outras, não dando sentido real no atual mundo cibernético virtual.
Há necessidade de reformar o pensamento para, em vez de termos indivíduos com as
cabeças cheias de informações pouco aplicáveis e desconexas, termos indivíduos com
pensamentos e informações bem articulados, conhecimentos e saberes conectados num
padrão sistêmico, no que seria uma cabeça bem-feita para mudar a percepção atual da
civilização sobre si mesma (GUATTARI, 2009; MORIN, 2010).

A escola, portanto, entra como centro de resgate e incentivador da valorização dos


saberes da comunidade do seu entorno, já que muitas comunidades, mesmo em estado
quase provinciano, possuem tal unidade para educação dos seus filhos. E é nelas que os
saberes da comunidade são externalizados, pelos seus filhos e suas filhas, quando
estimulados a isso, e o mundo vivenciado pela ótica do alunado pode ser resgatado,
valorizado e aprendido pelos professores, buscando sempre envolver nesse processo a
família e as gerações que perpetuaram a origem e as tradições deles (FREIRE, 1989;
VASCONCELLOS, 2010).

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Tais informações em conjunto trazem o entendimento de


como ocorrem às relações entre ser humano e natureza, Bióticos são todos os
seu papel nesse processo e como ocorrem as componentes vivos de um
ecossistema; abióticos são
interferências negativas que levaram aos desequilíbrios os fatores ambientais
ambientais atuais e, o mais importante, a percepção físicos de um ecossistema,
p. ex., o clima (GRISI,
prática desses saberes tradicionais em explicar os
2001).
fenômenos que ocorrem na natureza e como ocorrem as
influências dos fatores bióticos e abióticos sobre eles, para
assim conseguirmos entender as relações intrínsecas reais no planeta e nos biomas,
visando ao desenvolvimento de tecnologias, políticas e ações sustentáveis (JABBOUR,
2007; DIEGUES, 2001).

Estaremos, portanto, formando cidadãos que valoram os seus saberes, suas tradições e
como eles podem contribuir para a ciência e o desenvolvimento de pensamentos e
atitudes sustentáveis para fomento de uma sociedade contemporânea não só com
qualidade de vida ambiental mas também com equidade social (VASCONCELLOS, 2010).

Considerações finais

Respeitar, resgatar e preservar tais saberes das comunidades tradicionais é dever da


sociedade e da ciência, para que possamos entender, pelas suas gerações, as verdadeiras
relações entre o ser humano e o ambiente à sua volta, a cultura envolvida nesse processo
e as tecnologias rudimentares desenvolvidas, além dos recursos utilizados para as mais
diversas finalidades, indo da alimentação, passando pela vestimenta, até o uso dos
fitoterápicos no tratamento de doenças. E é na escola que tais processos podem começar
a ocorrer, valorizando e incentivando o aprender com as gerações anteriores, na oralidade
dos conhecimentos passados dos avós e avôs para os netos e netas, dos pais e mães para
os filhos e filhas.

Referências

BORGES, K. N.; BRITTO, M. B.; BAUTISTA, H. P. Políticas públicas e proteção dos saberes
das comunidades tradicionais. Revista de Desenvolvimento Econômico, Salvador, ano X,
n° 18, p.87-92, dez. 2008.

DIEGUES, A. C. Ecologia humana e planejamento costeiro. 2ª ed. São Paulo: Nupaub-USP,


2001.

FREIRE, P. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. 23ª ed. São
Paulo: Autores Associados/Cortez, 1989.

GRISI, B. M. Glossário de ecologia. João Pessoa: Editora da UFPB, 2001.

GUATTARI, F. As três ecologias. 20ª ed. Trad. Maria Cristina F. Bittencourt. Campinas:
Papirus, 2009.

JABBOUR, C. J. C. Tecnologias ambientais: em busca de um significado. Revista de


Administração Pública – RAP, Rio de Janeiro, v. 44(3), p. 591-611, maio/jun. 2010.

JAPIASSU, H. Introdução ao pensamento epistemológico. 6ª ed. Rio de Janeiro: Francisco


Alves, 1991.

MORIN, E. A cabeça bem-feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. Rio de


Janeiro: Bertrand Brasil, 2010.

NASCIMENTO, G. C. C. Mestre dos mares: o saber do território, o território do saber na


pesca artesanal. In: CANANÉA, F. A. Sentidos de leitura: sociedade e educação. João
Pessoa: Imprell, 2013, p. 57-68.

SISTO, C. O conto popular africano: a oralidade que atravessa o tempo, atravessa o


mundo, atravessa o homem. Revista Tabuleiro de Letras, Uneb, Salvador, n° especial,
dez. 2010. Disponível em:

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http://www.tabuleirodeletras.uneb.br/secun/numero_especial/pdf/artigo_nespecial_01.pdf.
Acesso em 05 dez. 2012.

VASCONCELLOS, M. J. E. Pensamento sistêmico: o novo paradigma da ciência. Campinas:


Papirus, 2010.

Publicado em 18 de fevereiro de 2014

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