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EMMI PIKLER

Fundação Pública Internacional

(Pikler Institute)
Foster Home
Treinamento e Centro de Pesquisa

Com relação ao bebê:

Conceitos de cuidados paternais e maternais de Emmi Pikler


(Respecting baby: Emmi Pikler’s parenting Concepts - Por Ruth Mason1, Estados Unidos e Hungria)

Quando a pediatra Emmi Pikler inaugurou um instituto para órfãos há cinqüenta e dois anos em sua
cidade natal, Budapeste, ela enfrentou um dilema endêmico nesse tipo de instituição: como pode um grupo de
crianças receber atenção individualizada com um número limitado de cuidadores?

A solução de Pikler foi no sentido de as crianças brincarem sem o auxílio de adultos. Isso a levou a
criar um conceito de cuidados maternais e paternais ensinado até os dias de hoje ao redor do mundo, catorze anos
após a sua morte. A partir da infância, bebês em seu Instituto Nacional Metodológico para Cuidado de Crianças e
Educação (National Methodological Institute for Infat Care and Education), também chamado de Loczy, são
ensinados a participar ativamente em sua própria vestimenta, alimentação e higiene. Por outro lado, muitas
habilidades ensinadas em outros lugares são especificamente não ensinadas aqui, e, mais importante, bebês jamais
são colocados numa posição na qual eles não possam se dedicar a si mesmos. Eles não são escorados em qualquer
lugar para que possam sentar, tampouco têm suas mãos sendo seguradas por alguém para que possam caminhar,
por exemplo.

1
Ruth Mason é jornalista e escreve sobre cuidados paternais e maternais para várias publicações.
1
“Por uma questão de princípio, nos abstemos de ensinar habilidades e atividades em que, sob
condições apropriadas, envolverão a própria iniciativa da criança e a sua atividade independente”, escreveu Pikler,
em seu livro “O que o seu bebê já consegue fazer?” (What can your baby do already?), publicado na Hungria em
1940. O livro também foi traduzido para o alemão e parcialmente traduzido para o Inglês no boletim de inverno
das Fundações de Atenção Sensorial, em 1994.

Ela complementa: “Enquanto aprende a contorcer o abdômen, rolar, rastejar, sentar, ficar de pé e andar,
(o bebê) não apenas está aprendendo aqueles movimentos como também o seu modo de aprendizado. Ele aprende
a fazer algo por si próprio, aprende a ser interessado, a tentar, a experimentar. Ele aprende a superar dificuldades.
Ele passa a conhecer a alegria e a satisfação derivadas desse sucesso, o resultado de sua paciência e persistência.”

Em suma, Pikler tinha uma ideia revolucionária de que bebês – ainda que recém nascidos – são
indivíduos competentes com seu cronograma próprio, e devem ser tratados com respeito.

Tal respeito pode ser tratado de forma ampla. Um estudo de 1972 da Organização Mundial de Saúde
(World Health Organization) revelou que bebês criados sem os pais no Instituto Pikler atingiram pontuações tão
altas quanto aqueles educados em casa em escalas sociais, profissionais e de ajuste emocional.

Se o método Pikler deu tamanho impulso a bebês órfãos, é razoável que represente um benefício
enorme àqueles criados em casa por pais amorosos. Um dos assistidos de Pikler, a húngara Magda Gerber,
transformou o seu trabalho e o tornou acessível para pais. Sua instituição Recursos para Educadores de Crianças
(Resources for Infant Educators), a RIE, oferece a pais e professores aulas baseadas no método Pikler.

O fundamento para transformar em ação quaisquer das idéias de Pikler e Gerber é uma relação de
amor calorosa entre pais (ou qualquer outro cuidador) e criança. Desde que os bebês experienciem o amor
daquele(s) que cuida(m) no período que passam cuidando deles, Gerber sugere que os pais utilizem seu tempo para
atividades como trocas de fralda, alimentação, banhos e vestimenta, sem pressa e com um aproveitamento
prazeroso do tempo, com o bebê sendo um participante ativo. Com o seu “currículo” pronto, os bebês, em
condições de segurança e liberdade, utilizarão seu tempo adquirindo conhecimento exatamente sobre aquilo que
precisam para que estejam aprendendo em qualquer circunstância dada a eles.

“Quando você aborda seu bebê com uma atitude de respeito, você diz a ele qual a sua intenção e dá a
ele a chance de responder”, diz Gerber. “Você compreende que ele é competente e o envolve em seu cuidado,
deixando-o, na medida do possível, resolver seus próprios problemas. Você dá a ele plena liberdade física e não
força qualquer desenvolvimento”.

E diz ainda, “Pais acreditam tratar seus bebês com respeito. Mas se você assistir os bem intencionados
adultos amorosos, verá que com freqüência eles interrompem as brincadeiras de seus bebês sem sequer pensar que
o estão fazendo, tratando-os de uma forma que, em outras circunstâncias, dificilmente seriam qualificadas como
respeitosas.”

Reconhecer e respeitar a competência de nossos bebês também liberta os pais. Gerber acredita
firmemente que pais não precisam entreter seus bebês porque, dando a eles um ambiente de estimulação e
liberdade para explorar, eles são extremamente capazes de entreter a si mesmos.

Considere o caso de Sean, um participante de dez meses de vida do RIE, e sua mãe, Janey:

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Enquanto Janey e as outras mães e pais sentavam-se de pernas cruzadas apoiados na
parede de uma sala ampla, Sean e seis outros bebês com a mesma média de idade e fase
de desenvolvimento brincavam no chão carpetado. Sean e seus amigos exploram: alguns
rolando com uma garrafa PET de refrigerante vazia ou com pequenas bolas em suas
mãos; alguns deitando com a barriga para cima e brincando com seus dedos dos pés;
alguns sentando e colocando mordedores na boca. Alguns já estão se rastejando ao redor
da sala. Uma garotinha está se divertindo bastante subindo e descendo a estrutura de três
degraus, feita para ser escalada. Os pais olham como se estivessem apenas ali sentados,
mas na verdade estão praticando a arte da observação.

Repentinamente, Sean começa a chorar. Ele havia se direcionado a um lugar bastante


apertado sob a estrutura de três degraus e não conseguia sair. Janey esteve no RIE tempo
suficiente para controlar seu impulso de resgatá-lo. Ao invés disso, ela se aproxima de
Sean e se agacha, numa posição de quatro apoios, fazendo com que seu rosto fique
próximo ao seu bebê. “Eu posso ver que você está preso e está tentando descobrir como
sair”, ela diz. Ela fica próxima a ele e, após mais algumas tentativas acompanhadas de
choro, Sean consegue fazer uma manobra e se livrar. Ele então se senta sobre sua perna
esquerda, e olha alegremente para sua mãe.

O que tudo isto significa para você e para seu bebê? Quando quiser trocar uma fralda, vesti-lo ou
alimentá-lo, primeiro dê uma olhada para verificar o que o seu bebê está fazendo. Se ele estiver imerso numa
atividade e você tiver tempo, tente não interrompê-lo. Procure o momento certo para que você interfira. Diga algo
como “Eu quero mudar sua fralda agora”, e estenda seus braços em sua direção. Espere uma resposta. Seu bebê
deverá olhar para você ou ir em direção aos seus braços. Se sua requisição for ignorada e você tiver tempo, você
pode dizer algo semelhante a “Vejo que você ainda quer brincar” e espere mais alguns minutos antes de tentar
novamente. Se você não tiver tempo, ainda pode reconhecer que seu bebê preferia continuar brincando, mas que
precisa trocar suas fraldas agora, e então comece a fazê-lo. Ainda que seu ele seja muito pequeno para
compreender tais palavras, o tom de sua voz será associado aos seus gestos.

Assim que estiver na mesinha de troca, não distraia seu bebê com um chocalho, por exemplo. Ao invés
disso, tente olhar nos olhos dele mantendo contato e explique, passo a passo, o que você está fazendo, e peça
ajuda: “Estou colocando você na mesinha de troca de fraldas. Agora, eu vou tirar a sua calça – você consegue tirar
seu pé? Obrigada.” Ou: “Eu vou tirar a sua fralda suja agora. Por favor, levante seus quadris.”

Após alguns anos de esforço paciente, a proposta do RIE está agora sendo reconhecida nos Estados
Unidos. A Associação Nacional para a Educação de Jovens Crianças (National Association for the Education of
Young Children), NAEYC, e a Zero a Três (Zero to Three), Centro Nacional para Programas de Crianças em
Tratamento Clínico (National Center for Clinical Infant Programs), incorporaram recentemente as idéias básicas
do RIE às suas recomendações de cuidados infantis.

“A ênfase de Gerber na necessidade de entender e conhecer os bebês como pessoas tem tido uma
influência muito grande em nossos artigos sobre cuidados infantis e a forma como os adultos de fato cuidam das
crianças nos Estados Unidos.”, afirma Sue Bredekamp, diretora do Desenvolvimento Profissional da NAEYC.
“Nós concordamos com ela na questão da importância de se prestar atenção nas pistas e mensagens de um bebê, ao
invés de impormos a ele os nossos cronogramas. Por exemplo, Gerber acredita que, quando um bebê chora, no
lugar de um adulto decidir o que é errado e responder imediatamente, ele deveria aguardar um momento, para ver

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como o bebê reagiria. Ele se sente confortável? Ele consegue encontrar uma solução? Essas são diretrizes
excelentes para os pais.”

Após muita discussão, a NAEYC muito provavelmente incluirá uma recomendação surpreendente de
Gerber em suas normas de procedimento: que os bebês não deveriam olhar para o espelho até a fase em que eles
estão começando a andar. “Bebês são fascinados por feições.” afirma Bredekamp. “Eles vêem sua imagem no
espelho e, ao tentar alcançá-la para tocar a face, acabam tocando algo que é na verdade duro e frio. Gerber crê que
isso seja confuso.”

Essa mudança de diretrizes nacionais, que agora refletem as idéias do RIE, se devem em parte ao fato
de que “as pesquisas estão indo ao encontro do que diz Gerber”, de acordo com Peter Mangione, co-criador do
programa de cuidadores de crianças de até três anos, um projeto colaborativo do Laboratório WestEd/Far West e
do Departamento de Educação e Divisão de Desenvolvimento Infantil da Califórnia.

“Durante anos, as pessoas da área estavam forçando a interação face-a-face com crianças”, diz
Mangione. “Gerber era em favor de desacelerar esse processo e de dar ao bebê um espaço maior. Com o passar do
tempo, os pesquisadores começaram a dar destaque a ela. Eles perceberam que o importante era dar à criança o
controle da interação, em vez de muita estimulação. Pesquisadores começaram a perceber as atividades auto-
regulatórias dos bebês e a dar a elas mais peso.”

A já tão amplamente aceita noção de que os pais devem estimular e ensinar seus bebês, uma prática
que disputa com o pensamento de Gerber, também foi questionada em pesquisas recentes. “Vinte anos atrás, se
você fosse a uma sessão de cognição infantil, você veria muita ênfase na importância dos adultos estimularem
crianças”, afirma Mangione. “Agora, a ênfase é no que as crianças fazem e na parceria participativa entre crianças
e adultos. Isto é algo que Gerber salientou durante anos.”

Existe um filme
(There is a film - Por László Jakab Orsós2)

Eu assisti a um filme. Não há nada de incomum sobre ele. Eu com frequência assisto a filmes e
geralmente fico pensando a causa de todo esse rebuliço. Por várias vezes, sinto-me desapontado e com raiva, e
quase sempre deprimido. Há poucas coisas no mundo que fazem alguém se sentir tão vazio de coração como um
trabalho sem sucesso, desproporcional e superficial. Felizmente, nós todos nos lembramos de alguns filmes que
nos ajudam e nos fazem amar a vida. Porém, todos sabemos, são muito poucos. Eu assisti a um deles agora. Eu
tenho mais um daqueles filmes. É um prazer íntimo, que eu gostaria de dividir com você, porque este não é um
filme mostrado em cinemas ou na televisão, devido à proteção dos direitos das crianças que nele aparecem. É um
caso singular, mas não por conta de sua acessibilidade. Ele é um filme perturbador, inquietante, inspirador, que
suscita perguntas, que gera o amor pela vida e, acredite ou não, o amor pela arte.

Esse documentário de três horas de duração sobre o famoso Instituto Pikler em Budapeste, ou, como é
usualmente chamado, sobre o Lóczy, é o resultado de quatro anos de trabalho. Foi feito por Bernard Martino, um
diretor francês de documentários, e Katalin Pázmándy, redatora. Seu título em francês é “Lóczy, une Maison pour
Grandir”.

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Em Népszabadság, 19 de fevereiro de 2000.
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Bernard Martino criou um trabalho exemplar em diversos sentidos. Primeiramente, pela sua tratativa
com relação a um tópico tão problemático e arriscado. Fazer um filme sobre um instituto que cuida de órfãos, de
abandonados e de crianças sem um lar não é uma tarefa fácil. Bernard Martino teve de ir contra uma inundação de
lugares comuns, sensações, sentimentalismo, lágrimas e emoções hipócritas para encontrar praticamente a única
linguagem pela qual alguém pode falar sobre o assunto. Sua abordagem não é sem comprometimento, como
alguém poderia pensar; ela regula de forma rítmica o fluxo da emoção. Como se Bernard Martino tivesse
transmitido a metodologia dos fantásticos especialistas do Lóczy.

Neste instituto, as crianças são cuidadas de acordo com um plano estritamente organizado, de um
modo que nenhuma falsa emoção, que faria do processo de adoção algo muito mais difícil mais tarde, seja nelas
evocada. Cada criança experiencia amor, atenção e respeito verdadeiro neste instituto, sem ser dada a elas,
contudo, a falsa impressão de que lá é o seu lar. Espere um pouco, agüente de algum modo, confie em mim, eu vou
ajudá-lo, você muito em breve terá uma família. Você então poderá começar a amar a mulher que será a sua mãe,
mas a que você vê aqui não é a sua mãe, meu bem. O olhar da enfermeira insinua algo similar ao olhar apertado da
criança enquanto a alimenta, a acaricia e a põe para dormir. De uma forma amável e natural, uma emoção começa
a se desenvolver a partir dos instintos, até um ponto em que para e se fecha. Porque a realidade a força a agir
assim. Eu a amo, mas não posso ser sua mãe. Eu sou sua cuidadora, estou apenas protegendo-a por uns tempos, e
então eu a deixarei seguir seu próprio caminho. Você, com apenas um mês, tem de aprender isso, que a vida é
assim. A sua seguiu um pouco na contra-mão, mas prometo que nós vamos colocá-la em ordem, não se
preocupe.Todos nesse filme lutam numa dura batalha: a enfermeira, o médico, o psicólogo, a criança, o diretor e o
público como eles.

Quem quer que seja afortunado o bastante para assistir ao filme pode pensar em vida. Sob o pretexto
de um berçário, nós nos descobrimos confrontando as mais básicas noções. A vida não é boa ou ruim, ela não pode
ser qualificada. Ela é meramente de uma densidade impressionante, algumas vezes nos fazendo suportar uma dor
intolerável e outras, bradar de felicidade. Por vezes nós queremos morrer, e em alguns momentos queremos viver
para sempre.

Aí está este pulsante documentário, que segue essa batalha conhecida por todos nós como tão
engenhosa, tão humilde e tão simples como se não fosse sequer um filme, mas uma formação natural a qual todos
apenas olhamos atentamente, fitando o ar, e não percebendo o quanto aprendemos a partir de sua simples
existência. Apesar de ser tão somente um filme. É um filme sobre o qual eu quis escrever. Eu quis deixar todos
saberem que há um filme, ele existe, há um outro bom filme no mundo, que provavelmente será exibido um dia –
quando as crianças tiverem crescido.

Entrevista com Bernard Martino


1. Como você teve a idéia de produzir este filme?
Tudo começou com o filme que fiz em 1983 intitulado “O bebê é uma pessoa” (“The baby is a
person”). Eu estive procurando por um lugar na Europa Oriental em que a idéia de que o bebê era uma
pessoa fosse posta em prática. Eu queria filmar um outro lugar que não os Estados Unidos.

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Eu tinha ouvido acerca do instituto denominado Lóczy e li o livro “Lóczy – Uma forma
incomum de maternidade” (“Lóczy – An unusual kind of mothering”), de Geneviève Appell e Myriam
David.
Fui ao Lóczy, onde experienciei de fato que “um bebê é uma pessoa”, e não apenas um slogan.
São tomados cuidados constantes para assegurar que uma pessoa saiba exatamente o que fazer e o que não
fazer com as crianças.
Então um dia ouvi que o futuro d Lóczy era arriscado. Fechar o Lóczy seria desastroso,
comparável ao fechamento de uma biblioteca alexandrina da primeira infância. Cinquenta anos de
experiência e reflexão. Quase um código de relacionamento elaborado cientificamente. Eu queria que esse
filme desse o testemunho deste laboratório, deste lugar de pesquisa, desse profundo lugar humano.

2. Você fez outros filmes sobre bebês e jovens crianças. O que é que o fascina acerca do mundo das
crianças?
Eu suspeito que haja algo levemente neurótico em meu interesse no mundo das crianças. Eu
perdi minha mãe quando tinha três anos de idade. Eu creio que quando falo de crianças, volto ao tempo em
que minha mãe ainda era viva. Em sentido amplo, quando faço filmes sobre infância é a minha infância
que estou recriando, rearrumando, colocando na tela.
Mas agora eu sinto que devo fechar este capítulo e enviar a mim mesmo para o mundo dos
adultos. Este filme deixou isso bem claro para mim.

3. O que você acha tão incomum acerca do Lóczy?


É um daqueles raros lugares em que crianças recebem a ajuda que precisam para que se formem.
Lóczy possui sua própria e única cultura: em apenas um ou dois anos uma enfermeira aprende mais do que
em dez ou quinze anos em qualquer outro lugar. Judit Falk, a diretora de formação do Lóczy uma vez disse,
“Se temos uma pergunta a qual não podemos responder, as paredes do Instituto nos dirão”.
Em lares institucionais para crianças, o escritório do diretor geralmente é imenso, enquanto que
os banheiros das crianças é mínimo. No Lóczy é exatamente o oposto. O escritório da direção foi um
closet, sendo do tamanho de um. Este fato fala por si só.

4. Você pode dizer algumas palavras acerca da abordagem desse filme?


Minha abordagem consistiu em mim sendo invisível. Nenhuma virtuosidade sequer. Pelo
contrário, eu quis investir em coisas simples e banais com significado. Uma criança na banheira, um
menininho andando pelo corredor... Para parar e dar ênfase aos pequenos “nadas” que escapam dos olhares
adultos.

5. Este filme é significativo para você?


Eu creio que a questão do respeito mostrada para uma criança é fundamental. Uma criança que é
tratada com respeito tem algo que outras crianças não possuem.
Deve-se observar o quão delicadamente as crianças no Lóczy se tocam entre si ou manuseiam
um objeto. Imediatamente vem à mente a idéia de “civilização”. Quando eu estava filmando essas crianças
com suas enfermeiras, Bosnia e Kosovo, que estão a penas algumas centenas de quilômetros de Budapeste,
estavam constantemente em meus pensamentos. Para mim não há dúvidas que crianças criadas desta forma
jamais se tornarão estupradores ou assassinos.

6. E isso significa que respeito pode ser mais importante que amor?
Claro que não. Se você me permitir, poderíamos dizer que 95%, talvez 98% de nós fomos
amados por nossos pais. Mas quantos de nós experimentaram o respeito verdadeiro?
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Quando você conhece as crianças do Lóczy, você percebe que eles conheceram o respeito. Amor
é sem dúvida um instinto, ao passo que o respeito tem de ser aprendido. Se você gostaria que o século 21
fosse diferente do último, se nós quisermos mais humanidade, nós teremos de lidar com a
questão/necessidade de demonstrar respeito pelas crianças.

7. O seu filme oferece promessas para o futuro?


Eu sou basicamente um otimista. Eu acredito em progresso mesmo que o mundo pareça
retroceder. Nós temos uma declaração dos direitos das crianças. Estamos lutando contra o abuso infantil.
Este filme foi financiado pelo Ministério do Trabalho e da Solidariedade. Por quê? Porque eles
querem ir além de simplesmente denunciar o abuso infantil e trabalhar coletivamente no avanço positivado
do “bom tratamento” das crianças. Nosso filme está servindo ao mesmo objetivo. Eu me permito pensar
que devo ter criado uma ferramenta para esse propósito.

8. Você parece ter grande satisfação por este filme.


De um ponto de vista profissional, esse filme foi uma fonte de grande satisfação. Diferentemente de meus
outros filmes, ninguém o patrocinou. Ele é um órfão, algo como as crianças no Lóczy.
Algo estranho está acontecendo. Não apenas este filme de fato existe como ele está traçando seu próprio
caminho. Ele será mostrado por Arte e talvez seja exibido nos cinemas. Muitos daqueles que assistiram ao
filme foram profundamente mexidos por ele. Este filme, que foi um órfão, já encontrou muitos pais.

O Instituto Pikler:

Uma abordagem única ao cuidado de crianças


(The Pikler Institute: A unique approach to caring for children - Por Janet Gonzalez-Mena, Elsa Chahin e Laura Briley3)

O Instituto Pikler é um berçário residencial (anteriormente denominado orfanato) localizado em


Budapeste, Hungria. Crianças de até três anos de idade são cuidadas no Instituto 24 horas por dia, 7 dias por
semana. Este programa singular opera desde 1946. O final da Segunda Guerra Mundial trouxe a necessidade de
um alojamento para um grande número de crianças que foram deixadas sem família. O governo húngaro buscou a
Dra. Emmi Pikler, uma bem conceituada e respeitada pediatra de família, e pediu a ela que criasse um programa
3
Janet Gonzalez-Mena está na Faculdade de Treinamento dos Institutos de Educadores do Programa WestEd para Crianças de até Três
Anos (WestEd’s Program for Infant-Toddler – PITC – Training of Trainer Institutes). Ela é co-autora de “Infantes, Crianças de Até Três Anos
e Cuidadores” (“Infants, Toddlers ans Caregivers”) e escreveu “Mamãe Severa” (Dragon Mom). Janet é mestre pela Pacific Oaks College,
foi aluna de Magda Gerber e é membro associada da Recursos para Educadores de Crianças (RIE).

Elsa Chahin nasceu no México e foi criada tanto lá quanto nos Estados Unidos da América. Ela é membro associado da RIE e graduada
pelo Programa para Crianças de até Três Anos (Program for Infant-Toddler). Sendo certificada como intérprete/tradutora, Elsa colaborou
com a tradução para o espanhol do livro de Magda Gerber “O seu bebê autoconfiante” (“ Your Self-Confident Baby”) e o vídeo “Veja
Como Eles se Movem” (“See How They Move”).

Laura Briley é Presidente-proprietária da Day Schools Inc. Ela atua na área da primeira infância desde 1976. Atualmente, opera quatro
NAEYC – Centros de Desenvolvimento Infantil reconhecidos oficialmente – em Tulsa, Oklahoma. Ela trabalhou na Romênia de 1990 a
1995, estabelecendo uma pré-escola no Orfanato Número 5 e um jardim de infância num programa de estado em Bucharest. Laura é
fundadora e presidente do fundo Pikler/Lóczy nos Estados Unidos, do qual Janet e Elsa são membros do conselho.

Todas as autoras foram monitoras no Instituto Pikler, bem como freqüentaram inúmeros de seus treinamentos. Elas foram responsáveis
pela organização de uma recente visita acadêmica a Budapeste por sessenta participantes, a fim de que estudassem a Abordagem de
Pikler.
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para cuidar dessas crianças. O governo deu a ela uma grande casa no distrito Castle, em Budapeste. Ela aceitou o
desafio e iniciou um trabalho perpétuo de cuidados a crianças até sua morte, em 1984.

O Instituto e a pesquisa que foram as marcas registradas de Pikler continuam até hoje sob a direção de
Anna Tardos, psicóloga e filha de Emmi Pikler. Também foi dada continuidade ao treinamento de profissionais e,
claro, ao cuidado de crianças, que não mais são órfãs de guerra, mas órfãs sociais. Seus pais ainda estão vivos,
porém suas famílias as abandonaram ou não possuem condições para sustentá-las. O Instituto Pikler é um modelo
universal e mostrou que crianças que vivem em instituições podem crescer como adultos produtivos e bem
sucedidos.

Elementos da abordagem Pikler

Três elementos principais constituem a abordagem Pikler (Pikler Approach): liberdade de movimento,
brincadeiras espontâneas e rotinas de cuidados. Então o que faz a abordagem Pikler diferente das demais?

O início de uma resposta está no fato de que a abordagem Pikler inclui treinamento intensivo e
assistência aos enfermeiros, uma ênfase na observação, manutenção de registros e pesquisa, bem como meios
específicos nos quais cada um desses elementos é executado.

Liberdade de movimento

Vamos iniciar com o que provavelmente se trata do aspecto mais incomum da abordagem – liberdade
de movimento. Liberdade de movimento é um alicerce fundamental do resultado de sucesso duradouro das
crianças do instituto, como documentado pela Organização Mundial de Saúde (World Health Organization).
Liberdade de movimento significa que as crianças jamais são posicionadas de modo que elas não possam se
dedicar a si mesmas. Elas nunca são escoradas numa posição na qual fiquem sentadas ou seguradas de modo a
ficarem de pé. Elas não são colocadas em dispositivos restritivos, como cadeirinhas infantis, saltadores ou
andadores. Elas são deitadas de barriga para cima, acordadas ou dormindo, até que sejam capazes de rolar por si
próprias. A regra é: nenhuma interferência de adultos nos movimentos das crianças.

Emmi Pikler pesquisou ininterruptamente o conceito de liberdade de movimento nos anos de 1930
com as famílias para as quais trabalhava como pediatra. Quando ela fundou o Instituto Pikler, ela treinou
cuidadores (chamados de enfermeiros, apesar de não possuírem conhecimentos médicos) para que não
interrompessem a liberdade de movimento da criança. Ela continuou a pesquisar o desenvolvimento do infante –
pesquisa ainda em continuidade atualmente.

Permitir que as crianças se movam de forma livre em sua infância resulta numa notável competência
em equilíbrio, coordenação e tomada de riscos calculados. Qualquer pessoa que tenha visto crianças no Instituto
Pikler – seja pessoalmente ou por meio de vídeos – ficou impressionada com a facilidade e confiança com que elas
mexem seus corpos. Os antigos filmes em preto e branco do Instituto Pikler mostram crianças de até três anos
descendo íngremes degraus de pedra com toda a confiança do mundo. Elas sabem como lidar com seus corpos,
possuem equilíbrio impressionante, e sua consciência corporal está muito acima da média. O Instituto tem um
nível baixíssimo de registros de acidentes.

Há sessenta anos, ninguém falava sobre “De costas para dormir” (“Back to sleep”), mas Pikler o fazia
– de costas para dormir e para brincar, também. É notável que nunca tenha havido qualquer incidente de SIDS –

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Síndrome de Morte Infantil Repentina (Sudden Infant Death Syndrome) no Instituto Pikler. Atualmente, bebês nos
Estados Unidos são em sua maioria postos para dormir de barriga para cima, sobre suas costas, e como resultado
há um forte movimento para ensinar aos pais e cuidadores a virarem as crianças quando elas estão acordadas. Os
defensores da “hora da barriguinha” (“tummy time”) alertam veementemente sobre questões como
desenvolvimento comprometido e cabeças que podem sofrer deformidades. Interessante como nenhum desses
problemas tenha sido constatado no Instituto Pikler, apesar de os bebês jamais serem postos sobre suas
barriguinhas até que eles possam se virar sozinhos.

Liberdade de movimento não somente resulta num excelente desenvolvimento motor geral como
também num forte senso de competência em cada bebê que descobre que pode aprender por si próprio, sem a
necessidade da ajuda de um adulto. Segurança emocional e auto-confiança são o resultado. Quando se observa,
verifica-se o quão vivas, exploradoras e, em muitos sentidos, o quão auto-suficientes são as crianças, mesmo que
tão jovens. Ainda, elas também se dão bem entre si de forma notável.

Brincadeiras espontâneas

Liberdade de movimento também facilita o desenvolvimento de habilidades motoras finas. No


Instituto Pikler, bebês têm sido observados durante os últimos sessenta anos. Como resultado, uma grande
quantidade de conceitos foi introduzida nos materiais simples utilizados para brincar que lhes são oferecidos,
brinquedos que respondem exatamente do modo que as crianças precisam a cada estágio. Como os bebês estão
apoiados sobre suas costas, eles têm disponibilidade integral de suas mãos e braços e podem explorar livremente
tudo aquilo que encontram. Os primeiros materiais para brincar são simples lenços de algodão que os bebês podem
pegar, segurar, abanar e manipular. Os lenços são introduzidos aos dois meses de idade; antes dessa fase, suas
próprias mãos atraem sua curiosidade e representam sua primeira experiência de descoberta.

No lugar de brinquedos dependurados sobre os rostos das crianças ou móbiles suspensos sobre elas,
crianças têm uma variedade apropriada de objetos que elas podem apertar, segurar, colocar na boca, bater e
derrubar. Apenas olhar para objetos reluzentes e coloridos e tentar acertá-los é uma experiência limitada e cria
frustração. É muito mais interessante manipular um objeto – virando-o para ver todos os lados. Esta é a forma pela
qual eles aprendem todas as suas propriedades.

Uma criança que vem de uma situação difícil pode encontrar tranqüilidade num objeto previsível.
Enquanto a criança brinca, ela é capaz de crer na consistência dos objetos, quando ela aprende que um cubo é
sempre um cubo. De acordo com a Dra. Gabriella Puspoky, uma pediatra do Instituto Pikler, crianças podem
superar uma crise se elas têm alguém em quem se apoiar, bem como objetos e atividades iniciadas pela sua
iniciativa própria e que as interesse.

Iniciativa própria é uma expressão chave utilizada no Instituto Pikler. Adultos não entretêm ou
estimulam crianças. Os bebês aprendem a entreter e estimular a si próprios, explorando o que os seus corpos
podem fazer, explorando os outros bebês ao seu redor, e também o próprio ambiente em que estão imersos. Isso é
muito diferente de uma situação de cuidados em grupo em que alguém decide que um bebê irrequieto está
entediado e se propõe a prover a ele um pouco de entretenimento ou estimulação – seja com um brinquedo ou com
algum tipo de atividade. Os bebês do Instituto Pikler têm uma abundância de atividades, mas a maioria deles as
criam por conta própria com os materiais disponíveis a eles.

A razão para esta interação mínima de adultos durante as brincadeiras espontâneas, de acordo com
Anna Tardos, se dá porque a interação do adulto durante a brincadeira jamais terá a mesma continuidade, o que

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impede a característica da previsibilidade. Crianças não apenas se sentem seguras quando elas podem prever o que
vai acontecer como também passam a antecipar o próximo movimento dos enfermeiros, podendo assim cooperar
com eles. Rotinas de cuidados feitas deste modo particular são o que permite que a criança desenvolva uma auto-
estima saudável. Ela sabe o que acontecerá; ela tem um senso de ordem em sua vida.

Rotinas de cuidados

Atividades com liberdade de movimento e iniciativa própria não seriam possíveis não fossem todas as
importantes rotinhas de cuidados adotadas pelos enfermeiros das crianças, que são bem treinados para cuidar delas
de forma específica e efetiva. Fortes relações são construídas entre a criança e seu enfermeiro, o que leva à
confiança. Crianças aprendem que suas necessidades serão atendidas, mesmo que elas tenham de esperar enquanto
o cuidador está com outra criança. Elas sabem que, quando sua vez chegar, o enfermeiro lhes dará uma cuidadosa
atenção pessoal e cuidará de cada uma delas sem qualquer pressa.

Um sistema primário de cuidados assegura que cada criança tenha uma relação particularmente
próxima com um cuidador, apesar de os demais cuidadores também serem importantes, tanto individualmente
quanto para o grupo. A idéia de Pikler era focar nas interações adulto/criança nos momentos em que as crianças
tinham de ser dependentes do adulto e construir um senso de confiança que desse a elas a segurança de se
relacionar sem a presença de adultos em outros momentos – momentos em que elas seriam livres para explorar e
interagir com materiais e entre si. Liberdade de movimento e brincadeiras não interrompidas andam de mãos dadas
com a atenção focada e as calorosas interações durante os momentos em que elas são cuidadas. Não se pode ter
uma sem que haja a outra.

Treinamento do cuidador

Então, como tudo isso acontece? Como pode ser criado um equilíbrio para que a criança esteja livre
para se mover e desenvolver seu próprio ritmo, ao mesmo tempo em que é cuidada em meio a tantos detalhes? A
chave está no cuidado e na atenção dados ao treinamento dos cuidadores. Entre outras coisas, o treinamento dos
cuidadores inclui aprender:

a) Que cada criança precisa de cuidado contínuo de um adulto, de um modo que este cuidado seja
pessoal e consistente. Isso significa que os cuidadores devem ficar com o mesmo grupo de crianças
no decorrer do tempo;

b) A ver cada criança como competente de acordo com o seu estágio de desenvolvimento. Os
enfermeiros nunca pedem às crianças que façam mais do que elas já podem fazer;

c) A dar escolhas simples desde a mais tenra idade. Por exemplo, um cuidador mostra a uma criança
de oito meses dois pijamas e aguarda para ver a qual dos dois ela aponta;

d) A tocar as crianças suavemente. O toque suave e bondoso de um enfermeiro diz à criança que ela é
importante e que está segura. Essas mãos então se tornam algo em que pode se apoiar e podem
afetar uma criança de maneira positiva;

e) A permitir que cada criança experiencie atividades de iniciativa própria que ela aprecie;

f) A permitir que as crianças brinquem de forma ininterrupta. Os enfermeiros estão à disposição para
quando as crianças precisarem deles, pois elas não podem se sentir abandonadas sob quaisquer

10
circunstâncias. Se um cuidador num momento particular não puder tomar conta de uma criança
porque está no banho, comendo ou trocando a fralda de uma outra criança, ele assegurará com seu
tom de voz suave que a escuta, e que estará com ela assim que tiver concluído a outra atividade.

Aos cuidadores é dado todo o treinamento, e então eles passam a assumir o controle, resultando em
autenticidade. Seus sentimentos pelas crianças são genuínos, e um laço saudável se fortalece à medida que adultos
e crianças se tornam parceiros. A qualidade do relacionamento é cuidadosamente desenhada para que esses laços
sejam seguros, mas não tão fortes que não permitam que as crianças deixem seus enfermeiros para que possam ser
adotados ou para que voltem às suas famílias. A idéia é dar às crianças um relacionamento especial no Instituto
que as permita criar facilmente novos laços com o adulto que passará a cuidar delas, seja em sua família original
ou em um lar totalmente novo. Seus cérebros foram preparados para confiar; elas já chegaram num ponto em que
confiam em si mesmas. E este é o melhor presente que uma criança pode se dar.

Workshop para Treinamento de Professores: Utilizando Princípios

Considere as possibilidades: Explore formas de aplicar os conceitos de liberdade de movimento


nas salas de aula de crianças de até três anos.

Recursos de iniciativa própria: faça um trabalho de campo numa sala de aula de crianças de até
três anos e separe brinquedos e materiais em dois grupos – aqueles que são auto-estimulantes ou
aqueles que são estimulantes através da ação de adultos. Remova o segundo grupo de brinquedos
e observe o que acontece. Peça aos professores para refletir o experimento e compartilhe as
experiências em algum artigo em publicações para bebês e suas famílias.

Mais um argumento de defesa do ensino primário: Apesar de amplamente recomendado como


aspecto crucial de programas de alta qualidade, educação primária não é predominante nos
Estados Unidos como é em outras partes do mundo. Reúna os funcionários para discutirem e
considerarem estratégias de implementar esse importante aspecto em seu programa.

*Para mais informações, contate o Fundo Pikler/Lóczy nos Estados Unidos: www.pikler.org.

Instituto Pikler
(Pikler Institute)

Emmi Pikler fundou o lar para crianças em 1946 – após dez anos de prática como pediatra – na rua
Lóczy Lajos, em Budapeste. Em circunstâncias institucionais, ela pôs em prática seus princípios educacionais
baseados na experiência que ganhou com famílias. Como resultado, ela conduziu o planejamento do alicerce
fundamental do desenvolvimento de uma personalidade saudável em uma instituição – devido ao bom cuidador –
de relacionamento infantil e de atividade livre das crianças – e evitou o resultado danoso conhecido como
hospitalismo. Mais tarde, um estudo aplicado amparado pela Organização Mundial de Saúde (World Health
Organization) confirmou.a idéia.

11
O Instituto se tornou um Lar Infantil Metodológico (Methodological Infants’Home) em 1961 e
Instituto Educacional Metodológico para Desenvolvimento e Cuidado de Crianças e Primeira Infância
(Methodological Educational Institute for Infant and Early Childhood Development and Care) do Ministério da
Saúde em 1964. Em 1970, o Ministério incumbiu o Instituto da supervisão profissional dos lares para crianças na
Hungria, e consequentemente seu nome mudou para Instituto Metodológico Nacional de Lares Infantis (National
Methodological Institute of Infants’Homes). Em 1986, o Instituto assumiu o nome de Emmi Pikler. Desde 1998 o
instituto tem sido coordenado pela Fundação Internacional Pública Emmi Pikler (International Emmi Pikler
Public Foundation). Apesar das mudanças freqüentes de nosso nome oficial, nós temos sido conhecidos da
maioria das pessoas como “Lóczy”, tanto na Hungria como internacionalmente.

A reputação internacional foi fundada em especial pelo livro de dois psicólogos e psiquiatras infantis
franceses (M. David – G. Apell: Lóczy ou Le maternage insolite, 1973) que desde então foi traduzido para diversos
idiomas (Em inglês: An unusual approach to mothering. Budapest. Pikler-Lóczy Társaság, 2001 – Uma
abordagem incomum da maternidade. Budapeste. Pikler-Lóczy, Társaság). Durante várias décadas, inúmeros
profissionais oriundos da Europa Ocidental, América do Norte e América do Sul visitaram o Instituto Pikler.

Recentemente, o Instituto Pikler tem novamente se voltado ao cuidado de famílias, além de manter o
lar para crianças.

Funções atuais:

a) Prover cuidados e educar crianças e bebês baseando-se no conceito de Emmi Pikler, bem como dar
suporte aos pais.

Formas de alcançar esta função:

-Lar das Crianças: Educa e cuida de crianças necessitadas de até sete anos
-Centro de Cuidado Diário da Fundação (desde 2006)
-Grupos de Atividade Pikler (desde 2002)
-Consulta e aconselhamento a pais com jovens crianças (desde 2007)

b) Trabalho Científico: pesquisa do desenvolvimento de crianças educadas conforme os princípios


Pikler, análise detalhada dos métodos educacionais e de cuidados.

c) Oficinas de treinamento: organização de cursos para especialistas húngaros e estrangeiros,


treinamentos individuais e conferências.

Diretoras do Instituto Pikler:

a) 1946-1978: Dra. Emmi Pikler

b) 1979-1991: Dra. Judit Falk

c) 1991-1998: Dra. Gabriella Püspöki

d) Desde 1998: Anna Tardos

Endereço: H-1022 Budapeste, Lóczy L. u.3. Hungria


12
Telefone: (+36-1) 212-4609

E-mail: pikler-tardos@t-online.hu Website: www.pikler.hu

O que um orfanato pode nos ensinar?

Lições de Budapeste
(What can na orphanage teach us? Lessos from Budapest - Por Janet Gonzalez-Mena4, Fairfield, CA, EUA)

A adulta se inclina sobre o bebê na mesinha de troca de fraldas. Ambos estão face a face e
aquela tem total atenção enquanto fala com este sobre a troca da fralda. O que é incomum
para mim é que o bebê não está deitado para o lado de modo que ele tenha de virar a
cabeça para ver o rosto da adulta: o trocador foi construído para que o bebê se deite com
os pés no ventre dela.

Ela agora espera até que a tensão deixe os músculos do bebê antes que comece.
Gentilmente, ela o direciona e também reage. Ela diz ao bebê que faça algo e aguarda
uma resposta corporal antes de continuar. Ela conversa com ele sobre cada passo do
processo, sempre mantendo-o focado na tarefa e em sua interação em torno dela. O modo
com que ela procede com a troca está construindo a relação entre eles.

Quando ela conclui, estende seus braços e diz algo que não compreendo, porque é em
húngaro. O bebê corresponde se projetando para frente confiando sua cabeça e corpo em
antecipação e chega alegremente aos braços dela com um pequeno sorriso em seu rosto.

Isso foi o que vi em novembro de 2003 quando visitei o Instituto Pikler, uma enfermaria residencial em
Budapeste. A proximidade do bebê e da enfermeira (modo como o Instituto Pikler chama as cuidadoras) durante as
sessões de troca de fraldas me surpeendeu um pouco, mas eu já sabia sobre esta abordagem. Estudei com Magda
Gerber, especialista em crianças de Los Angeles e fundadora da Recursos para Educadores de Crianças (Resources
for Infant Educators – RIE), que é oriunda da Hungria.

Magda foi amiga e aluna da Dra. Emmi Pikler, fundadora do Instituto Pikler; desde 1976 eu estive
ensinando o que aprendi com Magda. Agora que estive em Budapeste, vejo que ainda tenho muito mais a aprender.

Um desafio em escala mundial na formação de crianças e bebês de até três anos em instituições é gerar
métodos que criem crianças íntegras, saudáveis e funcionais, que possam operar dentro e fora das instalações
institucionais. O Instituto Pikler venceu este desafio trabalhando uma abordagem cuidadosamente planejada e
testada durante os últimos 58 anos.

Os métodos do Instituto Pikler

A abordagem aplicada no Instituto Pikler resulta em conseqüências positivas merecedoras da atenção


de líderes de cuidados infantis e de assistência social nos Estados Unidos. O que é essa abordagem? Uma parte
importante dela é o sistema de cuidadores primários projetado para promover conexão somada à crescente
formação da identidade individual.

4
Janet Gonzalez-Mena é consultora de primeira infância em Fairfield, Califórnia, especializada em crianças e bebês de até três anos e
questões de diversidade. Janet é membro da Faculdade de Treinamento dos Institutos de Educadores do Programa WestEd para
Crianças de até Três Anos (WestEd’s Program for Infant-Toddler – PITC – Training of Trainer Institutes). Ela Estudou com Magda Gerber.
13
Nesta abordagem, apesar de cada enfermeira ser responsável por todo o grupo durante seu expediente,
ela tem duas ou três crianças que são suas próprias crianças especiais. Ela mantém anotações extensivas sobre elas
e, juntamente com os funcionários de apoio, seguem o progresso das crianças de modo muito próximo.

O relacionamento entre criança e enfermeira é considerado uma parte vital da criação de senso de segurança e
de sentimento de pertencimento, ainda que não seja a cópia de uma relação entre pai/mãe e filho. Ao invés disso, a
cuidadora conscientemente tenta criar uma espécie particular de relacionamento com suas crianças, que as prepare para
uma eventual mudança para uma relação permanente, seja quando retornarem às suas famílias originais, seja quando
encaminhadas a famílias adotivas.

A enfermeira conscientemente tenta criar uma espécie particular de relacionamento com


suas crianças que as prepare para uma eventual mudança para uma relação permanente.

A enfermeira não é uma mãe substituta, mas uma profissional. Ela é treinada para manter distância o
bastante para que, quando a separação final ocorrer, não devaste nem a criança e nem a enfermeira (David &
Appel [1973, 1996] 2001).

O instituto se utiliza de uma abordagem compreensiva, consistente e holística que resulta num esforço
conjunto de todos os funcionários. Descrever integralmente a abordagem aplicada vai além do escopo deste artigo,
mas sua parte central está relacionada à função de cuidados e de brincadeiras livres que concerne às enfermeiras.

A função da enfermeira nos cuidados à criança

Como demonstrado no tópico anterior, os momentos de cuidado são aquelas atividades essenciais da
vida diária de um bebê, tais como alimentação, doutrina, troca de fraldas e banho, quando o foco está em uma
interação um-a-um próxima com as crianças individualmente. Aprender a tarefa concernente aos adultos é
diferente de vê-la. Eu não havia percebido o que significava se focar integralmente em apenas uma criança. A
quantidade de trocas verbais que se deram durante essas atividades de rotina é incrível. Nada jamais é feito em
silêncio.

Eu gostaria de ter cronometrado o tempo que cada criança obteve de atenção total de uma enfermeira,
sendo imersa numa rica linguagem. Ao mesmo tempo, cada procedimento foi eficiente, em parte porque as
crianças cooperavam notavelmente bem. Não que as interações fossem apressadas, mas não havia qualquer perda
de tempo.

Alimentação é um outro momento de interações um-a-um para as crianças, e à medida que elas vão
crescendo, se torna uma experiência em grupo. Quando um bebê foi alimentado antes dos outros que estavam em
sua sala, eu fiquei imaginando por que a refeição não era uma experiência em grupo para ele. Perguntei à Anna
Tardos (filha de Pikler), uma psicóloga que agora dirige o instituto. Ela explicou que crianças que não comem bem
ou perturbam outras retomam o estágio anterior e são alimentadas com colher separadamente, antes dos demais.

Não se trata de uma punição ser alimentado como uma criança mais nova. Como Tardos afirma, “Não
é somente a prontidão que buscamos, nós queremos ver crianças que se sintam felizes ao dar um passo adiante.”
Em outras palavras, no Instituto Pikler os cuidadores dão às crianças somente o que elas necessitam como
indivíduos até que mostrem sinais óbvios de que elas não precisam mais daquilo.

Por um lado, as crianças que precisam são tratadas como bebês, mas por outro, a crianças muito jovens
também são dadas responsabilidades. Eu fiquei surpresa ao ver um bebê de 17 meses realizando tarefas como a de
14
ajudante designado para a hora do almoço. Ele sabia a rotina exata e atuava de forma admirável – trazendo
banquinhos, arrumando a mesa e limpando-a após o fim da refeição. Como sua tarefa final, ele pôs todos os
babadores sujos numa pequena cesta e seguiu orgulhosamente a enfermeira para uma outra parte da casa para
colocá-los para lavar. Era claro que ele considerava o que fazia uma honra, não um trabalho doméstico.

Os momentos de cuidado são eventos do dia altamente estruturados, e as crianças aprendem cedo a
prever o que irá acontecer. O tipo de consistência e previsibilidade é importante para fazer crescer sentimentos de
segurança que também se originam de suas relações especiais com suas enfermeiras. Esse profundo senso de
segurança permite que os momentos de brincadeira sejam muito menos estruturados que os momentos de cuidado.
O que observei foi o que chamamos de brincadeiras espontâneas nos Estados Unidos.

A função da enfermeira nos momentos de brincadeira

Magda Gerber sempre me dizia, “Ponha a ênfase no aprendizado, não no ensinamento.” Este
certamente me parece o lema do Instituto Pikler. As enfermeiras não ensinam de maneiras formais, mas as crianças
aprendem enquanto estão envolvidas nas atividades essenciais da vivência diária e durante os períodos de
brincadeira. O que eu não esperava era como elas aprendiam a se relacionar bem entre si.

Eu nunca vi grupos de crianças que dependessem menos da intervenção de adultos. As enfermeiras dão
apoio às crianças em suas brincadeiras provendo a elas uma lista interessante de brinquedos, e não se sentando
com elas no chão por longos períodos. Era evidente que as crianças não precisavam da atenção de adultos durante
aqueles momentos.

Deve ser fácil explicar a baixa atenção dos adultos durante os períodos de brincadeira demonstrando a
alta proporção de crianças para adultos (8 para 1) e deste modo dizer que as crianças têm de aprender a brincar
por si próprias. Mas a abordagem é mais ponderada do que apenas uma questão de proporções. A abordagem
Pikler designa o tempo para atenção focada quando crianças e bebês têm de depender dos adultos. Quando as
atividades de cuidado são concluídas, as crianças sabem que elas não precisam mais da ajuda ou da atenção deles.
Por suas necessidades terem sido atendidas e por elas não se sentirem privadas da atenção dos adultos, elas são
livres para explorar, experimentar e descobrir a si mesmas como indivíduos e como grupo.

A pesquisa de Pikler sobre desenvolvimento motor grosso mostra quão bem crianças podem fazer por
si mesmas (Pikler & Tardos 1968; Pikler 1971,1973). Devido ao que Pikler descobriu, ela determinou uma meta
para as crianças desenvolverem independentemente de ensinamentos ou ajuda de adultos. Bebês aprendem desde o
princípio que são indivíduos capazes, e a confiança em suas próprias habilidades faz diferença. Isso contrasta com o que
acontece quando adultos sentem que devem ajudar bebês sentando-os, andando com eles ou os colocando em posições
em que eles não podem se dedicar a si mesmos.

Por suas necessidades terem sido atendidas e por elas não se sentirem privadas da atenção
dos adultos, elas são livres para explorar, experimentar e descobrir a si mesmas como
indivíduos e como grupo.

Quando o desenvolvimento se desdobra naturalmente sem a intervenção de um adulto, a segurança


física cresce e o desenvolvimento de habilidades é notável. No Instituto Pikler, não há pressa em levar os bebês

15
para a próxima fase. Como observei nas crianças de lá, relembro Magda Gerber dizendo, “No tempo certo, não a
tempo” (“In the time, not on time”).

Pikler dizia sobre sua abordagem, “A criança jamais é posta numa posição mais avançada, a fim de que
se promova o desenvolvimento motor grosso, do que ela é capaz de atingir por si mesma a partir de uma posição
básica deitada de costas. Por uma questão de princípio, nós nos abstemos de ensinar habilidades e atividades que
sob condições apropriadas envolverão a própria iniciativa e a atividade independente da criança.” (Pikler, 1971,
91).

Como resultado de toda essa liberdade para se mover e espaço em que possa fazê-lo, crianças no
Instituto Pikler são exploradoras curiosas, interessadas e competentes. Eu não vi crianças a esmo, desinteressadas
ou entediadas. Eu também não vi crianças buscando entretenimento vindo de adultos. O que vi foram salas cheias
de crianças que tinham seus pensamentos em si próprias, com iniciativa aparente, e que ao mesmo tempo
mostravam espírito de cooperação. Essas crianças bem trabalhadas pareciam um produto tanto de treinamento
quando de modelagem, juntamente com expectativas adultas de um comportamento positivo.

Brincadeiras espontâneas podem ser livres, mas não são deixadas ao acaso. Os textos de Anna Tardos
demonstram apreciação profunda por brincadeiras e que atividades com princípios estão sempre sendo trabalhadas
no Instituto Pikler. (Tardos, 1985,1986).

Resultados

Quem são as crianças do Instituto Pikler, e o que acontece com eles quando elas o deixam? Quando o
Instituto foi inaugurado, elas eram em sua maioria órfãos de pais falecidos na Segunda Guerra Mundial.
Atualmente, são em sua maioria órfãos sociais, crianças que os pais não podem ou não vão criar. Algumas foram
abandonadas, outras são locadas no Instituto por conta de abusos substanciais ou eventualmente por conta de
doenças mentais em suas famílias. Cada criança tem uma história diferente.

Não importa por que motivo vieram, todas desfrutam dos benefícios de uma instituição designada a
fazer delas indivíduos independentes e bons membros de grupos que serão capazes de ir embora e funcionar bem
numa estrutura familiar. Isso funciona!

A pesquisadora húngara Margit Hirsch e sua equipe estudaram trinta crianças com idades entre três e
nove anos que passaram sua infância no Instituto Pikler, retornando então para suas famílias de origem. Nenhuma
das crianças demonstrou sinais de hospitalização tão comuns a crianças que passaram sua infância numa estrutura
institucional. Elas não mostraram qualquer distúrbio emocional ou funções cognitivas prejudicadas, sendo capazes
de criar relações próximas.

A Organização Mundial da Saúde (World Health Organization) relata resultados similares às


conclusões de Hirsch. Nenhum dos adultos que foram estudados “demonstraram as desordens de personalidade
flagrante típicas de infâncias vividas em instituições (...). Dentre a centena de assuntos abordados no estudo,
nenhuma criança se recusou a trabalhar, teve registros criminais ou condenado por vadiagem.” (David & Appel
[1973, 1996] 2001, 16).

Eu tenho interesse especial em aprender mais sobre como uma orientação individualista se adéqua a uma
orientação coletivista. O Instituto Pikler é necessariamente uma conjuntura coletivista porque as crianças vivem em grupos.
Mas esta não é uma situação coletivista determinada culturalmente ou familiarmente, é uma instituição que
propositalmente construiu sua própria cultura e avaliou seu sucesso ao longo dos anos. Eu vi um equilíbrio funcional

16
surpreendente entre objetivos individualistas e coletivistas. As crianças eram claramente indivíduos independentes optando
por cooperar, não simplesmente obedecendo a regras ou a uma autoridade de forma passiva, mas demonstrando um
verdadeiro espírito cooperativo.

As crianças eram claramente indivíduos independentes optando por cooperar, não


simplesmente obedecendo a regras ou a uma autoridade de forma passiva, mas
demonstrando um verdadeiro espírito cooperativo.

Barbara Rogoff (2003) descreve esse fenômeno em seu livro “A Natureza Cultural do
Desenvolvimento Humano” (“The Cultural Nature of Human Development”). Em vez de interesses próprios e
interesses coletivos se chocando, algumas culturas criam suas crianças com o intuito de manter objetivos pessoais,
mas para adequá-los ao grupo. Em outras palavras, independência e interdependência são intimamente integrados
para que o indivíduo opte por cooperar. Penso que este deveria ser o objetivo máximo para todos nós, quer
dirijamos uma instituição, vivamos em família ou vejamos a nós mesmos primariamente como membros de uma
sociedade de cidadãos do mundo.

Contrastes em idéias

No Instituto Pikler fui bastante alertada de que eu estaria numa cultura distinta da minha de origem
Americana/Européia. Uma diferença que senti foi a contrastante atitude perante as rotinas e a mudança. Eu ensino
cuidadores de crianças e bebês a se esforçar no cuidado individualizado em questões envolvendo crianças, e
enfatizo que eles deveriam atender às necessidades individuais do momento ao invés de “engessar” as rotinas e
não descumprir a ordem do dia. O foco do Instituto Pikler está nos indivíduos em uma estrutura de grupo em
tempo integral e na segurança derivada da consistência, continuidade e previsibilidade. Mudança é algo
cuidadosamente pensado, e as decisões acerca dela não são feitas apressadamente.

Eu nunca fui ensinada a olhar para bebês como parte de um grupo, tampouco fui convencida a crer na
importância de rotinas que não variam. Também nunca trabalhei numa estrutura de cuidado em residência ou
ensinei alguém a fazê-lo. Se a ênfase do Instituto Pikler na previsibilidade ou na consistência é cultural ou
unicamente relacionada ao contexto de cuidados 24 horas ao dia, eu não sei. Eu só sei que o que vi parecia
funcionar notavelmente bem.

Deixei Budapeste pensando nas implicações do que eu havia visto nos cuidados de crianças dos
Estados Unidos e ao redor do mundo. Certamente o Instituto Pikler é um modelo que demonstra as vantagens de se
ter uma equipe bem amparada, treinada para operar na prática com princípios. Como Reggio Emilia, o Instituto
Pikler pode inspirar aqueles que desejam melhorar os cuidados de bebês e crianças de até três anos em seus
próprios países. No mínimo, apesar das diferenças contextuais e culturais, qualquer cuidador infantil que estuda a
abordagem Pikler encontrará muito acerca do que refletir.

Questões para refletir

1. Quão próximo o que você lê sobre a abordagem de cuidados do Instituto Pikler se adéqua
ao que você acredita acerca de cuidados de bebês e crianças de até três anos?
2. Alguma coisa neste artigo a fez se sentir desconfortável? Se sim, o que foi e por que você
imagina ter reagido desta forma?
3. Quais são as suas experiências com cuidados residenciais institucionalizados para bebês e
17
crianças de até três anos ou suas idéias sobre o assunto? Você acha que as abordagens
utilizadas por este tipo de instituição têm implicações para cuidadores e para estruturas de
cuidados infantis?
4. Você sabe sobre Magda Gerber e sua organização denominada Recursos para Educadores
de Crianças (Resources for Infant Educators) – RIE, online, em www.rie.org? Se sim,
este artigo lhe parece similar ao que você sabe ou ao que você já ouviu sobre a filosofia
de Magda e da RIE? Quais as similitudes? Quais as diferenças?

*Nota: Atualmente, o Instituto Pikler opera em formato de fundação, conhecida oficialmente como Fundação Internacional Emmi Pikler.
Apesar de ter sido criada pelo governo húngaro, a fundação, inaugurada em 22 de abril de 1998, é uma entidade privada e depende
primariamente de fundos não governamentais. O Instituto se tornou um centro internacional de ensino, oferecendo seminários e cursos
de treinamento. Através de sua missão integrada, ela oferece um centro de instrução, um centro de pesquisa e uma enfermaria para
cerca de trinta e cinco a quarenta crianças. Para maiores informações, visite www.aipl.org.

Reflexões acerca de cuidados de bebês e crianças de até três anos


(Reflections on Infant/Toddler Care - Por Michelle Soltero5)

Em minha função como treinadora/coordenadora regional da WestEd, convidei cinco professores e


cuidadores de crianças em casas de família do condado de San Diego, Califórnia, para compartilhar os resultados
colhidos em seu trabalho no artigo de Janet Gonzalez-Mena “O que um orfanato pode nos ensinar? – Lições de
Budapeste” (“What can na orphanage teach us? – Lessons from Budapest”). Cada um deles havia participado do
treinamento dela através do Programa para Cuidadores de Bebês e Crianças de Até Três Anos (PITC), Parceiros
pela Qualidade (Program for Infant/Toddler Caregivers, Partners for Quality), e todos estavam animados com a
oportunidade de contribuir com reflexões acerca do assunto. Como grupo, eles representam uma extensão de seis a
catorze anos de experiência profissional trabalhando com crianças.

Parceiros pela Qualidade

PITC Parceiros pela Qualidade é um projeto desenvolvido colaborativamente pelo Departamento de


Educação da Califórnia e pela WestEd que promove treinamento e assistência técnica para programas para bebês e
crianças de até três anos e cuidadores familiares de todo o estado. A assistência provém dos fundos para melhoria
de qualidade (Quality Improvement).

O programa usa uma abordagem que responsiva e baseada no relacionamento para o cuidado de bebês
e crianças de até três anos, fundada na pesquisa desenvolvente, teoria e prática. Treinamentos no próprio local

5
Michelle Soltero, é mestre e treinadora/coordenadora regional da WestEd PITC Parceiros pela Qualidade, que atende aos condados de
San Diego, Imperial e Orange, na Califórnia. Desde 1993 trabalha com estudantes adultos em várias configurações. Michelle foi
presidente da AEYC da Califórnia e atualmente é membro do quadro governamental na NAEYC.
18
provisiona os cuidadores com a estrutura de um currículo de cuidados responsivos; vídeos e adultos ativos
aprendendo estratégias são utilizados.

O Centro de Desenvolvimento Infantil da Faculdade de Grossmont (Grossmont College Child


Development Center – GCCDC), no condado de San Diego, Califórnia, foi um dos seis programas selecionados
em 1999 como locais de demonstração. GCCDC expandiu suas instalações no ano passado para incluir cuidados
para crianças em família como parte de seu plano de longa duração. Aqueles que promovem esse tipo de cuidado
receberam seu primeiro ano de treinamento e apoio da PITC.

Elaine Benjamin

O Artigo foi interessante, e eu definitivamente vi muitas similaridades com nosso programa no Centro
de Desenvolvimento Infantil da Faculdade de Grossmont.

Eu concordo com a autora acerca da importância das rotinas. Especialmente com crianças muito
jovens, penso que rotinas consistentes as fazem se sentir sãs e seguras. Rotinas tais como alimentação, troca de
fraldas e os momentos de sono provêm uma excelente oportunidade para a formação de laços um-a-um entre
criança e cuidador. Eu acredito que de algumas formas uma instituição provendo cuidados 24 horas ofereceria
cuidados mais consistentes do que um programa como o nosso em que a criança está num grupo durante o dia e
com a família pela noite. Apesar de tentarmos seguir as rotinas dos pais o mais próximo possível, pode haver um
contraste entre as personalidades e as atitudes dos pais e dos cuidadores.

O artigo descreve a associação entre a educação física e emocional de crianças através de rotinas
diárias um-a-um e a sua habilidade de se focar nas demais crianças durante os momentos de brincadeiras
espontâneas sem muita interação com adultos. As crianças no orfanato Pikler se sentiam confortáveis em seu
ambiente, suas necessidades eram atendidas, elas se sentiam seguras, e consequentemente elas podiam se
concentrar na socialização com outras crianças.

Eu acredito firmemente que cada criança se desenvolve do seu próprio modo, e como cuidadores nós
precisamos respeitar e apoiar a individualidade de cada uma com as quais trabalhamos.

Maura Mehrian

Este artigo deveria desafiar todos os cuidadores de bebês e crianças de até três anos a refletir em suas
práticas e prioridades e no que é realmente importante e necessário para bebês crescerem como adultos de sucesso
e de pensamento livre. Para oferecer cuidados baseados em relacionamentos, nós devemos primeiramente olhar
para o que nós definimos como uma verdadeira relação entre cuidador e criança. Precisamos sair da zona de
conforto e encontrar outros modelos com os quais possamos aprender.

Somos tão governados pelo tempo que geralmente acabamos perdendo o foco do que é de fato
importante. Nós enganamos as crianças e a nós mesmos como cuidadores, em detrimento da alegria oriunda dos
momentos comuns que experimentamos, que denominamos rotinas, momentos em que profundas conexões entre
seres humanos podem acontecer.

Enquanto lia este artigo, uma preocupação profunda foi evocada em mim acerca da qualidade geral tão
baixa dos cuidados de bebês e crianças de até três anos nos Estados Unidos. Advogados, educadores, cuidadores e
legisladores deveriam estar alarmados. Tanto Hungria como Itália parecem ter encontrado e posto em prática de
maneira bem sucedida métodos que criam saúde mental e psicológica, crianças que funcionarão como adultos

19
competentes e indivíduos capazes em sociedade. Será que nós não podemos? Temos a formação e os recursos para
sermos capazes de atingir o mesmo padrão de qualidade, que essas comunidades demonstraram ser o
comprometimento com as crianças.

Eu tenho praticado cuidados primários e contínuos, abraçado as filosofias de Reggio Emilia e PITC
por quase quatro anos, e tenho visto os excelentes resultados de sucesso que podem ocorrer. Agora, a leitura desse
artigo me desafia a aprender mais acerca de práticas e filosofias do Instituto Pikler e a refletir e avaliar minhas
próprias práticas.

Grace Woodford

Sou a favor de comunicar tudo a uma jovem criança – cada uma de minhas ações, todos os aspectos do
nosso dia – exatamente como eu faria com uma criança mais velha ou um adulto. Eu explico o que irá acontecer, e
aguardo por uma resposta do bebê.

No artigo fiquei um pouco desconfortável com o que eu sentia ser uma abordagem de certa forma
distante de atitude com relação a uma criança. Além de envolver o infante com rotinas de cuidados, eu passo
tempo no chão, um-a-um, brincando perto ou com a criança. Eu modelo prédios com blocos, por exemplo, e
quando a criança toma a iniciativa e tenta, eu me afasto. Eu ponho alguns objetos numa cesta e os levo embora.
Então eu deixo que o bebê tente fazer o mesmo.

Cuidado institucionalizado difere do cuidado com o qual estou familiarizado (cuidado a crianças de
famílias pequenas) na proporção de crianças para cuidadores. O fato de os cuidadores de Pikler poderem dar
atenção integral para uma criança de cada vez é fenomenal. Esta atenção parece dar às crianças a autoconfiança
que elas precisam para explorar por si mesmas. Elas também recebem conforto das demais crianças. Elas podem
ser desacostumadas a serem carregadas e acariciadas em excesso, dependendo de quanto tempo elas estiveram sob
cuidados institucionais.

Numa estrutura de cuidados a uma criança de família pequena, com dois bebês e quatro crianças entre
um e três anos (a título de exemplo), a situação é diferente. Com freqüência uma criança é filha única, rei ou
rainha do universo do lar. Tais crianças recebem uma quantidade imensa de ternura e suporte em casa e quase
sempre quedam-se menos contentes em um centro de cuidados para crianças. Eu tento prover uma atmosfera
calorosa similar ao que elas estão acostumadas.

Magda Gerber nos ensinou muito sobre o trato de bebês como indivíduos e de todas as crianças com
respeito. Ela encorajou os cuidadores a se movimentarem devagar e a usar o tempo que for necessário quando se
comunicando com crianças, para dizer algo e então esperar por uma resposta. Cuidadores no Pikler parecem ser
graduados na Universidade de Magda Gerber.

Liz Ashanti Mack

Algo do que li no artigo de Gonzalez-Mena me soou familiar, como o que fazemos na Faculdade de
Grossmont quando trabalhando com o PITC e a filosofia de Reggio Emilia.

Essas duas filosofias me ajudaram pessoalmente. Eu trabalhei em Grossmont por quase um ano, e eu
estou estarrecida com o progresso das crianças. Minha crença na capacidade das crianças se modificou
imensamente.

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Em Pikler e em Grossmont, nós parecemos querer o mesmo desenvolvimento para as crianças,
construir seres saudáveis que funcionarão dentro e fora das estruturas institucionais. Sabemos que pequenos
grupos nos permitem conhecê-las e, com ajuda da família, construir fortes laços entre criança e professor. Seguir
as pistas da criança me ensinou como desacelerar, ouvir e propor questões para a criança e para mim mesma sobre
o que está sendo aprendido. Eu sei que brincadeiras espontâneas são apenas um outro modo de a criança se
comunicar conosco.

Li o artigo duas vezes agora, e tenho algumas perguntas. Eu entendo que a abordagem do programa em
permitir uma conexão entre crianças pequenas e as enfermeiras, sendo estas profissionais o suficiente para não se
colocarem na posição de pais para que a partida da instituição não devaste a criança ou a enfermeira. Mas é justo
para a criança que tem de partir tão logo construiu fortes laços com a enfermeira? Como pode a enfermeira
determinar o quão perto chegar ou quando se afastar se a criança ainda não experimentou qualquer envolvimento
com alguém?

Linda Garvin

Eu não sei como um cuidador poderia se envolver e manter distância ao trabalhar com uma criança
todos os dias. Você não pode criar meios laços com uma criança: ou você os cria ou não.

Em minha experiência com crianças, como cuidadores nós estamos aqui para elas e para atender suas
necessidades. Eu me ajusto para isso. Eu não sei como eu atenderia às necessidades de uma criança que deve
precisar de muito mais atenção. Eu não posso separar a teoria e a prática como abro e fecho uma torneira. Eu estou
dando o melhor de mim.

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