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A viagem de uma Bíblia na China

A história a seguir é uma reconstrução imaginária da vida de


uma Bíblia " aos olhos dela mesma " montada a partir da
informação encontrada na folha em branco de uma Bíblia
verdadeira na China

Minha primeira viagem foi no fundo de uma mala velha.


Quando cheguei ao norte da China, fui levada para uma
pequena casa onde havia uma reunião de dezesseis líderes
da igreja doméstica. Eles ficaram radiantes ao me ver.
Parecia que eu era a única Bíblia que eles tinham lá. Os cristãos
organizaram-se para me ler em turnos de duas horas, mesmo
que para isso tivessem que atravessar as madrugadas.

Um ano de uso constante começou a cobrar o seu preço, e eu


tive de ser reformada duas vezes. A cada dois meses umas
mulheres vinham e passavam horas comigo, copiando minhas
páginas. Uma delas copiou Isaías, mas a maioria delas copiou
Atos, Romanos e Apocalipse.

Repentinamente, a igreja doméstica sofreu uma batida


policial. Eu fui arrancada e levada pela policia. Dois
cristãos foram presos por terem a minha posse.

De repente, me vi num escuro guarda-louça na casa de um


policial, mas eu não estava só. Ele tinha uma filha de 15
anos que costumava rastejar escada abaixo, no meio da noite,
só para ler-me à luz de velas. Ela me lia rapidamente, mal
atrevendo-se a respirar enquanto virava as páginas.

Depois de uns meses, ela contrabandeou-me em sua mochila


escolar e entregou-me para um evangelista itinerante, que
cuidou de mim como se eu fosse um bebê. Ele embrulhou-me numa
sacola plástica, colocou-me em sua bagagem, e foi de
bicicleta de aldeia em aldeia. Durante os cultos, ele me
folheava para umas de suas passagens favoritas, lia-me e,
então, pregava. Ele chorava enquanto pregava, suas lágrimas
caíam em grandes gotas nas minhas páginas abertas, manchando
a impressão.
Infelizmente, alguém o assaltou e me roubou e eu me vi numa
casa cheia de incenso. Parece que o meu novo dono era um
monge taoísta e, por um pouco de tempo eu fiquei sobre um
altar construído em honra aos seus ancestrais, ao lado de
duas laranjas e um pacote de nozes. Mas um visitante me viu e
avisou o homem que ele teria muitos problemas se outras
pessoas me vissem. Isso intrigou o monge, por isso ele
começou a me folhear. Mas ele não conseguia ler muito bem,
por isso convidou um cristão local para vir e explicar
algumas passagens. Um mês mais tarde, eu vi os dois de
joelhos. A próxima coisa que eu soube foi que o altar tinha
ido embora. Logo começaram a reunir grupos na casa.

Uma vez, eles me levaram para os campos e, quando paravam de


plantar arroz, todos se reuniam ao redor e liam-me. Mas o
líder da unidade de trabalho ficou zangado, agarrou-me e
começou a me pisar, pressionando-me para dentro da lama. Para
minha surpresa, os outros se leva ntaram e o atiraram na lama.
Tentaram limpar-me, mas era tarde demais. Eles decidiram
desfazer-se das partes sujas, dividiram os livros restantes,
e costuraram cada um deles. Assim eu virei 31 livros. Mas,
foi aí que eu perdi a minha folha em branco, e então minha
história precisa terminar.

A versão original desta história foi publicada por Notícias


da China, ed. outubro/novembro de 1996, sob o título "Visão
de Uma Folha em Branco"Complemento da revista Portas Abertas - fevereiro 2004,
vol.22 n°1