Você está na página 1de 158

1 – Introdução

Albert P. Dahoui

Índice

1.1 – As devidas explicações

5

1.2 – Palavras de incentivo

7

1.3 – Diferença entre ficção e não-ficção

10

1.4 – Os vários tipos de ficção

12

1.5 – Tema, gênero e trama

13

1.6 – Rápidas palavras sobre Estilo

14

2 - Personagens

2.1 – Introdução à teoria dos personagens.

15

2.2 – Definindo os personagens

18

2.2.1 – Apresentando os personagens ao leitor.

19

2.3 – Os vários tipos de personagens

22

2.4 – Arquétipos

26

2.5 – A mente masculina e feminina

32

2.6 – Contrariando o desejo do Protagonista

34

2.7 – Definindo o Antagonista

35

3 – Estrutura da história

3.1 – Estruturas básicas

38

3.2 – Estrutura básica de uma história

39

3.3 – Algumas dicas de como estruturar uma história

43

3.4 – Um método de estruturar uma história

45

4 – Narrativa

4.1 – O Método do Actor’s Studio de Nova Iorque

51

4.2 – Mostrando e não dizendo (Show not tell)

52

4.3 – Escolhendo um Ponto-de-Vista (POV)

56

4.4 – Ritmo da história

59

4.5 – Progressão da história

64

2

O sucesso de escrever

4.6 – Técnicas para enriquecer a narrativa

4.6.1 – Cadinho: chave para uma boa história

66

4.6.2 – Circunscrição da história (Espaço e Tempo)

67

4.6.3 – Suspense – mantendo o leitor interessado

69

4.6.4 – Criando tensão

70

4.6.5 – Flashbacks

71

4.6.6 – Criando credibilidade: suspensão da descrença

72

4.6.7 – Quando o menos é mais

74

4.6.8 – Técnica do instantâneo

75

4.6.9 – Ressonância

76

4.7 – Cenas de amor

78

4.8 – Problemas imprevistos no decorrer da história

79

4.9 – Como salvar uma história que está caminhando mal ou empacou

81

5 – Diálogos

5.1 – Introdução

84

5.2 – Marcadores de diálogos

88

5.21 – Marcadores anteriores, no meio e posteriores.

90

5.22 – Estilo jornalístico de marcação

91

5.3 – Monólogos

92

5.4 – Diálogos que não funcionam e os que quebram as regras

94

5.4.1 – Diálogos telegráficos (excessivamente rápidos)

95

5.4.2 – Quebrando as regras do diálogo tradicional

96

5.4.3 – Diálogos melodramáticos

97

5.4.4 – Diálogos cospe-fogo

100

5.4.5 – Diálogos esdrúxulos

101

5.5 – Comentário final sobre diálogos

6 – Revisão

6.1 – Revisar é fundamental

6.2 – Lipoaspiração

3

102

103

107

Albert P. Dahoui

7 – Escrevendo para cinema, televisão, teatro e outras mídias.

7.1 – Cinema

7.1.1 – Comentários gerais sobre escrever para cinema

111

116

7.2 – Televisão

117

7.3

– Teatro

119

7.4

– Outras mídias

121

8 – Não-Ficção

8.1 – Técnicas de ficção aplicadas a não-ficção

123

8.2 – Pesquisa: chave para o sucesso.

124

8.3 – Algumas sugestões para a não-ficção

126

9 – Embalando o produto

9.1 – Procurando uma editora

129

9.2 – O mercado americano

133

9.3 – Lançando o livro

141

9.4 – Aspectos financeiros

144

9.5 – Cuidados que o autor deve ter

146

10 – Informações e um modelo de estrutura

10.1 – Informações na Internet

10.1.1 – Mecanismos de busca

150

10.1.2 – Sites brasileiros de interesse

150

10.1.3 – Sites internacionais de interesse

151

10.1.4 – Print-On-Demand – Impressão Por Encomenda (IPE)

152

10.2 – Um modelo de estrutura de romance

154

Bibliografia

157

4

O sucesso de escrever

1 - Introdução

1.1 – As devidas explicações

Quando me decidi a escrever este livro, uma voz no meu interior me dizia que não devia fazê-lo. Afinal de contas, não sou nenhum autor laureado nem meu trabalho é objeto de estudo e pode servir de exemplo. No momento em que estou escrevendo este livro, tenho nove livros publicados no Brasil e um nos Estados Unidos. Meu primeiro livro conseguiu vender razoavelmente bem, considerando que não foi apoiado por grande esforço publicitário. Há alguns anos, decidi traduzi-lo para o inglês na tentativa de publicá-lo nos Estados Unidos e eventualmente, no Reino Unido (Inglaterra, Escócia, Gales e Irlanda). Para tanto, além do trabalho físico da tradução em si, resolvi pesquisar o mercado americano. Descobri, através da Internet, que existiam uma série de livros que ensinavam a escrever. Só para sua informação, no site Amazon.com relacionei, em 2000, 185 títulos diferentes. Comprei dois livros de imediato e, posteriormente, adquiri mais alguns. O primeiro fato que descobri é que no Brasil não existia nenhum livro sobre como escrever um romance (pelo menos que eu saiba). Portanto, este livro é uma tentativa de preencher essa lacuna. Tomara que venham outros ainda melhores, pois a arte de escrever merece um tratamento melhor do que temos no Brasil. O segundo fato é que detectei que, mesmo tendo nove livros publicados, eu escrevia muito mal (não é cabotinismo). Quando comecei a escrever, fi-lo mais por puro prazer do que com a intenção de ganhar dinheiro. No entanto, fi-lo sem nenhuma técnica, seguindo apenas meu instinto, que – confesso – não é suficiente para tornar-me um bom escritor.

5

Albert P. Dahoui

Aliás, sempre fui audacioso, pois não domino a língua portuguesa quanto deveria e minhas concordâncias nem sempre obedecem às estruturas e normas que a regem. Mesmo com essas limitações, resolvi escrever, pois tinha algo que sobrepujava todas as dificuldades: determinação. Nada me impediu de realizar o meu desejo de escrever. Nem falta de tempo, nem minha falta de conhecimento da língua portuguesa, nem as centenas de desculpas que eu podia arranjar para não escrever. Quando comecei a ler os livros americanos sobre como se deve escrever e notei que escrevia muito mal, resolvi que reescreveria o meu primeiro livro. Não só o traduzi, como também reescrevi mais de noventa e cinco por cento das cenas. Foi um exercício notável e isto me ajudou a treinar a arte. Se você me perguntar se agora eu escrevo bem, responderei que não, mas melhorei muito. Qual era o meu principal erro? Eu narrava em demasia e não deixava espaço para o leitor imaginar a história. Eu não praticava a técnica que os americanos chamam de Show not Tell. O escritor deve mostrar e não descrever. É como no amor. Não adianta dizer à pessoa amada o quanto você a ama. Mostre através de ação, ao invés de proferir intermináveis frases de amor que, provavelmente, serão um clichê. Demonstrar amor através da ação produz muito mais efeito na pessoa amada do que apenas belas palavras. Portanto, se o leitor ler meus livros publicados até 2000, notará sua imperfeição. Não importa, pois o que vale é aprender sempre e treinar. Nunca se dê por satisfeito. Deste modo, resolvi escrever este livro para dar ao futuro escritor algumas ferramentas para que não cometa os mesmos erros que cometi. Por outro lado, respondendo àquela voz interior que me dizia que eu não devia me meter a professor de um assunto que não domino, eu respondi ao meu crítico interior que há excelentes técnicos de futebol que são incapazes de jogar e há excelentes jogadores que são péssimos técnicos. Portanto, ensinar é apenas alertar, é despertar a vontade adormecida, pois só aprende quem quer. O professor é mero veículo da aprendizagem.

6

O sucesso de escrever

O leitor notará que menciono exemplos americanos e europeus. Não veja nisto

nenhum desdouro ao escritor brasileiro, mas, como este trabalho é uma compilação de vários livros americanos e europeus, é óbvio que os exemplos provêm deles. Por outro lado, prefiro não mencionar escritores brasileiros, seja para elogiá-los, seja para criticá-

los (para o que, aliás, me falta conhecimento) evitando ferir suscetibilidades.

Não procurem por perfeição, pois o trabalho de compilar nem sempre é fácil. Muitas vezes, encontrarão exemplos simplórios. Foram feitos de propósito para chamar

a atenção sobre escritas pobres e mal redigidas. O exemplo estapafúrdio alerta mais do

que o bom exemplo. Não vejam, portanto, as linhas escritas aqui como as de um mestre que, magnânimo, passa seus conhecimentos. Vejam apenas o trabalho de um compilador, pois este trabalho é, de fato, uma compilação das principais técnicas que estão sendo ensinadas nos Estados Unidos e Europa.

1.2 – Palavras de incentivo

Se você se decidir a escrever, nada poderá impedi-lo a não ser você mesmo. O pior

inimigo do escritor é ele mesmo. Portanto, tenha cuidado com as seguintes desculpas:

– Não tenho tempo para escrever. Invente tempo. Se você escrever apenas uma página por dia, no final de um ano, você terá escrito um livro de 365 páginas. Para escrever uma página por dia, você levará apenas meia hora. Acorde meia-hora mais cedo e escreva. O ideal é estabelecer um determinado horário do dia e, com vontade ou não, sente-se e escreva. Invente, treine, reescreva o que já escreveu, aperfeiçoe-se. Se você se habituar a escrever todos os dias

um pouco, no dia em que não escrever, sua mente solicitará tal exercício e você se

tornará um ‘viciado’. Vicie-se em escrever, pois é um vício maravilhoso que não faz mal

à saúde.

– Assim que tiver completado minha pesquisa, poderei escrever.

7

Albert P. Dahoui

Excelente desculpa. Com isto, você passará anos pesquisando e jamais escreverá

uma página sequer. O que você deve fazer é escrever e pesquisar simultaneamente. Escreva, pois assim verá qual o assunto que precisa ser pesquisado mais a fundo. Não pare para pesquisar – faça as duas coisas simultaneamente.

– Não tenho talento. Ninguém nasce sabendo. Escrever é como fazer musculação. No começo dos exercícios, você fica com os músculos doídos e só consegue levantar um quilo. Após treinar por vários dias, seus músculos não doem mais e você levantará vinte quilos facilmente. Treine, escreva e reescreva. Saiba que escrever é, antes de tudo, treinar e reescrever muito.

– Tenho vontade de escrever, mas não sei sobre o quê. Não consigo imaginar uma boa

história. Saiba que o escritor só escreve sobre aquilo de que gosta. Para ser escritor é preciso ser primeiro um leitor. Você gosta de ler? Sobre o que você lê? Então escreva sobre o que você gosta de ler. Outra coisa: o escritor é uma pessoa atenta. Está sempre ouvindo histórias, imaginando situações e procurando assuntos. A televisão, o cinema, os jornais, as revistas e as conversas com amigos podem dar boas histórias. Basta querer: o mundo está repleto de assuntos interessantes. – Tenho vontade de escrever sobre um determinado assunto, mas muitos já escreveram sobre isto. Não creio que possa escrever melhor ou de forma mais interessante do que alguns gênios da literatura. Cada escritor irá abordar o mesmo assunto do seu modo particular. Cada um há de contribuir com algo que o outro não vislumbrou. Basta desejar e ter confiança em si próprio. Naturalmente é preferível escrever sobre um tema inédito, mas nem sempre é fácil encontrar um. Nada impede que você escreva sobre um tema batido e, ao mesmo tempo, seja original. Pode ser que, no início, você não consiga ser absolutamente original, mas lembre-se de que tudo que você escrever servirá de treino. Imagine um corredor. Ele treina horas a fio, imaginando o que fará no dia da competição. No entanto, se ele só correr em competições, provavelmente não será um vencedor, pois

8

O sucesso de escrever

não treinou o suficiente. O escritor deve encarar o que escreve como um treino, uma

forma de se aperfeiçoar. Por que os atletas, os bailarinos, os músicos, os cantores, os atores ensaiam e treinam horas a fio diariamente? Para se aperfeiçoarem. O mesmo deve acontecer com os escritores.

– Meu português é fraco. Não posso ser um escritor. É uma dificuldade inicial, mas não é insuperável. Primeiro é preciso que você leia bastante, pois aquele que lê vai se munindo de um vocabulário mais rico, vai assimilando um estilo e, com o tempo, consegue escrever. Não é necessário fazer um curso superior de Letras, mas um bom livro de Português ajuda, assim como um bom dicionário. No entanto, nada disto adianta se você não treinar.

– Assim que eu comprar um computador, começarei a escrever. Esta é outra desculpa. Você nunca comprará um computador, nunca aprenderá a mexer no mesmo e sempre colocará isso como desculpa. Então como fizeram aqueles escritores que não tinham computadores, pois nem sequer existiam? Eles escreviam em máquinas de escrever, com canetas, lápis, etc. Houve prisioneiros que escreveram com lápis em papel jornal e, mesmo assim, conseguiram escrever obras primas. O que você precisa para começar a escrever? Vontade! Se não tiver, ninguém poderá obrigá-lo.

– Perco a coragem quando imagino que ainda faltam muitas páginas para terminar. Como é que alguém corre uma maratona? Metro após metro. O mesmo acontece com o escritor. Palavra após palavra, frase após frase, parágrafo após parágrafo, cena

após cena, capítulo após capítulo, o livro vai sendo escrito. Ponha na sua mente que deseja apenas escrever uma única cena. Imagine que ela terá de quatro a seis páginas. Portanto, você não vai escrever um livro de trezentas páginas, apenas uma cena de seis laudas. No outro dia, você irá escrever outra cena e, assim, irá enganando sua preguiça e adquirindo coragem e confiança em você.

– Escrevi uma história, mas não acho que é suficientemente boa para publicá-la. Provavelmente não deve ser mesmo muito boa, pois o maior crítico do escritor deve ser ele mesmo. Saiba que escrever é antes de tudo REESCREVER. Você sabia que Ernest

9

Albert P. Dahoui

Hemingway reescreveu 36 vezes o seu livro Adeus às Armas antes de publicá-lo? Sabia que Sol Stein, um dramaturgo, escritor e editor americano de grande sucesso, com nove livros publicados, reescreveu doze vezes o seu best-seller The Magician, que vendeu um milhão de cópias? Por que você acha que o seu livro não deverá passar por inúmeras revisões e que você será o único a escrever uma obra-prima logo da primeira vez? Há escritores que escrevem e não precisam reescrever nada. São os Mozarts da literatura, mas pergunto-lhe: quantos Mozarts existiram na História universal? Não é preciso nascer gênio; há muito mais mérito em se tornar gênio, mesmo tendo nascido mediano. Escreva e reescreva!

– Tenho vergonha de me expor. O escritor de ficção ou de não-ficção se expõe demais. Por que alguém escreve? Em primeiro lugar pelo prazer de escrever. Se não for esta a primeira razão, então procure outra coisa para fazer. Aquilo que não for feito com prazer, com satisfação, com amor, provavelmente será medíocre. Quanto a se expor, saiba que a exposição pública de um escritor é menor do que a de um ator, de um político ou de criminoso. Portanto, ao expor seu ponto-de-vista num livro, você estará apenas manifestando aquilo que você é. Não tenha medo de ser você mesmo; saiba que cada ser humano é um ser divino, mesmo que, muitas vezes, esteja com sua luz bloqueada pelas trevas do medo.

– Não quero ser um escritor. Só quero dinheiro e fama. Então mude de profissão ou de hobby. Poucos são os escritores que vivem de escrever e menos ainda os que ficam ricos e famosos.

1.3 – Diferença entre ficção e não-ficção

Podemos definir de forma rápida os dois estilos literários, como segue:

10

O sucesso de escrever

Ficção tem como objetivo emocionar o leitor. É a arte de explorar um tema, fazendo-o passar através da consciência do imaginário para, num jogo de cumplicidade, o tornar aceitável pela consciência real.

Não-ficção tem como objetivo informar o leitor sobre um determinado assunto.

Se nos ativermos à definição acima de ficção, poderemos ser encorajados a não informar adequadamente o nosso leitor sobre aquilo de que estamos tratando. Deste modo, o livro de ficção pode também informar o leitor sobre uma série de assuntos pertinentes à obra. A sua diferença em relação à não-ficção é que as informações prestadas no decorrer do livro fazem parte do enredo, mas não constituem um tratado sobre determinado tema. Por exemplo: Se o livro está falando sobre a história de um médico, não é necessário descrever exaustivamente todos os procedimentos médicos, assim como o tipo de doença que o médico está tratando. Pode ser feita uma abordagem rápida que dê uma boa noção ao leitor sem, contudo, entrar em minudências exaustivas e enfadonhas. Já, por outro lado, um livro de não-ficção deverá abordar o máximo de informações para que o leitor possa entender o assunto de modo completo. Abordaremos mais adiante algumas técnicas de não-ficção. Voltando ao caso da ficção, devemos abordar um aspecto fundamental. Este tipo de literatura tem como objetivo emocionar – como já dissemos – mas também fazer o leitor ‘viajar’. Usamos propositalmente a gíria ‘viajar’, pois é a que melhor reflete a necessidade do leitor. Expliquemo-nos: Ninguém, em sã consciência, deseja meter-se numa situação tensa, cheia de perigos, dramática, ou até mesmo, trágica. Todos queremos paz e sossego, mas, em termos de história, escrita ou visual (TV, cinema), esta é a última coisa que desejamos. Queremos algo que nos transporte para um mundo de fantasia, de faz-de-

11

Albert P. Dahoui

conta, onde iremos viver aventuras, emoções, conhecer novas pessoas, colocarmo-nos em risco e sair de nosso cotidiano, muitas vezes aborrecido e claustrofóbico. Assim, iremos procurar histórias que nos emocionem. Estamos todos à procura de um certo tipo de emoção: amor, medo, terror, tensão, ódio, aventura, etc. O escritor deve estar ciente disto para que seus escritos transmitam tais sensações ao leitor.

1.4 – Os vários tipos de ficção.

Relacionamos abaixo alguns tipos de ficção apenas para que o leitor possa familiarizar-se. Entretanto, tal relação reflete apenas o que os editores internacionais consideram como tal. Provavelmente outra pessoa que venha a fazer tal relação, poderá relacionar outros tipos de ficção. Procurei, pois, basear-me nos moldes internacionais.

Ação ou Aventura. Confessionais. Assuntos contemporâneos. Detetive/Policial/Crimes. Eróticos (não é pornografia). Étnicos. Experimentais. Saga familiar. Fantasia. Feminista. Homossexual (não é pornografia). Históricos. Horror (terror). Humor/Sátira. Juvenil.

12

O sucesso de escrever

Drama. Tragédia. Mistério/Suspense. Espiritualista/Esotérico/Espírita/Sobrenatural. Regional. Romântico. Ficção científica. Esportes. Espionagem/Thriller. Aventura ou assuntos para adolescentes.

É muito natural que a pessoa normalmente escreva sobre aquilo que gosta de ler. Por razões pessoais, alguém se sente atraído por determinado tema, trata de ler sobre o assunto e acaba por desenvolver suas próprias histórias a esse respeito. Sua atenção fica sempre polarizada por este assunto e as demais notícias do mundo não o impactam tanto quanto o assunto pelo qual se sente atraído. É natural que este escritor irá direcionar sua criatividade para um dos temas acima. Não significa dizer que não possa atuar em outro segmento, mas terá que se sentir atraído pelo novo assunto.

1.5 – Tema, gênero e trama.

Quando vamos escrever uma história temos três aspectos globais a serem considerados. O primeiro é o tema, o segundo é o gênero e o terceiro é a trama. Em poucas palavras, poderíamos definir como:

Tema é o assunto. O tema aborda um assunto das relações humanas. Não é uma coisa independente como trama ou personagens, mas é uma relação entre trama e personagens.

13

Albert P. Dahoui

Um exemplo facilita a compreensão. Você resolveu escrever sobre a maneira como o homem está destruindo o meio-ambiente. O tema é, portanto, ecológico.

Já o gênero é a forma como você irá abordar esse tema. Pode ser uma história

repleta de ação onde nosso herói resolve lutar contra uma grande empresa que mata

baleias para extrair seu óleo e ganhar dinheiro. Neste caso, o gênero é aventura.

A trama é como vamos desenvolver nossa história. Pode ser a história de um

baleeiro que fica horrorizado com a morte das baleias e resolve mudar de vida. Ele é perseguido por seu antigo capitão; sabe coisas demais. A trama é, pois, o conjunto dos fatos encadeados que constituem a ação de uma obra de ficção. Resumindo, neste exemplo, o tema é ecológico, o gênero é aventura e a trama é a história de um ex-baleeiro que é perseguido por seu antigo capitão e, resolve denunciar o morticínio das baleias à televisão na tentativa de impedir que tal degradação continue. É importante estabelecer-se antecipadamente o tema, o gênero e a trama, pois irão influenciar a forma de escrever e a pesquisa sobre o assunto. Pode-se escrever sobre o

mesmo tema, modificando o gênero e, conseqüentemente, a trama e com isto se obter uma história original e fresca com uma trama que impele o leitor até o fim. Escolher certo o tema – deve ser algo atual, mesmo que possa relacionar-se com algo do passado – é meio caminho para se escrever algo que encontre eco no público.

1.6 – Rápidas palavras sobre Estilo

Se há algo subjetivo é Estilo. Um leitor pode adorar um determinado escritor e achar seu estilo encantador, já outro leitor poderá achá-lo tedioso e excessivamente rebuscado. Como então escolher o seu estilo, a sua própria voz? Como ser original e não tentar copiar alguns ‘monstros sagrados’ da literatura? Seja você mesmo. Você tem uma personalidade que lhe é própria e que ninguém poderá copiar. Ao escrever, procure se lembrar de que o escritor escreve sobre o que gosta e sobre um assunto que domina. Seja simplesmente você e tudo há de correr bem.

14

O sucesso de escrever

2 - Personagens

2.1 – Introdução à teoria dos personagens.

Vamos partir do pressuposto que você nunca escreveu um livro. Durante sua vida escreveu algumas páginas, mas sempre teve vontade de escrever algo maior do que simples contos ou algumas páginas onde você colocou um pouco de si. Se, por outro lado, você é um escritor renomado, não custa ler um pouco sobre a teoria dos Personagens, pois, com sua experiência, você poderá tirar algumas idéias interessantes para aprimorar sua arte. Afinal de contas, todos nós estamos sempre aprendendo. De repente, você teve a idéia de escrever sobre um determinado tema e deseja contar uma história que imaginou. Como o processo criativo é muito individual, seria impossível estabelecer o que vem primeiro: o desejo de escrever ou a idéia de uma história. Provavelmente, as duas aparecem simultaneamente, uma em sinergia com a outra. Apenas para podermos estabelecer um método didático, vamos estabelecer que você vai escrever um livro de ficção. (Para aqueles que pretendem escrever um livro de não-ficção, o processo é muito parecido, mesmo que algumas etapas possam ser diferentes. Todavia, no capítulo dedicado aos trabalhos de não-ficção, iremos abordar técnicas de ficção ligadas à não-ficção que poderão ser úteis para o seu livro de não- ficção. Deste modo, mesmo que seu apetite esteja voltado para a não-ficção, sugerimos que leia o que iremos abordar em ficção, pois você verá que lhe será de valia. Aliás, sugiro sempre que o escritor de ficção também escreva não-ficção, e vice-versa, pois isto só irá enriquecê-lo como escritor. Nada como conhecer os dois lados da medalha).

15

Albert P. Dahoui

Por alguma razão pessoal – e cada escritor tem a sua – você decidiu que irá escrever um romance. Provavelmente o que lhe veio à mente é uma história ainda incompleta, com personagens não muito bem definidos e situações ainda não totalmente resolvidas. Pode ser que você tenha todo um arcabouço já pronto e, neste caso, você está apto para começar. Como este é um livro que pretende ajudá-lo a escrever, devemos instigar você com alguma teoria. Por quê? Pela simples razão de que a teoria irá dar-lhe a base para você se movimentar. Será como um mapa. Metaforicamente, uma história é uma viagem, com princípio, meio e fim de um percurso percorrido pelos personagens. Assim sendo, precisamos de um mapa para não nos perder. A primeira coisa que temos ao desejar viajar é a vontade de conhecer um certo lugar ou rever um local já conhecido. Desta forma, a primeira coisa que nos leva a escrever é o desejo de escrever. Conforme abordamos no primeiro capítulo, é preciso evitar as desculpas para não escrever, pois são elas as inimigas mais ferrenhas do escritor. Elas municiam a mente do escritor e aplacam a criação. Viajar é preciso, escrever ainda mais! Tudo bem! Você tem em mente um roteiro de sua viagem – a sua história. A primeira coisa é planejar a viagem. Começaremos nossa viagem em que local e qual será nosso destino? Qual será nosso meio de transporte? De quanto dispomos? Iremos fazer uma viagem de trem, de carro, de avião? Visitaremos todos os pequenos e lindos vilarejos entre nosso ponto de partida e nosso destino, ou iremos o mais rápido que pudermos até nosso destino? Ou sairemos sem destino, navegando de acordo com nossa vontade e só obedecendo ao nosso coração? Saiba que na arte de escrever tudo é válido, desde que nos traga felicidade. Sua história está fervilhando em sua mente e, como acontece com muitos escritores, tornou-se uma obsessão – você só pensa nela. Ótimo, um pouco de loucura é necessário para que o artista possa liberar seu fluxo mental criativo (falaremos disto mais adiante). Mas, pare por um instante e se pergunte o que é prioritário: estabelecer a trama ou elaborar o personagem ou personagens? O que nos diz a teoria?

16

O sucesso de escrever

A teoria mais aceita nos dias de hoje é que uma trama não subsiste sem um personagem que lhe seja apropriado. Muitos dirão que é mais fácil partir de uma trama bem urdida para, aos poucos, ir inserindo os personagens. Nada contra, enquanto você estiver no recesso de seu lar e o seu livro não for apresentado a ninguém. Pode ser até que você construa seu personagem a partir da trama, mas saiba que, no final, é o seu personagem que irá marcar o leitor e nem tanto a trama.

O leitor irá identificar-se com o seu personagem principal e viverá com ele e através

dele as emoções de sua viagem. Ele também irá ‘viajar’ e sentirá o que seu personagem principal, que chamaremos doravante de Protagonista, irá sentir. Se o leitor rejeitar seu

Protagonista ou tiver dificuldade, impossibilidade mesmo, de se identificar com o Protagonista, muito provavelmente, largará o livro.

É o Protagonista que motivará o leitor a percorrer a sua viagem, sua busca, para

atingir seu objetivo. E qual é o objetivo? É aquilo que o Protagonista mais deseja naquele ponto de sua vida. É aquilo que o impulsiona, aquilo que o faz mover céu e terra para alcançar seu objetivo, enfrentando todos os perigos de sua viagem. Portanto, há dois pontos fundamentais a serem analisados de imediato. O primeiro é se o leitor irá identificar-se com o desejo do Protagonista e se tal desejo será exeqüível. Imaginemos que o Protagonista deseja algo de imoral e pérfido. Dificilmente o leitor irá desejar se identificar com alguém com tais desejos. Por outro lado, imaginemos que nosso Protagonista deseja algo de fútil ou facilmente alcançável. Qual a graça disto? É

uma banalidade com que o leitor também não irá identificar-se. É preciso ser um desejo forte, algo de moralmente correto e que seja difícil de alcançar. Aí, sim, o leitor irá torcer, irá se contorcer de emoção, acompanhando avidamente os passos do Protagonista. Desse modo, antes de entrarmos em maiores detalhes de como estruturar a história e de como iremos narrá-la, vamos nos deter na teoria sobre Personagens.

17

Albert P. Dahoui

2.2 – Definindo os personagens

Cabe ao escritor definir seus personagens com sabedoria. Muitas vezes o escritor deseja escrever a história de uma pessoa absolutamente comum. Não há nenhum inconveniente, desde que este personagem possa vir a fazer coisas incomuns. Ninguém quer ler uma história de uma pessoa comum vivendo uma vida aborrecida, em que nada acontece. Isto todos já temos isto no nosso dia-a-dia, de um modo ou de outro. O leitor deseja emocionar-se e não adormecer de tédio. Cada tipo de literatura tem seu público-alvo e seus desejos próprios. Se o escritor vai escrever para um determinado público tem que saber quais são os seus interesses. De certa forma isto não constitui um grave problema; o escritor irá sempre escrever sobre aquilo de que gosta, atingindo pessoas que gostam das mesmas coisas. O núcleo da questão ao definir-se um personagem é estabelecer o seu desejo, aquilo que o motiva, que o fará lutar para alcançar o seu objetivo. Um livro feminista poderá abordar a história de uma moça pobre que luta para se formar na faculdade e conseguir um bom emprego. Este é seu desejo: formar-se e conseguir um bom emprego. Os personagens que irão ajudá-la serão os coadjuvantes da história, enquanto que tudo aquilo que a obstaculizar serão os antagonistas. Pode ser que os coadjuvantes sejam até mais importantes socialmente do que ela na história, mas, na trama não deverão sê-lo. O personagem pode ser ajudado por um rei ou um nobre, porém, na história, o monarca ou o rico empresário ou o condestável deverá ser apenas um coadjuvante. Por outro lado, os vilões podem ser pessoas ou circunstâncias ou, até mesmo, pessoas que nem sequer a conhecem, mas que dificultam seu desejo. Por exemplo, a pobreza de sua família é uma circunstância. Digamos que ela conseguiu juntar o dinheiro suficiente para pagar sua faculdade, mas sua mãe fica gravemente doente e ela tem que usar estes recursos para uma operação que irá salvá-la ou a sua mãe morrerá.

18

O sucesso de escrever

Neste caso, o vilão – aquele ou aquilo que obstaculiza o seu desejo – é uma circunstância fortuita – a doença da mãe. No momento em que se constrói um personagem, seja principal ou secundário, é importante que se tenha em mente o tipo de literatura que se vai escrever. Se estivermos escrevendo uma fantasia, o personagem pode ter poderes especiais, tais como voar, atravessar paredes e o que mais se desejar. Todavia, se estamos escrevendo um drama contemporâneo, tais características são impossíveis de se encontrar numa pessoa. Com exceções, o personagem principal deve ser alguém com quem o público-alvo irá identificar-se. Seus desejos serão os mesmos que os do seu público-alvo ou, pelo menos, que os leitores possam entendê-lo com facilidade. Caso contrário, não haverá identificação com o personagem e poderá haver desinteresse. Deste modo, o leitor se sente entediado e abandona a leitura e, pior do que isso, não irá recomendar o livro aos seus amigos. O personagem poderá ter defeitos, vícios e fraquezas, assim como formas de falar que o diferenciem dos demais – gago, língua presa, etc. – e deformidades físicas – ser manco, vesgo, etc. –, no entanto, tais características devem ser vistas como obstáculos íntimos que ele deverá esforçar-se para superar. É óbvio que, se tivermos um personagem coalhado de defeitos e sem vontade de superá-los, o público não irá desejar identificar-se com alguém com tais falhas.

2.2.1 – Apresentando os personagens ao leitor.

Quando você começar a escrever, procure usar algumas técnicas para apresentar os personagens ao leitor. Alguns escritores gostam de caracterizar o personagem de modo rápido, como se fosse uma fotografia instantânea. É uma técnica boa, ainda que nem sempre possa ser usada, especialmente se for um romance de época. Em primeiro lugar, procure definir quem é o personagem principal. Alguns escritores gostam de imaginar

19

Albert P. Dahoui

de imediato um ator conhecido, ou uma pessoa que lhes seja familiar. Desta forma, conseguem visualizar melhor suas características físicas e emocionais. Dependendo do tipo de ficção, você pode defini-lo imediatamente através de alguém mundialmente conhecido. Por exemplo: Jorge era um Tom Cruise brasileiro. Ou então: Se Tom Cruise tivesse um irmão gêmeo, então Jorge, sem dúvida, seria o próprio. Se o escritor não deseja caracterizá-lo demais, para não transmitir uma carga emocional provavelmente negativa ao personagem, pode optar por defini-lo através de uma ação. Cuidado, entretanto, quando se está escrevendo na primeira pessoa e o próprio terá a incumbência de passar esta informação ao leitor. Se ele disser que é assim ou assado, o cuidado deverá ser no tom da narrativa, pois pode se tornar cabotino, depreciativo, pretensioso ou jocoso em excesso. Os personagens secundários não devem ser introduzidos numa única cena. Por exemplo: numa história em que dez pessoas se unem para assaltar o trem pagador, não é recomendável que o escritor gaste várias páginas descrevendo cada um dos dez personagens reunidos numa sala, onde estão planejando o assalto. Introduza-os gradativamente. Veja quem são os mais importantes e os faça interagir. Em outra cena, introduza mais um personagem através de alguma ação. Não faça excessivos flashbacks (registro de recordação ou de fato já ocorrido) para não cansar o leitor e desviar a atenção da trama principal. Cuidado para não se perder na descrição de personagens sem importância. Por exemplo: Numa cena onde Manoel e Maria estão almoçando em seu restaurante favorito, são servidos por Josefina, moça que não tem a menor importância na trama. No entanto, o escritor resolve escrever a seguinte cena. “Manoel virou-se para Josefina, a garçonete, e pediu-lhe mais um chope. Ele sabia que poderia contar com Josefina, uma jovem de vinte anos que estava trabalhando em seu restaurante favorito há dois anos. Ela viera do nordeste e mandava todo o seu dinheiro para a mãe doente, lá pelas bandas de Campina Grande. Seu sotaque nordestino não traía sua procedência e sua magreza mostrava que sempre se alimentara

20

O sucesso de escrever

mal. No entanto, desde que chegara ao Rio de Janeiro, havia engordado e já se mostrava mais cheinha”. Se a garçonete Josefina não irá aparecer mais na trama, para que assoberbar o leitor com mais um personagem, definindo-o e ainda dando informações desnecessárias? Quem irá se importar com a pobre Josefina, já que não irá mais aparecer na história.

Se for importante que, naquela cena, Josefina se destaque, seja breve e rotule-a:

“Manoel virou-se para a garçonete e pediu-lhe mais um chope. Ele sabia que poderia contar com a atenciosa Josefina; sempre se sentava em sua praça e era muito bem atendido pela franzina paraibana”.

A rotulação de personagens nada tem de imoral ou de leviano. É apenas um meio

rápido de defini-lo para que o leitor saiba de quem se trata. Por exemplo: O ursino Paulo. O bovino Paulo. O taurino Paulo. O atarracado Paulo. O magricela Paulo, etc.

Ao mencionar uma característica psicofísica de um personagem você está apenas conferindo certas características gerais e imprecisas, sem definir em excesso, deixando margem para que o leitor possa imaginar. Neste caso, você estará apenas direcionando

a imaginação do leitor, não o deixando completamente à deriva. Se o escritor não der

pelo menos uma certa caracterização, corre o risco do leitor imaginar algo diferente. No entanto, use o bom senso. Por exemplo:

“O deputado Macedo ficou satisfeito com a presença do taurino Paulo. Desde que fora ameaçado de morte contratara os serviços daquele guarda-costas”.

Ao definir taurino, estamos nos referindo a um homem forte, mas se tivéssemos

usado ursino, seria diferente, pois um touro é forte, músculos bem definidos e tem certa agilidade e elegância. Já um urso é gordo, pançudo e, embora também seja muito forte,

é basicamente desengonçado. Veremos, mais adiante, outras formas de introduzir os personagens através da ação.

É importante entendermos bem os vários tipos de personagens que interagem numa

história.

21

Albert P. Dahoui

2.3 – Os vários tipos de personagens

Numa história, teremos uma série de personagens que, vamos fazer de conta, estão sentados num carro bem grande. No banco da frente, poderemos ter vários personagens que chamaremos de passageiros principais, enquanto no banco de trás, estão sentados os passageiros secundários. Cuidado: nas diversas paradas do veículo, os passageiros poderão trocar de lugar, mas de modo geral, os da frente continuarão mais importantes para a trama do que os secundários, que estão sentados atrás. Definiremos cada um como fazendo parte de um par de personagens que está sempre em litígio – não necessariamente num combate de vida e morte. Colocar um contra o outro é parte da trama. Atenção: no decorrer da história quem é amigo num instante da trama pode mudar de lado ou nem sempre estar de acordo com o outro. O primeiro passageiro é o motorista, aquele que conduz a história. É o personagem principal (alguns gostam de chamá-lo de Protagonista). Ele é antagonizado pelo personagem denominado de Antagonista. Ambos estão no banco da frente da história. Cuidado: O Antagonista pode ser uma pessoa, mas, como já mencionamos, pode ser uma circunstância fortuita – uma guerra, uma doença, um evento cataclísmico, ou o Império (Vide Guerra nas Estrelas – O Império do mal é o antagonista de Luke Skywalker – o protagonista ou o herói do filme). Eles formam um par: é o duelo entre o Protagonista e o Antagonista que faz a trama ficar emocionante. Ainda no banco da frente, temos mais um par a que chamaremos candidamente de Anjo da Guarda ou Guardião e o Demônio da Tentação ou o Tentador. Ambos estão em conflito um com o outro e têm influência sobre o Protagonista. Enquanto o Guardião é aquele que aconselha e orienta o herói para melhor alcançar o seu objetivo, o Tentador é aquele que oferece caminhos alternativos, muitas vezes mais conciliadores e até mesmo

22

O sucesso de escrever

mais instigantes, mas que poderão desviar nosso herói do seu real objetivo. Em Guerra nas Estrelas, o Guardião é o velho cavaleiro Jedi Obi-Wan-Kenobi (Todos devem lembrar-se como ele dizia sempre a Luke para que tivesse cuidado com o lado negro da Força!) enquanto o Tentador é o arquivilão Darth Vader (dizendo: “Venha para o lado negro da Força, jovem Jedi”). Muitos poderão dizer que Darth Vader é o Antagonista, mas, se observar bem, verá que Darth Vader deseja que seu filho (Luke) venha para o seu lado e não o quer morto. No banco de trás, temos mais dois pares de personagens. Um é o Incentivador que faz par com o Cético. O Incentivador é o amigo de todas as horas que deseja que o Protagonista vença. Já o Cético é aquele que duvida do sucesso do Protagonista. Em Guerra nas Estrelas, o Incentivador é o robozinho AR2D2, enquanto que o Cético é Han Solo (Nada para ele dará certo e lutar contra o Império é loucura, assim como não acredita na existência da Força). O outro par do banco traseiro é o Racional que faz par com o Emotivo. Para o Racional as decisões são obviamente lógicas. Há mesmo uma certa frieza em seu procedimento, enquanto o Emotivo é o contrário, sendo dominado pela Emoção. Essas definições são o que denominamos de Arquétipos e, como todo arquétipo, são estruturas simples, já que são simplificações da realidade. No entanto, em histórias que denominamos de Argumento Completo ou Grandes Romances, os personagens são muito mais complexos. Nada impede que o autor tenha em mente os principais arquétipos e os vá tornando mais complexos. Não há inconveniente que o escritor os mescle ou que os faça alternar o comportamento. Por exemplo, o Cético pode se tornar Emotivo e mudar seu ponto-de-vista para depois retornar ao seu estado primitivo. O que se deve evitar é que os personagens tenham características díspares ao MESMO TEMPO, pois isto confunde o leitor e torna a história inverossímil. Por exemplo, como pode um Cético, que acha que tudo vai dar errado, ser, AO MESMO TEMPO, Incentivador. Imaginem a seguinte cena.

23

Albert P. Dahoui

Jorge quer construir um Shopping Center e Roberto é Cético e AO MESMO TEMPO Incentivador. Teríamos um diálogo surrealista. – Jorge, sua idéia de construir um Shopping Center é ótima, mas não vai dar certo. No entanto, se você conseguir o dinheiro pode ser que até consiga, mas com certeza você irá fracassar. Qual é a posição deste personagem? Ninguém age desta forma. Ou é a favor ou é contra e nunca ‘muito pelo contrário’, como se diz vulgarmente. O mesmo acontece com os pares – Protagonista e Antagonista, etc. Ninguém pode servir A DOIS MESTRES AO MESMO TEMPO. Imaginem o Guardião sendo também, simultaneamente, o Tentador. Salientamos agora outro aspecto da criação de Personagens: o Obstaculizador. Este

personagem não é necessariamente o Antagonista, mas aquele que cria obstáculos para

o Protagonista. Por exemplo, em Guerra nas Estrelas, o Obstaculizador é Obi-Wan-

Kenobi. Como é possível que ele seja simultaneamente o Guardião e o Obstaculizador?

Para todos os efeitos, a nossa primeira idéia é que seria Darth Vader. Todavia, se observarmos atentamente, veremos que é Obi-Wan quem diz a Luke que ele não está pronto ainda para enfrentar Darth Vader; que ele deve se preparar aprimorando-se nas técnicas Jedi. Ou seja, ele obstaculiza sua ação imediata por não achá-lo pronto ainda, mas não é o seu Antagonista que, no caso, continua sendo o Império. Numa história, o Obstaculizador pode ser um pai ou uma mãe que mesmo sendo um Guardião eventual não permite que o filho saia de casa para enfrentar os desafios da vida. O Obstaculizador pode criar obstáculos seja por amor ou ódio ou outra razão qualquer ao Protagonista. O Obstaculizador não é o Antagonista. O Antagonista é o que se opõe aos desejos do Protagonista, já o Obstaculizador é aquele que impõe obstáculos não necessariamente para impedir o Protagonista de atingir seu objetivo, mas com o intuito, muitas vezes, de prepará-lo, defendê-lo e aperfeiçoá-lo. Retornando um pouco ao Protagonista, temos que salientar alguns fatos relevantes.

O nosso herói ou anti-herói, não importa, deverá ter UMA das duas características de

24

O sucesso de escrever

AÇÃO: ou ele será um Realizador Ativo ou será um Realizador Passivo. Na maioria das histórias, o Protagonista é um Realizador Ativo, ou seja, ele realiza coisas devido ao seu ímpeto, sua vontade, sua determinação. Já um Realizador Passivo será alguém que atingirá seu objetivo levado por circunstâncias fortuitas ou sobre as quais não tem domínio ou, nem sequer, desejo de dominá-las. Nada contra os realizadores passivos, mas normalmente não dão boas histórias. O público deseja gente que vença a sua própria inércia, que vença as circunstâncias negativas, que vença os desafios, portanto, Realizadores Ativos. Entretanto, nada impede que se consiga uma boa história sobre um realizador Passivo, mas não o recomendo a um escritor neófito. Outro aspecto sobre o personagem principal ou Protagonista é se, no final da história, ele terá se modificado intimamente ou se permanecerá o mesmo de quando começou. Cada história poderá abordar um ÚNICO aspecto. Ninguém poderá continuar o mesmo e ter se modificado. Escolha, portanto, como ficará o seu personagem. Normalmente o Realizador Ativo também se modifica no curso da História, de preferência para melhor. Em Guerra nas Estrelas, Luke é um Realizador Ativo (é ele que quer lutar contra o Império, é ele que deseja derrotar Darth Vader, pois acha que foi ele que matou seu pai, sem saber que ele é de fato seu pai). Ele começa a história como um simples garoto do interior num planeta esquecido na Galáxia e termina como um poderoso e sofrido cavaleiro Jedi. Para tanto, teve que vencer os obstáculos e a si próprio. Nada impede, entretanto, que o herói não se modifique e que seja esta a sua grande virtude. Vencendo todos os obstáculos, ele não se desvirtua e continua impoluto. Pode dar uma boa história. Daremos a seguir dezesseis arquétipos que ajudarão a construir personagens mais interessantes. Para torná-los mais empolgantes, mescle dois ou mais aspectos de cada um deles. Nada os impede de mesclar os dois aspectos, o feminino e o masculino, já que

25

Albert P. Dahoui

todos temos os dois aspectos nos nossos hemisférios cerebrais, sendo que o ideal é balancear ambos de modo equilibrado.

2.4 – Arquétipos

Desenvolvemos 16 tipos, sendo que servem apenas para dar uma base inicial. O escritor poderá usar e mesclar os vários arquétipos à sua vontade.

O Comerciante

Principais características de caráter: Articulador inato. Político por natureza. Gosta do comércio e das finanças e tem forte aptidão para os negócios. Inspira confiança por sua natural simpatia. Sensual. Debochado.

Lado negativo do caráter: Enganador e astucioso. Traiçoeiro e caluniador. Depravado e com tendência aos vícios.

Características físicas: Esguio, sorriso debochado e olhar perscrutador. Não é fisicamente bonito, mas o conjunto agrada.

O Guerreiro

Principais características de caráter: Violento, briguento e impulsivo. Franco em excesso. Não se abate mesmo nas piores derrotas. Mudança rápida de humor. Ataques rápidos de fúria. Não guarda rancor.

Lado negativo do caráter: Cruel. Mesquinho e egoísta. Acovarda-se perante o perigo físico. Tendência a ataques de fúria destrutiva.

Características físicas: Forte com tendência a ser magro. Rosto arrogante, nem sempre belo.

26

O sucesso de escrever

O Caçador

Principais características de caráter: Esperto, rápido um tanto nervoso, sempre em movimento e alerta. Tem iniciativa. Generoso e hospitaleiro.

Lado negativo do caráter: Inconseqüente, infantil, buliçoso e inconstante. Gosta de aumentar seus feitos (mente mais para se vangloriar do que para enganar com propósitos escusos), arrogante e despótico.

Características físicas: Alto, longilíneo, atlético, bonito e másculo. Simpático, mas altaneiro.

O Mago

Principais características de caráter: Equilibrado, mais para velho, controla bem suas emoções. Não tem uma concepção estreita de moral e de justiça. Tem uma forte energia criadora, mas tem a tendência de ser um realizador mais passivo do que ativo.

Lado negativo do caráter: Raivoso, vingativo e rancoroso. Estreiteza de mente. Não mede esforços para se vingar de um desafeto.

Características físicas: Magro, pequeno e algumas vezes apresenta defeitos físicos nas pernas. Rosto sério que pode inspirar respeito ou temor.

O Ancião

Principais características de caráter: Rabugento, mais para negativo perante a vida, ponderado e experiente. O Cético, por natureza.

Lado negativo do caráter: Masoquista, doenças imaginárias, antipático, insatisfeito com a vida, lamuriento.

27

Albert P. Dahoui

Características físicas: magro e raquítico. Rosto sério que inspira respeito.

O Terapeuta

Principais características de caráter: Racional, sério, obstinado, infunde confiança, experiente e solicito.

Lado negativo do caráter: Antipático, arrogante e despótico.

Características físicas: Alto, forte tendência à obesidade, mais para ursino do que taurino.

O Monarca

Principais características de caráter: Ponderado, organizado, político no bom sentido, simpático, conciliador e bom administrador de homens e recursos, mescla equilibradamente benevolência e severidade.

Lado negativo do caráter: Enganador, fraudulento, insidioso e manipulador, além de mulherengo e desonesto nas suas relações. Tendências suicidas se vier a perder seu domínio.

Características físicas: Forte, taurino, com certa tendência à obesidade e porte majestoso.

O Príncipe

Principais características de caráter: Altivo, simpático, brigão e rixento, ar levemente debochado, sincero e determinado. Persegue seus objetivos com tenacidade e inteligência.

Lado negativo do caráter: Violento, inconseqüente, obstinado, juvenil.

Características físicas: Alto, esguio, forte, elegante, viril e rosto másculo e bonito.

28

O sucesso de escrever

O Mestre

Principais características de caráter: Simpático, meigo, determinado, adaptável e de gênio brando.

Lado negativo do caráter: tendência ao vício e ao sexo desbragado, teimosia burra, falsidade.

Características físicas: Magro, baixo, rosto simpático nem sempre belo, mas agradável.

O Pescador

Principais características de caráter: Alerta, buliçoso, esperto, um tanto recluso, infantil.

Lado negativo do caráter: Misógino, espantadiço, tendências homossexuais.

Características físicas: Atlético, rosto feminino, simpático.

O Xamã

Principais características de caráter: Paciente, perseverante, generoso, equilibrado e sábio.

Lado negativo do caráter: tendência ao descontrole emocional, astúcia, tendência à duplicidade.

Características físicas: Alto, esguio, rosto feio lembrando um animal de rapina ou uma cobra.

29

Albert P. Dahoui

A Donzela

Principais características de caráter: Meiga, graciosa, maternal, elegante e sedutora.

Lado negativo do caráter: Falsidade, sensualidade exacerbada, consumismo doentio. Exagero no vestir.

Características físicas: Bela, roliça e naturalmente sensual. Tendência à obesidade quando mais velha.

A Cerebrina

Principais características de caráter: Forte, autoritária, organizada e inteligente. Adora crianças, mas nem sempre tem paciência para educá-los.

Lado negativo do caráter: Tirânica, tendências ao descontrole emocional, loucura.

Características físicas: Quadris e seios largos, rosto sério. Tendência à obesidade

e ar matronal.

A Guerreira

Principais características de caráter: Belicosa, fiel, ciumenta e sensual. Demonstra determinação e age, algumas vezes, usando mais o emocional do que

o racional.

Lado negativo do caráter: Infiel e explosiva. Tendência à prostituição e a vulgaridade.

Características físicas: Sensual, nem sempre bela, mas atraente.

30

O sucesso de escrever

A Anciã

Principais características de caráter: Calma, benevolente, justa e digna.

Lado negativo do caráter: Rixenta, explosiva e tendência a julgar precipitadamente as pessoas.

Características físicas: Rosto severo com certa bondade, corpo esguio.

A Militante

Principais características de caráter: Valorosa, ciumenta e muitas vezes incompreendida devido ao seu modo um tanto masculino.

Lado negativo do caráter: Ciúme doentio, força excessiva e tendência à tirania. Nem sempre usa a inteligência para obter o que deseja, preferindo a força bruta.

Características físicas: Forte, masculinizada e rosto severo.

Se desejar basear-se nos arquétipos acima, sugerimos que mescle os tipos, tornando- os mais complexos. Construa um personagem usando os lados positivos e negativos de sua personalidade, ou seja, seus pontos fortes e fracos, para conseguir alguém bem próximo da realidade. Para aqueles que gostam dos aspectos esotéricos da realidade, pode usar as definições de Raios (os sete raios divinos), o que facilita a construção dos personagens. Há, também, um estudo psicológico intitulado Eneagramas, que podem lhe dar nove aspectos sobre a personalidade humana. Além destes instrumentos, é muito comum que um personagem tenha aspectos masculinos e femininos em proporções variadas. Caberá ao escritor brincar de Deus – é divertido – e arquitetar um personagem interessante. Quanto mais original o seu personagem for, mais instigará o leitor a continuar lendo.

31

Albert P. Dahoui

2.5 – A mente masculina e a feminina

Um outro aspecto sobre a personalidade dos personagens: mesmo sendo de sexo masculino, o personagem pode ter características femininas sem que, com isso, seja homossexual. Aliás, a homossexualidade nada tem a ver com a personalidade, pois há homens que tem características masculinas – um Guerreiro, por exemplo – e são homossexuais. O mesmo acontece com mulheres que podem ter a sensualidade de uma Donzela, mas optarem por relações com outras mulheres. Portanto, é preciso ter cuidado ao construir um personagem que seja homossexual para não transmitir idéias equivocadas ao leitor. Daremos a seguir algumas características da mente masculina e da mente feminina, sempre lembrando que nada impede que um homem também tenha a mente feminina desenvolvida e uma mulher, a uma mente masculina bem desperta. Deste modo, se o escritor optar por ter uma personagem feminina, por exemplo, poderá dar-lhe algumas características do arquétipo O Caçador, por exemplo, sem que isto provoque inconsistências na mente do leitor. Para entendermos bem este complexo assunto, começaremos dizendo que muito do que aprendemos nos é ensinado. Todavia, durante a gravidez, quando nosso sexo é definido, nossa mente passa a ter características que, por falta de uma definição melhor, chamamos a essa mente de masculina ou feminina. A mente masculina define uma forma de pensar mais espacial que tem a tendência de resolver os problemas de um modo mais linear, construindo seu raciocínio de modo lógico e racional. A mente masculina estabelece um determinado objetivo, determina os passos necessários para atingi-lo e envida, então, os esforços necessários para alcançá- lo.

Já a mente feminina é mais temporal (há uma percepção de que as coisas se modificam e podem ser modificadas como um todo e não só em parte) e tem a tendência de resolver os problemas de um modo mais holístico, ou seja, de uma forma

32

O sucesso de escrever

mais global. Ela imagina as coisas como deviam ser, determina como as coisas devem

ser modificadas para que fiquem de acordo com sua visão global e depois faz os ajustes para alcançar o desejável.

A aquisição do saber se faz por duas vias. Uma é racional, analítica, lógica e linear

que irá resultar numa abstração que se manifesta na função psíquica do pensamento. Já

a segunda via é através da sensação que o hemisfério direito do cérebro processa como

se fosse uma imagem, algo que chamamos de intuitivo. Para que a sabedoria se manifeste é necessária uma via experimental, sintética, não-linear, intuitiva e de um mergulho na essência, que é resultante do trabalho do lado direito do cérebro. A

musicalidade, a captação dos padrões, a percepção direta e imediata, mística e intuitiva

é função da mente situada no lado direito do cérebro. Para se ter uma idéia mais precisa, daremos algumas abordagens:

A mente feminina procura por motivações, enquanto a masculina olha para o

propósito, as causas.

A mente feminina observa conexões entre os fenômenos, enquanto que a masculina

tenta juntar evidências.

A mente feminina estabelece condições, enquanto que a masculina estabelece

exigências.

A mente feminina estabelece os pontos em que irá restabelecer o equilíbrio,

enquanto a masculina subdivide o assunto em partes para poder abordar cada item individualmente (mais espacial e menos temporal).

A mente feminina busca realização (que pode ser a longo prazo), enquanto a

masculina procura por satisfação (quase sempre imediata).

A mente feminina se concentra nos ‘por quês?’ e nos ‘quando?’, enquanto a

masculina procura entender os ‘como!’ e os ‘de que forma!’.

33

Albert P. Dahoui

A mente feminina procura colocar os assuntos num dado contexto, enquanto a mente masculina procura discutir os assuntos especificamente, isolando-os do contexto.

Nos arquétipos acima citados, são predominantemente femininos: a Donzela, a Guerreira e a Anciã. São predominantemente masculinos: o Comerciante, o Guerreiro, o Caçador, o Mago, o Ancião, a Militante, o Terapeuta, o Rei e o Príncipe. Já os personagens: o Mestre, o Pescador, a Cerebrina e o Xamã são ambivalentes, tendo tanto raciocínio masculino como feminino, sendo, portanto, mais completos e complexos. De posse dessas ferramentas, o escritor estará pronto para construir personagens únicos, pois sem que haja, pelo menos, um Protagonista de fato especial, dificilmente se poderá vir a ter uma história interessante.

2.6 – Contrariando o desejo do Protagonista

Como já mencionamos, toda a história deve girar em torno de um objetivo que o Protagonista anela imensamente. Deve ser algo de real importância ou simplesmente não haverá história. Repetindo, apenas para fixar bem na mente do leitor, dizemos que um personagem não deve querer algo de fútil ou mesmo de terrível (matar alguém, provocar uma calamidade tenebrosa como uma guerra nuclear), pois o leitor poderá não concordar com tal desejo. Por outro lado, se o desejo do personagem for algo de fácil obtenção, a história ficará sem atrativos. Se não houver conflito, não há trama, nem história. Por exemplo, um homem deseja se casar com uma determinada mulher. Ela também o ama e quer se casar. Não há obstáculos. Ele é dono de um grande colégio. É rico e desimpedido e ela também. Onde está o problema? Onde está o conflito? Final da história, eles se casam, tem filhos maravilhosos e vivem felizes para sempre. Que ótimo para eles, mas que chatice para o leitor!

34

O sucesso de escrever

Sem conflito, sem que haja um desejo contrariado, não há a menor graça. No entanto, imaginem agora que dentro do quadro acima pintado, na véspera de seu casamento, o homem é acusado de molestar sexualmente várias crianças de sua escola. Ele jura inocência. Devido à natureza tenebrosa do crime, a noiva se afasta horrorizada – mais um elemento complicador – e agora, além de ter que demonstrar sua inocência, o noivo precisa ganhar novamente a confiança da mulher amada. Para complicar, ele é preso e não tem liberdade para movimentar-se e poder provar a sua inocência. Ele é condenado a dez anos de prisão. Na prisão, ele é sodomizado e surrado. A mulher amada casa-se com um antigo namorado e manda um recado dizendo que nunca mais deseja vê-lo. Agora sim temos uma história. Como irá se livrar da acusação? Quem o ajudará? Reconquistará a mulher amada ou encontrará outra? Mas, será que ele é inocente mesmo? Agora temos os ingredientes de um belo drama.

2.7 – Definindo o Antagonista

Assim como definimos o Protagonista, temos que definir o Antagonista – aquele ou aquilo que irá criar todos os obstáculos para que nosso protagonista não consiga o sucesso que almeja – o seu desejo satisfeito. Mais uma vez depende do tipo de literatura. Se estivermos escrevendo fantasia, nosso vilão poderá ser um tenebroso demônio com características fantásticas. Podemos ter um vilão estereotipado, cheio de vícios, uma pessoa nociva, possuída de pensamentos maldosos e que nem sempre age com lógica. Sua vida resume-se em atrapalhar nosso herói ou heroína. Todavia, se estamos escrevendo uma história contemporânea, nosso vilão deverá ter características mais humanas. Ele deverá ter sua própria vida, provavelmente com mulher, filhos, amigos que o acham uma excelente pessoa.

35

Albert P. Dahoui

O fato de ele ser o Antagonista não o coloca como um ser desprezível de imediato.

Imaginemos que duas pessoas disputam uma promoção numa empresa. Um é nosso herói e o outro, pela própria colocação do escritor, torna-se nosso Antagonista. Mas isto não o torna um monstro, nem um Darth Vader – vilão de Guerra nas Estrelas – nem o professor Moriart, arquiinimigo de Sherlock Holmes ou um Lex Luthor, inimigo mortal de Super-Homem. Poderá ser também uma pessoa simpática, com seus próprios desejos

e necessidades. Deverá necessitar tanto desta promoção quanto o nosso Protagonista.

Poderá ser o melhor amigo de nosso herói, o que é elemento complicador. Aliás, isto dará mais pimenta à nossa história. Por quem torceremos? Ambos são excelentes, mas a vaga é de um só. Quem a conseguirá? Ou subitamente, num final surpreendente, os dois são despedidos e o sobrinho do dono é guindado à posição desejável? Mas, quem sabe se os dois não juntam forças e se tornam sócios numa empresa concorrente? Estas reviravoltas são importantes na história para dar um certo toque moral à narrativa. Uma outra situação é que os dois, por causa desta luta pela vaga de diretor e seu

salário multimilionário se tornam inimigos e, no final, o sobrinho do dono passa a perna neles. Valeu perder a amizade por dinheiro? Todavia, pode ser que o nosso vilão não seja uma pessoa, mas circunstâncias, como já foi mencionado, que o impeçam de realizar seu intento. Pode ser um temporal, um acidente, uma guerra, algo que foge de seu controle. Nosso herói terá que vencer circunstâncias além de pessoas para atingir seu objetivo. CUIDADO: Nem sempre o vilão é o Antagonista. Pode ser o Tentador (lembrar Darth Vader). Se for um drama psicológico, pode ser que o maior adversário seja o próprio personagem. Pode ser que ele tenha uma falha de caráter que ele sabe que tem e se detesta por isto. Sua luta é para vencer um vicio, uma deficiência ou uma fobia. O vilão

é, portanto, sua limitação que o impede de ser feliz.

Não é incomum que o vilão da história seja mais interessante do que o próprio personagem principal. Hannibal, o canibal de O Silêncio dos Inocentes torna-se mais

36

O sucesso de escrever

interessante do que a mocinha que persegue o assassino serial (Hannibal aqui é um estranho Guardião!), assim como Darth Vader chama mais a atenção dos fãs de Guerra nas Estrelas. Isto pode ser um problema, pois a identificação do leitor com o vilão pode levá-lo a não gostar do final, quando o herói finalmente consegue o que deseja. Nos antigos filmes de Hollywood, muitos torciam pelos índios e ficavam tristes quando eram vencidos pela cavalaria americana que sempre chegava na última hora para salvar o mocinho. Se o escritor intuir que o vilão pode se tornar amado pelo leitor, ele poderá sempre chegar a um final em que o vilão não é totalmente derrotado (Em Guerra nas Estrelas, Darth Vader se transforma no final, retorna à Luz e mata o Imperador do mal. Aliás, é um final excelente já que evita que o mocinho tenha que matar o Imperador pessoalmente, o que seria um mau exemplo para os jovens. Tal ato demonstraria que os meios justificam os fins, o que é moralmente inaceitável). O herói conseguirá seu objetivo, mas um outro tipo de vitória pode ser conferido ao vilão, recompensando-o. Resumindo: defina bem a personalidade do antagonista – o vilão da história –, pois grande parte do conflito, que irá gerar uma boa história, repousa sobre seus ombros. Ao definir a forma de agir e de pensar do antagonista e o ardente desejo do protagonista, você terá meio caminho andado para escrever um best-seller. Deixe o seu Fluxo mental Criativo (FMC) conduzi-lo pelos meandros da alma humana e você terá uma excelente trama, sem ter que ficar inventando voltas, reviravoltas e embargos que não fazem a história progredir.

37

Albert P. Dahoui

3 – Estrutura da história

3.1 – Estruturas básicas

Falemos inicialmente de Ficção. Há várias formas de se contar uma história. Abordaremos algumas, mas lembrando ao escritor que da quebra de regras, muitas vezes, nasce uma obra-prima. Todavia, até para se quebrar uma regra é preciso conhecê-la. Normalmente uma história é dividida em Capítulos. O tamanho do capítulo pode variar grandemente, contudo, mais adiante, falaremos de tamanho quando falarmos em ritmo e progressão da história. Normalmente os capítulos são numerados. Em algumas histórias, além da numeração, pode-se atribuir um subtítulo, mas isto de certa forma, antecipa ao leitor o que vai acontecer. Se for bem feito, pode ser uma forma de instigá-lo a ler o capítulo, mas é preciso cuidado para não revelar antecipadamente a trama. Normalmente, um capítulo aborda vários eventos que podem ser sucessivos, simultâneos ou apresentados em flashbacks. Cada um desses eventos pode ser visto como uma cena. Pode-se, no entanto, não dividi-los em cenas e mesclá-los. Esta técnica pode ser confusa e para melhor entendimento do leitor, é preferível que as cenas sejam bem distintas. Para separar uma cena da outra, pode-se numera-las (o que é mais raro) ou apenas dar o espaço de uma ou duas linhas entre a última linha da cena que terminou e da cena que está preste a começar. Pode-se também usar símbolos como *** ou ••• para caracterizar o fim de uma cena e o início da outra. Fica a critério da editora e/ou do autor. Não há um tamanho definido para uma cena. Ela pode ocupar, no mínimo, um parágrafo, mas pode chegar a várias páginas. O que caracteriza a cena é um evento, completo ou incompleto. Para maior clareza, não é recomendável misturarem-se dois

38

O sucesso de escrever

ou mais acontecimentos numa mesma cena, a não ser que se deseje expressar uma simultaneidade imperiosa. O parágrafo é uma das menores divisões de uma cena. Também não há regra para o tamanho do parágrafo. Em tese, o parágrafo foi feito para agrupar um sub-evento ou uma linha de raciocínio. No entanto, há escritores que fazem parágrafos gigantescos, até mesmo de várias páginas. Mais adiante, veremos em ritmo e progressão da história, as vantagens e desvantagens do tamanho do parágrafo. Finalmente, chegamos ao período que é uma frase composta de uma ou várias proposições formando um sentido completo. Difere um pouco quando se trata de um diálogo, pois este pode ser interrompido por um outro personagem ou por um fato súbito, ficando incompleto. Quando mencionarmos ritmo e progressão, falaremos de tamanho do período. Todavia, apenas mencionaremos agora que um período pode ou não ser dividido por vírgulas, ponto e vírgula ou dois pontos e terminará sempre por um ponto, um ponto de exclamação, um ponto de interrogação ou, mais raramente, reticências (três pontos). Resumindo, tanto um livro de ficção como um trabalho de não-ficção é normalmente dividido em capítulos, e estes, em cenas. Uma cena tem um ou vários parágrafos que, por sua vez, têm um ou vários períodos. Alertamos, porém, para o fato de que há livros de sucesso que não são divididos em capítulos e cenas, e sua estrutura linear não apresenta interrupções nem intermissões. Não há, portanto, método infalível, mas sistemas que podem dar certo num caso e no outro não funcionar tão bem. Tudo dependerá de como se estruturar a história.

3.2 – Estrutura básica de uma história

Uma história pode ser estruturada de diversas maneiras. O normal é levarmos algumas páginas introduzindo os personagens e seus dramas pessoais. Assim, o leitor

39

Albert P. Dahoui

irá identificando a situação que irá sendo criada. A boa técnica nos avisa que o leitor é impaciente por natureza e se o escritor perder muito tempo em circunlóquios, corre o risco de perder também o leitor. Hoje em dia, com o leitor extremamente visual é recomendável que se ingresse logo na ação. É preciso fazê-lo participar logo da situação

e não perder tempo com belas frases de efeito que não têm efeito nenhum. Tendo disposto as cartas na mesa, por assim dizer, o escritor deve logo expor o problema. Este conflito é chamado em cinema de Plot Point ou Ponto de Virada. É

chamado assim, pois a história ia sendo apresentada com a introdução dos personagens

e do desejo do Protagonista, quando então – no Ponto de Virada – somos levados a um

primeiro impacto (ou surpresa) e o conflito se instaura. Neste ponto, o leitor já identificado com o Protagonista e conhecendo a maioria dos personagens é levado ao cerne do embate. Chamamos de Introdução (os americanos chamam de Set Up) todos os assuntos – apresentação dos personagens, situações antecessoras e necessárias para o estabelecimento do conflito e, finalmente, o conflito – pertinentes para levar o leitor a entender para onde se encaminha a história. A Introdução é o Primeiro Ato ou Parte e termina com o estabelecimento do conflito propriamente dito. Os americanos dividem suas histórias em três atos. Todavia, como o termo Ato é próprio do Teatro, usaremos a nomenclatura Partes. Na segunda parte teremos o Confronto ou também chamado de Confrontação. Durante vários capítulos, os contendores irão se digladiar (física ou emocionalmente) para que o Protagonista e o Antagonista possam alcançar seus respectivos objetivos. O Objetivo do Antagonista nem sempre é impedir o Protagonista de alcançar o dele, mas pode ser um objetivo excludente. Por exemplo: Ambos desejam se casar com a mesma pessoa. Basta um alcançar o objetivo que o outro estará automaticamente eliminado. Não há como os três conviverem juntos. Ou há? O escritor é que sabe! Normalmente a segunda parte – Confrontação – é a mais longa de todas. É comum que os autores dividam esta parte em duas sub-partes devido à sua longa extensão. Isto

40

O sucesso de escrever

é feito com o intuito de se criar mais tensão e tornar a história mais complexa e intrigante. Se o autor optar em dividir a segunda parte em dois, teremos que ter por volta do meio da primeira sub-parte o que o americano chama de Pinch, Embaraço. Desta forma, no meio da primeira sub-parte da Segunda Parte, teremos o Embaraço 1. Não é um Ponto de Virada, onde a história leva uma guinada; é apenas um ponto onde

o conflito se acirra devido a uma confrontação mais dramática dos personagens. Exatamente no meio do livro, entre a sub-parte 1 e 2, você terá o Ponto Médio. Este ponto pode ser ou de calmaria ou um momento de grande impacto dramático (ou cômico), se você estiver escrevendo uma comédia. Pode ser algo parecido como a descoberta do Protagonista sobre a mulher amada é, na verdade, sua irmã. Chocante, não é? Na segunda sub-parte da Segunda Parte – ainda na Confrontação – você terá também, no meio, outro Embaraço, chamado de Embaraço 2. Mais uma vez, um momento de dificuldade será vivido pelos nossos heróis, mas cuidado, o Embaraço não

é um Ponto de Virada; é apenas mais uma dificuldade que nosso herói terá que superar. A Segunda Parte – Confrontação – termina com um segundo Ponto de Virada ou, simplesmente, Reviravolta. Este é um novo elemento complicador, algo que, subitamente, muda toda a perspectiva da história. Ele é de tal natureza que surpreende

o leitor e o leva a ficar mais tenso no desenrolar da história. Tudo estava indicando que nosso herói iria resolver o problema de modo seguro, quando – tchan, tchan, tchan, tchan – apareceu um novo e inusitado problema que o irá lançar num novo caminho. Há casos em que a Confrontação, muitas vezes, é dividido em várias partes. Isto é particularmente verdadeiro quando se trata de um romance longo. Não será, portanto, apenas uma segunda parte, mas duas ou até mais Segundas Partes, em que através de Reviravoltas sucessivas, a história vai crescendo em tensão e suspense. Neste caso, teremos Confrontação 1, Confrontação 2, Confrontação 3 e assim sucessivamente. Cada final das diversas Confrontações terá que terminar com uma Reviravolta. O autor pode

41

Albert P. Dahoui

se dar ao luxo de criar várias Reviravoltas, inclusive para personagens secundários, desde que, no final, essas tramas secundárias se interliguem com a trama principal. É

obvio que se isto não acontecer, teremos pontas soltas, o que irrita o leitor e empobrece

a história. Portanto, crie quantas Reviravoltas quiser, mas não exagere, pois reviravoltas em excesso podem dar a idéia ao leitor de que o escritor o está enganando, ‘enchendo lingüiça’ como dizemos no linguajar cotidiano. E se há uma coisa que os leitores toleram mal é se sentirem enganados – compraram um livro de 500 páginas que podia ser resumido em 200: pagaram a mais por 300 páginas inúteis. Finalmente, temos a Terceira Parte, onde nossos personagens irão resolver definitivamente suas querelas. Por isto, chama-se a Terceira Parte de Resolução. Como a história termina é que irá definir o aspecto moral da história. Volto a insistir que escrever é algo muito particular: cada escritor desenvolverá seu próprio estilo. Ele poderá, portanto, não ter este tipo de estrutura e inovar de forma sensacional. Todavia, gostaria de alertar os novatos de que, enquanto não dominarem bem a técnica, não devem aventurar-se em desenvolver sistemas próprios. Poderão perder muito tempo e não obter resultados consistentes. Porém, assim que dominarem

a técnica, convido-os a inovarem, pois somente desta forma é que iremos progredir em

termos de literatura. É preciso tomar cuidado com os finais, pois se for muito óbvio, o leitor ficará desapontado. Se for trágico, provavelmente, o leitor não irá ficar satisfeito – ninguém gosta de derrotas. É fundamental que seja surpreendente, seja através de uma revelação de última hora, seja resolvendo um ou mais enigmas que durante a trama foram sendo apresentados ao leitor. Já dizia Syd Field, um célebre e laureado escritor de roteiros para cinema, que ele jamais começa a escrever uma história sem se ter decidido quanto ao final. Ele até se permite não conhecer o meio, nem mesmo as tramas principais e secundárias, mas já conhece como irá terminar sua história. Tendo em mente o final, ele poderá arquitetar tudo que desejar no meio, poderá introduzir um grande número de variáveis, mas sua viagem – coloquemos assim – já tem um destino final, e ele não

42

O sucesso de escrever

mudará este final por mais tentadores que sejam outros finais que venham a dançar em sua mente. Faça o mesmo. Tenha sempre o final em sua mente. É o destino de sua viagem. Não importando os meandros, as reviravoltas do destino de seus personagens, no final, chegarão ao destino. Um autor que se aventura a escrever um livro sem ter em mente um final é como um viajante que parte para uma jornada sem saber para onde se dirige. A fatalidade será sua eterna companheira.

3.3 – Algumas dicas de como estruturar uma história

Como é que você estrutura sua história? Mentalmente, responderá a maioria dos escritores. Na maioria dos casos, o escritor vai imaginando sua história (quase sempre começa pela trama) e vai construindo a história em torno de uma idéia. Outras vezes, ele é atraído por um evento e imagina toda uma história em torno deste evento verdadeiro ou imaginário. Outras vezes, ele imagina algumas cenas ou até mesmo um diálogo impactante. Há, no entanto, autores mais organizados que procuram escrever sucintamente suas cenas, construindo sua história à medida da inspiração (ou transpiração). Muitos têm um método enquanto outros confiam apenas em sua memória e na sua musa inspiradora. Não há método infalível e muito menos algo que seja perfeito. Os Americanos têm diversos métodos de desenvolvimento de histórias. Muitos estão disponíveis em softwares que ajudam o escritor a organizar sua história. Mencionaremos apenas alguns, pois, se o escritor desejar e souber razoavelmente bem a língua inglesa, poderá adquiri-lo. Ainda que não venha a utilizá-lo na íntegra poderá ser um instrumento interessante para ajudá-lo a raciocinar sobre sua história.

Dramatica Pro: é um software que o ajuda a escrever uma história de Grande Argumento. O software vai lhe perguntando uma série de coisas a respeito dos seus

43

Albert P. Dahoui

personagens, classificando-os de acordo com suas respostas e ajudando-o a raciocinar sobre as características e modo de agir dos personagens. Por outro lado, ele vai lhe oferecendo opções que o escritor pode ou não aceitar. Ajuda-o também a escrever uma sinopse da história, assim como da trama e da estruturação geral.

Storyview: é um software da mesma empresa que desenvolveu o Dramatica Pro que o ajuda a fazer uma sinopse de sua história, cena por cena, evento por evento, capítulo por capítulo. Possibilita mexer na seqüência das cenas e dos eventos, assim como reestruturar tudo. É particularmente útil para quem quer escrever para cinema e televisão, pois há mecanismos de tempo que lhe dão idéias excelentes sobre a duração das cenas. Desta forma, você poderá escrever para televisão com quatro cenas de 12 minutos e uma entrada (teaser) de 3 minutos. Ajuda também a estruturar um filme com 90, 120 ou 150 minutos.

Podem ser adquiridos pelo site dramatica.com. O custo dos dois alcança os 250 dólares.

Há também tutoriais excelentes e recomendamos os do Sol Stein, que oferece vários sistemas desde os mais simples até os mais complexos para escritores já experientes. Visite o site writepro.com. Os preços variam de 75 a 200 dólares. Sua forma de ensinar é muito fácil e exige bastante da mente do escritor, o que é ótimo. O seu Flabeditor é bastante útil e falaremos de flabs (gorduras) mais adiante em Lipoaspiração. Existe uma variedade de outros, mas não me sinto à vontade para recomendá-los já que não os experimentei pessoalmente. Mas sinta-se à vontade para testá-los.

O escritor experiente perguntará: onde está a inspiração? Onde está a arte? Se você usa um software para escrever, onde está a graça? Na realidade, esses softwares não escrevem o livro para você e nem lhe dão um produto embalado. Eles dão-lhe instrumentos para ajudá-lo a corrigir sua história, oferecer alternativas para quando sua

44

O sucesso de escrever

história ‘empaca’ e o ajudam a fazer um brainstorming. Todavia, se você não escrever sua história, nenhum desses softwares o fará. Há escritores que usam estes softwares depois que terminaram de escrever seu livro para testá-lo e para aprimorar o que já foi feito. É como se fosse um grande especialista, o qual você consulta e, utilizando o método do filósofo grego Sócrates – a maiêutica – de perguntas e respostas, o conduz pelos labirintos de sua mente e de sua história.

3.4 – Um método de estruturar uma história

Para aqueles que não dominam bem o inglês, sugerimos alguns instrumentos abaixo.

a) Antes de tudo, dê um título ao seu trabalho. É sempre bom dar um nome ao seu filho,

mesmo que possa trocá-lo na hora do registro civil, por assim dizer. No final, você poderá sempre dar um novo título, se assim desejar. Provavelmente, o editor vai também sugerir outros nomes que você irá aceitar ou não.

b) Comece sua história por uma Storyline – Fio Condutor. O Fio Condutor é um resumo

de, no máximo, cinco linhas. É um excelente exercício mental para você focar bem, desde o início, a sua história.

Por exemplo: Fio Condutor de A Guerra nas Estrelas.

É a história de Luke Skywalker, um jovem contra o Império do Mal que tiraniza uma Galáxia. Inicia com seu ingresso na seita de cavaleiros Jedi após a morte de seus tios. É treinado por um velho cavaleiro Jedi e, após um sem-número de peripécias, torna-se um mestre. Luta contra o Império na figura de Darth Vader, sem saber que se trata de

45

Albert P. Dahoui

seu pai. No final, ele derrota o Império e seu pai retorna para o lado brilhante da Força, após Darth Vader matar o Imperador.

No Fio Condutor, você sumariza a sua história. É um exercício excelente para que possa entender a sua intenção ao escrever a história. Não se preocupe: até o final você sempre poderá mudar o Fio Condutor, pois provavelmente sua história irá mudar também.

c) Agora escreva um sumário de, no máximo, uma página sobre sua história, baseando- se sobre seu Fio Condutor. No decorrer deste sumário você poderá começar a desenvolver a sua história. Tente fazer quatro parágrafos. No primeiro, você apresentará sucintamente os personagens, o desejo do Protagonista que deverá ser contrariado e o primeiro Ponto de Virada. No segundo e terceiro parágrafo, você descreverá a luta do Protagonista para alcançar o seu objetivo e terminará com a Reviravolta. No quarto e último parágrafo, você encerrará a história. Este sumário é interessante para visualizar a história em maior profundidade. Sem dúvida, você poderá estabelecer os oito mais importantes personagens da história:

Protagonista, Antagonista, Guardião, Tentador, Incentivador, Cético, Racional e Emocional. Obrigará você a definir pelo menos dois pontos de virada (você poderá ter quantos quiser, mas não exagere, pois o excesso de viradas pode cansar o leitor – ele poderá perguntar-se se essa história não termina nunca). Tudo que você estiver fazendo agora irá apenas ajudá-lo a começar a escrever a história. É muito comum que, no decorrer da história propriamente dita, haja grandes mudanças. Não se preocupe. Isso é ótimo. Se você não gostar, sempre poderá voltar para sua história original. Pior é não ter história para voltar. Saiba que o lado direito de seu cérebro irá assumir grande parte da escrita e os personagens irão adquirir vida própria. Não se assuste – é normal. Chama-se Fluxo Mental Criativo (FMC). Dá a impressão de que outra pessoa tomou conta de você e está escrevendo, mas na realidade é o lado direito de seu cérebro, a parte mais criativa, que

46

O sucesso de escrever

está atuando. Isto acontecerá de forma natural. Deixe-o fluir. Poderá acontecer que um ou mais personagens tomem um rumo que você não previu. Deixe-o caminhar. Você sempre poderá ‘podar’ o seu comportamento depois ou, então, gostar do que o seu lado direito escreveu, mesmo que contrarie todo o seu trabalho anterior. Você sempre poderá reescrever o que não gostou ou simplesmente deletar.

d) Procure agora fazer um sumário de poucas linhas de cada cena. Se você tiver o software Storyview ficará fácil, mas, se não tiver, você tem duas opções: usar cartões ou escrever no computador. Pessoalmente prefiro o computador, mas quem não usa este instrumento, use cartões. Neste caso, não precisam ser muito grandes; 15 cm por 10 cm é suficiente. Escreva a lápis, pois é mais fácil de apagar. Você pode fazer anotações no verso do cartão para se lembrar de fatos importantes a serem descritos.

O que deve ser escrito no cartão ou no computador? Um sumário bem resumido da cena. Por exemplo:

Cena 1. (Se quiser, dê um título apenas para você saber do que se trata. Por exemplo:

Perseguição em Nova Iorque).

Um executivo é perseguido nas ruas de Nova Iorque por três homens bem vestidos. Consegue entrar num edifício e vai até o último andar. Bate na porta de um escritório e tenta desesperadamente entrar, mas não há ninguém e a porta está trancada. Um dos homens fica no saguão e dá indicações aos dois que estão no elevador em qual andar o outro elevador parou. O elevador chega trazendo os dois perseguidores. Ele os vê, corre para a escadaria e consegue chegar ao topo do prédio. Os perseguidores o

47

Albert P. Dahoui

cercam e sua única saída é precipitar-se no vazio e cair os cinqüenta andares até a morte. Ele olha para trás e um dos perseguidores grita:

– Manoel, não seja tolo. Só queremos conversar. Ele vira-se e prepara-se para saltar para morte. No momento em que vai pular, se vira e grita: – A verdade prevalecerá.

Macete: Se quiser mudar depois a ordem da cena, e estiver usando o MS-Word, abra uma tabela no computador. Na primeira coluna, numere as cenas. Na segunda coluna, o título resumido da ação (se desejar). Na terceira e mais larga das colunas, escreva o texto. Se desejar abrir uma quarta coluna, poderá fazê-lo para anotações, como por exemplo, o nome dos personagens, o tipo (Protagonista=Guerreiro+Cerebrina), outras informações que achar pertinente, por exemplo: descrever a roupa dos perseguidores para mostrar que são homens ricos. Ao colocar isto numa tabela, você poderá modificar a ordem das cenas, apenas alterando o número e dando um comando para reorganizar, pois o computador fará o resto. Você poderá também escrever tudo em Excel, pois é mais fácil organizar tabelas e numerar de forma crescente as cenas e eventualmente somar alguma coluna adicional que você deseje, como por exemplo, o tempo de cada cena. Isto é particularmente útil para televisão e cinema ou teatro. Se estiver usando cartões, numere-os na parte superior direita, de preferência a lápis. Desta forma, você poderá trazer uma cena para a frente ou para trás, apenas re- numerando os cartões. Escreva todas as cenas e veja os Pontos de Virada. Anote o número da cena do Ponto de Virada em vermelho. Analise para ver se estão bem distribuídos. Se optar por dois Pontos de Virada e seu livro tiver cerca de 200 páginas, o primeiro deverá estar entre as páginas 40 e 45, terminando na página 50. O segundo Ponto de Virada – Reviravolta – deverá estar entre as páginas 140 e 145 e terminar a cena na página 150. O restante ficará para o desfecho da história.

48

O sucesso de escrever

– Mas eu não escrevo assim – dirá um escritor. – Eu simplesmente me sento e deixo a história fluir livremente. Quem me guia é a inspiração! – Maravilha – responderei. – Você não deixa de ter um método de trabalho, mesmo que aparentemente não tenha nenhum. É um método intuitivo que funciona muito bem para certos escritores talentosos, mas que pode levar a uma barafunda terrível aquele que está começando. Todavia, este livro é dedicado ao escritor novato ou que deseja ampliar sua gama de conhecimentos. Para esses, é interessante ter um certo método. Nada impede que você depois reveja como ficou sua história e compare com o que tinha planejado inicialmente. Com certeza, a sua história ficou muito mais interessante do que quando a planejou, mas responda-me com sinceridade: se você não tivesse planejado pelo menos uma trilha, você teria chegado ao seu destino? Provavelmente não. É muito fácil o escritor se perder nos meandros da inspiração e, no final de um trabalho, ou pior ainda, no meio dele, se encontrar perdido. E agora, para onde vai essa história? Seu herói virou bandido, seu vilão arrependeu-se e entrou para um convento, seu conflito morreu por falta de motivação e seus personagens tornaram-se inócuos e desvitalizados. O que fazer? Voltar atrás e reescrever, mas agora, do alto de sua experiência, você poderá guiar melhor o FMC – Fluxo Mental Criativo – para que ele não se transforme numa babel de idéias e que a parte racional de seu cérebro possa dar direção e estrutura à história.

Se você optar por escrever cena a cena, você poderá ter as seguintes vantagens:

1 – Uma visão geral da história antes mesmo de se aventurar a escrevê-la. Se a sinopse cena-a-cena já é impactante, trata-se, pois, de uma boa história. Então você sabe que terá menos cenas a reescrever no final.

49

Albert P. Dahoui

2 – Fica mais fácil agrupar as cenas por capítulos. Você não terá um capítulo com 5 páginas e outro com 40. Se, já na sinopse, uma cena é muito comprida, divida-a.

3 – Poderá analisar cena a cena para ver se você está revelando demais e,

portanto, tirando a tensão do leitor, ou se você está caminhando bem deixando

sempre o leitor ‘enganchado’ para a próxima cena.

4 – Você poderá analisar se a história está fluindo ou se ela se diluiu em algum ponto.

5 – Ponha em sua mente que um livro é um produto a ser comercializado por

uma editora e, portanto, deve ser estruturado para agradar ao leitor. Se sua história não lhe agrada, como irá agradar o leitor? Neste ponto, o escritor poderá dizer que escreve somente para seu próprio prazer. Sem problema! Acho excelente, mas se a história lhe agrada, provavelmente vai agradar a uma série de pessoas que pensam como você. E por que não ganhar dinheiro com

isso? Não há nada de errado em se ganhar dinheiro escrevendo. Portanto, prepare seu livro para ser um sucesso e não apenas mais um produto medíocre.

No final deste livro, dou um Método mais detalhado para estruturar uma história.

50

O sucesso de escrever

4 - Narrativa

4.1 – O Método do Actor’s Studio de Nova Iorque

O famoso Actor’s Studio de Nova Iorque desenvolveu um método que considero

muito imaginativo. No seu curso de escritores de peças teatrais, o professor chama dois escritores e separadamente, dá a cada um deles dois roteiros diferentes e os manda improvisar uma peça na hora, ao vivo, em frente dos demais da classe. Darei um exemplo: O professor chama um dos alunos da classe de escritores teatrais e, sem que o outro o escute, lhe diz que fará o papel de diretor de um colégio que expulsou um aluno e que irá atender a mãe ou pai do aluno. O professor diz que o aluno era terrível, indisciplinado e extremamente brigão. Vivia discutindo com os professores, além de ter surrado um colega, sem nenhum motivo aparente. Em hipótese nenhuma deverá readmitir o encrenqueiro.

Já com o outro aluno da classe teatral, o professor o leva para um canto e, também

sem que o outro saiba, lhe diz que fará o papel da mãe ou do pai do aluno expulso. Diz-

lhe que o menino é uma pérola rara: um aluno disciplinado, estudioso, amado por todos e jamais brigou com ninguém. O Diretor o expulsou injustamente por motivos escusos e, quiçá, inconfessáveis. Deverá pedir – forçar mesmo da maneira que puder – para que seu filho seja readmitido; toda a sua vida depende disto – não poderá entrar em Harvard com uma expulsão em sua ficha escolar. E sem Harvard, sua vida nunca será a mesma. De posse destes dois roteiros diferentes e conflitantes, os dois alunos da classe teatral irão se digladiar perante o resto da turma que nada sabe sobre o que o maquiavélico professor preparou para ambos. Não é preciso dizer que a discussão se

51

Albert P. Dahoui

tornará acalorada. Cada um irá defender seu ponto de vista até as últimas conseqüências. Este é o tipo de conflito engendrado por dois pontos de vista diametralmente opostos: num o aluno é péssimo e no outro, maravilhoso. Este método é de grande importância para o desenvolvimento do conflito – não se esqueçam de que sem conflito não há história. Dê aos seus personagens roteiros diferentes, com pontos de vista que cada um ache absolutamente correto e moralmente certos, e deixe-os digladiarem-se até o final. No fundo, a vida é isto: cada pessoa tem um roteiro que acha correto e procura defender seu ponto de vista. É deste choque que nasce o conflito e desta luta de contrários surge uma boa história. Lembre-se mais uma vez: sem conflito não há história.

4.2 – Mostrando e não dizendo (Show not tell)

Um dos primeiros pontos que o escritor moderno deve ter em mente é que ele deve envolver o leitor em sua história. Se o leitor não ficar enredado, provavelmente irá abandonar a leitura e você não terá atingido seu objetivo: emocionar o leitor. Se observarmos a literatura atual e a compararmos com a dos séculos anteriores, iremos notar que atualmente a história é muito mais dinâmica, com muito menos detalhamento sobre roupas, locais, cenários e acessórios de cena. Até a metade do século XX, os escritores se viam obrigados a descrever detalhadamente, e algumas vezes, exaustivamente, tanto os cenários como o tipo de roupa que cada personagem usava. Já nos últimos anos, tal nível de detalhamento reduziu-se tremendamente. Por quê? Após a aparição do cinema e da televisão, o leitor tornou-se muito mais visual. Por causa destes novos meios visuais, seu grau de imaginação tornou-se muito mais aguçado. Assim a descrição de cenários, de roupas e outros atributos ficou em segundo plano. Ao invés de longos parágrafos descrevendo lindos campos verdejantes por onde

52

O sucesso de escrever

um personagem vai levar horas atravessando-os, o escritor apenas menciona o fato de relance e deixa o leitor imaginar o que desejar. A não ser que seja algo de suma importância no contexto da história, o escritor evita detalhar algo em excesso, seja objetos, frutas, doces, roupas, etc., indo rapidamente ao cerne da questão. Por outro lado, o escritor evita ‘dizer’ e prefere ‘mostrar’. Daremos alguns exemplos que ajudarão a elucidar a questão.

“Alberto estava zangado”. Neste caso, o escritor ‘disse’ – Não é uma técnica recomendável. Não há espaço para

o leitor imaginar nada, pois o escritor afiançou que Alberto estava zangado.

“Alberto esmurrou a mesa e, bufando, cobriu a sala com seus passos”. Neste caso, o escritor descreveu melhor a raiva que o personagem sente. Já começou

a mostrar mais. O leitor já começou a vivenciar mais a cena.

“Alberto esmurrou a mesa. Levantou-se com o rosto congestionado e começou a cobrir a sala com seus passos. Esfregava as mãos uma na outra enquanto seu rosto crispava-se num ricto que o deformava. Parou no meio da sala e, em plenos pulmões, quase babando, berrou: – Este canalha ainda me paga”. Com esta descrição, a raiva de Alberto ficou mais bem caracterizada. O leitor consegue visualizar bem o fato e as reações do personagem.

O mesmo acontece com a descrição de personagens.

“Maria era linda”. Esta é uma opinião do escritor. Não revela o que os demais personagens pensam a respeito dela, pois beleza é relativo.

53

Albert P. Dahoui

“Alberto olhou atentamente para aquela morena de olhos verdes e concluiu que seria a esposa ideal”.

O autor mostrou um pouco mais. Na realidade, mesmo sem descrever muito, ele

deu a idéia de que o personagem Alberto a achou bonita e que desejava se casar com ela.

“Seu coração disparou, suas mãos subitamente tornaram-se frias e suadas e seus olhos abriram-se desmesuradamente. Seu olhar ficou tão fixo na figura longilínea daquela morena clara, que passou a não ver mais nada na sala. Avaliou suas curvas de forma despudorada e sua imaginação passeou pelo seu colo. Durante intermináveis instantes, observou seu andar e suas ancas largas e, sem saber o motivo, pensou que ela poderia ser uma boa parideira – com aqueles quadris largos, ela não teria problemas em ter quantos filhos quisesse. Este pensamento o fez voltar à realidade e envergonhou-se:

será que as pessoas notaram que ficara tão embevecido por aquela jovem de imensos olhos verdes?” Pode-se notar que mostrar ocupa mais espaço do que apenas dizer, mas faz o leitor viver melhor a emoção do personagem. Ao mesmo tempo, descreveu a mulher, sem, contudo, perder tempo ou cortar a narrativa dizendo como ela é. Revelou também algo do caráter do personagem masculino. Sem dizer, mostrou que ele tinha um interesse subjacente em se tornar pai – para que pensaria que aquela mulher poderia ser uma boa parideira, se não tivesse interesse em gerar descendência?

A técnica de mostrar tornou-se importante por dois fatores. O primeiro é para não

cortar o fio condutor da narrativa, descrevendo cenários, vestuários e personagens de forma cansativa. Tais descrições quebram a seqüência de eventos e ao cortar o fio dos acontecimentos, o leitor desperta de seu transe – ler não deixa de ser um estado mental em que o leitor é transportado para uma realidade virtual. Assim, ele pode perder o

54

O sucesso de escrever

interesse na história, ou pular todo o parágrafo que descreve algo do qual não tem tanto interesse assim.

Imagine só a seguinte situação: o livro vem contando a história de um homem que está pronto para assaltar uma moça. Toda a narrativa é voltada para a tensão do instante em que a vítima está para ser atacada e possivelmente estuprada e morta. Neste instante, o escritor resolve detalhar a roupa com que a moça está vestida.

“A jovem apareceu no fim da alameda e Alberto a observou enquanto se aproximava. Ela vestia um tailleur azul marinho bem cortado, com botões prateados. A saia era justa logo acima do joelho e não tinha pregas. Um fecho éclair situado na parte traseira da saia possibilitava que ela pudesse despir-se com facilidade. O casaco assentava bem na cintura, mostrando que era uma jovem curvilínea. Sobre os seios, havia uma prega que dava um charme todo especial ao casaco que terminava logo abaixo dos quadris. Ela vinha portando uma bolsa de pelica marrom que reluzia com as luzes difusas da rua. Os saltos de metal de seus sapatos faziam um barulho característico e a altura dos saltos a abrigava a rebolar seus quadris. Alberto ficou excitado com a possibilidade de assaltar uma mulher tão bela.” Perdemos um tempo excessivamente longo para descrever uma roupa como se estivéssemos relatando um desfile de moda. Para o leitor, tal cena poderia ficar mais curta e não desviaria a atenção se fosse apresentada como segue:

“A jovem apareceu no fim da alameda e Alberto a observou enquanto se aproximava. Pela qualidade de sua roupa, ele deduziu que era rica e, pela voluptuosidade de suas curvas, ele teve certeza de que seria a vítima certa”. Deixe o leitor imaginar que tipo de roupa, desde que não seja importante para a história. Se for absolutamente vital, o escritor poderá sempre descrever a moça em cena anterior se vestindo e reclamando do fecho éclair, já que será este um motivo

55

Albert P. Dahoui

importante para que o bandido não consiga estuprá-la, ou até mesmo matá-la num acesso de fúria. Isto posto que seja o ponto nevrálgico da cena ou até mesmo de toda a história. O mesmo acontece com longas descrições de salas, de quartos, onde o escritor se transforma num decorador de interiores tentando descrever uma série de detalhes com os quais o leitor se sente entediado e, muitas vezes, pula a descrição. Quanto trabalho para nada! Com este ponto em mente, continuemos nossa viagem.

4.3 – Escolhendo um Ponto-de-Vista (POV)

Ponto-de-vista (POV) indica em que pessoa a história é escrita. Em tese, há três formas, mesmo que, na prática, só sejam usadas duas. As formas são:

A) Primeira pessoa. Neste caso narra-se a história pelo ponto-de-vista de um dos

personagens. Por exemplo: “Lembro-me bem do verão passado quando minha tia veio visitar-me ”

B) Segunda pessoa. Neste caso narra-se a história pelo ponto-de-vista de alguém

que pode ou não ser protagonista. Por exemplo: “Você deve se lembrar do verão

passado quando sua tia veio visitá-lo

em diálogos – que veremos mais adiante. Pelo fato de não ser quase usado, o leitor não está acostumado e, aliás, nem os editores. Portanto, cuidado ao escolher este ponto de

vista para todo um livro: é difícil de escrever, cansativo para o leitor e oferece limitações na descrição de cenas e pensamentos íntimos dos personagens.

C) Terceira pessoa. Neste caso narra-se a história pelo ponto-de-vista de alguém

Este tipo de narrativa é complicado e só se usa

que está de fora. Por exemplo: “Alberto lembrava-se bem do verão passado quando sua

tia veio lhe visitar se abordar a história.

Esta é a forma mais usual e que permite grande flexibilidade para

56

O sucesso de escrever

É preciso ressaltar que as duas formas mais usuais, oferecem seus pró e contras, o que iremos abordar agora.

Primeira pessoa

Quando se conta uma história pelo ponto-de-vista de um personagem, fica-se limitado ao que o personagem vive, vê, sente e sofre. Não se pode entrar na cabeça dos outros, a não ser por suposição, ou seja, o personagem supõe o que o outro pensa e sente. Não se deve quebrar a seqüência da narrativa para mostrar fatos fora da visão do personagem – como é que ele pode saber o que está acontecendo fora de sua área de visão? Por outro lado, não se deve misturar vários pontos de vista, pois confunde o leitor e torna a história difícil de se entender. No entanto, tal ponto-de-vista é excelente para contar dramas psicológicos, onde o personagem pode dar-se o luxo de digressões sobre o que pensa, o que sente, suas vontades, suas limitações, etc. Para aventuras, onde vários personagens se misturam, fica difícil que um único personagem possa descrever tudo o que os demais estão fazendo e muito menos o que sentem, pensam e decidem.

Terceira pessoa

Além de ser a forma mais usual de narrativa, é a que oferece maior flexibilidade. Todavia, é a que oferece o maior perigo de se confundirem diversos pontos-de-vista expressos simultaneamente. Deve-se tomar cuidado com um ponto-de-vista conhecido como onisciência, ou seja, é quando o escritor entra na cabeça de todos os personagens e descreve suas sensações e pensamentos. Isto pode tornar confusa a narrativa. Senão vejamos:

57

Albert P. Dahoui

“Com passo firme, Alberto adentrou a sala e viu Joana sentada, lendo. Ela o olhou e sorriu: como era bonito em sua roupa de tênis. Ele a observou enquanto descruzava as pernas e se levantava. Gostava de suas pernas bem torneadas. Escolhera bem”. Esta narrativa aborda simultaneamente os pensamentos de Alberto e Joana. Torna- se confuso. Quem gostava das pernas bem torneadas? Alberto ou Joana? Quem escolhera bem? A mesma cena podia ser reescrita de modo a ficar mais compreensível para o leitor. “Com passo firme, Alberto adentrou a sala e viu Joana sentada, lendo. Observou que ela o olhava com um sorriso nos lábios e uma expressão de contentamento no rosto. Sabia que ela adorava vê-lo suado em sua roupa de tênis. Com um olhar guloso, ele a desnudou enquanto ela se levantava. Pôde ver um pedaço de sua coxa enquanto ela descruzava as pernas e deleitou-se com a rápida visão. Simplesmente adorava suas pernas bem torneadas e conclui que escolhera a mulher certa para ser sua amante”. Esta cena agora foi abordada pelo ponto-de-vista do personagem Alberto. Já não ficou confusa. Há escritores que escrevem uma história inteira na terceira pessoa, mas apenas focalizando um único personagem. Isto também limita a narrativa, pois se cai no caso da primeira pessoa. Acredito que uma das formas mais interessantes é a onisciência, mas tomando-se os devidos cuidados. Por exemplo, num mesmo parágrafo não se deve misturar o ponto- de-vista de dois ou mais personagens, pois o leitor não consegue saber quem pensou o quê. Alguns autores preferem abordar toda uma cena a partir do ponto-de-vista de um único personagem, mesmo que seja escrito na terceira pessoa. Por exemplo, vamos desenvolver a história de assalto do Banco. Durante o assalto propriamente dito, toda a cena é vista pelo gerente do banco, ou então por um dos bandidos – o chefe, por exemplo, ou um deles que foi compelido a ser assaltante porque precisa desesperadamente de dinheiro para pagar a conta do hospital, senão seu filho não poderia submeter-se a uma delicada operação do coração.

58

O sucesso de escrever

Já na próxima cena, o ponto-de-vista será de um policial que sai de casa, entra no carro, é interpelado pela dona de um gatinho que está preso numa árvore e que lhe pede ajuda. A cena descreve o esforço enorme para subir à árvore, retirar o gato, entregá-lo à dona e, depois, retomar seu caminho em direção ao banco. Um dos aspectos perigosos na narrativa do ponto-de-vista da terceira pessoa é o escritor passar a contar a história sem mostrá-la. Aliás, é até tolerável para alguns casos (veja flashbacks), mas não é recomendável para um livro inteiro.

4.4 – Ritmo da história

Cada tipo de narrativa tem uma progressão e um ritmo próprio, assim como cada cena. Digamos, à guisa de exemplo, que vamos programar nosso livro para ter cerca de 200 páginas. O primeiro quarto, cerca de 50 páginas, seria para a Apresentação, onde introduziremos os personagens, o protagonista e seu antagonista, assim como as pessoas coadjuvantes de ambos os lados. Por volta da página 40 a 50 iremos apresentar o Ponto de Virada: o confronto de desejos. Se dividirmos esta parte do livro em 3 capítulos, teremos aproximadamente 16 páginas por capítulo. As próximas 100 páginas, portanto cerca de 6 capítulos, serão dedicados à Confrontação. Por volta da página 140 a 150, vamos ter a Reviravolta, o elemento complicador que irá determinar o final. Neste ponto, a Reviravolta, tudo deve estar contra nosso herói. É o ponto de maior tensão da história e agora teremos 50 páginas, cerca de 3 capítulos para a arrancada final, a Resolução. Nosso herói será vitorioso? E a que custo? No nosso caso, teremos uma história de 12 capítulos, cada um com mais ou menos 16 páginas. Agora vem a pergunta crucial: que ritmo deveremos dar à nossa história? Coloque em sua mente que um livro é um produto. Pode até tornar-se um best- seller, ser laureado e faze-lo entrar na Academia Brasileira de Letras, mas nunca deixará

59

Albert P. Dahoui

de ser um produto. O seu editor o olhará como uma possibilidade de venda, assim como o dono da livraria onde será vendido. Se não vender nada, seu sonho de escrever se tornará um pesadelo. Baseado nesta máxima, você deve desenvolver sua história para que seja vendável. Para que o seja, a história deve ser uma novidade (provavelmente é um assunto velho apresentado de forma inovadora) e a trama deve obrigar o leitor a virar as páginas, não deixá-lo ir para a cama, nem largar o livro até que chegue sofregamente ao final. Para tanto, você deve apresentar seu manuscrito com um determinado ritmo. Se você errar o ritmo, poderá fazer a história encurtar demais ou esticá-la além do tolerável. As cenas poderão ser saltadas pelo leitor e ele sem dúvida irá perder alguns tópicos relevantes e, mais adiante, sua história não será completamente apreendida por ele. Não há como sugerir um ritmo predeterminado, pois cada história demanda seu próprio andamento, como se fosse uma música. No entanto, usando o método cinematográfico, poderemos inferir:

1) As cenas iniciais devem ser rápidas. Devem impactar o leitor para agarrá-lo. As três primeiras páginas são tudo (pode parecer um exagero, mas não é) e, por conseqüência, o primeiro parágrafo é o mais importante de seu livro. Se o leitor, que está folheando o seu livro numa livraria, ler o primeiro parágrafo e ficar interessado, ele continuará lendo até, no máximo, a página três (de acordo com uma pesquisa feita nos Estados Unidos). Se você conseguiu prender sua atenção, ele comprará seu livro. Caso contrário, ele o fechará e sua atenção será conduzida para outro livro. (Pode até parecer um exagero, mas a experiência tem demonstrado que se você não agarrar a atenção do leitor na primeira cena, adeus!)

60

O sucesso de escrever

2) O meio do livro – a Confrontação deverá alternar passagens de ritmo rápido para passagens mais lentas, o que dará ao leitor tempo de saborear mais alguns aspectos íntimos de cada personagem ou aspectos intrincados da situação.

3) A Resolução deve ser dinâmica e objetiva. Não significa dizer que o final deve ser brusco e atabalhoado. Pelo contrário, deve ser bem conduzido para que o leitor não sinta que está lendo uma novela de televisão, onde o final foi apressado por razões de audiência.

Agora vem a questão fundamental: como fazer com que uma cena tenha um ritmo mais rápido. Uma cena de batalha ou de perseguição automobilística pode ser extremamente lenta e enfadonha se for descrita em todas as suas minudências. Por outro lado, uma cena de amor pode ter um ritmo rápido. O que determina tal estado de coisas? A regra de ouro do ritmo é como o leitor apreende a cena. Se ele vira a página com rapidez, se ele progride rapidamente na página e se ele alcança o final da cena ou do capítulo, ele terá a impressão de que o passo é rápido. Ele se sente feliz, pois, em sua mente, a história está indo de forma rápida e ele descobrirá em breve a trama toda. Como então fazê-lo virar as páginas de modo rápido? Daremos algumas regras.

1) Frases longas, cheias de vírgulas, diminuem o passo da leitura e da compreensão. Veja abaixo:

Certa manhã de Outono, quando as geadas começavam a cobrir as estepes siberianas e o vento frio vindo das regiões polares já soprava com fúria, a tribo de Anank, o chefe de um grupo de homens brancos da grande família indo-européia, levantou seu acampamento de verão e começou a se movimentar em direção ao seu local de inverno.

61

Albert P. Dahoui

Observe como esta frase dita centopéica – cheia de pernas – vírgulas – leva muito mais tempo para ser entendida. O leitor deverá parar para se lembrar qual é o grande grupo indo-europeu de raças, etc. Se quiser aumentar o passo, divida a frase em várias.

Quando o frio invernal ameaçou se estabelecer nas estepes siberianas, a tribo do chefe Anank levantou seu acampamento. Rumaram para o lugar especial para passar o inverno abrigado das borrascas mortais.

Deixe para falar da grande família indo-européia mais adiante, se for preciso.

Os americanos usam poucas vírgulas mesmo em sentenças longas, a não ser quando são absolutamente imprescindíveis. Já na língua portuguesa colocamos vírgula em todos os lugares como se fosse uma absoluta necessidade. A regra que recomendo é só colocar vírgulas em lugares obrigatórios, ou então divida a frase em duas ou mais.

2) Parágrafos muito longo são cansativos e mesmo que sejam lidos na mesma velocidade, dão a impressão de ser intermináveis. Alguns autores portugueses e até mesmo alguns brasileiros estão achando que parágrafos longos são mais elegantes e demonstram um estilo maravilhoso de escrever. É uma reação à escola americana que tem diminuído os parágrafos. Opte pelo que desejar, mas saiba que parágrafos muito longos são cansativos, e, portanto, diminuem o ritmo de leitura do leitor médio.

3) Diálogos fazem o ritmo aumentar, não só porque ocupam muito espaço na página, mas também porque transportam o leitor para dentro da história. Quanto mais o leitor estiver envolvido, mais o ritmo será rápido. Mas, cuidado com os diálogos – vejam as regras de diálogos que daremos a seguir e procure segui-las, ou então rompa com todas e inove, porém sabendo dos riscos de tal audácia.

62

O sucesso de escrever

4) Descrições longas de personagens, de locais, de eventos tornam a narrativa lenta. Imaginem que duas longas páginas sejam ocupadas para descrever a mansão dos Cavalcantis para, no final, terminar com o velho Cavalcanti passando uma rápida descompostura em seu filho que chegou bêbedo na véspera. O leitor sentir-se-á roubado, pois ele pouco se importa com o tipo de mobília da casa, mas com o conflito entre pai e filho. Todavia, esta parte foi resolvida com um rápido diálogo. Diminuam a descrição da casa e aumentem a discussão entre os personagens. Tragam à tona velhas feridas que possam aumentar o conflito entre pai e filho.

5) Os americanos não estão preocupados com a excessiva repetição de certas palavras numa frase. No entanto, na língua portuguesa achamos isto uma falta de estilo. Para tanto, vamos trocando as palavras que se repetem por sinônimos, quando estão muito próximas uma das outras. Excelente! Mas é preciso cuidado para não colocar palavras difíceis, pois elas diminuem o ritmo da leitura. O leitor irá parar de ler para tentar entender o que aquela estranha palavra significa. Se a cena é propositalmente lenta, então tal artifício é válido (mas tenha cuidado, assim mesmo), mas se for uma cena rápida, evite palavras de pouco uso diário para não interromper o fluxo de imaginação do leitor.

6) Capítulos muito longos dão a impressão de que não acabam nunca. Capítulos mais curtos aceleram o passo, mas nunca faça capítulo com menos de três páginas, pois são insuficientes para descrever bem uma ação. Uma cena pode ter três páginas, mas não é recomendável que um capítulo seja tão pequeno.

A pergunta que se deve fazer é se a história tem que ter um ritmo rápido o tempo todo. É óbvio que não se pode ter toda a narrativa num ritmo frenético do início ao fim.

63

Albert P. Dahoui

Assim como numa viagem de carro, é preciso, de vez em quando, reduzir-se a velocidade para apreciar a paisagem. Essas diminuições de velocidade são necessárias, especialmente durante a Confrontação, para que o aspecto íntimo de cada personagem possa ser explorado pelo escritor, o que dará maior entendimento e credibilidade à história. No entanto, diminuir o ritmo ou aumentá-lo nada tem a ver com a progressão da História, mesmo que possam estar associados em certo instante.

4.5 – Progressão da história

Progressão é a forma como a história está sendo contada. Imagine uma história como sendo uma viagem. Estamos indo de um lugar para o outro, porém a passeio. Não temos absoluta pressa de chegar, mas queremos alcançar nosso objetivo. De vez em quando, vemos à beira da estrada um restaurante simpático ou uma cidadezinha histórica. Podemos dar-nos o luxo de parar, entrar e desfrutar do local, mas não podemos perder de vista o fato de que precisamos chegar ao nosso destino. Uma história pode ser vista como uma viagem. Podemos sair da história principal – a rodovia – para fazer digressões sobre personagens e eventos relacionados com a história – são os restaurantes, as cidades históricas e os museus dessas localidades –, mas devemos retomar o caminho e chegar ao nosso destino – o desfecho da história. Entretanto, devemos evitar a todo custo fatos inúteis que apenas enchem as páginas com assuntos aborrecidos – pneus furados, falta de gasolina ou, pior ainda, acidentes, a não ser que sejam os embaraços e pontos de virada que dão molho à história (isto dentro de nossa analogia de que a história é uma viagem). Cada cena está associada a outras, sejam imediatas, sejam mediatas, e devem fazer parte da narrativa. Assim, cada cena deve ser parte da viagem até o destino.

É muito comum o escritor cometer os seguintes erros de progressão:

64

O sucesso de escrever

a) O escritor se empolga com um determinado diálogo e o deixa arrastar-se por várias

páginas. É preciso ser conciso, direto e evitar as repetições. A não ser que o diálogo seja absolutamente necessário e seja o ápice da história, ele não deve estender-se demais dando a impressão de que a história não progride, de que está dando voltas e voltas,

repetindo-se em outros termos, e cansando o leitor.

b) O escritor se empolga com algo que nada tem a ver com a história. Por exemplo:

Simone e Lourdes estão visitando Paris. Vão até o palácio de Versalhes. O escritor se empolga e começa a contar a história de Louis XIV, o rei-sol. Passa dez páginas descrevendo seu banho diário, sua rotina, suas guerras, etc. Pode ser até que seja de grande interesse e magnificamente bem escrito, mas como foge da história de Simone e Lourdes torna-se maçante. Quando o escritor retorna à narrativa, o leitor já se esqueceu da trama e leva algum tempo para retomar a narrativa.

c) Divagações sobre aspectos psicológicos de um personagem. Digamos que temos um

personagem com uma agorafobia (medo mórbido e angustiante de lugares públicos e grandes espaços descobertos). Com o intuito de descrever esta fobia em detalhe, o escritor se estende por páginas a fio. Quando retorna, o leitor já abandonou seu livro. Se for imprescindível detalhar a agorafobia, faça-o usando a técnica de mostrar e não dizer (show not tell). Dessa forma, poderá manter o leitor no curso e conduzi-lo ao seu destino.

d) O escritor se torna angustiado e deseja expor logo toda a trama. Se for muito cedo,

tira a graça. É o viajante que quer chegar logo ao destino. Neste caso, é melhor viajar de

avião e não de carro. Um livro é uma viagem pelo campo e não uma viagem por teletransportação. Porém, acontece muitas vezes que o escritor leva vários capítulos em circunlóquios e, quando vai chegando ao final da história, é tomado de uma febre para acabar logo sua obra. As páginas finais, portanto, são iguais as novelas de televisão,

65

Albert P. Dahoui

onde, por fatores alheios ao desejo do novelista, ele se vê forçado a terminar logo e embrulha o final numa rapidez vertiginosa. O leitor sente que foi burlado; foi arrastado em infindáveis tramas laterais sem grande importância e, subitamente, foi conduzido a um final abrupto.

e) O escritor deseja mostrar erudição e esmera-se nas palavras, em frases de efeito e longas dissertações sobre um determinado tema. Como literatura, pode até ser classificado como de excelente qualidade, mas como forma de emocionar o leitor pode ser que seja pobre. As palavras e as frases existem como meio de comover o leitor. O livro de ficção foi feito para transportar o leitor para um outro mundo, enquanto está sentado confortavelmente em sua poltrona, ou deitado em sua cama ou se esquecendo de sua vida, muitas vezes monótona, enquanto chacoalha num transporte público superlotado. A palavra é meio de comunicação e não um fim em si própria. Assim como existem pessoas que se deliciam com o som de suas vozes, há escritores que atingem o orgasmo escrevendo palavras muito bem engendradas, mas que nem sempre fazem o leitor sonhar. E a regra é simples: não sonhou, não vendeu.

Progressão é algo imensurável. Ainda não se inventou um meio seguro de saber se estamos indo bem ou mal, mas quando falarmos de revisão e lipoaspiração, poderemos dar algumas indicações que poderão ajudar o escritor a aquilatar se a sua história progride ou se arrasta em certos trechos.

4.6) Técnicas para enriquecer a narrativa e sua história.

4.6.1 – Cadinho: chave para uma boa história

Os dicionários definem figurativamente cadinho como sendo um lugar onde as coisas se misturam; onde se fundem. A partir desta definição, nosso enredo deve estar

66

O sucesso de escrever

sempre circunscrito a um cadinho. Ou seja, o conflito deve acontecer de tal forma que os personagens não possam fugir deste cadinho, do lugar onde suas emoções se fundem e se chocam. Se o leitor sentir que os personagens poderiam fugir do local e, com isto, terminar o conflito, então a história ganha contornos de inverossimilhança e é abandonada. Se tivermos duas pessoas disputando uma vaga num emprego, dois vizinhos discutindo por causa de um problema, ou duas pessoas disputando a afeição de uma terceira, esses fatos estão circunscritos a um determinado local, a uma dada época e não possibilita a fuga. Qualquer escape termina o conflito e, conseqüentemente, a própria história. Se o cadinho é por natureza um local onde se fundem as coisas, ele deve ser quente e quanto mais esquentar, melhor para a trama. Mesmo quando se trata de uma história onde se relata uma fuga de uma penitenciária, a trama deve contemplar a possibilidade de uma perseguição. Se estivermos relatando a fuga de judeus da Alemanha nazista, por exemplo, temos que colocar a Gestapo – a polícia política nazista – no encalce dos fugitivos. Se a história apenas narra eventos de uma fuga bem sucedida, a trama termina com os fugitivos alcançando a liberdade. No entanto, pode-se acrescentar outros fatores que manterão a chama do enredo acesa e, por conseguinte, a atenção do leitor.

4.6.2 – Circunscrição da história (Espaço ou Tempo)

O conflito deve ser circunscrito não só num cadinho, ou seja, num ‘local’ fechado, como também pode estar circunscrito num determinado tempo. A tensão aumenta à medida que o tempo passa. Imaginem que um homem deve desarmar uma bomba que vai explodir pontualmente às dez horas – Ponto de Virada. Trata-se de uma bomba atômica colocada

67

Albert P. Dahoui

por terroristas na cidade de Washington. É necessário não só desarmar a bomba, como fazer evacuar a cidade. Eles só têm dez horas. Para complicar nossa trama, Embargo 1, a esposa do nosso herói está tendo o seu primeiro filho. Trata-se de um sonho do casal e eles haviam envidado todos os esforços para que a esposa pudesse engravidar. Gastaram todas suas economias e sofreram durante dois anos até que agora ela entrou em trabalho de parto. Ela não pode ser removida, mas além de não haver nenhum médico – todos fugiram – a bomba, ao ser mexida, disparou um mecanismo de tempo – Embargo 2 – e ao invés de explodir daí dez horas, adiantou e explodirá dentro de meia hora – tempo insuficiente para retirar a esposa e mais de cinco milhões de pessoas que bloqueiam as saídas da cidade. Quando ele acha que terá sucesso, pois encontrou um mecanismo especial, entra em cena o terrorista que deseja matá-lo para que não desarme a bomba – Reviravolta. Agora, além de ter que desarmar a bomba, nosso herói deve evitar ser morto pelo terrorista e, quiçá, matá-lo e voltar a tempo para impedir a explosão. Como é que ele irá resolver a situação? Ele está preso tanto em termos de espaço como, principalmente, de tempo. Numa outra história, nosso Protagonista foi envenenado por um poderoso produto químico, que o matará em oito horas. Ele deve descobrir porquê e quem o envenenou, assim como deve encontrar quem produziu a potente droga, pois ninguém jamais viu tal veneno e não conhecem a cura – só quem o produziu pode conhecer o antídoto. Quanto mais o tempo passa, mais suas chances diminuem e mais ele se aproxima da morte. A tensão irá crescer a cada esperança de cura que o escritor descrever para o leitor. Será que ele irá morrer? Tempo pode ser um grande aliado do escritor para fazer o leitor sentir desespero e se transportar para dentro da História e viver cada segundo de ansiedade do Protagonista. Nada o impede de mesclar espaço e tempo. Nosso herói está preso, tanto em termos de localidade, como em termos de tempo. Isto só irá aumentar ainda mais a tensão. Use-os com sabedoria.

68

O sucesso de escrever

4.6.3 – Suspense – mantendo o leitor interessado

Como já dissemos, é interessante se dividir a história em uma série de cenas. O escritor novato tem a tendência de contar tudo muito rapidamente e, com isto, revela precocemente partes importantes de sua trama ou chega muito rapidamente ao final. Para tanto, há técnicas de se manter o suspense, ou seja, a história fica, por algum tempo, em suspenso. O leitor deve ficar intrigado, ou seja, enganchado como um peixe num anzol. Por exemplo, digamos que estamos escrevendo a história de um assalto. Os bandidos entram no banco e apontam as armas, exigindo todo o dinheiro do cofre. O gerente diz que o cofre só abre a certa hora e que ainda faltam vinte minutos. Os bandidos decidem então ficar o tempo necessário para que o cofre abra automaticamente. Se o escritor terminar a cena com os bandidos esperando o cofre abrir e depois levando o dinheiro, a cena – desde que seja de fato importante na história – estará terminada e o leitor não ficou nem intrigado nem emocionado. Foi apenas mais uma cena de um assalto. Todavia, se o escritor cortar a cena assim que os bandidos souberam que vão ter que esperar os tais vinte minutos e começar uma outra cena, o leitor há de querer saber se eles conseguiram roubar o banco ou não. O desfecho foi adiado para outra cena mais adiante. Com isto, o leitor há de querer saber o que aconteceu e continuará lendo. A próxima cena pode ser a de um policial que irá fazer sua ronda diária e terá que passar naquela agência. Ele chegará na hora do assalto? O que irá acontecer? Ele impedirá o roubo? Ele será morto pelos bandidos? Veja como o suspense está criado. Neste caso, o leitor, mesmo que não esteja gostando totalmente da história – não é o seu estilo de livros, por exemplo –ficará, no mínimo – curioso.

69

4.6.4 – Criando tensão

Albert P. Dahoui

A função do escritor de ficção é criar expectativas no leitor e não de revelar a trama logo de início. Imagine-se na fila de um cinema, esperando para entrar e você ouve as pessoas que estão saindo comentando que gostaram do filme, mas foi uma pena que o personagem principal tivesse morrido no final. Só esta informação é uma ducha de água fria em sua vontade de ver o filme. O mesmo acontece quando o escritor revela precipitadamente aspectos importantes da trama, tirando a expectativa do leitor: ele já sabe o que vai acontecer e não terá surpresa nenhuma em descobrir no momento azado. Para criar tensão, é preciso que o escritor se controle e não revele tudo ao leitor. Voltando ao caso anterior. Nossos ladrões decidiram ficar no banco os vinte minutos, ou seja, até às nove horas em ponto. A cena terminou com esta decisão. A próxima cena abre com o policial decidindo fazer sua ronda e saindo de casa mais cedo. Se tudo correr como se espera, ele vai passar no banco em sua ronda diária por volta das nove horas. O leitor sabe, portanto, que ele vai pegar os ladrões com a boca na botija. No entanto, no caminho para sua ronda, aparece uma mulher desesperada que pára seu carro e lhe pede ajuda, pois seu gatinho de estimação subiu numa árvore e não consegue descer. Ele atende a mulher. O leitor fica tenso: ‘ele vai se atrasar por causa de um gatinho e não irá prender os ladrões’. O leitor fica ainda mais tenso. ‘Pega logo este gato e corre para o banco, seu estafermo’. Pronto, você criou tensão e o leitor agora mergulhou de cabeça na história. A cena termina com o policial entregando o gatinho para a dona e entrando no carro. Ele se lembra do banco, sua primeira parada diária, e liga o motor para ir até lá. A cena termina aí. Será que vai dar tempo? Ou ele chegará depois que os assaltantes já se foram com todo o dinheiro? Nada impede que o escritor crie outra cena de tensão antes do desfecho deste episódio. Ele pode começar nova cena, mostrando que um dos maiores inimigos de um dos assaltantes se dirige ao banco. Se ele entrar, provavelmente, será morto por um dos

70

O sucesso de escrever

assaltantes, ou então, haverá um tiroteio dos diabos e inocentes poderão morrer. O escritor vai criando tensão em cima de tensão, fazendo sua trama ficar cada vez mais tensa e adicionando elementos de complicação crescente à história. O leitor só terá motivos para lhe agradecer.

4.6.5 - Flashbacks

O flashback se caracteriza como sendo uma cena que aconteceu no passado e é

trazida para o presente da narrativa. Por exemplo: Estamos descrevendo a cena de um assalto a um banco e focalizamos

um dos assaltantes. No meio da narrativa do assalto, damos uma parada e retornamos ao passado do personagem para contar algo relevante de sua vida. Por exemplo, uma surra que levou do seu pai quando era adolescente, fato este que o influenciou negativamente e o levou a uma vida de crimes.

A boa técnica nos diz que não devemos cortar o fluxo da imaginação do leitor. Se

ele está vivendo um assalto, provavelmente não é hora de trazer à tona um flashback. Se for absolutamente imprescindível, procure inserir a cena que você julga importante antes ou, então, depois numa hora em que você poderá revelar o assunto. Por exemplo, o bandido foi preso, está sozinho em sua cela e relembra um fato de sua adolescência que o levou a uma vida de crimes.

O ideal é não cortar a cena do presente, trazendo um fato do passado para não

distrair o leitor com excesso de informações que podem não ser importantes naquele instante, ou que podem ser introduzidas, seja gradativamente, seja numa cena reveladora dos motivos íntimos. Como, por exemplo, um diálogo entre o bandido e sua amante, ou uma discussão entre o bandido e seu pai, acusando-o de, com aquela surra, tê-lo levado a uma vida de crime.

71

Albert P. Dahoui

É natural que, se for apenas um pensamento ou a lembrança de um fato passado, o

fluxo da história não sofrerá uma quebra. Neste caso, o flashback não fica caracterizado como tal, ou seja, é apenas uma lembrança e não a descrição de uma longa cena extemporânea. Por exemplo: no meio do assalto em questão, Alberto lembra-se de algo. “Se aquele guarda se mexer, vou lhe dar uma coronhada. Chega de ser bonzinho. Não vou levar um tiro como naquele assalto ao banco de Ipanema”.

como naquele assalto ao banco de

Ipanema) não caracteriza um flashback. Neste caso é até bem vindo para demonstrar uma experiência anterior do bandido. Seria um flashback se o autor resolvesse descrever o assalto ao banco de Ipanema, o tiro que o bandido levou, como conseguiu escapar, suas dores e sua recuperação. Tal cena levaria várias páginas e tiraria o leitor do assalto presente para um outro crime ocorrido há algum tempo. Tal flashback seria um intruso indesejável.

Se o flashback deve ser evitado, imagine então um flashback dentro de um flashback.

Terá tudo para confundir o leitor. Evite-o!

A frase que menciona um fato passado (

4.6.6 – Criando credibilidade: suspensão da descrença

Todos já fomos ao cinema e vimos um filme de ficção científica – Guerra nas estrelas, por exemplo. É mais do que óbvio que sabemos que nada disto aconteceu de fato, mas vibramos quando o personagem Luke Skywalker consegue trazer para perto de si, apenas usando seus poderes mentais, o seu sabre de luz que havia caído a certa distância e foge de uma cilada terrível articulada pelo arquivilão Darth Vader. Por que vibramos se sabemos que nada disto é real? Porque, em nossa mente, suspendemos temporariamente a descrença e a aceitamos como se fosse um fato real. Isto acontece porque o filme é bem realizado, com detalhes técnicos impecáveis e uma razoável dose

72

O sucesso de escrever

de lógica que nos leva a acreditar que se tudo é apenas fantasia, bem que poderia ter acontecido. O mesmo acontece numa história de ficção. Cabe ao escritor criar os fatos que levam à credibilidade, ou seja, à suspensão da descrença. Se estivermos falando de um médico que desenvolveu um método para gerar um novo ser humano através da união de partes de vários corpos, como é caso de Frankenstein, temos que descrever o processo como o cientista irá fazer isso. Se a descrição do método for convincente, o leitor aceitará a possibilidade de se construir um ser humano a partir da união de partes de diferentes organismos humanos. Há um caso clássico de suspensão de descrença: O cavalo de Tróia de J.J. Benitez. Conheço inúmeros leitores que juram que a NASA realmente desenvolveu o equipamento que Benitez descreve no livro e que torna a viagem ao passado plausível. Isto porque a descrição do processo é tão perfeita que o leitor é levado a acreditar que isso exista mesmo. Devemos sempre desenvolver algo que levante a descrença. Não apenas em romances de ficção científica, mas também em qualquer outro tipo de romance. Por exemplo, se estivermos escrevendo sobre um advogado que tenta livrar da prisão um suspeito de um crime, temos que abordar, mesmo que ligeiramente, os aspectos legais do processo, as técnicas policiais de coleta de provas, etc. Isto dará credibilidade à história. Na realidade, qualquer livro que se venha a escrever, seja ficção ou não, deverá ter um certo embasamento daquilo que se deseja transmitir ou o leitor poderá não suspender a descrença. Todavia, é preciso alertar que não deve haver exageros na descrição de métodos, pois a longa descrição pode entediar o leitor e ela poderá abandonar o livro. Isto é válido tanto em termos de descrições de equipamentos, como de fatos históricos e de pessoas reais ou imaginárias que entram apenas para dar credibilidade à narrativa. A não ser que você esteja escrevendo um livro de não-ficção

73

Albert P. Dahoui

sobre a batalha de Waterloo, ninguém quer saber que a X Brigada de hussardos tinha 280 cavalos e que atacou a posição tal e tal, na hora tal e tal. Se o personagem participa desta batalha e lhe acontece algo de importante, conte apenas o que foi relevante ao personagem, deixando o excesso de detalhes militares para outro tipo de livro. Coloque-se no lugar do leitor e veja o que é relevante para ele, e não para você. Na dúvida, menos é mais.

4.6.7 – Quando o menos é mais.

O escritor está empolgado com sua história e resolve descrever algo mais para que o

leitor entenda bem. Portanto, ele se repete e se torna prolixo. Exemplifiquemos:

“Era uma tarde chuvosa. O céu estava cinza e chovia a cântaros. Tudo estava molhado e úmido, enquanto os céus despejavam suas torrentes de água.” Analisando esta passagem, notamos que há excesso de informações e que se torna enfadonho. (Aliás, este é um erro que cometi várias vezes, pois como sou prolixo por natureza, meus escritos refletem este traço de minha personalidade). A cena já ficaria perfeitamente definida com apenas: Chovia torrencialmente. Mas se só esta descrição é suficiente, pode-se descrever uma situação. Por exemplo. “Ter saído de casa sem agasalho foi um erro que Alberto arrependeu-se quando a chuva começou a cair: jamais vira tamanho aguaceiro. Lembrou-se de ter dado de ombros quando sua mulher lhe falou para levar o guarda-chuva, mas ele jamais carregaria aquele trambolho. Além do que, o sol brilhava e não tinha um nuvem sequer no céu. De onde aparecera aquela tempestade tão súbita?” Desta forma, você descreve melhor a cena e não ‘diz’.

O que fazer? Não se preocupe em excesso na primeira passagem, pois na revisão

você poderá fazer uma lipoaspiração. Mas, se puder, desde o início evitar as repetições

óbvias, você terá menos trabalho na revisão.

74

O sucesso de escrever

4.6.8 – Técnica do instantâneo

Define-se instantâneo como sendo uma fotografia tirada sem muita pose. Não é algo premeditado e muitas vezes sai tremida e escura, mas não importa; é o momento que vale. Uma foto de um casamento retrata um instante da cerimônia, portanto vem carregada de emoção. Não é todo dia que alguém casa, nem que seu filho faz cinco anos, nem que você visita o Museu do Louvre. São instantâneos que retratam parte de sua vida. Pedacinhos através dos quais se alguém de fora observa a foto, poderá entender num átimo a emoção que você sentiu. Num romance, você pode usar a técnica da foto instantânea para produzir uma carga emocional no leitor. Por exemplo, um policial sai de casa de madrugada e sabe que vai participar de uma operação extremamente arriscada. Antes de sair, ele entra no quarto do filho de três anos que está dormindo e fica por trinta segundos – uma eternidade – olhando docemente para o menino. Ele observa seus cabelos revoltos, sua boquinha levemente entreaberta e seus olhos cerrados. Sente um frio no estomago e funga levemente, recolhendo suas lágrimas para o interior – sua profissão não tem lugar para sentimentalismo. Sai do quarto e, finalmente, da casa, com passos firmes. (Cuidado, aqui eu apenas descrevi a cena. Caso alguém fosse escrevê-la, deverá usar a técnica de mostrar e não dizer). O leitor entende que o policial adora seu único filho e que tem medo de morrer e deixar o menino só no mundo, pois ele não tem mãe que morreu no parto. É um instantâneo que fará o leitor ficar com aquele sentimento no coração e torcer para que nada aconteça ao policial. Esta técnica aumenta a emoção do leitor e o faz participar mais ativamente da história. A história ficará mais rica do que apenas mencionar que o policial tem um filho de três anos. Sem a cena dele olhando o menino, a criança é apenas um fato distante do qual o leitor não enxergará, de chofre, a importância para o personagem.

75

4.69 - Ressonância

Albert P. Dahoui

Ressonância é uma frase de efeito que ressoa na mente do leitor, fazendo-o participar ainda mais da história. Não é necessariamente uma frase rebuscada, mas algo que chama a sua atenção. “Houve uma pausa tão grande que eu me perguntei se mamãe e papai voltariam a se falar”. Esta frase de Rebecca West em seu livro The Fountain Overflows, ressoa. Poderia ter sido escrita da seguinte maneira: “Durante a discussão, meus pais ficaram calados.” Na realidade, esta última frase não tem graça, não tem impacto, mas a sentença de miss West ressoa.

Exemplos de frases que ressoam e que não ressoam.

Ressoa: Assim que o carro arrancou, cantando os pneus no asfalto, Mathews achou que não teria tempo para encomendar sua alma a Deus. Não ressoa: Mathews se assustou com a forma como Marilyn dirigia: era rápida demais. Ressoa: É óbvio que a Bíblia foi escrita por pecadores. De que outro modo eles poderiam conhecer todos os pecados? Não ressoa: Somente pecadores poderiam escrever a Bíblia decido a sua experiência pessoal. Ressoa: Não adianta discutir. Somente o demônio negocia. Deus nunca fez acordos com ninguém. Não ressoa: Mário sentiu que não tinha alternativas para seu problema, pois nem rezas ou orações iriam mudar o curso de sua história.

76

O sucesso de escrever

A ressonância também está ligada à credibilidade. Se o escritor está escrevendo um

livro sobre um arquiteto, é interessante que, num determinado trecho do livro – de preferência assim que introduzir o personagem na história – o autor possa fazer o personagem falar algo de inteligente e sucinto sobre arquitetura. Tal sentença irá dar

ressonância ao personagem. É óbvio que um arquiteto tem que conhecer algo de arquitetura!

O uso de aforismos pode trazer ressonância à sua história. Aforismo é uma sentença

curta que emite um conceito. O escritor pode usar aforismos próprios ou dos outros. Por exemplo:

“Eu sou o caminho e a luz. Somente através de mim se vai ao Pai. Jorge escreverá isto acima de sua cama. Ninguém sabia se o fizera por ser católico ou porque, no fundo, ele se achava um enviado dos Céus”. Ao começar com uma sentença bíblica, o escritor ‘agarra’ o leitor na primeira linha, pois é interessante começar uma cena com uma frase de efeito que prenda a atenção do leitor. Não tente, todavia, escrever o tempo todo frases de efeito, pois torna a leitura cansativa e pode passar a idéia de que você é muito pomposo. Uma frase de efeito no início de uma cena, uma no meio e uma no final já é o bastante. As frases de efeito podem também vir da boca de personagens, desde que o estilo do personagem condiga com elas. Um personagem debochado pode falar as mais cruas verdades em tom de brincadeira, assim como um velho mestre pode discursar sobre um tema árido de modo circunspeto. O cuidado é não inverter os papéis, pois ficaria estranho se ter um velho guru transformado subitamente num frenético gozador e fazendo pilhérias de mau gosto sobre um tema sério. Cuidado também para não usar de falsa cultura para não tornar sua personagem um Conselheiro Acássio, famoso personagem de Eça de Queirós, que só falava coisas óbvias com um ar de profunda sapiência, dando origem ao termo ‘verdade acassiana’.

77

4.7 – Cenas de amor

Albert P. Dahoui

As cenas de amor são sempre difíceis, pois podem descambar para um erotismo exacerbado – o que pode não ser próprio para o tipo de leitor que o escritor quer atingir – ou para situações ridículas – o que fará o leitor rir e não se emocionar com o romance entre os dois personagens – ou finalmente, poderá se tornar maçante – que é o pior dos casos. Mesmo se tratando de um livro destinado a adultos, o escritor deve tomar cuidado para não vulgarizar a ação. Cenas de sexo implícito podem até existir desde que sejam imprescindíveis para a compreensão da história. Todavia, não devem ser descritas de forma chula para não ferir a sensibilidade do leitor, a não ser que o livro seja definitivamente pornográfico, quando, então, termos de baixo nível serão aceitos. Por outro lado, a descrição de uma cena de amor que implicará em sexo não precisa ser um rol de lavanderia. Ou seja, não há a necessidade de se descrever cada peça de roupa que os personagens estão retirando como se estivesse descrevendo um desfile de moda. Deixe que o leitor imagine que cor de saia Maria está usando ou que tipo de camisa Jorge está a ponto de retirar. Os diálogos devem ser bem aquilatados; o que se diz no calor da paixão, é muitas vezes um lugar comum ou ridículo. Imaginem encher páginas de ‘eu te amo’e ‘eu também’. O leitor ficará enfastiado e tenderá a pular rapidamente a cena, indo ao final. Para que escrever algo se você já sabe que o leitor não lerá? Muitas vezes, a cena de amor é o desfecho de um romance, portanto, não precisa ser exaustivamente descrito. Por outro lado, com o intuito de criar tensão no leitor, o escritor pode interromper a cena quando ela está chegando ao seu auge. Imaginem que dois personagens desejam ardentemente um ao outro. Lutam contra uma série de circunstâncias que os atrapalharam no passado. Finalmente estão a sós e se beijam e, quando estão a ponto de se despirem, chega o marido da personagem e o

78

O sucesso de escrever

amante se vê obrigado a fugir pela janela dos fundos para não ser pego em flagrante. A tensão é muito mais interessante do que simplesmente uma ardente cena de sexo. Autores de sucesso conseguem arrastar uma cena de amor por várias páginas, usando diálogos interessantes, quase nenhum contato físico a não ser os olhos nos olhos, e sem chegar ao sexo ou a intimidades maiores. Neste caso, o escritor usa da emoção, dos desencontros, do desejo dos personagens, sem que haja a necessidade de descrições de cenas picantes. O picante é a própria situação dos personagens que se desejam, se amam, mas por uma série de razões não conseguem satisfazer seu amor. Um livro não ficará melhor nem pior só porque o escritor descreveu uma cena de amor físico, a não ser que isto seja absolutamente imprescindível para o entendimento de algum personagem e da história em si. Podendo, evitem dar o desfecho apenas para manter o leitor agarrado ao livro.

4.8 – Problemas imprevistos no decorrer da história

Lá pelas tantas, após escrever várias páginas, você olha para o que escreveu e vê que não é o que você queria. Você sente que a história está com problemas sérios. Sua história, na sua opinião, está indo para a UTI. O primeiro passo é identificar o tipo de problema. Dependendo do que seja, é possível salvar o paciente. Vamos relacionar alguns dos muitos tipos de problema que podem surgir. A) Você deixou que um personagem tomasse as rédeas da história e agora ele está descambando para um terreno do qual você não está gostando. É muito natural o escritor deixar livre o seu Fluxo Mental Criativo (FMC) e, assim, os personagens tomam vida própria e fazem o que bem desejam. Há duas opções. A primeira é deixar o FMC livre e ver para onde tudo isso irá levá-lo. Posso garantir-lhe que você se surpreenderá, de forma agradável ou desagradável, dependendo do que o

79

Albert P. Dahoui

seu FMC ditar. Como catarse é ótimo – você estará expulsando seus demônios internos

e podem até ajudá-lo a se conhecer melhor –, todavia, como literatura pode não ser

muito aconselhável. Neste caso, verifique o que você já escreveu, veja para onde está se dirigindo a história, faça os cortes que achar necessários para voltar ao que você

planejou (Você planejou mesmo ou está escrevendo de qualquer modo?) ou então reveja os rumos de sua história. Pode até se tornar melhor do que você imaginou. Quando estava escrevendo um dos romances que publiquei (Moisés, o enviado de Yahveh), eu tinha planejado que Moisés seria um calhorda da pior laia, mas, no decorrer da história, eis que o personagem tomou-se de brios, gritou a plenos pulmões que não era o canalha que eu tinha imaginado e acabou por se tornar um Protagonista moralmente poderoso. Quando terminei de escrever e reli, deixei como estava, pois até eu passei a gostar dele, mesmo que, no início, minha idéia fosse fazer dele um anti- herói. Portanto, não desanime e continue a escrever; pode ser que você venha a descobrir coisas maravilhosas das quais nem sequer suspeitava. Para evitar que seu personagem descambe demais e mude completamente sua história, planeje bem e escreva uma sinopse cena-a-cena. Ao fazer isto, você terá a chance de rever cada um dos personagens e observar se estão corretamente personificados.

B) Um desânimo profundo tomou conta de você. Você se deu conta de que sua história é por demais comum (não é grave), ou é uma mixórdia de vários livros que você leu (o que é pior). Sua vontade é largar tudo e dedicar-se a outro hobby. Volto a insistir: planeje sua história no início, pois se assim fizer, descobrirá que ela

é fraca. Terá, portanto, tempo para dar uma guinada antes de escrever 500 páginas e descobrir que fez uma miscelânea horrorosa. Todavia, você ainda pode salvar a sua história. Mude o destino de sua viagem. Reveja o final e transforme-a em algo que nem você previu. Como? Diremos em breve.

80

O sucesso de escrever

C) Você pesquisou um determinado evento e começou a escrever. Após escrever várias páginas, você descobriu outros fatos que invalidam sua tese ou sua história. Tudo que você escreveu não serviu para nada. Confesso que isto é desagradável. Você deveria ter pesquisado um pouco mais, mas não jogue fora o que já escreveu. Guarde para ser aproveitado em outra história ou em outra idéia. Não desanime e recomece. Se lhe serve de consolo, já me aconteceu. Após 80 páginas descobri que a minha história não correspondia a certos fatos históricos que eu levantei posteriormente. E daí? Nada. Não chore nem se ache um infeliz – veja isto como um treino e recomece. Boa sorte! O leitor mais atento dirá que eu mesmo cometi um erro que disse para não cometer. É verdade. No início deste livro, eu disse para não perder tempo pesquisando e, portanto, usar tal fato como desculpa para não escrever. Aconselhei-o a pesquisar durante o processo de escrita. Ora, se tivesse pesquisado antes, não teria que reescrever tudo. Como explico isto? Na realidade, o ideal é pesquisar bem o assunto antes para ter todos os dados em sua mente, mas tenho observado que isto tem se tornado uma desculpa para que o futuro escritor continue pesquisando e jamais venha a escrever. Deste modo, usando o bom-senso, é preciso pesquisar, mas sem fazer disso uma desculpa para procrastinar o ato de escrever propriamente dito.

4.9 – Como salvar uma história que está caminhando mal ou empacou

Digamos que a sua história, mesmo que você a tenha planejado, não está indo bem. Analise os seguintes pontos: