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DIREITOS HUMANOS

Expressão ligada intimamente ao Direito Internacional Público. Em uma perspectiva


inicial, podemos dizer que é a proteção que a ordem internacional guarda sobre os
direitos mais importantes, os direitos tidos como essenciais.
Os DH protegem direitos que são intrínsecos ao ser humano e à dignidade da pessoa
humana. Falar em DH é falar, necessariamente, em normativas internacionais que
protegem o ser humano.
Direitos do Homem x Direitos Fundamentais x Direitos Humanos
A confusão entre as expressões é comum, mas devemos ser técnicos quando de seu
emprego.
Direitos do Homem: carregam a perspectiva jusnaturalista, não há positivação. São
próprios da condição humana, de sua natureza.
Direitos Fundamentais: são os direitos do homem protegidos pelo âmbito interno. No
Brasil, são os direitos elencados como tais na CF/88.
Direitos Humanos: são os mesmos direitos positivados e protegidos pela ordem
internacional, por tratados, acordos, pactos e convenções.
Norberto Bobbio: Os direitos humanos nascem como direitos naturais universais,
desenvolvem-se como direitos positivos particulares para finalmente encontrar a plena
realização como direitos positivos universais.
Exemplo: o bem jurídico vida pela ordem
internacional. Quando a proteção estiver no campo interno (CF/88, p. ex.), deve ser
tratado como direito fundamental à vida; no entanto, quando a proteção se der na ordem
internacional, a terminologia adequada é direito humano à vida (Pacto de San José da
Costa Rica, p. ex.). A terminologia a ser utilizada depende, portanto, da via de proteção.
Qual é o eixo axiológico de proteção desses direitos? É a dignidade da pessoa humana.
Ou seja, não basta que o Estado proteja o bem jurídico; deve protegê-lo e promover a
dignidade no uso daquele bem.
Universalismo x Relativismo Cultural
Há duas doutrinas que tratam dos DH. Vejamos:
Universalismo: Os DH se destinam a todos, independentemente de quaisquer
características, devendo ser respeitados por todos os Estados. A Conferência de Viena
(1993) reafirma o caráter universal dos DH.
Relativismo: Os DH são importantes e para todos, mas são variáveis e dependem de
uma série de fatores. A aplicação dos DH, então, deve obedecer aos costumes dos
países, pois não existem moral e ética universais. Assim, a depender do contexto, a
restrição de DH em determinada sociedade pode acontecer.
Características dos Direitos Humanos
1) RELATIVIDADE: os direitos fundamentais não são absolutos e podem ser
flexibilizados em situações de conflito (posição do STF), ou seja, há a possibilidade de
mitigá-los, de sopesá-los, de relativizá-los (ex: direito à vida flexibilizado em épocas de
guerra, aborto permitido legalmente, legítima defesa etc). Assim, apenas no caso
concreto, quando dois ou mais direitos estiverem em choque, com base na
proporcionalidade, é possível saber qual direito deve prevalecer.
Surge um conflito entre a Declaração Universal dos Direitos Humanos e o entendimento
do STF. Vejamos:
Quais são os direitos considerados absolutos pela Declaração Universal dos
Direitos Humanos? A DUDH 1948 entende que dois direitos são absolutos (4º e 5º da
Declaração): proibição à escravidão e à tortura. Ou seja, segundo a Declaração, a
proibição à escravidão e à prática de tortura são direitos que deveriam ser garantidos de
forma absoluta. Todavia, lembrar que o STF não reconhece a existência de direitos
fundamentais de caráter absoluto.
2) UNIVERSALIDADE: todas as pessoas são titulares de DH pela simples condição de
pessoa humana, e isso independe de sexo, nacionalidade, religião, cor, raça, etnia ou
qualquer outra condição. Os universalistas não admitem nenhum tipo de flexibilização dos
DH, mas isso não subsiste. Em 1945, houve um marco pelo final da II Guerra Mundial.
Face às atrocidades cometidas naquele período, a comunidade internacional decidiu que
a situação não poderia permanecer. Antes de 1945, o indivíduo era um sujeito de direitos
apenas no plano interno, sendo o Estado a última instância em caso de violação. Significa
dizer que, se o Estado negligenciasse essa proteção, o limite estaria nas instâncias
internas. Com a criação da ONU, entretanto, houve necessidade de uma padronização
nas normas que tratassem sobre os seres humanos, inclusive com a implementação de
Sistemas Regionais (Europeu, Africano e Americano), traduzindo-se em diversas
instâncias capazes de proteger o ser humano. O indivíduo, agora, passa a ser sujeito de
direitos tanto no plano interno quanto no plano internacional (lembrar que só é sujeito
quem tem a capacidade de celebrar tratados a expressão mais correta, na verdade, não
objeto de proteção ). Ocorre, portanto, a chamada dupla
proteção: o Estado passa a ter sua soberania relativizada, o que permite ao indivíduo que
pleiteie perante as instâncias internacionais sua proteção em caso de falha do
ordenamento interno.
3) COMPLEMENTARIEDADE: relação de interdependência dos DH. As gerações,
dimensões ou famílias de direitos humanos (direitos individuais, sociais e difusos) se
confundem, fortalecem e complementam, não sendo observados de forma estanque.
4) HISTORICIDADE: os DH são fruto de lento processo de evolução histórica, de acordo
com as transformações sociais.
5) INDISPONIBILIDADE ou INALIENABILIDADE: é a ausência de conteúdo econômico
dos DH Não há, portanto, valoração. A ideia é que, se todos gozam do mesmo direito, não
existem as noções de oferta e procura (era diferente na época da escravidão, por
exemplo), ao menos na teoria.
6) ESSENCIALIDADE: os DH são básicos, essenciais e fundamentais ao
desenvolvimento da vida com qualidade.
7) IMPRESCRITIBILIDADE: os DH não se perdem com o decurso do tempo, não têm
prazo, com exceção de limitações impostas por tratados internacionais (limitações que
estipulam prazos para que determinados direitos sejam gozados pelas partes, as
ferramentas processuais).
8) IRRENUNCIABILIDADE: a autorização do titular do direito no sentido de sua violação
não permite que terceiros o violem.
9) INEXAURIBILIDADE: Possibilidade constante de ampliação, mutação e
desenvolvimento dos DH.
10) VEDAÇÃO DO RETROCESSO: todas as conquistas alcançadas pelo ser humano em
relação ao Estado devem ser mantidas, não havendo possibilidade de diminuição da
proteção pelo Estado. Por outro lado, temos a reserva do possível, quando o Estado
alega que não pode cumprir a obrigação porque está impossibilitado (orgânica ou
financeiramente, por exemplo). Todavia, devemos ter em mente que a reserva do possível
pode ser utilizada para o não cumprimento, mas não para permitir ao Estado a violação, o
que será analisado e decidido pelo Poder Judiciário caso a caso.
Gerações de Direitos Humanos
Para fazer referência ao processo de evolução dos DH, doutrina e jurisprudência
costuma para tratar do processo de evolução dos DH.
Karel Vasak, fazendo paralelo aos pilares da
Revolução Francesa (liberdade 1ª geração; igualdade 2ª geração; fraternidade 3ª
geração).
vimento, continuidade, o que está atrelado à
característica da inexauribilidade. Geração passaria a ideia de início e fim, algo estanque,
seria a expressão mais adequada para tratar dos DH. Há ainda um
está correto.
- 1ª GERAÇÃO = DIREITO DE LIBERDADE (Século XVII - XIX). Passagem do Estado
Absolutista ao Estado Liberal. O Estado absolutista era opressor e os direitos eram
assegurados de forma muito tímida, quando eram, variando conforme a vontade e os
caprichos do monarca. Com a fase inaugural do constitucionalismo ocidental, desde a
Magna Carta de 1215, há a necessidade de limitação do poder estatal. É a fase que
consagra os direitos civis e políticos. São as liberdades negativas, o reconhecimento da
igualdade formal perante a lei. Nega-se ao Estado o poder de interferência na vida
privada do cidadão.
Principais exemplos: vida, propriedade, liberdade de expressão, liberdade de
locomoção, liberdade de reunião, voto, nacionalidade.
Principais documentos internacionais: Bill of Rights (1689), Declaração Americana da
Independência do Estado da Virgínia (1776), Declaração dos Direitos do Homem e do
Cidadão (1789).
No Brasil: Constituição de 1824 (Império); Constituição de 1891 (República).
- 2ª GERAÇÃO = DIREITO DE IGUALDADE (início do Século XX). A noção até então é
a de afastamento do Estado, de um Estado mínimo. Assim, com o aumento das
diferenças sociais, a sociedade passou a exigir a presença do Estado para garantir a
igualdade entre os indivíduos, ou seja, um comportamento ativo estatal. Deste modo, por
meio dos direitos sociais, a igualdade material poderia ser implementada por meio de
prestações positivas por parte do Estado. Note-se que não se trata mais da igualdade
formal, perante a lei, mas da igualdade material, real, na prática.
Principais exemplos: saúde, educação, trabalho, lazer.
Principais documentos históricos: Constituição Mexicana (1917); Constituição de
Weimar (1919); Tratado de Versalhes (1919).
No Brasil: Constituição de 1934.
- 3ª GERAÇÃO = DIREITO DE FRATERNIDADE/SOLIDARIEDADE (fim da II Guerra
Mundial). Direitos difusos, que pertencem a todas as pessoas indistintamente, com base
nos princípios da solidariedade e da fraternidade.
Principais exemplos: paz, autodeterminação dos povos, meio-ambiente,
desenvolvimento sustentável, patrimônio comum.
Principais documentos históricos: Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948)
pela primeira vez, uma Declaração reconhece os direitos de primeira, segunda e
terceira gerações, e isso ocorreu já no art. 1º, quando diz que todas as pessoas nascem
livres e iguais e devem agir umas em relação às outras com espírito de fraternidade.
No Brasil: Constituição de 1946 e Constituição de 1988.
Alguns autores trazem direitos de 4ª e 5ª gerações. Vejamos:
- 4ª GERAÇÃO = PÓS-MODERNIDADE
Trata-se de direitos relacionados às perspectivas de globalização, questões genéticas,
dentre outros temas modernos.
- 5ª GERAÇÃO = PAZ UNIVERSAL
Traduz o compromisso que os Estados devem ter em garantir a segurança internacional,
promovendo a paz mundial.
Internacionalização dos Direitos Humanos
A primeira fase de internacionalização de DH teve início na segunda metade do Século
XIX e fim com o término da II Guerra Mundial. Manifestou-se em três setores: a) direito
humanitário; b) luta contra a escravidão; c) regulação dos direitos do trabalhador
assalariado.
a) Direito humanitário: é o conjunto de regras que trata dos costumes da guerra, dos
conflitos armados, em períodos de instabilidades. É a proteção da população civil que não
está envolvida no conflito. Convenções de Genebra (1864).
b) Luta contra a escravidão: Conferência de Bruxelas (1880), trouxe as primeiras regras
interestatais de proibição ao tráfico de escravos africanos.
c) Regulação dos direitos do trabalhador assalariado: Criação da OIT (1919), com
regras internacionais de proteção ao trabalhador.
O ano de 1945 representa o início da segunda fase. Criação da ONU e dos Sistemas
Regionais. O valor da dignidade da pessoa humana é irradiado a praticamente todas as
Constituições no pós-guerra.
Posição dos Direitos Humanos no sistema normativo
Quais instrumentos contribuíram para o fortalecimento dos DH na ordem interna e na
ordem internacional?
Foram três os países que contribuíram de forma significativa: Inglaterra, EUA e França,
pois a partir do reconhecimento de alguns direitos nestes países, outros Estados
passaram a reconhecê-los.
a) Inglaterra
- Magna Carta (1215). Anuncia as bases do Tribunal do Júri e o estabelece o respeito à
propriedade privada contra confiscos ou requisições arbitrários. Princípio do devido
processo legal (due process of law). Liberdade de locomoção.
- Habeas corpus Act. Surgiu para efetivar regras processuais acerca da defesa da
liberdade de ir e vir.
- Bill of Rights. Separação dos Poderes. Freios e contrapesos, com a ideia de que o
parlamento defende o povo perante o rei. Direito de petição.
b) EUA
- Declaração de Direitos do Povo do Estado da Virgínia (1776). Reconhece a
existência dos direitos a todos, independentemente de sexo, etnia, cultura, posição social,
fortalecendo o caráter universal dos DH. Destaca a soberania popular. Defesa de
igualdade perante a lei. Liberdade de imprensa.
c) França
- Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789). Defesa das liberdades
individuais. Consagra os princípios da legalidade e da anterioridade da pena. Garante a
propriedade privada. Limita a cobrança de tributos pela legalidade tributária.
- Declaração dos Direitos na Constituição de 1781. Antiaristocrática e antifeudal.
Nacionaliza os bens pertencentes a eclesiásticos ou a congregações religiosas.
Reconhece direitos humanos de cunho social (DH de 2ª geração). Vedação ao
retrocesso.
- Constituição de 1848. Preocupação com a família, ensino público voltado ao mercado
de trabalho, vedação da pena de morte em matéria política.
Principais documentos
Convenções de Genebra (1984): proteger a população durante conflitos armados,
catástrofes ambientais e outros períodos tormentosos.
Obs: Direitos Humanos x Direito Humanitário
Enquanto os Direitos Humanos cuidam da proteção das pessoas em tempos de paz, o
Direito Humanitário protege as pessoas durante períodos de instabilidade, principalmente
em épocas de conflitos armados.
Constituição Mexicana (1917): primeira Constituição que atribuiu aos direitos
trabalhistas a qualidade de direitos fundamentais. Dentre outras contribuições, trata da
reforma agrária, quebra o poder da Igreja e proíbe a reeleição do Presidente.
Constituição de Weimar (1919): igualdade jurídica entre marido e mulher, equipara os
juventude, traz a função social da propriedade.
Convenção de Genebra (1929): proteção aos prisioneiros de regra. Noções de direito
humanitário.
Carta de São Francisco/Carta das Nações Unidas (1945): Criação da ONU para cuidar,
manter e zelar pela segurança internacional e promover a paz. Segunda fase da
internacionalização dos DH, motivada pelas atrocidades cometidas na Segunda Guerra
Mundial. Reconhece os DH e as liberdades fundamentais, mas não define ou conceitua
essas expressões. No entanto, contribui com a temática por meio da criação do Sistema
Global ou Sistema ONU dos DH.
Organização das Nações Unidas
Criada para manter a segurança e a paz internacionais, é composta por órgãos, sendo os
seguintes os principais:
1) Assembleia Geral: maior e principal órgão deliberativo da ONU. Não produz tratados,
mas resoluções, que não têm força cogente, mas natureza de recomendação. Todos os
Estados têm assento na Assembleia Geral, cada Estado tem direito a um voto e as
reuniões geralmente acontecem uma vez ao ano.
2) Conselho de Segurança: formado por 15 membros (10 rotativos mudam a cada dois
anos e 5 permanentes EUA, Rússia, China, França e Inglaterra, que têm a vantagem
do direito ao veto, interrompendo qualquer decisão na ONU acerca de determinado
assunto). A principal função é a de manter a paz e a segurança internacionais. As
principais decisões se submetem ao crivo do Conselho e Segurança.
3) Conselho Econômico e Social: espécie de fórum central que debate questões
palpitantes relacionadas aos DH. Formado por 18 membros, produz recomendações aos
Estados.
4) Conselho de Tutela: foi criado para supervisionar os governos que administravam
territórios internacionais. Desde 1994 está praticamente desativado, com a independência
do último território (Ilhas Palau).
5) Corte Internacional de Justiça: com sede em Haia, é o órgão jurisdicional da ONU,
solucionando os conflitos entre os Estados membros das Nações Unidas. Pode também
ocorrer a submissão de conflitos à Corte por Estados que não fazem parte da ONU. Tem
função consultiva (os demais órgãos podem consultar a Corte em relação à aplicação do
direito internacional). Não julga indivíduos, mas Estados. Composta de 15 juízes,
chamados de membros, que são eleitos pela Assembleia Geral.
6) Secretariado: Órgão administrativo, executivo e burocrático, cuida do funcionamento da
ONU. Chefiado pelo Secretário-Geral.
Lembrar! Organismos da ONU são as organizações internacionais que fazem parte da
ONU, mas a ela não estão subordinadas, são independentes (Organização Mundial da
Saúde, Organização Mundial do Comércio, Organização Internacional do Trabalho), têm
personalidade jurídica própria. Já os órgãos têm relação de subordinação.
Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948):
Artigo 1°. Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos.
Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de
fraternidade.
Cria um código de conduta para proteger e beneficiar os seres humanos, e o único
requisito para se pedir o direito é a condição de pessoa humana.
Art. 3º - art. 21 direitos e garantias individuais (1ª geração).
Art. 22 - art. 28 direitos sociais, econômicos e culturais (2ª geração).
Críticas:
- Não estabelece um órgão fiscalizador de sua aplicação.
- Tenta unificar os discursos liberal e social no mesmo documento.
Atenção! Obrigatoriedade: a DUDH não tem força cogente. A natureza jurídica da
DUDH é a de Resolução da Assembleia Geral da ONU e, portanto, não é tratado
internacional. Então, não carrega obrigatoriedade jurídica aos Estados (não passou por
processos formais de recepção interna nos Estados e, por isso, não é juridicamente
exigível, apenas orientadora). Este é o posicionamento majoritário e adotado pelo STF.
Todavia, se analisarmos sob uma perspectiva material, boa parte de seu conteúdo foi
absorvido e reproduzido pela CF/88, sendo juridicamente exigível em relação ao Brasil
(mas essa exigência decorre da Constituição, não da Declaração).
Ou seja, a DUDH não é formalmente exigível ou juridicamente exigível.
Assim, surgiram dois tratados internacionais em Nova Iorque (1966) que reproduziram o
conteúdo da DUDH: os Pactos de Nova Iorque, traduzidos no Pacto Internacional de
Direitos Civis e Políticos e Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e
Culturais.
Os Pactos são tratados internacionais e, como tais, devem ser exigíveis e passam
necessariamente por um processo de incorporação no direito interno. A criação desses
pactos encerra a discussão sobre a exigibilidade acerca do conteúdo da DUDH, pois este
conteúdo foi reproduzido, dividido e ampliado nos dois pactos. Assim, os Estados que
ratificam os pactos sofrem a força cogente.
Note-se que o comprometimento da comunidade internacional com o Pacto de Direitos
Civis e Políticos foi muito maior do que com o Pacto de Direitos Econômicos, Sociais e
Culturais, pois este exige prestações estatais, comprometimento do Estado que a ele
adere.
Pacto Internacional de Direitos Pacto Internacional de Direitos
Civis e Políticos Econômicos, Sociais e Culturais
Igualdade de todos os seres humanos Estabelece normas programáticas
(metas que exigem comportamento
ativo do Estado)
Vedação ao retrocesso Proteção de classes ou grupos sociais
desfavorecidos
Vedação à tortura, escravidão e Proteção ao trabalho e previdência
tratamentos cruéis, desumanos ou social contra a dominação
degradantes socioeconômico
Livre acesso ao Poder Judiciário Direito à moradia, saúde e educação
Direito de reunião Desafios para aplicação e efetivação
progressiva
Criação de mecanismo de Criação de mecanismo de
monitoramento: Comitê de Direitos monitoramento **
Humanos (órgão fiscalizador dos
Estados que ratificaram o Pacto)*
*Mecanismo de Monitoramento: Os Estados produzem os Relatórios, enviam ao
Secretário da ONU e há o encaminhamento ao Comitê de Direitos Humanos, que verifica
e analisa os Relatórios, percebendo se o Estado está ou não cumprindo o Pacto e qual é
o grau de cumprimento. O Comitê tem também a função conciliatória, construindo
comissões ad hoc com o consentimento dos Estados, com o objetivo de buscar solução
de controvérsias. Com o advento do Protocolo Facultativo (1966), adquire a natureza
investigatória, permitindo o recebimento de queixas individuais (petições) sobre violações
e descumprimentos do Pacto de Direitos Civis e Políticos.
**Mecanismo de Monitoramento: Criação do Comitê de Direitos Econômicos, Sociais e
Culturais, segue a mesma linha acima descrita. O Protocolo Facultativo deu-se em 2008 e
também permite o recebimento de queixas individuais (petições) sobre violações e
descumprimentos do Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais.
Responsabilidade Internacional dos Estados e os DH
Quando se pode imputar a um Estado essa responsabilidade?
Há então o surgimento das relações entre Estados e pessoas, não mais apenas entre
Estados. Assim, o Estado passa a poder ser responsabilizado pelos danos causados, por
ação ou omissão, ao indivíduo, e não apenas no âmbito interno a responsabilidade pode
ser exigida em um plano internacional.
A finalidade de se perseguir a responsabilidade internacional é preventiva e repressiva.
De modo preventivo, se há a responsabilização do Estado por um dano causado a um
indivíduo, obriga-se ao Estado o cumprimento de um dever que assumiu de forma livre. A
segunda finalidade gira em torno à questão repressiva. O Estado pode buscar reparação
internacional caso não haja o cumprimento.
*Duas correntes acerca da natureza jurídica da responsabilidade internacional do Estado:
Subjetivista ou teoria da culpa: a responsabilidade do Estado só pode derivar de um ato
doloso ou culposo.
Objetivista: não busca a culpa do Estado. O que se verifica é a existência de uma violação
de uma obrigação internacional. Havendo o nexo de causalidade entre a prática de um
ato ilícito por um Estado A e o dano de um Estado B, configura-se em regra a
responsabilidade.
DH na Constituição de 1988
Com o rompimento com a ditadura militar, de um Estado totalitarista e centralizador e a
reconquista da democracia, ocorre o fortalecimento dos direitos individuais e coletivos. A
intenção é a de limitar os abusos estatais.
O art. 5º, com seus 78 incisos cria rol exemplificativo de direitos individuais e coletivos. O
Brasil passa, inclusive, a admitir a existência de direitos e garantias fundamentais
externos à Constituição.
Os DH foram de tal forma recepcionados em nossa CF ao ponto de a dignidade da
pessoa humana ser um dos fundamentos da República Federativa do Brasil, verdadeiro
eixo axiológico.
Artigo 5º, CF
Direito à igualdade ou princípio da isonomia (inciso I): respeito ao próximo, igualdade
formal por parte do poder estatal e igualdade material, na prática. Tratar os iguais de
forma igual e os desiguais na medida de sua desigualdade (admite-se o tratamento
desigual aos que necessitam de maior proteção por parte do Estado para que haja o
acesso destes grupos aos direitos, como ocorre com as crianças, idosos, mulheres e
portadores de necessidades especiais).
Ex: possibilidade de limite de idade no concurso público, caso possa ser justificado
(Súmula 683, STF); distinção de gênero em caso da natureza do cargo (concurso para
agente penitenciário); reserva de vagas conforme critério étnico-racial (cotas).
Direito à vida (art. 5º, caput): o Estado brasileiro é responsável pela proteção ao direito à
vida de todos os que se submetem à jurisdição brasileira. Trata-se da proteção do direito
à vida e da garantia a uma vida digna.
Princípio da legalidade ou reserva de lei formal (inciso II): o Estado só poderá atuar dentro
do marco legal criado por ele mesmo. Se a lei, portanto, não contempla a possibilidade, o
Estado não poderá se debruçar sobre o tema.
Ex: Apenas por lei pode-se exigir a aplicação do exame psicotécnico em caso de
concurso público (Súmula 686, STF).
Proibição da tortura (inciso III): ninguém será submetido a tratamento cruel, desumano ou
degradante. Súmula Vinculante 11: uso de algemas com restrições. Lembrar que, embora
a Declaração Universal de Direitos Humanos traga a expressa e completa vedação à
tortura, o STF não admite a existência de direitos fundamentais absolutos. Lei de Anistia:
segundo a Corte Interamericana de DH, não poderia haver uma lei neste sentido, o que
vai de encontro com a posição do STF.
Liberdade de expressão e direito de resposta (incisos IV e V): é livre a manifestação do
pensamento, sendo vedado o anonimato. Discussão sobre a marcha da maconha:
liberdade de manifestação x apologia ao crime. O STF entendeu pela legitimidade da
marcha, com base no direito de reunião (liberdade-meio) e no direito à livre expressão do
pensamento (liberdade-fim).
É assegurado o direito de resposta proporcional ao agravo, além da indenização por dano
material, moral ou à imagem. Se o indivíduo tem a liberdade de se expressar, deve fazê-lo
de forma identificada, de modo que a pessoa que suporta a expressão deve ter o direito
de se sentir agredida ou violada em alguma esfera.
Liberdade de consciência e crença (inciso VI): o STF entende que o Brasil é uma
CF não significa que o Estado brasileiro adota religião oficial, sendo este também o
entendimento acerca dos crucifixos em órgãos e poderes públicos, caracterizando uma
questão cultural e costumeira. Assegura-se também a assistência religiosa em presídios.
É importante dizer que ninguém será privado de direitos por motivo de crença, desde que
não se exima de obrigação legal por esta razão.
Direito à privacidade (inciso X): proteção à intimidade, vida privada, honra e imagem,
assegurado o direito à indenização por dano material e moral em caso de violação.
Observação: possibilidade de garantir ao Fisco o acesso aos dados bancários dos
contribuintes sem necessidade de autorização judicial. O STF entendeu que o art. 6º da
LC nº 105/2001 não ofende o direito ao sigilo fiscal, representando apenas a transferência
de sigilo da órbita bancária à órbita fiscal.
Inviolabilidade de domicílio (inciso XI): devemos nos lembrar da flexibilização do conceito
de domicílio, até mesmo a quarto de hotel, local de trabalho e veículos. A casa é asilo
inviolável do indivíduo, salvo em caso de flagrante delito, desastre, para prestar socorro e
durante o dia, por determinação judicial.
Liberdade de trabalho (inciso XIII): qualquer pessoa pode exercer qualquer profissão,
salvo se houver requisitos legais de qualificação. Ex: Exame de Ordem. Jornalismo: o
STF entendeu que não há espaço para regulação estatal à carreira de jornalista. Da
mesma forma, a profissão de músico.
Liberdade de locomoção (inciso XV): é livre dentro do território nacional em tempos de
paz. A liberdade de locomoção foi estabelecida na Bill of Rights, na Inglaterra.
Liberdade de reunião ou associação (inciso XVI): desde que pacificamente (sem armas) e
em local aberto ao público, independentemente de autorização. O que é necessário é a
comunicação ao órgão público, não a autorização. O objetivo da comunicação é não
frustrar outras reuniões previamente agendadas, além de viabilizar o fluxo no local
(trânsito, por ex.).
Direito de propriedade (incisos XXII e XXIII): o exercício do direito de propriedade deve
estar atrelado à função social; caso contrário, o Estado poderá intervir nesta relação.
Direito adquirido, ato jurídico perfeito e coisa julgada (inciso XXXVI): segurança jurídica e
estabilidade.
Integridade física do preso (inciso XLIX): obrigatoriedade do Estado em manter-se
responsável pela integridade física do preso (dever específico de proteção). A
responsabilidade civil estatal está submetida à teoria do risco administrativo, tanto quanto
às condutas comissivas quanto a respeito das condutas omissivas. Assim, em caso de
inobservância do dever específico de proteção previsto no art. 5º, XLIX, CF, o Estado é
responsável pela morte do detento (RE 841526/RS, rel. Min. Luiz Fux, 30.3.2016).
Direitos Sociais na CF/88
Corresponde aos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais nos Tratados Internacionais de
Direitos Humanos. Mudança de nomenclatura.
Surgiram para possibilitar um tratamento desigual no plano formal, proporcionando a igual
material.
O principal artigo na CF/88 que trata dos direitos sociais é o art. 6º. Houve uma
modificação em 2015 com a EC nº 90, acrescentando o direito social ao transporte ao rol
antes previsto.
Assim, são direitos sociais educação, saúde, alimentação, trabalho, moradia, transporte,
lazer, segurança, previdência social, proteção à maternidade e à infância e assistência
aos desamparados na forma da Constituição.
Também temos os artigos 7º ao 11, que trata de um conjunto de direitos de proteção ao
trabalhador nos âmbitos individual e coletivo, que gira em torno do eixo do trabalho digno.
Lembrar que os direitos dos trabalhadores foram tutelados desde o advento da
Constituição Mexicana (1917), Constituição de Weimar (1919) e a criação da Organização
Internacional do Trabalho (1919).
Dignidade da pessoa humana
Na essência, todo ser humano é livre e goza dos direitos básicos. A dignidade da pessoa
humana é um fundamento da República Federativa do Brasil (art. 1º, inciso III, CF/88).
Viver dignamente faz parte da condição humana. O Estado não pode apenas proteger a
integridade física do ser humano sem oferecer dignidade a sua vida. Duas funções:
Unificadora: toda a ordem constitucional gira em torno da dignidade da pessoa humana. É
o chamado eixo axiológico.
Hermenêutica: inspira e limita a interpretação e a aplicação do direito.
Eficácia imediata dos DH (art. 5º, §1º, CF): As normas definidoras de direitos e garantias
fundamentais têm aplicação imediata. Devemos ter em mente que quando o artigo fala
efeitos (lembrar que aplicabilidade é a produção direta dos efeitos).
Eficácia dos direitos fundamentais sociais: As normas jurídicas de direitos sociais gozam
da mesma eficácia das outras normas de direitos fundamentais, têm aplicabilidade
imediata (STF). A diferença é que a viabilização dos direitos depende da execução de
políticas públicas, que esbarra na ideia de reserva do possível.
Incorporação dos Tratados Internacionais de DH ao ordenamento jurídico brasileiro
O Estado brasileiro adota o modelo bifásico de incorporação.
Fase externa: fase da negociação e assinatura pelo Presidente da República ou por quem
o represente (art. 84, VIII, CF competência privativa). É muito comum que os tratados
internacionais sejam assinados por terceiras pessoas (Ministro das Relações Exteriores,
diplomatas etc. Observação: A Carta de Plenos Poderes confere a qualquer pessoa a
quem o Presidente designar a possibilidade de negociar um tratado internacional)
Fase interna: a assinatura do Brasil em um tratado internacional de proteção aos direitos
humanos não é suficiente para sua aplicação em nosso território. É composta por
referendo parlamentar e ratificação do Poder Executivo.
Conforme o art. 49, I, CF, é de competência exclusiva do Congresso Nacional resolver
definitivamente sobre tratados, acordos ou atos internacionais. É um decreto legislativo
trata-se da possibilidade de seguir para a próxima fase; ou seja, o fato de o CN aceitar
que o Brasil participe de determinado tratado internacional de DH não é suficiente para
que haja a incorporação do tratado.
Em seguida, abrem-se dois caminhos aos tratados internacionais de DH:
Art. 47: maioria dos votos, presente a maioria absoluta dos votos.
Art. 5º, §3º: quórum qualificado. Contraria a regra do art. 47.
Assim, é nesta fase que descobriremos qual posição um tratado internacional de DH
ocupará em nosso ordenamento jurídico.
O Presidente assina, o Congresso autoriza e volta para o Presidente, que tem o poder de
ratificação ou adesão por ato discricionário (exceção: convenções da OIT, ato vinculado).
Como não há prazos para os processos acima descritos, por ausência de exigência legal,
pode não mais ser interessante ao Estado Brasileiro a ratificação em um momento
posterior.
Promulgação e publicação: por meio de decreto do Poder Executivo.
Entrada em vigor: os tratados internacionais exigem números mínimos de participantes
para vigorar, ainda que todo o procedimento interno no Brasil seja concluído.
Registro e publicação: nas Nações Unidas.
Portanto, são as seguintes as fases:
1) Negociação e assinatura
2) Referendo parlamentar
3) Ratificação
4) Promulgação e publicação
5) Entrada em vigor
6) Registro e publicação
Incorporação dos Tratados Internacionais no ordenamento jurídico brasileiro
Os tratados internacionais ocupam o mesmo nível das leis ordinárias federais (paridade
normativa). No entanto, esta regra não é aplicável aos tratados internacionais que versam
sobre os direitos humanos.
Exceções à paridade normativa:
1) Art. 98, CTN: Os tratados e convenções internacionais em matéria tributária revogam
ou modificam a legislação tributária interna.
2) Tratados internacionais de DH: podem ocupar duas posições hierárquicas distintas em
nosso ordenamento jurídico, a depender de como foram votados. Se forem aprovados
pelo quórum qualificado, terão status de emenda constitucional (aprovação em cada Casa
do CN em dois turnos e por três quintos dos votos dos respectivos membros em cada
turno). Apenas dois tratados internacionais têm o nível de EC no Brasil: Convenção sobre
os Direitos da Pessoa com Deficiência (2007) e seu protocolo facultativo.
E se o tratado internacional de DH não for aprovado com este quórum, em que posição
ele se encontra? O STF decidiu que, neste caso, o tratado terá status de norma
supralegal (abaixo da constituição e acima da legislação infraconstitucional). Esta saída
surgiu com o Pacto de San José da Costa Rica (a CF/88, art. 5º, inciso LXVII previa dois
tipos de prisão civil: oriunda de dívida de pensão alimentícia e depositário infiel). Neste
caso, o STF entendeu que a norma do Pacto dava maior proteção ao ser humano, com
base no princípio do pro homine. Assim, não subsiste a prisão civil do depositário infiel
(SV 25).
Aplicação da primazia da norma mais favorável à pessoa humana no direito
brasileiro
Deve ser o guia para reger a interpretação do Poder Judiciário, embora não haja regra
instituída.
Denúncia
Ocorre quando o Estado manifesta seu interesse unilateral em se retirar de determinado
tratado internacional. Não há regra em nosso ordenamento jurídico. Por analogia, a
competência para denunciar um tratado internacional é do Presidente da República, é
discricionária e não há necessidade de autorização do Parlamento.
Alguns tratados sobre DH ocupam a posição de emenda constitucional. Quanto a estes,
basta uma simples assinatura do Presidente da República para que o Brasil se retire, uma
simples denúncia.
Problema: ADI 1625 deve o Congresso Nacional manifestar seu consentimento em
relação à retirada do Estado? Ainda não solucionado.
Parte da doutrina condiciona esta retirada ao ingresso do Estado em outro tratado que
amplie o rol de direitos, nunca no sentido da supressão.
Controle de Convencionalidade
Tese levantada no Brasil pelo Professor Valério Mazzuoli. Sua posição sobre o status dos
tratados internacionais sobre DH no ordenamento jurídico brasileiro é diferente daquela
sustentada pelo STF.
Para o Professor, todos os tratados internacionais que versem sobre os DH e ratificados
pelo Brasil têm status constitucional, independentemente do quórum. Os demais tratados
(não relacionados com os DH) têm status supralegal.
Para o STF, como dito, caso um tratado internacional que verse sobre DH seja aprovado
com o procedimento do art. 5º, §3º, assume status de emenda constitucional. Caso
contrário, norma supralegal (abaixo da Constituição e acima da legislação).
Toda lei ordinária, para ser válida, encontra a duplo controle de verticalidade: controle de
constitucionalidade (compatibilidade do texto legal com a CF/88) e controle de
convencionalidade (compatibilidade do texto legal com os tratados de DH).
Se a lei inferior for antagônica com qualquer norma de valor superior (CF ou tratados), a
norma de valor superior provoca o efeito paralisante na norma inferior (min. Gilmar
Mendes).
Conclusão (STF): admitindo-se a tese de que os tratados internacionais de DH não
contam com valor constitucional (casos de supralegalidade), servem apenas para o
controle difuso de convencionalidade, que deve ser levantado caso a caso, em linha de
preliminar, podendo ser invocado perante qualquer juízo e deve ser feito por qualquer juiz.
A razão disso é que o controle de convencionalidade concentrado equivaleria ao controle
de constitucionalidade (porque os tratados aprovados com quórum qualificado equivalem
às emendas constitucionais).
No caso de controle de convencionalidade concentrado, admite-se:
ADI (invalida ou retira norma constitucional incompatível com o tratado internacional de
DH).
ADC (garantir à norma infraconstitucional sua compatibilidade com a norma internacional
de DH).
ADPF (exigir o cumprimento de um preceito fundamental presente no tratado
internacional).
Execução das decisões dos Tribunais de Direitos Humanos
Regra: qualquer sentença estrangeira (proferida fora do território nacional por tribunais
subordinados a outros Estados) deve passar por um processo de homologação no Brasil.
Essa competência é do STJ (art. 109, CF).
E as decisões sobre DH? As sentenças proferidas por tribunais internacionais de proteção
dos DH são dispensadas do processo de homologação (ex: TPI, Corte Interamericana de
DH). São as chamadas sentenças internacionais.
Incidente de Deslocamento de Competência
Inserido pela EC 45/04 e ligado aos tratados internacionais de DH, configura a
possibilidade de a Justiça Federal julgar um caso de competência originária da Justiça
Estadual. Essa possibilidade está prevista no art. 109, §5º, CF e tem como principal
objetivo evitar que o Brasil seja punido na esfera internacional por não cumprir um tratado
internacional de DH.
Outra razão para o IDC é que compete à União manter relações com Estados
estrangeiros, razão pela qual deve chamar para si a responsabilidade do não
cumprimento do tratado internacional.
Nas hipóteses de grave violação de DH, o Procurador-Geral da República tem a
competência para solicitar o incidente de deslocamento de competência. A finalidade é a
de assegurar o cumprimento de tratados internacionais de DH dos quais o Brasil seja
parte.
O PGR suscita o IDC perante o STJ, em qualquer fase do inquérito ou processo.
Até o momento, o IDC foi concedido tão somente em dois casos pelo STJ: morte de um
vereador e de um promotor.
Princípio da primazia dos DH nas relações internacionais
O Estado brasileiro tem como um dos princípios a primazia dos direitos humanos (art. 4º,
II, CF), que guia a relação do Brasil com os demais Estados estrangeiros. Ademais, este
princípio vem após o cenário ditatorial vivido.
A promoção da primazia dos DH ocorre de diversas formas: empenho na construção de
um sistema internacional da proteção de DH e na efetivação de suas normas, celebração
e ratificação de tratados internacionais de DH, dentre outras.
Ao aderir aos tratados, passa a submeter-se a órgãos internacionais de proteção aos DH,
gerando a aplicação prioritária das normas internacionais, exigindo a incorporação dos
tratados internacionais ao ordenamento jurídico brasileiro (e uma série de outros
compromissos).
Princípios do art. 4º, CF:
- autodeterminação dos povos;
- defesa da paz;
- repúdio ao terrorismo e ao racismo;
- cooperação entre os povos;
- concessão de asilo político;
- primazia ou prevalência dos DH nas relações internacionais.
Sistema Internacional de Proteção aos DH (Sistema ONU ou Sistema Global)
Surgiu após a 2ª GM, em 1945, que é um divisor de águas. A partir da criação da ONU,
inicia-se o Sistema Internacional de DH.
A DUDH de 1948 dá o pontapé inicial na proteção internacional dos DH, trazendo direitos
de primeira e segunda geração. Outros instrumentos foram criados em decorrência deste
marco: os Pactos Internacionais (Direitos Civis e Políticos e Direitos Econômicos, Sociais
e Culturais), que tornaram os direitos da DUDH obrigatórios, pois são tratados
internacionais e, como tais, geram obrigações (lembre-se que a DUDH tem força de
resolução, e não de tratado internacional).
Mas o Sistema Internacional não se resume aos Pactos Internacionais. Outros
documentos:
Convenção para Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio (1948).
Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação
Racial (1966).
Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Contra as
Mulheres (1979).
Convenção sobre a Tortura e outros Tratamentos ou Penas Crueis, Desumanos ou
Degradantes (1984).
Convenção sobre os Direitos da Criança e Protocolos Facultativos (1989).
Declaração de Viena (1993).
Regras Mínimas das Nações Unidas para o Tratamento de Presos.
Protocolo de Prevenção, Suspensão e Punição do Tráfico de Pessoas, especialmente
Mulheres e Crianças complementar à Convenção das Nações Unidas contra o Crime
Organizado (2000).
Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo
Facultativo (2007).
O Sistema Internacional é suplementar, ou seja, é complementar ao nacional, pois toda
violação que acontece em um Estado deve ser em regra de sua obrigação (do Estado).
Sistema Internacional de Proteção aos DH
Como vimos, não havia o mecanismo de monitoramento antes do advento do Pacto de
Direitos Civis e Políticos e do Pacto de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais.
Os mecanismos convencionais são os criados e previstos nos tratados internacionais (já
há a previsão da criação de um órgão de supervisão, que pode ser chamado de comitê ou
conselho e desenvolve suas atividades por meio de relatórios que aferem o grau de
aplicabilidade dos tratados internacionais e por recebimento de denúncias e queixas).
Principais órgãos de monitoramento:
- Alto Comissionado das Nações Unidas para os Direitos Humanos;
- Conselho de Direitos Humanos;
- Comitê de Direitos Humanos;
- Comitê de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais;
- Comitê para Eliminação da Discriminação Racial;
- Comitê sobre a Eliminação da Discriminação da Mulher CEDAW
- Comitê para os Direitos da Criança;
- Comitê contra a Tortura e Subcomitê de Prevenção;
- Comitê sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência
Mecanismos não convencionais são aqueles não previstos nos tratados internacionais,
mas que contribuem com a proteção. Um exemplo é a capacidade que a ONU tem para
adoção de ações urgentes em casos de violação de DH, independentemente de
assinatura por determinado Estado. Duas resoluções do Conselho Econômico e Social da
ONU:
- Resolução 1235 (ECOSOC) de 1967 apartheid. A Comissão de DH foi autorizada a
investigar graves violações de DH na África Austral. Na África do Sul, havia o apartheid, a
política separatista. A partir deste caso, pode investigar violação de DH em qualquer parte
do mundo.
- Resolução 1503 procedimento confidencial para operacionalizar o estudo das
violações de DH. A Subcomissão para Prevenção da Discriminação e à Comissão.
Caso o Estado não tente cessar a violação, há a publicação pela Comissão da conduta do
Estado violador a toda comunidade internacional.
Há também um terceiro mecanismo ou via para proteção: revisão por partes. Os próprios
Estados verificam se os demais estão cumprindo os tratados e normas internacionais
sobre direitos humanos.
Não apenas os Estados podem apresentar relatórios sobre outros (shadow report): uma
organização via de regra não governamental apresenta os relatórios.
Sistemas Regionais de Proteção dos Direitos Humanos
1) Sistema Europeu (é o mais antigo)
2) Sistema Africano (é o mais recente)
3) Sistema Americano (segundo sistema, do qual o Brasil faz parte)
Há conflito entre os sistemas Global e Regionais? Não. O Sistema Internacional e os
Sistemas Regionais se complementam, dialogam e existem de forma simultânea. A
obrigação principal de prevenir, perseguir e punir é do Estado. Caso o Estado negligencie
esta sua obrigação, entram em cena os Sistemas Global e Regionais.
O Sistema Americano é aquele do qual o Brasil faz parte. Não se resume na Convenção
Americana de Direitos Humanos (Pacto de San José da Costa Rica), este é apenas um
dos instrumentos. Há alguns Estados que fazem parte de alguns tratados e não de outros,
mesmo que este Estado esteja no âmbito do Sistema Americano de Proteção dos DH
(sistema dos Estados que fazem parte da OEA Organização dos Estados Americanos).
A origem do Sistema Americano se dá a partir de dois instrumentos: com a Carta da
Organização dos Estados Americanos (Carta de Bogotá ), de1948 e com a Declaração
Americana dos Direitos e Deveres do Homem, também de 1948.
Convenção Americana de Direitos Humanos (1969): Promulgada pelo Decreto 678
(1992). Somente Estados da OEA podem dela fazer parte (mas nem todo Estado da OEA
faz parte da Convenção, a exemplo de EUA e Canadá). Teve como foco principal os
direitos humanos de primeira geração (abordou os direitos sociais apenas no art. 26, de
forma genérica. O Protocolo de San Salvador de 1988, adicional à Convenção Americana,
traz os direitos de segunda geração, econômicos, sociais e culturais).
Falta de atuação do Estado (omissão, inação ou negligência, ou ainda proteção mínima)
cabe ao Sistema Americano atuar em defesa das vítimas contra o Estado, cobrando deste
uma postura mais firme na garantia dos DH.
Estrutura:
Parte I: Rol dos direitos civis e políticos
Parte II: Meios para alcançar a proteção dos direitos elencados na parte I.
Outros instrumentos de defesa dos DH foram estabelecidos no Sistema Americano.
Exemplos:
- Protocolo à Convenção Americana sobre Direitos Humanos Referente à Abolição da
Pena de Morte (1990). Reserva do Brasil quanto à aplicação da pena de morte em
tempos de guerra.
- Convenção Interamericana para Prevenir e Reprimir a Tortura (1985).
- Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência Contra a Mulher
(1994).
Órgãos da Convenção:
a) Comissão Interamericana de Direitos Humanos: é a porta de entrada de uma petição
ou denúncia contra um Estado que violou ou viola as normas de DH previstas na
Convenção. A violação não é das normas de direito interno! O objetivo é a tentativa de
solucionar o conflito, não de judicializá-lo. Caso não seja possível, a Comissão elabora
um relatório com recomendações ao Estado, que tem 3 meses para cumpri-las, podendo
ser solicitada a prorrogação do prazo. Se o Estado permanecer inerte, pode haver a
denúncia do Estado ou a publicação das recomendações no relatório anual da Comissão,
expondo o Estado à comunidade internacional.
Competência: proceder ao juízo de admissibilidade, verificar os requisitos do pedido.
Deve estar presente nos julgamentos na Corte Americana, que julga a ação proposta na
Comissão.
A Comissão tem dupla função: receber e fazer o juízo de admissibilidade e denunciar o
Estado à Corte Interamericana de Direitos Humanos.
Art. 44. Convenção Americana de Direitos Humanos: qualquer pessoa, grupo de pessoas
ou entidade não governamental legalmente conhecida em um ou mais Estados membros
da OEA pode apresentar à Comissão petições que contenham denúncias ou queixas de
violação da Convenção por um Estado parte (pessoa física ou grupo de pessoas contra
Estado). Deve conter nome, nacionalidade, domicílio e assinatura das pessoas (ou
representante legal).
Art. 45. Todo Estado parte pode, a qualquer momento, declarar que reconhece a
competência da Comissão para investigar uma denúncia que um Estado queira fazer
contra ele. Ou seja, deve haver uma aceitação prévia, e isto pode se dar por tempo
indefinido, período determinado ou por casos específicos (§3º) (Estado contra Estado).
Requisitos (art. 46, §§1º e 2º): interpostos e esgotados os recursos da jurisdição interna.
Reforça a característica da complementariedade do Sistema Regional.
E o indivíduo que não teve a oportunidade de esgotar os recursos na jurisdição interna (p.
ex.: preso)?
Para estes, a comissão estabelece um prazo de seis meses a partir da data em que o
presumido prejudicado tenha sido notificado sobre a decisão definitiva. Apesar de os DH
serem imprescritíveis, não significa dizer que não possam ser estabelecidos prazos
processuais para procedimentos específicos.
A matéria da petição não pode estar sob apreciação em outro processo de solução
internacional (litispendência).
Possibilidades de não esgotamento interno:
Na ausência de uma norma interna que trate do devido processo legal para aqueles
direitos violados, pode haver denúncia direta à Comissão.
Se ao prejudicado não for permitido acessar o recurso da jurisdição interna, também pode
haver denúncia direta à Comissão.
Quando houver demora injustificada na decisão sobre os recursos (identificação caso a
caso).
Art. 25: a Comissão admite a utilização de medidas cautelares, que podem ser
determinadas ex officio pela própria Comissão em situações de gravidade e urgência.
Composição: a Comissão é composta por 7 membros, por um período de 4 + 4 anos.
Representa todos os membros da OEA. São eleitos por suas capacidades pessoais, não
representa os Estados. São eleitos pela Assembleia da OEA a partir de uma lista
recomendada pelos Estados. As listas podem ter no máximo 3 pessoas e uma das
pessoas deve ser de nacionalidade diferente daquela do Estado proponente. Não pode
haver duas pessoas da mesma nacionalidade.
b) Corte Interamericana de Direitos Humanos: órgão jurisdicional da Convenção. Com
sede em San José (Costa Rica), exige a necessidade dos Estados aceitarem a
competência contenciosa do tribunal (art. 62). Já a competência consultiva (interpretação
da Convenção) é automática.
Composição: 7 juízes de nacionalidades diferentes, por um período de 6+6. O quórum
para deliberações é de 5 juízes.
Sentenças na competência contenciosa: a Corte faz parte do rol das sentenças
internacionais, e não estrangeiras. Suas sentenças são definitivas e inapeláveis. No
entanto, caso haja divergência ou não atendimento do alcance ou sentido pelas partes,
estas podem pedir o esclarecimento até 90 dias a partir da notificação da sentença.
Podem ser executadas diretamente (título executivo judicial, não precisam passar por
homologação, pois são sentenças internacionais, e não estrangeiras).
A parte da sentença que determinar indenização compensatória poderá ser executada de
acordo com o regramento interno. Em regra, como não há regulamentação no Brasil,
entraria na fila dos precatórios. Na prática, há o pagamento.
Em caso de condenação, são deveres:
- Indenização à vítima ou à família;
- Investigar a violação para evitar que se repita;
- Punir os responsáveis pela violação.
Em caso de descumprimento pelo Estado, a vítima ou quem o represente, ou o MPF
ingressam com ação.
A Corte pode informar à Assembleia da OEA sobre a situação de descumprimento,
expondo o Estado na esfera internacional nos relatórios anuais.
O pagamento é feito pela União (a República é condenada internacionalmente e a União
responde). A Fazenda Pública pode impetrar ação de regresso em relação ao
responsável.
Estatuto do Tribunal Penal Internacional TPI (1998): Criado para funcionar como
jurisdição penal universal permanente para julgar os principais crimes contra a
humanidade. A competência do TPI é em relação à matéria, sendo admitidos quatro
temas: crime de genocídio, crime contra a humanidade, crime de guerra e crime de
agressão. O TPI não julga Estados, julga pessoas.