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A Charge e a Política em Crise

1 Delimitação do Tema e Problema de Pesquisa

A comunicação, talvez seja o motivo maior de estarmos, humanos, aqui,


rompendo o terceiro milênio e trocando papel por tablets. Inegavelmente
somos amantes das palavras, as falamos e escrevemos cotidianamente, é nossa
maior forma de expressão, nosso orgulhoso modo de fazer-se entender.
Entretanto, a história da comunicação humana teve seus primeiros registros
amparados na imagem.

“Muito antes de qualquer escrita, os que habitaram as grutas de


Altamira comunicaram com seus semelhantes (e poder-se-ia dizer que
continuam a comunicar)” Peltzer (1991, p. 98),

APUD João Batista Perles∗ PELTZER, Gonzalo. Jornalismo


Iconográfico. Lisboa: Planeta, 1991. 219 p.

Assim, desde que as primeiras pinturas rupestres começaram a surgir, há cerca


de 40 mil anos, o homem não só se comunicava, mas também registrava sua
história. Seu cotidiano, seus sonhos e principalmente sua intelectualidade
ficaram marcadas em paredes de cavernas, como um desafio interpretativo
para quem um dia fizesse sua leitura.

Deixando a história de lado e enveredando pelo processo de comunicação


jornalística, chegamos a um gênero que, amparado pela imagem, sintetiza
geralmente de maneira cômica os assuntos do cotidiano da sociedade: a
charge. Surgida no século XIX, tanto na Europa quanto aqui, no Brasil, logo
se tornou popular, quando surgiram algumas revistas, sempre ilustradas com
charges, como é o caso da Lanterna Mágica, lançada em 1844, pelo autor da
primeira charge brasileira, Manuel de Araújo Porto-Alegre. Com o passar do
tempo um grande número de chargistas se destacaram como Ziraldo, Jaguar,
Millôr Fernandes, Henfil, Angeli, Glauco, Laerte, Chico Caruso, Gonsales.

A palavra charge se origina na língua francesa e quer dizer carga. Poderíamos


dizer que se trata de uma carga contra determinado personagem, ou apenas
expressa uma crítica, como elucida Arbach:

“Seu objetivo é a crítica humorística de um fato ou de um


acontecimento específico. É a reprodução gráfica de uma notícia já
conhecida do público segundo a ótica do chargista. Tanto se
apresenta somente através de imagens quanto combinando imagem
e texto. Sua ocorrência opera em cima de fatos reais e o
conhecimento prévio do tema abordado na charge, por parte do
leitor, é fator essencial para compreendê-la” (ARBACH, 2007P
210). ARBACH, Jorge Mtanios Iskandar. O fato gráfico: o humor
gráfico como gênero jornalístico. São Paulo: USP/SP. Tese de
doutoramento em Ciências da Comunicação, 2007.

A hipótese da pesquisa aponta para o fato de que o leitor, que esteja


familiarizado com a agenda noticiosa, será capaz de interpretar e compreender
rapidamente a mensagem transmitida pela charge, concordando ou não com a
opinião expressa pelo autor. Desta forma, a charge vai além da simples
manifestação ideológica. Ela representa o registro, amparando-se na imagem
ou criando a interação imagem-texto, da história política do Brasil, retratando
crises ou mesmo satirizando a bonança. Assim, será possível que o leitor,
estando familiarizado com os fatos relatados nos meios de comunicação os
consegue relacionar com o tema tratado na charge e qual o impacto de uma
charge que retrata fatos históricos passados na sua memória política?

2 Justificativa

A pesquisa parte do pressuposto de que o leitor que acompanhe os assuntos


relacionados à politica, noticiados de maneira intensa pelos meios de comunicação, irá
conseguir identificar prontamente o tema abordado pelo autor nas charges veiculadas
em jornais e revistas de todo o país. Além disso, pelo seu caráter humorístico, o leitor
tem a possibilidade de observar o outro lado da crítica, que satiriza a situação, e pode
por vezes se tornar ferramenta ideológica.

Assim, através desse estudo, iremos abordar charges de vários autores publicadas em
diferentes veículos de comunicação, não necessariamente impressos, devido à atual
disponibilidade em meio digital do conteúdo da maioria dos veículos de comunicação.

O que terá vindo antes: a políticaou a charge política?


http://zh.clicrbs.com.br/rs/entretenimento/noticia/2015/11/luis-fernando-
verissimo-e-o-humor-em-todas-as-linguagens-4902799.html

Já Rubem Penz vê a distinção em outros termos:

– Tirinha, charge, crônica, cabem todos no mesmo papel, mas a charge tem
uma mensagem calcada na capacidade de síntese, e por isso é uma forma em
que a qualidade e a precisão do traço é fundamental. A tira em quadrinhos já
tem um enredo, e ela prescinde muitas vezes do traço mais elaborado.

Luis Fernando Verissimo e o humor em


todas as linguagens
As cobras e A Família Brasil, do escritor gaúcho, seguem inspirando e
motivando discussões: em qual gênero se encaixam? Charge, tira de
humor, crônica? Com algumas respostas na manga, o autor debaterá
sua obra e a presença dela no jornalismo brasileiro neste sábado

Por: Carlos André Moreira


ZH 14/11/2015 - 06h01min

Para o pesquisador José Marques de Melo, o cartum, a charge e ainda o comic, também
chamado de tira, tirinha quadrinhos, são tipos de caricatura, sendo assim definidos:d)

Charge é a “[...] crítica humorística de um fato ou acontecimento específico. Reprodução


gráfica de uma notícia já conhecida do público, segundo a ótica do desenhista. Tanto pode se
apresentar somente através de imagens quanto combinando imagem e texto (título, diálogos)
(2003, p. 167) .

Marques De Melo, J. (2003). Jornalismo opinativo. Campos do Jordão: Editora Mantiqueira.

O pesquisador Rozinaldo Antonio Miani, que defendeu seu doutorado usando a charge como
objeto, a considera como [...] uma representação humorística e satírica, persuasiva, de caráter
político e de natureza eminentemente dissertativa e intertextual; ela se constitui, em certa
medida, como “herdeira da caricatura” em sua conotação e expressão políticas (2010, p. 58).
http://congreso.pucp.edu.pe/alaic2014/wp-content/uploads/2013/09/vGT17-Cristiane-
Parnaiba-Maria-Cristina-Gobbi.pdf

http://www.anpuhpb.org/anais_xiii_eeph/textos/ST%2004%20-
%20Jos%C3%A9%20Emerson%20Tavares%20de%20Macedo%20TC.PDF

Como afirma Pesavento (2004, p.86) PESAVENTO, Sandra Jatahy. História e história cultural.
Belo Horizonte, MG: Autêntica, 2004.. As imagens estabelecem uma mediação entre o mundo
do espectador e do produtor, tendo como referente à realidade, tal como, no caso do discurso,
o texto é mediador entre o mundo da leitura e da escrita. Afinal, palavras e imagens são
formas de representação do mundo que constituem o imaginário.

O termo charge é proveniente do francês “charger” (carregar, exagerar). Sendo


fundamentalmente uma espécie de crônica humorística, a charge tem o caráter de crítica,
provocando o hilário, cujo efeito é conseguido por meio do exagero. Ela se caracteriza por ser
um texto visual humorístico e opinativo, criticando um personagem ou fato específico.
Segundo (RABAÇA e BARBOSA, 1978: 89), a charge é um tipo de cartum “cujo objetivo é a
crítica humorística de um fato ou acontecimento específico, em geral de natureza política”. De
acordo com estes autores, uma boa charge deve procurar um assunto atual e ir direto onde
estão centradas a atenção e o interesse do público leitor. A construção da charge é também
muitas vezes baseada na remissão 4 a outros textos, verbais ou não. O que a torna singular é o
modo perspicaz como demonstra sua capacidade de congregar, num jogo de polifonia e
ambivalência, o verso e o reverso tematizado A charge é um tipo de texto atraente aos olhos
do leitor; pois, a imagem é de rápida leitura, transmitindo múltiplas informações de uma só
vez. A charge é “ uma fonte histórica das mais ricas, [...] é uma fonte como qualquer outra e,
assim como as demais, tem que ser explorada”. (PAIVA, 2002, P.17). No entanto, o leitor do
texto chárgico tem que estar bem informado acerca do tema abordado para que possa
compreender e captar seu teor crítico. Afinal, ali está focalizada e sintetizada uma certa
realidade. E somente os que conhecem essa realidade efetivamente entenderão a charge. Ela
pode ser definida como uma modalidade de linguagem iconográfica e que se caracteriza
essencialmente por sua natureza dissertativa e ideológica, além de primar pela presença do
humor com o propósito de denunciar, criticar e satirizar através do apelo ao exagero, também
deve ser reconhecida em seu potencial como fonte histórica, capaz de contribuir para a
reflexão sobre uma determinada época, pois expressa e transmite, assim como toda
configuração visual, idéias, sentimentos, valores e informações a respeito de seu tempo e
lugar, bem como de outros tempos e lugares. A produção de uma charge está
necessariamente vinculada ao contexto sócio-histórico imediato e, portanto, apresenta
elementos concretos para análise do seu respectivo tempo histórico. A charge, como também
pretendemos mostrar neste trabalho, é mais do que um instrumento ideológico a serviço de
um ideal político; ela é, para além disso, uma importante fonte histórica capaz de fornecer
elementos preciosos para reconstituir uma história, tomado como produto de um tempo e de
um lugar sócio-histórico. Se a História Cultural visa a atingir as representações, individuais e
coletivas, que os homens constroem sobre o mundo, a História Cultural do Político difundiu-se,
tendo como uma de suas preocupações centrais a definição de uma cultura política. A História
Cultural trouxe novos aportes ao político, colocando questões renovadoras e sugerindo novo
objetos, trazendo assim uma renovação do político. Essa história política renovada teve, a
rigor, ainda muito a ver com as novas formas assumidas pelos movimentos políticos, fazendo
uso da mídia e, cada vez mais, apostando na credibilidade obtida pelas imagens e pelos
discursos. A palavra iconografia pode ser traduzida literalmente como “escrita da imagem” e
vem do grego eikon (imagem) e graphia (escrita). Pintura, desenho, gravura, fotografia,
arquitetura, cinema, são exemplos de artes visuais. De acordo com Paiva (2002, p. 19) A
iconografia é tomada agora como registro histórico por meio de ícones, de imagens pintadas,
desenhadas, impressas, ou imaginadas e ainda esculpidos, modelos, talhados, gravados em
material fotográfico e cinematográfico. São registros com os quais os historiadores e 5
professores de História devem estabelecer um dialogo continuo. É preciso saber indagá-los e
deles escutar as respostas. Neste sentido, entendemos que a imagem só responde quando é
inquirida, porque, caso não haja uma interlocução, ela nada fala, nada transmite. A charge, é
um exemplo de linguagem iconográfica, ela vem acompanhada de textos ou palavras, uma vez
que o elemento lingüistico se torna importante para explicitar a sua intencionalidade ou
completar o sentido humorístico e político. Costumamos chamar de novas linguagens, diversos
recursos e metodologias, atualmente, focos de debates em torno da renovação do ensino de
História. São possibilidade de trabalhar com as linguagens iconográficas, sonoras, poéticas,
literárias, humorísticas, dentre outras. Evidentemente que são linguagens diferenciadas, cada
uma tem a marca da especificidade, porém, todas elas são representações pois são, no dizer
de Chartier (1989, p.29) [...] configurações intelectuais múltiplas, através das quais a realidade
é contraditoriamente construída pelos diversos grupos, as práticas que visam fazer reconhecer
uma identidade social, exibir uma maneira própria de estar no mundo, significa
simbolicamente um estatuto e uma posição [...]. As representações são elaboradas pelos
diversos grupos sociais, nada harmoniosas. São visões de mundo que se quer projeta no
imaginário social, são produtos de conflitos e embates, por isso, contraditórias. Falando em
linguagens diferentes, elas nada têm de imparcialidade ou inocência, pelo contrário, estão a
serviço dos grupos que estão no poder e dos que querem um dia alcança-lo, dos regimes
políticos e ideológicos e das várias configurações identitárias. A charge por ser um texto
imagético, tem na sua capacidade levar informações não apenas aos “assinantes” de jornais,
diante das novas linguagens que estão sendo trabalhada em sala de aula no caso de novas
metodologias, a charge pode ser muito bem trabalhada por professores de história, pois as
charges têm a capacidade de prender a atenção dos alunos. Costumamos chamar de novas
linguagens, diversos recursos e metodologias, atualmente, focos de debates em torno da
renovação do ensino de História. São possibilidade de trabalhar com as linguagens
iconográficas, sonoras, poéticas, literárias, humorísticas, dentre outras. Evidentemente que
são linguagens diferenciadas, cada uma tem a marca da especificidade, porém, todas elas são
representações. Portanto justifica-se pensar da importância do uso da charge para as leituras
dos fatos históricos, de uma maneira diferente, através da satirização reportado no humor das
charges, podemos compreender como foi observado o governo de João Baptista Figueiredo
como também o movimento das Diretas Já. Desta forma abarcamos a idéia de que a charge,
embora traga o riso para alguns ela pode trazer ódio para outros, já que se trata de uma arma
política.