Você está na página 1de 2

16 • Público • Domingo 4 Setembro 2011

Debate Quais são as melhores interpretações?

Politizar a História
Está a História a retomar muitos elementos que já
fizeram parte de uma agenda oficial da história dos
descobrimentos e da expansão? Estão de volta o
fascínio pelo religioso, sob a forma de messianismo
beato e cortesão, e uma interpretação da expansão
portuguesa centrada no papel do Estado e das elites
nobiliárquicas

uma perspectiva afastada dos debates de ser hoje difícil encontrar histo- de colonizadora dos portugueses nos
Diogo Ramada Curto
do presente e partir à descoberta das riadores fora da universidade e do trópicos, a partir da década de 1950.
a A história dos primeiros séculos de melhores interpretações. funcionalismo público; segundo, o Em paralelo, a segunda “arrancada”
expansão dos portugueses – desde a A exemplo do que se tem passado de uma progressiva massificação da do corporativismo levou a um acen-
tomada de Ceuta em 1415 à criação do com a economia de mercado, as reac- investigação, associada às lógicas de tuar das lógicas da descentralização,
Estado da Índia no século XVI, das lu- ções aos excessos liberais conduzem democratização do ensino. traduzidas na noção de províncias ul-
tas pela expulsão dos holandeses do quase sempre a um reforço do papel Em Portugal, o Estado Novo foi mar- tramarinas, por oposição a império
Brasil no século XVII à ida da corte do Estado. A modernidade dos últi- cado por um claro intervencionismo colonial, e a um investimento na ideia
para o Brasil em 1808 – encontra-se mos 200 anos pode, aliás, ser avalia- por parte do Estado. Neste contexto, de corresponsabilização das elites
marcada por um intenso conflito de da pelo movimento pendular dessa ganharam corpo ideias como a de um locais representadas pelas câmaras
interpretações. O que está em causa grande transformação que, segundo plano do Infante D. Henrique e foram e nos poderes regulamentados dos
não são tanto discordâncias a respei- Karl Polanyi, tende a colocar, de um valorizadas as políticas centralizado- governadores.
to de datas e de personagens, mas os lado, os mecanismos do mercado e, ras ensaiadas por D. João II, D. Manuel Um inventário dos aspectos dinâ-
quadros mais profundos em que as do outro, os esforços de regulação e D. João III, em coincidência com uma micos da historiografia mais oficial,
Ler mais mesmas se inserem. Ora, a fixação lançados por diversas instâncias de espécie de Idade de Ouro dos Desco- porque orientada para servir o regi-
de tais quadros, em manuais de di- controlo político. brimentos e da Expansão. Nas figu- me de Salazar, deveria ainda procurar
• Francisco Bethencourt e Diogo vulgação e livros de História mais es- À luz deste movimento pendular, ras do príncipe casto e de monarcas entender de que modo a integração
Ramada Curto, orgs., A Expansão pecializados, depende de diferentes como poderá ser pensada a produ- autoritários, celebravam-se os ideais académica de alguns historiadores de
Marítima Portuguesa 1400-1800 práticas analíticas que caracterizam ção historiográfica? Esta é, no seu es- de liderança da ditadura fascista. Ao orientação conservadora contribuiu
(Edições 70) o ofício de historiador. Mas também sencial, constituída por autores que mesmo quadro de projecções, mais para a criação de argumentos autóno-
reflecte modos diversos de politização funcionam um pouco à maneira de ou menos idealizadas, pertenciam os mos. Por exemplo, do ponto de vista
• Charles R. Boxer, O Império da História. pequenos produtores independen- valores de defesa da fé, do culto mo- dos processos de tomada de decisão,
Marítimo Português 1415-1825 Escusado será fazer de conta que as tes. Mas a sua prática não pode ser nárquico e integralista da nobreza, e emanados a partir da corte régia, Bor-
(Edições 70) interpretações antagónicas têm todas desligada nem das solicitações do de exaltação da nação. ges de Macedo valorizou os conflitos
o mesmo valor, quando elas envol- mercado e de uma área de relações de opinião aos mais diversos níveis,
• Diogo Ramada Curto, Cultura vem lutas intensas entre os historia- mais ou menos livres e, por isso mes- Alguns dinamismos transformando assim um regime ab-
Imperial e Projectos Coloniais dores.Nesse sentido, a melhor forma mo, capaz de criar novas formas de No interior desse quadro, em que solutista num aparente foro de discus-
(séculos XV a XVIII) (Editora de os historiadores e de o público em opinião, nem tão-pouco das determi- a escolha de temas e personagens sões e de quase multipartidarismo. De
Unicamp, Campinas) geral lidarem com tais combates con- nações impostas pelas instituições do correspondia aos anseios de contro- igual modo, pela mão de uma das suas
siste em começar por reconhecer a Estado. Será igualmente impossível lo político, vários foram os aspectos principais mentoras, Virgínia Rau, a
• Vitorino Magalhães Godinho, sua existência. Uma vez efectuado o desligar o trabalho de tais produtores que se alteraram. O mais importante historiografia fascista entrou perversa-
Os Descobrimentos e a Economia reconhecimento da história das lu- de dois grandes processos, com con- consistiu na passagem de um entendi- mente no estudo da vida económica,
Mundial, 4 vols. (Presença) tas pela interpretação do passado sequências irreversíveis: primeiro, o mento racista e eugénico do contacto procurando seguir as dinâmicas do
da expansão imperial, será possível de uma cada vez maior profissionali- entre culturas, conforme sucedia no açúcar e dos circuitos mercantis. Últi-
• Alfredo Margarido, A Lusofonia construir os instrumentos que nos zação, logo especialização, da pesqui- período anterior à Segunda Guerra, mo ponto deste inventário: dentro da
e os Lusófonos: Novos Mitos permitam criar uma distância em sa, a qual se confunde com tentativas para os ideais de plasticidade e mis- academia, mas sobretudo no âmbito
Portugueses (Edições Universitárias relação aos objectos de estudo. Para sucessivas de monopolização da vida cigenação, que permitiam continuar eclesiástico ou dos círculos científicos
Lusófonas) começar, será, pois, necessário criar intelectual pela academia, a ponto a justificar a excepcional capacida- e da náutica, mais ligados à marinha,
Público • Domingo 4 Setembro 2011 • 17

COLECÇÃO ESTÚDIO MÁRIO NOVAIS/BIBLIOTECA DE ARTE DA FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN


tação das fontes. Mau grado a referida
precariedade em que todos estes his-
toriadores trabalharam, pelo menos
durante largos períodos das suas vi-
das, impressiona a sua obsessão docu-
mental, destinada a libertar o arquivo
colonial da manipulação política a que
tantas vezes foi sujeito nos círculos ofi-
ciais mais ligados ao Estado. A este
respeito, para citar apenas um autor,
valerá a pena ter em conta as vastas
colecções documentais publicadas
por Jaime Cortesão no Brasil.

Lições para o presente


O conflito de interpretações aqui gros-
seiramente esboçado merece reflexão.
Sobretudo porque se assiste, hoje, ao
retomar de muitos elementos que fo-
ram outrora parte integrante de uma
agenda oficial da história dos descobri-
mentos e da expansão. Muitos centros
e programas de pesquisa, depois de
algumas décadas de políticas come-
morativas, e uma catadupa de publi-
cações, algumas de grande difusão,
parecem favorecer uma interpretação
dos séculos iniciais da expansão por-
tuguesa centrada no papel do Estado,
ou melhor, dos seus monarcas, das
elites nobilárquicas, dos chamados
poderes jurisdicionais ou das cama-
rilhas cortesãs, em correspondência
com as lutas entre facções locais. O
fascínio pelo religioso, agora sob a
forma de messianismo beato e cor-
tesão, também parece estar de volta.
E, porventura mais grave, o elogio do
excepcionalismo luso renasce sob a
capa de um neolusotropicalismo de
pacotilha, posto ao serviço de pro-
jectos de uma lusofonia nostálgica
do império colonial – tal como se o
império fosse uma rede capaz de fa-
A Exposição do Mundo Português por Mário Novais, 1940 vorecer permanentes adaptações plás-
ticas e flexíveis e a violência colonial
desenvolveram-se importantes pro- ções que lhe permitiriam continuar a múltiplas e dinâmicas configurações, ou as formas embrionárias de racismo
Uma vez efectuado o jectos de publicação de fontes, cuja desenvolver um trabalho sistemático passou a integrar uma história mun- nunca tivessem existido. Reproduzem-
objectividade conviria averiguar. de pesquisa nos arquivos, passou a dial: do Estado da Índia no século XVI, se, pura e simplesmente, alguns dos
reconhecimento da A historiografia dos descobrimentos
e da expansão dos portugueses nos
viver de contratos com as editoras (Sá
da Costa, Cosmos e Arcádia).
ao Atlântico baseado nas plantações
da cana-de-açúcar e do trabalho escra-
temas, das figuras e dos argumentos
consagrados pela historiografia mais
história das lutas primeiros séculos, posta ao serviço
dos projectos coloniais do Estado No-
Em Magalhães Godinho concentra-
ram-se as marcas do labor de outros
vo do século XVII, às minas de ouro
do Brasil no XVIII. Ou seja, rompeu-se
oficial do Estado Novo. Vinho novo
em odres velhos...
pela interpretação vo, beneficiou de investimentos por
parte do Estado e de algumas institui-
intelectuais e historiadores que se
opuseram ao Estado Novo: o exílio,
com o simples nacionalismo de auto-
justificação colonial, integrando os
Por isso mesmo, valerá a pena co-
meçar por ir buscar inspiração para
do passado ções eclesiásticas e conseguiu agregar
historiadores de índole muito diver-
a precariedade e instabilidade relati-
vamente às condições capazes de as-
portugueses no Mundo e atendendo
aos ensinamentos de uma historiogra-
novas interpretações nas alternativas
outrora criadas pelos historiadores
sa, criando pelo menos as condições segurar um trabalho arquivístico sis- fia global e comparativa. que permaneceram à margem dos
da expansão necessárias para o desenvolvimento temático e a forte ligação ao mercado De igual modo, ao centramento nas programas mais oficiais de justifica-
sistemático do seu trabalho. As polí- editorial, em oposição às ligações ao questões e nos processos políticos ção colonial ou a eles se opuseram
imperial, será ticas comemorativas do Estado Novo Estado e às instituições do poder (in- emanados a partir da corte, da coroa abertamente. Para, a partir de elas, se
(1940, 1960) foram momentos em que cluindo nestas a Igreja). Sem preocu- ou do Estado, dos historiadores afec- estabelecer um diálogo, sem comple-
possível construir as instâncias oficiais procuraram con- pações exaustivas, registem-se a este tos aos círculos oficiais, opunha-se xos de servilismo, com os modos mais
gregar os mais variados sectores, mas respeito os nomes de António Sérgio uma leitura mais sociológica. Na lição criativos de proceder a uma história
os instrumentos também criaram clivagens. e Jaime Cortesão, de uma geração an- de Godinho, por exemplo, o Estado global e comparativa, interessada em
terior a Godinho, mas não se esqueça mercantilizado servia os interesses de compreender, nas suas dinâmicas pró-
que nos permitam Projectos alternativos nunca o de Alfredo Margarido. Este uma oligarquia nobiliárquico-eclesiás- prias, as sociedades do Novo Mundo,
Conforme demonstrou Vitorino Ma- último, aliás, ao lado dos historiado- tica. Mas de uma forma mais geral foi da África e da Ásia. Ao fim de três dé-
criar uma distância galhães Godinho – numa nova intro- res de África e da escravatura António no estudo de diversos grupos sociais cadas dedicadas à pesquisa histórica,
dução ao seu livro A Economia dos Carreira e mais recentemente de José que se centraram as interpretações: esta é a minha convicção profunda: o
em relação aos Descobrimentos Henriquinos (1962; 2.ª
ed., A Expansão Quatrocentista Por-
Capela, é autor de uma obra que se
encontra por descobrir.
grupos de burgueses, organizados a
partir de instituições locais como as
meu combate.

objectos de estudo. tuguesa, Edições D. Quixote, 2008)


– , se os círculos oficiais da propa-
Através das obras de todos esses
historiadores, será possível isolar um
câmaras, conforme apontava Cor-
tesão, ou de exploradores de rios e
Historiador, co-dirige a colecção
História e Sociedade das Edições 70,
Para começar, ganda e da manipulação da memória
pretendiam congregar, também não
interesse comum pelos movimentos
comerciais e das populações. Ou seja,
de caminhos como terá sucedido no
Brasil com os bandeirantes paulistas;
Grupo Almedina

será necessário hesitaram em censurar. O momento


de publicação de tal obra era particu-
na base, encontramos a economia e
a geografia. Sérgio, por exemplo, de-
traficantes de escravos e carregadores
por terras de África; e, mais ao rés-do-
A rubrica
História é
larmente difícil, marcado pela greve finia a identidade do país pela sua li- solo, os próprios escravos africanos,
partir à descoberta académica e pelo rebentar da guerra gação ao mar, a começar pelas salinas a que Margarido, Carreira e Capela
financiada
no âmbito
de libertação em Angola. Godinho foi e pescarias, actividades que tinham sempre procuraram dar voz. do projecto
das melhores demitido, pela segunda vez, de uma precedido a da própria expansão. De- Por último, será de considerar a Público Mais
instituição académica portuguesa. pois, a história dos descobrimentos, centralidade assumida pelo arquivo publico.pt/
interpretações Numa posição precária, sem as condi- da expansão e dos impérios, nas suas e pelas lógicas analíticas de interpre-
publicomais