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Caso 1: Histeria de conversão

- Dados de identificação:
Nome: Katherine
Idade: 41 anos
Escolaridade: Superior incompleto
Estado civil: Casada
Sem filhos
- Motivo de consulta:
A busca da paciente pelo atendimento se deu de forma espontânea, em decorrência de querer
poder avaliar algumas questões importantes de sua vida, principalmente relacionadas a dificuldades
conjugais e ao diagnóstico de déficit de atenção. Segundo a paciente, o déficit de atenção estava
atrapalhando seu desempenho nos estudos. Antes de realizar psicoterapia, a paciente passou por um
processo de psicodiagnóstico, no qual foi possível constatar que seu déficit de atenção não ocorria por
dificuldades de aprendizagem, mas sim por conflitos emocionais.
- Impressão geral transmitida:
Desde o primeiro contato, via telefone, a paciente demonstrou grande interesse e
disponibilidade para o atendimento. Katherine tem estatura mediana, apresentando aparência
adequada para sua faixa etária. Não usa maquiagem, vestindo-se, durante boa parte dos atendimentos,
com roupas largas e esportivas, denotando pouca vaidade. Entretanto, no período final de psicoterapia,
passou a vestir-se de maneira diferente, fazendo uso de camisas, calças jeans e sapatos ao invés de tênis.
Com relação a seu jeito de ser, a paciente sempre se apresentou de maneira ansiosa, com muita
necessidade de falar sobre si mesma. Ao mesmo tempo, Katherine apresenta-se bastante racional,
buscando explicações lógicas para seus conflitos.
- História de vida:
Katherine vem de uma família de cinco irmãs, sendo a mais nova. Entre as gestações, sua mãe
passou por diversos abortos. Por ter uma grande diferença de idade com suas irmãs, Katherine conta
que sempre foi muito paparicada, sendo o “nenê” (sic) da família. A paciente conta que em sua família,
todos são muito ansiosos. Descreve a mãe como sendo exigente e seu pai, por outro lado, muito
amoroso. Quando conta de suas brincadeiras durante a infância, em geral, menciona a figura paterna.
Desde criança, contou que tinha dificuldades relacionadas à aprendizagem, vindo a repetir a segunda
série do ensino fundamental.
Considera sua adolescência como um período conturbado, por ser muito rebelde e respondona,
brigando com frequência com o pai. Suas irmãs a consideravam geniosa e por diversas vezes lhe
disseram que deveria buscar tratamento, pois estava ficando insuportável. Em determinado dia,
Katherine menciona não ter se aguentado mais e começou a frequentar um centro espírita, buscando
encontrar respostas para as suas perguntas a respeito da vida.
Ao concluir o ensino médio, devido as suas dificuldades, a paciente optou por deixar os estudos
de lado. Há três anos, por incentivo de uma amiga, ela resolveu retomar seus estudos, inscrevendo-se
em um curso de nível superior. Contudo, a paciente ainda refere dificuldades para assimilar os
conteúdos, assinalando dificuldade para ler a compreender o material e por isso optando por fazer
somente duas cadeiras por semestre.
No que se refere a sua vida amorosa, a paciente conta que está casada há quinze anos e não
possui filhos em virtude de uma doença de seu marido que o impede de engravidá-la. Isso a deixou
muito abalada, já que tinha desejo de ser mãe. Ela menciona que o casal chegou a tentar fazer
inseminação artificial, mas o processo não deu certo, o que fez com que ela desistisse de ser mãe. Assim,
Katherine procura muitas explicações para suas questões através da vontade de Deus, justificando
também a impossibilidade de ser mãe como mais uma vontade de Deus.

- Recortes do atendimento:

Desde seu primeiro atendimento, Katherine sempre se mostrou muito disponível para o
tratamento. Em geral, apresenta-se sempre de maneira falante, chorando em alguns momentos. Refere
sempre ter considerado-se “burra” (sic) e credita a Deus o fato de não conseguir ser mãe, pois segundo
ela, Deus tem outros planos para a vida dela. Já no primeiro atendimento, referiu ter problemas
relacionados a sua libido, mas afirmou que o sexo com seu marido estava melhorando e os dois estavam
mais conectados.
Em determinado momento do tratamento, a paciente define-se como “irritada, ansiosa,
medrosa, impaciente e insegura” (sic). Mas afirma buscar o equilíbrio, para que possa manter-se
harmonizada e focada. No que se refere aos seus medos, conta que o principal é de que ao olhar para
trás, perceba que não fez tudo que podia e acabou por acomodar-se, sem realizar esforço para melhorar
as coisas. Ao longo dos atendimentos, começa a mencionar que a relação com o marido tem fases: em
alguns períodos os dois estão muito apaixonados e em outros, muito distantes. Além disso, diz que o
casal tem dificuldades sexuais, e às vezes fica pensando que o marido não lhe atrai mais. Acrescenta que,
sexualmente, o relacionamento nunca foi as mil maravilhas e que se sente mal porque quando fazem
sexo ela acaba fingindo.
Katherine afirma ser muito difícil olhar para dentro dela por ser uma questão que dói. Além
disso, refere sentir medo do que pode encontrar ou de que tudo que pensa a respeito de si até hoje não
seja verdade. Assim, conta sentir-se em um buraco, sendo muito difícil sair dele. Por volta de seu nono
atendimento, começa a queixar-se de dor na garganta, chegando a procurar vários especialistas, sem
encontrar a causa real do problema.
K: É e tem também aquele meu problema na garganta né. Agora eu já descobri o que é, eu acho pelo
menos. Eu fui em um gastro e ele me disse que era refluxo. Eu perguntei para ele como se podia ter
certeza e ele disse que era pela queixa do paciente, então ele dá o remédio para refluxo e se passar o
sintoma é porque é isso mesmo. Outra forma que dá para diagnosticar, ele disse, é fazendo uma
endoscopia, mas eu fiz uma em novembro porque eu estava com uns sintomas gástricos bem fortes. Daí
não deu nada e eu pedi para o médico me dar uma requisição para eu fazer um exame porque eu achava
que estava com intolerância a lactose. (...) Deu que eu tinha intolerância a lactose sim. Então ele me deu
um remédio e pediu que eu cortasse o leite e os derivados, pronto passou.
K: Na semana passada eu fui procurar ele para falar sobre este meu sintoma que desde que eu tive
laringite eu fiquei. É horrível, queima tudo aqui (colocou a mão em todo o tubo digestivo), é como se eu
tivesse tomado um gole de cachaça pura. Tu sabe como é?
T: Na verdade eu não sei.....
K : É, como se fosse uma bebida de álcool bem forte, queima tudo. É horrível. Depois fica aquela
sensação de pressão no peito e de aperto na garganta. A pressão é tão forte que é como quando tu está
em uma crise de ansiedade, sabe? E fica aquela sensação de que algo está entalado na garganta. Este
ano logo no fim das férias eu estava tomando chimarrão e me engasguei com a erva, eu achava que eu
tinha me engasgado, mas vai ver já era isso. Vai ver eu estou com refluxo desde aquela época. Ai eu
comecei a tomar o remédio que ele me mandou e estou melhor. Eu já não sinto aquela queimação tão
forte e nem aquele aperto tão grande na garganta, ainda não está normal, mas já melhorou bastante.
T: E o que mais fica entalado na garganta?
K: Pois é né.... esta semana eu fui lá na minha sogra.... não fui para dormir, mas almocei com eles. Tinha
uma festa tipo Rodeio lá. Eu quase não fui porque acordei com um torcicolo na sexta feira, mas daí eu fui
visitar a minha comadre e estava na casa dela um sr. que faz massagem. Eu sei que quando a gente está
em crise não se deve fazer massagem mas ele disse que iria fazer só 2 manobras nas minhas costas.
Então domingo eu ainda estava muito dolorida, mas pensei que era melhor sair de casa porque não
adiantaria nada ficar parada em casa (...).Ah! sabe que fazia uns meses que eles estavam procurando um
carro, eles pediam para o meu marido olhar na internet e estas coisas. Eu achava que eles nem iam mais
comprar porque era sempre a mesma história mas nunca compravam. Semana passada o meu cunhado
ligou lá para casa e pelo tom da conversa eu imaginei que eles tinham comprado o tal de carro. Quando
ele desligou o telefone eu perguntei: então, compraram o carro? Aí ele me disse que já faz um bom
tempo que eles compraram, mas não tinha chegado ainda e então eles pediram para ele não me dizer
nada. Eu fiquei puta da cara e disse: depois tu não sabe porque eu não gosto da tua família né ... como
se eu fosse agourar o carro. Aquilo me deu uma raiva! (...) eles me convidaram para ir ver o carro e eu
disse que ia depois, mas eu não queria ir porque afinal se eu não podia saber antes agora eu não estava
interessada em ver, eu já tinha visto na concessionária o carro.
K: No carro meu marido me disse: poxa vida tu não podia nem ficar feliz pelo carro novo deles? Como tu
é ingrata, eles não te fizeram nada e tu nunca podes confraternizar junto com eles. (...) Então meu
marido me disse que às vezes também não tinha vontade de ir a minha família, mas que sempre ia
porque sabia que era importante para mim, eu respondi que a minha família nunca tinha tratado ele
mal. Aí eu me senti muito culpada sabe, e de noite eu fui falar com a minha vizinha, que também é
espírita, para saber o que ela achava disso. Ela disse que eu deveria entender e perdoar visto que ele era
um espírito menos evoluído. Eu fiquei muito mal, me sentindo muito culpada. Afinal ele me paga tudo,
eu dependo dele para tudo .... (choro) ....... será que eu deveria ter ido afinal ver aquele carro .......
(muito choro) ........ Eu fiquei pensando como ele deve ter se sentido. Tu sabe que nossa vida já não está
boa ....(choro) ...... nossa intimidade está uma porcaria. O que será que ele quis dizer quando ele disse
que eu não deveria mais ir lá, mas que depois eu teria que arcar com as consequências. Será que ele quis
dizer que iria ir no baile por lá e me cornear, será que ele queria dizer que também está insatisfeito? .....
(choro ininterrupto). Será que ele pensa que eu não me importo em ver aquelas alemãs de lá e eles
ficam falando em alemão, eu não sei se eles não estão falando das mulheres, como eu vou saber?
Aquelas mulheres enormes, loiras e de olhos azuis, eu também me importo. ...(choro)