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Ciências Sociais 2018 Estudante:_______________________ Turma 89__

História de vida - João W. Nery


(Adaptação a partir do livro Viagem solitária)

João nasceu Joana, em 1950. Ele foi um dos primeiros transexuais homens do Brasil a fazer a cirurgião
de transição. Ser transexual homem significa a pessoa que nasceu com um corpo de mulher e que busca
fazer a cirurgia para ter um corpo adequado a sua identidade de gênero como homem.
Quando criança, João não gostava de vestir as roupas de menina, sentia vergonha de seu próprio corpo.
Em seu livro autobiográfico, Viagem solitária, João nos descreve esse sentimento:
“Não ficava nu diante de ninguém. Era como se eu tivesse um defeito físico, fosse um aleijado. Não
trocava mais de roupa na frente das meninas e me envergonhava quando elas trocavam de roupa na minha
frente. Todos me viam como uma menina. Para mim, eu era um menino. Havia um abismo entre como me
viam e como me sentia. Adorava brincadeiras consideradas de menino. Era reprovado. Gostava de me vestir
como os garotos, tentando rivalizar e competir com eles. Era ignorado. Tremia e me apaixonava pelas
meninas, mas era impedido de me declarar. Meus sonhos eram ser um super-herói, mais tarde casar com
uma princesa e ser pai. Era incompreendido. Passei então a esconder meus sentimentos e minhas
aspirações”.
Na adolescência, João conta que sofreu muito, pois as transformações no seu corpo não eram aquelas
que ele gostaria. A primeira “monstruação”, como João denomina a “menstruação”, veio quando ele tinha
14 anos; com ela uma explosão hormonal: os seios começaram a crescer, seu corpo foi ficando cada vez
mais feminino. E João ficou muito triste; ele sentia vergonha e repulsa de seu próprio corpo. Na
adolescência, entre os 14 e os 17 anos, para conseguir ter uma aparência mais masculina, João resolveu se
dedicar a um esporte, os saltos ornamentais na piscina. Ele ficou então muito forte, musculoso, e chegou a
ganhar várias competições. O problema era que ele competia nos campeonatos com outras meninas
adolescentes, e João, desde aquela época, queria ser visto como homem.
João, aos 18 anos, entrou na universidade, e se tornou um excepcional estudante de psicologia. Na
faculdade ele pode se vestir como gostaria, pois a moda nos anos 1970 era a roupa unissex, meninas
podendo usar calças jeans e camiseta, como os meninos. Com 22 anos, ainda na faculdade, João se
apaixonou por Mercedes, uma amiga da época do colégio. Eles resolveram juntar os trapos e morar juntos.
Nessa época, João assumiu a identidade masculina, se vestindo e se comportando como um homem, e
passou a dirigir taxi para pagar as contas da nova casa que eles alugaram. João descreve como era difícil o
trabalho de sair vestido como homem,
em uma sociedade que não aceitava os
transexuais:
“Sair em público significava entrar
em prontidão. Precisava prestar
atenção o tempo todo à minha figura
em relação aos outros. Ficava exausto
Joana, 1964: 14 anos João, 1977: 27 anos João, 2017: 67 anos
com a preocupação contínua de
manter a voz grossa, os gestos contidos para não perceberem os seios nem a falta do pênis. Morria de medo
de uma batida policial e ter que mostrar meus documentos. Minha figura agora já tinha alguns caracteres
de macho, como pernas e axilas cabeludas, corte de cabelo bem curto, o que me impedia de ir à praia, a
banheiros femininos e apresentar meus próprios documentos sem causar escândalo e confusão. Eu era
ambos os gêneros e, ao mesmo tempo, não era nenhum.”
João formou-se com excelentes notas em psicologia e começou um mestrado. Ele tornou-se professor
universitário. O problema é que nesse emprego João não podia se apresentar como João. Seus documentos
diziam que ele era outra pessoa. Para os empregadores da faculdade, ele era Joana, uma mulher que se
vestia de maneira inapropriada como um homem.
Insatisfeito com seu corpo e todas as situações que o constrangiam, João ficou sabendo que havia a
possibilidade de realizar uma cirurgia para mudar de sexo. Em 1977, quando tinha 27 anos, João foi operado
pelas mãos do Dr. Roberto Farina, renomado cirurgião plástico, que seis anos antes havia transformado o
primeiro homem em mulher do Brasil, sendo inclusive preso por lesões corporais por isso. O “pacote
homem” incluía a retirada das mamas, do útero e dos ovários, um forte tratamento hormonal à base de
testosterona e... é isso. Não, João não ganhou um pênis para chamar de seu. A verdade é que pouquíssimos
transexuais masculinos ganham um. “É muito sofrimento para pouco resultado.”, afirma João.
João ainda carrega uma marca da dolorida incoerência que remonta aos tempos adolescente. Ele estudou,
fez faculdade, pós-graduação e lecionou em três universidades. Mas, oficialmente, é considerado
analfabeto.
O “analfabetismo oficial” é resultante da história clandestina iniciada aos 27 anos. Até ser operado, em
1977, João estudou nos melhores colégios do Rio de Janeiro, se formou em Psicologia, abriu consultório e
deu aula em universidades, vestido de homem, sentindo-se homem, namorando com mulheres que o
enxergavam como homem, mas com documento de identidade que estampava nome e gênero feminino.
Sem respaldo da lei, tirou documentos com a identidade que fez para si. A decisão configurava crime de
falsa identidade. Por isso, ele foi viver na clandestinidade, se escondeu do mundo e só dava entrevistas em
condição de anonimato. “Perdi, com isso, todo o meu histórico escolar, meus diplomas e a experiência
profissional. Para sobreviver, fazia bicos e passei a trabalhar como pedreiro, motorista, vendedor. Fiz de
um tudo. Aos olhos do mundo e das instituições, permaneço um analfabeto que nunca frequentou uma sala
de aula”, lembra João.
João casou-se quatro vezes. Ele fala sobre os relacionamentos que teve: “Sempre só consegui me
relacionar com mulheres que me enxergavam como homem e não com aquelas que queriam
relacionamentos lésbicos. Com a terceira mulher que me casei, tive um filho, há 25 anos.” Esse filho foi
fruto de uma traição de sua mulher. João a perdoou e resolveu criar a criança. O rapaz formou-se como
engenheiro, tem namoradas e admira muito o pai trans que o adotou.
João tornou-se um escritor e poeta, publicando livros sobre sua história de vida. Além disso, luta pelos
direitos das pessoas trans. Hoje ele ainda luta pelo reconhecimento de sua trajetória escolar e de seu diploma
de psicologia.

Quer saber mais sobre a história de João Nery? Você pode ler o livro autobiográfico Viagem Solitária.
Ou então assistir à reportagem do Globo Repórter sobre sua história de vida. Segue ao lado o QR para
você ter acesso ao link da reportagem.
Atividade – Lista de exercícios 2
1. Como João vivenciou as transformações que ocorreram no próprio corpo quando se tornou adolescente?

2. Qual foi a marginalização vivenciada por João por causa de assumir sua identidade como homem e
fazer as cirurgias para a transição de gênero? Explique o que significa essa marginalização.

3. Qual seria uma das soluções reivindicada pelo movimento LGBTT para essa situação de
marginalização? (Para responder a essa pergunta, você pode consultar a folhinha entregue na aula
passada).

4. Quando João realizou a cirurgia, poucos médicos o apoiaram, até porque a operação era ilegal e eles
poderiam ser presos e punidos. Além disso, a maior parte da família e dos amigos se distanciaram e o
deixaram sozinho. Por isso, talvez, João denomine seu livro autobiográfico como Viagem solitária. No
caso de Luan, mostrado na reportagem, ele já não parece estar mais tão sozinho. Quem o apoio nesse
processo? Qual ajuda foi essa?