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JORNAL de PSICANÁLISE 50 (92), 341-344.

2017

Breve introdução a algumas


ideias de Bion

Autor: Isaias Kirschbaum


Editora: Blucher, São Paulo, 2017
Resenhado por: Luís Fernando de Nóbrega,1 São Paulo

O que podemos observar nesse livro é a oportunidade do primeiro contato


com a obra de Bion, por meio de um profissional que tem essas ideias já encarna-
das, fazendo parte de sua própria pessoa. Também podemos perceber que Isaias,
com muitos anos de prática, tem certas opiniões formadas, não como dogmas
ou verdades estabelecidas, mas que funcionam muito mais como enquadres e
balizamentos daquilo que ele considera seu campo de trabalho, o desconhecido.
O livro acompanha suas aulas, ministradas para profissionais jovens ou
não, e dá-nos a oportunidade de sermos apresentados a várias ideias e concep-
ções que o autor tem da obra de Bion. Para os novatos, é uma introdução ao
pensamento de Bion, para os outros, uma oportunidade de reflexão.
Para nós, psicanalistas, que temos a necessidade de nos submeter ao pró-
prio processo, fica evidente que aquilo que descobrimos de nós mesmos vai se
tornando nosso instrumento de trabalho: principalmente nossa própria pessoa.
Numa análise deve surgir a própria vida real.
Apresenta-nos o que tem sido chamado de “alfabetização”: a transfor-
mação de elementos beta em alfa e a introdução dos colegas estudantes na ter-
minologia e conceitos de Bion.
No capítulo “A in-digestão mental”, Isaias utiliza o modelo médico de
como o alimento pode entrar na corrente sanguínea, como o estômago, duode-
no e pâncreas precisam fazer seu trabalho neste processo, comparando-o com o
processo psicanalítico, e, com seu humor peculiar, nos dá a péssima notícia de
que não sabemos qual é a enzima que em psicanálise permite a “digestão”, ou
seja, a elaboração dos processos mentais.
Apresenta-nos a função alfa, um nome para algo que não sabemos o que
é, mas que trabalharia sobre os aspectos sensoriais e emocionais da experiência,
fazendo uma espécie de “digestão” dela. Os elementos, antes de esses processa-
mentos ocorrerem, são chamados de elementos beta. Acontecendo a “digestão-
-elaboração”, a pessoa poderá também armazenar e “esquecer” provisoriamen-
te o que viveu, podendo recordar quando necessário.

1 Membro filiado ao Instituto de Psicanálise “Durval Marcondes” da Sociedade Brasileira de


Psicanálise de São Paulo, sbpsp.
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JORNAL de PSICANÁLISE 50 (92), 341-344. 2017

No capítulo “Ler é preciso, entender não é preciso” é enfatizado que uma


coisa é falar, discutir, conversar a respeito de psicanálise, outra é submeter-se
à experiência, seja deitado no divã, ou sentado atrás do cliente. Enfaticamente,
Isaias nos diz: leiam, mas não fiquem querendo entender, apenas leiam. O que
vai interessar no encontro dos alunos e Isaias são as associações, ideias, pensa-
mentos e dúvidas que podem surgir. É destacado que o que importa para Bion
é a clínica. Sugestão de Isaias: leiam os pacientes, deixem os livros de lado. Para
encerrar esse capítulo, a diferença operada por Bion: o elemento beta é cons-
ciente, a função alfa transforma o elemento beta em alfa, que é inconsciente. O
contrário de Freud, que considerava fazer o que é inconsciente ser consciente.
Em “É estranho? Observe, observe e observe”, sinaliza que se você notar
no paciente uma palavra, um modo de respirar, um soluço, uma contração fa-
cial, enfim, algo estranho, isso é importante. O paciente está sinalizando algo que
precisa ser investigado. Surge uma situação clínica em que uma paciente conta
que foi abusada pelo pai quando pequena. Isaias sugere a questão: o que o ana-
lista está fazendo para que a cliente se lembre desse assunto? Está comunicando
que está se sentindo abusada. Pode-se considerar que falar da intimidade de
alguém é um abuso e se poderia abrir uma possibilidade para se conversar sobre
isso, dessa fantasia de que o terapeuta é um sádico, produzindo sofrimento na
paciente. A descoberta da fantasia por Freud, nos diz Isaias, é o marco do início
da psicanálise. O que precisa ser investigado são as fantasias, não os fatos.
Se a “misteriosa função alfa” (outro capítulo do livro) não opera, as
coisas ficam no concreto, podendo aparecer o acting out, sintomas psicossomá-
ticos, ou identificações projetivas maciças. O mental está fora da pessoa. Por
exemplo, poderíamos deduzir de nossas observações que o paciente está com
ciúmes de outra pessoa. Assim, acompanhamos no livro os diversos conceitos
que Bion traz, e o próximo é o de preconcepção: o bebê tem uma preconcepção
do peito, ou seja, uma expectativa de algo que inicialmente o bebê não sabe o
que é. Encontrando o peito, o bebê realiza aquilo que era expectativa. Temos
aqui o conceito de Realização: o encontro com o objeto que satisfaz.
Quando a mãe fala ao bebê “a mamãe vai dar o peito”, repetidas vezes,
o bebê forma uma Concepção, ou um Conceito de peito. Se não encontra, ele se
frustra, e pode tolerar ou não essa frustração. Se tolerar, criam-se pensamentos.
Se não tolerar, formam-se elementos beta, que precisará expulsar. Se a mãe pu-
der “sonhar” a necessidade do bebê, usar sua capacidade de rêverie, ela cria um
continente para poder conter, por exemplo, a angústia, o choro, o que propicia
à função alfa desenvolver-se, podendo processar os elementos beta. Temos se-
gundo Isaias os termos “função”, “fator”, “preconcepção” e “realização”, com
os quais podemos ler todos os trabalhos de Bion.
Em “Transformação em K x Transformação em O”, chegamos ao con-
ceito de Transformação. Para Bion, diz Isaias, transferência é como o paciente
transforma em sua mente a relação entre ele e o terapeuta, e expõe os diferentes

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Resenhas

tipos de transferência que Bion considera. Quando observamos ao paciente que


ele está expressando ciúmes, podemos ter uma transformação em conhecimen-
to. O paciente é apresentado a algo dele mesmo que ele não conhecia. Isso é um
degrau nesse processo de conhecimento. O outro degrau é “ser”. Bion chama
isso de Transformação em “O”. O desafio em psicanálise não é conhecer a si
mesmo, é ser.
Em “Fantasia e realidade”, Isaias considera que o mundo mental funcio-
na em dois registros, em dois planos, fantasia e realidade, o tempo todo! Com
o cliente fazemos uma hipótese, que é a nossa fantasia, e precisamos testar essa
nossa hipótese. Isto pode levar a um aprendizado, que faz com que o cliente
sinta que vale voltar para outra sessão. É a busca da verdade, que Bion conside-
ra o alimento da mente, a verdade daquela pessoa em particular, que pode ser
utilizada para crescer.
Em “Fantasia e elemento onírico”, Isaias estuda como processamos as
experiências emocionais, por meio da função alfa, seja acordados ou dormindo,
para se transformarem em elementos oníricos. O elemento onírico é utilizado
para fantasiar. Isaias aponta aqui uma discordância entre Bion e Klein, pois,
para esta, a capacidade de fantasiar é inata e, em Bion, é preciso que a função
alfa esteja operando, provavelmente logo nas primeiras semanas de vida. A ca-
pacidade de fantasiar depende da função alfa, e para o indivíduo desenvolver
esta função precisará de uma relação inicial, que é a mãe ou quem possa fazer a
função de continência e nomeação das vivências iniciais.
“Formas de apresentação de hostilidade edípica” traz o conceito de pei-
to, que é, em Klein, aquilo que cuida do bebê, alimenta e nomeia o que ele
experimenta. O pênis seria a contenção, aquilo que dá consistência ajudando
no desenvolvimento. O ódio é provocado pelo sentimento de dependência, de-
pender de quem se ama, de quem me cuida.
Em “Continuidade e diferenças do eixo Freud→Klein→Bion”, sua opi-
nião é que Bion continua o trabalho dos precursores, e o expande. Há a neces-
sidade de que os conteúdos mentais sejam contidos e transformados para esta-
rem disponíveis ao pensamento, como alimento para a mente. Na expansão de
Bion, o que importa é qual a verdade da pessoa, e tentarmos apresentá-la a ela
mesma. Realidade, verdade e amor, em psicanálise, são sinônimos, diz Isaias.
O método utilizado é ajudar o paciente a fantasiar. Neste processo faremos
desconstruções das teorias do paciente, do que ele acha que sabe, e isso dói. O
desenvolvimento naturalmente produz sofrimento, a dor é inerente.
Um assunto que ocupa o autor, já há certo tempo, é a banalização. A pós-
-modernidade tem-nos trazido cada vez mais a situação de que a vida ficou algo
sem importância, sem sentido, sem valor… a quantidade de estímulos é enorme
e, para que sejam processados, é necessária a relação, o relacionamento pessoa
com pessoa. Aqui entram os nossos encontros na sala de consultório, em que
também temos a vida, embora com limitações.

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Chegamos a “Memória e experiência não processada”, em que é enfa-


tizado o apego ao princípio do prazer, e como este ignora a realidade. O ser
humano é muito primitivo, e muitos de seus recursos não se desenvolveram
ou talvez nunca possam desenvolver-se. O ódio surge desde os inícios da vida
pós-natal, o amor precisa ser desenvolvido gradativamente, podendo atingir a
gratidão.
“Expressões e manifestações de transtornos de pensamento” começa
com o humor de Isaias, que brinca com o fato de a certeza ser um transtorno de
pensamento. Brinca a respeito de uma situação clínica, dizendo que, se o pacien-
te souber como controlar a ansiedade, poderá contar ao analista como fazer…
“Preconcepção e pensamento” apresenta a retomada por Bion do texto
de Freud a respeito do impulso de ir para uma ação, diretamente, um acting out
ou, ao contrário, permitir o aparecimento de um pensamento, protelando a im-
pulsividade. Bion destaca a diferença entre pensar e pensamento. Pensamento é
o que já existe. Pensar é criar um pensamento, que é uma abstração, um símbo-
lo, e define que são os pensamentos que forçam a constituição de um aparelho
para pensar. Uma inversão nas ideias clássicas a respeito, que consideram ser o
pensar algo pronto para lidar com os pensamentos.
O pensamento vem da ausência, do não encontro com a satisfação e com
o objeto que satisfaz. A concepção é prazerosa, surge do encontro com o objeto
que satisfaz. Isso deixa em destaque a ideia do aprender com a experiência em
Bion, e evidencia como a capacidade de tolerar ou não a frustração é individual.
Isaias passeia ainda pelo “pensamento inconsciente” (com a verdade, em-
bora dolorosa, a pessoa vai poder fazer alguma coisa, com as mentiras não),
fala-nos da tela beta (como o paciente usa as pessoas), a possibilidade de so-
nhar os acontecimentos da sessão, a fragilidade e a vulnerabilidade diante do
desconhecido, a cesura… até chegar mais recentemente à detecção, na obra de
Bion, de uma instância moral primitiva, moralista, não derivada de experiências
e nomeada como “consciência moral primitiva”, diferentemente do que Freud
já havia apontado e chamado de superego, que é baseado em códigos morais
estabelecidos pela cultura vigente e baseado nas experiências reais da pessoa.
Termino com a observação de que podemos acompanhar ao longo do
tempo da existência humana que, em tempos antigos e iniciais, o indivíduo era
levado e orientado pelos deuses. A partir de Shakespeare, há o conflito interno,
entre as forças internas no indivíduo, e, com a psicanálise, especificamente com
Bion, a possibilidade de abrir-se para o novo, o desconhecido.

Luís Fernando de Nóbrega


luisfnobrega@terra.com.br

Recebido em: 5/5/2017


Aceito em: 5/5/2017

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