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TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 4 QUESTÕES:

O ARRASTÃO

Estarrecedor, nefando, inominável, infame. Gasto logo os adjetivos porque eles


fracassam em dizer o sentimento que os fatos impõem. Uma trabalhadora brasileira,
descendente de escravos, como tantos, que cuida de quatro filhos e quatro sobrinhos, que
parte para o trabalho às quatro e meia das manhãs de todas as semanas, que administra com
o marido um ganho de mil e seiscentos reais, que paga pontualmente seus carnês, como
milhões de trabalhadores brasileiros, é baleada em circunstâncias não esclarecidas no Morro
da Congonha e, levada como carga no porta-malas de um carro policial a pretexto de ser
atendida, é arrastada à morte, a céu aberto, pelo asfalto do Rio.
Não vou me deter nas versões apresentadas pelos advogados dos policiais. 1Todas as
vozes terão que ser ouvidas, e com muita atenção à voz daqueles que nunca são ouvidos.
Mas, antes das versões, o fato é que esse porta-malas, ao se abrir fora do script, escancarou
um real que está acostumado a existir na sombra.
O marido de Cláudia Silva Ferreira disse que, se o porta-malas não se abrisse como
abriu (por obra do acaso, dos deuses, do diabo), esse seria apenas “mais um caso”. 2Ele está
dizendo: seria uma morte anônima, 3aplainada pela surdez da 4praxe, pela invisibilidade, uma
morte não questionada, como tantas outras.
5
É uma imagem verdadeiramente surreal, não porque esteja fora da realidade, mas
porque destampa, por um “acaso objetivo” (a expressão era usada pelos 6surrealistas), uma
cena 7recalcada da consciência nacional, com tudo o que tem de violência naturalizada e
corriqueira, tratamento degradante dado aos pobres, estupidez elevada ao cúmulo, ignorância
bruta transformada em trapalhada 8transcendental, além de um índice grotesco de métodos de
camuflagem e desaparição de pessoas. 9Pois assim como 10Amarildo é aquele que
desapareceu das vistas, e não faz muito tempo, Cláudia é aquela que subitamente salta à vista,
e ambos soam, queira-se ou não, como o verso e o reverso do mesmo.
O acaso da queda de Cláudia dá a ver algo do que não pudemos ver no caso do
desaparecimento de Amarildo. A sua passagem meteórica pela tela é um desfile do carnaval de
horror que escondemos. 11Aquele carro é o carro alegórico de um Brasil, de um certo Brasil que
temos que lutar para que não se transforme no carro alegórico do Brasil.

José Miguel Wisnik


Adaptado de oglobo.globo.com, 22/03/2014.
3
aplainada − nivelada
4
praxe − prática, hábito
6
surrealistas − participantes de movimento artístico do século 20 que enfatiza o papel do
inconsciente
7
recalcada − fortemente reprimida
8
transcendental − que supera todos os limites
10
Amarildo − pedreiro desaparecido na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, em 2013, depois
de ser detido por policiais

1. (Uerj 2015) Aquele carro é o carro alegórico de um Brasil, de um certo Brasil que
temos que lutar para que não se transforme no carro alegórico do Brasil. (ref. 11)

A sequência do emprego dos artigos em “de um Brasil” e “do Brasil” representa uma relação de
sentido entre as duas expressões, intimamente ligada a uma preocupação social por parte do
autor do texto.
Essa relação de sentido pode ser definida como:
a) ironia
b) conclusão
c) causalidade
d) generalização
2. (Uerj 2015) No início do texto, ao expressar sua indignação em relação ao tema abordado, o
autor apresenta uma reflexão sobre o emprego de adjetivos.
Essa reflexão está associada à seguinte ideia:
a) o fato exige análise criteriosa
b) o contexto constrói ambiguidade
c) a linguagem se mostra insuficiente
d) a violência pede descrição cuidadosa

3. (Uerj 2015) Ele está dizendo: seria uma morte anônima, aplainada pela surdez da
praxe, pela invisibilidade, uma morte não questionada, como tantas outras. (ref. 2)

Logo após citar a declaração do marido de Cláudia, o autor a explica.


Em relação a essa declaração, a explicação do autor produz o efeito de:
a) enfatizar seu conteúdo
b) corrigir sua construção
c) enumerar seus detalhes
d) contrapor-se a sua simplicidade

4. (Uerj 2015) Pois assim como Amarildo é aquele que desapareceu das vistas, e não faz
muito tempo, Cláudia é aquela que subitamente salta à vista, e ambos soam, queira-se
ou não, como o verso e o reverso do mesmo. (ref. 9)

Neste trecho, para aproximar dois casos recentemente noticiados na imprensa, o autor
emprega um recurso de linguagem denominado:
a) antítese
b) negação
c) metonímia
d) personificação

TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 3 QUESTÕES:


Medo e vergonha
3
O medo é um evento poderoso que toma o nosso corpo, nos põe em xeque, paralisa
alguns e atiça a criatividade de outros. Uma pessoa em estado de pavor é dona de uma
energia extra capaz de feitos incríveis.
Um amigo nosso, quando era adolescente, aproveitou a viagem dos pais da namorada
para ficar na casa dela. Os pais voltaram mais cedo e, pego em flagrante, nosso Romeu teve a
brilhante ideia de pular, pelado, do segundo andar. Está vivo. Tem hoje essa incrível história pra
contar, mas deve se lembrar muito bem da vergonha.
4
Me lembrei dessa história por conta de outra completamente diferente, mas na qual
também vi meu medo me deixar em maus lençóis.
Estava caminhando pelo bairro quando resolvi explorar umas ruas mais desertas. 5De
repente, vejo um menino encostado num muro. Parecia um menino de rua, tinha seus 15, 16
anos e, quando me viu, fixou o olhar e apertou o passo na minha direção. Não pestanejei. Saí
correndo. Correndo mesmo, na mais alta performance de minhas pernas.
No meio da corrida, comecei a pensar se ele iria mesmo me assaltar. Uma onda de
vergonha foi me invadindo. O rapaz estava me vendo correr. E se eu tivesse me enganado? E
se ele não fosse fazer nada? Mesmo que fosse. Ter sido flagrada no meu medo e preconceito
daquela forma já me deixava numa desvantagem fulminante.
Não sou uma pessoa medrosa por excelência, mas, naquele dia, o olhar, o gesto,
alguma coisa no rapaz acionou imediatamente o motor de minhas pernas e, quando me dei
conta, já estava em disparada.
Fui chegando ofegante a uma esquina, os motoristas de um ponto de táxi me
perguntaram o que tinha acontecido e eu, um tanto constrangida, disse que tinha ficado com
medo. Me contaram que ele vivia por ali, tomando conta dos carros. Fervi de vergonha.
O menino passou do outro lado da rua e, percebendo que eu olhava, imitou minha
corridinha, fazendo um gesto de desprezo. Tive vontade de sentar na 1guia e chorar. Ele só
tinha me olhado, e o resto tinha sido produto legítimo do meu preconceito.
Fui atrás dele. Não consegui carregar tamanha 2bigorna pra casa. “Ei!” Ele demorou a
virar. Se eu pensava que ele assaltava, 6ele também não podia imaginar que eu pedisse
desculpas. Insisti: “Desculpa!” Ele virou. 7Seu olhar agora não era mais de ladrão, e sim de
professor. Me perdoou com um sinal de positivo ainda cheio de desprezo. Fui pra casa pelada,
igual ao Romeu suicida.

Denise Fraga
folha.uol.com.br, 08/01/2013
1
guia − meio-fio da calçada
2
bigorna − bloco de ferro para confecção de instrumentos

5. (Uerj 2015) No primeiro parágrafo, apresentam-se algumas características do medo, quase


todas positivas, mas se omite uma de suas características negativas, tematizada no decorrer
do texto.
Esta característica negativa do medo é a de:
a) basear-se em fatos
b) ter vergonha do sentimento
c) reforçar um constrangimento
d) ser motivado por preconceito

6. (Uerj 2015) Seu olhar agora não era mais de ladrão, e sim de professor. (ref. 7)

A frase deixa subentendida a ideia de que o menino foi capaz de ensinar, pelo exemplo, algo à
autora.
Esse ensinamento dado pelo menino está ligado à capacidade de:
a) perdoar
b) desprezar
c) desculpar-se
d) arrepender-se

7. (Uerj 2015) A crônica é um gênero textual que frequentemente usa uma linguagem mais
informal e próxima da oralidade, pouco preocupada com a rigidez da chamada norma culta.
Um exemplo claro dessa linguagem informal, presente no texto, está em:
a) O medo é um evento poderoso que toma o nosso corpo, (ref. 3)
b) Me lembrei dessa história por conta de outra completamente diferente, (ref. 4)
c) De repente, vejo um menino encostado num muro. (ref. 5)
d) ele também não podia imaginar que eu pedisse desculpas. (ref. 6)

TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 3 QUESTÕES:


BEM NO FUNDO
1
no fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
2
a gente gostaria
de ver 3nossos problemas
resolvidos por decreto

a partir desta data,


aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela − silêncio perpétuo

extinto por lei todo o remorso,


maldito seja quem olhar pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais

mas problemas não se resolvem,


problemas têm família grande,
e aos domingos saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas

LEMINSKI, Paulo. Toda poesia. São Paulo: Cia. das Letras, 2013.

8. (Uerj 2015) O poeta emprega dois termos diferentes para se aproximar do leitor: a gente
(ref. 2) e nossos (ref. 3).
O emprego de tais termos produz, em relação à percepção de mundo, o sentido de:
a) idealização
b) explicitação
c) universalização
d) problematização

9. (Uerj 2015) A última estrofe apresenta imagens relacionadas à família.


Em relação ao conjunto do texto, a figuração do casal com seus filhos pequenos remete à ideia
de:
a) angústia
b) mudança
c) continuidade
d) preocupação

10. (Uerj 2015) a gente gostaria


de ver nossos problemas
resolvidos por decreto (ref. 2)

A expressão sublinhada tem sentido figurado que, no contexto, corresponde a:


a) imediatamente e sem esforço
b) legalmente e com garantias
c) gradativamente e sem contestação
d) surpreendentemente e com restrições

TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 4 QUESTÕES:


É MENINA

É menina, que coisa mais fofa, parece com o pai, parece com a mãe, parece um joelho, upa,
upa, não chora, isso é choro de fome, isso é choro de sono, isso é choro de chata, choro de
menina, igualzinha à mãe, achou, sumiu, achou, não faz pirraça, coitada, tem que deixar
chorar, vocês fazem tudo o que ela quer, 2isso vai crescer mimada, eu queria essa vida pra
mim, dormir e mamar, aproveita enquanto ela ainda não engatinha, 3isso daí quando começa a
andar é um inferno, daqui a pouco começa a falar, daí não para mais, ela precisa é de um
irmão, foi só falar, olha só quem vai ganhar um irmãozinho, tomara que seja menino pra formar
um casal, ela tá até mais quieta depois que ele nasceu, parece que ela cuida dele, esses dois
vão ser inseparáveis, ela deve morrer de ciúmes, ele já nasceu falante, menino é outra coisa,
desde que ele nasceu parece que ela cresceu, já tá uma menina, quando é que vai pra creche,
ela não larga dessa boneca por nada, já podia ser mãe, já sabe escrever o nomezinho, quantos
dedos têm aqui, qual é a sua princesa da Disney preferida, quem você prefere, o papai ou a
mamãe, quem é o seu namoradinho, quem é o seu príncipe da Disney preferido, já se maquia
nessa idade, é apaixonada pelo pai, cadê o Ken, daqui a pouco vira mocinha, eu te peguei no
colo, só falta ficar mais alta que eu, finalmente largou a boneca, já tava na hora, agora deve tá
pensando besteira, soube que virou mocinha, ganhou corpo, tenho uma dieta boa pra você, a
dieta do ovo, a dieta do tipo sanguíneo, a dieta da água gelada, essa barriga só resolve com
cinta, que corpão, essa menina é um perigo, 1vai ter que voltar antes de meia-noite, o seu
irmão é diferente, menino é outra coisa, vai pela sombra, não sorri pro porteiro, não sorri pro
pedreiro, quem é esse menino, se o seu pai descobrir, ele te mata, esse menino é filho de
quem, cuidado que homem não presta, não pode dar confiança, não vai pra casa dele, homem
gosta é de mulher difícil, tem que se dar valor, homem é tudo igual, segura esse homem, não
fuxica, não mexe nas coisas dele, tem coisa que é melhor a gente não saber, não pergunta
demais que ele te abandona, o que os olhos não veem o coração não sente, quando é que vão
casar, ele tá te enrolando, morar junto é casar, quando é que vão ter filho, ele tá te enrolando,
barriga pontuda deve ser menina, é menina.

DUVIVIER, Gregorio. Folha de São Paulo, 16/09/2013.

11. (Uerj 2015) O uso da expressão “é menina”, tanto para começar quanto para finalizar o
texto, adquire também um valor simbólico, pelo significado que assume no contexto.

No contexto, esse recurso provoca um entendimento de:


a) alteração previsível de juízos morais
b) reprodução indefinida de preconceitos sociais
c) rejeição possível de comportamentos familiares
d) esperança vaga de novas atitudes das mulheres

12. (Uerj 2015) isso vai crescer mimada, (ref. 2)


isso daí quando começa a andar é um inferno, (ref. 3)

Os trechos acima são exemplos de pontos de vista negativos acerca da menina.


Esses pontos de vista são reforçados pelo uso do pronome isso, porque ele associa a criança
a uma ideia de:
a) negação
b) coisificação
c) deseducação
d) individualização

13. (Uerj 2015) A crônica de Gregorio Duvivier é construída em um único parágrafo com uma
única frase. Essa frase começa e termina pela mesma expressão: é menina.

Em termos denotativos, a menina, referida no final do texto, pode ser compreendida como:
a) filha da primeira
b) ideal de pureza
c) mulher na infância
d) sinal de transformação

14. (Uerj 2015) vai ter que voltar antes de meia-noite, o seu irmão é diferente, menino é
outra coisa, (ref. 1)

O fragmento reproduz falas que apontam uma diferença entre meninos e meninas.
Essa diferença se verifica em relação ao seguinte aspecto:
a) beleza
b) esperteza
c) inteligência
d) comportamento

TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 3 QUESTÕES:


DICIONÁRIO FEITO POR CRIANÇAS REVELA UM MUNDO QUE OS ADULTOS NÃO
ENXERGAM MAIS

Em abril, aconteceu a Feira do Livro de Bogotá, e um dos maiores sucessos foi um livro
chamado Casa das estrelas: o universo contado pelas crianças. Nele, há um dicionário com
mais de 500 definições para 133 palavras, de A a Z, feitas por crianças.
1
O curioso deste “dicionário infantil” é como as crianças definem o mundo através daquilo que
os adultos já não conseguem perceber. O autor do livro é o professor Javier Naranjo, que
compilou informações ao longo de dez anos durante as aulas. Ele conta que a ideia surgiu
quando ele pediu aos seus alunos para definirem a palavra “criança”, e uma das respostas que
lhe chamou atenção foi: 2“uma criança é um amigo que tem o cabelo curtinho, não toma rum e
vai dormir cedo”.

Veja outros verbetes do livro e as idades das crianças que os definiram:


- 3Adulto: pessoa que, em toda coisa que fala, fala primeiro dela mesma. (Andrés, 8 anos)
- Água: transparência que se pode tomar. (Tatiana, 7 anos)
- 4Branco: o branco é uma cor que não pinta. (Jonathan, 11 anos)
- 5Camponês: um camponês não tem casa, nem dinheiro, somente seus filhos. (Luis, 8 anos)
- 6Céu: de onde sai o dia. (Duván, 8 anos)
- Dinheiro: coisa de interesse para os outros com a qual se faz amigos e, sem ela, se faz
inimigos. (Ana María, 12 anos)
- 7Escuridão: é como o frescor da noite. (Ana Cristina, 8 anos)
- 8Guerra: gente que se mata por um pedaço de terra ou de paz. (Juan Carlos, 11 anos)
- Inveja: atirar pedras nos amigos. (Alejandro, 7 anos)
- 9Mãe: mãe entende e depois vai dormir. (Juan, 6 anos)
- 10Paz: quando a pessoa se perdoa. (Juan Camilo, 8 anos)
- Solidão: tristeza que dá na pessoa às vezes. (Iván, 10 anos)
- Tempo: coisa que passa para lembrar. (Jorge, 8 anos)
- 11Universo: casa das estrelas. (Carlos, 12 anos)

André Fantin
Adaptado de repertoriocriativo.com.br, 22/05/2013.

15. (Uerj 2016) O curioso deste “dicionário infantil” é como as crianças definem o mundo
através daquilo que os adultos já não conseguem perceber. (ref. 1)

Adultos e crianças, embora usando a mesma linguagem, não veem e não descrevem o mundo
da mesma maneira.
Com base no conteúdo desse fragmento, pode-se concluir que qualquer descrição da realidade
apresenta a seguinte característica:
a) requer alguém que a realize sem receio
b) necessita de que se faça formulação detalhada
c) depende da perspectiva daquele que observa
d) mostra-se precisa para os que já amadureceram

16. (Uerj 2016) Por meio da generalização, pode-se atribuir um determinado conjunto de
traços que não se relacionam apenas com o que está sendo nomeado.
O melhor exemplo desse procedimento de generalização está presente em:
a) Branco: o branco é uma cor que não pinta. (ref. 4)
b) Camponês: um camponês não tem casa, nem dinheiro, somente seus filhos. (ref. 5)
c) Céu: de onde sai o dia. (ref. 6)
d) Universo: casa das estrelas. (ref. 11)

17. (Uerj 2016) Escuridão: é como o frescor da noite. (ref. 7)

O verbete citado apresenta uma definição poética para o termo “escuridão”.


Essa afirmativa pode ser justificada pelo fato de a autora do verbete ter optado por:
a) priorizar as crenças antes de se pautar pela racionalidade
b) construir uma figuração particular sem se ater ao fenômeno físico
c) expressar seu medo da noite no lugar de descrevê-la minuciosamente
d) apoiar-se na linguagem denotativa ao invés de elaborar um argumento conotativo

TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 2 QUESTÕES:


18. (Uerj 2016) No último quadrinho, formula-se uma analogia moral, quando se sugere que
não é possível ver tudo o que acontece à frente dos olhos.
A partir dessa analogia, pode-se chegar à seguinte conclusão:
a) a verdade absoluta não existe
b) a existência não tem explicação
c) o homem não é o centro do mundo
d) o curso da vida não pode ser mudado

19. (Uerj 2016) As ausências da moldura e da imagem são recursos gráficos que contribuem
para o sentido do texto.
A relação entre esses recursos gráficos e a mensagem contida no terceiro quadrinho possui um
sentido de:
a) ironia
b) reforço
c) negação
d) contradição

TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 3 QUESTÕES:


A PRESSA DE ACABAR

Evidentemente nós sofremos agora em todo o mundo de uma dolorosa moléstia: a


pressa de acabar. Os nossos avós nunca tinham pressa. Ao contrário. Adiar, aumentar, era
para eles a suprema delícia. Como os relógios, nesses tempos remotos, não eram maravilhas
de precisão, os 1homens mediam os dias com todo o cuidado da atenção.
Sim! Em tudo, 2essa estranha pressa de acabar se ostenta como a marca do século.
Não há mais livros definitivos, quadros destinados a não morrer, ideias imortais. Trabalha-se
muito mais, pensa-se muito mais, ama-se mesmo muito mais, apenas sem fazer a digestão e
sem ter tempo de a fazer.
Antigamente as horas eram entidades que os homens conheciam imperfeitamente.
Calcular a passagem das horas era tão complicado como calcular a passagem dos dias.
3
Inventavam-se relógios de todos os moldes e formas.
4
Hoje, nós somos escravos das horas, dessas senhoras inexoráveis* que não cedem
nunca e cortam o dia da gente numa triste migalharia de minutos e segundos. Cada hora é
para nós distinta, pessoal, característica, porque cada hora representa para nós o acúmulo de
várias coisas que nós temos pressa de acabar. O relógio era um objeto de luxo. Hoje até os
mendigos usam um marcador de horas, porque têm pressa, pressa de acabar.
O homem mesmo será classificado, afirmo eu já com pressa, como o Homus
cinematographicus. 5Nós somos uma delirante sucessão de fitas cinematográficas. Em meia
hora de sessão tem-se um espetáculo multiforme e assustador cujo título geral é: Precisamos
acabar depressa.
6
O homem de agora é como a multidão: ativo e imediato. Não pensa, faz; não
pergunta, obra; não reflete, julga.
7
O homem cinematográfico resolveu a suprema insanidade: encher o tempo, atopetar o
tempo, abarrotar o tempo, paralisar o tempo para chegar antes dele. Todos os dias (dias em
que ele não vê a beleza do sol ou do céu e a doçura das árvores porque não tem tempo,
diariamente, nesse número de horas retalhadas em minutos e segundos que uma população
de relógios marca, registra e desfia), o pobre diabo 8sua, labuta, desespera com os olhos fitos
nesse hipotético poste de chegada que é a miragem da ilusão.
Uns acabam pensando que encheram o tempo, que o mataram de vez. Outros
desesperados vão para o hospício ou para os cemitérios. A corrida continua. E o Tempo
também, o Tempo insensível e incomensurável, o Tempo infinito para o qual todo o esforço é
inútil, o Tempo que não acaba nunca! É satanicamente doloroso. Mas que fazer?

RIO, João do. Adaptado de Cinematógrafo: crônicas cariocas. Rio de Janeiro: ABL, 2009.

* inexoráveis − que não cedem, implacáveis

20.(Uerj 2016) essa estranha pressa de acabar se ostenta como a marca do século. (ref. 2)

O trecho acima contém o eixo temático da crônica escrita por João do Rio em 1909.
Na construção da opinião presente nesse trecho, é possível identificar um procedimento de:
a) negação
b) dedução
c) gradação
d) generalização

21. (Uerj 2016) Nós somos uma delirante sucessão de fitas cinematográficas. (ref. 5)
Ao comparar os seres humanos com filmes, o autor estabelece uma crítica.
No contexto, essa crítica pode ser sintetizada pelo seguinte termo:
a) insubordinação das hierarquias
b) coisificação das pessoas
c) arrogância desmedida
d) intolerância moral

22. (Uerj 2016) Hoje, nós somos escravos das horas, dessas senhoras inexoráveis que
não cedem nunca (ref. 4)
Neste fragmento, o autor emprega uma figura de linguagem para expressar o embate entre o
homem e o tempo.
Essa figura de linguagem é conhecida como:
a) ironia
b) hipérbole
c) eufemismo
d) personificação

TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:


A namorada

Havia um muro alto entre nossas casas.


1
Difícil de mandar recado para ela.
Não havia e-mail.
2
O pai era uma onça.
A gente amarrava o bilhete numa pedra presa por
um cordão
E pinchava a pedra no quintal da casa dela.
Se a namorada respondesse pela mesma pedra
Era uma glória!
Mas por vezes o bilhete enganchava nos galhos da
goiabeira
E então era agonia.
No tempo do onça era assim.

Manoel de Barros
Poesia completa. São Paulo: Leya, 2010.

23. (Uerj 2014) Difícil de mandar recado para ela.


Não havia e-mail.
O pai era uma onça. (ref. 1)

O primeiro verso estabelece mesma relação de sentido com cada um dos dois outros versos.
Um conectivo que expressa essa relação é:
a) porém
b) porque
c) embora
d) portanto

24. (Uerj 2014) No diálogo das personagens da tira, há mais de uma ocorrência de paradoxo,
ou seja, uma combinação de termos ou expressões que se contradizem.
O melhor exemplo de paradoxo presente na fala de Joana é:
a) espaço virtual
b) só se eu falhar
c) rede antissocial
d) opiniões sem noção

Com base na charge abaixo, responda à questão a seguir.


25. Ao formular sua crítica, o personagem demonstra certo distanciamento em relação à arte
moderna. Uma marca linguística que expressa esse distanciamento é o uso de:
a) terceira pessoa
b) frase declarativa
c) reticências ao final
d) descrição do objeto

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