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ÉTICA E NEGÓCIOS

LAÉRCIO ANTÔNIO P ILZ

EDITORA UNISINOS
2012
APRESENTAÇÃO

Esta obra tem como objetivo servir de apoio a alunos que desenvolverão estudos
à distância na disciplina de Ética e Negócios.
A UNISINOS (Universidade do Vale do Rio dos Sinos), como universidade
associada e alinhada à AUSJAL (Associação das Universidades Jesuítas da América
Latina), assume como uma de suas prioridades acadêmicas a Formação Integral de seus
estudantes, em relação à qual está aliada a proposta de Formação Humanística que
propõe, atravessando todos os cursos e compondo alianças com as respectivas áreas,
o estudo e a reflexão sistemática a partir de três eixos temáticos:

o eixo de Formação Antropológica (que visa conceber o ser humano em


sua totalidade, para não deixar-se enganar pelo reducionismo secularista
nem por um tecnocratismo que desdenhe os delineamentos do
humanismo integral);
o eixo de América Latina (que visa assumir o contexto em que vivemos a
partir do conhecimento sócio-histórico da realidade latino-americana e
de cada país, sobretudo da realidade contemporânea);
o eixo de Formação Ética (que inclui fundamentos da moralidade
humana e também a ética aplicada a cada profissão, de maneira que
supere a ideia de uma neutralidade mal entendida em exercício
profissional).

Diante de diferentes contextos e áreas de estudo e ação, cada um destes eixos


busca propor e fornecer elementos conceituais que desafiem estudantes e profissionais
a pensar em um projeto relativo às suas áreas de formação, no qual a dignidade das
pessoas, dos diferentes grupos humanos e da vida em geral, seja prioridade absoluta.
Acredito que profissionais com uma formação humana e ética consistente, além
de se tornarem sensíveis e eficientes em relação ao progresso moral da sociedade,
estarão mais bem preparados para responder às demandas atuais e serão fundamentais
para o sucesso das organizações e dos negócios.
A estrutura desta obra contempla os seguintes temas (que correspondem aos
módulos propostos na disciplina de mesmo nome): o significado dos conceitos moral e
ética; o diálogo com diferentes pensadores e suas reflexões (teorias) sobre questões
relativas às práticas morais e ao saber-fazer ética; algumas propostas éticas atuais,
como a proposta de uma ética da compreensão de Edgar M orin; o debate sobre a ética
pós-moralista e suas implicações nas práticas de gestão em tempos pós-industriais; a
ética profissional e organizacional; a discussão sobre a importância da ética nos
negócios; e, ao final, é proposta uma perspectiva de gestão a partir da alteridade.
Que esta obra, junto com os conteúdos e atividades que serão desenvolvidos a
distância, possa provocar construtivamente nosso pensamento, potencializar e animar
nossas práticas para o bem viver. Desejo uma boa leitura a todos.
SUMÁRIO

INTRODUÇÃO

CAPÍTULO 1 – ÉTICA E M ORAL: ESCLARECENDO CONCEITOS


1.1 O uso indiscriminado dos conceitos
1.2 Diferença entre moral e ética
1.3 O fazer ética

CAPÍTULO 2 – OS PENSADORES E A ÉTICA


2.1 Crítica ao dogmatismo e ao relativismo
2.2 Dialogando com alguns pensadores
2.3 Ética e pensamento alargado

CAPÍTULO 3 – PROPOSTAS ÉTICAS PARA O NOSO TEM PO


3.1 A crise das éticas moralistas
3.2 Ética para a compreensão e para o diálogo
3.3 O dever-ser de toda prática

CAPÍTULO 4 – A ÉTICA PESOAL


4.1 O cuidado de si
4.2 O cuidado com as dores
4.3 O amor e a ética

CAPÍTULO 5 – ÉTICA PROFISIONAL (E ORGANIZACIONAL) E


RESPONSABILIDADE SOCIAL
5.1 A crise das éticas moralizantes e o pós-moralismo
5.2 A ética dos profissionais e das organizações
5.3 Ética e sucesso

CAPÍTULO 6 – ÉTICA, ECONOM IA E NEGÓCIOS


6.1 Economia como fato moral
6.2 Ética da confiança
6.3 Ética e sucesso

CAPÍTULO 7 – ÉTICA E ALTERIDADE : A ECONOM IA COM O


AFIRM AÇÃO DE RELAÇÕES COOPERATIVAS
7.1 O outro
7.2 A solidariedade
7.3 A generosidade profissional

CONCLUSÃO

REFERÊNCIAS
INTRODUÇÃO

Quando falamos em ética, nos condicionamos, muitas vezes, a pensar em um


conjunto de normas e obrigações que devem ser seguidas para que as coisas e as
sociedades funcionem bem. Uma perspectiva linear de ordem a ser seguida para que
não aconteçam coisas erradas. Este pensamento, em geral, coloca em princípios
estranhos a nós mesmos ou em morais pré-estabelecidas o que é ou não é ético, ou o
que deve e o que não deve ser feito. Proponho que transcendamos esta concepção, ou
seja, que além de nos relacionarmos reflexiva e criativamente com leis e princípios,
assumamos fundamentalmente a ética como processo de alargamento de nossa
compreensão sobre as coisas, pelo aprimoramento de nossa linguagem e,
consequentemente, pela qualificação de nossas ações. A ética, nesse sentido, nos
desafia a um convencimento interior para o bem, ao entendimento de que o bem viver,
uma boa e bela vida, e sua potencialização em tudo e em todos, é o que justifica a
existência humana. Em relação a isto, a resposta deve ser autônoma, mesmo que
sempre negociada com os outros. O objetivo desta obra é desenvolver a compreensão
do que é a ética e o que justifica o fazer ético. Ao mesmo tempo, busca confirmar que
qualquer projeto econômico, antes de buscar lucros financeiros, deve estar
fundamentado nos ganhos morais que agrega. As práticas administrativas, nesta
perspectiva, devem comprometer-se com processos inovadores que promovam a
dignidade das pessoas e que utilizem, coerente e criativamente, os recursos naturais.
As organizações devem ser ambientes de afirmação da cidadania, ou seja, devem estar
gerencialmente animadas pelo espírito democrático. O objetivo fundamental desta obra
é confirmar que ser ético é um diferencial qualitativo para quem se dispõe a viver,
pessoal e profissionalmente, uma bela vida.
CAPÍTULO 1
ÉTICA E MORAL: ESCLARECENDO CONCEITOS

Fala-se muito em ética atualmente. Afirma-se que certas pessoas não têm moral para
darem conselhos ou lições de moral. Que falta caráter para muitos em relação a assumirem
posturas responsáveis e não sucumbirem à inveja e comportamentos mesquinhos em
relação ao modo de tratar as pessoas. Estamos a todo momento presenciando a abertura de
comissões de ética para desenvolver julgamentos e cobranças morais. A ética está em alta
ou é a falta de ética que faz com que seja proclamada como necessidade da hora? Penso
que o mais importante não é tentar resolver esse paradoxo, mas aproveitar o momento para
avançar no entendimento em relação ao que é ético e em relação às boas práticas. Nessa
perspectiva, neste primeiro capítulo, busco questionar certas compreensões limitadas em
relação aos conceitos de ética e moral, tentando esclarecer o que nos faz seres éticos
capazes de, na prática, desenvolver boas ações. Com isso, também quero demonstrar como
estamos, não raras vezes, presos a morais (moralismos), e que nos falta um distanciamento
– uma visão plural e aberta – e uma consistência teórica ampliada e qualificada para poder
avaliar melhor os comportamentos e pensar alternativas de ação.

1.1 O uso indiscriminado dos conceitos

O que nos faz seres morais? Por que dar importância à reflexão ética em relação
ao desenvolvimento pessoal e social? O que faz com que pessoas e sociedades
avancem em suas práticas morais na direção de uma ética na qual se afirma a dignidade
da vida e das pessoas? Estas questões dão corpo à ética e ao seu estudo. A reflexão
crítica sobre valores pessoais e sociais e sua contribuição para um projeto de vida com
sentido é o que anima a reflexão.
Percebemos o quanto, nos tempos atuais, relações superficiais e descartáveis
estão presentes nas relações entre os indivíduos, enfraquecendo o comprometimento e
a aprendizagem mútua. Na sociedade capitalista em que o mercado é endeusado, onde
tudo se transforma em mercadoria, as relações entram como mais um produto de
consumo. Compra-se um pacote de relação que, se não agrada ao consumidor, é
trocado ou jogado fora.1 O outro é aquele que mais se identifica com o modelo de
minha referência. Como todos nós somos diferentes, logo nos frustramos por não
encontrarmos nossos idênticos (nossa cara metade, dito popular que deve ser melhor
pensado). M as resolvemos temporariamente o problema indo para outra (trocando de
mercadoria). Ocorre, assim, o enfraquecimento da responsabilidade e do
comprometimento com a construção de um projeto com o outro.
Paradoxalmente, atualmente também se valoriza o fazer ético e o
desenvolvimento de relações de confiança, do comprometimento e da responsabilidade
como estratégia para salvar os negócios, salvar as relações, salvar a educação e ter
sucesso. Vivemos um momento de transição em que os indivíduos querem se
convencer da importância de fazer ética mais do que seguir padrões morais impostos.
Promovemos a desconstrução moral, a crítica às morais tradicionais e convencionais.
Abandonamos antigos padrões e nos dizemos livres para viver bem. Estamos num
momento pós-moralista, como destaca Gilles Lipovetsky. 2 Queremos viver bem, ter
uma vida bela, porém, estamos um pouco perdidos. Não sabendo como, muitos vão
aos mercados e lojas em busca de satisfação e prazer. Buscamos receitas em livros de
pensamento positivo, acreditando que eles podem conter a resposta e até receitar o
caminho. Desejamos trabalhar menos por obrigação e mais no que gostamos.
Desenvolvem-se e multiplicam-se práticas de lazer (o mercado de entretenimento está
em alta), porém, muitas vezes de forma superficial e compensatória. É um sintoma
moral: a vida é para ser bem vivida. M as a reflexão crítica sobre o que faz bem, como
saber viver, que prazer o ser humano pode experimentar numa relação positiva
consigo, com o outro e com o planeta, ainda está para ser mais bem desenvolvida.
Ainda compramos muitos pacotes prontos de lazer e de prazer. Acreditávamos que
havia receita para isso, que o progresso tecnocientífico e econômico nos traria e
apresentaria o final feliz. Está no ar este desejo pelo bem viver. Por que não apostar
que esta é a hora da ética, de pensar e elaborar morais ascendentes e que qualifiquem a
vida? M as como afirmar a nossa consistência ética?
Proponho, primeiramente, uma reflexão (interiorizada) sobre os quatro
constituintes básicos apresentados por M arilena Chauí3 para que nos tornemos
sujeitos morais, ou seja, atores éticos;lembrando que sujeito moral é aquele que
consegue relacionar-se consciente, reflexiva e criativamente com sua moral.
a. Consciência de si e dos outros – a capacidade de ser autor de si mesmo
na relação com o outro, que é reconhecido como sujeito recíproco de
aprendizagem. Ser criativo a partir do entendimento (processual) de si
mesmo e do mundo e, consequentemente, desenvolver a capacidade de
pensar e exercer uma intervenção autônoma no mundo.
b. Liberdade – não reduzir-se nem às suas representações e inclinações,
nem a forças exteriores; ampliar seu mundo conceitual e sua linguagem
para ter poder e ser capaz de intervir criativamente no tempo e no
espaço.
c. Vontade – interiorizar a força de vontade para o bem. A boa vontade é
a força que faz com que seja efetivado na prática o desejo pelo bem.
Vontade aqui não se confunde com boas intenções, mas com uma
inteligência espiritual que vê na busca de um mundo melhor o princípio
que anima o comportamento humano.
d. Responsabilidade – assumir o que se faz na medida em que se é autor
da ação. O conceito de responsabilidade não pode identificar-se com a
obediência cega a regras externas, mas com a qualificação da própria
ação. Aliás, a responsabilidade para com as normas se dá na medida em
que refletimos e nos convencemos interiormente do valor das mesmas.
A autora, em um ponto de seu escrito, afirma que ser responsável é reconhecer-
se como autor da ação. M uito já se falou sobre o quanto as pessoas não se
comprometem com aquilo que parece que é pré-determinado a se fazer, sem que se
entenda o sentido que pode fazer em suas vidas. Por exemplo: uma disciplina de Ética
em que os alunos não percebem o sentido e o valor que pode ser agregado dificilmente
compromete, logo, não nos tornamos responsáveis em relação à mesma.
O questionamento é o primeiro passo para desenvolver o saber-fazer ética.
Questionamentos sobre o que nos faz assim e até que ponto o que fazemos nos
potencializa e aos outros. Nosso modo de viver promove a vida em nós e nos outros?
Há pessoas que muito rapidamente se dizem moralmente esclarecidas e capazes de
fazer ética. Há de se ter cuidado com estes senhores da lei. A ética deve ser leve na
medida em que ela nos desafia a irmos além de nós mesmos. A moral pesada nos
enquadra, nos fixa a certos padrões, e a pior das morais é aquela em que nos fixamos
em nossos juízos restritos. Diálogo e convivência tornam-se difíceis diante desse tipo
de indivíduo. Aqui importa destacar que indivíduos leves não são superficiais (como
se não tencionassem os valores), mas pelo contrário, são consistentes; não porque
impõem uma verdade pela retórica clássica da argumentação (abstracionismo), mas
porque testemunham sua potência no diálogo com o outro que passa a ser
radicalmente digno em seu aprender. Sua dignidade é diretamente proporcional à
maneira aprendiz com que se colocam. M esmo que sejam pessoas que trazem consigo
mais conceitos, linguagens e experimentações do que o outro, não se apresentam (e
representam) para ensinar e dar receitas, e sim para apresentar, testemunhar e
aprender sobre como estes conceitos e linguagens podem ser aprendidas, atualizadas,
(re)contextualizadas e experimentadas pelo outro e por ele mesmo no processo de
relação.
As éticas idealistas tiveram seu tempo. Futuristas e coladas em realidades
abstratas perfeitas, estas perspectivas salvacionistas não convencem muitas pessoas e
o mundo real e vivido as ultrapassa. Atualmente, o que pode convencer a maioria das
pessoas a assumirem o saber-fazer ético são as possibilidades de convivência radical
da liberdade cooperativa em processo continuamente retomado. Certas tradições
morais, historicamente, fizeram com que as pessoas se comprometessem com um
projeto: o coletivismo dos ditos primitivos fazia com que qualquer membro fosse
responsável pelo projeto da tribo; a pólis grega, especialmente em Atenas, exigia
comprometimento diante da arte de fazer política em favor da cidade; a tradição
religiosa comprometia perante Deus e seus representantes; as nações modernas
desenvolveram constituições republicanas que, acreditava-se, iriam dar
sustentabilidade ao progresso social pela justiça, logo, respeitavam-se as leis em favor
do bem social que elas representavam.
Todas estas tradições morais estão fragilizadas diante da sociedade de indivíduos,
cada vez mais interessados em seu bem viver pessoal (falo nisso como característica
de nossa época e não como algo negativo em si mesmo). Diante disso, penso que o
maior desafio moral atual é convencer-se, e às pessoas, de que fazer ética vale a pena,
pois avaliar como a vida pode ser melhor vivida a partir do comprometimento com a
dignificação das relações pode fazer bem para a saúde pessoal. Proponho subverter o
significado batido de individualismo para ressignificá-lo como sendo a maneira como a
pessoa produz a si mesma no encontro com as coisas do mundo, em especial as outras
pessoas. Indivíduo não como uma categoria restrita, atomizada, mas como autor de si
mesmo, na relação consigo mesmo e com os outros.
Todos somos bons e maus. A consciência e a vontade podem nos comprometer a
buscarmos ser melhores e menos maus. M as para que isso seja possível, precisamos
experimentar a liberdade: questionar e desafiar a nós mesmos (para que não estejamos
fixados e reduzidos aos nossos modelos ou impulsos morais), avaliar como podemos
transcender certos padrões morais exteriores e, em especial, alargar nosso pensamento
e nossa linguagem para desenvolver uma ação esteticamente enriquecedora da vida.
Fazer ética para tornar a vida mais alegre e bela. Alegria ligada à experimentação aberta
e estendida no tempo (transbordamento de si) e beleza relacionada à qualidade estética
das expressões (e percepções), ao desenvolvimento da linguagem.

1.2 Diferença entre moral e ética

Penso que didaticamente é interessante propormos uma distinção entre moral e


ética, mesmo que esta diferenciação seja colocada em discussão por muitos autores e
que a maioria das pessoas continue a confundir os dois conceitos, colando um no
outro. Aliás, em geral, todos nós aprendemos a falar em moral e ética como se
tivessem o mesmo sentido.
Moral: os hábitos adquiridos quase que automaticamente no grupo em que nos
criamos vão organizando nossa moral. O lugar da mulher e do homem, as tradições, o
valor dado ao consumo, às leis etc. são elementos que podemos ligar à moral. Estamos
cotidianamente agindo moralmente, a partir de certos condicionamentos
comportamentais. São gestos e juízos praticamente mecânicos, automatizados,
condicionados. Acostumamos-nos a ver o mundo assim e a julgar os fatos de certa
maneira determinada (por isso se disseminaram preconceitos) e ignoramos a
autocrítica construtiva.
Ética: no momento em que tomamos distância e paramos para discutir e refletir
sobre a moral, sobre nossos hábitos, costumes e tradições, colocando em questão o
valor dessas morais, estamos entrando no campo da ética, que seria melhor entendida
como um saber crítico sobre o fazer. Tanto ou mais do que ser éticos, nos fazemos
éticos pelo exercício da reflexão e da prática, que são complementares.
Sair de si, estender sua compreensão e alargar seu campo de percepção para
outras morais não é um exercício simples. Fazer ética significa desenvolver uma
reflexão crítica em relação aos comportamentos e valores pessoais e sociais mediante
um desenvolvimento conceitual e um alargamento cultural, ou seja: estudando mais
conceitos e teorias que possam ampliar o nosso discernimento em relação à
consistência (atualizada) de nossas ações diante da realidade – de diferentes
contextos– e visitando outras morais além da nossa, para que, além de levar ao
questionamento do valor da moral da gente a partir de uma comparação coerente com a
moral do outro, nos reconheçamos como seres históricos e diversos, produtores de
diferentes valores e escolhas morais. A ética, enquanto um saber-fazer que busca a
potencialização da vida, está desafiada constantemente a validar seus conceitos nas
experimentações práticas que se desenrolam nas relações entre pessoas e grupos.
Quando os pais, por exemplo, reduzem a educação dos filhos a seus modelos
mentais, eles de fato estão moralizando a criança. Não podemos ignorar a
importância dessa identificação moral, ou seja, a criança não nasce num mundo
qualquer, isto é, é importante que reconheçamos a moral e a cultura a que pertencemos
(e os pais devem buscar, mesmo sabendo dos seus limites, esclarecer sobre essa
moral), porém, ao aprender com os filhos maneiras alternativas de propor e
desenvolver comprometimentos que não sejam pela obediência coercitiva e formal,
estaremos transcendendo a moral, experimentando a ética e, consequentemente, dando
consistência à própria moral.
Não podemos existir, enquanto seres ativos, alheios a uma moral (tanto por
vivermos num ambiente com regras mínimas de relação como por apostarmos nossas
experiências em alguns valores). Porém, as belas morais se desenvolvem em territórios
abertos e livres, onde a dúvida e o questionamento são alimentos da reflexão e
qualificação das linguagens e pensamentos. Reduzidos a moralismos, nos tornamos
ignorantes no fazer ética. Por exemplo: cada um de nós desenvolve certa convicção em
relação às qualidades básicas da gestão e dos negócios (moral), mas estas passam a
ganhar consistência pela avaliação que fazemos, a partir da extensão de nossa
compreensão e de nossa experiência, de aspectos das áreas que podem qualificar a vida
e a dignidade nas relações (ética). Bergson4 fala em morais abertas, ou seja, culturas em
que os comportamentos e os costumes são flexíveis e sujeitos à revisão histórica. Ao
pensar radicalmente sobre os conceitos como os de tempo e de memória, Bergson
concebe a memória como elemento flexível, cujo encontro com as lembranças são
criativas e animadas mais pela intuição do que pela inteligência formal. O tempo em
Bergson é movimento criativo, transbordando a lógica recalcada que reduz o tempo a
registros rígidos. Da mesma maneira, propõe a moral aberta como característica básica
para a evolução ética das sociedades e da cultura humana.
O discernimento é algo complexo, ou seja, ele se desenvolve a partir da formação
integral da pessoa. Sensibilidades, percepções e compreensões que vamos
desenvolvendo, comprometidamente, estendem e viabilizam nosso discernimento em
relação às possibilidades (efeitos) de certas ações. A partir disso, podemos repetir que
a ética está além das boas intenções. Normalmente, a intenção está condicionada pela
moral (aqui podemos dar significado ao dito “de boas intenções o inferno está cheio” –
os europeus justificavam a submissão de índios e negros afirmando que estavam
oferecendo um mundo melhor para eles – o que se repete muitas vezes em diversas
práticas). M uitas vezes justificamos os meios utilizados pelo fim que ajuizamos, sem
abrir, a partir de então, espaço para avaliar os respectivos meios empregados.
Resultados econômicos (financeiros) buscados como objetivos ou metas a serem
alcançadas a qualquer custo, por exemplo, inviabilizam a ética porque justificam,
geralmente, tratamentos que ignoram a dignidade das pessoas envolvidas e dos
recursos naturais explorados.

1.3 O fazer ética

É imprescindível boa vontade e força para assumir consistentemente o que


fazemos. Porém, mesmo entendendo a boa vontade como força que tensiona para a
qualificação do fazer ética, devemos ter cuidado:
a. Em pensar de forma abrangente, o que fazemos, cada vez mais, tem
relação com vários outros aspectos, tanto do ponto de vista
profissional como pessoal. Como diz o ditado: de que vale a pena
ganhar o mundo, se perder a minha alma? Até que ponto vale a pena
ter sucesso no trabalho, se me transformo em um trapo de gente? A
integridade tem preço?
b. Pensar não estritamente em bom OU mau, mas em mais do bem E
menos do mal, pois o bem E o mal em absoluto, do ponto de vista das
relações humanas, são discutíveis. Bons E maus porque as
contextualizações, em especial num tempo complexo e dinâmico como
o atual, tornam-se tão ou mais importantes do que as convicções. Por
exemplo: é importante reconhecer a dignidade da vida e das pessoas
como valor primeiro (chamamos isso de ética deontológica, de
convicção), mas ela se efetiva e se desenvolve diante e dentro de um
certo contexto que é diferente e está em transformação (trata-se de
ética teleológica e da responsabilidade) . Como pai, posso querer o
bem de meu filho, mas posso estar usando métodos questionáveis no
processo de relação para promover suas aprendizagens.
Responsabilizar-se eticamente é aprender a aprender em relação à
prática. Por mais que possamos relacionar a ética com definições
sofisticadas, belos princípios e palavras interessantes, os processos e
seu desenrolar vão dar vida a esses pressupostos conceituais. Com
isto, não reduzindo a ética a estudo de casos ou à ideia de que só
aprendemos com a prática. Acredito e aposto que a prática pode se
tornar superficial, se não houver um embasamento teórico, ou seja, se
as pessoas envolvidas não tiverem desenvolvido um mínimo de
aprendizado conceitual (ou entrada num estágio de discernimento
mínimo, a partir da apropriação e entendimento de linguagens). M uitas
empresas estabelecem códigos de ética que estão muito mais
identificados com normatizações do que com uma reflexão permanente
e participante por parte daqueles a quem o respectivo código diz
respeito. Somente podemos chamar de código de ética um conjunto de
proposições que tenham sido democraticamente construídas e que
estejam sistematicamente sendo validadas pelo exercício autônomo,
participativo e reflexivo dos envolvidos pelo mesmo. Do contrário,
aquilo que chamamos de praticar a ética acaba mais perto do
moralismo que da própria ética.
As pessoas se desenvolvem eticamente na medida em que percebem sentido no
que fazem e se sentem (co)autoras nos processos – sensibilizam-se em relação ao que
fazem. Proponho a ética como a arte de desenvolver o pensamento, as percepções e as
linguagens para viver bem. Uma sutileza de reflexão sobre o que nos acontece e como
aprendemos com o viver e nos sentimos mais fortes para viver bem. Lembro aqui
reflexões que emergem a partir de leituras de Nietzsche: muitos parecem camelos que
carregam o peso da moral e das obrigações em suas costas e, consequentemente, são
pouco alegres. São aquelas pessoas que cumprem as leis e seguem as normas por
obrigação, que têm a consciência pesada como se sempre estivessem sendo cobrados
por uma força externa em relação aos seus deveres. Também podem ser indivíduos que
acabam extenuados e cansados ao assumirem atividades altruístas, carregando a ajuda
como fardo. Estamos falando de uma ética do cansaço. Nietzsche propunha a figura do
Leão como aquela que se refere à resistência, que passa a tensionar e criticar o peso de
uma moral da obrigação, da moral instituída por uma razão coercitiva, geralmente
representada por instituições e senhores da lei. Porém, muitos ficam restritos a essa
crítica e não avançam. Ou seja, conseguem perceber a moral de dependência e seu
funcionamento, assim como o ser humano evoluiu e avançou na percepção da ordem
das coisas da realidade física e social, porém, não conseguem ou não se animam para a
invenção de novos e mais consistentes modos de vida –assim como faz com a ciência,
o ser humano decifra muito da natureza das coisas, mas ainda precisa aprender a ser
mais criativo na invenção de novas possibilidades de intervenção que potencializem e
não enfraqueçam as redes vivas. A pessoa criativa, esteticamente inovadora e animada
pela arte, é comparada, por Nietzsche, com uma criança jogadora que, como um
dançarino, produz movimentos vão sendo alterados em favor da beleza. Essa imagem
revela uma ética que deseja a vida como experiência moral consistente, como uma obra
de arte que não está condicionada a representar o mundo, mas a inventar
possibilidades mais belas de existência nas maneiras de desenvolver os processos e
experimentar as relações.
De certa forma, a filosofia serve para lidar com aquilo que não tem resposta e que
permanece sem resposta em relação à lógica formal, porém, que remete à possibilidade
de produzir mundos. A moral traduz a ordem de convivência necessária, as leis que
limitam a possibilidade de existência das pessoas. No entanto, a ética e a filosofia
permanecem abertas em relação às experiências criativas que podem desenrolar-se, a
partir da ação humana, para salvar a vida da banalidade, da repetição, do
enquadramento, do legalismo e do moralismo. Filosofia e ética respiram liberdade. Para
aquilo que está respondido formalmente, pela ciência, por exemplo, ou pela religião e
seus dogmas, não há o que filosofar. É claro que quando questionamos como certo
imaginário religioso atua sobre a vida e como certas descobertas científicas alteraram a
maneira de pensar o mundo e a vida, estamos novamente filosofando e questionando o
valor moral destes campos de ação humana. Nesse sentido, fazer ética é filosofar e
exige liberdade radical. O que nos prende e nos condiciona, sem um mínimo de
significado para a convivência social, não passa de moralismo e torna-se pesado. Uma
religiosidade e uma ciência abertas ao diálogo tornam-se leves e alegres,
comprometendo-se, a partir de sua tradição, crença e rituais, com o bem viver.
A singularidade de cada um é fundamental para que se possa fazer ética no
encontro com os outros. Devemos cuidar quando falamos que o conceito de ética é
muito particular, é relativo, depende da opinião de cada um, pois podemos estar
privatizando a ética, ou seja, alguém pode sair dizendo por aí que é assim que pensa e
não aceita diálogo. Impossível pensar em ética sem diálogo. Novamente entra aqui a
questão da liberdade. A pior escravidão é a daqueles que escravizam a si mesmos
(tornam-se pesados – perdoem a redundância). Insisto: é fundamental a autonomia que
diz respeito a cada um desenvolver suas compreensões éticas, mas a autonomia e a
própria liberdade se desenvolvem e são experimentadas na abertura para o outro.
Estamos falando a partir da proposição de uma ética pessoal aberta, aprendiz, em
movimento e, consequentemente, muito viva. Em belos encontros com as
possibilidades que outras formas de vida podem acrescentar à nossa.
Proponho que devemos provocar os outros, testemunhar nosso
comprometimento em ampliar cumplicidades a favor da ética, porém, nada nos
assegura em relação ao grau de adesão que teremos e nem se o nosso entendimento
ético dá conta sistematicamente de práticas mais coerentes (às vezes nos pegamos em
comportamentos limitados). Devemos nos convencer a cada dia de que vale a pena
viver e que continuamos a apostar em nossa habilidade em motivar os outros,
enquanto nós mesmos nos implicamos com o contínuo aprendizado moral. O melhor
dos mundos não existe, como já dizia Edgar M orin,5 mas o mundo pode ser melhor.
Essa é a nossa batalha, na qual nossas experiências próximas e cotidianas, nossas lutas
e enfrentamentos, podem revelar belas vitórias.

1 Alguns autores denominam de cultura fetichizada esta tendência, ou seja, as pessoas vão
idealizando modelos que lhe agradam, ou por conta própria ou condicionadas pelas mídias, e
reduzem seu desejo e prazer à possibilidade de terem satisfeitos estes fetiches, que vão desde
objetos de consumo até práticas comportamentais e sexuais.
2 Gilles Lipovetsky (1944) é filósofo, professor de filosofia da Universidade de Grenoble e autor dos
livros A Era do Vazio , O luxo eterno, O império do efêmero, entre outros. Em sua obra A
Sociedade Pós-Moralista: o crepúsculo do dever, indicada ao final deste livro, o autor afirma que
cada vez menos as pessoas vivem a ética por obrigação ou sacrificam-se por algum valor. Estamos
na era dos indivíduos e as pessoas cada vez mais fazem suas escolhas e desenvolvem seus valores a
partir de si mesmas.
3 Em Convite à Filosofia (2005, p. 337 e 338) Marilena Chauí desenvolve argumentação acerca dos
constituintes do campo ético. É com base nesta leitura que os mesmos são propostos acima.
4 Henri Bergson (1859-1941), filósofo francês que teorizou sobre o pensamento intuitivo, cujas obras
que destacaria são A evolução criadora e Matéria e Memória.
5 Edgar Morin (1921), pensador contemporâneo e teórico da complexidade, critica os discursos
salvacionistas que reduzem a seus princípios o melhor dos mundos. Somos incompletos e o
mundo pode ser melhor pela experiência criativa e solidária com os outros. A fraternidade terrestre,
em que ninguém é dono da ética e da verdade, é o caminho para a paz e para um mundo melhor do
que este que está aí.
CAPÍTULO 2
OS PENSADORES E A ÉTICA

Neste capítulo é desenvolvida a crítica a visões dogmáticas e relativistas que podem estar
presentes na discussão sobre a moral e a ética e, em especial, desenvolve-se um diálogo
com vários pensadores para alargar a perspectiva conceitual dos leitores e alunos em
relação à teorização sobre a ética e diferentes possibilidades de interpretação e
contextualização. Importa destacar que uma postura aberta, reflexiva e propositiva é base
para o desenvolvimento da compreensão e, ao mesmo tempo, revela-se como processo de
educação para o diálogo posterior. Esta competência para dialogar é pressuposto
fundamental para o desenvolvimento e progresso moral, tanto do ponto de vista pessoal
como do ponto de vista social. Nossas afinidades com alguns conceitos e teorias não pode
fazer com que, aos poucos, nos fixemos demais em círculos, pois a pluralidade e a
diversidade moral devem alimentar alternativas de crescimento pessoal e social através de
bons encontros, como veremos logo mais em Espinoza. A cidadania de cada indivíduo é
diretamente proporcional à sua capacidade de defender o direito à autonomia de todos os
indivíduos ao mesmo tempo em que desafia cada um a colocar suas convicções em
suspeita na relação com os outros para transcender o que só pensa a partir de si mesmo.

2.1 Crítica ao dogmatismo e ao relativismo

Duas tendências morais devem ser criticadas quando falamos em formação moral
(ou em estudo de ética).
Em primeiro lugar é o dogmatismo, ou seja, a ideia de que existe um modelo
moral definitivo a ser imposto ou ser seguido para que se alcance o bem. Tal sintoma
pode estar presente quando se acredita que alguma religião ou algum sistema jurídico
contenha em si toda a verdade sobre como devemos nos comportar. Tanto as religiões
como as constituições são obras humanas e históricas, além de serem desenvolvidas e
experimentadas dentro de certo contexto social. A vida, a história, a cultura, os
fenômenos sociais são dinâmicos e devemos reavaliar, sistematicamente, as morais na
forma como respondem propositivamente ou não aos contextos. Aos dogmatistas e a
quem arroga para si mesmo a verdade moral a ser seguida, cabe essa crítica.
Num outro extremo temos os relativistas, que tendem a dizer que cada povo tem
a sua moral ou que depende de cada um avaliar sua ação e escolher entre o bem e o
mal. Este relativismo tem seu limite não somente na ordem social que depende de um
mínimo de ordem moral e jurídica para adequar as relações, mas, principalmente,
porque a consistência moral não é alcançada a partir de si mesmo sem um diálogo com
o de fora.
Acredito que o estudo e a reflexão sobre as propostas morais de vários
pensadores podem dar consistência à nossa reflexão ética e, consequentemente, ao
nosso agir moral. Esta é a proposta do caminho que vamos desenvolver a seguir,
dialogando com alguns pensadores e suas ideias sobre ética. Penso que cada um deve
ser capaz de desenvolver sua reflexão e contextualização, mas acredito que podemos
sair desta leitura e conversação mais animados para pensar a consistência do que
fazemos e, em especial, nos desafiarmos a desenvolver melhores reflexões em relação
às nossas práticas, tornando as nossas vidas mais interessantes.
Reconhecemos que aprendemos na relação, porém, é a passagem por dentro de
cada um de nós, pelo convencimento e pelo comprometimento com o bem, que move a
força de nossa reflexão e, consequentemente, da nossa prática. A minha percepção, o
de dentro (que aos poucos pode ser mais consistente) e a do outro, o de fora, se
encontram (duplicidade) e, de alguma forma, a abertura pessoal e o outro, que se move
dinamicamente e de forma cooperativa, abrem espaço para a ética. A experiência
interior radical no encontro com o de fora, é o que dá saúde moral às pessoas.
Vamos, a seguir, visitar alguns pensadores e suas propostas éticas. É uma visita
ao de fora, ao outro, a diferentes conceitos que, se forem reconhecidos e atualizados,
podem promover uma relativa potencialização moral e existencial. Como já destaquei
anteriormente, a visita a mais conceitos e suas atualizações na relação com nossos
contextos e experimentações nos potencializam e alargam as possibilidades de nosso
viver bem.

2.2 Dialogando com alguns pensadores

Insisto que o rápido diálogo aqui desenvolvido com alguns pensadores e suas
éticas não dá conta da consistência das ideias e conceitos abordados e desenvolvidos
pelos mesmos. Inclusive, ao trazê-los para a discussão e escolher algumas de suas
proposições, já estou fazendo certa escolha parcial e propondo, a partir do que os
mesmos propuseram teoricamente, uma reflexão para além das reflexões propostas.
Cada leitor-estudante é convidado a desenvolver seu senso crítico e avaliar de que
forma certas propostas podem ser mais ou menos significativas em suas
interpretações e contextualizações. O que se espera dos leitores é que se coloquem de
maneira aprendiz diante destes encontros conceituais.
Sócrates: muitos consideram que é a partir de Sócrates que temos o início da
Filosofia M oral ou Ética, pois se inicia aí a discussão racional sobre o valor dos
comportamentos humanos, para além de condicionamentos sociais (da tradição, do
hábito e do costume) ou outros determinismos. Apesar de Sócrates não haver escrito
nada em sua vida, através de Platão, seu discípulo, tivemos acesso ao seu pensamento.
Sócrates é o autor da conhecida afirmação filosófica e moral: Conhece-te a ti mesmo.
Ele não se conformava com a forma alienada com que as pessoas seguiam os padrões
culturais, em especial os cidadãos atenienses, não tensionando o sentido dos costumes
e de seus próprios comportamentos, ignorando sua autonomia moral. Para Sócrates,
era importante que as pessoas fossem questionadas a tal ponto que se desmascarasse
a fragilidade de suas convicções em relação aos seus valores e comportamentos, ao
mesmo tempo em que cada um deveria ser autor de sua própria história e responsável
pelo desenvolvimento de seu caráter. Tais processos ou métodos socráticos receberam
os nomes de Ironia (levar o outro a reconhecer sua ignorância, de onde tem origem os
ditos: sei que nada sei ou ainda, sábio é aquele que sabe que não sabe nada) e
Maiêutica (comprometer a pessoa a desenvolver sua autonomia e criatividade – o
conhece-te a ti mesmo citado acima). Em relação a este segundo método, destacamos
que Sócrates lembrava sua mãe Fenareta em seu ofício de parteira. Afirmava ele que,
assim como sua mãe retirava o recém-nascido de dentro do ventre de uma mulher, cada
pessoa deveria ser capaz de produzir, a partir de dentro, de si mesmo e de sua
interioridade,1 seus valores morais e, consequentemente, sua autonomia.
Aristóteles: para Aristóteles, o que nos diferencia dos animais é que somos seres
de razão e que será a partir dela, de seu uso, que seremos capazes de nos tornar
conscientes do valor e da consistência de nossas atitudes. Segundo Aristóteles, a razão
bem utilizada nos conduz para a boa conduta, impede que vivamos na ignorância e nos
leva para o caminho da felicidade, fim último do existir. Virtuoso, para ele, será aquele
que souber avaliar a ação prática e seus resultados. De Aristóteles herdamos a aliança
entre a teoria e a prática em nosso fazer. Segundo ele, a prudência é a mãe das
virtudes, pois ela nos conduz para as melhores decisões em relação à vida, o que ele
chama de sabedoria prática. Há uma diferença entre a proposta de Aristóteles e a de
Platão que está na origem de duas maneiras de se pensar a ética, e que acompanham a
reflexão moral no Ocidente até os nossos dias.2 Enquanto para Platão a moral depende
da ideia, de uma verdade ou princípio que rege a ação (Éticas Deontológicas ou da
Convicção), para Aristóteles, a prática e seus efeitos é que fazem com que avaliemos a
consistência de determinada ação moral (Éticas Teleológicas , Consequencialistas ou
da Responsabilidade). Porém, tanto para Sócrates e Platão como para Aristóteles, o
exercício racional era que qualificava nossa ação moral em relação ao compromisso
com a pólis e com a harmonia cósmica. Tanto que as crianças eram reconhecidas como
seres que não poderiam ser avaliadas moralmente (amorais), na medida em que não
tinham alcançado um desenvolvimento racional que pudesse comprometê-las em
relação à consciência de seus comportamentos (lembro aqui da discussão sobre
cidadania e sobre o limite de idade para a responsabilização jurídica de crianças e
adolescentes). Além disso, lembramos que mulheres e estrangeiros também ficavam à
margem da cidadania, na Grécia Antiga, e seus valores morais eram negligenciados.
Apesar disso, ainda é importante destacar que, para Aristóteles, é imprescindível que
se atenda a certas necessidades básicas para que se possa, a partir de então, passar a
desenvolver o exercício racional que nos leva ao comprometimento com o bem e com o
saber-fazer ético.
Em relação a esta questão final, ficam alguns questionamentos para reflexão:
como exigir o desenvolvimento da racionalidade moral daqueles que vivem nos limites
da sobrevivência? Como esperar de quem é explorado e violentado em sua condição
existencial o senso de justiça? Como exigir dos empregados o comprometimento com a
empresa sem que ela ofereça as condições básicas de trabalho?
Rousseau: para Rousseau, a bondade natural foi pervertida pela sociedade.
Nascemos bons, inclinados para relações de troca e cooperação com os outros, mas
interesses sociais, morais vinculadas a interesses particulares, a propriedade privada,
entre outros, são alguns fatores que vão condicionando o humano para o mal. A
sociedade perverte as pessoas. Não precisamos, segundo Rousseau, buscar em uma
ideia ou teoria a orientação para o bem. Ele está dentro de nossa natureza.3 A vida
deixada livre no humano será capaz de inclinar-se naturalmente para o bem. Ele busca
reconciliar o ser humano com a Terra, com a vida, e critica o processo civilizatório
predador e movido por interesses particulares. Ele está chamando a atenção para a
força viva que está em cada um de nós como desejo natural de viver. Em geral, os
animais não desejam morrer e nem matar os outros, no máximo sobrevivem sob uma
ordem natural (as pesquisas revelam que a vida é fundamentalmente produto das
trocas e não da luta e da exploração, que são sintomas e sinais de morte). Gosto de
pensar a proposição de Rousseau como um desafio a vivermos desejando a vida e não
condicionando a mesma a representações fixas que devem ser seguidas (morte da
ética).
Kant: já para Kant, como seres naturais, não alcançamos o estado ético. Para ele,
a natureza é fraca e sucumbe ao mal. Como seres de natureza, somos facilmente
influenciados e é imperativamente necessário que a razão instaure, a partir disto, o
dever-ser ético. Como seres da natureza, estamos presos à lógica da necessidade, ou
seja, ao movimento instintivo. Para Kant, somente pela razão prática podemos alterar
o curso das coisas. E este é o dever da razão. M as não estamos falando de uma razão
que vai descobrir que devemos ser bons e definir o que é ser bom. É uma razão que
estabelece como obrigação ética a boa vontade (a vontade do bem como finalidade da
razão). Querer o bem como algo universal para todas as pessoas, segundo Kant, é um
pressuposto básico para a ética. Na obra do filósofo, a ética da convicção radicaliza-
se, ou seja, é imperativamente necessário que a dignidade da pessoa seja pensada como
um fim em si mesmo. Qualquer gesto meu em relação ao outro, para ser bom, deve
poder ser pensado como regra universal. Não existe em Kant a possibilidade de se
pensar certos meios circunstanciais menos éticos para conseguir alcançar fins mais
éticos. Não existe a possibilidade de sermos menos ou mais éticos. Qualquer gesto é
ou não é ético quando entramos no âmbito das relações. Tanto os meios como os fins
devem ser éticos. Kant pensa o dever que temos, enquanto seres de razão, de
administrar pela mesma os nossos impulsos naturais. Podemos questionar até que
ponto tal ética dá conta de práticas em contextos dinâmicos, onde convivemos com
pessoas de carne e osso, com seus limites e condicionamentos. Além disso, este
dever-ser em relação ao corpo por muitos foi confundido com certa coerção, certa
domesticação do corpo, em que uma racionalização da vida fragilizou afetos e
sensibilidades. A natureza viva, presente no corpo humano, pede passagem como
força dinâmica e não podemos mais reduzi-la ao controle da razão. Essas ressalvas não
retiram da proposta kantiana certa atualidade, em especial diante da superficialidade e
corrupção moral. A ética kantiana de alguma forma está inscrita na história do menino
pobre que encontra uma bolsa (com dinheiro e objetos de valor) e decide entregá-la ao
poder público para que ele encontre o dono e devolva a ele seus pertences. Esta
postura de convicção em relação a gestos de boa vontade, este dever-ser bom inscrito
na razão humana (que também dá sentido à sua existência enquanto ser de razão) pode
ser pensado em relação ao desenvolvimento do caráter (aqui poderíamos voltar a
Sócrates e seu desafio em relação ao comprometimento interior da pessoa com seus
valores).
Espinoza: a ética espinozista critica o peso da culpa e da obrigação que
acompanha a moral. Espinoza não utiliza termos como bom e mal, certo e errado
(culpa e ressentimento passam à margem da ética espinozista). Prefere falar em
paixões alegres e paixões tristes. Em bons encontros e maus encontros. Em seres
fortes e seres fracos, no que diz respeito à passionalidade, à relação com as forças
exteriores. Para ele, devemos ser autônomos na relação com o outro e não resignados
ou submissos. A nossa força moral é diretamente proporcional à capacidade ativa que
desenvolvemos nas relações. Paixões alegres, ou seja, bons encontros, nos
potencializam na medida em que saímos deles mais sensíveis à escuta e à percepção e,
ao mesmo tempo, mais capazes de nos expressarmos.4 Espinoza fala em relações de
força entre as matérias na natureza, em afetação. As matérias que multiplicam suas
possibilidades (energias) a partir das relações são exemplos de forças criativas. Esta
ideia é pensada em relação à ética. Para radicalizar, trago o exemplo da relação com as
dores: podemos sair fortalecidos ou enfraquecidos diante das dores da existência.
Alguns se tornam fracos e não conseguem lidar bem com as dores, tornando-se vítimas
das mesmas e infelizes existencialmente. Outros conseguem aprender a partir da
relação com a dor e tornam-se mais fortes, e a vida amplia-se diante de seus olhos.
Hegel: critica Kant e as éticas que vinham sendo pensadas até então porque não
via nelas a discussão sobre a cultura e a história e sua influência e importância no
desenvolvimento moral. Dizia que a discussão girava em torno da pessoa e não
reconhecia a influência da realidade social sobre a vida das pessoas. Para ele, o grande
debate ético deve acontecer em relação ao progresso moral que se desenvolve na
relação entre a sociedade (ética objetiva) e o indivíduo (ética subjetiva). A grande
evolução ética se daria através da experiência de um estado social que atenderia de
forma perfeita às aspirações dos indivíduos. Esta harmonia entre a sociedade (Estado)
e os cidadãos, para Hegel, é o fim último da ética. Por vezes, Hegel e outros
pensadores que se filiaram a esta dialética em que se chegaria à grande síntese em um
estado harmônico, enalteceram tanto o caráter histórico e a importância do estado (da
sociedade e da cultura), que os indivíduos e sua autonomia acabaram enfraquecidos.
Alguns pós-hegelianos chegaram a pensar que o desenvolvimento da Ética dependia
desta submissão à vontade maior do Estado. Sabemos como certas revoluções levaram
à origem de estados que submeteram os indivíduos. Não podemos prescindir desta
relação dinâmica entre indivíduos e cultura (sociedade organizada), porém, a tendência
em radicalizar para cada um dos dois lados é temerária. Gosto de pensar com Hegel
que a ética tem muito a ver com aquilo que os antigos gregos afirmavam: somos seres
políticos e é no debate sobre o que é bom para a sociedade como um todo e para os
grupos e pessoas de forma particular que aprendemos a argumentar e refletir sobre a
sociedade a que pertencemos e como somos corresponsáveis pelo seu
desenvolvimento. Por exemplo: as empresas devem fazer internamente um exercício
político radical de participação (liberdade, autonomia e comprometimento), a tal
ponto que os empregados sintam-se corresponsáveis pelo desenvolvimento da
empresa e vendam a ideia de comprometimento ético para os clientes.
Marx: foi aluno de Hegel e, em boa parte, sua discussão traz um projeto moral
que se revela hegeliano. Para M arx, era hipocrisia uma sociedade exigir que as pessoas
fossem boas e corretas (éticas) se as estruturas sociais eram injustas e exploratórias.
Soava à incoerência. E repetia que toda sociedade deveria dar condições necessárias
para que seus membros pudessem participar da transformação social. A partir daí
desenvolveu toda uma análise histórica (materialismo histórico) de como as
sociedades e seus modos de produção até então eram exploratórios em relação às
camadas marginalizadas. Aqui, M arx propõe a grande revolução ética contra o
capitalismo e a burguesia (materialismo dialético). O estado perfeito, o fim último da
dialética seria a revolução socialista e o estabelecimento de uma sociedade sem classes.
A Revolução Socialista na Rússia do início do século XX (1917) baseou-se nas
propostas marxistas. Porém, esse idealismo não contava com a dinamicidade histórica
e, em especial, com a autonomia dos indivíduos. O estado ficou pesado e o tempo
ocupou-se do resto. Destacamos que M arx é atual enquanto nos remete à discussão
em relação a um projeto que diminua as injustiças, que busque mais igualdade entre as
pessoas, principalmente atendendo as condições básicas de todos para o pleno
exercício da cidadania. O princípio de defesa dos explorados e marginalizados ainda é
importante ser trazido para a discussão, não com teor demagógico, mas para nos
desafiar a pensarmos alternativas de ação diante do quadro de extrema desigualdade
ainda existente, em especial no Brasil. Estratégias morais coerentes, para que se avance
neste sentido, são um desafio permanente de reflexão e atuação por parte de pessoas
comprometidas com um mundo melhor.
Nietzsche: critica todas as éticas racionalistas na medida em que, para ele, elas
estão sempre preocupadas em moralizar o corpo e a vida. A vida deve ser libertada
destes moralismos, das racionalidades que arrogam para si o ajuizamento dos corpos.
Defende a ideia de que devemos dar prioridade ao instinto, ou seja, que devemos
abandonar as representações racionais e desenvolver uma filosofia da vida. Não
significa viver de qualquer jeito e sem compromisso, mas preocupar-se com a nobreza
do viver a partir da liberação da vida e não de seu aprisionamento a representações
racionalistas. Nietzsche utiliza, como Espinoza, termos como fortes e fracos, ativos e
reativos. Ativos são aqueles que abraçam e acolhem a vida (em Nietzsche temos de
volta a valorização da natureza, como havia ocorrido em Rousseau), enquanto reativos
são aqueles que fogem da vida e desprezam (invejam) a força dos que estão
experimentando a vida e o corpo. Diz que os fracos não suportam a alegria dos fortes
(dos que se entregam à vida e ao viver intensamente), pois estão reduzidos a seus
moralismos e racionalismos (vidas simplificadas, reduzidas a padrões e modelos
rígidos, agenciadas moralmente). Esta crítica aos moralismos deu continuidade a toda
uma corrente de pensadores existencialistas e pós-nietzscheanos que durante o século
XX defenderam a radicalidade de um viver que não estivesse condicionado a padrões
morais, submetido a poderes exteriores. É claro que a força da crítica nietzscheana
provocou interpretações equivocadas, como se ele quisesse defender um laisse-faire
(deixai fazer...), um viver sem comprometimento, uma vida individualmente impulsiva
sem reconhecimento dos outros. Penso que, moralmente, em especial em nosso
tempo, em que muitos indivíduos se fixam em seus pontos de vista superficiais e não
aceitam questionamentos, reduzindo a justificativa ao argumento de que cada um tem
o direito de viver e de escolher o que bem entende se não fizer mal ao outro, temos
que ter cuidado quando falamos em liberdade e direitos pessoais. Estão longe de serem
práticas éticas as opiniões e as ações superficiais. O próprio Nietzsche zombaria de
uma vida vivida sem consistência, pois acreditava que viver bem requer nobreza de
pensamento e ação. Quem ama a vida (amor fati) lhe oferece uma arte superior de
(rel)ação. Fica em aberto em Nietzsche a questão de como o outro entra nesta
experiência pessoal radical do viver por parte de cada um. M uitos criticam Nietzsche
nessa direção, porém, penso a partir da ideia de vontade de poder que está presente na
proposta filosófica dele, que é impossível conceber a experiência da força por parte de
alguém pelo enfraquecimento do outro, ou seja, seria contraditório e iria contra a
própria proposta nietzschiana que critica os reativos, ou seja, aqueles que submetem o
outro ou colam no outro. A nobreza do comportamento está na força que ela agrega a
todos que participam da animação da vida em diferentes áreas e processos.
Freud: trago Freud para a discussão em especial por causa do embate entre o id,
o ego e o superego, forças presentes em todas as nossas experiências e que atuam
diretamente sobre nossas vidas. O id não representa um estado passivo a ser
manipulado, mas é o inconsciente ativo, um desejo natural e intempestivo que
transborda de nosso corpo e não pode ser represado (lembro aqui a desconstrução da
razão absoluta). Como corpo em busca de prazer, cada um de nós tem seus sonhos e
suas inclinações pessoais e certas tendências naturais (id → impulsos naturais). Ao
mesmo tempo, vivemos em uma cultura que agencia valores e padrões, formalmente
ou informalmente (superego). Freud remete ao ego como a força (consciência), como
dimensão que deve equilibrar ou negociar entre o id e o superego social. Há aqui uma
proposição ética, ou seja, na medida em que somos seres sociais e temos que aprender
a viver em sociedade, e ao mesmo tempo somos seres individuais com nossos desejos,
nosso ego deve desenvolver a capacidade consciente de organizar, de forma flexível,
essa relação conflituosa. O cuidado para que nossa consciência não se transforme nem
num superego em relação ao corpo e nem numa força de resistência insana em relação
ao convívio em sociedade é o desafio moral e ético que daí se desprende. A boa
consciência reconhece o equilíbrio movediço, os limites da harmonia entre o id e o
superego. Ela negocia, propõe, experimenta, amplia a percepção, desafia e se
compromete; não agencia e condiciona imperativamente. O bom negócio em ética
sempre deve conseguir afirmar a vida da pessoa em sua totalidade, compondo alianças
criativas com a vida em sociedade.
Ética contemporânea: nas reflexões e teorizações recentes sobre a ética, há uma
resistência às morais verticais, àquelas que tentam impor modelos de comportamento
a seguir (o que faz com que seja denominada de era pós-moralista). A autonomia e a
intervenção propositiva e criativa dos indivíduos nos processos são destacadas
(sociedade de indivíduos ou individualista). Existencialistas (como Sartre)5 falam em
liberdade radical e experimentação e comprometimento (responsabilidade) com o que
fazemos. Utilitaristas (como Stuart M ill)6 querem chegar aos melhores resultados
possíveis diante de certas circunstâncias, para que mais pessoas saiam ganhando, mas
fica em aberto quais são as prioridades, como avaliar as circunstâncias e de que forma
vamos estabelecer o que é melhor para um maior número de pessoas.
Diante do contexto e dos desafios atuais, a proposta que fica é a de que o
alargamento de nossos valores, a partir do reconhecimento do outro, e a força de um
diálogo propositivo podem fazer com que a humanidade caminhe para um estado em
que estejam mais presentes, do que atualmente, a fraternidade e a paz. A globalização
aproximou geograficamente as nações e as diferentes culturas. Esse encontro vai ser
positivo na relação direta em que os povos souberam ampliar redes de diálogo em que
consigam transcender seus interesses para pensar a humanidade como um todo e cada
um como responsável pela boa convivência. M uitos limites e possibilidades se fazem
presentes. Como será o futuro? Nada nos assegura que ele será melhor ou pior, mas a
nossa ação pode compor a narrativa de um mundo melhor, não somente porque
acabamos obrigados diante de uma possível situação limite (crise ecológica ou
terrorista), mas porque percebemos e assumimos a vida bem vivida na relação criativa
e afirmativa com os outros como fundamento do bem viver e da ética.

2.3 Ética e pensamento alargado


Trago tal proposta e conceito de Luc Ferry. 7 Cada uma das propostas éticas que
estudamos, e outras que ainda poderíamos estudar, coloca em questão como podemos
viver bem. Alguns pressupostos, como a convicção sobre a dignidade do outro, o uso
de uma razão aberta, a aprendizagem diante dos processos, sem desconsiderar
aprendizagens conceituais, devem acompanhar a nossa reflexão e aprendizado sobre o
fazer ético.
Assim como Luc Ferry, proponho que aprendemos porque nos afastamos de nós
mesmos e depois voltamos de forma diferenciada e ampliada. Conseguimos ver o
mundo e a nossa própria realidade além de nosso espelho.8 A ética, ao mesmo tempo
em que não pode prescindir de conceitos como a dignidade, a autonomia e a justiça,
também reconhece que a pessoa se faz aprendiz nas contextualizações e nas dinâmicas
das manifestações das linguagens desenvolvidas.
Recentemente, em especial na segunda metade do século XX, diante da eminente
globalização, passa a destacar-se a proposta de uma ética discursiva ou ética da teoria
da comunicação de Jürgen Habermas.9 O diálogo é a essência do fazer ético. Porém,
para haver diálogo, deve haver não só uma educação formal que dê condições para as
pessoas dialogarem em nível de igualdade, mas também que elas experimentem outras
possibilidades de mundo, que alarguem seu universo de visão e possam pensar
dinamicamente sua própria cultura e a relação dela com as outras.
Em Itinerário de Antígona, Bárbara Freitag se alia à proposta de Habermas,
acrescentando a proposta de uma educação e desenvolvimento de condições e
oportunidades mínimas para que as pessoas e grupos possam participar deste diálogo.
A falta de integração social pode ser corrigida desde que se assegure a todo e qualquer
integrante do sistema, independente de idade, raça, convicção e situação socioeconômica, as
mesmas oportunidades para desenvolver plenamente suas competências linguísticas,
cognitivas e morais, a fim de que possa participar (e se sinta motivado a fazê-lo) dos mais
variados discursos, questionando e revalidando normas por via cooperativa, em busca de
entendimento e justiça social. (FREITAG, 2005, p. 271.)

As negociações e diálogos internacionais, por exemplo, ainda estão muito marcados


pelos interesses. O diálogo não se efetiva quando as partes sentam-se à mesa de
negociação para conversar e deliberar presos em seus interesses particulares. Até será
viável o diálogo dentro de ambientes menores, como empresas. Porém, não podemos
prescindir do desafio atual de desenvolvermos uma ética planetária que demandará a
fragilização de interesses particulares e a viabilização de um diálogo transcultural.

1 “ Na visão socrática, o ‘humano’ só tem sentido e explicação se referido a um princípio interior ou


a uma dimensão de interioridade presente em cada homem, que ele designou justamente com o
antigo termo de ‘alma’ (psyché), mas dando-lhe uma significação essencialmente nova e
propriamente socrática [...] É na ‘alma’, em suma, que tem lugar a opção profunda que orienta a
vida humana segundo o justo e o injusto [...]. Sócrates introduz assim no campo das ideias
antropológicas a ideia da personalidade moral sobre a qual irá assentar todo o edifício da Ética e do
Direito em nossa civilização. Ele é considerado justamente o fundador da filosofia moral e, de
alguma maneira, pode ser considerado igualmente o fundador da Antropologia filosófica.” (VAZ,
2008, p. 28 e 29.)
2 “ Na definição da práxis como objeto próprio do saber prático ou da Ética, duas concepções
distintas, que se tornaram paradigmas para toda a história do pensamento ético, serão propostas por
Platão e Aristóteles. Segundo Platão, a práxis verdadeira ou segundo a virtude é assumida
inteiramente pela theoria que, como ciência das Ideias coroada pela ciência ou intuição da Ideia do
Bem, deve reger as ações humanas orientadas finalisticamente para o Bem. [...] De acordo com a
perspectiva aristotélica, que predominou longamente na tradição do pensamento ético ocidental e
readquire hoje uma surpreendente atualidade, o problema epistemológico fundamental de uma
ciência da práxis formula-se justamente como problema de um saber no qual teoria e prática estejam
intrinsecamente articulados na unidade do mesmo processo cognoscitivo” (VAZ, p. 71 e 72, 2008).
3 Lembro aqui que a teoria de Rousseau tem forte influência de seu tempo histórico, em que muitos
índios e crianças em seu estado natural, de maior pureza, eram invadidos pela violenta ação de
ajuizamento dos ‘ditos civilizados’ e dos adultos. A doutrinação da criança e a escravização do
índio revelavam como o mal vinha de fora, da própria razão humana, de uma sociedade pervertida
pelos interesses exploratórios do outro.
4 Considero interessante aqui denunciar os maus encontros, em especial, novamente, como em
Rousseau, reconhecer o quanto historicamente os ‘ditos civilizados’ produziram paixões tristes
pela forma de ocupação do continente americano e pela forma de relações levadas a efeito com
grupos indígenas. Da mesma forma, toda vez que o mercado ignora o consumidor como sujeito
moral e usa de todas as maneiras para produzir a sua dependência e alienação em relação a certos
produtos, produz um mau encontro. Mesmo reconhecendo a venda como princípio básico do bom
negócio, acredito que podemos refletir mais sobre a qualidade e o valor dos produtos e a maneira
como o consumidor é valorizado na transação.
5 Jean Paul Sartre (1905-1980), filósofo francês que inspirou os movimentos de 1968 em Paris,
afirmava que estamos condenados à liberdade e que a existência precede a essência.
6 Stuart Mill (18061873) afirmava que as ações praticadas devem trazer a máxima felicidade para o
maior número possível de indivíduos.
7 FERRY, Luc. Aprender a Viver. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007.
8 Lembro aqui da obra de Lewis Caroll, Alice no país das maravilhas, na qual a personagem, ao
ultrapassar o espelho, começa a experimentar o diálogo com os outros personagens da história que
passam a ter vida própria. São os devires de Alice.
9 Jürgen Habermas, filósofo e sociólogo alemão nascido em Düsseldorf em 1929.
CAPÍTULO 3
PROPOSTAS ÉTICAS PARA O NOSSO TEMPO

Não se justificam mais morais da obrigação e de receitas comportamentais. As pessoas,


na era da sociedade dos indivíduos, estão procurando, a partir de si mesmas, sentido no
que fazem, apesar da superficialidade moral que ainda se percebe. Cada vez menos morais
de rebanho, como dizia Nietzsche, se sustentam. Argumentativamente, também
retomamos a autonomia e a proposta de desenvolvimento moral crítico e reflexivo como
base para o saber-fazer ética, como já vimos. Estamos desafiados ao diálogo e à
aprendizagem moral contínua. Nunca estaremos prontos, do ponto de vista do saber-fazer
ética, porém, a complexidade do mundo atual desafia à responsabilidade com o que
fazemos, na medida em que estes pequenos gestos se revelam para além de nossos muros,
em especial numa sociedade em rede e que exerce pressão moral e ética a partir de
linguagens cada vez mais interativas. A abertura ao outro, a compreensão da
multiplicidade e a educação da boa vontade para desenvolver-se como sujeito moral deste
tempo e em seus contextos (complexos e dinâmicos), emergem como características
marcantes de uma proposta ética contemporânea.

3.1 A crise das éticas moralistas

Inicio este capítulo com a crítica a alguns moralismos. Chamo de moralismos


práticas que limitam o comportamento humano que se torna facilmente agenciado e
condicionado. Presenciamos em nossa cultura pessoas entregando seus desejos a
agenciamentos exteriores, indiferente se por questões monetárias ou por fragilidade
afetiva ou até conceitual. São indivíduos fracos, que vendem suas vidas. Outros,
fixados em sua riqueza, desenvolvem o pressuposto de poder, de quem pode e deve
impor e satisfazer seu desejo através da captura ou exploração do outro. Tornam-se
escravos de uma soberba pela qual arrogam o direito de comprar ou vender para o
outro aquilo que pré-determinam que precise. Os europeus acreditavam que deviam
civilizar os índios, arrogando para si a bondade de quem traz para o outro aquilo que
lhe falta. E passaram a acreditar nisso como verdade, assim como certos pais e
professores, padres e pastores, políticos e governantes, médicos e advogados,
arquitetos e engenheiros, administradores e vendedores, programadores, entre outros,
podem passar a acreditar que sabem o que a outra pessoa precisa quando decidem,
sem dialogar e contextualizar, sobre o ensinar, o pregar, o governar, o receitar e ajuizar,
o projetar e ornamentar, o gerenciar e sobre a necessidade da compra e do programa
necessário. Que moral é esta em que decidimos, a priori, o que é bom para o outro?
Ou aquela em que ajuizamos o outro como coitado ou a nós mesmos como vítimas?
Atrás de práticas assistencialistas que enfraquecem o outro está uma herança
moral que se estende por vários campos (política, ideologia, religião, empresas,
academia). M uitos fazem questão de ser parasitas ou de transformar os outros em
parasitas de sua pretensa bondade ou inteligência. É ignorância alguém que fala em
regozijar-se com aqueles que se filiam ao seu discurso sem pensar radicalmente no que
foi dito. Assim como com aqueles que batem palmas demais por escutarem
exatamente o que queriam ouvir. Um tapa de consentimento nas costas de um amigo
me parece que significa bem menos, do ponto de vista ético, do que um bom
tensionamento entre as partes. As relações de poder (moral) ainda estão muito
condicionadas à lógica de dependência (nas duas vias, tanto de quem se submete
quanto de quem domina). O assistencialismo rola solto (mesmo que eu pense que em
limites possa ser necessário, sempre deve ser tensionado).
Não gosto do dito ensinar a pescar, pois ensinar alguém a fazer algo soa à
reprodução. Reitero a expressão aprender fazendo com alguém. Devemos pensar em
contextos interativos e que promovam e impliquem as pessoas com o exercício
reflexivo, o desenvolvimento da linguagem e o comprometimento com a vida em sua
dignidade. Como fazer isto na prática? Este é o desafio de nossa reflexão ética. Penso
que agregando mais conceitos e nos sensibilizando com certas práticas podemos
aprender a potencializar e não enfraquecer as partes naquilo que fazemos. No entanto,
esta é uma aprendizagem fundamentalmente pessoal que experimentamos nas relações
com nós mesmos e com os outros.
Além do esforço em denunciar moralismos convencionais presentes em relações
coercitivas de poder, em exploradores e agenciadores de subjetividades alheias,
devemos atentar para a crítica ao forte moralismo que aparece em subjetividades
agenciadas pela mídia em relação a um consumo inflacionado (e superficial) de objetos
materiais. Octavio Paz,1 poeta mexicano, dizia que desejava, ao mesmo tempo, o
afrouxamento do fundamentalismo no oriente e o enfraquecimento da mercadorização
financeira doentia no ocidente.
É claro que junto a essas discussões e, talvez, anterior a elas, o que não significa
que seja mais importante, está a necessidade em oferecer condições básicas de vida
para as populações humanas. Sem condições mínimas de sobrevivência, podemos não
chegar ao plano da ética que exige que desenvolvamos uma educação moral superior,
com a qual passamos a pensar que é possível dialogar com as pessoas sobre valores
estéticos. William James, filósofo americano, dizia no início do século XX que, na
medida em que os Estados Unidos já haviam alcançado um nível econômico
considerado, era hora de se tornar um país inteligente em reflexão (filosofia de um
pensamento mais aberto e extenso) e em compromisso ético com o de fora (talvez este
desafio não tenha ainda sido encarnado suficientemente pelo estado americano, mas
fica o registro).
Sem acesso a escolas com estrutura e professores bem preparados, sem acesso a
um mínimo de recursos para poder entrar na rede global, muitas pessoas lutam pela
sobrevivência e ficam à margem disto que nós propomos como um fazer com sentido.
Em geral, se submetem a trabalhar em condições sub-humanas porque estão à beira da
miséria. Devemos desenvolver a compaixão e o compromisso com os que estão à
margem e excluídos. Para muitas tribos do bem-estar, o outro mais do que
marginalizado aparece como marginal. O discurso que desenvolvemos durante toda
esta obra pode não significar nada se as pessoas não tiverem acesso a uma educação
pessoal e social de qualidade. Este é um compromisso ético de toda a sociedade.

3.2 Ética para a compreensão e para o diálogo

A reflexão ética e a aprendizagem moral passam necessariamente pela ética da


compreensão. Quem não consegue avaliar certos comportamentos, ao invés de julgá-
los, tende a condenar antecipadamente o outro sem entender o contexto ou sem alargar
a sua própria compreensão da construção do comportamento e das relações. Aprender
na e com a relação tem como fundamento a ausência do juízo e a presença da
compreensão avaliativa e propositiva.
Avaliar e entender o contexto é o que pode nos auxiliar a compor intervenções
mais coerentes. Nós mesmos, antes de nos julgarmos ou culparmos, deveríamos
pensar que estamos aprendendo, sendo que conceitos como certo e errado ou erro e
acerto, em ética, devem ser mais bem pensados, pois, quando relacionados a padrões
morais e formais, viram técnicos demais e limitam a criatividade. Aprender, em
questão de moral, desafia cada ser humano a desenvolver uma formação cada vez mais
abrangente e plural, avançando para um diálogo transcultural e para uma solidariedade
planetária.
É tarefa desafiadora educar mais indivíduos para a interiorização desta
solidariedade vivida. Na atual sociedade da informação, penso que esta solidariedade,
mais do que um desafio à evolução humana como espécie, passa a ser o capital
necessário para o sucesso de profissionais e de empresas. Alimentados por esse
princípio, aposto que as possibilidades de sucesso serão bem maiores do que numa
geografia de reserva, de exploração e de patenteamentos de interesse puramente
mercantil.
Em Pierre Lévy encontramos a proposta de uma competição cooperativa, ou
seja, socializando ideias estamos desafiando o conjunto ao desenvolvimento. Ainda
existem pessoas que se agarram a um emprego e torcem pelo fracasso do outro. É uma
máxima moral terrível e de rapina que faz com que indivíduos medíocres se divirtam
(geralmente para compensar sua fraqueza) com o fracasso alheio. Não é simples para
quem se encastela em seu ego ver os outros bem.
Por exemplo: a cultura machista já negou, em outros tempos, o prazer sexual às
mulheres, já que era reserva de mercado masculino. Para muitos, a alegria espontânea
da criança não combina com as responsabilidades dos adultos carrancudos e pesados, e
rapidamente afirmamos que devem aproveitar este tempo porque logo terão que
assumir responsabilidades (ajuizando estas responsabilidades como fardos a carregar
e, consequentemente, nunca mais poderão viver as alegrias da infância). Adultos
recalcados se multiplicam e, ao invés de poetizarem sua existência em seus fazeres,
geralmente desenvolvidos como obrigação, preferem pensar que a infância tem um
tempo contado. Permito-me uma sugestão em relação a essa discussão marginal que
se fez presente: a curiosidade e a alegria da infância, a energia e o questionamento da
adolescência e da juventude, uma saudável prudência e comprometimento consciente
(responsabilidade) dos adultos e a sabedoria e paciência de pessoas mais velhas são
algumas das qualidades que deveriam animar uma educação moral permanente e o
aprendizado ético.
Perdoem-me se fui longe, mas volto à discussão em si: parece-me que somente
mais desprendidos de referências pesadas poderemos aliviar a comparação mesquinha
entre os humanos e apostar na solidariedade como algo natural entre seres inteligentes.
É miserável demais falar em termos comparativos em pessoas mais e menos
inteligentes sem questionar as referências para tal classificação, ou em pessoas que
tiveram sucesso ou fracassaram tomando como referência dominante seus saldos de
conta bancária. Coloco estes exemplos como forma provocativa de reflexão. Aliás,
vivo refletindo eticamente sobre a importância da diminuição de barreiras e como
podemos experimentar tal processo resistindo a toda forma de loteamento em
benefício próprio. Imagino morais cada vez mais mestiças e baseadas na alegria criativa
de pensar e fazer as coisas na relação com o outro.
M uitas vezes podemos não ter uma resposta imediata por parte daquele que
tratamos bem. M uitos se frustram e acabam enfraquecendo sua vontade por isso.
Porém, gestos de hoje em dia vão conhecer seus efeitos de forma dinâmica mais
adiante, a médio e longo prazo, porém, é esta responsabilidade pela vida (interiorizada
pela convicção e experimentada na contextualização) que, ampliada, pode multiplicar o
bem (a ética). O meu empenho, o de cada um, pode não ser medido na relação
imediata, com efeitos sociais e culturais nas grandes estruturas, mas ao acreditar nisso
e viver tais possibilidades em nossas pequenas experiências, somos como moléculas
que podem fazer evoluir/transformar positivamente as estruturas (além da magia que é
experimentar a alegria com o outro). A vida funciona assim, as máquinas inteligentes
funcionam por pequenos circuitos que se conjugam (fluxos), logo, assumir e apostar
nesse princípio diante da complexidade humana e responsabilizar-se, enquanto parte
menor, com a explosão do bem e da vida bem vivida e com o enfraquecimento de
morais fracas, que ignoram o outro, dá corpo a uma moral do comprometimento com
uma vida que transcende os limites atuais da experiência humana.
3.3 O dever-ser de toda prática

Há uma discussão sobre os limites da ética altruísta atualmente. Assim como se


critica o egoísmo, critica-se o altruísmo quando o outro não é desafiado a assumir a si
mesmo como autor diante do jogo da vida. Um altruísmo que não comprometa e
desafie o outro pode contribuir para a reprodução do sistema. Jogar significa, aqui,
colocar comprometidamente todos na rede para que alcancem resultados individuais
melhores e que são compartilhados abertamente. Transcende-se o jogo de xadrez, onde
há a relação de um contra o outro para ver quem dá o xeque-mate dentro de regras já
pré-estabelecidas (isto geralmente pode ser limitador). A vida é um jogo aberto e sem
cartas marcadas e patenteadas, em que os participantes transcendem-se pelos desafios
que emergem e são socializados com os avanços de cada um, pois são sempre
socializados, e desafia o outro a comprometer-se com novas possibilidades de
movimento. Jogo ético em sua essência. Neste jogo não devemos escolher somente
aqueles que se identificam com as nossas regras, pois a regra primeira e básica permite
e exige que todos participem. Estamos falando de um jogo universal, fraterno, aberto a
toda a humanidade, assim como em sua origem foi proposto o Deus cristão e
testemunhado em certo tempo por cristãos verdadeiros (falamos aqui
propositivamente a partir do cristianismo, enquanto tradição religiosa predominante
na história do ocidente, que transgride a lógica de deuses vinculados a certa nação ou
sociedade para propor um Deus universal que acolhe a todos como criaturas iguais,
reconhecendo os limites e desvios morais e éticos em sua história).
Podemos ou não nos aliar ao cristianismo, mas a ideia de não julgar e pensar que
devemos amar os inimigos desafia a compreensão (o que não desculpa desvios de
compreensão que o cristianismo e outras religiões cometeram e cometem). No livro A
Sabedoria dos M odernos, Luc Ferry e André Comte-Sponville falam em inteligência e
sabedoria (esta última comparável a uma inteligência espiritual humana – diria
humanística, pois radicaliza a dignidade da outra pessoa, independente de sua
condição moral). O inteligente escolhe aqueles que serão capazes de crescer com ele,
que já trazem consigo as qualidades necessárias e que sabe que agregarão valor de
imediato ao processo. Os sábios vão além. Aceitam o desafio de amar os que parecem
desviar-se, os próprios inimigos. Apostam numa dignidade radical da vida nas
possibilidades que se abrem na relação com aqueles que desafiam seu entendimento.
Penso que podemos fazer um exercício para sermos, mais vezes, sábios, mesmo que
reconhecendo nossos limites; sem esta de pesos e obrigações, o que geralmente traz
consigo a consciência pesada e o senso de culpa, sintomas que nada tem a ver com
ética e muito mais com uma moral enfraquecida. Às vezes fazemos escolhas
inteligentes diante de um quadro de sobrevivência, outras vezes podemos sensibilizar-
-nos com certa sabedoria e avançar eticamente.
M udar a história em si, como um todo, talvez não nos caiba, mas ao pensarmos a
guerra como um atestado da miséria humana, nos voltamos para o nosso cotidiano e
desejamos aprender sobre a paz. Aí é que mudamos a história, passamos a contá-la
diferenciadamente, a partir de revoluções moleculares, ou seja, singularidades
alternativas que experimentamos nos espaços próximos a nós mesmos e dos quais não
podemos nos furtar em termos de responsabilidade. Como ao ler o conteúdo deste
livro e comprometer-se com sua interpretação e contextualização. Na empresa, como
profissional, na família, como parceiro de aprendizagem e de experimentação de
paixões alegres. Por aí podemos avançar em nossa experimentação ética.
Podemos alargar a autonomia dos indivíduos e desenvolver a ascensão moral
(ética). Nada justifica que se desista porque um mundo perfeito é impossível de ser
alcançado, mas, ao contrário, já que a vida é um mistério que vamos vivendo em sua
possibilidade a cada dia, a falta de uma resposta definitiva é a porta aberta para
vivermos possibilidades morais alternativas junto com o desenrolar da história
dinâmica da cultura, das sociedades e de cada um de nós.
“A compreensão entre sociedades supõe sociedades democráticas abertas, o que
significa que o caminho da compreensão entre culturas, povos e nações passa pela
generalização das sociedades democráticas abertas.” (M ORIN, 1999, p. 104).
Podemos falar em democracias fechadas? Eu gosto de pensar que existem, como afirma
Luc Ferry, democracias fracas. Explico: cada vez que a democracia leva à defesa das
particularidades de cada grupo, a uma tolerância à distância (eu respeito, mas ele lá e
eu aqui), não deixamos de estar enfraquecendo o diálogo. Até certo ponto, a lei precisa
afirmar esse direito. Porém, se nos reduzimos ao princípio de que cada um faz sua
escolha e não se discute a consistência da mesma (ética), permanecemos reduzidos a
valores limitados e superficiais (morais fracas). A bela democracia ou democracia
forte, como propõe Edgar M orin, é aberta ao outro, quer aprender na relação com o
outro. Aliás, isto é o que viabiliza o exercício ético do ponto de vista político.

1 Poeta mexicano agraciado com o Prêmio Nobel de literatura em 1990.


CAPÍTULO 4
A ÉTICA PESSOAL

Este capítulo quer estender uma conversa com o belo escrito de Pierre Lévy sobre a ética.
Trago, inicialmente, uma proposta de Flávio Gikovate1 quando indagado sobre como
uma pessoa pode ser feliz (em nosso tempo, em um programa televiso o qual assisti e
agora não recordo o nome). Ele destaca que, além da educação pessoal para que tenhamos
elementos para viver bem, a maneira como enfrentamos as dores e a cumplicidade que
desenvolvemos com outras pessoas fazem a diferença, ou seja, tornam algumas pessoas
mais felizes do que outras. O texto de Lévy de diferentes maneiras cruza com estas
propostas de Gikovate, ou seja, ele propõe de maneira radical que devemos assumir nossa
própria felicidade, não nos vitimizando, que devemos encarar as dores como
aprendizagem, enfraquecendo-as, e que o amor está presente nas mesclas, nas misturas
propositivas que conseguimos experimentar com outras pessoas, ideias, culturas. Quero
aqui avançar nesta conversa dialogando sobre o cuidado de si, as estratégias para
enfrentarmos as dores e, especialmente, como podemos amar mais e melhor.

4.1 O cuidado de si

Se não cuido de mim mesmo, como poderei cuidar dos outros? Com grande frequência, a
vontade de ajudar e curar os outros nada mais é do que uma projeção de nossa própria
necessidade de cura. Antes de pensar em transformar o mundo, entenda primeiro o que você
deve melhorar em si mesmo. (LÉVY, 2000, p. 142)

Estão presentes em nossa tradição princípios como ‘amar o próximo como a si


mesmo’, ‘não faças ao outro o que não queres que te façam’, ou ainda, ‘a minha
liberdade termina onde começa a do outro’. Cada um destes princípios coloca em
questão certas perguntas: o que significa amar a si mesmo? O que não gostamos que
nos façam? O que significa usar a liberdade da gente reconhecendo a liberdade do
outro?
Proponho aqui uma conversa sobre cada uma destas questões para tentar chegar,
ao final, a um melhor entendimento do que significa cuidar de si mesmo.
Amar a si mesmo: até que ponto desenvolvemos a educação de nosso ser, o
desenvolvimento de nossa linguagem, o encontro criativo com o que nos acontece?
M uitas vezes, moralmente colados em representações e juízos deterministas, não nos
constituímos como seres em formação processual, contínua e dinâmica. Não sentimos
a vida como experimentação criativa. Ora condicionados a exterioridades em relação às
quais nos alienamos, ora fixados em juízos que nós mesmos edificamos e
endurecemos, acabamos presos em nossos círculos morais e não estendemos as
possibilidades de viver de outras maneiras. Como pode alguém desejar e amar o outro
se não está em movimento de transcendência de si, colocando em suspeição certas
convicções e imaginando outras maneiras de ser? Como pensar o diálogo com o outro
se não estou em diálogo comigo mesmo e com minhas possibilidades outras? O perigo
de quem se fixa em suas representações é exatamente não abrir espaço para o outro e
somente para os idênticos, ou seja, não ama o outro, mas busca nele uma identificação
de si, um espelho, ou alguém a quem se submete na medida em que representa o que
idealizou.
Não faças ao outro o que não queres que te façam: novamente apresenta-se um
dilema: como alguém fixado em um modelo comportamental, sem espírito de abertura
e aprendizagem, pode identificar em si e no outro o que não deve ser feito?
Poderíamos discutir a hipótese de que nenhuma ação que destitua o outro, assim como
a própria pessoa, da dignidade de desenvolver de maneira autônoma sua existência, é
justificável. No entanto, é impossível pensar nesta hipótese em relação a indivíduos
reduzidos a seus territórios ou prepotentes em seus juízos sobre os outros. É
imperativo que não devemos desejar a nós mesmos e aos outros aquilo que fere a
dignidade e a liberdade experimental; aqui, este outro a quem nos referimos transcende
o outro indivíduo ou uma outra cultura. Este outro é a alteridade absoluta que se
estende entre as experiências pessoais e interpessoais, ou seja, o princípio nasce da
própria experiência primeira da alteridade, esta que não separa o eu e o tu, mas que
desde sempre nos faz múltiplos e outros. A partir desta experiência, o indivíduo passa
a conceber sua identidade multiplicada por uma história de várias pessoas e de várias
forças que compõem sua geografia existencial. Logo, o princípio não fazer ao outro o
que não queremos que nos façam somente se sustenta a partir do pressuposto do
desejo pelo outro em movimento, em construção, na relação criativa com os mundos
que se encontram e se abrem para o bem. E o mal, em si mesmo, é uma ausência, uma
frieza, um gosto pela destruição, uma prisão sem recurso nos labirintos do ego, uma
autodestruição de quem quer arrebatar o mundo consigo (LÉVY, 2000, p. 151).
A minha liberdade termina onde começa a do outro: não me estenderei aqui na
discussão sobre o conceito de liberdade e o quanto ele foi e é vulgarizado pela cultura
d o laissez-faire ou da afirmação superficial de que gosto não se discute, como se
estética fosse uma expressão humana desvinculada de um mínimo de qualidade e
consistência de linguagem, ao ponto de se chegar a um relativismo banal que se afirma
no dito de que cada um pode fazer o que quiser se não prejudicar ou infringir a
dignidade do outro. Ficam algumas questões: até que ponto esta proposta de que cada
um deve ter esta pseudoliberdade não está diretamente vinculada a um liberalismo sem
comprometimento ético? A banalização do cada um consuma o que quiser, sem
critérios de avaliação moral sobre o que consome, me parece muito interessante para
um mercado sem escrúpulos, porém, a própria vida acaba consumida por esta lógica.
Porém, a questão mais forte que quero propor aqui é o quanto o indivíduo, reduzido
em seu espaço de escolha, sem dialogar com o de fora e tensionar a consistência do que
pensa e experimenta, não cai na superficialidade individualista, na chamada estética
pobre e vazia? Esta situação identifica-se com um individualismo medíocre, porque
não foi tensionado pelo de fora. M esmo que possamos afirmar que ninguém consegue
viver sem estar sendo tocado por alguma coisa de fora, do outro, a questão que fica é
de como se desenvolvem geografias de discussão, de validação do que pensamos, a
partir do encontro com outras visões de mundo, com outras linguagens, com outras
leituras? Proponho que a verdadeira liberdade, esta que se encontra no interstício do
eu com o outro eu, do eu com o tu, de subjetividades com outras subjetividades, de
subjetividades com valores sociais, históricos e culturais, só encontra (produz) seu
sentido quando transcende seu mundo para invadir e ser invadido pelo mundo do
outro. A minha liberdade começa a partir de outras liberdades, de outras realidades. O
mundo da escravidão, de morte, da falta de ética é aquele em que as partes fixam
fronteiras e não se tocam. Logo, é necessária uma subversão no dito convencional de
que a minha liberdade termina onde começa a do outro, deslocando para a afirmação de
que a minha liberdade começa onde começa a liberdade do outro. A experimentação do
ser livre emerge em espaços povoados por singularidades móveis que se miscigenam
criativamente.

4.2 O cuidado com as dores

Se você decide ser o ator e autor de seu próprio mundo, se aceita as dificuldades dos testes
que certamente o farão crescer, então você resolveu se engajar no caminho da liberdade. Mas se
tem a sensação de se resignar, de ser vítima, você acaba se tornando a própria vítima. É você
quem produz, secreta, em seu íntimo, um mundo de vítima. Você escolhe ser vítima. (LÉVY,
2000, p. 145)

O que nos faz sofrer da dor de alma? As dores físicas, sentidas pelo corpo em sua
estrutura fisiológica, podem levar a dores espirituais se nos enfraquecem a tal ponto
que nos tornamos incapazes de transcendê-las. Porém, não faltam exemplos de que
como, diante de dores físicas, pessoas não só foram capazes de retomar suas vidas
normais, mas mesmo permanecendo com limitações, assumiram posturas de
valorização da vida que ultrapassaram em muito a maneira superficial como percebiam
seus fazeres cotidianos antes das perdas.
Onde quero chegar? Penso que as dores, em relação às quais Lévy fala em seu
texto e que quero trazer para a conversa, são as dores de alma, que podem ser a perda
de entes queridos, mas também, muitas vezes, são as dificuldades que temos em lidar
com aquilo que não se identifica com o que idealizamos. Quem geralmente são as
pessoas que têm dificuldade de aprender com a diferença, com o outro, com as perdas,
com o que não se identifica com seu mundo? Pessoas que acomodaram seus mundos.
Não estou aqui pressupondo que pessoas em movimento dinâmico, criativo e aberto
não sintam dores e experimentem um enfraquecimento diante de certas circunstâncias.
Porém, a vida como experiência construtiva e animada para novas possibilidades faz
com que nossas memórias não fiquem pesadas e sufocadas pelas dores, perdas ou
derrotas (conceitos aos quais resisto, pois penso que na vida nunca há derrota,
somente uma maneira menos potente para sair de um acontecimento). Todo
acontecimento, mesmo que em si seja produtor de circunstâncias empobrecedoras da
vida, pode provocar uma ressignificação afirmativa e alternativa de nossas
compreensões e perspectivas.
Diante do nazismo, por exemplo, podemos pensar o quanto a vida perdeu com a
prepotência, porém, a resistência e maneiras de refletir sobre a miséria humana de tal
acontecimento podem fazer com que seja resgatado o valor da fraternidade, de maneira
especial, aquele que aposta na multiplicidade.

4.3 O amor e a ética

Se na primeira parte deste capítulo já adiantava que só é possível alguém amar o


próximo na relação direta com o movimento que faz de transcendência de si, aqui
destaco que só é possível amar no outro o seu movimento e não suas particularidades.
Confundimos, muitas vezes, a ética e o amor com mundos idealizados que,
normalmente, são concebidos absolutamente rígidos e prontos, como se não houvesse
nada que faltasse. M as como amar o que não nos falta, aquilo que já não precisamos
construir? Como viver o que já está posto e idealizado? Aqui é que a ética e o amor se
cruzam, pois tanto um como o outro se fazem em processo, em movimento. O amor
entre duas partes e em relação a si mesmo só é possível pela passagem que
conseguimos fazer, pelo cruzamento que fazemos entre forças que vivemos. A guerra
está do lado das fronteiras e da separação, o amor, disseminado em todas as mesclas
(LÉVY, 2000, p. 147).
O amor emerge do encontro de singularidades que se constroem pela mutualidade
aberta. Como amar o que está pronto? Como viver o sagrado sem o mistério? Deus
está morto toda vez que racionalizamos o mundo sagrado. Da mesma forma, o amor
está morto quando desaparece o tempo aberto e criativo entre os enamorados. É
porque desejamos que o outro se movimente conosco diante das possibilidades da
vida que existe e é necessária a ética. A ética é um grito de amor pela vida represada
por condicionamentos e racionalizações. A vida é uma torrente que transborda o que
está canalizado e condicionado a certos juízos. Amamos o que se estende, aquilo que
nos convida para mais, para passar criativamente pelo tempo e viver a intensidade
propositiva do encontro. Por que ser ético? Porque a vida merece ser defendida,
porque a vida é um campo de possibilidades em que a beleza pode ser cultivada e não
deve ser reduzida por moralismos e juízos coercitivos. A ética não cabe no reino do
controle e da previsibilidade, nem da eficácia e da eficiência; a ética pede acolhimento
em terrenos férteis em que pode germinar um sem número de alternativas afirmativas
da vida. Amar é produzir possibilidades que transcendem o encontro registrado. A
ética apela para a liberdade comprometida com a potencialização da vida e com a
dignidade da existência. Nesse sentido, Pierre Lévy afirma:
Não se distingue um vinho ruim de um vinho medíocre pelo raciocínio, pela lógica, por
referências ou pela autoridade. Não, assim não. É preciso provar. Exercitar e desenvolver a
sensibilidade. O mesmo vale para o bem e o mal. Nós os sentimos. Mas não com os sentidos
habituais, e sim com uma espécie de sensibilidade da alma à própria alma. Uma sensibilidade
a si, ao outro, à textura dos comportamentos, das atitudes, das propostas, da maneira.
(LÉVY, 2000, p. 149)

1 Flávio Gikovate, médico psiquiatra, terapeuta e escritor, de quem destacaria as obras Uma nova
visão do amor e Os sentidos da vida.
CAPÍTULO 5
ÉTICA PROFISSIONAL (E ORGANIZACIONAL) E
RESPONSABILIDADE SOCIAL

O campo da ética nas organizações e da ética profissional atinge e envolve todos os


trabalhadores e, consequentemente, as suas famílias. Herdamos vários pressupostos morais
do industrialismo e do modo tradicional de se fazer empresa e negócios. Estruturas
hierárquicas rígidas, burocratização e padrões funcionais de resposta, fragmentação dos
fazeres (concepção taylorista) etc. tiveram influência sobre nossa moral, como já vimos na
própria forma como tal metodologia se impôs nas escolas. Enquanto as estruturas
tradicionais reduzem a autonomia moral, vivemos, atualmente, um tempo em que a
flexibilização das organizações e o desafio à autonomia ativa e criativa dos profissionais
em sua atuação nas empresas fizeram emergir a ética do comprometimento e da
responsabilidade. É evidente que isto não decorre da redenção moral das empresas, que
continuam pensando, predominantemente, em resultados. Porém, estes resultados
passaram a depender da inteligência cooperativa e da flexibilização das relações. Corremos
o risco de reduzir às pessoas o sucesso ou fracasso das empresas, mas também podemos
apostar que estas novas relações e experiências podem disseminar-se em mais esferas
sociais como uma educação moral alternativa. É o paradoxo que se faz presente na
sociedade pós-industrial e pós-moderna. Vejamos.

5.1 A crise das éticas moralizantes e o pós-moralismo

Vivemos, há um tempo, o declínio da era industrial e de suas morais. Estamos


presenciando a ascensão da era pós-industrial. Podemos afirmar que:
a. O industrialismo e seus conceitos de formação e produção em massa e
em série não dão conta da realidade atual, cujo mercado e sistemas de
trabalho tendem à autonomia e à singularidade no design dos produtos
e na dinâmica dos processos cooperativos (pós-industrialismo);
b. A era moralista, na qual ideologias e doutrinas ditavam regras de
comportamento, deu lugar à era do indivíduo, desafiado a assumir sua
liberdade de forma pessoal e criativa (pós-moralismo);1
c. Logo, a pós-modernidade compreende este ambiente que radicaliza em
relação ao desenvolvimento pessoal e seu comprometimento com um
coletivo dinâmico, em que as partes passam dinamicamente a entender-
se como potencializadoras do todo muito mais do que o todo,
mecanicamente, determinar a função das partes. Alguns autores dizem
que, de fato, é agora que chegamos à verdadeira modernidade que via na
autonomia da pessoa a possibilidade de efetivarmos os princípios do
Iluminismo, radicalizados no lema da Revolução Francesa: Liberdade,
Igualdade e Fraternidade, pois, até agora, regimes de exceção queriam
impor esses princípios, enquanto só numa democracia radical (ética)
eles podem ser experimentados, pois dependem da autonomia
(liberdade) comprometida das pessoas em suas singularidades
(igualdade) a potencialização do todo (fraternidade).
No entanto, ainda estamos em fase de transição. O peso de estruturas de poder
verticais e de sistemas moralizantes ainda está fortemente presente em nossa cultura.
Retirar as pessoas de um lugar privilegiado de controle, fazer com que se desenvolvam
princípios de confiança entre as pessoas, para que se comprometam com resultados
positivos, ser coerente com o próprio aprendizado e as responsabilidades recíprocas,
são alguns dos pressupostos que podem e devem dar sustentabilidade a organizações
mais dinâmicas e a profissionais mais cooperativos.
A desconfiança entre as pessoas, a falta de transparência por parte daqueles que
ocupam cargos e funções privilegiadas e estratégicas, a ausência de significado para
muitos dos trabalhadores, em relação ao seu trabalho e ao que produzem, entre outros,
são alguns aspectos que ainda permanecem em aberto e que devem ser questionados e
enfrentados.
O peso de relações excessivamente funcionais, nas quais as pessoas perdem sua
singularidade e transformam-se em funcionários-padrão, deve dar espaço a um
exercício profissional mais leve e criativo, em que o tédio em relação ao trabalho é
substituído por experiências desafiadoras e criativas. Reproduzir padrões, atender
demandas de forma repetitiva acabam transformando os profissionais em fantoches do
sistema.
A sociedade pós-moralista apresenta indivíduos que buscam sentido no que
fazem a partir de suas próprias convicções. Não é mais o crachá da empresa e a
entrega incondicional ao trabalho como obrigação para a sobrevivência que motiva e dá
origem a bons e criativos profissionais. O moralismo ainda está na boca de muitos
discursos e numa forma convencional e pobre de comprometer profissionais e
empregados. O poder econômico ainda abusa desta prática e não percebe a perda de
qualidade e de resultados positivos a médio e longo prazo ao usar tais métodos
coercitivos. Os profissionais criativos gostam do que fazem, buscam significado e
possibilidades de crescimento pessoal no que fazem.
Organizações verticais, profissionais de visão curta e sem sensibilidade para
trocas propositivas ainda habitam as organizações e tentam tirar vantagem na forma
como oferecem os seus serviços. Porém, cada vez mais, a confiança torna-se algo
fundamental não só para o bom desenvolvimento das empresas, como para atrair
consumidores, em especial aqueles que começam a avaliar o comprometimento ético
por parte dos profissionais e das empresas.

5.2 A ética dos profissionais e das organizações

Gosto de uma frase simples, mas eticamente interessante: o profissional ético é


um bom profissional bom. Ou seja, é competente no que lhe cabe especificamente
fazer e ao mesmo tempo atua com dignidade. Um médico, por exemplo, deve ser
tecnicamente bom para realizar certa cirurgia, mas ao mesmo tempo deve ser bom para
avaliar a necessidade da cirurgia, dialogando com o paciente sobre a decisão. Tanto ou
mais importante eticamente do que fazer uma boa cirurgia é o comprometimento do
médico com o diálogo com o paciente em questão. Da mesma forma, um bom
administrador, além de questionar a eficiência técnica de certos métodos gerenciais,
deve, eticamente, desenvolver a avaliação sobre a dignidade com que as pessoas e a
natureza são tratadas em seus processos, pela dinâmica do modo de produção e pelo
uso coerente dos recursos naturais e de sua transformação em produtos de qualidade.
Atualmente, quanto mais vamos aprendendo a lidar bem nas relações de forma a
potencializarmos a nós mesmos e aos outros no processo, temos dividendos éticos
(capital moral agregado). Isto vale para todos os que assumem relações de confiança.
A ética reclama esta ideia de encontros entre pessoas que se potencializam por afetos,
sensibilidades, conceitos e linguagens alternativas, o que podemos chamar de
inteligência cooperativa. Para um administrador ou alguém que ocupa cargo de gerência
ou chefia numa empresa, a confiança torna-se fundamental para que possa motivar seu
grupo.
Um líder, por exemplo, exerce autoridade e não poder. Poder ainda tem muito a
ver como conceito com a relação de controle, de fazer com que os outros te obedeçam,
que sigam o que tu dizes em função de interesses, de hierarquia ou por necessidade de
sobrevivência. São diferentes formas de dependência. Autoridade, como dizemos, é
conquistada pela competência pessoal e interpessoal. Nesse sentido, penso que
podemos estar avançando nas empresas para este perfil, ou seja, na medida em que
passamos a ocupar menos o tempo do trabalho com produtos massificados e em série,
liberou-se o tempo do trabalho para atividades criativas, para as quais passa a ser
necessária uma inteligência plural e de intervenção nos processos e não mais de
reprodução de modelos. Aqui o gerente se encontra com outras inteligências e deverá
testemunhar suas habilidades de relação, de motivação e de intervenção no processo.
Quanto mais ele conseguir com que seu grupo seja povoado por inteligentes
cooperativos, melhores resultados serão alcançados e mais sua autoridade será
reconhecida. As responsabilidades passam a ser compartilhadas.
Normalmente, os conflitos em uma empresa aparecem quando cada um responde
só pelo seu setor, pelo seu, e, se algo foge do padrão, geralmente se faz uma caça às
bruxas, em que cada um transfere o problema para o outro, ou para outro setor da
empresa. Devemos concordar que as estruturas ainda respondem aos processos pela
qualificação de cada setor, mas uma linguagem cooperativa e um mínimo de
conhecimento da complexidade (da dinâmica que move o encontro e as
interdependências dos setores) são fundamentais e são o que produz, cada vez mais, a
inteligência da empresa (é o que se busca com o conceito de reengenharia). O
interessante é que isso vale para a vida como um todo. Logo, é um aprendizado ético,
na medida em que busco aprender como os comportamentos e as partes se relacionam
e se potencializam (aliás, a espécie humana, como parte do sistema planetário, ainda
tem muito que estudar e aprender nesse sentido e para além do discurso ecologizante,
como vimos no conteúdo desenvolvido em Antropologia Filosófica e Economia).
Gosto da ideia de reconhecimento do grupo em relação à liderança, contanto que
estejamos falando de um grupo de pessoas autônomas e que desenvolvem a
inteligência cooperativa. Tenho receio de grupos em que o líder é reconhecido porque
fala o que todos querem ouvir ou porque simplesmente não instiga e provoca o
comprometimento e a consistência (mas sem esta de cara carrancuda como arma de
pressão). Confiança não se impõe. Nem é algo ligado a indivíduos cujos
comportamentos fazem o que faz bem para a gente ou identificam-se com a gente e
pronto. Confiança diz respeito a um ambiente em que a ética aparece pelo
compromisso com a consistência do processo. Quem amolece demais não é de
confiança e logo percebemos.
Essa confiança pode ficar restrita ao ambiente da empresa na medida em que se
buscam resultados pontuais somente para a mesma. Porém, quero apostar que
podemos agregar o valor de confiança para a sociedade como um todo a partir das
organizações. A empresa também educa, o que torna possível pensar que desenvolver
confiança na empresa pode fazer com que desenvolvamos confiança para além dela.
Adela Cortina,2 autora espanhola, fala em ética dos mínimos e ética dos
máximos. Trabalhar bem para a empresa porque há a valorização profissional estaria
ligado à ética dos mínimos, na qual há uma reciprocidade em relação à dignidade de
relação. Quando aparece o desafio e comprometimento de alcançarmos pelo nosso
trabalho um resultado que agregue valor alternativo para a sociedade como um todo,
ou seja, que potencialize moralmente as possibilidades dos outros pela qualidade
moral que acompanha o produto e a forma como ele é produzido, comercializado e
consumido de forma moralmente digna, temos um exemplo de ética dos máximos.
Individualmente falando, quando cumprimos com os deveres constitucionais podemos
dizer que estamos cumprindo com a ética dos mínimos, enquanto ao buscar ampliar
nossos compromissos morais para além do que as leis e normas estabelecem, por
convicção e sabedoria, estamos tentando viver a ética dos máximos. Acredito que isto
faz viver bem e traz consigo o sentido da felicidade.
O lucro move a maioria das empresas. Porém, há diferentes formas de obter
lucro. Em parte, o mercado, paradoxalmente, vai eliminando empresas e contratantes
inescrupulosos que ainda identificam o lucro na exploração da fraqueza dos outros e
no uso indiscriminado dos recursos naturais. Concordo que, inclusive do ponto de
vista moral, a empresa que descuida com a lucratividade tende a não sustentar os
próprios trabalhadores, o que além de incompetência também revela falta de
comprometimento com os empregados e fraqueza ética. Assim como é compromisso
ético do profissional ser bom no que faz (e quem se mete a desenvolver atividade
específica sem qualificação está sendo antiético), a empresa tem o compromisso com
os bons resultados para que todos se mantenham empregados. Talvez possamos
generalizar afirmando que as pessoas que assumem um compromisso com uma
experiência existencial consistente, esteticamente falando, são as que de fato fazem
ética. Logo, lucro, em si, não pode ser isolado enquanto conceito e nem enquadrado na
lógica matemática clássica, sem avaliar as variáveis. Adam Smith sofreria em seu
túmulo se não pensássemos o lucro como conceito social (o lucro pensa no outro
como parceiro na extensão e potencialização do mercado). Usando alternativamente os
conceitos, podemos falar em lucro e dividendos morais.
Há um conjunto de iniciativas que as empresas podem e devem desenvolver para
que a ética e a responsabilidade social sejam elementos visíveis e presentes em sua
estrutura e em suas práticas, em especial o investimento na formação dos
trabalhadores diante da sociedade do conhecimento.3

5.3 Ética e sucesso

Impossível imaginar uma organização com estruturas rígidas e autoritárias


competindo com organizações flexíveis, que investem na autonomia e inteligência de
seus empregados. Se o barco estiver afundando na empresa convencional, não adianta
o dono da empresa apelar para que os empregados tragam um plano de sobrevivência,
pois foram transformados em parasitas pela estrutura de controle e coerção. Já se o
barco for de um dono que partilha preocupações e investe e desafia ao
desenvolvimento particular, clamando por ideias inovadoras e que passam a ser
aplicadas, reconhecendo o esforço da base, é provável que o barco, a partir do
envolvimento dos tripulantes, empregados (ou colaboradores, termo preferido por
diretores contemporâneos), desenvolva alternativas diante das turbulências, além de
desbravar rotas novas e desconhecidas de forma responsável diante da crise. Uma
organização de sucesso é um todo, não é fruto de uma pessoa ou ideia isolada, mas da
habilidade e competência de práticas cooperativas. Há uma convicção moral (kantiana)
de que a dignidade de todos os colaboradores e clientes é a moeda principal da
empresa e que as práticas produtivas (sabedoria prática aristotélica) devem
acompanhar os desafios do tempo reconhecendo, com prudência, as novas dinâmicas e
as novas necessidades que culturalmente se impõem (visão hegeliana), visando o
desenvolvimento de produtos que agreguem valor à vida (fim nietzscheano).
Um discurso superficial que esconde o verdadeiro ambiente da empresa não se
sustenta. A inteligência desenvolvida em uma organização é diretamente proporcional
às relações de comprometimento que estão sendo propostas e assumidas pela diretoria
da mesma. Quando falamos de um conceito, de imediato nos perguntamos sobre como
o experimentamos na prática. Em ética, isto é natural. Não precisamos desenvolver um
discurso sobre ética com exemplos estranhos à nossa experiência. Quando
desenvolvemos um projeto visando resultados positivos em termos de valor agregado
socialmente, nos perguntamos como nós mesmos nos apropriamos deste projeto. A
empresa fala pelo estado de espírito dos empregados ou colaboradores. Estamos bem,
nos sentindo dignificados em nossas atividades na empresa? Esta deve ser a questão
primeira para avaliar a consistência ética da empresa no sentido do comprometimento
e desenvolvimento interno. A alegria em se trabalhar numa organização é resposta
positiva à vida, sendo que o sucesso da empresa e do profissional se conjugam neste
ambiente.
Talvez tenhamos que conviver com a ideia de que ética e capitalismo possam se
encontrar neste compromisso do capital para com a valorização das pessoas e com o
investimento em sua formação, ao mesmo tempo em que vamos avaliando, eticamente,
o limite da produção que agride o meio ambiente e a possibilidade de desenvolver
produtos e tecnologias mais inteligentes. O sucesso da empresa e dos próprios
profissionais vai passar também pela capacidade de desenvolver métodos alternativos
para a saúde ambiental a partir da própria empresa e de suas inovações na área.
Se aliarmos a isso a ideia de uso e reaproveitamento de recursos de modo
inteligente, teremos uma ética de produção ecossistêmica (otimizando custos). Ainda
estamos muito reféns das facilidades de usar e jogar fora. Aliás, moralmente, este jeito
de lidar com a natureza se estendeu naturalmente às relações humanas. O desafio é,
neste tempo em que o cuidado com a natureza está em alta, discutirmos mais a fundo,
tentar ficar mais sábio a partir do que aprendemos com as dinâmicas dos sistemas
naturais.
Não há receita, não há modelos pré-determinados para aplicar a ética nas
empresas e nas relações profissionais. Emerge um momento histórico singular em que
a preocupação com a dignidade da existência, a minha e a dos outros, chama para o
desenvolvimento de competências e atitudes mais coerentes. Educar-se para isto passa
pela sensibilização interior (dever kantiano), reconhecendo a necessidade de
desconstruir moralismos agenciados (Rousseau e Nietzsche) e desafiando-se a
desenvolver o questionamento (Sócrates) e a virtude da prudência prática
(Aristóteles). Neste exercício de convicção do dever para com um bem que desejamos,
e com o qual nos aprazemos (Epicuro),4 vamos educando nossa percepção e
aprimorando nossa linguagem para sermos livres e fortes diante dos fatos (Espinoza),
desejando que, como indivíduos participantes de uma rede maior, possamos instaurar
a ética coletiva (Hegel) através de um diálogo, da arte comunicativa (Habermas) como
cúmplices da alegria do viver. Neste processo passaremos por crises, dores que se
estoicamente soubermos enfrentar (Sêneca),5 levarão ao alargamento de nossa visão
ética e de nossas habilidades morais.
Nada é absoluto em si mesmo, pois existe e sobrevive dentro de algo maior.
Podemos, de dentro do próprio capitalismo, perceber rachaduras, ou seja, formas
cooperativas de produzir e alcançar maior rentabilidade do que empresas privadas.
Com isto não quero falar bem da cooperativa e mal da empresa privada, pois como
venho afirmando, o bem e o mal estão em cada um de nós e também nas estruturas.
Acredito que dentro de empresas privadas possamos experimentar, mesmo que a
lógica do capital exija resultados, outras formas de nos relacionarmos com a produção
e o consumo.

1 “ Aí reside a mudança pós-moralista: ontem, era a moral que prescrevia regularidade e disciplina,
hoje, ela é um instrumento de flexibilidade da empresa; ontem, era um sistema de autoridade, de
imposição e de obrigação incondicional, hoje, significa menos hierarquia e disciplina, mais
iniciativa, abertura à mudança e flexibilidade, com vista a uma maior competitividade. Motor da
flexibilização das organizações, a ética na gestão significa tanto o renascer do ideal normativo dos
valores como uma atenção acrescida em relação aos fatores psicológicos e relacionais na motivação
para o trabalho. Não é a obrigação categórica que comanda o movimento da ética, é a cultura psy, a
importância que passou a ser atribuída aos valores comunicacionais nos fenômenos de coesão de
grupo e de implicação individual.” (Lipovetsky, 2005, p. 307-308)
2 CORTINA, Adela. Construir Confiança: Ética da empresa na sociedade da informação e das
comunicações. São Paulo: Loyola, 2007.
3 “ [...] ou a empresa se posiciona olhando para o próprio umbigo, em um isolamento olímpico que
só legitima as próprias conveniências, ou levanta a cabeça e desvela a paisagem maior, com suas
interdependências e suas forças em confronto. Tal situação reproduz as tensões permanentes que
existem entre os interesses privados e o bem-estar coletivo, a autossuficiência individual e a
consciência social.” (SROUR, 2003, p. 405)
4 Epicuro, filósofo grego da ética hedonista, ou seja, que identificava o bem com o prazer. Porém,
não qualquer prazer, mas um prazer superior, a saúde que advém da sabedoria.
5 Sêneca, filósofo romano da Escola Estóica, que trabalhava a arte (força) de lidar com o trágico (as
dores) como educação para o bem.
CAPÍTULO 6
ÉTICA, ECONOMIA E NEGÓCIOS

A economia ocupa direta ou indiretamente boa parte da vida das pessoas. Muitas vidas
acabam excessivamente reduzidas aos resultados quantitativos daquilo que se produz e se
consome. Não podemos negar e nem fugir desta realidade. Mas podemos, por um lado,
questionar o limite de tempo que vivemos em função do trabalho ou submetidos pela
lógica do acúmulo financeiro (juntamente com aquilo que ele permite consumir, muitas
vezes, histericamente); por outro lado, podemos avaliar como esse espaço do econômico
pode promover alternativas experimentais, ou seja, de que forma podemos tornar a
economia aliada da afirmação da dignidade humana. Este capítulo quer demonstrar, num
primeiro momento, o quanto o fato econômico e tudo o que envolve os processos de
produção e consumo revelam-se como fatos morais e que, eticamente, podem e devem ser
avaliados em sua função de promover a qualidade de vida dos seres humanos e do planeta.
Na medida em que reconhecemos que a economia produz uma moral que deve ser
avaliada, apresentamos a virtude da confiança como valor que deve e pode ser promovido
pelas empresas e pelas práticas negociais, tanto para que sejam alcançados melhores
resultados, quanto para que a sociedade toda ganhe pela extensão de tal espírito para
outros procedimentos sociais. Reconhecendo que os trabalhadores e profissionais em geral
devem se educar para o espírito da confiança mútua, propomos como terceiro aspecto que a
ética torna-se fundamento para os bons negócios e para a evolução alternativa e criativa dos
processos produtivos, na medida em que as pessoas envolvidas sentem-se autoras e
corresponsáveis pelos resultados. Multiplicam-se, desta maneira, dividendos financeiros na
relação direta com a valorização de cada pessoa e de sua ação comprometida para com o
todo.

6.1 Economia como fato moral

É possível que certo discurso ainda limite a relação entre a economia e a ética. A
partir de uma perspectiva excessivamente quantitativa e fixada na lógica do capital e
da lucratividade, muitas vezes ignoramos como a marginalização da reflexão ética pode
transformar a economia excessivamente condicionada à lógica da produtividade e do
ganho e com pouco comprometimento em relação aos aspectos morais que atravessam
os modos de produção e distribuição das riquezas. Destaco aqui a fala de Edgar M orin
no Programa Roda Viva:
A economia é baseada em cálculos e tudo que foge ao cálculo é eliminado do pensamento
econômico. Isto faz com que, infelizmente ou felizmente [...] o que foge ao cálculo é a
emoção, a vida, o sentimento, a natureza humana. Então, temos um conhecimento abstrato. O
conhecimento da sociedade não pode ser somente baseado no cálculo. Os problemas sociais
não podem ser reduzidos a cálculos. Não podemos dizer que só o desenvolvimento da
economia resolve todos os demais problemas humanos. E temos de reagir contra esta ideia
simplista e redutora. Acho que você teve razão de mostrar e apontar que tudo isso diz respeito
à definição do ser humano. Por muito tempo, acreditou-se que o ser humano era chamado o
Homo sapiens, isto é, o homem racional, e o Homo faber, o homem que fabrica ferramentas.
Bem, de fato, somos Homo faber. Eu também sou, através da caneta ou do computador.
Homo sapiens, a racionalidade, é excelente. Só que é sabido que a racionalidade só abstrata
deixa de ser racional. Você sabe que não há pensamento racional sem emoção. Até mesmo o
matemático tem paixão pela matemática, ou seja, não podemos pensar... A razão fria são
unicamente os computadores. Eles é que têm a razão fria. Não têm sentimentos, nem vida. Se
os deixássemos governar a humanidade, seria um perigo. Portanto, somos seres capazes de
emoções e de loucuras também. E, no fundo, a dificuldade da vida é navegar, não é? Nunca
perder a racionalidade, mas, também, nunca perder o sentimento, sobretudo o amor. Do
mesmo modo, como você disse, somos homens de economia. É claro, temos interesses
econômicos, mas somos Homo ludens [homem lúdico] também. Gostamos de jogo. Não são
só os jogos infantis. Os adultos adoram jogar. E não só jogar baralho ou ir ver uma partida de
futebol. O jogo faz parte da vida. Do mesmo modo, a prosa. De fato, ela faz parte da vida
porque são as coisas obrigatórias e necessárias que fazemos, mas que não nos interessam. Mas
o importante eu disse há pouco: a prosa serve para sobreviver. Mas a poesia é viver, é o
próprio desabrochar. É a comunicação, a comunhão. Se tivermos essa definição aberta do ser
humano, levaremos em conta toda a dimensão humana. Mas se ela for fechada e econômica, a
perderemos.

Várias são as questões relacionadas à economia que remetem à ética. Trago aqui
algumas delas para instigar a reflexão:

O trabalho dignifica ou fragiliza as pessoas? Saímos fortalecidos,


potencializados e animados ou cansados e deprimidos de nossas
atividades profissionais? Há espaço para o diálogo e a criatividade nas
empresas?
A maneira como o ser humano usa e transforma as matérias-primas e as
fontes de energia amplia a saúde do planeta ou provoca a sua corrosão?
Como lidamos com o consumo? Até que ponto a histeria consumista e a
cultura do descartável descomprometem as pessoas e fragilizam as
relações?
Como ampliar o nível de confiança entre as organizações e seus
colaboradores, entre as empresas e seus clientes, entre os serviços e a
sociedade em geral? O quanto esta confiança é imprescindível para o
sucesso nos negócios, tanto em termos de coerência profissional como
de práticas de gestão?

Percebemos o quanto as escolhas e as estratégias que são desenvolvidas dentro da


esfera do econômico dizem respeito a valores morais. Desde o produto em sua
estrutura e finalidade de uso, até a maneira como a sociedade concebe a produção e o
consumo de bens, entram em questão decisões e ações humanas que podem e devem
ser avaliadas em sua consistência e qualidade moral.
Quando uma empresa não reconhece que em seu modo de produção, em sua
maneira de relacionar-se com a rede de clientes e na forma como pensa ecologicamente
seus processos, estão presentes escolhas fundamentais para o futuro da sociedade e
um desenho de sua ação ética, esta empresa não se encontrou com o sentido de sua
responsabilidade social e histórica em relação ao desenvolvimento da humanidade e do
planeta.
Nenhuma empresa pode ignorar que, tanto quanto o estado, ela é agente
fundamental para a transformação propositiva da sociedade humana em geral. Os
processos de educação que cercam sua ação são tão ou mais importantes do que
processos, até porque a maioria das pessoas coloca no fator econômico uma parte
importante de suas vidas e possibilidades. O quanto uma empresa que trata bem seus
empregados e testemunha, através de seu quadro diretivo e de sua filosofia, não está
colaborando para o efetivo alargamento da cidadania? Esta empresa cidadã, que se
coloca e aos seus como sujeitos alternativos da história de seu país e do mundo
incorpora o espírito da ética. A ética passa cada vez mais pelos processos econômicos
e produtivos, espaços onde a grande maioria das pessoas exerce seu desejo de
afirmação social, tanto na maneira como participa de ambientes interessantes, livres e
criativos de produção como pela maneira como se torna um consumidor consciente em
relação ao valor que agregam certos produtos. Sempre seremos consumidores também
de produtos banais, mas a banalidade consumista não pode sobrepor o consumo
inteligente e ético. Uma nova vida econômica, sem alienação do produtor nem do
consumidor, porque a produção e o consumo estão de fato a serviço do homem,
torna-se assim condição necessária – ainda que não suficiente – para uma moral
superior, na qual o bem de cada um se combine com o bem da comunidade.
(VAZQUEZ, 2008, p. 223,)

6.2 Ética da confiança

Só é possível falar de uma gestão ética da confiança a partir dos pressupostos de uma ética
empresarial dialógica, orientada pela ideia de que produzir confiança significa criar as
condições para poder confiar na empresa com boas razões. […] o que devemos mostrar é que a
confiança tem um valor econômico porque tem um valor moral, e não vice-versa. (GARCÍA-
MARZÁ, 2007, p. 81)

Não devemos transformar a ética em artigo de negócio. Ou seja, é verdadeira e


importante a crítica a organizações que de maneira interesseira utilizam-se da ética
para vender seus produtos sem incorporar o espírito de uma moral avançada. Não é a
convicção que transforma a empresa em um espaço de comprometimento moral, mas
simplesmente a onda do mercado que exige e faz com que a empresa seja cobrada por
forças exteriores. Sem assumir a ética como pressuposto de evolução moral humana,
essas organizações reduzem seu compromisso com práticas éticas ao mercado, ou seja,
somos éticos porque nos cobram e em relação àquilo que é visto e exigido pelo
mercado. Sabemos como a onda do ecologismo e das ISOs pode fazer com que muitas
empresas entrem no jogo somente para cumprir tabela, como se diz.
O valor moral da confiança pressupõe que a ética não é concebida como artigo e
variável qualquer nos processos de desenvolvimento de uma organização. Estamos
falando de processos de formação e educação moral, ou seja, o corpo da empresa
evolui para comportamentos que agregam valor moral, que desenvolvem ações e
reflexões de comprometimento com práticas que fazem bem para as pessoas, para a
empresa e para a sociedade em geral. A confiança não é um princípio vazio, de
prateleira, que está registrado no código de ética da empresa. A ética e a confiança são
qualidades inerentes aos parceiros da organização porque eles sentem-se participantes
ativos da construção de processos que animam a empresa em seu desenvolvimento
moral. Quando um funcionário sente que tem espaço para questionar, para sugerir,
quando, nas relações internas da empresa, são criados mecanismos que permitem e
desafiam os trabalhadores a participarem com ideias dos processos, teremos a
animação para o compromisso. A responsabilidade partilhada para com a qualidade
dos processos e para com a criatividade em relação à qualidade do que e como se
produz faz com que cada um se transforme em sujeito moral e coparticipante do fazer
ética da empresa.
Acredito e aposto que, em ambientes onde as pessoas dialogam e estendem suas
dúvidas e proposições de maneira aberta e dinâmica, há uma possibilidade ampliada de
que haja sucesso no empreendimento. M as o sucesso é diretamente proporcional ao
nível de consistência com que se desenvolvem os diálogos. Não podemos esquecer que
dialogar é desenvolver a capacidade de estender-se mutuamente além.
A relação de confiança passa necessariamente por uma mudança de estrutura de
poder. Não mais um poder verticalizado em que as funções são concebidas de cima
para baixo e as relações obedecendo a esta lógica, mas uma estrutura propositiva de
poder. O poder não se faz pela imposição, mas pela habilidade cooperativa. Estamos
falando de processos de descentralização.
Não devemos alimentar o preconceito em relação aos desvios morais que podem
estar presentes na ação das pessoas dentro das empresas. Devemos partir do voto de
confiança. Não um voto de confiança ingênuo, a ponto de não imprimir
responsabilidades no processo. O próprio voto de confiança coloca o sujeito em
posição de responsabilidade em relação ao alcance de sua ação e ao valor que ela agrega
à organização. O esforço para com o sucesso da organização passa a ser diretamente
proporcional ao comprometimento que o trabalhador passa a ter para com os
resultados positivos de sua ação. E sua ação estende-se da competência adquirida e
desenvolvida no campo da formação técnica e pelo comprometimento que desenvolve
em relação à cooperação para com um ambiente que se organiza pelo acordo de certas
morais de responsabilidade (normas acordadas) e pelo espírito de equipe que se
fundamenta em trocas propositivas e na construção de um ambiente em que se
multiplicam pessoas alegres e comprometidas com o bem-viver.
Sentir-se membro corresponsável pelo grupo de trabalho do qual se participa
pressupõe um espírito de cidadania fundamental para o crescimento coerente da
empresa, porém, ao mesmo tempo, estende-se tal formação para a aprendizagem
cívica, ou seja, grupos que desenvolvem o espírito solidário de equipe tendem a
estender tal espírito e comprometimento para com a sociedade em geral. A valorização
do outro e das atividades que realizamos tem seu fundamento em práticas grupais que
experimentamos cotidianamente. O espaço do trabalho, em especial das empresas e
seus grupos, devem ser locais de aprendizagem e experiência de cidadania. Impossível
ignorar que somos seres sociais e que a nossa formação passa pela educação que
desenvolvemos e adquirimos em atividades desses grupos. Assim como afirmamos
que a família e a escola, por exemplo, são espaços de educação e formação da cidadania
de cada indivíduo, também devemos assumir os grupos de trabalhos das empresas
como experiências de ação coletiva. Além do mais, a empresa, além de ser ambiente de
formação das responsabilidades que desenvolvemos pela capacidade que vamos
adquirindo na relação produtiva inteligente com os outros e por acordos e
transcendências morais que vamos elaborando, também estende a responsabilidade
cidadã para ações que envolvem uma rede de pessoas que ultrapassam a empresa,
como seus clientes, fornecedores. Estamos formando cidadãos responsáveis nas
empresas? Que responsabilidade pessoal, social e ambiental está presente nas práticas
que nossa empresa desenvolve? Estas questões devem nortear qualquer debate que se
realize na empresa em relação ao seu compromisso para como uma sociedade melhor.
A empresa não pode ser pensada como um ambiente pesado, para onde as
pessoas vão porque precisam sobreviver. O peso da obrigação mina a qualidade de
vida. Se os funcionários vão para o trabalho carregando o peso da obrigação, suas
vidas estão sendo castigadas e a criatividade dos mesmos acaba despotencializada.
Não podemos reduzir os indivíduos a números ou a um aglomerado de peças que não
experimentam sentido nas relações.
A visão aristotélica começa com a ideia de que somos, antes de tudo, membros de
comunidades, com histórias partilhadas e práticas que a tudo regem, desde a alimentação e o
trabalho até a religião […]. Pensar na empresa como uma comunidade significa insistir que ela
não pode ser – por mais incorreta que seja na política interna – uma mera reunião de
indivíduos com interesses pessoais, relacionados apenas por contrato. Os que estimulam essa
visão estão, com efeito, minando a própria vitalidade da empresa. (SALOMON, 2000, p. 80)
6.3 Ética e sucesso

Existe, em cada indivíduo, um profundo desejo de encontrar um sentido para a vida. As


pessoas querem que suas vidas tenham sentido, e isso inclui sua vida empresarial ou sua vida
de trabalho. Assim, pois, quando lhes é concedido poder de decisão e lhes são mostradas suas
capacidades, consegue-se algo que é bom para eles e para a companhia. (CORTINA, 2007, p.
185-186)

M uito do comportamento dos indivíduos em nossa sociedade e nas culturas em


geral está condicionado por valores e padrões externos. O que chamamos de alienação
está presente em muitas de nossas ações, ou seja, muitos de nossos desejos, de nossas
representações são cópias de impulsos exteriores que agenciaram nossa vontade. A
minha tese é que o esforço despendido para corresponder ao que exteriormente nos
condiciona sempre será parcial e carecerá de potência na medida em que acaba ignorada
a criatividade pessoal que, necessariamente, depende de um desejo livre e autônomo.
Por exemplo: as empresas podem oferecer recompensas salariais, distribuição de
dividendos, festas de confraternização, atividades de relaxamento físico e um não sei
mais o que de atividades alternativas. No entanto, se o processo de produção
continuar a obedecer à lógica da tarefa determinada, da submissão do trabalhador a
burocracias enrijecidas e repetitivas, a lógica é que não se desenvolvam processos
alternativos de ação e produção. A empresa começa a cansar e precisa substituir a
peça cansada por uma peça nova, para que o processo repetitivo seja mantido num
nível aceitável de execução. Porém, além de estarmos atualmente vivendo a era pós-
industrial, na qual as atividades cada vez são menos repetitivas e mais criativas, não
podemos ignorar o fato de que o sucesso nos negócios é diretamente proporcional às
inteligências alternativas que as organizações promovem e passam a conhecer a partir
de seus colaboradores.
Se estou tentando entender o sentido do que faço, se busco dar valor ao
desenvolvimento de minhas tarefas, é natural que, como profissional, eu me
comprometa a desenvolver o que sou cobrado, mas porque é melhor para mim e para
os outros, não porque sou cobrado e controlado, mas porque desejo interiormente que
o meu tempo, no caso, meu tempo profissional, seja bem vivido. É uma questão ética:
pelo que vale a pena viver se não for por algo que faça com que eu me sinta mais vivo,
potencializado em minhas estruturas para o pensamento e a ação. Sentimos
pessoalmente a nossa força crescer quando fazemos as coisas a partir de elementos
que vamos agregando, linguagens e aptidões que vamos construindo, já não mais para
satisfazer algo externo, mas para compor uma relação criativa, em que o sentido
pessoal e social do que fazemos se atravessam, ou melhor, se complementam diante de
certos contextos
O trabalho, que é realizado a partir da força pessoal autônoma do indivíduo, já é
um ganho para ele e para os negócios da empresa. Porém, a questão seguinte é: o que a
sociedade ganha com a autonomia dos trabalhadores e o sucesso dos negócios de uma
empresa? Poderíamos questionar se um sucesso restrito ao campo individual e de uma
só empresa se sustenta. Teríamos vários exemplos e argumentos que atestariam que
este sucesso é frágil e passageiro. M as a proposta de discussão é outra: é possível
pensar em autonomia sem levar em conta o outro, as outras pessoas, aquilo que se
estende além de cada um de nós? É possível uma empresa que aposta na autonomia e
na liberdade de seus colaboradores passar à margem de questões de responsabilidade
social e ambiental mais abrangentes?
A minha resposta tácita é não. A autonomia de uma pessoa é ampliada na relação
direta com sua capacidade de compor redes de cooperação. É lógica a resposta, mesmo
que os fluxos de cooperação sejam dinâmicos e não possam, e nem devem, ser
restringidos por redes de controle de ações e funções. Cooperação significa,
radicalizando o conceito, operar junto, em processo de potencialização mútua. Assim
também é em relação à empresa: não é possível uma empresa desenvolver um sentido
de permanência “no mercado” se não estiver desenvolvendo redes de afirmação tanto
em relação aos clientes quanto aos fornecedores e recursos em geral. Há aqui uma
conexão direta entre a ética e a sustentabilidade criativa dos negócios. Podemos
continuar com dúvida em relação ao tempo de sobrevivência do planeta e da vida
humana em relação ao tempo cósmico e seus fluxos energéticos, a partir da lógica da
dissipação da energia (o Sol está se esfriando, logo, a Terra tem seu tempo de vida…).
Porém, diante da vida e da lógica de seu tempo, que é retroalimentar e está diretamente
ligada à ideia de redes criativas de potencialização, a empresa deve ser ética por uma
questão de inteligência. Aqui, o sentido da empresa ultrapassa o resultado financeiro
imediato e se concebe como uma força a favor da vida e da sociedade em geral pela
forma como concebe e executa sua administração em relação às pessoas e aos recursos
naturais. O verdadeiro valor do trabalho humano deve transcender a finalidade da
simples subsistência ou de enquadramento mais significativo dentro da escala do
status quo social. O trabalho deve agregar valor moral às pessoas que se envolvem com
ele, tanto na perspectiva de experiências cooperativas de produção (educação moral)
quanto do desenvolvimento da criatividade e do senso estético (educação ética).
A economia e os economistas, se verdadeiramente desejarem contribuir para o
desenvolvimento das pessoas e para o bem comum da sociedade, não poderão ignorar a ética,
mas deverão se servir das normas morais e éticas como norte e guia. A ética não é uma
limitação para a economia, do mesmo modo que uma estrada não é uma imposição para os
carros. Antes pelo contrário, sua função é facilitar que as pessoas cheguem a seu destino,
mesmo que aparentemente seja uma limitação trafegar dentro da estrada e obedecer às leis de
trânsito. (ARRUDA; WHITAKER; RAMOS, 2009, p. 142)
CAPÍTULO 7
ÉTICA E ALTERIDADE: A ECONOMIA COMO
AFIRMAÇÃO DE RELAÇÕES COOPERATIVAS

Todo fato econômico demanda relações entre as partes. Produtores e consumidores,


fornecedores e empresas, sociedade e sua percepção em relação à imagem das organizações,
entre outros. A economia atual demanda e atesta cada vez mais a importância das
atividades em redes flexíveis. As empresas que souberem, de maneira mais sutil e
inteligente, escutar seus parceiros, por certo levarão vantagem em termos de produtividade
e agilidade nos processos. O que está em questão não é somente o que uma empresa ganha
economicamente com a escuta do outro, mas como toda a rede sai ganhando. O outro
sendo reconhecido em seu valor na dinâmica do processo tende a participar mais
comprometidamente nos mesmos. Vidas afirmadas pela simples razão de serem ouvidas e
animadas para a ação cooperativa. O outro, em sua alteridade, demanda uma geografia de
alianças criativas. Esta criatividade é muito mais decorrente da vitalidade animada pelos
fluxos que as organizações desenvolvem, do que por uma iniciativa circunstancial de
algum trabalhador ou colaborador. A ação que se faz presente por parte de algum dos
colaboradores também é muito mais consequência do fluxo, na medida em que estes
passam a estar interessados em atuar colaborativamente, do que em função da obrigação
imposta pela empresa. Vejamos como podemos avançar na escuta do outro.

7.1 O outro

O outro é maior do que o eu, uma vez que o eu não dá conta de abarcá-lo. A razão não o
totaliza em nenhum discurso por ela arranjado. A pessoa, ao aceitar essa realidade como um
exercício existencial, tende a combater a arrogância e a pretensão totalitária das ações e valores
atualmente arraigados e muitas vezes ocultos nos comportamentos funcionais e
organizacionais. (SILVEIRA; SIQUEIRA)

Proponho duas extensões do conceito outro:

uma primeira identifica-se com a ideia de uma outra pessoa que é


entendida e acolhida com toda sua história, mas especialmente em seu
processo de subjetivação, ou seja, como um ser que experimentou e
constrói de maneira singular sua relação com os acontecimentos;
uma segunda que aproxima a ideia do outro de conceitos como os de
transformação (podemos falar em transmutação, numa perspective
nietzschiana),1 de diferença e multiplicidade (aproximo aqui a proposta
deleuziana)2 e, por fim, de complexidade (Edgar M orin);3 outro como
deslocamento para um tempo criativo em que as visões lineares e
racionalizantes (homogêneas) são ultrapassadas por uma perspectiva de
transbordamento e diferenciação.

A primeira maneira de tramar a extensão do conceito nos leva ao encontro de


outra vida, que não é a nossa, em que o sentido em relação ao que se vive não nos
pertence e não podemos nos apropriar. O outro, a outra pessoa, nos escapa sempre,
pois a radicalidade da vida vivida por alguém não pode ser transferida. Ninguém pode
sentir pelo outro, por mais que possamos nos alegrar e sofrer com o outro. Esta
condição única de pessoalidade é intransferível e remete a duas implicações que
considero importantes do ponto de vista da implicação ética: a primeira implicação é o
comprometimento que cada um tem de assumir a sua vida como tarefa pessoal,
intransferível e desafiadora; a segunda implicação é que só podemos trocar com o
outro, ou seja, a fraternidade é a única alternativa em relação à preservação da vida do
outro. Reduzir o outro à nossa representação, ao nosso juízo, por exemplo, são
práticas de morte. Aprisionar o outro em nossa razão de ser é ignorar que o outro e
seu mistério nos ultrapassam, desafiando a ultrapassagem do ego que personalizamos
a partir de identificações. O outro não é a outra metade que nos falta, mas é o outro
tempo que nos atravessa e provoca o deslocamento de nossa geografia para um espaço
de possibilidades outras. O argumento ético que proponho é que somente podemos
estar potencializando a relação com o outro quando assumimos radicalmente a defesa
da liberdade da vida experimentada pela outro (e por nós mesmos) e conseguimos
viver a mistura dos corpos sem práticas de controle ou submissão.
A segunda maneira de pensar o conceito outro se alia a conceitos que venho
estudando e que penso que podemos identificar com a proposta da ética da alteridade.
Alter, o outro, o outramento, tem tudo a ver com acolher a complexidade da vida e de
todos os seres vivos e viventes (e seus fluxos em relação à afirmação da vida em sua
diversidade) e, de forma especial, os outros humanos, assim como o outro presente em
cada um de nós e suas (nossas) possibilidades. M ultiplicar-se na relação com um
universo aberto que a vida, a linguagem e o pensamento nos possibilitam. Diferenciar-
se como produção de acontecimentos únicos em relação aos fatos com os quais nos
relacionamos. Transmutação como amor fati,4 como potência para transcender o que
se vive, pela maneira de resistir aos recalques morais, desenvolvendo a capacidade de
recriar sentido em relação ao que se experimenta. Essa experiência nos lança em
direção da criatividade em vida.
Ao mesmo tempo em que defendo uma visão aberta e multiplicada, cuja
diversidade fluxional traz consigo a composição de alianças construtivas, critico o
peso de discursos de simplificação do comportamento humano, que reduzem a moral à
repetição de certos princípios herméticos, inibindo a ética do viver. A vida como presa
de uma moral ou de representações modelares, enclausurada em muros padronizados
de comportamento, perde seu sentido e reivindica outra ética. O que potencializa a
vida é a força para viver, o alimentar-se das forças e energias que nos afirmam como
seres de percepção e de expressão.

7.2 A solidariedade

Retomo aqui os princípios do Iluminismo: liberdade, igualdade e fraternidade.


Inseparáveis em sua natureza conceitual, os três conceitos têm sua base no conceito
fraternidade, ou seja, somos iguais na diferença e singularidade pessoal e somos livres
na medida em que desenvolvemos a autonomia em relação aos nossos pensamentos
(reflexões) e comportamentos. No entanto, é necessária a experiência da fraternidade
para que experimentemos o sentido da igualdade e da liberdade. Como conceber-se
igual em nossa singularidade se não nos encontramos, de maneira estendida, com a
singularidade do outro? O que faz com que a gente se descubra igual e não idêntico é a
possibilidade que cada ser humano tem de multiplicar-se no encontro com o outro que
também está em movimento, em devir. 5 Numa perspectiva similar, só nos sentimos
livres em um mundo onde a liberdade se faz presente na relação com o outro. A luta
contra a escravidão é uma luta contra o peso do mesmo e das correntes de
identificação condicionadas ao juízo. Explico: se devo apresentar para o outro minha
identidade como se ela se constituísse por um conjunto de características prontas,
então não há oxigênio para respirar a liberdade.
Tal abordagem retoma a discussão sobre conceitos como os de respeito e de
tolerância. A interpretação do senso comum é ligar tais conceitos muito mais a aceitar
que o outro se identifique com o que quiser e muito menos produzir a relação, a
experiência com e do outro. O desafio maior e engrandecedor é promover este fluxo em
que as pessoas produzam seu outramento pelo movimento de extensão de suas
potencialidades no encontro com o outro.
“ Tolerância” é um termo da modernidade esclarecida, que deveria, hoje, no mundo
contemporâneo, ser substituído pelo termo “ solidariedade”. Quem tolera faz uma concessão ao
Outro; quem solidariza, compreende que não pode ser sem o Outro. Por isso, proponho a
substituição do termo “ tolerância” por ”solidariedade”, sempre que se estiver fazendo
referência a uma humanização da sociedade contemporânea. (SILVEIRA; SIQUEIRA, 2007.)

Estendo tal proposta para a área dos negócios, ou seja, a solidariedade competitiva
não se vê como força que se impõe ao outro, mas compõe com o outro o desafio da
transcendência. Essa proposta é criativa porque busca perceber como podemos
ampliar as práticas produtivas em favor de um mercado menos destruidor do outro e
mais aliado à ideia de compor alianças potencializadoras com o desenvolvimento de
produtos mais inteligentes. Retomo a concepção de que somos também produtores e
consumidores de banalidades, porém, cada vez mais nos encontramos com produtos
mais inteligentes e que abarcam o campo de atividades alternativas, muito mais ligadas
ao ócio humano. Interessante este paradoxo linguístico, ou seja, estamos entrando em
uma era em que o ócio passa a ser um campo a ser explorado pelo negócio. Estamos
nos referindo ao ócio como atividade em que não estamos diretamente nos ocupando
de atividades produtivas no sentido clássico, ou seja, produzindo objetos que serão
usados pelos humanos em outras atividades ditas “produtivas”, mas estamos
produzindo coisas para o tempo de lazer, para a arte, para o desenvolvimento estético
do humano.
O contexto produtivo atual, que vai saindo cada vez mais da produção em série e
da vinculação a modelos (protótipos), exige inteligências cooperativas que serão o
fundamento da criatividade. Administrar, de maneira particular, já está em muito
relacionado com a capacidade de gerir e fomentar redes cooperativas. A necessidade de
ser mais competitivo é, na maioria das vezes, mais bem definida como uma
necessidade de ser mais cooperativo, de conquistar a lealdade, a confiança e a
compreensão dos clientes, funcionários e investidores (SALOM ON, 2000, p. 25).

7.3 A generosidade profissional

“ Atitudes de generosidade e cooperação no trabalho em equipe, mesmo quando a atividade é


exercida solitariamente em uma sala, faz parte de um conjunto maior de atividades que
dependem do bom desempenho desta.” (SILVEIRA; SIQUEIRA, 2007)

A ética da complexidade e da alteridade nos desafia a pensar que a responsabilidade


de nossas ações não está somente ligada a um fato imediato e próximo, mas a uma rede
complexa de possibilidades que se estendem. Um desenvolvedor de software, por
exemplo, quando avança no sentido de produzir programas com extensão da
autonomia dos usuários, que consegue criar sistemas que desafiam à cooperação entre
usuários para que se avance em certas etapas da ação, que amplia a estética da
multiplicidade no desenho, está desafiando e provocando a inteligência aberta,
cooperativa e multiplicada das pessoas que, mesmo distantes e desconhecidas, usarão
os seus recursos. Este profissional está comprometido com a ética enquanto
possibilidade de potência da ação e experiência humana. Poderá, além de desenvolver
esses programas, atuar em alguma atividade voluntária de inserção de populações mais
pobres, acrescentando à sua atividade inteligente e provocativa a ação generosa em
favor do outro.
Numa perspectiva semelhante, um gestor, ao demonstrar na relação com seus
colaboradores um interesse que não está reduzido aos resultados restritos da empresa,
revela uma dedicação e atenção singular em relação às pessoas que participam dos
processos. O ambiente de uma organização se eleva na medida em que as pessoas se
reconhecem como um mundo que transcende a empresa, e que podem não só trazer de
fora novos insumos para dinamizar e alterar positivamente processos internos, mas
ela própria, a empresa, pode, através de gestos administrativos que colocam as
pessoas – colaboradores – como seres que se estendem para além da empresa suas
vidas, estar colaborando com a evolução moral da sociedade. Como anteriormente já
colocava, a empresa cidadã, cujo conceito de responsabilidade social transcende a rede
restrita da empresa ou de alguns clientes e fornecedores, está produzindo uma
sociedade alternativa a partir do modo como executa e desenvolve seus processos.
Sem dúvida, os resultados positivos para a própria empresa serão visíveis, mas o
sentimento de educação e ascensão moral deve fazer dos administradores/gestores
pessoas que assumam sua condição de formadores de caráter e de extensão do espírito
de atenção para com os outros.
A generosidade não pressupõe resultados imediatos ligados à lógica de perda e
ganho, mas propõe uma postura de elevação da ordem das coisas, de evolução da
qualidade moral dos comportamentos e das relações, da preocupação com a saúde dos
outros e, consequentemente, com a saúde do planeta. Aqui entramos novamente na
questão da preocupação com a saúde planetária. Nações e grupos econômicos estão
preocupados com a escassez de matérias-primas e recursos energéticos. Porém, o que
deveria animar, antecipadamente, o desenvolvimento de energias alternativas e de
consumo coerente de bens e matérias-primas é um sentimento de deixar para o outro,
para os nossos filhos, um mundo mais belo. A beleza não está somente no futuro que
se preserva, mas na própria generosidade, que se sente potencializada pela ação em
favor da vida. O que desperta mais prazer em uma pessoa do que ela se sentir
importante para a afirmação da vida de mais pessoas e seres vivos? Possuir bens, se
capitalizar para poder consumir são prazeres muitos frágeis diante da satisfação em
poder estar a favor da vida de mais pessoas. Podemos nos fechar em nossos guetos
familiares ou em nossas empresas, mas podemos optar por sermos empresas do
mundo, pessoas que se sentem parte de uma rede criativa e comprometida com a vida
que se estende para além de registros e muros instituídos.
Este pensamento que ascende nossas vidas para perto de todas as pessoas, de
todos os seres e que nos coloca comungados com toda a vida do planeta faz,
estranhamente, com que nos sintamos muito mais responsáveis por aquilo que está
perto de nós, pois qualquer pessoa, ser ou coisa que compõe o planeta é importante e
deve servir para agregar valor à vida. Uma ética cósmica, planetária e,
consequentemente, divina enobrece o espírito e nos responsabiliza com o todo aberto,
criativo e cheio de infinitas possibilidades. Somos infinitas possibilidades nas relações
generosas e criativas com os outros. Somos possibilidades previsíveis, medíocres e
superficiais, se estamos cegados por nós mesmos, por cercas que criamos, por
padrões limitados que fixamos, em que o outro é capturado pela nossa prepotência.
Nesta perspectiva a generosidade perde sentido e entra em cena uma moral de rapina,
que visa reduzir o outro ao nosso eu. Dá dó e machuca o coração ver tantas pessoas
serem reduzidas a trapos de gente quando agenciadas e condicionadas a poderes que
determinam e condicionam valores preconceituosamente. A vida dessas pessoas é
represada e elas acabam plastificadas em rótulos estabelecidos.
Sejamos generosos, assumamos a vida como uma bela jornada de evolução do
espírito em sua relação com um corpo aprendiz e dialógico. O espírito da fraternidade
não reduz seu mundo, mas acolhe a diferença e deseja a multiplicidade. Linguagens
multiplicadas, afetos estendidos e fortalecidos pela potencialização das partes, este é
o caminho da vida ética. Desafiar a si mesmo e ao outro à consistência, ao
desenvolvimento de linguagens mais belas e a relações criativas. O bem é o abraço da
alma com um corpo potencializado por belas linguagens e belas relações. As empresas
podem ser espaços do bem nesta perspectiva. Os gestores podem e devem ser ativos e
afirmativos nesta empreitada. Não será uma ação imediata que nos mostrará que está
ao nosso alcance a vida mais bela dentro das empresas, mas várias entradas mais
generosas e alegres. A alegria é o sentimento de quem começa a perceber valor nas
coisas que faz e se sente corresponsável pela extensão desses valores.

1 De Nietzsche trago o conceito de transmutação na perspectiva de uma mudança encarnada, ou seja,


aquela que se faz de maneira tal que o corpo todo está envolvido. Não é somente uma mudança
externa, mas é algo que altera toda a compreensão afetiva que temos para com as coisas.
2 Diferença como diferenciação, como deslocamento e extensão dos conceitos, como exercitação do
pensar em relação ao que se vê e se lê. Deleuze critica o que se reduz a reprodução, afirmando que
desde sempre somos múltiplos como forças de vida, atravessados e convivendo criativamente com
o que nos afeta.
3 Teórico da complexidade, Edgar Morin critica a simplificação levada a efeito pela racionalização e
por outras maneiras dogmáticas ou idealistas de explicação, interpretação ou definição dos
processos. A complexidade dá conta daquilo que não é mensurável e que ao acontecer desafia à
criação pura, ao exercício da intuição e do acolhimento do que não cabe em nossos registros, nos
desafiando a ultrapassar os nossos muros conceituais e morais.
4 Conceito nietzscheano que reclama uma relação radical com o que se faz, a ponto de colocar em
cada experiência existencial um desejo intenso e transbordante de viver.
5 Devir pode remeter a Heráclito e o sentido eterno do movimento e da mudança, ou seja, “ nunca
apertaremos a mesma mão duas vezes” e “ nunca atravessaremos o mesmo rio duas vezes”. Porém,
em relação à discussão da alteridade, quero destacar que se não acolho o devir do outro, da natureza
física, das forças do planeta, dos outros seres vivos, das mulheres, das crianças etc., eu não vivo a
possibilidade da partilha. Experimentando o devir do outro, não como alguém que cola no outro,
mas como alguém que estende sua sensibilidade para estas outras naturezas que contigo partilham
as geografias do mundo da vida e o existir, passamos a experimentar a multiplicidade e nos
comprometer concretamente com a solidariedade planetária.
CONCLUSÃO

Chego ao final deste escrito me indagando sobre o quanto os conceitos que


atravessaram esta obra podem animar e potencializar a vida de seus leitores. O meu
desejo, ao escrever este livro, além da demanda específica, foi partilhar com vocês a
minha alegria em estar pensando e experimentando conceitos que considero
alternativos e fundamentais para uma vida bem vivida, princípio e fim da ética.
Discutindo sobre ética como a reflexão em relação às nossas convicções e aos
valores que nos movem, quis mostrar que ainda estamos muito presos a certas morais
e que devemos aprender a criar formas mais vivas e afirmativas de fazer as coisas. Se é
possível reconhecer que em nosso meio muitas pessoas e nós mesmos ainda estamos
presos a certos padrões e preconceitos, devemos, de maneira criativa, viver as relações
de forma desafiadora e propositiva. Aprender a conviver com o que nos desafia de
maneira mais criativa, para que o outro veja em nós a alegria em viver o compromisso
para com a ética. Não mais uma ética do sacrifício, da obrigação, do peso moral, mas
uma ética leve e criativa. Como resistir ao mal (ou às ações de certas pessoas que
revelam a maldade e a fraqueza de viver)? Testemunhando nossa alegria em tramar e
compor comportamentos mais poéticos e fraternos. A vida bem vivida, que revela
uma pessoa que busca qualidade em relação ao que experimenta, e a convivência
criativa (amorosa) com o outro, sem juízos e preconceitos, vão fazer a diferença.
Na perspectiva do mundo dos negócios, acredito e proponho que só temos a
ganhar e agregar valor se formos comprometidos com a ética. Conviver com pessoas
pra cima, coerentes e de confiança, que desejam cooperar e crescer propositivamente
com o outro, faz bem para a saúde profissional e para a geografia da empresa.
Desenvolver mecanismos pelos quais os trabalhadores sintam-se melhores e mais
valorizados nos processos de produção dos quais participam faz a organização ser
mais ética.
Enfim, uma sociedade humana evoluída estará diretamente vinculada a um mundo
dos negócios que fomenta relações cooperativas e criativas e que pensa, projeta e
desenvolve o uso de recursos e a qualidade dos produtos cada vez mais ligada à saúde
do planeta e das pessoas em geral.
Espero que tenham tido uma boa leitura e que possamos partilhar da alegria de
estarmos vivendo bem as nossas vidas, em favor da dignidade das pessoas e dos seres
em geral. Que cada um de nós possa ser artífice de uma realidade econômica e social
mais justa e criativa.
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Edição digital: dezembro 2013


Arquivo eP ub produzido pela Simplíssimo Livros

Sobre o autor
LAÉRCIO ANTÔNIO PILZ é doutor em Educação pela Universidade do Vale do Rio dos
Sinos (Unisinos), 2002; mestre em Educação pela UNISINOS (1997); bacharel em
Filosofia pela Faculdade de Filosofia Nossa Senhora da Imaculada Conceição (1981);
professor de Ética e Antropologia Filosófica e coordenador dos Eixos de Formação
Antropológica e Ética da Formação Humanística na UNISINOS.