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Um pedido às estrelas

Barbara Cartland 375

Ameaçada de invasão pela Rússia, a rainha Vitória vê seu império prestes a esfacelar-
se. Para fortalecer a Inglaterra, a única alternativa é promover casamentos entre
principados e seus descendentes diretos. É assim que Lady Alícia, jovem de rara beleza,
vê-se obrigada a casar-se com o príncipe Lintz de Rasgrad. Alícia viaja ao encontro do
noivo, mas um acidente terrível a faz perder a memória.
Desorientada, participa como cantora de um teatro ambulante dentro do palácio.
Impressionado com a beleza da jovem, o príncipe Lintz não imagina que Alícia é a noiva
por quem tanto espera...

Título original: Wish upon a star


Barbara Cartland 375
Editora Nova Cultural 1995
Digitalização: Emarianna Cárcano (Emys)
Nota da autora
Amnésia significa perda ou defeito da memória. Pode ser causada por
inúmeras razões, desde uma causa clínica a uma queda ou pancada na
cabeça.
A amnésia pode durar apenas algumas horas, alguns dias ou anos. Há
também a perda parcial ou total da memória.
Com a perda total da memória o paciente possivelmente terá de
reaprender tudo o que aprendeu na infância, desde andar, falar até dar
nome a objetos e seres como “escova” ou “gato”.
O tratamento, porém, pode ter muito sucesso e o paciente se recupera
quase completamente.
Há casos em que a memória perdida volta rapidamente ao ser
estimulada por algo ou alguém muito familiar.

Capítulo I
1880
O primeiro-ministro curvou-se respeitosamente à porta da sala.
-Bom dia, senhor Disraeli – a rainha cumprimentou-o com um sorriso.
-Bom dia, Majestade – respondeu o primeiro-ministro, curvando-se
novamente.
Tirando de uma pasta inúmeros papéis ele os leu para a rainha que o ouviu
com atenção. Sua Majestade tinha o maior interesse em saber detalhadamente
de tudo o que acontecia no Parlamento e também das notícias do exterior.
Graças ao interesse, à atenção e ao cérebro da rainha Vitória o Império
Britânico era respeitado de um extremo ao outro do mundo.
Após uma hora falando com Sua Majestade sobre as dificuldades pelas quais
passavam a França, a Alemanha e a Rússia, o primeiro-ministro acrescentou:
-Lamento dizer, Majestade, mas temos um outro pedido dos Balcãs.
-Oh, não! Outro pedido! – a rainha exclamou, contrariada.
-Eu já imaginava que Vossa Majestade ficaria aborrecida Quem está
recorrendo a Vossa Majestade é o príncipe Lintz, soberano dinâmico e
progressista. Seu país, Rasgrad, ocupa uma posição privilegiada, mas como
faz fronteira com a Rússia, corre o perigo de cair nas mãos do czar. Se isso
acontecer, a situação se tornará difícil pra nós, especialmente para o ministro
das relações exteriores.
-Sei disso – replicou a rainha. -Os russos estão agindo de maneira revoltante.
Ao mesmo tempo, não tenho mais parente nenhuma para colocar no trono de
Rasgrad. Até o momento não deixei de atender aos que a mim têm recorrido e
já coloquei inúmeras bandeiras do Reino Unido nos principados Balcãs.
-Oh, sim! Vossa Majestade tem sido brilhante – elogiou o primeiro-ministro. -
Entretanto, é imperioso determos os russos que se infiltram astutamente nos
principados vizinhos.
A rainha suspirou.
-Como eu já disse em outras ocasiões, se eu fosse homem iria combater os
russos pessoalmente.
Não era a primeira vez que o Sr. Disraeli ouvia tais palavras. Ele observou
apenas:
-E por certo os derrotaria, Majestade. Quanto ao pedido do príncipe Lintz,
Vossa Majestade, sem dúvida, encontrará uma solução. Acredito que Vossa
Majestade saiba que é conhecida como a “casamenteira de Europa”.
Como o primeiro-ministro esperava, a rainha riu.
-Há sempre alguma verdade nas brincadeiras. De fato, os países que têm no
trono uma de minhas parentes estão em segurança. Se não fosse assim, os
russos tomariam os pequenos principados e reinos para tornar o seu império
maior do que já é atualmente – a rainha Vitória ficou pensativa, depois
acrescentou: -Não tenho netas ou sobrinhas para oferecer em casamento ao
príncipe Lintz. Quanto a primas, não me ocorre o nome de nenhuma, nem
mesmo distante.
Antes da presente audiência com a rainha o Sr. Disraeli tivera o cuidado de
estudar as árvores genealógicas de diversas famílias aristocráticas e, quase
por acaso, descobrira que a filha do duque de Templeton, além de ser parente
distante da rainha Vitória, estava em idade de se casar.
Cauteloso, receando contrariar Sua Majestade, ele lembrou-a:
-Vossa Majestade esqueceu-se de uma jovem.
-Esqueci-me?! – questionou a rainha, admirada. – De quem?
-De sua afilhada, Lady Frederika. Um dos seus nomes de batismo é Vitória,
em homenagem a Vossa Majestade.
-Oh, sim, Frederika Alícia Vitória! Ela vive com o pai no campo e, na verdade,
nem me ocorreu que estivesse em idade de se casar.
-Lady Frederika completou dezenove anos – informou o Sr. Disraeli. -Sua avó
era, em solteira, a princesa Frederika de Saxe-Coburg-Gotha.
-Sim, claro. Além de afilhada, Frederika é uma prima distante. Seu pai, o
duque de Templeton, é um homem distinto e inteligente, mas nunca aceitou
uma posição aqui no castelo de Windsor e prefere viver no campo. Ele
raramente me visita, portanto, não vejo a minha afilhada há vários anos.
-Nesse caso, se me permite, Majestade, sugiro que mande chamar o duque e
lhe exponha que o príncipe de Rasgrad recorreu a Vossa Majestade para
arranjar lhe uma esposa. Todo principado dos Balcãs quer ter uma inglesa no
trono para não só protege-lo dos russos, como também para alcançar maior
status perante outras nações.
Imersa em seus pensamentos, a rainha mal ouviu a observação do primeiro-
ministro. Estava achando estranho ter esquecido o duque de Templeton.
Desagradava lhe, e muito, o fato de os membros da aristocracia não visita-la
pelo menos uma vez por ano. No momento lhe ocorreu que o duque de
Templeton não vinha ao castelo de Windsor havia quatro ou cinco anos.
No mesmo instante ela reconheceu que o duque passara a viver
exclusivamente no campo desde a morte da esposa e não comparecia sequer
às sessões da Câmara dos Lordes.
-Vou escrever ao duque de Templeton convidando-o para passar uma ou
duas noites no castelo – decidiu a rainha.
-Sua Alteza sentir-se-á honrado com o convite – opinou o primeiro-ministro. -
Seria mais prudente Vossa Majestade não incluir Lady Frederika nesse convite.
Embora eu acredite que sua afilhada seja uma jovem inteligente o bastante
para compreender que lhe está sendo oferecida uma posição importante,
precisamos, em primeiro lugar, saber mais sobre ela.
Passou pela mente da rainha que já acontecera de ela recomendar uma
jovem como noiva de um príncipe búlgaro e ao vê-la constatara que era
aleijada e sem graça. Em voz alta ordenou ao primeiro-ministro:
-descubra tudo o que puder sobre Lady Frederika. Quando a vi pela última
vez ela era uma garota linda. Sua mãe foi uma mulher de rara beleza.
-Certamente, Majestade – concordou o Sr. Disraeli. -Conheci-a logo após seu
casamento com o duque de Templeton. A duquesa era, sem dúvida lindíssima.
-Esperemos que Lady Frederika continue bonita. Como sabemos, os filhos,
em geral, se parecem com os parentes mais feios e não com os mais belos.
O primeiro-ministro riu, sabendo que nada agradava mais a rainha do que um
elogio, observou:
-É verdade! Mas nós, ingleses, desejamos que toda garota seja tão bela
quanto Vossa Majestade quando subiu ao trono.
Um sorriso marcou os lábios da rainha Vitória. Porém, ficando séria,
protestou:
-Não vamos fugir do assunto nem falar sobre o passado. Há uma delegação
aguardando impacientemente na outra sala.
-Deixe-os esperando, Majestade – tornou o Sr. Disraeli rindo novamente. -
Eles têm sorte de ser atendidos prontamente por Vossa Majestade assim que
solicitam uma audiência. Que outro soberano seria tão atencioso e
compreensivo?
-O querido Albert ensinou a ajudar sempre os que precisam – respondeu a
rainha sando um profundo suspiro. -Ele nunca mandou embora os que queriam
lhe falar e eu tento fazer o mesmo.
-Vossa Majestade é magnânima! Todo o país tem consciência disso e
reconhece que graças a Vossa Majestade, o Império Britânico expande-se
cada vez mais.
-Estou determinada a torna-lo ainda mais extenso. Antes de eu morrer outros
países ainda irão entoar o nosso Hino Nacional – a rainha falou com convicção.
-Sem dúvida, Majestade. E nós sabemos que os países que Vossa
Majestade governa estão bem protegidos – finalizou o primeiro-ministro.
Curvando-se, ele deixou a sala. Estava contente por ter sido tão bem
sucedido na procura de mais uma parente da rainha Vitória. Graças a isso
conseguira persuadir Sua Majestade a mandar uma outra noiva para um
príncipe dos Balcãs.
Para os soberanos dos pequenos principados e reinos dos Balcãs, o
casamento com uma parente da rainha Vitória representava segurança. Os
russos não se atreveriam a atacar um desses países, por temer o poderio
bélico da Grã-Bretanha.
Caso fosse impossível a rainha atender aos que a ela recorriam – e eram
tantos! – esses soberanos teriam de se defender por conta própria da ambição
do czar.
Na noite anterior, o Sr. Disraeli ficara acordado até tarde, tentando encontrar
alguma parente da rainha Vitória que estivesse solteira.
Como sempre, estava determinado a não permitir que os russos se
apossassem de mais um principado, muito menos de Rasgrad, tão encantador
e próspero.
Vagamente ele lembrara que a filha do duque de Templeton era afilhada de
Sua Majestade e tinha, entre outros, o nome de Vitória.
Uma atenta consulta ao Registro de Debrett e outros livros referentes à
linhagem de soberanos europeus fora produtiva. O primeiro-ministro constatara
que a mãe do duque de Templeton havia sido a princesa Frederika de Saxe-
Coburg-Gotha.
Tendo deixado ao aposentos privativos da rainha, o primeiro-ministro tomou a
carruagem que iria leva-lo de volta à Londres.
“Bem, se o czar pretende dobrar a extensão do seu império, não será à custa
de Rasgrad. Consegui fazer com que ele desista de mais um país dos Balcãs”,
pensou, satisfeito.
Ele sabia que ao chegar à Downing Street, 10, o marquês de Salisbury ,
ministro das relações exteriores, estaria à sua espera e ficaria extremamente
feliz ao receber a boa notícia.
***
O duque de Templeton ficou perplexo quando, à mesa do breakfast, leu a
carta enviada por Sua Majestade. Releu-a para ter certeza de que não havia
engano e de que a rainha Vitória lhe escrevera.
Já fazia tanto tempo que não ia ao castelo de Windsor que até se esquecera
da obrigação de visitar Sua Majestade ocasionalmente.
Tal esquecimento, no caso do duque, chegava a ser uma falta grave, levando
em consideração que sua mãe era parente da rainha.
Presentemente, o duque passava a maior parte do tempo no campo, mal se
lembrando da sua árvore genealógica. De fato, raramente lhe ocorria que sua
mãe, que morrera ainda muito jovem, era uma Saxe-Coburg-Gotha e pertencia
à realeza europeia.
Talvez esse esquecimento se devesse ao fato de a princesa Frederika ter
sido estrangeira e o duque sempre se havia considerado um bom e completo
aristocrata inglês.
Sua casa ancestral, a Templeton Priory, pertencia à família desde o reinado
de Elizabeth I. E fora originalmente um convento e no decorrer dos séculos,
geração após geração, desde o primeiro duque de Templeton, sofrera reformas
e tivera a sua área aumentada consideravelmente.
Era natural que a Templeton Priory se tornasse uma casa enorme e
majestosa, a qual era o orgulho não só da família do duque como de todo o
condado.
Amante do campo, o duque de Templeton só fazia a longa viagem de
Yorkshire a Londres se fosse estritamente necessário e isso não acontecera
nos últimos cinco anos.
Em Yorkshire o duque era conhecido como excelente desportista. Cavalgava
com perícia e sua matilha de cães de caça à raposa era incomparável.
Embora possuísse cavalos de corrida espetaculares, o duque contentava-se
em vê-los vencer as corridas locais e não os inscrevia nas corridas clássicas,
as verdadeiramente importantes.
Os parentes amavam-no, pois tinham nele um chefe de família devotado e
atencioso, com quem podiam contar sempre que precisavam de assistência.
Após a morte da duquesa de Templeton, uma as irmãs do duque mudara-se
para Templeton Priory e ajudava não só a dirigir a casa, como cuidar da
sobrinha, Lady Frederika Alícia Vitória, única filha do duque, a quem todos da
família tratavam pelo segundo nome.
Alícia herdara da mãe a extraordinária beleza e a sensibilidade e do pai a
inteligência. Para não se separar da filha, o duque optara por educa-la em casa
e não em um colégio interno. Assim, Alícia tivera as melhores governantas e
professores particulares até completar dezoito anos.
Além de vasto conhecimento em Historia, Geografia e artes, ela falava
francês, alemão e espanhol muito bem.
Seu professor de música e canto havia sido uma músico aposentado que
lecionara na universidade de Edimburgo e que morava a apenas cinco milhas
da Templeton Priory.
-Sua filha é tão talentosa, Alteza – dissera esse professor ao se despedir. -
Alícia toca piano e canta como se fosse uma profissional.
-Minha filha jamais será uma pianista ou cantora profissional – replicara o
duque com altivez. -Na verdade, acho que é um erro uma jovem ter tanta
cultura.
-Oh, Alteza, não foi o que eu quis dizer – emendara o professor. -Mas sua
filha tem grande sensibilidade para a música e um cérebro brilhante como o de
Vossa Alteza. Nunca encontrei uma aluna que aprendesse com tamanha
facilidade.
Intimamente o duque ficara orgulhoso. Afinal, fizera questão de contratar os
melhores professores para que a filha tivesse uma educação superior à de
qualquer outra jovem da sua idade.
Ele também gostava de ouvi-la cantar e tocar piano quando ambos estavam
sozinhos.
Com o pai Alícia aprendera a montar e a saltar desde bem pequena e tivera
também um professor para ensiná-la a nadar e a remar.
Era grande a tristeza do duque por ter tido apenas uma filha. Depois da morte
da esposa ele chegara a pensar em um segundo casamento só para ter um
herdeiro. Porém, jamais esquecera a doce e belíssima Anne e, por mais que
tivesse sido perseguido por lindas mulheres, permanecera um viúvo solitário.
Preferia vida do campo às festas e diversões do beau monde, que no
passado o fascinaram. Sentia-se imensamente feliz na Templeton Priory com a
filha, a irmã e os parentes que os visitavam com frequência.
Dessa forma, o duque de Templeton pouco se importava com o que
acontecia fora do seu pequeno mundo. A carta da rainha Vitória pedindo lhe
para comparecer ao castelo de Windsor deixou-o surpreso e intrigado.
Minutos depois de ele ter lido a carta, Alícia entrou na sala, tendo voltado de
um passeio a cavalo.
-Veja minha filha, acabo de receber esta carta – disse o duque, entregando a
Alícia a folha de papel.
-Uma carta da rainha Vitória! – Alícia exclamou. -Quanta consideração, papai!
Eu nunca soube que Sua Majestade tivesse lhe escrito antes.
-Já me hospedei no castelo de Windsor, naturalmente, mas esta é a primeira
vez que Sua Majestade me escreve de próprio punho, pedindo-me para
comparecer ao castelo – respondeu o duque.
-Nesse caso, o senhor deve atender ao pedido da rainha Vitória. Isto não é
maravilhoso, papai?
-Não vejo de maravilhoso. O que menos desejo no momento é passar algum
tempo em Londres. Isto significa reabrir a Templeton House, na Grosvenor
Square. É verdade que a casa tem estado à disposição dos parentes que lá se
hospedam quando não tem para onde ir.
-Ora, papai, não seja tão modesto! – protestou Alícia, rindo. -Os parentes se
hospedam na Templeton House porque ali se sentem importantes. Não há na
Grosvenor Square casa tão linda nem tão luxuosa como a nossa.
-Receio que a casa esteja malcuidada atualmente. No tempo de sua mãe a
Templeton House era impecável e o jardim repleto de flores.
-Como mamãe, também adoro flores e quando o senhor partir para Londres
levará uma grande quantidade de mudas do nosso jardim e um enorme buquê
de flores, para não se sentir tão solitário e desconfortável.
-Está enganada se pensa que irei sozinho, filha – tornou o duque. -Você me
acompanhará. Assim que chegarmos a Londres receberemos inúmeros
convites para festas e você está na idade de divertir-se.
Os olhos de Alícia tornaram-se maiores.
-Mal acredito no que estou ouvindo, papai. Sempre que lhe peço para levar-
me a Londres o senhor diz que estamos muito felizes aqui no campo.
-É verdade – o duque admitiu.
-O senhor também diz que não quer me ver cercada daqueles jovens tolos e
cansativos interessados em mim porque sou sua filha – lembrou Alícia.
-Que tolice, Alícia! – protestou o duque. -Eu não posso ter dito isso. Seja
como for, você precisa de roupas novas e uma viagem a Londres será muito
útil para esse fim. Pretendo oferecer-lhe festas e leva-la a bailes.
-Levar-me a bailes? – Alícia admirou-se. – O senhor detesta bailes.
-Não é bem assim. Sempre fui bom bailarino e eu gostava muito de bailes –
corrigiu o duque. -Mas agora prefiro jogar bridge a ficar sentado ouvindo as
viúvas maledicentes falarem sobre os últimos escândalos do condado.
Mais uma vez Alícia riu. Conhecia bem o pai e não se importava de não ter
tido sua temporada em Londres, no ano anterior, como debutante. Ficara muito
satisfeita com o baile maravilhoso realizado na Templeton Priory, que fora um
grande sucesso.
O pai, naturalmente, lhe oferecera outros bailes e sempre a acompanhava
aos que havia no condado. A dança era um dos prazeres de Alícia, porém,
acima de tudo, ela apreciava cavalgar e galopava quase diariamente pelas
charnecas de Yorkshire.
Após o breakfast Alícia subiu para trocar-se. Estava pensando com
entusiasmo que passar a temporada em Londres seria uma experiência
emocionante. Iria a teatros e faria novas amizades.
Um de seus professores havia falado tanto sobre os dançarinos da Drury
Lane que Alícia ansiava por ver um dos espetáculos. Também tinha muita
vontade de ouvir os números de canto.
Lady Mary, tia de Alícia, ficou tão surpresa quanto a sobrinha ao saber que o
irmão recebera uma carta da rainha Vitória convidando-o para comparecer ao
castelo de Windsor.
-Como seu pai, eu prefiro a vida tranquila do campo, mas é claro que irei a
Londres com prazer para tornar a casa da Grosvenor Square o mais
confortável possível – disse ela. -Espero que os criados não tenham sido
negligentes a ponto de deixar suja a mansão tão linda e luxuosa.
-Papai irá avisar a criadagem sobre a nossa ida a Londres. Com certeza tudo
estará em ordem quando chegarmos – observou Alícia.
-Eu não seria tão otimista – volveu Lady Mary. -A casa está praticamente
fechada há anos. Seu pai concordará comigo que será melhor eu mandar
alguns dos nossos criados mais antigos e experientes à nossa frente para
cuidar da limpeza da Templeton House.
-Estou adorando a ideia de ver coisas novas e de conhecer outras pessoas.
Só mesmo a rainha Vitória para tirar papai do campo e arrastá-lo para Londres
– disse Alícia, rindo.
-Quando a rainha Vitória souber que você está em Londres irá convidá-la
para ir também ao castelo de Windsor. Afinal, ela é sua madrinha e um dos
seus nomes é Vitória em homenagem à ela – lembrou Lady Mary.
-Quero muito conhecer minha madrinha. Quanto a meus nomes, acho-os
muito pomposos. Estou contente por mamãe sempre me chamar apenas de
Alícia.
-É um lindo nome e não há razão para você usar Frederika e Vitória. Todos
os seus amigos também a chamam por Alícia.
-Para dizer a verdade, tia Mary, acho Frederika um nome muito feio – Alícia
confessou. -Mas é claro que não devo dizer o mesmo a respeito de Vitória.
-Oh, não! Claro que não! – a tia ergueu os braços. -Sua Majestade ficará
muitíssimo aborrecida se você não demonstrar humildemente que lhe agradece
por ter o nome dela e que foi uma grande alegria para a família quando ela
ofereceu-se para ser a sua madrinha.
-Foi a rainha quem se ofereceu para ser minha madrinha? Por quê? – Alícia
perguntou, surpresa:
-Bem, a rainha Vitória, como você sabe, era prima distante de sua avó, a
princesa Frederika. Além disso, acredito que Sua Majestade admirava seus
pais, Alícia. Sua mãe era lindíssima e seu pai um dos homens mais belos de
Londres. Todos diziam que os dois formavam o casal mais encantador do beau
monde. Eu sempre ouvi dizer que a rainha tinha predileção por homens belos.
-É mesmo? Eu sei que ela guarda luto pelo marido até hoje. Um de meus
professores me disse que a rainha chora quando fala sobre o príncipe Albert.
-Oh, sim, Sua Majestade sempre foi fiel ao príncipe. Ela gosta de ter homens
ao seu redor, mas nunca pensou em se casar novamente. Sua Majestade
também gosta de fazer casamentos, tanto que é chamada a “casamenteira da
Europa”.
-Já ouvi dizer que lhe deram esse cognome. Sei também que a rainha Vitória
tem mandado inúmeras parentes para se casar com soberanos desconhecidos
de principados ou pequenos reinos dos Balcãs para protege-los da cobiça do
czar – comentou Alícia. -Sempre lamentei a sorte dessas infelizes noivas.
-Entre a realeza os casamentos são sempre arranjados. Quanto às noivas,
há as que consideraram uma honra ter sido escolhida pela rainha Vitória para
sentar-se num trono. E as que detestaram a ideia, sentiram-se atemorizadas
demais e não se queixaram à rainha – considerou lady Mary. -Assim, cada uma
delas foi, por assim dizer, mandada para os Balcãs amarrada com uma fita cor-
de-rosa, como se fosse um presente de Natal.
-Bem, pelo menos tais casamentos têm servido para afugentar os russos. O
czar não se atreve a ocupar esses principados ou reinos que ostentam a
bandeira do Reino Unido hasteada do lado da sua bandeira nacional. E é isso o
que importa.
***
Nos dois dias que se seguiram reinou a maior agitação na Templeton Priory
antes da partida do duque, da irmã e da filha para Londres.
Os três viajaram de trem, acompanhados do valete de Sua Alteza e das
criadas de Lady Mary e de Alícia. Os demais criados já haviam partido de
carruagem, na véspera, para deixar a Templeton House em ordem.
Apesar de ter concordado com a viagem de trem, o duque alegou que
preferia a segurança das estradas de rodagem.
-O senhor deve atualizar-se, papai. Os trens estão cada vez melhores e mais
seguros. E muito raro haver um acidente numa rodovia e num trem temos mais
conforto, além de que o tempo da viagem ser reduzido à metade – Alícia
argumentou.
-Diga o que quiser, filha, ainda prefiro cavalos a máquinas a vapor – replicou
o duque.
-Para viagens curtas prefiro uma carruagem – Alícia concordou. -Mas
estamos indo para o Sul e o trem é muito mais rápido.
***
A Templeton House estava encantadora e toda enfeitada de flores para
receber o duque, a filha e a irmã.
Os criados que haviam chegado antes a Londres trabalharam arduamente
para deixar a casa impecável.
-Eu mal me lembrava de como era a Templeton House, papai – disse Alícia
ao reunir-se ao pai, pouco antes do jantar. -É uma casa linda, confortável e
muito grande. Seria bom passarmos mais tempo aqui no futuro.
-Eu não farei isso – contestou o duque. -Prefiro a vida no campo e já estou
sentindo falta de meus cavalos.
-Bem, podemos ir ao Tattersall’s amanhã para comprar alguns cavalos, tanto
para a corrida como para montaria – Alícia sugeriu.
-Nada disso – o duque retrucou. -Lembre-se de que amanhã irei ao castelo
de Windsor.
-É verdade. Mas não se demore muito no castelo, papai. Já prometemos
jantar amanhã com a duquesa de Manchester. Por falar nisso, vou sair com tia
Mary para comprar roupas novas. Os convidados da duquesa são muito
elegantes e não quero envergonhá-lo, papai.
-Não se preocupe, querida. Você é, inegavelmente, a moça mais linda de
toda festa à qual comparece. Nenhuma moça da sua idade tema sua graça e o
seu encanto pessoal – elogiou o duque inclinando-se e beijando a filha.
-Obrigada, papai. O senhor é sempre lisonjeiro. Devo dizer lhe que estou
sabendo que na juventude o senhor era o rapaz mais belo e o que fazia mais
sucesso aqui em Londres.
-Quem lhe disse tamanha tolice? – indagou o duque, rindo.
-Muitas pessoas. Contaram-me que todas as moças queriam namorá-lo e
sonhavam em ser sua esposa antes de o senhor conhecer mamãe.
-Apaixonei-me por sua mãe assim que a vi. E você é muito parecida com ela.
-Mas não tão linda – ressalvou Alícia. -Quando olho para o retrato de mamãe
digo a mim mesma que ninguém pode ser tão adorável como ela era.
-Também penso assim. Mas digamos que você mereça o segundo lugar – o
duque falou em tom brincalhão.
-Creio que devo me contentar com isso – redarguiu Alícia.
Pai e filha riram. Lady Mary reuniu-se a eles e os três foram para a sala de
jantar.
Os pratos servidos estavam todos tão saborosos que o duque mandou o
mordomo dizer à cozinheira que apreciara demais o jantar e esperava
experimentar outras delícias antes de retornar ao campo.
-Por favor, papai, não tenha pressa de voltar para Templeton Priory – pediu
Alícia ao pai assim que o mordomo se afastou. -Vamos nos divertir em
Londres. Quero que o senhor me leve aos melhores teatros que há na cidade.
Uma ruga formou-se na testa do duque antes de ele responder:
-Está bem, querida, mas a minha maior preocupação é com a rainha. Antes
de mais nada preciso descobrir o que ela deseja.
-Pode ter certeza de que Sua Majestade irá lhe pedir algum favor – afirmou
Lady Mary. -A rainha Vitória costuma encarregar os aristocratas de missões
especiais, por vezes no fim do mundo.
O modo como a irmã falou provocou o riso do duque.
-Já tenho idade e juízo suficientes para dizer “não” a Sua Majestade.
-Espero que você seja firme. Segundo dizem, Sua Majestade costuma ser
muito insistente – frisou Mary.
-Amanhã saberemos do que se trata. E depois de amanhã iremos almoçar na
Marlborough House com o príncipe e a princesa de Gales – lembrou o duque.
-Acredito que você também será convidado pelo príncipe de Gales para as
suas festas noturnas, as quais, segundo dizem, são muito divertidas. Nessas
festas a pessoas mais importante presente é sempre a Lady de quem Sua
Alteza Real está enamorado – disse Mary.
-Você dá ouvidos a muitos comentários maldosos – o duque censurou a irmã.
-Ora, em Londres não se fala de outro assunto. Os romances do príncipe de
Gales são tantos que é possível se escrever vários livros sobre eles.
-Bem, eu gosto do príncipe e acho injusto o modo como a mãe o trata. A
rainha não devia manter o filho e herdeiro do trono distante dos assuntos do
governo.
-Você acha realmente que o príncipe se interessa por tais assuntos? –
questionou Lady Mary.
-Claro que se interessa! – enfatizou o duque. – O príncipe está mais velho,
mais sábio e ama seu país. O problema é que Sua Majestade proíbe-o de
inteirar-se dos assuntos do Império e ele gasta seu tempo perseguindo belas
mulheres.
-Mas ele tem esposa e cinco filhos – tornou Lady Mary em tom severo.
-Sim, eu sei. Na minha opinião o príncipe tem muita energia e procura algo
mais para encher lhe a vida; como não acha, dedica-se à conquista de um
rosto bonito.
-Oh, papai, é uma pena que o talento do príncipe de Gales não seja
aproveitado. Como herdeiro do trono ele devia ter permissão de tomar parte no
governo do Império desde já – opinou Alícia.
-Concordo com você, minha filha.
-É verdade que a rainha Vitória não deixa o filho sequer olhar documentos
oficiais e o proíbe de participar de qualquer reunião com seus ministros? -Alícia
quis saber.
-É o que dizem. Bem, uma coisa é certa: o príncipe de Gales tem péssima
reputação e estou convencido de que não será prudente eu lavá-la à
Marlborough House, minha filha.
-Ah, papai, o senhor não fará isso! – Alícia reclamou. -Estou ansiosa para
conhecer o príncipe e a princesa de Gales! O senhor já me disse que os
conheci quando era pequena, mas não me lembro disso, é claro!
-Pensarei no assunto – o duque prometeu.
-Ainda bem. Sei que o senhor não é daqueles que condenam alguém sem
antes ouvir a sua versão da historia. Também não acho correto criticar as
pessoas da realeza, mesmo que elas se comportem mal.
-Você está sendo sensata, minha filha – louvou o duque. -Nem mesmo em
casa devemos fazer críticas ao castelo de Windsor ou à Marlborough House.
-Tem razão – concordou Lady Mary. -Os comentários voam. Uma simples
palavra contra a rainha chegará ao castelo de Windsor tão rapidamente como
se tivesse sido levada por um pássaro.
-Se é assim, receio ser mandado de volta a Yorkshire mesmo antes de visitar
Sua Majestade – gracejou o duque.
Apesar do tom divertido do pai, Alícia reconheceu que havia alguma verdade
nas suas palavras. Mais do que depressa mudou de assunto.
-Como eu já lhe pedi, papai, o senhor me levará ao teatro?
-Claro. Iremos ao teatro da Drury Lane. Reservarei um camarote para depois
de amanhã – prometeu o duque. -Está bem assim?
Alícia deu um pequeno suspiro de alegria. Levantando-se abraçou o pai e
beijou-o.
-Muito, muito obrigado, papai. Sei que nós três iremos gostar do espetáculo.
Ouvi dizer que as bailarinas são fantásticas. Ir ao teatro da Drury Lane será a
realização de um sonho!

Capítulo II
A caminho do castelo de Windsor o duque de Templeton questionou-se,
como já fizera tantas vezes desde que recebera a carta da rainha Vitória, o que
Sua Majestade teria em mente para mandar chama-lo à sua presença.
Afinal, ele não tinha o menor interesse pelo Parlamento e raramente vinha a
Londres. Seu receio era ser convidado pela rainha para ocupar uma posição
importante no castelo. Se fosse esse o caso, ele recusaria o convite, mesmo
correndo o risco de ofender Sua Majestade.
Na tentativa de afastar da mente as indagações para as quais não tinha
resposta, o duque concentrou-se em conduzir a luxuosa carruagem puxada por
quatro soberbos animais.
Ele acabava de deixar as ruas da periferia de Londres e alcançar a estrada
para Windsor que, por ser usada diariamente por políticos e outras pessoas de
importância que iam ao castelo, era muitíssimo bem cuidada.
Mesmo na cidade o duque gostava de ter condução própria e como pretendia
cavalgar com a filha no Hyde Park todas as manhãs, mandara com
antecedência dois cavalariços trazerem para Londres a carruagem e quatro de
seus magníficos puros-sangues, apesar de manter em Londres dois cavalos,
também excelentes, e uma carruagem mais leve, aberta.
No momento, o que estava aborrecendo o duque era o trânsito e a poeira na
estrada. Na verdade, ele gostava muito mais de dirigir nas estradinhas estreitas
e cheias de curvas de Yorkshire, onde podia respirar o ar puro.
Ocorreu lhe que enquanto estivessem em Londres receberiam inúmeros
visitantes, tanto parentes como amigos.
“Suponho que Alícia gostará de ter a sua primeira temporada”, o duque
conjeturou. “Temos vivido felizes no campo, mas não devo pensar só em mim e
sim em minha filha. Alícia é linda e deve ter vida social mais intensa.
Certamente ela será a mais bela das debutantes”.
O duque estava tão entretido pensando nos bailes e festas que pretendia
oferecer à filha que se surpreendeu ao chegar ao castelo.
O camareiro que o atendeu mostrou-se muito satisfeito em revê-lo.
-Há muito tempo Vossa Alteza não visita este castelo – disse. -Ainda hoje,
durante o breakfast, comentamos que sentimos sua falta.
-Suas palavras me lisonjeiam – tornou o duque. -Mas tantas pessoas ilustres
e interessantes visitam este castelo diariamente que não podem sentir falta de
um duque antiquado e rústico.
O que o duque de Templeton menos parecia era antiquado e rústico. Aos
quarenta e oito anos, mas bem conservado, com um metro e oitenta e cinco,
porte atlético graças à prática de esportes, e vestido com apuro, o duque, ao
subir a escada, impressionava por sua altivez e elegância.
Ele não fazia ideia de que diziam às suas costas que era estranho um
homem com a sua aparência, suas qualidades e fortuna, viúvo há anos, não ter
casado pela segunda vez.
Sua esposa fora aclamada como beldade, mas muitas outras mulheres lindas
tentaram conquistar lhe o coração, sem sucesso. Ele vivia muito feliz em
Yorkshire com a filha e a irmã.
Ao seguir por corredores e cômodos do castelo o duque disse a si mesmo
que nada havia mudado desde que ali estivera pela última vez.
Do lado de fora da sala de estar de Sua Majestade um outro fidalgo, também
conhecido do duque, saudou-o com alegria e, ao mesmo tempo, queixou-se:
-Como pôde afastar-se do castelo por tanto tempo, Alteza? Sua presença é
sempre uma satisfação para nós. Sua Majestade quer saber quando Vossa
Alteza pretende voltar para Londres.
-Não penso em sair do campo. Na verdade, só estou aqui para atender ao
chamado de Sua Majestade e estou ansioso para saber por que razão ela
deseja me ver.
-Um momento, Alteza. Vou saber se Sua Majestade já pode recebe-lo.
O camareiro abriu a porta e voltou em seguida para dizer:
-Sua Majestade o aguarda.
Na grande sala de estar a rainha Vitória estava sentada em sua cadeira
habitual. Cercavam-na inúmeras fotografias, uma coleção que aumentava, não
a cada ano, mas a cada mês.
A primeira impressão do duque foi que a rainha envelhecera muito naqueles
cinco anos que não a via. A s roupas de luto que ela insistia em usar desde a
morte do príncipe Albert, deixavam-na também abatida.
-É um prazer revê-lo, caro duque – disse a rainha estendendo a mão ao
visitante.
O duque curvou-se sobre a mão de Sua Majestade e permaneceu de pé,
aguardando licença para sentar-se.
-Pode sentar-se – a rainha indicou uma cadeira a pouca distância da sua.
isso era, o duque sabia, um privilégio muito especial.
Quando o primeiro-ministro ou membros dos ministérios consultavam Sua
Majestade, sempre permaneciam de pé.
Apreensivo e nada à vontade, o duque ocupou a cadeira que lhe foi indicada.
Agora, mais do que nunca, teve certeza de que Sua Majestade iria lhe pedir
algo que ele não gostaria sequer de ouvir.
-Já faz muito tempo que você não me visita – começou a rainha.
-É verdade, Madame. Mas sei que Vossa Majestade compreende; é grande a
distância de Yorkshire a Londres. Além disso há tanto o que fazer em minha
propriedade que é quase impossível para mim vir ao Sul.
-É uma boa desculpa, caro Templeton, mas eu sei que você prefere a vida no
campo, com seus cavalos, à agitação da cidade – observou a rainha, rindo.
-Vejo que, como sempre, Vossa Majestade não se deixa enganar. Sim,
Madame, prefiro a vida sossegada do campo e, claro, montar meus cavalos –
assentiu o duque com um sorriso.
-Pelo menos você é honesto. Bem, fale-me sobre a minha afilhada. Como vai
Lady Frederika?
-Frederika vai muito bem, Majestade e, aos dezenove anos, está uma linda
moça.
-Tão linda quanto a mãe? – indagou a rainha, entusiasmada.
-Sim, olhando-a chego a ficar comovido, pois Frederika lembra, e muito, a
mãe. A propósito, eu trouxe uma miniatura de minha filha para Vossa
Majestade ver.
O duque tirou do bolso um pequeno estojo de veludo e entregou-o à rainha
Vitória.
Ao ver o pequeno retrato pintado, a rainha admirou-o. Sem dúvida, a garota
era lindíssima.
-Vejo que você não exagerou, caro Templeton. Estou ansiosa para rever
minha afilhada. Quando a vi pela última vez ela era uma criança.
-Vossa Majestade a verá. Minha filha está em Londres.
-Ótimo. – a rainha sorriu para o duque e em tom mais grave acrescentou: -
Bem, sinto que você não irá gostar do pedido que lhe vou fazer. Ao mesmo
tempo, ;e algo de grande importância para a Inglaterra e ainda mais importante
para o país em questão.
O duque ficou apreensivo e impaciente, mas não deu demonstração disso.
-O fato de o czar da Rússia mostrar-se tão determinado a expandir seu
império muito nos preocupa – a rainha estava dizendo. -Tudo começou quando
a Alemanha, ocupando todos os outros pequenos principados, tornou-se bem
maior do que jamais havia sido, formando assim um império. Você, mesmo
morando nos confins de Yorkshire, deve estar sabendo que a Rússia está
seguindo o exemplo da Alemanha.
Não se contendo, o duque sorriu antes de comentar:
-Mesmo nos confins de Yorkshire nós recebemos jornais, Madame. Sim,
estou ciente de que Vossa Majestade fortaleceu os principados e pequenos
reinos dos Balcãs mandando para lá suas netas e outras parentes, pelo que os
soberanos e o povo desses países lhe são muito gratos.
-São, realmente, e não poderia ser de outra forma. Ao mesmo tempo, eu não
sei como obter noivas para os soberanos que a mim recorrem. Já não tenho
parentes jovens.
-Vossa Majestade tem sido magnânima. Todos a admiram e respeitam.
Também a chamam de a “casamenteira da Europa”. Vossa Majestade deve
saber disso.
A rainha Vitória sorriu.
-Eu seria cega e surda se não soubesse o que dizem sobre mim a esse
respeito. Só espero que os russos fiquem atemorizados e o czar refreie a sua
ganância.
-É claro que o czar não se atreverá a invadir um país onde haja no trono uma
parente de Vossa Majestade. Só posso dizer que Vossa Majestade tem
conseguido, com brilhantismo, manter os russos a distância. Entretanto,
chegam-nos notícias de que eles continuam a avançar na Ásia – apontou o
duque.
-Na última conversa que tive com o Sr. Gladstone custou-me bastante
persuadi-lo de que os russos representam uma grande ameaça – disse a
rainha em tom cortante. -Cheguei a lhe dizer que eu renunciaria como rainha
caso ele não tomasse providências para impedir o avanço dos russos.
-Fiquei sabendo disso. Vossa Majestade foi absolutamente admirável! Sei
também que as tropas russas se retiraram quando estavam a seis milhas de
Constantinopla – o duque comentou.
-Foi um grande momento! – exclamou a rainha Vitória. -Se os russos
tivessem conseguido o que desejavam, seria um desastre não apenas para a
Turquia, mas para toda a Europa.
-Sem dúvida – aquiesceu o duque. -Todas as pessoas bem informadas deste
país e da Europa são gratas a Vossa Majestade.
A rainha suspirou.
-Espero que sim, mas eu o chamei aqui porque estou com um problema.
-De que se trata?
-O príncipe Lintz, de Rasgrad, corre o perigo de perder seu principado. Como
você sabe, Rasgrad fica bem perto da Rússia e será invadido pelas tropas do
czar, caso Lintz não tenha a proteção da Grã-Bretanha. Isso quer dizer que
devo colocar uma de minhas parentes no trono daquele principado –
esclareceu a rainha.
-Estive consultando a relação de todos os parentes meus e do querido Albert
– continuou a rainha. -Constatei que eu tenho uma parente solteira e em idade
de se casar: sua filha e minha afilhada. Uma jovem com sangue real!
-Minha filha! – o duque exclamou, atônito. -Não creio que ela tenha sangue
real.
-Como não? Sua mãe, caro duque, a princesa Frederika, era Saxe-Coburg-
Gotha, minha prima distante. Portanto, você tem sangue real e sua filha
também.
Por um instante o duque ficou pensativo. Não sabia o que responder, pois
sequer se lembrava da mãe. A princesa Frederika morrera ainda jovem,
deixando três filhos: ele com cinco anos, e duas meninas, uma de sete e outra
de três anos.
Na família Templeton o nome da princesa Frederika raramente era
mencionado. Para o duque sua família era a paterna, da qual ele tornara-se o
chefe. Agora lhe ocorria que, de fato, sua mãe era parente da rainha Vitória.
-A sugestão de Vossa Majestade é muito lisonjeira, mas receio que minha
filha não queira deixar a Inglaterra para morar nos Balcãs – replicou o duque,
tendo dificuldade de encontrar as palavras.
-O príncipe Lintz, ao contrário de muitos que me pediram ajuda, é um jovem
encantador e Rasgrad é um principado próspero e moderno – apontou a
rainha.
A mente do duque trabalhava febrilmente na tentativa de encontrar um bom
motivo para persuadir Sua Majestade de que Alícia não queria deixar a família,
tampouco mudar-se da Inglaterra para viver em outro país, por mais
encantador e progressista que fosse.
Como se adivinhasse o que o duque estava pensando, a rainha expôs:
-Sei que Frederika significa muito para você e que ambos são muito unidos.
Para você não se sentir sozinho quando sua filha partir, ofereço-lhe um cargo
especial aqui no castelo de Windsor. Acredito que ficará muito contente entre
os nobres que formam o meu entourage.
Percebendo que o duque não se mostrava nem um pouco impressionado
com o convite, a rainha acrescentou depressa:
-Tenho sentido muito a sua falta. Ninguém possui um cérebro tão brilhante
como o seu nem a sua capacidade de ver o lado bom e divertido das coisas,
ainda que elas pareçam desastrosas. E eu, pessoalmente, gostaria muito de tê-
lo neste castelo.
Pela primeira vez na vida o duque viu-se incapaz de expressar com palavras
o que estava sentindo. Depois de uma pausa desconfortável, disse:
-Vossa Majestade é muito amável e lhe agradeço profundamente pelos
termos tão lisonjeiros. Ao mesmo tempo, não quero perder minha filha e, em
nome dela, recuso o gentil pedido feito por Vossa Majestade para desposar o
príncipe Lintz.
Reinou na sala um silêncio constrangedor. Segundos depois a rainha
perguntou, severa:
-Você se julga superior a todos, caro duque, a ponto de recusar o que acabo
de lhe propor?
Caindo em si, o duque compreendeu que a rainha Vitória, no seu papel de
soberana da Inglaterra, ordenava-lhe que oferecesse a mão de sua filha ao
príncipe Lintz de Rasgrad. Não havia possibilidade de ele recusar uma ordem
real, expressa diretamente dos lábios de Sua Majestade.
Fez-se novamente um silêncio grave na ampla sala.
-Se eu lhe rogar para ouvir meus argumentos Vossa Majestade me atenderá?
– perguntou o duque pouco depois.
-Não! – declarou a rainha com firmeza. -Posso avaliar quanto você sofrerá
quando se separar de Lady Frederika, mas a Grã-Bretanha é mais importante
do que os sentimentos individuais. O único modo de evitarmos que a Rússia
invada Rasgrad é colocar no trono uma parente minha. Dessa forma o czar terá
de lutar contra a Grã-Bretanha e, no momento, não ousará um confronto
conosco!
O duque sabia muito bem que isso era verdade. Fechou os olhos e lembrou
que, graças a quantias gastronômicas a Grã-Bretanha vinha treinando seus
soldados para impedir os avanços dos russos. Se eles tomassem para si outros
principados dos Balcãs ficariam mais fortes do que já eram.
Observando o duque, a rainha soube que o derrotara. Viu-o abrir os olhos e
lhe perguntar com esforço, com uma voz que parecia vir do mais íntimo de sua
alma:
-Quando Vossa Majestade deseja que minha filha parta para Rasgrad?
-O mais depressa possível – a rainha respondeu. -Dou-lhe apenas o tempo
necessário para os preparativos da viagem. Fui informada pelo ministro das
relações exteriores de Rasgrad, que chegou à Inglaterra semana passada, que
os russos já se infiltraram no país e estão causando sérios problemas. É
sempre assim que eles agem: causam tumultos só para ter a desculpa de que
precisam intervir para “restaurar a lei e a ordem”.
-Sei muito pouco sobre Rasgrad – o duque admitiu. -Entretanto, pensei que
fosse uma país pequeno e pacífico.
Era até os russos acharem que Rasgrad tinha grande importância para eles.
O czar está determinado a apossar-se dos países dos Balcãs, o que lhe abrirá
o caminho para o Mediterrâneo.
Isso não era novidade para o duque. Sua Majestade estava certa e todos os
países da Europa aplaudiam-na pelo modo inteligente como já salvara
inúmeros reinos e principados dos Balcãs. Portanto, como ele poderia opor-se
à rainha?
Apesar de estar fora do mundo político por longos anos, o duque lembrou
que havia conhecido o pai do príncipe Lintz, um soberano forte e importante,
numa conferência realizada em Londres.
Na ocasião ele fizera um discurso sobre o sistema de defesa do seu país que
fora louvado pelos diplomatas presentes. Agora a rainha Vitória escolhia Alícia
para representar a Grã-Bretanha no que vinha sendo um dos mais importantes
problemas da época. A escolha era uma honra e o duque não podia ignorá-la
ou recusá-la. Portanto, disse simplesmente:
-Transmitirei a minha filha o pedido de Vossa Majestade. Se for do agrado de
Vossa Majestade também discutirei o assunto do casamento com o ministro
das relações exteriores de Rasgrad, caso ele ainda esteja no castelo.
-Ele está aqui, naturalmente! Ficou esperando a sua chegada com ansiedade
– respondeu a rainha com veemência. -Ele revelou-me que algo deve ser feito
com urgência para impedir a infiltração russa.
Nada mais tendo a dizer o duque levantou-se da cadeira, ficou diante da
rainha e falou em tom solene:
-Há quatrocentos anos minha família tem sido leal à Coroa. Prometo a Vossa
Majestade que minha filha fará tudo a seu alcance para salvar Rasgrad dos
russos.
Um sorriso suavizou o rosto da rainha.
-Eu tinha certeza de que você compreenderia a importância do meu pedido e
a gravidade da situação. Lamento separá-lo de sua filha, mas a viagem de trem
a Rasgrad tornou-se mais confortável e ambos poderão ver-se com
regularidade.
-Falarei com o representante de Rasgrad e, se for possível, eu gostaria de
voltar para dizer adeus a Vossa Majestade antes de regressar a Londres.
-Naturalmente! Eu ficaria magoada se você não viesse despedir-se – disse a
rainha estendendo a mão. Em tom extremamente suave acrescentou: -
Lamento impor-lhe tal sofrimento. Sei que você sentirá muita falta de sua filha,
mas a Inglaterra deve vir em primeiro lugar e não podemos desapontar aqueles
que em nós confiam.
O duque inclinou-se sobre a mão da rainha.
-Vossa Majestade é uma pessoa maravilhosa e como sempre, é a vencedora.
-Você costumava me dizer as mesmas palavras no passado. Só espero que
me visite com mais frequência quando minha afilhada estiver em Rasgrad.
-Obrigado pelo amável convite.
Depois de curvar-se novamente o duque caminhou de costas até a porta.
Antes de ele sair a rainha pediu-lhe:
-Venha me visitar antes de partir com Frederika para Rasgrad. Quero rever
minha afilhada e também saber o que foi providenciado.
O duque apenas curvou-se, assentindo.
Uma vez no corredor, sentiu-se tão trêmulo que esperou alguns segundos
antes de conseguir perguntar ao camareiro:
-Onde posso encontrar o representante de Rasgrad?
-O ministro das relações exteriores de Rasgrad está à sua espera Vossa
Alteza – respondeu o fidalgo. -Vou leva-lo até ele.
Os aposentos do ministro ficavam a pouca distância dali. Antes de anunciar o
visitante, o camareiro disse ao duque:
-Há champanhe no gelo à espera de Vossa Alteza. Também nos daria
grande prazer se Vossa Alteza puder ficar para o almoço.
-Não, obrigado. Preciso voltar a Londres com urgência.
Sem dizer mais nada, o camareiro abriu a porta e anunciou ao cavalheiro
sentado confortavelmente uma das poltronas:
-Sua Alteza, o duque de Templeton.
O cavalheiro pôs-se de pé e foi receber o visitante.
-Sou o barão de Gavrion – apresentou-se falando muito bem o inglês. -Vossa
Alteza já deve ter sido informado que sou o ministro das relações exteriores de
Rasgrad.
Antes de falar alguma coisa o duque foi até a mesa onde estava a garrafa de
champanhe em um balde de ouro, com gelo. Serviu-se e ofereceu ao barão:
-Posso lhe servir uma taça também?
-Já tenho uma, muito obrigado – o barão agradeceu.
Sentindo que precisava de algo estimulante, o duque tomou o champanhe,
depois falou sem o menor preâmbulo:
-Como você já deve estar esperando, concordei com Sua Majestade sobre o
casamento de minha filha com o príncipe Lintz.
-Magnífico! – o ministro exclamou, eufórico. -Uma notícia maravilhosa! Para
nós, de Rasgrad, é de extrema importância obtermos o apoio da rainha Vitória,
tê-la no trono de meu país será um honra e uma grande alegria.
Os cavalheiros sentaram-se. Como ainda não se refizera do golpe sofrido, o
duque discutiu com o barão, com a maior rapidez, quais as providências a
serem tomadas para a viagem a Rasgrad e ambos ficaram de acertar os
detalhes no dia seguinte, em Londres.
-Agora vou voltar para a minha casa, na Grosvenor Square – expôs o duque,
levantando-se. -Minha filha também precisa saber o que foi decidido e deve
expressar seus desejos sobre a data e a cerimônia do casamento.
-Que o casamento seja realizado o mais depressa possível – pediu o barão. -
A situação em Rasgrad está insustentável. Os russos infiltraram-se no país e
não temos como detê-los.
-Compreendo as suas dificuldades – disse o duque sem demora. -Amanhã
falaremos sobre tudo isso e a data do casamento. Também quero obter
informações sobre Sua Alteza Real.
-Sim, sim. Vossa Alteza e sua filha terão as informações que desejarem –
disse o barão prontamente. -Quando os russos tiverem notícia de uma noive
inglesa para o príncipe Lintz, deixarão Rasgrad correndo.
-É o que todos esperamos. Bem, aguardo-o amanhã, por volta do meio-dia,
para o almoço. Sua Majestade providenciará uma carruagem para leva-lo até a
minha casa – finalizou o duque, apertando a mão do barão de Gavrion.
A caminho do pátio onde sua carruagem o aguardava, o duque ainda não
podia acreditar no que estava acontecendo. Nunca lhe passara pela cabeça
que iria perder a única filha porque um principado dos Balcãs estava sendo
ameaçado pelos russos.
Agora, voltando a raciocinar com mais calma, considerou que a rainha Vitória
já não tinha mais a quem recorrer para lembrar-se de Alícia, pois o parentesco
entre ambas era muito distante.
“Não sei o que dizer de tudo isto”, pensou o duque ao alcançar a estrada
para Londres.
Só então se lembrou de que não se despedira de Sua Majestade.
“Ela terá de me desculpar”, sentenciou. “Também terá de compreender que o
que pode ter parecido rudeza de minha parte foi resultado do choque que
recebi”.
Era óbvio que ele não desejava perder sua única filha. Alícia, por sua vez,
tentaria desobedecer a ordem da rainha, alegando que não aceitaria casar com
um desconhecido.
“O que devo fazer para não obrigar minha filha a fazer um casamento contra
a sua vontade”, o duque questionou-se.
Não havia resposta para essa pergunta.
***
Para Alícia a manhã fora muito agradável. Ela e a tia fizeram compras e mais
compras. Ao chegar a Londres ambas constataram que, embora tivessem
roupas finas e muito bonitas, a maioria delas estava fora de moda.
O que era considerado elegante em Yorkshire, em Londres era visto como de
“mau gosto” e “caipira”.
As vitrines das lojas de Bond Street encantavam os transeuntes com seus
modelos exclusivos, lindos, vindos de Paris.
Para não interromper as compras tia e sobrinha almoçaram num restaurante
e só voltaram para casa à hora do chá. Alícia já usava um dos vestidos novos e
um chapéu enfeitado com flores. Levava consigo diversas caixas contendo,
além de chapéus, sapatos, bolsas e outros complementos, apenas um vestido
para usar nessa noite.
Os demais, três vestidos para o dia, dois trajes de noite e três conjuntos de
montaria, seriam entregues na Grosvenor Square na manhã seguinte.
Lady Mary também comprou para si dois vestidos de noite e dois para o dia,
com respectivos complementos.
“Tenho certeza de que papai ficará muito contente com a minha aparência
quando me vir”, Alícia pensou ao tomar a carruagem para voltar para casa. “Foi
muito bom ele ter ido visitar a rainha. Um homem inteligente como papai não
devia desperdiçar seus talentos no campo. Ele seria, além de brilhante, muito
útil no castelo de Windsor”.
No mesmo instante lhe ocorreu que o pai vivia feliz na Templeton Priory.
Entretanto, agora que ela já estava com dezenove anos, iria insistir com ele
para receber amigos no campo e passar mais tempo em Londres.
“Também posso receber minhas amigas na Templeton Priory”, Alícia
considerou.
Porém reconheceu em seguida que tinha bem poucas amigas em Yorkshire e
praticamente nenhuma em Londres. Felizmente, tinha primas e primos pelo
lado paterno. Além disso, com toda certeza, iria fazer amizades com moças e
rapazes na presente temporada em Londres.
Alícia surpreendeu-se ao ver a carruagem do pai, puxada por quatro cavalos,
parada à frente da Templeton House. O que teria acontecido para ele voltar tão
cedo do castelo de Windsor?
Ela saltou da carruagem apressada e ordenou a um dos criados para ir pegar
os embrulhos, as caixas e ajudar Lady Mary a descer do veículo que seria
levado às cocheiras, nos fundos da casa e do outro lado da rua.
-Papa! Papai! – ela chamou, entrando no gabinete onde o pai costumava
ficar. -Cheguei e comprei lindos vestidos!
Para sua surpresa o duque estava tomando champanhe, o que ele nunca
fazia à hora do chá. Com certeza ele sentia sede e calor depois da exaustiva
viagem a Windsor. Correndo para o pai e beijando-o, ela acrescentou com
entusiasmo:
-Gastei uma fortuna em roupas e complementos. Não quero que o senhor se
envergonhe de mim quando formos às inúmeras festas e bailes para as quais
estamos sendo convidados. Depois de ver os lindos trajes na Bond Street,
convenci-me de que minhas roupas estavam fora de moda. Com elas eu
parecia uma autêntica garota do campo.
-Você é linda, com qualquer roupa que vista, minha filha. Mas inegavelmente
está ainda mais encantadora com esse vestido novo – observou o duque;
porém, sua expressão revelou a Alícia que algo o preocupava.
-O que aconteceu, papai? – ela perguntou. -Estou vendo em rosto que
alguma coisa não está bem.
-Sente-se, querida – pediu o duque. -Precisamos conversar.
Certa de que o pai iria lh revelar algo muito sério, Alícia obedeceu. Tirou o
chapéu, deixou-o no chão e aguardou, apreensiva, o que ele tinha a dizer.
-Nem sei como começar...
-A rainha Vitória não morreu, não é mesmo papai? – Alícia interrompeu-o.
-Não, claro que não! Não é nada disso.
-Então, o que o aborrece, papai? O que pode ter acontecido no castelo de
Windsor para o senhor voltar com essa expressão tão séria? Vejo que o senhor
está preocupado.
-Realmente, estou preocupado com você – disse o duque devagar.
-Comigo!? – Alícia surpreendeu-se. -Por quê?
-Porque, minha querida... – o duque levantou-se e foi até a janela.
Sabendo que o pai sofria, Alícia foi até ele e abraçou-o.
-Deixe-me organizar meus pensamentos, filha – pediu o duque. -pode sentar-
se.
Alícia obedeceu e segundos depois o pai voltou para junto dela, sentando-se
também.
-No castelo de Windsor fui recebido pela rainha Vitória na sua sala de estar
privativa. Ela então me pôs a par do motivo por que mandou me chamar a
Londres. Trata-se de algo muito sério, querida.
-Sério? Em que sentido? Para quem? – Alícia indagou, imaginando que
algum parente da rainha teria morrido inesperadamente.
Descartou essa possibilidade no mesmo instante, pois isso não iria deixar o
pai tão aborrecido, também pouco o faria hesitar daquela forma para contar-lhe
o que acontecera.
-Naturalmente, você sabe que os russos estão se infiltrando nos países dos
Balcãs para causar tumultos e então assumem o poder alegando que assim
restabelecerão a lei e a ordem – expôs o duque.
-Sei disso, claro, papai – Alícia assentiu. -Já falamos sobre o assunto e nós
dois ficamos revoltados com o modo como eles estão agindo.
-Pois bem. A rainha Vitória mandou chamar-me à sua presença para pedir
que eu consinta no seu casamento, filha, com o príncipe Lintz de Rasgrad.
Esse principado corre o perigo de ser tomado pelas tropas do czar.
-Casar com o príncipe?! – Alícia repetiu, atônita. -É claro que eu não posso ir
para nenhum país dos Balcãs e tornar-me esposa de um desconhecido!
O duque deu um profundo suspiro.
-Não é um pedido, querida filha. É uma ordem real. Tentei salvá-la desse
casamento, que para mim também é absurdo, mas ninguém pode lutar contra a
rainha Vitória.
-Então... o senhor está dizendo que terei mesmo de casar... com esse
príncipe para salvar seu país do domínio dos russos?
-Sua Majestade acredita que só uma noive inglesa com parentesco com a
realeza salvará Rasgrad, como já aconteceu com outros reinos e principados
dos Balcãs.
-Mas nas minhas veias não corre sangue real nenhum! – argumentou Alícia,
com uma esperança de salvar-se daquele casamento que para ela não tinha
razão de ser. -Eu...
De repente ela parou.
-Oh, papai, eu esqueci que vovó era uma princesa.
O duque assentiu com a cabeça.
-A princesa Frederika de Saxe-Coburg-Gotha, parente da rainha Vitória,
embora distante. Você recebeu no batismo o nome de sua avó e também o da
rainha Vitória, em homenagem a ambas.
-Nunca me passou pela mente que por causa desse parentesco eu seria
obrigada a casar com um príncipe desconhecido. Oh, papai, como é o príncipe
Lintz? Será que ele fala inglês?
-O príncipe certamente sabe falar inglês. Conheci o pai do príncipe Lintz, um
grande soberano. Enfim, querida, nada podemos fazer senão atender ao
pedido da rainha. Quando eu voltava de Windsor bem que tentei encontrar um
meio de livrá-la desse casamento. Mas isto será impossível. Podemos declarar
guerra a Sua Majestade, mas iremos para a prisão. Como súditos, devemos
obedecer a uma ordem real!
-Tudo isto é ridículo! É um absurdo! – Alícia protestou.
Indignada, ela ficou de pé e passou a andar pelo gabinete. -Como posso
concordar em casar com um homem que nunca vi? Pode ser que ele seja um
velho com mais de cem anos!
-Não! Creio que o príncipe Lintz tem seis ou sete anos a mais do que você –
o duque esclareceu.
-Oh, papai, não é só idade que me preocupa. Eu gostaria de conhecer o
príncipe. Esse costume de se arranjar casamentos por interesse das famílias é
coisa do passado e jamais poderia estar acontecendo nos dias de hoje – Alícia
lamentou.
-Concordo inteiramente com você, mas quando argumentei com Sua
Majestade ela nem quis me ouvir.
-Se eu pudesse, papai, iria protestar e dar chutes para livra-me de tudo isso.
Mas o que fazer? Oh, eu não posso casar com um desconhecido, ainda que
seja para sentar-me num trono!
-Entre os membros da realeza os casamentos são sempre arranjados, minha
querida – argumentou o duque, abraçando a filha. -Os noivos se casam
pensando no bem do país. No seu caso, você salvará Rasgrad. Suponho que o
príncipe também não esteja entusiasmado com este casamento.
-Isso não torna a situação melhor nem mais fácil de suportar. Que coisa
revoltante! Nem parece que estamos num mundo civilizado! – Alícia zangou-se.
Não se contendo, ela começou a chorar. Depois, numa voz quase inaudível,
perguntou:
-O que posso fazer...papai?
-Nada, querida, exceto obedecer à ordem de Sua Majestade. O ministro das
relações exteriores está em Windsor e virá até aqui amanhã para tratarmos da
nossa viagem para Rasgrad. Você terá ocasião de fazer-lhe as perguntas que
desejar, seja sobre o príncipe ou sobre o principado. Espero que se anime um
pouco, minha filha.
-Oh, papai, eu estava feliz e despreocupada fazendo compras na Bond Street
com tia Mary – disse Alícia com amargura. -Quando iria imaginar que uma
notícia tão horrível estava à minha espera quando eu chegasse a esta casa?
-Acalme-se, querida. Vamos pedir bastante tempo ao ministro, alegando que
precisamos preparar todo o seu enxoval. Até lá, quem sabe encontraremos
uma solução.
-A meu ver a única solução será os russos invadirem Rasgrad e tirarem o
príncipe do trono antes de chegarmos lá! Nesse caso não haverá casamento! –
Alícia gritou.
-Não fale assim, filha. Não podemos desejar tamanho mal a um principado
próspero e pacífico – admoestou o duque.
-Oh, papai, não sei por que isso está acontecendo, justamente comigo –
Alícia queixou-se, passando a mão no rosto para afastar as lágrimas. -Eu
sempre sonhei em conhecer um belo cavalheiro como o senhor e em me
apaixonar por ele, como aconteceu com o senhor e mamãe.
-Quem sabe isto irá acontecer. Você ainda não conhece o príncipe Lintz.
Talvez ele seja exatamente como esse belo cavalheiro com o qual você sonha.
-Não acredito que eu seja capaz de me apaixonar por um homem que não é
bastante forte sequer para defender o seu país contra os russos!
-É o que o príncipe Lintz está tentando fazer, mas infelizmente, às nossas
custas.
Encostando-se no pai, Alícia apoiou a cabeça no seu ombro.
-Oh, papai... não posso fazer tamanho sacrifício. Não posso deixar o
senhor... nem os cavalos... nem esta casa e muito menos a Templeton Priory.
-Vamos, seja sensata. Você teria de deixar tudo isso quando se casasse.
Pedirei a Deus que você e o príncipe se amem e sejam felizes como fomos sua
mãe e eu – o duque falou amorosamente.
-É tudo o que desejo... mas... com esse desconhecido eu... jamais
conhecerei... a felicidade – Alícia balbuciou.
Penalizado e também sofrendo muito, o duque abraçou a filha com carinho.
Ao fazer isso pensou que de todos os problemas que já tivera na vida este era
o mais difícil.
Havia, porém, no fundo do seu coração a certeza de que encontraria a
solução para o mesmo!

Capítulo III
Passavam quinze minutos do meio-dia quando o ministro das relações
exteriores de Rasgrad chegou à Templeton House acompanhado da esposa e
de outra senhora.
Na sala de visitas o duque e Alícia esperavam por eles. Embora notasse a
palidez da filha, o duque achou melhor não fazer comentário algum.
-O barão e baronesa de Gavrion e a condessa Udelana – anunciou o
mordomo.
Um senhor de cabelos grisalhos, de estatura média e com expressão de
indiferença entrou na sala. Do seu lado estava a esposa, trajando um vestido
bem talhado e cheio de enfeites. Seu rosto, porém, nada tinha de marcante.
Atrás do casal vinha a condessa, senhora de meia-idade e sem quaisquer
atributos de beleza.
-É um grande prazer revê-lo, barão, e recebe-los em minha casa – disse o
duque cordialmente. -Espero que tenham feito boa viagem.
-Muito boa, sem dúvida – respondeu o barão. -A estrada de Windsor a
Londres é excelente.
O almoço foi anunciado e durante a refeição Alícia ficou mais tranquila
porque a baronesa e a condessa falavam inglês, embora rudimentar. Pelo
menos entendiam o que lhes era dito e conseguiam se expressar
razoavelmente.
Foi só após o almoço que eles voltaram à sala e puderam conversar mais
longamente.
O barão falou repetidas vezes sobre a sua alegria e a de seu país com a ida
de Lady Frederika para Rasgrad. Frisou que era desejo do príncipe Lintz que o
casamento fosse realizado com a maior urgência.
-Vocês devem dar-nos tempo para a preparação do enxoval de Frederika –
pediu o duque. Como princesa, minha filha precisará de roupas novas e de
toaletes mais elaboradas do que as que usa no campo. Suponho que no
palácio de Rasgrad haja recepções e jantares de gala.
-É verdade. O príncipe Lintz é muito hospitaleiro – tornou o barão. Ele recebe
hóspedes importantes de quase todos os países do mundo. Sua Alteza Real
faz questão de que os visitantes, ao partir, levem as melhores impressões de
Rasgrad.
-É uma boa política – aprovou o duque.
-Sua Majestade me disse que Vossa Alteza mora no condado de Yorkshire –
continuou o barão.
-Sim, minha casa ancestral fica em Yorkshire, no Norte, bem longe daqui.
Raramente venho a Londres. Minha filha e eu preferimos o campo à cidade.
Imagino que Frederika irá sentir muita falta de seus cavalos excelentes.
-Oh, isso não acontecerá! Em Rasgrad ela terá os melhores puros-sangues
da face da terra. Sua Alteza Real também aprecia cavalos e Lady Frederika
poderá cavalgar com o príncipe todas as manhãs. Os arredores de Selkiz, a
capital, e as montanhas são lugares lindos.
Olhando para a filha o duque notou que seus olhos ganharam um pouco de
brilho ao saber que em Rasgrad teria belos cavalos para montar. Ao mesmo
tempo, ela mal trocara algumas palavras com o barão e as senhoras.
-Esta manhã mandei um cabograma para Selkiz comunicando a Sua Alteza
real que a rainha Vitória já tem uma linda noiva para sentar-se no trono de
Rasgrad – prosseguiu o barão. -Sei que esta noite todos no Parlamento
estarão comemorando.
Novamente o duque olhou para Alícia e viu que o moment6aneo brilho dos
olhos desaparecera e ela continuava deprimida.
-Sei muito pouco sobre seu país. Como minha filha irá morar lá, gostaríamos
que você falasse sobre Rasgrad – pediu o duque.
-O principado de Rasgrad é grande e muito bonito. Nosso solo é fértil e
exploramos diversos minérios. O povo é alegre porque tem liberdade e
queremos que continue assim.
Compreendendo que o ministro referia-se à ameaça representada pelos
russos, o duque achou mais prudente não estender o assunto. Passou a falar
sobre seus ancestrais e a propriedade da família.
Como puderam constatar, os duque de Templeton têm servido à Grã-
Bretanha há mais de quatro séculos – disse o duque, ao terminar de discorrer
sobre os antepassados. -Quanto à minha mãe, pouco me lembro dela, pois
quando morreu eu ia completar cinco anos.
O importante é que sua mãe era, em solteira, a princesa Frederika, uma
Saxe-Coburg-Gotha, portanto, Lady Frederika; além de afilhada da rainha
Vitória, tem sangue real nas veias.
Sim, claro – concordou o duque. Voltando-se para a condessa Udelana,
perguntou: -Você mora no palácio ou foi designada especialmente para
acompanhar minha filha a Rasgrad?
-Moro no campo e sou parente distante do príncipe Lintz – a condessa
conseguiu responder no seu inglês rudimentar.
O duque preferiu continuar conversando com o barão.
-Suponho que você trouxe algumas fotos de Sua Alteza Real e, claro, do
principado, principalmente do palácio.
-Oh, que falta a minha! – o barão ergueu as mãos. -Não pensei nisso. Como
Sua Majestade, a rainha Vitória, temos muitas fotografias no palácio. O príncipe
Lintz gosta de fotografar e usa a câmera como se fosse um brinquedo novo.
-A máquina fotográfica também nos encantou logo que surgiu, algumas
décadas atrás – comentou o duque.
Mais uma vez ele olhou de relance para Alícia e notou que ela estava
achando os estrangeiros cansativos e sem graça. Conhecendo bem a filha,
teve certeza de que ela pensava que seria um tédio conviver com pessoas
como aquelas.
-No inverno, temos neve e esquiamos nas montanhas ou patinamos nos
lagos congelados – o barão estava dizendo. -Nosso verão é muito quente.
Aconselho Lady Frederika a levar guarda-sóis no seu enxoval.
-É verdade – concordou a condessa. -No último verão tive queimaduras.
Muito sol faz mal à pele.
O duque murmurou uma frase de assentimento. Estava pensando que
alguém no palácio não tivera o menor bom senso ao escolher aquela senhora
sem graça, de meia-idade, para acompanhar uma jovem noiva.
Em voz alta sugeriu à filha que fosse mostrar a galeria de quadros às
senhoras.
Relutante, Alícia obedeceu. Ficando a sós com o barão, o duque fez-lhe
várias perguntas.
-Imagino que Sua Alteza Real não tenha trinta anos. Estou certo?
-Nosso príncipe está com vinte e sete anos – respondeu o barão.
-Por que ele ainda não se casou?
-Tentamos convencê-lo a se casar, mas sendo um jovem belo e rico, o
príncipe tem pensado em gozar a vida.
-Gozar a vida? O príncipe viaja muito?
-Oh, sim, quando o pai era vivo e até recentemente ele ia com frequência a
Paris, Berlim, Cairo, Atenas! Tinha o mapa múndi sempre aberto à sua frente.
-Compreendo.
-Quanto ao casamento nós insistíamos, falávamos muito sobre o assunto,
mas Sua Alteza Real dizia “Não! Não!”- prosseguiu o barão. -Agora é diferente.
Sua Alteza Real entendeu que deve ter uma esposa.
-O que o fez mudar de ideia? – inquiriu o duque.
-Sua Alteza Real esteve em São Petersburgo e foi recebido cordialmente.
Porém, voltou para Rasgrad com a certeza de que o czar quer, por todos os
meios, tomar nosso país – confidenciou o barão.
-E é óbvio que o tomará na primeira oportunidade – asseverou o duque.
Todos sabemos disso.
-Sua Majestade, a rainha Vitória, foi muito gentil em nos ajudar. Nós lhe
seremos eternamente gratos.
-Será que Sua Alteza Real está feliz?
Depois de ligeira hesitação o barão de Gavrion disse com ênfase:
-Sim! Sim, muito feliz. Sua Alteza Real admira os ingleses e as noivas
inglesas são queridas nos Balcãs.
O duque desejou que isso fosse verdade. Se Alícia tivesse de ficar fechada
no palácio com as senhoras como a condessa, viveria entediada e seria muito
infeliz.
Um pensamento consolou o duque: se o príncipe Lintz gostasse de divertir-se
fora de Rasgrad, Alícia poderia passar pelo menos parte do ano na Inglaterra.
Deixando de lado suas cogitações, o duque passou a falar sobre os arranjos
para o casamento que já podiam ser feitos em Rasgrad. Isto serviria para
mostrar aos russos a força que o principado ganhara nessa aliança com a Grã-
Bretanha .
Felizmente as senhoras voltaram para a sala com Alícia e os visitantes não
quiseram permanecer na Templeton House por mais tempo. Tinham um
convite para o chá com um dos ministros e posteriormente um jantar oferecido
pelo primeiro ministro para homenageá-los.
Eles partiram depois de efusivos agradecimentos. O barão insistiu com o
duque para que ele e a filha seguissem para Rasgrad o mais depressa
possível.
De volta ao gabinete e a sós com a Alícia, o duque deu um suspiro de alívio.
Disse em seguida:
-Tudo o que desejo, minha filha, é que o resto do principado não seja
terrivelmente aborrecido como o ministro das relações exteriores, a esposa e a
condessa. Só posso deduzir que o camareiro-mor que indicou a condessa
Udelana como acompanhante da noiva do príncipe, é um nobre sem o menor
senso de humor.
-Nem me fale papai! Não suportarei conviver com pessoas assim! – Alícia
clamou. -Não posso ir para Rasgrad! Como poderia?
-Estive conversando com o barão e creio que você terá chance de passar
vários meses na Inglaterra.
-Por que diz isso, papai?
Resumidamente o duque expôs à filha o que o barão dissera sobre o príncipe
Lintz gostar de viajar para divertir-se em outros países.
Por um momento Alícia pareceu animar-se.
-Sim, certamente poderei vir para casa enquanto meu marido estiver em
Paris ou qualquer outro lugar à procura de divertimento. Bem, isto é melhor do
que eu esperava.
-Certifique-se de que nas suas viagens para a Inglaterra não terá como
acompanhante duas senhoras como a baronesa de Gavrion e a condessa
Udelana – aconselhou o duque.
-Achei as duas indelicadas quando lhes mostrei a galeria de quadros. Ambas
conversaram quase o tempo todo na sua língua materna e percebi que não
faziam comentários sobre os quadros e retratos, mas diziam que estavam
impressionadas com a riqueza da casa.
O duque não conteve o riso.
-O que poderíamos esperar? Bem, vamos esquecer aqueles três. Afinal, você
será uma princesa reinante e poderá convidar quem for do seu agrado a visita-
la no seu palácio.
-Acredito que será difícil encontrar alguém de quem eu goste num
principadozinho como Rasgrad – retrucou Alícia com amargura. -O senhor
sabe tão bem quanto eu que as pessoas que cercam a realeza, se não são
políticos, são extremamente aborrecidas.
-Está sendo muito severa em suas suposições, minha querida. Lembre-se de
que o príncipe é jovem e deve cercar-se de pessoas alegres. Não acredito que
o palácio esteja cheio de aristocratas enfadonhos como os que acabamos de
receber.
-Se for assim, voltarei para casa imediatamente – sentenciou Alícia.
-Minha querida, não fale assim! – o duque aproximou-se da filha e abraçou-a
-Você sabe que é de grande importância para nosso país impedir que os
russos conquistem mais terras e expandam ainda mais o seu império.
-O senhor me disse há poucos dias que o czar tem os olhos voltados para a
Índia e que os jovens cossacos avançam naquela direção com incrível rapidez
– Alícia lembrou.
-É verdade, mas o que acontece na Ásia não deve preocupa-la. Sua tarefa
como princesa será tornar seu principado tão europeu quanto possível.
Lembre-se de que temos amigos em quase todos os países da Europa; eles
ficarão encantados se receberem m convite seu e do príncipe para visita-los
em Rasgrad.
-Só espero que o príncipe Lintz não queira que eu fique nos meus aposentos,
no palácio, tricotando, enquanto ele se diverte com as beldades de todos os
países! – Alícia falou com determinação.
Na tentativa de consolar a filha, o duque falou sorridente:
-Posso apostar uma quantia considerável que o príncipe Lintz só desejará
ficar em casa, com você, assim que a conhecer.
-Se o príncipe for aborrecido como o barão, quero vê-lo bem longe de mim! –
Alícia desabafou. -Sabe qual é o meu receio, papai? É que, com o tempo,
depois de conviver com mentes tacanhas, eu acabe me tornando bem parecida
com esses três representantes de Rasgrad que acabaram de sair desta casa!
-Posso afirmar que os três não caracterizam a aristocracia de Rasgrad.
Tenho amigos nos Balcãs, você sabe disso, e todos eles são encantadores. Os
homens são altos, fortes e belos e as mulheres muito atraentes. Mas vamos
esquecer nossos visitantes. Acho melhor você sair para fazer compras com sua
tia – sugeriu o duque.
-Está enganado, papai se pensa que vou apressar-me na compra do enxoval.
Quero comprar, além de um elaborado vestido de noiva, inúmeros outros trajes
e isso levará muito tempo para ser confeccionado – retrucou Alícia.
O que ela não sabia era que a rainha Vitória e o Sr. Disraeli tinham opinião
bem diferente da sua.
De fato, na manhã seguinte o duque recebeu uma carta de Sua Majestade
dizendo que ele e a filha teriam de partir para Selkiz dentro de duas semanas,
no máximo.
A primeira coisa que o duque fez foi procurar o primeiro-ministro.
-Por que tanta pressa? – quis saber.
-Recebemos informações secretas de que os russos já estão movimentando
tropas na direção de Rasgrad – segredou o Sr. Disraeli.
-Como?! Eles não podem tentar invadir o país se já foi anunciado que o
príncipe irá desposar uma inglesa, parente da rainha Vitória! – tornou o duque,
indignado.
De volta a casa o duque avisou Alícia que teriam, de fato, de partir em duas
semanas.
-Impossível! – ela protestou. -Minhas roupas não ficarão prontas em tão
pouco tempo. Escolhi um vestido de noiva fascinante e só o bordado, segundo
a bordadeira, levará mais de duas semanas para ser concluído.
-Nesse caso, peça à modista para aumentar o número de costureiras e
bordadeiras, pague-lhes horas extras ou simplifique os modelos ao máximo.
Partiremos no prazo estabelecido por Sua Majestade – frisou o duque.
O modo como o pai lhe falou fez com que Alícia o fitasse surpresa, achando
que ele estava zangado. Em seguida ela riu.
-Acaba de me ocorrer que eu poderia aparecer em Selkiz com as minhas
roupas velhas. Eu diria a todos que a rainha Vitória me obrigou a partir sem
esperar pelo enxoval. Imagino que meu noivo e o pessoal da corte ficariam
decepcionados com a noiva inglesa.
-Sim, ficariam desapontados por não vê-la vestida como uma princesa.
Entretanto, não poderiam negar que mesmo usando as suas roupas mais
velhas você estaria linda – declarou o duque carinhosamente.
-Não acredito que o príncipe irá me considerar bonita. Se, como suponho,
meu noivo tem paixão por francesas de cabelos pretos, ele não achará a menor
graça numa inglesa de pele rosada e olhos da cor do miosótis.
-De onde você tirou essa ideia? – perguntou o duque, rindo. -Asseguro-lhe
que Sua Alteza Real irá admirá-la e sentir-se orgulhoso de ter uma esposa tão
encantadora. Pelos representantes de Rasgrad que vi até o momento, naquele
principado não haverá ninguém tão bela quanto você.
Alícia passou os braços pelo pescoço do pai.
-Oh, papai, o que eu mais quero é ficar com o senhor. Será tão maravilhoso
cavalgarmos juntos, organizarmos corridas e caçarmos no inverno!
-Sei disso, querida, mas não podemos voltar atrás. Portanto, o que você deve
fazer em Rasgrad é encher, não só o seu palácio, mas todo o principado, de
alegria e felicidade como fez enquanto esteve na Templeton Priory.
-Não saberei tornar o principado um lugar feliz sem ter do meu lado o senhor
e todas as outras pessoas que sempre amei e também me amaram.
-Todos a amarão assim que a conhecerem – assegurou o duque. -Acredite
no que estou dizendo.
-Espero que o senhor esteja certo – Alícia murmurou.
***
As duas semanas passaram voando. Tudo foi providenciado para o duque e
Alícia viajarem para Dover onde o barão de Gavrion, a esposa e a condessa
Udelana estariam esperando por eles.
Faltando três dias para a viagem o duque, Alícia e Lady Mary voltaram para a
Templeton Priory.
-Amanhã faremos um longo passeio a cavalo pela propriedade, papai, só nos
dois – sugeriu Alícia quando ainda estavam no trem. -Quero lembrar-me desse
dia quando estiver longe do senhor.
-Farei o que você quiser, querida – o pai concordou. -Montaremos os nossos
cavalos melhores e mais velozes.
Pela manhã, após o breakfast, pai e filha saíram para o passeio, conforme
haviam combinado. O dia estava lindo e a temperatura agradável.
Enquanto galoparam pelos campos ambos sentiram-se livres e esqueceram
os problemas. Para terem tempo de visitar toda a vasta propriedade eles
almoçaram numa hospedaria da vila.
O proprietário ficou honrado em ter o senhor daquelas terras em seu
estabelecimento. Providenciou lhes uma sala privativa onde eles apreciaram
um almoço simples, porém saboroso.
O passeio a cavalo continuou após a refeição. Na parte da tarde eles
cavalgaram por um terreno onde havia muitos sebes e praticaram saltos.
Talvez por estar cansado ou desatento, num dos saltos, o duque foi atirado
da sela do seu animal, indo cair do outro lado da sebe. Na queda ele rolou
sobre algumas pedras, machucando-se bastante.
Alícia desmontou e correu para socorrê-lo. Por sorte o duque não perdeu a
consciência e, apesar de sentir muita dor, conseguiu montar novamente e
voltara para casa.
O médico do condado, o Dr. Barnes e seu colega, um cirurgião, vieram
prontamente examinar o acidentado.
-Vossa Alteza sofreu contusões, tem um corte enorme na coxa, onde levará
muitos pontos, e quebrou duas costelas – o médico diagnosticou. -Vossa
Alteza não poderá andar durante alguns dias nem montar por muito tempo. Foi
um milagre o acidente não ter tido consequências mais sérias.
-Eu preferia que o milagre fosse um pouquinho maior para não me deixar
sentir tanta dor – queixou-se o duque.
-Posso avaliar o que está sentindo. Logo o analgésico começará a fazer
efeito e a dor passará – o Dr. Barnes confortou o paciente.
O médico e o cirurgião enfaixaram o tórax do duque e deram os pontos no
grande corte da coxa. Quando deixaram o quarto, Alícia foi imediatamente ver
o pai.
-Não posso partir e deixar o senhor preso ao leito, papai! Nossa viagem a
Rasgrad deve ser cancelada – disse ela, chorosa.
-Você irá sem mim, filha. Tudo já foi providenciado e você não pode, no
último instante, desistir dessa viagem – o duque argumentou com firmeza. -O
barão, e a esposa e a condessa estarão à sua espera em Dover, amanhã.
-Sua Alteza Real que trate de adiar o casamento! Como posso partir,
sabendo que o senhor está mal?
-É claro que não estou mal. Sinto dor, mas isso vai passar. Estou em boas
mãos. Além dos médicos, sua tia e os criados cuidarão de mim. – o duque
sorriu antes de acrescentar: -Você é importante demais, querida, para não
estar presente ao próprio casamento.
-Se eu não estiver presente não haverá casamento – retrucou Alícia,
amuada.
-Você já imaginou o transtorno que será se você não aparecer para as bodas
solenes? Afinal, não é você quem está doente e sim eu, felizmente – ponderou
o duque.
-Felizmente?! Ora, papai, o senhor pode piorar e eu não me perdoarei por ter
partido.
-Não vou piorar e sim melhorar dia após dia até me restabelecer. Pode
acreditar que em pouco tempo voltarei a montar – o duque falou com otimismo.
-Pois eu não vou a Rasgrad sem o senhor! Não vou! – gritou Alícia.
O duque suspirou e fechou os olhos.
-É uma ordem real – murmurou. -Você nada pode fazer senão obedecer à
rainha. Agora, por favor, deixe-me descansar, filha. Volte mais tarde e então
sente-se do meu lado, querida.
Ao sair do quarto Alícia estava prestes a irromper em lágrimas. O Dr. Barnes
e o cirurgião achavam-se na sala falando com Lady Mary e Alícia perguntou
lhes:
-Papai vai se recuperar, não? Prometeram-me que o deixarão curado. Papai
sofrerá muito se não puder mais montar.
-É claro que ele ficará bom e voltará a montar – assegurou o Dr. Barnes. Virei
todas as manhãs ver Sua Alteza. Também vou providenciar uma enfermeira
excelente para cuidar dele. Ela começará o trabalho ainda esta noite.
Mais tranquila, Alícia despediu-se dos médicos e voltou para ver o pai.
Encontrou-o dormindo serenamente.
***
Era bem cedo quando Alícia, em prantos, despediu-se do pai. -Não fique
triste, minha querida – o duque tentou consolá-la. -Prometo vista-la assim que
estiver em condições de fazer essa longa viagem. Pode esperar-me. Bem
antes do que você imagina estarei em Selkiz.
-É uma promessa mesmo, papai?
-Certamente. Não costumo faltar à minha palavra.
-Por favor, tenha cuidado e não faça extravagâncias; assim ficará bom bem
depressa – recomendou Alícia, enxugando as lágrimas.- Estarei esperando
ansiosa pelo senhor.
-E eu contando os dias para ir vê-la em seu palácio.
***
Em Dover, Alícia detestou ter de despedir-se do secretário do pai a quem
conhecia desde menina. Foi difícil resistir à tentação de voltar para casa em
vez de embarcar no navio que a levaria a Calais.
Passou lhe pela cabeça que o barão de Gavrion não ousaria leva-la para
Rasgrad à força. Mais provavelmente ele lavaria as mãos e chegando a seu
país diria ao príncipe que sua noiva era uma inglesa impossível.
O barão, a esposa e a condessa ficaram penalizados quando souberam do
acidente do duque.
-Papai nunca sofreu um acidente antes. Foi um choque para todos nós.
Pensei em adiar o casamento – Alícia confessou.
-Oh, isto causaria um grande transtorno – observou o barão. _tudo já está
preparado para as bodas.
-Foi o que papai disse e insistiu para eu embarcar, mesmo sem ele. Vocês
devem compreender que eu queria muito ficar com papai.
-Compreendemos, naturalmente – assentiu o barão. -Mas Sua Alteza foi
sensato em aconselhá-la a partir, Lady Frederika. Se as bodas fossem
canceladas, por certo haveria sérios problemas em Rasgrad.
-O que o senhor quer dizer com isso? – Alícia indagou.
-Não me refiro apenas ao desapontamento do povo e sim a coisa muito mais
grave – respondeu o barão. -Sem a sua presença em Rasgrad a anunciada
aliança com a Inglaterra ficaria abalada e aqueles que se infiltraram no país
para causar tumultos, aproveitariam a oportunidade e colocariam o povo já
desapontado e inseguro contra o governo e as autoridades.
-Compreendo... – Alícia murmurou. -O senhor refere-se aos russos. Eles
costumam provocar agitações e depois tomam poder, alegando que precisam
restabelecer a lei e a ordem.
-Exatamente – anuiu o barão em tom grave.
A baronesa mostrou-se simpática e conversou muito com Alícia durante toda
a viagem. A condessa, porém, manteve-se calada a maior parte do tempo.
Alícia percebeu que ela tentava ser amável, mas, além de tímida e apática,
tinha dificuldade ou acanhamento de expressar-se em inglês.
Depois da travessia do Canal da Mancha a pequena comitiva da futura
princesa de Rasgrad embarcou no trem para Paris. Três vagões foram
reservados especialmente para eles, o acompanhante de viagem, a bagagem e
os criados.
De Paris a Trieste eles viajaram num expresso maior e mais confortável do
que o anterior.
-Eu gostaria que o Orient Express já estivesse pronto para poder viajar nele –
comentou Alícia. -Tenho lido muito sobre esse novo trem expresso que será
luxuoso e extremamente confortável.
-Foi o que comentei com meu marido – disse a baronesa. -Na minha opinião,
os trens que temos em Rasgrad são desconfortáveis, antiquados e devem ser
substituídos.
-Há coisas mais importantes e urgentes para serem feitas em Rasgrad –
rebateu o barão. -Trens luxuosos são muito caros. Além disso, você raramente
viaja nos nossos trens comuns.
-Para mim é muito importante viajar com conforto – insistiu a baronesa. -Se
não for assim, prefiro viajar de carruagem.
Alícia não quis dar sua opinião e arrependeu-se de ter falado sobre o Orient
Express. Afinal, a viagem não estava sendo desconfortável.
Ocorre-lhe que se Rasgrad ficasse à beira-mar eles estariam viajando em um
navio de guerra cedido pela rainha Vitória , o que seria muito mais emocionante
e confortável do que viajar de trem.
“Prefiro viagens por mar”, disse a sai mesma. “Os trens são substitutos
pobres dos navios”.
***
Finalmente, chegaram à última etapa da viagem. Numa estação que não
pareceu a Alícia muito importante, um funcionário saudou com entusiasmo a
futura princesa e sua pequena comitiva.
O acompanhante de viagem contratado pelo secretário do duque adiantou-se
para providenciar a transferência da volumosa bagagem para o trem especial,
enviado pelo príncipe Lintz. No grande vagão de luxo a eles reservado havia,
além de sala de estar com poltronas e um sofá, dois dormitórios e uma
pequena copa.
Alícia inspecionou o vagão e constatou com alegria que era parecido com o
construído especialmente para a rainha Vitória quando Sua Majestade visitara
a França. Naturalmente, ela ó havia lido sobre esse vagão e vira fotografias do
mesmo.
Como os dormitórios eram apenas dois, Alícia deduziu que a condessa
Udelana iria dormir no sofá. De fato, um criado providenciou para a condessa
um travesseiro e cobertores.
Outro criado apareceu, serviu-lhes champanhe e avisou que lhes ofereceria o
jantar na primeira estação onde haveria uma parada.
-Estamos viajando com muito conforto – disse Alícia, satisfeita.
-Este trem foi mandado especialmente para você, Lady Frederika. Ele é
reservado para a realeza, diplomatas e políticos muito importantes – informou o
barão. -Viajo nele ocasionalmente. Alegra-me vê-la contente com a viagem.
-Sim, está sendo uma viagem agradável. Quando eu escrever a meu pai vou
lhe contar o que ele está perdendo. É uma pena papai não estar conosco.
-Tenho certeza de que em breve o duque virá ao seu encontro, Lady
Frederika – disse a baronesa com simpatia.
-Receio que não será tão depressa – lamentou Alícia. O acompanhante de
viagem inglês despediu-se, pois seus serviços estavam encerrados e ele ia
tomar o próximo trem e voltar para a Inglaterra.
Como o trem continuava parado, o barão desceu e foi falar com o chefe da
estação para saber qual era o problema. Alícia acabou de tomar o champanhe
e, curiosa, foi até a janela.
Começava a escurecer; para sua surpresa, ela viu chegando apressados à
plataforma vários homens e um grupo de mulheres muito maquiladas e trajadas
de modo vistoso.
Aquelas pessoas pareciam inglesas e por sua agitação, Alícia deduziu, teriam
chegado atrasadas e receavam perder o trem para o qual correram e
embarcaram alvoroçadas num dos vagões.
Um cavalheiro de meia-idade foi o último a subir no vagão, pois estivera
supervisionando o embarque da bagagem que constava de vários baús,
engradados e caixas. Depois ele conversou com o chefe da estação e, por fim,
juntou-se ao grupo.
“Quem serão essas pessoas e por que embarcaram nesse trem?”, Alícia
questionou-se. “Se forem inglesas eu gostaria de conversar com elas. Quem
sabe poderei fazer isso na primeira parada”.
O pensamento a deixou tristonha. Lembrou-se do pai e, ao mesmo tempo,
sentiu medo do que estaria esperando por ela num país estranho.
“Se eu pudesse, desembarcaria e tomaria o trem de volta para casa, como
vai fazer o acompanhante de viagem”, pensou. “Tenho certeza de que o
príncipe Lintz não deseja casar comigo, da mesma forma que não o quero para
marido”.
Uma súbita sensação de pânico a invadiu. Aquela etapa da viagem indicava
que se separava do pai e de seu país para sempre. Se pelo menos estivesse
viajando com o pai não se sentiria tão só e abandonada. Ele certamente iria
contar histórias interessantes sobre os países pelos quais iam passando e
manteria todos alegres.
Não fosse o chefe da estação apitar e o trem começar a mover-se, Alícia
imaginou que teria desembarcado.
Estava escuro e ela não podia ver como era a paisagem. Pelo menos
distraiu-se admirando o céu estrelado. Como costumava fazer, olhou para uma
das estrelas e pediu pela sua felicidade naquele país estranho para onde
estava sendo levada.
Quando o trem ganhou velocidade, ela fechou a janela e decidiu ler o jornal
comprado na França ou um dos livros sobre a história dos Balcãs que
encontrara na biblioteca da Templeton Priory e trouxera consigo.
Mas era tal a sua angústia que achou impossível concentrar-se na leitura. A
condessa, sentada numa das poltronas, havia tirado o chapéu, enrolara-se num
cobertor e adormecera.
“Ela deve estar tão cansada que talvez não acorde para o jantar”, Alícia
pensou.
Como se lhe adivinhasse o pensamento, o barão informou:
-O trem partiu com atraso de quase uma hora e não iremos parar na estação
mais próxima para o jantar, como estava previsto. Mas o criado deixou
sanduíches, bolos e champanhe na despensa.
-Não estou com fome – disse Alícia cortesmente. -Sei que o trem demorou a
partir por causa daqueles passageiros que chagaram atrasados. Quem são
eles? Imaginei que seriam ingleses e se tomaram este trem especial, devem
estar indo para Selkiz.
-Exatamente. Todos pertencem a uma companhia de teatro que irá
apresentar-se no palácio e na cidade – respondeu o barão.
-Ah, são atores! – Alícia exclamou contente, pois teria chance de assistir um
espetáculo,, o que não pudera fazer em Londres.
-Sei que esse grupo apresentou um show de grande sucesso, o Belles de
Bellow, não só em Londres, mas também em Paris e outras capitais. O senhor
Bellow, dono da companhia, também é artista e o diretor do espetáculo.
-Trata-se de um espetáculo de dança?
-É um musical. Os bailarinos são excelentes e o pianista um verdadeiro
Gênio. O príncipe Lintz assistiu ao show em Paris e o apreciou muito. Agora
contratou os artistas para se apresentarem em Rasgrad. O Belles de Bellow
fará parte de vários outros eventos que abrilhantarão a semana das bodas
reais – esclareceu o barão. -Naturalmente, haverá no palácio uma
apresentação especial para você, Sua Alteza Real e alguns convidados.
***
Ainda não era muito tarde, mas Alícia quis ir para seu dormitório. Havia
comido dois sanduíches, um pedaço de bolo e tomado um pouco de
champanhe. Deixou o barão e a esposa conversando, pois eles pareciam ter
muito o que dizer um ao outro, uma vez que não tardariam a chegar a Selkiz.
Trocou o lindo vestido de noite por uma camisola e, como estava sentindo
frio, vestiu também um robe. Antes de se deitar ajoelhou-se para fazer suas
orações. Pedia a deus com fervor que a ajudasse, quando houve uma colisão
violenta.
O que aconteceu em seguida Alícia não saberia dizer. Teve apenas a
sensação de o teto desabar sobre sua cabeça e ficou inconsciente.
Capítulo IV
O trem parou, mas houve novas colisões. O que se seguiu foi um
pandemônio. Gritos, choro, gemidos e imprecações enchiam o ar.
Naquela completa escuridão era muito difícil alguém ver o que acontecera. O
Sr. Bellow parecia ser a única pessoa com a cabeça no lugar. Sua maior
preocupação foi saber se todos da sua companhia estavam bem.
Quando se certificou de que nenhum deles se machucara seriamente –
apenas um dos homens tivera um corte na testa – saiu do vagão no qual eles
viajavam. Constatou que o acidente fora entre três trens: o especial, um trem
de carga e um expresso de passageiros, sendo a maior parte deles, turistas.
***
William Bellow, ou simplesmente Bill Bellow, vivia no palco e do palco desde
menino. No começo da carreira viajava pelo interior da Inglaterra com uma
companhia circense que se apresentava em pequenas cidades.
Quando rapazinho, Bill passou a trabalhar como mágico, dançarino e cantor.
Seu grande talento levou-o a apresentar-se em espetáculos em Londres.
Pouco antes de completar quarenta anos ele já tinha sua própria companhia
de teatro e montava espetáculos musicais, todos eles muito apreciados pelo
público.
A companhia Bill Bellow era composta de bailarinos e cantores de ambos os
sexos, de dois comediantes, e de um conjunto musical formado de um pianista,
um violinista e um baterista.
O espetáculo mais recente de Bill era o Belles de Bellow que, depois de
longa temporada em Londres, apresentou-se em capitais e cidades importantes
do Continente e ficou muitos meses em Paris, onde fez mais sucesso do que
em qualquer outro lugar.
As artistas, além de talentosas eram muito bonitas, todas loiras de olhos
azuis, daí o nome do espetáculo: Belles de Bellow.
Muito inteligentes, os artistas aprenderam a falar francês, pois a França foi o
país onde ficara, mais tempo e onde mais brilharam. Sobre o espetáculo foi
escrito nos jornais: Belles de Bellow é o show mais encantador e alegre que a
Inglaterra já nos mandou.
***
Foi em Paris que o príncipe Lintz de Rasgrad viu o espetáculo Belles de
Bellow pela primeira vez. Ficou encantado com a riqueza do guarda-roupa,
com o talento dos artistas e com as belas mulheres escolhidas por Bill Bellow.
Pouco antes de deixar Selkiz o príncipe Lintz tivera uma reunião com todo o
ministério e depois de muitos argumentos sobre a ameaça representada pelos
russos e de muita pressão, Sua Alteza Real aceitara, resignado, a ideia de se
consultar a rainha Vitória sobre a possibilidade de haver para ele uma noiva
inglesa com sangue real.
A ideia de casar com uma desconhecida escolhida por terceiros, deixara-o
horrorizado. Enfim, pensando na segurança do país ao qual era devotado, ele
concordara com a ida do barão de Gavrion à Inglaterra.
Deprimido só de pensar que perderia a sua liberdade e talvez fosse infeliz
para sempre ao lado de uma esposa indesejada, Sua Alteza Real decidira
passar alguns dias divertindo-se em Paris.
Ao assistir ao espetáculo Belles de Bellow, encantou-se com as atrizes, a seu
ver as mais lindas mulheres que já conhecera. Com um vislumbre de
esperança, imaginou que talvez a noiva inglesa escolhida pela rainha Vitória
pelo menos se pareceria com uma das beldades de Bill Bellow.
Ao mesmo tempo, ele já viajara muito, estivera na Inglaterra três ou quatro
vezes e achava que as garotas inglesas casavam-se logo que debutavam e
eram em geral tolas, sem gosto e extremamente aborrecidas.
Antes de voltar para Selkiz, Sua Alteza Real passou um noite muito
agradável com uma das beldades de Bill Bellow e na noite seguinte ofereceu
um jantar para todo o elenco. Nesse jantar teve a ideia de convidar a
companhia para apresentar-se em Rasgrad. Não duvidou que o espetáculo
faria sucesso um tremendo em Selkiz.
Notando a hesitação de Bill Bellow, o príncipe chegou a convidar toda a
companhia para hospedar-se no palácio enquanto estivessem na Capital. Além
da estada, ofereceu uma soma generosa a Bill Bellow e prometeu pagar as
despesas com a viagem e o transporte de todo o equipamento.
No palácio de Selkiz havia um teatro privativo, construído pelo avô do
príncipe Lintz, o príncipe Alexis. Este, fizera uma visita à Rússia e ficara tão
impressionado ao ver que praticamente todo grande palácio russo tinha um
teatro, que ao chegar a Selkiz mandara construir o seu numa ala do palácio.
Embora achasse o seu teatro lindo, o príncipe Lintz nunca dera grande
importância ao mesmo, por ser pequeno. Ele era usado para a apresentação
de peças natalinas, para as solenidades de entrega de prêmios de uma escola
da qual ele era o patrono e raramente para concertos.
-Quando você partir de Rasgrad, poderá apresentar seu espetáculo na
Áustria – sugeriu o príncipe a Bill Bellow. -Os austríacos se vangloriam de ter
as mulheres mais lindas da Europa, mas asseguro que eles apreciarão suas
garotas.
O convite, a generosa oferta e os argumentos do príncipe convenceram Bill
Bellow a apresentar-se em Rasgrad, mesmo porque já ficara tempo demais em
Paris.
Se ali permanecesse corria o risco de perder uma de suas melhores cantoras
e dançarinas que estava mantendo um romance com um rico aristocrata
francês.
Um caso semelhante já acontecera na Inglaterra no ano anterior, quando a
mais linda de suas garotas, excelente dançarina e dona de uma voz
privilegiada, recebeu do amante milionário a proposta de deixar o teatro viver
sob sua “proteção”. A proposta foi recusada.
Para não perder a linda garota, o milionário ofereceu-lhe uma aliança de
casamento e quem a perdeu, claro, foi Bill Bellow, pois a estrela deixou a
companhia imediatamente.
Bill Bellow tivera grande dificuldade de encontrar uma substituta para a artista
que o deixara. Depois de entrevistar quase cem candidatas, encontrara,
finalmente, uma de nome Annie que era quase tão perfeita quanto a que se
fora.
Desde então Bill Bellow decidira viajar constantemente com sua companhia e
jamais se arrependera de ter tomado tal decisão.
É claro que as suas garotas, como ele chamava suas artistas, tornavam-se
amantes de homens ricos que as achavam irresistíveis. Porém os romances
terminavam quando a companhia seguia para outra cidade ou outro país
.***
A experiência de Bill Bellow com viagens e como dono de uma companhia
que dependia inteiramente dele, associada ao seu espírito de liderança,
fizeram com que ele se pusesse em ação para socorrer as pessoas feridas.
Reuniu os homens de sua companhia e todos saíram para a escuridão. Os
guarda-trens e outros funcionários pareciam em estado de choque e não
sabiam o que fazer.
Numa das locomotivas havia chamas e o fogo poderia propagar-se. Sem
perda de tempo, Bill Bellow deu ordens aos guardas, funcionários e todos os
homens que podiam andar, para retirarem dos vagões as pessoas feridas e
colocarem-nas no terreno gramado que ladeava a ferrovia, se possível
enroladas nos cobertores ou roupa de cama, pois havia um carro-leito no
expresso de passageiros.
Às suas atrizes, que ainda estavam trêmulas, Bill pediu para cuidar das
crianças e mulheres feridas ou em estado de choque.
Na sala de estar do vagão onde viajavam os acompanhantes de Alícia, três
corpos foram encontrados. O barão e a baronesa de Gavrion e a condessa
Udelana estavam mortos!
Dois homens de Bill Bellow entraram no dormitório e encontraram Alícia no
chão, inconsciente, e carregaram-na para a grama, tendo o cuidado de
enrolarem-na num cobertor.
Eles afastaram-se em seguida para acudir os feridos do trem de passageiros
que eram numerosos. Não tardaram a constatar que também havia algumas
pessoas mortas.
Pouco depois Bill Bellow viu um grupo de pessoas se aproximando. Era um
velho fazendeiro, dono daquelas terras, e vários empregados.
O velho gritou, furioso, ao ver o que havia acontecido em sua propriedade.
Bill Bellow ficou sabendo o que o velho falava um pouco francês e, com muita
calma, explicou que todos daquele trem especial estavam indo para o palácio
do príncipe Lintz, em Selkiz.
Por fim o fazendeiro cedeu seus empregados para ajudar a socorrer os
feridos e concordou em emprestar uma carroça, para levar até Selkiz, que
ficava a cinco milhas de distância, os passageiros do trem especial com a
condição de o Sr. Bellow informar no palácio o que acontecera e pedir para
mandarem com urgência uma equipe de socorro.
Porém, ele avisou, a bagagem que estava no vagão de carga, seria retirada
posteriormente. Na carroça cabia apenas as pessoas a bagagem que cada um
tinha consigo.
O velho afastou-se com dois de seus empregados e não demorou muito a
voltar com duas carroças bem grandes, de carregar gado para o mercado,
cada uma puxada por quatro cavalos. Todos os que iam para o palácio
acomodaram-se nas carroças, enrolados em cobertores que trouxeram do
trem.
-Annie não está aqui! – gritou Bill Bellow antes de as carroças partirem.
-Annie foi para a sua cabine pouco antes do acidente – lembrou uma das
garotas. -Deve ter ficado trancada lá dentro.
-Vou procura-la – prontificou-se um dos colegas.
-Eu o acompanho – o pianista ofereceu-se. -Deus queira que ela não esteja
ferida ou inconsciente.
-Eu bem que gostaria de ter ficado desacordada – disse uma garota de nome
Kathy.
-Só você mesmo para dizer um absurdo desses – criticou Liz, outra garota.
-E não tenho razão? Isto aqui está um verdadeiro inferno! Não sei por que
Bill decidiu trazer-nos para cá. Seria bem melhor se ficássemos em Paris –
Kathy reclamou.
-Se estamos aqui, devemos isso a você, Kathy – replicou Liz.
-A mim?! Por que diz isso?
-porque você estava namorando aquele comte e, com medo de perde-la, Bill
Bellow decidiu sair de Paris o quanto antes – alegou Liz.
Kathy deu uma risadinha e admitiu:
-Bem, pensei mesmo em deixar a companhia para ficar com o comte. Por
sorte descobri a tempo que ele tinha esposa e três filhos. Dessa forma nosso
“noivado” foi breve, se me entendem.
Todos riram.
Os dois colegas voltaram; um deles trazia enrolada num cobertor a garota
que julgava ser Annie e o outro uma grande mala de couro.
-Graças a Deus eles encontraram Annie – disse o baterista. -Agora podemos
partir.
-Ela não pode estar dormindo depois de tudo o que aconteceu – observou
Kathy.
-É mais provável que Annie esteja inconsciente – comentou uma outra
garota.
Bill, que acabava de chegar, olhou desolado para a cena trágica antes de
subir na carroça. Vários feridos e mortos estavam no chão, os trens haviam
descarrilhado e levaria alguns dias para as linhas serem desobstruídas.
Porém, tudo o que ele poderia fazer era chegar quanto antes a Selkiz e pedir
socorro. Dando a volta, subiu na primeira carroça e sentou-se no banco com o
empregado do fazendeiro; do seu lado sentou-se o pianista.
As carroças puseram-se em movimento. Ninguém da companhia de Bill
Bellow estava sabendo que a moça enrolada no cobertor era Alícia.
Annie, que se achava à janela no momento da colisão, tivera morte
instantânea ao ser atirada para fora do trem a jazia com outros corpos, na
grama.
***
As luzes das ruas da cidade e nas janelas das casas, depois da escuridão da
estradinha do campo, foram motivo de alegria para que os que viajavam nas
carroças.
Àquela hora da noite, as ruas estavam desertas. Por fim eles avistaram o
palácio no alto de uma colina, um prédio muito grande e majestoso.
Um dos guardas dos portões à frente do palácio ordenou aos cocheiros que
dessem a volta e entrassem pelos fundos. Mas um dos homens explicou quem
eram aquelas pessoas e todos foram levados para o interior do palácio.
Depois de muita movimentação um senhor sonolento que falava vários
idiomas, apareceu para dar as boas vindas aos recém-chegados. Desculpou-se
dizendo que deduzira que, se o trem especial não havia chegado no horário
previsto, era porque alguma coisa o atrasara e chegaria pela manhã.
Bill Bellow informou-o sobre o acidente e o homem, muito perturbado,
mandou um dos criados chamar imediatamente um oficial. Ordenou também
que os recém-chegados fossem levados a seus aposentos.
Um dos bailarinos subiu carregando Alícia enrolada no cobertor e colocou-a
na cama do quarto indicado pelo criado. Quando ia saindo, Bill Bellow
perguntou-lhe:
-Annie ainda não voltou a si?
-Ela dorme profundamente – o bailarino respondeu.
Aproximando-se da cama, Bill ergueu o cobertor e ficou pasmado. A garota
inconsciente era a mais linda que ele já vira na vida. Mas essa não era Annie!
depressa, ele segurou um dos braços da moça para sentir lhe o pulso. A
temperatura era normal e a pulsação regular. A garota não estava morta. Sem
saber o que fazer, Bill apagou as velas e saiu do quarto.
Era tarde demais para fazer perguntas ou para revelar a alguém o que ele
acabara de descobrir. Pela manhã ficaria sabendo o que acontecera. Uma
coisa era certa: uma de suas garotas havia desaparecido e no seu lugar estava
uma estranha.
A caminho de seu quarto, Bill Bellow encontrou o pianista que também ia
para a cama.
-Pelo menos estamos todos aqui – disse o pianista. –A julgar pelo número de
pessoas feridas ou mortas, tivemos muita sorte.
-houve muitas mortes? – Bill indagou.
-Parece que sim. Na sala de estar daquele vagão de luxo vi três pessoas
mortas. Certamente eram pessoas importantes, pois além de viajar naquele
vagão privativo, vi o modo como o chefe de estação estava tratando o
cavalheiro.
-Vi o casal de relance – disse Bill Bellow e despediu-se.
A seu ver, quanto menos falasse sobre o assunto, melhor. Entrou em seu
quarto pensando na linda garota e desejou que ela soubesse dançar e cantar
para poder emprega-la, pois Annie devia estar morta.
***
Era bem cedo quando Alícia acordou. Sentou-se na cama e olhou ao redor. A
claridade que entrava pelas laterais das cortinas permitiu-lhe ver bem o quarto
no qual se encontrava.
Que lugar estranho era aquele ela não saberia dizer. Também não se
lembrava do que havia acontecido.
“Devo estar sonhando”, pensou. “O que faço aqui? Como cheguei a este
lugar? Quem sou eu?”
Uma batida na porta sobressaltou-a. Ordenou que a pessoa entrasse e
surpreendeu-se ao ver um homem estranho, de meia-idade e expressão
bondosa.
-Bom dia – ele cumprimentou-a e aproximou-se da cama. -Está melhor?
-Eu... estava me perguntando por que... estou aqui – Alícia respondeu. -O
que... aconteceu?
-Houve um acidente no trem em que você viajava. Creio que você bateu a
cabeça em algum lugar e ficou inconsciente.
-Acidente? Por que eu estava no trem?
-Não faço ideia. Sei que, da mesma forma que eu e minha companhia de
teatro, você viajava nesse trem que se chocou com outros dois. Foi um
acidente horrível – informou Bill Bellow.
-Não me lembro de acidente nenhum – Alícia murmurou.
-Quem estava com você naquele vagão onde a encontraram?
-Quem? -Alícia estava cada vez mais confusa. -Não sei! Eu já disse que não
me lembro de ter viajado num trem e não sei por que estou aqui.
Bill Bellow sentou-se na beirada da cama e falou com bondade:
- Ouça, querida. Você parece estar sofrendo uma perda de memória
momentânea. Já vi isso acontecer antes e sei que se lembrará de tudo com o
tempo. Agora pense um pouco e me diga o seu nome.
Fez-se silêncio.
-Não consigo lembrar meu nome! – Alícia respondeu, exasperada, pouco
depois.
-Fique calma. Vou dizer alguns nomes, quem sabe você reconhece um deles:
Betty... Gertie... Mary...Gwen.
A cada nome que ele dizia devagar, Alícia meneava a cabeça.
-Bem, não se aborreça! Você sofreu uma concussão cerebral; imagino que
alguma coisa tenha batido em sua cabeça – Bill Bellow deduziu.
Alícia ergueu a mão e tocou pouco acima da testa.
-Sinto muita dor aqui.
-O teto do vagão no qual você viajava caiu e uma das traves deve ter batido
em sua cabeça – explicou Bill. -Mas não fique angustiada. Com o tempo você
irá lembrar-se de tudo.
-Para onde irei? Eu não posso, certamente, ficar neste lugar.
-Estamos no palácio do príncipe Lintz de Rasgrad.
-Não conheço o príncipe, nunca ouvi falar nesse nome. O que vim fazer neste
palácio?
Era o que Bill Bellow queria ouvir. Em seguida ele falou de modo persuasivo:
-Ouça o que lhe vou dizer: para seu bem, você deve ficar neste palácio até
recuperar a memória. Descanse e não se preocupe com nada. Agora só quero
que me responda: você sabe tocar piano ou cantar?
Alícia ficou pensativa, depois respondeu:
-Acho que sei tocar piano e tenho certeza de que sei cantar.
-Muito bem. É o que eu queria saber. Então descanse até sentir-se melhor –
Bill Bellow aconselhou-a.
-Mas... como posso ficar no palácio... se não fui convidada?
-Você está comigo – Bill tranquilizou-a. -Sou o dono de uma companhia de
teatro e vários artistas também estão nesse palácio. Entende o que eu digo?
Em resposta Alícia assentiu com a cabeça. Bill continuou:
-As garotas que trabalham comigo são muito bonitas. Sabe que você é linda?
-Sou? Não me lembro como é o meu rosto – Alícia falou com voz sumida.
-Bem, há espelhos neste quarto; basta olhar-se num deles. Agora vou pedir
seu breakfast. Quem sabe você irá sentir-se melhor depois de comer alguma
coisa. Mais tarde volto para conversarmos um pouco. -Bill levantou-se e antes
de sair recomendou: -Fique só no quarto e repouse depois do breakfast. Vou
pedir às outras garotas que não a perturbem.
Antes de Alícia poder perguntar quem eram as “garotas”, Bill Bellow havia
desaparecido.
“Ele falou que estamos em um palácio. Por que eu estaria em um palácio?”,
Alícia interpelou-se. “Não me lembro de ter estado em um palácio antes e não
quero ficar aqui”.
Por algum tempo ela tentou se lembrar o próprio nome e o de seus pais. Por
certo devia ter uma família. Tudo em vão. Sua mente estava nebulosa.
O estranho que entrara no quarto e sentara-se na cama mencionara um trem
e dissera que um pedaço de madeira devia ter batido em sua cabeça. Ela levou
a mão ao lugar dolorido e deitou-se novamente.
Só então percebeu que usava uma camisola e um robe.
“Não me lembro sequer de ter me trocado. Devo ter outras roupas”.
A criada que entrou com breakfast interrompeu as reflexões de Alícia.
-Muito obrigada – ela agradeceu quando a moça colocou a grande bandeja
sobre a mesa.
Sorridente, a criada disse algumas palavras numa língua estranha e saiu do
quarto.
“É tudo tão esquisito”, Alícia pensou.
Como estava faminta, levantou-se e viu o que havia na bandeja: croissants,
pão, mel, geleia e salsichas. Para beber havia leite e café. Alícia comeu um
pouco de tudo o que havia na bandeja e tomou uma xícara grande de café.
“Sinto-me bem melhor”, disse a si mesma, satisfeita. “Sei que logo vou me
lembrar quem sou e o que faço aqui”.
Houve nova batida à porta.
-Entre!
O mesmo homem com quem ela havia falado instantes atrás entrou no quarto
e quis saber:
-Está melhor?
-Sim, mas não sei como cheguei aqui nem quem sou -Alícia respondeu.
-Não se preocupe – Bill falou calmamente. -Sua memória voltará. Pode
acreditar em mim. Mas você deve ter um nome; vamos escolher um do seu
agrado, enquanto você não se lembra do verdadeiro. Tento sugerir nomes
bonitos para as minhas garotas, mas elas, em geral, preferem ser chamadas
pelo nome de batismo ou pelo apelido.
-Nem sei se tenho um apelido – Alícia retrucou.
Bill Bellow ficou pensativo.
-O que acha de chamar-se Vênus? – sugeriu pouco depois. -Assim como
está você parece uma deusa descida do Olimpo.
-Vênus... É bonito.
-Sim, Vênus, a deusa do amor. Você é linda! Pode ter certeza de que
despertará o amor das pessoas.
-Por que eu iria despertar o amor das pessoas?
Percebendo que Alícia era inocente, Bill achou melhor não entrar em
detalhes.
-Além de muito bonita você é meiga e as pessoas simpatizarão com você –
respondeu. -Mas agora quero ver se você sabe cantar, como disse ontem.
-Se eu falo, sou capaz de cantar – tornou Alícia com lógica.
-Nesse caso, vista-se depressa. Vou leva-la ao teatro para fazermos um teste
– Disse Bill Bellow.
-Eu não tenho roupas – alegou Alícia.
-Oh, que tolo sou eu! - Bill recriminou-se. -Uma das minhas garotas me disse
ainda há pouco que há no seu quarto um malão de couro que não pertence a
ninguém da companhia! Deve ser o seu. Vou ordenar que o tragam para este
quarto imediatamente.
-Obrigada. O senhor é muito amável. Oh, tudo o que eu quero é lembrar
quem sou!
-Enquanto sua memória não volta você será Vênus, como combinamos. Não
esqueça.
-Vênus... não esquecerei – murmurou Alícia sem entusiasmo.
Voltando ao quarto da garota onde estava a grande mala de couro, Bill
Bellow pegou-a, levou-a para o próprio quarto e examinou-a. Era um artigo de
luxo confeccionado com couro da melhor qualidade.
Ele procurou para ver se havia alguma etiqueta com o nome, mas viu apenas
as iniciais entrelaçadas: “DT”. De uma coisa ele não tinha dúvidas: a moça sem
memória era muito diferente das garotas que ele empregava.
Ao mesmo tempo, ela surgira no seu caminho como uma dádiva do céu e
seria um erro desprezar tal presente, quando ele lamentava ter perdido Annie,
a estrela do seu espetáculo.
“Mesmo que Vênus não cante, não dance, tampouco represente, adaptarei o
espetáculo para que ela pelo menos o enfeite com sua beleza”, Bill Bellow
decidiu.
Entretanto, sua intuição lhe dizia que a moça sabia cantar e muito bem. Se
fosse assim, o show não perderia o esplendor.
“Vou cruzar o dedos e esperar que o maná do céu caia sobre a minha
cabeça”, disse a si mesmo.
Bateram à porta e Bill foi atender. Era um nobre trajado com elegância.
-Senhor Bellow, sou o camareiro-mor – ele apresentou-se e apertou a mão
de Bill. -Já fui informado sobre o acidente e só posso pedir-lhe desculpas por
algo tão terrível ter acontecido logo à entrada do nosso país. Uma equipe de
resgate e vários voluntários estão trabalhando na ferrovia desde a madrugada
e já sabemos que a sua companhia perdeu uma das artistas. Ela será
enterrada aqui em Selkiz, a não ser que o senhor prefira que o corpo siga para
a Inglaterra.
-Será melhor mandarmos o corpo de Annie para a Inglaterra onde moram
seus parentes – Bill Bellow decidiu. Quantas pessoas morreram?
-Vinte e três. Entre elas, para o nosso profundo pesar, estavam o ministro
das relações exteriores de Rasgrad, barão de Gavrion, a esposa e a condessa
Udelana que acompanhava o casal.
-Oh, foi uma grande perda! Lamento muito – disse Bill Bellow, solidário.
-Uma perda grande, sem dúvida – concordou o camareiro-mor, consternado.
-O que nos deixou muito preocupados foi não termos encontrado nem entre os
feridos ou mortos a Lady inglesa que iria se casar com Sua Alteza Real. Ela
devia estar viajando com o barão, a baronesa e a condessa.
-Possivelmente a noiva de Sua Alteza Real não estava nesse trem – opinou
Bill Bellow.
-Foi a hipótese que levantamos. Vamos mandar um cabograma para saber
se a Lady em questão embarcou mesmo com nossos representantes e o pai.
Segundo informações que recebemos o pai devia acompanha-la. Nesse caso,
há ainda a possibilidade de pai e filha terem parado no caminho para visitar
amigos.
Notando o nervosismo do camareiro-mor, Bill Bellow falou com otimismo:
-A última hipótese é bem plausível. Certamente a noiva de Sua Alteza Real
aparecerá com o pai, amanhã ou depois. Quem sabe quis o destino que pai e
filha interrompessem a viagem, o que os livrou desse horrível acidente. Quem
sabe da morte.
-Queira Deus que ela esteja viva – o camareiro-mor suspirou.
-Devido ao luto, creio que não deve haver espetáculo algum no palácio –
opinou Bill Bellow.
-exatamente. Mas quem decidirá será o príncipe Lintz. Desejamos que o
senhor e seus artistas tenham conforto e sintam-se à vontade. Mais tarde Sua
Alteza Real poderá vê-lo, pois no momento está muitíssimo ocupado.
-Está bem. Obrigado.
Assim que o camareiro-mor afastou-se, Bill Bellow refletiu que a Lady que
todos procuravam talvez fosse a linda garota com amnésia. Portanto, ele devia
aguardar até que descobrissem se a noiva do príncipe Lintz estava mesmo no
trem especial.
Por outro lado, Bill Bellow considerou, se a garota fosse de fato a noiva de
Sua Alteza Real, seria muito atrevimento de sua parte coloca-la no espetáculo
com os seus artistas.
“Oh, não, a moça devia estar viajando com a mãe ou uma chaperon, a qual
se não morreu, está seriamente ferida”, ele raciocinou. “O que interessa é que,
estando sem memória, a garota é uma desconhecida e será útil para mim
enquanto durar a amnésia”.
A caminho do teatro, onde já estavam os músicos, Bill Bellow começou a
assobiar.
Afinal, a situação não era tão crítica como ele chegara a supor que seria.

Capítulo V
O príncipe Lintz estava sentado à sua escrivaninha quando um escudeiro
informou-lhe que o conselheiro encarregado de supervisionar os trabalhos no
local do acidente ferroviário, estava de volta.
-Traga-o à minha presença, imediatamente! – ordenou o príncipe.
Um aristocrata de idade, que ocupava uma posição importante no palácio,
entrou no gabinete e curvou-se.
- Bom dia – o príncipe saudou-o. -Quais são as novidades?
-Receio que não sejam boas, Alteza – respondeu o conselheiro.
-Por quê?
-Há um verdadeiro caos no local do acidente. Está sendo quase impossível
identificar os mortos...
-E a minha noiva? Ainda não a encontraram? – o príncipe perguntou,
ansioso, interrompendo o conselheiro.
-Não á sinal de Lady Frederika, Alteza. Falei com a polícia e os oficiais
enviados por Vossa Alteza Real para socorrer as vítimas e fui informado de que
entre os feridos ou mortos não há pessoa alguma cujo tipo físico e idade
confiram com o de Lady Frederika.
-Minha noiva não pode ter desaparecido no ar! Provavelmente está entre os
feridos.
-Bem, muitos ficaram feridos, outros perderam muito sangue e alguns
estavam inconscientes. Todos já foram levados para os dois melhores hospitais
da cidade. No entanto, não há entre eles nenhuma jovem inglesa com
dezenove anos – esclareceu o conselheiro. -Também fiquei sabendo que
várias pessoas em condições de andar saíram do local levando consigo o que
puderam. Algumas foram encontradas no bosque e outras desapareceram.
-O príncipe levou a mão à testa.
-Como ficou o vagão no qual minha noiva e seus acompanhantes viajavam?
Não há possibilidade de ela estar caída sob escombros ou algum móvel?
-Esse vagão foi o mais atingido pelo trem de carga. A lateral e o teto
desabaram. Mas tudo foi revisado e só foram encontradas as três pessoas
mortas.
-Que tragédia! Se Lady Frederika estava no mesmo vagão com o ministro, a
esposa e a condessa, ela não deve ter escapado com vida... – conjeturou o
príncipe.
-Como já disse, Alteza, entre os mortos ela não está – enfatizou o
conselheiro. -tampouco entre os feridos.
-Bem, seria embaraçoso e alarmante eu escrever à rainha Vitória dizendo
que a noiva que ela mandou para mim, desapareceu antes de chegar ao
palácio – murmurou o príncipe como se falasse consigo mesmo.
-Bem, Alteza, não podemos descartar a possibilidade de Lady Frederika ter
se afastado do local do acidente sozinha ou com alguém e ter batido à porta de
uma família de sitiantes que bondosamente lhe deu acolhida – o conselheiro
levantou a hipótese.
-Não é uma hipótese impossível, mas não acredito que isso tenha acontecido
– o príncipe tamborilou nervosamente os dedos sobre a escrivaninha.
-Creio que a melhor coisa a fazer é esperar. Eu só dei uma volta pelos
hospitais e falei com as pessoas da equipe de socorro e com a polícia. Mas vou
fazer novas investigações. Sei que vou encontrar os feridos limpos, e bem
tratados, possíveis de serem reconhecidos e também em condições de falar.
-Ainda há feridos deitados no chão?
-Acredito que a esta hora todos já tenham sido levados para os hospitais –
respondeu o conselheiro. -Vossa Alteza Real nem pode avaliar as proporções
da tragédia! Foi um choque com três trens, imagine! Um deles era o especial,
ou outro um trem de carga e o terceiro um expresso lotado de passageiros, a
maior parte deles em viagem de férias.
-O que significa que no expresso havia pessoas de todas as partes da
Europa – ponderou o príncipe. -Não creio que possamos impedir que a notícia
do acidente se espalhe pelo continente. Mas exijo o maior sigilo sobre o
desaparecimento da noiva enviada pela rainha Vitória. Os russos não podem
saber disso. Se souberem, aceitarão o acidente como um presente dos deuses
e se torarão tão agressivos quanto possível.
-É o que também receio, Alteza – tornou o conselheiro. -Os russos estão à
espreita e na primeira oportunidade se infiltrarão no país de tal modo que não
teremos como combate-los. Não se preocupe, Alteza, o que lhe revelei será
mantido em segredo.
-Espero que sim. Vamos aguardar. Foi providencial não termos divulgado a
data em que Lady Frederika chegaria e quando ela aparecer será uma
agradável surpresa – raciocinou o príncipe.
-É claro que todo gabinete e várias pessoas no palácio foram informados que
Lady Frederika iria chegar nesse trem especial. Fora do palácio, no entanto,
tudo o que sabem é que Vossa Alteza Real aguardava para breve sua noiva
inglesa.
-Já ordenei a todos que guardem segredo. Mas há outro detalhe que
podemos usar a nosso favor: chegou-nos poucos dias atrás um cabograma
avisando que o duque não acompanharia a filha. Se não estou enganado ele
sofreu um acidente enquanto cavalgava – lembrou o príncipe. -Portanto, e
alguém se mostrar curioso, podemos dizer que Lady Frederika adiou a viagem
para ficar com o pai.
-Sim, para todos os efeitos foi o que aconteceu. Mas o importante é falarmos
o menos possível sobre Lady Frederika até sabermos onde ela se encontra.
Quanto menos especulação houver sobre se ela já está a caminho de Rasgrad
ou se ainda se encontra na Inglaterra, melhor – observou o conselheiro.
-Tem toda razão. Como sabemos, o meu casamento com uma inglesa
representa a segurança deste país.
-Para o povo esquecer a noiva inglesa e o casamento, Vossa Alteza deve
fazer um pronunciamento expressando seu profundo pesar pela catástrofe e
quanto lamenta a morte do ministro das relações exteriores. Isto dará ao povo
o que falar por algum tempo – sugeriu o conselheiro.
-É o que farei. Também vou visitar os hospitais, demonstrando assim,
publicamente, o meu pesar e a minha solidariedade.
-Vossa Alteza real está certo. Nenhum outro gesto pode ser tão simpático –
aprovou o conselheiro. -Vossa Alteza Real também deve ir ao local do
acidente.
-É claro que vou até lá! Estou muito interessado em ver de perto o que
aconteceu – o príncipe falou em tom severo. -Jamais houve tragédia
semelhante em Rasgrad e os responsáveis serão punidos. Um acidente de tais
proporções tinha de acontecer justamente às vésperas do meu casamento,
quando estou tentando tornar o país mais forte, fazendo uma aliança com a
Inglaterra!
-Diante da reação do príncipe, o conselheiro achou mais prudente encerrar a
audiência. Antes de sair, informou:
-Vou redigir uma nota à imprensa. Mencionarei que Vossa Alteza Real
lamenta profundamente o que aconteceu e já tomou providências para apurar
quais foram as causas do acidente e quais os responsáveis pelo mesmo. Darei
a menor ênfase possível ao número de vítimas.
-Faça isso. Você sabe como tornar a notícia menos chocante. Mas posso
afirmar que há no local um grande número de repórteres dispostos a explorar a
tragédia ao máximo.
-Realmente; não podemos impedi-los de relatar aos leitores tudo o que
acontece; é a profissão deles. Mas se Vossa Alteza Real visitar o local do
acidente, a imprensa falará mais sobre o que Vossa Alteza Real tiver a declarar
do que sobre a tragédia em si – argumentou o conselheiro.
-Muito em breve. Providencie uma escolta para estar tarde e verifique se os
hospitais, como sempre, estão atendendo bem os feridos e dando-lhes toda a
assistência – ordenou o príncipe. -É claro que enviarei uma carta de
condolências às famílias dos que morreram e todas elas também receberão
seguro.
-Será tudo providenciado, Alteza – asseverou o conselheiro, afastando-se.
Da porta fez uma reverência e deixou o gabinete.
Assim que ficou sozinho, o príncipe abaixou a cabeça e levou as mãos às
têmporas.
Havia lutado com determinação contra a ideia de se casar com uma moça
que, além de ser de outro país, seria escolhida para ele pela rainha Vitória.
Isso já acontecera em outros principados vizinhos e ele achara ridículo um
soberano ser forçado a hastear a bandeira do Reino Unido em seu palácio para
manter a segurança e a integridade de sua nação.
Ao mesmo tempo, fora obrigado a aceitar, por decisão de todo o ministério e
de grande número de autoridades, inclusive de generais do Exército, uma noiva
escolhida por Sua Majestade. Todos asseguravam que Rasgrad só ficaria
protegido das forças do czar se contasse com o apoio da Grã-Bretanha.
Aos vinte e sete anos, o príncipe Lintz queria divertir-se e era o que vinha
fazendo, não apenas em seu país, mas nas grandes capitais da Europa, sendo
Paris a sua preferência.
Ali ele encontrava as mulheres mais belas, mais ardentes e sedutoras que
um homem poderia desejar.
Em sua última viagem à França ele assistira ao espetáculo Belles de Bellow e
ficara tão maravilhado com o elenco que, não apenas fora ao teatro noite após
noite para rever a apresentação, como também oferecera um jantar a todos os
artistas antes de regressar a Rasgrad.
Durante o jantar ele tivera a ideia de convidar toda a companhia de Bill
Bellow para ir a Rasgrad e apresentar-se em Selkiz como parte das
festividades do seu casamento.
A julgar pelas outras mulheres inglesas que ele conhecera, o príncipe Lintz
tinha certeza de que sua noiva seria formal, muito séria, respeitável e
reservada, com quem ele pouco teria o que conversar.
Na verdade, ele havia estudado em Oxford, visitara a Inglaterra algumas
vezes e nunca sentia-se à vontade naquele país. Só ficava realmente
entusiasmado ao assistir às corridas em Ascot.
Estivera no castelo de Windsor quatro anos atrás e achara a rainha Vitória
severa e amedrontadora, a pompa no castelo cansativa e os aristocratas
arrogantes.
Ao convidar a companhia de Bill Bellow para apresentar-se no seu palácio e
em Selkiz, o príncipe Lintz pensou em agradar a noiva inglesa, uma vez que
todos os artistas eram ingleses.
Entretanto, se Lady Frederika estivesse morta, o correto seria dispensar a
companhia. O príncipe então decidiu propor a Bill Bellow para apresentar o
espetáculo só para ele antes de partir de Rasgrad.
Ele tocou chamando um escudeiro e ordenou-lhe:
-Avise o senhor Bellow que ele pode ensaiar à vontade no teatro, mas a data
do espetáculo ainda não deve ser marcada devido ao acidente de trens. Diga
também que há carruagens à disposição de toda a companhia para conhecer a
cidade.
Lembrando-se que sendo ingleses os homens e mulheres da companhia de
Bill Bellow certamente gostavam de montar, o príncipe acrescentou:
-Se eles quiserem cavalgar, há vários cavalos nas baias.
Tão logo o escudeiro saiu para executar as ordens, o príncipe mandou
chamar o oficial encarregado da segurança do palácio.
-Providencie uma escolta para eu visitar o local do acidente ferroviário esta
tarde – ordenou o príncipe. -Nada de muito aparato ou muita gente para não
chamarmos a atenção. Só quero segurança.
-O conselheiro já me falou sobre a escolta, Alteza – disse o oficial. -Foi um
acidente de grandes proporções. O pior que já vi.
-Sim, estou sabendo disso. Mas temos de fazer o menor alarde possível
sobre esta tragédia. Sabemos que os russos estão alertas à espera de toda e
qualquer oportunidade para nos criar problemas – observou o príncipe,
preocupado.
-Tem razão, Alteza
.***
Pouco antes do almoço o príncipe foi ao teatro falar com Bill Bellow e rever
Belles.
O teatro do palácio, construído pelo príncipe Alexis, avô do príncipe Lintz,
apesar de pequeno, era lindo e luxuoso. De ambos os lados do palco ficavam
os camarotes reais.
Havia mais seis camarotes e o auditório comportava sessenta pessoas.
Todos os camarotes eram entalhados e pintados de azul com detalhes
dourados. As confortáveis cadeiras eram estofadas de veludo também azul.
Os painéis ao fundo e nas fileiras do palco eram obras de vários pintores
europeus que haviam visitado Selkiz.
O príncipe Lintz tinha orgulho de seu teatro, a seu ver o mais luxuoso de
todos os que ele conhecia.
Do corredor ele ouviu a música alegre que animava o espetáculo e sentiu que
precisava mesmo de algo para fazê-lo esquecer por um momento aquela
manhã funesta.
Para não interromper o ensaio, o príncipe sentou-se numa das cadeiras da
última fila e ficou observando os artistas. Já conhecia o número que estava
sendo ensaiado, mas para ele era sempre um prazer ver a desenvoltura dos
bailarinos e apreciar a beleza das mulheres.
Sem dúvida todos eram brilhantes. Sentado do lado do palco Bill Bellow
dirigia os artistas. Ao término do número, ele levantou-se e bateu palmas.
-Excelente! Quanto a você, Betty, não se esqueça de erguer bem a perna
como acaba de fazer. Acompanhe Gertie que é sempre perfeita. Todos estão
dispensados. Agora podem sentar-se; vou pedir a Vênus que cante para nós.
Ao ouvir o nome o príncipe ficou curioso. Não se lembrava de haver na
companhia uma garota com esse nome. Quando a moça apareceu no centro
do palco ele julgou estar sonhando. Aquela era a garota mais linda que já vira
em toda a vida.
Com certeza Vênus era novata, pois se ele a tivesse visto em Paris não a
esqueceria. Como poderia esquecer uma jovem com tanta graça, com aquele
rosto e um corpo tão perfeito?
Inegavelmente as Belles eram todas lindas, mas a jovem chamada Vênus
certamente merecia ter esse nome, pois parecia uma deusa do Olimpo.
Receando não estar enxergando bem devido a distância, o príncipe teve
vontade de ir para bem perto do palco. Resistiu ao impulso e prestou atenção à
jovem desconhecida.
-Já pensou na canção que irá cantar para nós? – Bill Bellow perguntou a
Vênus.
-Tentei me lembrar de uma canção e a que me ocorreu foi A Canção do
Salgueiro – Alícia respondeu e cantarolou o primeiro verso da canção. -Espero
que alguém saiba tocar a música.
-É claro que vocês conhecem a melodia, não é mesmo, rapazes? – disse Bill
Bellow indo para o canto do palco onde estavam os músicos.
-Conheço a canção, mas nunca toquei – respondeu o pianista. -É bem antiga.
-Essa é uma canção shakespeariana – expôs o violinista. -Também nunca a
executei.
Fez-se um instante de silêncio.
-Se vocês quiserem posso sentar-me ao piano e tentar executar a melodia –
Alícia sugeriu.
-Claro! Tente! Acredito que você seja capaz – Bill Bellow incentivou-a.
O pianista levantou-se do banquinho e Alícia ocupou seu lugar. À luz das
velas que iluminavam o palco, ela estava ainda mais linda, pois seus cabelos
longos e soltos refulgiam como se feitos de fios de ouro.
Fascinado com tanta beleza, o príncipe disse a si mesmo que nunca vira
alguém tão adorável. No mesmo instante ocorreu-lhe que se ele chegasse mais
perto se decepcionaria, pois Vênus não seria tão bela quanto parecia a
distância. E aquela cabeleira extraordinária só podia ser falsa. A garota devia
estar usando uma peruca.
Sentada ao piano, Alícia passou a mão pelo teclado e teve a nítida lembrança
de ter tocado piano numa sala, em algum lugar. Tentou forçar a memória, mas
como Bill Bellow e os artistas estavam esperando, começou a tocar e a cantar.
Sua voz era maviosa que o príncipe e os artistas ouviram-na enlevados. Bill
Bellow parecia ter perdido a fala. A garota possuía uma voz mágica que tocava
o fundo da alma do ouvinte. Quando ela terminou Bill perguntou:
-Com quem você teve aulas de canto?
-Eu... não me lembro – Alícia respondeu. -Mas... cantei... bem?
-Muitíssimo bem! – elogiou Bill Bellow.
Por pouco o príncipe não foi até o palco para dizer a Vênus que ela cantara
divinamente. Além de linda, Vênus possuía a mais bela voz que ele já ouvira.
-Eu gostaria que você cantasse uma outra canção – pediu Bill Bellow. Se não
se lembrar, repita essa mesma e o violinista tentará acompanha-la. Não é
Gertie?
-Acredito que sim – disse Gertie. -Mas, na minha opinião, está perfeito com o
acompanhamento da própria Vênus.
-Concordo com você, porém o público talvez ache monótono só o
acompanhamento do piano. O som do violino dará mais vida à melodia – expôs
Bill.
-Deixe Vênus sozinha no seu número, Bill – sugeriu o pianista. Afirmo que irá
agradar ao público. A garota tem talento.
Sua Alteza Real pensou em aplaudir a sugestão do pianista, mas achou que
seria melhor não interferir. O que ele queria realmente era conhecer a cantora
e ver se de perto era tão linda quanto parecia de longe.
A outra canção que Alícia tocou e cantou era mais alegre, atual e bem
conhecida. Garotos costumavam assobia-la nas ruas e as pessoas
cantarolavam-na a todo instante.
Quando ela cantou o refrão pela segunda vez, os artistas e o próprio Bill
fizeram coro com ela. Até o príncipe ficou contagiado e repetiu mentalmente a
melodia.
-Bem, só consegui lembrar essas duas canções – Alícia declarou quando
parou de tocar a cantar.
-É mais do que suficiente! Seu número agradará a todos! – alegrou-se Bill
Bellow.
-Sem dúvida. Você é uma artista de grande talento – elogiou Betty.
-Será verdade? – Alícia duvidou.
-Claro que sim! – enfatizou Bill Bellow. -Pode acreditar que todos os que
frequentam os teatros em Londres lamentam por você tê-los deixado. Agora
você é uma as Belles de Bellow e estamos contentes de tê-la conosco.
-É uma pena que eu só me recorde de duas canções – Alícia lamentou. -Com
o tempo espero me lembrar de outras.
-Como eu já lhe disse, sua memória irá voltando aos poucos – disse Bill
Bellow com convicção. -Agora vamos ensaiar o número de dança e quero que
você preste atenção às garotas. Quem sabe você também é capaz de dançar
como elas. Sente-se aqui.
Bill Bellow puxou uma cadeira para a frente do palco e Alícia sentou-se ,
obediente.
Os músicos se prepararam para tocar e os bailarinos tomaram suas
posições. Antes que eles começassem a ensaiar o príncipe se levantou para ir
até o palco.
-Alteza! – Bill Bellow exclamou ao vê-lo. -Não notei que Vossa Alteza Real
estava assistindo ao ensaio.
-Sentei-me ali atrás para não interrompê-los. É um prazer revê-lo e rever sua
companhia – disse o príncipe subindo no palco e apertando a mão de Bill
Bellow, enquanto as moças, surpresas, lhe faziam uma mesura. -Vejo que
vocês nada sofreram nesse terrível acidente.
-Tivemos sorte – Bill Bellow apressou-se em dizer. -Estamos ensaiando e
esperamos poder alegrar Vossa Alteza Real.
-Talvez vocês não estejam dispostos a apresentar o espetáculo esta noite. É
natural que prefiram adiá-lo por um ou dois dias.
-Temos condições de apresenta-lo esta noite, claro, Alteza. Nós artistas,
sempre achamos melhor estar fazendo nosso trabalho do que ficar sentados
pensando no que aconteceu – disse Bill.
-Haverá poucas pessoas presentes esta noite. Mas agora quero
cumprimentar as garotas que conheci em Paris.
Assim dizendo, o príncipe voltou-se para falar com as moças. Repetiu que
estava feliz em recebe-las em seu país.
-Damos graças a Deus por estarmos bem – disse Gertie. -Foi um acidente
horrível.
Percebendo que o príncipe não estava a par da morte de Annie, Bill Bellow
preferiu que ele continuasse ignorando o fato. Dessa forma ele não precisaria
mencionar que Vênus era sua substituta.
O príncipe apertou a mão de todos os artistas e olhou para Vênus que estava
de pé, do lado da cadeira à qual estivera sentada.
-Não me lembro desta artista. Ela deve ser nova na companhia – observou o
príncipe.
-De fato. Seu nome é Vênus, Alteza. O acidente deixou-a muito abalada e ela
está com dificuldade de lembrar seu papel – explicou Bill Bellow.
-Compreendo – o príncipe murmurou.
Estava olhando maravilhado para Alícia, pois constatava que de perto ela era
ainda mais encantadora do que a distância. Sua pele rosada era perfeita e os
grandes olhos intensamente azuis que lembravam o céu de uma tarde de verão
pareciam iluminar lhe o rosto todo.
Oh, seus cabelos! Certamente não eram os de uma peruca. Tinham o brilho
do ouro mais puro e emolduravam graciosamente, como uma auréola de luz,
aquele rosto angelical.
-Espero que você goste de meu país – disse o príncipe em voz alta. -Não
deixe Bill Bellow obriga-la a trabalhar demais. Coloquei à disposição de todos
algumas carruagens e há também cavalos para quem goste de montar.
-Cavalos! – Alícia exclamou. -Adoro cavalgar e tenho certeza de que os
cavalos de Vossa Alteza Real são extraordinários.
-Eu, pelo menos, os considero os melhores que há. Tenho campeões que
venceram várias corridas aqui em Rasgrad. Talvez você me de ache
presunçoso, mas pretendo inscrever meus campeões em corridas da
Inglaterra.
-Se Vossa Alteza Real permitir, eu gostaria de montar um dos cavalos.
Posso? – Alícia perguntou.
-Quando quiser. Aconselho-a a ir vê-los nas baias depois do ensaio,. Aliás o
convite é extensivo a todos – disse o príncipe olhando para as moças e os
rapazes. -Vocês podem cavalgar nas estepes que há atrás do palácio. O lugar
é lindo e nada mais agradável do que um passeio a cavalo pela manhã.
Todos agradeceram , mas foi Alícia quem se mostrou mais entusiasmada.
-Irei ver os cavalos na primeira oportunidade – disse ela.
-Percebi que você entende de cavalos e não duvido que monte bem. Sobra
lhe tempo para cavalgar, trabalhando no teatro? Você costumava ir ao Hyde
Park quando estava em Londres? – quis saber o príncipe.
-Hyde Park? – Alícia repetiu, pensativa.
Recordando o que Bill Bellow havia dito sobre Vênus estar com dificuldade
de lembrar-se até do seu papel, o príncipe não insistiu. Tudo o que queria era
ficar mais tempo com a nova artista, pois ela o intrigava.
-Proponho que esta noite vocês apresentem o espetáculo para mim e talvez
dois ou três convidados – disse ele a Bill Bellow. -Após o espetáculo vou
oferecer um jantar a todos.
-É muita bondade de Vossa Alteza Real! – Bill Bellow exclamou. -Em nome
de minha companhia agradeço o privilégio.
-Não se trata de um privilégio – corrigiu o príncipe, sorrindo. -Vocês pagarão
pelo jantar apresentando-me um brilhante show, às sete. Naturalmente, todos
estão exaustos e abalados depois da lamentável experiência de ontem à noite.
Portanto, sugiro que seja um espetáculo rápido. O jantar será às oito e meia.
O príncipe deixou o palco e Bill Bellow acompanhou-o até a porta do teatro.
-Voltarei às sete. Estarei contando as horas – disse o príncipe, afastando-se.
A caminho da sala de jantar ele ia pensando que Vênus era diferente das
outras Belles. Estas eram lindas e Vênus era excepcionalmente bela. Em
termos de comparação ela era como um diamante raro e as colegas pedras
semipreciosas.
“Onde teria Bill Bellow encontrado essa garota?”, o príncipe perguntou a si
mesmo, mentalmente. “Bill é um homem de muita sorte. Todos da companhia
estão bem a bagagem chegou em perfeito estado”.
Bill Bellow voltou para o palco e Gertie comentou:
-Bem, Vênus mostrou-nos que tem talento, Bill, mas Sua Alteza Real espera
de uma de suas garotas bem mais do que algumas canções!
-Era nisso que eu estava pensando – Bill admitiu. -Vamos ver se Vênus sabe
dançar.
Alícia riu.
-Sei dançar, claro, mas não como voc6es. Só aprendi danças de salão.
de repente Alícia questionou-se, confusa:
-Como me lembrei disso? Que salão seria esse? Onde seria?
***
À mesa do almoço o príncipe ficou sabendo que um morador de Selkiz
perdera a mulher e a filha no acidente e ouro cidadão corria o risco de ter a
perna amputada.
-Quero uma lista de todos os feridos e mortos – pediu o príncipe a um dos
escudeiros. -Escreverei a todos que estão sofrendo devido a este acidente. É
muito importante que ninguém deixe de ser mencionado nessa relação.
-A lista já está pronta, Alteza – informou o escudeiro. -Só faltam os nomes
daqueles cujos corpos ficaram queimados.
Um calafrio percorreu o corpo do príncipe.
-Não quero falar sobre isso – disse.
Pensou nas garotas de Bill Bellow, tão lindas, e disse a si mesmo que a
tragédia teria sido ainda pior se elas ficassem deformadas ou aleijadas por
causa do acidente.
Naturalmente, a notícia da morte do ministro das relações exteriores, da
esposa e da condessa Udelana, sua parente, deixaram-no arrasado. Pelo
menos, o príncipe pensou, tentando conformar-se, o barão e a esposa tinham
vivido até os sessenta anos e sempre foram bem sucedidos. Quanto à
condessa, alcançara a meia idade, ficara viúva e não tinha filhos.
Sem poder evita-lo, o príncipe pensou em Vênus. Ela era tão linda, tão jovem
e tinha um rosto angelical.
Ele podia afirmar que Vênus era pura e inocente. O palco não era o seu
lugar!

Capítulo VI
A tarde estava linda. Na carruagem, com sua escolta, dirigindo-se para o
local onde se dera o acidente ferroviário, o príncipe Lintz sentia alegria de viver.
Era verdade que a tragédia enlutara o país, mas, ele refletiu, é em face à
morte que se dá valor à vida.
O príncipe amava seu país, rico e belo, com altas montanhas, grandes rios,
vales férteis e muitas milhas de estepes, pradaria e matas. Grande parte
desses terrenos ele desejava que fosse preservada como reservas naturais.
Quando o sol brilhava sobre os campos cobertos de flores e sobre os picos
nevados das montanhas, ele reconhecia, era natural que as pessoas sentissem
vontade de cantar.
O que estava deixando o príncipe intrigado era o fato de não ter havido, até o
momento, sinal de Lady Frederika. Averiguações e buscas haviam sido feitas e
ela não fora encontrada entre os feridos, nem entre os mortos e tampouco fora
socorrida por fazendeiros e sitiantes das redondezas.
Pelo menos, considerou, como não tinha que dar atenção à noiva, poderia
concentrar-se nos sérios problemas decorrentes da catástrofe.
O local da tragédia impressionou Sua Alteza real. A colisão dos três trens
havia sido muito pior do que ele imaginara. Fora um verdadeiro milagre Bill
Bellow e seus artistas nada terem sofrido.
O trem de carga pegara fogo e toda a mercadoria se perdera.
Ao ver o príncipe, o oficial que comandava a equipe de socorro informou-o:
-A bagagem de Lady Frederika Templeton foi encontrada, Alteza.
-Sua bagagem! – repetiu o príncipe, atônito.
-Sim, Alteza. Um grande número de baús e malas estavam empilhados no
último vagão do trem especial, juntamente com a bagagem do ministro, da
condessa e parte da bagagem dos artistas. Nada foi danificado. O primeiro
vagão ficou praticamente destruído, como Vossa Alteza Real pode ver; o
segundo, onde viajavam os criados também sofreu sérios danos e os dois
últimos, onde estavam os artistas e toda a bagagem quase não foram atingidos
– relatou o oficial.
-Você tem certeza de que ninguém cometeu algum engano ao identificar as
pessoas mortas ou feridas? – perguntou o príncipe.
-Afirmo que nenhuma pessoa com as características de Lady Frederika foi
encontrada entre os mortos ou feridos – respondeu o oficial com firmeza.
-Deve haver algum corpo entre os escombros, sob um móvel, tábuas ou
mesmo sob um desses vagões que tombaram – insistiu o príncipe.
-Só resta saber se alguém ficou sob um dos vagões, o que acho impossível.
O serviço de remoção dos trens já está começando. Vamos aguardar. Até
amanhã as linhas estarão desobstruídas.
Era inútil continuar interrogando o oficial e o príncipe foi até os hospitais. Não
encontrou jovem alguma bonita como o barão de Gavrion havia dito que era a
noiva inglesa escolhida pela rainha Vitória, nem com a idade de dezenove
anos.
Mesmo assim, o príncipe fez questão de interrogar todas as pessoas que
tinham condições de falar, na esperança de obter alguma informação.
Sua Alteza Real voltou muito confuso para o palácio. Se Lady Frederika não
estava morta nem ferida, ele refletiu, e sua bagagem fora encontrada no trem,
ou ela teria desistido de embarcar no último momento devido ao estado de
saúde do pai, deixando a bagagem aos cuidados do barão de Gavrion, ou
embarcara e, no meio do caminho, tendo recebido a notícia de que o pai havia
piorado ou até morrido, ela voltara para casa imediatamente com o
acompanhante de viagem e talvez uma criada pessoal.
O príncipe suspirou. As pessoas que poderiam dar informações sobre Lady
Frederika estavam mortas ou, no caso dos criados, muito feridas, correndo
perigo de vida.
Quanto mais refletia, mais ficava convencido de que Lady Frederika não se
encontrava no trem especial no momento da colisão. Agora devia esperar
alguns dias para receber notícias da Inglaterra.
caso não recebesse notícia alguma, mandaria, sem alarde, um representante
à Inglaterra para falar pessoalmente com a Sua Majestade.
Aquela incerteza o exasperava. Mas o que posso fazer?
“Vou dar tempo ao tempo”, pensou ele, com um suspiro de resignação. “Sei
que haverá especulações sobre o casamento e sobre a noiva inglesa enviada
pela rainha Vitória, mas tudo o que posso fazer é anunciar que o casamento
será adiado por motivo de luto. Nesse interim alguma coisa pode acontecer.
***
À frente do palácio um grande número de pessoas, entre elas repórteres e
políticos, aguardava a chegada do príncipe Lintz.
Mal Sua Alteza Real desceu da carruagem os repórteres fizeram-lhe
inúmeras perguntas. Todos queriam saber com detalhes o que havia
acontecido e se queixaram de não poder entrevistar os feridos, médicos,
enfermeiros ou tirar fotografias.
Calmamente o príncipe reiterou que estavam realmente proibidas as
entrevistas com os feridos ou quaisquer funcionários dos hospitais, bem como
fotos.
Pediu aos repórteres que respeitassem a dos feridos, dos que estavam de
luto e aguardassem; as notas à imprensa estavam sendo redigidas. Ainda era
cedo para eles saberem com exatidão o número dos feridos, mortos, enfim, as
proporções da tragédia.
Um repórter mais ousado perguntou:
-Vossa Alteza Real não estava esperando uma pessoa vinda da Inglaterra na
companhia do ministro das relações exteriores?
-estou profundamente abalado com a perda do barão de Gavrion e da
esposa, meus grandes amigos, e da condessa Udelana, minha parente.
Lamento, mas darei uma entrevista coletiva à imprensa em outra ocasião –
declarou o príncipe e entrou no palácio.
Os guardas não permitiram que pessoa alguma seguisse Sua Alteza Real.
No hall o oficial encarregado da segurança do palácio aguardava Sua Alteza
Real e acompanhou-o até seu gabinete.
-A situação está pior e mais nebulosa do que eu esperava – desabafou o
príncipe sentando-se à sua escrivaninha. -A bagagem de Lady Frederika
Templeton estava no trem especial.
-As bagagem! – exclamou o oficial. -Nesse caso, Lady Frederika deve ter
viajado com o barão!
-Não necessariamente – contrapôs o príncipe. -Já refleti muito e estou quase
certo de que Lady Frederika mandou a bagagem com o barão mas não
embarcou. Como o pai sofreu um acidente, ela decidiu, no último instante,
viajar mais tarde com o duque, assim que ele melhorasse.
-Pode ter acontecido isso – o oficial concordou. -Essa hipótese não me
ocorreu.
-Já ordenei que a bagagem de Lady Frederika seja trazida para o palácio.
Quando chegar, quero que você a coloque num cômodo e deixe-o bem
trancado para evitar olhares curiosos – recomendou o príncipe.
-Farei isso, Alteza.
-Logo mais vou me divertir, Anton, e você irá comigo – convidou o príncipe. -
Mas ninguém deve saber que estamos tentando deixar os problemas de lado
durante algumas horas.
Anton olhou surpreso para Sua Alteza Real. Ambos tinham a mesma idade e
haviam estudado juntos na escola elementar. Depois o príncipe fora para o
colégio interno e posteriormente para a Universidade de Oxford.
Como o príncipe, Anton e todos os oficiais que serviam no palácio, bem como
os funcionários com cargos mais elevados, falavam inglês fluentemente.
-Esta noite vamos assistir ao espetáculo Belles de Bellow que mandei vir de
Paris – esclareceu o príncipe ao ver a surpresa no rosto do amigo. -Iremos só
nós dois, a não ser que você queira convidar alguém que saiba manter a boca
fechada. Compreenda que todos ficarão escandalizados se souberem que
estive assistindo a um show com lindas mulheres, quando a cidade está
enlutada e minha futura esposa pode estar morta.
-Sim, claro, compreendo – Anton murmurou.
Depois de um momento pensativo ele citou os nomes de três amigos,
também oficiais do palácio. O príncipe aprovou a escolha e achou que seria
falta de consideração de sua parte não convidar o camareiro-mor.
Para seu alívio o camareiro-mor agradeceu o convite mas recusou-o porque
nessa noite iria oferecer um jantar a alguns parentes que haviam chegado do
campo.
Em seus aposentos, enquanto se trocava para ir ao teatro, o príncipe só
pensava em Vênus, a mais linda de todas as Belles.
“A garota é uma preciosidade. Como e onde Bill Bellow a encontrou?”
***
Depois do almoço os artistas preferiram descansar a dar uma volta de
carruagem para conhecer Selkiz. Além do cansaço da viagem, o abalo devido
ao acidente e à morte de Annie, todos acharam que o clima de luto reinante na
cidade não convidava a um passeio.
Entrando no quarto a ela reservado, Alícia olhou ao redor e sem saber o por
quê, veio-lhe à mente que não devia estar num cômodo como aquele.
Esperava ter para si aposentos luxuosos com um amplo dormitório, quarto de
vestir e sala de estar.
“Por que me veio essa ideia?”, ela se perguntou.
Tentou forçar a mente e apreender as imagens que pareciam se formar,
nítidas, mas estas apenas lampejavam no seu cérebro e desapareciam, dando
lugar à escuridão.
Ela pouco descansou. Virou-se de um lado para outro na cama, inquieta, e
por volta das quatro horas levantou-se. Vestiu-se e voltou para o palco onde
Bill Bellow a esperava. Queria ensaiar mais um pouco para sentir-se segura.
Desde que Bill ouvira Vênus cantar, ficara encantado. A canção da peça de
Shakespeare, ele tinha certeza, agradaria o público, pois devia ser conhecida
por toda pessoa culta.
A segunda canção era popular e fazia sucesso tanto na Inglaterra como na
França.
Alícia tocou e cantou a primeira canção e quando foi começar a segunda,
parou.
-Não sei onde, mas já ouvi esta canção sendo cantada em francês – revelou.
-Não é de admirar. Há a versão francesa – informou Bill.
Para seu espanto Alícia cantou toda a melodia em francês.
-Fantástico! Sensacional! – ele aplaudiu. -Eu não sabia que você falava
francês.
-Nem eu, acabo de descobrir isso. As palavras vieram naturalmente a meus
lábios.
-Se você quiser, pode cantar a canção em inglês ou francês. O príncipe fala
ambas as línguas. Fica a seu critério.
Acho a versão em francês mais bonita, mais tocante e mais real do que no
idioma original que é o inglês. - de repente Alícia exclamou: -Não! Estou
enganada. Acabo de lembrar que é justamente o contrário: a canção foi escrita
originalmente em francês e a versão, sim, é inglesa.
-Sua memória está cada vez melhor! – Bill alegrou-se.
No mesmo instante ele teve medo de que Vênus recuperasse logo a
memória. Provavelmente seria esclarecido que ela era filha de algum
aristocrata importante de Rasgrad ou do embaixador da França e ele a
perderia.
Ah, se Vênus pudesse permanecer na companhia, o sucesso dos
espetáculos estaria garantido.
-Vamos, esqueça seu problema e relaxe. Você acabará se lembrando de
tudo – Bill Bellow falou com entusiasmo e bondade, apesar de tudo. -Agora
toque e cante novamente.
Alícia sorriu para ele.
-É horrível ter esses vazios na cabeça. O lugar onde levei a pancada ainda
dói.
-Não pense nisso. Acredite que ficará melhor a cada dia e alegre-se. Todos
nós a amamos, os rapazes estão encantados com a sua beleza e esta manhã
Sua Alteza Real pareceu impressionado com você. Portanto, esta noite mostre
o seu talento para agradar nosso anfitrião.
Os artistas haviam chegado e ouviram o que Bill acabara de dizer.
-Não dê muita atenção a Bill Bellow, Vênus – aconselhou Betty, rindo. -Ele
sempre fala assim conosco e nos mata de trabalhar.
Todos riram também.
-Mas, graças a isso, nós fazemos sucesso – retrucou Liz.
-Poderíamos apresentar o show na Grécia, já que estamos tão perto – sugeriu
Gertie.
-Pensarei nisso – Bill prometeu. -Será fácil chegarmos à costa e então
tomaremos um navio para Atenas.
-Isto é maravilhoso! – as garotas exclamaram.
Houve mais um breve ensaio e, satisfeito com o desempenho de todos, Bill
Bellow avisou:
-Muito bem! Está na hora de se vestirem e se maquilarem! Podem ir para os
seus quartos. Os dois camarins são pequenos para todos vocês. Mas não se
atrasem.
-Encontrei na mala só um vestido de noite. Talvez o senhor não ache que
seja próprio para o teatro – expôs Alícia.
-Se for tão bonito como o que você está usando no momento, ficará muito
bem para o seu número – Bill aprovou. -Você não é corista nem bailarina.
Alícia voltou para o quarto e teve novamente a sensação de que ali não era o
seu lugar. A cama era pequena demais e o cômodo acanhado, embora
confortável.
Abriu o guarda-roupa, tirou do cabide o maravilhoso e elaborado vestido de
noite e ficou por um momento admirando-o, com a esperança de lembrar-se de
alguma coisa. Mas foi uma vã tentativa e, a seu ver, perda de tempo.
Ela trocou-se depressa e quando estava quase pronta, Kathy bateu na porta
para avisá-la que deviam estar no teatro dentro de meia hora.
-Você parece assustada, Vênus! O que foi? – indagou Kathy com simpatia.
-Receio cometer algum erro, não por mim, mas não quero aborrecer o senhor
Bill Bellow. Ele tem sido tão bondoso – Alícia respondeu.
-Ora, você será um sucesso! – a garota animou-a. -Bill Bellow está
maravilhado com você. Nunca o vi tão entusiasmado com uma novata como
ele está com você. Na verdade todas nós estamos com ciúme.
-Não precisam ter ciúme de mim – Alícia sorriu para Kathy. -O sucesso do
espetáculo deve-se inteiramente a vocês que dançam e cantam muito bem.
Meu número não tem grande importância. Só espero não desapontar o senhor
Bellow.
-Não desapontará. E pode acreditar que sua memória voltará. Conheci um
homem que ficou desmemoriado durante cinco anos. O que o fez lembrar-se
de tudo foi voltar a uma cidade e rever lugares e pessoas que havia conhecido
– relatou a moça.
-Cinco anos?! Será terrível se eu tiver de esperar cinco anos para saber pelo
menos quem sou!
-Talvez você seja artista, pois provou que tem talento para a música e o
canto. Foi muita sorte nosso chefe tê-la encontrado para substituir Annie. Não
fosse isso Bill Bellow ficaria ainda mais aborrecido do que está com a perda da
sua estrela.
Deve ter sido um choque para todos vocês. A família de Annie já foi avisada?
-Acredito que sim. O corpo estava sendo preparado e já deve ter seguido
para a Inglaterra. O oficial encarregado da equipe de socorro prometeu a Bill
cuidar de tudo – informou a garota. -No momento a grande preocupação do
chefe é agradar o príncipe. Portanto, vamos fazer o máximo para não
desapontá-lo e encantar Sua Alteza Real.
-Tentarei.
***
O príncipe Lintz apareceu no teatro com Anton e mais três oficiais. Em vez de
subir para o camarote real, o príncipe preferiu sentar-se com seus convidados
na plateia.
Ao ver o príncipe Alícia achou-a ainda mais belo do que pela manhã. O que
ela não esperava era que as suas canções ao final do show fizessem tanto
sucesso.
Os cinco assistentes aplaudiram-na com entusiasmo e o príncipe pediu:
-Vamos, Bellow, queremos bis. Insistimos em ouvir as canções novamente.
Ninguém ficou tão feliz nem tão maravilhado quanto Bill Bellow. A cortina
abriu-se e Vênus apareceu à frente do palco. Desta vez apenas cantou e os
músicos acompanharam-na.
Estava encantadora usando um vestido de chiffon azul da cor de seus olhos
e com o decote enfeitado com rosinhas cor-de-rosa.
Observando-a, o príncipe parecia hipnotizado. Jamais vira uma jovem de tão
rara beleza. O que o intrigava era o fato de alguém como Vênus, que era, sem
dúvida. Bem nascida, bem educada e inocente, fazer parte de uma companhia
de teatro, mesmo que esta fosse bem conceituada como a de Bill Bellow.
A cortina desceu e pela segunda vez os aplausos foram calorosos.
Levantando-se, o príncipe cumprimentou Bill Bellow, informou-o de que o
jantar seria servido na sua sala de jantar privativa e deixou o teatro com seus
convidados.
Enquanto as artistas refaziam a maquiagem, deixando-a mais suave e
penteavam os cabelos. Alícia sentou-se ao piano e tocou trechos de uma
composição que lhe viera à mente.
-Vamos! Depressa, garotas! – Bill Bellow chamou-as. -Os rapazes estão
prontos e não podemos deixar Sua Alteza Real esperando.
-Também estou pronta – disse Alícia, afastando-se do piano.
Na sala de estar o príncipe e os oficiais esperavam por Bill e os artistas.
Quando todos chegaram lhes foi servido champanhe e limonada para quem
não quisesse bebida alcoólica.
Alícia aceitou a limonada e ficou de pé a um canto, tão distraída que se
surpreendeu quando o príncipe aproximou-se.
-Você canta e toca muito bem – elogiou-a. -Nunca vi uma voz tão linda.
Certamente você já ouviu elogios como estes um milhão de vezes.
-Obrigada, mas não me lembro de ter sido elogiada ou recebido aplausos
por tocar piano e cantar – Alícia respondeu com simplicidade.
-Eu sempre me lembrarei das duas canções que você cantou esta noite –
observou o príncipe. -espero ouvi-la cantar muitas outras vezes antes de vocês
partirem.
-Suas palavras me lisonjeiam – tornou Alícia presenteando o príncipe com
um lindo sorriso.
Um criado anunciou que o jantar estava servido e todos foram para a sala
vizinha, muito bem decorada e com valiosas telas nas paredes.
De pé, à cabeceira da mesa, o príncipe indicou a Alícia a cadeira à sua direita
e esclareceu:
-O lugar de honra está reservado a Vênus. Uma deusa tem preferência sobre
os mortais. E nenhuma deusa é tão importante quanto a deusa do amor.
Os cavalheiros riram e um dos oficiais observou:
-Sempre admirei o bom gosto de Vossa Alteza Real e sua presença de
espírito para encontrar em todas as ocasiões uma excelente justificativa para o
que faz.
-Houve novas risadas, mas Alícia estava distraída, admirando as telas. Não
se contendo, comentou:
-Vossa Alteza Real tem duas obras-primas de Fragonard. Dos pintores
franceses Fragonard é o meu preferido.
O comentário surpreendeu o príncipe. Nunca imaginou que uma artista
pertencente a uma companhia de teatro itinerante reconhecesse obras de um
gênio da pintura.
-Você já esteve na França? – perguntou.
-Conheço essa tela, mas não me lembro de ter estado na França – Alícia
respondeu.
Notando que o príncipe estranhou a resposta, Bill Bellow interveio e explicou
depressa:
-Esqueci-me de dizer a Vossa Alteza Real que Vênus machucou-se quando a
colisão de trens e há certas coisas das quais não se lembra. Eu já a tranquilizei
dizendo que a memória voltará com o tempo.
-Voltará, claro – concordou o príncipe. -Lamento que tenha se machucado,
Vênus. Felizmente parece que não foi nada grave.
-Só bati a cabeça – disse Alícia.
-Bem, você não deve se aborrecer com nada esta noite. Esteve maravilhosa
no teatro e vamos celebrar o seu sucesso. Aliás o sucesso de todos! Já viajei
muito e nunca vi um show tão sensacional nem tão alegre quanto o Belles de
Bellow – assinalou o príncipe.
-Para nós é uma grande honra estarmos aqui – declarou Bill Bellow.
Notando que os pratos servidos eram delícias da culinária francesa, Alícia
perguntou:
-O chef de Vossa Alteza Real é francês?
-Sim, trouxe-o da França quando estive em Paris pela última vez. Foi nessa
ocasião que conheci o show do senhor Bellow, mas você não fazia parte da
companhia.
-Não, suponho que não – Alícia respondeu.
-Comparando os dois espetáculos, devo ser honesto e dizer que a sua
participação, Vênus, tornou-o ainda mais fascinante – ressaltou o príncipe. -Fiz
bem em trazer a companhia para apresentar-se neste país. Só vou exigir que
haja mais apresentações do que as previstas.
Durante o jantar todos conversaram alegremente, as moças flertaram com os
colegas e os oficiais, mas o príncipe monopolizou Vênus. Estava cada vez mais
admirado com ela e com a cultura que demonstrou possuir sobre literatura,
artes e historia.
-Há quanto tempo você está na companhia do senhor Bill Bellow? – ele quis
saber.
-Eu... não me lembro – ela murmurou e fez um gracioso gesto com as mãos.
-Há coisas que me fugiram da memória completamente.
-Posso avaliar como você está se sentindo – o príncipe falou amavelmente e
mudou de assunto. – Quando ofereci meus cavalos e minhas carruagens ao
senhor Bellow e a toda a companhia, , você disse que gostava de cavalgar.
Amanhã, se estiver interessada, posso mostrar-lhe meus cavalos.
Os olhos de Alícia se iluminaram.
-Eu gostaria muito de vê-los e, se for possível, de montá-los – disse Alícia
com entusiasmo. -Seu palácio também é maravilhoso.
-Também o admiro. Meus pais gastaram muito tempo e dinheiro para deixa-lo
mais confortável e mais bonito do que era no passado.
-Foram eles quem adquiriram as telas desta sala? São lindas!
-Sim, esta e as mais recentes foram compradas por eles, mas há obras-
primas muito antigas deixadas por meus antepassados.
-Gosto tanto de pintura que serei capaz de andar pelo palácio, em cômodos
onde eu não deveria entrar, só para admirar seus quadros e suas obras de
arte.
O príncipe ergueu as mãos.
-O palácio está à sua disposição! Admire as telas e obras de arte à vontade.
Há uma infinidade delas.
-Ficarei contente se vir apenas alguns de seus tesouros. Receio que o senhor
Bellow nos fará ensaiar a maior parte do tempo para apresentarmos um
espetáculo digno de Vossa Alteza Real e seus convidados.
-O espetáculo está perfeito. Quanto a você, é tão linda que ficarei contente só
de admirá-la.
-Obrigada. Vossa Alteza Real é muito gentil – Alícia agradeceu com um
sorriso.
Após o jantar os cavalheiros, à maneira inglesa, ficaram à mesa apreciando o
seu vinho do Porto e as moças voltaram para a sala de estar.
Ali elas se surpreenderam ao ver do lado do piano de cauda a bateria e o
violino dos músicos. As cadeiras, poltronas e sofás haviam sido colocados num
canto de modo a deixar o centro da sala livre.
-Vamos dançar! – Gertie alegrou-se.
-O príncipe e seus convidados são jovens e encantadores. Em geral temos
como parceiros homens bem mais velhos – observou Betty.
-É verdade – concordou Liz. -Já fui obrigada a suportar um velho de setenta
que se comportava como um garoto de vinte.
-Mas ele lhe deu uma belíssima pulseira, queridinha – lembrou Gwen. -Valeu
a pena, não valeu?
Em resposta Liz deu de ombros.
-Bem, eu gosto de homens altos, morenos e bonitos e faço o possível para
atraí-los – expôs Kathy.
-E todas nós não gostamos? – perguntou Gertie, rindo.
Para Alícia aquela conversa era estranha e de modo algum a interessou.
Sentou-se numa das poltronas, imersa em seus pensamentos.
Os cavalheiros não tardaram a reunir-se a elas e o sr. Bellow pediu aos
músicos que tocassem músicas atuais para dançar.
Aos primeiros acordes de uma valsa, Alícia viu-se nos braços do príncipe.
-Como eu imaginava, você dança divinamente – ele elogiou-a instantes
depois e apertou-a mais junto a si.
Essa proximidade fez com que ele sentisse uma estranha mas agradável
sensação dentro do peito. Algo parecia atraí-lo para Vênus, fazia-o deseja-la,
mas não como já desejara outras beldades.
Pela primeira vez ele experimentara uma emoção totalmente nova perto de
uma mulher.
Eles continuaram a dançar em silêncio e quando a música terminou o
príncipe foi para o jardim com Alícia. Aquela parte era cercada por uma sebe
de arbustos floridos que permitia a Sua Alteza Real ter privacidade.
No centro desse semicírculo havia uma fonte de mármore primorosamente
esculpida. Os jatos d’água eram atirados a grande altura e vinham cair numa
grande bacia também de mármore. A água dessa bacia transbordava e caía
como se fosse uma cortina transparente dentro de uma tanque com plantas
aquáticas.
-Que fonte encantadora! – Alícia exclamou. -É a mais linda que já vi! Sei que
é muito antiga. Deve ter sido construída na mesma ocasião do palácio, há
pouco mais de duzentos anos.
-Você está certa. Mas como sabe disso? – o príncipe indagou, admirado.
-Perguntei a um dos escudeiros quando este palácio foi construído. Pelo
estilo deduzi que seria mesmo uma construção do século XVII. É belíssimo.
Você deve orgulhar-se dele.
-Orgulho-me, claro. O que me surpreende é notar que você entende de
pintura e prédios antigos. O que você fazia antes de juntar-se à companhia
teatral do senhor Bellow?
Alícia ficou pensativa.
-Não sei... parece que vou me lembrar de algo e... de repente... há um vazio
em meu cérebro.
-Não se aflija. Isso é decorrente da pancada que você levou. Dentro de
alguns dias a memória voltará – o príncipe confortou-a. -Como eu já disse,
você é a moça mais linda que já vi na vida. O que me surpreende é que você
nada tem a ver com as garotas de Bill Bellow.
-Por que diz isso?
-Porque você tem cultura e é mais... reservada – o príncipe ia dizer
“recatada”. -Há quanto tempo conhece o senhor Bellow e seus artistas?
Fez-se silêncio novamente.
-Esqueça e perdoe-me. Estou sendo insistente – o príncipe desculpou-se. -
Diga o que pensa a meu respeito.
-Não creio que você esteja realmente interessado na minha opinião a seu
respeito – disse Alícia suavemente. -Além disso só o conheci hoje.
-Quando dançou comigo você sentiu alguma coisa? Para mim é difícil
expressar com palavras, mas enquanto a mantive em meus braços senti uma
emoção estranha, nunca experimentada quando estive perto de outra mulher –
expôs o príncipe com franqueza. -Espero que você me compreenda.
-Você está querendo dizer que as vibrações vindas de mim tocaram-no.
-Então... você sentiu o mesmo que eu? – inquiriu o príncipe fitando Alícia,
perplexo.
-Também senti algo jamais experimentado antes – Alícia confessou.
Era tamanho o desejo de tomar Alícia nos braços e beijá-la que o príncipe
inspirou fundo e fechou as mãos com força. Por um instante apenas fitou Alícia
dentro dos olhos preso de doce enlevo.
Uma risada quebrou aquele encantamento. Virando-se, o príncipe viu Gertie
e um dos oficiais se aproximando.
-Continuaremos os nosso assunto em outra ocasião quando estivermos
sozinhos. Deixe por minha conta que providenciarei isso.
Alícia não entendeu o quê, exatamente, o príncipe quis dizer. Ele segurou-lhe
a mão e levou-a de volta para a sala onde vários pares dançavam.
Embora o príncipe detestasse admiti-lo, Vênus tocara-lhe o coração.
Capítulo VII
Ainda não eram seis horas quando Alícia acordou com o sol que entrava por
um vão entre as cortinas tocando lhe o rosto.
Levantou-se depressa, ansiosa para cavalgar e respirar o ar puro e fresco
como fizera nas manhãs anteriores, uma vez que não estava havendo ensaios.
***
Depois de assistir ao primeiro show das Belles de Bellow, o príncipe, para
surpresa de Bill e dos artistas, anunciara que todos poderiam descansar, pois
os espetáculos ficariam suspensos em respeito aos mortos no acidente de
trens.
Também por sugestão do príncipe todos aproveitaram os dias de folga para
conhecer a cidade e os arredores. Só Vênus ficara interessada em cavalgar.
***
Alícia vestiu a saia e a blusa de musselina do único conjunto de montaria que
trouxera na mala. Dispensou o casaquinho, pois fazia calor. Também preferiu
não usar o chapéu, certa de que, sendo tão cedo, não iria encontrar ninguém
enquanto estivesse cavalgando.
Deixou o quarto e desceu por uma escada secundária para chegar ao jardim.
Esse era o caminho mais curto até as cocheiras que ficavam nos fundos do
palácio.
O cavalariço já a conhecia e, ainda sonolento, atendeu-a. Alícia indicou um
belo puro-sangue e o rapaz selou-o.
Desde que chegara a Selkiz, Alícia se esforçara para aprender algumas
palavras do idioma falado em Rasgrad e, pelo menos, conseguia fazer-se
entender e agradecer aos que a atendiam.
O cavalariço ajudou Alícia a montar e, nessa manhã, ela decidiu ir para o
lado das altas montanhas que avistava a distância, cujos picos brancos de
neve brilhavam ao sol.
Passou pelas sentinelas e galopou pelas estepes, acompanhando a margem
de um rio. Só quando estava ofegante e o animal cansado, conduziu-o a trote.
Podia assim admirar a paisagem, as borboletas e os pássaros.
“Isso parece um reino encantado”, pensou.
Não se lembrava de ter visto antes um lugar como aquele. Rasgrad pareceu
lhe um principado paradisíaco. A reflexão trouxe-lhe à mente a figura do
príncipe Lintz.
Vira-o pela última vez dias atrás quando ele fora ao teatro avisar sobre a
suspensão do show. Depois disso ele desaparecera. Alícia tinha a sensação de
que Sua Alteza Real a evitava.
Por quê? Por quê? Essa era a pergunta que ela fazia a si mesma sem atinar
com a resposta.
Naquela noite em que ambos dançaram e depois foram para o jardim, ela
sentira vir do príncipe uma vibração forte e muito agradável, algo especial que
não se lembrava de ter sentido até então.
Deitara-se pensando no príncipe e acordara no meio da noite com o coração
cantando por ter sonhado que ambos dançavam num lindo salão.
Soube desde então que estava amando. O sentimento que abrigava dentro
do peito e que a fazia exultar de felicidade só podia ser amor.
Alícia continuou cavalgando e avistou um bosque. Achou que seria agradável
parar um pouco à sombra das árvores, pois o sol tornava-se cada vez mais
forte. Tinha a vaga lembrança de que costumava passear num bosque mas
não sabia onde.
Como já acontecera outras vezes, visualizou uma lagoa alimentada por uma
fonte. Era cercada de flores e ficava no meio da vegetação. Sim, claro, já havia
estado num lugar assim.
Ela parou de repente. Mas que lugar era esse? Onde ficava a lagoa dourada
marginada de graciosos botões de ouro?
Ocorreu-lhe também que na infância ela se debruçava na beira de uma lagoa
esperando surpreender ali algumas náiades, as ninfas das fontes e dos rios.
Alícia aproximava-se do bosque quando ouviu o barulho de um cavalo a
galope. Virou-se e viu o príncipe. Bastou reconhece-lo para um estremecimento
percorrer lhe o corpo e seu coração disparar.
-Imaginei que nunca iria encontra-la – disse o príncipe ao refrear o cavalo. -
Como conseguiu chegar tão depressa a este lugar? Estamos a vários
quilômetros do palácio!
-Escolhi para montar um dos seus magníficos puros-sangues e entreguei-me
ao prazer de um estimulante galope – respondeu Alícia. -Estou admirada de
vê-lo a cavalo tão cedo.
-Gosto de cavalgar de manhãzinha, mas hoje, realmente, levantei-me mais
cedo ainda porque não consegui dormir.
-Eu ia para o bosque. Há pouco eu me perguntava se haveria uma lagoa
entre as árvores.
-Há sim – o príncipe confirmou. -Vou mostrar lhe onde fica.
O príncipe conduziu o cavalo a passo e foi à frente para indicar o caminho.
Alícia seguiu-o.
O interior do bosque era como ela imaginara. Coelhos e outros animaizinhos
correram e esconderam-se, assustados com a intromissão de estranhos, e um
bando de pássaros voou para longe. Havia no ar um delicioso perfume de
lilases.
Eles chegaram à pequena lagoa em cuja superfície flutuavam nenúfares;
botões de ouro adornavam suas margens.
-Aí está a lagoa – disse o príncipe, desmontando e erguendo Alícia da sela
para coloca-la no chão.
-É linda! Era assim que eu a imaginava! – ela exclamou, maravilhada. -Não
sei onde vi um lugar assim. Talvez eu tenha sonhado com uma lagoa no meio
de um bosque como este. Nada pode ser mais bonito!
-Dizem que as pessoas vêm até aqui para atirar uma moeda na lagoa e fazer
um pedido. Afirmam que ele se realiza. – o príncipe tirou do bolso duas moedas
de alto valor e entregou uma delas a Alícia. -Vamos fazer nossos pedidos.
Por alguns minutos eles ficaram olhando para a água e as flores.
-Já pensou no que vai pedir? – indagou o príncipe.
-Suponho que todos desejam a felicidade. É o que pretendo pedir – Alícia
decidiu.
-A felicidade... não creio que eu a alcance. Parece que para mim ela deve ser
negada – murmurou o príncipe.
-Negada? Por quê?
-Amo você – ele declarou. -Amo você como nunca amei outra mulher. Sei
que é você quem eu venho procurando. Já viajei pelo mundo e tive romances
com lindas mulheres que me atraíram, mas nunca encontrei alguém tão
adorável, tão perfeita e por quem eu sentisse o que sinto por você. Sei que isso
é amor. Amor verdadeiro.
Tal declaração deixou Alícia emudecida; parecia hipnotizada. Seu coração
batia descompassado. Lintz também a amava!
O príncipe fitou-a amorosamente, mas havia uma sombra em seu olhar.
-Amo você desde o instante em que a vi. Porém esta noite perdi o sono ao
compreender que você era tão inalcançável quanto a deusa Vênus.
-Por quê? Por que sou inalcançável? Alícia perguntou num murmúrio.
-Porque não sou um homem livre. – a voz do príncipe soou embargada,
revelando como ele sofria. -Tenho procurado uma mulher como você, sonhei
que um dia a encontraria e agora que a tenho tão real, junto de mim, devo
sufocar o meu amor e pedir lhe para partir. Temos de nos separar.
-Eu...não...compreendo.
-Nem poderia. Não sou um homem livre porque meus sentimentos são
insignificantes diante do meu dever. Sou o soberano de Rasgrad e minha pátria
vem em primeiro lugar. Certifiquei-me de que você é a mulher de minha vida,
mas como nosso amor é impossível, vou pedir ao senhor Bellow que a mande
de volta à Inglaterra esta noite ou amanhã cedo. Será melhor assim.
-Mas... o que está acontecendo? Por que devo... ir embora?
-Imaginei que já lhe tivessem dito que devo me casar imediatamente com
uma noiva inglesa escolhida para mim pela rainha Vitória. Minha futura esposa
ainda não chegou, mas deve chegar ainda hoje com o pai, Já está tudo
preparado para o casamento.
-Uma noiva... inglesa...escolhida por Sua Majestade – Alícia falou com voz
sumida. -Eu... já ouvi isso antes.
-Não é de surpreender. Muitos principados e reinos dos Balcãs têm sido
salvos da ocupação dos russos porque contam com a proteção da Grã-
Bretanha – esclareceu o príncipe. -Rasgrad também conseguirá essa proteção,
pois concordei em desposar uma inglesa, parente de Sua Majestade, a rainha
Vitória.
-Então... você vai casar... com essa... inglesa... – Alícia balbuciou,
mortificada.
-Sim. O casamento será realizado um ou dois dias após a chegada d minha
noiva. Portanto, embora isso me custe, peço lhe para partir, Vênus.
-Mas... por que devo partir?
-Porque ambos sofreremos muito mais se voltássemos a nos ver. Com você
perto de mim Não terei forças para renunciar ao nosso amor – revelou o
príncipe com a voz grave alterada pela emoção.
Alícia estendeu o braço, mas ele deu um passo para trás e pediu:
-Não me toque, por favor. Sei que não resistirei ao seu contato. Naquela
noite, quando dançamos e depois, no jardim, precisei de todo o meu
autocontrole para não abraça-la ou beijá-la.
-E eu, ao cantar aquela canção em francês, dizia Je t’adore pensando em
você – Alícia revelou.
-Minha querida, minha doçura! Por que o destino nos fez encontrar se nosso
amor é impossível? – o príncipe questionou. -Como homem, estou disposto a
toma-la nos braços, beija-la e torna-la minha, desafiando a tudo e a todos.
Porém, como príncipe reinante de Rasgrad, não posso deixar que meu país
seja conquistado e usurpado pelos russos. Sei que você é pura e intocada, por
isso não posso lhe oferecer outra coisa senão meu amor e meu coração. Como
não sou dono de meus sentimentos, devo manda-la embora.
-Não posso... nem quero partir – Alícia insistiu.
-Compreenda, querida, que você não é uma garota comum. Não é como as
outras que trabalham para o senhor Bellow. – o príncipe inspirou
profundamente. -Sei, sem que precisem me dizer, que você é perfeita e
inocente; portanto, não posso oferecer lhe um amor clandestino e indigno. Isto
não apenas a aviltaria, como seria desrespeitoso e ultrajante para com minha
futura esposa, enviada para salvar este país.
As palavras do príncipe não poderiam ser mais claras. Alícia desviou o olhar,
ruborizada.
-Sim... compreendo... naturalmente. Mas sei que nunca sentirei por outro
homem o que sinto por você.
Foi com esforço sobre-humano que o príncipe não a tomou nos braços e a
beijou.
-Quero pensar em você como está agora, fazendo parte deste cenário –
disse suavemente. -desejo que um dia você conheça um homem a quem ame,
com o qual se casará será feliz. Então me esquecerá.
-Impossível. Sei que o amor que sentimos um pelo outro é verdadeiro... vem
de Deus.. tem algo divino. Jamais o esquecerei – Alícia falou com voz débil. -
Mas se devemos dizer adeus...espero que se lembre de mim... e seja feliz.
-Começamos este assunto falando sobre a felicidade – lembrou príncipe. -
Vamos formular esse desejo. Quem sabe Deus será bondoso para no futuro.
Agora atire a moeda.
Olhando para a moeda de ouro, Alícia beijou-a, fechou os olhos e rezou com
fervor para ela e o príncipe ficarem juntos. Então atirou a moeda sobre o
ombro. Virou-se e por um momento observou os círculos que se formaram na
superfície serena da lagoa até vê-los desaparecer.
Foi a vez de o príncipe fazer o mesmo. Depois ambos ficaram ali, parados,
em respeitoso silêncio, em comunhão com a natureza. Quando se afastaram
para pegar os cavalos que ficaram soltos, pastando, Alícia disse:
-A partir desta noite... vou olhar para o céu antes de me deitar e pedirei com
fé a uma estrela para Deus permitir que encontremos a felicidade...juntos.
-Farei o mesmo – o príncipe prometeu.
Eles saíram do bosque e galoparam e silêncio. Quando alcançaram a
margem do rio, seguiram a passo, de volta para o palácio. Notando a
expressão de dor no rosto do príncipe, Alícia tentou confortá-lo, dizendo:
-Devemos acreditar que nossos pedidos e nossas orações serão atendidos.
-Talvez sejam, mas daqui a cem mil anos – replicou o príncipe exasperado.
-O amor verdadeiro é uma força poderosa... Deus sabe que nos amamos e
permitirá que algo aconteça para podermos viver nosso amor – Alícia falou com
convicção, como se tais palavras lhe fossem ditadas por um poder maior.
-Eu gostaria de ser uma pessoa diferente, um homem comum, Vênus – o
príncipe murmurou como olhar distante.
-Oh, não diga isso! – Alícia suplicou-lhe. -Você é o soberano que Rasgrad
precisa. É correto, justo, ama o seu país, seu povo e é amado por todos.
Confiemos na nossa boa estrela.
-Tentarei. Amo você! Amo o que você diz, amo seu rosto, seu modo de ser! –
declarou o príncipe. -Se devemos nos separar ainda esta noite, quero guarda-
la no coração e na minha mente, assim como você está. Pense em mim e não
esqueça que Je t’adore! Je t’adore!.
Como se não suportasse ficar perto da mulher amada e não toca-la, o
príncipe fustigou seu cavalo e saiu a galope, sendo difícil para Alícia segui-lo.
De volta ao pátio das cocheiras, ambos desmontaram em silêncio e, como se
alguém os guiasse, foram para junto da fonte que ficava no jardim privativo do
príncipe.
-Foi aqui que descobri que a amava. Por ironia, é justamente por causa
desse amor que você deve partir – o príncipe falou com amargura. -Como pode
o destino ser tão cruel conosco? Se eu não tivesse conhecido você viveria
apenas em meus sonhos e não me torturaria como está me torturando agora.
-Não diga isso. Pense que, se fomos feitos um para o outro, o destino não
nos pode separar. Sinto isso no fundo do meu coração – Alícia falou com
otimismo. -Para mim, estar amando é como tocar as estrelas. É maravilhoso!
Isto não nos será roubado.
-É o que também sinto, mas o mundo está contra nós – rebateu o príncipe,
desalentado.
Alícia olhou para os jatos d’água atirados para o alto que resplandeciam ao
sol e declarou:
-Não sei por que estou dizendo isso e você pode achar que seja uma tolice,
mas sinto que nossos sonhos se tornarão realidade. Não é possível que um
amor, puro e maravilhoso como o nosso, seja destruído. Sim, Seremos felizes!
Muito felizes!
Tenso, incapaz de expressar o que sentia, o príncipe virou-se e, em vez de
entrar no palácio pela porta da sua sala de estar privativa que se abria para
aquela parte do jardim, deu a volta.
Sabendo quanto ele sofria, Alícia acompanhou-o. Podia imaginar como era
difícil para um soberano renunciar à própria felicidade por amor à pátria.
Um lacaio viu-os se aproximando e abriu a porta de acesso à entrada
principal do jardim. Do outro lado ficava o grande hall do palácio.
Nesse instante o camareiro-mor, diversos escudeiros e dois oficiais recebiam
alguém que Alícia julgou ser muito importante devido a todo aquele aparato.
Um senhor alto, usando bengala e andando devagar, entrou no palácio
acompanhado de uma pequena comitiva.
-É uma grande honra e um prazer imenso receber Vossa Alteza e o
representante de Sua Majestade, a rainha Vitória! – disse o camareiro-mor. -
Alegrou-nos receber o cabograma dizendo que Vossa Alteza estava em
condições de viajar.
Vendo quem acabava de chegar, o príncipe disse a Alícia em voz baixa:
-Aquele é o duque de Templeton. Ele estava sendo esperado mas julguei que
chegasse mais tarde com a...
-Papai! Papai! – Alícia exclamou, interrompendo o príncipe e correndo para
os braços do duque. –O senhor veio! Agora me lembro do senhor e de tudo!
O duque abraçou e beijou a filha.
-Tive receio de que você se casasse antes de eu chegar. Insisti com meus
médicos e tive permissão de viajar desde que me cercasse de todo cuidado e
fosse acompanhado por uma enfermeira, Além do meu fiel valete. Aqui estou!
-Oh, papai, como é bom ver o senhor! Perdi a memória e não conseguia
sequer me lembrar quem eu era, mas quando o vi, tudo voltou-me à mente.
Assim que Alícia parou de falar notou que todos aos seu redor estavam
perplexos. O príncipe, mais ainda. Com voz que soou estranha para si mesmo,
perguntou:
-É verdade, Alteza? Esta é sua filha?
-Sem dúvida, Alteza Real! Esta é Frederika Alícia Vitória Templeton, minha
filha – asseverou o duque. -Eu receava não chegar a tempo para o casamento,
mas fui informado que este ainda não se realizou.
-Será realizado depois de amanhã – informou o príncipe depressa. -Isto, se
Vossa Alteza sentir-se em condições de levar sua filha ao altar.
-Sinto-me quase o mesmo de sempre – declarou o duque com um sorriso.
-Houve um acidente horrível e a cidade esteve de luto por três dias –
esclareceu o camareiro-mor.
-Falaremos sobre isso mais tarde. Sei que devido ao seu estado de saúde
Vossa Alteza deve repousar – observou o príncipe cortesmente.
O camareiro-mor acompanhou-o até os aposentos a ele reservados, os mais
importantes e luxuosos do palácio, depois dos aposentos de Sua Alteza Real.
Era uma suíte ampla com dois dormitórios, dois quartos de vestir e sala de
estar.
No corredor, caminhado do lado do príncipe, Alícia falou em voz baixa:
-Eu disse que nossos desejos e nossas orações seriam atendidos!
***
Antes do acidente ferroviário tudo já havia sido providenciado para o
casamento, de modo que não houve dificuldade para a cerimônia ser realizada
dois dias após a chegada do duque de Templeton.
Arautos partiram do palácio para anunciar na capital e nas outras cidades do
principado que as bodas de Sua Alteza Real com uma parente da rainha Vitória
da Grã-Bretanha seria realizada na catedral de Selkiz.
***
O camareiro-mor passou os dois dias ocupadíssimo, mas muito feliz, como
todos no palácio.
A única pessoa triste era Bill Bellow.
-Como eu poderia imaginar que a minha noiva estava entre as suas artistas?
– o príncipe indagou quando teve a oportunidade de falar a sós com o sr.
Bellow.
Constrangido, Bill Bellow explicou o que tinha acontecido. Foi sincero ao
dizer que chegara a suspeitar que a garota, a quem dera o nome de Vênus,
fosse filha de alguém importante, mas descartara a possibilidade de ela ser a
noiva de Sua Alteza real.
-E como bom empresário você não perdeu a oportunidade de substituir Annie
pela belíssima e talentosa jovem sem memória, levando assim grande
vantagem – observou o príncipe.
Bill Bellow riu.
-Vossa Alteza Real compreende, tenho o dom de descobrir talentos. Sua
noiva é a criatura mais bela que já vi em toda a minha vida e possui a voz mais
maravilhosa que já ouvi – Bill Bellow suspirou. -Estou pensando que não será
fácil encontrar uma substituta para Annie.
-Não é possível que não haja em meu país uma garota com talento e so seu
agrado – disse o príncipe. - em outro tom agradeceu: -Obrigado por ter sido
bondoso com Lady Frederika. Tendo perdido a memória ela poderia ficar à
mercê de alguma pessoa sem escrúpulos. Por favor, agradeça por mim às
suas Belles e seus rapazes por terem sido gentis com minha noiva.
O príncipe falou sobre as apresentações tanto no Teatro da Ópera de Selkiz,
como no teatro do palácio e os teatros de todas as outras cidades; em seguida
entregou a Bill Bellow um cheque de grande valor, o que o deixou surpreso e
exultante.
Quando o príncipe se afastou, Bill pensou com seu natural otimismo:
“Perdi uma estrela, mas recebi o triplo do que eu esperava. Não se pode ter
tudo...”
***
Os sinos de todas as igrejas de Rasgrad começaram a replicar festivamente
anunciando as bodas do príncipe Lintz e de Lady Frederika Alícia Vitória.
Bandas tocavam e as ruas estavam enfeitadas de flores e bandeiras do
Reino Unido e de Rasgrad.
Quando o coche dourado puxado por quatro corcéis brancos seguiu
lentamente pelas ruas, o povo aclamou a noiva. Todos estavam maravilhados
com a beleza de Alícia.
Dos lados dos degraus da catedral havia só crianças que atiraram pétalas de
rosas à frente da noiva e do duque. Ambos andavam bem devagar porque o
ferimento da perna do duque ainda não cicatrizara e ele apoiava-se numa
bengala.
O interior da catedral estava decorado com um profusão de flores e muitos
milhares de velas.
Em atenção a duque que convalescia, o príncipe pediu que a cerimônia
nupcial não fosse longa.
Os recém-casados deixaram a catedral e voltaram para o palácio na antiga e
suntuosa carruagem aberta, tradicionalmente usada em casamentos e
ocasiões festivas.
A multidão, vibrante de alegria, aplaudiu os noivos entusiasticamente.
Atiraram tantas pétalas de rosa sobe eles que ao chegar ao palácio o fundo da
carruagem era um tapete multicolorido e perfumado.
Houve no palácio um jantar para grande número de convidados. Entre eles
estavam os soberanos de países vizinhos e o representante da rainha Vitória.
Nas praças e ruas de Selkiz e nas de outras cidades o povo comemorou com
danças típicas e muita música.
***
Já era bem tarde quando os recém-casados chegaram ao pequeno palácio
que ficava à beira de um lago, onde passariam a lua-de-mel.
Em vez de entrar no palácio, o príncipe levou Alícia ao jardim.
-Vamos olhar para o céu e agradecer às estrelas por terem atendido ao
nosso pedido – disse, abraçando-a.
Depois beijou-a demoradamente e sentiram-se como se flutuassem no céu
entre os astros.
No palácio os recém-casados foram recebidos por alguns criados idosos que
conheciam o príncipe desde bebê.
O príncipe levou Alícia para o andar superior e quando ela entrou no quarto
nupcial não conteve uma exclamação de puro encantamento ao vê-lo
inteiramente decorado com rosas cor-de-rosa. O grande leito de prata com
dossel tinha cortinas de finíssima seda, também cor-de-rosa.
-descobri que você adora rosas cor-de-rosa e pedi que decorassem nosso
quarto e os outros cômodos deste palácio com essas flores – o príncipe
revelou. -E agora eu quero, como nunca desejei nada na vida tão
intensamente, demonstrar quanto a amo e ensinar-lhe tudo sobre o amor.
O príncipe não esperou pela resposta de Alícia. Saiu do quarto deixando-a
com a velha criada que no passado atendera aprincesa, a mãe de Lintz.
A criada ajudou Alícia a tirar o riquíssimo vestido de noiva inteiramente
bordado e a preciosa tiara pertencente à coleção real.
No quarto iluminado apenas pelo luar e as três velos do lado da cama, Alícia
esperou pelo marido. Ele entrou no aposento usando um robe longo, escuro,
em estilo que lembrava o militar. Ficou de pé por um momento, olhando
embevecido para a esposa e falou, cauteloso:
-Isto só pode ser um sonho e estou com um medo terrível de acordar.
-É um sonho, querido, e será sempre assim. Enquanto estivermos juntos
nossa vida será um sonho... um sonho de amor – Alícia murmurou.
O príncipe apagou as velas, sentou-se na cama e abraçou a esposa. Podia
vê-la à luz do luar. Quanto mais a fitava mais a achava adorável.
Muito suavemente, porque sabia ter nos braços uma preciosidade, e também
para não quebrar a magia daquele momento, ele tocou seus lábios nos de
Alícia.
Ao sentir que toda ela vibrava, seus beijos tornaram-se mais apaixonados e
veementes.
-Amo...você...amo...você! – Alícia repetia entre um beijo e outro –Je t’adore!
Sou...toda sua!
-Minha querida, minha amada, minha princesa, também amo você! Também
te adoro! Considero-me um homem abençoado por Deus, o homem mais feliz
do mundo por tê-la encontrado – Lintz declarou.
Lembrando-se que poderia tê-la perdido, ele voltou a beijá-la com ardor,
ousadia, loucura e desejo.
Sentindo Alícia desperta e palpitante nos seu braços, Lintz soube que ela
estava preparada para o amor.
Foi tão carinhoso, tão envolvente, tão cativante e gentil ao torna-la sua
mulher que ambos se viram transportados para o paraíso, onde os anjos
cantavam para eles.
***
Fim
Digitalização: Emys Cárcano Ruano
Contato: emariannacarcano@gmail.com