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Notas de Aula de Economia Monetária: A Moeda em um

Modelo de Gerações Superpostas

Prof. José Coelho

Março de 2016

1 Introdução
Neste curso, tentaremos aprender sobre economia monetária através da cons-
trução de modelos econômicos que replicam características essenciais de eco-
nomias atuais, com tais modelos funcionando como simplicações da com-
plexa realidade econômica em que vivemos. Apesar de simplicações, tais
modelos devem ilustrar os elementos do comportamento de indivíduos que
escolhem reter moeda baseados em previsões de variáveis econômicas impor-
tantes como produto real, preços, receita do governo, bem estar, etc., e em
mudanças de políticas que envolvem moeda.

Para apresentar um modelo de economia monetária, temos de ter em mente


quais são as características essenciais de tal economia monetária: a demanda
por moeda é diferente da demanda por bens, já que os indivíduos deman-
dam bens pela utilidade derivada do seu consumo, enquanto que os mesmos
indivíduos demandam moeda não para consumi-la, mas porque a moeda os
ajuda na tarefa de adquirir os bens que desejam consumir. Isto é, a moeda
é um meio de troca.

Um modelo que diferencia deste modo a demanda por moeda requer duas ca-
racterísticas especiais. Primeiro, na ausência da moeda, deve existir alguma
fricção nas trocas que impede as pessoas em trocar, diretamente, os bens
possuem pelos bens que desejam. Isto é, se as pessoas puderem, sem custo
adicional, trocar os bens que possuem pelos bens que desejam, não haverá
papel para a moeda nessa economia. Segundo, como a moeda é um ativo que
pode ser retido entre períodos curtos de tempo antes de ser gasto, deverá
existir alguém que deseja reter moeda de um período para outro. Assim, no
nosso modelo de economia monetária, sempre haverá alguém que viverá no

1
período seguinte.

O segundo requerimento pode ser atendido em duas possíveis abordagens:

(1) as pessoas vivem vidas innitas (pense numa geração innita: o indi-
víduo cria os próprios lhos e estes criam os próprios lhos e assim por
diante, de modo a perpetuar os descendentes);

(2) as pessoas vivem vidas nitas, porém as gerações se sobrepõem (ou se


superpõem) em dois ou mais períodos.

1.1 A Noção de Gerações Superpostas

Nos concentraremos no segundo tipo de abordagem, com indivíduos que vi-


vem em dois períodos. Começaremos com uma versão simplicada do modelo
de gerações superpostas de Samuelson (1958) e, de acordo com as necessi-
dades que surgirem com o avanço da discussão, introduziremos as extensões
necessárias à abordagem, de modo a exibilizar a análise.

No nosso modelo de economia monetária, a moeda tem a habilidade de trans-


ferir valores entre períodos (se, no período t, alguém aceitar uma unidade
monetária em troca de bens, esta unidade monetária poderá ser trocadas
por bens no período t + 1). Numa economia com gerações superpostas com
duas gerações, a moeda é o meio pelo qual são transferidos valores entre
as gerações t e t + 1. Como veremos mais à frente, tais transferências in-
tergeracionais não podem acontecer na ausência de moeda, de modo que a
moeda funciona como um mecanismo capaz de permitir trocas mutuamente
benécas entre as mesmas, o que aumenta o bem estar dos indivíduos.

1.1.1 As Hipóteses do Modelo


1. O indivíduo vive em dois períodos: quando jovem, no primeiro período e
quando velho, no segundo período;

2. A economia começa no período 1;

3. Em cada período t ≥ 1, nascem Nt indivíduos, de modo que no período


t convivem Nt indivíduos nascidos no período t e Nt−1 indivíduos nascidos
no período t − 1 (no período 1 há N0 + N1 indivíduos);

2
Figura 1:

4. Na economia, há um único bem perecível, ou um bem que não pode


ser estocado de um período para o seguinte, de modo que o que é produzido
no período t tem de ser consumido no próprio período t;

5. No primeiro período de vida, quando jovem, cada indivíduo recebe uma


dotação de y unidades do bem perecível e 0 unidades do mesmo no segundo
período, quando velho. Podemos interpretar a dotação do bem perecível
como a habilidade de trabalho que cada pessoa recebe ao nascer: quando jo-
vens, os indivíduos produzem, consomem e poupam e, quando velho, apenas
consomem a poupança gerada quando jovens;

6. A geração inicial (N0 ) é velha no período 1. Tal geração é conhecida


como Initial Old.

Tal padrão de dotações está ilustrado na Figura 1 acima.

1.2 As Preferências

Os indivíduos obtêm satisfação consumindo o único bem (perecível!) exis-


tente na economia.

3
Figura 2:

1.2.1 As Gerações Futuras


Os membros das gerações futuras (t ≥ 1) desejam consumir quando são jo-
vens e quando forem velhos, de modo que suas funções de utilidade dependem
da combinação de consumo pessoal quando são jovens e quando são velhos.
Nesse sentido, acerca das preferências de um indivíduo qualquer, assume-se
que:

(a) O indivíduo prefere consumir quantidades positivas do bem nos dois


períodos, a consumí-lo todo em um único período;

(b) Dada a quantidade consumida em um período, a utilidade do indiví-


duo aumenta com o aumento do consumo no período seguinte (ver Figura
2);

(c) Para receber uma unidade adicional do bem de consumo no período se-
guinte, o indivíduo está disposto a abrir mão de maior quantidade do bem
de consumo hoje, se o bem de consumo for abundante hoje relativamente ao
bem de consumo amanhã. (ver Figura 3).

4
Figura 3:

Com as hipóteses acima assume-se que os indivíduos são capazes de ranquear


(ou classicar) combinações (ou cestas) do bem de consumo ao longo do
tempo, de modo a ordenar suas preferências. Denotando o consumo de
um indivíduo nascido no período t, no primeiro período de vida (quando
jovem), por c1,t e no segundo período de vida (quando velho), por c2,t+1 , as
preferências dos indivíduos podem ser representadas na seguinte função de
utilidade

U = U (c1,t ; c2,t+1 ) (1)

Gracamente, a primeira hipótese assume que o consumo nulo em um dos


períodos representará uma provação terrível, de modo que as curvas de in-
diferença são essencialmente verticais quando c1 se aproxima de zero e es-
sencialmente horizontais quando c2 se aproxima de zero; a segunda hipótese
garante que a satisfação do indivíduo cresce da esquerda para a direita; e
a terceira hipótese garante que, à medida em que aumenta o consumo em
um dos períodos, haverá menos disposição em abrir mão de uma unidade
do bem, para consumí-lo no período seguinte. Isto é, a taxa marginal de
substituição entre c1 e c2 é decrescente (e vice versa).

5
1.2.2 A Geração Incial ou Initial Old

Os indivíduos da geração inicial já nascem velhos e vivem (e consomem) no


período inicial, maximizando sua satisfação apenas nesse período. Isto é, sua
função de utilidade tem a seguinte forma funcional

U = U (c2 ) (2)

1.3 O Problema Econômico

O indivíduo, ao nascer, recebe uma dotação y do bem de consumo perecível,


que deve ser consumido no primeiro período de vida. No entanto, como ele
vive em dois períodos, tem de resolver o problema de como adquirir os bens
que necessita consumir no segundo período de vida. Aqui, duas abordagens
são apontadas para resolver o problema:

(a) A solução do Planejador Central

(b) A solução descentralizada (do mercado) com moeda.

A solução do Planejador Central


O Planejador Central não pode alocar mais bens do que existe. Isto é,
sua ação é limitada pela quantidade de bens na economia. Como apenas
os jovens recebem a dotação inicial do bem de consumo (y ) e nascem Nt
indivíduos no período t, então, no período t, o consumo total da economia
(Ct ) não pode ser superior à dotação agregada Nt y . Isto é,

Ct ≤ Nt y (3)

Supondo que todos os membros de uma mesma geração têm as mesmas prefe-
rências sobre o bem de consumo ao longo da vida, isto é, que cada indivíduo
da geração t tem preferência sobre suas respectivas cestas de consumo (c1,t ,
c2,t ), então, no período t,

C1,t = Nt c1,t (4)

C2,t = Nt−1 c2,t (5)

6
onde C1,t e C2,t representam o consumo agregado dos jovens e idosos, no
período t.

Assim

Nt c1,t + Nt−1 c2,t ≤ Nt y (6)

Supondo que a população é constante (Nt−1 = Nt = N ), então

c1,t + c2,t ≤ y (7)

Supondo, ainda, alocações estacionárias (c1,t = c1 e c2,t = c2 ), isto é, quando


aos membros de uma mesma geração é atribuído o mesmo consumo, então

c1 + c2 ≤ y (8)

A Alocação da Regra de Ouro


À alocação estacionária factível de consumo que maximiza o bem-estar das
gerações futuras ∗ ∗
(c1 , c2 ), chamamos de alocação da regra de ouro.
Nessa alocação, as utilidades das gerações futuras ocupam o mais alto nível
durante toda a vida dos indívíduos e ocorre no único ponto de tangência da
mais alta curva de indiferença que puder alcançar (ver Figura 4, abaixo).

A Solução da Geração Inicial


Como é importante considerar o bem-estar de todos os participantes na eco-
nomia, faz sentido considerar os efeitos de política sobre a geração inicial.

Sabemos que a alocação da regra de ouro é tal que maximiza a utili-


dade das gerações futuras (t ≥ 1). Porém, tal equilíbrio não maximiza a
utilidade da geração inicial. Além disso, como a geração inicial consome
apenas no segundo período de vida, então sua função de utilidade é algo
como

U = U (c2 ) (9)

Nesse caso, o problema de maximização da geração inicial imporia algo como

7
Figura 4:

c2 = y , um tipo de de solução em que apenas as gerações velhas, incluindo


a geração inicial, consomem o bem de consumo y, um resultado para lá de
irrelevante, já que há uma innidade de gerações futuras e apenas uma ge-
ração inicial.

(b) A solução descentralizada do mercado


Na solução centralizada, com a maximização das utilidades das gerações fu-
∗ ∗
turas - alocação de equilíbrio (c1 , c2 ) - exige-se que o planejador central tome

de cada indivíduo jovem, sem custos, a quantidade c2 do bem de consumo y ,
e a atribua a cada pessoa velha. Além disso, exige-se que o planejador cen-
tral conheça, exatamente, cada função de utilidade. A pergunta que emerge
é: existe alguma forma de alocar otimamente o consumo entre gerações de
modo descentralizado, em que o mercado faça o trabalho do planejador cen-
tral?

Equilíbrio Competitivo
A resposta à pergunta anterior é SIM, desde que

1. As trocas sejam benécas para o indivíduo, através das quais tenta atingir
o mais alto nível de satisfação factível;

8
2. As ações individuais não afetem os preços e não haja coalizão entre
indivíduos;

3. Os mercados se equilibrem.

Equilíbrio Competitivo sem Moeda


Lembremos que cada indivíduo recebe, quando jovem, y unidades do bem
de consumo e 0 quando velho. Como o indivíduo prefere consumir nos dois
períodos, sua utilidade total aumentará se ele abrir mão de parte do consumo
presente, para consumir no futuro.

Sem um planejador central será impossível uma alocação (c∗1 , c∗2 ) na ausência
de moeda, já que não há dupla coincidência de desejos entre as gerações t
e t − 1: não é vantajoso para um indivíduo da geração t transacionar com
outros indivíduos da geração t, já que todos os indivíduos de uma mesma
geração nada terão do bem y quando velhos, no período t + 1; também não
é vantajoso para um indivíduo da geração t transacionar com indivíduos da
geração t − 1, já que estes últimos deixarão de existir ainda no período t,
impossibilitando-os de repor o bem consumido. Isto é, ao nal, os equilíbrios
sem moeda são autárquicos, no sentido de que os indivíduos não têm intera-
ção econômica uns com os outros: incapaz de fazer transações mutualmente
vantajosas, cada indivíduo da geração t consome inteiramente sua dotação
enquanto jovem e nada quando velho.

Equilíbrio com Moeda Fiduciária


A moeda duciária, por denição, é uma mercadoria produzida com custo
virtualmente nulo e que não pode ser consumida, nem utilizada no processo
produtivo, além de não representar promessa para qualquer coisa que possa
ser utilizada no consumo ou na produção.

- O governo é o único emissor da moeda duciária;

- A moeda duciária pode ser retida entre dois períodos (sem custos) e tro-
cada (sem custos);

- A moeda duciária só terá valor se habilitar o indivíduo a trocá-la pelo


que necessita consumir.

O Equilíbrio Monetário é um equilíbrio competitivo (M


s = M d) em

9
que existe uma oferta de moeda duciária valorável.

Suponha que há um estoque xo de moeda duciária, com M unidades


perfeitamente divisíveis, de modo que

M
(a) Cada membro da geração inicial (initial old ) começa com
N unida-
des da mesma;

(b) Cada pessoa jovem (geração t = 1) pode trocar parte de sua dotação
do bem de consumo (y ) por moeda duciária com pessoas da geração ante-
rior (pessoas velhas).

1.3.1 À Guisa de Demanda por Moeda Fiduciária


A moeda duciária será demandada se for valorável. Isto é, se as pessoas
aceitarem desistir de consumir alguma quantidade de bens em troca de mo-
eda e vice-versa. Como a moeda duciária não tem valor intrínseco (valor de
uso), sua demanda depende da prospecção sobre seu valor no futuro (quando
será trocada por bens), de modo que se for esperado que a moeda duciária
não terá valor no próximo período, então a moeda duciária não terá valor
no período atual. Seguindo essa linha lógica, se a moeda duciária não for
valorável no período T, então não será valorável hoje:

T →T −1
T −1→T −2
T −2→T −3
...
3→2
2→1

Se a moeda duciária for valorável no período t, seu valor será vt , o va-


lor de uma unidade monetária medida em unidades de bens (pt v1 = 1),
representando a quantidade de bens que o indivíduo terá de abrir mão para
1 1
adquirir uma unidade monetária. Logo, pt = vt e vt = pt .

10
O Orçamento Individual
Dado que a moeda duciária é valorável, como os indivíduos decidem quanta
moeda adquirir, sabendo que

(i) O indivíduo não pode consumir mais do que sua dotação inicial (y )?

(ii) O indivíduo terá mais satisfação consumindo nos dois períodos, do que
em um único período?

Do ponto de vista do indivíduo,

c1,t + c2,t+1 ≤ y (10)

Deste modo, y − c1,t é a quantidade (máxima) do bem de consumo que o in-


divíduo abrirá mão no presente, quando jovem, trocando-a pela quantidade
de moeda que será usada para adquirir o bem de consumo no futuro, quando
velho (c2,t+1 ).

Se a quantidade de moeda duciária adquirida pelo indivíduo for mt e o


valor de uma unidade monetária for vt , então:

yt − c1,t = c2,t+1 = vt mt (11)

c1,t + vt mt ≤ y (12)

No segundo período da vida (quando velho, no período t+1), o indivíduo não


recebe dotação de bens, devendo gastar o valor de moeda duciária retida
no período t, dado por

c2,t+1 ≤ vt+1 mt (13)

de modo que

11
c2,t+1
mt ≥ (14)
vt+1

Assim, a restrição orçamentária intertemporal do indivíduo, ao longo da


vida, é:

vt
c1,t + [ ]c2,t+1 ≤ y (15)
vt+1

que representa as diferentes combinações de consumo que o indivíduo pode


alcançar ao longo da vida.

Se
vt
c1,t = 0, então [ vt+1 ]c2,t+1 ≤ y e c2,t+1 ≤ [ vt+1
vt ]y . Por outro lado, se
c2,t+1 = 0, então c1,t ≤ y .

Isso delimita as possibilidades de consumo (restrição intertemporal) do indi-


víduo. Como, por outro lado,

U = U (c1,t , c2,t+1 ) (16)

então, em equilíbrio intertemporal, o indivíduo consome o par (c∗1,t , c∗2,t+1 ) e

vt+1
T M Sc1,t ,c2,t+1 = (17)
vt

representa a Taxa Marginal de Substituição entre consumos nos dois perío-


dos da vida do indivíduo, podendo ser classicado como Taxa de Retorno
(Real) da Moeda Fiduciária .

O equilíbrio aqui descrito está representado na Figura 5, acima.

A Taxa de Retorno da Moeda Fiduciária


i. O valor da moeda duciária, no período t, depende da crença das pessoas
sobre o seu valor no futuro;

ii. Suponhamos que as expectativas sobre a moeda sejam a mesma em to-


das as gerações (as dotações, as preferências e a população são as mesmas

12
Figura 5:

geração após geração, de modo que c1,t = c1 e c2,t = c2 , para todo t);

iii. Os indivíduos têm expectativas racionais, tomando decisões baseados


no conjunto de informações disponíveis. Nesse caso, na ausência de choques
aleatórios, as expectativas sobre variáveis no futuro são iguais aos valores de
hoje dessas variáveis, a chamada perfeita previsão.

Assumindo perfeita previsão, além de mercados competitivos (o preço é tal


que q s = q d ), a oferta real de moeda é igual à demanda por saldos reais. Isto
é,

vt Mt = Nt (y − c1,t ) (18)

de modo que o valor de uma unidade monetária é dado pela proporção da de-
manda real por moeda [Nt (y − c1,t )] na quantidade total de moeda duciária
(Mt ).
Nt (y − c1,t )
vt = (19)
Mt

Em t + 1, o valor de uma unidade monetária é dado por

13
Nt+1 (y − c1,t+1 )
vt+1 = (20)
Mt+1

de modo que a taxa de retorno da moeda entre os períodos t e t+1 é

Nt+1 (y−c1,t+1 )
vt+1 Mt+1
= Nt (y−c1,t )
(21)
vt
Mt

No estado estacionário, onde c1,t = c1,t+1 = c1 ,


Nt+1
vt+1 Mt+1
= Nt
(22)
vt Mt

Assumindo população e estoque de moeda constantes (Nt = Nt+1 = N e


Mt = Mt+1 = M ), a taxa de retorno da moeda duciária é constante e a
moeda terá valor constante. Isto é,

vt+1
= 1 ⇔ vt+1 = vt (23)
vt
1
Como pt = vt , então pt é constante. Neste caso, a restrição orçamentária in-
dividual coincide com o conjunto factível, dado por c1 +c2 ≤ y (ver Figura 6).

Da restrição intertemporal do indivíduo, no período t


vt
c1,t + [ ]c2,t+1 ≤ y (24)
vt+1

segue-se que, no consumo de estado estacionário

vt
c1 + [ ]c2 ≤ y (25)
vt+1

Como, pela equação (23)

vt+1
= 1 ⇔ vt+1 = vt (26)
vt

então

c1 + c2 ≤ y (27)

14
Figura 6:

1.3.2 A Teoria Quantitativa da Moeda


Pela Teoria Quantitativa da Moeda, M V = P Q. Assumindo que a veloci-
dade da moeda é constante e que há pleno emprego, então

∆M = ∆P (28)

de modo que conclui-se pela principal proposição da economia monetária


clássica: o nível de preços é proporcional ao estoque de moeda.

Nesse contexto, a pergunta que emerge é: será a TQM assegurada com o


arcabouço OG?

Vimos que, em equilíbrio, a quantidade ofertada de moeda é igual à de-


manda por moeda. Isto é,

vt Mt = Nt (y − c1,t ) (29)

ou

15
Nt (y − c1,t )
vt = (30)
Mt

No equilíbrio estacionário,

N (y − c1 )
vt = (31)
Mt

Sabendo que vt é o valor de uma unidade monetária em termos de bens


1
(pt vt = 1), então pt = vt , de modo que

Mt
pt = ⇒ ∆M = ∆p (32)
N (y − c1 )

Isto é, o nível de preços é proporcional ao estoque de moeda.

1.3.3 A Neutralidade do Estoque de Moeda


Note que as escolhas de consumo do indivíduo independem do estoque de
moeda, mas dependem de sua taxa de retorno ( vt+1
vt ).

Quando o estoque de moeda é constante, a taxa de retorno da moeda -


duciária independe do estoque de moeda, o que indica que o estoque de
moeda é neutro.

1.3.4 O Conjunto Orçamentário com uma População Crescente


Nos exemplos considerados anteriormente, concluímos que o valor constante
da moeda (preços constantes) assegura um equilíbrio que maximiza o bem
estar das gerações futuras. Porém, será isso sempre verdadeiro ou haverá
situações em que uma alteração no valor da moeda maximizará a utilidade
das gerações futuras?

Para responder esses questionamentos, ampliaremos a discussão para per-


mitir que a economia cresça ao longo do tempo, de modo que a quantidade
do bem de consumo disponível na economia cresça ao longo do tempo. Para

16
ver isso, suponhamos que a população dessa economia cresça
1 à taxa bruta

constante n > 1, em cada período t. Isto é, Nt = nNt−1 .

No modelo com planejador central, concluimos que

Nt c1 + Nt−1 c2 ≤ Nt y (33)

Com população constante (Nt = Nt−1 = N )

c1 + c2 ≤ y (34)

Por outro lado, como Nt = nNt−1 , então

Nt Nt−1 Nt
[ ]c1 + [ ]c2 ≤ [ ]y (35)
Nt Nt Nt

Substituindo Nt = nNt−1 , vem

1
c1 + [ ]c2 ≤ y (36)
n

Porém, como n > 1, há mais indivíduos jovens para cada indivíduo velho, de
modo que há mais bens disponíveis por indivíduo no segundo período de vida
(ny > y) e o gráco da restrição orçamentária ca mais íngreme (Figura 7),
apresentando uma nova alocação da regra de ouro com aumento do consumo
no segundo período de vida dos indivíduos da geração t.

1.3.5 O Equilíbrio Monetário em uma Economia em Crescimento


Recordemos que o equilíbrio monetário com moeda duciária implica

Nt (y − c1 )
vt = (37)
Mt

onde o numerador da fração corresponde à demanda real total por moeda

1
Num equilíbrio monetário com população crescente a demanda por moeda duciária
também é crescente.

17
Figura 7:

duciária e o denominador é o estoque de moeda.

A equação nos informa que o valor da moeda duciária, em qualquer período,


é determinado pela demanda por moeda duciária, medida em relação à sua
oferta. Um aumento da demanda real relativa por moeda duciária aumenta
seu valor e vice-versa.

No período t + 1, a expressão da equação (37) transforma-se em

Nt+1 (y − c1 )
vt+1 = (38)
Mt+1

Logo, a taxa de retorno da moeda duciária será

Nt+1 (y−c1 ) Nt+1


vt+1 Mt+1 Mt+1
= Nt (y−c1 )
= Nt
(39)
vt Mt
Mt

Assumindo a constância do estoque de moeda (Mt+1 = Mt = M ) e popula-


ção crescente (Nt = nNt−1 ), vem

18
vt+1 Nt+1 nNt
= = =n (40)
vt Nt Nt

Isto é, se o estoque de moeda é constante, a taxa de retorno da moeda du-


ciária é igual à taxa de crescimento da população. Como n > 1, isso implica
que o valor da moeda é crescente e o preço do bem de consumo é decrescente.

Recordando, pela equação (25), a restrição orçamentária intertemporal do


indivíduo resulta em

   
vt 1
c1 + c2 ≤ y ⇒ c1 + c2 ≤ y (41)
vt+1 n

que representa o mesmo resultado encontrado com o modelo com Planejador


Central, com população crescente [equação (36)].

19
2 Trocas Diretas (Barter ) e Trocas com Moeda Mer-
cadoria
Em uma economia, a necessidade das trocas emerge do problema segundo o
qual os bens que uma pessoa produz podem não ser os bens que esta pessoa
deseja consumir. Nas seções anteriores modelamos o problema das trocas
assumindo que as pessoas recebiam uma dotação de bens perecíveis quando
jovens, mas desejavam consumi-lo no período seguinte de suas vidas, quando
velhos. No entanto, no modelo desenvolvido na seção anterior não há alter-
nativa à moeda, na ausência de dupla coincidência de desejos: como há um
único bem na economia em cada período, não faz sentido pensar em trocas
de um bem por ele mesmo.

Considere uma economia em que convivem duas alternativas de troca:

(1) trocas diretas, em que os bens que um indivíduo deseja são adqui-
ridos através de troca pelos bens que o indivíduo produz e

(2) trocas com moeda mercadoria, em que os bens que um indivíduo


tem são trocados por uma mercadoria que serve de meio de troca pelos bens
que tal indivíduo deseja.

Observe que, numa economia monetária com moeda duciária, os bens


são trocados por moeda, enquanto que, em economias com moeda mercadoria
ou em economias com trocas diretas (ou barter ), bens são trocados por bens.

Nosso objetivo, a seguir, é usar dois modelos para comparar a performance


do modelo de economia com moeda duciária com modelos de economias
que usam outros artifícios de troca (barter e trocas com moeda mercadoria).
O primeiro modelo ilustra como as trocas diretas (barter ) podem ter custos
superiores às trocas monetárias; no segundo modelo, uma mercadoria (ouro,
p. ex.) serve como meio de troca: as pessoas trocam a mercadoria que não
desejam consumir por bens que desejam consumir. Em seguida comparare-
mos economias que utilizam moeda mercadoria com economias que utilizam
moeda duciária, para determinar se uma é preferida à outra.

2.1 Um Modelo de Trocas Diretas

Se pudermos observar uma economia primitiva, veremos que ela opera, basi-
camente, através de trocas diretas, com os bens que os indivíduos produzem

20
trocados diretamente pelos bens que eles desejam consumir. No entanto,
quando a economia começa a produzir uma grande variedade de bens e a es-
pecialização na produção se desenvolve, as trocas diretas começam a tornar-
se inecientes, em razão da necessidade da "dupla coincidência de desejos"
requerida pelas trocas diretas: para que uma troca direta seja realizada com
sucesso, a pessoa com quem o indivíduo deseja trocar os bens produzidos, não
apenas tem de ter os bens que ele deseja, mas, também, tem de desejar trocar
seus bens pelos bens que o indivíduo possui.

Para ilustrar as diculdades inerentes ao problema, considere uma economia


parecida com a economia de gerações superpostas discutida anteriormente,
modicada para incorporar J diferentes tipos de bens. Cada pessoa é dotada
com y unidades de um único bem quando jovem e nenhuma unidade quando
velho. Quando jovens, os indivíduos desejam consumir o bem de sua dota-
ção, porém, quando velhos, desejam consumir outro tipo de bem, embora,
quando jovem, o indivíduo não saiba qual bem desejará consumir na velhice.

Hipóteses
(1) Existe um estoque xo de M unidades de moeda duciária, que pode
ser "estocada", sem custo. No primeiro período, o estoque M de moeda
duciária é propriedade da geração inicial ou initial old.

(2) Para fornecer uma alternativa à moeda duciária, diferentemente do


modelo anterior, assume-se que os bens podem ser estocados, sem custo, ao
longo do tempo.

(3) As pessoas vivem em um grande número de ilhas separadas. As pes-


soas de uma mesma ilha recebem a mesma dotação inicial do particular bem
y, pois têm os mesmos gostos. Isto é, cada indivíduo jovem na ilha 1 recebe
uma dotação y do bem 1; cada indivíduo jovem na ilha 2 recebe uma dotação
y do bem 2 e assim sucessivamente.

(4) Adicionalmente, quando velho, todas os indivíduos de uma mesma ilha


desejarão consumir o mesmo tipo de bem, um bem que não possuem.

(5) Pessoas que desejam efetuar trocas, viajam em grupos para uma área
de troca (mercado ou feira), em que um grupo de uma ilha é combinado
aleatoriamente com um grupo de outra ilha. Quando as pessoas de um par
de ilhas se encontram, eles podem revelar o tipo de bem que possuem e o tipo
de bem que desejam. Se a dupla coincidência de desejos estiver presente, a

21
troca é efetuada e os participantes dos grupos retornam a suas respetivas
ilhas.

Os custos das trocas são avaliados da seguinte forma: cada vez que um
grupo de uma ilha é combinado com um grupo de outra ilha cada pessoa do
grupo incorre num custo de α unidades de utilidade, representando o incô-
modo em procurar um parceiro comercial adequado.

2.1.1 Trocas Diretas


Suoponha que, para efetuar troca do bem que recebe (quando jovem) pelo
bem que desejará (quando velho), cada indivíduo pode armazenar (ou es-
tocar) uma parte de sua dotação do particular bem y. Como determinar a
probabilidade de que, em qualquer tentativa, ocorra um encontro exitoso?

Tabela 1: Dotação Inicial e Desejos


a b c
a * *
b * *
c * *

A tabela 1, acima, apresenta as possíveis combinações de bens com que as


pessoas são dotadas, com os bens que as pessoas são dotadas (produzem)
ou desejam consumir, para J =3 (rotulados como a, b e c). Se fosse pos-
sível desejar, quando velho, o bem com o qual foi dotado quando jovem,
haveria J 2 = 9 combinações possíveis. Como é necessário excluir 3 combina-
2
ções (a com a, b com b e c com c), sobrarão J −J = 6 combinações possíveis.

Assumindo que cada grupo tem a mesma probabilidade de formar corres-


pondência na primeira tentativa (encontrar quem possua o bem que o grupo
deseja, em troca do bem que possui), a probabilidade de realizar a troca será
dada por .
2

2
Suponha que realizemos um experimento ε e que estejamos interessados apenas na
ocorrência ou não-ocorrência de algum evento A. Admita que realizemos ε repetidamente,
que as repetições sejam independentes e que, em cada repetição, P (A) = p e P (A) =
1 − p = q permaneçam os mesmos. Suponha que o experimento seja repetido até que A
ocorra pela primeira vez. Dena uma variável aleatória X como o número de repetições
necessárias para obter a primeira ocorrência de A, nele incluindo esta última repetição.

22
1
P (J) = (42)
(J 2 − J)

Isto é, para uma economia simples, com J = 3 bens, a probabilidade de


1
correspondência em uma tentativa é P (J) = 9−3 = 16 , enquanto para uma
1 1
economia mais sosticada, com J = 100 bens, P (J) =
10000−100 = 9.900
Dado que cada tentativa custa α de utilidade, o custo médio da busca de
2
correspondência, sob trocas diretas, é α(J − J).

2.2 Trocas Monetárias

Um padrão alternativo de comércio usa moeda duciária como meio de tro-


cas. Suponha que as pessoas jovens busquem trocar seus bens com as pessoas
velhas por moeda duciária e então, quando velhos, usem a moeda duciá-
ria para adquirir os bens que desejam. Nesse caso, as pessoas empreendem
duas buscas e duas trocas, durante a vida. Apesar disso, os custos médios
de busca, durante a vida, podem ser menores com trocas monetárias, com-
paradas com outros métodos. Numa única tentativa, a probabilidade de
um indivíduo jovem encontrar uma pessoa idosa que deseja o que ele tem é
1
J . O indivíduo jovem deseja moeda duciária e não se preocupa com que
tipo de pessoa idosa tem de se encontrar, porque qualquer idoso tem o que
o indivíduo jovem deseja: moeda duciária. Portanto, a probabilidade de
1
uma correspondência em uma dada tentativa é apenas
J , menor do que a
1
probabilidade da correspondência sob trocas diretas, , em que cada
(J 2 −J)
parte preocupa-se com o tipo de bem da outra parte. Com moeda duciária,
ocorrem, em média, J buscas para que aconteça um sucesso. Como, cada
indivíduo realiza duas buscas - uma quando jovem e outra quando velho -
os custos das pessoas que usam moeda, durante a vida, será, em média, 2αJ .
Como X = k se e somente se, as k − 1 primeiras repetições do experimento ε derem o
resultado A, enquanto a k-ésima repetição dê o resultado A, então diz-se que a variável
aleatória X tem uma distribuição geométrica de probabilidades, dada por

P (X = k) = q k−1 p
onde q = 1 − p.

O valor esperado da variável aleatória X será dado por


∞ ∞  
X X d k d q 1
E(X) = kpq k−1 = p q =p = .
dq dq 1 − q p
k=1 k=1

23
Figura 8:

Comparando tais custos (no caso em que o indivíduo faz trocas diretas com
o caso em que o indivíduo usa moeda duciária), constata-se que

α(J 2 − J) > 2αJ ⇐⇒ J > 3


Isto é, sempre que existir mais de três tipos de bens (J > 3), os custos médios
do uso da moeda são menores do que os custos médios das trocas diretas,
porque, com a posse de moeda duciária, é mais fácil encontrar alguém com
o bem que o indivíduo deseja, do que, no caso das trocas diretas, encontrar
alguém que tenha o que o indivíduo deseja e que deseja o que o indivíduo
tem (dupla coincidência de desejos). Ver diagrama na Figura 8.

2.2.1 O Que Pode Ser Usado Como Moeda?


Nada nos nossos modelos com moeda ou com trocas diretas requer que o
meio de troca seja moeda duciária. Uma mercadoria, que não necessaria-
mente é consumida, também pode ser usada como meio de troca, desde que
os indivíduos acreditem que seja possível trocar tal mercadoria pelo bem que
deseja consumir. A tal tipo de mercadoria chamamos moeda mercadoria. Há
exemplos clássicos de moeda mercadoria como os cigarros usados como mo-
eda nos campos de concentração, durante a II Guerra Mundial. Note que,
mesmo prisioneiros não fumantes aceitavam-nos porque cigarros podiam ser
usados depois para subornar os guardas ou para adquirir outros bens. Isto

24
demonstra que a moeda é um fenômeno econômico que não depende do go-
verno como agente emissor. Mais precisamente, a moeda mercadoria é um
bem com valor intrínseco (pelo menos, algumas pessoas derivam utilidade
do seu consumo direto) que é usado como meio de trocas.

2.3 Custos das Trocas: Trocas Diretas versus Trocas Mone-


tárias

As trocas monetárias envolvem dois movimentos de comércio - bens por o


moeda, então moeda por bens - enquanto as trocas diretas requerem apenas
um movimento - bens por bens. Neste caso, se cada movimento de comércio
for custoso, a vantagem na redução dos custos de busca de correspondência
propiciada pela moeda pode ser anulada pelo custo do segundo movimento
de comércio.

Assuma-se que existe um custo de trocas de λ unidades de utilidade por


pessoa, a cada transação de mercadoria, representando do incômodo da ve-
ricação da quantidade e da qualidade dos bens trocados ou o custo de
transporte dos bens de uma ilha para outra. Isto é, λ é o custo de trocas
por pessoa. Dena-se λm como o custo de trocas da moeda. Como, no nosso
modelo, uma pessoa comercializa bens uma vez na vida, o custo da troca do
indivíduo é λ e os custos totais das trocas com moeda, são dados por λ + λm
porque, nesse caso, cada indivíduo aceita moeda quando jovem (com custo
λm ) e bens quando velho (com custo λ). A Tabela 2, abaixo, sumariza os
custos associados às trocas diretas e trocas com moeda.

Tabela 2: Custos de Busca e Custos das Trocas


Custo de Busca Custo de Troca Custo Total
Trocas Diretas α(J 2 − J) λ α(J 2 − J) + λ
Trocas Monetárias 2αJ λ + λm 2αJ + λ + λm

O interessante é que o custo de troca da moeda tende para λm = 0, de modo


que as trocas diretas e as trocas monetárias tenderão a ter os mesmos custos
3
de troca ao longo da vida do indivíduo . Logo, as trocas monetárias trarão

3
A ideia é que a moeda duciária tem as propriedades de ser de fácil reconhecimento
e de fácil medida, de modo que os custos de troca da moeda duciária (λm ) são, aproxi-
madamente, zero.

25
mais benefícios (serão superiores em às trocas diretas em termos de satis-
fação) sempre que J > 3, já que as trocas monetárias têm custos de busca
menores do que as trocas diretas [2αJ < α(J 2 − J))].

No entanto, os custos de troca num sistema com moeda mercadoria não


são negligenciáveis. Na verdade, muitas vezes, tais custos são muito altos.
Por exemplo, quando do uso de pedaços de metais preciosos como moeda, a
qualidade do metal deve ser medida para avaliar seu valor. Uma forma de
reduzir tais custos da moeda metálica (moeda mercadoria) foi a cunhagem
de moeda com valor de face denido.

2.4 Um Modelo com Moeda Mercadoria

O ouro tem dois usos possíveis na nossa economia: consumo e trocas. Segue-
se que há dois possíveis equilíbrios, (a) um equilíbrio em que o ouro é trocado
por bens e não é consumido e (b) um equilíbrio em que o ouro é consumido e
usado como meio de troca. Comecemos com o equilíbrio (a), em que o ouro
é o meio de troca e jamais será consumido.

Em cada período, os indivíduos jovens consomem uma parte de sua dotação


de bens e usam o restante para comprar ouro, que é usado para trocas por
bens de consumo no segundo período. Usando a notação do modelo de ge-
rações superpostas, o número de unidades de bens de consumo que pode ser
usada para adquirir ouro será vtg mgt . Isto implica que a restrição enfrentada
por cada indivíduo no primeiro período da vida é

c1,t + vtg mgt ≤ y (43)

Quando velho, cada indivíduo usará o ouro retido para trocá-lo por bens de
consumo. Portanto, a restrição enfrentada por cada indivíduo no segundo
período da vida é

g
c2,t+1 ≤ vt+1 mgt (44)

A substituição da equação (44) na equação (43) resulta na restrição orça-


mentária intertemporal de um indivíduo nascido no período t, dada por

26
" #
vgt
c1,t + g c2,t+1 ≤ y (45)
vt+1

Sabendo que o mercado de ouro deve equilibrar-se em cada período e que a


oferta de ouro, em cada período, é xada em M g , pela equação (43) podemos
ver que a demanda de ouro de cada indivíduo jovem, no período t, é

y − c1,t
mgt = (46)
vtg
N (y−c1,t )
de modo que a demanda total de ouro será dada por N mgt = vtg
.

Igualando a oferta de ouro Mg com a demanda total por ouro, veremos


que

N (y − c1,t ) N (y − c1,t )
Mtg = g ⇒ vtg = (47)
vt Mtg

Restringindo a atenção ao caso de variáveis estacionárias, onde c1,t = c1 ,


c2,t = c2 e Mtg = M g , para todo t, concluímos que, em cada período, o valor
de equilíbrio estacionário do ouro é

N (y − c1 )
vg = (48)
Mg

Como o equilíbrio estacionário é constante ao longo do tempo, então a taxa


g
vt+1
de retorno do outro é 1 em cada período. Isto é,
vtg
= 1, para todo t.

Nesse equilíbrio, o estoque de ouro é usado como meio de troca e o ouro


não é consumido. O problema é que, para isso representar o comportamento
racional das pessoas, não poderá haver incentivo ao consumo de ouro.

No entanto, quais as condições que asseguram que o consumo de ouro não


ocorrerá? Basta que o consumo de ouro traga menor utilidade aos indivíduos
do que o uso do ouro como meio de troca. Isto é, o valor de troca de uma
g
unidade de ouro (v ) terá de exceder seu valor intrínseco ou valor de uso (v
e).
Isto é,

N (y − c1 )
vg = > ve (49)
Mg

27
Isto é, 1 unidade de ouro trocada por bens de consumo renderá, ao indivíduo,
vg unidades do bem de consumo, gerando uma utilidade compatível. Se as
pessoas consumirem 1 unidade do ouro, ao invés de utilizá-lo como meio de
troca, obteriam uma quantidade de utilidade compatível com ve unidades do
bem de consumo. Assim, se v
g > ve, uma unidade de ouro usada como meio
de troca rende maior utilidade do que o seu consumo.

2.5 O Consumo de Ouro

A alternativa ao uso de ouro como meio de troca é seu uso como bem de
g
consumo. Assim, suponha que o valor de troca do ouro (v ) é menor do que
seu valor de uso (v
e). Isto é,

N (y − c1 )
vg = < ve (50)
Mg

Nesse caso, a geração inicial (initial old ) prefere consumir sua dotação de
ouro, a usá-lo como meio de troca (seu valor intrínseco ou valor de uso é
maior do que seu valor de troca). Dito de outro modo, o indivíduo da ge-
ração inicial terá maior satisfação consumindo 1 unidade de ouro e obtendo
ve unidades de utilidade, do que trocando-a pelo bem de consumo e obtendo
v g unidades de utilidade.

Se v g < ve, a pergunta que emerge é: quanto de ouro é consumido pelo


indivíduo? Note que, à medida que o ouro vai sendo consumido, o estoque
total de ouro da economia começa a cair, de modo que, pela equação (50),
o preço do ouro começa a aumentar. O processo continua enquanto v g < ve,
g
e. Neste ponto, o estoque de ouro é tal que M g = M g∗ ,
até que atinja vt = v
onde M
g∗ é a quantidade de ouro não é consumido e é usado com propósito

monetário, de modo que o valor de uma unidade de ouro é tal que

N (y − c1 ) N (y − c1 )
vtg = g∗
= ve ⇒ M g∗ = (51)
M ve

O valor do total de ouro usado como meio de troca será veM g∗ = N (y − c1 )


e a quantidade de ouro consumida pela geração inicial (initial old ) terá sido
M g − M g∗ .

28
2.6 A Ineciência da Moeda Mercadoria

Os econimistas têm armado que as moedas mercadorias são inecientes .


4

Em que consiste tal ineciência? Comparemos uma economia com moeda


mercadoria com uma economia com moeda duciária. Na economia com
moeda duciária, consideramos um equilíbrio monetário onde existe uma
população constante e uma oferta de moeda constante, similar ao ambiente
da economia com moeda mercadoria aqui apresentado.

Lembremos que na nossa economia com moeda mercadoria, o equilíbrio es-


tacionário conduz a

" #
vgt
c1 + g c2 ≤ y (52)
vt+1

Ora, nessa economia, o preço do ouro é constante ao longo do tempo, de


g
vt=1
modo que sua taxa de retorno é
vtg
= 1. Substituindo tal resultado na

equação (52) acima, temos

c1 + c2 ≤ y (53)

Isto é, do ponto de vista das gerações futuras, usar uma mercadoria como
meio de troca ou usar moeda duciária como meio de troca, não há altera-
ção do bem estar: dadas as preferências idênticas entre as duas economias
(com e sem moeda duciária), os indivíduos escolherão a mesma combinação
de consumo (c∗1 , c∗2 ), de modo que, do ponto de vista das gerações futuras,
numa economia com moeda mercadoria não há vantagens ou desvantagens.
No entanto, do ponto de vista da geração inicial, que já nasce velha (ini-
tial old ), há sim alteração do bem estar. Para ver isso, basta notar que a
geração initial old poderia usar a moeda duciária para adquirir idêntica
quantidade de bens de consumo que adquiriria com ouro (a moeda mercado-
ria) e, adicionalmente, poderia consumir sua retenção da ouro. Claramente,
isso aumentaria a utilidade da geração velha vis à vis a situação em que o
ouro é usado para adquirir os bens de consumo.

A intuição por trás do argumento é que com um sistema monetário base-


ado em moeda mercadoria, os recursos que têm valor intrínseco, que podem

4
Por exemplo, Friedman (1960).

29
ser consumidos, são utilizados como meio de troca, enquanto que, com mo-
eda duciária, tais recursos podem ser consumidos, aumentando o bem estar
do indivíduo.

30
3 Inação: a Oferta Crescente da Moeda Fiduciária
Nos tópicos anteriores estudamos os fatores que afetam a demanda por mo-
eda, considerando os casos de uma população constante e crescente, embora
sempre considerando constante o estoque de moeda. Cabe então perguntar
quais as consequências do crescimento do estoque de moeda duciária?

Estudemos, então, os efeitos de uma expansão monetária. Em primeiro lu-


gar, consideremos essa expansão no modelo de gerações superpostas com
população constante e bem perecível. Posteriormente, avaliaremos o caso de
expansão monetária numa economia em crescimento.

Contrariamente ao que foi visto no capítulo de trocas monetárias, aqui não


consideraremos o caso da moeda mercadoria.

Consideremos que a oferta de moeda no período t seja função do que ocorreu


no período t − 1,

Mt = zMt−1 (54)

com z>1 respondendo pela taxa bruta de expansão monetária. Isto é,

 
Mt 1
∆Mt = Mt − Mt−1 = Mt − = 1− Mt (55)
z z

unidades de moeda são impressas em cada período e introduzidas na econo-


mia por meio de subsídios (ou transferências) lump sum a cada pessoa velha,
no valor de at unidades do bem de consumo. Isto é,

 
1
Nt−1 at = 1 − vt M t (56)
z

ou

1 − z1 vt Mt

at = (57)
Nt−1

Isto é, at representa o valor real transferido (ou distribuído) a cada pessoa


velha e representa a restrição orçamentária do governo, sugerindo que o go-
verno não pode gastar mais do que sua receita, receita esta representada pela

31
nova moeda emitida.

Com esse tipo de expansão da moeda duciária, o orçamento individual


se transforma em

c1,t + vt mt ≤ y (58)

c2,t+1 ≤ vt+1 mt + at+1 (59)

cujo resultado implica

vt vt
c1,t + c2,t+1 ≤ y + at+1 (60)
vt+1 vt+1

Igualando oferta e demanda por moeda duciária, vem

vt Mt = Nt (y − c1,t ) (61)

Usando o conceito de estacionariedade e resolvendo para vt , vem

Nt (y − c1 )
vt = (62)
Mt

Assim, a taxa de retorno da moeda será dada por


5

Nt+1 (y−c1 )
vt+1 Mt+1 Mt Mt 1
= Nt (y−c1 )
= = = (63)
vt Mt+1 zMt z
Mt

A equação (63) nos informa que quando houver expansão monetária, o valor
da moeda declina ao longo do tempo e que, quanto maior for o valor de
z > 1, menor será a taxa de retorno da moeda duciária. Como p t vt = 1
representa o valor de uma unidade monetária em termos de bens, de modo
que pt = v1t , então os preços evoluem, ao longo do tempo, de acordo com
z > 1. Isto é, a taxa de crescimento dos preços será dada por

pt+1 = zpt (64)

5
Lembre-se que estamos considerando Nt = Nt−1 = N .

32
Quando z > 1, a equação (64) prediz que o nível de preços aumentará na
mesma taxa do da expansão do estoque de moeda. Por exemplo, se z = 1, 05,
o nível de preços estará crescendo à taxa líquida de 5% e será proporcional
ao tamanho do estoque de moeda, como previsto pela Teoria Quantitativa
da Moeda.

3.1 O Conjunto Orçamentário com Expansão Monetária

Pela equação (63), a taxa de retorno da moeda, num equilíbrio estacionário


vt+1 1
é
vt = z . Substituindo essa relação na equação (60) e usando o conceito
de estado estacionário no consumo dos jovens e dos velhos, vem

c1 + zc2 ≤ y + za (65)

Na Figura 9, abaixo, o conjunto orçamentário com inação é tangenciado


∗ ∗
pela curva de indiferença, indicando o equilíbrio monetário (c1 , c2 ). Note
que, pelo fato de z > 1, o gráco do conjunto orçamentário foi alterado
de dois modos. Primeiro, a linha orçamentária é menos íngreme do que o
conjunto factível obtido na solução do Planejador Central, signicando que,
para obter uma unidade do bem de consumo na velhice, o indivíduo deverá
abrir mão de mais de uma unidade do bem consumo na juventude do que
teria de desistir caso não houvesse inação. Isto resulta da queda da taxa
vt+1
de retorno da moeda, quando nova moeda duciária é emitida (
vt = z1 ).
Além disso, o conjunto orçamentário intercepta o eixo horizontal em y + za
ao invés de y, porque a renda do indivíduo agora agora inclui a dotação de
bens (y ) e o subsídio (a).

O senso comum manda dizer que, para realizar os subsídios, um governo


que não produz bens, pode arrecadar renda apenas tomando bens dos in-
divíduos, p. ex., através de impostos. Porém, a criação de moeda parece
uma maneira de arrecadar renda sem taxação. Quão real pode ser isso? O
governo pode emitir moeda sem custo, mas o valor real dos subsídios tem
de vir de algum lugar, porque o conjunto orçamentário não é expandido por
mágica quando o governo decide imprimir moeda duciária adicional. Como
o total de bens na economia é xado pela dotação total (Nt y ), os subsídios
às pessoas velhas só poderão ser sustentadas por perdas pelas pessoas jovens.

De fato, quando o governo expande o estoque de moeda duciária, o es-


toque de moeda anterior (e atualmente retido pelos indivíduos) perde valor,

33
Figura 9:

já que a nova moeda competirá com a moeda antiga pela aquisição dos bens
dos indivíduos jovens (que é xado em Nt y ), reduzindo o valor de toda o
estoque de moeda. As perdas sustentadas pelos detentores da moeda velha
funciona como um imposto sobre suas retenções de moeda duciária (im-
posto inacionário ).

Como as perdas para a taxação é proporcional ao estoque de moeda re-


tido, para reduzir a exposição ao imposto sobre os saldos monetários, os
indivíduos tendem a reduzir o uso de moeda duciária.

3.2 A Ineciência da Inação

Será eciente a expansão do estoque de moeda? Para avaliar a otimalidade do


equilíbrio com inação, devemos compará-lo com outras alternativas. Inicial-
mente, compararemos o conjunto orçamentário com inação com o conjunto
factível representado na economia com Planejador Central. Se os dois con-
juntos coincidirem, a aloção da Regra de Ouro será atingível sob o equilíbrio
monetário.

34
Figura 10:

Note que a expansão do estoque de moeda duciária não terá efeito sobre o
estoque de bens disponíveis para a distribuição para o consumo entre jovens
e velhos, de modo que tal expansão não terá efeito sobre o conjunto factível
da economia.

No tópico inicial, sobre gerações superpostas, mostramos que o conjunto


factível pode ser representado por

Nt c1,t + Nt−1 c2,t ≤ Nt y (66)

de modo que, com uma população constante e alocação estacionária, teremos

c1 + c2 ≤ y (67)

Para comparar o equilíbrio monetário com a alocação do conjunto factível,


superpomos o conjunto factível (c1 + c2 ≤ y ) no equilíbrio monetário da Fi-
gura 9, anterior e o apresentamos na Figura 10, acima.

35
O conjunto factível começa com y no eixo vertical e intercepta a reta orça-
∗ ∗ ∗ ∗
mentária na alocação (c1 , c2 ). Se a alocação (c1 , c2 ) se localizar no interior
do conjunto factível, então alguém estará desperdiçando bens, uma ação in-
consistente com a maximização da satisfação. Por outro lado, se a mesma
alocação situar-se fora do conjunto factível, alguém poderá estar consumindo
além das possibilidades, o que é impossível. Logo o equilíbrio (c1 , c2 ) se lo-
∗ ∗

calizará na borda do conjunto factível. Isto é, o conjunto factível passa por


∗ ∗
(c1 , c2 ).

Ao examinar ao Figura 10, note que, porque a cesta de consumo (c1 , c2 )


∗ ∗

representa a máxima utilidade possível no conjunto orçamentário, tal cesta


de consumo está localizada num ponto em que a curva de indiferença Uo
tangencia essa reta orçamentária. Além disso, note que o valor absoluto da
1
inclinação da reta orçamentária é
z e que o valor absoluto do conjunto fac-
1
tível é 1. Além disso, como < 1, a reta orçamentária é menos inclinada do
z
que o conjunto factível. Como a reta do conjunto factível (c1 + c2 ≤ y ) passa
∗ ∗
por (c1 , c2 ), mas com inclinação diferente, ela não tangencia a curva de in-
o
diferença U , embora a intercepte. Isto é, no conjunto factível há pontos de
utilidades mais altas para as gerações futuras que não podem ser alcançados

pelo equilíbrio monetário (c1 , c2 ).
∗ Um tal ponto é o ponto A na curva de
1
indiferença U .

As gerações futuras preferem o ponto A ∗ ∗


a (c1 , c2 ) porque o ponto A está
localizado sobre uma curva de indiferença superior. Além disso, porque o
consumo do segundo período de vida é superior no ponto A do que em (c∗1 , c∗2 ),
∗ ∗
a geração inicial (inital old ) também o prefere a (c1 , c2 ).

Sabendo que as gerações futuras preferem o ponto


∗ ∗
a (c1 , c2 ), por que
A
as mesmas não o escolhem? Porque o ponto A não está no seu conjunto
orçamentário, uma vez que a taxa de retorno da moeda é baixo, não permi-
tindo às futuras gerações consumirem a cesta que passa por A.

3.3 A Política Monetária de Regra de Ouro em uma Econo-


mia em Crescimento

Neste tópico, até aqui, temos considerado constante a população. Porém,


o que acontecerá na economia se for permitido o crescimento da população,
de modo que, além do crescimento da oferta de moeda, também haja cresci-
mento da demanda por moeda?

36
Consideremos o modelo básico de gerações superpostas com bem perecível
e com população crescente, de modo que Nt = nNt−1 (a economia estará
crescendo à taxa n > 1). Seja M = zMt−1 , com z > 1. O crescimento do
estoque de moeda duciária nanciará um subsídio lump sum no valor at+1
unidades do bem perecível a cada pessoa velha no período t + 1. Qual será
a taxa de retorno da moeda duciária nesta economia?

Se o mercado de moeda se equilibrar nos períodos t e t+1 e considerar-


mos o equilíbrio no estado estacionário, então a taxa de retorno da moeda
duciária será dada por

Nt+1 (y−c1 )
vt+1 Mt+1 Nt+1 Mt nNt Mt n
= Nt (y−c1 )
= = = (68)
vt Nt Mt+1 Nt zMt z
Mt

Neste caso, a reta orçamentária dada por

vt vt
c1,t + c2,t+1 ≤ y + at+1 (69)
vt+1 vt+1

transforma-se, no estado estacionário, em

hzi hzi
c1 + ≤y+ at (70)
n n
vt z
uma vez que
vt+1 = n.

Aqui, mais uma vez, devemos comparar tal conjunto orçamentário com o
conjunto factível (aquele enfrentado pelo Planejador Central). Como a im-
pressão de moeda duciária não altera o conjunto factível, então, em razão
do crescimento da população,

Nt c1,t + Nt−1 c2,t ≤ Nt y (71)

No estado estacionário, tal resultado transforma-se no novo conjunto factível


em que a economia cresceu à taxa n, dado por
 
1
c1 + c2 ≤ y (72)
n

37
Figura 11:

Pela equação (72) acima, nota-se que a expansão do estoque de moeda não
altera o conjunto factível (z ou a não aparecem na equação).

Para comparar o equilíbrio monetário (equação 70) com o conjunto factível


(equação 72, grafam-se os dois em conjunto, na Figura 11, onde se vê que
há pontos factíveis (p. ex. A) que oferecem maior utilidade para as gerações
futuras e inicial do que oferece o equilíbrio monetário (ponto B ).

A expansão do estoque de moeda duciária (z > 1) distorce o conjunto or-


n
çamentário pela mudança da inclinação de n para
z < n, de modo que o
conjunto orçamentário não é o mesmo que o conjunto factível na equação
(72). Isto é, o conjunto orçamentário não oferece ao indivíduo escolha sobre
todas as alocações factíveis.

3.4 Uma Política do Governo para CORRIGIR o Nível de


Preços

Muitos economistas sugeriram que se a economia estiver crescendo, a oferta


de moeda deveria crescer à mesma taxa para assegurar a constância do valor

38
6
da moeda . Examinaremos este ponto em dois passos. Primeiro, pergunte-
mos que taxa de crescimento da moeda duciária manterá constante o nível
de preços e em seguida perguntemos se tal política monetária melhorará a
situação dos indivíduos.

Pela equação (70), vemos que para assegurar a constância do valor da mo-
eda (e, por extensão, do nível de preços), a taxa de crescimento da moeda
(z ) deverá ser igual à taxa de crescimento da demanda por moeda, que é
vt+1 z
igual à taxa de crescimento da população (n). Isto é, = = 1: o valor
vt n
da moeda será constante quando a taxa de crescimento da oferta de moeda
duciária for igual à taxa de crescimento da demanda por moeda duciária.

O problema é que, quando n > 1 e z = n, o conjunto orçamentário no


equilíbrio monetário estacionário torna-se

c1 + c2 ≤ y + a (73)

Tal conjunto orçamentário está desenhado no diagrama da Figura 12, abaixo,


onde se vê que há diversos pontos do conjunto factível (p. ex., o ponto A)
que são preferíveis ao equilíbrio monetário, no ponto B. Claramente, o ponto
A é preferível ao ponto B pelas gerações futuras e pela geração inicial. As
gerações futuras preferem o ponto A porque este está situado numa curva
de indiferença superior, enquanto a geração inicial prefere o ponto A porque
representa mais consumo no segundo período de vida.

3.4.1 Financiando as Compras do Governo


Na seção anterior vimos que o governo estava habilitado a emitir, sem custo,
novas unidades de moeda duciária que são valoradas pelo público. Segue-se
que se o governo necessitar aumentar suas receitas para comprar bens, pode
fazê-lo pela impressão de nova moeda duciária. O uso da criação de moeda
como mecanismo de receita é conhecido como senhoriagem . Examinemos
os efeitos de tal política.

Como anteriormente, seja Mt = zMt−1 , em cada período, com z > 1, impli-


cando na criação de

Milton Friedeman, em A Program for Monetary Stability, de 1960, embora tenha


6

recuado em The Optimum Quantity of Money, de 1969.

39
Figura 12:

 
1
Mt − Mt−1 = (z − 1)Mt−1 = 1− Mt (74)
z

unidades monetárias em cada período.

Tal expansão monetária pode nanciar aquisições do governo de

 
1
Gt = 1 − v t Mt (75)
z

unidades de bens no período.

Gt
Denotando g= Nt−1 como as compras (constantes) do governo por pessoa
idosa, a equação (75) representa a restrição orçamentária do governo quando
a receita da impressão de moeda é usada para nanciar suas aquisições de
bens (em contraste com os subsídios do governo, antes analisados).

Para isolar os efeitos da receita de senhoriagem pelo governo, assumimos


que as aquisições de bens pelo governo com as mesmas não afetam a cesta

40
de consumo dos indivíduos. Isto é, as compras do governo não afetam as
escolhas individuais das cestas de consumo individuais. Por exemplo, pode-
mos pensar em tal despesa como ajuda externa ou despesas de defesa, que
podem ser necessárias ou desejáveis, mas que não tem efeito direto na dese-
jabilidade de c1 ou c2 . Assim, o problema do indivíduo continua o mesmo
que anteriormente, com a restrição orçamentária intertemporal dada por

h i
vt
c1,t + vt+1 c2,t+1 ≤ y .

Usando a condição de equilíbrio do mercado monetário dada por

vt Mt = Nt [y − c1,t ]

aliado à estacionariedade do consumo, então

Nt (y − c1 )
vt = (76)
Mt

Assumindo, por enquanto, que a população é constante, então,

Nt+1 (y−c1 )
vt+1 Mt+1 Mt Mt 1
= Nt (y−c1 )
= = = (77)
vt Mt+1 zMt z
Mt

1
Dado que a taxa de retorno da moeda é
z , a restrição orçamentária inter-
temporal do indivíduo será dada por

c1 + zc2 ≤ y (78)

o que é representado na Figura 13, abaixo.

Note que o efeito do incremento da oferta de moeda à taxa z > 1 é uma


redução relativa do consumo no segundo período de vida.Isto é, em razão
da expansão monetária, o indivíduo tem de desistir de maior quantidade de
consumo no primeiro período de vida (c1 ) para adquirir uma unidade do bem
de consumo no segundo período de vida (c2 ).

3.4.2 Inação: um Imposto Ineciente



Para discutir a ineciência o equilíbrio monetário (c1 , c2 ) da Figura 13, ne-

cessitamos vericar se alguma alocação factível é preferida a tal equilíbrio.

41
Figura 13:

Para vericar isso, o conjunto factível deve incorporar os gastos do governo


(Gt ). Isto é, agora o conjunto factível será representado por

Nt c1 + Nt−1 c2 + Gt ≤ Nt y (79)

que, em termos per capita resulta em

 
1
c1 + c2 + g ≤ y (80)
n

onde c1 , c2 e g são denidas no estado estacionário.

Para Nt = Nt−1 = N ,

c1 + c2 + g ≤ y (81)

Pela Figura 14, abaixo, nota-se que há pontos factíveis (p. ex. A) que
∗ ∗
fornecem o mesmo nível de receita ao governo, mas são preferidos a (c1 , c2 ).
Pela equação (81), nota-se que o novo conjunto factível toca o eixo hori-
zontal em c1 = y − g . ∗
Além disso, nota-se também que o equilíbrio (c1 , c2 )

situa-se sobre o novo conjunto factível, signicando que os consumidores,

42
Figura 14:

após o governo haver tomado sua parte (g ), não desperdiçam bens. Usando
esta informação, superpõe-se o novo conjunto factível na restrição orçamen-
tária da equação (80), o que é representado na Figura 14. Ali, porque a curva
de indiferença é tangente à linha orçamentária com inclinação − z1 , o novo
∗ ∗
conjunto factível que passa por (c1 , c2 ), com inclinação −1, deve interceptar
tal curva de indiferença. Isto é, o novo conjunto factível pode atingir uma
curva de indiferença mais alta do que o conjunto orçamentário c1 + zc2 ≤ y .
∗ ∗
Logo, um movimento de (c1 , c2 ) em direção ao ponto A, na Figura 14, be-
necia aos jovens e às futuras gerações. Além disso, esse movimento aponta
um aumento do consumo no segundo período (c2 ), beneciando, também a
∗ ∗
geração anterior. Logo, o equilíbrio (c1 , c2 ) não é ótimo.

43

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