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UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE ESCOLA DE ENGENHARIA PROGRAMA DE PÓS GRADUAÇÃO EM ENGENHARIA DE BIOSSISTEMAS VALENTINE
UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE ESCOLA DE ENGENHARIA PROGRAMA DE PÓS GRADUAÇÃO EM ENGENHARIA DE BIOSSISTEMAS VALENTINE
UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE ESCOLA DE ENGENHARIA PROGRAMA DE PÓS GRADUAÇÃO EM ENGENHARIA DE BIOSSISTEMAS VALENTINE

UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE ESCOLA DE ENGENHARIA PROGRAMA DE PÓS GRADUAÇÃO EM ENGENHARIA DE BIOSSISTEMAS

VALENTINE JAHNEL

ANÁLISE AMBIENTAL DOS TRAÇADOS DE LINHAS DE TRANSMISSÃO PLANEJADAS NO BRASIL

Niterói, RJ

2016

VALENTINE JAHNEL

ANÁLISE AMBIENTAL DOS TRAÇADOS DE LINHAS DE TRANSMISSÃO PLANEJADAS NO BRASIL

Dissertação apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Engenharia de Biossistemas da Universidade Federal Fluminense como parte dos requisitos para a obtenção do título de Mestre em Engenharia de Biossistemas. Área de concentração Recursos Naturais e Ambiente. Linha de Pesquisa: Energia e Meio Ambiente

Orientador: Prof. o Marcio Cataldi, D.Sc. Coorientador: Prof. o Ricardo Abranches Felix Cardoso Jr. D.Sc.

Niterói, RJ

2016

J25

Jahnel, Valentine Análise ambiental dos traçados de linhas de transmissão planejadas no Brasil / Valentine Jahnel. – Niterói, RJ : [s.n.], 2016. 126 f.

Dissertação (Curso de Engenharia de Biossistemas) – Universidade Federal Fluminense. Escola de Engenharia, 2016. Orientadores: Marcio Cataldi, Ricardo Abranches Felix Cardoso

Jr.

1. Planejamento ambiental. 2. Linha de transmissão. 3. Análise ambiental. Impacto ambiental. I. Título.

CDD 551.4

Dedico este trabalho ao meu filho Ian.

AGRADECIMENTOS

Agradeço aos meus orientadores, em especial ao professor Marcio Cataldi, pela tranquilidade e confiança no decorrer do mestrado. Agradeço também à Edna Xavier e ao Hermani Vieira, meus chefes na EPE que me apoiaram e tornaram possível a minha participação neste programa de pós-graduação. Aos meus colegas da EPE, pela motivação e carinho. Ao professor Carlos Pereira, coordenador do Programa de Pós-Graduação de Biossistemas, pela força e incentivo durante o curso. E por fim, gostaria de agradecer à minha querida família, pelo constante apoio e compreensão.

RESUMO

O governo brasileiro planeja uma grande expansão no sistema de transmissão de energia

elétrica para o próximo decênio. Essas linhas de transmissão atravessarão as cinco regiões brasileiras de forma a interligar e viabilizar o escoamento da expansão da geração de energia localizada, majoritariamente, longe dos grandes centros de carga, como as hidrelétricas planejadas da região Amazônica e o aproveitamento do potencial eólico do Nordeste. A definição de um bom traçado de linha de transmissão pode reduzir os impactos ambientais e facilitar o licenciamento e a implantação de novas linhas de transmissão. Para isso, é necessário o entendimento das áreas que apresentam restrições ambientais considerando a legislação a elas associadas, suas ocorrências e distribuição no território nacional. Mudanças recentes na legislação ambiental têm modificado o planejamento dos traçados de linhas de transmissão de forma a atender as novas exigências dos órgãos licenciadores. O estudo baseado nas linhas de transmissão planejadas tem a vantagem de analisar traçados que já incorporaram as mudanças trazidas pela nova legislação vigente, além de abranger as áreas onde a expansão do sistema está ocorrendo no cenário atual. Desta forma, o presente estudo tem como objetivo avaliar os traçados de linhas de transmissão planejadas para a identificação das principais áreas de restrição

desviadas e atravessadas no Brasil, considerando as diferenças entre as regiões brasileiras. Os resultados mostram que as principais causas dos desvios dos traçados planejados no Brasil foram: paralelismo com rodovias, áreas urbanas, unidades de conservação, corpos d’água e terras indígenas. Entretanto, a importância de cada variável na definição do traçado difere significativamente entre as regiões. Na região Norte, a proximidade com rodovias, o contorno das terras indígenas e dos rios foram as variáveis que geraram maiores extensões de desvios no traçados de linhas de transmissão planejadas, enquanto na região Sudeste, destacaram-se os desvios de áreas urbanas e de unidades de conservação. Em relação às interferências dos traçados em áreas que apresentam restrições ambientais,

os resultados mostraram que os assentamentos rurais e as Áreas de Proteção Ambiental –

APAs (unidades de conservação de uso sustentável) foram as áreas que apresentaram maior número de interferências havendo, na região Norte e Nordeste, um maior número de interferências em assentamentos rurais, e na região Sudeste, maior número de interferências em APAs.

Palavras-Chave:

brasileiras.

Linhas

de

transmissão,

planejamento,

análise

ambiental,

regiões

ABSTRACT

Brazilian Government is planning a great expansion in the electrical power transmission system is for the next decade. The transmission lines will cross the five Brazilian regions to interconnect and allow the expansion of local energy generation, mostly far from the biggest power plants, such as the planned hydraulic plants in the Amazonian region and the wind generation plants in Brazilian Northeast. The definition of a good tracing layout for transmission lines may reduce the environmental impacts and ease the licensing and implementation of new lines. Toward this objective, it is necessary to know the areas that present environmental restrictions, considering the associated legislation, their occurrences and distribution throughout the national territory. Recent changes in the environmental legislation have modified the planned layout of transmissions lines in order to accomplish new requirements of licensing agencies. The study based on planned transmission lines presents the advantage of considering the layouts that already incorporate these changes raised by the current legislation, besides comprising the areas where the system’s expansion is occurring in the actual scenario. Therefore, the present study aims to assess the tracing layout of power transmission lines for the identification of the main crossed and avoided restriction areas in Brazil, considering differences between the Brazilian regions. The results showed that the main causes for deviations in planned tracings in Brazil were:

parallelism to roadways, urban areas, conservation units, water bodies and indigenous territories. However, the importance of each variable on the definition of the layout significantly differs among regions. In North region, the proximity to roadways and the boundary of indigenous territories were the variables that caused the greatest deviations in the tracing layout of the planned transmission lines, while, in Southeast region the avoiding of urban areas and conservation units were more important. Regarding the interferences on layout in areas that present environmental restrictions, results showed that rural settlements and areas of environmental protection (units of conservation of the sustainable use) presented the greatest number of interferences, especially in North and Northeast regions (rural settlements) and Southeast (areas of environmental protection).

Keywords: Transmission lines, planning, environmental analysis, Brazilian regions.

LISTA DE ILUSTRAÇÕES

Figura 1- Diagrama do Sistema Interligado Nacional – SIN

20

Figura 2 - Participação regional na capacidade instalada do SIN

21

Figura 3- Terras Indígenas no Brasil

32

Figura 4 - Terras Quilombolas no Brasil

34

Figura 5 - Projetos de assentamento rural no Brasil

35

Figura 6 - Unidades de conservação no Brasil

40

Figura 7 - Áreas urbanas no Brasil

42

Figura 8 - Corpos d'água no Brasil

43

Figura 9 - Malha viária no Brasil

44

Figura 10 - Cavidades naturais subterrâneas no Brasil

46

Figura 11 – Exemplo de desvio de duas variáveis

53

Figura 12 – Exemplo de desvio de área urbana

54

Figura 13 – Exemplo de desvio de unidade de conservação

54

Figura 14 – Exemplo de desvio visando o paralelismo com rodovia

55

Figura 15 – Exemplo de interferência de traçado em assentamentos rurais e em APA

55

Figura 16 – Percentagem da extensão dos traçados de linhas de transmissão planejadas analisados por região brasileira

59

Figura 17 - Mapa dos traçados planejados e as áreas restritivas na região Norte

63

Figura 18 – Mapa da malha viária na região Norte

63

Figura 19 - Extensão dos desvios dos traçados de linhas de transmissão planejadas na região Norte

64

Figura 20 - N o de traçados de linhas de transmissão planejadas que apresentaram desvios na região Norte

65

Figura 21 – Desvio visando o paralelismo com rodovias na região Norte

66

Figura 22 – Desvio de rios na região Norte

67

Figura 23 – Desvio de terra indígena e interferências com assentamentos rurais na região Norte

67

Figura 24 – Interferência com terra indígena na região Norte

70

Figura 25 - Mapa dos traçados planejados e as áreas restritivas na região Nordeste

71

Figura 26 - Mapa da malha viária na região Nordeste

71

Figura 27 - Extensão dos desvios dos traçados de linhas de transmissão planejadas na região Nordeste

72

Figura 28 - N o de traçados de linhas de transmissão planejadas que apresentaram desvios na região Nordeste

73

Figura 29 – Desvios visando o paralelismo com rodovias na região Nordeste

74

Figura 30 – Desvio de unidade de conservação de proteção integral no Nordeste

74

Figura 31 – Desvios de terras quilombolas e para o paralelismo com rodovias na região Nordeste

76

Figura 32 – Desvio de área degradada (em processo de desertificação) na região Nordeste

 

77

Figura 33 – Desvio visando ao paralelismo com rodovias e interferências com assentamentos rurais no Nordeste

78

Figura 34 - Mapa dos traçados planejados e as áreas restritivas na região Centro-Oeste

79

Figura 35 - Mapa da malha viária na região Centro-Oeste

80

Figura 36 - Extensão dos desvios dos traçados de linhas de transmissão planejadas na região Centro-Oeste

81

Figura 37 - N o de traçados de linhas de transmissão planejadas que apresentaram desvios na região Nordeste

81

Figura 38 – Desvio de áreas urbanas, de pivôs centrais de irrigação e de uma área militar na região Centro-Oeste

82

Figura 39 – Desvio de terra indígena na região Centro-Oeste

83

Figura 40 – Desvio de pivôs centrais de irrigação na região Centro-Oeste

84

Figura 41 - Mapa dos traçados planejados e as áreas restritivas na região Sudeste

86

Figura 42 - Mapa da malha viária na região Sudeste

86

Figura 43 - Extensão dos desvios dos traçados de linhas de transmissão planejadas na região Sudeste

87

Figura 44 - N o de traçados de linhas de transmissão planejadas que apresentaram desvios na região Sudeste

88

Figura 45 - Desvios de áreas urbanas e interferências com APAs na região Sudeste

89

Figura 46 – Desvio d Unidade de conservação de proteção integral na região Sudeste

89

Figura 47 – Desvio para travessias de reservatórios na região Sudeste

91

Figura 48 – Interferência com área com concentração de cavidades naturais subterrâneas (cavernas) no Sudeste

93

Figura 49 – Interferência com unidade de conservação de proteção integral na região Sudeste

93

Figura 50 - Mapa dos traçados planejados e as áreas restritivas na região Sul

94

Figura 51 - Mapa da malha viária na região Sul

95

Figura 52 - Extensão dos desvios dos traçados de linhas de transmissão planejadas na região Sul

96

Figura 53 - N o de traçados de linhas de transmissão planejadas que apresentaram desvios na região Sul

96

Figura 54 - Desvio de área urbana, de área alagável e interferência em APA na região Sul

 

97

Figura 55 – Desvio de lagoa na região Sul

97

Figura 56 – Desvio de área alagável na região Sul

98

Figura 57 – Desvio de área de grande valor paisagístico na região Sul

99

Figura 58 - Extensão dos desvios dos traçados de linhas de transmissão planejadas nas cinco regiões brasileiras

102

Figura 59 - N o de traçados de linhas de transmissão planejadas que apresentaram desvios

nas cinco regiões brasileiras

103

Figura 60 - Extensão dos desvios dos traçados de linhas de transmissão planejadas no Brasil

104

Figura 61 - N o de traçados de linhas de transmissão planejadas que apresentaram desvios

no Brasil

104

Figura 62 – Gráficos percentuais das extensões dos desvios das unidades de conservação

no Brasil

106

Figura 63 - Gráficos percentuais das extensões dos desvios dos corpos d’água no Brasil 107

Figura 64 – N o de interferência dos traçados em áreas com restrição no Brasil

110

Figura 65 – Gráfico da percentagem das extensões dos desvios sobre a extensão total de traçados analisados por região e para o Brasil

114

LISTA DE TABELAS

Tabela 1- Estudos do planejamento de linhas de transmissão

23

Tabela 2 - Regimes de aproveitamento econômico das substâncias minerais

48

Tabela 3 - Base cartográfica utilizada para a análise dos desvios

51

Tabela 4 - Campos da tabela de compilação de dados dos desvios

56

Tabela 5 - Extensão e número de traçados de linhas de transmissão planejadas analisadas por região

58

Tabela 6 – N o de traçados que apresentaram desvios e as extensões dos desvios por variável analisada

59

Tabela 7 - N o de traçados que não apresentaram desvios e no traçados que apresentaram desvios não identificados por região a brasileira

61

Tabela 8- Interferência dos traçados com áreas restritivas

61

Tabela 9 - N o de traçados que apresentaram desvios e as extensões dos desvios por variável

na região Norte

64

Tabela 10 – Desvios de unidades de conservação na região Norte

68

Tabela 11 – Outras variáveis desviadas na região Norte

68

Tabela 12 – Interferências dos traçados em áreas restritivas na região Norte

68

Tabela 13 – Interferências dos traçados em outras áreas restritivas

69

Tabela 14 - N o de traçados que apresentaram desvios e as extensões dos desvios por variável na região Nordeste

72

Tabela 15 - Desvios de unidades de conservação na região Nordeste

75

Tabela 16 – Outras variáveis desviadas pelos traçados na região Nordeste

76

Tabela 17 – Interferências dos traçados em áreas restritivas na região Nordeste

77

Tabela 18 – Interferência dos traçados em outras áreas restritivas

78

Tabela 19 - N o de traçados que apresentaram desvios e as extensões dos desvios por variável na região Centro-Oeste

80

Tabela 20 - Desvios de unidades de conservação na região Centro-Oeste

83

Tabela 21 – Outras variáveis desviadas pelos traçados na região Centro-Oeste

84

Tabela 23 – Interferências dos traçados em outras áreas restritivas na região Centro-Oeste

 

85

Tabela 24 - N o de traçados que apresentaram desvios e as extensões dos desvios por variável na região Sudeste

87

Tabela 25 - Desvios de unidades de conservação na região Sudeste

90

Tabela 26 – Outras variáveis desviadas na região Sudeste

91

Tabela 27 – Interferências dos traçados em áreas restritivas na região Sudeste

92

Tabela 28 – Interferências dos traçados em outras áreas restritivas na região Sudeste

92

Tabela 29 - N o de traçados que apresentaram desvios e as extensões dos desvios por variável na região Sul

95

Tabela 30 - Desvios de unidades de conservação na região Sul

98

Tabela 31 – Outras variáveis desviadas na região Sul

99

Tabela 32 – Interferência dos traçados em áreas restritivas na região Sul

100

Tabela 33 – Extensão dos desvios por região brasileira

101

Tabela 34 – N o de traçados que apresentaram desvios por região brasileira

101

Tabela 35 – Desvios de unidades de conservação no Brasil

105

Tabela 36 – Desvios de corpos d’água no Brasil

106

Tabela 37 – Outras áreas desviadas por região brasileira

109

Tabela 38 - Interferência dos traçados de linhas de transmissão planejadas com áreas restritivas

110

Tabela 39 – Outras interferências com áreas restritivas por região brasileira

111

Tabela 40 – Percentagem das extensões dos desvios sobre a extensão total de traçados analisados por região e para o Brasil

113

Tabela 41 – Atribuição de categorias de influência da variável a partir dos valores de contribuição da variável na extensão total dos traçados

114

Tabela 42 – Quadro da influência das variáveis para os desvios dos traçados analisados 115

LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

Aneel

Agência Nacional de Energia Elétrica

APA

Área de Proteção Ambiental

APCB

Áreas Prioritárias para Conservação da Biodiversidade

Arie

Área de Relevante Interesse Ecológico

Conama

Conselho Nacional de Meio Ambiente

Cecav

Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Cavernas

DNPM

Departamento Nacional de Produção Mineral

EIA

Estudo de Impacto Ambiental

EPE

Empresa de Pesquisa Energética

Esec

Estação Ecológica

FCP

Fundação Cultural Palmares

Flona

Floresta Nacional

Funai

Fundação Nacional do Índio

Ibama

Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis

IBGE

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

ICMBio

Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade

Incra

Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária

LT

Linha de Transmissão

MMA

Ministério do Meio Ambiente

Mona

Monumento Natural

ONS

Operador Nacional do Sistema

Parna

Parque Nacional

PDE

Plano Decenal de Expansão de Energia

PI

Proteção Integral

RAA

Relatório de Avaliação Ambiental

RAS

Relatório Ambiental Simplificado

RDS

Reserva de Desenvolvimento Sustentável

Rebio

Reserva Biológica

Resex

Reserva Extrativista

Rima

Relatório de Impacto Ambiental

RPPN

Reserva Particular do Patrimônio Natural

RTID

Relatório Técnico de Identificação e Delimitação

RVS

Refúgio da Vida Silvestre

SIG

Sistema de Informação Geográfica

SIN

Sistema Interligado Nacional

SNUC

Sistema Nacional de Unidades de Conservação

TQ

Terra Quilombola

UC

Unidades de conservação

UHE

Usina Hidrelétrica

US

Uso Sustentável

SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO

17

2. OBJETIVO

18

2.1. OBJETIVO GERAL

18

2.2. OBJETIVO ESPECÍFICO

18

3. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

19

3.1. A EXPANSÃO DO SISTEMA INTERLIGADO NACIONAL

19

3.2. OS ESTUDOS AMBIENTAIS DE LINHAS DE TRANSMISSÃO

22

3.2.1.

Elaboração da Documentação Técnica para o Processo de Outorga

22

3.2.1.1.

Relatório R1

23

3.2.1.2.

Relatório R3

24

3.2.2.

Estudos para o licenciamento ambiental

27

3.3.

ÁREAS COM RESTRIÇÕES PARA OS TRAÇADOS DE LINHAS DE

TRANSMISSÃO

29

3.3.1.

Comunidades tradicionais

30

3.3.1.1.

Terras Indígenas

31

3.3.1.2.

Terras quilombolas

32

3.3.2.

Projetos de Assentamento Rural

34

3.3.3.

Unidades de Conservação

36

3.3.3.1.

Unidades de Conservação de Proteção Integral

36

3.3.3.2.

Unidades de Conservação de Uso Sustentável

37

3.3.4.

Áreas urbanas

40

3.3.5.

Corpos d’água

42

3.3.6.

Áreas desprovidas de apoio viário

43

3.3.7.

Outros

44

3.3.7.1.

Cavidades Naturais Subterrâneas (cavernas)

45

3.3.7.2.

Aeroportos e aeródromos

47

3.3.7.3.

Área de valor paisagístico

47

3.3.7.4.

Mineração

48

3.3.7.5.

Áreas de agricultura conflitantes com linhas de transmissão

50

4. MATERIAL E MÉTODOS

50

4.1. TRAÇADO DAS LINHAS DE TRANSMISSÃO PLANEJADAS

50

4.2. BASE DE DADOS DAS ÁREAS RESTRITIVAS CONSULTADA

51

4.3. CÁLCULO DOS DESVIOS

52

4.5.

COMPILAÇÃO DOS DADOS EM TABELA

56

4.6.

ANÁLISE DOS DADOS

57

5. RESULTADOS E DISCUSSÃO

58

5.1. DADOS GERAIS DOS RESULTADOS

58

5.2. ANÁLISE DOS DESVIOS E INTERFERÊNCIAS DOS TRAÇADOS DE LINHAS DE

TRANSMISSÃO PLANEJADAS EM ÁREAS RESTRITIVAS POR REGIÃO BRASILEIRA62

5.2.1. Região Norte

62

5.2.2. Região Nordeste

70

5.2.3. Região Centro-Oeste

78

5.2.4. Região Sudeste

85

5.2.5. Região Sul

94

5.3. ANÁLISE DOS DESVIOS E INTERFERÊNCIAS DOS TRAÇADOS DE LINHAS DE

TRANSMISSÃO PLANEJADAS EM ÁREAS RESTRITIVAS NO BRASIL – ANÁLISE INTEGRADA DAS REGIÕES BRASILEIRAS

100

5.4.

INFLUÊNCIA DAS VARIÁVEIS DETERMINANTES DOS DESVIOS NAS

REGIÕES BRASILEIRAS E NO BRASIL

112

6. CONCLUSÃO

116

7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

118

8. APÊNDICE 1

126

17

1.

INTRODUÇÃO

O sistema de transmissão de energia elétrica no Brasil tem grande importância para

o atendimento às cargas e para a confiabilidade do sistema elétrico nacional. A grande

extensão do país exige um sistema de transmissão de grande dimensão, capaz de interligar

a geração e a carga de diversas regiões geográficas, otimizando a operação do sistema

(VIEIRA, 2009). Ele se destaca tecnicamente pela interligação de um grande número de unidades produtoras e unidades consumidoras de energia elétrica, distribuídas em uma área de dimensões continentais. Estas características permitem considerá-lo único em âmbito mundial (BONATTO et al., 2004).

O Plano Decenal de Expansão de Energia – PDE 2024 estima que 267 novas linhas

de transmissão estão previstas para entrar em operação no Brasil nos próximos 10 anos, perfazendo uma extensão de aproximadamente 46.000 km. Nesse cenário, destacam-se as grandes interligações que se prestarão para escoamento da energia de usinas hidrelétricas situadas na Amazônia (UHE Belo Monte, usinas do rio Teles Pires e da bacia do Tapajós). Também na região Amazônica, destaca-se a interligação com a Venezuela, a partir de Manaus. Na região Nordeste e no Rio Grande do Sul, as linhas de transmissão planejadas para o decênio estão associadas, majoritariamente, ao escoamento da energia de parques eólicos (MME/EPE, 2015). CARDOSO Jr. (2014) aponta que, no que tange a empreendimentos lineares, o órgão ambiental licenciador vem participando ativamente do processo decisório dos traçados, exigindo que alternativas de variantes sejam implementadas em áreas ambientais sensíveis, de forma a reduzir os impactos ambientais que afetam a sociedade. Para que um traçado seja considerado otimizado ele deve garantir que as variáveis ambientais sejam devidamente incorporadas ao projeto de engenharia, utilizando-se, para isso, as melhores práticas construtivas dentro de uma economicidade estabelecida, de forma a proporcionar a maior linearidade possível entre as subestações. Pesquisas têm sido realizadas em várias partes do mundo visando o desenvolvimento de metodologias para a definição de traçados de linhas de transmissão a partir da aplicação de geotecnologias (MONTEIRO, 2005; ARAÚJO, 2007; SCHMIDT, 2009; SUMPER, 2010; BAGLI, 2011; ARANEO, 2015). Esses estudos baseiam-se na definição e atribuição de pesos às áreas que apresentam restrições para a passagem das

18

linhas de transmissão e que deverão ser evitadas. Devido às diferenças entre as regiões onde os estudos foram desenvolvidos, essas variáveis e seus pesos são diferentes, de forma a contemplar as particularidades dos locais. No Brasil, devido à sua grande extensão territorial, essas restrições também podem variar consideravelmente entre as regiões brasileiras. O conhecimento regional destas restrições pode contribuir para um melhor planejamento dos empreendimentos ligados à implantação de linhas de transmissão, de forma a diminuir o prazo para a obtenção de licenças ambientais, prazo este que em alguns casos pode influenciar na data de entrada da linha no sistema.

2.

OBJETIVO

2.1. OBJETIVO GERAL

Avaliar os traçados de linhas de transmissão planejadas para a identificação das principais áreas de restrição desviadas e atravessadas no Brasil, apontando as características e particularidades de cada região brasileira.

2.2. OBJETIVO ESPECÍFICO

Levantar as principais variáveis determinantes para os traçados de linhas de transmissão e legislação a elas associadas;

Identificar e quantificar as principais causas dos desvios dos traçados definidos nos estudos ambientais do planejamento de linhas de transmissão;

Quantificar as interferências dos traçados em áreas que apresentam restrições ambientais;

Analisar os desvios dos traçados das linhas de transmissão planejadas e suas interferências por região brasileira;

Analisar os desvios dos traçados das linhas de transmissão planejadas e suas interferências para o Brasil como um todo, a partir de uma análise integrada das regiões brasileiras;

Elaborar uma tabela que apresente de forma sucinta e simplificada a influência das principais variáveis determinantes dos desvios em cada região brasileira.

19

3. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

3.1. A EXPANSÃO DO SISTEMA INTERLIGADO NACIONAL

Devido à grande diversidade hidrológica existente entre as regiões do país, tornou- se atraente a implantação de interligações regionais que permitem atender aos centros de consumo em diferentes bacias hidrográfica. Essas interligações proporcionam uma produção de energia superior a que seria possível obter pelo mesmo conjunto de usinas isoladas entre si (BONATTO et al., 2004). De acordo com o PDE 2024 (MME/EPE, 2015), devido à grande extensão territorial brasileira e à presença de um parque gerador predominantemente hidrelétrico, a Rede Básica de transmissão do SIN se desenvolveu utilizando uma grande variedade de níveis de tensão em função das distâncias envolvidas entre as fontes geradoras e os centros de carga. Dessa forma, a Rede Básica de transmissão do SIN, que compreende as tensões de 230 kV a 750 kV, tem como principais funções:

A transmissão da energia gerada pelas usinas para os grandes centros de carga;

A integração entre os diversos elementos do sistema elétrico para garantir estabilidade e confiabilidade da rede;

A interligação entre as bacias hidrográficas e regiões com características hidrológicas heterogêneas de modo a otimizar a geração hidrelétrica; e

A integração energética com os países vizinhos.

A Figura 1 apresenta a configuração do SIN no ano de 2013 e algumas instalações a serem implantadas até 2015 (traçados esquemáticos).

20

20 Fonte: ONS Figura 1- Diagrama do Sistema Interligado Nacional – SIN O Plano Decenal de

Fonte: ONS Figura 1- Diagrama do Sistema Interligado Nacional – SIN

O Plano Decenal de Energia 2024 aponta que na região Norte ocorrerá a maior

expansão hidrelétrica, onde se destacam as usinas de Belo Monte e São Luiz do Tapajós, com 11.233 e 8.040 MW de potência total, respectivamente.

A energia eólica também apresenta grande potencial a ser explorado e se consolida

como um dos principais componentes para a expansão da matriz de energia elétrica do

Brasil. O PDE 2024 prevê uma expansão de 18.909 MW de potência dessa fonte, distribuídos no Nordeste e Sul do Brasil (MME/EPE, 2015).

21

21 Fonte: MME/EPE, 2015. Figura 2 - Participação regional na capacidade instalada do SIN Assim, por

Fonte: MME/EPE, 2015.

Figura 2 - Participação regional na capacidade instalada do SIN

Assim, por conta da expansão hidrelétrica na região Norte e da relevante expansão da oferta de energia das usinas eólicas localizadas na região Nordeste, está prevista a incorporação ao SIN de expansões para promover o escoamento deste excedente de energia das regiões Norte e Nordeste para a região Sudeste/Centro-Oeste (MME/EPE, 2015). Em virtude do panorama hidrológico severo que se tem observado nos últimos anos, a disponibilidade de capacidade de transmissão, particularmente entre as regiões Norte/Nordeste e o Sudeste/Sul, torna-se um elemento fundamental para a adequada gestão dos reservatórios das usinas hidrelétricas pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico - ONS. As eventuais restrições de intercâmbios entre estas regiões aumentam a necessidade de despacho de geração térmica, acarretando aumento do custo marginal de operação e, como consequência, onerando os custos de suprimento de energia elétrica aos consumidores. Logo, o planejamento energético decenal prevê significativa expansão da capacidade das interligações para garantir os requisitos de escoamento energético através das regiões Norte e Nordeste em direção ao Sudeste/Centro-Oeste e Sul do país (MME/EPE, 2015).

22

3.2. OS ESTUDOS AMBIENTAIS DE LINHAS DE TRANSMISSÃO

Para que uma nova instalação de transmissão (linha ou subestação) seja licitada ou autorizada pela Agência Nacional de Energia Elétrica - Aneel, faz-se necessário prover, àquela Agência, informações da viabilidade de execução da obra, tanto do ponto de vista técnico-econômico, como também socioambiental. Assim, considerando a data de entrada em operação de cada instalação de transmissão da Rede Básica e a necessidade da outorga de sua concessão por meio de um processo de licitação ou autorização, a EPE procede aos estudos e elabora, com apoio dos concessionários, relatórios correspondentes para os empreendimentos, em tempo hábil para fornecer os subsídios para o processo licitatório de outorga da Aneel (EPE, 2008).

3.2.1. Elaboração da Documentação Técnica para o Processo de Outorga

O processo de documentação da Aneel para a outorga de uma nova instalação a ser integrada à Rede Básica passa por quatro fases distintas:

Os estudos técnico-econômicos e socioambientais preliminares, documentados no relatório denominado R1;

O detalhamento técnico da alternativa de referência documentado no relatório denominado R2;

A

caracterização e análise socioambiental do corredor selecionado para o

empreendimento, documentadas no relatório denominado R3; e,

A definição dos requisitos do sistema circunvizinho, de forma a se assegurar

a integração adequada entre a nova obra e as instalações existentes,

documentada no relatório denominado R4 (EPE, 2008).

Desta forma, dos quatro relatórios do planejamento que subsidiam a Aneel com informações da LT a ser licitada, dois possuem análises ambientais, os relatórios R1 e R3. Após o leilão, inicia-se o licenciamento ambiental da linha de transmissão. A empresa vencedora fica responsável pela realização dos Estudos de Impacto Ambiental - EIA que, com as informações do projeto básico, incorpora as características específicas do empreendimento às análises ambientais. Nessa etapa, a empresa pode propor um traçado diferente do apontado nos relatórios de planejamento, buscando otimizar os custos e viabilizar a licença ambiental.

23

A Tabela 1 apresenta os relatórios do planejamento e após leilão, e as áreas que

elaboram os estudos.

Tabela 1- Estudos do planejamento de linhas de transmissão

Área

 

Estudos do planejamento

 

Licenciamento

R1

R2

R3

R4

   

Detalhamento

 

Definição dos

 

Engenharia

Seleção da melhor alternativa elétrica e ambiental e proposta de um corredor de estudo para o

técnico da

requisitos do

Projeto Básico

alternativa de

sistema

selecionada

circunvizinho

   

Caracterização e

 

Estudo de

análise

socioambiental

impacto

Meio

ambiental do

do corredor

ambiente

selecionado e

traçado definido

R3

definição da

pelo

diretriz

empreendedor

(Fonte: Adaptado de ELETROBRÁS, 2000)

3.2.1.1. Relatório R1

Adaptado de ELETROBRÁS, 2000) 3.2.1.1. Relatório R1 Licitação Os relatórios R1 apresentam análises

Licitação

Os relatórios R1 apresentam análises preliminares da viabilidade de alternativas de interligação considerando seus aspectos técnico-econômicos e socioambientais. Esses estudos são realizados pela Empresa de Pesquisa Energética – EPE, empresa pública vinculada ao Ministério de Minas e Energia. A EPE coordena grupos de trabalho com

empresas do setor elétrico que atuam nas diferentes regiões do Brasil, identificando, de acordo com as ofertas e demandas de energia elétrica, as alternativas de interligação.

A análise socioambiental no relatório R1 visa apontar a viabilidade socioambiental

das alternativas de interligação analisadas e fornecer uma extensão preliminar da alternativa planejada considerando os desvios de áreas de maior sensibilidade socioambiental. Elas são desenvolvidas paralelamente aos estudos de engenharia dando subsídios para a definição da melhor alternativa de interligação considerando soluções técnicas, questões econômicas e variáveis socioambientais.

No relatório R1, são identificadas as áreas mais favoráveis à implantação do sistema de transmissão, bem como as áreas de maior complexidade (unidades de

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conservação, terras indígenas, núcleos urbanos, florestas e outros ecossistemas importantes), configurando-se em áreas que devem ser evitadas. Tais áreas condicionam a identificação das alternativas de localização dos corredores. Assim, a partir de uma análise regional, são estudadas alternativas de corredor (com cerca de 10 a 20 km de largura) para posterior seleção de um corredor preferencial, para nas etapas posteriores do projeto estudar-se a melhor localização da diretriz da linha de transmissão dentro deste corredor. Para características ambientais específicas que requeiram tratamento técnico diferenciado (por exemplo, alteamento de torres, travessia de recursos hídricos, dentre outros) a análise socioambiental também deve fornecer os elementos necessários para a composição de custos de cada alternativa de corredor a ser comparada e assim permitir sua comparação já contemplando os custos ambientais especiais (EPE, 2005).

3.2.1.2. Relatório R3

Os relatórios R3 apresentam a caracterização socioambiental do corredor de passagem selecionado nos estudos realizados para a elaboração do R1. A análise dos aspectos ambientais do corredor deve permitir a identificação dos pontos de destaque, sob a ótica socioeconômica e ambiental, que possam aportar maior complexidade para a implantação da linha de transmissão, refletindo-se em maiores custos ambientais e maiores prazos no processo de licenciamento do empreendimento. Observa-se que esta avaliação servirá de subsídio aos estudos necessários ao futuro licenciamento ambiental (EPE, 2005). As análises no R3 exigem um maior detalhamento do que as análises ambientais apresentadas no relatório R1, devendo ser realizadas inspeções de campo e utilizadas imagens de satélite de melhor resolução e mais atualizadas. Nesses estudos a escala trabalhada é maior e são consideradas para desvio áreas de dimensões menores. Assim, os relatórios R3 têm como objetivos:

Definir a diretriz da linha de transmissão evitando áreas de sensibilidade socioambiental;

Apresentar as dificuldades socioambientais da diretriz que permitam antever a necessidade de um tempo maior para o licenciamento ambiental;

Fornecer informações que apontem a necessidade estruturas diferenciadas para a construção da linha de transmissão (ex.: travessia de rios, áreas alagáveis, vegetação nativa de formações florestais, etc.); e,

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Levantar características de uso do solo das áreas atravessadas pela diretriz que impliquem em maiores custos fundiários (ex.: proximidade com área urbana, agricultura mecanizada, pivôs centrais de irrigação, etc.).

O termo de referência para elaboração dos Relatórios R3 (EPE, 2008) aponta que o relatório deve apresentar o resultado das avaliações socioambientais preliminares relativas ao corredor de passagem proposto e de análises in loco da exequibilidade do empreendimento, identificando uma diretriz (lineamento, trajeto, rota) preferencial para a linha de transmissão, do ponto de vista econômico e socioambiental, bem como sob o aspecto construtivo, e lista as informações a serem prestadas, a saber:

I.

Caracterização do Meio Físico (Climatologia; Geomorfologia, Recursos Minerários, Pedologia, Geotecnia, Recursos Hídricos e Usos da Água);

II.

Caracterização do Meio Biótico (Vegetação; Fauna e Ecossistemas e Áreas Protegidas);

III.

Caracterização do Meio Socioeconômico e Cultural (Aspectos Econômicos

e

Demográficos Municipais; Educação, Saúde e Saneamento; Infraestrutura

Regional; Uso e Ocupação do Solo; Estrutura Fundiária, Assentamentos e Áreas de Conflito; Patrimônio Arqueológico, Histórico-Cultural e Natural; Populações Tradicionais; Terras Indígenas e Remanescentes de Quilombos;

e

Áreas de Interesse Estratégico);

IV.

Avaliação Sucinta dos Impactos Socioambientais da Diretriz Selecionada;

V.

Programas Socioambientais recomendados;

VI.

Análise integrada das caracterizações realizadas e identificação das áreas mais ou menos sensíveis à implantação do empreendimento no corredor;

VII.

Indicação da diretriz preferencial para a Linha de Transmissão e extensão aproximada; e,

VIII.

Relatório fotográfico.

Uma vez selecionada a diretriz da linha de transmissão, seu percurso deverá ser descrito trecho a trecho e deverão ser apresentadas as seguintes informações:

Extensão (km);

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Coordenadas geográficas dos pontos de origem e destino e dos vértices;

Extensão do paralelismo com outra(s) linha(s) de transmissão e do compartilhamento de faixa de servidão, caso haja;

Extensão atravessada em cada bioma e extensão de florestas ou remanescentes florestais atravessados;

Extensão de áreas alagadas atravessadas;

Número de travessias de corpos d’água com largura entre 500 e 1000 metros e com largura acima de 1.000 metros;

Extensão de travessia em unidade(s) de conservação e em zonas de amortecimento de unidades de conservação, especificando por cada unidade de conservação.

Extensão de travessia em áreas prioritárias para conservação da biodiversidade (APCB), por tipo de APCB;

Especificação das áreas urbanas atravessadas, caso haja;

Extensão da diretriz da linha com e sem apoio de estradas de rodagem, considerando “com apoio de estradas de rodagem” os trechos em que essas se situam a 15 km ou menos da diretriz da linha;

Número de travessias de oleodutos e gasodutos, caso haja;

Extensão de travessia em plantações de cana-de-açúcar, caso haja;

Extensão de travessia em áreas de reflorestamento;

Terra(s) indígena(s) eventualmente atravessada(s) ou situada(s) a até 10 km da diretriz da linha; e,

Indicação de eventual travessia em área(s) remanescente(s) de quilombo(s).

A lista é um indicativo das variáveis mais importantes a serem observadas na definição do traçado de uma linha de transmissão. Em novembro de 2014, a EPE atualizou o termo de referencia para a elaboração dos relatórios R3. As principais modificações foram relacionadas à incorporação de exigências definidas pela Portaria nº 421, de 26 de outubro de 2011 do MMA (apresentada

27

no item 3.2.2), que dispõe sobre o licenciamento e a regularização ambiental federal de sistemas de transmissão de energia elétrica, e pela Portaria Interministerial nº 419, de 26 de outubro de 2011, que regulamenta a atuação dos órgãos e entidades da administração pública federal envolvidos no licenciamento ambiental, atualmente revogada pela Portaria

nº60/2015.

Um avanço do novo termo de referência foi a incorporação de um check-list a ser respondido pelo agente responsável pela elaboração do relatório R3 informando se de áreas de sensibilidade socioambiental identificadas pelo relatório R1 foram desviadas. Cabe mencionar que, pela recente data do novo termo de referência, nenhum dos traçados dos relatórios R3 analisados no presente estudo seguiram o novo termo de referência. No entanto, tendo em vista que as portarias mencionadas foram editadas em 2011, mesmo antes da atualização do termo de referência, os traçados já tinham incorporados as mudanças referentes à nova legislação.

3.2.2. Estudos para o licenciamento ambiental

A Resolução Conama nº 1, de janeiro de 1986 determina que as linhas de transmissão de energia elétrica com tensão acima de 230 kV estão sujeitas à elaboração de Estudos de Impacto Ambiental - EIA e Relatório de Impacto Ambiental – RIMA para a obtenção da licença ambiental. Segundo a resolução, o EIA deverá desenvolver, no mínimo, as seguintes atividades técnicas:

I. Diagnóstico ambiental da área de influência do projeto de modo a caracterizar a situação ambiental da área antes da implantação do projeto considerando:

O meio físico – o subsolo, as águas o ar e o clima, destacando os recursos minerais, a topografia, os tipos e aptidões do solo, os corpos d’água, etc.;

O meio biológico e os ecossistemas naturais - a fauna e a flora, destacando as espécies indicadoras da qualidade ambiental, raras e ameaçadas de extinção e as áreas de preservação permanente; e,

O meio socioeconômico – o uso e ocupação do solo, os usos da água, e a socioeconomia, destacando sítios e monumentos arqueológicos, históricos e culturais da comunidade, etc.

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II. Análises dos impactos ambientais do projeto e de suas alternativas, através de identificação, previsão da magnitude e interpretação da importância dos prováveis impactos relevantes discriminando-os em impactos negativos e positivos, diretos e indiretos, imediatos e a médio e longo prazos, temporários ou permanentes, dentre outros;

III. Definição das medidas mitigadoras dos impactos negativos; e,

IV. Elaboração do programa de acompanhamento e monitoramento dos impactos positivos e negativos.

Em 2011, o Ministério do Meio Ambiente – MMA editou a Portaria 421, que determina que o licenciamento ambiental federal poderá ocorrer pelo procedimento simplificado, como Relatório Ambiental Simplificado – RAS, pelo procedimento ordinário, como Relatório de Avaliação Ambiental – RAA, ou por meio de Estudo de Impacto Ambiental - EIA, conforme o grau de impacto do empreendimento. A mesma portaria estabelece que o procedimento de licenciamento ambiental será simplificado quando a faixa de servidão da LT não implicar simultaneamente em:

Remoção de população que implique na inviabilização da comunidade e/ou sua completa remoção;

Afetação de unidades de conservação de proteção integral;

Localização em sítios de: reprodução e descanso identificados nas rotas de aves migratórias; endemismo restrito e espécies ameaçadas de extinção reconhecidas oficialmente;

Intervenção em terra indígena;

Intervenção em território quilombola;

Intervenção física em cavidades naturais subterrâneas pela implantação de torres ou subestações;

Supressão de vegetação nativa arbórea acima de 30% da área total da faixa de servidão; e,

Extensão superior a 750 km.

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Além dessas condições, a Portaria 421/11 também considera de pequeno potencial de impacto ambiental, as linhas de transmissão implantadas ao longo da faixa de domínio de rodovias, ferrovias, linhas de transmissão e outros empreendimentos lineares pré- existentes, ainda que situadas em terras indígenas, em territórios quilombolas ou em unidades de conservação de uso sustentável. A partir do estudo de impacto ambiental é definido o traçado da linha de transmissão planejada que será submetido ao órgão ambiental para a obtenção da licença prévia. Nessa etapa, o responsável pela definição do traçado é o empreendedor vencedor do leilão, que levará em consideração os aspectos técnicos e econômicos para a sua definição. A avaliação do EIA realizada pelos analistas dos órgãos ambientais pode indicar a necessidade de mudança do traçado de forma a minimizar impactos, resultando em condicionantes para a liberação da licença prévia. Importa destacar que a licença prévia visa aprovar a localização do empreendimento e apontar a sua viabilidade ambiental.

3.3. ÁREAS COM RESTRIÇÕES PARA OS TRAÇADOS DE LINHAS DE TRANSMISSÃO

Segundo CARDOSO Jr. (2014), o traçado das linhas de transmissão devem buscar o maior alinhamento possível entre as subestações considerando, entretanto, as restrições técnicas e ambientais do traçado. Para o autor, as principais restrições a serem consideradas na definição de um traçado de linha de transmissão são: terras indígenas, comunidades quilombolas, assentamentos fundiários, unidades de conservação, zonas urbanas, barreiras físicas geomorfológicas, travessia de corpos hídricos, patrimônio histórico e beleza cênica, áreas de preservação permanente, fragmentos florestais com vegetação nativa, locais desprovidos de acessos secundários, cavidades naturais, benfeitorias rurais, aeródromos e patrimônio arqueológico e paleontológico. Estudos vêm sendo realizados em diferentes países para o desenvolvimento de metodologias para o delineamento de traçados de linhas de transmissão com o uso de geotecnologias. Essas metodologias baseiam-se na atribuição de pesos de ponderação para variáveis de restrição para a implantação de linhas de transmissão. A pesquisa realizada por ARANEO (2015), na Itália, lista como as áreas que devem ser evitadas pelos traçados de linhas de transmissão: os aeroportos, áreas militares, áreas urbanas, parques nacionais, áreas de interesse da União Europeia, áreas de travessias de

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ursos, áreas de valor paisagístico, áreas de interesse arqueológico, áreas de interesse cultural e arquitetônico, áreas de risco geológico, corredores ecológicos, áreas de cultivo de uvas e azeitonas, áreas de proteção de aves, entre outras. Adicionalmente, o estudo indica que devem ser priorizadas áreas onde o relevo facilite a absorção visual do empreendimento, além de se buscar proximidade com rodovias e outros empreendimentos de energia existentes. No México, no estudo apresentado por VEGA et al. (1996), os autores apontam como restrições ambientais as áreas de floresta, agricultura, áreas de interesse da flora e da fauna, hidrologia, área urbana, paisagem e recursos minerais. SCHMIDT (2009), em sua pesquisa realizada nos Estados Unidos, citou como áreas que deveriam ser evitadas pelos traçados de linhas de transmissão: os aeroportos, áreas construídas, áreas militares, áreas de mineração, parques nacionais e estaduais, sítios arqueológicos, refúgios da vida silvestre, áreas úmidas, rios de beleza cênica, entre outros, e atribui pesos que favorecem o paralelismo com empreendimentos lineares como outras linhas de transmissão, rodovias e gasodutos. No Brasil, o estudo apresentado por ARAÚJO (2007), cita como sendo importantes para o traçado de linhas de transmissão, a localização de aeródromos e aeroportos, áreas de turismo, áreas urbanas e de expansão urbana, rodovias, unidades de conservação, áreas indígenas e de remanescentes de quilombo, entre outras. Como pode-se observar nestes estudos, existe uma grande divergência entre quais são as principais variáveis a serem consideradas nos traçados de linha de transmissão, mostrando que existe uma grande influência regional, cultural e sócio-ambiental na sua escolha, o que nos dá um indício de que, no Brasil, esta definição também deve ser regionalizada, dadas as dimensões continentais do país. Nos próximos itens, serão apresentadas as principais restrições para o traçado de linhas de transmissão no Brasil, a legislação associada quando pertinente e um mapa de sua ocorrência nas cinco regiões brasileiras.

3.3.1. Comunidades tradicionais

Conforme já apresentado no item 3.2.2, a interferência em terras indígenas ou em terras quilombolas são determinantes na definição do procedimento do licenciamento pelo órgão ambiental. Durante o processo de licenciamento, o empreendedor necessita das anuências da Fundação Nacional do Índio (Funai), que defende os interesses dos povos

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indígenas e a da Fundação Cultural Palmares, representando as comunidades remanescentes de quilombos.

3.3.1.1. Terras Indígenas

A Constituição Federal, no parágrafo 1° do artigo 231, conceitua as terras indígenas

como ”terras tradicionalmente ocupadas pelos índios, as por eles habitadas em caráter permanente, as utilizadas para suas atividades produtivas, as imprescindíveis à preservação dos recursos ambientais necessários a seu bem-estar e as necessárias a sua reprodução física e cultural, segundo seus usos, costumes e tradições”.

A Portaria Interministerial nº 60 /2015, que revogou a Portaria Interministerial nº

419/2011, regulamenta os órgãos e entidades da Administração Pública Federal envolvidos no licenciamento ambiental (incluindo Fundação Nacional do Índio - Funai), estabelece no Art. 4º.:

“No termo de referência do estudo ambiental exigido pelo IBAMA para o licenciamento ambiental deverão constar as exigências de informações ou de estudos específicos ”

referentes à interferência da atividade ou empreendimento em terra indígena

Assim, caso o empreendimento interfira em terras indígenas será exigido um estudo específico ao empreendedor (estudo do componente indígena) para a obtenção da licença ambiental. É considerado interferência em Terra Indígena quando “a atividade ou

empreendimento submetido ao licenciamento ambiental localizar-se em terra indígena ou apresentar elementos que possam gerar dano socioambiental direto no interior da terra indígena, respeitados os limites do Anexo II”. Para os empreendimentos de linhas de transmissão, o anexo II da portaria estipula para a Amazônia Legal uma extensão de 8 km a partir dos limites da terra indígena e de 5 km para as localizadas nas demais regiões. A Instrução Normativa n o 2, de 27 de março de 2015 estabelece os procedimentos administrativos da Funai nos processos de licenciamento ambiental.

A Figura 3 apresenta as terras indígenas no Brasil.

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32 Fonte dos dados: Funai, 2015; IBGE, 2009 Figura 3- Terras Indígenas no Brasil 3.3.1.2.Terras quilombolas

Fonte dos dados: Funai, 2015; IBGE, 2009 Figura 3- Terras Indígenas no Brasil

3.3.1.2.Terras quilombolas

A Instrução Normativa Incra nº 57, de 7 de outubro de 2009, que regulamenta o procedimento para identificação, reconhecimento, delimitação, demarcação e titulação das terras quilombolas, conceitua remanescentes das comunidades de quilombos no Art. 3º:

“Consideram-se remanescentes das comunidades de quilombos os grupos étnicos- raciais, segundo critérios de auto-definição, com trajetória histórica própria, dotados de relações territoriais específicas, com presunção de ancestralidade negra relacionada com a resistência à opressão histórica sofrida”

33

Na Portaria nº 60/2015 terras quilombolas são definidas como “as áreas ocupadas por remanescentes das comunidades dos quilombos, que tenha sido reconhecida pelo Relatório Técnico de Identificação e Delimitação – RTID, devidamente publicadas”. A mesma portaria exige a elaboração de estudos específicos no caso de interferências do empreendimento em terras indígenas, também estipula que sejam realizados estudos específicos para terras quilombolas:

“quando a atividade ou empreendimento submetido ao licenciamento ambiental localizar-se em terra quilombola ou apresentar elementos que possam gerar dano sócio-ambiental direto no interior da terra quilombola, respeitados os limites do Anexo II”;

Desta forma, os empreendimentos que passarem a menos de 8 km de terras quilombolas na Amazônia Legal, ou a 5 km nas outras regiões, deverão realizar estudos específicos com a avaliação do impacto do empreendimento nessas comunidades que serão apresentados para a Fundação Cultural Palmares. A Fundação Cultural Palmares é a instituição responsável pelas questões relacionadas aos remanescentes de quilombos, inclusive a certificação de áreas de quilombos, necessária para a titulação das terras de quilombo pelo Incra. A Instrução Normativa da Fundação Cultural Palmares n o 01, de 25 de março de 2015 estabelece os procedimentos administrativos a serem observados nos processos de licenciamento ambiental dos quais a fundação participe. Cabe mencionar que existe um grande número de comunidades remanescentes de quilombos certificadas que ainda não possuem suas áreas delimitadas pelo RTID. A Figura 4 apresenta as terras quilombolas no Brasil.

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34 Fonte dos dados: Incra, 2015; IBGE, 2009 Figura 4 - Terras Quilombolas no Brasil 3.3.2.

Fonte dos dados: Incra, 2015; IBGE, 2009 Figura 4 - Terras Quilombolas no Brasil

3.3.2. Projetos de Assentamento Rural

O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária - Incra, é o órgão responsável por implementar a política de reforma agrária e realizar o ordenamento fundiário nacional. A Instrução Normativa do Incra n o 15, de 30 de março de 2004, que dispõe sobre o processo de implantação e desenvolvimento de projetos de assentamento de reforma agrária conceitua projeto de assentamento:

“Consiste num conjunto de ações, em área destinada a reforma agrária, planejadas,

de

natureza interdisciplinar e multisetorial, integradas ao desenvolvimento territorial

e

regional, definidas com base em diagnósticos precisos acerca do público

beneficiário e das áreas a serem trabalhadas, orientadas para utilização racional dos

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espaços físicos e dos recursos naturais existentes, objetivando a implementação dos sistemas de vivência e produção sustentáveis, na perspectiva do cumprimento da função social da terra e da promoção econômica, social e cultural do(a) trabalhador(a) rural e de seus familiares.”

Na paisagem, os assentamentos rurais, em geral, se apresentam com delimitações de propriedades rurais menores e uma maior concentração de casas numa área predominantemente rural. Para a passagem de linhas de transmissão em assentamentos rurais, além do risco de interferência com residências, deve-se levar em conta que, no caso de culturas incompatíveis com a faixa de servidão (como cana-de-açúcar e silvicultura), a perda da área da faixa de servidão em pequenas propriedades rurais pode trazer prejuízos consideráveis na fonte de renda do agricultor, além de interferir na cadeia de produção de alimentos local. A Figura 5 apresenta os projetos de assentamento rural no Brasil.

5 apresenta os projetos de assentamento rural no Brasil. Fonte dos dados: Incra, 2015; IBGE, 2009

Fonte dos dados: Incra, 2015; IBGE, 2009 Figura 5 - Projetos de assentamento rural no Brasil

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Cabe mencionar que o Incra é um dos órgãos intervenientes no processo de licenciamento sendo a sua anuência necessária para a liberação da licença pelo órgão ambiental.

3.3.3. Unidades de Conservação

Unidades de conservação - UC são espaços territoriais e seus recursos ambientais, incluindo as águas jurisdicionais, com características ambientais relevantes, legalmente instituído pelo Poder Público, com objetivos de conservação e limites definidos, sob regime especial de administração, ao qual se aplicam garantias adequadas de proteção

(SNUC,2000).

O Sistema Nacional de Unidades de Conservação instituído através da Lei 9.985, de 18 de julho de 2000 estabelece critérios e normas para a criação, implantação e gestão das unidades de conservação. As UCs dividem-se em dois grandes grupos, o de proteção integral, que admite apenas o uso indireto dos atributos naturais (não envolvendo consumo, coleta, dano ou destruição dos recursos naturais), e o de uso sustentável, que permite a coleta e uso dos recursos naturais, mas de forma a garantir a perenidade dos mesmos e dos processos ecológicos. Os grupos de unidades de conservação se dividem em categorias de acordo com os objetivos da área protegida, e estão sujeitas a diferentes regimes de uso.

3.3.3.1. Unidades de Conservação de Proteção Integral

Permite apenas o uso indireto dos recursos naturais com exceção dos casos previstos em lei. Engloba as categorias mais restritivas das unidades de conservação, apresentadas a seguir:

Estação Ecológica (Esec)- tem como objetivo a preservação da natureza e a realização de pesquisas científicas;

Reserva Biológica (Rebio)- tem como objetivo a preservação integral da biota e demais atributos naturais existentes em seus limites, sem interferência humana direta ou modificações ambientais, excetuando-se as medidas de recuperação de seus ecossistemas alterados e as ações de manejo necessárias

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para recuperar e preservar o equilíbrio natural, a diversidade biológica e os processos ecológicos naturais;

Parque Nacional (Parna)- tem como objetivo básico a preservação de ecossistemas naturais de grande relevância ecológica e beleza cênica, possibilitando a realização de pesquisas científicas e o desenvolvimento de atividades de educação e interpretação ambiental, de recreação em contato com a natureza e de turismo ecológico;

Monumento Natural (Mona)- tem como objetivo básico preservar sítios naturais raros, singulares ou de grande beleza cênica;

Refúgio da Vida Silvestre (RVS)- tem como objetivo proteger ambientes naturais onde se asseguram condições para a existência ou reprodução de espécies ou comunidades da flora local e da fauna residente ou migratória.

3.3.3.2. Unidades de Conservação de Uso Sustentável

As unidades de conservação de uso sustentável visam à compatibilização da conservação da natureza com o uso sustentável de parcela dos seus recursos naturais. O grupo é composto das seguintes categorias:

Área de Proteção Ambiental (APA) - é uma área em geral extensa, com um certo grau de ocupação humana, dotada de atributos abióticos, bióticos, estéticos ou culturais especialmente importantes para a qualidade de vida e o bem-estar das populações humanas, e tem como objetivos básicos proteger a diversidade biológica, disciplinar o processo de ocupação e assegurar a sustentabilidade do uso dos recursos naturais;

Área de Relevante Interesse Ecológico (Arie) - é uma área em geral de pequena extensão, com pouca ou nenhuma ocupação humana, com características naturais extraordinárias ou que abriga exemplares raros da biota regional, e tem como objetivo manter os ecossistemas naturais de importância regional ou local e regular o uso admissível dessas áreas, de modo a compatibilizá-lo com os objetivos de conservação da natureza;

Floresta Nacional (Flona) - é uma área com cobertura florestal de espécies predominantemente nativas e tem como objetivo básico o uso múltiplo

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sustentável dos recursos florestais e a pesquisa científica, com ênfase em métodos para exploração sustentável de florestas nativas;

Reserva Extrativista (Resex) - é uma área utilizada por populações extrativistas tradicionais, cuja subsistência baseia-se no extrativismo e, complementarmente, na agricultura de subsistência e na criação de animais de pequeno porte, e tem como objetivos básicos proteger os meios de vida e a cultura dessas populações, e assegurar o uso sustentável dos recursos naturais da unidade;

Reserva de Fauna - é uma área natural com populações animais de espécies nativas, terrestres ou aquáticas, residentes ou migratórias, adequadas para estudos técnico-científicos sobre o manejo econômico sustentável de recursos faunísticos;

Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS)- é uma área natural que abriga populações tradicionais, cuja existência baseia-se em sistemas sustentáveis de exploração dos recursos naturais, desenvolvidos ao longo de gerações e adaptados às condições ecológicas locais e que desempenham um papel fundamental na proteção da natureza e na manutenção da diversidade biológica; e,

Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) - é uma área privada,

diversidade

gravada

biológica.

com

perpetuidade,

com

o

objetivo

de

conservar

a

O SNUC aponta que o entorno de unidades de conservação também estão sujeitas a normas e restrições específicas com o propósito de minimizar os impactos negativos sobre a unidade. Essas áreas são chamadas de zonas de amortecimento e são normalmente definidas pelos planos de manejo. A Resolução Conama n° 428/2010 estabelece que os empreendimentos de significativo impacto ambiental que possam afetar uma unidade de conservação ou sua zona de amortecimento só poderão ter a licença ambiental concedida após autorização do órgão responsável pela administração da unidade de conservação. Para as unidades de conservação que não possuem plano de manejo, estarão sujeitos ao mesmo procedimento os empreendimentos de significativo impacto ambiental que estiverem localizados numa

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faixa de 3 mil metros a partir dos limites da unidade de conservação, com exceção das Áreas de Proteção Ambiental - APAs, das Reservas Particulares do Patrimônio Natural - RPPNs e em áreas urbanas consolidadas. Cabe mencionar que as unidades de conservação podem ser criadas no âmbito das três esferas do governo: federal, estadual e municipal. As unidades de conservação federais estão sob responsabilidade do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade – ICMBio, que disponibiliza os dados sobre as suas unidades, como as áreas, os planos de manejo, entre outros. No entanto, destaca-se que para as unidades de conservação criadas pelos governos estaduais e municipais, muitas vezes, não existem dados disponíveis sobre elas, prejudicando a consideração dessas unidades no planejamento de empreendimentos como o de linhas de transmissão. Adicionalmente, aponta-se que nas esferas estaduais e municipais do governo, podem ocorrer unidades de conservação não categorizadas pelo SNUC, seja por terem sido criadas antes da publicação do SNUC (ano 2000), ou por terem objetivos que não se enquadram em nenhuma das suas categorias. A Portaria MMA n o 55/2014 estabelece os procedimentos relacionados à Resolução n° 428/2010 entre o órgão responsável pelas unidades de conservação nacionais, o ICMBio, e o órgão responsável pelo licenciamento ambiental federal, o Ibama. A Figura 6 mostra as unidades de conservação no Brasil.

40

40 Fonte dos dados: MMA, 2015; IBGE, 2009 Figura 6 - Unidades de conservação no Brasil

Fonte dos dados: MMA, 2015; IBGE, 2009 Figura 6 - Unidades de conservação no Brasil

3.3.4. Áreas urbanas

Os traçados das linhas de transmissão desviam sempre que possível das áreas urbanas e de expansão urbana, uma vez que, a passagem por essas áreas resulta em um elevado número de desapropriações, aumenta os riscos de acidentes com a população urbana e degrada a paisagem local. Entretanto, para as linhas de transmissão que atravessam áreas urbanas ou áreas em expansão urbana, é necessário, desde os estudos iniciais, a consulta aos planos diretores. O plano diretor é definido pelo Estatuto das Cidades (Lei Federal 10.257/2001) como o instrumento básico para orientar a política de desenvolvimento e de ordenamento da expansão urbana do município. O Plano Diretor é obrigatório para municípios:

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Com mais de 20 mil habitantes

Integrantes de regiões metropolitanas

Áreas de interesse turístico

Situados em áreas de influência de empreendimentos ou atividades com significativo impacto ambiental na região ou no país.

Um dos produtos do plano diretor é o zoneamento que divide o município em áreas que possuem diretrizes diferenciadas para uso e ocupação do solo. Muitas vezes os planos diretores estipulam limitações à passagem das linhas de transmissão em zonas determinadas que, em geral, são áreas de maior adensamento populacional. Para as linhas de transmissão que se conectam em subestações localizadas em áreas urbanas consolidadas, as linhas de transmissão subterrâneas são uma boa solução tecnológica, apesar do seu elevado custo (cerca de dez vezes o custo de linhas de transmissão aéreas). A Figura 7 apresenta as áreas urbanas no Brasil.

42

42 Fonte: MMA, 2007; IBGE, 2009 Figura 7 - Áreas urbanas no Brasil 3.3.5. Corpos d’água

Fonte: MMA, 2007; IBGE, 2009 Figura 7 - Áreas urbanas no Brasil

3.3.5. Corpos d’água

Os traçados de linhas de transmissão tendem a buscar os trechos mais estreitos dos corpos d’água para a sua travessia, pois o cruzamento de extensos corpos d’água pelas linhas de transmissão requer estruturas diferenciadas com altura suficiente para transpor o vão entre as torres das margens do corpo d’água e garantir a distância de segurança da linha (distância mínima entre os condutores da linha e o nível máximo das águas). Nos casos de hidrovias, o cálculo da distância de segurança apresentado pela NBR 5422 considera também a altura do maior mastro na via. A Figura 8 apresenta um mapa dos corpos d’água no Brasil.

43

43 Fonte dos dados: IBGE, 2009 Figura 8 - Corpos d'água no Brasil 3.3.6. Áreas desprovidas

Fonte dos dados: IBGE, 2009

Figura 8 - Corpos d'água no Brasil

3.3.6. Áreas desprovidas de apoio viário

O apoio rodoviário evita a abertura de novos acessos para a construção do empreendimento, uma das atividades mais impactantes da etapa de implantação da linha, pois demanda desmatamentos da vegetação nativa e podem iniciar processos erosivos na região. Desta forma, em regiões desprovidas de acesso, os traçados das linhas de transmissão tendem a fazer extensos desvios buscando proximidade com rodovias. CAMPOS, 2010 aponta que em especial na Amazônia, a abertura de novos acessos pode gerar impactos indiretos de grande magnitude, uma vez que confere acessibilidade a áreas que até então se encontravam isoladas, e que a existência de um vetor de penetração

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na floresta poderá induzir a ocupação desordenada de áreas próximas e fomentar desmatamentos irregulares para a extração de madeira ou estabelecimento de atividades agropecuárias. A Figura 9 mostra a malha viária existente no Brasil.

A Figura 9 mostra a malha viária existente no Brasil. Fonte dos dados: IBGE, 2009 Figura

Fonte dos dados: IBGE, 2009

Figura 9 - Malha viária no Brasil

3.3.7.

Outros

Além das restrições citadas acima, existem outras áreas que também apresentam restrições para a passagem de linhas de transmissão. No entanto, essas variáveis podem demandar menores extensões de desvio, ou apresentar baixa frequência de ocorrência de desvio do traçado. Algumas dessas variáveis são descritas nos próximos itens.

45

3.3.7.1. Cavidades Naturais Subterrâneas (cavernas)

A Resolução Conama nº 347, de 10 de setembro de 2004, que dispõe sobre o

patrimônio espeleológico define cavidade natural subterrânea:

“é todo e qualquer espaço subterrâneo penetrável pelo ser humano, com ou sem abertura identificada, popularmente conhecido como caverna, gruta, lapa, toca, abismo, furna e buraco, incluindo seu ambiente, seu conteúdo mineral e hídrico, as comunidades bióticas ali encontradas e o corpo rochoso onde as mesmas se inserem, desde que a sua formação tenha sido por processos naturais, independentemente de suas dimensões ou do tipo de rocha encaixante.”

Esta resolução estipula que os empreendimentos que podem degradar o patrimônio

espeleológico ou sua área de influência dependerão de licenciamento ambiental para sua implantação.

A área de influência sobre o patrimônio espeleológico está assim definido na

Resolução:

“área que compreende os elementos bióticos e abióticos, superficiais e subterrâneos, necessários à manutenção do equilíbrio ecológico e da integridade física do ambiente cavernícola”

A área de influência será definida pelo órgão ambiental competente, que poderá

exigir estudos específicos às expensas do empreendedor. Entretanto, até a definição da área

de influência pelo órgão ambiental, esta será de 250 metros no entorno da cavidade natural subterrânea.

46

46 Fonte dos dados: Cecav, 2015; Cecav, 2012; IBGE, 2009 Figura 10 - Cavidades naturais subterrâneas

Fonte dos dados: Cecav, 2015; Cecav, 2012; IBGE, 2009 Figura 10 - Cavidades naturais subterrâneas no Brasil

Uma linha de transmissão pode, em geral, desviar facilmente das cavidades naturais subterrâneas e de suas respectivas áreas de influência. No entanto, como as cavidades naturais estão situadas em regiões geológicas específicas, como as áreas definidas como alto potencial de ocorrência de cavernas na Figura 10, é comum as cavidades ocorrerem de forma agrupada, aumentando o risco de interferências. Recentemente, o órgão ambiental tem exigido estudos de potencial espeleológico específicos para as linhas de transmissão que atravessam essas áreas com maior ocorrência de cavidades naturais subterrâneas.

47

3.3.7.2. Aeroportos e aeródromos

Segundo a NBR 5422, ao passar nas proximidades de aeroportos, as linhas de transmissão devem ser projetadas de forma a ficarem inteiramente situadas abaixo do gabarito de aproximação do aeroporto, e ser sinalizadas. A Portaria n o 957 de 9 de julho de 2015, que dispõe sobre as restrições aos objetos projetados no espaço aéreo que possam afetar adversamente a segurança ou a regularidade das operações aéreas, define o plano básico de zona de proteção de aeródromo como o conjunto de superfícies limitadoras de obstáculos que estabelece as restrições impostas ao aproveitamento das propriedades no entorno de um aeródromo. As áreas com restrições podem chegar a 20.000 metros a partir da pista de pouso, e devem ser consideradas quando da definição do traçado de uma linha de transmissão. Contudo, as zonas de proteção devem ser estudadas caso a caso, pois variam de acordo com as características de aeródromo.

3.3.7.3. Área de valor paisagístico

Uma linha de transmissão deve, sempre que possível, evitar áreas de valor paisagístico, pois altera a paisagem e gera impacto visual no local onde é implantada. Segundo GARCIA (2006), o impacto visual de um sistema de transmissão é originado principalmente pela repetição contínua de torres e condutores através da linha de visão, tornando-se uma imposição visual, podendo provocar impactos ao interferir com áreas de lazer e recreação, parques nacionais, pontos turísticos, locais históricos, lagos, reservatórios e paisagens naturais. DRUMMOND (2013) aponta que se uma linha de transmissão for construída paralelamente à única estrada de acesso a um parque nacional, ou se ela escala verticalmente uma encosta claramente visível de um ponto turístico importante, ela será mais conspícua e sujeita a ser vista por mais tempo, por mais pessoas, com maior intensidade. Entretanto, existem diversas soluções de traçado para diminuir o grau de visibilidade de uma LT e, consequentemente, os seus impactos "cênicos", mesmo nas proximidades de áreas naturais preservadas.

48

3.3.7.4. Mineração

A mineração e a transmissão de energia elétrica podem ser conflitantes quando há impossibilidade de coexistência entre essas duas atividades. Desta forma, o levantamento das autorizações e concessões minerais deve ser realizado junto ao Departamento Nacional de Produção Mineral – DNPM, que disponibiliza uma base cartográfica dos processos minerários. A base cobre uma grande extensão do território nacional e apresenta processos em diferentes fases, de requerimento de pesquisa à concessão de lavra, e especifica diversas substâncias sujeitas à extração, como areia, água mineral, minério de ferro, esmeralda e ouro. Segundo o parecer da Procuradoria-Geral Federal sobre conflito entre atividades de exploração de recursos minerais e de geração e transmissão de energia elétrica (DNPM, 2008), essas duas atividades encontram-se no mesmo patamar jurídico-constitucional, não havendo como, a partir da análise da legislação em vigor, afirmar de antemão a prevalência de qualquer uma das duas atividades. O Código de Mineração, Decreto-lei n o 227, de 28 de fevereiro de 1967, define os diferentes regimes de aproveitamento das substâncias minerais, a saber: regime de autorização; regime de concessão; regime de licenciamento; regime de permissão de lavra garimpeira; e regime de monopolização (Tabela 2).

Tabela 2 - Regimes de aproveitamento econômico das substâncias minerais

Regime Legal

Descrição

Autorização

Visa à realização dos trabalhos necessários à definição da jazida, sua avaliação e a determinação da exequibilidade do seu aproveitamento.

Concessão

Visa à realização do conjunto de operações coordenadas objetivando o aproveitamento industrial da jazida, desde a extração do minério até o seu beneficiamento.

Licenciamento

Visa ao aproveitamento das substâncias minerais de emprego imediato na construção civil ou como corretivo de solos na agricultura.

Permissão de lavra garimpeira

Visa à lavra e aproveitamento imediatos de substâncias minerais que, em razão da sua dimensão, natureza, localização e utilização econômica, independem de prévios trabalhos de pesquisa.

Monopolização

Depende de lei especial e os trabalhos são executados direta ou indiretamente pelo Governo Federal

Fonte: Adaptado de DNPM, 2008

49

Apresenta-se redigido, no Art. 42 do mesmo código que “A autorização será recusada, se a lavra for considerada prejudicial ao bem público ou comprometer interesses que superem a utilidade da exploração industrial, a juízo do Governo”. Sobre esse artigo do Código de Mineração, a Procuradoria-Geral Federal entende

que:

“Apesar de não constar expressamente no Art. 42, do Código de Mineração, a incompatibilidade entre as atividades minerária e energética é requisito essencial para a aplicação do referido dispositivo legal, uma vez que só haverá conflito entre tais se a coexistência de ambas for efetivamente inviável. Caso contrário, o interesse público impõe a manutenção das duas atividades, buscando-se, assim, o desenvolvimento de ambos os setores de forma sustentada.” (DNPM, 2008).

O mesmo parecer defende que a superação da utilidade do aproveitamento mineral deve ser definida caso a caso, a princípio, pelo Ministro de Minas e Energia, conforme o trecho transcrito do documento, a seguir:

“A superação da utilidade do aproveitamento mineral na área pelo interesse envolvido no projeto energético depende de definição caso a caso, considerando os diversos interesses, valores e fatores envolvidos e mediante critérios de conveniência e oportunidade. O interesse prioritário ou prevalecente deverá ser definido, em princípio, pelo Ministro de Estado de Minas e Energia, por ser a autoridade responsável pela elaboração e definição das políticas energética e mineral no País e chefe do órgão ao qual se vincula tanto o DNPM como a ANEEL, autarquias federais responsáveis pela regulação dos setores de mineração e de energia elétrica, respectivamente.” (DNPM, 2008).

Devido à extensa cobertura territorial das áreas que apresentam processos minerários, o cruzamento de linhas de transmissão nessas áreas é bastante frequente. Entretanto, deve-se observar que os processos que se encontram em fases mais avançadas, (como concessão de lavra) ou as áreas que já apresentam a atividade minerária em curso, tendem a serem as áreas de maior restrição para a passagem de uma linha de transmissão.

50

3.3.7.5. Áreas de agricultura conflitantes com linhas de transmissão

A maioria das culturas pode ser praticada nas faixas de servidão. No entanto, espécies facilmente combustíveis, como plantações de cana-de-açúcar e a silvicultura, não podem coexistir com a faixa de servidão. Desta forma, com a passagem da linha de transmissão, uma grande área de produção pode ser inviabilizada para a cultura. Para as pequenas propriedades rurais, a perda da área produtiva na faixa de servidão tende a comprometer consideravelmente a renda do agricultor rural. Na nas áreas de agricultura extensiva, as torres de transmissão podem dificultar a passagem de maquinário agrícola, e os cabos das linhas, a passagem de aviões pulverizadores. Em relação aos pivôs centrais de irrigação, esses devem ser desviados pelas linhas devido à incompatibilidade dos dois tipos de estruturas. Essas áreas são bem visíveis em imagens de satélite, possuindo, em média, 1 km de diâmetro.

4. MATERIAL E MÉTODOS

No presente trabalho, foram utilizados os traçados de linhas de transmissão planejadas obtidos a partir dos relatórios R3 e dos estudos realizados para o licenciamento ambiental (Estudo de Impacto Ambiental – EIA e Relatório Ambiental Simplificado – RAS) da base cartográfica disponibilizada pela EPE. Esses dados foram cruzados com as bases cartográficas das áreas que apresentam restrições para a passagem de linhas de transmissão, tornando possível a identificação e a quantificação dos desvios dos traçados estudados. Ao total, 171 traçados de linhas de transmissão planejadas tiveram seus desvios analisados, perfazendo um total de 29.759 de km. Desses, 116 traçados foram obtidos a partir de relatórios R3 e 55 dos relatórios do licenciamento ambiental (EIA ou RAS). Para a realização da análise, os dados foram trabalhados em um ambiente de Sistema de Informação Geográfica (SIG) utilizando-se o software ArcGIS 10.1 para o tratamento dos dados e o software Google Earth para a visualização dos traçados em imagens de satélite e a realização da medição dos desvios.

4.1. TRAÇADO DAS LINHAS DE TRANSMISSÃO PLANEJADAS

Conforme mencionado, o presente estudo utilizou os traçados dos relatórios R3 e dos estudos do licenciamento ambiental (EIA ou RAS) da base cartográfica de linhas de

51

transmissão planejadas disponibilizada pela EPE em arquivo shapefile. Ressalta-se que os relatórios R3 são realizados em uma etapa anterior ao leilão, e apresentam traçados preliminares que não são sujeitos à aprovação de um órgão ambiental licenciador. Assim, são traçados que apresentam um nível menor de detalhamento se comparados aos traçados do licenciamento. No entanto, visando aumentar a abrangência e a amostragem dos dados, foram utilizados os traçados definidos nos dois tipos de estudo, apesar das suas diferenças. Da base utilizada, foram excluídos:

Os traçados com extensão inferior a 10 km – Em geral, tratam-se de seccionamentos e, devido a curta extensão, tendem a não apresentar desvios significativos (com extensão superior a 1 km);

Os traçados de linhas de transmissão de corrente contínua - Por possuírem grandes extensões (acima de 1000 km), elas seguem um padrão diferenciado de desvios das linhas de corrente alternada, cuja tecnologia não permite extensões superiores a 400 km.

4.2. BASE DE DADOS DAS ÁREAS RESTRITIVAS CONSULTADA

Além da base das linhas de transmissão planejadas, para a identificação e cálculo dos desvios dos traçados foi necessário consultar outras bases cartográficas, como as áreas que apresentam restrições para a passagem das linhas de transmissão e o limite das regiões brasileiras, apresentadas na Tabela 3.

Tabela 3 - Base cartográfica utilizada para a análise dos desvios

Base Cartográfica

Fonte

Ano

Terra indígena

Funai

2015

Territórios quilombolas

Incra

2015

Unidades de Conservação Federais

MMA

2015

Unidades de Conservação Estaduais

Eletrobras

2011

Projetos de assentamento

Incra

2015

Ocorrência de cavernas

Cecav

2015

Potencial de ocorrência de cavernas

Cecav

2012

Áreas urbanas

MMA

2007

Hidrografia

IBGE

2009

Sistema viário

IBGE

2009

Regiões Brasileiras

IBGE

2009

52

4.3. CÁLCULO DOS DESVIOS

Os desvios foram calculados comparando-se as extensões dos trechos dos traçados planejados com os mesmos trechos em linha reta sem o desvio da variável restritiva. Para tanto, as medições foram realizadas utilizando-se o programa Google Earth com a visualização dos arquivos das linhas de transmissão planejadas e das áreas restritivas no formato KMZ. As imagens de satélites observadas a partir do Google Earth facilitou a identificação dos desvios de áreas que não se encontram delimitadas nas bases consultadas, como pivôs centrais de irrigação, aglomerados populacionais, etc. Como a intenção do estudo é a identificação das restrições responsáveis pelos desvios mais significativos, isto é, os desvios de grandes extensões, apenas foram considerados os desvios superiores a 1 km por traçado. Nos casos em que o desvio englobou mais de uma área, o desvio foi computado primeiramente na área mais restritiva, na seguinte ordem:

I. Terra indígena, terra quilombola e área urbana;

II. Unidade de conservação de proteção integral;

III. Unidade de conservação de uso sustentável (exceto APA), travessia e desvio de corpos hídricos;

IV. Área de Proteção Ambiental - APA e assentamento rural; e

V. Rodovias (desvio para aproximação) 1 .

Ressalta-se que os desvios considerados para rodovias foram os desvios feitos para que o traçado atravessasse uma área com melhor apoio viário, em geral, seguindo em paralelo a uma rodovia ou outra via de acesso.

Sendo o desvio superior à extensão necessária para desviar da área mais restritiva, a diferença foi contabilizada na segunda variável para não haver sobreposição na medição de desvios. A Figura 11 exemplifica o mencionado.

1 O padrão de desvio para a variável Rodovias difere dos demais por buscar proximidade com essas feições, enquanto os desvios para as outras variáveis visam o contorno e afastamento das áreas restritivas.

53

53 Fonte dos dados: Google Earth, 2015; MMA, 2015; Incra, 2015; EPE, 2015 Figura 11 –

Fonte dos dados: Google Earth, 2015; MMA, 2015; Incra, 2015; EPE, 2015

Figura 11 – Exemplo de desvio de duas variáveis

A Figura 11 apresenta um desvio de área urbana e de unidade de conservação de proteção integral. Sendo a área urbana mais restritiva do que a unidade de conservação de proteção integral, o desvio atribuído à área urbana foi a diferença entre a extensão da linha tracejada amarela e a linha tracejada vermelha, enquanto a extensão computada para o desvio da unidade de conservação de proteção integral foi a diferença entre a extensão do traçado tracejado azul e o traçado tracejado amarelo. Observe que o desvio considerou os 3 km da zona de amortecimento definida pela Resolução Conama n o 428/2010. As Figuras 12, 13 e 14 apresentam, de forma esquemática, alguns exemplos da medição de desvios dos traçados das áreas que apresentam restrições. O desvio é calculado a partir da diferença entre a linha tracejada amarela e a linha tracejada vermelha.

54

54 Fonte dos dados: Google Earth, 2015; Incra, 2015; EPE, 2015 Figura 12 – Exemplo de

Fonte dos dados: Google Earth, 2015; Incra, 2015; EPE, 2015

Figura 12 – Exemplo de desvio de área urbana

EPE, 2015 Figura 12 – Exemplo de desvio de área urbana Fonte dos dados: Google Earth,

Fonte dos dados: Google Earth, 2015; MMA, 2015; Funai, 2015; EPE, 2015

Figura 13 – Exemplo de desvio de unidade de conservação

55

55 Fonte dos dados: Google Earth, 2015; MMA, 2015; Incra, 2015; Funai, 2015; EPE, 2015 Figura

Fonte dos dados: Google Earth, 2015; MMA, 2015; Incra, 2015; Funai, 2015; EPE, 2015

Figura 14 – Exemplo de desvio visando o paralelismo com rodovia

4.4. CONTAGEM DAS INTERFERÊNCIAS

Além dos desvios, foram identificadas as interferências dos traçados das linhas de transmissão planejadas em áreas com restrições. Nos casos das interferências, o que foi contabilizado foi o número de interferências por traçado. A Figura 15 mostra o traçado de uma LT planejada atravessando uma APA e alguns assentamentos rurais.

atravessando uma APA e alguns assentamentos rurais. Fonte dos dados: Google Earth, 2015; MMA, 2015; Incra,

Fonte dos dados: Google Earth, 2015; MMA, 2015; Incra, 2015; EPE, 2015

Figura 15 – Exemplo de interferência de traçado em assentamentos rurais e em APA

56

4.5. COMPILAÇÃO DOS DADOS EM TABELA

Os dados foram compilados em uma tabela Excel como a apresentada no APÊNDICE 1. Nas células foram inseridas as extensões dos desvios e o número de interferências. Vale lembrar que apenas foram contabilizados os desvios com extensões superiores a 1 km. A Tabela 4 apresenta a descrição dos campos da tabela utilizada para anotação das extensões dos desvios e a quantificação das interferências.

Tabela 4 - Campos da tabela de compilação de dados dos desvios

Campo geral

Campo específico

Descrição

 

ID

Número que identifica o traçado

ID

Estudo

Relatório R3, EIA ou RAS

Extensão

Extensão total do traçado

 

UC PI (Exten.)

Unidade de conservação de Proteção Integral - Extensão do desvio

UC PI (Categ.)

Unidade de conservação de Proteção Integral - Indicação da Categoria

UC US (Exten.)

Unidade de conservação de Uso sustentável - Extensão do desvio

UC US (Categ.)

Unidade de conservação de Uso sustentável - Indicação da Categoria

TI

Extensão do desvio de terra indígena

TQ

Extensão do desvio de terra quilombola

Área Urbana

Extensão do desvio de área urbana

Alagável

Extensão do desvio de área alagável

Desvios

Reservatório

 

Travessia

Extensão do desvio para travessia de reservatório

Reservatório Desvio

Extensão do desvio do reservatório

Rio Travessia

Extensão do desvio para travessia de rio

Rio Desvio

Extensão do desvio de rio (meandros)

Assentamento

Extensão do desvio de assentamento rural

Outros

Extensão do desvio de outros

OBS

Observações e especificação de outros (listados no item 3.3.7)

Rodovias

Extensão do desvio para aproximação da malha viária

 

Assentamento

Número de assentamentos atravessados

Interferência

APA

Número de APAs atravessadas

Outra

Indicação de outras áreas atravessadas

57

OBS

Sem desvio

significativo

Não foi identificado desvios acima de 1 km

Desvio não

identificado

O desvio não pode ser identificado a partir da base consultada e das imagens de satélite

OBS

Observação

Sobre alguns campos da tabela, cabem comentários.

Para as unidades de conservação, devido às diferentes restrições atribuídas às categorias, as mesmas foram discriminadas durante o levantamento dos desvios.

Devido a diferença da natureza do desvio, foram diferenciadas os desvios dos rios (em geral meandros) e dos reservatórios (braços dos reservatórios) dos desvios das travessias dos rios e reservatórios, que em geral estão limitados aos seus trechos mais estreitos;

No campo Sem desvios significativos foram assinaladas os traçados que não tiveram desvios superiores a 1 km;

No campo Desvio não identificado foram apontadas as linhas que tinham desvios significativos que não puderam ser identificados nem mesmo nas imagens de satélite

No campo Outros (no campo geral Desvios), foram incluídos os desvios que não estão listados na tabela. Destes, estão algumas variáveis que possuem base de dados cartográficos, como cavernas e aeródromos, e os que apenas podem ser identificados nas imagens de satélite, como aglomerados populacionais, pivôs centrais de irrigação, áreas de mineração, etc; e

No campo Outra (no campo geral Interferências), foram incluídas as áreas protegidas atravessadas pelo traçado, como as unidades de conservação, as terras indígenas e as terras quilombolas.

4.6. ANÁLISE DOS DADOS

Por conta da grande extensão do território brasileiro e da diferença socioeconômica e ambiental entre as regiões, verificou-se que as restrições levantadas diferenciam consideravelmente entre as regiões. Desta forma, optou-se por fazer uma discussão dos resultados primeiramente por região, para então discutir os desvios para o Brasil como um todo.

58

Desta forma, na distribuição dos traçados por região, os traçados que atravessam mais de uma região brasileira foram computados na região onde este se apresenta com maior extensão. Visando realizar uma análise não apenas da extensão dos desvios, como também da sua frequência de ocorrência, optou-se por fazer uma análise tanto da extensão do desvio quanto do número de linhas que desviaram de uma determinada variável. Convém mencionar que um traçado pode desviar de mais de uma área restritiva. Os dados foram trabalhados com o detalhamento da tabela 3, discriminando os grupos e as categorias das unidades de conservação, tipos de corpos d’água, etc. No entanto, nas análises mais generalistas, os dados dos desvios foram agrupados, e para as discussões mais específicas, foram apresentados em sua forma detalhada.

5. RESULTADOS E DISCUSSÃO

Neste capítulo são apresentados primeiramente os dados gerais dos resultados, seguidos por uma análise mais detalhada dos desvios e interferências por região. Então, o comportamento dos traçados em relação às áreas que apresentam restrições são discutidos para o Brasil como um todo, considerando as diferenças entre as regiões.

5.1. DADOS GERAIS DOS RESULTADOS

A Tabela 5 apresenta o número e a extensão total dos traçados analisados por região. Observa-se que houve uma maior extensão de traçados analisados na região Norte, seguida pelo Nordeste (Figura 16), e um maior número de linhas na região Sudeste. Segundo o PDE 2024, a expansão do SIN na região Norte se deve aos novos aproveitamentos hidrelétricos na Amazônia, na região Nordeste ao escoamento do excedente do potencial eólico, e na região Sudeste, aos reforços no sistema.

Tabela 5 - Extensão e número de traçados de linhas de transmissão planejadas analisadas por região

Traçados e desvios de LT

Norte

Nordeste

Centro-Oeste

Sudeste

Sul

Total

N o de traçados

32

48

21

38

32

171

Extensão dos traçados (km)

7912

7884

3850

6106

4007

29759

Extensão dos desvios (km)

528

359

143

255

267

1552

% Desvios (km)/Traçados (km)

6,7

4,6

3,7

4,2

6,7

5,2

59

Percentagem da extensão dos traçados analisados por região brasileira Sul Norte 13% 27% Sudeste 21%
Percentagem da extensão dos traçados analisados
por região brasileira
Sul
Norte
13%
27%
Sudeste
21%
Centro-Oeste
Nordeste
13%
26%

Figura 16 – Percentagem da extensão dos traçados de linhas de transmissão planejadas analisados por região brasileira

A Tabela 5 aponta que houve um acréscimo de 5,2 % nas extensões totais dos

traçados analisados devido aos desvios. Observa-se que a região Norte foi a região que

apresentou a maior extensão de desvios enquanto a região Centro - Oeste foi a que

apresentou menores extensões de desvios e menor relação desvios (km) /traçados (km).

A Tabela 6 apresenta a extensão dos desvios e o número de traçados que

apresentaram desvios para evitar áreas com restrições ou para seguir em paralelo a

rodovias. Os valores percentuais estão relacionados aos valores totais dos números de

traçados analisados e extensão total dos desvios, apresentados na Tabela 5.

Tabela 6 – N o de traçados que apresentaram desvios e as extensões dos desvios por variável analisada

Variável determinante dos desvios

N o de traçados

% N o de traçados totais

Extensão

% Extensão dos desvios totais

(km)

Paralelismo com Rodovias

54

32

453

29

Área Urbana

70

41

332

21

Unidades de Conservação

37

22

238

15

Terra Indígena

13

8

107

7

Corpos dágua

41

24

212

14

Outras

62

36

210

14

Na Tabela 6, verifica-se que a maior extensão de desvio dos traçados analisados foi

em decorrência do paralelismo com rodovias, perfazendo um total de 453 km, o

60

equivalente a 29 % do total da extensão dos desvios. Esses desvios evitam as áreas com pouco apoio viário que, além de prejudicar a logística para a construção e manutenção da linha de transmissão, frequentemente são as causas de maiores interferências com a vegetação nativa. A variável determinante do desvio que ocorreu com maior frequência e segunda maior em extensão foi a área urbana, estando presente em 41 % dos traçados analisados, e perfazendo um total de 332 km de extensão. A restrição para a passagem de linhas de transmissão em áreas urbanas é muito alta embora muitos dos desvios não tenham grandes extensões. Uma vez que as áreas urbanas encontram-se espargidas por todo o Brasil, há uma grande frequência desses desvios. Ainda assim, como esse estudo somente considerou os desvios maiores de 1 km por traçado, o número e a extensão dos desvios de áreas urbanas tendem a ser ainda maiores. As unidades de conservação apresentam a terceira maior extensão de desvios dos traçados, com 238 km. Cabe mencionar que neste campo estão agrupadas as unidades de conservação de proteção integral e de uso sustentável, apesar dos diferentes graus de restrição que elas apresentam. Os desvios que ocorreram por conta dos corpos d’água somaram um total de 212 km, e foram causas de desvios em 41 linhas. Incluídos nessa classe, encontram-se os desvios de rios, reservatórios e lagos, e os desvios realizados para a viabilização de travessias desses corpos d’água. Em relação às terras indígenas, os desvios dos traçados planejados foram de aproximadamente 107 km de extensão, identificados em 13 dos 171 traçados analisados, indicando que as extensões dos desvios tendem a ser grandes. No campo Outras, da coluna das variáveis determinantes dos desvios, diferentes áreas identificadas estão agrupadas, dentre elas terras quilombolas, áreas com concentração de cavernas, áreas de mineração, assentamento rural, áreas alagáveis, etc., que serão apresentados nos próximos itens. Alguns traçados não apresentaram desvios significativos, ou seja, desvios com extensões superiores a 1 km, enquanto outros apesentaram desvios que não puderam ser identificados a partir da base de dados consultada. O número de traçados que apresentaram essas situações encontram-se na Tabela 7.

61

Tabela 7 - N o de traçados que não apresentaram desvios e n o traçados que apresentaram desvios não identificados por região a brasileira

   

Número de traçados

 

Traçados de LT

Norte

Nordeste

Centro-Oeste

Sudeste

Sul

Total

Não apresentaram desvio significativo (> 1 km)

1

 

6 2

2

3

14

Apresentaram desvios não identificados

7

 

7 5

7

5

31

O presente estudo identificou também as interferências dos traçados das linhas de transmissão planejadas com áreas restritivas, se destacando em número os assentamentos rurais e as Áreas de Proteção Ambiental – APAs, unidades de conservação de uso sustentável, conforme apresentado na Tabela 8.

Tabela 8- Interferência dos traçados com áreas restritivas

Área restritiva

N o de Interferências

Assentamento

254

APA

59

Outra

23

Total

336

Observa-se, na Tabela 8, que foram identificadas mais interferências em assentamentos rurais do que em APAs. No campo Outras se encontram principalmente unidades de conservação de diferentes categorias, além de uma terra indígena, uma terra quilombola, entre outras áreas. Como os dados dos desvios e os dados das interferências estão apresentados na Tabela 6 para todo o Brasil, eles não mostram o que cada variável representa para cada região. Os desvios das terras indígenas, por exemplo, são determinantes para os traçados de linhas de transmissão na região Norte. Contudo, os valores apresentados na Tabela 6 são relativamente baixos por não serem tão significativos nas regiões Nordeste, Sudeste e Sul. Em relação às áreas urbanas, essas áreas de restrição são muito importantes para os traçados localizados no Sudeste e no Sul, entretanto, pouco expressivas nas regiões Norte e Nordeste. Da mesma forma, as interferências com assentamentos rurais estão predominantemente localizadas nas regiões Norte e Nordeste, enquanto a interferências com APAs ocorrem com mais frequência no Sudeste.

62

Assim, para que os resultados finais não desconsiderem as diferenças regionais brasileiras, as análises foram realizadas primeiramente por região, e então para todo o Brasil.

5.2. ANÁLISE DOS DESVIOS E INTERFERÊNCIAS DOS TRAÇADOS DE LINHAS DE TRANSMISSÃO PLANEJADAS EM ÁREAS RESTRITIVAS POR REGIÃO BRASILEIRA

Neste item, os traçados são analisados por região brasileira visando identificar quais são os principais motivos de desvios e a frequência de interferências com áreas restritivas considerando as características de cada região.

5.2.1. Região Norte

Na região Norte foram analisados 32 traçados de linhas de transmissão planejadas, dos quais 17 foram obtidos a partir de relatórios R3 e 15 de estudos para o licenciamento ambiental (EIA ou RAS), perfazendo um total de 7.912 km de extensão de traçado. A Figura 17 apresenta o mapa dos traçados planejados analisados e as áreas restritivas para a passagem de linhas de transmissão, enquanto a Figura 18 mostra os traçados planejados analisados e a malha viária existente, ambos na região Norte.

63

63 Fonte dos dados: Funai, 2015; MMA, 2015; Eletrobrás, 2011; Incra, 2015 MMA, 2007; IBGE, 2009

Fonte dos dados: Funai, 2015; MMA, 2015; Eletrobrás, 2011; Incra, 2015 MMA, 2007; IBGE, 2009 Figura 17 - Mapa dos traçados planejados e as áreas restritivas na região Norte

planejados e as áreas restritivas na região Norte Fonte dos dados: IBGE, 2009 Figura 18 –

Fonte dos dados: IBGE, 2009 Figura 18 – Mapa da malha viária na região Norte

64

A Tabela 9 apresenta os dados sobre os desvios dos traçados de linhas de transmissão planejadas na região Norte em valores absolutos e percentuais relativos à região Norte. As Figuras 19 e 20 mostram os valores em gráficos.

Tabela 9 - N o de traçados que apresentaram desvios e as extensões dos desvios por variável na região Norte

Variável determinante dos desvios

N o de traçados

% N o de traçados totais

Extensão

% Extensão dos desvios totais

(km)

Rodovias

21

66

261

49

Área Urbana

6

19

17

3

UC PI

4

13

23

4

UC US

3

9

10

2

Terra Indígena

7

22

82

16

Terra Quilombola

0

0

0

0

Área Alagável

2

6

9

2

Travessia corpos d’água

8

25

65

12

Desvio corpos d’água

6

19

24

5

Assentamento Rural

6

19

15

3

Outros

4

13

22

4

Extensão dos desvios (km) - Região Norte 300 250 200 150 100 50 0 *Desvio
Extensão dos desvios (km) - Região Norte
300
250
200
150
100
50
0
*Desvio de aproximação

Figura 19 - Extensão dos desvios dos traçados de linhas de transmissão planejadas na região Norte

65

N o de traçados que apresentaram desvios - Região Norte 25 20 15 10 5
N o de traçados que apresentaram desvios - Região Norte
25
20
15
10
5
0
*Desvio de aproximação

Figura 20 - N o de traçados de linhas de transmissão planejadas que apresentaram desvios na região Norte

Pode-se observar a partir dos gráficos que o paralelismo com rodovias, terra indígena e travessias de corpos d’água são as variáveis mais significativas para os desvios dos traçados de linhas de transmissão planejadas na região Norte. Conforme apresentado na Figura 18, a malha viária na região Norte é deficiente, formado por poucas rodovias pavimentadas e estradas não pavimentadas. Tendo em vista que a região Norte engloba grande parte da Amazônia Legal, as regiões com déficit em vias de acesso muitas vezes estão cobertas com florestas ombrófilas bem preservadas que em média possuem de 35 a 40 metros de altura (MESQUITA, 2009). Além da dificuldade para transpor a vegetação nativa, o impacto da construção uma linha de transmissão nessas áreas é muito alto e tende a ser intensificado pela falta de vias de acesso. Tais condições justificam os grandes desvios dos traçados para o paralelismo com rodovias existentes na região Norte, observados em 21 dos 32 traçados analisados (66%), e responsável por um acréscimo de 261 km nas extensões dos mesmos. A Figura 21 apresenta um exemplo de desvio do traçado visando o paralelismo com rodovia em uma região com pouco apoio viário.

66

66 Fonte dos dados: Google Earth, 2015; MMA, 2015; Funai, 2015; Incra, 2015; EPE, 2015 Figura

Fonte dos dados: Google Earth, 2015; MMA, 2015; Funai, 2015; Incra, 2015; EPE, 2015

Figura 21 – Desvio visando o paralelismo com rodovias na região Norte

Os corpos d’água também se destacam na região. A região Norte abrange grande parte da bacia hidrográfica do rio Amazonas, sendo a mais extensa rede hidrográfica do globo, ocupando uma área total de 6.110.000 km 2 e com contribuição média de 132.145 m³/s de água apenas no território brasileiro (ANA, 2015). Desta forma, os desvios realizados para a travessia dos rios ou para o desvio de grandes meandros de rios foram responsáveis não apenas por uma grande extensão total dos desvios (89 km), como também ocorreram em razoável frequência, com 25% das linhas apresentando desvios para travessias e 19% para desvios dos meandros dos rios. Associadas aos rios, a região Norte possui grandes áreas alagáveis que também são causas de desvios. Em 2 traçados essas áreas foram responsáveis pelo acréscimo de 9 km (ressalta-se que apenas os desvios superiores a 1 km por traçado foi considerado). As áreas alagáveis demandam fundações diferenciadas de alto custo financeiro e elevam consideravelmente os impactos ambientais na construção e na abertura de vias de acesso. A Figura 22 apresenta um exemplo de desvio de rio na região Norte. Neste trecho, o rio possui 3 km de largura.

67

67 Fonte dos dados: Google Earth, 2015; MMA, 2015; Funai, 2015; EPE, 2015 Figura 22 –

Fonte dos dados: Google Earth, 2015; MMA, 2015; Funai, 2015; EPE, 2015

Figura 22 – Desvio de rios na região Norte

Em relação às terras indígenas, essas áreas são responsáveis por grandes desvios na região Norte (Figura 23). Além do desvio da área delimitada, deve-se observar que a maioria dos desvios consideram também a distância estipulada pela portaria 411/11 (revogada pela Portaria n o 60/15 mantendo o mesmo valor), sendo de 8 km de afastamento para a Amazônia Legal. Cabe lembrar que o órgão ambiental poderá exigir estudos específicos referentes às interferências do empreendimento com terra indígena se o empreendimento estiver localizado a uma distância inferior ao determinado pela portaria.

a uma distância inferior ao determinado pela portaria. Fonte dos dados: Google Earth, 2015; MMA, 2015;

Fonte dos dados: Google Earth, 2015; MMA, 2015; Incra, 2015; Funai, 2015; EPE, 2015

Figura 23 – Desvio de terra indígena e interferências com assentamentos rurais na região Norte

68

As unidades de conservação foram responsáveis por 33 km de desvios na região Norte, 23 dos quais determinados por unidades de conservação de proteção integral, conforme apresentado pela Tabela 10.

Tabela 10 – Desvios de unidades de conservação na região Norte

Unidades de conservação desviadas

Unidades de conservação desviadas Grupo Categoria N o de traçados Extensão (km)

Grupo

Categoria

N o de traçados

Unidades de conservação desviadas Grupo Categoria N o de traçados Extensão (km)

Extensão (km)

Unidades de conservação desviadas Grupo Categoria N o de traçados Extensão (km)
Categoria N o de traçados Extensão (km) Parque Nacional 1 16 Parque Estadual 2 6 Proteção

Parque

Nacional

1 16

Parque

Estadual

2

6

Proteção Integral

Refúgio da Vida Silvestre

1

1

Uso Sustentável

Reserva Florestal*

1

8

Floresta Nacional

1

1

Reserva dos Recursos Naturais*

1

1

*Unidades de conservação não categorizadas pelo SNUC

Em relação aos assentamentos rurais, houve um total 15 km de desvio dessas áreas, o equivalente a apenas 3% da extensão total dos desvios na região Norte, apesar de ser uma área que apresenta grandes extensões de assentamentos (Figura 5). Conforme apresentado na Tabela 9, não foi identificado nenhum desvio de terras quilombolas na região Norte. Em relação às outras variáveis desviadas, foram identificados desvios superiores a 1 km para as áreas de mineração, aeroporto e uma área de reflorestamento, conforme indicado na Tabela 11.

Tabela 11 – Outras variáveis desviadas na região Norte

Outras áreas desviadas

N o de traçados

Extensão (km)

Mineração

1

15

Aeroporto

1

2

Reflorestamento

1

2

Além dos desvios, foi quantificado o número de interferências em áreas que apresentam restrições para a passagem de linhas de transmissão. As interferências identificadas para a região Norte estão na Tabela 12.

Tabela 12 – Interferências dos traçados em áreas restritivas na região Norte

Área atravessada pelo traçado

N o de traçados

% N o de traçados totais

N o de Interferências

Assentamento rural

24

75

104

APA

7

22

7

Outra

4

13

4

69

A Tabela 12 mostra que os traçados analisados na região Norte interferiram em 104 assentamentos rurais e a interferência ocorreu em 75% dos traçados analisados. Convém observar que, apesar do grande número de interferências nessas áreas, os desvios levantados foram pouco significativos, ocorrendo em apenas cerca de 20 % dos traçados e totalizando 15 km de extensão total (Tabela 9). Na região Norte os assentamentos frequentemente estão dispostos de forma agrupada abrangendo grandes áreas, o que praticamente inviabiliza o desvio dos traçados de linhas de transmissão. Além disso, muitas vezes os assentamentos estão localizados às margens das escassas rodovias e estradas existentes na região, sendo estes também os locais mais favoráveis para a passagem das linhas de transmissão, o que justifica o alto número de assentamentos rurais atravessados e a pequena extensão atribuída aos desvios. Em relação às interferências com APAs, estas ocorreram em 22% dos traçados, totalizando 7 interferências. Foram observadas também interferências em terra indígena e três unidades de conservação de uso sustentável (Tabela 13).

Tabela 13 – Interferências dos traçados em outras áreas restritivas

Outras interferências

N o de traçados

N o de áreas

Terra indígena

1

1

Reserva Florestal* (UC - US)

1

1

Floresta Estadual (UC - US)

1

1

Reserva Extrativista (UC - US)

1

1

*Unidades de conservação não categorizadas pelo SNUC

Importa mencionar que esta foi a única interferência com terra indígena identificada dentre os traçados analisados. A interferência foi em razão do paralelismo com uma rodovia que passa dentro da terra indígena, sendo que o entorno é totalmente desprovido de acessos, conforme apresentado na Figura 24. O desvio dessa terra indígena causaria grandes impactos com a vegetação nativa (floresta ombrófila bem preservada), com grandes extensões de áreas alagáveis, além de interferência com unidades de conservação.

70

70 Fonte dos dados: Google Earth, 2015; MMA, 2015; Incra, 2015; Funai, 2015; EPE, 2015 Figura

Fonte dos dados: Google Earth, 2015; MMA, 2015; Incra, 2015; Funai, 2015; EPE, 2015

Figura 24 – Interferência com terra indígena na região Norte

5.2.2. Região Nordeste

Na região Nordeste foram analisados 7.884 km de extensão de traçados de linhas de transmissão planejadas. Ao total, foram 48 traçados dos quais 31 foram obtidos a partir de relatórios R3 e 17 de estudos para o licenciamento ambiental (EIA ou RAS). A Figura 25 apresenta o mapa dos traçados planejados analisados e as áreas restritivas para a passagem de linhas de transmissão, e a Figura 26, os traçados planejados analisados e a malha viária existente, ambos na região Nordeste.

71

71 Fonte dos dados: Funai, 2015; MMA, 2015; Eletrobrás, 2011; Incra, 2015 MMA, 2007IBGE, 2009 Figura

Fonte dos dados: Funai, 2015; MMA, 2015; Eletrobrás, 2011; Incra, 2015 MMA, 2007IBGE, 2009 Figura 25 - Mapa dos traçados planejados e as áreas restritivas na região Nordeste

planejados e as áreas restritivas na região Nordeste Fonte dos dados: IBGE, 2009 Figura 26 -

Fonte dos dados: IBGE, 2009 Figura 26 - Mapa da malha viária na região Nordeste

72

A Tabela 14 apresenta os dados sobre os desvios dos traçados de linhas de transmissão planejadas na região Nordeste, representados em gráficos nas Figuras 27 e 28.

Tabela 14 - N o de traçados que apresentaram desvios e as extensões dos desvios por variável na região Nordeste

Variável determinante dos desvios

N o de traçados

% N o de traçados totais

Extensão

% Extensão dos desvios totais

(km)

Rodovias

18

38

127

35

Área Urbana

17

35

36

10

UC PI

2

4

36

10

UC US

6

13

53

15

Terra Indígena

1

2

4

1

Terra Quilombola

4

8

7

2

Área Alagável

1

2

1

0

Travessia corpos d’água

3

6

13

4

Desvio corpos d’água

4

8

21

6

Assentamento Rural

3

6

10

3

Outros

11

23

51

14

Extensão dos desvios (km) - Região Nordeste 140 120 100 80 60 40 20 0
Extensão dos desvios (km) - Região Nordeste
140
120
100
80
60
40
20
0
*Desvio de aproximação

Figura 27 - Extensão dos desvios dos traçados de linhas de transmissão planejadas na região Nordeste

73

N o de traçados que apresentaram desvios - Região Nordeste 18 16 14 12 10
N o de traçados que apresentaram desvios - Região
Nordeste
18
16
14
12
10
8
6
4
2
0
*Desvio de aproximação

Figura 28 - N o de traçados de linhas de transmissão planejadas que apresentaram desvios na região Nordeste

Parte do potencial eólico brasileiro encontra-se no interior nordestino e, conforme citado no item 3.1, para o aproveitamento dessa energia faz-se necessário a ampliação do sistema de transmissão para escoamento dessa energia para os grandes centros de carga. Desta forma, muitas das linhas de transmissão planejadas atravessam essa região que apresenta ainda áreas remotas, municípios com pequenas áreas urbanas e pouca infraestrutura. As variáveis que se destacam para o desvio das linhas de transmissão planejadas na região Nordeste são o paralelismo com rodovias e as unidades de conservação. Conforme apresentado na Figura 26, diferentemente do litoral, o interior da região Nordeste apresenta uma malha viária pouco estruturada, contando com poucas rodovias pavimentadas, o que justifica o paralelismo com as rodovias ser o principal motivo dos desvios dos traçados analisados (Figura 29). Desta forma, 38% dos traçados analisados na região Nordeste apresentaram desvios que visavam ao paralelismo com acessos viários, totalizando 127 km de extensão em desvios para esse fim.

74

74 Fonte dos dados: Google Earth, 2015; MMA, 2015; Incra, 2015; EPE, 2015 Figura 29 –

Fonte dos dados: Google Earth, 2015; MMA, 2015; Incra, 2015; EPE, 2015

Figura 29 – Desvios visando o paralelismo com rodovias na região Nordeste

As unidades de conservação também foram causas de desvios significativos na região Nordeste. Conforme mostra a Tabela 14, esses desvios se destacam mais em extensão do que em número de traçados. Para as unidades de conservação de proteção integral apenas dois traçados somaram um desvio de 36 km para essa variável, significando 10% da extensão total dos desvios na região. A Figura 30 apresenta um exemplo de desvio de uma unidade de conservação de proteção integral na região Nordeste.

de conservação de proteção integral na região Nordeste. Fonte dos dados: Google Earth, 2015; MMA, 2015;

Fonte dos dados: Google Earth, 2015; MMA, 2015; Incra, 2015; EPE, 2015

Figura 30 – Desvio de unidade de conservação de proteção integral no Nordeste

75

Importa destacar também que a categoria de unidade de conservação que somou um maior número de traçados e maior extensão de desvios foi a APA (Tabela 15). Diferentemente de regiões como o Sudeste e Sul, onde as APAs podem se encontrar bastante antropizadas, na região Nordeste essas áreas ainda se apresentam conservadas, justificando o desvio mesmo com o baixo grau de restrição atribuído a essa categoria de unidade de conservação.

Tabela 15 - Desvios de unidades de conservação na região Nordeste

Unidades de conservação desviadas

Grupo

Categoria

N o de traçados

Extensão (km)

Parque Nacional Refúgio da Vida Silvestre Floresta Nacional Área de Proteção Ambiental - APA

1

30

Proteção Integral

Uso Sustentável

1

6

1

1

5

52

As áreas urbanas também se destacam como uma importante variável na região nordeste, não pela extensão dos desvios, e sim pelo número de traçados que apresentaram desvios (35% dos traçados). Isso ocorre porque, em geral, as áreas urbanas no Nordeste não possuem grandes extensões, apesar de estarem presentes em grande número de forma

dispersa na região. Assim, apesar da alta frequência de ocorrência, a extensão total dos desvios de áreas urbanas foi menos significativo, correspondendo a 10 % da extensão total dos desvios no Nordeste. O desvio de terras quilombolas ocorreu em maior frequência e extensão do que as

o desvios atribuídos às terras indígenas, sendo essa a região que mais possui terras quilombolas no Brasil. Entretanto, essas áreas, em geral, não possuem grandes extensões e

o desvio total para essa variável não foi muito expressiva (2% da extensão total dos desvios).

76

76 Fonte dos dados: Google Earth, 2015; MMA, 2015; Incra, 2015; EPE, 2015 Figura 31 –

Fonte dos dados: Google Earth, 2015; MMA, 2015; Incra, 2015; EPE, 2015

Figura 31 – Desvios de terras quilombolas e para o paralelismo com rodovias na região Nordeste

Os assentamentos rurais foram responsáveis por desvios em 6% dos traçados analisados correspondendo a 3 % da extensão total dos desvios, apesar dessa região apresentar um grande número de assentamentos. Na região Nordeste, o campo Outros apresentou 14 % da extensão total dos desvios. A Tabela 16 apresenta a discriminação do campo Outros, contando com 8 variáveis diferentes.

Tabela 16 – Outras variáveis desviadas pelos traçados na região Nordeste

Outras áreas desviadas

N o de traçados

Extensão (km)

Área degradada erosão

1

27

Área militar

1

10

Cavernas

1

4

Parque eólico

2

3

Povoados

2

2

Pivô de irrigação

2

2

Área de exploração de petróleo

1

2

Aeroporto

1

1

Na Tabela 16, destaca-se o desvio de uma área degradada em processo de desertificação que aumentou o traçado em 27 km (Figura 32). O desvio não visou apenas a não intensificação dos processos erosivos, mas também evitar os riscos que áreas em processos muito intensos de erosão podem oferecem às linhas de transmissão (ATE XVI,

2013).

77

77 Fonte dos dados: Google Earth, 2015; MMA, 2015; Incra, 2015; EPE, 2015 Figura 32 –

Fonte dos dados: Google Earth, 2015; MMA, 2015; Incra, 2015; EPE, 2015

Figura 32 – Desvio de área degradada (em processo de desertificação) na região Nordeste

Cabe mencionar, uma vez mais, que apenas foram computados os desvios superiores a 1 km por traçado. Desta forma, os desvios das variáveis podem ter ocorrido em uma frequência muito superior, mas sem ter atingido o 1 km de acréscimo à linha por conta do desvio. Esse é o caso, por exemplo, do desvio de aeroportos e cavernas que, embora ocorram com certa frequência, não é comum o desvio ser superior a 1 km. Em relação às interferências dos traçados em áreas que apresentam restrições, a Tabela 17 mostra que os traçados analisados na região Nordeste interferiram em 100 assentamentos rurais, o que ocorreu em 54% dos traçados analisados. Assim como ocorreu na região Norte, as interferências com assentamentos rurais ocorreram em grande número, enquanto os desvios foram pouco significativos, presentes em apenas 6% dos traçados.

Tabela 17 – Interferências dos traçados em áreas restritivas na região Nordeste

Área atravessada pelo traçado

N o de traçados

% N o de traçados totais

N o de Interferências

Assentamento rural

26

54

100

APA

5

10

5

Outra

2

4

2

Assim como na região Norte, os assentamentos rurais no Nordeste se encontram em grande número e de forma agrupada, ocupando áreas extensas e inviabilizando os desvios dos traçados. Além disso, frequentemente essas áreas localizam-se às margens de rodovias, sendo também os caminhos preferenciais de traçados de linhas de transmissão, principalmente em regiões com pouca infraestrutura viária, como ocorre na região Norte e interior da região Nordeste (Figura 33).

78

78 Fonte dos dados: Google Earth, 2015; MMA, 2015; Funai, 2015; Incra, 2015; EPE, 2015 Figura

Fonte dos dados: Google Earth, 2015; MMA, 2015; Funai, 2015; Incra, 2015; EPE, 2015

Figura 33 – Desvio visando ao paralelismo com rodovias e interferências com assentamentos rurais no Nordeste

Os traçados analisados na região Nordeste atravessaram 5 APAs, conforme apresentados na Tabela 17. Cabe lembrar que as APAs foram as unidades de conservação que apresentaram maior valor total de extensão de desvio na região Nordeste e, conforme já mencionado, na região elas abrangem ecossistemas naturais bem preservados, diferentemente das APAs da região Sudeste que, de forma geral, encontram-se bastante antropizadas. Além de interferência em assentamentos rurais e APAs, se verificou também interferência em uma terra quilombola e em uma Reserva Ecológica Estadual, unidade de conservação de proteção integral (Tabela 18).

Tabela 18 – Interferência dos traçados em outras áreas restritivas

Outras interferências

N o de traçados

N o de áreas

Terra quilombola

1

1

Reserva Ecológica Estadual* (UC - PI)

1

1

*Unidades de conservação não categorizadas pelo SNUC

5.2.3. Região Centro-Oeste

Na região Centro-Oeste foram analisados 3.850 km de extensão de traçados de linhas de transmissão planejadas. Ao total, foram 21 traçados dos quais 12 foram obtidos a partir de relatórios R3 e 9 de estudos para o licenciamento ambiental (EIA ou RAS). De todas as regiões, o Centro-Oeste foi a que teve menor amostragem de traçados.

79

A Figura 34 apresenta o mapa dos traçados planejados analisados e as áreas restritivas para a passagem de linhas de transmissão, e a Figura 35, os traçados planejados analisados e a malha viária existente, ambos na região Centro-Oeste.

e a malha viária existente, ambos na região Centro-Oeste. Fonte dos dados: Funai, 2015; MMA, 2015;

Fonte dos dados: Funai, 2015; MMA, 2015; Eletrobrás, 2011; Incra, 2015 MMA, 2007; IBGE, 2009 Figura 34 - Mapa dos traçados planejados e as áreas restritivas na região Centro-Oeste

80

80 Fonte dos dados: IBGE, 2009 Figura 35 - Mapa da malha viária na região Centro-Oeste

Fonte dos dados: IBGE, 2009

Figura 35 - Mapa da malha viária na região Centro-Oeste

A Tabela 19 mostra os dados sobre os desvios dos traçados de linhas de transmissão planejadas na região Centro-Oeste em valores absolutos e percentuais relativos à região. As Figuras 36 e 37 representam os valores em gráficos.

Tabela 19 - N o de traçados que apresentaram desvios e as extensões dos desvios por variável na região Centro-Oeste

Variável determinante dos desvios

N o de traçados

% N o de traçados totais

Extensão

% Extensão dos desvios totais

(km)

Rodovias

5

24

29

20

Área Urbana

5

24

23

16

UC PI

2

10

7

5

UC US

3

14

16

11

Terra Indígena

3

14

18

13

Terra Quilombola

0

0

0

0

Área Alagável

0

0

0

0

Travessia corpos d’água

1

5

4

3

Desvio corpos d’água

3

14

20

14

Assentamento Rural

2

10

5

3

Outros

1

5

21

15

81

Extensão dos desvios (km) - Região Centro - Oeste 30 25 20 15 10 5
Extensão dos desvios (km) - Região Centro - Oeste
30
25
20
15
10
5
0
*Desvio de aproximação

Figura 36 - Extensão dos desvios dos traçados de linhas de transmissão planejadas na região Centro- Oeste

N o de traçados que apresentaram desvios - Região Centro - Oeste 5 4 3
N o de traçados que apresentaram desvios - Região Centro -
Oeste
5
4
3
2
1
0
*Desvio de aproximação

Figura 37 - N o de traçados de linhas de transmissão planejadas que apresentaram desvios na região Nordeste

As variáveis que se destacam para o desvio das linhas de transmissão planejadas na região Centro-Oeste são: paralelismo com rodovias, áreas urbanas, desvio de corpo d’água e terras indígenas. Conforme apresentado na Figura 35, o Centro-Oeste possui grandes regiões com deficiência de uma malha viária estruturada, principalmente na porção oeste da região. Entretanto, diferentemente da região norte e nordeste, onde a falta de rodovias representa áreas de difícil acesso, muitas vezes remotas e pouco antropizadas, na região Centro-Oeste,

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essas áreas frequentemente estão ocupadas com agricultura mecanizada e possuem vias secundárias que dão suporte à agricultura. Apesar da maioria dessas vias não estarem representadas no mapa, elas fornecem um bom apoio viário para a implantação das linhas de transmissão planejadas. Assim, apesar de ser o principal motivo dos desvios, o paralelismo com rodovias não são tão significativos como nas outras regiões com infraestrutura viária deficiente e representam 20% do total das extensões dos desvios, sendo que na região Norte esta porcentagem é de 49% e no Nordeste 35%. As áreas urbanas também se destacaram na região Centro-Oeste, com 16% da extensão total dos desvios. Ressalta-se que os traçados localizados próximos a Brasília, na porção leste da região, elevaram consideravelmente este valor, sendo a área urbana menos significativa para o restante da região. A Figura 38 apresenta um traçado desviando de área urbana e de expansão urbana no Distrito Federal. As unidades de conservação não estão representadas na figura para facilitar a visualização do desvio de área urbana.

para facilitar a visualização do desvio de área urbana. Fonte dos dados: Google Earth, 2015; MMA,

Fonte dos dados: Google Earth, 2015; MMA, 2015; EPE, 2015

Figura 38 – Desvio de áreas urbanas, de pivôs centrais de irrigação e de uma área militar na região Centro-Oeste

O desvio de corpos d’água representaram 14% da extensão total dos desvios e estiveram presentes e 14% dos traçados. Foram causas dos desvios reservatórios de usinas hidrelétricas e meandro de rios. Para travessia de corpos d’água os números foram inferiores, com 5 % da extensão dos desvios e 3% do número de traçados. As terras indígenas foram responsáveis por 13% da extensão total dos desvios, estando presentes em 3 dos 21 traçados (14%). Entretanto, a região apresenta um potencial

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para números ainda maiores, uma vez que a porção noroeste da região apresenta um grande número de terras indígenas e poucos dos traçados analisados passaram nessa área.

e poucos dos traçados analisados passaram nessa área. Fonte dos dados: Google Earth, 2015; MMA, 2015;

Fonte dos dados: Google Earth, 2015; MMA, 2015; Funai, 2015; Incra, 2015; EPE, 2015

Figura 39 – Desvio de terra indígena na região Centro-Oeste

As unidades de conservação foram responsáveis por 16% da extensão total dos desvios, onde 5 % foram desvios de unidades de conservação de proteção integral (Estação Ecológica) e 11% desvios de unidades de conservação de uso sustentável (Área de Proteção Ambiental - APA). Os números de traçados e extensão por categoria estão apresentados na Tabela 20.

Tabela 20 - Desvios de unidades de conservação na região Centro-Oeste

Unidades de conservação desviadas

N o de traçados

 

Grupo

Categoria

Extensão (km)

Proteção Integral

Estação Ecológica

2

7

Uso Sustentável

Área de Proteção Ambiental - APA

3