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Devir-revolucionário – Razão
Inadequada
Escrito por Rafael Trindade
7-9 minutes

Há situações nas quais a única saída para o homem é devir-


revolucionário” – Deleuze, Abecedário, G de Gauche

Como fazer política sem cair nos velhos clichês? “Leia o livro tal“,
“faça como o político X“, “Dez lições para um fazer político“? Sim,
já conhecemos bem a política da Globo, dos jornais, das
manifestações, do almoço dominical com a família. Queremos
agora encontrar a micro-política que se faz na rua, na ocupação,
nos becos, nos espaços que escapam do poder constituído.
Queremos encontrar uma política que não imite, nem que seja
análoga ao que vimos até hoje. O político é o pastor? E daí? Nós
não somos ovelhas! O político é como um pai? Pois fiquem
sabendo: nós nascemos órfãos e anarquistas!

Nossa política está contaminada de ressentimento, vestimos


máscaras, carregamos cartazes, andamos desengonçados sem
encontrar a leveza necessária. A dificuldade de realizar encontros e
ampliar os horizontes de um fazer político está diretamente ligada a
este engessamento. Nós tropeçamos em pegadas que não são
nossas e nos perdemos no ritmo de tambores que não
conhecemos. Devir-revolucionário é utilizar-se da figura do

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revolucionário para entrar em devir, o que eu faço depois de sair de


uma manifestação? Depois de ver um filme, depois de ocupar uma
escola? A força está em se utilizar deste modelo para sair do jogo
de identificações e entrar em devir. Não se trata mais de nós contra
eles, vândalos e policiais, coxinhas e vermelhinhos.

A resistência consistiria em embarcar nos processos de


diferenciação de todos esses modelos, pois com isso é o próprio
falocratismo que estaríamos desinvestindo” – Félix Guattari e Suely
Rolnik, Micropolítica – Cartografias do Desejo, p 81

– Banksy

Todo devir-revolucionário é uma máquina de guerra, ele se constitui


juntamente com a criatividade do devir-criança, com a
singularidade do devir-mulher, com a multiplicidade do devir-
animal. Sim, pertencemos à esquerda, mas a esquerda se diz de
várias formas. Não estamos preocupados com as revoluções,
todas elas fracassaram, todas sem exceção: Inglesa, Americana,

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Francesa, Argelina, Russa, Cubana, Chinesa. Ainda assim, mesmo


com o fracasso das revoluções, isso nunca impediu que as
pessoas se tornassem revolucionárias.

Um devir-revolucionário permanece indiferente às questões de um


futuro e de um passado da revolução; ele passa entre os dois.
Todo devir é um bloco de coexistência” – D&G, Mil Platôs 4, 96

É um vírus que penetra em um sistema aparentemente estável


para mostrar suas várias falhas. Há uma multiplicidade
movimentando-se em todo devir-revolucionário, o agir micropolítico
gerando inovações que sobem pelo sistema, contaminando e se
disseminando. Encontrar, ou criar, territórios onde negros e
homossexuais criem alianças, mulheres e operários juntem forças,
estudantes e metroviários andem juntos. Um plano onde a
diferença se junta, sínteses disjuntivas se constituem, abram
espaço pelo meio pobre, insosso das molaridades.

– Banksy

Isso está para além de todo movimento social que cai em um


redemoinho de ressentimento e direitos. Claro que não estamos
menosprezando as lutas por direitos, mas este território ainda é

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contaminado pelo reconhecimento, e este reconhecimento está


sempre associado ao poder. O direito foi criado para legislar de
cima para baixo. Onde está a jurisprudência? Onde está o direito
de criar valores e a potência de afirmar-se? Precisamos realmente
de juízes? O singular é difícil de ser codificado pela ótica
dominante, nascem rupturas, desentendimentos.

Não podemos cair na armadilha dos direitos, é preciso ir além, nos


dão direitos e logo nos cobram deveres. Não queremos jogar o
jogo do poder, nós estamos distantes de sua lógica. Tomar o
poder? Mas o que queremos não é exatamente por fim a qualquer
forma de opressão? Todos os políticos e poderosos são tristes, não
queremos seus problemas, a potência funciona na superfície dos
encontros, coloque-a e uma pirâmide e observe tudo degringolar.

Por isso um devir-revolucionário não se preocupa em como tomar o


poder, não há uma estratégia de tomada do poder. O devir entra
em ressonância com todos os revolucionários para pensar uma
micro-política. Não há mais uma linha que liga dois pontos,
opressão -> revolução -> utopia. A linha descola-se do ponto e
trilha novos caminhos inesperados: ocupar escolas, por exemplo.
Ninguém pode prever o que uma linha que se descola da história
linear pode fazer. E é exatamente isso que um devir-revolucionário
quer, descolar linhas, operar desvios, encontrar outros modos de
viver que sejam revolucionários.

A micro-política não é pequena política, ela pode ser maior que


qualquer assinatura do presidente. Não é inferior, ela pode
influenciar mais que os decretos do governador. Uma micro-política
é uma política menor: se faz por movimentos minoritários, se faz
por linhas de fuga que desestabilizam o status quo. Onde o Estado
não penetra, lá estão micro-políticos, onde o capitalismo não

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alcança seus tentáculos pegajosos, lá está um espaço potencial


para um devir-revolucionário.

Há uma confusão entre devir e história. Toda vez que uma


revolução toma forma, os historiadores se perguntam de onde ela
veio. Claro que podemos achar as causas, mas apenas a
posteriori, e com grande dificuldade. O devir-revolucionário rompe
a malha da história, é exatamente o a-histórico se afirmando, aquilo
que escapa. Todo revolucionário descola-se da história porque
afirma a potência do devir, do intempestivo. Todo ato de criação é
trans-histórico, pega atalhos, passa reto onde existiam curvas. O
ato revolucionário é uma linha de fuga que se solta, que se
desprende, e que por isso mesmo cria outras perspectivas e outros
territórios. A rebeldia é espontânea, ela não cabe em partidos e
governos, não reconhece as grandes personalidades como
modelos. O devir-revolucionário é um devir que resiste, e resistir é
como povoar um deserto.

É necessário colocar-se para além do bem e do mal, estar para


além de seu pequeno eu. Quantas forças atravessam um devir-
revolucionário? Impossível contar, ele é o ponto de encontro de
inumeráveis devires. A minoria é todo mundo, porque o padrão é
vazio, ninguém se encaixa lá, ele é usado apenas como modelo de
opressão e condução das forças. O voto nulo é o único universal. A
representação está cada vez mais ultrapassada. O devir-
revolucionário sabe disso muito bem, ele é ninguém e todo mundo.
Uma linha se solta, desvia do ponto, viva o devir-revolucionário!

Toda problemática micropolítica consistiria, exatamente, em tentar


agenciar os processos de singularidade no próprio nível de onde
eles emergem. E isso para frustrar sua recuperação pela produção
de subjetividade capitalística” – Félix Guattari e Suely Rolnik,

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Micropolítica – Cartografias do Desejo, p 130

> Texto da série: Ética dos Devires <

– Banksy

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