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FACULDADE CALVINISTA DE SÃO PAULO

ACADEMIA BÍBLICA E FILOSÓFICA DE SÃO PAULO


GRADUAÇÂO EM TEOLOGIA COM MESTRADO EM EPISTEMOLOGIA BÍBLICA E
FILOSOFIA CRISTÃ – EAD

Docente: Prof. Presb. Luis Cavalcante


Disciplina: Atividade Complementar I – Código: AC
Discente: Janyson Costa Ferreira.

FICHAMENTO
ALBALAT, Antoine. A arte de escrever em 20 lições – Campinas, São Paulo: Vide
Editorial, 2015.

APRESENTAÇÃO – ANTI-ALBALAT

“Ocorre que a maioria dos professores da área de Letras, ao menos no Brasil, se


tivesse de optar entre Machado de Assis e algum escritor contemporâneo de relativo sucesso,
hábil malabarista de vocábulos, pronto a compor frases, pronto a compor frases curtíssimas e
aliterações engraçadas, escolheria o segundo.” (p.8)
“Eleição perfeitamente compreensível se analisamos o que se publica entre nós.
Para uma época na qual prevalece a sintaxe obscura, lacônica e monótona, os manuais de
Albalat são disparates. Quando linguagem obscena, chavões, solecismos e a maçante narrativa
em primeira pessoa – de quem só consegue se espojar, de forma artificial, nas próprias
angústias – tornam-se a regra de ouro da literatura, os livros de Albalat são tratados como
tolices.” (p.8).
Prefácio – A MIRA DO AUTOR
“O meu alvo é mostrar no que consiste a arte de escrever; decompor os processos
de estilo; expor tecnicamente a arte da composição; ministrar os meios de aumentar e ampliar
as aptidões do estudioso, isto é, duplicar-lhe e triplicar-lhe o talento; numa palavra: ensinar a
escrever quem quer que não o saiba, mas que tenha o que é preciso para o saber.” (p.11).
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Lição Primeira – O DOM DE ESCREVER

“(...) aqueles que quiserem seguir os conselhos dados nesta obra deverão aplicar-
se a escrever bem, e aqueles que se aplicarem serão obrigados a escrever pouco. Estamos,
portanto, a salvo de qualquer censura.” (p.14).
“Depois, podemos escrever, não só para o público, mas para nós próprios, para a
satisfação pessoal. Aprender a escrever bem é aprender também a julgar os bons escritores.
Primeiramente, haverá a vantagem da leitura. A literatura é um atrativo, como a pintura e a
música, uma distração nobre e permitida, um meio de dulcificar as horas da vida e os enfados
da solidão.” (p.14).
“(...) Aqueles que não tiverem imaginação passarão sem ela.” (p.14).
“Há um estilo de idéias, um estilo abstrato, um estilo seco, formado de nítida
solidez e de pensamento puro, que é admirável! É a questão de se escolherem outros assuntos
(...)” (p.14).
“Quem pode escrever uma página, pode escrever dez. E quem sabe fazer uma
novela deve saber fazer um livro, porque uma série de capítulos é uma série de novelas.”
(p.14).
“Portanto, qualquer pessoa que tenha mediana aptidão e leitura poderá escrever,
se quiser, se souber aplicar-se, se a arte interessa-la, se tiver o desejo de emitir o que vê e de
descrever o que sente.” (p.15).
“O dom de escrever, isto é, a facilidade de exprimir o que se sente, é uma
faculdade tão natural ao homem como o dom da fala.” (p.15).
“Ora, se toda a gente pode contar o que viu, porque não poderá escrevê-lo? A
escrita é senão a transcrição da palavra falada, e é por isso que se diz que o estilo é o homem
(...)” (p.15).
“As pessoas do povo, para exprimir coisas porque passaram por que passaram,
têm certas palavras e originalidades de expressão e uma criação de imagens que espantam os
profissionais. Se qualquer mulher de coração, a primeira que se encontrar, escrever a alguém
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sobre a morte de uma pessoa querida, fará uma admirável narrativa, que nenhum escritor
poderá imitar, quer seja Chateaubriand, quer seja Shakespeare.” (p.15).
“Quase todas as pessoas escrevem mal porque não se lhes demonstrou o
mecanismo do estilo, a anatomia da escrita, nem como se encontra uma imagem e se constrói
uma frase. Impressionei-me sempre com a quantidade de pessoas que poderiam escrever e que
não escrevem, ou escrevem mal, por não terem alguém que as desimpedisse das ligaduras em
que estão comprimidas.” (p.16-17).

Lição Segunda – OS MANUAIS DE LITERATURA.


“Decerto é excelente coisa estudar as obras-primas. A admiração conduz à
imitação, e a imitação é um meio de assimilar as belezas alheias. Mas apontavam-se mais as
perfeições do que os defeitos (...)” (p.19).
“O que se lhe deve mostrar são as frases más que se podem tornar boas, e dizer
por que é que elas são más e como se tornam boas. Não compreenderá o que é escrever bem,
senão depois de lhe terem exposto o que é escrever mal.” (p.20).
“(...) Não se ensinará, a ninguém, a ser Bossuet ou Ésquilo; mas há na arte de
escrever uma parte demonstrativa, um lado profissão, de uma extrema importância, uma
ciência técnica, uma espécie de trabalho minucioso e profundo, que fornece quase tantos
recursos como a inspiração (...) Há qualidades adquiridas e qualidades a adquirir. Aquelas que
se podem adquirir ultrapassam talvez aquelas que se possuem. Sem dúvida, uma parte
aprende-se. É por falta de trabalho que tanta gente escreve mal.” (p.21).
“O trabalho ajuda a inspiração. Foi ele que a fez frutificar e é por ele que se
consegue progredir. Se é verdade que o gênio não é mais que uma longa paciência, digamos
em alta voz que a arte de escrever pode se aprender com o tempo, pacientemente! (...)” (p.21).
“(...)Não é um estilo especial que queremos propor; queremos ensinar cada
estudioso a escrever bem no seu próprio estilo . Há uma arte comum a todos os estilos. São os
princípios, as graduações e as consequências desta arte o que desejamos desenvolver. É essa
arte o que constitui a ciência de escrever (...)” (p.22).
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“(...) O que aconselharemos é que se decomponham e assimilem todos os estilos,


e que depois se forme um deles. Tratai primeiro de escrever bem, e a originalidade do vosso
estilo chegará por si mesma (...)” (p.23).
“(...) Se tendes vida, rompereis o ovo; mas sabei que não há desenvolvimento
possível fora do embrião ordinário.” (p.24).
“A primeira condição preparatória, para escrever, é conhecermo-nos, e, para isso,
segundo diz Horácio, é preciso examinar, estudar, saber com que fardo poderão os nossos
ombros.” (p.24).
“Qual é a vossa vocação? Quais os vossos gostos? De que sois capazes? Quais são
as vossas preferências? Tendes aptidão para o romance, para o diálogo, para a poesia, para a
descrição?” (p.24).
“É preciso sobretudo ver vem, porque sucede que aquilo que mais prezamos em
nós é exatamente os nossos defeitos. Deveremos reagir, violentar-nos, contrabalançando as
más tendências e dirigindo as disposições de inteligência para o lado das qualidades reais. É
raro que se tenha o discernimento e a coragem de sermos pura e simplesmente o que somos.”
(p.25).
“Se conversais bem, se possuís o espírito da conversação, há toda a probabilidade
de que sereis orador e não escritor, e é para aquele lado que vos deveis voltar.” (p.25).
“(...) o meio que mais luz ministrar-vos-á a tal respeito é a leitura.” (p.25).

Lição Terceira – A LEITURA

“Todos os grandes escritores proclamam a necessidade de ler, de ler bem. A


leitura é a base da arte de escrever. (...)” (p.28).
“(...) É quase sempre após uma leitura que se declaram as vocações literárias,
porque é por ela que o nosso espírito se abre aos múltiplos recursos da arte de escrever (...)”
(p.28).
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“Quereis saber se tereis talento? Lede! Os livros vo-lo dirão.” (p.29).


“Escreveis, mas suspendestes a escrita? Lede! Os livros vos inspirarão.” (p.29).
“Lede, quando quiserdes escrever; lede, quando já não puderdes escrever. O
talento não é mais que uma assimilação. É preciso ler o que os outros escrevem, a fim de
escrevermos para ser lidos também. A leitura dissipa a monotonia, ativa as faculdades,
descrisalida a inteligência e põe em liberdade a imaginação. Sei de alguns literatos
abalizados, que nunca se entregam aos trabalho sem ter lido algumas páginas de um grande
escritor –excelente meio para encontrar a inspiração.” (p.29).
“Sêneca não queria que se lesse muito. Via uma depravação de apetite numa
curiosidade muito complexa, e entendia que querer ler tudo é correr o risco de apenas
percorrer tudo. Segundo ele, não se pode entrar na substância de um autor, se não com uma
frequência assídua, cujo proveito só se desenvolve demoradamente; e conclui os seus
conselhos a Lucílio, ensinando-lhe que faça escolha entre os melhores autores. É a regra mais
sensata e devemos guiar-nos por ela.” (p.30).
“Mas que autores deveremos escolher? (...) principalmente aqueles que se podem
assimilar, porque há autores que são assimiláveis e outros que não são.” (p.30).
“(...) quanto a prática, para a assimilação técnica e proveito urgente, devemos ler
principalmente os autores que nos deixam ver os seus processos (...)” (p.32).
“À frente dos autores que podem ministrar este gênero de ensino, deve colocar-se
Homero, que é sempre o maior escritor de todos os tempos. É nele que se encontra o primeiro
modelo de vida na descrição. Se não lestes Homero, não sabereis nunca o que é o verdadeiro
realismo e a arte de escrever.” (p.32).
“Montaigne é igualmente um tesouro de descobrimentos e de ensinos; nunca
ninguém praticou o francês com mais fecundidade (...)” (p.33).
“Temos o divino Bossuet, o maior criado de palavras e de expressões, o mais
admirável estilista que existe na língua francesa. (...)” (p.34).
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“Depois destes autores, como a cor e a imagem são necessárias, aconselharemos a


leitura de Chateaubriand, pai de toda a nossa escola contemporânea e dos nossos mais
recentes escritores. (...)” (p.34).
“O proveito da leitura depende da maneira como se lê (...) Ler sem tomar notas, é
como se nada se houvesse lido. Decorridos seis meses, não vos lembrareis do que lestes.
Devorarmos tudo, vermos desfilar tudo, não nos determos em coisa nenhum, é trabalho
indigesto e confuso. E mais diríamos: “Li isso algures...de quem será este trabalho? Este
pensamento?”. Rumina-se, procura-se, fica-se aborrecido; seria necessário reler tudo.” (p.35).
“(...) A verdadeira memória consiste, não no recordar, mas em ter, ao alcance da
mão, os meios de encontrar. A primeira condição para ler bem é portanto fixar o que se quer
reter, e tomar notas. Um livro que se deixa sem ter extraído dele alguma coisa é um livro que
não se leu.” (p.35).
“Os linguados podem ter três objetivos:
1º: Notas de erudição
2º: Citações notáveis
3º: A apreciação, feita por quem lê.” (p.36).
“Na ordem intelectual ou puramente artística, é importante ir escrevendo, à
medida que se lê. Repetimo-los: ler sem empregar este método, é como não haver lido. É ler
como faz toda a gente, sem aspirar a ser alguém, A regra que deve dominar a preparação
literária é ver tudo, tomar conta de tudo e avaliar tudo diretamente.” (p.37).
“A leitura bem feita compreende não somente os linguados, notas, análises, mas
uma grande quantidade de outros exercícios aproveitáveis, como as comparações, o pasticho e
a transposição.” (p.41).

Lição Quarta – DO ESTILO


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“O ESTILO É A MANEIRA PRIVATIVA, que cada um tem, de exprimir o seu


pensamento pela escrita ou pela palavra. Pela escrita, no escritor. Pela palavra, no orador.”
(p.43).
“O estilo é o cunho pessoal do talento. Quanto mais original é o estio, quanto mais
empolgante ele é, mais pessoal é o talento. O estilo é a expressão, a arte da forma, que torna
sensíveis as nossas ideias e os nossos sentimentos; é o meio de comunicação entre os
espíritos.” (p.43).
“Não é somente o dom de exprimir os nossos pensamentos, é a arte de tirá-los do
nado, de fazê-los nascer, de ver as suas relações, é a arte de fecunda-los e de evidenciá-los. O
estilo abrange a ideia e a forma.” (p.43).
“Devemo-nos persuadir de que as coisas que se dizem não impressionam senão
pela maneira como se dizem. Todos nós pensamos, pouco mais ou menos, as mesmas coisas,
de um modo geral; a diferença está na expressão e no estilo; este eleva o que é comum,
encontra novos aspectos para o que é banal, engrandece o que é simples, fortifica o que é
fraco.” (p.44).
“Escrever bem é pensar bem, sentir bem e reproduzir bem tudo ao mesmo
tempo.” (p.44).
“O estilo é a arte de aprender o valor das palavras e as relações das palavras entre
si.” (p.44).
“O estilo é, pois, uma criação de forma pelas ideias e uma criação de ideias pela
forma. O escritor chega a inventar palavras para indicar novas relações.” (p.44).
“O estilo é portanto a maneira de cada um criar expressões para patentear seu
pensamento. Pode ser largo, curto, colorido, seco, abundante, vivo, periódico, conforme os
temperamentos. É difuso, pálido, incolor, frouxo, nos maus escritores; incisivo, nervoso,
relevado, nos bons.” (p.46).
“É tão completa a união entre o carácter e o estilo de um indivíduo, que bem se
pode dizer realmente: o estilo é o homem.” (p.46).
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“A vivacidade de palavras, a energia das concepções, o tom da própria


conversação falada, a originalidade da imaginação, tudo isto se junto exatamente no estilo de
um homem, O estilo é o reflexo do coração, do cérebro e do carácter.” (p.46).
“(...) Há pessoas sábias que nunca serão; e há escritores brilhantes que pouco
sabem. O saber e a arte de escrever são coisas distintas, que não andam sempre a par.” (p.47).
“O Discurso sobre o Estilo, de Buffon, contém as melhores páginas que temos
sobre tal assunto. (...)” (p.47).
“(...) as obras bem escritas serão as únicas que passarão à posteridade. (...)” (p.47).
“Portanto, a forma e a ideia constituem uma só coisa. Não se pode, em geral e de
maneira definitiva, tocar numa sem alterar a outra. Quando se diz de um fragmento: “A ideia
é boa, mas a forma é má” – isto nada significa, porque o valor da forma é que torna boa a
ideia (...)” (p.49).
“(...) Buffon recomenda “que se adicione o colorido à energia do desenho”. Ele
quer “que se dê a cada objeto luz forte”; e exprime o desejo de que cada pensamento seja uma
imagem (...).” (p.50).
“Resumamos. O estilo é o esforço com que a inteligência e a imaginação
encontram matizes, relações, expressões, imagens, nas ideias e nas palavras ou na relação que
elas têm entre si.” (p.51).
“Há neste trabalho do estilo (e é trabalho considerável um lado que é a ordem, a
disposição, a correção, as proporções, o equilíbrio, a boa colocação de todas as peças desse
xadrez, que se chama uma frase, uma página, um capítulo.” (p.51).
“Há também outro lado, que é o movimento, a criação das palavras, da imagens, a
sua combinação, donde precede a intensidade, o efeito, a energia, o jato de luz, o
relevo?”(p.51).
“(...) Não existe nenhuma obra-prima sem forma cuidada; e um trabalho mal
escrito não pode subsistir, pela razão de que até nós nada chegou que fosse mal feito. Dom
Quixote, que é um modelo de obra viva, é também um modelo de estilo, um modelo de
perfeição escrita, única no seu gênero na Espanha.” (p.52).
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“(...) As melhores traduções são as que mais observam o original. Em todo caso,
quando se trata de obras-primas, a forma está de tal maneira ligada com a ideia, que até a
ideia fica prejudicada, logo que desaparece o encanto do texto. Eis por que, numa boa
tradução, as descrições de Homero são tão vivas como qualquer página dos nossos melhores
autores contemporâneos.” (p.53).
LIÇÃO QUINTA – A ORIGINALIDADE DO ESTILO

“(...) Este livro não se fez para ensinar o que é um pensamento vigoroso ou um
pensamento delicado, o que é a clareza, o que é o mínimo e a naturalidade; Estas distinções
sobrecarregam a memória, nada ensinam e são essencialmente arbitrárias.” (p.58).
“Porque, enfim, um pensamento vigoroso é também um pensamento verdadeiro e
não conheço pensamento justo que não seja ao mesmo tempo um pensamento natural; nem
pensamento sublime que não seja ao mesmo tempo um pensamento vigoroso, verdadeiro,
natural e justo.” (p.58).
“Não há estilo florido, como não há estilo temperado. São invenções gramaticais,
de que se deveria, de uma vez por todas, desembaraçar o ensino. Que há estilos apropriados
ao assunto é tudo que se pode dizer; ou tons de estilo, tons pessoais, tons diversos, segundo a
elevação, a inspiração, o autor, o assunto, o fim que se tem em mira.” (p.58).
“É supérfluo ensinar que as principais qualidades do estilo são: 1ª a clareza; 2ª a
pureza, etc.. Isto é: deve-se escrever para se compreender, deve-se escrever em boa
linguagem, duas coisas evidentíssimas.” (p.58).
“As três qualidades que deve ter o bom estilo e que abrangem as outras qualidades
são, na minha opinião: 1ª: a originalidade; 2ª a concisão; 3ª a harmonia.” (p.59).

A originalidade do estilo
“Há o estilo vulgar, o estilo trivial, no uso de toda a gente; um estilo de chapa,
cujas expressões neutras e usadas servem para todos; estilo incolor, constituído apenas de
palavras de dicionário; estilo morto, sem chama, sem imagem, sem colorido, sem relevo, sem
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imprevisto; um estilo terra-a-terra, elegante, gramatical e inexpressivo; o estilo dos escritores


que não são artistas, estilo burguês e correto, irrepreensível e sem vida.” (p.60).
“Não é com esse estilo que se deve escrever.” (p.60).
“Se tendes de escrever como toda a gente, é inútil pegardes na pena.” (p.60).
“Ora, se há estilo trivial, deve haver também estilo original, visto que a
originalidade é o contrário da trivialidade (...)” (p.60).
“A originalidade está principalmente na maneira de dizer as coisas, de exprimir as
ideias, de fazer valer a ideia. A originalidade deve ser , portanto, considerada como a grande,
a geral , a essencial qualidade do estilo.” (p.60).
“(...) Deve evitar-se o escreverem expressões já feitas; O cunho do verdadeiro
escritor é a palavra própria e a criação da expressão.” (p.65).
“Os fragmentos que acabamos de citar, embora passem por bons, estão e ficarão
mal escritos, enquanto não substituírem as suas expressões vulgares por outras mais exatas;
enquanto não se puser uma só palavra, em vez de duas, duas em vez de três, três em vez de
quatro, etc.. Finalmente, esse estilo será mau, enquanto pudermos fazê-lo melhor.” (p.65-66).
“O cunho da chapa, da expressão feita não é o ser simples, ordinária, já
empregada; é que pode ser substituída por outra mais simples; é que, por detrás dela, há a
verdadeira, a única, aquela que é preciso empregar a todo o custo. Para se dizer: chove, há de
dizer-se sempre: chove.” (p.67-68).
“Podem, uma ou outra vez, adotar-se essas locuções, e achamo-las em bons
escritores. Mas a continuidade é que produz a trivialidade e o caráter incolor de um estilo.”
(p.80).
“A originalidade é, pois, condição primordial, essencial, no estilo. Para obtê-la, é
preciso evitar, absolutamente, o estilo trivial e saber bem o que é esse estilo.” (p.84).
“Acabamos de mostrar em que ele consiste. Primeiro, no “falar por frases”, nas
expressões estereotipadas, que podem se substituir pela expressão justa. Com taus defeitos,
ainda que haja elegância, correção, pureza, só se obterá um estilo fastiento, fictício, neutro,
inexpressivo e sem relevo.” (p.84).
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“Esse vício acarreta outro, não menos perigoso: é a perífrase, que é uma
circunlocução, um circuito de palavras para dizer extensamente uma coisa que poderia ser dita
com brevidade.” (p.84).
“Hoje o terreno está limpo, a palavra própria triunfa, posto que o emprego da
perífrase, em certos casos, seja legítimo e bastante literário. O excesso, como sempre, é o que
se deve evitar, a não ser que o pensamento nada lucre nisso, em intenção, em vivacidade ou
em cor. (...)” (p.85).
“Buffon tinha razão em dizer: “Nada é mais oposto ao belo natural, que o trabalho
que se tem para exprimir coisas ordinárias ou comuns, de uma maneira singular ou pomposa;
nada avilta mais o escritor. Lamentamo-lo por ter passado tanto tempo a fazer novas
combinações de sílabas, para afinal dizer o que toda gente diz.” (p.86).
“(...) A principal originalidade consiste em escrever com a palavra natural, com a
palavra própria, a palavra simples exata. Essa palavra será talvez mais conhecida, mais
empregada ainda que uma locução falsamente elegante, mas não será substituível, não se
poderá passar sem ela; e é o emprego dessa palavra própria, seja qual for, que produz a
nitidez, a correção, o brilho do estilo e a sua energia (...)” (p.86).
“Só se atinge originalidade pela palavra natural ou pela expressão criada. As duas
fazem apenas uma, nos grandes escritores: a expressão criada é neles sempre natural, porque é
a palavra que era preciso encontrar, para caracterizar um cambiante novo, uma relação
inédita, um pensamento raro (...)” (p.87).
“O dom de escrever naturalmente não é uma aptidão inconsciente. O natural
conquista-se e é quase sempre pelo trabalho que ele se obtém. Pode até dizer-se que o natural
é resultado do esforço. La-Fontaine, por exemplo, não atingiu o inimitável natural do seu
estilo, senão à força de trabalho obstinado: riscava continuamente e refazia dez a doze vezes a
mesma fábula. Podeis convencer-vos disto, como Taine, lendo os manuscritos do fabulista,
que estão na Biblioteca Nacional. Condillac tem, pois, razão em dizer que “o natural consiste
na facilidade de realizar uma coisa, quando, depois de ela ter sido estudada, conseguimos
realiza-la por fim, sem estudar muito. É arte convertida em hábito.” (p.89).
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“A ilusão, que dá o natural, é que se escreveu sem custo. Dir-se-ia que não foi
procurado e parece que cada um poderia escrever assim. Ora, é o contrário que sucede.”
(p.90).
“Procura-se muito para escrever. É preciso procurar, efetivamente, mas é também
preciso procurar não escrever.” (p.90).

LIÇÃO SEXTA – A CONCISÃO DE ESTILO.

“A SEGUNDA QUALIDADE ESSENCIAL DO BOM ESTILO é a concisão, isto


é, a arte de encerrar um pensamento no menor número de palavras possível.” (p.95).
“(...) Um crítico disse: “A clareza é o verniz dos mestres”. Ora, a clareza é o
brilho que a concisão produz. Não consiste mais em frases curtas, do que em frases longas.
Cada qual tem a sua medida; o molde pouco importa, ou seja a frase curta dos retratos de La-
Bruyère, ou sejam os belos períodos dos discursos de Bossuet.” (p.95-96).
“A concisão é, pois, uma questão de trabalho. É preciso limpar o estilo, joeirá-lo,
peneira-lo, tirar-lhe a palha, clarifica-lo, fortalece-lo, até que deixe de ter lascas de madeira,
até que a fundição fique sem rebarba e se tenham tirado todas as escórias do metal (...)”
(p.96).
“Parece sem importância, mas este gênero de correção tem grande alcance,
quando é feito sobre páginas e páginas. Empregam-se demasiadas palavras, porque se repete o
pensamento por diversas formas. Acumulam-se em torno dele pensamentos similares, que,
destinados a fazê-lo ressaltar, não fazem, pelo contrário, senão enfraquece-lo.” (p.98).
“Há escritores, que não podem abandonar uma ideia, sem a ter mastigado em
todos os sentidos, até que ela deixe de ter gosto (...)” (p.99).
“É principalmente na oratória que esta prolixidade se torna abusiva. Quase todos
os oradores caem neste vício; é o que torna os seus discursos insignificantes para a leitura
(...)” (p.100).
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“É pela concisão, repetimo-lo, que se obtém a clareza, a sobriedade, a


propriedade, a correção, a brevidade e a pureza, qualidades que seria de mau aviso querer
demonstrar separadamente, pois estão contidas na concisão; como vimos que o relevo, a
força, a expressão, a energia, o natural, a riqueza, a clareza, estão contidas na originalidade do
estilo.” (p.101).
“Deve-se observar a concisão, não só nas palavras, reduzindo-as ao menor
número, mas também no torneio das frases, empregando de preferência as construções
rápidas, aquelas que aliviam o estilo, em vez de carrega-lo.” (p.102).
“Não vos esqueçais de que as frases são feitas umas para as outras, e de que é o
seu encadeamento cerrado que constitui uma das belezas gerais do estilo.” (p.102).
“Não pareçam enxertadas, mas engendradas as vossas frases; não justapostas
ficticiamente, mas logicamente deduzidas.” (p.103).
“Há expressões que, por si só, nada significam. O vício da falta de concisão é
talvez o mais difícil de verificarmos, no nosso próprio estilo. É necessário um recuo
incessante, uma vigilância sempre alerta, para se notar a falta de brevidade. Este defeito
universal é o que torna as traduções enfadonhas, porque a dificuldade de exprimir exatamente
um pensamento, comprimido no texto, força o tradutor a empregar muitas palavras. Daqui,
uma forma extensa e frouxa, que não prende o espírito e revolta o gosto.” (p.104).
“O que produz, na maior parte dos casos, a difusão, é o emprego das ideias
semelhantes, que se sobrepõem ou justapõem no calor da composição. Tirai de uma ideia tudo
que a não fortifica, tudo que é matiz idêntico, tudo que não tem relevo, tudo que pode ficar
para trás. E o que restar, o que guardardes, tratai de exprimi-lo com o menor número possível
de palavras.” (p.104).
“Não nos esqueçamos nunca dos versos de Boileau: “O que se diz de mais é
sempre fastiento./E o espírito, enfadado, enjeita-o num momento.” (p.104).
“A arte de desprender o pensamento, de tirá-lo do seu embrião, a arte de insulá-lo;
e de apresenta-lo em relevo, só é difícil, por se empregarem muitas palavras.” (p.105).
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“A obrigação de ser conciso não significa que tenhamos de cortar as asas à


fantasia e à imaginação, e renunciar à cor ou à magia das palavras; mas é preciso que essas
palavras sejam mágicas, que enriqueçam o que já se disse; e, se essas mesmas são
inexpressivas, incolores e triviais, como: ousadia, timidez, mau gênio, musa, flagelo,
tormento, paixão, embriaguez, terror, chama, furor, ódio, tornam-se inúteis e devem ser
suprimidas.” (p.107).
“Empregar muitas palavras é um defeito grave; mas repetir canhestramente as
mesmas palavras é enfraquecer o estilo de outra maneira; contra isto, devemos ser
implacáveis. Nada revela tanto a pobreza de imaginação e nada fatiga tão depressa o leitor;
dedicai ao caso a maior atenção, pois é fácil deixar passar uma expressão já empregada, ou
muito parecida, sem que se veja.” (p.109).
“Não falamos aqui das palavras correntes que não se podem evitar, como ele, ela,
onde, em , a, que são necessárias a cada instante; mas se encontrardes uma palavra, um
epíteto, empregado algumas linhas mais longe, eliminai-o ou substituí-o.” (p.109).
“(...) Custa sacrificar certas palavras, mas a ausência de repetições é beleza
superior à indicação de pormenores.” (p.111-112).
“Há também repetições desculpáveis.” (p.112).
“Em vez de mudar o sentido a uma frase, em vez de introduzir nela uma palavra
frouxa ou atenuar uma passagem, convirá conservar as repetições quando são exatas, nítidas,
luminosas e quando não podem ser substituídas, senão por expressões mais frouxas. Foi o que
sentiu Pascal, quando escrevia estas linhas, em que ele mesmo dá o exemplo de uma repetição
que poderia ter evitado: Quando, num discurso, se encontram palavras repetidas, e quando,
procurando corrigi-las, se encontram tão correntias, que prejudicariam o discurso, é preciso
deixa-las. É o quinhão da inveja, que é cega e não sabe tal repetição não é erro naquele
passo, pois que não há regra geral.” (p.112).
“Entre as repetições, que se permitem correntemente, e que prejudicam o estilo,
nota-se o emprego epidêmico dos auxiliares ser, ter, haver, estar... Todos os escritores, e não
dos menores, abundam nesta repetições.” (p.113).
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“Empregando-se auxiliares à farta, cai-se na difusão, na má qualidade do estilo


(...).” (p.116).
“Ninguém tem a certeza de possuir talento bastante, para que se lhe perdoe aquele
defeito. Quem começa por contrair maus costumes e vícios literários, verá sufocadas as suas
boas aptidões ou reduzidas à mediocridade.” (p.118).
“A proscrição das repetições, sejam elas quais forem, é, pois, um princípio
absoluto da arte de escrever.” (p.118).
“Para substituir as repetições, podemos recorrer aos sinônimos e aos equivalentes
(...)” (p.118).
“Quanto aos equivalentes, pode-se dizer que constituem precisamente a variedade
da arte de escrever (...).” (p.119).
“É preciso proscrever do estilo o que eu chamo os parasitas, essas lições, de que
se abusa, para estabelecer transições de frases, como: efetivamente, certamente, de resto, tanto
mais, por outro lado, definitivamente, por um lado a dizer a verdade, pois, pela sua parte, de
seu lado, na verdade...” (p.120).
“As frases devem ligar-se, não com atilhos fictícios, mas com a lógica da ideia,
com a força do pensamento. Devem prosseguir a par, indissolúveis, mas parecendo que não
estão ligadas. Há casos, já se vê, em que tais ligações são indispensáveis e produzem o melhor
efeito; é somente contra o abuso que protestamos.” (p.120).

LIÇÃO SÉTIMA – A HARMONIA DO ESTILO

“(...)Há ainda outra qualidade importante e necessária: a harmonia, isto é, o


sentido musical das palavras e das frases e a arte de combiná-las agradavelmente para o
ouvido.” (p.123).
“Em nosso tempo, a anarquia dos processos literários e a extravagância dos gostos
estéticos criaram uma reação injusta contra a arquitetura do estilo e a necessidade da
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harmonia. Parece haverem convencionado que se escreva como se quiser; que já não há
ordem lógica; que se podem permitir todas as inversões, fazer esperar a regência, pô-la no fim
de uma frase; acumular os seus incidentes; em suma, que se escrevera como se quiser.”
(p.124).
“A harmonia é tão necessária à prosa como à poesia. É o ritmo, que tão amado era
pelo gregos, o número oratório, o numetus dos latinos.” (p.124).
“A harmonia não é um agregado arbitrário; baseia-se no gênio da língua, nas
exigências do ouvido, que tem gosto próprio, com a imaginação tem o seu.” (p.124).
“(...) Ora, a harmonia não é senão a arte suprema da disposição das palavras, o
cuidado dessa disposição em vista da cadência e do som.” (p.124).

Harmonia das palavras

“Sem largas explanações, que, aliás, seriam muito fáceis, trataremos,


primeiramente, da harmonia das palavras, e, seguidamente, da harmonia das frases.” (p.125).
“Regra geral: é preciso abstermo-nos de toda a aspereza de sim, de toda a
dissonância notável, a não ser que haja razões de relevo de originalidade, ou outros motivos
de beleza literária para conversar certos sons de palavras.” (p.126).

O emprego dos “ques”


“Uma das grandes causas de dureza no estilo é o emprego frequente dos ques, e
aqui esbarramos num hábito inveterado nos bons autores do século XVII. O seu estilo está
repleto de ques, os que não os impediu de que fossem excelentes escritores os que puseram a
firmeza e o vigor acima da harmonia.” (p.127).
“O que relativo e o que regime podem substituir-se quase sempre. É preciso, pois,
quando se escreve, não só evitar o encontro de sons desagradáveis e as más dissonâncias, mas
também procurar a fluência musical.” (p.131).
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“Há um encanto, uma música especial, não somente nas palavras exóticas e raras,
mas até nas palavras ordinárias da língua, segundo o emprego que se faz delas. A prova de
que há certa harmonia nas palavras, consideradas em si próprias ou conjugadas, é que se
obtêm com elas , muito facilmente, efeitos de harmonia imitativa.” (p.136).

LIÇÃO OITAVA – A HARMONIA DAS FRASES.

“Assim como as palavras, segundo os sons e as suas combinações, produzem uma


harmonia que anima o estilo, assim a construção das frases produz uma harmonia geral, que
domina o estilo e lhe dá a sua cadência, o seu aspecto definitivo.” (p.141).
“Um período é uma frase dividida entre alguns membros (os quais se podem
subdividir em frases incidentes) e cujo sentido completo está suspenso até a última e perfeita
pausa.” (p.141).
“A construção das frases é o segredo da arte de escrever. Como há uma infinidade
de maneiras de construir frases, o que depende da maleabilidade pessoal do espírito seria
difícil dar conselhos minuciosos. Fixemos observações gerais, alguns princípios, que
explicam a maior parte dos casos.” (p.142).
“Seja qual for o assunto de que se tratar, não é necessário escreverem-se sempre
longos períodos. Não se deve adotar mais o estilo de frases longas do que o estilo de frases
curtas. A mescla é que produz a variedade. Nada é mais agradável do que descansar o espírito
em frases breves, depois de termos lido frases majestosas.” (p.142).
“O período constitui o mecanismo mais importante da arte de escrever. É uma
parelha que tem de se guiar. Não se devem perder as guias de nenhum dos cavalos que
governamos; cumpre caminhar sempre para um alvo, obviar os obstáculos, alinhar bem as
regências, conservar a clareza e a lógica, prodigalizando imagens.” (p.142).
“A primeira condição para se escrever uma frase, seja qual for a sua extensão, é
observar-lhe bem a lógica, o equilíbrio e a proporção.” (p.144).
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A lógica
“Devem construir-se as frases, segundo a ordem natural dos pensamentos e das
regras gramaticais; o sujeito, o verbo e o atributo. Não se deve dizer: “Deus deu a todas as
criaturas humanas a sua graça”, mas: “Deus concedeu a sua graça a todas as criaturas
humanas””.(p.144).
“(...)Falta de lógica, que é também falta de harmonia.” (p.144).
“A proporção dos membros de frases entre si produz o equilíbrio e a harmonia de
um período. É preciso que os incidentes ou as proposições principais sejam, entre si, pouco
mais ou menos, de comprimento igual, e que a frase termine em sonoridade extensa.” (p.145).
“Noutros termos, é preciso que a construção sustente a voz sem a fatigar; que haja
nela, de distância em distância, pausas de sílabas, com bastante variedade na cadência, para
evitar a monotonia de estrutura; e, finalmente, que tudo isto se observe, sem detrimento da
clareza e da concisão.” (p.146).
“Há um defeito de proporção e uma falta de lógica, a que é difícil habituarmo-nos,
quando acabamos de ler grandes escritores clássico. Fingem desdenhar da forma, para não se
preocuparem senão da sensação.” (p.148).
“Num livro contudo, como este, num livro de teorias de demonstrações, é prciso
aconselhar que se remonte às origens, à unidade, à tradição da língua, aos processos lógicos e
clássicos da verdadeira e grande arte de escrever.” (p.150).
“Em resumo, a proporção, o equilíbrio, a lógica são o que deve determinar, a
priori, a harmonia de uma frase; e é cuidando especialmente dos finais que se obterá o efeito
musical, completo (...)” (p.150).
“Devemos evitar também as digressões e os parêntesis. Por digressões,
compreendo os caminhos de través, os desvios que a ideia principal pode tomar, passando
bruscamente de um objeto para outro (...)” (p.151).
“Há um segundo gênero de harmonia, peculiar aos escritores, que não a procuram
precisamente nas palavras e na fisionomia das palavras. Esta harmonia resulta apenas da
coesão.”(p.153).
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“Para ver se obteve-se o equilíbrio musical, é preciso reler em voz alta o que se
escreveu. Não se diga que os livros são destinados a ser lidos e não ouvidos! Os olhos
também ouvem sons. E assim como o músico ouve a orquestra, percorrendo uma partitura,
bastará ler-se uma frase, para se lhe saborear a cadência.” (p.154).
“É certo que a harmonia, por si só, quando não há fundamento para ela, só serve
para tornar fastiento o estilo, e que se torna então uma qualidade insuportável. Só é essencial
ao estilo, quando tira o seu encanto do valor das palavras e não do seu manejo, que é sempre
fácil de se obter, e que algumas vezes é claramente oco.” (p.155).
“Diz Buffon: “Bastará possuir-se um pouco de ouvido, para evitar as
dissonâncias, e tê-lo exercitado e aperfeiçoado com a leitura dos poetas, para que,
mecanicamente, sejamos levados à imitação da cadência poética e do torneado oratório”.
Nada é mais acertado.” (p.155).
“Uma frase parecerá harmoniosa; mas se os termos não forem empolgantes, se a
ideia não tiver relevo, se houver palavras de mais, a harmonia só servirá para fazer sobressair
a trivialidade.” (p.155).
“Os autores franceses, cuja leitura é, a tal respeito, mais proveitosa, são
Chateaubriand, Bossuet, Buffon e Flaubert.” (p.157).

LIÇÃO NONA – A INVENÇÃO

“A composição literária pode definir-se: a arte de desenvolver um assunto; ou, por


outras palavras, a arte de encontrar ideias, de combiná-las, e de exprimi-las. Daqui esta
divisão lógica e natural: Invenção – Disposição – Elocução.” (p.159).
“Estas três operações não são rigorosamente distintas; pelo contrário, não se
podem separar. Encontrar um assunto é já dispô-lo ou pô-lo em ordem, desde que o
observemos e o estudemos (...)” (p.159).
A invenção
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“A invenção é o esforço de espírito, com que se encontra um assunto e os


desenvolvimentos que se relacionam com ele.” (p.160).
“Para descobrir um assunto e os recursos que ele sugere, a primeira condição é
refletir nele, amadurecê-lo para romance, fábula, diálogo, descrição, narrativa ou discurso.”
(p.160).
“Disse Buffon: “É por não ter refletido bastante sobre um assunto que um autor se
vê embaraçado para escrever”. Portanto, deve sentir-se o assunto.” (p.160).
“O difícil não está no escrever, mas no sentir. Eis um grande princípio: só se
escreve bem quando s sente bem. Sucede-vos um acidente, uma dor; ferve-vos um episódio da
vossa vida. Nada mais fácil do que sentir tais assuntos; e, se quereis descrevê-los, fá-lo-eis
excelentemente.” (p.160).
“(...) Se as ideias não vierem, é que o assunto não está bem amadurecido. É
preciso pensar nele bem, demoradamente, até que se fique num estado de efervescência tal,
que se sinta a necessidade de nos desembaraçarmos dele.” (p.160).
“Só então é que virá a verdadeira fluência; a verdadeira inspiração. A necessidade
de trazer muito tempo um assunto, a gestão, numa palavra, é uma condição absoluta do dom
de escrever.” (p.161).
“Da escolha do assunto e da sua incubação preparatória depende o valor do
trabalho. A invenção consiste em sentir um assunto e dar a impressão que ele produz na vossa
imaginação e na vossa sensibilidade. Pela imaginação e pela sensibilidade, aplicadas e
encontradas num tem, é que se descobrem as relações, as ideias, as aproximações e as
imagens que o tema encerra.” (p.161).
“Um assunto é uma ideia, uma unidade, é alguma coisa simples. Se a imaginação
e a sensibilidade não desdobram essa ideia descrevendo os aspectos que ela pode ter, as
formas que poderá tomar, diz-se tudo em poucas palavras, e não se passa disso.” (p.161).
“(...) A arte não é mais que uma substituição. Trata-se, como se disse, de nos
pormos no lugar de outro.” (p.162).
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“(...) O importante não está em descrever minuciosamente todos os pormenores de


um fato, mas em ter desse fato uma sensação pessoal e viva. E evocação voluntária dará essa
sensação; e, se tendes a sensação, os pormenores virão por si mesmos. É pelo trabalho,
sensibilidade e imaginação que se conserva e fortifica a faculdade da invenção.” (p.162).
“(...)Entre a escolha de um assunto e a sua execução pela escrita, passa-se um
lapso de tempo, uma incubação mais ou menos longa, conforme as pessoas, e é talvez esse o
mais doloroso momento, a parte mais penosa do labor literário. Há então uma espera e um
mal-estar intoleráveis. Nada ocorre, é preciso arrancar do espírito ideias que não existem, e
dominar a apatia do cérebro. É preciso insulamento, concentração, para esse grande esforço.
Sonha-se, medita-se. Se a visão tarda, não desanimeis. No dia seguinte procura-la-eis.
Recomeça-se e vão se tomando notas.” (p.163).
“Disse acertadamente Buffon: “É por não ter refletido muito, que um autor se
embaraça”. Quanto mais longe o assunto estiver dos vossos hábitos e da vossa maleabilidade
de espírito, mas necessitareis de trabalho e de vontade.” (p.163).
“Trazei convosco o vosso assunto, trazei-o muito tempo e por toda a parte. Ele
acabará por se encarnar em vós. Concebe-se que a inspiração seja sempre um esforço, visto
que é uma criação. Tem-se mais ou menos imaginação, mas pode-se sempre apurar,
desenvolver, aperfeiçoar a parte que nos toca.” (p.163).
“Se a vossa imaginação se conserva fria, alimentai-a com excitantes. Lede coisas,
que se refiram ao vosso assunto. Quereis escrever para o teatro, combinar cenas, fazer
dialogar as personagens? Lede os vossos autores dramáticos e observai-vos nas suas obras.”
(p.163).
“Despertai com a leitura a vossa imaginação entorpecida; é processo que dá
sempre bom resultado (...)” (p.163).
“A cultura da imaginação é de uma importância extrema. É preciso que ela seja
permanente, conservada, ininterrupta, pois tudo depende da imaginação. A própria
sensibilidade, sob o ponto de vista literário, não é senão a arte de nos impressionarmos pela
imaginação.” (p.164).
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“Que é a imaginação?” (p.164).


“É o poder de representar os objetos, sob forma de quadros e com os seus
pormenores.” (p.164).
“A escolha de um assunto é portanto de uma importância considerável. Nem todos
os assuntos convêm; devem ser proporcionados às nossas forças; devemos pesar aquilo que se
pode fazer e de que somos capazes. Depende disso o valor do trabalho, o talento que ne ele se
empregar, a excelência da arte de escrever e o êxito final.” (p.165).
“Agrada-nos um assunto e imaginamos poder trata-lo. Quando o tentamos,
“aquilo não vem”, não se pode apanhar, não sai nada. Às vezes, é por não o termos meditado
muito; mas, muitas vezes também, é porque o assunto não é para nós.” (p.165).
“Reconheçamos a nossa incompetência. Escolhamos, pois, coisas verdadeiras,
vividas ou observáveis. A verdade, a vida, a observação são condições fundamentais de toda a
obra literária.” (p.165).
“Verdade, vida, observação, eis a três qualidades que dominam a arte literária e a
que se devem subordinar todas as operações do espírito. Como só se fazem narrações para
agradar e para convencer, perde-se o alvo, se caminhamos contra a verdade, a
verossimilhança e a experiência (...)” (p.167).

LIÇÃO DÉCIMA – A DISPOSIÇÃO.

“ENTENDE-SE POR “DISPOSIÇÃO” a ordenada colocação dos materiais, a arte


de bem dispor o que se vai escrever, o que deve suceder primeiro, o que se deve colocar
depois, a vista do conjunto, segundo as proporções.” (p.169).
“É da disposição que depende o plano, o interesse e a ação. Um trecho de
literatura, seja qual for, discurso, descrição, carta ou narrativa, faz-se, tendo em mira a
unidade. Deve tender para um efeito geral. Mas os pormenores são ali necessários; os
incidentes agradam; é necessário que haja muitas ideias, muitas imagens, numa palavra,
variedade.” (p.169).
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“Conciliar a variedade com a unidade é uma questão de tato e de gosto (...)”


(p.169).
“Escreva-se o que se escrever, devemo-nos cingir a um plano severo, o mais
desenvolvido possível, e donde não nos possamos desviar. Não devemos sair das proporções
que se nos impõem, porque foram estabelecidas pela razão, pela lógica.” (p.170).
“Quanto mais se escreve mais se estuda; quanto mais se leêm as obras dos
mestres, mais se adquire a convicção de que num bom plano está a resistência e o valor de
uma obra, tanto como o estilo. A composição é um sinal de superioridade e de firmeza. Todas
as obras-primas são bem compostas.” (p.171).
“Não observamos que se cai fatalmente na confusão pelo simples fato de não estar
bastante desenvolvido um plano; mas é verdade absoluta que, entre duas maneiras ou estilos
iguais, a superioridade de execução pertencerá àquele que formar o seu quadro, que souber o
que deverá dizer ou tudo que é preciso dizer, só o que deverá dizer.” (p.171).
“Ao passo que a elocução, isto é, a forma, constitui a magia de uma obra literária,
o interesse e a ação dependem do plano, da distribuição da matéria, isto é, da ordem e da
disposição.” (p.173).
“(...) Tenhamos sempre presente a frase de Pascal: “Não basta que uma coisa seja
bela, é preciso que ela seja própria do assunto, que nada haja a mais nem a menos.” (p.174).
“Os que têm a experiência do estilo sabem quantas coisas inúteis, cenas, palavras,
diálogos, excesso de descrição ou de análise, podem eliminar-se em cada página de uma peça
ou de um livro que se escreve.” (p.174).

LIÇÃO DÉCIMA PRIMEIRA – A ELOCUÇÃO.

“ENCONTRASTES O ASSUNTO; DISPUSESTES A MATÉRIA; sabeis como


haveis de principiar, como acabareis, está completo vosso plano, está tudo em ordem,
princípio, meio desenvolvimento e conclusão.” (p.175).
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“Trata-se agora de escrever.” (p.175).


“(...) Os conselhos, que se podem dar acerca da maneira de escrever, têm, pois, de
se modificar, consoante os assuntos, e são variáveis, segundo se trata de narrativas, de
descrições, de discursos, de uma peça teatral, de uma poesia ou de uma fábula.” (p.175).
“(...) A invenção, a disposição e a elocução relacionam-se intimamente entre si.”
(p.176).
“A elocução não passa de uma invenção; é a invenção das palavras, em vez de ser
a invenção do assunto. Trata-se de procurar a ideia; tratar-se agora de procurar a forma.
Estávamos na preparação; agora estamos na execução técnica do estilo.” (p.176).
“O plano está traçado, trata-se não só de exprimir pensamentos, mas também de
inventá-los, à proporção que se opera esse trabalho de elocução. É a operação mais
importante, visto que a força de um pensamento é que produz a sua expressão, e visto que a
própria imagem não é senão um pensamento.” (p.176).
“Por conseguinte, desde o começo, esforçai-vos por não escrever senão
pensamentos que ressaltem; e tomai a resolução formal de rejuvenescer as ideias, procurando
vê-las de outra maneira, a fim de exprimí-las de outra forma.” (p.177).
“Compenetrai-vos da ideias de que a boa execução literária e o bom estilo se
obtêm pelo trabalho, e de que se pode, pela insistência e pela perseverança, duplicar a força
do próprio talento.” (p.177).
“Há uns versos que se deveriam inscrever no frontispício de todos os manuais de
literatura:
“O tempo não respeita o que se faz sem tempo;
Retocai vinte vezes vossa obra,
Limai-a e relimai-a, sem descanso;
Acrescentai, às vezes, e riscai, muitas outras”” (p.177).
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“A primeira escrita não pode ser definitiva, por que: a cabeça está quente, e os
olhos não vêem nitidamente o que se escreve. A ciência do estilo só se exerce
verdadeiramente sobre uma inspiração que já arrefeceu.” (p.180).
“(...) Numa palavra, é preciso inédita, evocar as coisas em que não se pensa, dar
relevo àquelas que já foram ditas, renovar a descrição velha, por meio da visão pessoal e
imprevista.” (p.184).
“Mas que vem a ser escrever com relevo?
É achar coisas que os outros não disseram, e é dizer de outra maneira o que já se
disse. É relacionar palavras imprevistas! É empregar digressões inesperadas e vivas, uma
forma variada e atraente, que aprenda a atenção pela vibração da ideia e pela vida das
palavras.” (p.184).
“Para exprimir as mesmas ideia de amaneira mais intensa, procurai ser um pouco
brutal, dizer as coisas com mais crueza, tirar a ideia do seu sobrescrito literário e retórico.”
(p.188).
“Tende a audácia de empregar as palavras que ressaltam. Vale mais o barbarismo
do que o tédio. Pensai em palavras inesperadas e experimentai-as: procurai emparelhar
epítetos que brigam, e que dão muitas vezes efeitos surpreendentes; mudai o adjetivo em
advérbio, o verbo em substantivo, e vice-versa.” (p.188).
“Se escrevestes: “Tinha soluços convulsivos”, pode: “chorava convulsivamente”.
Se fizestes uma sequência de verbos, refazei a frase substantivamente.E tereis: “A imolação
precoce do seu coração”, em vez de “Imolava precocemente o seu coração”. “A
dependência”, em vez de “Dependia”. O que vos dará também: “O seu servilismo para com
ele”; os verbos antônimos: “Agarra-se, desgarra-se; enganar-se, desenganar-se””. (p.189).
“O principal meio de obter a variedade do estilo ou de melhorá-lo, quando não
estamos satisfeitos com ele, é refundir a matéria dele pela substituição das palavras e a
transposição dos epítetos: mudar tudo de lugar expressamente, alterar tudo (...)” (p.189).
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LIÇÃO DÉCIMA SEGUNDA. PROCESSO DAS REFUNDIÇÕES.

“O trabalho frutífero a fazer, sobre um primeiro jato, é a limpeza; joeirar,


comprimir, limpar o estilo, passar por água o filão, desembaraça-lo das impurezas.” (p.193).
“Pensai no valor dos verbos, no efeito dos substantivos; são os verbos e os
substantivos que engrandecem o estilo de Bossuet.” (p.199).
“Procurai a palavra justa, apropriada, cavai a ideia, não superficialmente, mas por
forma que bem se veja o que está dentro, o que não se viu ainda e o que ainda não se disse.”
(p.199).
“Não abandoneis uma frase, senão depois de dardes-lhe toda a perfeição possível,
pela justeza, pelo brilho e pelo natura (...)” (p.199).
“(...) Ter talento é compreender que se pode escrever melhor, e possuir os meios
intelectuais para realizar a perfeição que se procura. Os verdadeiros artistas não desanimam, e
só esta perseverança é que constitui a pedra-de-toque do estilo.” (p.200).
“Um estilo está bom, quando já não se pode retocar mais; uma frase é definitiva,
quando não se pode corrigir mais. O limite desse esforço é evidentemente individual. A
exigência parou, ou acabou o talento.” (p.200).
“O melhor escritor não poderá melhorar o estilo de Pascal. Pode-se desafiar, quem
quer que seja, a que lhe ajunte ou tire uma palavra. O caráter do Belo é ser indestrutível.”
(p.200).
“Dir-se-ia que há medo da originalidade. As cópias de alunos, premiados ou não,
publicadas em certos Manuais, têm todas o mesmo estilo morno, a mesma forma
invertebrada, a mesma frieza imaginativa, o mesmo processo inexpressivo e sorna! E, não
obstante, os alunos não têm o mesmo temperamento!” (p.205).
“Entretanto, devemo-nos conter. Haveria graves escolhos em corrigir
indefinidamente. A correção deverá ter um termo. Pode-se estragar uma obra, à força de
emenda-la.” (p.209).
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“Entretanto, devemo-nos conter. Haveria graves escolhos em corrigir


indefinidamente. A correção deverá ter um termo. Pode-se estragar uma obra, à força de
emenda-la.” (p.209).
“Para saber se tendes o direito de ficar satisfeito, escolhei um mestre esclarecido,
uma amigo perspicaz; lede-lhe a vossa obra, submetei-vos às suas apreciações, escutai-lhe os
conselhos, e fazei as alterações que ele vos indicar.” (p.209).
“Nenhum escritor, salvo os grandes gênios, consegue conhecer-se a si próprio. Os
melhores espíritos não estão em circunstâncias de julgar as suas próprias obras.” (p.209).
“Uma crítica sincera é tesouro precioso; devemos julgar-nos felizes em encontra-
la. Não vos rebeleis contra os reparos que vos fizerem. É sinal de talento a maior ou menor
aptidão em reconhecer os defeitos que vos apontarem.” (p.210).
“Se, como diz o adágio, é difícil conhecermo-nos a nós próprios, mais difícil é
ainda o conhermo-nos literariamente. A docilidade aos conselhos de outrem prova largueza de
espírito, senso prático e inteligência, pois que nada custa tanto como sacrificar o que se
escreveu e eliminar o que se julgava bom.” (p.210).

LIÇÃO DÉCIMA TERCEIRA – DA NARRAÇÃO.

“A ELOCUÇÃO, ISTO É, o que diz respeito à execução literária, tem


principalmente em mim duas coisas: contar e descrever.” (p.211).
“Falaremos principalmente da narração e da descrição. Ambas se confundem
muitas vezes, posto que a descrição seja antes uma pintura e a narração um recitativo.”
(p.211).
“A narração é um gênero de composição independente, é um todo completo. Sem
entrar no exame de diversas espécies de narrações, de que os manuais se comprazem em
multiplicar divisões arbitrárias – narrações oratórias, históricas, anedóticas, poéticas, etc. -,
falaremos das condições que convêm a todas, e das leis gerais que as regem.” (p.211).
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“O talento de narrar é o mais sedutor, porque é a base da arte literária. Ainda que
toda a gente o veja em si, é mais raro do que se pensa; e, se é inato em alguns, exige para o
maior número muita aplicação e cultura. Só se escuta de boa vontade o que é bem contado.
Não basta só dispor de um assunto atraente, é preciso também apresenta-lo com beleza e dar-
lhe interesse. Algumas pessoas são excelentes contistas, conversando, e chegam a encantar o
seu auditório. Daí-lhes uma pena e ei-los embaraçados: falta-lhes a veia, e deploramos que
eles não escrevam como falam. Outros, como George Sand, não sabem conversar, e só
quando fazem estilo se sentem à vontade.” (p.212).
“Não é novidade que todo o valor da narração está no interesse habilmente
distribuído, isto é, na graduação, com que se encaminha e se aumenta a curiosidade do leitor,
prendendo-o aos acontecimentos que se expõem, e dando-lhe o desejo de chegar ao desfecho.
O interesse de uma narração depende da maneira de tratar, de coordenar, de alongar, de
desenvolver a exposição, o entrecho, o desenlace.” (p.212).
“Se a importância do começo não é proporcional aos desenvolvimentos que se
seguem, a narrativa já não terá unidade. Ora, é a unidade que produz o efeito total. (...)”
(p.212).
“Cícero diz que a exposição deve sair do assunto, como uma flor da sua haste, A
rapidez e o movimento são, em suma, duas qualidades que devem dominar a narração (...)”
(p.213).
“O nó da ação é o momento, em que o interesse avulta, redobra, enreda-se e
complica-se: em que os acontecimentos, as personagens, as circunstâncias, o diálogo, tudo se
mistura e se funde, a fim de seduzir, de transviar o leitor, sem que este possa prever no que
aquilo dará.” (p.214).
“O desfecho é o ponto em que o interesse está satisfeito e em que se resolve o nó
da ação. Ele deverá estar preparado por tudo que precede e nunca fazer-se pressentir. Se o
leitor o advinha, cessa a sua curiosidade e quebra-se o encanto. O trecho, que acabamos de
citar, pode considerar-se um modelo de desenlace.” (p.216).
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“A primeira condição de um bom desfecho é não lhe acrescentar nada, porque o


leitor, logo que saiba o que esperava, já não tem vontade de saber; desde que o principal
desaparece, já o acessório não interessa.” (p.217).
“Nada de digressões, poucos episódios, nada de prolixidade, mas vigor,
sobriedade e rapidez: eis as qualidades da narração. A concentração, a brevidade, não deve
todavia degenerar em sequidão. A narrativa deve ter movimento, variedade, atrativo.
Evidentemente, tudo isto depende do talento que nisso se emprega. Uma narração longa pode
parecer curta, e uma narração curta pode parecer longa. As digressões de Saint-Simon não
aborrecem. Em matéria de literatura, e à parte os gêneros e as regras, tudo se reduz a este
aforismo: “Tende talento”. (p.217).

LIÇÃO DÉCIMA QUARTA – DA DESCRIÇÃO.

“A ARTE DE ESCREVER CONSTITUI um pouco o próprio fundamento da


literatura. Nem toda a gente trabalha para o teatro; o diálogo é o apanágio do menor número;
mas, já em verso, já em prosa, desde que tomemos uma pena, somos chamados a descrever. É
uma qualidade necessária por excelência e é sobre esta matéria que se pode, frutuosa e
praticamente, ensinar a ter estilo.” (p.221).
“(...) A descrição é a pintura animada dos objetos. Não enumera, não faz meras
indicações: pinta. Não se contenta em caracterizar o que se vê; mostra-o aos olhos, e dele
forma um quadro. A descrição é um quadro que torna visíveis as coisas materiais.” (p.221).
“Numa palavra, o fim da descrição é dar a ilusão da vida. A sua razão de ser, o
seu esforço, a sua ambição, é fazer viver, tornar vivos, materiais e tangíveis os pormenores, as
situações, os seres, tudo que é físico, principalmente natureza. Aqui é sobretudo a imaginação
que está em jogo, uma certa força de ressurreição que evoca o que se viu ou que cria o que
não existe. A descrição é a pedra-de-toque do talento. É ela que distingue os bons e os maus
escritores.” (p.222).
“(...) Pode saber-se escrever e não se saber descrever (...)” (p.222).
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“A descrição deve ser viva. É a sua essência. Como ela é a arte de animar os
objetos inanimados, depreende-se daqui que a descrição é quase sempre uma pintura material,
uma visão que se ministra, uma sensação que se impõe, seja paisagem ou seja retrato.”
(p.222).
“Contentemo-nos em fixar apenas duas divisões: a descrição propriamente dita e o
retrato, que é uma espécie de descrição reduzida e de qualidade especial.” (p.223).
“Uma descrição é boa, quando é viva; e não é viva, senão quando é real, visível,
material. A realidade e o relevo são as duas qualidades principais, necessárias, dominantes, da
descrição.” (p.223).
“Mas, dir-nos-eis, é a descrição realista que nos ensinais? Eu respondo: não há
outra descrição, senão a descrição realista, bem compreendida.” (p.223).
“O verdadeiro realismo, o dos mestres, desde Homero, não é mais que o cuidado
de interpretar o verdadeiro pelo belo, a vontade imparcial de pintar o bom e o honesto como
coisas também reais, como o feio e o mau. Este realismo, que saber ver os dois lados da
verdade, o lado real e o lado moral, deverá ser considerado como o próprio fim da arte de
escrever e a base eterna das literaturas. É esta confusão que ocasiona tantos mal-entendidos.”
(p.224).
“Este nobre realismo, aspiração da arte, poderia assim definir-se: método de
descrever, que consiste em dar a ilusão da verdadeira vida, com o auxílio da observação moral
ou plástica.” (p.224).
“Ver só o lado desagradável ou feio da vida e das coisas é reduzir a arte, é falsear
a própria realidade, que tem coisas agradáveis e belas, é cair no fictício e no convencional. O
realismo é um processo, com que se deve tratar segundo a realidade das coisas que se querem
pintar, sejam elas quais forem.” (p.224).
“Vai nisto uma confusão de ideias. Colocai-vos diante de uma paisagem e
descrevei-a. É impossível que façais pura e rigorosa fotografia. A vossa imaginação é uma
lente involuntária, através da qual o que se vê não pode passar sem se transformar, sem ser
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interpretado, sintetizado, aumentado ou reduzido, embelezado ou entristecido, comentado ou


apresentado.” (p.225).
“O cérebro humano não é aparelho fotográfico e, se quiser, nunca fotografará.
Portanto, quando dizemos: “Copiai as vossas descrições, os vossos caracteres, os vossos
assunto, os vossos quadros, os vossos retratos”, não vos preocupe a falta de interpretação. Ela
há de produzir-se por si, e com tanta segurança, quanto melhor tiverdes sentido o vosso
assunto.” (p.225).
“Todas as boas descrições com relevo recordam Homero. Os grandes pintores
literários, seja qual for a sua escola e os seus processos, têm um pouco de Homero. Em todos
os escritores ilustres, Dante, Virgílio, Cervantes, Teócrito, Chateubriand, os melhores traços
descritivos têm o cunho de Homero. Ora a descrição em Homero é a visão pela cor, a notação
pela materialidade, a observação brutal dos pormenores visíveis. O cunho de Homero, aquilo
que o caracteriza, à parte a sua elevação moral, o seu alento épico e a noção que ele tem das
coisas da alma e do ser interior, é que ele é um fotógrafo da natureza e das comoções
humanas (...)” (p.228).

LIÇÃO DÉCIMA QUINTA – A OBSERVAÇÃO DIRETA.

“HÁ DUAS MANEIRAS DE ESCRVER NATURALMENTE:>


1. Por observação direta.
2. Por observação indireta.” (p.233).
“A observação direta
É a cópia tirada no próprio local, de lápis na mão.” (p.233).
“Tendes uma paisagem para pintar , um rio, um pôr do sol, um sítio. Ide lá; tomai
os vossos apontamentos, não simples notar fotográficas, a vista das coisas e das cores, e
anotai também a impressão que sentirdes, a vossa melancolia, o vosso estado de alma.”
(p.233).
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“Regressando a casa, ainda que seja no dia seguinte, recopiareis, poreis em ordem
as vossas notas; dareis ao esboço a sua significação total, sintética, geral. Igual processo para
uma personagem, para uma figura, para um carácter.” (p.233).
“A condensação e a simplicidade produzem mais efeitos que as amplificações
sistemáticas (...)” (p.235).
“Numa palavra, a arte de descrever consiste na escolha de certos pormenores
empolgantes, com certas ideias de relevo e força (...)” (p.236).
“Se eu digo: “Cortou-lhe a cabeça, enquanto ele falava”, está muito bem e parece
que não há outro modo de dizer. E todavia tornarei mais dramática a ideia, se disser como
Homero (Morte de Dólon): “Falava ainda, quando a cabeça lhe caiu”. Assim, vê-se melhor o
fato. E o fim da descrição é fazer ver as coisas.” (p.239).
“Sentireis uma impressão de violência um pouco incomodativa, quando quiserdes
pintar quadros realistas; mas este processo não impressionará desagradavelmente, quando
pintardes a natureza, as coisas belas, os grandes espetáculos, tudo que nada perde com ser
salientado, tudo que o processo contrário poderia tornar frouxo e ordinário.” (p.240).
“Resumindo: para se descrever bem, é preciso fazer viver, pintar com relevo, com
realidade. Para isso, é preciso observar bem, e, para observar bem, é preciso copiar da
natureza, da verdade. A observação direta é o primeiro gênero de observação.” (p.240).

LIÇÃO DÉCIMA SEXTA – A OBSERVAÇÃO INDIRETA.

“É por um esforço de imaginação que se pintará o que não existe, e é pelo esforço
da memória que se descreverá o que já não temos à vista.” (p.241).
1. Descrição imaginada.
“(...) É preciso, ainda neste caso, procurar auxílio no que se viu, recordar tudo que
se pode relacionar com o assunto, e, pelo verdadeiro, dar as parências do verdadeiro ao que
não o é.” (p.243).
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“(...) Até quando o assunto e os desenvolvimentos de uma descrição são


imaginários, deve-se proceder sempre segundo a verossimilhança, a verdade suposta e a
observação aparente.” (p.242).
“(...) Neste caso ainda, observa-se com o verdadeiro, em nome do verdadeiro,
evocando o verdadeiro, procurando precisamente dar aos outros a sensação de que não se
imaginou e de que deve ser assim.” (p.243).
2. Descrição de memória.
“Ou seja por necessidade ou seja por gosto, desde que já não estiverdes perante o
assunto da vossa descrição, tereis de evoca-lo. Já não tereis a visão imediata, mas procurareis
ressuscitá-la pela evocação, e não a descrevereis bem, senão quando a ilusão for completa,
isto é, quando a tiverdes presente à imaginação e quando a virdes, por assim dizer, diante de
vós, com os olhos do espírito. Os pormenores que não tiverdes notado na própria ocasião,
voltar-vos-ão nítidos e salientes, com o relevo de uma coisa vista no próprio momento.”
(p.246).
“Como os realistas aplicaram este método e só se serviram dele para pintar
exclusivamente o trivial, o baixo e o repugnante, confundem este processo com a sua escola e
acusar-nos-ão de sermos realistas. Dir-nos-ão: “Aconselhais a fotografia material: mas o que
será então da imaginação, da fantasia, da moralidade, do bom e do belo?”. Responderemos:
“O que é censurável é a escolha do assunto, a disposição para só se tratar do mau e do vulgar.
Descrevei o que é bom, o que é belo, o que é moral, o que é elevado e nobre, mas descrevei-o
com esse senso do real, do verdadeiro, fora do que, nada é duradouro.” (p.250).
“Uma descrição não deve nunca aparecer imaginada. Eis o grande princípio.”
(p.250).
“Dois escolhos há que sobretudo se devem evitar sempre na descrição a
vulgaridade e a fantasia.” (p.251).
“A imaginação é uma doida, que é preciso guiar, amparar, servindo-nos dela
como de um instrumento; mas não a empregando por si só ou convertendo-a no alvo da
inspiração e da arte de escrever. Se não a dirigirmos, habituamo-nos a ouvir só a ela;
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escrevemos com a elegância, deixamos correr o marfim, deitamos fogo de artifício,


enfeitamos, queremos entontecer, e entontecemo-nos. Numa palavra, é a fantasia; e para se
brilhar na descrição, não se chega sequer a mostrar o que se descreve.” (p.251).
“Imagina-se o que se fantasia pode aos discípulos, quando os mestres abusam
dela a tal ponto. Evitai, pois, a todo o custo, esse gênero de descrição; evitai-o, só das suas
virtudes. A verdade não é aquilo; o caminho direto da arte está em Homero e naqueles que
observam o processo deste.” (p.254).
“(...) a descrição longa afoga as coisas, em vez de salientá-las. Toda a arte está na
sobriedade e na energia.(...)” (p.257).

LIÇÃO DÉCIMA SÉTIMA – AS IMAGENS

“Só falaremos das metáforas, ou antes, das imagens, pois que a metáfora é sempre
uma imagem. A metáfora consiste em transportar uma palavra, de sua significação própria,
para outra significação, em virtude de uma comparação, que se faz no espírito e que não se
indica. É uma transposição por comparação instantânea.” (p.262).
“Se dizeis, falando de Condé: “Este leão precipita-se”, fazeis uma metáfora. Mas
dizeis: “Condé precipita-se como um leão”, e fazeis então uma comparação. Quando o
Profeta-Rei disse ao Senhor: “A vossa palavra é uma lâmpada diante dos meus passos”, fez
uma metáfora; se tivesse dito: “A vossa palavra ilumina os meus passos como uma lâmpada”,
teria exprimido comparação e não teria havido figura nenhuma. A metáfora é uma imagem,
resultante de uma comparação subentendida.” (p.262).
“Mas uma imagem nem sempre é uma metáfora.” (p.262).
“A imagem é uma maneira vigorosa de escrever, é a maneira de tornar um objeto
mais sensível.” (p.262).
“A ciência de escrever não consiste toda na imagem, mas o encanto de estilo, a
sua cor, o seu brilho, o seu efeito e a sua vida, residem certamente na imagem. Falaremos,
pois, das imagens, em que se compreendem as metáforas.” (p.263).
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“Devemos evitar as imagens (imagens ou metáforas):” (p.264).


“1º - Quando são forçadas, tiradas de muito longe, e cuja relação não é bastante
natural nem a comparação bastante sensível; como quando um poeta chamou relva aos
cabelos de Ceies.” (p.264).
“2º - Quando são tiradas de objetos ordinários e desagradáveis, como quando
Tertuliano diz, falando do dilúvio universal: “O dilúvio foi a barrela geral da natureza”.”
(p.264).
“3º - Quando os termos metafóricos despertam ideias que não se podem ligar,
como nesta metáfora: Quando ideias despertam os termos metafóricos que não podem se
ligar, como nesta metáfora de Malherbe:
“Levantat-e, Luís,
E vai, como um leão,
Levar o último golpe à última cabeça,
Dessa rebelião.” (p.264).

LIÇÃO DÉCIMA OITAVA – A CRIAÇÃO DAS IMAGENS.

“(...) A falta de gosto precipitou-nos no que se poderia chamar a anarquia da


imaginação.(...)” (p.271).
“A primeira condição da imagem, como do estilo, é ser, nova com relevo,
original, criada e empolgante. É preciso evitar, a todo o custo, empregar imagens usadas, que
serviram a toda a gente, como: o veneno da lisonja; o facho da discórdia; a corrente da
democracia; a espada da lei; a balança da justiça; os arminhos da realeza; a águia de
Meaux; o cisne mantuano; a pérfida Albion; a moderna Babilônia; a lusa Atenas; a tirania
das paixões; os raios da eloquência...” (p.273).
“Criar imagens é uma arte. A sua originalidade e a sua vivacidade dependem
evidentemente da imaginação pessoal de cada um; mas há uma espécie de imagem que se
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podem descobrir mais facilmente do que outra. É preciso aplicar atenção, pensar nas diversas
relações que os objetos podem apresentar; nas ideias de flanco, que lateralmente evocam; nas
semelhanças, nos contrastes, nas antíteses.” (p.274).
“Processo excelente, para encontrar imagens, é desenvolver a ideia, exagerá-la
propositadamente (...)” (p.274).
“(...) Uma imagem é uma relação de comparação e essa relação varia
infinitamente, conforme o cérebro que pensa e os olhões que vêem. É preciso, pois, ler os
escritores imaginosos, embora tenham só esse mérito. À força de compreendermos as suas
metáforas, encontramos em nós próprios o mesmo gênero ou aproximações.” (p.278).
“Em resumo, dois conselhos devem observar-se, na arte de criar imagens.
Primeiro, ser exigente com a qualidade da imagem, para evitar o preciosismo e o mau gosto.
Em segundo lugar, habituarmo-nos a conservar apenas as imagens verdadeiras, isto é, as
metáforas, que em vez de provocar a imaginação, se impõem a ela. A leitura de
Chateaubriand, de Bernardim de Santi-Pierre, de Victor Hugo, de Lecontre de Lisle, será, a tal
respeito, altamente proveitosa.” (p.280).

LIÇÃO DÉCIMA NONA – O DIÁLOGO.

“A QUESTÃO DO DIÁLOGO OCUPA, na arte de escrever, quase tão amplo


lugar como a descrição. Não é raro introduzirem-se numa narrativa personagens que falam; o
movimento de uma ação depende disso, às vezes completamente. Pode-se até tratar um
assunto exclusivamente em diálogos, sem obrigação de fazer teatro. A arte do diálogo merece,
pois, algumas reflexões gerais, à míngua de estudo profundo, que nos levaria muito longe e se
referiria sobretudo à arte dramática.” (p.281).
“Não há nada mais difícil do que o diálogo!” (p.281).
“O bom diálogo é a última coisa que se aprende; é quase um dom. Exige
qualidades de movimento, de rapidez, de elegância concisa e impulsiva, que constituem
precisamente a vocação dramática.” (p.281).
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“Há duas espécies de diálogos: um literário, fraseado, arquitetado, próprio do


livro; e outro que é a reprodução fotográfica da palavra falada, na sua concisão imprevista,
elíptico, febril, saltitante...Ora, nada é mais difícil que a arte de equilibrar estes dois extremos,
visto que há romancistas que patentearam excelentemente o som da palavra falada, como
Flaubert, Dauder, Goncourt, e nunca foram bem sucedidos no teatro, em que, aliás, triunfou
Scribe, Feuiller, Sardou, Dumas Filho, Augier (...)” (p.282).
“Em geral, o diálogo não pode ter a vivacidade, a vida, a ilusão do verdadeiro, se
estiver escrito no próprio estilo da narrativa. São precisas outras frases, diferentes das frases
de um livro ou de um trecho literário; frases, diferentes das frases de um livro ou de um
trecho literário; frases concebidas de outra forma, mais curtas, mais ofegantes, mais incisivas.
É necessário que cada personagem diga poucas coisas ao mesmo tempo, pela razão de que,
numa conversação, cada um quer falar e não ouve, durante muito tempo, o seu interlocutor.
Salvo as tiradas voluntárias e preparadas, a resposta rápida é que constitui o interesse de um
diálogo. Mesmo concedendo algumas linhas a cada personagem, a qualidade das frases é que
determinará o movimento e o atrativo do diálogo.” (p.282).
“Numa palavra, nada de construções fraseadas, nada de rodeios afetados, nem de
molde literário. Soltai a frase, deixai-lhe a espontaneidade, o porte vivo, a oportunidade do
momento, a crítica e o imprevisto da réplica; o diálogo entretanto deve ser dirigido com tato,
sabendo ainda a estilo, não estilo narrado, expositivo e aplicado, mas estilo discreto, uma
intenção de eloquência; cumpre que se sintam as rédeas, sem que se veja a mão.” (p.288).
“Os diálogos dos romances de Octávio Feuiller são modelos, sob este poto de
vista. Devem-se ler constantemente (...)” (p.288).
“Só em Molière é que se encontra o diálogo em estado de réplica verdadeira,
humana, eterna, de todos os tempos, sem palavras do autor. Abri-o ao acaso. O que as
personagens dizem sai-lhes do fundo dos seus seres e dos seus pensamentos. Não ouvem o
que se lhes diz e não respondem aos seus interlocutores. Seguem as suas ideais com uma
inconsistência que nos faz esquecer totalmente de Molière. É a obra do gênio.” (p.292).
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“Em suma, para o bom êxito do diálogo, é preciso trabalha-lo o mais possível;
cortar todas as excrecências: atender à concisão; variar o arredondamento da frase; perguntar
como se diria aquilo em voz alta, vazar as frases no molde falado. Se não há evocação para o
diálogo, certa disposição para relevo das réplicas, e para o espírito cênico, qualidades
impreteríveis no autor dramático, é inútil fazer teatro.” (p.292).
“Mas, com trabalho e aptidões regulares, podeis aprender a dialogar
suficientemente para escrever romances ou novelas. Para isso, devereis ler muitos diálogos de
teatro e peças de bons autores, Labiche principalmente, que é maravilhoso em rapidez e
naturalidade.” (p.292).
“O estilo da conversação é conciso. Não nos esqueçamos disto. (...)” (p.292).

LIÇÃO VIGÉSIMA – DO ESTILO EPISTOLAR.

“NÃO NOS DETEREMOS MUITO, FALANDO DO ESTILO epistolar e da


carta. Nenhum assunto, como este, torna inútil qualquer desenvolvimento, pela razão de que
se exprime sempre bem o que se sente, e de que uma carta é, em geral, uma coisa que se
sente, porque é pessoal. E a prova é que as mulheres escrevem admiravelmente cartas.”
(p.293).
“Aqueles que tiverem entre mãos muitas correspondências femininas sabem que
as mulheres, seja qual for a sua classe e condição, escrevem cartas superiormente (...)”
(p.294).
“Quanto aos homens, têm menos delicadeza e naturalidade; mas pode dizer-se que
cada um sabe escrever uma carta, cujo assunto sentiu. É inútil ensinar a escrever uma carta
sobre um assunto que não se sente. Primeiro está o sentimento.” (p.294).
“(...) Há apenas um conselho a seguir: ler muitos modelos. A simples leitura das
cartas ensina a escrevê-las (...)” (p.294).
“Sendo a carta uma conversação por escrito exige as qualidades da boa
conversação, e a naturalidade acima de tudo. Deverá ser espontânea, ingênua, não estudada, a
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não ser que seja o contrário por sistema, como as cartas de Voiture e de Balzac, denominados
os grandes espistológrafos da França.” (p.295).
“Evitai, pois, nas vossas cartas, o trabalho, o esforço, a ciência do estilo.
Expressai-vos simplesmente. Deve-se escrever como se fala, quando se fala bem; é preciso
mesmo escrever um pouco melhor do que se fala, visto que há tempo para se pôr em ordem o
que se diz.” (p.295).
“A grande máxima que se deve fixar, aquela em que resumiremos os nossos
conselhos epistolares, é que devemos deixar ir a pena e exprimir sem afetação o que se sente.
Ao pegarmos na pena para escrever a alguém, já devemos saber o que queremos dizer.”
(p.297).

eclesiologia, sã doutrina, arma da pregação, não bater de fente, calvino não foi
pastor de imediato, traidores, saudade do egito, justiça de Deus, aguardar um ano, o Senhor
dissipará, não é uma obra humana, nada pode com a Palavra de Deus, preparar apostilas,
evangelho para alguns é sentimento, investir educação, não criar imposições para a igreja,
mostrar ferramentas doutrinárias, praticar disciplina da igreja, Deus se manifesta e
completamos os sofrimentos de Cristo, Deus é o refúgio dos seus, o Senhor dará respostas e
saídas, quem menos pensa irá florescer, pregação e oração. esposa ajuda
paulorbleal@yahoo.com.br, trabalhar doutrina com o conselho.