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FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS - FGV

CENTRO DE PESQUISA E DOCUMENTAÇÃO DE HISTÓRIA


CONTEMPORÂNEA DO BRASIL - CPDOC

MESTRADO PROFISSIONAL EM BENS CULTURAIS E PROJETOS SOCIAIS

CARLOS EDUARDO LEAL GUIMARÃES

A HISTÓRIA E A MEMÓRIA A NOS GUIAR NO RIO DE JANEIRO :


PROPOSTA PARA UM GUIA DE VIAGEM

Rio de Janeiro, Setembro de 2012


3

GUIMARÃES, CARLOS EDUARDO LEAL.


A História e a memória a nos guiar
no Rio de Janeiro Uma proposta de
guia de viagem.
Rio de Janeiro: Fundação Getúlio
Vargas, 2012. 148 p. : il

Dissertação (Mestrado Profissionalizante),


Fundação Getúlio Vargas, Rio de
Janeiro, 2012.
Orientadora: Profª. Drª. Dulce
Chaves Pandolfi

1. Turismo Cultural 2. Rio de Janeiro


3.Interpretação de Patrimônio 4. Rotas Temáticas
4

Este trabalho é dedicado àquelas pessoas que mais amo, que me


dão o sentido, criam a memória e fazem da minha história algo especial :
minha avó Lygia; meus pais, Carlos e Heloísa; minha irmã, Patricia;
minha mulher Gisela e minhas filhas, Ana Carolina, Juliana e Lygia..
Por e para vocês, sigo.
5

AGRADECIMENTOS

Às minhas avós Lygia e Oswaldina (in memorian), belas contadoras de estórias, nascidas na
Belle Époque carioca, que me abriram as portas da memória.
Ao meu pai Carlos Augusto, que, com sabedoria e empreendedorismo, abriu-me as portas do
turismo e das viagens, como forma de percepção do mundo.
À minha mãe Heloísa, que, com amor, carinho e bom humor, foi a minha primeira guia de
viagem, ensinando-me muito sobre a arte de abrir portas.
À minha esposa Gisela, adorada Deodora, que me proclamou a República do amor, trazendo-
me ordem e progresso quando mais precisei. As portas abertas a dois são as mais valiosas.
Às minhas 3 filhas, Ana Carolina, Juliana e Lygia, que me abrem cotidianamente tantas portas,
portinholas e portões e para quem deixo as minhas portas sempre escancaradas.
A Roberto Perecmanis, que me ofereceu algumas chaves para saber quais portas devem ser
abertas.
A Érika e Victor que, ao me abrirem as portas do CPDOC e da Estácio, respectivamente,
tornaram-se fundamentais na minha trajetória acadêmica.
Ao meu querido amigo Marcelo Martins, guia e agente de viagens, com quem tive o prazer de
trabalhar por tantos anos, um entusiasta desse projeto e que me ensinou que as portas que
abrimos para alguém na vida, vão nos retornar em forma de inesperadas portas abertas.
A todos os excelentes mestres que tive no CPDOC : Bianca, Sarmento, Christiane, Lucia,
Mariana, Mario e Verena, e em especial, a minha orientadora Dulce com quem redescobri o
prazer de abrir as portas da história.
Aos meus amigos fundamentais, de toda a vida : Pedro, Orlando e PC, que me oferecem, em
nossos deliciosos encontros, um mundo sem portas.
A todos os guias, profissionais de turismo, professores e pessoas com quem trabalhei em minha
trajetória profissional e com que tenha aprendido algo sobre essa sútil arte das portas, sobre quais
precisamos abrir e quais devemos manter fechadas.
A todos vocês, sou grato. Muito Obrigado.
6

RESUMO

A presente dissertação propõe-se a trazer algumas reflexões sobre o turismo cultural no


Rio de Janeiro através da criação de um guia de viagem com rotas temáticas baseadas na história
da cidade. Este guia proporia novas formas de leitura da paisagem urbana carioca a partir do
papel central que a cidade teve na história brasileira enquanto capital política e cultural da
nação. O foco principal dos itinerários seria a fase republicana no Brasil entre o final do século
XIX até os anos 1970. Nesse período, o Rio passou por uma série de reformas urbanas que
seriam também analisadas através de uma série de caminhadas temáticas descritas no guia.
A partir dessa abordagem, o trabalho analisa as possibilidades de formatação desse
produto turístico através da interlocução entre referenciais teóricos de Memória Coletiva, Lugar
de Memória, Identidade Cultural e Interpretação de Patrimônio. Tirando proveito desses
conceitos, o estudo procura justificar esse estilo emergente de turismo cultural como um
incentivo para o morador do Rio tornar-se viajante em sua própria cidade, enquanto turista-
cidadão.
PALAVRAS-CHAVE: Rio de Janeiro, História, Turismo Cultural, Lugares de Memória,
Interpretação de Patrimônio, Rotas Temáticas
7

ABSTRACT

This current essay tries to accomplish some reflections about the cultural tourism in the
city of Rio de Janeiro, through the creation of a travel guide with themed routes based on the
history of the city. This guide would present new forms to observe the urban landscape
considering the main role played by the city in the Brazilian history as political and cultural
capital. The major focus of the foreseen itineraries would be the nation’s republican phase
from the end of the XIX century till the 1970’s. In this period, Rio has faced innumerable
urban changes which would be also analyzed during a series of walking-tours described in the
travel guide.
Based on this approach, the paper analyzes the formulation possibilities for this
touristic product through theoretical references about Collective Memory, Sites of Memory,
Cultural Identity and Heritage Interpretation. Taking advantage from these concepts, the study
explains this emerging style of cultural tourism as an incentive for local residents to become
travellers in their own city, as citizen- tourists.
KEYWORDS: Rio de Janeiro, History, Cultural Tourism, Sites of Memory, Heritage
Interpretation, Themed Routes
8

SUMÁRIO

RESUMO............................................................................................................................. 6

ABSTRACT ........................................................................................................................ 7

ÍNDICE DE FIGURAS ..................................................................................................... 10

INTRODUÇÃO.......................................................................................................................... 111

CAPÍTULO 01 – TURISMO OU TURISMOS - EIS A QUESTÃO

1.1 – VIAGENS E TURISMO – UM BREVE HISTÓRICO .......................................... 17

O Grand Tour .................................................................................................................... 19

O Nascimento do Turismo Moderno ................................................................................ 21

A Indústria sem Chaminés ................................................................................................ 26

1. 2 – TURISMO CULTURAL – REFLEXÕES E DILEMAS ....................................... 29

Criativos ou Destrutivos.................................................................................................... 31

1.3 – PATRIMÔNIO CULTURAL e ATRAÇÃO TURÍSTICA : UMA RELAÇÃO


COMPLEXA ..................................................................................................................... 34

Cartas, Códigos e Políticas ................................................................................................ 37

1.3 – TURISTA CIDADÃO : UMA NOVA ABORDAGEM SOBRE A QUESTÃO 42

Um guia para o turista cidadão.......................................................................................... 47

CAPÍTULO 2 – A HISTÓRIA E A MEMÓRIA A NOS GUIAR NO RIO DE JANEIRO

2.1 – IDENTIDADE e MEMÓRIA ................................................................................. 50

A Memória dos Lugares e os Lugares de Memória.......................................................... 52

2. 2 – DILEMAS DE UM GUIA TURÍSTICO-CULTURAL: MEMÓRIA OU


HISTÓRIA DA CIDADE ................................................................................................. 58
2. 3 – OS CAMINHOS DA INTERPRETAÇÃO EM UM GUIA DE VIAGENS ......... 61
9

CAPÍTULO 3 – A MEMÓRIA DA REPÚBLICA EM ROTEIROS TEMÁTICOS :


NOVAS LEITURAS PARA UMA EX-CAPITAL

3. 1 – PREMISSAS METODOLÓGICAS INFORMAÇÃO, PROVOCAÇÃO E


IMAGINAÇÃO ................................................................................................................. 65
3.2 - GUIAS DE TURISMO DO RIO DE JANEIRO : .
OLHARES DO PASSADO E DO PRESENTE ............................................................ 82

CAPÍTULO 4 – UM GUIA HISTÓRICO AFETIVO : FORMA, CONTEÚDO E


OBJETIVOS

Forma e Conteúdo.............................................................................................................. 98
Desenvolvimento dos Roteiros ........................................................................................ 105
Roteiro “Rio da Proclamação e Implantação da República” .......................................... 107

Apresentação : modelos de páginas ................................................................................ 110

CONSIDERAÇÕES FINAIS................................................................................................... 115

ANEXOS ................................................................................................................................. 11519

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .................................................................................... 119


10

ÍNDICE DE FIGURAS

Figura 01 - Gravura de Roma no século XVIII ............................................................... 21 


Figura 02 - Cartaz publicitário de 1907 ............................................................................ 22 
Figura 03 - Capa de The Excursionist .............................................................................. 23 
Figuras 04 - Cartaz da Exposição Universal de Paris em 1889 ....................................... 25 
Figuras 04 - Pôster publicitário de hotel em balneário francês ......................................... 25 
Figura 06 - Anúncio publicitário de 1927 ........................................................................ 26 
Figura 07: Modelo de página do Guia de Memórias da República ................................. 68 
Figura 08: Modelo de página do Guia de Memórias da República 2 .............................. 69 
Figura 09 e 10 : Cortiços, ontem e hoje............................................................................ 71 
Figura 11: O Morro da Favella em 1920, ......................................................................... 72 
Figura 12 e 13: Praça da República: Ontem e hoje. ......................................................... 73 
Figura 14: Charge da Revista Dom Quixote de 1896 ...................................................... 75 
Figuras 15: Mapa turístico do centro do Rio em 1914 ..................................................... 76 
Figura 16: O Plano Agache ............................................................................................. 77 
Figura 17: Antigo postal de 1880 ..................................................................................... 79 
Figuras 18 e 19: O Templo da Religião da Humanidade no bairro da Glória ................ 81 
Figuras 20 e 21: O Centro do Rio em 2 momentos distintos: ........................................... 82 
Figura 22: Pintura de 1827 ............................................................................................... 85 
Figura 23: Guia Baedeker’s ............................................................................................. 86 
Figura 24: Mapa “Rio de Janeiro Central Monumental” de 1914 ................................... 90 
Figura 25: Os Guias Verdes do Brasil. ............................................................................. 91 
Figura 26 : Folder turístico de 1962 .................................................................................. 92 
Figura 27: Cédula de 100.000 réis de 1936 ....................................................................... 96 
Figura 32 : Página Guia Visual Folha de São Paulo....................................................104
Figura 33 : Quartel General do Exercito em 1885 .......................................................... 108
Figura 34 : Palácio do Itamarati em 1894 ....................................................................... 109 
Figura 35: Modelo de página do Guia de Memórias da República ............................... 112 
Figura 36: Modelo de página do Guia de Memórias da República 2 ............................ 114 
11

INTRODUÇÃO

O notável crescimento do turismo parece estar vinculado à


sagração do desejo de mobilidade como uma das marcas mais salientes do
homem moderno (...). Mobilidade em todas as acepções que o termo
permite - social, cultural, temporal, física e de identidade (URRY, 2001).

O Turismo é uma indisciplina. É com esta sugestiva designação que Tribe (1997) tenta
lidar com a complexidade de questões que envolvem o saber turístico. Na verdade, poucas
atividades humanas foram tão incensadas quanto vilipendiadas simultaneamente como o turismo
ao longo de seu processo acelerado de crescimento, já como indústria, desde o final do século
XIX. No fundo, trata-se de um fenômeno sócio-econômico ainda pouco estudado e pesquisado
em relação ao tamanho de sua influência nas sociedades contemporâneas. Enquanto o discurso
pragmatista concentra-se em argumentos focados na geração de empregos, na captação de
divisas, na redução de desigualdades sociais e regionais e na melhoria da qualidade de
vida da população, as abordagens ligadas às ciências sociais procuram entender o fenômeno
“através dos deslocamentos humanos, dos processos de intercâmbio cultural entre anfitriões e
visitantes, da transformação das identidades locais e da vivência de novos costumes e fazeres.”
(MOESCH, 2002:19)
Uma das possíveis interpretações, para fins sintéticos, poderia definir o turismo como
uma categoria de lazer resultante da sociedade capitalista industrial e que desenvolve-se sob o
impulso de várias motivações, dentre elas, o consumo de bens culturais. Para a maior parte dos
autores contemporâneos, o turismo deve ser considerado, prioritariamente, uma experiência com
sabor cultural. Por isso , criou-se a terminologia Turismo Cultural para diferenciar certas práticas
de viagens de um turismo mais convencional ou massificado.
12

Turismo cultural é o acesso a esse patrimônio cultural, ou seja, à


história, à cultura e ao modo de viver de uma comunidade. Sendo assim, o
turismo cultural não busca somente lazer, repouso e boa vida. Caracteriza-
se, também, pela motivação do turista em conhecer regiões onde o seu
alicerce está baseado na história de um determinado povo, nas suas
tradições e nas suas manifestações culturais, históricas e religiosas
(MOLETTA,1998: 9 ).

Assim sendo, não apenas a cultura material, a dizer sítios histórico-arquitetônicos, mas
também a imaterial - festas, danças, gastronomia, expressões de religiosidade, supertições,
música, entre outros – assume um lugar de grande importância na perspectiva do turismo ao
oferecer alternativas de vivência cultural para o turista. A este universo descrito acima,
Margarida Barretto denomina “legado cultural”1 e este transformou-se em matéria prima
privilegiada pela indústria turística que passou a ser determinante nas políticas de conservação ou
revitalização do patrimônio histórico, tão em voga atualmente.
Nessa perspectiva, o turismo cultural emerge como uma espécie de Santo Graal para as
cidades e municípios que desejam ganhar a tão disputada alcunha de “destino turístico”. Os
princípios que conectam cultura e turismo parecem capazes de evocar uma espécie de
Santíssima Trindade que se estabelece como tendência nas políticas públicas culturais a
nível mundial : a fomentação do desenvolvimento sustentável, a preservação do
patrimônio histórico-cultural e o fortalecimento da identidade cultural da comunidade.
É o que Richards (2004) chama de “campo de sonhos” em que se converteu o turismo
cultural permitindo aos políticos locais “o sonho de ter museus, teatros e centros de
exposições mais espetaculares do que os das cidades vizinhas”. Essa reverência prestada à
cultura pelo turismo, de certa forma, aproxima-a do sagrado. Para MacCannell (1976), os turistas
culturais podem ser entendidos como praticantes de ritos onde a cultura é celebrada como um
substituto contemporâneo da religião. Em adendo, Horne (1984 apud Perez, 2009: 107) chega a
afirmar que o turista cultural “é um peregrino moderno que segue os guias turísticos como
textos da sua devoção.”
É justamente com base nessas “bíblias turísticas” – os guias de viagem– que foi
estruturada a presente dissertação, que tem como foco a possibilidade de ampliação do turismo
cultural no Rio de Janeiro a partir de um guia elaborado exclusivamente para este segmento. A

1 Margarida Barreto propõe a ampliação do conceito de “turismo histórico” para a expressão “heritage based
tourism”, traduzida pela autora, em seu livro "Turismo e Legado Cultural", como “turismo com base no legado
cultural” que pode ser usada para tratar dos aspectos tangíveis e intangíveis do patrimônio cultural “herdado”.
13

ideia seria discutir a pertinência de novas leituras da cidade a partir das ferramentas de
interpretação proporcionadas por um guia de viagem publicado no formato de um pequeno
livro2 e que se juntaria, nas prateleiras das livrarias, às tantas dezenas de outros que existem. No
entanto, com um diferencial que o tornaria singular no gênero: seria um guia turístico sobre a
história da cidade enquanto capital republicana abrangendo o período entre 1889 e 1960 quando
o Rio de Janeiro funcionou, de fato, como distrito federal do país e mais o período de 1960 a
1975 quando, mesmo transmutado em cidade-estado da Guanabara, ainda guardava a sua aura de
“capitalidade” perante o resto da nação.
O guia seria composto por uma série de roteiros temáticos cruzando o território carioca
tendo como fio narrativo os principais acontecimentos históricos, políticos e culturais da cidade e
do país nessa trajetória de 86 anos. Nesse conjunto, seriam incluídos como atrativos turísticos
não apenas itens do patrimônio material como monumentos, edificações, estruturas
arquitetônicas, igrejas e ruas mas também itens representativos de bens culturais intangíveis
como costumes, objetos, manifestações artísticas e esportivas, festividades, culinária, vestuário,
notícias e charges de jornal. Tudo isso seria aproveitado visando a composição de um amplo
painel sócio-cultural que permitisse aos leitores, sejam eles forasteiros ou residentes, novas
formas de percepção da cidade. Uma obra que leve em conta a importância de se observar a
cidade, como frisa Knauss (2006), ultrapassando o ver, mera percepção dos sentidos, buscando
o olhar, elaboração intelectual sobre o visto”.
Pelas premissas expostas acima seria, acima de tudo, um guia que versaria sobre
a memória e a história do Rio de Janeiro, propondo um diálogo direto entre a cidade
atual e a cidade passada.

História e memória estão interagindo na configuração dos


“discursos do patrimônio”. Em cada época a sociedade e suas
autoridades têm uma idéia sobre o que deve ser preservado.(...) Nos dias de
hoje, o patrimônio arquitetônico está conectado não só com o passado e a
memória nacionais, mas também com a vida das pessoas que moram no
espaço da cidade. O conjunto urbanístico, assim como a paisagem, está
fazendo parte do patrimônio cultural que se inter-relaciona com a noção
de espaço turístico (OLIVEIRA, 2002:11)

2
Além da concepção tradicional de guia, publicado no formato de um livro, o produto poderia também ser produzido
de forma adaptada para outras plataformas virtuais onde seria “baixado” em smartphones ou tablets que
permitissem ao viajante locomover-se a pé pela cidade através de mapas interativos e com GDS. Essa nova versão de
guias já está sendo comercializada com muito sucesso por algumas marcas famosas de guias turísticos.
14

O guia lidaria com o passado da cidade através da memória coletiva de todos os grupos
sociais que a compõe e que, nas palavras de Possamai (2010), “torna-se materialidade no espaço
urbano representado no traçado de suas ruas, nas construções alteradas ou substituídas, nos
monumentos erigidos e inclusive nas barreiras que escondem determinado ponto”.
De certa maneira, este guia que passaremos a chamar a partir desse momento de “Guia de
Memórias da República no Rio de Janeiro” teria uma relação de proximidade mais explícita com
o passado do que com o presente da ex-capital republicana. Isso justifica-se pelo fato do passado
ter sido sempre a matéria prima primordial para a projeção das identidades culturais assim como
da memória coletiva que as sustentam. São os antepassados e suas tradições remodeladas pelo
passar do tempo que geram um sentido de pertencimento de indivíduos a determinados grupos e
estes, por sua vez, serão reconhecidos através do legado material ou simbólico, deixado para as
gerações seguintes.

O passado é uma das dimensões mais importantes da singularidade.


Materializado na paisagem, preservado em "instituições de memória", ou
ainda vivo na cultura e no cotidiano dos lugares, não é de se estranhar,
então, que seja ele que vem dando o suporte mais sólido à essa procura de
diferença. A busca da identidade dos lugares, tão alardeada nos dias de
hoje, tem sido fundamentalmente uma busca de raízes, uma busca de
passado. (ABREU, 1998:79)

De acordo com Urry (1990), prevalece na pós-modernidade uma tendência para a


nostalgia, que se manifesta numa atração saudosista pelo patrimônio cultural que é percebido
como um ancoradouro seguro contra a dissolução pós-moderna. Essa inclinação nostálgica vem
potencializando ainda mais a amplitude do turismo cultural nesse início de século e creio que o
produto que proponho na dissertação atende a essa demanda.
Além desse viés nostálgico e do potencial histórico-cultural já exposto, acredito que este
guia preencheria outras lacunas, além das exclusivamente turísticas. Nesse sentido, pode se
tornar também um valioso instrumento de promoção de cidadania e de democratização da cultura
através de processos de educação patrimonial que podemos definir como:
15

“todo processo de trabalho educacional que vai tratar do


patrimônio cultural, sendo este produto de uma comunidade que com ele se
identifica e que deverá cuidar para garantir sua permanência e
vitalidade”. (RANGEL apud TEIXEIRA, 2006: 16)

Quanto à estrutura, esta dissertação é composta por 3 capítulos além da introdução,


ambos divididos em 3 sub-capítulos. No primeiro capítulo, faremos uma “viagem” pela história
do turismo, buscando refletir sobre a atividade desde seus primórdios até os dias atuais, quando
suas formulações mais tradicionais ganham novos conceitos como o de turista-cidadão.
Também discutiremos todos os dilemas do turismo cultural, pensando-o a partir de sua
complexa relação com o patrimônio histórico – cultural.
No capítulo 2, adentraremos pelo universo conceitual que dá suporte ao turismo
cultural, buscando compreender as inter-relações entre patrimônio, identidade, memória, história
e consumo turístico. Ao final, analisaremos as dificuldades de se atingir um ponto de equilíbrio
entre todos esses discursos através de processos de interpretação de patrimônio que tentam
aproveitar-se de diversas formas de representação do passado, sem mutilar as memórias da
sociedade.
Os capítulos 3 e 4 terão foco exclusivo sobre o produto proposto na dissertação, ou seja,
o Guia de Memórias da República no Rio de Janeiro. Faremos uma exposição sobre a
abordagem metodológica e os desafios conceituais presentes em um projeto dessa natureza,
contextualizando a elaboração do mesmo a partir do histórico de antigos guias de turismo da
cidade. No último capítulo, apresentaremos os itinerários temáticos previstos, atendo-nos com
mais profundidade sobre um deles: o roteiro “Rio da Proclamação e Implantação da República”.
Durante toda a minha trajetória profissional, quase sempre estive ligado ao Turismo. Seja
como agente de viagens, seja como guia, seja como professor, a minha forma de enxergar a vida
passa pela atividade turística enquanto possibilidade de integração entre os povos, de respeito às
diferenças, de descoberta de novas paisagens e de novos olhares sobre paisagens já conhecidas,
de contato com mundos passados e de revitalização de memórias, de estímulo à minha paixão
pela história, de promoção de auto-conhecimento. Esta (de)formação faz com que pareça-me
uma incongruência o fato de uma cidade como o Rio de Janeiro, com tamanha relevância para a
história e cultura do país e principal destino turístico brasileiro, não consiga fundir essas duas
características em prol de produtos turísticos histórico-culturais, mantendo-se permanentemente
na fase embrionária nessa seara.
16

Portanto, creio que a elaboração do Guia de Memórias da República no Rio de Janeiro


pode contribuir para o fortalecimento da identidade cultural e da vocação turística da cidade,
além de estabelecer novos parâmetros de leituras da cidade turística por parte de turistas e
moradores. Isso pode concorrer positivamente na criação de novos produtos e serviços
sintonizados com a temática proposta no guia, assim como agregar valor aos já existentes, a
partir das novas expectativas geradas naqueles interessados na história de uma cidade que ainda
carrega consigo a marca simbólica de ser o espelho do Brasil no exterior e o título ainda
permanente de “cidade maravilhosa” no coração dos brasileiros.
17

CAPÍTULO 01 – TURISMO OU TURISMOS - EIS A QUESTÃO

“Desde criança fui possuído pelo demônio das viagens. Essa


encantada curiosidade de conhecer alheias terras e povos visitou-me
repetidamente a mocidade e a idade madura. (...). Na minha opinião,
existem duas categorias principais de viajantes: os que viajam para fugir e
os que viajam para buscar. Considero-me membro deste último grupo.”
(ÉRICO VERÍSSIMO, 1973)

1.1 – VIAGENS E TURISMO – UM BREVE HISTÓRICO

Ao longo da história, as viagens aparecem como uma das mais antigas atividades
humanas. Os deslocamentos dos homens primitivos e dos mais diversos grupos sociais nômades
que existem desde a pré-história, embora sejam uma inegável confirmação desse fato, não
podem ainda ser considerados exemplos de turismo e nem mesmo de viagens. Segundo vários
pesquisadores, tais tipos de locomoção prescindem de uma característica indispensável para o
conceito usual de turismo que é o retorno ao local de origem3. Em geral, os povos nômades
permanecem no novo destino enquanto este possa lhes garantir condições de sustento, e assim o
faziam as tribos primitivas.
Portanto, o marco inicial das viagens na história ocidental desloca-se da pré-história para
a Idade Antiga, mais precisamente para a Mesopotâmia. Barbosa (2002:13) afirma que a criação

3
Margarita Barreto em seu Manual de Iniciação ao Estudo do Turismo (2001) afirma que “muitos povos viveram,
durante séculos, de forma nômade, o que pouco tem a ver com ‘viagens’ ou ‘turismo’”
18

da moeda pelos sumérios e o surgimento do comércio, a cerca de 4.000 a.C., determinam o


início do ciclo humano de deslocamentos e viagens que resultaram no turismo moderno.
O autor ressalta que, na Antiguidade Clássica, as três principais motivações para se
viajar teriam sido o comércio, os tratamentos de saúde4 e as comemorações, principalmente
as de cunho religioso. Analisando o período, ressalta que “a cultura da Grécia clássica foi
uma das mais voltadas às viagens”, já que o povo grego se deslocava freqüentemente a
templos e santuários para celebrações religiosas ou para assistir a torneios esportivos. Durante
o Império Romano, já se pode identificar “padrões específicos de viagens voltadas para o lazer
e para a cultura” (BARBOSA, 2002:18) agregando as noções de descanso e de conhecimento
ao ato de viajar. Este binômio sempre pautou a história das viagens e do turismo, sendo o
conceito de lazer mais ligado ao contato com a natureza e os aspectos culturais mais
contemplados na visita a centros urbanos5. No turismo contemporâneo, essa dualidade ganhou
contornos dicotômicos se considerarmos as características do turismo de massa, ligado ao
segmento de lazer, e do turismo cultural como faces opostas da indústria turística, conforme
analisaremos no capítulo seguinte.
Na Idade Média europeia, marcada pelo isolamento do regime feudal e por inúmeros
conflitos e guerras, as viagens perderam a importância social e a conotação cultural que
desfrutaram na era anterior. Excetuando-se as peregrinações a sítios sagrados da cristandade e as
visitas a algumas cidades por conta de festividades religiosas, não existem registros de rotas ou
destinos que tenham sido relevantes.
Nos séculos XV e XVI, durante o auge do Renascimento, o fenômeno das viagens é
revigorado a partir da nova ordem econômica implantada pelo mercantilismo que promove uma
retomada radical das atividades comerciais em todo o continente europeu. Com isso, o ato de
viajar readquire sua função social e, gradualmente, recupera seu protagonismo cultural, passando
a ser visto como uma oportunidade singular de se acumular conhecimento.

4
Os tratamentos medicinais com base no poder curativo de águas salgadas ou de fontes termais tiveram muita
relevância para diversas culturas da antigüidade, sendo considerados uma pedra fundamental dos primórdios da
atividade turística.
5
No caso do Império Romano, os destinos de lazer mais procurados entre os romanos foram Pompeia e a Ilha de
Capri.
 
19

O Grand Tour

O ápice desse processo de busca de aprendizados durante uma viagem ocorreu nos
séculos XVIII e XIX com o advento do Grand Tour, um estilo de viagem que ainda influencia
o comportamento dos turistas culturais contemporâneos. De acordo com Withey (1997), os
grand tourists tinham um propósito educacional em seus itinerários que, em geral, cruzavam
parte da França, da Alemanha e da Austria6, além da região dos Alpes na Suiça, até chegarem
ao berço da cultura clássica: a Itália7 e a Grécia, onde se concentrava a maior parte do tempo da
viagem que tinha uma duração total de 1 a 3 anos. Estas viagens de formação, inicialmente
feitas somente pelos filhos das famílias da alta burguesia e da aristocracia inglesas e depois
estendidas a nobres e burgueses de toda a Europa, tinham o intuito de alargar a visão do
mundo e o senso estético dos viajantes através da observação direta da arte e da arquitetura
clássicas. Além disso, o contato com diferentes povos e costumes traria um capital cultural
para o jovem viajante que seria de grande valia em suas futuras tarefas de liderança
e governança. `
Segundo Salgueiro (2002:290), o Grand Tour estabelece um novo formato de se viajar
que gera:

6
Os circuitos variavam em duração mas, para os viajantes oriundos da Inglaterra, sempre tinham início em Paris, o
grande centro cultural europeu por excelência. Os atrativos apresentados na Alemanha concentravam-se na
arquitetura gótica e nos castelos e vilas ao longo dos rios Reno e Mosel. A Austria, embora não fizesse parte dos
roteiros de menor duração, tinha em Viena sua parada obrigatória por conta da intensa vida artística com destaque
para as óperas e música clássica. A tudo isso, ainda podia ser somada a bela paisagem alpina, com seus lagos e
montanhas, e a vida saudável junto à natureza, itens muito valorizados também pelo ideário romântico europeu do
século XIX.
7
A Itália, na época, ainda não era um país ou uma federação mas um conjunto de reinos independentes cujos
principais centros de visitação eram : Roma com suas ruínas do Império Romano, Florença e Siena com o patrimônio
renascentista e mais Veneza, Verona (Romeu e Julieta) e Nápoles.
20

Um novo tipo de viajante surge no século 18 em conexão com as


transformações econômicas e culturais na Europa do Iluminismo e da
Revolução Industrial. Trata-se não do viajante de expedições de guerras e
conquistas, não do missionário ou do peregrino, e nem do estudioso ou
cientista natural, ou do diplomata em missão oficial, mas sim do grand
tourist,conforme era chamado o viajante amante da cultura dos antigos
e de seus monumentos, com um gosto exacerbado por ruínas que
beirava a obsessão e uma inclinação inusitada para contemplar paisagens
com seu olhar armado no enquadramento de amplas vistas panorâmicas,
compostas segundo um idioma permeado por valores estéticos sublimes.
Um viajante dispondo acima de tudo de recursos e tempo nas primeiras
viagens registradas pela historiografia da prática social de viajar por puro
prazer e por amor à cultura. (SALGUEIRO, 2002:290)

Torna-se fundamental frisar que até a disseminação do Grand Tour entre as elites

europeias, o ato de viajar não constituía, em si mesmo, um fim valorizado pela sociedade

(URRY, 2001:43). Sob este prisma, as viagens adquirem um signo de diferenciação social e o
comportamento itinerante do ser humano ganharia novos parâmetros de análise desde então. O
próprio estudo do turismo moderno, enquanto prática social relevante, estabelece seu marco
inicial a partir do Grand Tour que, por sua vez, foi a origem etimológica da palavra “turismo”
através do vocábulo “tour” que significa “volta, viagem ou movimento de sair e retornar ao local
de partida.” (ANDRADE, 1998:24).
21

Figura 01 - Gravura de Roma no século XVIII


Feita por Giuseppe Vasi, mostra os primórdios de um city-tour feito por aristocratas ingleses durante
o Grand Tour – Fonte: Site Imago Urbis.

Cabe também afirmar que o Grand Tour, além de traduzir status social, por conta de
seus altos custos, adquiriu uma conotação de “viagem de descoberta ou de formação”8,
estabelecendo portanto uma sólida base histórico-cultural ao despertar da atividade turística. Ao
priorizarem visitas a locais de grande valor histórico e artístico tendo por linha mestra a história
da arte clássica e de sua re-leitura via Renascença italiana, os grand tourists criaram o heritage
tourism9, cujo termo mais aproximado em português seria turismo histórico ou turismo
patrimonial e que é a base do guia sugerido em meu trabalho.

O Nascimento do Turismo Moderno

Ao longo do século XIX, a Revolução Industrial trouxe extraordinárias inovações


tecnológicas que deram um novo grande impulso ao turismo, principalmente aquelas no
campo dos transportes e das comunicações. “A máquina a vapor e a eletricidade (...)
transformaram a viagem de um ‘transtorno’ em um prazer” (RIFKIN, 2001 apud BARBOSA,
2002:50). Dessa forma, a substituição das trepidantes carruagens e dos imprevisíveis navios a
vela por trens e navios à vapor trouxe muito mais conforto, rapidez e segurança para as

8
Essa premissa tem grande influência dos conceitos iluministas em voga no período que preconizavam a busca da
erudição e do conhecimento através do acesso a “alta cultura” cujas origens remontavam às civilizações greco-
romana.
9
A tradução mais próxima para heritage seria legado cultural e a palavra tem sido comumente usada para tratar dos
aspectos tangíveis e intangíveis relativos a um patrimônio histórico-cultural de uma comunidade.
22

viagens. Estas vão, aos poucos, perdendo a aura aventureira e romântica do Grand Tour e
aderindo ao racionalismo do modelo capitalista através do turismo de massa, surgido na 2ª
metade do século XIX.
Para essa transição ocorrer, alguns empreendedores pioneiros foram fundamentais ao
criarem um modelo de negócio lucrativo e cuja operação pudesse ser projetada em larga escala.
O mais famoso deles foi o inglês Thomas Cook (1808-1892) que, ao fretar um trem em 1841
para transporte de 570 pessoas que também compraram através dele o alojamento e alguns
serviços locais10, criou dois itens essenciais para o turismo de massa : o pacote turístico e a
excursão em grupo. Tal evento, “ao ser comercializado, inaugurou o turismo como uma
atividade organizada e lucrativa.” (IGNARRA, 1999)

Figura 02 - Cartaz publicitário de 1907


Anúncio de viagem ao redor do mundo, destacando os trens e navios a vapor, marcos iniciais do
turismo como indústria. Fonte: Gregory, Alexis. The Golden Age of Travel. New York: Rizzoli, 1991.

A partir daí, Thomas Cook passou a organizar inúmeras viagens de lazer ou para
eventos, todas em grupo, na Inglaterra e na Europa. Em 1851, fundou a Thomas Cook & Son, a
1ª agência de viagens do mundo e continuou sua trajetória bem sucedida atendendo a membros

10
Segundo Ycarim Barbosa no seu livro História das Viagens e do Turismo, este trem fretado por Cook partiu de
Leicester em um percurso de cerca de 18 kms até Lougborough no sul da Inglaterra onde todos os passageiros
participaram de um congresso antialcoólico.
23

da burguesia, basicamente em viagens internacionais de cunho cultural11, e a famílias


proletárias em viagens de lazer. De fato, a ascensão econômica da classe trabalhadora teve um
papel determinante no extraordinário sucesso de seus feitos, cujo um dos principais foi ter
apontado as viagens como alternativa à freqüência de trabalhadores aos pubs nos quais
costumavam se embriagar após a jornada de trabalho ou nos períodos de férias cujo direito
havia sido recém adquirido (WITHEY, 1997 apud BRAGA, 2008:05).

Figura 03 - Capa de The Excursionist


1ª revista de turismo do mundo, editada pela agência de viagens Thomas Cook and Son destacando o
patrimônio arquitetônico de vários países. Fonte: Gregory, Alexis. The Golden Age of Travel. New
York: Rizzoli, 1991.

É nesse momento histórico em que as viagens passam a ser consideradas uma opção de
lazer, em relação a jornada de trabalho, que poderemos considerá-las transmutadas em turismo
moderno passando a ser organizadas por terceiros e realizadas com frequência regularizada.
Segundo Castro, estas mudanças na estrutura da viagem que dão origem ao turismo como uma
forma de negócio podem ser resumidas assim:
11
Segundo Ycarim Barbosa no seu livro História das Viagens e do Turismo, os pacotes em grupo internacionais de
maior sucesso lançados por Thomas Cook remetiam a itinerários culturais do Grand Tour como Paris e Sul da
França ou Itália, agora em versão bem mais compacta em termos temporais. Um dos que mais fez sucesso e que se
tornou marca registrada de sua agência foi o tour chamado “Egito e Terra Santa” que destacava as visitas a Jerusalém
e às pirâmides egípcias com direito a um cruzeiro pelo Rio Nilo.
24

A gênese do turista como um tipo social está relacionada a


processos culturais mais amplos. Para que a idéia de viajar por prazer
vingasse no imaginário ocidental, foi preciso que uma série de mudanças
estéticas e intelectuais fossem sendo gradativamente desenvolvidas: a
valorização da natureza, a “descoberta” das paisagens e de cenas
“pitorescas”, a noção de lazer como forma de relaxar do stress da vida
moderna e a ascensão do individualismo, entendido como processo
histórico que generalizou a moderna concepção de indivíduo, ser dotado
de uma subjetividade em alguma medida descontínua em relação à
sociedade. Tudo isso também está relacionado aos fenômenos de
urbanização, industrialização, mudança nas condições de trabalho e
desenvolvimento do capitalismo.(...) O surgimento dos agentes de viagem,
a construção de ferrovias e de hotéis modernos possibilitou a
transformação do Grand Tour que os jovens aristocratas ingleses faziam
desde o século XVI numa oportunidade aberta a um número cada vez
maior de pessoas. Desse modo, gradativamente nasceu o que hoje
conhecemos como a “indústria” do turismo (CASTRO, 2001:80).

A propósito, o crescimento acelerado do turismo como negócio no final do século XIX


teve um de seus vértices na absorção da ascendente classe proletária pelo mercado, associada a
outros dois fatores. O primeiro foi a invenção da “praia” como um espaço valorizado de saúde,
recreação e lazer (KRIPPENDORF 1989:54), fato bem explorado pelos incipientes balneários
ingleses da época. O segundo foram as famosas exposições internacionais ou universais que
repetiam-se de 4 em 4 anos em diferentes cidades européias ou norte-americanas, atraindo
milhões de visitantes para os pavilhões de diferentes nações que expunham o melhor da sua
produção artística, cultural, industrial e científica.12

12
Somente para a 1ª Grande Exposição Universal de Londres, a agência Thomas Cook & Son transportou mais de
165 mil turistas ingleses entre maio e novembro de 1851.
25

Figuras 04 - Cartaz da Exposição Universal de Paris em 1889


quando foi inaugurada a Torre Eiffell

Figuras 04 - Pôster publicitário de hotel em balneário francês


Feito no final do século XIX. Fonte: Gregory, Alexis. The Golden Age of Travel. New York:
Rizzoli, 1991.

Seguindo os moldes de Thomas Cook, as agências de viagens tornam-se prósperos


empreendimentos em muitos países do hemisfério norte na 2ª metade do século XIX. No
entanto, o denominado “turismo de massa” ou “turismo industrial” só teve seu auge no século
XX à medida em que diferentes países institucionalizaram as férias remuneradas, inaugurando o
direito do trabalhador ao ócio turístico e trazendo uma nova noção ao conceito de lazer na
sociedade (MOLINA, 2003; OMT, 2003).
O início do século XX foi marcado por expressivas evoluções técnicas nos meios de
transporte que também foram determinantes para o advento do turismo de massa. Nos anos
26

1910, as companhias de navegação já comercializavam cruzeiros marítimos em luxuosos


transatlânticos, alguns com capacidade para mais de 2.000 passageiros. No campo da aviação, a
I Guerra Mundial (1914-1918) foi catalisadora de grandes avanços aeronáuticos que
contribuíram para o surgimento das primeiras companhias aéreas comerciais nos anos 1920.
Todavia, viajar , tanto em poltronas de avião quanto em cabines de navio, ainda era um
privilégio da elite burguesa. Isso começou a mudar quando os avanços tecnológicos atingiram
o transporte rodoviário (ônibus, automóveis, estradas asfaltadas) a partir dos anos 1920,
incrementando as possibilidades de viagem para a classe média, além de contribuir para a
criação dos primeiros roteiros turísticos padronizados.

Figura 06 - Anúncio publicitário de 1927


Todo o conforto e a moderna tecnologia dos novos ônibus, ideais para o início do turismo rodoviário
em grupo Fonte: Gregory, Alexis. The Golden Age of Travel. New York: Rizzoli, 1991.

A Indústria sem Chaminés

Após a II Guerra Mundial (1939-1945), houve um processo de democratização das


viagens na Europa e América do Norte que, paulatinamente, tornaram-se acessíveis para
quase todas as classes sociais. Nesse período, marcado pelas viagens internacionais, o
turismo também deu início a sua expansão global, caracterizada por três vertentes: viagens em
busca de lazer e descanso, viagens de negócio e viagens culturais.
27

Até a década de 1950, o turismo era um tipo de negócio


fragmentado - hotéis, companhias de transporte e agências de viagens
tendiam a trabalhar de forma independente (LICKORISH, 2000:10).

O crescimento da indústria de aviação comercial e o


desenvolvimento da era dos jatos nas décadas de 1960 e 1970
determinaram a acelerada expansão das viagens internacionais. Esse
crescimento conduziu ao desenvolvimento de uma nova indústria, o turismo
(THEOBALD, 1997 apud BARBOSA, 2002:66).

Foi nessa transição de uma fase pré-industrial para outra industrial ou de massa que
o turismo converteu-se em um bem econômico ligado ao setor terciário (serviços) e
controlado por empresas de transporte, redes hoteleiras e agências de viagens. Com base no
crescimento econômico global, na modernização dos meios de transporte, no processo mundial
de urbanização, na relativa estabilidade político-social dos países emissores e receptores e
na entrada dos trabalhadores na sociedade de consumo, nasce assim o turismo contemporâneo.
(FUSTER, 1991 apud PÉREZ, 2009:20)

O turismo de massa coloca a produção turística como um dos


negócios mais rentáveis e de maior crescimento sustentável das últimas
décadas. (...) a concepção simples de espaços emissores e receptores torna-
se complexa e exige estudos mais profundos (CASTROGIOVANI, A ;
GASTAL, S., 1999:6).

Observamos, portanto,um fenômeno que vem a representar “a maior indústria do


mundo e o principal deslocamento humano em tempos de paz na história da humanidade” (OEA,
2008). Entretanto, este gigantismo atingido pelo turismo, sem uma devida planificação, traz
consequências que podem ser mensuradas, por exemplo, nas preces da seguinte oração criada
pela Igreja Ortodoxa grega, no auge da massificação do turismo no país durante a década de
1980:
28

Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tende piedade das cidades, das
ilhas e dos povoados desta Pátria Ortodoxa, assim como dos santos
monastérios que vêm sendo assolados pela onda turística mundial. (...)
Concede-nos a graça de uma solução para este dramático problema e
protege aos nossos irmãos submetidos a uma dura prova pelo espírito
modernista destes invasores ocidentais contemporâneos. (CRICK, 1993
apud PEREZ, 2009: 2)

Circulando por entre visões “idílico-mercadológicas” perpetuadas por seus defensores


e teorias semi-apocalípticas perpetradas por seus detratores, as análises sobre o turismo
sempre tiveram dificuldade em situá-lo em meio a teorias econômicas, sociológicas ou
antropológicas. Tratá-lo tão somente pela ótica econômica traz uma série de contra-indicações
acadêmicas, pois o turismo contemporâneo produz consequências que transcendem em muito
as esferas de geração de renda, de balança comercial ou de taxa de desemprego dos países.
Antes de ser um fenômeno econômico, “o turismo é uma experiência social que envolve
pessoas portanto, um fenômeno de natureza social, cultural e ambiental” (GASTAL, 2002),
que desenvolve-se no tempo e no espaço de forma, muitas vezes, imprevisível, sendo,
por isso, objeto de amplas investigações acadêmicas na atualidade.
Nessa perspectiva, a atividade turística deve ser compreendida enquanto um sistema
inter-disciplinar, complexo e adaptável, uma vez que “sua evolução e ramificações tornaram-
se imprevisíveis, apresentando vários centros simultaneamente autônomos e interdependentes e
pelos quais cresce, transborda e se reproduz.”( DELEUZE e GUATTARI, 1999 apud
BARRETTO, 2009: 12). Essa característica multidisciplinar do turismo faz com que sua
classificação tenha ganhado uma vasta gama de nuances por diferentes autores. Como já
mencionado, Tribe considera o turismo uma indisciplina (1997) e Coles e Timothy (2004)
referem-se a uma pós-disciplina que demanda, antes de qualquer exame, um esforço conjugado
de vários campos de conhecimento onde se destacariam como protagonistas os seguintes:
economia, geografia, antropologia, sociologia, história e arqueologia.
Essa porosidade disciplinar aliada ao seu desenvolvimento multifacetado foram fatores
que inspiraram Augé a definir o turismo como “um fato social total e um emblema da
contemporaneidade” (1997) e também foram desafios para os primeiros cientistas sociais que
focaram seus estudos no turismo entre as décadas de 1960 e 1970. A partir da década de 1980, o
turismo passou a ser um objeto mais valorizado em termos acadêmicos e o número de
pesquisadores dispostos a desenvolver reflexões sobre este fenômeno e seus efeitos no âmbito
29

sócio-cultural cresceu bastante porém, a maior parte, ainda impregnada de influências


economicistas. Moesch (2002) observa que “o conhecimento sobre o turismo, no âmbito de
produções acadêmicas, ainda é pouco e restrito às informações e às sistematizações do setor
produtivo, o que evidenciaria a presença de um saber-fazer e a ausência de um fazer-saber.”

1. 2 – TURISMO CULTURAL – REFLEXÕES E DILEMAS

“A cultura permeia todos os segmentos do turismo (...) já se disse


mesmo que o turismo é um transe cultural. Qualquer que seja o motivo da
viagem, haverá sempre um elemento cultural a ser consumido dentre toda
a produção associada ao turismo: a gastronomia, a arte, o artesanato ou
outros produtos locais, as paisagens naturais e culturais do receptivo, suas
festas e celebrações, a música ao vivo nos bares e a cultura viva presente
nas ruas”. (MYANAKI, LEITE, CÉSAR e STIGLIANO, 2007 : 27)

Sendo uma das indústrias que crescem de forma mais acelerada no planeta, o setor do
turismo é diretamente responsável por 5% do PIB mundial, por 6% do total das exportações e
gera empregos diretos para uma em cada 12 pessoas em economias avançadas e emergentes.
Estes são dados divulgados pela Organização Mundial do Turismo (OMT ou UNWTO, na
sigla em inglês)13, que também ressalta que aproximadamente 980 milhões de turistas se
deslocaram em viagens internacionais em 2011, acima dos 939 milhões registrados em 2010, e a
previsão para 2020 é que o turismo internacional transporte 1,6 bilhão de pessoas.
Segundo outros dados apresentados no anuário estatístico de 2012 da OMT, 37% das
viagens foram motivadas por questões culturais, o que representa cerca de 362 milhões de
“viajantes culturais”. Estes dados estatísticos apresentam uma definição muito ampla e
genérica de turismo cultural, mas “investigações da ICOMOS14 demonstram que o turista que
viaja por motivações estritamente culturais está entre 5 e 8% do total do mercado turístico”

13
A Organização Mundial de Turismo (OMT) é uma agência especializada da ONU e a principal organização
internacional no campo do turismo. Com sede em Madri, na Espanha, funciona como um fórum mundial de
discussão da política do setor e de promoção do turismo responsável, acessível e sustentável, de forma que este
possa ser uma ferramenta eficaz de desenvolvimento econômico dos países. A OMT é composta por 155 países,
7 territórios e cerca de 400 membros afiliados do setor privado, instituições educacionais, associações e
autoridades locais de turismo.
14
Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (International Council on Monuments and Sites)
30

(RICHARDS, 2004: 7), o que representaria em 2011, a partir dos dados levantados pela OMT,
um universo de 50 a 78 milhões de turistas culturais em viagens internacionais.
Tais números reforçam a conclusão de que as motivações para se viajar sofreram
mudanças significativas nas últimas décadas e apontam para novos modelos de turismo, além
do padrão “sol e praia”, que estão em ascensão. Ao contrário do turismo de massa, o turismo
cultural procura despertar o interesse pela história, arquitetura, produção artística, música,
culinária, enfim , por todos os elementos do patrimônio material e imaterial do destino
turístico, atraindo viajantes com uma postura que se baseia na valorização de costumes
e tradições locais. Essa nova realidade tem gerado pressão nos setores públicos e privados
envolvidos no planejamento turístico dos destinos, impondo a projeção e operação de novos
produtos (MOLINA, 2003).
Os principais trabalhos de pesquisa sobre turismo apontam o turismo cultural, em
conjunto com o eco-turismo, como as mais fortes tendências do mercado no início do século
XXI. A chegada desse “novo turista”, não mais como espectador, mas como “ator do cenário”,
que busca uma participação mais aberta e efetiva na cultura local, é determinante para
estabelecer-se uma vivência mais aprofundada e “autêntica” do lugar (AVIGHI, 2001).

Este tipo de turista respira mundos diferentes dos seus, é


curioso e alia novas experiências até mesmo educativas com prazer.(...)
Estão interessadas em consumir um estado de espírito e não coisas
materiais. O viajante de vanguarda busca realização interior e dá ênfase
ao meio-ambiente e à compreensão da cultura e da história de outros
lugares, quer conhecer povos e enriquecer culturalmente. (AVIGHI,
2001:102)

O perfil deste viajante pós-moderno não mais se caracteriza pela necessidade de


recuperação da fadiga originada pelo trabalho e pelo isolamento no que Urry (2001) chama de
“bolhas ambientais”, já que desfruta de sua viagem quase sem precisar sair do ônibus ou do
hotel. Esse consumidor contemporâneo de turismo, agora, “justifica suas viagens pelo contato
com outras culturas, com outras formas de entender o mundo, em especial no âmbito das
cidades.” (GASTAL, 2002: 9)
Ted Silberbeg (apud PIRES, 2002: 67) resume o conceito de turismo cultural como o
seguinte: “visita de pessoas de fora da comunidade receptora motivadas completamente
ou em parte por interesses na oferta histórica, artística, científica ou no estilo de vida,
31

tradições da comunidade, religião, grupo ou instituição”. Nessa ótica, fica patente que não
é necessário haver interesse específico em algum aspecto cultural do destino turístico para
que o visitante seja classificado como turista cultural. De fato, durante uma viagem,
normalmente se deseja fazer tantas coisas quanto o tempo permitir e houver facilidades
para isso, ou seja, os turistas podem terminar por visitar atrações culturais, caso tais
atrativos sejam oferecidos de forma facilitada.” (MCKERCHER e DU CROS, 2002 apud PIRES,
2007: 28). Nesse sentido, os guias de viagem, como o proposto nesse trabalho, são os “facilitadores”
mais acessíveis e tradicionais para os turistas travarem um contato mais profundo com a cultura local.
Cabe frisar que, mesmo não sendo considerado o motivo principal da viagem, vários
autores como Barretto (2000), Pires (2002) e outros já mencionados neste texto,
concordam que o turismo é sempre um ato cultural, independente de sua classificação, à
medida que o “ato de viajar é sempre entrar num universo que é do outro” ( PIRES, 2002: 69).
Considerando esta premissa, podemos deduzir que existe um componente comum a todas as
viagens que é a curiosidade do ser humano em relação a um ambiente que não seja o próprio.

O turismo cultural (...) está ligado a algo que sempre tem existido,
a curiosidade, isto é, o interesse dos sujeitos pela “formação”, pela
estética, pelo patrimônio cultural e a criação cultural de outros países.
(PEREZ, 2009:5)

Reiterando este ponto de vista, Haulot (1992 apud Sales 2006: 110) observa que
“qualquer forma de turismo não pode ser desvencilhada da cultura, uma vez que esta se
encontra no centro das motivações que levam ao deslocamento de milhões de pessoas e
sem a qual haveria apenas uma caricatura e não um turismo verdadeiro”. Por outro lado, a
cultura já não poderia também ser concebida sem o turismo, à medida que este teria se
convertido em um elemento essencial na formação da sociedade contemporânea.

Criativos ou Destrutivos

Nessa mesma linha de busca de sentido para o turismo cultural devemos incluir
também, o efeito do encontro entre anfitriões e visitantes, já que o dinamismo presente nas
interações culturais incita o aparecimento de formas híbridas de relações sociais, que, por
outro lado, são características do fenômeno turístico. Vários autores defendem que essa sinergia
entre o pólo receptor e seus visitantes tornou-se um valor agregado inerente ao turismo cultural.
32

O contato entre turistas e residentes, entre a cultura do turista e a


cultura do residente, desencadeia um processo pleno de contradições,
tensões e questionamentos, mas que sincrônica ou diacronicamente,
provoca o fortalecimento da identidade e cultura dos indivíduos e da
sociedade receptora e, muitas vezes, o fortalecimento do próprio turista
que, na alteridade, se redescobre. (BANDUCCI JR, 2001 :19)

Essa faceta da experiência turística, capaz de promover, via alteridade, um reforço


identitário entre as partes envolvidas tem sido considerada tão relevante em alguns estudos sobre
o desenvolvimento sustentável do turismo , que já ganhou direito a uma definição “pós-cultural”:
o turismo criativo. Esta forma de abordagem do turismo cultural, que valorizaria “mais praças e
menos museus”15, já está sendo discutida em conferências e congressos sob a chancela ou
cooperação da UNESCO, conforme a defesa feita por um de seus delegados:

O “Turismo Criativo” deve ser considerado como uma nova


geração do turismo. A primeira geração teria ligação com o “turismo de
sol e praia” quando os turistas procuram lugares para relax e lazer. A
segunda seria a do “turismo cultural” orientada para museus e tours
culturais. O “Turismo Criativo” envolve uma maior integração em termos
educacionais, emocionais e sociais com a localidade e as pessoas que lá
vivem. Os turistas devem se sentir como cidadãos.16

Pelas palavras acima podemos perceber uma certa idealização da atividade turística, o
que torna o conceito de turismo criativo ainda digno de controvérsias, inclusive semânticas.
Mesmo assim, embora ainda não tenha sido empregado de forma oficial pela UNESCO, aponta
para algumas veredas para as quais o turismo cultural está se encaminhando. Caminhos estes

15
Retirado do relatório “Towards Sustainable Strategies for Creative Tourism” de 2006 desenvolvido como estudo
preparatório para a Conferência Internacional de Turismo Criativo realizado em Santa Fé nos Estados Unidos em
2008 patrocinado pela comissão Creative Cities Network da UNESCO. Disponível na internet
16
Idem. Tradução minha para o seguinte original em inglês: “Creative Tourism” is considered to be a new
generation of tourism. One participant described his perspective that the first generation was “beach tourism,” in
which people come to a place for relaxation and leisure; the second was “cultural tourism,” oriented toward museums
and cultural tours. “Creative Tourism” involves more interaction, in which the visitor has an educational, emotional,
social, and participative interaction with the place, its living culture, and the people who live there. They feel like a
citizen.”
33

que, por uma série de razões, sempre foram o principal mote de defesa do turismo cultural em
muitas localidades desestruturadas pelo turismo massificado.

Em primeiro lugar, porque o número de turistas é pequeno (...).


Em segundo lugar são pessoas que procuram um contato autêntico com os
moradores locais, e são, acima de tudo, consumidores de um estado de
espírito e não de coisas materiais e “(...) levam para casa mais a
lembrança do momento vivido do que uma peça para colocar na estante da
sala para que os amigos vejam a prova concreta da viagem” (BARRETTO,
2000:27).

As formas de envolvimento de turistas culturais e de turistas de massa com as


comunidades locais sempre foram bastante diferenciadas. Erik Cohen (apud BARRETTO, 2000;
2007) , um dos pensadores pioneiros sobre a prática social do turismo, na tentativa de tornar o
fenômeno menos difuso criou uma tipologia para os turistas tendo como parâmetros suas
motivações e outros elementos formais como duração e frequência das viagens. Sua classificação
possui variações e ramificações e numa delas ele divide os turistas em dois grupos básicos: os
Peregrinos Modernos e os Buscadores de Prazer. Para o autor, os primeiros “procuram
modos de vida alternativos, autenticidade, contato com as culturas visitadas”, enquanto que os
segundos, pelo contrário, buscam “apenas fugir de seu cotidiano em lugares que ofereçam
muitos equipamentos recreativos e onde haja possibilidade de relaxamento físico”. Inseridos no
universo dos turistas de massa, os Buscadores de Prazer são os que mais agridem a
natureza e os que têm menos contato com os moradores da região. A razão disso não está
diretamente ligada ao seu nível econômico, mas principalmente ao seu nível cultural. Este tipo de
“turista é visto pela população local apenas como um fator de produção, um capital ambulante,
um portador de dinheiro com o qual tudo se comercializa, até o sorriso” (BARRETTO,
2000:23).
Nesse ponto da discussão, chega-se ao maior dilema da relação entre turismo e cultura,
aquele que permeia a maior parte dos estudos no gênero: o processo de mercantilização turística
dos bens culturais. A questão da transformação do patrimônio cultural em um item de consumo
ou entretenimento tem sido uma prática dominante nos últimos anos tanto nos pólos turísticos
mais procurados como nas localidades candidatas em também sê-lo.
34

Como toda forma de turismo, o turismo cultural inclui o


consumo de produtos e experiências, havendo aí a distinção entre
bem cultural, identificado pelo valor que possui para a comunidade e
produto turístico cultural que seria o bem cultural modificado para o
consumo do turista, que, como todo consumidor, necessita ter
suas necessidades e expectativas devidamente atendidas. (MCKERCHER
e DU CROS, 2002 apud Sales 2006: 110)

Menezes (2006) reitera que as relações entre turismo, cultura e sociedade são
diversificadas, e observa que “cada local responde de maneira diferente aos desafios do
turismo tendo como bússola sua própria história, sua cultura e o tipo de turismo que deseja
implantar”. Nesse sentido, a ressalva levantada por Perez é primordial:

O turismo cultural pode e deve estar ao serviço da conservação e


valorização do patrimônio cultural, mas também pode acontecer o
contrário, isto é, o patrimônio cultural cria-se em função dos interesses
mercantis, e é com esse objetivo que é explorado. Aqui os riscos são o
abuso, os impactos negativos e a própria perda do patrimônio cultural.
Neste sentido as políticas deveriam ser orientadas desde uma perspectiva
de equilíbrio entre o turismo cultural e o patrimônio cultural (PEREZ,
2009:13)

A verdade é que, na sua relação com o patrimônio cultural, a indústria turística pode
apresentar-se como um meio ou como um fim. A diferença entre ser uma atividade ou a
atividade é o fator dialético que está no cerne de todos os conflitos entre patrimônio cultural
e turismo. É sobre esta dualidade que nos debruçaremos no capítulo seguinte.

1.3 – PATRIMÔNIO CULTURAL e ATRAÇÃO TURÍSTICA : UMA


RELAÇÃO COMPLEXA

“O patrimônio cultural é o sangue que dá vida ao turismo.”


(BONIFACE e FOWLER, 1993 apud PEREZ, 2009 : 162)
35

Propositalmente, a frase de Boniface e Fowler utilizada na abertura deste capítulo


carrega um duplo sentido em sua metáfora “sanguínea”. Afinal, as estratégias desenvolvidas no
trato com o patrimônio histórico-cultural de uma sociedade, tomando-o primordialmente como
uma atração turística, podem ser consideradas exemplos de algum tipo de “vampirização
cultural” que vai sugar a legitimidade dos legados culturais locais ou, no sentido oposto, servir
como um tipo de “transfusão econômica” que vai garantir a manutenção e valorização dos
mesmos ?
As tensões e conflitos gerados por essa visão dicotômica da relação entre turismo e
patrimônio, embora minorados em prol de uma ótica mais integrada tão em voga nas políticas
turístico-culturais atuais, estão presentes na maior parte das discussões acadêmicas a respeito
do tema.
A proposta levantada por Barretto pressupõe o turismo cultural como um agente capital
na transformação de um bem protegido ou tombado em um bem com utilidade social e
viabilidade financeira, e defende que:

(...) cidades e prédios históricos, monumentos e manifestações


culturais tradicionais sejam tratados de forma responsável como
componentes do produto turístico, assim como o turismo seja um estímulo
à manutenção da identidade das populações receptoras. (BARRETO, 2000
: 32)

Entretanto, esta posição ainda encontra muitos antagonistas que assinalam que as
fronteiras entre turismo e turismo cultural tendem a ser dissolvidas e, por isso, levantam
questões sobre esta visão mais mercantilista da cultura. Murphy (apud BARRETTO,
2000:31) nos previne quanto ao crescimento desordenado do turismo e à ignorância em
relação aos problemas que poderão ocasionar no futuro, próximo ou distante, provocando
danos, às vezes irreversíveis, ao meio ambiente e às culturas. A crítica concentra-se no fato do
“turismo, cultural ou não, reduzir os povos e sua cultura a produtos para o consumo,
transmutando-os em cenários e acarretando em desajustes na comunidade receptora”.
36

Do cotidiano ao exótico e excêntrico, a diversão está em ver e


experienciar. A forma como as pessoas moram, compram, comem, bebem,
divertem-se e rezam passa a ser objeto de consumo e compõem um cenário
completo para o turismo. (...) No rastro do consumo cultural emergem
todos os folclores, as etnias, as artes e artesanatos, as formas de
manifestações culturais e uma proliferação de museus temáticos, que vão
da moda ao brinquedo, das altas tecnologias de informação à arte
sacra. (VARGAS e CASTILHO, 2006: 266)

Nesse sentido, o patrimônio perderia vigor no que tange à sua significação na história
ou na identidade local e passaria a ser mais valioso enquanto mercadoria que pode ser vendida
como atrativo turístico. Com essa funcionalidade, para alguns autores, pelo menos ele ainda teria
condições de existência. Posicionando-se pragmaticamente a respeito, Barretto (2000: 32),
referindo-se ao patrimônio histórico, defende que “é preferível tornar-se um bem de consumo
“ao lento, mas inexorável, processo de destruição dos bens culturais.”
Reforçando esta ideia, Murta (2002:135), considera que a atividade turística deve ser
vista “(...) como um meio de arrecadar recursos para a manutenção de sítios históricos e
manifestações culturais, bem como um instrumento de informação do público visitante”. Como
reiterado por Barretto (2000:17) “a ideia não é manter o patrimônio para lucrar com ele, mas
lucrar com ele para conseguir mantê-lo.” No mesmo diapasão, Pires (2002:47), diante da
precariedade de verbas públicas no setor cultural, indaga se “dentro do processo de globalização
instaurado, ainda existe alguma manifestação humana capaz de não se transformar, de alguma
forma, em um bem de consumo.”
Para outros estudiosos do tema, este discurso de conversão dos bens culturais em atrações
turísticas trata-se de um abuso retórico que busca blindar o turismo cultural através de
metáforas de salvação de áreas com algum nível de declínio. É o que Ribeiro (2004 apud
Perez 2009:130) qualifica como “ideologia do turismo”, isto é, uma avaliação, que já faz parte
do senso comum, de que o turismo vai trazer desenvolvimento e divisas ( monetárias,
econômicas e culturais) de forma contínua e, por isso, deve ser prioritário sobre outras estratégias
de política cultural em uma cidade ou país.
Sustentando a validade desse ponto de vista, Moletta (1998) leva em consideração os
casos de Ouro Preto, Parati e Olinda para conjecturar sobre o estado de abandono em que as
cidades históricas no Brasil se encontravam antes de terem se transformado em atrativo
turístico. Só assim puderam assistir à “valorização e revitalização do seu patrimônio histórico
37

em conseqüência do turismo cultural e vice – versa”. Essa questão da reforma do patrimônio


arquitetônico, tendo por argamassa simbólica o turismo, encontra muitos argumentos
desfavoráveis. Os dois mais mencionados dizem respeito à :

1. Especulação imobiliária : A valorização do entorno “expulsa” os habitantes


originais do núcleo histórico que também devem ser “renovados” por agentes mais
convenientes ao trato mercantil do turismo como pousadas, albergues, restaurantes,
lojas de souvenirs com seus proprietários e gestores, muitas vezes, forasteiros na
localidade.

2. Descaracterização do patrimônio : No caso de projetos de restauração, sejam eles


oriundos da iniciativa governamental ou privada, onde não são respeitadas as
características originais do espaço, por desconhecimento ou por critérios mais
adequados a padrões estéticos mais globais.

Neste contexto, o que está a acontecer é uma tematização


histórica e artística dos chamados centros históricos que, talvez em
alguns casos possamos chamar de “centros histéricos”, devido à
sobrecarga de turistas, lojas de souvenirs, restaurantes e pubs.
(DELGADO, 2002 apud PEREZ, 2009: 128)

Esta transfiguração do local em benefício do global propicia a conversão das paisagens


urbanas em simulacros para o turismo, em belos cartões postais. Este dilema apresenta-se
para Jeudy (2005:103) da seguinte forma: “Como acentuar o poder simbólico de um
espaço sem correr o risco de banalizá-lo? As reordenações urbanas se parecem cada vez
mais, e essa equivalência gera um prejuízo para a singularidade dos locais”. Na verdade, o que
os turistas culturais buscam é o diferencial, os fatores que singularizam um local e um povo, e
não padrões globalizantes.

Cartas, Códigos e Políticas

Essa complexa relação entre turismo e patrimônio cultural já faz parte de uma agenda
histórica de debates e reuniões envolvendo governos , entidades internacionais e organizações
não governamentais desde a década de 1970. Uma das ressalvas mais valiosas da
convenção de Patrimônio Mundial da UNESCO - Organização das Nações Unidas para a
38

Educação, a Ciência e a Cultura17, foi advertir que o patrimônio histórico-cultural sempre estará
sujeito a ameaças de destruição, tanto pela deterioração normal em função de fatores naturais
ou em decorrência de guerras e conflitos armados, mas, substancialmente no final do século XX,
por mudanças nas condições sócio-econômicas dos países que agravariam a situação, dentre as
quais surge em destaque o turismo de massa. Na linha de avaliação feita no período, podemos
perceber como a questão do turismo, potencialmente comparado a guerras civis e tsunamis, já
havia se tornado central em qualquer discussão envolvendo bens culturais.
Apesar dos esforços iniciais para o desenvolvimento de uma política mais integrada
entre os setores de turismo e cultura, a verdade é que os agentes tanto da área de produção
cultural como de preservação de cultura tendiam a menosprezar os turistas porque
percebiam-nos ainda, na sua maioria, como superficiais, invasivos e com pouco interesse
pelos sítios culturais visitados. Isto só começou a mudar nos anos 1990, quando tornou-se
premente a criação de pontes entre os dois campos.
Essa premência ligada às demandas políticas e sociais do período fizeram com que a
OMT - Organização Mundial do Turismo- elaborasse seu Código Mundial de Ética do
Turismo18 (cópia em anexo) cujo texto defende a ideia de que o turismo deve ser um símbolo
“da paz e da amizade e compreensão entre os povos”, mesmo considerando-se que isto não seja
sempre factível devido aos conflitos gerados por conta do próprio turismo. O código da OMT
está dividido em 10 artigos abrangendo vários temas levantados nessa dissertação:

1. Contribuição do turismo para o entendimento e respeito mútuo entre homens e


sociedades.

2. O turismo, instrumento de desenvolvimento pessoal e coletivo.

3. O turismo, fator de desenvolvimento sustentável.

4. O turismo, fator de aproveitamento e enriquecimento do Patrimônio Cultural da


Humanidade.

5. O turismo, atividade benéfica para os países e as comunidades de destino.

17
A UNESCO propõe promover a identificação, proteção e preservação do patrimônio cultural e natural,
considerado especialmente valioso para a humanidade. Este objetivo está incorporado em um tratado
internacional denominado Convenção sobre a Proteção do Patrimônio Mundial Cultural e Natural, aprovada em
1972 -.http://www.unesco.org.br
18
O Código Mundial de Ética do Turismo foi elaborado pela OMT em 1999 e é utilizado por várias entidades
públicas e privadas como uma referência para o desenvolvimento sustentável e responsável da atividade no âmbito
mundial.
39

6. Obrigações dos agentes do desenvolvimento turístico.

7. Direito ao turismo.

8. Liberdade de deslocamento turístico.

9. Direitos dos trabalhadores e dos empresários do setor turístico.

10. Aplicação dos princípios do Código Ético Mundial para o Turismo.

Em seu artigo 4- Turismo, fator de aproveitamento e enriquecimento do Patrimônio


Cultural da Humanidade- a entidade aponta algumas medidas que facilitariam a cooperação
entre as áreas do turismo e da cultura e que foram divulgadas no Brasil através do Ministério do
Turismo. Dentre as principais, poderíamos citar 19:

 Considerar que o Turismo Cultural baseia-se na cooperação mútua -


sem a cultura ou o turismo, o segmento não existe.

 Considerar que cada setor possui uma linguagem própria - o


vocabulário empregado no setor cultural não é habitual no turístico e vice-
versa.

 Disponibilizar tempo suficiente para que as duas áreas se conheçam


bem, antes de realizarem atividades de cooperação.

 Cada uma das partes deve respeitar os objetivos, as necessidades e


as condições da outra parte em relação a determinado assunto.

 Preparar atividades coletivas, de promoção ou outras produções em


equipe, criando um sentimento comum de pertencimento.

 Considerar as diferentes funções e áreas de especialização dos


dois setores - em um evento cultural, a produção é da cultura e a
divulgação turística ao setor de turismo.

 Considerar a necessidade de um planejamento efetivo entre as duas


áreas, considerando os prazos de execução de atividades.

19
As orientações sugeridas constam no projeto nomeado “Segmentação Turística” que faz parte do Programa de
Regionalização do Turismo e foi desenvolvido pelo Ministério do Turismo em conjunto com o Ministério da
Cultura e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN,
40

 Envolver profissionais que conheçam e dialoguem com as duas


áreas.

(MTUR, CADERNO DE SEGMENTAÇÃO/ TURISMO


CULTURAL, 2010:32)

Na busca por uma cooperação mais estreita entre as entidades representativas do


turismo, por um lado, e as de proteção do patrimônio, por outro, em prol de uma integração dos
valores culturais nos propósitos sociais e econômicos da planificação dos recursos de países,
estados ou comunidades locais foram legitimadas outras cartas de intenção ou tratados nos
moldes mais específicos da elaborada pela OMT ou na linha mais abrangente da OEA que
posicionou-se sobre o problema através das Normas de Quito20. Outrossim, nenhum outro
documento foi tão influente em termos políticos como a Carta Internacional do Turismo
Cultural (cópia em anexo), elaborada pelo ICOMOS21 e assinada por 19 entidades
internacionais. Aprofundando as preocupações dos responsáveis pela gestão e preservação
do patrimônio histórico-cultural nos países, a missiva determina que “ o patrimônio natural e
cultural pertence a todas as pessoas” e que “cada um de nós tem o direito e a responsabilidade
de compreender, apreciar e conservar os seus valores universais.”
Por outro lado, adverte que “numa época de globalização crescente, a proteção,
conservação, interpretação e apresentação do patrimônio e da diversidade cultural de qualquer
lugar, ou região em particular, é um objetivo desafiador”, ou seja, um processo dinâmico em que
todas as partes envolvidas devem operar de forma integrada. O turismo cultural pode ser um dos
meios para se atingir esses objetivos e seus princípios devem ser pautados pelo seguinte :

 Facilitar e encorajar as pessoas envolvidas na conservação e na


gestão do patrimônio a tornarem o significado do mesmo acessível à
comunidade residente e aos visitantes.

 Facilitar e encorajar a indústria do turismo a promover e a gerir o


turismo sob formas que respeitem e que valorizem o patrimônio e as
culturas vivas das comunidades residentes.

20
Documento elaborado pela OEA (Organização dos Estados Americanos) em 1967 sobre os princípios de
conservação e utilização de monumentos e lugares de interesse histórico e artístico e que no Brasil serviu como
modelo para o IPHAN ( Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional)
21
Declaração de princípios adotada pelo ICOMOS (Conselho Internacional de Monumentos e Sítios) desde 1976 e
cuja última versão foi elaborada na 12.ª Assembleia Geral no México, em 1999
41

 Facilitar e encorajar o diálogo entre os interesses da conservação e a


indústria do turismo sobre a importância e a natureza frágil dos sítios
patrimônio, das coleções e das culturas vivas, incluindo a necessidade de se
lhes conseguir um futuro sustentável.

 Encorajar a formulação de planos e de políticas para o


desenvolvimento de objetivos pormenorizados e mensuráveis, e de
estratégias relacionadas com a apresentação e a interpretação dos sítios
patrimônio e das atividades culturais, no contexto da sua preservação e
conservação.

(ICOMOS/ CARTA INTERNACIONAL DO TURISMO CULTURAL


1999:3)

Na atualidade, os agentes afinados com essa noção de conservação integrada,


promovida pelo ICOMOS e pela OEA, consideram o turismo cultural como uma das
possibilidades de preservação do patrimônio histórico-cultural mas, em geral, complementar a
outras formas. Este deve ser compreendido numa perspectiva integral, enquanto
contribuinte fundamental, mas não único, para o desenvolvimento sustentável das
comunidades. Assim sendo, a atividade turística, quando realizada de forma planificada e
controlada, seria uma oportunidade de conservação e valorização do patrimônio, tanto pelo seu
uso quanto pela renda dele advinda.

Em outras palavras, trata-se de incorporar a um potencial


econômico um valor atual; de pôr em produtividade uma riqueza
inexplorada, mediante um processo de revalorização que, longe de
diminuir sua significação puramente histórica ou artística, a enriquece,
passando-a do domínio exclusivo de minorias eruditas ao conhecimento e
fruição de maiorias populares. (OEA. Normas de Quito, 1967:5)

Dessa forma, fica evidente que a conversão de cultura em atração turística implica em
riscos e impactos imprevisíveis caso a população local não tenha consciência e não valorize seu
legado cultural e histórico. Para isso, torna-se fundamental que os itens do patrimônio material
e imaterial, quando transformados em chamarizes de turistas culturais, desenvolvam níveis de
significação também para os moradores de forma a não descaracterizá-los.
42

1.3 – TURISTA CIDADÃO : UMA NOVA ABORDAGEM SOBRE A


QUESTÃO

“Moradores ou usuários das cidades não são fixos, mas fluxos a


percorrer estes espaços. Colocá-los em movimento – assumindo sua
condição de fluxos – para além de suas práticas rotineiras (...) pode
transformá-los no cidadão turista, que irá, com o deslocamento,
apropriar-se com maior competência dos espaços e situações.” (SUZANA
GASTAL, 2006)

Como já evidenciamos, parece que tornou-se um fato contemporâneo que o consumo de


produtos culturais e o consumo turístico estejam convergindo para uma mesma oferta que
se apresenta da mesma forma para visitantes e para moradores. Richards (2002 apud
GASTAL 2006: 24 ) elenca os produtos culturais mais utilizados pelo turismo da seguinte
maneira:

1. Sítios arqueológicos e museus

2. Arquitetura e ruínas

3. Artes visuais, artes plásticas, artesanato, galerias, festivais e eventos

4. Música e dança clássica, folclórica e contemporânea

5. Artes dramáticas

6. Língua e literatura (cursos, seminários e outros eventos)

7. Festividades religiosas e peregrinações

8. Cultura popular e folclórica

9. Subculturas urbanas e manifestações étnicas

10. Parques temáticos.

Várias administrações públicas a nível mundial já trabalham suas propostas de


desenvolvimento turístico pensando em ambos, turistas e residentes. Para isso, levam em
conta que as grandes metrópoles possuem espaços urbanos e práticas culturais que, por sua
amplitude e complexidade, podem ser desconhecidos por boa parte de seus habitantes. As
Secretarias de Turismo de Curitiba, Brasília e Porto Alegre, por exemplo, em seus Planos
43

de Ação, consideram turistas os próprios residentes da cidade, desde que saiam de


suas rotinas espaciais e temporais.

Sobre o tema, em fevereiro de 2003, o prefeito de Curitiba, Cássio


Taniguchi22, pronunciou-se:
Uma cidade só é boa para o turista se for boa para o seu
cidadão, mas o turista só recomenda e volta à cidade se houver
receptividade e bom atendimento. (...) O planejamento voltado ao cidadão
transformou pedreiras em parques e fez do sistema de transporte, um exemplo
para o Brasil e o mundo. A vocação turística daqui é proporcional à satisfação
que o curitibano tem de cuidar de sua cidade e tê-la como extensão de sua casa.

Nesse sentido, passamos a lidar com uma nova forma de se observar e trabalhar o
fenômeno turístico, que abandona as noções tradicionais da OMT nas quais o turismo pode ser
definido como “um conjunto de atividades que as pessoas realizam durante suas viagens e
permanências em lugares distintos dos que vivem, por um período de tempo inferior a um ano
consecutivo, com fins de lazer, negócios e outros" e turista, “ um visitante que se desloca
voluntariamente por intervalo de tempo igual ou superior a vinte e quatro horas para local
diferente da sua residência e do seu trabalho”.
A ideia de que residentes podem ser turistas em sua própria cidade traz consigo uma
re-conceituação radical do sentido costumeiro de ser turista que passa a ser definido por
contraste, ou seja, a partir de seu “oposto etimológico”, o nativo, o morador. Surge assim o
turista cidadão. Um indivíduo que tem condições de usufruir dos mesmos benefícios associados
às viagens de lazer em seu próprio território. Gastal e Moesch (2007) justificam-se:

O Turismo é um campo de práticas histórico-sociais que


pressupõem o deslocamento dos sujeitos em tempos e espaços diferentes
daqueles dos seus cotidianos. É um deslocamento coberto de
subjetividade, que possibilita afastamentos concretos e simbólicos do
cotidiano, implicando, portanto, novas práticas e novos comportamentos
diante da busca do prazer (GASTAL e MOESCH, 2007: 11).

22
Foi prefeito de Curitiba por dois mandatos consecutivos (1997-2001 e 2001-2005).
44

Esta abordagem inovadora começou a ser articulada na última década por alguns autores
brasileiros destacando-se as já citadas Marutschka Moesch e Susana Gastal23 a partir de teses
ligadas à questão da cidadania cultural24. A partir dessa perspectiva, quebra-se o modelo
turístico da sociedade industrial criticado por Krippendorf (1989), que pressupõe que o lazer
e outras práticas sociais capazes de recuperar o equilíbrio físico e emocional dos
trabalhadores só fossem viáveis em se viajando para sítios distantes da própria moradia.
Moesch, no Plano de Ação para o Turismo lançado pela prefeitura de Porto Alegre em
199925, do qual foi uma das gestoras incluía entre seus públicos prioritários, os moradores da
própria capital, desde que os mesmos saíssem de suas rotinas urbanas, tanto espaciais quanto
temporais. Mais tarde, sobre a experiência posta em prática na capital gaúcha, afirma:

O turista cidadão é aquele morador da localidade que vivencia


práticas sociais, no seu tempo rotineiro, dentro de sua cidade, de
forma não rotineira, onde é provado em relação à cidade. Turista
cidadão é aquele que resgata a cultura da sua cidade fazendo uso do
estranhamento da mesma. Este estranhamento inicia no momento em que
o indivíduo descobre no espaço cotidiano outras culturas, outras formas
étnicas e outras oportunidades de lazer e entretenimento. Quando se
encontra na situação de turista cidadão este sujeito aprende a
utilizar os espaços ambientais, culturais, históricos, comerciais e de
entretenimento com uma percepção diferenciada do seu cotidiano
(MOESCH, 2005:5).

23
O tema foi apresentado pelas autoras em diversos trabalhos individuais e ganhou sua abordagem mais completa
no livro Turismo, Políticas Públicas e Cidadania, escrito pelas duas em 2007
24
O conceito de Cidadania Cultural aqui utilizado está de acordo com a definição de Marilena Chauí (1995), com
base em trabalhos de vários outros autores, que sublinha a existência de uma nova esfera através da qual a cidadania
também precisa ser articulada e que ultrapassa o modelo clássico estabelecido por T.H. Marshall com base nos
direitos civis, políticos e sociais. São práticas que que dão um sentido de pertencimento de um indivíduo a um grupo
social e que redefinem a cidadania a partir da cultura como o direito à fruição, à experimentação, à informação, à
memória e à participação nas decisões de políticas culturais
25
Este Plano de Ação foi desenvolvido pelo então existente Escritório Municipal de Turismo de Porto Alegre e
incluiu a ação do Poder Público local em parcerias com a iniciativa privada, a sociedade civil e os cidadãos,
utilizando-se de instrumentos como o planejamento e o orçamento participativos.
45

Portanto, o conceito de turista cidadão está interligado ao processo classificado por


Krippendorf (1989) como “humanização do cotidiano”26, cuja proposta inverte o sentido de que as
viagens sejam o único meio de descanso e lazer em uma sociedade industrial. Em suas próprias
palavras, “temos de descobrir a própria cidade, que em geral os estrangeiros conhecem melhor
do que nós. Partir para a descoberta da cidade vizinha, da aldeia ao lado. Utilizar as
piscinas cobertas e ao ar livre, os caminhos para passear pelos parques, visitar os museus
e os monumentos históricos.” (KRIPPENDORF, 1989: 171).
O citado autor foi o primeiro teórico do turismo a lançar a hipótese de que férias bem
aproveitadas, vivenciadas no local da própria residência, podem exercer mais e melhor influência
no cotidiano do que uma curta permanência numa localidade desconhecida. Paralelamente, o
nativo que consegue manter laços arraigados com o lugar onde vive ( mais eficazes quando
consegue desenvolver práticas sociais de recreação e lazer na própria cidade) passa de mero usuário
para assumir, de fato, a condição de habitante do lugar. Com isso, a tendência é que este valorize e
proteja o seu patrimônio cultural e ambiental, num processo simultâneo de aprendizagem e
cidadania: “Seria injusto exigir do turista que transforme as férias num processo de
aprendizagem. Ele deve permanecer livre para fazer o que bem entender de suas férias. É
antes de tudo em casa que se deve desenrolar o processo de aprendizagem”
(KRIPPENDORF, 1989: 180).
Para Moesch (2002: 31), “a experiência do turista cidadão, repleta de subjetividade,
expressa-se, porém, objetivamente nas vivências ocorridas durante o seu tempo de lazer,
no consumo de práticas de entretenimento, cultura e meio ambiente.” Este processo só
pode ocorrer por meio de um olhar de estranhamento da própria cidade, especialmente na
percepção estética da paisagem urbana pelo citadino.
De acordo com Lucrécia Ferrara (1998: 15), a imagem de uma cidade carrega em si
um texto não verbal, que, por ser habitual, apresenta-se de forma homogênea e ilegível ao
olhar cotidiano. Os textos não verbais dispõem se à observação por meio da leitura, cuja
linguagem é o uso feito pelo usuário que, por sua vez, é o elemento que aciona este
contexto.
Todavia, a leitura desse sub-texto não- verbal das cidades não se dá de forma
simples, sendo preciso, para tanto, que o habitante e usuário do lugar se disponham a sair
do seu universo espaço-temporal rotineiro:

26
Tese defendida de forma pioneira em seu livro Sociologia do Turismo lançado no Brasil em 1989
46

A leitura do não-verbal entende uma estratégia de destruição, na


cidade, do seu sistema de ordem, (...), capaz de produzir um afastamento
da cidade como espaço quotidiano rotineiro e ao qual estamos
habituados. Não é possível ler o que não conseguimos estranhar. Essa
distância estratégica entre o usuário leitor e seu espaço diário na cidade
permite-lhe ler, ver e descobrir. (FERRARA, 1999:15)

Esse olhar de estranhamento do morador em relação à sua cidade sugerido por Ferrara , de
certa forma, já tornou-se um fato contemporâneo em função das proporções gigantescas e
multidimensionais das megalópoles atuais. Essa temática de novos formas de sociabilização, de
novos “olhares” para as cidades dentro dos processos de urbanização contemporâneos também é
objeto de estudo de muitos autores nas últimas décadas.

Escapando às totalizações imaginárias do olhar, existe uma


estranheza do cotidiano que não vem à superfície (...) Neste conjunto, eu
gostaria de detectar práticas estranhas ao espaço “geométrico” ou
“geográfico” das construções visuais, panópticas ou teóricas. Essas
práticas do espaço remetem a uma forma especifica de “operações”, a
“uma outra espacialidade” (Uma experiência “antropológica”, poética e
mística do espaço) e a uma mobilidade opaca e cega da cidade habitada.
Uma cidade transumante ou metafórica insinua-se assim no texto claro da
cidade planejada e visível. (CERTEAU, 1994: 172)

O crescimento desmesurado das cidades, por sua vez, significaria segundo Ianni que “de
tanto crescer para fora, as metrópoles adquirem características de muitos lugares. A cidade passa
a ser um caleidoscópio de padrões, valores culturais, línguas e dialetos, religiões e seitas, etnias e
raças” (IANNI,1999:59), ou seja, o território por excelência do exercício da alteridade e da
diversidade.
E, justamente nessa vivência extrema entre semelhanças e diferenças que o sujeito
mantém com seu entorno, é que se encontra uma das razões fundadoras da prática turística. O
turismo cultural pressupõe o contato com o outro, com o “exótico” e, nesse sentido, os outros
seriam aqueles “que não compartilham constantemente esse território, nem o habitam, nem
têm portanto os mesmos objetos e símbolos, os mesmos rituais e costumes (...). os que
têm outro cenário e uma peça diferente para representar” (CANCLINI, 2003:191). Para o turista
cidadão, “viver estes outros cenários” , não seria mais necessário sair dos limites de sua cidade,
47

pois esta se tornou o território da multiplicidade. Um lugar onde se pode viajar menos por
percursos no espaço e mais por tempos-espaços, em especial culturais, diferentes daqueles a que
se esteja habituado, com ênfase nas experiências e no passado.
Para esta jornada, segundo Gastal (2006), “o turista cidadão, assim exposto ao
estranhamento, será o sujeito que, ao ampliar as fronteiras territoriais dos seus deslocamentos,
será também um cidadão global consciente. (GASTAL 2006: 13)

Um guia para o turista cidadão

Seria, então, realmente possível pensar-se em um outro turismo? Mesmo levando em


conta que o conceito de turista-cidadão, ou algum outro similar, ainda seja praticamente
ignorado em estudos ou pesquisas atuais que envolvam fundamentos teóricos ou práticos do
turismo, creio que essa apropriação em viés da atividade turística é válida por lidar com um fato
contemporâneo incontestável. Os moradores não só podem como já se tornaram turistas nas
megalópoles modernas, ou melhor, já começam a se acostumar a desvendar singularidades em
suas próprias fronteiras com “olhos de turista”.
Portanto, esse conceito de cidadania turística, em sendo uma reavaliação das formas de
consumo de viagem e de comportamento de viajantes, torna-se essencial em minha proposta
de desenvolvimento de um guia turístico original para o Rio de Janeiro, diferente dos que
existem no mercado editorial justamente por considerar como seu público-alvo prioritário o
próprio carioca. Um carioca, enquanto morador de uma típica megalópole do século XXI, que,
em muitos aspectos, transmuta-se nesse cenário babélico das cidades pluridimensionais que são
um dos motivos condicionantes para a existência conceitual do turista cidadão.
Uma cidade com paisagens culturais diversas. Com um patrimônio histórico e
arquitetônico que , embora em recente e relativo processo de valorização por parte do poder
público, continua sendo uma camada urbana ainda a ser descoberta pela maior parte da
população. Uma cidade cujo passado não deixa de ser um país estrangeiro27, para boa parte de
seus habitantes que não conhecem seu idioma por demais cifrado e sujeito a interpretações
várias. E por isso, faz-se útil a mediação de um guia turístico que pudesse traduzir algumas das

27
Esta imagem foi aproveitada da frase "O passado é um país estrangeiro: lá fazem as coisas de modo diferente." do
romancista e poeta inglês Leslie Poles Hartley no livro O Mensageiro de 1953. A frase também tornou-se o título de
um livro de David Lowenthal - The Past is a Foreign Country – publicado em 1985 e que teve grande influência
sobre estudos relacionados à história, memória e geografia.
48

leituras possíveis desse patrimônio cultural espalhado pelas ruas, agora transformadas em
itinerários histórico-culturais cujos objetivos vão além da mera contemplação.

Esse é o desafio de quem deseja ler a cidade, aprender a olhar a


cidade, examinando o dito, fazendo perguntas, trilhando caminhos
quase desconhecidos, aventurando-se por trajetórias nunca antes
tentadas, ensaiando leituras de sua escrita (POSSAMAI, 2010:208).

Essa descoberta de outros aspectos da cidade, esses novos enfoques sobre os mesmos
trajetos, esse lidar diferenciado com a paisagem cultural urbana nos períodos de lazer tornam-
se falas representativas de um processo maior, que culmina na valorização da própria cidade.

A comunidade quando toma consciência de seu patrimônio, o


valoriza, gerando novos conhecimentos num processo contínuo de
enriquecimento individual e coletivo, (...) além de incentivar sua
participação por meio de atividades sociais que desenvolvem um
processo educativo, que o ajuda na compreensão de seus costumes e
tradições, valorizando, assim, sua auto-estima. (SIMÃO, 2006)

Um dos fatores que fragilizam o patrimônio cultural é justamente a falta de


consciência sobre seu valor como elemento constitutivo da memória de uma sociedade.
Isto é, em meu entendimento, uma das justificativas mais fortes para a elaboração de um
guia turístico de memória da cidade.
No caso da minha proposta, seria um guia da memória republicana, não por conta de
uma abordagem meramente política ou monumentalista da questão, ou pior, dentro de
parâmetros de uma memória oficial no estilo “grandes personagens e fatos da nossa história”.
O elemento republicano a que se refere o guia está ligado principalmente à constatação do
regime republicano ter sido a base da formação de nosso conceito atual de nacionalidade.
Além disso, o fato do Rio de Janeiro ter sido distrito federal por sete décadas criou uma
inter-relação próxima entre os governos republicanos e os demais agentes sociais da cidade.
Isso influenciou muitas das mais representativas tradições e manifestações culturais
brasileiras, materiais ou imateriais, que permanecem até os dias atuais. Estes valores culturais
refletem-se na Belacap, a antiga capital da república, seja de forma material ou simbólica,
mais do que em qualquer outra cidade brasileira.
49

Por isso, quando menciono a memória republicana como mote central do trabalho,
quero dar um sentido muito mais amplo ao termo, como sendo uma tentativa de apropriação
da história do Rio de Janeiro dos anos 1880 até os anos 1970 quando, embora já não fosse a
capital oficial, guardava uma certa aura de “capitalidade” na condição de cidade-estado da
Guanabara.
Em outras palavras, vamos tratar da cidade no guia como o palco central da trajetória
republicana no passado e de seus efeitos no presente, através de seus processos de
urbanização e de transformações sociais. Mostrá-la, dentro de uma narrativa turística via
circuitos temáticos, como um espaço onde as memórias de construção da cidade estejam
interligada com as lembranças do que foi destruído. Um lugar de conflito entre memórias e
histórias, lembranças e esquecimentos, sempre buscando entender os interesses de grupos,
classes e etnias envolvidos em todos os processos.
Assim sendo, o guia indicaria ex-lugares como atração turística como o Morro do
Castelo, o Morro do Senado, o Palácio Monroe, os cortiços do centro, dentre outros. E
analisaria vários outros atrativos turístico-culturais através das correlações históricas e sócio-
culturais que existiram entre eles. Observando sempre as várias memórias em jogo que
poderiam cruzar-se em itens que seriam apresentados como: o Palácio Tiradentes e o
“Balança Mais não Cai”; o antigo Hotel Avenida e o Edifício Central; o jogo do bicho e as
loterias federais; o samba e o maxixe; a bossa-nova e a Black Music; as favelas e os cortiços;
a Festa de São Jorge e o Carnaval; as garotas de Ipanema e as melindrosas; os aterros e os
desterros. Todos componentes de uma cidade onde muito foi preservado e muito foi
destruído, em processos históricos que sempre embutiam algum sentido de amor, de ordem
ou de progresso. Conforme o lema original positivista, parcialmente adaptado para a bandeira
brasileira, o primeiro símbolo nacional republicano, presente na memória coletiva da nação.
50

CAPÍTULO 2 – A HISTÓRIA E A MEMÓRIA


A NOS GUIAR NO RIO DE JANEIRO

A História e a Memória se apoderam do passado, uma para


analisá-lo, decodificá-lo, desmistificá-lo, torná-lo inteligível ao presente;
a outra, ao contrário, para sacralizá-lo, dar-lhe uma coerência mítica em
relação a esse mesmo presente, a fim de ajudar o indivíduo ou o grupo a
viver ou a sobreviver. Crítica, a História tem por objetivo a pesquisa do
acontecido; clínica ou totêmica, a função da Memória é a construção ou
reconstrução de uma identidade (ROBERT FRANK, 1992)

2.1 – IDENTIDADE e MEMÓRIA

Ao analisarmos todas as formulações ligadas a turismo, cultura e patrimônio utilizados


até o momento para a contextualização do guia turístico-cultural proposto no trabalho, podemos
perceber que os conceitos de história, memória, e identidade, além de interligados entre si,
permeiam e são centralizadores na discussão do tema . A própria ideia de cidadania cultural
articulada em relação ao turista-cidadão reforça a tríade conceitual acima.
Afinal se entendermos a cultura como um somatório dos saberes e fazeres de
determinado grupo social que são transmitidos, geração após geração, ao longo de uma trajetória
temporal, percebemos a importância da memória coletiva na preservação de bens culturais e na
construção de identidades sociais.
51

A memória é um elemento constituinte do sentimento


de identidade, tanto individual como coletiva, na medida em que ela
é também um fator extremamente importante do
sentimento de continuidade de coerência de uma pessoa de um
grupo em sua reconstrução de si ( POLLAK,1992:204).

A constituição de uma identidade é um processo dinâmico em que a auto-imagem de um


indivíduo ou de um grupo é definida em contraposição aos outros. Em outras palavras, a
identidade de uma pessoa, de um povo ou de uma localidade turística só podem ser estabelecidas
a partir das diferenças.
Para Gastal e Moesch (2007:36), “a identidade se marca no reforço do que é igual, em
contraste com a exclusão do que seja diferente.” Assim, o reconhecimento da identidade,
individual ou grupal, pressupõe a alteridade. A partir dessa lógica tão presente em trabalhos
clássicos de antropologia e psicologia social surgem os modelos de identidade social mais
tradicionais como famílias, nações, religiões, classes, profissões e etnias. Esses padrões
singulares de identidade não podem se alinhar no que Hall (1992) refere-se em seu trabalho
seminal “ A Identidade Cultural na Pós-modernidade” como uma “identidade-mestra” que
consiga abarcá-las todas. Elas são complementares e usualmente podem ser contraditórias.
Um sujeito social pode, por exemplo, identificar-se simultaneamente e em graus similares de
intensidade enquanto brasileiro, negro, professor e católico mas frente a alguma questão
política, uma dessas facetas vai sobressair-se suplantando os outros.
A condição da coexistência de várias identidades com relativa coesão não garante que
as mesmas sejam permanentes ou fixas em um indivíduo ou grupo social. Nunca o foram e
na pós-modernidade, o são menos ainda. Isso porque as transformações e remodelações
nessas representações mais clássicas de identidade social tem ocorrido de forma cada vez
mais ampla e contínua em função dos novos sistemas culturais advindos do processo de
globalização. Hall (2006) chama a atenção para o fenômeno de fragmentação das identidades
nacionais em decorrência da intensificação da homogeneização e massificação cultural
imposta pelo mercado global. Para ele são três as consequências possíveis:

As identidades nacionais estão se desintegrando, como resultado


do crescimento da homogeneização cultural e do "pós-moderno global.
52

As identidades nacionais e outras identidades "locais" ou


particularistas estão sendo reforçadas pela resistência à globalização.

As identidades nacionais estão em declínio, mas novas identidades


— híbridas — estão tomando seu lugar.

Considerando a globalização como um fenômeno irreversível, embora sujeito a novos


formatos que não o neoliberal, Canclini (2008) reforça esse ponto de vista, principalmente
em relação às duas últimas consequências levantadas por Hall. Para ele, a pós-modernidade
impõe aos países um processo radical de reestruturação do significado cultural do local, do
nacional e do global. Estes perderam seu sentido de singularidade, tornando-se valores
identitários híbridos e transnacionais. Portanto, questões territoriais ou geográficas perderiam
cada vez mais espaço de identificação quando confrontados a valores ligados ao consumo
de bens e aos meios de comunicação de massa.

A globalização supõe uma interação funcional de atividades


econômicas e culturais dispersas, bens e serviços gerados por um sistema
com muitos centros, no qual é mais importante a velocidade com que se
percorre o mundo do que as posições geográficas a partir das quais se está
agindo. (CANCLINI, 2008: 32)

Mesmo entremeadas a esses processo de “desterritorialização”, as identidades


nacionais parecem pouco próximas da extinção que a globalização parecia anunciar . Seria
mais realista afirmar que “ela vá produzir, simultaneamente, ‘novas’ identificações ‘globais’ e
‘novas’ identificações ‘locais’ ” (HALL, 2006 :77/ 78).
Segundo Hall (2006:106), o conjunto de identidades, sejam elas mais autênticas e
“fechadas” ou mais híbridas e plurais, é construído “a partir do reconhecimento de alguma
origem comum, ou de características que são partilhadas com outros grupos ou pessoas, ou
ainda a partir de um mesmo ideal”.

A Memória dos Lugares e os Lugares de Memória

Como já observado, a questão da “origem comum” é determinante na construção das


identidades nacionais, regionais ou locais, e estas ainda estão por demais associadas a fatores
53

geográficos, além de serem a base do turismo cultural. Se levarmos em conta que a narração
de toda origem, seja de uma nação, de uma cidade ou de um governo possui um elemento
mitológico, algo similar ao conceito de mito fundador28, podemos inferir que a consolidação
dessas identidades tem por base uma versão de passado remoto, imaginário e “puro” que é
acionada no presente pelo poder da memória. No caso uma memória grupal e adquirida, cuja
principal função é a afirmação de uma identidade.

A memória pode ser entendida como a capacidade de relacionar


um evento atual com um evento passado do mesmo tipo, portanto
como uma capacidade de evocar o passado através do presente.
(JAPIASSÚ & MARCONDES, 2001:179)

De fato, a memória é um dos suportes essenciais para a produção de conhecimento. A


mitologia grega afirma que Mnémosine ( do verbo mimnéskein, “lembrar-se de” e origem da
palavra memória) é a “Memória que garante a vitória do espírito sobre a matéria
instantânea e funda toda inteligência” (GRIMAL, 1987 apud BUNGART NETO, 2007:29).
Pela ubiquidade enquanto fenômeno e pela ancestralidade enquanto tema, a memória
sempre foi objeto de infinitos estudos em todos os campos das ciências humanas que
remontam aos filósofos da Grécia Clássica chegando até as atuais pesquisas da neuro-ciência.
No que tange às questões ligadas ao turismo e ao patrimônio cultural de uma cidade, as
abordagens históricas e antropológicas são as mais emblemáticas pois tratam da memória
como um fenômeno coletivo que determina expressões culturais particulares de povos e
países. Sob este enfoque, ao examinar os conceitos de memória, Pollak lembra-nos:

28
Os mitos fundadores funcionam como instrumentos de reforço identitário de grupos sociais através da
transmissão de princípios e finalidades para sua existência . O discurso mítico tem aspectos proféticos,
principalmente, na explicação de acontecimentos do presente, vinculando-os ao tempo imemorial das “origens” e da
“fundação” daquele grupo em um passado sacralizado. Ver: GIRARDET, 1987
 
54

A priori, a memória parece ser um


fenômeno individual, algo relativamente íntimo, próprio da pessoa.
Mas Maurice Halbwachs, nos anos 20-30, já havia sublinhado que a
memória deve ser entendida também, ou sobretudo, como um fenômeno
coletivo e social, ou seja, como um fenômeno construído
coletivamente e submetido a flutuações, transformações, mudanças
constantes. (POLLAK, 1992:201)

Embora aparentemente a memória coletiva seja antagonista da memória individual, na


verdade elas se conjuminam, no que Bungart Neto (2007:57) refere-se como “a malha da
memória comum, de onde advém a possibilidade de uma comunicação permanente entre as
sucessivas gerações.” Utilizando-se de outra nomenclatura, poderíamos estabelecer os pontos
comuns e divergentes entre memória coletiva / ativa e memória individual / passiva:

Convém distinguir memória ativa de memória passiva. Esta


última acolhe sem esforço imagens recentes e remotas, que
freqüentam em turbilhão as nossas recordações. Mesmo que algumas se
instalem com mais persistência, permanecem alheias à memória ativa, que
(...) redime da destruição mundos que sem sua intervenção se perderiam
no fluxo do tempo e instaura imagens do que se passou, conferindo-lhes
consistência, associações precisas, força contra o desgaste.(...)Esta não é
a minha memória, não é a tua. Acima da memória de cada um está a
Memória da comunidade, viva e ativa. A Memória da comunidade constrói
uma narrativa oferecida a todos, concatenação dos eventos, redenção da
dispersão interior. (SCHÜLER, 1991, apud BUNGART NETO, 2007:29)

Na malha dessa “memória comum” costuram-se as idiossincrasias características de


cada uma: a individual privilegiando o “sujeito da memória” através de aspectos psicológicos e
das experiências pessoais, a coletiva evocando representações sociais que transcendem o
indivíduo. Isso explica a definição concisa de Halbwachs, para quem “cada memória individual
é um ponto de vista sobre a memória coletiva” (1990: 51).
Nesse sentido, as memórias individuais e coletivas estão diretamente ligadas entre si,
combinando-se em uma rede onipresente de ideologias, crenças e valores que moldam o
sentido de pertencimento do sujeito a uma comunidade. Assim, memória e identidade
reforçam-se mutuamente através das práticas sociais realizadas no presente. Assim, a memória
55

é sempre atual, invocando lembranças que vem à tona, mesmo quando não perseguidas.
Vivida na dimensão de um eterno presente, nossas memórias são seletivas em seus processos
dialéticos de lembranças e esquecimentos, organizando-se subjetivamente através de vagas
reminiscências, recordações flutuantes ou insights telescópicos.
O poder da memória em absorver e guardar imagens significativas, passíveis de
esquecimento e de recriação é um processo, complexo e repleto de meandros. Essas
informações, quando evocadas pela memória, estão geralmente associadas a acontecimentos, a
pessoas ou personagens e a lugares. Em relação aos acontecimentos, eles podem ter sido
vividos de fato ou, como designados por Pollak (1992) “vividos por tabela’, ou seja,
acontecimentos ocorridos na coletividade à qual a pessoa sente-se pertencer dos quais ela não
participou mas que ganharam tamanho relevo que, no final das contas, é quase impossível
saber se ela efetivamente participou ou não.”

É perfeitamente possível que,por meio da socialização política, ou


da socialização histórica, ocorra um fenômeno de projeção ou de
identificação com determinado passado, tão forte que podemos falar numa
memória quase que herdada.(grifo meu) De fato, (...) podem existir
acontecimentos regionais que traumatizaram tanto, marcaram tanto uma
região ou um grupo, que sua memória pode ser transmitida ao longo dos
séculos com altíssimo grau de identificação. (POLLAK, 1992:201)

Este aspecto particular de transferência e projeção das memórias coletivas,


construídas socialmente, sobre gerações futuras como uma herança de gerações passadas
tornam a memória um elemento valioso no palco das disputas sociais. Como aponta Le Goff
(2003), “a memória enquanto processo psíquico-social de conservação de informações,
organização de dados e atualização de impressões passadas, não está imune a relações de
poder”.

A memória coletiva foi posta em jogo de forma importante na luta


das forças sociais pelo poder. Tornarem-se senhores da memória
e do conhecimento é uma das grandes preocupações das classes, dos
grupos, dos indivíduos, que dominaram e dominam as sociedades
históricas. Os esquecimentos e os silêncios são reveladores desses
mecanismos de manipulação da memória coletiva. (LE GOFF, 2003: 422)
56

No caso de um guia histórico-cultural como o proposto nessa dissertação o conteúdo


versaria significativamente sobre a construção de memórias regionais ou da memória nacional
como reprodução da identidade histórica de um povo ou de uma localidade. Nesses processos
ocorre o que Rousso (apud Pollak 1989: 9) define como “enquadramento da memória”, isto é,
um esforço geralmente consciente de estruturação da memória por parte de grupos dominantes
onde determinados fatos são realçados em detrimento de outros recalcados ou excluídos.

O esquecimento coletivo é elemento constitutivo da criação da


nação, amalgama que unifica, integra e vincula a “família nacional” a um
destino histórico, a uma memória e a um patrimônio comum. Estabelece
uma relação tênue entre lembrança (de um passado “exemplar”),
esquecimento (dos desentendimentos políticos) e se vincula às “vontades”
do presente (consenso coletivo). (RENAN, 1882 apud TAVARES & SILVA,
2011:2 )

Esse trabalho de enquadramento da memória feito por nações ou governos ganha


vigor a partir da produção arquivística de documentos, textos e livros didáticos cuja missão
é registrar para “a eternidade” os grandes acontecimentos e seus maiores protagonistas. No
entanto, a mais efetiva autoridade exercida sobre a memória social moderna é regida pelo
patrimônio material produzido no espaço público: museus, monumentos, centros culturais,
edifícios, bibliotecas etc.
Assim sendo, a memória estratifica-se nos lugares. A partir dessa premissa, Pierre
Nora, um dos mais influentes historiadores contemporâneos, cunhou o termo “lugares de
memória” para designar esses espaços projetados como referência ou cenário para se
“vivenciar” o passado de forma simbólica. Nora (1993: 9) assinala que “a memória se
enraíza no concreto, no espaço, no gesto, na imagem, no objeto”.
57

A memória é assim guardada e solidificada nas pedras: as


pirâmides, os vestígios arqueológicos, as catedrais da Idade Média, os
grandes teatros, as óperas da época burguesa do século XIX e, atualmente,
os edifícios dos grandes bancos. Quando vemos esses pontos de referência
de uma época longínqua, freqüentemente os integramos em nossos
próprios sentimentos de filiação e de origem, de modo que certos
elementos são progressivamente integrados num fundo cultural comum a
toda a humanidade. Nesse sentido, não podemos nós todos dizer que
descendemos dos gregos e dos romanos, dos egípcios, em suma, de todas
as culturas que, mesmo tendo desaparecido, estão de alguma forma à
disposição de todos nós ? (POLLAK, 1989: 10)

Assim, os lugares de memória, segundo Nora (1993) são lugares, com efeito, nos
três sentidos da palavra : material, simbólico e funcional: são lugares materiais onde a
memória social se ancora e pode ser apreendida pelos sentidos; são lugares
funcionais porque têm ou adquiriram a função de alicerçar memórias coletivas e são
lugares simbólicos onde essa memória coletiva – vale dizer, essa identidade - se expressa e se
revela. São, portanto, lugares carregados de uma vontade de memória.
Gastal (2002:77) reitera que “conforme a cidade acumula memórias, em camadas que,
ao somarem-se, vão constituindo um perfil único(...) onde a comunidade vê partes
significativas do seu passado com imensurável valor afetivo”.
Em face a tudo até aqui apresentado, podemos assumir que a memória social de uma
cidade é construída a partir de diferentes fatores, sendo o mais aparente aquele derivado dos
“lugares de memória”, sejam eles sítios institucionalizados pelo poder público ou locais ainda
“subterrâneos” na luta pelo não esquecimento. Lugares onde o tempo cronológico e conceitos
dialéticos tornam-se coadjuvantes em uma peça cujos papéis principais são reservados para a
imaginação, a nostalgia e o sentimento de pertença. Quais, enfim, as inter-relações entre
memória social e história ? Como proceder uma análise histórica mais criteriosa em confronto
com o poder memorialístico do passado dos lugares? E no caso específico de um guia turístico-
cultural que pretende ser um elo de interpretação do passado de uma cidade para seus visitantes
e moradores, como lidar com tais tópicos ? São questões inevitáveis para o desenvolvimento do
trabalho e sobre as quais pretendemos nos debruçar a seguir.
58

2. 2 – DILEMAS UM GUIA TURÍSTICO-CULTURAL: MEMÓRIA OU


HISTÓRIA DA CIDADE

Graças à memória, o tempo não está perdido, e, se não está


perdido, também o espaço não está. Ao lado do tempo reencontrado,
está o espaço reencontrado (...) um espaço que se encontra e se desdobra
em razão do momento desencadeado pela lembrança. (POULET, 1992)

A história tem um papel mais importante do que o da memória para


o resgate do passado de um lugar. Ao utilizar os vestígios que sobraram de
tempos antigos, a história busca sempre ultrapassá-los, reavaliando e
contextualizando os referenciais que lhe deram suporte. Consegue, com
isso, iluminar o "abismo escuro do tempo", pois distancia-se do mundo
seletivo das memórias e das singularidades do lugar, aproximando-se, ao
mesmo tempo, de referenciais mais universais. ( ABREU, 1998)

Segundo Le Goff (2003: 426) , a memória social “é um dos meios fundamentais de


abordar os problemas do tempo e da história.” Frisamos novamente que a memória coletiva trata
do passado redivivo no eterno presente através das lembranças e redefine-se de forma constante,
geração após geração. Com essas mudanças geracionais, períodos ou fatos podem perder a
relevância que tiveram para um grupo social antepassado, perdendo com isso a capacidade de
sobrevivência na consciência de um grupo. Nas palavras de Abreu (1998:84), “quando isto
acontece, e se não se quer perder uma lembrança que não mais se sustenta por si mesma na
consciência dos grupos, é comum então que esta lembrança seja eternizada, que seja registrada,
transformando-se então em memória histórica.”
59

Quando a memória de uma sequência de acontecimentos não tem


mais por suporte um grupo, aquele mesmo em que esteve engajada ou que
dela suportou as consequências, (...) quando ela se dispersa por entre
alguns espíritos individuais, perdidos em novas sociedades para as quais
esses fatos não interessam mais porque lhe são decididamente exteriores,
então o único meio de salvar tais lembranças é fixá-las por escrito em uma
narrativa seguida, uma vez que as palavras e os pensamentos morrem, mas
os escritos permanecem. (Halbwachs, 1990: 80)

Assim sendo, a “morte” da memória, em contrapartida, significaria o nascimento da


história. Mais precisamente, no processo de agonia, antes do suspiro final, a memória ganha um
sopro de vida artificial e sobrevive em estado vegetativo através dos aparelhos da história, de
suas “clínicas de memória”, seus museus, seus arquivos, suas datas festivas, suas estátuas, seus
centros históricos revitalizados, enfim de seus lugares de memória. Esses lugares materiais ou
simbólicos portanto revelam-se uma necessidade da história que precisa dos mesmos para
elaborar discursos sobre memórias perdidas ou a ponto de se perderem.

Tudo o que é chamado hoje de memória não é, portanto, memória,


mas já história. Tudo o que é chamado de clarão de memória é a
finalização de seu desaparecimento no fogo da história. A necessidade de
memória é uma necessidade da história. (NORA, 1993:14)

Através desse processo, instaura-se a memória histórica que pode ser escrita em papel ou
inscrita em “pedra, cimento ou bronze” através dos monumentos erguidos em reverência ao
passado. Dessa forma, como nos alerta Gonçalves ( 2002:117), “no registro da
monumentalidade, o passado será considerado hierarquicamente superior ao presente.”
O trabalho dos historiadores durante muito tempo esteve atrelado a uma visão
memorialística, portanto mais celebrativa em relação aos seus objetos de estudo. Essa
abordagem menos crítica encurralava-se em veredas colecionistas onde a análise criteriosa
dos fatos era substituída pelo afã de coleta de eventos e personagens que dessem a História
um sentido mais admirável ou épico. Assim foram e são construídas e retrabalhadas as
histórias nacionais que ainda hoje mantém sua reprodução garantida através, principalmente,
do sistema educacional dos países.
60

Essa visão que dominou o discurso dos historiadores até meados do século XX ainda
hoje influencia muitos estudos historiográficos. Ela opera o fato histórico como um
fenômeno dado e não como algo sujeito a relativizações, inclusive ligadas ao contexto do
construtor desse saber, no caso, o próprio historiador. No entanto, a história, bem como a
memória, não é neutra mas manipulável, como o foi diversas vezes nessa fase das certezas.
Mesmo sob o impossível véu da neutralidade, o fazer historiográfico contemporâneo
mudou por completo as suas táticas de investigação e seu instrumental analítico. Ocorreu,
segundo Nora (1993) “a passagem de uma história totêmica para uma história crítica(...) não
se celebra mais a nação mas se estudam suas celebrações”. Sob esta ótica, a análise histórica
revela algumas vantagens sobre a memória destacadas por Abreu (1998), Sarmento (1997)
dentre outros autores como por exemplo:

 A história deve buscar aproximar-se da “verdade” através da objetividade.


Mesmo sabendo que a objetivação total é uma meta inalcançável, a história
opera com método científico, valorizando o conhecimento a partir da crítica,
da reflexão e da problematização dos fatos históricos. Isso permite, via de
regra, reinterpretações e revalidações de suas teorias.

 A história é relativa enquanto a memória é absoluta. A função da história é


relativizar as versões totalizantes ou integradoras do passado projetadas pela
memória, deixando transparecer suas lacunas e omissões. Para isso, busca
recuperar e contextualizar as versões de memória dos diversos grupos sociais
em relação a um acontecimento ou período de tempo, levando em conta
também tudo o que foi esquecido.

 A história é mais confiável que a memória. Justamente pelo dever de não


tomar por definitiva qualquer interpretação do passado, a história não se deixa
envolver por perspectivas apriorísticas ou por amplas teorias do pensamento
social que ficam em voga em determinados períodos.

 A história de um lugar não deve lidar apenas com seus aspectos locais. Sem
deixar de considerar as particularidades locais como fundamentais, a história
tem a função de contextualizá-las em relação a processos mais gerais da ação
humana nos campos regionais, nacionais e globais.
61

Um dos grandes desafios de um guia de viagens propondo rotas histórico-culturais com


base na memória coletiva e nos lugares de memória de uma cidade é que, de certa forma,
teremos de promover uma complexa inteface entre 3 discursos bastante diferenciados: o
histórico, o memorialístico e o turístico. O texto de apresentação dos pontos turísticos desse guia
tem de caminhar por essa tríplice fronteira conceitual, levando em conta os benefícios de cada
um dos lados no processo de interpretação do patrimônio histórico-cultural do Rio de Janeiro. As
possibilidades de conciliação entre esses campos de saber são fatores muito relevantes para a
qualificação do produto proposto na dissertação e sobre elas manteremos o foco na próxima
etapa do trabalho.

2. 3 – OS CAMINHOS DA INTERPRETAÇÃO EM UM GUIA DE


VIAGENS

Se a memória trabalha o passado na forma de um discurso que o


sacraliza e o faz atingir o estatuto monumental, caberia à “operação
histórica” fazer adentrar nos templos da memória a iconoclastia. Só com a
quebra dos ídolos, com o rompimento dos eixos memorialistas que reificam
as “verdades” sobre o passado, poderá a história exercer
plenamente a sua função, laicizante em sua base, de “desrespeitar” as
tradições e de encarar os vestígios do passado com um olhar
profundamente crítico.( SARMENTO, 1997)

Mais que informar, interpretar é revelar significados, é provocar


emoções, é estimular a curiosidade, é entreter e inspirar novas atitudes nos
visitantes, é proporcionar uma experiência inesquecível com
qualidade. (MURTA; GOODEY, 2002)

Em relação às dificuldades de se traduzir a escrita da memória para o idioma da história,


ao mesmo tempo, simplificando-o em prol de uma interpretação do patrimônio histórico para
leigos, Sarmento (1997) escreveu um artigo a partir de sua experiência como coordenador de
uma pesquisa no Palácio Tiradentes29 que resultaria em um livro comemorativo de seus 70 anos.

29
Atual sede da Assembléia Legislativa do estado do Rio de Janeiro e antigo prédio do Congresso Nacional
Brasileiro entre 1926 e 1960, excetuando-se o período do Estado Novo (1937-1945) quando serviu de sede para o
Departamento de Imprensa e Propaganda.
62

Naquele momento, todas as pressões e tentações políticas orientavam-no para a produção de um


texto final de tom memorialista e grandiloqüente além de leitura leve no estilo de um guia de
viagens. Mesmo tendo conseguido lograr o projeto com êxito sem abandonar a investigação
histórica criteriosa, ele escreveu sobre algumas barreiras técnicas que teve no processo:

Associar determinados eventos a um específico lugar é um trabalho


que advém da chamada “reconstrução ideal” de um passado histórico, não
sendo portanto um dado natural, o que determina um cuidado que muitas
vezes escapa às percepções calcadas no senso comum. (...) Portanto, pensar
o espaço do Tiradentes como uma espécie de tabernáculo da democracia é
uma das construções possíveis operadas pela memória, assumi-lo enquanto
tal dentro dos limites de uma investigação histórica é incorrer no grave
erro da indistinção das sobretextualidades erigidas pela memória ao longo
do tempo. (SARMENTO, 1997:2)

Um livro comemorativo como o descrito acima possui pontos de convergência tanto na


forma como no conteúdo com um guia de viagens que também deve ser enaltecedor das
“qualidades turísticas” de um destino. Creio que a chave do sucesso de um produto como o guia
turístico-cultural , que deverá ser “degustado” tanto por moradores quanto por visitantes como já
vimos antes, está na seleção e na forma de apresentação das atrações turísticas que deverão ser
visitadas ou observadas. Este processo pressupõe uma equação aparentemente inconciliável entre
a visão crítica da História, a tradição e a intensidade da memória e mais o cunho didático e
aprazível do estilo de texto empregado em guias de viagens. Quando nos debruçamos sobre a
questão a partir dos mais recentes estudos feitos sobre a interpretação de sítios históricos com
base na recepção aos seus visitantes, ela torna-se mais maleável e permite-nos pensar em um
guia com qualidade turística sem perder seu viés historiográfico.
Se levarmos em conta que a memória histórica, anteriormente considerada como
algo uno e homogêneo, atualmente passou a ser tratada como plural, englobando várias
versões da história, podemos entender a cidade como uma espécie de “arena cultural”. Nesse
sentido, a historiadora gaúcha Zita Possamai (2010), uma das coordenadoras do Projeto
“Leituras da Cidade”30 de educação patrimonial em Porto Alegre propõe em “se pensar em

30
Projeto de Educação para o Patrimônio com vistas à formação de graduandos dos cursos de História e
Museologia da UFRGS e educadores da rede de ensino de Porto Alegre, tendo como objeto de estudo e ação
pedagógica o centro histórico de Porto Alegre.
63

um museu-cidade que leve em conta a multiplicidade de memórias, a partir de


diferentes olhares e perspectivas. As várias cidades decorrentes destas múltiplas leituras
poderão ser vivenciadas por seus habitantes e visitantes de diferentes formas ao longo do
tempo.”
A aproximação entre as noções de museu e cidade nos encaminham para os primeiros
projetos de interpretação de monumentos, sítios e espaços, feitos a partir de experiências em
museus, e voltados para os turistas culturais, entendidos no contexto, como peças fundamentais
para a preservação do patrimônio. Custódio (2010), considera a interpretação patrimonial
como:

uma técnica de comunicação utilizada para despertar o


interesse dos visitantes e tornar acessível a história, a cultura ou o
patrimônio de uma comunidade. Além de fatos, pode revelar outros
significados e estabelecer relações com outras ocorrências, demonstrando
a importância de contextos culturais. (CUSTÓDIO, 2010: 277)

Nesse processo de uso e gestão do patrimônio , os bens culturais convertem-se em


referência de informação e também de conhecimento e entretenimento. Podemos afirmar que,
este potencial de aprendizagem através do patrimônio é a principal chave para o reconhecimento
e a apropriação dos mesmos por parte tanto de residentes quanto de visitantes. Segundo Murta
e Goodey (1995:19) “a interpretação é um processo de adicionar valor à experiência de
um lugar por meio da provisão de informações e representações que realcem sua história
e suas características culturais e ambientais”.
Os guias de viagem podem ser considerados os mais reconhecidos suportes de
interpretação para os turistas não-residentes mas existem outros meios que podemos ressaltar
tanto para nativos como para forasteiros como por exemplo: livros, vídeos, maquetes, imagens,
teatro. Também podem ser considerados recursos com bastante protagonismo as visitas guiadas
ou orientadas através de experts , também denominadas de interpretação ao vivo e que,
outrossim, incluem performances e representações in loco . O fator comum a todos estes itens
no que tange ao turismo cultural é que devem ter a capacidade de contar uma história pois “toda
operação científica ou pedagógica sobre o patrimônio é uma metalinguagem, não faz com
que as coisas falem, mas fala delas e sobre elas” (CANCLINI, 2003: 202).
64

Portanto a função social contemporânea adquirida pelo patrimônio histórico e cultural de


um país deve pautar-se pela interpretação como meio e a educação patrimonial31 como um fim.
Por conseguinte deve ser um sistema de decodificação de mensagens da memória e da história de
uma localidade, tornando-as mais acessíveis ao grande público que domina pouco ou
parcialmente o instrumental teórico desses discursos que possuem níveis de complexidade
diversos e forte carga de ambivalência. Segundo Perez (2009: 226) a interpretação “é sempre um
ato de comunicação que traz sentido e significação para bens culturais e modelos de vida dos
grupos humanos”. E para isso deve sempre levar em conta o perfil e expectativas de seus
visitantes que são, majoritariamente, educação, cultura e divertimento.

31
Educação Patrimonial tem sido o tema central de muitos trabalhos acadêmicos recentes e torna-se bastante
relevante quando falamos de meios de interpretação do patrimônio. Trata-se, segundo o ICOMOS, de um processo
permanente e sistemático de desenvolvimento de uma consciência universal em relação ao patrimônio, desenvolvido
enquanto prática educacional no ensino formal e que deve ser fortalecido pelos meios de comunicação. Nesse sentido, está
diretamente ligada aos temas de cidadania cultural e turista-cidadão já tratados na dissertação e tem uma importância considerável
no meu projeto de guia de viagens, mas sobre a qual não poderei tratar com a profundidade que gostaria nessa etapa do trabalho.
Para mais informações : SOARES, 2003 : Educação patrimonial: Relatos e Experiências
65

CAPÍTULO 3 – A MEMÓRIA DA REPÚBLICA EM ROTEIROS


TEMÁTICOS : NOVAS LEITURAS PARA UMA EX-CAPITAL

Ao caminharmos pela cidade, deparamo-nos com uma paisagem


rica em símbolos e significados. Como nos lembra Milton Santos, a
paisagem é a soma de tempos desiguais. Desta forma, em relação ao
espaço urbano, não podemos ignorar a importância da análise
multidimensional das escalas temporal e espacial. (BARROS ; FERREIRA,
2009)

3. 1 – PREMISSAS METODOLÓGICAS : INFORMAÇÃO,


PROVOCAÇÃO E IMAGINAÇÃO

Costa (2009) fez um trabalho de pesquisa sobre a metodologia da interpretação cultural


onde tece comentários sobre vários estudiosos do tema desde os anos 1970, destacando como
referências hegemônicas os trabalhos de Freeman Tilden e Larry Beck e Ted Cable32. As obras

32
Freeman escreveu em 1977 ”Interpreting our Heritage” uma obra-marco no campo da interpretação de
patrimônio cultural e natural para o turismo que segundo ele tem vocação de um serviço público prioritário.
66

escritas por esses autores tentam fundamentar algumas formas de operacionalização dos recursos
de interpretação a partir de uma série de princípios. Para eles, os guias de viagem tornaram-se
ferramentas essenciais nesse cenário, não só enquanto “construtores de olhares” com grande
autoridade sobre os turistas, mas também como geradores de sentido para os lugares e
fomentadores de identidades locais.
Os guias turísticos-culturais como o guia da memória histórica do Rio de Janeiro
enquanto capital da república teria portanto a oportunidade de oferecer “vivências e
experiências partindo de um tema ou conjunto de temas que se revelam nos seus significados.
Estes significados podem ser plurais e até contraditórios ou opostos os quais, devem comunicar-
se na sua complexidade”. (Tilden, 1977 apud Perez, 2009:228/229)
O guia proposto, como já exposto na introdução do trabalho, será pautado pela criação de
rotas temáticas que destaquem aspectos históricos, artísticos, culturais e arquitetônicos nos
principais bairros do Centro e da Zona Sul. Os circuitos propostos se desvendarão em uma
diversidade de significados mas terão uma unidade conceitual cronológica, ou seja, cada período
será organizado a partir de acontecimentos políticos, manifestações artísticas e personagens
históricos dentro de uma perspectiva de ordem temporal.
Isso torna-se importante justamente por conta dos princípios de interpretação de
patrimônio estabelecidos por Tilden, mesmo sabendo que estes foram, inicialmente, pensados
para atender necessidades museográficas ou de exposições. Tento abaixo elencar alguns desses
princípios já adaptados e demonstrados através de exemplos práticos para o projeto do Guia de
Memória Histórica do Rio de Janeiro enquanto projeto da dissertação.

1. A escolha das técnicas depende da audiência, ou seja, o processo de


interpretação deve criar meios de apresentação permeáveis ao lidar com a
experiência do visitante. Isso acarreta em levar em conta o perfil e o nível de
conhecimento desse consumidor cultural para evitar-se abordagens por demais
acadêmicas ou elitistas. O turista cultural de um guia sobre o Rio de Janeiro,

Beck e Cable escreveram em 1998 “Interpretation for the 21st Century: Fifteen Guiding Principles for Interpreting
Nature and Culture.
 
67

embora possa ter um perfil universitário e relativo conhecimento prévio dos temas
tratados33, não é um especialista.

Assim sendo, uma das formas encontradas no guia para auxiliá-lo no esforço
intelectual de aproximação dos sítios visitados, seria a contextualização dos
acontecimentos em termos factuais e temporais. Para isso, o guia contaria na parte
superior das páginas com uma linha de tempo, apresentando, de forma resumida,
os fatos mais importantes ligados àquele monumento em ordem cronológica, sendo
possível estender-se, em termos de data, a períodos anteriores e posteriores ao
coberto pelo itinerário proposto. A utilização da cronologia como ferramenta
metodológica, embora não seja uma predileção por parte de muitos historiadores, é
um recurso facilitador de grande valia para um melhor da História por não
iniciados.

Dessa forma, uma visita ao Paço Imperial, prevista no roteiro “Rio da Proclamação
e Implantação da República”, teria como mote principal o fato do Paço ter sido a
sede do Gabinete do Ministério do Império, comandado pelo Visconde de Ouro
Preto, e deposto no dia 15 de novembro e também o local onde o imperador e sua
família passaram sua última noite no Brasil antes do banimento oficial. Em
complemento, seriam descritos outros fatos relevantes acontecidos no local desde o
período colonial e que teriam nesse espaço reservado a linha do tempo, uma forma
de serem abordados, reforçando o significado histórico da edificação.

33
A previsão é que este guia seja utilizado em quase na totalidade dos casos por turistas-cidadãos
(residentes na cidade) e turistas domésticos, ou seja, brasileiros oriundos de outros estados. Todos, por suposto, com
algum nível de conhecimento da história do Brasil.
68

Figura 07: Modelo de página do Guia de Memórias da República


Destacando-se no cabeçalho a LINHA DO TEMPO prevista como suporte para uma compreensão
mais direta e ampla do significado histórico do ponto turístico visitado. Criação: Ana Carolina
Bolshaw Guimarães

Outra questão importante para a melhor assimilação de um guia por parte dos viajantes
diz respeito ao texto. O mesmo deve ser claro, objetivo e com poucas subordinações. Nesse
sentido, o estilo deve convergir para a linguagem jornalística porém com a relativa precaução de
não se cair no excesso de didatismo. Como o produto em questão seria uma publicação cujos
principais leitores já tem algum domínio do tema, deve-se também articular algum grau de
erudição na composição do texto pois os turistas culturais tem expectativas quanto à ampliação
de conhecimento durante a viagem.

2. Cabe à interpretação não apenas informar mas, principalmente, revelar com


base na informação. Em um guia turístico, a forma de apresentação das atrações
deve rejeitar a ideia do monumento como valor de si mesmo, sem procurar
maximizá-lo em todos os seus significados. Desse modo, um texto contendo um
arrazoado de datas, fatos e personagens relacionados com algo que poderíamos
chamar de “história do prédio”, além de maçante, perderia o caráter revelador da
contextualização crítica da história.
69

Um guia turístico, em geral, não perde de vista esse discurso sintético baseado na
pretensa “história do prédio”. Entretanto, no meu modelo, para contornar essa encruzilhada e
trazer mais elementos reveladores de outros significados para os acontecimentos, cada ponto
sugerido para visitação seria apresentado seguido por boxes informativos que destacariam outras
facetas dos acontecimentos ou personagens envolvidos. Assim sendo, outra visita prevista no
roteiro “Rio da Proclamação da República” seria à casa-museu de Deodoro da Fonseca. Esta
seria apresentada enquanto palco de vários acontecimentos relevantes dos momentos iniciais do
regime republicano, como, por exemplo, a primeira reunião do recém-criado ministério do
governo provisório. Entretanto, este fato estaria vinculado a um box informativo tratando da
composição desse ministério a partir dos interesses dos vários grupos políticos que deram
suporte ao golpe de estado que proclamou a república. Outro box previsto nesse capítulo
buscaria deslocar a figura de Deodoro do panteão dos heróis nacionais, trazendo à baila todas as
suas contradições enquanto líder alçado à presidência mais por questões hierárquicas e
estratégicas do que por suas convicções ideológicas ou admiração de seus pares.

Figura 08: Modelo de página do Guia de Memórias da República 2


Box informativo de 2 págs sobre o dia 15 de novembro, com intuito de revelar fatos importantes da
proclamação da República, que possam trazer mais significações para o evento, além da versão
institucionalizada. Criação: Ana Carolina Bolshaw Guimarães
70

3. Captar a pluralidade de pontos de vista é objetivo central em uma boa


interpretação. Para isso temos de abandonar certos mitos gloriosos e visões
estereotipadas ou nostálgicas em relação ao passado. Os patrimônios culturais
estão relacionados a um tempo e a um espaço específicos e podem ser traduzidos de
formas distintas por diferentes grupos ou em diferentes épocas. Deve-se explicitar
esses processos na interpretação dos atrativos histórico-culturais da cidade,
buscando as relações sociais de conflito, de cooperação ou de dominação que
produzem versões sobre os fatos e, muitas vezes, escondem-se por detrás da
concretude do objeto turístico.

Essas múltiplas interpretações poderão ser desveladas no guia proposto pelo


exemplo de que cada um dos roteiros históricos pensados incluiria no seu
inventário de atrações turísticas, uma favela ou forma de habitação popular para
explicar os processos urbanísticos e sociais que alteraram a fisionomia da cidade ao
longo dos anos. Assim sendo, a Favela da Providência e a Favela Chapéu
Mangueira fazem parte dos pontos a serem explorados turisticamente nos roteiros
da 1ª República e da Era Vargas respectivamente, enquanto parte da expansão
territorial da cidade. Os próprios cortiços, que dominavam o centro da cidade no
final do século XIX, serão apresentados aos visitantes no roteiro de Proclamação da
República através de alguns remanescentes arquitetônicos ainda de pé na Rua dos
Inválidos, embora com outras funções habitacionais.
71

Figura 09 e 10 : Cortiços, ontem e hoje


Os cortiços serviam de moradia para cerca de 25% da população carioca no final do século XIX.
Alguns poucos ainda sobrevivem como o “Chora Vinagre”, tombado pelo Patrimônio Municipal e
que faz parte do itinerário “Rio- Proclamação da República” Fontes: Fotos 1 e 2 : Acervo Arquivo
Nacional Foto 3 : site www.favelatemmemoria.com.br
72

Figura 11: O Morro da Favella em 1920,


A atual Favela da Providência, seria incluída no tour “ Rio – Belle Époque” como uma forma de se
contextualizar a evolução urbanística e social da cidade. Foto : Augusto Malta, 1920. Arquivo da
Cidade. Fonte secundária: Bueno, Eduardo. “ Avenida Presidente Vargas: Um Desfile pela História
do Brasil. Porto Alegre: Buenas Ideias, 2010

4. A interpretação é uma arte que se pode aprender e ensinar com imaginação.


O papel da criatividade é fundamental em um guia turístico onde os elementos
histórico- culturais de um povo tem de ser vertidos para novos sistemas de leitura
por parte dos visitantes. Esse processo não pode ser desenvolvido para compor
scripts semi-ficcionais com base em estereótipos culturais mas para dotar o
forasteiro de chaves intelectuais que lhe permitam ir além da mera contemplação de
“paisagens urbanas”. O guia deve promover idas a locais que ofereçam vivências
significativas através de novos olhares e incluir no seu vocabulário os verbos
compreender, sentir, analisar, entrever, explorar, reviver como sinônimos do fazer
turístico contemporâneo.

No caso de um guia onde o passado da cidade será mais observado do que o seu presente,
faz-se necessário a utilização da imaginação como forma de evocação dos tempos idos. Para
isso, torna-se primordial a utilização de alguns recursos como:
73

Figura 12 e 13: Praça da República: Ontem e hoje.


A região do Campo de Santana / Praça da República antes e depois da abertura da Avenida Presidente
Vargas em 1944. No cartão postal de 1904, vê-se ao fundo, à direita, semi-encoberta pelas árvores do
Campo de Santana, a antiga sede da Prefeitura Municipal e à esquerda o prédio do antigo Quartel
Militar, hoje Palácio Duque de Caxias. Ambos as edificações constarão em um dos roteiros temáticos
do guia como itens da “cidade ausente”. Foto superior: Siqueira, Ricardo. Fontes secundárias: Tabet,
Sergio. O Rio de Janeiro em Antigos Cartões Postais. Rio de Janeiro: Edição do Autor, 1985. P.104 /
Siqueira, Ricardo. Rio de Janeiro Ontem e Hoje. Rio de Janeiro: Edição do Autor, 2004. Foto inferior
: Augusto Malta, 1920. Arquivo da Cidade. Fonte secundária: Bueno, Eduardo. “ Avenida Presidente
Vargas: Um Desfile pela História do Brasil. Porto Alegre: Buenas Ideias, 2010.
74

 Acervo de registros fotográficos de ruas, edificações e costumes da cidade


feitos ao longo do século XX por artistas da época como Augusto Malta e
Marc Ferrez. Estas fotos e cartões postais antigos fazem alusão a sítios
citadinos ainda reconhecíveis e seriam contrastadas com fotos mais recentes
dos cenários urbanos cotidianos mais conhecidos em uma composição gráfica
onde se percebesse a evolução (ou involução para muitos) urbanística da
cidade. As imagens de um passado não tão distante funcionariam como lentes
desbotadas para acionar a memória afetiva e coletiva dos leitores que
poderiam caminhar pela cidade, percebendo-a, como nas palavras de Milton
Santos (1999), “enquanto a soma de tempos desiguais.”

 Reprodução de trechos de crônicas, textos jornalísticos ou literários e letras de


música, além de charges e caricaturas, representativas de cada época
contemplada pelos roteiros. Todos esses elementos serviriam como suporte e
inspiração para que o viajante pudesse penetrar de forma mais vívida nessas
dimensões espaço-temporais. Por conseguinte, esse diálogo entre o passado e
o presente do Rio de Janeiro seria travado levando-se em conta a alma
encantadora das ruas de João do Rio, os cortiços miseráveis de Lima Barreto,
as recordações do tempo de Luiz Edmundo, os mistérios do Rio de Benjamim
Costallat, as memórias repletas de história de Vivaldo Coaracy, o charme das
cariocas de Sérgio Porto e as paisagens líricas de Rubem Braga. Somando-se a
isso, as charges, as notícias de jornal e os reclames publicitários da época
também tornariam as questões públicas dominantes do período e a vida
cotidiana da população em uma experiência turística mais rica de significados.
75

Figura 14: Charge da Revista Dom Quixote de 1896


Uma crítica sobre a insalubridade da cidade do Rio de Janeirorepresentada como uma mulher “na lama”, enquanto
Buenos Aires e Montevidéu são mulheres elegantes e “civilizadas”. Ao fundo, a imagem do Pão de Açúcar.. Fonte:
Revista Dom Quixote, n° 69, 1896 - Biblioteca Nacional. Fonte secundária: Abreu Maurício. “Evolução Urbana do
Rio de Janeiro”. Rio de Janeiro: IplanRio, 1997.

 Registros cartográficos e plantas urbanísticas da cidade seriam também uma


ferramenta bastante especial no projeto. Além de apresentá-los em suas
concepções originais, a ideia seria poder trabalhar com mapas
tridimensionais, produzidos por um artista gráfico, de uma mesma rua ou
região em determinado momento da história com suas correspondências
cartográficas atuais. Estes mapas, desenhados em folhas de acetato, seriam
contrapostos nas páginas do guia de forma que as ilustrações das edificações
que ainda permanecem surgiriam nos dois mapas ao mesmo tempo através de
uma técnica de máscaras transparentes.

Assim, por exemplo, um passeio a pé pela Avenida Rio Branco, previsto em um dos
roteiros, seria feito a partir de 2 mapas superpostos, um dos anos 1930 e o outro atual, o que
permitiria graus maiores de compreensão e envolvimento do turista nos processos radicais de
transformação da cidade a partir de diferentes ideais urbanísticos ali presentes. Poderia se
caminhar, com a devida carga simbólica, por uma cidade real e por outra cidade ausente,
76

soterrada por decisões políticas de remodelação ou embelezamento que fizeram sentido em


algum momento da história.

Figuras 15: Mapa turístico do centro do Rio em 1914


As edificações destacadas em desenhos tridimensionais podem servir de orientação para um passeio
pela cidade ausente. Mapa : Carlos Aenishänslin. Fonte: Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.
Fonte secundária: “Do Cosmógrafo ao Satélite: Mapas da Cidade do Rio de Janeiro”.
Rio de Janeiro: Centro de Arquitetura e Urbanismo do Rio de Janeiro, 2000.

Uma outra possibilidade seria expor plantas e projetos urbanísticos que nunca se
realizaram (ou somente parcialmente) para que se tornem perceptíveis também as cidades
invisíveis que nunca saíram do papel. O Plano Agache de 1930 e as elocubrações arquitetônicas
de Le Corbusier para o Rio de Janeiro nos anos 1920, assim como outros projetos das décadas
seguintes seriam apresentados com as devidas análises críticas.
77

Figura 16: O Plano Agache


A entrada do Brasil em praça proposta por Agache em seu plano de remodelação, extensão e embelezamento do Rio
de Janeiro , 1930. Fonte: Instituto Pereira Passos/ IPP. Fonte secundária: Knauss, Paulo; Ricci, Claudia. Brasil: uma
Cartografia.Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2010.

5. Pensar a interpretação somente como instrução, é destituí-la de seu caráter


provocativo, tanto em termos emocionais quanto intelectuais. Os processos
interpretativos, mesmo sendo originados no rigor da investigação histórica,
implicam na geração de sentimentos, sensações, lembranças, conceitos e
preconceitos em seu público consumidor. Isso porque os bens do patrimônio
histórico-cultural estão intrinsecamente vinculados à memória coletiva dos
grupos sociais, e esta é parcialmente institucionalizada pela educação tradicional
no sentido da busca de um passado fomentador de orgulho cívico e identidade
social. Em consequência, deve-se buscar a reelaboração desses processos
emocionais e intelectuais através da provocação de curiosidade no turista,
incitando-o a querer descobrir mais por conta própria, depois da visitação ou
mesmo da viagem.
78

Tomando isso em consideração, o guia poderia ajudar no processo de


revalorização de determinados patrimônios da cidade, como por exemplo, o
Campo de Santana. retirando-o do limbo da memória aonde foi acondicionado
em versão reduzida como o “parque das cotias” ou, ainda pior, como espaço
decadente, habitat de junkies e desvalidos em geral. Independente do longo
descaso municipal na conservação ou revitalização deste tão relevante espaço
público, uma abordagem provocativa com fotos de época, antigos mapas
turísticos e vistas aéreas poderia restituir parte da memória histórica do local, não
apenas como palco de importantes acontecimentos mas também como um dos
locais mais aprazíveis do país e recomendado como passeio obrigatório para
turistas entre o final do século XIX até os anos 1940 quando teve sua área
reduzida com a abertura da Av. Presidente Vargas.

Ao apresentar a atual Praça da República como o parque que foi considerado o


“coração verde da capital” tendo sido descrito em um guia de 1889 como “um
dos mais admiráveis jardins públicos do seu gênero que existem nas cidades mais
afamadas da Europa e América”34 , é uma forma gerar um outro tipo de olhar mais
curioso sobre o espaço, capaz de devolvê-lo a um posto mais nobre e afetivo
enquanto lugar de memória.

34
Segundo Perrota (2011), trata-se de uma citação de um dos primeiros guias turísticos para estrangeiros editado na cidade: “La Provinzia
de Rio de Janeiro” escrito por Felix Ferreira e Antonio Leão e publicado em 1889.
 
79

Figura 17: Antigo postal de 1880


Painel de fotos mostrando o Campo da Acclamação, uma das maiores atrações da cidade até a década
de 1940. Um guia para “revisitar” antigas significações turísticas nos dias atuais. Fonte: Fundação
Biblioteca Nacional Fonte secundária: Bueno, Eduardo. “ Avenida Presidente Vargas: Um Desfile
pela História do Brasil. Porto Alegre: Buenas Ideias, 2010.

6. Deve-se tornar a experiência do visitante mais prazerosa através de uma


interpretação holística, ou seja, que compreenda o patrimônio como um todo
cujas partes estão interligadas. Portanto o método interpretativo deve ter o mérito
de ser estimulante e motivador enquanto ação integradora entre as dinâmicas
históricas locais ou nacionais e uma perspectiva global. Ou então, em função de sua
potencialidade de conexão entre acontecimentos históricos, manifestações culturais
e experiências humanas que devem ser sublinhados a partir de uma visão macro e
problematizadora da totalidade histórica em determinado espaço de tempo.

Esta vantagem metodológica da interpretação patrimonial permite que o próprio guia de


viagens adquira seu sentido cardeal pois a logística da criação de itinerários turístico-culturais,
que são a base conceitual do projeto, traz embutida essa questão. Para se criar um roteiro cujo fio
condutor sejam acontecimentos históricos, deve-se ter uma capacidade narrativa de interligação
de fatos, personagens e sentimentos na composição de um grande painel de época. O mesmo tipo
de operação que faz um escritor de ficção ou um contador de histórias que, entretanto, tem o
direito à licença poética que um trabalho de cunho mais jornalístico não possui. Talvez por isso,
tantos tenham sido os escritores que criaram seus próprios itinerários pessoais de viagem como
80

Jorge Amado, Manuel Bandeira e Gilberto Freyre35 ou participado com textos em guias de
viagens do passado como Machado de Assis e Olavo Bilac36
Essa sexta e última premissa poderia ser bem aplicada no guia na explanação sobre o
positivismo que seria compreendido a partir da visita prevista ao Templo da Igreja Positivista do
Brasil na Glória. O fato dessa doutrina ter tido tanta influência sobre a elite intelectual brasileira
na 2ª metade do século XIX e ter sido determinante como suporte ideológico para a Proclamação
da República deve ser acompanhada de sua projeção internacional a partir da França e de sua
vasta influência nas ciências sociais surgidas naquele período. Seria importante perceber como o
ideário positivista ainda sobrevive em algumas tradições ou formas de se pensar na atualidade
assim como as razões de seu ocaso, bem perceptível pela situação de penúria arquitetônica em
que se encontra o templo hoje.

35
Jorge Amado escreveu um guia turístico sobre a Bahia em 1945 chamado “Bahia de Todos os Santos” que

teve tradução para vários idiomas; Manuel Bandeira escreveu seu “Guia de Ouro Preto” em 1938 que foi influente no

fortalecimento da conservação patrimonial da cidade, praticamente abandonada naquele período; Gilberto Freyre

escreveu o “Guia Prático, Histórico e Sentimental da Cidade de Recife” em 1934, uma obra bastante original onde

memória, história e questões de caráter prático do turismo integram-se na apresentação da cidade para os visitantes.

36
Segundo Perrota (2011) em sua pesquisa para dissertação de doutorado do FGV/ CPDOC, Machado de Assis

escreveu capítulos no Guia do Estrangeiro no Rio de Janeiro publicado em 1873 e Olavo Bilac foi um dos autores do

Guide des États-Unis du Brèsil, escrito em francês em 1904.


 
81

Figuras 18 e 19: O Templo da Religião da Humanidade no bairro da Glória


O símbolo máximo do positivismo em 2 momentos. Na década de 1920, com árvores de pau-brasil
ornamentando a Rua Benjamin Constant ; e em 2012, o templo em estado de semi-abandono,
imprensado entre prédios. Fontes: Foto 1 : Tabet, Sergio. O Rio de Janeiro em Antigos Cartões
Postais. Rio de Janeiro: Edição do Autor, 1985. Foto 2: Carlos Eduardo Guimarães (Arquivo Pessoal)

Através do aprofundamento das 6 premissas acima, adequando-as através de exemplos


práticos ao guia de memória histórica proposto nesse trabalho, espero ter demonstrado que a
interpretação patrimonial é um método para o desenvolvimento de produtos e serviços tendo por
base a conservação do patrimônio cultural de uma localidade. Portanto, não trata-se de mera
formulação de manuais de correção política na comercialização de bens culturais mas sim da
criação de estratégias de integração mais ampla dos visitantes aos sítios históricos através do
pensamento esclarecedor e da compreensão prazerosa dos mesmos. Só assim os lugares de
memória poderão conquistar os corações e as mentes de seus visitadores, fortalecendo seu
espírito conservacionista.
Cabe ainda ressaltar que a renovação na interpretação deve ser constante, levando em
conta novas temáticas, novas orientações e narrativas que possam resultar em novos guias de
viagens que tenham capacidade de atrair novos segmentos ou gerações de visitantes.
82

Figuras 20 e 21: O Centro do Rio em 2 momentos distintos:


Antes da reforma Pereira Passos que recebeu de João do Rio a alcunha de “Bota-Abaixo” e depois da
mesma, quando ganhou feições parisienses com a inauguração da Avenida Central em 1905. O Morro
do Castelo continua de pé como se pode notar à esquerda. Fotos : Marc Ferrez, 1900 e 1910.
Fonte : Ferrez, Marc. “ O Álbum da Avenida Central”. São Paulo: Editora Ex-Libris, 1983.

3.2 - GUIAS DE TURISMO DO RIO DE JANEIRO :


. OLHARES DO PASSADO E DO PRESENTE

Lembro-me da sensação de estranheza que tive quando abri


um mapa turístico do Rio publicado em 1937 pelo governo federal. Que
cidade era aquela ?
83

Em primeiro lugar, a orientação da cidade no mapa parecia


“errada”. Hoje, a Zona Sul sempre está presente na parte de baixo dos
mapas, aquela a partir da qual se começa a visualizar a cidade. No mapa
de 1937, esse lugar era ocupado pelo Centro do Rio. A sensação de
estranheza não parava aí, havia também uma lista de pontos turísticos
muito diferentes das de hoje.

As praias, por exemplo, não eram destacadas como atrações


turísticas – apenas os cassinos que nelas estavam situados. Além disso,
estavam em destaque uma série de monumentos, estátuas e edifícios, a
maioria no Centro, que dificilmente aparecem nos mapas atuais.
(CASTRO, 1999)

Causa mesmo um choque inicial a afirmação de Castro, acima mencionada, feita no


artigo “Narrativas e Imagens do Turismo no Rio de Janeiro” de 1999. O fato do autor não
detectar em destaque os elementos da paisagem natural ao observar os atrativos do Rio de
Janeiro em um mapa de folheto de divulgação turística na década de 1930 desafia todos os
cânones do turismo carioca atual. O autor ressalta que os guias de viagem e os folhetos turísticos
funcionam como cristalizações das narrativas e imagens do turismo e estas são elaborações que
dão significado a determinado momento histórico.

Seria ingenuidade, no entanto, pensar que um local possa ser


“naturalmente” turístico. Seu reconhecimento como “turístico” é uma
construção cultural - isto é, envolve a criação de um sistema integrado de
significados através dos quais a realidade turística é estabelecida,
mantida, negociada. Esse processo tem como resultado o estabelecimento
de narrativas a respeito do interesse da atração a ser visitada. Essas
narrativas associam determinados adjetivos a “pontos” ou eventos
turísticos, antecipando o tipo de experiência que o turista deve ter. A
construção do caráter turístico de um local também envolve,
necessariamente, seleções, alguns elementos são iluminados, enquanto
outros permanecem na sombra (CASTRO, 1999:81).

Os guias operam como mediadores entre visitantes e visitados, manuais que propõe
modos de se “usar” a cidade, ou seja, usufruí-la com mais prazer e conhecimento. Sua
84

funcionalidade, enquanto representante “autorizado” de um local e todos os seus habitantes, está


em orientar e regular o olhar da paisagem para quem chega. Portanto, precisam gerar ou
confirmar imagens pertinentes que transformem o local em objeto de atração para os
visitantes. Essas imagens reveladas e informações prestadas devem traduzir-se em pontos de
visitação que vão desde museus a locais de compra, de restaurantes a parques e belvederes, da
estatuária a bares e casas noturnas, de cenários naturais a majestosas edificações. Esse
conjunto de atrativos revela certos padrões culturais e estes passam por processos
permanentes de mudança, ou seja, não mudam apenas os lugares, mudam também os estilos
de vida, os padrões de gosto, as características sociais.
Tudo isso determina o deslocamento das centralidades, que no caso do Rio de Janeiro,
no passado localizava-se no bairro do Centro, e hoje concentra-se na Zona Sul, ramificando-se
para a Barra da Tijuca. Nessas áreas estão localizadas as principais atrações naturais da
cidade, com direito a vistas deslumbrantes das praias, morros, rochedos e florestas que
compõe a maior parte dos cartões postais que divulgam a cidade.
Em geral, “monumentos, objetos e eventos passados e personalidades, todos juntos com
suas sinalizações interpretativas, são um – muitas vezes, o principal – meio pelo qual os lugares
criam uma identidade separada”. ( Wainberg, 1989:14). Pois no caso específico do Rio de
Janeiro, acontece uma subversão nesta marca identitária dos grandes centros urbanos. O
cenário natural onde se funda a cidade não só suplanta qualquer elemento cultural ou histórico
citadino como também parece absorvê-lo pela sua força imagética. Assim, por exemplo, o
morro do Corcovado e a estátua do Cristo Redentor fundem-se em um elemento uno mas o
primeiro determina a própria monumentalidade do segundo. O Jardim Botânico e as ruas
arborizadas com rara beleza paisagística, frutos do trabalho humano, parecem ser mera
extensão da floresta tropical que a tudo circunda.
Esse processo de dominação da natureza sobre a civilização no imaginário dos visitantes
estrangeiros que chegam à cidade não é recente. Todas as narrativas e iconografia produzidas por
viajantes, em geral europeus, desde o século XVI transmitem uma fascinação pela paisagem
exuberante por onde o Rio se espraia. Estes relatos, pinturas e gravuras, nas palavras de Perrota
(2011), representando fauna e flora, indígenas e africanos, e mais os costumes da sociedade
portuguesa, sem dúvida ajudaram a formular a idéia de o Brasil ser uma terra exótica. Ainda
segundo a autora, foi fundamentalmente “a paisagem do Rio de Janeiro – porto e capital - que
maior responsabilidade teve na construção do imaginário de um lugar que merecia ser
conhecido”.
85

O deslumbramento causado pela extensão da Baía de Guanabara, pelo “mar de morros”


e pela grandiosidade da floresta ganhou força ainda maior para a indústria turística que crescia no
século XIX.

No século 19 na Europa, o movimento romântico e seus artistas


foram fundamentais para a valorização da natureza e da paisagem. No Rio
de Janeiro, a paisagem panorâmica encontrou motivos e pontos de vista.
Do mar para as montanhas. Das montanhas para o mar. Este cenário se
diferenciava de tantos outros no mundo e ia ao encontro da proposta de
alargamento do campo visual. (PERROTA, 2011:56)

Figura 22: Pintura de 1827


A natureza exuberante como elemento dominante da paisagem carioca a partir de vista do Pão-de-Açúcar tomada da
Estrada do Silvestre. Pintura atribuída a Charles Landseer. Óleo sobre tela, 60,7 X 92 cm – Coleção Brasiliana –
Fundação Rank Packard / Fundação Estudar. Fonte secundária: Neves, Margarida. “A Cidade e a Paisagem”. In: A
Paisagem Carioca. Rio de Janeiro. 2000.

Até o final do século XIX, pouco se comentava sobre o Brasil e o Rio de Janeiro em
termos de guias turísticos, pois quase toda a literatura a respeito dos mesmos tinha sido
produzida em formato de diário de viagem. Estes reproduziam impressões subjetivas de
viajantes em visita à cidade por motivações quase sempre comerciais. Na realidade, as
primeiras publicações com as características de um guia para orientar viajantes surgiram no
86

segundo quarto do século XIX37. O primeiro deles - o Handbook Murray - foi lançado em 1836,
para atender turistas domésticos em trânsito na Inglaterra, por John Murray que gozou de grande
prestígio não só pelos guias que editou mas também por ter publicado relatos de viagem de
Darwin e de Livingstone38. Já a partir de 1840, o editor alemão Karl Baedeker lançou uma série
de guias europeus de viagem que se tornaram referência de qualidade no gênero, de tal forma,
que ainda hoje a designação Baedekers tornou-se sinônimo de guias de viagem para leitores na
Europa.

Figura 23: Guia Baedeker’s


Capa de um Baedeker’s de 1907 quando já era a marca de guias turísticos mais prestigiada do mundo
Fonte: Portland State University Library http://library.pdx.edu/exhibits_archive.html

Nesse período em que surgiam as primeiras publicações turísticas na Europa, um


forasteiro recém chegado à capital do Império precisaria consultar catálogos e almanaques
publicados anualmente para obter informações básicas sobre a cidade. O mais famoso deles
foi o Almanak Laemmert que, na verdade, chamava-se Almanak Administrativo, Mercantil e
Industrial da Corte e da Província do Rio de Janeiro e circulou entre 1844 e 1889 por todo o
Brasil e também em muitas cidades do exterior. Segundo Perrota (2011:114), “o mercado
editorial brasileiro já conhecia, então, alguns guias (inclusive guias de ruas da cidade) e vários
almanaques volumosos quando, em 1873, é lançado pela Garnier o Guia do Estrangeiro no Rio
de Janeiro, que parece ter sido a primeira publicação sobre o Rio de Janeiro, dirigida ao viajante

37
Alguns autores como Pérez (2009: 107) defendem que a origem dos guias, enquanto peças divulgadoras de lugares
a se conhecer, estaria na antiga Grécia onde se proliferavam informações sobre “As Sete Maravilhas do Mundo”.
38
David Livingstone foi um missionário escocês e famoso explorador europeu da África
87

estrangeiro em estada na cidade. Aquela que julgamos ser a segunda - Guia do viajante no Rio de
Janeiro - só vai aparecer nove anos depois, em 1882, impresso pela Gazeta de Notícias”.
Cabe frisar que houve uma obra que, embora não se encaixasse nos conceitos
editoriais específicos de um guia turístico da época, traz semelhanças no conteúdo com o
turismo cultural tão decantado nesse projeto da dissertação. Trata-se do livro "Um Passeio
pela Cidade do Rio de Janeiro" escrito em 1862 por Joaquim Manuel de Macedo39, que
demonstra sua verve de cronista, ao propor, logo na abertura do livro, ser o cicerone desta
viagem “imaginária e ao léu” pela cidade. Em um tom que mistura história, memória e ficção,
sempre louvando o “esplendor da monarquia”, ele dirige-se diretamente ao leitor, convidando-o
a passear com ele pelas ruas da cidade visitando o Passeio Público, o Paço Imperial, os
conventos de Santo Antonio e de Santa Tereza, o Colégio Pedro II, o morro do Castelo – que já
naquele tempo falava-se em demolir – dentre outros símbolos patrimoniais que atendessem ao
seu olhar monumentalista.

Voltemos as costas para o mar. O espetáculo dessa natureza


opulenta, grandiosa, sublime, absorve-nos em uma contemplação
insaciável. Cerremos por algum tempo os olhos à majestade das obras de
Deus.(MACEDO, 2004 [1862]:51)

Essa postura de evitamento consciente das belezas naturais do Rio de Janeiro,


proposta por Macedo, também presente no guia turístico de 1937 analisado por Castro, foi
uma marca de todos os guias produzidos sobre o Rio durante a primeira metade do século XX.
Foi uma linha francamente patrimonialista em termos arquitetônicos aquela abraçada pelos
guias durante a Primeira República e no período Vargas, tentando comprovar a existência de
uma civilização nos trópicos através de seus mapas e sugestões de passeios. Essa necessidade
de afirmação de uma identidade nacional, fincada em conceitos de modernidade e cultura, já
perceptível no Império, teve uma significação muito poderosa no projeto de implantação da
república no país. Por isso o Rio de Janeiro, portão de entrada do país, teria de condensar
ideais de progresso e sofisticação em contraponto aos associados à “natureza indomável” e ao

39
Autor do romance A Moreninha - primeira obra da literatura brasileira a alcançar êxito de público – ferrenho monarquista e sócio-
fundador do Intituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Escreveu também outra importante crônica da cidade: Memórias da Rua do
Ouvidor, em 1878.
 
88

“exotismo dos costumes”. Lessa (2001) clarifica essa necessidade simbólica da capital do
novo regime:

O Rio é, a partir do início do século, a capital federal, assumida


com muito orgulho. O Rio de Janeiro passa a ser para o Brasil um início
de absolvição. O passado brasileiro nos condena, porém o futuro nos
pertence. A cidade é a credencial desta promessa. O Rio deixou de ser
pouco mais que uma ficção geográfica. Serviu de representação-síntese
da nacionalidade brasileira, como dos elementos nucleares da
construção ideológica nacional, da identidade e potencialidades do país.
Nação inconclusa a ser construída, a cidade do Rio de Janeiro era a
“demonstração de que se teria êxito”.
(LESSA, 2001:210).

Esse espírito renovador teve seu ápice na famosa reforma urbana de Pereira Passos
realizada em tempo recorde entre 1903 e 1906, quando o Rio transformou-se em um centro
urbano completamente renovado, marco de um Brasil moderno e internacionalizado que os
guias revenciariam nas décadas seguintes. O maior símbolo desse novo status da cidade seria
a Avenida Central (atual Av. Rio Branco) que ganhou as feições de um boulevard parisiense.

Há poucos dias, as picaretas, entoando um hino jubiloso, iniciaram


os trabalhos de construção da Avenida Central, pondo abaixo as primeiras
casas condenadas (...) começamos a caminhar para a reabilitação.

No aluir das paredes, no ruir das pedras, no esfarelar do barro,


havia um longo gemido. Era o gemido soturno e lamentoso do Passado,
do Atraso, do Opróbio. A cidade colonial, imunda, retrógrada,
emperrada nas suas velhas tradições, estava soluçando no soluçar
daqueles apodrecidos materiais que desabavam. Mas o hino claro das
picaretas abafava este protesto impotente.
Com que alegria cantavam elas - as picaretas regeneradoras! E como as
almas dos que ali estavam compreendiam bem o que elas diziam, no seu
clamor incessante e rítmico, celebrando a vitória da higiene, do bom gosto
e da arte” (Olavo Bilac, [chronica publicada na Gazeta de Notícias em
1904], apud NEEDELL, 1993: 70)
89

Não por acaso, Olavo Bilac, que compôs a ode acima em prol da destruição de um
modelo de cidade a ser substituído por outro mais “higiênico” e sofisticado, foi um dos autores
de um dos guias mais representativos do período : o “Guide des Etats-Unids du Brésil”. de 1904,
cujos co-autores foram Guimaraens Passos e Bandeira Júnior, também jornalistas e escritores
como Bilac .
No guia, quase não constam gravuras mas descrevem-se os atrativos turísticos da “mais
importante cidade da América do Sul pela sua extensão, pelo seu comércio, a beleza de seus
jardins, de seus monumentos e alguns edifícios.”, De novo, as belezas naturais ocupam um
segundo plano perdendo espaço até mesmo para personalidades políticas da época como o
presidente Rodrigues Alves, que ganham retratos por entre as páginas Segundo Isabel Perrota,
em sua pesquisa sobre os guias turísticos do período feita como parte de dissertação de
doutorado, todas as atrações apresentadas seguiam o figurino importado da modernidade
europeia.

O Centro da cidade continuará a ser o ponto de atenção, e o guia


de Olavo Bilac, em 1904, oferece um “voo de pássaro” percorrendo praça
XV, praça S. Francisco, praça Tiradentes, praça da República, praça Onze
de Junho, avenida do Mangue, rua do Ouvidor, avenida Central, praça
Carioca, praça da Lapa,praça da Glória, praça Duque de Caxias, praça
José de Alencar, praia de Botafogo, Passeio Público (com um aquário
inaugurado naquele ano), parque da República (projeto de Glaziou com 66
mil espécies vegetais), Jardim Botânico, Copacabana, Gávea (com
admiráveis paisagens), Corcovado, Silvestre, Pedregulho, Tijuca, Jardim
Zoológico [em Vila Isabel], citando a quantidade de cada animal,
Copacabana (incluindo Leme e Ipanema) e a baía do Rio de Janeiro. A
predileção por praças e jardins continua sendo predominante. Mas aqui
apareceram, pela primeira vez, a avenida do Mangue, que passará a ser
muito citada como importante obra de modernização da cidade, e a praia
de Botafogo, que passará a ser citada como um dos lugares mais bonitos.
(PERROTA, 2011:145)
90

Figura 24: Mapa “Rio de JaneiroCentral Monumental” de 1914


O mapa integra o “Guia Prático Organizado Especialmente para Estrangeiros” elaborado por Carlos Aenishänslin .
Trata-se de uma ampliação com elevação das fachadas dos principais edifícios na cidade destacando-se a Avenida
Central e o Morro do Castelo, parcialmente derrubado para a construção da avenida. Fonte: Instituto Histórico e
Geográfico Brasileiro. Fonte secundária: “Do Cosmógrafo ao Satélite: Mapas da Cidade do Rio de Janeiro”. Rio de
Janeiro: Centro de Arquitetura e Urbanismo do Rio de Janeiro, 2000.
Nesses anos pioneiros da indústria turística brasileira, podemos considerar a publicação
dos “Guias Verdes do Brasil”, elaborados pela agência de viagens Sociedade Anonyma de
Viagens Internacionais, como uma das mais importantes pela sua regularidade. O guia da série
denominado “Rio de Janeiro e seus Arredores” foi editado por mais de 10 anos, entre 1927 e
1939 e atingia não apenas os visitantes temporários como também os imigrantes40 cujo fluxo
para Rio era constante. No seu texto, a cidade foi definida como importante estação de turismo
internacional, devido às “ótimas condições de salubridade, a belleza das paizagens e os
numerosos recursos em passeios e divertimentos”.

40
Era muito comum que as informações contidas em alguns guias dessa época fossem direcionadas também para os
imigrantes europeus que precisavam ser atraídos para o trabalho no Brasil. Assim sendo, dados sobre a atividade
agrícola do país e exaltações sobre a abundância de água e a fertilidade da terra eram comuns nesses guias híbridos.
91

Existe, num desses guias verdes, Rio de Janeiro e Arredores, de


1929, informações pormenorizadas da cidade que abrangem aspectos
geográficos, serviços públicos, meios de transporte, religião, festas
populares, casas bancárias, instituições culturais e de ensino, esportes e
um longo etcétra que alcança as 161 páginas. Argumenta-se no Rio de
Janeiro e arredores, que a cidade estava destinada a ser um dos maiores
centros de turismo pelas belezas naturais, pelo clima, pelas comodidades
oferecidas, pelas vantagens da vida moderna, pela remodelação da cidade
e pelos tipos e costumes herdados do passado.( VENEGAS, 2011:8)

Figura 25: Os Guias Verdes do Brasil.


O guia “Rio de Janeiro e seus Arredores” fez grande sucesso nas décadas de 1930 e 1940.
Fonte secundária: www.livronauta.com.br/livro

Um outro aspecto a se considerar é que todos os processos de intervenção urbana mais


importantes da cidade como o Plano Agache – aproveitado em termos conceituais pelo
governo Vargas em obras como a Esplanada dos Ministérios e a Avenida Presidente Vargas –
e as reformas de caráter modernista já na Guanabara de Carlos Lacerda nos anos 1960 –
Aterro do Flamengo, abertura de túneis e construção de viadutos – tiveram reflexo direto nos
guias e folhetos turísticos produzidos nos períodos seguintes.
92

Figura 26 : Folder turístico de 1962


Boas-vindas à Cidade Maravilhosa nesta peça produzida pelo “Departamento de Turismo e Certames
do Governo do estado da Guanabara” durante a gestão do governador Carlos Lacerda.
Fonte: Coleção Particular; Fonte secundária: “Do Cosmógrafo ao Satélite: Mapas da Cidade do Rio
de Janeiro”. Rio de Janeiro: Centro de Arquitetura e Urbanismo do Rio de Janeiro, 2000.

Cabe ressaltar que as praias mencionadas em todos os guias até o início da década de
1920 devem ser desfrutadas enquanto paisagem e não como espaço de lazer e banhos de mar,
que só eram recomendados com fins terapêuticos até então. Mesmo com a inauguração do Hotel
Copacabana Palace em 1922 que foi, de longe, o maior e mais luxuoso hotel do Brasil 41 com
desenho arquitetônico inspirado no famoso Hotel Carlton, situado no balneário de Cannes na
Riviera Francesa, esta nova função turística da praia demorou alguns anos para ser incorporada
aos guias. Ao que parece, a primeira praia carioca que foi alçada à condição de balneário
ganhando maior visibilidade turística foi a atual Praia Vermelha na Urca. Um anúncio da Revista
Brasileira de Turismo42 de 1925 a descrevia como:

41
Em 1944, com a inauguração do hotel-cassino Palácio Quitandinha em Petrópolis, deixou de ser o maior hotel do
Brasil, mas mantém até hoje a fama do hotel mais requintado.
42
Publicada como órgão oficial da Sociedade Brasileira de Turismo fundada em 1923. Em 1926, esta associação
passou a ser chamada de Touring Club do Brasil e teve um papel fundamental no fomento do turismo interno no país.
 
93

“um local ideal devido à sua situação privilegiada


e aprazível podendo fazer uso de banhos de mar acompanhado de luxuosas
duchas de água doce e salgada, banhos de luz, raios ultra-violetas,
massagem, eletricidade, banhos de sol, excercícios phísycos (remo-lawn-
tennis), (...) com quartos e apartamentos dotados de todo o conforto
moderno”

Ao longo das décadas de 1950 e 1960, com deslocamento das elites para os bairros-
balneários de Copacabana e Ipanema, o foco dos guias turísticos passa a privilegiar estas áreas
para onde também se transfere boa parte da rede hoteleira. Nesse período, é interessante notar
que transparece um equilíbrio entre elementos naturais e histórico-culturais na distribuição de
pontos turísticos mais valorizados pelas publicações especializadas. A partir dos anos 1970, a
abordagem dos guias, cada vez mais escritos por estrangeiros, residentes ou não no Brasil e
ligados a grandes grupos editoriais internacionais, passa por uma transformação radical.

O razoável equilíbrio entre natureza e cultura característico do


período anterior pende agora decisivamente para o lado da natureza. Os
motivos edênicos retratam não só as belezas naturais- orquídeas, aves
exóticas, matas, cachoeiras- mas também personagens humanos, que são
agora mais populares que no período anterior – o malandro boêmio, o
menino engraxate, os favelados dançando animadamente o ritmo de samba,
já transformado em música nacional. A sensualidade metamorfoseia-se em
erotismo, e as praias, com suas mulheres em roupas de banho sensuais,
ganham o centro das atenções. Isso coincide com um processo histórico
mais amplo que levou ao culto ao corpo, ao banho de mar e ao bronzeado,
o que fez com que as cidades com praias- dentre elas, o Rio – tornassem-se
destinações turísticas importantes. (CASTRO, 2005:123)

Contribuindo e avançando sobre as questões de imagens e estereótipos “vendidos”


para o turista internacional através guias de viagem e artigos em jornais e revistas de turismo,
Bignami (2002:110), afirma que a atratividade turística do Brasil, estendida para ou a partir do
Rio de Janeiro, hoje se rotula pelas seguintes categorias:
94

 O Brasil Paraíso - relacionam-se à essa categoria as déias de ambiente


selvagem, Éden, Eldorado, as Amazonas, os recursos e atrativos naturais e
paisagísticos, as origens da descoberta que se pontuam pelo enunciado da
Carta de Pero Vaz de Caminha “dar-se-á nela tudo”;

 O Lugar do Sexo Fácil - relacionam-se a isso as idéias de beleza,


sensualidade, libertinagem, o símbolo da mulher brasileira, a concepção da
vida nos trópicos (mar, praia, sol);

 O Brasil do Brasileiro - incluem-se aí todas as características atribuídas ao


povo brasileiro ou pelo modo de ser do brasileiro, tais como a musicalidade,
a hospitalidade, a malandragem, a doçura, a alegria, a felicidade, a falta de
racismo ou preconceito e a cordialidade;

 O País do Carnaval - encontram-se relacionadas às manifestações


veiculadas pelos meios de comunicação, para fins essencialmente turísticos
como as grandes manifestações folclóricas, desportivas, artísticas e culturais,
gastronomia, os próprios meios de comunicação de massa, as atualidades e
eventos ligados às artes, ao cinema e à literatura nacional, à
promoção turística em si e ao marketing;

 O Lugar do Exótico e do Místico - estão aí relacionadas as idéias bizarras, a


religiosidade, o mistério, a cultura indígena pelo seu aspecto exótico, os
ritos e rituais de modo geral.

Por essas veredas tão tropicais, seguem os guias especializados em relação ao Rio, no
que parece, um retorno, despojado de inocência e pureza, às origens imagéticas do paraíso
natural narrado ou pintado pelos viajantes de outrora. Narrativas que moldaram uma forma de
se interpretar a cidade através dos elementos naturais que, apesar dos esforços civilizatórios
republicanos, sempre dominaram os olhares estrangeiros para com a cidade. E que
materializam-se em textos para publicações especializadas em turismo como o que segue
abaixo:
95

A baía da Guanabara, no início do século XVI, era um paraíso pré-


histórico natural, habitado por macacos, jacarés, tucanos e gigantescas
borboletas de asas azuis e iridescentes. Altos penhascos de granito preto
dominavam uma pequena faixa de litoral e para o navegador português
que a descobriu, Gaspar de Lemos, aquela enseada não pareceu um lugar
idôneo para se estabelecer. Ele ali chegou em janeiro de 1501 e pensou
erroneamente que se tratasse da foz de um rio: por isso batizou o lugar de
Rio de Janeiro. (JEVOLELLA, 1990 apud BIGNAMI, 2002:84)

Em suma, o patrimônio ambiental sempre ocupou um posto bastante superior ao do


patrimônio histórico-cultural na “hierarquia ótica” do estrangeiro em relação à cidade. Mesmo
os elementos culturais que ganharam um lugar no pódio turístico na 2ª metade do século XX
como o carnaval, os ritmos e estilos musicais, o futebol gingado, a cordialidade do povo, a
sensualidade das mulheres são percebidos como “exóticos” para o olhar de grande parte de
turistas do hemisfério norte. Só podem ser o resultado do ambiente, simultaneamente,
paradisíaco e “selvagem” o que, por suposto, também contribui muito na geração de todas as
imagens ligadas ao caos e à violência associadas à capital fluminense. Estas últimas, como
dados imagéticos negativos, também precisam ser tratadas pelos guias, que, como bons
conselheiros, reservam algumas poucas folhas para lidar com efeitos colaterais da indomável
natureza sobre os espíritos cariocas. Em geral, com títulos leves no estilo “cuidados e
precauções ao chegar” ou, “dicas de sobrevivência”.
96

Figura 27: Cédula de 100.000 réis de 1936


Nota estampada no verso com imagem representativa do Rio. Morros e florestas, Corcovado com
estátua do Cristo e avenida Beira-mar recém-construída. Natureza e modernidade.
Fonte: Centro Cultural Banco do Brasil. Fonte secundária: Martins, Carlos. A Paisagem Carioca. Rio
de Janeiro. 2000. Prefeitura do Rio.
97

CAPÍTULO 03 – UM GUIA HISTÓRICO AFETIVO : FORMA,


CONTEÚDO E OBJETIVOS.

A cidade se embebe como uma esponja dessa onda que


reflui das recordações e se dilata. Uma descrição de Zaíra como é
atualmente deveria conter todo o passado de Zaíra .
. Mas a cidade não conta o seu passado, ela o contém como as
linhas da mão, escrito nos ângulos das ruas, nas grades das janelas, nos
corrimãos das escadas, nas antenas dos pára-raios, nos mastros das
bandeiras, cada segmento riscado por arranhões, serradelas, entalhes,
esfoladuras. (CALVINO, 1990)

Para ler e olhar a cidade é imperativo caminhar por ela


(CERTEAU, 1994)

Para um turista cultural, um “pequeno” guia de fácil manuseio e prático transporte é um


item indispensável para se levar durante a viagem, um tipo de nécessaire intelectual. Afinal, se
para um turista convencional, trata-se a priori de um manual com orientações rápidas, dicas de
compras e de restaurantes, sugestões sintéticas de passeios e outros métodos de “usança” para
um local desconhecido, para o turista de perfil mais explorador, um guia ganha novos
patamares. Ele passa a ser quase um oráculo, um desvelador de mundos presentes e tempos
passados, um conselheiro para novas experiências e sensações. De tal forma, que ao retornar
para casa, a tendência é que a própria brochura volte como uma das melhores lembranças da
viagem , um souvenir a ser guardado para sempre.
98

Diários de viagem sempre gozaram de certo prestígio editorial desde século XVIII. De
certa maneira, este prestígio transferiu-se para os guias de viagem atuais que ganham cada vez
mais respeito, inclusive, enquanto estilo jornalístico /literário. Os espaços reservados para os
mesmos ocupam cada vez mais metragem nas livrarias e suas marcas mais famosas difundiram-
se globalmente como a pioneira Baedekers, seguida por Frommer’s, Fodor’s, Acess, Rough
Guides, Eye Witness e a mais famosa de todas, a Lonely Planet.
Como já mencionado, a minha proposta para o “Guia de Memórias da República no Rio
de Janeiro” é preencher um espaço ainda não devidamente aproveitado por outros guias sobre o
Rio, com dados significativos sobre a história e a evolução urbana e social da cidade,
principalmente no século XX. Um guia que, a partir de uma visão histórica do turismo cultural,
crie oportunidades para seus leitores lançarem um olhar experimental sobre o passado carioca
através de circuitos a serem percorridos a pé e com pequenos deslocamentos via transporte
público. Como defendido por Possamai (2011), “as maneiras de ler condicionam o corpo leitor,
ler a cidade pressupõe uma disposição corporal para percorrer seus espaços, se perdendo e se
achando”. A partir desse conceito, e com a devida liberdade poética, espero que seja um guia que,
ao promover passeios agradáveis e informativos pelas memórias de uma cidade, consiga
transformar seus usuários em novos flâneurs. Ao convidar os turistas culturais para uma
caminhada mais atenta pelo espaço urbano como faziam esses tipos celebrados por Baudelaire, o
guia os transportaria para uma viagem no tempo onde se sentiriam em casa pois “na entrada do
século XX prospera no Rio a postura do flâneur: ouvir as ruas para conhecer as entranhas da
cidade”. (Lessa, 2001:223).

Forma e Conteúdo

Os planejadores do turismo cultural, especialmente no que


tange os atrativos turísticos históricos, devem priorizar a
organicidade existente entre tais bens. Vale dizer que, para o uso
turístico, o respeito ao diálogo presente nas edificações e entre estas
e os respectivos logradouros permite uma visão de conjunto dos
atrativos e da forma como eles se articulam levando a um
melhor aproveitamento turístico. (PIRES, 2002).
99

Sem dúvida, o “Guia de Memórias da República no Rio de Janeiro” é um projeto


ambicioso, a ser gerido por uma equipe multidisciplinar composta, no mínimo, por historiadores,
jornalistas, urbanistas, pesquisadores e agentes de viagem com experiência operacional. A
produção de um guia histórico - turístico – memorialístico com rotas temáticas por uma cidade
demanda uma série de precauções metodológicas já tratadas na primeira parte desse capítulo.
Falta-nos tecer algumas considerações sobre concepção estética do produto e sobre o conteúdo a
ser trabalhado em cada roteiro. É o que faremos a seguir.
No que tange ao estilo e à linha editorial, a publicação seria inspirada no modelo de duas
séries de guias de viagem bastante reconhecidas internacionalmente conforme apresento abaixo:

KNOPF GUIDES
Praticamente desconhecidos no Brasil, os guias da série Knopf Guides são publicados em
vários idiomas pela editora de mesmo nome, a Knopf Publisher Inc, que possui extensa tradição
na publicação de livros de arte. Esta expertise é repassada para os guias que possuem um design
elegante com composições visuais arrojadas refletindo a ênfase editorial sobre a história, a arte e
a arquitetura dos destinos. Conforme pode-se observar pelas páginas reproduzidas abaixo do
Knopf Guide da cidade de São Petersburgo na Rússia, a apresentação é primorosa. O apuro
visual, a preferência por utilização de fotos e ilustrações de época e o estilo gráfico vintage nos
remetem repetidamente para a uma dimensão do passado da cidade, como se fizéssemos uma
viagem temporal além da espacial nos passeios pelas cidades. Tudo isso, acompanhado por
textos com qualidade literária, alguns no formato de diário de viagem ou de crônica de costumes,
feitos por escritores ou jornalistas que mantém um “olhar estrangeiro” por sobre a cidade
retratada.
100
101

Figura 28
102

GUIAS VISUAIS DA FOLHA DE SÃO PAULO /


EYEWITNESS TRAVEL GUIDES 43

Esses guias de viagem tem como marca registrada uma apresentação gráfica bastante
original baseada em mapas aéreos tridimensionais de cada área da cidade, com vista geral de
bairros e ruas. A proposta é que o turista caminhe por uma região bem demarcada em itinerários
cujas as atrações são numeradas no mapa e ilustradas em pequenos boxes que saltam aos olhos,
que lembra uma interface digital com telas interativas e janelas de conteúdo. Todos os itens
apresentados recebem uma descrição por deveras objetiva e pouco aprofundada nas páginas
seguintes, com textos rápidos, ilustrações e fotos. Muito rico termos visuais, deixa a desejar em
termos de conteúdo, o que pode ser intuído pelo próprio slogan publicitário : “ o guia que mostra
o que os outros só contam”. A série de Guias é publicada mundialmente pela editora DK
(Dorling Kindersley) que ainda não lançou nenhum guia exclusivo para o Rio de Janeiro. O
exemplo das páginas que mostro a seguir foi retirado do guia lançado para o Brasil.

43
Coleção de Guias de Turismo publicados pela Publifolha e traduzidos dos originais em língua inglesa Eyewitness
Travel Guides da editora DK. É a 2ª marca de guias mais vendida no mundo atrás apenas da Lonely Planet.
 
 
103

Figura 32 : Página Guia Visual Folha de São Paulo


Modelo de “walking-tour” sugerido no centro do Rio. Bons recursos visuais e conteúdo limitado.
Fonte: Guia Visual da Folha - Brasil. São Paulo: Publifolha, 2008

Em termos conteudísticos, a ideia seria promover a reconstrução da memória social do


Rio estabelecendo como limites (jamais absolutos, cabe frisar) os anos de 1889 e de 1975.
Esses quase 90 anos seriam cobertos em termos de análise através de 5 itinerários com os
seguintes recortes temporais propostos:

1. Rio Pós-Imperial. A Proclamação e Implantação da República –1889 / 1894

2. Rio Belle Époque. .


A 1ª República– 1895 / 1930

3. Rio Moderno e Autoritário. A Era Vargas – 1930 / 1954

4. Rio Anos Dourados. Democracia e Turbulência – 1954 / 1964

5. Rio Saudades da Guanabara. Os Anos de Chumbo – 1964 / 1975


104

Para cada período, seriam elencados pontos de visitação em um circuito turístico


temático principal com base na história social e política do país e no processo de
desenvolvimento urbano da cidade. Os lugares de memória selecionados seriam esmiuçados a
partir de uma abordagem mais elaborada e elucidativa (por conseguinte menos grandiloquente)
dos fatos relevantes e/ou polêmicos que tenham ali ocorrido. Isto faria com que cada item
patrimonial (já convertido em atração turística) necessitasse de 2 a 3 páginas para ser exposto.
Estas seriam seguidas por mais 1 ou 2 páginas contendo um box informativo com comentários
complementares sobre os processos históricos mais amplos que servem de pano de fundo para o
desenrolar dos fatos. Tudo entremeado por notícias de jornal, crônicas de costumes, charges,
fotos e ilustrações de época.
Cabe ressaltar que os pontos de parada sugeridos em cada itinerário seriam pautados a
partir de fatos históricos ou de personagens político-culturais mais relevantes do período em
questão, e que seriam representados através de itens tangíveis do patrimônio e lugares de
memória - bens arquitetônicos e monumentos - assim como por “itens da cidade ausente” cujo
significado será melhor explicado através de exemplos nas páginas seguintes. Assim sendo, a
crise política do Império e a queda do 2º Reinado seriam “interpretados” a partir de uma visita à
Ilha Fiscal; a Revolta da Chibata, ganharia sentido a partir da Praça XV com a estátua de João
Cândido e a vista da Ilha das Cobras, onde encontra-se o presídio da Marinha em cuja masmorra
morreram os principais líderes do movimento. Figuras relevantes como Benjamin Constant e Rui
Barbosa, seriam registrados como personagens históricos mas também com facetas das suas
vidas privadas que podem revelar modelos comportamentais de uma época. Isso tornaria-se
possível através de visitas ao Museu Casa de Benjamim Constant em Santa Teresa e a Fundação
Casa de Rui Barbosa em Botafogo, onde, respectivamente, ambos viveram.
Além da abordagem eminentemente histórica, o guia traria a sugestão de alguns roteiros
turísticos ligados a manifestações artísticas e culturais que moldaram a identidade da cidade e
seus habitantes nas diferentes épocas em estudo. Dentro dessa ótica, estilos arquitetônicos e
musicais assim como a história de alguns bairros, seriam contemplados através de circuitos
turísticos complementares. As rotas musicais pensadas inicialmente seriam:

 Rio Berço do Samba ( Centro, Praça 11, Estácio) ;

 Rio de Noel ( Lapa e Vila Isabel) ;

 Rio Bossa Nova ( Copacabana e Ipanema).


105

No caso dos roteiros a serem desenvolvidos por bairros cariocas, o objetivo seria elencar
áreas que pudessem representar o “espírito da modernidade e do novo” em cada um dos 5
períodos históricos escolhidos e destacar os estilos arquitetônicos predominantes em cada
período. Assim sendo em uma primeira avaliação trabalharia com os seguintes bairros :

 Santa Teresa, Laranjeiras e Cosme Velho ( 1889/ 1904);

 Glória , Catete e Botafogo (1904/ 1930);

 Flamengo e Urca ( 1930 / 1954);

 Copacabana e Ipanema( 1954 / 1964);

Desenvolvimento dos Roteiros

Rio Pós-Imperial - A Proclamação e Implantação da República 1889 /


1894

Uma luta pelo poder representada por uma equação complexa de


pelo menos três variáveis beligerantes entre si: uma República Militar,
articulada em torno de Deodoro da Fonseca e seus partidários; uma
República Sociocrática, representada por Benjamin Constant a partir de
sólidas bases positivistas e uma República Liberal, representada por
Quintino Bocaiúva. À esta equação, somavam-se não como atenuantes, as
atuações do “jacobinismo’ civil frutificado em torno de Floriano Peixoto e
do ativismo de Antonio da Silva Jardim. (CARVALHO, 2006)
106

Os republicanos, bastante divididos entre si, não se enganavam


quando admitiam a possibilidade de articulação de grupos monarquistas
dispostos a lutar com palavras e tiros pela derrubada da República. O
exílio do imperador era uma medida necessária e mesmo fundamental do
ponto de vista simbólico mas insuficiente do ponto de vista estritamente
político. (GOMES, 2002)

Abaixo apresento uma sugestão de circuito turístico-cultural para os primeiros cinco anos
de governo republicano no Brasil. Um período que seria retratado no guia dentro do espírito das
epígrafes acima, ou seja, conturbado, com inúmeras revoltas e sob a espreita ameaçadora da
sombra da monarquia. Em função disso, bens patrimoniais com uma carga simbólica muito
ligada ao regime monárquico comporiam o itinerário como são os casos do Castelo da Ilha Fiscal
( até hoje um dos lugares de memória monárquica mais fortes no país) e o Palácio da Quinta da
Boa Vista (onde parte do “encanto” monárquico conseguiu ser quebrado pelo processos de re-
utilizações do espaço pela República).
É importante frisar que as locações propostas para visitação nesse roteiro seguem a
intuição de um profissional de turismo com a devida experiência em city-tours e comprovada
paixão memorialística pelo passado da cidade. No entanto, a quem ainda falta a fundamental
perícia historiográfica para o desenvolvimento de um projeto tão complexo. Por isso, cabe a
reafirmação de que o roteiro abaixo apresentado é uma sugestão inicial de trajeto, à espera da
contribuição profissional de pesquisadores da história do Rio de Janeiro para atingir sua
maturação. Trata-se, portanto, de uma proposta aberta, ainda carente de ajustes para tornar-se
uma experiência turística o mais prazerosa, educativa e elucidativa possível para os usuários do
guia.
Outro ponto a se destacar é que a ordem de apresentação dos sítios sugeridos para visita
na dissertação segue uma relativa lógica cronológica, em obediência às noções metodológicas do
projeto já discutidas. Embora esse ordenamento por datas possa ser uma ferramenta facilitadora
para a compreensão dos processos históricos, em termos práticos torna-se uma impossibilidade
geográfica. Os leitores do guia não teriam disposição nem tempo para desenvolver percursos em
zigue-zague em prol de uma aproximação com a ordem cronológica dos acontecimentos.
Portanto, a forma mais adequada de se fazer o itinerário seria seguindo um encadeamento a partir
da proximidade espacial entre as atrações e a maior facilidade de transporte entre elas.
107

Chamo a atenção também para a “visita” prevista a sítios que já não mais existem em
termos concretos. Alguns nem mesmo sobreviveram como lugares de memória tanto por conta
da distância geracional já passada, assim como por terem sido substituídos em sua carga
simbólica por outros de semelhante valor. Este seria o caso, por exemplo, da antiga Câmara
Municipal, onde foi sancionada de fato a proclamação da república, e que localizava-se em
torno da atual Praça da República. A mesma foi posta abaixo, assim como parte do Campo de
Santana, para abertura da Avenida Presidente Vargas. No guia, através de registros fotográficos
do passado seria possível “conhecê-la”.
Em minha opinião, esses “ex-lugares” devem “reconhecidos” através de registros
fotográficos do passado impressos no guia e estabelecidos como pontos de parada durante o
percurso basicamente por duas razões. A primeira diz respeito à devida importância histórica
que tiveram em relação a personagens ou acontecimentos do período, e a segunda, mais
relevante, seria para que o leitor pudesse perceber a evolução urbanística do Rio de Janeiro no
século XX enquanto um processo de remodelações radicais da paisagem onde questões
pertinentes à preservação do patrimônio só recentemente foram observadas. O contato, via
imaginação, com estes “ itens da cidade ausente” - como vou designá-los no descritivo dos
roteiros - poderia contribuir para o desenvolvimento de convicções preservacionistas em tanto
em turistas quanto em residentes.
Cabe também informar que na apresentação que se segue, além dos pontos de parada
previstos, também destaco com um título, o tema que seria trabalhado nos boxes informativos
com informações complementares exclusivamente de caráter histórico.

Roteiro 1

Pontos de Visitação e Boxes Informativos Sugeridos

1. CASTELO..DA..ILHA..FISCAL
+ B.I. – “O Canto do Cisne do Império”

2. PRAÇA DA REPÚBLICA / CAMPO DE SANTANA


+ B.I - “O 15 de Novembro”
108

3. PALÁCIO DUQUE DE CAXIAS ( local do antigo Quartel General do


Exército-..item..da..cidade..ausente)
+ B.I - “ A Questão Militar”

Figura 33 : Quartel General do Exercito em 1885


Um item da cidade ausente que seria “visitado” através da imaginação do leitor. Fonte: Coleção
Gilberto Ferrez. Fonte secundária: “O Rio Antigo do Fotógrafo Marc Ferrez”. São Paulo: Editora Ex-
libris, 1984

4. PAÇO IMPERIAL .
+ B.I - “O Banimento da Família Real”

5. CASA HISTÓRICA DE DEODORO DA FONSECA


Praça da República, 197 .
+ B.I - “ Marechal Deodoro- rebelde e monarquista”

6. PALÁCIO MAÇÔNICO DO LAVRADIO DO GRANDE ORIENTE DO


BRASIL

Rua do Lavradio, 97 – Lapa .


+ B.I - “ As várias repúblicas no 1º Ministério”

7. EX-SEDE DO JORNAL O PAIZ (item da cidade ausente) NA RUA DO


OUVIDOR .
+ B.I. – “ A imprensa brasileira. Liberal e libertária”
109

8. MUSEU CASA DE BENJAMIN CONSTANT


Rua Monte Alegre, 255 – Santa Teresa .
+ B.I - “Benjamin Constant- o líder que não chegou à presidência”

9. PALÁCIO DO ITAMARATY (Museu Histórico e Diplomático)


Av. Marechal Floriano 196 – Centro .
+ B.I. “Os Novos Símbolos Nacionais”

Figura 34 : Palácio do Itamarati em 1894


Saudações ao recém-empossado Presidente Prudente de Morais na Rua Larga de São Joaquim (atual Marechal
Floriano). Fonte: Coleção Gilberto Ferrez. Fonte secundária: “O Rio Antigo do Fotógrafo Marc Ferrez”. São Paulo:
Editora Ex-libris, 1984

10. Antigo Supremo Tribunal Federal (item da cidade ausente) .


+ B.I “ Os Estados Unidos do Brasil e o Pacto Federativo”

11. FACULDADE NACIONAL DE DIREITO ( Solar Conde dos Arcos / ex-sede


do Senado Federal e local de reuniões da Assembléia Constituinte)
B.I - “ A 1ª Constituição da República”

12. PALÁCIO DA QUINTA DA BOA VISTA ( 1ª Eleição Presidencial) .


+ B.I - “ A re-leitura do Império a partir da República”

13. TEMPLO DA IGREJA POSITIVISTA DO BRASIL


Rua Benjamin Constant, 74, Glória .
+ B.I - “ Amor, Ordem e Progresso”
110

14. EX- PREFEITURA (item da cidade ausente) .


+ B.I - “ Barata Ribeiro – o 1º prefeito do Distrito Federal”

15. CORTIÇO CHORA VINAGRE .


Rua dos Inválidos 124 .
+ B.I. “Cabeças de Porco e Choros de Vinagre- a Memória da Pobreza
Urbana”

16. MONUMENTO A FLORIANO PEIXOTO .


Praça Floriano - Cinelândia . .
+ B.I - “ Revoltas e Estado de Sítio ”

Em seguida, apresento o estilo de texto a ser desenvolvido no guia apresentando um


descritivo de uma visita prevista ao Castelo da Ilha Fiscal incluindo o conteúdo do respectivo
box informativo. Os textos são apresentados em 2 versões : a primeira em Word para ser lida
como parte da dissertação e a segunda com os textos já distribuídos em protótipos simples de
páginas do “Guia de Memórias da República no Rio de Janeiro”.

CASTELO DA ILHA FISCAL

Embarque no Espaço Cultural da Marinha - Av. Alfredo Agache s/nº (final da


Praça Quinze) – Baía de Guanabara

De 5ª feira à domingo. Escuna parte em 3 horários: 13h, 14h30 e 16h

Tel: (21) 2271-7000

A ÚLTIMA JOIA DA COROA

A Ilha Fiscal, que nos tempos de colônia era conhecida por Ilha dos Ratos e no
sec.XIX ganhou o seu atual nome porque ali funcionou o posto alfandegário da Guarda Fiscal,
é menos lembrada pela sua condição insular do que pelo castelo que se impõe em sua paisagem.
A ilha é o castelinho que pode ser avistado de qualquer ponto na entrada da Baía de Guanabara.
Este palacete foi projetado pelo engenheiro Adolfo del Vecchio em estilo gótico-
provençal nos moldes de um castelo estilizado da Idade Média, típico do sul da França. Sua
111

construção foi supervisionada pelo próprio imperador que referia-se à obra e ao cenário que a
emoldura com certa fascinação : "A ilha é um delicado estojo, digno de uma brilhante jóia".
Inaugurada em 27 de abril de 1889, a “jóia de D.Pedro II” pode ser considerada o último
legado histórico deixado à cidade pela família real. Por suas características arquitetônicas e por
ter abrigado o último baile da corte, ganha uma carga simbólica marcante na representação do
apogeu e ocaso da monarquia no Brasil.
O elegante palácio foi concebido para ser o quartel da guarda de fiscalização do porto
e foi destinado à Marinha que o administra desde a inauguração. Por ser um local de trabalho,
esteve fechado ao público até 1997, quando a Marinha decidiu transformá-lo em um museu.
Desde então, promove visitas guiadas ao local com os visitantes embarcando em escunas que
partem do Espaço Cultural da Marinha onde pode-se visitar navios e submarinos históricos.
O interior do palacete-museu reproduz com perfeição o mobiliário e o estilo de vida da
elite carioca no final do sec. XIX. Seus diversos salões dividem-se em várias exposições bem
distintas, boa parte ligada à ações da Marinha. O grande destaque é a exposição do Último Baile
com um acervo bem diversificado apresentando documentos, objetos e manequins com trajes de
época usados no grande baile, entre outras peças.
Outros pontos de destaque são o assoalho original em parquet, o relógio de 4 faces do
torreão central montado pela Casa Krussman e o maior brasão do Império, esculpido em granito
fluminense no frontão de entrada.
Ao final do tour, visita-se a parte superior do castelo, onde se pode vislumbrar um pouco
do requinte do salão onde foi realizada a troca de bandeiras entre Chile e Brasil por ocasião do
famoso baile. A sala é ricamente ornada com vitrais vindos da Inglaterra, que retratam de um
lado D. Pedro II e, do outro, a Princesa Isabel, ladeados por brasões.
112

Figura 35: Guia de Memórias da República


Modelo de página sobre a Ilha Fiscal. Criação: Ana Carolina Bolshaw Guimarães

BOX INFORMATIVO

O ÚLTIMO BAILE DA ILHA FISCAL

O Canto do Cisne do Império


O legendário baile da Ilha Fiscal foi, de longe, a maior e mais cara festa privada até
então realizada no Brasil e, de certa forma, foi espantoso para os padrões de discrição da família
real. Ao que parece, bailes pomposos causavam muito mais desconforto do que satisfação a
Dom Pedro II.
Várias foram as motivações para tamanho fausto. Oficialmente, o baile foi um evento em
homenagem à tripulação do encouraçado chileno “Almirante Cochrane” e com tal recepção, o
Império esperava reforçar os laços de amizade com o Chile. Mas os motivos que, de fato,
permearam o espírito de todos os convidados foram a comemoração das Bodas de Prata da
Princesa Isabel com o Conde d’Eu cumpridas em 15 de outubro e a apresentação oficial para a
113

alta sociedade da pequena jóia do imperador: o castelo-fantasia inaugurado 6 meses antes. E


ainda houve o motivo-mor, carregado de simbolismo político, que guiou o grande organizador
do espetáculo - o Visconde de Ouro Preto, presidente do Gabinete de Ministros : demonstrar a
grandeza e prestígio da monarquia perante tantas notícias de conspirações republicanas que
dominavam a capital.
E o Visconde não poupou esforços nem fundos para o sucesso da empreitada . Os 250
contos de réis investidos na realização da mega-festa, valores divulgados pela imprensa da
época, foram retirados do ministério da Viação e Obras Públicas e corresponderiam a cerca de
10% do orçamento previsto para a Província do Rio de Janeiro no ano seguinte.
Programado para receber cerca de 3.000 convidados, o evento causou furor na elite da
capital. Os magazins de roupas finas esgotaram seus estoques 2 semanas antes. Barbeiros e
cabelereiros trabalharam sem interrupções durante as 48 horas que antecederam ao baile.
Na noite da festança, os convidados foram transportados em embarcações ornamentadas
com bandeirinhas do Chile e do Brasil e lanterninhas venezianas e que partiam seguidamente do
Cais Pharoux, em frente à atual Praça XV. Segundo o Jornal do Commercio de 11 de novembro,
a ilha foi "transformada num cenário encantado, onde demoiselles vestidas de fadas e sereias
recepcionavam os convivas". Como tanto a parte interna como a parte externa do castelo
foram aproveitadas para a festividade , toda ilha foi magistralmente iluminada com mais de 60
mil velas e 10 mil lanternas venezianas. Seis dos salões foram reservados para os pés-de-valsa
poderem dançar à vontade e 2 bandas militares não pararam de tocar quadrilhas, valsas, polcas e
mazurcas.
D. Pedro II, D. Teresa Cristina, a Princesa Isabel e o Conde D’Eu recepcionaram os
convidados no corpo central da edificação. Depois seguiram para parte de trás da ilha onde
foram montadas 2 mesas, em formato de ferradura, para um jantar especial oferecido aos 500
convidados mais ilustres. Nas cabeceiras das mesas, 2 enormes pavões empalhados estendiam as
caudas multicoloridas.
Os comes e bebes da festa de arromba foram um capítulo à parte. Durante 3 dias, 48
cozinheiros trabalharam no preparo da ceia e do jantar que foram servidos por cerca de 150
copeiros e garçons por entre mesas decoradas por castelos de açúcar com torreões repletos de
bombons.
O cardápio incluía vários pratos de caça e pesca, mas a criatividade culinária dos chefs
parece ter se concentrado em aves exóticas, tipicamente brasileiras, como inhambus, jacutingas e
macucos. Outro ponto alto das refeições foram as sobremesas, com uma profusão de doces e
114

sorvetes, que mesmo que sendo produzido desde 1834, ainda eram um item de luxo para o Brasil
da época.
A família real retirou-se por volta de 1 hora da manhã mas a festa prolongou-se até quase
o amanhecer. Dentre os itens “esquecidos” pelos convidados estavam 37 lenços, 24 cartolas e
chapéus, 5 condecorações militares, 8 raminhos de corpete, 3 coletes de senhoras e 17 cintas-
liga. Um descalabro para os padrões morais da época. Se isso não ocorreu de fato, foi pelo menos
o que foi noticiado no periódico oposicionista “O Paiz” no dia 12 de novembro.
Aliás, o luxo e as extravagâncias do evento foram o principal assunto da imprensa nos
dias que se seguiram. E teriam continuado a gerar manchetes, não tivessem os jornais que mudar
radicalmente o tom de suas notícias 6 dias depois por conta de um novo acontecimento muito
mais palpitante que tomou conta da capital: a proclamação da República.
O baile havia se cristalizado para sempre na memória nacional como o último suspiro da
monarquia.

Figura 36: Modelo de página do Guia de Memórias da República


B.I. sobre o significado simbólico do Baile da Ilha Fiscal Criação: Ana Carolina Bolshaw Guimarães
115

4 - CONSIDERAÇÕES FINAIS

A cidade se nutre de tudo que serve de signo por que tudo é


chamado a funcionar como signo, de forma fugidia ou durável. Esse
sobrepeso de signos e de suas potencialidades incomensuráveis passa a
traçar as condições da aventura da percepção cotidiana da cidade.
(JEUDY, 2005)

O passado é uma das formas de percepção de uma cidade. Isso nos parece muito
claro quando caminhamos, como turistas, por cidades europeias e mesmo em rincões mais
próximos como Buenos Aires. Aliás, foi a partir de uma experiência na capital argentina que
comecei a observar minha cidade, o Rio de Janeiro, com outros olhos, olhos de um visitante.
Naquela ocasião, nos idos da década de 1980, eu trabalhava como guia turístico e estava
acompanhando um grupo de brasileiros na capital portenha. Durante um passeio, por entre
edificações e palácios da belle époque bonaerense, um professor mineiro comentou em tom
elogioso que Buenos Aires era belíssima e que lhe lembrava muito o Rio de Janeiro. Lembro-me
que os cariocas do grupo, eu incluído, foram os que mais ficaram aturdidos com tal observação
que gerou protestos e foi motivo de chacota durante o resto da viagem. Afinal, para uma cidade
como o Rio, que sempre evoluiu urbanisticamente comprimida entre a supremacia do elemento
natural e a obrigação de espelhar as utopias modernizadoras nacionais, o presente deveria ser
sempre moldado pelo eterno e pelo futuro. Nunca pelo passado. Ao invés de se desprender por
tantas esquinas como em Buenos Aires, o passado carioca estava condenado a acanhar-se ao lado
de espigões, a esconder-se por entre viadutos e avenidas, a submergir nos túneis do metrô.
Aquela observação “duplamente turística”, feita por um mineiro em Buenos Aires,
serviu-me como uma epifania. Comecei a caminhar pelo Rio com esse “olhar estrangeiro” para o
116

passado da cidade e creio que a ideia de um guia de ruas com orientações simultâneas em
termos temporais e espaciais começou a tomar corpo durante essas caminhadas. O Rio, em
muitos aspectos, realmente lembra Buenos Aires, só que esses aspectos não eram tão comuns
nas áreas mais valorizadas da cidade no final do século XX. Já tinham perdido a vista para o mar
ou nunca haviam chegado a tê-la. O passado da cidade mantinha-se isolado do turismo que
precisava lidar com outras equações imagéticas mais complexas sobre o Rio como a promoção
da “modernidade no exotismo”ou vice-versa.
O fato é que essa postura de valorização do passado transformado em um item turístico,
tão disseminada em outros países, é uma tendência relativamente recente no Rio e no Brasil.
Percebe-se na administração pública das cidades brasileiras um engajamento, cada vez maior, à
políticas de preservação ou restauração do patrimônio histórico-cultural. Sinal flagrante de uma
mudança na forma de se lidar com a memória histórica em um país marcado por projetos
modernizadores que primaram pela rejeição ao passado, tentando suplantá-lo à todo custo, isto é,
destruindo seus vestígios em nome de uma ideia de progresso constante, vaticinada no próprio
lema da bandeira nacional.

Esta fé no "país do futuro" tornou-se uma ideologia avassaladora a


partir da República, e isto explica porque foram tão bem sucedidas, no
século XX, as reformas urbanísticas radicais que tanto transformaram a
face de diversas cidades brasileiras. Viabilizadoras desse futuro, essas
reformas tiveram grande acolhida entre as elites modernizadoras do país,
que jamais hesitaram em enfrentar qualquer apego a antigos valores, a
antigas "usanças" urbanas, taxando sempre esse comportamento como um
indicador de conservadorismo, de atraso, de subdesenvolvimento. Lemas
como "São Paulo não pode parar", "cinquenta anos em cinco", "prá frente
Brasil" e muitos outros, independentemente de seus vínculos político-
ideológicos, ilustram bem esse movimento de valorização do novo, e
justificaram um sem-número de intervenções realizadas sobre as paisagens
herdadas do passado. (ABREU, 1998:81)

O produto proposto em minha dissertação só encontra viabilidade por conta dessa nova
etapa no lidar do poder público para com o patrimônio histórico e na busca de maiores sentidos
de identificação cultural de brasileiros com seu passado. Como já discutido ao longo dos
117

capítulos, o “Guia da Memórias da República no Rio de Janeiro” é uma dessas possibilidades de


encontro entre cariocas e turistas brasileiros com o seu passado (não tão antigo assim)
republicano. Um guia que se propõe a descortinar as diferentes camadas temporais da cidade em
percursos a pé, que busque trazer para esses novos turistas uma maior compreensão dos
processos urbanísticos e históricos pelos quais o tecido urbano passou.
Para finalizar, gostaria de ressaltar, de forma resumida, alguns objetivos gerais do
projeto que parecem-me boas justificativas para a obtenção de um patrocínio.
 

 Traçar um amplo painel histórico-cultural do Rio de Janeiro desde o final do


século XIX até os anos 1970, tendo por diretriz a história da República e dos
governos municipais da cidade ;

 Analisar o processo de desenvolvimento urbano do Rio através das grandes


reformas urbanísticas ocorridas nesse intervalo de tempo e também da história
de alguns bairros;

 Conciliar História e Turismo Cultural em um mesmo produto, transformando a


dimensão temporal da primeira em uma dimensão espacial essencial para o
segundo, ou seja, materializando fatos históricos, através da paisagem urbana
com suas ruas, edifícios históricos e monumentos;

 Promover a compreensão prazerosa da história do Rio de Janeiro e do Brasil


para seu público-alvo, já possuidor de algum conhecimento prévio sobre os
temas tratados. No caso, o turista doméstico e o próprio morador da cidade
que, no papel de turista-cidadão, representaria parte considerável do segmento
interessado nos roteiros temáticos.

 Incentivar o desenvolvimento de uma postura preservacionista nos moradores


e visitantes através da Educação Patrimonial

E de forma mais específica poderia citar:

 Propiciar subsídios para o enriquecimento da imagem turística do Rio de


Janeiro em termos histórico-culturais, tornando-a mais condizente com os
rumos do turismo atual;
118

 Fortalecer a identidade cultural carioca através da valorização de seu


patrimônio histórico e cultural

 Criar um instrumento prático para que professores universitários e do ensino


médio possam ministrar aulas práticas da história da República através de
visitas técnicas;

 Propiciar subsídios para a elaboração de novos produtos turísticos, assim como


agregar valor aos produtos turísticos já existentes.

Pelos objetivos reforçados e resumidos acima , e considerando as excelentes


perspectivas para o turismo na cidade do Rio de Janeiro nos próximos anos, acredito que este
guia de memórias da cidade possa vir a tornar-se uma peça de grande serventia para viajantes
urbanos, recém-chegados ou mais experientes.
Afinal de contas, se o guia pode até trazer inovações em termos gráficos, sua concepção
pouco tem de original. De certa forma, seu conteúdo parece já ter uma demanda bem mais
antiga. Pelo menos desde 1862, quando Joaquim Manuel de Macedo escreveu seu “ Um Passeio
pela Cidade do Rio de Janeiro”. Aproveitando-me de suas palavras, encerro a minha dissertação
de Mestrado Profissional em Bens Culturais e Projetos Sociais para FGV/CPDOC.

Os paquetes a vapor e a facilidade das viagens ao Velho Mundo


tiram-nos a vontade de passear o nosso, e é mais comum encontrar um
fluminense que nos descreva as montanhas da Suíça e os jardins e palácios
de Paris e Londres do que um outro que tenha perfeito conhecimento da
história de algum dos nossos pobres edifícios, da crônica dos nossos
conventos e de algumas das nossas romanescas igrejas solitárias, e até
mesmo que nos fale com verdadeiro interesse dos sítios encantadores e das
eminências majestosas que enchem de sublime poesia a capital do Brasil.
Hoje em dia uma viagem a Lisboa é coisa mais simples do que um passeio
ao Corcovado. Entretanto, eu estou convencido de que se podia bem viajar
meses inteiros pela cidade do Rio de Janeiro, achando-se todos os dias
alimento agradável para o espírito e o coração.” (MACEDO,
2004[1862]:20)
119

ANEXOS
120

CÓDIGO de ÉTICA MUNDIAL para o TURISMO

Câmara de Turismo do Rio Grande do Sul

Este Código foi traduzido, do original em espanhol


editado pela OMT, pelos alunos do Primeiro Curso de Capacitação
para Consultores em Turismo -Coordenados pelo arq. Luis
Patrucco Porto Alegre, janeiro/fevereiro de 2000. FUNDATEC /
Câmara de Turismo do Rio Grande do Sul.
121

Nós, Membros da Organização Mundial do Turismo (OMT),


representantes do setor turístico mundial, delegados de estados, territórios,
empresas, instituições e organismos reunidos na Assembléia General em
Santiago do Chile no 1º de outubro de 1999,

Reafirmando os objetivos enunciados no artigo 3 dos Estatutos da


Organização Mundial do Turismo, e conscientes da função "central y decisiva"
que reconheceu à Organização, a Assembléia Geral das Nações Unidas na
promoção e no desenvolvimento do turismo com a finalidade de
contribuir ao crescimento econômico, a compreensão internacional, a paz e a
prosperidade dos países, assim como ao respeito universal e observação dos
diretos humanos e das liberdades fundamentais sem distinção de raça, sexo,
língua nem religião,

Profundamente convencidos de que, graças ao contato direto,


espontâneo e imediato que permite entre homens e mulheres de culturas e
formas de vida diferentes, o turismo é una força viva ao serviço da paz e um
fator de amizade e compreensão entre os povos,

Atendo-nos aos princípios encaminhados a conciliar com sustentabilidade a


proteção do meio ambiente, o desenvolvimento econômico e a luta contra a
pobreza, que as Nações Unidas formularam, na "Cume sobre a Terra" de Rio de
Janeiro em 1992 e que expressaram-se no Programa 21 adotado nessa ocasião,

Tendo presente o rápido e continuo crescimento, tanto passado como


previsível, da atividade turística originada por motivos de lazer, negócios, cultura,
religião ou saúde, seus poderosos efeitos positivos e negativos no meio
ambiente,na economia e na sociedade dos países emissores e receptores,
nas comunidades locais e nas populações autóctones, assim como nas
relações e nos intercâmbios internacionais,

Movidos peIa vontade de fomentar um turismo responsável e


sustentável, ao que todos tenham acesso no exercício do direito que corresponde
a todas as pessoas de dispor de seu tempo livre para fins de lazer e viagens, com
o devido respeito as opções de sociedade de todos os povos,

Porque Persuadidos também de que o setor turístico em seu


conjunto se favoreceria consideravelmente de desenvolver-se em um
conjunto que fomente a economia de mercado, a empresa privada e a liberdade
de comércio, o que lhe permita otimizar seus efeitos benéficos de criação de
atividades e empregos.

Intimamente convencidos de que sempre se repetem determinados


princípios e se observam certas normas, o turismo responsável e
sustentável não é de modo algum incompatível com uma maior liberação
pelas quais se rege o comércio deserviços sob cuja tutela operam as
empresas do setor a quem cabe conciliar neste campo: economia e ecologia,
meio-ambiente e desenvolvimento, e abertura aos intercâmbios internacionais e
proteção das identidades sociais e culturais.

Considerando que neste processo todos os agentes do desenvolvimento


turístico-administrações nacionais, regionais e locais, empresas, associações
profissionais, trabalhadores do setor, organizações não governamentais e
organismos de todo tipo do setor turístico e também as comunidades receptoras, os
órgãos de imprensa e os próprios interdependentes na valorização individual e
social do turismo e que a definição dos direitos e deveres de cada um contribuirá
para atingir este objetivo.
122

Interessados tanto quanto a própria Organização Mundial do Turismo


desde que em 1977 sua Assembléia Geral adotou, em Istambul, a Resolução
364 (XII) para promover uma verdadeira colaboração entre os agentes
públicos e privados do desenvolvimento turístico, e desejosos deque uma
organização (associação)e uma cooperação de mesma natureza se
entendam de forma aberta e equilibrada nas relações entre países emissores
e receptores, e entre seus respectivos setores turísticos.

Expressando nossa vontade em dar continuidade às Declarações de


Manila de1980 sobre o turismo mundial, e de 1997 sobre os efeitos sociais do
turismo, como também à Carta do Turismo e o código do Turista adotado em Sofia,
em 1985 sob os auspícios da OMT.

Porque entendendo que esses instrumentos devem completar-se em seu


conjunto de princípios interdependentes em sua interpretação e explicação aos quais
os agentes de negócio turístico terão que ajustar sua conduta no começo do século
XXI.

Referindo-nos, para os efeitos do presente instrumento, às definições e


classificações aplicáveis aos viajantes, e especialmente às noções de "visitantes",
"turista", e "turismo" que adotou a Conferência Internacional de Otawa, realizada de
24 a 28 de junho de 1991, e que aprovou em 1993 a Comissão de Estatutos das
Nações Unidas, em seu 27º período de seções.

Atendo-nos particularmente aos instrumentos que se relacionam à


continuação:

 Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 10 de dezembro de 1984,


 Pacto Internacional de Direitos Econômicos e Culturais, de 16 dedezembro de
1966,
 Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos, de 16 de dezembro de 1966.
 Convênio de Varsóvia sobre o transporte aéreo, de 12 de outubro de 1929,
 Convênio Internacional de Chicago sobre a Aviação Civil, de 07 de
dezembro de 1944, assim como as convenções de Tóquio, Haia e Montreal adotadas
em relação aos citados convênios,
 Convenção sobre as facilidades aduaneiras para o turismo, de 04 de julho de
1954 e protocolo associado,
 Convênio relativo a proteção do patrimônio mundial e cultural de 23 de
novembro de 1972,
 Declaração de Manila sobre o Turismo Mundial, de 10 de outubro de 1980,
 Resolução da Sexta Assembléia geralda OMT(Sofia) onde se adaptaram a carta
do Turismo e o Código do Turista, de 26 de setembro de 1985,
 Convenção sobre os Direitos das Crianças, de 26 de janeiro de 1990.
 Resolução da nona Assembléia Geral da OMT (Buenos Aires) relativa a
facilitação das viagens e da segurança dos turistas, de 04 de outubro de 1991,
 Declaração do Rio de Janeiro sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento
de 13 de junho de 1992,
 Acordo Geral sobre o Comércio de serviços, de 15 de abril de 1994,
 Convênio sobre a Diversidade Biológica, de 16 de janeiro de 1995,
 Resolução da décima primeira Assembléia Geral da OMT (no Cairo)
sobre a prevenção do turismo sexual organizado, de 22 de outubro de 1995,
 Declaração de Estocolmo contra a exploração sexual comercial
das crianças, de 28 de agosto de 1996,
 Declaração de Manila sobre os Efeitos Sociais do Turismo, de 22 de maio
de 1997, e
123

 Convênios e recomendações adotados pela Organização Internacional


do Trabalho em relação aos convênios coletivos, a proibição de
trabalhos forçados e do trabalho infantil, a defesa dos direitos dos povos
autóctones, e a igualdade de trato e a não discriminação no trabalho.

Afirmamos o direito ao turismo e a liberdade de deslocamentos


turísticos,

Expressamos nossa vontade de promover um ordenamento


turístico mundial eqüitativo, responsável e sustentável, em benefício
mutuo de todos os setores da sociedade e uma volta da economia
internacional aberta e liberalizada e Proclamamos solenemente com
esse fim os princípios do Código Ético Mundial para o Turismo:
 

Artigo 1 º
CONTRIBUIÇÃO DO TURISMO PARA O ENTENDIMENTO E RESPEITO
MÚTUO ENTRE HOMENS E A SOCIEDADES

1. A compreensão e a promoção dos valores éticos comuns da


humanidade, em um espírito de tolerância e respeito à diversidade, às
crenças religiosas,filosóficas e morais são, por sua vez, o fundamento e a
conseqüência de um turismo responsável. Os agentes do desenvolvimento
turístico e os próprios turistas deverão prestar atenção às tradições e
práticas sociais e culturais de todos os povos, incluindo as minorias
nacionais e as populações autóctones, e reconhecerão suas riquezas.

2. As atividades turísticas se organizarão em harmonia com


as peculiaridades e tradições das regiões e países receptores, respeitando suas
leis e costumes.

3. Tanto as comunidades receptorascomo os agentes profissionais


locais terão que aprender a conhecer e respeitar os turistas que os visitam,
informar-se sobre sua forma de vida, seus gostos e suas expectativas. A
educação e a formação que competem aos profissionais contribuirão
para uma recepção hospitaleira aos turistas.

4. As autoridades públicas têm a missão de assegurar a proteção


dos turistas e dos visitantes, assim como de seus pertences. Ficarão com o
encargo de prestar atenção especial aos turistas estrangeiros, devido a sua
vulnerabilidade. A finalidade será facilitar a fixação de meios de informação,
prevenção, proteção, seguro e assistência específicos que correspondam as suas
necessidades. Os atentados, agressões, seqüestros e ameaças dirigidos contra
turistas ou trabalhadores do setor turístico, assim como a destruição
intencional de instalações turísticas ou de elementos do patrimônio cultural e
natural devem ser condenados e reprimidos com
severidade, conforme a legislação nacional respectiva.

5. Em seus deslocamentos, os turistase visitantes deverão evitar


todo o ato criminal ou considerado delinqüente pelas leis do país que visitam,
bem como qualquer comportamento que possa chocar a população local,
ou ainda, danificar o entorno do lugar. Deverão se abster de qualquer tipo de
124

tráfico de drogas, armas, antigüidades, espécies protegidas, produtos e substâncias


perigosas e proibidas pelo regulamento nacional.

6. Os turistas e visitantes têm aresponsabilidade de informar-se


desde sua saída, sobre as características do país que se dispõem a visitar.
Mesmo assim serão conscientizados dos riscos de saúde e seguros inerentes a
todos os deslocamentos fora de seu entorno habitual, e deverão comportar-se de
forma que diminua estes riscos.

Artigo 2
O TURISMO, INSTRUMENTO DEDESENVOLVIMENTO
PESSOAL E COLETIVO

1. O turismo, que é uma atividade geralmente associada ao descanso, a


diversão, ao esporte e ao acesso a cultura e a natureza, deve conceber-se e
praticar-se como um meio privilegiado de desenvolvimento
individual e coletivo. Considerando-se a abertura de espírito necessária, é
um fator insubstituível de auto-educação, tolerância mútua e aprendizagem das
legítimas diferenças entre os povos, culturas e suas diversidades.

2. As atividades turísticas deverão respeitar a igualdade entre homens e


mulheres. Mesmo assim, deverão ser promovidos os direitos humanos
e em particular, os direitos específicos dos grupos de populações mais
vulneráveis,especialmente as crianças, maiores de idade, as pessoas
incapacitadas, as minorias étnicas e os povos autóctones.

3. A exploração de seres humanos, em qualquer de suas formas, principalmente a


sexual, e em particular quando afeta as crianças, fere os objetivos
fundamentais do turismo e estabelece uma negação de sua essência.
Portanto, conforme o direito internacional, deve-se combatê-la sem
reservas, com a colaboração de todos os Estados interessados, e
penalizar os autores destes atos com o rigor das legislações nacionais
dos países visitados e dos próprios países destes, mesmo quando
cometidos no exterior.

4. Os deslocamentos por motivos de religião, saúde, educação e intercâmbio


cultural ou lingüístico, constituem formas particularmente interessantes de
turismo e merecem promover-se.

5. Será favorecida a introdução deprogramas de estudo, como intercâmbios


turísticos, mostrando seus benefícios econômicos, sociais e culturais,
mas, também, seus riscos.

Artigo 3
O TURISMO, FATOR DEDESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

1. Todos os agentes de desenvolvimento turístico têm o dever de proteger o meio


ambiente e os recursos naturais, com perspectiva de um crescimento
econômico constante e sustentável, que seja capaz de satisfazer
eqüitativamente as necessidades e aspirações das gerações
presentes e futuras.
125

2. As autoridades públicas nacionais, regionais e locais favorecerão e incentivarão


todas as modalidades de desenvolvimento turístico que permitam preservar
recursos naturais escassos e valiosos, em particular a água e a energia, e
evitem no que for possível a produção de resíduos.

3. Se procurará distribuir no tempo e no espaço os movimentos de turistas e


visitantes, em particular por intermédio das férias remuneradas e das férias
escolares, e, equilibrar melhor a freqüência com a finalidade de reduzir a
pressão que exerce a atividade turística no meio ambiente e de aumentar seus
efeitos benéficos no setor turístico e na economia local.

4. Se concederá a infra-estrutura e se programarão as atividades turísticas de


forma que se proteja o patrimônio natural que constituem os ecossistemas
e a diversidade biológica, e que se preservem as espécies em perigo da fauna
e da flora silvestre. Os agentes do desenvolvimento turístico, e em particular os
profissionais do setor, devem admitir que se imponham limites à suas
atividades quando as mesmas
sejam exercidas em espaços particularmente vulneráveis: regiões desérticas,
polares ou de alta montanha, litorâneas, florestas tropicais ou zonas
úmidas, que sejam idôneos para a criação de parques ou reservas protegidas.

5. O turismo de natureza e o ecoturismo se reconhecem como formas de


turismo particularmente enriquecedoras e valorizadoras, sempre que
respeitem o patrimônio natural e a população local e se ajustem à capacidade
de carga dos lugares turísticos.

Artigo 4
O TURISMO, FATOR DEAPROVEITAMENTO E ENRIQUECIMENTO
DO PATRIMÔNIO CULTURAL DAHUMANIDADE

1. Os recursos turísticos pertencem ao patrimônio comum da humanidade. As


comunidades, em cujo, território se encontram, tem com relação a eles
direitos e obrigações particulares.

2. As políticas e atividades turísticas se inteirarão a respeito do patrimônio artístico,


arqueológico e cultural que devem proteger, e transmitir para as gerações
futuras. Se concederá atenção particular à proteção e à
recuperação dos monumentos, santuários e museus, como também dos
lugares de interesse histórico ou arqueológico, que devem estar amplamente
abertos à visitação turística. Se estimulará o acesso do público aos bens e
monumentos culturais de propriedade particular respeitando os direitos
de seus proprietários, assim como aos edifícios religiosos sem prejudicar os
cultos.

3. Os recursos procedentes da visitação dos lugares e monumentos de interesse


cultural teriam que ser designados preferencialmente, ao menos em
parte, à manutenção, proteção, melhoria e ao enriquecimento desse
patrimônio.

4. A atividade turística se organizará de modo que permita a sobrevivência e o


progresso da produção cultural e artesanal tradicional, assim como, do folclore
e que não caminhe para sua normalização e empobrecimento.
126

Artigo 5
O TURISMO, ATIVIDADE BENÉFICA PARA OS PAÍSES E
AS COMUNIDADES DE DESTINO

1. As populações e comunidades locais se associarão às atividades turísticas e terão


uma participação eqüitativa nos benefícios econômicos, sociais e culturais que
referem, especialmente na criação direta e indireta de emprego que ocasionem.

2. As políticas turísticas se organizarão de maneira que contribuam com a melhora do


nível de vida da população das regiões visitadas correspondendo as
suas necessidades. A concepção urbanística e
arquitetônica e a forma de exploração das estações e dos meios de
hospedagem turístico tenderão para sua ótima integração no contexto econômico
e social local. De igual importância, se priorizará a contratação de mão-de-
obra local.

3. Se dará atenção particular aos problemas específicos das zonas litorâneas e dos
territórios peninsulares, assim como das frágeis zonas rurais e de montanha,
aonde o turismo representa com freqüência uma das poucas oportunidades de
desenvolvimento diante do declínio das atividades econômicas
tradicionais.

4. De acordo com a normativa estabelecida pelas autoridades públicas, os profissionais


de turismo, e em particular os investidores, executarão estudos de impacto de
seus projetos de desenvolvimento no entorno e
nos meios naturais. Igualmente, facilitarão com a máxima transparência e
objetividade pertinente, toda a informação relativa aos seus programas
futuros e suas conseqüências previsíveis, e favorecerão o diálogo sobre seu
conteúdo com as populações interessadas.

Artigo 6
OBRIGAÇÕES DOS AGENTES DO DESENVOLVIMENTO TURÍSTICO

1. Os agentes profissionais do turismotêm obrigação de facilitar aos


turistas uma informação objetiva e autêntica sobre lugares de destino e
sobre as condições de viagem, recepção e estada. Além disso, manterão
com absoluta transparência as cláusulas dos contratos que proponham a seus
clientes, tanto quanto a natureza, ao preço e a qualidade dos serviços,
estipulando compensações financeiras no caso da ruptura unilateral dos
contratos pela não prestação de serviços contratados.

2. No que deles dependa e emcooperação com as autoridades


públicas, os profissionais do turismo terão que se ater com a segurança,
prevenção de acidentes, e as condições sanitárias e da higiene dos alimentos
daqueles que buscam seus serviços. Se preocuparão com a existência de
sistemas de seguros e de assistência necessária. Além disso, assumirão
o compromisso de prestar contas, conforme disponha a legislação nacional, e
quando for o caso pagar uma indenização eqüitativa pelo descumprimento
de cláusulas contratuais.

3. E quando deles dependa, osprofissionais do turismo


contribuirão para o pleno desenvolvimento cultural e espiritual dos turistas, e
127

permitirão o exercício de suas práticas religiosas durante os deslocamentos.

4. Em coordenação com os profissionais interessados e suas


associações, as autoridades públicas dos Estados de origem e dos países de
destino, cuidarão pelo estabelecimento de mecanismos necessários para a
repatriação dos turistas nos casos de descumprimento de contratos pelas
empresas organizadoras de viagens.

5. Os Governos têm o direito - e o dever, - especialmente em casos


de crises, de informar aos cidadãos das condições difíceis, inclusive dos
perigos com que possam se encontrar durante seus deslocamentos no
estrangeiro. Além disso, é de sua incumbência facilitar essas informações
sem prejudicar de forma injustificada e nem exagerada o setor turístico
dos países receptores e os interesses de seus próprios operadores.
O conteúdo das eventuais advertências deverá ser previamente discutidos
com as autoridades dos países de destino e com os
profissionais interessados. As recomendações que se formulem guardarão
estrita proporção com a gravidade das situações reais e se limitarão as
zonas geográficas onde se haja comprovado a
situação de insegurança. Essas recomendações se atenuarão ou
se anularão quando se permita a volta da normalidade.

6. A imprensa, e em particular a imprensa especializada em


turismo e os demais meios de comunicação, incluindo os modernos meios de
comunicação eletrônica, difundirão uma informação verdadeira e equilibrada
sobre os acontecimentos e as situações que possam influir na freqüência
turística. Deverão ter o cuidado de divulgar indicações precisas e fiéis aos
consumidores dos serviços turísticos. Com esse objetivo, desenvolverão e
empregarão novas tecnologias de comunicação e
comércio eletrônico que, igual a imprensa e os demais meios de comunicação
não facilitarão de modo algum o turismo sexual.

Artigo 7
DIREITO AO TURISMO

1. A possibilidade de acesso direto epessoal ao descobrimento das


riquezas de nosso mundo, constituirá um direito aberto por igual a todos os
habitantes de nosso planeta. A participação cada vez mais difundida no
turismo nacional e internacional deve ser entendido como uma das melhores
expressões possíveis do contínuo crescimento do tempo livre, e a
ele não se colocará obstáculo nenhum.

2. O direito ao turismo para todos, deveser entendido como conseqüência


do direito ao descanso e lazer, e em particular a limitação razoável da
duração do trabalho e a férias anuais pagas, garantidas no art. 24 da
Declaração Universal dos Direitos Humanos e no art. 7 do
TratadoInternacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais.

3. Com o apoio das autoridadespúblicas, se desenvolverá o


turismo social, em particular associativo, que permite o acesso da maioria dos
cidadãos ao lazer e a férias.
128

4. Se fomentará (incentivará) e se facilitará o turismo familiar, dos


jovens e dos estudantes, das pessoas maiores e das portadoras de
deficiências.

Artigo 8
LIBERDADE DE DESLOCAMENTOTURÍSTICO

1. De acordo com o direito internacionale as leis nacionais, os turistas e


visitantes se beneficiarão da liberdade de circular de um país a outro, de acordo
com o artigo 13 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, e poderão ter
acesso as zonas de trânsito e zona rural, assim como aos sítios turísticos e
culturais sem formalidades exageradas e nem discriminações.

2. Se reconhece aos turistas e visitantes a permissão de utilizar


todos os meios de comunicação disponíveis, interiores e exteriores. Se
beneficiarão de um acesso rápido e fácil aos serviços administrativos,
judiciais e sanitários locais, e poderão entrar livremente em contato com as
autoridades do país do qual são cidadãos conforme os convênios
diplomáticos vigentes.

3. Os turistas e visitantes gozarão dos mesmos direitos que os


cidadãos do país que visitam, no que respeita a confidencialidade dos seus
dados pessoais, particularmente quando essa informação esteja cadastrada em
suporte eletrônico.

4. Os procedimentos administrativospara ultrapassar as fronteiras


estabelecidas pelos países ou por acordos internacionais, como os vistos e as
formalidades sanitárias e aduaneiras se adaptarão para facilitar ao máximo a
liberdade das viagens e o acesso da maioria das pessoas ao turismo
internacional. Se promoverão os acordos entre grupos de países para
harmonizar e simplificar esses procedimentos. As taxas e encargos específicos
que penalizam o setor turístico e diminuem sua competitividade, serão
eliminados e corrigidos progressivamente.

5. Sempre que o permita a situação econômica dos países dos


quais os viajantes provem, poderão dispor das concessões de divisas
convertidas que precisem para seu deslocamento.

Artigo 9
DIREITO DOS TRABALHADORES E DOS
EMPRESÁRIOS DO SETOR TURÍSTICO

1. Sob a supervisão das administrações de seus países de origem e dos países de


destino, serão garantidos especialmente os direitos fundamentais dos
trabalhadores assalariados e autônomos do setor turístico e das atividades
afins, levando em consideração a limitação específica vinculada à
sazonalidade da sua atividade,
a diminuição global do seu setor e a flexibilidade que costumam impor a
natureza do seu trabalho.

2. Os trabalhadores assalariados e autônomos do setor turístico e de atividades


ligadas ao setor, tem o direito e o dever de adquirir uma formação inicial e
contínua adequada. Terão assegurados uma
129

proteção social suficiente, dando-lhes condições adequadas de trabalho.


Será proposto um estatuto particular aos trabalhadores estáveis do
setor, especialmente com respeito a seguridade social.

3. Sempre que demonstre possuir as disposições e qualificações necessárias, se


reconhecerá a toda pessoa física e jurídica o direito a exercer uma atividade
profissional no âmbito do turismo, de acordo com a legislação nacional
vigente. Se reconhecerá aos empresários e investidores, especialmente das
médias e pequenas empresas, o livre acesso ao setor turístico com um
mínimo de restrições legais e administrativas.

4. As trocas de experiências que seoferecem aos dirigentes do setor e outros


trabalhadores de distintos países, sejam assalariados ou não, contribuem
para a expansão do setor turístico mundial. Por esse motivo se facilitarão as
trocas em tudo que for possível, segundo as legislações
nacionais e convenções internacionais aplicáveis.

5. As empresas multinacionais do setorturístico, fator insubstituível de solidariedade no


desenvolvimento e dinamismo nos intercâmbios internacionais, não
abusarão da posição dominante que podem ocupar.
Evitarão converter-se em transmissoras de modelos culturais e sociais que se
imponha artificialmente as comunidades receptoras. Em troca da liberdade
de inversão e operação comercial que se deve reconhecer
plenamente, haverá de comprometer-se com o desenvolvimento local
evitando que uma repatriação excessiva de seus benefícios ou a induzir
importações que podem reduzir a contribuição das economias onde estão
estabelecidas.

6. A colaboração e o estabelecimento de relações equilibradas entre empresas de


países emissores e receptores contribuem para o desenvolvimento
sustentável do turismo e a uma divisão equilibrada dos benefícios de seu
crescimento.

Artigo 10
APLICAÇÃO DOS PRINCÍPIOSDO CÓDIGO
ÉTICO MUNDIALPARA O TURISMO

1. Os agentes públicos e privados do desenvolvimento turístico cooperarão na


aplicação dos presentes princípios e controlarão sua pratica efetiva.

2. Os agentes de desenvolvimentoturístico reconhecerão o papel das


organizações internacionais, em primeiro lugar a Organização Mundial do
Turismo e as organizações não governamentais competentes nos campos
da promoção e do desenvolvimento do turismo, da proteção dos direitos
humanos, do meio ambiente e da saúde, segundo os princípios gerais do direito
internacional.

3. Os mesmos agentes manifestam sua intenção de submeter os litígios relativos à


aplicação ou a interpretação do Código Ético Mundial para o Turismo a um
terceiro órgão imparcial, denominado Comitê de Ética do Turismo para fins de
conciliação.
130

CARTA INTERNACIONAL DO
TURISMO CULTURAL
Gestão do Turismo nos Sítios com
Significado Patrimonial - 1999
Adoptada pelo ICOMOS na 12.ª Assembleia
Geral no México, em Outubro de 1999

Tradução por António de Borja Araújo, Engenheiro Civil IST


Janeiro de 2007
131

CARTA INTERNACIONAL DO TURISMO CULTURAL Pág. 2

O carácter fundamental da Carta

De uma forma geral, o património natural e cultural pertence a todas as pessoas.


Cada um de nós tem o direito e a responsabilidade de compreender, apreciar e
conservar os seus valores universais.

Património é um conceito amplo e inclui tanto o ambiente natural como o ambiente


cultural. Abrange paisagens, locais históricos, sítios e ambientes construídos, bem como a
biodiversidade, colecções, práticas culturais passadas e continuadas, conhecimentos e
experiências vividas. Ele regista e exprime o longo processo do desenvolvimento histórico,
formando a essência das diversas identidades nacionais, regionais, indígenas e locais, e é
uma parte integrante da vida moderna. É um ponto de referência dinâmico e um instrumento
positivo para desenvolvimento e para o intercâmbio. O património particular e a memória
colectiva de cada localidade ou de cada comunidade é insubstituível, e é um
fundamento importante para o desenvolvimento, quer agora quer no futuro.

Numa época de globalização crescente, a protecção, conservação,


interpretação e apresentação do património e da diversidade cultural de qualquer lugar, ou
região em particular, é um desafio importante para as pessoas de todas as partes. No
entanto, a gestão desse património, dentro de um enquadramento de normas
internacionalmente reconhecidas e apropriadamente aplicadas, é, geralmente, da
responsabilidade da comunidade, ou do grupo de custódia, particular.

Um objectivo primário da gestão do património é a comunicação do seu


significado e a necessidade da sua conservação para a sua comunidade residente e para os
visitantes. O acesso ao património, razoável e bem gerido física, intelectual e emocionalmente,
e ao desenvolvimento cultural é tanto um direito, como um privilégio. Ele traz consigo um
dever de respeito pelos valores e pelos interesses, e de equidade para com a comunidade
residente actual, para com os curadores ou os proprietários indígenas da propriedade
histórica, assim como para com as paisagens e as culturas a partir das quais esse património
evoluiu.

A Interacção Dinâmica entre o Turismo e o Património Cultural

O turismo doméstico e internacional continuam a estar entre os veículos mais


importantes para as trocas culturais, proporcionando uma experiência pessoal, não só sobre
aquilo que sobreviveu do passado, mas sobre a vida e a sociedade contemporânea dos
outros. Ele é crescentemente apreciado como sendo uma força positiva para a
conservação natural e cultural. O turismo pode capturar as características económicas do
património e dedicá-las à conservação, gerando fundos, educando a comunidade e
influenciando a política. É uma parte essencial de muitas economias
nacionais e regionais, e pode ser um importante factor no desenvolvimento, quando
gerido com sucesso.
132

CARTA INTERNACIONAL DO TURISMO CULTURAL Pág. 3

O próprio turismo tornou-se num fenómeno crescentemente complexo, com


dimensões políticas, económicas, sociais, culturais, educacionais, biofísicas, ecológicas e
estéticas. A obtenção de uma interacção benéfica entre as potencialmente conflituosas
expectativas e aspirações dos visitantes e dos residentes, ou das comunidades locais,
apresenta quer desafios, quer oportunidades.

O património natural e cultural, as diversidades e as culturas vivas são grandes


atracções turísticas. O turismo excessivo ou o turismo mal gerido, bem como o
desenvolvimento relacionado com o turismo podem ameaçar a sua natureza física, a sua
integridade e as suas características significativas. A envolvente ecológica, a cultura e os
estilos de vida das comunidades residentes também pode ficar degradadas, assim como a
experiência que o visitante tem desse lugar.

O turismo deve trazer benefícios às comunidades residentes e proporcionar-lhes


meios importantes e motivação para cuidarem e manterem o seu património e as suas práticas
culturais. É necessário o envolvimento e a cooperação das comunidades locais e/ou indígenas
representativas, dos conservacionistas, dos operadores turísticos, dos proprietários, dos
autores de políticas, das pessoas que preparam os planos de desenvolvimento nacional e
dos gestores dos sítios, para se conseguir uma indústria de turismo sustentável e para se
valorizar a protecção dos recursos do património para as futuras gerações.

O ICOMOS, International Council on Monuments and Sites, assim como o autor desta
Carta, outras organizações internacionais e a indústria do turismo, estão empenhados nesse
desafio.

Objectivos da Carta

Os Objectivos da Carta Internacional do Turismo Cultural são:

 Facilitar e encorajar as pessoas envolvidas na conservação e na gestão do


património a tornarem o significado desse património acessível à comunidade
residente e aos visitantes.

 Facilitar e encorajar a indústria do turismo a promover e a gerir o turismo sob


formas que respeitem e que valorizem o património e as culturas vivas das
comunidades residentes.

 Facilitar e encorajar o diálogo entre os interesses da conservação e a indústria do


turismo sobre a importância e a natureza frágil dos sítios património, das colecções e
das culturas vivas, incluindo a necessidade de se lhes conseguir um futuro sustentável.

 Encorajar a formulação de planos e de políticas para o desenvolvimento de


objectivos pormenorizados e mensuráveis, e de estratégias relacionadas com a
apresentação e a interpretação dos sítios património e das actividades culturais, no
contexto da sua preservação e conservação.
133

CARTA INTERNACIONAL DO TURISMO CULTURAL Pág. 4

Além disso,

 A Carta apoia iniciativas mais amplas do ICOMOS, de outros organismos


internacionais e da indústria do turismo na manutenção da integridade da gestão e da
conservação do património.

 A Carta encoraja o envolvimento de todas as pessoas com interesses relevantes


ou, por vezes, conflituantes, com responsabilidades e com obrigações, para se
unirem na realização dos seus objectivos.

 A Carta encoraja a formulação de linhas de orientação detalhadas, pelas partes


interessadas, facilitando a implementação dos Princípios de acordo com as suas
circunstâncias específicas ou com os requisitos de organizações ou de comunidades
particulares

PRINCÍPIOS DA CARTA DO TURISMO CULTURAL

Princípio 1

Como o turismo doméstico e internacional estão entre os principais veículos das


trocas culturais, a conservação deve proporcionar oportunidades responsáveis e bem
geridas para os membros da comunidade residente e para os visitantes experimentarem
e compreenderem em primeira mão o património e a cultura dessa comunidade.

1.1

O património natural e cultural é um recurso material e espiritual, proporcionando uma


narrativa do desenvolvimento histórico. Ele tem um papel importante na vida moderna e deve
ser tornado física, intelectual e/ou emocionalmente acessível ao público geral. Os
programas estabelecidos para a protecção e conservação dos atributos físicos, dos
aspectos intangíveis, das expressões culturais contemporâneas e de contexto alargado,
devem facilitar uma compreensão e uma apreciação do significado do património, pela
comunidade residente e pelos visitantes, de uma maneira equitativa e sustentável.

1.2

Os aspectos individuais do património natural e cultural têm diferentes níveis de significado,


alguns com valores universais, outros de importância nacional, regional ou local. Os
programas de interpretação estabelecidos devem apresentar esse significado de uma
134

CARTA INTERNACIONAL DO TURISMO CULTURAL Pág. 5

maneira relevante e acessível à comunidade residente e aos visitantes, com apropriadas,


estimulantes e contemporâneas formas de educação, de media, de tecnologia e
deexplicação pessoal da informação histórica, ambiental e cultural.

1.3

Os programas de interpretação e de apresentação estabelecidos devem facilitar e


encorajar um elevado nível de conhecimento público e o necessário apoio para a
sobrevivência a longo prazo do património natural e cultural.

1.4

Os programas de interpretação estabelecidos devem apresentar o significado dos sítios


património, das tradições e das práticas culturais compreendidos na experiência passada e
nas diversidades actuais da área e da comunidade residente, incluindo as pertencentes
a grupos culturais ou linguísticos minoritários. O visitante deve ser sempre informado sobre
os diferentes valores culturais que podem estar associados a um recurso de património em
particular.

Princípio 2

O relacionamento entre os Sítios Património e o Turismo é dinâmico e pode


envolver valores em conflito. Ele deve ser gerido de uma forma sustentada para as
gerações actual e futuras.

2.1

Os sítios com significado cultural têm um valor intrínseco para todas as pessoas, como
constituindo bases importantes para a diversidade cultural e para o desenvolvimento
social. A protecção e a conservação a longo prazo das culturas vivas, dos sítios património,
das colecções, da sua integridade física e ecológica, e do seu contexto ambiental, devem ser
uma componente essencial das políticas sociais, económicas, políticas, legislativas, culturais e
de desenvolvimentos turísticos.

2.2

A interacção entre os recursos, ou os valores, do património e o turismo é dinâmica e está


sempre em alteração, gerando tanto oportunidades como desafios, assim como potenciais
conflitos. As obras, as actividades e os desenvolvimentos do turismo devem concretizar
resultados positivos e minimizar os impactos adversos sobre o património e sobre os estilos
de vida da comunidade residente, ao mesmo tempo que respondem às necessidades e às
aspirações dos visitantes.
135

CARTA INTERNACIONAL DO TURISMO CULTURAL Pág. 6

2.3

Os programas de conservação, interpretação e desenvolvimento do turismo devem se


baseados numa compreensão abrangente dos aspectos específicos, mas frequentemente
complexos ou conflituantes, do significado do património de um sítio em particular. A
investigação e a consulta permanentes são importantes para o avanço da compreensão
evolutiva e da apreciação desse significado.

2.4

É importante a retenção da autenticidade dos sítios património e das colecções. Ela é um


elemento essencial do seu significado cultural, conforme está expresso no material físico,
nas memórias recolhidas e nas tradições intangíveis que restam do passado. Os programas
estabelecidos devem apresentar e interpretar a autenticidade dos sítios e das experiências
culturais, para valorizarem a apreciação e a compreensão desse património cultural.

2.5

Os desenvolvimentos turísticos e as obras de infra-estruturas devem ter em


consideração as características estéticas, as dimensões social e cultural, as paisagens
natural e cultural, a biodiversidade e o contexto visual alargado dos sítios património.
Deve ser dada preferência à utilização de materiais locais e devem ser tomados em
consideração os estilos arquitectónicos locais ou as tradições vernáculas.

2.6
Antes de os sítios património serem promovidos ou desenvolvidos para aumento do turismo,
devem ser avaliados planos de gestão dos valores naturais e culturais do recurso. De
seguida, devem ser estabelecidos limites apropriados para as alterações aceitáveis,
particularmente em relação ao impacto do número de visitantes sobre as características
físicas, a integridade, a ecologia e a biodiversidade do sítio, para o acesso ao local e sobre
os sistemas de transporte, e sobre o bem estar social, económico e cultural da comunidade
residente. Se for provável que o nível de alterações se torne inaceitável, a proposta de
desenvolvimento deve ser modificada.

2.7

Devem existir programas correntes de avaliação dos impactos progressivos das actividades
turísticas e do desenvolvimento sobre um sítio ou sobre uma comunidade em particular.

Princípio 3

A Conservação e o Planeamento do Turismo para os Sítios Património deve


garantir que a Experiência do Visitante valha a pena, seja satisfatória e agradável.
136

CARTA INTERNACIONAL DO TURISMO CULTURAL Pág. 7

3.1

Os programas de conservação e de turismo devem apresentar informação com elevada


qualidade para optimizarem a compreensão do visitante sobre as características significativas
do património e sobre a necessidade da sua protecção, permitindo a esse visitante usufruir o
sítio de uma maneira apropriada.

3.2

Os visitantes devem poder usufruir o sítio património pelo seu próprio pé, se eles assim o
escolherem. Podem ser necessários caminhos de circulação que minimizem impactos
sobre a integridade e a fábrica física do sítio, e sobre as suas características naturais e
culturais.

3.3

O respeito pela santidade dos sítios espirituais, das práticas e das tradições é uma
consideração importante para os gestores dos sítios, para os visitantes, para os autores
de políticas, para os planeadores e para os operadores turísticos. Os visitantes devem ser
encorajados a comportarem-se como hóspedes benvindos, respeitando os valores e os
estilos de vida da comunidade residente, rejeitando o possível roubo ou o tráfico ilícito da
propriedade cultural, e conduzindo-se de uma maneira respeitosa que possa gerar um
renovado bom acolhimento, no caso de regressarem.

3.4

O planeamento para as actividades do turismo deve providenciar instalações apropriadas


para o conforto, para a segurança e para o bem-estar do visitante, que valorizem a fruição da
visita mas que não tenham um impacto adverso sobre elementos significativos ou sobre
características ecológicas importantes.

Princípio 4

As comunidades residentes e os povos indígenas devem ser


envolvidos no planeamento para a conservação e para o turismo.

4.1

Devem ser respeitados os direitos e os interesses da comunidade residente, ao nível regional e


local, e dos proprietários e povos indígenas relevantes que possam exercer direitos ou
responsabilidades tradicionais sobre a sua própria terra e sobre os seus sítios significativos.
Eles devem ser envolvidos no estabelecimento de objectivos, estratégias, políticas e
protocolos para a identificação, conservação, gestão, apresentação e interpretação dos
seus próprios recursos culturais, práticas culturais e expressões culturais contemporâneas,
no contexto do turismo.
137

CARTA INTERNACIONAL DO TURISMO CULTURAL Pág. 8

4.2

Embora o património de qualquer sítio, ou região, específico possa ter uma dimensão
universal, devem se respeitadas as necessidades e os desejos de algumas comunidades, ou
povos indígenas, de restringirem ou de gerirem o acesso físico, espiritual ou intelectual a
certas práticas culturais, conhecimentos, crenças, actividades, artefactos ou sítios.

Princípio 5
As actividades do turismo e da conservação devem beneficiar a comunidade residente.

5.1

Os autores de políticas devem promover medidas para a distribuição equitativa dos


benefícios provenientes do turismo pelos países ou regiões, melhorando os níveis de
desenvolvimento sócioeconómico e contribuindo, onde necessário, para o alívio da pobreza.

5.2

As actividades de gestão da conservação e do turismo devem proporcionar benefícios


económicos, sociais e culturais equitativos para os homens e para as mulheres da
comunidade residente ou local, a todos os níveis, através da educação e da formação, e da
criação de oportunidades de emprego a tempo inteiro.

5.3

Uma proporção significativa dos rendimentos, especificamente derivados dos programas de


turismo para os sítios culturais, deve ser atribuída à protecção, conservação e apresentação
desses sítios, incluindo os seus contextos natural e cultural. Sempre que possível, os
visitantes devem ser informados sobre essa atribuição de recursos.

5.4

Os programas de turismo devem encorajar a formação e o emprego de guias e de intérpretes


de sítio a partir da comunidade residente, para valorizarem as competências do povo local na
apresentação e na interpretação dos seus valores culturais.

5.5

A interpretação do património e os programas de educação entre o povo local da


comunidade residente devem encorajar o envolvimento de intérpretes de sítio locais. Os
programas devem promover o conhecimento e o respeito pelo seu próprio património,
encorajando o povo local a ter um interesse directo no seu cuidado e na sua conservação.
138

CARTA INTERNACIONAL DO TURISMO CULTURAL Pág. 9

5.6

Os programas de gestão da conservação e de turismo devem incluir a educação e


oportunidades de formação para autores de políticas, planeadores, investigadores,
projectistas, arquitectos, intérpretes, conservadores e operadores de turismo. Os
participantes devem ser encorajados a compreenderem e a ajudarem a resolver as
questões, oportunidades e problemas que, por vezes, os seus colegas
encontram.

Princípio 6

Os programas de promoção do turismo devem proteger e valorizar as


características do Património Natural e Cultural.

6.1

Os programas de promoção do turismo devem criar expectativas realísticas e


informar responsavelmente os potenciais visitantes sobre as características do património
específico de um sítio, ou de uma comunidade residente, encorajando-os, por essa
forma, a comportarem-se apropriadamente.

6.2

Os sítios e as colecções com significado cultural devem ser promovidos e geridos por
formas que protejam a sua autenticidade e que valorizem a experiência do visitante, pela
minimização das flutuações nas chegadas e evitando números excessivos de visitantes,
todos ao mesmo tempo.

6.3

Os programas de promoção do turismo devem proporcionar uma ampla distribuição de


benefícios e aliviar as pressões sobre os sítios mais populares, pelo encorajamento
aos visitantes para experimentarem características mais amplas do património natural e
cultural da região ou da localidade.

6.4

A promoção, distribuição e venda de artigos locais, e de outros produtos, deve proporcionar um retorno
social e económico razoável à comunidade residente, ao mesmo tempo que deve garantir que a sua
integridade cultural não é degradada

© ICOMOS
139
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