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O Sangrento Co.

gfronto
entre Brancos e Indios

Acuera, Aracare, Belehé-Qat, Manuela


Beltrán, Camire, Ciguayo, Cuauhtémoc, Gua-
rionex, Huitzilhuatzin, Manco Capac, Naaban
Cupul, Necareva, Nicaroguán, Paramacay,
Quíquiz, Razo Razo, Rumifíahui, Tecum
Umán, Tetlepanquetzal, Túpac Amaru, Vita-
cucho , Yaracuy, Zorrillo: eis aqui o nome de al-
guns dos verdadeiros heróis da história da
América Latina. São , todos eles, caciques e che-
fes indígenas que resistiram à conquista espa-
nhola e portuguesa, lutando com todas suas
forças à frente de seus povos, para a preservação
de suas terras, de sua cultura, de seu modo de
vida.
Invariavelmente, terminaram derrotados,
traídos , massacrados ou aprisionados. Seu
exemplo de rebelião e patriotismo, porém,
atravessa os séculos e seus nomes ressoam sem-
pre que se escreve a história sob uma ótica me-
nos colonialista. ·
Foi exatamente esta a tarefa levada a cabo
pela antropóloga mexicana Josefina Oliva de
Coll: neste livro ~ uma espécie de ''Enterrem
Meu Coração na Curva do Rio" dedicado aos
índios que habitavam as regiões ao sul do Rio
Grande - ela faz um apanhado dos principais
focos de resistência, batalhas, massacres e guer-
ra de guerrilhas organizadas pelos índios do
México à Patagônia. Seu relato, pungente e
emocionado, nos ajuda a obter uma outra visão
da história das Américas: a visão dos vencidos.

Os Editores
Josefina Oliva de Cãl

A BESISTÊITCIA
INDÍGENA
Tradução de Jurandir Soares dos Santos·
Josefina Oliva de Coll
GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO

Secretaria da Educação

Fundação para o desenvolvimento da Educação

Distribuição gratuita

A BllSISTiRCIA
DlDÍGllllA
Do México à Patagônia, a história da luta
dos índios contra os conquistadores

/HISTÓRIA
Coleção L&PM/HISTORIA
Série: Visão do-; Vencidos. volume

Titulo original da obra: La resistencia indígena ante la Conquista,


publicado pl'la Siglo XXI Editort·s. S. A.

Editor âa coleção L&PM/HISTóRIA: Eduardo Bueno


capa: L&PM Editores
rt'visüu: Marilia Guedes Carrasco, Clarice Rahn e
Antouio Paim Faketta

© ,iglo XXI editores, s. a. da e. v., 1974


Tudos os direitos desta edição reservados à
L&PM Editores Ltda .. Rua Nova Iorque, 306
90.000 · Purtu Alegre . RS
e Rua du Tdu11fo, 177 - Santa Efigênia - 01212 - São Paulo - SP

Outono lk l ':l86
Sumário

Introdução ......... . 9
Parte I - O Encontro . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13
Parte l l - A Primeira Oposição. As Ilhas . . . . . . . . . . . 17
Parle I l l - Pela Terra Que Chamaram Firme . . . . . . . . 40
Parte IV - A Nova Espanha . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 62
Parte V - Flórida, a Inconquistável . . . . . . . . . . . . . . . . · 117
Parte VI - Venezuela . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 135
Parle VII - Colômbia: Nova Granada . . . . . . . . . . . . . . . 144
Parle Vlll - Tahuanlinsuyo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 154
Parte IX - Por Terras do Prata . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 190
Parte X - Chile, Terra Indômita . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 200
Notas .......................................... 217
Bibliografia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 228
Aos que morreram lutando por sua terra,
aos que morreram por injustiça,
aos que lutam contra ela onde quer que estejam,
aos que padecem fome e miséria.

E esta é a mais pura e verdadeira realidade.


Frei Bartolomé de Las Casas

O colonialismo não é compreendido sem a possibi-


lidade de torturar, de violar .e de matar.
Franz Fanon

Ao índio não se deve atribuir humildade e resigna-


ção, mas orgulho e rebeldia.
Manuel González Prada
Introdução

A história tradicional apresenta a conquista como · uma


façanha prodigiosa, realizada por um punhado de valentes
que dominam quase que apenas com sua presença, em nome
de Deus e de Castela, a milhares de seres primitivos e selva-
gens. Uma simples leitura das crônicas demonstra o contrá-
rio: a oposição foi encarniçada e sistemática a partir do mo-
mento em que, passada a surpresa e a confusão do encontro,
a crença na chegada dos supostos deuses anunciados pdas
tradições é substituída pela consciência sobre a natureza ter-
rena dos invasores. A resistência é decidida e valente, che-
gando até a ser suicida com alguma freqüência. Encontra-
mos homens e mulheres desnudos e indefesos que lutam
contra as armas de fogo, contra os cavalos, contra os cães
amestrados "cebados en indios" que os despedaçavam cruel-
mente.' Manifesta-se também com o incêndio de povoados e
plantações ante a aproximação de tropas invasoras; com a
fuga para as montanhas dos moradores de povoados e ci-
dades; com os abortos provocados pelas mulheres desespe-
radas ante a escravidão e a fome que esperavam seus filhos
ou "para não dar à luz bastardos"; com o suicídio de mi-
lhares de pessoas convencidas de sua impotência diante do
jugo do opressor; cbm a luta armada constante e tantas ve-
zes admirada dos valentes.

9
1
Depois de séculos, segue-se exaltando a ·onquista e se
repetem os conceitos de honra e glória; segue-se mesclando
a conquista em si com os benefícios da evangelização; conti-
nua a confusão criada pelos primeiros conquistadores -
compreensível neles que tanto tinham que dissimular e sola-.
par - baseada na suposta cristianização que estavam rea-
lizando. Por tudo isto e por serem tão poucos os heróis da
resistência que são lembrados é que nos propomos neste pe-
queno trabalho a resgatar do esquecimento todos aqueles
que souberam defender sua terra e sua liberdade. Não nos
deteremos em analisar se o descobrimento e a tragédia da
América, que começa com Colombo, teria sido melhor ou pior
se protagonizada por este ou aquele povo. Não se trata dis-
to. Trata-se do eterno problema da dominação brutal do
mais débil pelo mais forte. Quem a sofre chama-se Vietnam,
México, Argélia ou qualquer outro país do mundo. Trata-se
do eterno problema da conquista com sua seqüela, o colonia-
lismo. Da marca que deixa inalterada através dos séculos
do ferro candente e até quinhentos anos depois, em que pese
as demagogias de alguns pseudo-revolucionários ou ditado-
res. Visível ainda no estado de submissão miserável, no sub-
desenvolvimento e no analfabetismo dos povos desta "Amé-
rica em agonia, com a liberdade atropelada, a soberania per-
dida e a dignidade manchada", como disse de maneira con-
tundente Raúl Roa. Visível ainda na submissão mantida a
força de assassinatos e de extermínios generalizados, porque
se ignora que matar índios seja delito e se obtém absolvição
por encontrar respaldo nesta justificativa. 2
Não iremos cair na armadilha colonialista que conside-
ra os colonizados incapazes de pensar e de trabalhar e que
atribui a "influências estranhas" toda atitude reivindicativa,
buscando assim sufocar qualquer gesto que busque esclare-
cer a verdade ou qualquer intento de reclamar o direito dos
subjugados. Não faremos como aqueles que levantam o es-
pantalho da Legenda Negra contra a Espanha para atacar
uma ação da mais elementar justiça ou para silenciar as ra-
ras vozes sinceras que se atrevem a falar dos crimes cometi-
dos ou mesmo os que se elevam a favor dos povos oprimi-
dos. Não existe tal Legenda Negra. O orgulhoso patrioteiris-
mo de alguns espanhóis moldou a expressão, quando, por
conveniências políticas, os governos europeus utilizaram con-

10
Lra a Espanha, sua rival, o magnífico requisitório de Las
Casas. Patriota autêntico foi o frei que se manteve intransi-
gente ao relatar os horrores da conquista. Se todos os paí-
ses colonialistas tivessem tido um Las Casas nenhum teria
se livrado de sua própria Legenda. Nem Portugal, nem Fran-
ça, que na Louisiana marcava os escravos com a flor-de-lis
estilizada; nem a Inglaterra e nem tampouco a Holanda, com
os horrores perpetrados nas índias Orientais.
Na Espanha, a consciência dos homens da Igreja foi sa-
cudida pelo constante clamor do padre Las Casas. Até a má-
xima autoridade do Papa foi impugnada. Porém, os leguleios
têm solução para tudo: ditaram-se ordens estritas, Novas
Leis, que supostamente serviriam para favorecer os indíge-
nas. Fizeram alardes de equilíbrio para justificar o poder
papal sobre todos os homens, mas a injustiça e o atropelo
continuaram. A nenhum dos homens de letras ocorreu apre-
sentar a questão com um mínimo de sehtido humanitário
comum; nenhum foi capaz de situar-se mentalmente no lugar
da vítima. E seguiu-se lendo sem pestanejar o nome de peça
dado aos escravos e o nome de cachorros raivosos aos que
defendiam sua pátria com valor legendário.
E não se diga que não se deve julgar os fatos do século
XVI com critérios do século XX. Não é uma questão de sé-
culos mas de consciência, de respeito ao ser humano, por-
que no século XVI, enquanto os fatos ocorriam, Las Casas
tornava-se a voz que se levantava para denunciá-los. E foi
seguido até mesmo por figuras como o cronista oficial Fer-
nández de Oviedo, que foi também um conquistador, nomea-
do governador de Cartagena e capaz de contar tranqüila-
mente um dos saques perpetrados por ele e seus companhei-
ros, no qual houve despojos e incêndio. Um conquistador
que não tem nenhum constrangimento em dizer que os in·
dígenas são bestas e que não têm cabeça como outras pes-
soas, mas sim duros e grossos cascos, tanto que o principal
aviso que os cristãos recebem quando lutam com eles é pa-
ra não bater-lhes na cabeça pois isto provocará estragos em
suas espadas. Pois até mesmo este homem, que chama de
"vagabundos" aos soldados indígenas e de "bravos lutadores"
aos espanhóis, não pode evitar a expressão irada diante de
determinados fatos que considerou abomináveis, chegando
inclusive a coincidir com seu inimigo Las Casas ao justificar

11
a atitude de um cacique: "Digo eu, o cronista ... que não se
pode chamar de rebelde a quem nunca prestou obediência".
Já padre Joseph de Acosta disse o seguinte ao explicar
alguns dos objetivos de seu livro: "Tendo tratado o que to-
ca a religião que praticavam os índios, pretendo neste livro
escrever sobre seus costumes e forma de governo, para duas
finalidades. A primeira, é desfazer a falsa opinião que comu-
rnente se tem deles, como sendo gente bruta e bestial, sem
entendimento ou com um grau de compreensão muito limi-
tado. A partir deste engano se comete muitos e graves agra-
vos, considerando os índios pouco mais que animais e des-
prezando qualquer gênero de respeito para com eles ... Não
vejo um meio melhor para procurar desfazer esta opinião
tão prejudicial do que procurar entender a ordem e o modo
de proceder que os indígenas tinham quando viviam sob suas
leis. . . Mas, sem entender isto, permanecemos no erro co-
mum de não entendê-los e de considerá-los simplesmente co-
mo urna caça que é trazida para atender nossos serviços e
nossos desejos".
Em quase todos os cronistas se encontra algum lampejo
de justiça e de repúdio ao que é feito com os indígenas. Até
os soldados mostram, uma ou outra vez, sua conscientização
<lo atropelo que estão cometendo.
E não se diga tampouco que foi um choque de suas cul-
turas. Seria uma grave ofensa para a Espanha supor que al-
guns aventureiros sem escrúpulos e sem classe alguma eram
os portadores de sua cultura; que uns ávidos trapaceiros -
chamando-se de cristãos e usando o nome de Deus em vão
cada vez que queriam justificar seus atos - eram portado-
res de algum conceito moral elevado.
Este livro não pretende outra coisa do que resgatar algo
que ficou no esquecimento. Aquele esquecimento em que fi-
caram tantos homens destas terras chamadas hoje de Amé-
rica Latina; que se opuseram a seus invasores com heróico
desprezo pela vida, cujas façanhas revivem em nossos dias,
com o mesmo ímpeto e com os mesmos ideais, os que ainda
se lançam à luta contra os opressores dos povos.
México, março de 1974

12
PARTE

O Encontro

A América nasce na história do mundo ociden-


tal quando o absolutismo torna-se a meta e a
intolerância, o método na existência diária.
Sergio Bagú

A surpresa do primeiro encontro, ao "não poder acredi-


tar que tenham visto pessoas de tão bom coração e tão fran-
cos para darem aos cristãos tudo o que possuíam", que
"quando lhes pedem alguma coisa o dão com a melhor boa
vontade do mundo, que parece que pedir-lhes algo se cons-
titui numa grande honra para eles"; ao deslumbramento que
lhes produzem aqueles homens e mulheres nus, puros e sim-
ples cm seu modo de ser e de dar, que tanto surpreende Co-
lombo, segue-se o desplante da construção de um forte nos
domínios do rei Guacanagarí. Este soberano, "de grande ca-
ridade, humanidade e virtude", foi quem ajudou o Almiran-
te nu primeiro percalço que este sofreu nas costas de La
Espafiola, tendo-lhe ajudado a desencalhar o barco, descai·-
regá-lu e guardar todas as coisas. Fez tudo com tal presteza
que Colombo chegou a escrever na carta que mandou aos
reis: "Certifico a Vossas AI te.las que em nenhuma parte de
Castela se colocaria tanto cuidado em todas as coisas, a pon-
to de se puder dizer que não faltou sequer uma agulha que
fosse ... Acredito que não exista no mundo melhor gente e
melhor terra". Disse ainda que "Nosso Senhor lhe havia da-
do a grande dádiva de ali encalhar a sua nau ... porque aqui-
lo não foi um desastre mas uma grande ventura". 1

13
Em que pese seu entusiasmo e a grande amizade que
Guacanagarí lhe demonstra, a ponto de trair sua própria gen-.
te sublevada contra os invasores por lealdade a Colombo, es-
te decide construir uma torre-fortaleza. "Não que fizesse is-
to por esta gente. . . pois andam nus e sem armas", mas por-
que .iulgava necessário, tendo deixado ali trinta e nove ho-
mens muito bem selecionados, com o encargo de recolher
um tonel de ouro.
Colombo começa a interpretar: demonstra realmente
compreender o que os indígenas lhe dizem, embora aparen-
temente sem dar-se conta do perigo que isto representa, ao
acrescentar que não sabe a língua do país "e as pessoas des-
ta terra não me entendem, nem eu ( a elas); muitas vezes
entendo uma coisa por outra. . . nem tampouco confio mui-
to nelas, porque várias vezes têm tratado de fugir".
Não é de estranhar que tratassem de fugir, embora a
maior parte das vezes sem consegui-lo, porque se tratava dos
primeiros indígenas que ao ver o prodígio de uma casa flu-
tuante se acercaram da nau do Almirante cheios de curio-
sidade. Colombo satisfez esta curiosidade apreendendo-os e
guardando-os como prisioneiros para levá-los aos reis da Es-
panha, juntamente com outras raridades tais como papa-
gaios, meadas de algodão e algum que outro objeto de ouro.
Este foi o encontro. E Las Casas disse: "Por que os ho-
mens não podem nunca cair em um só erro? Por que não
podem cometer apenas um pecado? Por que o pecado que
vem depois tem que ser ainda maior? Assim procedeu o Al-
mirante que, querendo aperfeiçoar o seu propósito, enviou
uns barcos com certos marinheiros a uma casa. . . e toma-
ram sete mulheres. . . com três crianças. Disse ele que fez
isto porque os homens se comportam melhor na Espanha
tendo mulheres de sua terra do que sem elas". O marido de
uma das prisioneiras se aproximou da nau antes que par-
tisse e suplicou a Colombo que, visto que levava sua mu-
lher e seus filhos, que o levasse também. "Tenho plena
certeza - disse frei Bartolomé - que o índio quisera mais
que lhe devolvessem a mulher e os filhas e lhe permitissem
ficar com eles em sua terra, do que ter que ir morrer em
terras estranhas". A apreensão torna-se certificada por Ovie-
do ao dizer que quando Colombo chegou a Palas a maior
parte dos indígenas tinha morrido ou estava doente e que

14
s1·i pôde levar seis deles à corte dos reis católicos. Um dos

que chegaram, ao qual o jovem príncipe Juan tomou como


ragem, morreu ao cabo de dois anos.
É geral entre os invasores a convicção de que as pessoas
que encontram lhes pertencem. Também é convicção de que
"levar a bandeira da cruz" e lutar "por nossa fé e por ser-
viço de vossa Sacra Majestade" lhes dá o direito - sancio-
nado pelo próprio Papa - de repartir entre eles as terras
americanas. Também entendem que podem carregar com in-
críveis tributos os chefes legítimos e obrigá-los sob ameaça
de morte -·- da qual com freqüência nem assim conseguem
escapar --- a considerarem-se súditos dos monarcas europeus .
.É geral o emaranhado de contradições em que se enre-
dam os escritores que relatam a conquista ao falar dos ha-
bitantes naturais destas terras. Fernández de Oviedo, cronis-
ta das 1ndias por nomeação de Sua Majestade, vangloria-se
ao longo de sua obra desta colocação tipi<!amente colonialis-
ta, a ponto de não permitir que se entenda se diante dos ín-
dios se sentia superior ou se simplesmente os odiava; se os
admirava ou os desprezava; se os via como "gente de bem
e aptos para a guerra", ou como viciados, preguiçosos e des-
preparados. Ou se tudo isto é para sufocar o remorso que
às vezes aflora de seus escritos, fazendo-o tentar justificar-se
com a acusação aos índios de idólatras e sodomitas. O que
não o impede de pintar, com freqüência, um quadro de las-
cívia e sadismo entre os seus, como o de um frade que, dei-
tado à cama com uma indígena, obrigou o marido a dormir
no solo, debaixo deles.
E, mais adiante, culpa com acres palavras os conquis-
tadores. dominicanos e franciscanos pelo extermínio de in-
dígenas em San Juan, Cuba e Jamaica, dizendo: "não quero
nem pensar que, pelo fato dos índios não terem culpa algu-
ma, Deus os haverá de castigá-los ( aos colonizadores), fa-
1.cndo-os saírem tão viciados e prestando sacrifícios ao dia-
bo". Não escapa ao seu Eu Acuso a "cobiça insaciável dos
homens" que obriga a trabalhos excessivos pelo afã de ob-
ter ouro; a crueldade dos que não dão de comer a "esta
gente, que por sua natureza é ociosa e viciada e de pouco
1rabalho, além de melancólicos, covardes, vis e mal inclina-
dos ... " Parece que esta fileira de insultos não tem outra fi-
11.ilidadc que a de tomar ânimo para poder acrescentar:

15
"111l1itus deles, para não terem que trabalhar e perder seu
passatempo, se mataram com veneno, enquanto que outros
se enforcaram com as próprias mãos".
Las Casas, em que pese sua admiração por Colombo, tra-
tando de justificá-lo sempre que pode, dá como uma das
causas que levaram os espanhóis a submeter os índios a
"trabalhos tão excessivos e a empenhar-se para oprimi-los
e consumi-los", as palavras que o Almirante dirigiu aos reis:
"eles não têm armas, andam nus, são covardes e não pos-
suem qualquer habilidade para o manejo de armas. . . e as-
sim, são bons para fazê-los trabalhar, semear e executar qual-
quer outra atividade. Também se pode mandá-los construir
vilas, andar vestidos e ensinar nossos costumes".
Pergunta-se então: onde foram parar aquelas "criaturas
angclicais" do primeiro encontro? Aqueles que diziam que
"converteriam à nossa santa fé por amor e não pela força"
aqueles a quem davam gorros vermelhos e contas de vidro
cm troca de peças de algodão ou de magníficas jóias de ou-
rn; que chegavam às embarcações para dar toda classe de
obséquios; que eram "muito bem feitos, formosos, de lin-
dos corpos e de cara muito boa". 4

16
PARTE li

A Primeira Oposição. As Ilhas

Onde quer que falte justiça esta pode ser feita


para si mesmo pelo oprimido e agravado.
Las Casas

La Espaiiola era governada por cinco caciques prin-


cipais, aos quais prestavam obediência muitos senhores de
menor categoria. Eram eles: Guarionex, em cujas terras os
rios arrastavam ouro entre suas areias; Guacanagarí, o ge-
neroso anfitrião de Colombo, cujo domínio abarcava parte
da rica Vega Real; Caonabo, o mais poderoso de todos, "o
mais encarniçado inimigo dos brancos ... dotado de natural
talento para a guerra e de uma inteligência superior à que
caracterizava a vida selvagem. Tinha um ânimo incansável
e audaz para empreender arrojadas aventuras. E contava
com o apoio de seus três valentes irmãos e a cega obediência
de uma tribo numerosa". 5 Behechio era o quarto cacique. Ir-
mão de Anacaona, mulher célebre em toda a ilha por sua
beleza, casada com Caonabo. E por fim Cotubanamá, senhor
do sul da ilha.
A acolhida dispensada pelos caciques aos recém-chega-
dos', se bem que não tão excessivamente cordial como a que
lhes outorgou Guarionex, foi também pacífica em princípio.
Antes que ocorresse "uma série não interrompida de vergo-
nhosos ultrajes, (que) incendiaram o ressentimento daque-
les homens bondosos e pacíficos, que de generosos anfi-
triões se converteram em encarniçados inimigos". pois "não

17
há praga comparável à soldadesca abandonada a si mesma
em um país inerme" .6
As pessoas deixadas por Colombo na ilha, quando este
regressou à Espanha para dar conta aos reis do êxito de sua
primeira viagem, desataram seus maus instintos. E os indí-
genas contestaram as crueldades e o roubo de suas mulhe-
res incendiando os fortes, matando. todos os grupos que
encontravam desprevenidos e negando~se a proporcionar-lhes
alimentos. Este fato, repetido mil vezes ao longo da conquis-
ta, chegou a ser uma tortura para aqueles forasteiros que
se acreditavam fidalgos e recusavam terminantemente o tra-
balho do campo.
Já havia passado muito tempo desde que o barco do Al-
mirante encalhara em terras do cacique Guacanagarí, onde
Colombo havia recebido ajuda e hospitalidade tais que o
fizeram escrever acentuados elogios e onde, apesar de tudo,
mandou construir, antes de partir, a primeira fortaleza que
chamou de La Navidad, na qual deixou trinta e nove homens
bem selecionados. Tinham ordens de não se separar uns dos
outros, de guardar respeito aos indígenas e . . . de reunir
uma boa quantidade de ouro. Guacanagarí, "por sua manei-
ra de comer, por sua honestidade, postura, seriedade e lim-
peza, mostrava ser de boa linhagem". Era "de poucas pala-
vras e lindos costumes. Bastava acenar com a mão para ser
atendido no que queria".7
Antes que o Almirante abandonasse a ilha, um grupo de
seus homens iniciou o que haveria de caracterizar toda a
conquista: matar sem nenhum motivo os indígenas. Contra-
riamente ao que seria de se esperar, Colombo se alegra com
o fato, entendendo que servirá para que sejam temidos e
respeitados os homens que ficarão no forte. A partir de en-
tão, cada vez que entrava ou saía de um povoado, fazia sua
gente desfilar com bandeiras desfraldadas e ao som de cla-
rins, "para colocar temor na terra e mostrar que os cristãos
eram suficientemente fortes para conter qualquer ação que
intentassem". Mesmo assim os nativos os receberam com a
naturalidade e a inocência a que estavam acostumados, dei-
xando-os entrar em suas casas, onde "tomavam tudo o que
bem entendiam, como se fosse tudo seu". Os nativos tinham
o costume de fechar suas portas com simples tramelas, acre-
ditando que com isto "os cristãos haveriam de perceber que

18
não era vontade dos donos que entrassem em suas casas",
quando não eram desejados. 8
" ... nunca haviam guerras ou diferenças entre os ín-
dios desta ilha", disse Oviedo. Ambas as coisas apareceram
com os conquistadores: as diferenças, com a lealdade de
Guacanagarí para com Colombo, que o joga contra os de-
mais senhores; e as guerras não haverão de cessar até o ani-
quilamento total dos indígenas.
A conquista enlouquece os invasores. O afã de encontrar
ouro, custe o que custar, e a necessidade de demonstrar aos
reis que os gastos iniciados com a aventura das três cara-
velas não foram inúteis, converteram Colombo num busca-
dor de ouro e em um caçador de escravos para serem ven-
didos na Espanha. E mais tarde, para acalmar os escrúpulos
peninsulares, se imaginam rebeliões que não existem para
justificar a escravidão dos subjugados. Colombo chega a es-
crever a seu irmão Bartolomé, o Adiantado, ordenando-o "so-
brecarregar os navios de escravos", enquanto acrescenta es-
te incrível modelo de hipocrisia:
Nisto e em tudo o mais, tem-se que ter muito justa con-
ta, sem nada tomar a Suas Altezas. E refletir em todo o pe-
so da consciência, por que não há outro bem salvo servir a
Deus, pois wdas as coisas deste mundo não são nada e do
outro são para sempre. 9
Caonabo, o senhor "muito esforçado de Maguana", viu
entrar em suas terras um grupo de homens do forte de Na-
vidad. Seus súditos mataram todos e uma noite o cacique
se dirigiu para a fortaleza e ateou-lhe fogo. Havia dentro ape-
nas cinco pessoas - as demais estavam espalhadas pela ilha
- que foram mortas "por suas culpas e más obras". O Al-
mirante recebeu a notícia, com "grandíssimo pesar e triste-
za" em seu regresso à Espanha.
Cibao, domínio de Caonabo, possuía ricas minas de ou-
ro. O Almirante impôs um tributo: todos os vizinhos das
minas com mais de quatorze anos de idade eram obrigados
a entregar a cada três meses uma grande quantidade de ouro.
Os que viviam longe das minas foram obrigados ao paga-
mento de uma arroba de algodão por pessoa. Para que nin-
guém pudesse iludi-lo, ordenou que cada tributário levasse
pendurado no pescoço uma moeda de cobre ou de latão, na
qual se fazia uma marca especial por cada pagamento, pa-

19
ra que "se conhecesse quem pagou e quem não pagou, dê
maneira que quem não a trouxesse deveria ser castigado". 10
Para ampliar a dominação foi construído um forte em
Cibao. Vendo que sua posição estratégica o tornava inexpug-
nável, Caonabo decidiu sitiá-lo. Durante trinta dias o mante-
ve bloqueado. No interior do forte estava de chefe máximo
Alonso de Ojeda, "educado nas guerras mouriscas", conhe-
cedor de qualquer estratagema que pudesse ser armado con-
tra ele. Fanático e feroz, que, diante da fome que ameaçava
os sitiados, "fez desesperadas saídas . . . matando muitos
com sua própria mão e sempre saindo ileso por entre es-
pessas chuvas de flechas. Caonabo viu perecer a flor de seus
intrépidos guerreiros". 11 Sem desanimar por isto, Caonabo
concebeu o projeto de confederar todos os caciques da ilha
em uma ação conjunta contra o invasor. Guacanagarí se
opôs, pois havia oferecido sua amizade e sua palavra a Co-
lombo. Seu respeito às leis da hospitalidade o opôs a seus
irmãos e o converteu no maior obstáculo aos objetivos de
Caonabo. Converteu-se com isto no maior inimigo de sua
própria gente, enquanto que Caonabo se tornava o terror dos
invasores, com o apoio de seus irmãos e de todo o seu po-
vo em armas.
Convencidos de que nunca poderiam vencê-lo, os con-
quistadores decidem recorrer à ignomínia. Ojeda preparou
umas algemas muito brilhantes, de maneira a que se pare-
cessem de latão, metal muito admirado pelos indígenas, e se
apresentou em tom de paz ante o cacique, acompanhado por
nove soldados a cavalo. Disse que levava-lhe um presente
por ordem do Almirante. "Diz-se que Ojeda se ajoelhou e
lhe beijou as mãos, tendo determinado a seus companheiros:
'façam todos como eu'. Fez-lhe entender que lhe trazia de
Vizcaya algo muito especial, mostrando-lhe as algemas bri-
lhantes como sendo dotadas de grande virtude secreta. Dis-
se que os soberanos de Castela usavam aquilo como uma
grande jóia quando promoviam areitos, que eram bailes, ou
festas. E suplicou-lhe que fosse até o rio para lavar-se e des-
contrair-se, que era coisa que muito usavam ... e que ali as
colocaria no lugar onde deveria usá-las e que depois disto
seria colocado sobre um cavalo e se pareceria diante de seus
vassalos com os reis de Castela". 12 E assim se fez. Uma vez
algemado o cacique e montado na garupa do cavalo de Oje-

20
da, fugiram todos em grande disparada. A satisfação de Co-
lombo foi muito grande ao ver preso o seu valente inimigo.
Contam as testemunhas dos fatos que Colombo o guardou
algum tempo em sua casa antes de decidir mandá-lo para a
Espanha. A casa não era grande e os que transitavam por
ali viam Caonabo sentado perto da porta, sem fazer o me-
nor sinal de reconhecimento quando Colombo passava dian-
te dele. No entanto, quando aparecia Ojeda, o cacique se le-
vantava e fazia grande reverência. Estranhando esta atitude,
perguntaram a Caonabo por que razão respeitava mais ao
vassalo que ao senhor, tendo o cacique respondido que Co-
lombo não se atrevera a ir detê-lo em sua casa e que Oje-
da o fizera.
Talvez fosse esse orgulho ferido que levou Colombo a
enviá-lo para a Espanha. Pode ter sido também o temor que
deveriam inspirar os irmãos de Caonabo, com a possibilida-
de de mobilizar todo o seu povo para libertá-lo. No caminho
para a Espanha, uma tormenta tropical destruiu o barco e
o primeiro grande chefe da resistência indígena, preso em al-
gemas, morreu afogado.
A confederação sonhada por Caonabo surgiu quando ele
não mais a podia dirigir. Os espanhóis levantavam mais e
mais fortalezas, invadindo toda a ilha. A esperança inicial de
vê-los partir pelo mesmo caminho por onde haviam chegado
se desvanecia. E também se tornava cada vez mais difícil
derrotá-los. Os homens brancos usavam armas poderosas, lu-
tavam cobertos de aço e montados em cavalos ferozes. Além
disto, carregavam furiosos e famintos cães mastins, que, ao
soltá-los contra os indígenas, agiam "com sanguinária fúria,
os derrubando, tomando pela garganta, arrastando e os fa-
zendo em pedaços" .13 O traidor Guacanagarí seguia acompa-
nhando os poderosos. A confederação foi vencida. O irmão
de Caonabo, Manicaotex, foi feito prisioneiro. Os demais ca-
ciques foram se retirando para suas terras. Behechio levou
sua irmã Anacaona, a bela, para seus domínios, onde com-
partilhou com ela o mando. Extraordinários tributos foram
impostos aos vencidos. Muitos optaram por retirar-se para
as montanhas escarpadas, único lugar que lhes oferecia se-
gurança relativa, não sem antes destruir as plantações na es-
perança de que os espanhóis morressem de fome.
O destino de todos os senhores de La Espaiiola foi trà-

21
gico. Quando, em terras ele Guarionex, Bartolomé Colombo
impôs um tributo trimestral que consistia em um determi-
nado recipiente cheio de ouro, a cada um de seus habitan-
tes, os indígenas sentiram que esgotava-se a medida do su-
portável. Guarionex propôs aos conquistadores lavrar para
eles um enorme terreno, "e isto era tanto que manteria po1·
dez anos toda a Castela", em troca do ouro que sua gente
não sabia retirar das minas. O oferecimento foi inútil pois
ao Adiantado Colombo só interessava o recipiente cheio de
ouro. Então Guarionex e seu povo se prepararam para a lu-
ta. Inteirado, Colombo se adianta e ataca à noite, de surpre-
sa, pois isto era incomum no mundo indígena. Consegue ma-
tar muitos e levar prisioneiro o cacique e alguns ·senhores.
Todo o povo acode a pedir a liberdade de seus chefes e o
Adiantado a concede, porém, sem mudar em nada a obriga-
ção que Guarionex não conseguiu reunir. Os nativos esta-
vam acostumados a tirar o ouro dos rios ou nas superfícies.
O trabalho nas minas lhes era insuportável e desconheciam
os procedimentos para obtenção do produto.
Desesperado, Guarionex decide fugir e se dirige com sua
família e achegados para terras de seu amigo Mayobanex.
Este o recebe, embora consciente de que está desafiando as
iras do conquistador e com isto colocando o seu povo em
perigo. Mas sabe que Guarionex é bom e não fez mal a nin-
guém. Além disto, Mayobanex e sua esposa estão em dívida
com o hóspede por ter-lhes ensinado o areito 14 de Magua,
que era uma espécie de romance acompanhado de bailes, que
rememorava os feitos dos antepassados.
Além disto, Mayobanex explicou para seu povo que o fa-
to de Guarionex "ter vindo socorrer-se dele e de seu reino e
tendo ele prometido defendê-lo e protegê-lo. . . por nenhum
risco ou dano que viesse deixaria de ampará-lo".L'
O dano chegou logo em seguida. Colombo tomou conhe-
cimento do fato e se dirigiu para as terras de Mayobanex pa-
ra buscar o refugiado. Embora alguns grupos de valentes ten-
tassem cortar-lhe a passagem, isto não foi possível, porque
suas flechas, atiradas de longe por medo dos cavalos, "che-
gavam cansadas" ao seu alvo. Colombo chegou até a casa
de Mayobanex e lhe ofereceu amizade eterna se lhe entregas-
se Guarionex, o qual estava penalizado com um grande cas-
tigo por ter fugido e deixado de pagar o maior imposto exi-

22
gido por aquelas terras. Ao mesmo tempo, ameaçava Mayo-
banex com destruição total caso se negasse a atendê-lo.
Mayobanex trata de explicar seus motivos, baseados em
sentimentos humanitários e de amizade, aos quais não pode
ser infiel. "O Almirante tomou-se de acelerada ira contra
Mayobanex e determinou a sua destruição . . . Chega então o
furor dos cristãos, desamparando toda a população de seu
próprio rei. Os nativos sabiam que contra as balistas dos es-
panhóis e mais ainda contra os cavalos, nada podiam fa-
zer".'ó Ao ver-se só, Mayobanex fugiu para as montanhas com
sua família. Os dois chefes se separaram e procuraram sal-
var-se cada um por um lado. Os invasores os buscam até a
extenuação. Encontram dois índios que estavam caçando e
os f azcm confessar onde se esconde o cacique. Doze espa-
n húis se oferecem para ir buscá-lo. Vão desnudos e pintados
como os indígenas. Encontram Mayobanex, sem proteçào,
só com sua mulher, seus filhos e alguns parentes. Fazem-no
prisioneiro e o encerram no forte Concepción, onde perma-
nece até a sua morte.
Junto com Mayobanex foi presa uma prima sua que
era considerada a mulher mais bonita daquela ilha. To-
davia, o marido obteve do Almirante a sua libertação e, co-
mo agradecimento, determinou a quatro ou cinco mil homens
que executassem "o plantio de trigo para os espanhóis, tra-
balho que equivalia ao executado por 30 mil castelhanos". O
povo esperava que com este esforço lhes fosse devolvido o
seu senhor, mas "o Adiantado soltou apenas a rainha e aos
demais presos de sua casa . . . e nenhuma súplica e nenhuma
lágrima conseguiu convencê-lo a soltar o seu rei e senhor". 17
Alguns dias depois da prisão de Mayobanex, o rei Gua-
rionex, impelido pela fome, saiu de seu esconderijo, sendo
visto e delatado para o invasor. Durante três anos permane-
ceu preso no mesmo forte de Concepción onde estava seu
amigo, porém em lugar separado. Em 1502, "preso e alge-
mado", foi embarcado com destino à Espanha em um dos
barcos da frota que, em que pese as constantes advertências
de Colombo sobre a tormenta que se aproximava, lançou-se
ao mar. Ao chegar frente à Ilha Saona, encontrou um dos
ciclones habituais do Caribe, que afundou mais de vinte bar-
cos. Umas quinhentas pessoas morreram no naufrágio, entre
as quais estavam muitos indígenas. O mais notável deles,

23
Guarionex, morreu afogado. Entre os espanhóis que perece-
ram figurava o governador de Bobadilla, Francisco Roldán,
de iníqua· conduta na ilha, além de muitos outros inimigos
de Colombo. Perdeu-se também uma enorme pepita de ouro,
a maior encontrada naquelas terras, e muitas outras rique-
zas. Colombo e seu irmão, que integravam a expedição, con-
seguiram salvar-se.

ANACAONA

Impressionante é a figura de Anacaona, esposa de Cau-


nabo. Quando este morreu, se refugiou na região de La Espa-
iíola chamada Xaraguá, onde compartilhou o mando com o
seu irmão Behechio até a morte do mesmo. Depois seguiu
governando sozinha, sendo adorada por sua gente. Era "va-
lorosa e de grande ânimo e habilidade". Em toda a ilha con-
tavam maravilhas a respeito dela. Tocou a ela sofrer os
desmandos de Roldán, típico expoente do conquistador ba-
derneiro e sem escrúpulos.
Quando Nicolás de Ovando recebeu o cargo de gover-
nador de La Espaiíola, decidiu ir a Xaraguá. Ao tomar co-
nhecimento da visita, Anacaona preparou uma régia recep-
ção, com um areito onde participariam "mais de trezentas
donzelas, todas criadas suas, porque não quis que homem
e mulher casada ou que tivesse conhecido varão entrassem
na dança ou areito". 1 ' Nem a magnitude· do baile, nem os
manjares oferecidos, nem a senhorial hospitalidade na gran-
de Caney 19 conseguiram mudar a primeira idéia do conquis-
tador: fazer uma grande matança como exemplo ou corno
aviso. Este foi o procedimento usado por Cortez em Tlaxca-
la, por Alvarado em Tenochtitlán, e que se repetiu em mui-
tas partes. A tática consistia em adiantar o castigo à ação
e incutir pavor desde o primeiro momento.
Ovando organizou o seu plano: promoveu um jogo de
estacas entre seus homens a cavalo, o que chamou a atenção
tanto da cacique como dos senhores, que aceitaram encan-
tados o convite para passarem ao grande caney dos espa-
nhóis, para ali assistirem o espetáculo. O conquistador "ti-
nha determinado que os homens a cavalo cercassem a casa
e que aqueles que ficassem dentro estivessem aparelhados

24
para prender os senhores visitantes. O ataque deveria come-
çar quando ele colocasse a mão em uma peça de ouro que
trazia pendurada sobre o peito. . . Entra a nobre senhora e
rainha Anacaona, que muitos e grandes serviços havia pres-
tado aos cristãos, mas que em troca havia sofrido insultos,
agravos e escândalos; entram oitenta senhores ... e, descui-
dados, esperam a fala do comendador maior. Este não fala.
Apenas coloca a mão na jóia que trazia ao peito. Os solda-
dos sacam suas espadas. Anacaona grita desesperadamente e
todos choram e indagam por que lhes causam tanto mal. Os
espanhóis têm pressa em manietá-los. Soldados armados não
permitem que ninguém saia. Anacaona é colocada, manieta-
da, junto à porta do caney. Colocam fogo e a casa arde, quei-
mando vivos os senhores e reis de suas terras, até se torna-
rem brasas. A rainha Anacaona, "para prestar-lhes a devida
honra, foi enforcada" .20
Tudo ficou em ordem com a sádica •sentença: enforcar,
por honra, o belo corpo da cacique três meses depois de tê-
la obrigado a contemplar, presa e manietada, como queima-
vam vivos todos os senhores de sua corte.
Enquanto o incêndio ocorria, os soldados se divertiam
com o resto da população, perseguindo os que tentavam
fugir. Os que conseguiram chegar a uma ilhota chamada El
Guayabo foram presos e condenados à escravidão por Ovan-
do. E de nada lhes valeu o fato de que a rainha Isabel, in-
teirada do sucedido em seu leito de morte, tenha "sentido
muito e abominado" o acontecimento.
Um dos que conseguiram fugir, Guaroa, sobrinho de
Anacaona, se retirou para as serras de Baoruco, onde foram
buscá-lo com a desculpa de que andava se rebelando. Quan-
do conseguiram capturá-lo, o enforcaram de imediato.
Foi assim que a terra governada por Anacaona - esta
mulher tão atraente e tão vilipendiada por Oviedo - sofreu
como poucas a sanha evangelizadora. Ela mesma foi vítima
da mentalidade "ocidental e cristã" que, depois de aprovei-
tar-se da natural inocência dos nativos, julgava os fatos com
os mais estritos princípios de moral de confessionário.

25
COTUBANO

Frente à pequena Ilha Saona, tinha seus domínios Co-


tubanamá ou Cotubano, notável por sua força e seu tama-
nho. Os azares da conquista o haviam ligado com estreita
amizade a um conquistador, o capitão-general Juan de Es-
quive]. Existia na Ilha La Espafíola o antigo costume de que
os amigos trocassem de nome entre si. E assim o fizeram o
espanhol e o indígena. O intercâmbio de nomes estabeleceu
laços de parentesco a que os nativos guardaram profundo
respeito e lealdade. Este vínculo se chamava guatiao.
Passam os ai:ios e segue a conquista com seus horrores
inerentes. A crueldade do animal humano se desdobra e che-
ga a extremos indescritíveis. Os indígenas aterrorizados se
escondem pelas montanhas, passam dos domínios de um ca-
cique para outro. Começa então a caçada de homens por
parte dos invasores, os castigos atrozes e as buscas pelos in-
trincados bosques que cobrem as escarpadas serras, seguin-
do um leve rastro ou o sutil cheiro de fumaça. A terra onde
Cotubanamá governa se vê invadida pelos que fogem. Sua
fama de homem valente é um estímulo para os que neces-
sitam de uma ajuda, de um refúgio seguro. As atrocidades
que Las Casas transcreve são "estranhas a toda natureza hu-
mana. Meus olhos viram, mas agora temo dizê-las, pergun-
tando a mim mesmo se talvez não as sonhei "21 , sabendo, des-
graçadamente, que não sonhou. Estas monstruosidades co-
movem Cotubanamá que decide fugir, com aqueles que o
querem seguir, para a ilha vizinha de Sauna.
Ali desembarcam os conquistadores em sua persegui-
ção. Juan de Esquive!, o guatiao, à frente deles. Dividem-se
em dois grupos para subir a montanha. O grupo capitanea-
do por Esquivei topou com dois espiões. "O capitão sacou
um punhal e apunhalou um, triste índio espião. O outro, atou
e levou como guia". 22 O outro grupo encontra-se com doze
índios, que caminham, como de costume, um atrás do ou-
tro, sendo que o último, que vai armado, é Cotubano. Quan-
do perguntaram pelo seu chefe a resposta veio imediata: "es-
tá aqui atrás". Tão pronto o identificaram, uma espada de-
sembainhada baixou sobre Cotubano. Este a aparou com as
mãos, ignorando o poder da arma. "Não me mates, porque
eu sou Juan de Esquivei", disse o coitado. Os indígenas, que

26
poderiam muito bem matar ao da espada e libertar ao seu
senhor, fugiram. Porém, mesmo ferido, o cacique arremeteu
contra o espanhol, travando-se uma luta corpo a corpo, se-
parada pelos que vinham atrás. Prenderam o cacique com
algemas, buscaram sua mulher e filhos e decidiram que
não iriam queimá-los ali mesmo, mas o levariam com a ca-
ravela a São Domingos, onde dariam à cidade a festa de uma
tortura. No entanto, o comendador maior o salvou de ser
levado a São Domingos, julgando que a forca seria um cas-
tigo suficiente. Juan de Esquive! se vangloriava desta cap-
tura como sendo uma das maiores façanhas por ele reali-
zadas nesta ilha.
"Tudo isto eu vi com meus olhos corporais e mortais",
disse o padre Las Casas.
O comendador maior mandou povoar duas vilas com es-
panhóis, para manter a província segura, impedindo que ou-
1 ra cabeça mais se rebelasse. . . e entre ambas repartiu to-
dos os índios para que servissem aos cristãos, os quais aca-
baram os consumindo.2-1

ENRIQUILLO

A Ilha Espaflola foi pródiga em opositores, porém ne-


nhum conseguiu dar ao seu movimento a categoria de guer-
rilha organizada como o fez o cacique herdeiro de Bahoru-
co, Guarocuya, conhecido por seu nome cristão de Enrique.
Filho de Maxicatex, cacique morto na tristemente famosa
festa organizada por Anacaona, foi salvo daquele grande
horror e levado a um convento de franciscanos pelo padre
Las Casas. Ali se familiarizou com a cultura ocidental. In-
teligente e esperto, não tardou em rebelar-se contra a injus-
ta escravidão que padeciam seus irmãos, seus súditos por
herança. Já maior, casou com Meneia, filha do espanhol Her-
nando de Guevara e de Higuemota, a formosa filha de Ana-
caona.
Enriquillo foi dado, junto com seus vassalos, a Fran-
cisco de Valenzuela, de quem recebeu um tratamento de res-
peito e areto pouco comum. Morto este, ficou de herdeiro
o seu filho, Andrés Valenzuela, moço muito vaidoso, orgulho-
so e ressentido com Enrique pelo afeto que o pai lhe demons-

27
trara. A animosidade foi manifestada de mil maneiras. A be-
leza de Mencía, herdada da formosura da mãe e da cor do
pai, considerada desta maneira como espanhola pelos con-
quistadores, foi uma agulhada a mais no jovem Valenzuela.
Fracassando em seus intentos de tomar-lhe a mulher, os
maus-tratos e humilhações aumentaram. Enrique se queixou
da afronta ao próprio Valenzuela, que, segundo o padre Las
Casas, "lhe deu as costas para que se cumprisse o provér-
bio: agravado e espancado". Em vista disto, dirigiu-se ao
governador do qual não recebeu mais que insultos, ameaças,
desprezo e ainda o cárcere. Ao sair da prisão, com seu or·
gulho e dignidade indomáveis, o cacique se dirigiu a pé -
porque sua égua, única propriedade, presente do padre Las
Casas, fora roubada por seu amo - desde a fazenda de Va-
lenzuela até a cidade de São Domingos para apresentar suas
queixas à Audiência.
Ali não o trataram mal, porém não obteve mais que uma
carta de favor dirigida ao próprio tenente que estava de go-
vernador que o havia encarcerado. A apresentação da carta
agravou ainda mais a sua situação, assim como a do resto
da população indígena, sobre a qual recaíam as desavenças
e rancores que os conquistadores tinham entre si.
A paciência do cacique, modelada durante anos pelos
franciscanos, se esgotou. Convencido de que nada haveria de
alcançar para melhorar a sua sorte e a de sua gente, decidiu
ir-se para as montanhas inexpugnáveis de Bahoruco, domí-
nio de seu pai. Conseguiu a adesão de vários caciques: Hi-
guamuco, Incaqueca, Entrambagures, Matayco, Vasa, May-
bona e outros dos quais não se conserva mais que o nome
de batismo: Gascón, Villagrán, Tamayo, Velázquez, Antón e
Hernández de Bahoruco. Com um gênio militar inimaginável
em um homem que até pouco tempo mostrara a passividade
construída no convento, se lançou à oposição armada. Ins-
tiga os indígenas a permanecer nos povoados e conseguir ar-
mas dos espanhóis, com a advertência expressa de evitar sem·
pre que possível o derramamento de sangue. Ao mesmo tem-
po organiza um plano de verdadeira guerrilha. Coloca os ca-
ciques mais valentes em pontos estratégicos nas montanhas.
Retira as mulheres, crianças e idosos para lugares distantes
e protegidos. Nesses lugares são erguidos povoados, semea-
das plantações e criados animais domésticos. Os cachorros

28
mastins passam a ser utilizados para a caça aos porcos sel·
vagens, com o que se muda a atividade que tinham de ca-
çadores de homens. Enrique prevê tudo nos mínimos deta-
lhes. Divide seus homens em grupos guerrilheiros que se es-
palham pelas montanhas, vigiando as planuras por onde há
de chegar a repressão. Procura mudar de lugar com freqüên-
cia para que ninguém saiba onde se encontra, evitando a de-
lação que normalmente é conseguida através da tortura.
Assim preparados, aguardam o ataque que não há de tar-
dar. O primeiro a chegar é Valenzuela à frente de um grupo
de homens a cavalo. O espanhol vem montado na égua de
Enriquillo. A montanha é íngreme e intransitável a cavalo.
A pé e pelos desfiladeiros, o espanhol é mais vulnerável que
o indígena. Instalados no alto, os nativos lançam grandes pe-
dras sobre os assaltantes e os vencem facilmente. Na reti-
rada Valenzuela cai nas mãos de Enrique, agora chamado
Guarocuya, nome que adotou para sempre: E ocorre o incrí-
vel: o cacique ofendido solta o tirano, fazendo-o devolver a
égua e apenas o adverte, com dignidade, para que não re-
torne novamente à montanha.
O segundo ataque é organizado pela Audiência e sofre
igual derrota. A fama de Enrique se espalha pela ilha e che-
ga até a península espanhola. Os indígenas escravizados
abandonam seus amos e vão engrossar o contingente dos re-
beldes. Enrique proíbe a todos que matem espanhóis. Quer
apenas conseguir respeito para seu povo e defendê-lo, já que
"nunca os reis e senhores desta ilha reconheceram como se-
nhor o rei de Castela, pois, desde que foram descobertos,
até hoje, de fato e não de direito foram tiranizados ... "24
Passam os anos e os nativos seguem sua rebelião. "Pas-
saram-se treze ou quatorze anos durante os quais foram gas-
tos da Caixa do rei entre oitenta e cem mil castelhanos", dis-
se um cronista, na organização de armadas para ir comba-
tê-lo. Mas tudo inutilmente, o que desanimou tanto os es-
panhóis que a Audência se viu obrigada a impor penas aos
que se negavam a ir. Ovieda reduziu o custo das armadas a
quarenta mil pesos de ouro, os quais, segundo ele, não fo-
ram todos gastos nas campanhas, pois "muitos colocaram as
mãos escondidamente nestes valores, por via indireta". 25
A resolução de não chegar a fatos sangrentos, enquanto
pudesse evitá-los, permaneceu constante na mente do caci-

29
que. Em certa ocasrno, cerca de setenta espanhoís ficaram
encurralados em uma caverna onde haviam se refugiado. Os
Indígenas colocaram fogo na entrada com o objetivo de as-
fixiá-los, mas Guarocuya chegou oportunamente e mandou
apagar o fogo e os libertou. Em outra ocasião, um frade fran-
ciscano do convento onde havia estudado saiu voluntaria-
mente à sua procura para atraí-lo à paz. O religioso foi en-
contrado por um grupo guerrilheiro que o despojou de suas
vestes. Tomando conhecimento do ocorrido, Guarocuya apre-
sentou suas escusas e explicou ao frade os motivos por que
andava pelas montanhas: que, para que não o matassem co-
mo fizeram com seus pais, "havia fugido para sua terra, on-
de estava, e que nem ele nem os seus faziam mal a quem
quer que fosse. Queriam apenas se defender contra os que
vinham capturá-los e matá-los; queriam viver a sua vida pró-
pria e não em servidão. E para não repetir o que já havia
ocorrido com seus antecessores, não queria ver mais ne-
nhum espanhol por ali" .26
As vitórias de Enriquillo fizeram crescer o ânimo entre
os valentes indígenas. Ciguayo, assim chamado pelo grupo a
que pertencia, se lançou com um pequeno grupo de indíge-
nas ao ataque a fazendas e minas, em busca de armas. Toda
a Vega Real se viu aterrorizada durante algum tempo devido
a suas correrias, até que conseguiram encurralá-lo em uma
quebrada, onde, depois de dura peleia, foi morto por seus
perseguidores. Seu lugar foi tomado por outro indígena, de
nome Tamayo, que incursionou por toda a ilha em busca de
armas e roupas. Por insistência de Enrique, se uniu a ele
para engrossar suas forças e assim evitar morrer como Ci-
guayo.
Um dos muitos intentos realizados para capturar Enri-
que esteve a cargo de um capitão "vizínho da vila de Bonao,
que havia chegado a esta ilha muito machucado e que ha-
via se criado em grandes trabalhos has cruas e injustas guer-
ras desenvolvidas contra esta gente. Fora disto era um ho-
mem de bem, que andava descalço ou calçado pelas selvas
e penhascos ... "27
Buscando-o pela serra - não sabemos se descalço ou
calçado - "um dia encontraram-se uns e outros tão próxi-
mos. . . que se falaram e ouviram as palavras. . . Uns esta-
vam no pico de uma serra e os outros no pico de outra, mui-

30
to altas e muito juntas, sendo separadas por um arroio mui-
to profundo. . . Sentindo-se tão próximos. . . pediram-se tré-
gua e segurança para conversarem". O espanhol propôs paz
e o cacique aceitou. A condição foi a entrega do ouro que
em certa ocasião os guerrilheiros haviam tirado dos espa-
nhóis. Em troca, assegurava que os deixaria viver em liber-
dade. Enrique concordou em dar todo o ouro que possuía,
desde que ele cumprisse o prometido. Acertaram para fazer
a entrega em uma praia. Fizeram uma cobertura onde colo-
caram as peças de ouro, ficando de tal maneira decorada
que "parecia uma casa real". Os espanhóis chegaram por mar.
Deixaram o barco à vista e avançaram em formação marcial,
tocando tambores e trombetas, atitude considerada pelos in-
dígenas como declaração de guerra. Enrique se retira e um
pequeno grupo fica à espera, como haviam combinado. O
ouro é entregue e com isso se estabelece uma trégua que du-
ra uns cinco anos. Durante este período, os fodios permane-
ceram na serra, esperando ser promulgada a lei que lhes da-
va garantias necessárias para que pudessem se estabelecer
nos povoados sem temor a repressões. Passaram os anos e
alguns homens baixaram da serra e se estabeleceram na pla-
nície, porém Enrique permaneceu em seus domínios pelo res-
to de seus dias. E ali morreu em paz e triunfante. ·

CUBA

Arpa de troncos vivos, Caimán, flor de tabaco.


Oh! Cuba! Oh! curva de suspiro e barro!
Federico García Lorca

Era "terra mui to sã. . . toda ela fresca e mais tempera-


da que La Espafiola. . . com portos admirávefo, muito mais
fechados e seguros do que se tivessem sido feitos a mão ...
como há poucos nà Espanha e talvez não exista em nenhu-
ma parte do mundo um que se iguale a Havana. . . (de) pes-
soas simplíssimas, pacíficas, boas, desnudas, sem preocupa-
ção de fazer mal a alguém. . . que por sua condição natural
viviam sem ofender ou fazer danos uns aos outros" .28
Foi batizada mais vezes que nenhuma outra ilha do Ca-

31
ribe: Fernandina, Alfa, Juana. Quando Colombo chegou a ela
estava aquela terra próspera e rica e muito povoada de
índios, os quais, pouco depois, deram para enforcar-se, qua-
se todos ... se enforcavam de tal maneira e com tanta pres-
sa que houve dia de amanhecer com cinqüenta casas com ín-
dios enforcados com suas mulheres e filhos em um mesmo
povoado. Era a maior lástima do mundo para qualquer vi-
vente ver aqueles seres pendurados nas árvores. 29
Os que assim desapareciam eram principalmente taínos,
do tronco étnico, lingüístico e cultural dos araucos, que se
estendiam desde as Bahamas até a Guiana. Haviam domina-
do a ilha, povoada desde antigamente pelos guanahatabeyes
e ciboneyes, de menor grau cultural, os quais foram se des-
locando para as montanhas.
A atitude suicida dos indígenas, incompreendida pelos
espanhóis, que a atribuíram à suposta incapacidade inata pa-
ra o trabalho, foi, segundo um historiador moderno, "uma
greve de fome coletiva, uma greve de braços caídos, uma
greve revolucionária. E foi mais longe: foi uma greve bio-
lógica que a natureza exige a alguém, que sem saber, por
imposição de vício próprio ou alheio, quebra as leis do rit-
mo vital".ªº
A oposição às arbitrariedades - quando não crimes -
do conquistador foi constante na ilha de Cuba, embora te-
nhamos conseguido levantar somente dois nomes de guer-
reiros: Guamá e Hatuey. Não foi em vão que os espanhóis
escreveram os relatos de que dispomos atualmente, nos quais
a profusão e os detalhes nos nomes dos conquistadores con-
trasta com a escassez com que são narrados nomes e fatos
daqueles que tentaram cortar-lhes os passos com decisão
sobre-humana. Para um Ercilla, que se deixa conquistar pe-
lo valor indomável do inimigo até o ponto de escrever um
canto épico em seu louvor, há dezenas de livros nos quais
a má fé distorce os fatos. "Os conquistadores necessitavam
justificar para si mesmos, para seu rei, para seu mundo e
para seu Deus, o regime explorador, de escravidão e sofri-
mento que impuseram aos índios". 31
Na região de Baracoa, Guamá "é, poderíamos dizer, o
iniciador da guerra de guerrilhas em Cuba. É ele que im-
planta nas montanhas o único sistema possível de luta con-

32
tra a superioridade armada dos espanhóis: a surpresa e a
guerrilha" .32
Acompanhado de um grupo de insubmissos, ataca o in-
vasor sempre que pode. Assaltam e destroem Porto Prín-
cipe, em Camagüey, queimam Baracoa, a primeira cidade
fundada por Diego Velázquez, e obrigam seus residentes a
abandoná-la e esperar na praia que cheguem os reforços so-
licitados a La Espafiola. Guamá não coloca um exército fren-
te a outro exército, mas ataca em pequenos grupos, em guer-
rilha. Em 1533 os conquistadores conseguem um combate
contra Guamá. Lutam encarniçadamente e o herói cubano cai
morto por um tiro disparado por um capitão espanhol.
Hatuey, taíno como a comovedora Anacaona, resistia,
como todos os heróis das Antilhas, no Haiti, onde era se-
nhor da região de Guahaba. Quando o avanço da conquista
tornou impossível a vida para os nativos das ilhas, passou
para Cuba, acompanhado de vários caciques. Tinha fama de
prudente e esforçado. Passou algum tempo vigiando o mar,
com a inquietude e o temor de ver aparecer homens que
usavam armas de fogo, cachorros e cavalos. Ao ter indícios
certos de que o temido iria se transformar em realidade,
reuniu a sua gente para recordar-lhes os danos que haviam
sofrido por parte dos que se aproximavam, instando-os a
uma oposição definitiva. Celebraram um areito para reme-
morar as façanhas de seus antepassados, para reviver seus
sentimentos patrióticos e para recordar sua história. Ao fi-
nal, explicou-lhes que todos seus males vinham do deus que
os espanhóis adoravam e, mostrando-lhes uma canastra cheia
de ouro, lhes disse: Eis aqui o seu senhor ... pelo fato de o
termos, nos angustiam, por isto nos perseguem, por isto ma-
taram nossos pais e nossas mães. . . por isto nos maltratam".
Decidem então fazer festas com bailes e cantos para aplacar
o senhor dos espanhóis, mas Hatuey, desconfiado do senhor
dos cristãos, decide que é melhor desfazer-se dele, jogando-o
no rio, porque "se o tivermos nas tripas eles o irão arran-
car".
Chegam as hostes conquistadoras. O fogo das bombar-
das, que os indígenas acreditavam que saísse da boca dos
que as manejavam, enche de terror. Não obstante, lutam
e resistem três meses, para acabar refugiando-se nas mi-
sérias dos montes, onde os vão buscar. Repetem-se os ges-

33
tos de sempre, as mesmas apreensões, as mesmas torturas
para que os prisioneiros delatem o refúgio dos caciques e,
apesar da resistência heróica, o mais débil falha e o chefe é
feito prisioneiro. Hatuey é condenado à morte, devendo ser
queimado vivo pelo delito de ter fugido e de haver-se opos-
to à escravidão.
Preparada a fogueira, no momento do fogo ser aceso, um
sacerdote tenta converter o cacique e batizá-lo. Hatuey lhe
pergunta por que quer fazê-lo cristão, por que quer fazê-lo
igual aos espanhóis que são maus? O sacerdote lhe explica
que se se batizar poderá ir para o céu. "O cacique tornou
a perguntar se os cristãos iam para o céu. O padre disse que
iam se eram bons". Então o cacique negou-se terminantemen-
te a ser batizado para não encontrar-se com eles. "Então co-
locaram fogo na lenha e o queimaram"."ª
Um ato de sadismo inexplicável, não obstante, revelador
do ódio manifesto do tirano contra a vítima, em uma guer-
ra que já era de extermínio, aconteceu no povoado de Cao-
nao, na região de Camagüey. Um grupo de conquistadores
dirigido por Pánfilo de Narváez, onde ia o padre Las Casas,
se encaminhou em suas andanças para a região sul da ilha.
Sua passagem provocava estupor. As pessoas se apavora-
vam ante aquela gente montada sobre animais nunca vistos
e cheios de adornos. Os homens vestidos e barbudos, alguns
de tez avermelhada, deveriam parecer-lhes seres de outro
mundo.
Ao passar por um arroio, os ginetes viram umas pedras
de amolar, próprias para afiar suas espadas. Nada lhes ocor-
reu durate o trajeto. Nenhuma agressão. Ao contrário, os in-
dígenas lhes ofereceram água e comida. Ao chegarem a Cao-
nao a recepção não foi menos cordial. Na praça do povo,
que estava cheia de gente sentada sobre as pernas cruzadas,
foram oferecidas comida e bebida aos recém-chegados. Pánfi-
lo de Narváez, autoridade máxima, não havia desmontado ain-
da quando, de repente, um espanhol, sem que ninguém pu-
desse depois explicar, tirou sua espada e arremeteu contra
um dos indígenas que admirava um dos cavalos. Como se
fosse uma voz de alerta, cem espadas foram desembainhadas
e arremessadas contra o povo que estava pacificamente sen-
tado. Narváez "assistiu toda a matança sem nada fazer, como
se fosse um mármore. Porque, se quisesse, estando a cava-

34
lo e com uma lança na mão, poderia muito bem evitar a
matança dos espanhóis". E seu cinismo permitiu dirigir-se
ao padre Las Casas, cuja indignação é fácil imaginar, nestes
termos: "Que parece a vossa mercê o feito de nossos espa-
nhóis?" Ao que o padre respondeu: "Que ofereço a vós e a
eles ao diabo!"
Tentar racionalizar o irracional é absurdo. Las Casas o
resolve com sua fé: "o diabo que os guiava lhes indicou aque-
las pedras de amolar, onde afiaram suas espadas aquele
dia ... n.i 4
O indígena se defendia como podia e às vezes realizava
feitos incríveis, dignos de serem transcritos, como o ocorri-
do em um barco na verde-azul costa cubana:
"Por este tempo, ano de 1516, os espanhóis não esque-
ciam que tinham a tarefa de consumir a mansa gente de
Cuba. De procurar despovoar também outras comarcas vi-
zinhas ou distantes, trazendo os nativos ·delas para Cuba,
para se integrarem à tarefa de extrair ouro, atividade com
a qual iam morrendo rapidamente. Vendo que com isto aca-
bavam rápido com os povos vizinhos, os espanhóis promo-
veram armadas para saltear os que chamavam yucayos ...
Entre outras armadas, fizeram uma, na qual aconteceu o se-
guinte: saíram do porto de Santiago de Cuba um navio e
um bergantim com 70 ou 80 espanhóis ... chegaram a umas
ilhotas. . . que se chamavam Guanajes. . . Chegando a elas
e estando a população descuidada, os espanhóis prendem o
máximo que podem ... e retornam à ilha de Cuba. Chegan-
do ao porto de Carenas, que agora chamamos de Havana,
saíram quase todos os espanhóis do navio para descansar,
deixando apenas oito ou nove para vigiar os indígenas que
estavam presos debaixo da escotilha, sem ver luz alguma.
Em seu infortúnio, permaneciam alertas para qualquer acon-
tecimento. E perceberam que, sobre a cobertura, não soa-
vam mais tantas pisadas como antes, nem tampouco se ou-
viam outros barulhos costumeiras. Entenderam que a maio-
ria deveria ter ido à terra, deixando apenas uns poucos a
guardar o navio. Assim, trataram de forçar a escotilha e
conseguiram romper o cadeado que a sustentava, sem que
os oito ou nove marinheiros que estavam no navio perce-
bessem.
Finalmente, os índios saíram do porão e mataram todos

35
os marinheiros a bordo. E como se por toda sua vida fos-
sem experimentados no ofício de navegar - aquela coisa
maravilhosa, nunca antes vista por esta gente desnuda e sem
armas e sempre menosprezada como besta e inculta, levan-
tam a âncora e sobem aos mastros mais rapidamente que
os marinheiros experimentados, soltam as velas e começam
a navegar em direção a suas ilhas, que distam dali mais de
250 léguas. Os marinheiros que passeavam pela ribeira jun-
to com outros espanhóis, ao verem o navio manobrar tão
desenvoltamente como se eles estivessem dentro, ficaram es-
pantados e começaram a gritar por seus companheiros ---
que acreditavam ser os que estavam manobrando o navio --
perguntando se haviam perdido a razão. Em seguida, no en-
tanto, perceberam que eram índios aqueles 'marinheiros' que
andavam tão rapidamente, puxando cordas, velas e outros
aparelhos, guiando o navio pelo mesmo caminho de onde
vieram. Perceberam também que os índios haviam matado
seus companheiros e que retornavam para suas terras. Só
lhes restou ficar observando-os até se sumirem no horizonte.
Não sabemos em quantos dias chegaram até suas ilhas, po-
rém temos certeza de que foram marinheiros muito práticos,
utilizando a bússola e a carta de navegação". 35
Isto foi tão certo que ao chegar à sua ilha encontraram
vinte e cinco espanhóis que ali haviam ficado, esperando o
regresso do barco para carregá-lo de novo. Apesar da sur-
presa do ataque dos índios e de sua presença inesperada,
alguns espanhóis conseguiram fugir para Darién, utilizando
o bergantim que havia ficado com eles, não sem antes dei-
xar um aviso gravado no córtex de uma árvore.
Inteirado do ocorrido, Diego Velázquez mandou o cas-
tigo em dois navios. "Saltaram à ilha para servir a Santa
Catalina, cujo nome lhe haviam posto. Atacaram todo mun-
do e levaram como escravos os que não morreram". E vol-
tou a se repetir a façanha: os indígenas embarcados no na-
vio começaram a sair pela escotilha e a lutar com os espa-
nhóis até acabar com eles e tomarem conta da embarcação.
Um outro barco veio dar-lhes combate. A batalha dura duas
horas, "porém os espanhóis prevalecem sobre os índios e
estes, sendo exterminados, jogam-se ao mar, tanto homens co-
mo mulheres. Os espanhóis recolheram todas as mulheres
que puderam, utilizando as barcas, e, finalmente, recupera-

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do o outro navio, tendo ambos cerca de 400 pessoas. . . que
puderam prender... e mais de 20 mil pesos em ouro, de-
ram a volta e chegaram a Havana". 3"

BORIQUÉN

Juan Ponce de León, antes de ter a notícia da fonte da


eterna juventude que transformou sua vida e o impulsio-
nou à morte, assaltou a ilha de Boriquén, chamada San Juan
pelos espanhóis. Foi escolhido para esta tarefa porque "era
tido por homem de confiança e de muita habilidade".
A ilha, rica em ouro, segundo as notícias que motiva-
ram o desembarque, além de ter também uma rica terra
para a agricultura, era governada por um cacique principal
chamado Agüeibana. O primeiro encontro amistoso foi co-
roado pelo batismo de toda a família do· cacique. A mãe,
velha senhora com muita experiência, aconselha seu filho e
todo o povo "para que fossem amigos dos cristãos se não
quisessem morrer por suas mãos".
Pouco tempo depois, efetivamente, morrem mãe e filho,
embora de morte natural, com o que herda o comando um
irmão, também chamado Agüeibana, que havia cooperado
com Cristóbal Sotomayor numa distribuição de escravos e
em cuja casa já gozava dos benefícios da civilização euro-
péia. Mas, como no dizer do cronista, "esta gente, desde ín-
dios até a natureza, é ingrata e de más inclinações, e por
nenhum bem que lhes faça, desperta neles a memória nem
a vontade para agradecer","• se propuseram a desfazer dos
benfeitores não desejados e não solicitados.
Determinados a acabar com eles, todos os caciques da
ilha se confederaram. No entanto, como havia surgido o boa-
to da imortalidade dos espanhóis, trataram de tirar dúvidas
antes de levar a cabo o plano que haviam elaborado, fazen-
do a "experiência em algum cristão". O cacique Uroyoán se
encarregou do assunto. Sua gente acompanhou um cristão
em sua viagem, como era usual, e ao passar um rio lhe pro-
puseram levá-lo às costas para que não se molhasse. Ao che-
gar à metade da travessia o jogaram n'água e o afundaram
para ver se se afogava. Depois o tiraram e esperaram três
dias para ver se ressuscitava. Ao começar a cheirar mal se

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convenceram da falsidade do boato. Então se decidiu o ata-
que. Todos, cada um em sua terra, atacariam ao mesmo tem-
po os espanhóis que se encontrassem nela e incendiariam o
povoado de Sotomayor, chamado assim em homenagem ao
capitão que detinha o cacique Agüeibana como escravo. Em
princípios de 1511 foi executado o combinado: queimaram o
povoado, mataram a porretadas Sotomayor e cada cacique
em seus domínios cumpriu o prometido.
A revanche de Ponce de León, dirigida especialmente
contra Agüeibana, não se fez esperar. Com a gente que lhe
restava, atacou à noite e desestruturou os indígenas. Desde
então, "onde sabia que existia gente reunida ia buscá-la ...
e em muitas batalhas ou reencontras fizeram muitos estra-
gos aos índios. E assim assolaram aquela ilha"_ i,
Os indígenas se defenderam até o fim. O cacique Mabo-
domoca também foi aniquilado. Os sobreviventes se refugia-
ram na região de Yaguaca, onde esperaram o assalto "com
a inteira determinação de morrer todos os índios ou acabar
de matar todos os cristãos"."" Juan Ponce reuniu todos
os espanhóis e se dirigiu para lá. Chegaram ao entardecer
e os cristãos se estabeleceram em frente aos indígenas, sem
aceitar as batalhas regulares que lhes ofereciam os caciques.
Assim permaneceram esperando quem se decidisse a come-
çar a luta, até que já negra noite, Ponce e seus homens se
retiraram, "embora contra a vontade de alguns que enten-
diam estarem recusando a batalha". 111
"A guerra guerreada traria melhores resultados do que
decidir tudo numa só jornada", pensou o conquistador. E
durante muito tempo seguiram assim matando os indí-
genas. Dois irmãos caciques souberam da guerra guer-
reada. Eram eles Yahureiba e Cacimar. Este último, "muito
valente e muito estimado capitão dos índios", foi morto por
uma lança, que o atravessou de lado a lado, quando lutava
com um espanhol. Isto quando lutava corpo a corpo, o que
fez com que por pouco a lança não atingisse os dois. Yahurei-
ba, para vingar o irmão, lutou uma noite inteira e também foi
morto. O restante do povo, que tratava de fugir em pirogas
para uma pequena ilha, foi perseguido e morto ou disperso.
Em uma das batalhas, um dos soldados "de cima do seu
cavalo os tomava pelos cabelos, retirando de entre os outros
e entregando a seus negros, voltando em seguida para bus-

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car outros mais. Um dos que assim havia pego, carrega-
va na mão uma flecha envenenada. Ao ser arrastado pelos
cabelos, o índio conseguiu fincar a flecha naquele que o con-
duzia, o qual veio a morrer daquela ferida. Mas quando se
viu ferido ainda matou o índio e mais sete ou oito. . . mor-
reu daquela ferida, porém como católico-cristão".41
Extintos os caciques, a ilha ficou pacificada e se veri-
ficou uma nova repartição de escravos. Contudo, a oposição
não cessou. Um povoado que foi fundado devido aos indícios
de que havia ouro nos arredores teve que ser abandonado.
Embora tenham comprovado mais tarde que os rios real-
mente levavam o cobiçado metal, nunca puderam extraí-lo
devido à constante ameaça dos caribenhos.

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