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ESTRATÉGIAS E

DISCURSIVIDADES SOBRE ALTERIDADE


Entre relatos de viagens e etnografias
Joel Pantoja da Silva1 Palavras iniciais – O outro como extensão de si

A diversidade cultural sempre fez parte da constituição humana das várias e diferentes
RESUMO sociedades. O eurocentrismo colonial, em relação à cultura de outros povos, esquadrinhou
Neste artigo analisamos no a impressão de que o outro estava somente em grupos humanos distante do seu continente.
percurso de formação profissional Nesse caso, pensava-se nessa alteridade construída como uma extensão da política de
da antropologia a constituição de civilização empreendida pelos europeus. Ou seja, no outro como a imagem de si, ou
narrativas da alteridade desde os melhor, dos europeus como referência de desenvolvimento cultural e econômico.
relatos de viagem à produção dos
textos etnográficos. O interesse deste Nesse contexto, os outros – a Ásia, África e América – foram em distintos momentos
estudo refere-se à interpretação históricos, a partir das grandes navegações fomentadas pelas potências ibéricas –
de alguns aspectos relevantes Portugal e Espanha, lugares de missões do cristianismo, exploração de recursos
acerca das estratégias narrativas naturais e minerais desses colonizadores. Além disso, é marcante historicamente a
articuladas entre a crônica Viagem reinvindicação da presença francesa, apoiada pelo protestantismo, sobretudo, no sul
à Terra do Brasil (1980), de Jean de do continente americano em tempos dos “descobrimentos” do Brasil (Perrone-Moises
Léry e alguns pontos fundamentais 1996). Posteriormente, com a abertura de mercados consumidores, as colônias tornaram-
da obra etnográfica Os Argonautas se alvos de interesses econômicos e excursões científicos empreendidos por ingleses e
do Pacífico Ocidental (1978), de franceses.
Bronislaw Malinowski. Objetivamos
delinear como em cada uma Em relação, a presença dos colonizadores na América, quer seja como colonos,
dessas narratividades o outro é ou religiosos fervorosos do catolicismo e protestantismo, colaboraram para fundar
representado, além de inserir nesse diferentes representações moldadas em narrativas da alteridade de sociedades indígenas
contexto, a crítica pós-moderna e populações africanas (Cunha 1992; Leite 1996). Muitas textualizações elaboradas nas
à textualização etnográfica da variadas formas de produção escrita – os relatos de viagens e produção etnográfica –
época. Utilizamos como perspectiva construíram uma maneira etnocêntrica de pensar a fabricação de alteridades acerca do
teórica a antropologia clássica e modo de vida destes povos.
contemporânea para nortear este
diálogo. Deste modo, evidenciamos É importante destacar que tanto os relatos de viagens quanto os textos etnográficos não
os aspectos característicos a cada tem significado pertinente sem a presença do outro. A “existência dos outros à nossa volta
um destes momentos da condição não é um puro acidente. Os outros não são, simplesmente, sujeitos solitários comparáveis
de escrita do outro e as estratégias ao eu mergulhado em meditação; os outros também fazem parte dela: o eu não existe sem
diferenciadas de inserção do outro o tu” (Todorov 1992:99). O existir de outros, nessa contextualização, é fundamental para
no discurso da escrita antropológica a reafirmação do pensamento etnocêntrico dos conquistadores europeus.
moderna.
O Renascimento, com as grandes navegações em direção a Ásia, África e América,
PALAVRAS-CHAVE: assegurou que é pelas narrativas dos viajantes que conhecemos a representação e
viajantes; relatos; etnografia; inserção do outro na escrita da história ocidental. E ainda, como este outro vai ganhando
alteridade. visibilidade em diferentes ângulos e uma ordem discursiva nas concepções dos viajantes
– portugueses, espanhóis, franceses, ingleses – quando se trata da descoberta da América
(Todorov 2003).

No percurso de viagens fosse para o oriente ou ocidente vemos olhares descritos nas
1 Doutorando do Programa de Pós- narrativas, ora voltados para uma satisfação espiritual sem perder de vista o contato
graduação em Antropologia, da com a realidade natural e humana, ora pertinente às condições materiais atingindo
Universidade Federal do Pará (PPGA/ objetivos de exploração de riquezas naturais e minerais (Leite 1996; Perrone-Moises
UFPA). Mestre em Comunicação, 1996). É também o contato com uma humanidade interpretada como primitiva
Linguagens e Cultura (UNAMA), e-mail: e diferente culturalmente do eu europeu, pensado nesse momento, como sujeito
pantojasilver@hotmail.com. estabelecido historicamente (Cunha 1992).

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A inserção dos relatos de viagem Interfaces entre viagem e narrativa: também viagem, e, portanto, um quadro
e a sofisticação metodológica da Jean de Léry no Brasil e circunstâncias exteriores ao sujeito”
etnografia no campo da antropologia, (Todorov 1992:101-102). Nesse caso,
como objetos de análise, tornaram- A indagação provocativa e incisiva sobre a interface constitutiva entre o “eu” e o
se relevantes para refletirmos como a “o que não é uma viagem?” (Todorov “tu” forjam-se diferentes perspectivas de
representação deste outro veio ao longo 1992:93) faz-nos pensar diretamente inclusão e exclusão do outro. As crônicas
do tempo se transformando desde as nesta significação elementar enquanto de viagem conduziram a forma de pensar
crônicas de viagens até a produção deslocamento geográfico. E mais, por e representar as práticas culturais, ora
dos textos etnográficos. Não podemos existir uma relação mútua entre viagem e estranhas, ora não civilizadas.
esquecer que os relatos dos viajantes narrativa podemos dizer que há condições
são um dos primeiros registros desse fronteiriças de sentidos nessas duas Assim, é imprescindível não citar a
desejo de conhecer quem é o outro, categorias. Nessa direção, pode-se inferir, importância de Jean de Léry, francês
passando a ser discutido, em seguida, a partir dessa posição, uma conformação nascido em La Margelle, Borgonha (1534-
no contexto da construção discursiva de distintos significados voltados para os 1613), Léry pertence a uma modesta
das etnografias. aspectos interiores de uma viagem e uma família burguesa que aderiu ao movimento
viagem situada no âmbito do exterior, da reforma protestante. Em Genebra, ele
O interesse deste estudo refere-se oscilando tensamente a narrativa entre o trabalhava como sapateiro e estudante
à literatura de viagem com base na lado espiritual e lado material. de teologia de Calvino. Em 1557, por
interpretação de alguns aspectos acerca intermédio de Calvino recebeu um
das estratégias narrativas articuladas Textualizando os jogos de significados convite de Villegagnon para viajar rumo
entre a crônica Viagem à Terra do entre viagem e narrativa, percebemos a América e fundar a França Antártica no
Brasil (1980), de Jean de Léry e alguns trata-se de uma categoria de pensamento Brasil, exílio dos protestantes perseguidos
pontos fundamentais da obra etnográfica ancorado em um ponto de vista europeu na Europa, hoje lugar onde se localiza o
Os Argonautas do Pacífico Ocidental e de uma discussão em torno de uma Rio de Janeiro.
(1978), de Bronislaw Malinowski. Nesse experiência da consciência sobre a
panorama, apontamos as mudanças diversidade cultural e heterogênea de Após quase um ano vivendo no Brasil,
ocorridas em relação à produção de distintos povos – europeus cristãos, Léry retorna para a França em pleno
alteridade, as enunciações estratégicas mouros, turcos muçulmanos, africanos – conflito dos católicos com os protestantes
dos autores e a representação discursiva por meio da viagem pelo mediterrâneo e a publicação da obra Singularidades da
do outro na escrita antropológica. passaram a constituir a Europa (Todorov França Antártica (1557), de Thévet. Nesse
1992). Contudo, não podemos negar quadro, decide publicar suas experiências
Em razão disso, objetivamos de delinear que as narratividades em relação à vividas entre a nação Tupinambá. Para
como em cada uma dessas narratividades alteridade deixaram esses outros, com o calvinista essa edição era necessária
o outro foi representado na visão as suas práticas sociais não civilizadas, tendo que “algumas das pessoas com as
ocidental (Schwarcz 1996). Além de à margem do reconhecimento da quais mantinha relações julgado que tais
inserir nessa conjuntura a crítica pós- heterogeneidade humana nesses coisas eram dignas de ser preservadas do
moderna à textualização elaborada da contatos conflituosos no continente. esquecimento, acedi em redigi-las” (Léry
etnografia da época (Caldeira 1988; 1980:35). Tratava-se de uma estratégia
Clifford 2011). Utilizamos a perspectiva O que se coloca no centro deste debate editorial para desmentir a crônica de
teórica da antropologia clássica e refere-se aos distintos contatos com o Thévet que estava “prenhe de mentiras”
contemporânea para nortear este diálogo outro construído pela viagem em terras (Léry 1980:36).
nada pacífico. distantes do continente europeu e a sua
introdução discursivamente na escrita dos Se por um lado, não devemos olvidar
No trajeto deste artigo, situamos as viajantes. Na verdade, a questão é que o que Thévet é o “primeiro a fazer uma
condições de enunciação da narrativa de outro sempre existiu ao redor da Europa, descrição minuciosa da fauna e flora
viagem do francês Jean de Léry. Após isso nos faz pensar que a discussão gira brasileiras, e sobretudo, dos habitantes do
isso, trouxemos o outro constituído pelo em torno de como passa a fazer parte de Brasil, os índios tupinambás, aliados dos
método das narrações etnográficas à luz uma hermenêutica e historiografia do franceses” (Perrone-Moisés 1996:86). Por
da antropologia moderna de Bronislaw ocidente (Certeau 2006). outro, temos com os registros da viagem
Malinowski. Sem esquecer a tensão de Léry, a oportunidade de conhecermos,
discursiva desta formação da alteridade É nesse panorama do observador e do após aproximadamente vinte anos de
destacamos a crítica pós-moderna nesse observado que se vai construindo a publicação da obra de Thévet, pontos
cenário. Depois, finalizamos com uma designação das narrativas de viagens. de vistas divergentes relacionados
breve consideração sobre o outro na Por uma “narrativa, ou seja, narração aos trajetos de viagens desse monge
perspectiva antropológica. pessoal e não descrição objetiva, mas franciscano, assim como o processo de

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escrita estratégica sobre a formação da da religião cristã como ferramenta dos Não por caso, os corpos nus dos indígenas
alteridade Tupinambá com seus costumes, princípios morais da cultura europeia a começaram a passar por um processo
religiões, rituais e guerras. serem praticados pelos demais povos. de moralização com o uso de roupas.
Estrategicamente, surgiu o discurso da
O viajante suíço naturalizado francês, A inserção dos textos sagrados na crônica consciência primeira do pecado de Adão
situando a posição de escrita da sua de Léry não apresenta uma visão acerca e Eva quando se viram sem roupas.
literatura de viagem, traz o leitor para do paraíso terrestre no cenário brasileiro Contudo, construiu-se no pensamento
dentro da construção de seus relatos porque funciona com outra estratégia de cristão da época uma alteridade, quer
mencionando objetivamente a narração do enunciação de alteridades. É notável que representada por certa inocência e pureza
que praticou, viu, ouviu e observou “quer o discurso religioso coloque o ser cristão dos indígenas, quer por uma percepção
no mar, na ida e na volta, quer entre os como o epicentro do pensar e agir a ser de que os indígenas viviam na escuridão
selvagens americanos” (Léry 1980:53). seguida como verdade pelos fieis. Com por ainda não se converterem e praticarem
Embora Léry descreva o povo Tupinambá essa leitura notamos a constituição do com fervor a fé cristã (Lestringant 2000).
com palavras que trazem a imagem de uma homem ocidental, civilizado e superior
origem da nação, faz-se preciso mostrar o espiritualmente em relação a outras A discussão atingiu profundidade quando
uso de uma semântica da alteridade que sociedades. o viajante francês definiu a origem dos
os qualifica como selvagens, bárbaros, indígenas Tupinambá mencionando que
ignorantes e vingativos. Ainda, nessa direção, encontramos o olhar “descendem de um dos três filhos de Noé,
a respeito da nudez indígena. O calvinista (...). Parece-me pois mais provável que
Os lugares estratégicos da enunciação francês, assim como Colombo, Pero Vaz descendem de Cam” (Léry 1980:221).
escrita de Léry, no percurso de sua de Caminha e outros viajantes olharam a Pensar a criação do mundo, a partir do
literatura de viagem, são conduzidos nudez indígena da mesma maneira: “os gênese, referia-se adotar uma posição
por uma visão eurocêntrica. A vivência homens como as mulheres estavam nus criacionista da espécie humana cujo
de práticas sociais de ver e escutar na como ao saírem do ventre materno” (Léry continente americano representava o
crônica apresenta uma visão a respeito dos 1980:78). Na percepção de Léry a nudez grupo que descendia do filho amaldiçoado
índios sustentada pela escritura bíblica, indígena causou efeitos de admiração de Noé a viver na terra com uma geração
leituras aportadas na literatura clássica e e choque moral com esses corpos sem de filhos condenados a servidão. Por essa
associações com as histórias mitológicas roupas. compreensão, fundou-se a imagem do
por onde iremos caminhar nesta análise índio como um ser servil e propenso a
de construções de alteridades do povo Analisando as interpretações sobre o conversão.
Tupinambá. outro na crônica de Léry percebemos
que o “testemunho pessoal, somente Somando-se a isso, temos as distintas
Mesmo que nos relatos dos viajantes possível a partir das viagens, assume formas de representação dos costumes,
franceses o Brasil fosse descrito um caráter de reportagem, comunicando os tipos de animais, a produtos da terra
como “terra de beleza, fertilidade e descobertas científicas, descrevendo que, para Léry, eram muitos diferentes
alegria” (Perrone-Moisés 1996:90), não fatos e transmitindo impressões sobre da produção na Europa: “devo confessar
encontramos uma associação da natureza lugares, povos e culturas diferentes” que, (...), reconsiderei minha opinião
com a imagem do paraíso. A escrita de (Leite 1996:81). Nessas condições antiga acerca do que escreveram Plínio
viagem de Léry não apresenta referências históricas a alteridade indígena foi e outros mais sobre os países exóticos”
às narrativas edênicas ou infernais sobre a construída com uma representação (Léry 1980:50). Nessa contextualização
região. O viajante não tinha a preocupação deformada de sua cultura e a inserção de relativa, entre Novo Mundo e o
de tratar da presença do paraíso terrestre, novas práticas sociais em seu cotidiano continente europeu, chama-nos atenção
já que portugueses e espanhóis haviam para civilizá-los. o modo como insere no texto de viagem
elaborados, em suas crônicas, diários de as influências de pensadores clássicos da
bordos e memórias aspectos da edenização É preciso refletir este lugar de onde antiguidade como Plínio.
do Novo Mundo. Léry observa para textualizar os relatos
tendo como fundo discursivo os textos O exótico, a beleza da fauna e flora,
Desta maneira, as passagens bíblicas bíblicos, acionados de forma comparativa, incorpora-se por meio de um paralelo
remetem diretamente para “mostrar que os com a nudez indígena. Essa maneira de com os estudos clássicos de Plínio, a
habitantes da Europa, da Ásia e da África situar, na literatura de viagem, o outro fim de tornar verídico a descrição e os
devem louvar a Deus pela superioridade colocava também o leitor sedento de acontecimentos vividos e observados.
sobre os dessa quarta parte do mundo” informação, em níveis de curiosidades Essa veracidade dos fatos procura
(Léry 1980:206). Esta em jogo, nessa diferentes, considerando o contexto encontrar credibilidade entre os leitores
postura etnocêntrica de Léry, em relação de correspondência ora agradável, ora da literatura de viagem (Leite 1996). O
ao continente americano, a condição chocante culturalmente. caráter detalhado da natureza e do modo

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de vida Tupinambá na crônica de Léry ninguém que o possa auxiliar disponíveis à comunidade especializada,
levou Lévi-Strauss, quatro séculos depois, – pois o homem branco está de uma forma prática” (Geertz 2009:11).
definir a produção desse viajante como o temporariamente ausente ou, A praticidade da divulgação de
“breviário do etnógrafo” (Perrone-Moisés então, não se dispõe a perder conhecimentos antropológicos significar
1996:91). Nesse momento sofistica-se tempo com você. Isso descreve tornar as sociedades complexas e/ou
e profissionaliza-se a etnográfica como exatamente minha iniciação na simples, com sua cultura, acessível à
método de pesquisa de campo. pesquisa de campo, litoral sul compreensão dos leitores. É nessa situação
da Nova Guiné (Malinowski de informar ou dizer quem é outro que se
A produção profissional do texto 1978:19). produzem as alusões da alteridade.
etnográfico
A entrada em um grupo social não é Nesse sentido, se na crônica de viagem
Não podemos discutir a produção uma situação pacífica requer superação tínhamos um processo de hierarquização
etnográfica sem visibilizar as de obstáculos e dedicação em campo. da alteridade – superioridade religiosa
transformações pelas quais passou a Todavia, o que se faz em campo, e espiritual, a imoralidade da nudez
produção da alteridade. Se as crônicas quando não temos pronto um método? indígenas na concepção ocidental e
de viagem “tratar-se de textos pré- Aparentemente sem um método, influência da antiguidade clássica como
etnográficos” percebemos uma Malinowski supõe uma aproximação recurso para dar veracidade à descrição
valorização do “contexto e sua importância em campo que vai se desenhando com – tem-se na pesquisa antropológica a
na produção de narrativas sobre o Outro” os constantes contatos entre observado perspectiva de conhecer o ponto de vista
(Leite 1996:14). Isso mais tarde, contribui e observador. Ele coloca uma situação da formação da mente do nativo por meio
para a profissionalização da antropologia, pensada de como seria essa observação de instrumentos etnográficos.
como campo teórico, e a etnografia, participante, dirige-se claramente a
com método de pesquisa, ancorada na refletir quem é o outro e como o etnógrafo O diário etnográfico, feito
observação participante, constituída a deve proceder na coleta de informações sistematicamente no curso dos
partir do funcionalismo de Malinowski, a seu respeito. Esse aspecto vivenciado trabalhos num distrito, é o
passou-se a perceber mudanças na forma na comunidade do outro faz referência, instrumento ideal para este tipo
de produzir as representações escrita do ainda, a trajetória de formação em campo de estudo. E se, paralelamente
outro. de Malinowski como antropólogo. ao registro de fatos normais
e típicos, fizermos também o
Para compreender este outro, do ponto de Amplia-se essa ferramenta de registro dos fatos que representam
vista do antropólogo, faz-se necessário interpretação de coleta dos dados quando ligeiros ou acentuados desvios da
criar estratégias de inserção do leitor se considera “os modos estereotipados de norma, estaremos perfeitamente
na costura do texto etnográfico. Trazer pensar e sentir” do grupo social articulado habilitados a determinar os
o leitor para apreciar as descobertas do com o “ambiente social e cultural” para dois extremos da escola da
etnógrafo é uma forma de fazê-lo ver e “descobrir os modos pensar e sentir normalidade (Malinowski
sentir por meio de palavras que constroem típicos” (Malinowski 1978:32). Aguçar os 1978:31).
imagens do que antropólogo presenciou sentidos e usar mecanismos de observação
na cena etnográfica. no trabalho de campo – escutar, ver e O diário do antropólogo, diferente do
escrever (Cardoso de Oliveira, 2000) diário do viajante, sistematiza-se com
Imagine-se o leitor, rodeado – formam um dos pontos principais da método e teoria buscando objetivamente
apenas de seu equipamento, numa prática do antropólogo. Nesse caso, a compreensão da cultura do grupo
praia tropical próxima a uma deve-se interessar pelo que as pessoas social a partir dos dados analisados. É o
aldeia nativa, vendo a lancha dizem que fazem, o que realmente fazem momento em que o termo cultura passa a
ou barco que o trouxe afastar-se e o que pensam sobre o que fazem nessa significar o modo de vida e os costumes
no mar até desaparecer de vista. constituição da alteridade. que delineiam a construção de instituições
Tendo encontrado um lugar para multidimensionais com a incorporação do
morar no alojamento de algum A relação que se estabelece, nesse sistema econômico, língua, organização
homem branco – negociante ou caso, refere-se ao contato com o outro social, parentesco. Trata-se de elencar
missionário – você nada tem e a anotações de campo na experiência aspectos interessantes da produção de
para fazer a não ser iniciar do estar lá. Esse momento configura estratégia de representação escrita do outro.
imediatamente o trabalho o primeiro passo para esboçar o que
etnográfico. Suponhamos, além um “etnógrafo propriamente dito deve A etnografia de Malinowski apresenta um
disso, que você seja apenas fazer, propriamente, é ir a lugares, voltar narrador onisciente que discursivamente
um principiante, sem nenhuma de lá com informações sobre como as provoca a curiosidade do leitor ao trazê-lo
experiência, sem roteiro e sem pessoas vivem e tornar essas informações para um cenário pintado pelos elementos

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naturais – praias, árvores, água e aspectos trobriandês caracterizada pela liberdade e o sangue da vida nativa real preenche o
geográficos – revelando uma natureza extrema de trocas dos parceiros sem um esqueleto vazio das construções abstratas”
diferente, em alguns casos, relacionado impedimento moral. (Malinowski 1978:29).
com a paisagem europeia. Esse tom de
pouca correspondência ou singularidade, Seguindo a tessitura de Malinowski, após Diante dessa situação, uma das
por ser específica deste lugar, introduz o apresentar o cenário geográfico e dia a dia corroborações importantes malinowskiana
leitor em uma narrativa exótica. dos trobriandeses, na região do Pacífico para a fomentação da antropologia consiste
Sul, mostra sua proposição com ênfase na “introdução de métodos muito mais
A construção física e natural neste “sistema de comércio, o Kula, é o que intensivos e muito mais sofisticados de
discursivamente escrita por uma posição me proponho a descrever” (Malinowski pesquisa de campo do que os anteriormente
afastada, ou melhor, objetiva do narrador 1978:18). Na visão desse intelectual a vigentes neste campo de estudo” (Firth
apresenta uma imagem. O olhar sobre o prática do comércio trobriandês configura 1997:17-18). Essa posição volta-se para
lugar chama atenção já que as “pessoas uma instituição multifacetada por onde crítica ao método do evolucionismo
que não estão acostumadas às paisagens circula todo o sentido do modo de vida cultural que estudava os estágios de
do Pacífico Sul é bem difícil dar uma dos trobriandeses. desenvolvimentos cultural da humanidade
ideia dessa festa de cores, da brancura por estágios isolados e sem essa relação
tentadora das praias”. As arvores deixam O Kula é, portanto, uma instituição com o outro na pesquisa de campo.
ver divisões das tonalidades de cores no enorme e extraordinariamente
ambiente natural: “de um, cingidas pelas complexa, não só em extensão Entre os anos de 1920 a 1960, a
árvores da selva e palmeiras e, de outro, geográfica mas também na antropologia seguiu a proposta de estudo
pela escuma branca e pelo mar azul” multiplicidade de seus objetivos. de campo fundamentada na perspectiva
(Malinowski 1978:39). Ele vincula um grande número funcionalista de Malinowski. O texto
de tribos e abarca em enorme etnográfico moderno para a representação
Na produção etnográfica de Malinowski conjunto de atividades inter- da alteridade na época vinha ilustrado com
o outro é lido sempre como nativo relacionadas e interdependente de registros fotográficos associados às cenas
sendo um tipo característico do sul modo a formar um todo orgânico culturais etnografadas a fim de conduzir a
do Pacífico. Esses grupos humanos (Malinowski 1978:72). compreensão e atenção de o leitor no estar
são classificados pela aparência, lá vivenciado pelo antropólogo.
cor e estatura: ao “aproximar-nos É inegável que semântica lexical do
dos nativos e examinarmos suas termo Kula remete diretamente para uma Diferente da relação estabelecida na
aparências, verificamos com surpresa estratégia discursiva do sentido metafórico cônica de viagem cujo europeu saía como
– se os compararmos a seus vizinhos de Os Argonautas do Pacífico Ocidental viajante e retornava como herói inserido
ocidentais – que são extremamente estabelecendo significações empreendidas nas aventuras, desafios, enfretamentos
claros de pele, de pequena estatura”. Em por meios de trocas comerciais em todo e descobertas em terras distantes com o
seguida, ele completa com a narração território trobriandês. Em torno do kula outro. Dito de outra maneira, precisamos
evidenciando o comportamento humano desenvolvem-se todas as práticas culturais que o lugar da autoria em Malinowski
dos trobriandês: os “nativos têm um ar nas ilhas Trobriand sendo considerada mostra que ele não apenas estava lá,
tímido e desconfiado, mas não hostil” do ponto de vista do antropólogo uma como se apropriou do modo de vida
(Malinowski 1978:40). Temos um instituição inter-relacionada com a nativa e falou com a semântica lexical do
cenário etnográfico pacífico em função economia, organização social, parentesco, grupo social.
da harmonia na escrita desta alteridade. magia, mito etc. Construindo uma
alteridade que funciona como sistema Posteriormente, as reflexões a respeito do
Quando aproximamos as relações, entre de relação recíproca e simbólica dos trabalho de campo foram-se aperfeiçoando
a natureza da percepção do viajante e trobriandeses. com as experiências dos antropólogos
a posição do olhar deste etnógrafo, a e a sistematização de procedimentos
partir de seus escritos, percebemos na Malinowski por fundar uma metodologia evidenciando que a “primeira exigência
literatura de viagem o choque cultural arraigada na experiência cultural com o para se possa realizar uma pesquisa de
e no registro antropológico do estilo outro, agregar a apropriação lexical grupo campo é um treinamento rigoroso em
malinowskiano a harmonização das social, organizar os mecanismos de captura teoria antropológica, que dê as condições
tensões sociais dos trobriandeses. Como dos imponderáveis do cotidiano aciona de saber o quê e como observar, e o que
por exemplo, a ambuiguidade da nudez a responsabilidade que tem o etnógrafo é teoricamente significativo” (Evans-
indígena – inocência e pecado – causou de observar os costumes, cerimônias, Pritchard 1978:243). Razão pela qual
estranhamento e moralização do corpo transações para extrair suas crenças e os o etnógrafo deve saber o que perguntar
entre os indígenas. Em contraposição, nativos realmente as vivem. Na leitura ou observar em campo para tecer as
vemos o cotidiano da vida sexual dos desse antropólogo isso compõe “a carne possíveis respostas.

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A forma como os antropólogos se colocam ser considerado o único a produzir o grupo social. Por outro, a escrita com
na construção do texto etnográfico como conhecimento sobre o outro, tornou-se ênfase, na perspectiva sincrônica, tornou
autor, intermediador da voz do nativo e imperativo pensar uma generalização do este outro abstrato e sem história.
a publicação do diário de Malinowski trabalho etnográfico.
revelou o “dilema de todo antropólogo Essa relação acerca do tempo etnográfico,
no campo – reter sua própria identidade e As inovações no campo da etnografia ora pensado como sincrônico, ora inserido
ao mesmo tempo se envolver o máximo foram sendo inseridas e aperfeiçoadas como diacrônico na tessitura do texto
possível nos assuntos da sociedade local” por critérios rigorosos que consistiam etnográfico oscilou entre as escolas
(Firth 1997:30), tornaram-se campos na legitimação do pesquisador pública e antropológicas. Com Lévi-Strauss, na
minados de críticas dos pós-modernos. profissionalmente. Em campo, o etnógrafo antropologia estrutural, recupera esta
podia “usar” as línguas nativas sem relação, por exemplo, com a publicação
A crítica pós-moderna à escrita dominá-las, a partir da acentuada ênfase de Tristes Trópicos (1986). Com a
etnográfica no poder da observação. Além disso, o concepção pessimista sobre o processo de
pesquisador podia selecionar os dados, colonização portuguesa no Brasil, Lévi-
O modelo clássico de construção da a fim de construir um arcabouço central. Strauss, não vê mais na cultura indígena
etnografia é posta em questão, a partir Por fim, focaliza algumas instituições traços de sua originalidade, reportando-se
dos anos 1950, pelos pós-modernos. A específicas e traça os registros que aos registros da crônica de Léry, interpreta
experiência de observação participante se convencionou chamar de presente essa situação de contato com base na
em campo consagrada com Malinowski etnográfico (Clifford 1998). “perversidade bem maior da Europa”
passa a ser alvo de questionamentos (Lestringant 2000:83).
pelos intelectuais norte-americanos Nesse cenário foi constituindo
que influenciado por teorias europeias historicamente a noção de autoridade Na inauguração de uma antropologia
resolveram enfrentar a condição de produção etnográfica – o modo como o autor se interpretativista (Geertz 2008), a
da etnografia (Caldeira 1988; Trajano 1988). coloca presente no texto e legitima um constituição de uma hermenêutica
A discussão é provocada, também, em discurso sobre a realidade. Trata-se do outro, a cultura balinesa, ver-se
função das mudanças históricas em relação do modo predominante e moderno de na tessitura do sistema da religião
à posição política de descolonização das autoridade do trabalho de campo – “você simbólica de bali um lugar não neutro na
colônias frente às metrópoles. está lá... por que eu estava lá”. Malinowski, produção etnográfica. E mais, retorna-se
divisor de águas em relação à etnografia, a uma etnografia do tempo presente de
O contexto histórico deixa ver que profissionalizou o trabalho de campo cunho subjetivo. Em Os Nuer (1978),
a desintegração da relação colônia e baseado na observação participante. Evans-Pritchard elabora a construção
metrópole ao molde da colonização, da instituição política que organiza a
a redistribuição do poder colonial A crítica pós-moderna americana embalada vida econômica dessa sociedade. A
nas décadas sucessivas a 1950 e as por leituras apropriadas de intelectuais do alteridade desse grupo compõe-se em
repercussões das teorias culturais dos anos continente europeu “analisa a maneira pelo torna da prática de criação do gado. Há
de 1960 a 1970 foram fundamentais para qual os antropólogos têm aparecidos em uma extensa consulta a fontes históricas,
rever o lugar da etnografia na produção de seus textos desde Malinowski até os anos teóricos e a aprece sutilmente a voz dos
alteridades (Clifford 1998). Além disso, 80” (Caldeira 1998:134). É diante dessa informantes.
o antropólogo não se relaciona mais com condição sociocultural que se assenta
uma cultura isolado ou semi-isolada, mas a reflexão sobre a função do autor no Assim, não podemos deixar de mencionar
com sujeitos de outros países vivendo a texto etnográfico e os aspectos históricos na trajetória desta etnografia moderna
efervescência múltipla de práticas sociais, reivindicados pelos pós-modernos na que os aspectos singulares da cultura dos
culturais e políticas com os grandes elaboração da etnografia. grupos estudados forjaram-se com base
centros de desenvolvimento econômico. em pressuposto de que “a experiência do
Por ser a etnografia, o método de coleta pesquisador pode servi com uma fonte
Se por um lado, os “grupos estudados de informações, muito se tem debatido unificadora da autoridade” (Clifford
pelos antropólogos eram, de um modo sobre a interferência da subjetividade 1998:33). Essa autoridade experiencial e,
geral, povos coloniais. Sobre eles, o na construção objetiva do tema em posteriormente, interpretativista norteou
antropólogo escrevia para os membros de estudos dos antropólogos. Por um a etnografia moderna entre estar lá e
sua própria sociedade (a metrópole), sem lado, esse jogo discursivo de ausência escrever aqui (Geertz 2009). Todavia,
colocar em questão o caráter da relação de e presença da autoria na produção pouco se ouve a voz ativa dos informantes
poder que se estabelecia entre essas duas etnográfica funcionalista deixou ver uma dos grupos sociais estudados conforme
sociedades” (Caldeira 1998:135). Por voz inaudível dos informantes já que o generalização antropológica cujos autores
outro, a ocorrências dessa transformação antropólogo apropria-se dessa fala para designam, por exemplo, de Argonautas,
fez ver que o Ocidente não pode mais tornar verídica sua relação de contato com Os Tikopia, Os Nuer e Os balineses.

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Entre os pós-modernos o caráter dessa O outro na antropologia moderna e apresenta “alguns dos seus protagonistas,
visão complexa e generalizadora passou muitos sentidos coautores” (Pantoja
a ser questionada e criticada como A profissionalização e academicização da 2008:19). Já no livro O antropólogo e
sociedades sem rostos e sujeitos com vozes antropologia constitui fato relevante para sua magia (2008), de Vagner da Silva
intermediadas por seus pesquisadores o trabalho com a diversidade humana e percebe-se uma produção etnográfica mista
em suas próprias práticas culturais. Isso cultural. Como ciência que estuda o outro entre a estrutura moderna e pós-moderna.
levou a sugestão de dois outros tipos na sua constituição humana e social tem Estrategicamente, inserem na apresentação
de autoridades, voltados para o modo cada vez mais ampliada sua dimensão de as noções de observado e observador e uma
dialógico no qual a etnografia resulta de análise. Viemos no decorrer deste ensaio polifonia de vozes dos sujeitos.
uma negociação construtiva e audível da acompanhando leituras desde os relatos
fala do sujeito. E modo polifônico que de viagem até a produção sofisticada É fato que os modos de autoridade
rompe com ideia de conter nas etnografias, de textos etnográficos com objetivo de etnográfica – experiencial, interpretativista,
apenas a voz do etnógrafo, mas abre para entender as mudanças de representação do dialógica e polifônica – são importantes
as distintas interações dialógicas a fim outro na escrita antropológica moderna. na construção do texto etnográfico
de reconhecer o lugar discursivo de cada e precisam se mobilizadas de forma
informante (Clifford 1998). A discussão entre alguns aspectos consistente a colocar o sujeito pesquisado
estratégicos de discursividade acerca e o pesquisador em relação de interação
Estas duas últimas formas de autoridade da alteridade entre a crônica Viagem tanto da investigação quanto da escrita
etnográfica – dialógica e polifônica – a Terra do Brasil de Jean de Léry e a antropológica.
de certa maneira redimensionam o etnografia Os Argonautas do Pacifico
lugar do antropólogo no estudo da Ocidental de Bronislaw Malinowski Não por caso, contemporaneamente
cultura de uma sociedade. Isso faz tornaram-se relevantes pela riqueza de o “antropólogo contemporâneo tende
pensar que diferente de outros campos de olhar e representação que o outro passou a rejeitar as descrições holísticas,
conhecimentos, a antropologia sempre vai a ter para o viajante e antropólogo. se interroga sobre os limites de sua
se reporta a um autor que ouve e fala de Trouxemos no olhar do viajante francês capacidade de conhecer o outro, procura
um lugar legitimado e autorizado. sua formação e objetivo ao viajar expor no texto as suas dúvidas, e o
para o Brasil, além do contato com a caminho que o levam à interpretação,
Pela natureza de nossos nação Tupinambá. Já em Malinowski sempre parcial” (Caldeira 1998:133). São
julgamentos nessas questões, procuramos mostra como o etnógrafo reflexões importantes que ajustaram e
que é especifica de cada pessoa sistematizou os métodos de pesquisa de ampliaram as condições de situacionais de
(e não “pessoal”), o lugar óbvio campo em contato com os trobriandeses. produção das etnografias.
para iniciar esse engajamento é
a questão do que vem a ser um Em seguida, apresentamos o contexto Nesse sentido, “quero concluir
“autor” na antropologia. Pode histórico da critica pós-moderna afirmando que não devemos nos assustar
ser que, noutros campos de considerando alguns aspectos pertinentes com tal barulho, se for o caso dele
discurso, o autor (juntamente da descolonização e as influências das existir” (Trajano 1988:150). Ou seja, a
com o homem, a história, o eu, teorias europeias incorporadas ao olhar crítica pós-moderna alterou apenas as
Deus e outros apetrechos da dos intelectuais norte-americanos. Se por condições de enunciação discursiva da
classe média) esteja morrendo, um lado, a antropologia moderna não etnografia, mas o método de pesquisa e a
mas ele, ou ela, ainda está rompeu com seus pressupostos teóricos teoria interpretativa dos dados coletados
vivíssimo entre os antropólogos e métodos de pesquisa como pensava a continuam a serem referências de análise.
(Geertz 2009:18). crítica pós-moderna. Por outro, devemos
considerar que o barulho realizado
Conforme a situação discursiva de pelos estes intelectuais colaborou para
interação acredita-se que pouco a dinamizar a estilo de escrita do texto
pouco a introdução da fala do outro vai etnográfico, tornar audível a voz dos
constituído com a voz do etnógrafo uma informantes e situar as condições de
espécie de coautoria e deixando o texto autoria do antropólogo.
acadêmico mais dinâmico e flexível as
perspectivas de ambos. Nesse caso, Em Os Milton (2008), de Mariana Pantoja
percebemos uma mudança na condição vemos uma resposta aos pós-moderna ao
de enunciação do texto etnográfico. trazer estrategicamente a biografia dos
Houve mudanças na estratégia de sujeitos traçando percursos breves de suas
apresentar na escrita da etnografia os histórias de vida. A pesquisadora chama
sujeitos e temas de pesquisa. atenção para o reconhecimento da autoria

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