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A dupla jornada das mulheres

A articulação entre o trabalho remunerado e o doméstico ainda é


ponto de tensão na vida das mulheres brasileiras

CARLA SABRINA FAVARO


26 de outubro de 2015

O século XX e o começo do XXI testemunharam o avanço de mudanças


profundas na vida das brasileiras. O aumento de sua escolaridade, a entrada e
permanência no mercado de trabalho, a diminuição do tamanho das famílias e o
aumento dos domicílios chefiados por mulheres são algumas das alterações mais
significativas na condição feminina nas últimas décadas.
Diante desse quadro, um dos maiores pontos de tensão na vida dessas mulheres
é a articulação entre o trabalho remunerado (produtivo) e o trabalho doméstico
(reprodutivo).

Leia atividade de Sociologia inspirada neste texto


Competências: compreender o papel histórico da participação feminina no
mercado de trabalho. Entender como a sociedade brasileira, formada a partir do
patriarcalismo e da escravidão, orientou a inserção das mulheres na sociedade.
Habilidades: estabelecer relações entre as desigualdades de gênero e as
dificuldades das mulheres na articulação entre o trabalho doméstico e o
remunerado. Comparar o trabalho doméstico remunerado com outros tipos,
analisando por que o primeiro é desvalorizado.

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De maneira geral, o pensamento social brasileiro no que diz respeito à formação


das famílias e à posição das mulheres na sociedade foi fundamentado em torno,
primeiro, da ideia da casa-grande e da senzala.

Havia um grande patriarca e vários dependentes em torno dele, inclusive escravos,


com as mulheres livres totalmente reclusas à vida doméstica e dependentes de
pais, irmãos e maridos, e as escravas fazendo todo o trabalho reprodutivo.

Em um segundo momento, surge a ênfase em um modelo nuclear de família, no


qual o homem seria o chefe do domicílio, encarregado de sustentar a família,
enquanto a mulher (dona de casa) cuidaria do lar e seus membros.
Entretanto, esse último padrão pode ser entendido mais como um modelo ideal de
comportamento do que propriamente uma regra, já que o número de exceções,
principalmente nas camadas populares, é bastante significativo, com forte
recorrência ao trabalho feminino.

Somente a partir de 1970, com o desenvolvimento


dos estudos a partir da perspectiva feminista, o
trabalho doméstico e o remunerado foram
conectados.
Esses estudos foram fundamentais para desnaturalizar a ideia de que o trabalho
remunerado deve ser estritamente associado aos homens, enquanto o doméstico
é função feminina.

Foi também nesse período que a renda do trabalho feminino passou a ser parte
fundamental do orçamento doméstico, não só das classes populares.

De acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad)


para o Brasil, a taxa de participação feminina no mercado de trabalho saltou de
32,9% para 52,7%, entre 1981 e 2009.

Essa mudança considerável aconteceu na esteira do processo de industrialização,


com suas transformações na estrutura produtiva do País, resultando, entre outras,
na urbanização e nas quedas das taxas de fecundidade e consequente diminuição
no tamanho das famílias, por outro.

É, portanto, no interior de um grande processo de mudança na sociedade


brasileira que se deu a inserção das mulheres no mercado de trabalho.

Tal inserção, porém, acontece de maneira bem diferente entre os sexos.


Diferentemente do trabalho masculino – atrelado às forças do mercado e ao nível
de desenvolvimento da sociedade –, o feminino possui uma dinâmica mais
complexa, pois costuma entrelaçar-se à posição que a mulher ocupa em sua
família e à classe social a qual pertence seu grupo doméstico.

O trabalho feminino extrapola o nível individual,


principalmente das mulheres casadas ou vivendo
em união consensual, estando associado ao curso
de vida familiar.
O patriarcalismo da sociedade brasileira ainda se faz presente na medida em que
grande parte das mulheres exerce sua vida profissional com uma carga simbólica
de culpa considerável, por conta da distância cotidiana dos seus filhos e das
responsabilidades domésticas, enquanto que, para os homens, esse tipo de dilema
nunca foi posto.

Durante muito tempo, o trabalho doméstico foi considerado um “não trabalho”, já


que se referia à esfera reprodutiva da vida social.

E é neste contexto que os conflitos na tentativa de articulação entre o trabalho


doméstico e o remunerado se desenvolvem, enquanto as mulheres avançaram no
mercado de trabalho, a contrapartida masculina na esfera doméstica caminha a
passos bem mais lentos.

Segundo dados da Pnad de 2009, enquanto as


mulheres casadas ou vivendo em união consensual,
provedoras do domicílio ou não, gastavam em
média 30 horas semanais nos afazeres domésticos,
esse número caía para perto de 12 horas, no caso
dos homens.
Esses dados mostram que ainda há muito que se fazer para que esta diferença
entre homens e mulheres diminua. Esta é, atualmente, uma das grandes
reivindicações femininas.

Ainda está muito presente no imaginário popular a ideia de que o homem pode ser
um auxiliar das mulheres nos afazeres domésticos, quando já se sabe que o mais
eficiente seria a parceria entre o casal e o compartilhamento das tarefas.

É nesse contexto que surgem diversas queixas das mulheres empregadas que têm
de lidar com duplas jornadas de trabalho, como mostra a pesquisa “Trabalho
remunerado e trabalho doméstico: uma tensão permanente”, da Agência Patrícia
Galvão.
A pesquisa mostra como as mulheres se ressentem
de falta de tempo para cuidar de si ou para se
dedicar a atividades mais prazerosas.
O trabalho remunerado é bastante importante na vida das mulheres entrevistadas,
o grande problema é a sobrecarga quando se tem de fazer a maior parte da
articulação com o trabalho doméstico.

Há outro lado bastante complexo que envolve o trabalho doméstico no Brasil: o


emprego doméstico remunerado.

Para entendê-lo, é preciso levar em consideração três variáveis: gênero, classe


social e etnia. São, em sua maioria, mulheres negras, com baixa escolaridade e
pobres.

Nesse sentido, é possível afirmar que o trabalho doméstico remunerado pode ser
uma boa medida para se verificar as desigualdades que estruturam a sociedade
brasileira.

Vários estudos já mostraram que essa atividade


possui uma relação estreita com a escravidão.
Por isso, durante muito tempo, o emprego doméstico foi desqualificado, já que não
exigiria estudo ou preparação para o seu desempenho e ficando completamente a
cargo das mulheres.

Outro ponto importante nessa equação consiste no fato de envolver, dentro de um


domicílio, dois tipos de relação: a profissional e a familiar.

Geralmente quando se quer mostrar a proximidade entre patrões e empregadas


domésticas, estas últimas são referidas como se fossem “da família”.

O grande problema reside no fato de mascarar a posição hierárquica que as


empregadas ocupam, geralmente inferior, mascarando também as desigualdades
neste tipo de relação e sua recorrência na sociedade brasileira.

Por outro lado, sabe-se que o trabalho doméstico remunerado possui as maiores
taxas de informalidade e rotatividade. A legislação que regulamenta a atividade
ainda é relativamente recente, reunidas principalmente na chamada PEC das
Domésticas.

Diante do quadro esboçado até aqui, é possível perceber que ainda há grandes
desafios para as mulheres quanto à articulação entre o trabalho doméstico e o
remunerado. As mulheres avançaram no mercado de trabalho, universo
inicialmente masculino.

A partir daí, adquiriram um maior empoderamento nas suas relações familiares e


conjugais. Entretanto, ainda esbarram na impossibilidade de compartilhar as
responsabilidades do trabalho reprodutivo e do cuidado da família.

*Carla Sabrina Favaro é doutora em Demografia pelo IFCH/Unicamp