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A ENGENHARIA E A INSERÇÃO FEMININA

Mônica Mansur Bahia1


João Bosco Laudares2

Resumo: O artigo, ora apresentado é parte da Dissertação de Mestrado da autora, que buscou
compreender a presença feminina nos cursos de engenharia. Contudo, sua relevância se apresenta
por perquirir os fatores de influência das escolhas que as mulheres fazem por determinadas áreas
dessa profissão. Analisou-se esses fatores de influencia, objeto da pesquisa, à luz da complexidade
das relações sociais de sexo, bem como da feminização que tem corrido nos últimos anos nesse
campo. Verificou-se, nesta pesquisa, que as mulheres vêm se interessando mais por essa profissão,
porém percebeu-se uma tendência à persistência de uma divisão sexual do trabalho no campo da
engenharia tanto em relação as suas áreas como dentro das próprias áreas escolhidas pelas
mulheres.
Palavras chave: inserção feminina na engenharia, divisão sexual do trabalho na engenharia,
engenharias femininas e masculinas.

INTRODUÇÃO
Um dos setores profissionais que vem apresentando aumento da atividade feminina é a
engenharia, que tem se tornado menos heterogenia, não mais se restringindo apenas ao público
masculino (LOMBARDI, 2005). No entanto, percebe-se, na atualidade, que as mulheres vêm
adentrando cada vez mais nessa área, mas existem modalidades desse curso em que a presença
feminina ainda não é representativa, como apontou a pesquisa de mestrado da autora. Saraiva 2008,
apresenta a engenharia como a profissão com formação acadêmica que mais tem enraizada a
masculinidade em sua essência. Ainda é comum referir-se à engenharia como uma profissão para
homens; a decisão por entrar nessa área ainda significa para a mulher entrar em um território
masculino. Foi nessa perspectiva que surgiu o interesse em compreender as opções femininas pela
engenharia, profissão tida historicamente como “lócus” masculino, e que, na contemporaneidade,
vem se feminizando em algumas áreas e mantendo a supremacia masculina em outras. Dessa forma,
o problema de pesquisa baseou-se na investigação sobre os fatores que influenciam as mulheres em
suas opções por determinadas modalidade da engenharia em detrimento de outras.
A escolha deste tema específico deu-se pela compreensão de que a multiplicidade de
circunstâncias pelas quais as discentes dos cursos de engenharia passam, tanto no momento de suas
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Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais-CEFET/MG, Belo Horizonte, Brasil.
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escolhas por essa área, como no momento de optarem por um campo específico dessa profissão,
traz elementos bastante ricos para desvelar os múltiplos elementos ‘sexistas’ que as mulheres
enfrentam nesse meio.
Para tanto, foi realizada uma pesquisa de campo utilizando-se entrevista semiestruturada com
27 graduandas de cursos de engenharia. Os cursos pesquisados foram selecionados a partir de dados
referentes à participação feminina em processos seletivos, no período de 2004 a 2009, fornecidos
pelas Comissões Permanentes de Vestibular (COPEVEs) da Universidade Federal de Minas Gerais
(UFMG) e Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas). Esse levantamento
representou o primeiro momento do trabalho, quando foram selecionadas as engenharias química,
de produção, de alimentos, ambiental e civil como representantes do grupo de maior interesse
feminino, e as engenharias mecânica e elétrica ficaram como representantes dos cursos de menor
interesse feminino. O segundo momento teve como foco o levantamento de fatores, que
influenciaram as opções das discentes pelas distintas áreas da engenharia.
Partindo do pressuposto de que o entendimento dos fundamentos de qualquer processo
implica reconstituir sua história e considerar sua trajetória, fez-se necessária uma breve análise do
surgimento da engenharia e dos engenheiros(as) na sociedade brasileira, traçando um histórico
dessa profissão no Brasil, do surgimento à contemporaneidade com a finalidade de conhecer o
fenômeno da inserção da mulher nessa área.

SURGIMENTO DA ENGENHARIA

A engenharia, tal qual é conhecida na atualidade, um conjunto sistematizado de


conhecimentos científicos que se aplicam à construção em geral, é relativamente recente, podendo-
se dizer que data do século XVIII. Do mesmo modo, a profissão de engenheiro, pessoa diplomada e
habilitada a exercer atividades de engenharia data da segunda metade do século XVIII. Porém,
quando considerada como a arte de construir, é tão antiga quanto o homem. A própria história
revela, muitas das atividades atribuídas hoje aos/as Engenheiros(as) eram, no passado, realizadas
por pessoas leigas, que legaram grandes feitos à sociedade e que permitem certificar os seus
conhecimentos sobre as regras práticas e empíricas nas quais demonstravam noções de estabilidade,
centro de gravidade, dentre outros (TELLES, 1994).
O autor aponta que o início da engenharia científica somente aconteceu quando houve
uma concordância de que tudo o que era desenvolvido em bases empíricas e intuitivas era, na

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verdade, regulado por leis físicas e matemáticas daí a necessidade de desvendá-las, estudá-las,
compreendê-las e aplicá-las. Diante desse fato, pode-se entender o surgimento da engenharia
científica como profissão, quando ocorreu a correlação das atividades desenvolvidas empiricamente
com o aprofundamento das descobertas das leis físicas e matemáticas.
No Brasil, de acordo com Kawamura (1981), o exercer do ofício do(a) engenheiro(a) tinha,
inicialmente, o objetivo de atender a arte militar, sendo utilizada pelo Estado como meio de
segurança e repressão. Somente a partir do último quartel desse século passou a ser utilizada para
implementar melhorias na infra-estrutura social, unindo-se à produção básica agroexportadora,
solidificada na produção e comercialização do café nos mercados nacionais e internacionais. Isto foi
possível devido à acumulação capitalista em todas as etapas do ciclo do café, gerando a necessidade
de melhorias na infraestrutura urbana, tal como serviço de iluminação, instalação de indústrias,
hidrelétricas, transporte, saneamento básico e edificações em geral (KAWAMURA, 1981).

Com o crescimento das cidades e com a industrialização, conforme Bruschini e


Lombardi (1999), alargaram-se o campo de trabalho para os engenheiros, que passaram a ser
requisitados para planejamento e infraestrutura urbana, além de instalação e operação de indústrias
de vários ramos.
Percebe-se, assim, que a evolução da engenharia está atrelada ao desenvolvimento das
sociedades que, com o passar do tempo, vêm suas necessidade e demandas específicas renovadas,
precisando adaptar-se aos contextos sociais, políticos, econômicos do momento.
. Em novembro de 2002, durante o VIII Encontro de Educação em Engenharia que ocorreu
em Juiz de Fora, os professores conceituaram o/a profissional engenheiro(a) como “[...] o
intelectual capaz de exercer a engenharia com competência técnica e responsabilidade social e
política” (SOUZA, PINTO e PORTELA, 2010). Esses autores seguem afirmando que a
responsabilidade sobre as inovações tecnológicas, que tem como uma das suas finalidade
transformar recursos da natureza em bens artificiais para servir a humanidade, é dos(as)
engenheiros(as).

PROFISSÃO ENGENHEIRA

A mulher na engenharia
Esse curto histórico sobre o surgimento e expansão da engenharia e a competência

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esperada dos engenheiros(as) na sociedade capitalista fizeram-se necessário para auxiliar no
entendimento das relações de gênero que se estabelecem nesse campo, que, conforme o histórico
traçado acima, tem em sua trajetória de constituição como profissão, a guerra, o meio de segurança
e repressão, a tecnologia, a formação voltada para cargos de comando, enfim, um estereótipo
socialmente construído para o masculino. Desse modo, pode-se conhecer o contexto no qual se deu
a inserção feminina nesse campo de trabalho e trazer alguns fatores que podem influenciar as
escolhas das mulheres por essa profissão que continua em algumas modalidades masculinizada.
Considerando essa linha histórica da engenharia pode-se afirmar que a entrada da
mulher nesse campo é um rompimento de valores que as discriminam em carreiras tidas como
predominantemente masculinas. Para sustentar essa escolha profissional, elas tiveram que enfrentar
padrões de gênero aceitos no interior das famílias, nas escolas e no trabalho (LOMBARDI, 2005).
Dessa forma, a trajetória das mulheres na área tecnológica é repleta de desafios. Mesmo sem deixar
de ser o esteio da família, assumindo responsabilidades para com os filhos, com a casa, com o
marido, enfrentando preconceito tanto na academia como no mundo do trabalho, elas não
desistiram. Foram atrás de conhecimentos nessa área que tem um grau de exigência muito grande
(ORNELAS, 2010).
Pesquisas como as de Lombardi (2005), Farias e Carvalho (2008), Tozzi e Tozzi (2010),
dentre outras, mostram que, apesar de enfrentar resistência para conquistar seu espaço na área
tecnológica, lugar que historicamente foi-lhe cerceada à participação, as mulheres vêm adentrando
com competência nesse meio. Mas, contudo, contrastando-se a inserção feminina no meio
tecnológico com a intensidade e o tempo da opressão sofrida por elas, verifica-se que esse processo
não foi lento, chegando até a uma velocidade significativa, mas comparado com o desenvolvimento
da tecnologia, observa-se uma certa lentidão na ascensão do público feminino, que tem muito a
crescer nessa área.
Tabak (2002) assinala que pesquisas realizadas em diferentes países como na Inglaterra,
nos EUA, na Finlândia e inclusive, no Brasil, mostram que, no final do século XX, ocorreu um
aumento significativo da presença feminina nas instituições de ensino superior, porém, isso não
significou um aumento expressivo de mulheres nas áreas da ciência e tecnologia, ou seja, os
números de participação feminina nesses campos se mantiveram abaixo do que seria aceitável.
Corroborando a afirmação de Tabak (2002), estudos mais recentes, como os de Saboya (2009),
indicam que não houve alterações substanciais na composição de gênero no campo da engenharia, e
a pesquisa de Tozzi e Tozzi (2010) aponta para um aumento da presença feminina na engenharia de

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4%, nos anos 70, para 14%, em 2009. Isso significa um aumento de 10 pontos percentuais em quase
40 anos.
Há predominância feminina nas áreas humanas, sendo que, em ciências biológicas e da
saúde, existe uma igualdade com os homens. Enquanto nas áreas tecnológica, mais especificamente
na engenharia, a supremacia é masculina (SARDENBERG e COSTA, 2002). Essa desigualdade
entre os gêneros muitas vezes tem uma explicação que considera uma adaptação natural dos homens
às ciências exatas, enquanto a área de humanas seria mais facilmente assumida pelas mulheres
(LOMBARDI, 2005). Para Carvalho e Sobreira (2008), esse fenômeno da segregação existe desde
as primeiras socializações das meninas que são preteridas na lida com equipamentos técnicos, tendo
como consequência uma maior vivência dos meninos com o ferramental tecnológico.

Essa dualidade é construída por toda a vida dos homens e das mulheres de maneira tal que
quando chegam na idade de escolher uma profissão, fazem-no também dicotomicamente,
de acordo com as expectativas sociais. (CARVALHO e SOBREIRA, 2008, p. 890).

Desse modo, adentrar-se em um território masculino implica relegar a um segundo


plano as características impostas como de ‘verdadeiras mulheres’. Muitas delas acreditam que, para
obter os saberes e habilidades necessárias na engenharia, é preciso desenvolver um trabalho mais
penoso que o dos homens (SARAIVA, 2008). A autora segue dizendo que, embora não existam
proibições legais ao ingresso feminino na engenharia, os discursos que colocam as mulheres como
devedoras de atributos fomenta uma barreira subjetiva mais difícil de ser transposta do que se
houvessem proibições e interditos.
Outra explicação, usada para justificar essa disparidade no número de representantes
dos gêneros feminino e masculino na engenharia, é relacionada com a origem histórica dessa
profissão. Esse diagnóstico é apresentado por Lombardi (2005), a partir das análises de Telles
(1994), ao apontar que o nascimento da engenharia moderna está relacionado com construções e
instrumentos bélicos, sendo ensinada primordialmente nas academias militares. As carreiras
militares eram (e ainda são) espaços da masculinidade, na razão direta em que são questões relativas
à defesa e à guerra que se constituíram como arenas de atuação dos homens. Isso acontece pelo
domínio da ideologia machista que argumenta que a guerra seria uma expressão da violência
masculina.
Bruschini e Lombardi (1999), completando essa ideia, apontam que esse ofício, de
origem bélica, significava uma recusa formal à entrada de mulheres na profissão, pois a engenharia
militar se destinava à preparação de homens para postos de comando como oficiais. Além disso, a

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característica de comando de equipes de trabalhadores permaneceu na engenharia civil, mesmo
quando sua origem militar já havia sido esquecida, tornando-se mais uma razão para afastar as
mulheres da profissão. Desse modo, quando se tenta compreender os fatores de influencia que
limitam o interesse das mulheres por essa área, a princípio, remete-se às origens militares dessa
profissão, exercício de função de comando, ‘dificuldades’ com ciências exatas e também às
peculiares condições de trabalho. Entretanto, para Lombardi (2005), essa sub-representação
feminina na engenharia é fruto da discriminação de gênero nos ambientes acadêmicos e de trabalho
nesse campo.
Segundo Lombardi (2006), o processo de democratização do ensino superior de uma
forma geral possibilitou um maior ingresso das mulheres na engenharia. Assim como Oliveira
(2010), a autora afirma que a maior aceleração desse processo se deu a partir de 1990, quando
ocorreu uma forte expansão dos cursos dessa área. Mas o que Lombardi (2005; 2006) tem
demonstrado em suas pesquisas sobre o tema é que o aumento de mulheres nos cursos de
engenharia vem acompanhado de reações diversas por parte da maioria estabelecida na área, ou
seja, os homens, reações essas que, por vezes, imbricadas em mecanismos de controle sociais,
tendem a deixar as discentes de engenharia e mesmo as profissionais em posição de subordinação.
Dessa maneira, são reproduzidas as relações de poder hierarquizadas que constituem esse campo de
atuação acadêmico-profissional.
Esses mecanismos de dominação, geralmente tácitos, tornam-se patentes quando se
observa uma clara divisão sexual do trabalho nesse campo profissional. Essa prática, como indica
Carvalho (2007), é segregacionista na medida em que as próprias engenheiras reconhecem as
dificuldades que teriam para inserir em alguns setores da engenharia onde a predominância ainda é
masculina e que o trabalho a ser desenvolvido iria requerer muito empenho para superar a
discriminação.
Analisando a ascensão em postos de comando nas organizações como um dos maiores
obstáculos encontrados pelas engenheiras para acender em suas carreiras, Lombardi (2006) aponta
que uma vez que numericamente sua representação é muito pequena na engenharia, seria necessário
uma ‘confiança’ por parte dos homens, maioria nessa área, para que possam vir a ter oportunidades
de ocupar altos postos de comando nas empresas. Outra dificuldade apresentada pela autora,
enfrentada pelas mulheres para assumirem cargos de comando nessa área, é a falta de
disponibilidade de tempo, tendo em vista que a sociedade atribui à mulher a integral
responsabilidade pelo cuidado da família, o que se torna um obstáculo a ser superado não só para a

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inserção da mulher no processo produtivo, mas também limita suas chances de ocupar cargos de
chefia. As empresas partem do pressuposto de que a ascensão na hierarquia necessita de
disponibilidade de tempo e dedicação integral à carreira, possibilidade que normalmente são
consideradas de natureza masculinas, pois os homens são menos cobrados nas responsabilidades na
esfera privada.
Existe também a própria resistência feminina no enfrentamento da competição
profissional. É entendido por algumas mulheres que, para se ter uma chance de reconhecimento
profissional na área da engenharia, é preciso negar o modelo de mulher ensinado na família e na
escola (SARAIVA, 2008). Muitas mulheres incorporam tais justificativas como verdadeiras e
deixam de pleitear cargos de comandos (LOMBARDI, 2006).
É nesse sentido que Farias e Carvalho (2008) apontam um estereótipo masculinizado
nesse campo de atuação profissional que, por vezes, parece impor uma dinâmica de conduta
estabelecendo uma limitação para as estudantes e profissionais da área. Desse modo, a incorporação
das engenheiras em muitas áreas da engenharia é crivada de barreiras podendo limitar tanto seu
desenvolvimento profissional quanto o acadêmico.
Por outro lado, Lombardi (2006) aponta uma grande criação de novas áreas na
engenharia disponibilizadas à sociedade, o que para ela sinaliza a continuidade do processo de
especialização. Entretanto, com as novas segmentações no ensino da engenharia, por meio do
desdobramento das antigas áreas, ocorreram diversificações nas escolhas tanto masculinas como nas
femininas.
Com o aumento das modalidades desse curso, criaram-se possibilidades, favorecendo o
ingresso do público feminino nos novos campos de atuação (LOMBARDI, 2006). Concluindo, a
autora afirma que, mesmo assim, a posição das mulheres na engenharia é considerada como
especial e excepciona. As mulheres têm ingressado em outras áreas que não sejam a química, a
civil, e a produção, mas

[...] ainda persiste uma demarcação das áreas em que elas se encontram presentes, tanto no
campo escolar como no profissional incluindo a posição hierárquica ocupada por elas nas
empresas. Dessa forma, a ordem de gênero, transversal à engenharia, classifica/reclassifica
e hierarquiza áreas de conhecimento e áreas de trabalho, atividades, atribuições e posições
hierárquicas como mais ou menos masculinas e femininas, e as valoriza de forma diferente.
(LOMBARDI, 2006, p. 199).

RESULTADO DA PESQUISA

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Nos últimos anos, devido ao dinamismo das inovações tecnológicas e das forças
produtivas estarem em permanente desenvolvimento, estimulados pelas crescentes ‘necessidades’
da sociedade, as modalidades da engenharia se diversificaram. Isso representou novos campos de
escolha nessa área, tanto para os homens, como para as mulheres. O que se observou, porém, nesta
pesquisa foi um aumento do público feminino em algumas modalidades desse curso. Nas
engenharias como a elétrica ou mecânica e suas derivadas, a inserção feminina ainda é muito
pequena. Os homens continuaram nas engenharias tradicionais e suas migrações foram para
engenharias afins. Por outro lado, nas engenharias química e de produção, há maior concentração
feminina embora essa última ainda apresente um número menor de mulheres do que de homens.
Na pesquisa de campo pôde-se constatar que realmente as engenharias pesquisadas são
estigmatizadas como femininas e masculinas, sendo que as primeiras são vistas pelas entrevistadas
como: melhor possibilidade de inserção no mercado de trabalho; mais igualdade com os homens em
disputas por cargos; menos preconceito dentro e fora do meio acadêmico; status por estar cursando
engenharia; curso com ‘grau de dificuldade’ menor que os outros; trabalho ‘menos duro’;
possibilidade em trabalhar com gestão e concentração de maior número de mulheres cursando esse
grupo de engenharia estudado.
São estes os fatores encontrados na pesquisa que justificam as opções femininas pelas
diferentes áreas dessa profissão. Percebeu-se que esses fatores de influencia na opção das mulheres
pelas áreas da engenharia são permeado de discursos que tendem a impor barreiras com suportes
baseados em ideologias machistas, cuja escolha feminina por determinadas área dessa profissão
encontram-se repleta de ‘interdições’. Em outras palavras, ao confinar suas opções por modalidades
‘femininas’ da engenharia, as mulheres tendem a reproduzir construções históricas, sociais,
patriarcais, reafirmando a lógica do capital, no sentido de perpetuar a desvalorização do trabalho da
mulher. Também paradoxalmente, o crescimento da presença da mulher no mundo da engenharia,
que apesar de representar uma forma de emancipação e até de ‘ousadia’ por uma área de atuação
tipicamente masculinizada, acaba por desvalorizar toda a categoria, barateando a força de trabalho
por meio do processo de feminização de uma área até então homogeneizada por homens.
Mesmo que ainda haja um reduzido escopo feminino na área tecnológica, a presença de
mulheres vem aumentando nessa área. Contudo, o ingresso feminino nesse campo da engenharia
ainda é cercado de estereótipos que segregam a mulher.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

Refletir sobre a questão feminina no campo da engenharia foi perceber uma realidade sob
uma perspectiva para além de conflitos circunscritos ao espaço dessa área do conhecimento, que,
muitas vezes, são negligenciados ou, até mesmo, têm sua existência negada. Por isso, foi revelador
trazer a complexidade desse fenômeno social para desvelar contradições presentes no cotidiano das
mulheres que adentram em profissões masculinizadas como a engenharia.
Dessa forma, pode-se afirmar que o resultado da pesquisa vem confirmar a afirmação de
Figueiredo (2008), quanto a necessidade de prosseguir com estudos sobre gênero relacionado com
essa área do conhecimento a fim de esclarecer e tentar minimizar a massiva ocupação masculina
nesse campo de maneira a responder a essas questões por meio de inserções sociais de equidade
entre homens e mulheres nessa profissão.

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Aim of women to specifcs areas of engineering

Seminário Internacional Fazendo Gênero 10 (Anais Eletrônicos), Florianópolis, 2013. ISSN 2179-510X
Abstract: This article presented here is an excerpt of the Master Thesis of first author is regarding
to understand the female presence in the engineering courses, aiming at the reasons for the choices
of certain areas of the profession.. The analysis of the possible factors of choice, which is the goal
of this research, were underlined by the complexity of social relationship of gender as well as the
recent feminine character acquired by certain fields of the engineering. The research attested that
the interest for engineering has increased among women but the division of the work by gender
persists not only in relation to the choice of the fields but also inside the chosen areas.
Keywords: Femeale turning of the engineering; division of work by gender; and masculine and
eminine engineering.

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