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Respingos Históricos de uma Década
Altino Gomes da Silva
Ilha de Paquetá – 1992

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PREFÁCIO

“Respingos Históricos de uma Década” é a segunda obra
literária de autoria do Prof. Altino Gomes da Silva, que tenho o
prazer de ler. A primeira, “Natalina”, é um belo romance histórico
que, sem sombra de dúvida, passaria vitoriosamente pelo crivo da
mais severa crítica. Esta, cujo prefácio me foi conferida a honra de
escrever, é uma seleção de fatos históricos reunidos num livro cujo
titulo é autoexplicativo. O autor cita alguns acontecimentos entre os
muitos que permanecem bem vivos em sua extraordinária memória e
cujo cérebro privilegiado não sofreu a adversidade de seus 88 anos
de existência, conservando toda a pujança de sua potencialidade.
Alguns dos fatos históricos relatados neste livro têm entre
suas personagens a participação do próprio autor. Por isso que
conversar com o “professor” – como ele é popularmente conhecido -
é receber aulas de história.
Professor de Geografia e História, Filósofo e poeta, detentor
de várias condecorações tanto no âmbito nacional como no
internacional, é Altino Gomes da Silva uma pessoa que goza de
grande popularidade em Paquetá - RJ, onde reside e onde tive a
felicidade de conhecer.
Estou convicto de que, a exemplo de “Natalina”, “Respingos
históricos de uma década” está fadado a pleno sucesso entre os
leitores de várias faixas etárias: aqueles cujos fatos narrados não
sejam de seu tempo e aqueles outros cujas personagens lhes fora
contemporâneas. Aos primeiros a leitura deste livro agradará pelos
conhecimentos transmitidos e aos segundos pela recordação de uma
época considerada, sem saudosismo, mas com muita propriedade:
Bons Tempos!
Parabéns ao meu amigo Professor e votos para que o sucesso
alcançado o incentive a prosseguir seu profícuo trabalho de lançar -
esta minha sugestão - brevemente uma coletânea de poesias que
certamente será também coroada de êxito.

José de Castro

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DUAS PALAVRAS SOBRE O AUTOR

“Respingos Históricos de uma Década” é mais um livro
interessante, pelo seu conteúdo histórico, que o Professor Altino
Gomes da Silva, oferece aos seus leitores. O seu último romance,
“Natalina”, teve ótima aceitação pelo público leitor, que já, espera
por um novo livro. Minha admiração pelo Professor Gomes, como é
conhecido, não é tão somente pelo seu talento cultural. Não! E sim,
pelo seu alto espírito de modéstia e humildade, quase evangélico,
com que se apresenta a todos, que o conhecem; e ainda, pela sua veia
poética repentista, capaz de improvisar na hora um verso
metrificado. Por viver muitos anos em São Paulo tornara-se pouco
conhecido aqui no Rio. Lá, entre outras coisas, foi por muito tempo
Diretor Conselheiro da “Casa do Poeta Lampião de Gás”, legando
àquela entidade um acervo, considerável de quadra de sonetos. Foi
amigo dos poetas Cipriano Jucá e de Guilherme de Almeida, com
quem se reunia na Confeitaria “Vienense” à Rua Barão de
Itapetininga, para o “papo” literário. Certa vez foi nosso poeta
convidado a assistir uma sessão espírita no Bairro de Cachoeirinha,
em São Paulo, após os trabalhos o dono da cassa pediu-lhe que
assinasse o livro de presença, e se possível dissesse algo sobre o
assunto.
Ele não vacilou, sacou do bolso sua inseparável Parker 51,
muito em moda na época, e exarou este bonito decassílabo:
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SONETO
“Este nosso Planeta tão bonito,
Sempre a girar no espaço lentamente,
É uma feia prisão de delinquente,
Onde cada um paga seu delito.

Não vos apavoreis ouvindo grito
De desespero e dor de algum doente;
São provações pedidas previamente
Para o acesso mais fácil ao infinito...

Aquele que sereno a dor suporta
Sem queixume, sem mágoa e sem revolta,
Amando os seus irmãos no dia a dia,

Terá por certo a pena computada,
E alcançará, no fim da caminhada.
As promessas do Filho de Maria”.
(Prof. Gomes)

Depois leu, assinou e para fugir dos aplausos, saiu pelos fundos.
Rio de Janeiro, 12 de março de 1992.

NEY TOURINHO

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ÍNDICE

APRESENTAÇÃO ............................................................... 9

1ª PARTE
QUEM SALVOU PARIS ................................................... 11
VERDUN E A REPÚBLICA ALEMÃ .............................. 13
O ÊXODO ........................................................................... 15
UM CIDADÃO AZARADO .............................................. 17

2ª PARTE
QUARENTA CONTOS DE REIS...................................... 27
A BOUTIQUE .................................................................... 29
A CARTA ANÔNIMA ...................................................... 31
O RELATÓRIO .................................................................. 33
SOLUÇÃO DRASTICA ..................................................... 35
SURPRESA NO BAILE ..................................................... 37
A CONFISSÃO .................................................................. 39
O DESFECHO .................................................................... 41
COISAS QUE SÓ O AMOR JUSTIFICA.......................... 43
CAPÍTULO ESPECIAL – OS 18 DO FORTE................... 47

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PÁGINA EM BRANCO

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APRESENTAÇÃO

Tenho a grata satisfação de apresentar ao público mais um
romance histórico, neste ano de 92. O primeiro denominado
“NATALINA”, que por sinal foi muito bem aceito pelos leitores,
não sei se por ter sido doada toda a edição a um Orfanato de meninas
ou pelo conteúdo nele existente. De qualquer maneira o meu muito
obrigado!
Pergunta-me Ney, meu amigo e vizinho,
- Qual a finalidade desse “Respingo histórico de uma
Década”?
- É a de mostrar ao leitor moderno, muitas coisas ocorridas há
70 anos passados dos quais ele não teve conhecimento para sua a
avaliação.
- E você não tem receio da crítica, ativa e exigente?
- Não! Quanto a isso estou tranquilo.
- Por que essa segurança no julgamento literário?
- Porque não acredito que haja um crítico, por mais tirano que
seja que tenha a coragem de surrar um velho de 88 anos, porque não
soube escrever um livro como Monteiro Lobato ou Euclides da
Cunha.
- E se aparecer um “fera” disposto a criticá-lo?
- Eu procurarei defender-me usando contra ele a espada da
vingança.
- E no caso, que tipo de vingança será usada?
- Pedirei a Deus, nas minhas orações diárias, que o faça viver
o quanto eu já vivi, neste mundo perturbado, cheio de ladrões,
drogas, sequestros, traições, mentiras, falta de condução, de escola
para as crianças, de médicos nos hospitais, de moradia para o pobre,
de justiça social, de medos dos assaltos e até mesmo de uma ruptura
do sistema político democrático, motivada pela miséria do povo, já
que a fome não tem consciência. A tudo isso seu crítico imaginário
esta sujeito nestes dias tumultuosos.

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Página em branco

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1ª PARTE

QUEM SALVOU PARIS?

CAPÍTULO 1º

Na areia da praia as ondas, em constantes movimentos, vão
cobrindo uma as outras, sem que saibamos ao certo o tamanho e
direção da última. Na praia desta vida tumultuosa também é assim:
os conhecimentos de hoje fazem esquecer com extrema facilidade,
os de ontem, a não ser em alguns casos de amor não correspondidos
ou de ingratidões imerecidas, o resto tudo é esquecido.
Vejamos por exemplo a história das duas grandes guerras
mundiais. Hoje todas as referências giram em torno da última,
terminada em 08 de maio de 1945.
São livros, filmes, contos de heroísmo, tudo em fim, mas do
lado do vencedor, já que o vencido não tem história e se tivesse
muito saberíamos nós das lutas dos nossos índios com o branco
invasor. Da primeira grande guerra são poucas as recordações, no
entanto teve ela grande influência na vida brasileira, não só
econômico como social. O Brasil entrou na guerra, a 26 de outubro
de 1917, praticamente já no fim e nem foi preciso mandar ninguém
às frentes de combates, a não ser alguns navios de guerra para
ajudarem os aliados no patrulhamento dos mares. Por essa
colaboração, ao terminar o conflito, a 11 de novembro de 1918, foi
contemplado com doze bons navios alemães, que se achavam
internados em portos brasileiros desde o começo da guerra, navios
que vieram reforçar substancialmente o Llóide Brasileiro e dar-lhe
uma nova roupagem.
Em contra partida perdeu, o Brasil, o mercado do café, sua
maior fonte de divisas, visto não terem os consumidores europeus
com que comprá-lo. A chamada “guerra de trincheiras” já se
arrastava por longos meses, sem que o anjo da vitória sorrisse para
qualquer um dos lados, quando o Kaiser, imperador da Alemanha,

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planejou invadir a França, tomar Paris e acabar de uma vez com a
guerra. Mas para isso tinha que contornar as linhas fortificadas e
entrar pela Bélgica. Mobilizou um milhão de homens bem treinados
e equipados para essa nova missão. Alberto I, rei da Bélgica num
gesto quase suicida, negou-lhe a passagem pelo seu território. Teve
então sua pequena pátria invadida pelos alemães. A diferença entre
os dois exércitos era a de um leão par uma lebre, mesmo assim a
Bélgica resistiu por quatro longos dias. A 03 de agosto o exército
invasor tomou a fortaleza de Liége e passou sobre o pequeno pais
como um rolo compressor, entrando em território francês como um
bólido. Comarcas e cidades francesas caíam em suas mãos hora após
hora: Manberg, Lille, Cambrái, Arras, Quinze, S. Quintin, Leon,
Remas, Sedan e muitas outras foram ocupadas pelos soldados do
Kaiser. Tão grave era a situação que o presidente francês Poincaré
transferiu-se para Bordéus. E quando todo mundo esperava a notícia
da queda de Paris (uma surpresa). O generalíssimo Joffre inicia a
contra ofensiva, e com tal ímpeto e heroísmo que leva os alemães de
volta às suas trincheiras e SALVA PARIS.

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CAPÍTULO II

VERDUN E A REPÚBLICA ALEMÃ

O Kaiser, imperador da Alemanha, não conformado com a
derrota do seu exército às portas de Paris, seu principal objetivo,
tenta uma nova investida e dessa vez por Verdun. Achava ele que
tomando aquela fortaleza o caminho estava aberto para seu exército
alcançar Paris e manda atacar a histórica fortaleza com todas as
armas que dispõe.
Mas Verdun resiste sempre, como um rochedo vivo onde a
onda bate e se despedaça. Depois de vários dias de assédio sem obter
o sucesso desejado, o comando alemão determina o avanço de sua
infantaria sobre a fortaleza, tentando tomá-la a baioneta. O marechal
Pétain, defensor de Verdun, compreendendo a manobra inimiga, faz
recolher os seus soldados para junto da fortaleza e no comando de
uma divisão de metralhadoras Hotkiss, bem posicionadas e
ajustadas, espera o inimigo em campo aberto. Este, por sua vez,
pensando que os franceses fugiam abatidos, avança em massa como
um formigueiro. Pétain, no seu posto de comando, de binóculo em
punho, observa todos os movimentos do inimigo. De repente chega
correndo seu ajudante de ordem e diz: “Excelência! O inimigo se
aproxima velozmente”. Pétain responde-lhe: “Deixa-o vir que será
bem recebido”, e acrescenta: “ninguém atire antes que eu dê o sinal”.
E quando este foi dado centenas de metralhadoras dispararam ao
mesmo tempo em fogo cruzado e rasante, foi como um alfange
afiado a cortar um terno de capinzal. Foi um verdadeiro massacre.
Tão grande foi o desastre que levou o marechal Von Hinderburg,
comandante geral das forças em operações, a telegrafar para o
Kaiser, nestes termos: “Temos a impressão que os mortos também
brigam, os alemães tiveram que recuar mais uma vez”. A Alemanha
em desespero de causa passa a atacar, com submarinos, navios de
países neutros, o que motivou a entrada dos Estados Unidos na
guerra ao lado dos aliados. Enquanto isso o marechal Fock assume o
comando geral das forças em operações, com 800 mil franceses, 70
mil ingleses e 25 mil de outros países e leva os alemães de vencida

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em todas as frentes, obrigando-os a assinar o armistício a 11 de
novembro de 1918, pondo assim fim à guerra que durou 04 anos,
deixando atrás de si a fome e a miséria, por toda a parte. O povo
alemão quando teve notícia da sorte de seus exércitos, organizou-se e
com o apoio dos soldados que regressavam das frentes de combate
revoltou-se contra seu imperador e proclamou a República Alemã,
enquanto o Kaiser fugia para a Holanda, onde depois morreu.

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CAPÍTULO III

O ÊXODO

Depois de terminada a primeira grande guerra surgiu na
velha Europa uma calamidade ainda maior – a fome. Durante os
quatro anos de conflito ninguém pensou em outra coisa a não ser em
guerra. Os campos foram praticamente abandonados, ninguém
plantou coisa alguma para o presente ou para o futuro. Os homens
agora exaustos do esforço de guerra mal tinham ânimo suficiente
para movimentar os instrumentos do cultivo da terra devastada. Em
toda a Europa só restava – Além de mutilados, viúvas e crianças - a
fome, que a todos devorava. Era um salve-se quem puder. Houve
então como tábua de salvação um verdadeiro êxodo para os países
americanos e o Brasil figurou entre eles. Tão grave foi a situação que
o serviço de imigração dos Estados Unidos perdeu o controle da
entrada dos europeus em seu território. E cada dia chegava a mais
gente. A França contava com 20 (vinte) mulheres para cada homem
válido. Os asilos do Estado e até mesmo as casas particulares
estavam cheios de órfãos da guerra, o que levou o governo francês a
pedir ajuda ao governo brasileiro no sentido de minorar a grave
situação em que o seu país se achava mergulhado. Entre outras
medidas tomadas foi criada uma série de facilidades aos brasileiros
solteiros e viúvos que quisessem desposar as beldades francesas, e
nesse particular houve uma certa euforia cômica: homens de 50, 60 e
de até 70 anos, casados com jovens de 18. É lógico que o resultado
nem sempre foi promissor. Depois desse evento social houve uma
verdadeira invasão de mulheres europeias ao Rio de Janeiro, onde
chegavam como turistas, como artistas, como clandestinas, de todo
jeito e modo. E como neste mundão de Deus cada um cava a terra
com o instrumento que tem: o homem com a picareta, o porco com o
focinho, o tatu com a unha, a galinha com o pé e a mulher com os
dotes que Deus lhe deu, não foi muito difícil essas filhas de Eva
arranjarem um meio de subsistência, já que a fome não tem
consciência, nem respeita conceitos nem preconceitos sociais de
quem quer que seja. Inicialmente tomaram de assalto o bairro da

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Lapa, mais tarde transferiram-se para a zona do mangue expulsando
as famílias de suas casas realugando-as por preços proibitivos às que
chagavam por último. Assim todas as ruas do bairro foram ocupadas
por elas. As ruas Pinto de Azevedo, Benedito Hipólito, D. Laura de
Araujo, Pereira Franco e outras, em breve se transformaram num
festival de prazer, onde todo principio de mês, soldados do Exército,
da Policia Militar, Fuzileiros Navais e Marinheiros engalfinhavam-se
em conflitos mortais em disputa de suas amantes de quem tomavam
além dos carinhos a féria do dia, enquanto elas também numa
espécie de vingança secreta lhes transmitiam toda a espécie de
doenças venéreas trazidas do além mar.

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UM CIDADÃO AZARADO

Manoel das quintas nasceu na velha e tradicional cidade de
Santarém, às margens do Rio Tejo, tomada aos mouros por D.
Afonso Henrique, primeiro rei de Portugal, a 15 de março de 1147, e
nela faleceu a 06 de dezembro de 1185. Manoel chegou a conhecer
seus pais. Ao abrir os olhos para a vida fora informado haver sua
mãe falecido por ocasião do seu nascimento e seu pai ter morrido
antes, na guerra contra os mouros. Fora Manoel criado ao leu da
sorte como tantas outras crianças neste mundo de Deus. E assim
tornou-se adulto, quando passou a alimentar um grande sonho: casar-
se com sua vizinha. Aso vinte anos de idade já noivo foi convocado
para fazer o serviço militar em Lisboa, mas antes de viajar para a
capital avisara a moça para esperá-lo. No exercito, mal terminara o
primeiro período de instrução, quando Portugal, por exigência da
Inglaterra baseada num velho tratado de aliança, entrou na guerra,
mandando todo o seu exército para a França combater os alemães.
Em 07 de abril de 1917, na grande batalha de Tuli, por uma manobra
mal feita dos exércitos Inglês e Francês, que não suportaram o peso
da artilharia inimiga, abriram-se um para cada lado, permitindo
assim que o exército português, sem apoio, fosse cercado e triturado
pelos alemães. Quando a notícia do desastre chegou a Portugal, o
povo revoltou-se e depôs o governo, que por sinal era brasileiro –
professor Bernardino Machado. Dias após, houve a primeira
aparição de N. S. de Fátima aos três meninos na gruta de Leira,
pedindo para o povo orara a Deus, que a Pátria estava em perigo. A
última aparição deu-se 13 de outubro, quando realizou o milagre
testemunhado por mais de duzentas mil pessoas.
Ao terminar a guerra em novembro de 1918 o exército
português regressou à Pátria. E Manoel, tão logo foi desincorporado,
viajou para Santarém, a fim de realizar o seu velho sonho: o
casamento. Ao desembarcar na estação de Santarém, aonde chegara
à noitinha, fora informado por alguém que havia uma grande festa no
sítio onde morava a família da sua noiva.

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Pensou logo que a festa era para recebê-lo. E contente, apressou o
passo para o local, no desejo de abraçar a sua amada e contar-lhe
tudo sobre a guerra e as saudades que tivera no estrangeiro. Mas aí
teve uma surpresa desagradável; é que a festa era do casamento da
moça com outro rapaz. Ela alegou que tendo sido informada que ele
havia morrido na batalha de Tuli mandara rezar uma missa por sua
alma e para não perder o enxoval, resolveu casar-se com o vizinho
que também a amava, guardando de Manoel apenas as recordações.

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CAPÍTULO II

Manoel das Quintas, de quem já tratamos no capítulo
anterior, depois do choque sofrido com o casamento de sua ex-noiva,
voltou imediatamente a Lisboa, onde comprou uma passagem para o
Rio de Janeiro. Queria curtir suas mágoas longe da pátria e de todos
seus conhecidos. E no primeiro barco que apareceu seguiu viagem.
Dois dias após haver saído da Ilha da Madeira o navio foi alcançado
por uma forte tempestade e, com o leme quebrado, foi levado à costa
da África onde ficou encalhado por vários dias, durante os quais foi
assaltado por uma tribo de negros selvagens, que levaram toda a
comida e bebida do navio, deixando os passageiros e a tripulação em
situação difícil, até que pelo local passou um barco pesqueiro
holandês que providenciou socorros, levando o navio para um porto
civilizado, onde após consertado seguiu seu destino chegando ao Rio
de Janeiro com quase dois meses de atraso. Na Praça Mauá, tomou
Manoel uma condução para a Rua Carlos Xavier em “Dona Clara”,
casa de um seu patrício para o qual trazia de Portugal algumas
“lembranças”, e uma carta de recomendação. Mas ao chegar ao local
verificou com tristeza que a casa havia sido demolida. Perguntando à
vizinhança esta lhe respondera que o morador havia dias antes se
mudado para um bairro de Niterói por nome Fonseca, mas ninguém
sabia o nome da rua. Ele já muito cansado, desapontado, perguntara
se não havia por ali uma pensão ou hotel onde pudesse pernoitar. A
resposta foi negativa. Nisso apareceu uma senhora idosa que
procurou tranquilizá-lo, pondo em ressalto a hospitalidade brasileira,
oferecendo-lhe um jantar em sua casa, que foi aceito de bom grado.
Depois da refeição foi informado pelo marido da senhora, que era
funcionário da Central do Brasil, que as 22:00 horas partiria o último
trem para a cidade. Por esse tempo os trens de subúrbio voltavam da
estação de Dona Clara, e não havia ainda trens elétricos. De repente
ouviu-se o apito e o trem chegou. Manoel, após agradecer o jantar e
a gentileza com que foi tratado, despediu-se de todos e embarcou no
veículo com destino a cidade.
Na estação de Lauro Muller o trem quebrou-se e todo mundo teve
que descer, pois o carro ia ser rebocado para a estação Engenho de
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Dentro para ser consertado. Devido ao adiantamento da hora Manoel
resolveu ficar ali mesmo na estação até que o dia amanhecesse.
Acomodou-se num banco e dormiu. A acordar, de manhã, verificou
que alguém lhe havia carregado à mala.

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CAPÍTULO III

Manoel, antes de viajar para o Brasil, fora avisado que no
Rio de Janeiro havia muitos batedores de carteira. Por medida de
precaução mandou fazer um bolso falso na ceroula e nela colocou
todo se dinheiro. Graças a esse artifício conseguira livrá-lo das mãos
dos negros da África no saque ao navio em que viajava e, do mesmo
modo, do ladrão que no Rio lhe levou a mala. Sem mala e
documento desceu alguns degraus da estação e chegou à praça da
Bandeira. Ao passar por um açougue ali existente encontrou um
patrício trabalhando no mesmo que servira com ele na guerra, em
Paris, a quem contou a sua história. O patrício prometeu leva-lo a
uma padaria do bairro da Saúde, de um amigo de sua terra que estava
precisando de empregado. “Fique por aí, até a hora do almoço, que
eu te levarei até lá”.
À hora combinada, tomaram uma condução e foram a tal
padaria. O dono os recebeu e disse para o Manuel: “Tu ficarás por
aqui por 15 dias, com cama e comida, sem ordenado, para
aprenderes o ofício. Se neste prazo aprenderes, estarás empregado,
se não, não”. Manoel aceitou a proposta e dentro do prazo estipulado
pelo proprietário fazia o pão e a massa fina melhor que o mestre e
tudo ia às mil maravilhas. O patrão de Manoel era solteirão e morava
com um amulata no morro do pinto, já há muito tempo, e numa
terça-feira de carnaval compareceu a padaria com sua amante e
apresentou-a ao Manoel. Até aquele dia tudo corria a favor de
Manoel, empregado com bom ordenado e toda a confiança do seu
patrão. Mas a mulata desde que viu o novo empregado não o deixou
mais em paz, endoidara por ele. Fazia até lembrar os versos de
Camões que dizem:

Nota da redação: O açougue, a que se refere o presente
capítulo, foi mandado demolir, anos depois pelo governador Carlos
Lacerda, para alargamento da Avenida Getúlio Vargas, após um
processo Judicial.

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“Cada terra tem seu uso.
Cada roca tem seu fuso.
Cada preta tem seu luso”.
Manoel procurava esquivar-se, mas não tinha jeito. Um dia
ela abriu o jogo e disse-lhe: “Tenho feito de tudo e tu não me queres.
Vou falar ao teu patrão que tu andas me perseguindo”.
Por uma coincidência ou não, no dia seguinte o patrão chegou
à padaria embriagado e teve com Manoel uma discussão violenta e
no mesmo dia deu-lhe as contas. Manoel saiu com a mesma pressa
com que entrou, apenas com um pouco mais de dinheiro.

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CAPÍTULO IV

A cidade do Rio de Janeiro começava a se expandir para a
periferia. Por esse tempo abria-se o bairro de Irajá, onde os terrenos
eram vendidos a prestações e a preços convidativos. Manoel, que
havia deixado seu emprego da padaria por causa da mulata de seu
patrão, resolveu comprar um terreno em Irajá, construir uma casa e
viver longe do reboliço da cidade grande. Adquiriu o material
necessário e deu início a obra. Quando a casa já esta quase pronta,
fora interditada pela justiça. É que o terreno era “Grilado” e o
desonesto vendedor já havia dado no pé. Manoel ficou quase louco
com o acontecido. Fora aconselhado por um amigo a procurar o
legítimo dono para um acordo. A dona do terreno era uma viúva
velha, residente em Botafogo e mais braba que três onças, que o
recebeu quase a pauladas. E foi logo dizendo-lhe: “Eu pensei que o
senhor já estava na Casa de Detenção pelos crimes que cometeu”:
Invasão de propriedade; apropriação indébita e crime ecológico, por
haver derrubado minhas matas, única coisa real que o finado, que
Deus o tenha em bom lugar, me deixou.
- Mas lá não havia mais nenhuma mata, apenas goiabeiras e
alguns cajueiros.
- E então? Onde eu vou apanhar agora, as frutas para fazer
meu doce, coisa que gosto tanto?
Além do mais, o senhor sabe o que quer dizer Irajá?
- Sei sim! É como dizer. Irá agora.
- O senhor além de criminoso é também ignorante. Irajá não é
isso que o senhor esta pensando, é uma palavra composta da língua
Tupi. “Irá” quer dizer mel e “já” vegetal, mata, Irajá é a meleira onde
os índios Tamoios colhiam o mel para seu consumo, isso antes que
seus ancestrais lhe tomassem as terras, assim como o senhor quer
fazer agora comigo, mas eu o ponho na cadeia com tamanco e tudo,
ouviu bem? -
Mas dona, eu não pretendo tomar-lhe o terreno, que comprei e
paguei a vista, só não sabia que no Brasil havia tanto ladrão.

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- Como não sabia? Se foi a coisa mais abundante que sua
gente trouxe para aqui.
- A senhora está a me ofender sem razão, pois não vim aqui
para brigar e sim propor um acordo justo e vantajoso para ambas as
partes.
-Todo velhaco e maneiroso. Finalmente, qual é a sua proposta
milagrosa?
- Vendo-lhe a casa, que é bem construída, a preço de banana e
vou viver em outro lugar.
- E quanto o senhor quer por essa arapuca?
- Quatro contos de réis, porque é para a senhora.
- Pago-lhe os quatro contos pela casa e o senhor paga-me oito
pelo terreno e mais as custas do processo, porque a justiça é como
algumas damas que andam por aí, e não trabalha de graça. A casa é
sua, mas o terreno é meu. Do contrário, pegue a sua casa e leve-a
para onde quiser e me deixe em paz. E bateu a porta na cara de
Manoel.

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CAPÍTULO V

Manoel saiu da casa da viúva pisando em brasas. Era bem
melhor tratar com o diabo do que com aquela megera, não havia
jeito. Procurou um advogado para tratar do caso. E disse para o
causídico: ”Doutor, passo-lhe uma procuração com plenos, amplos e
ilimitados poderes para agir como bem lhe convier em minha defesa,
contanto que afaste de mim aquela velha dos diabos, pois eu sofro de
neurose de guerra e receio perder a cabeça e ter de mata-la de uma
vez e acabar os meus dias de vida na prisão”. O advogado, por certo,
compreendeu a angústia do seu constituinte.
A justiça brasileira como uma tartaruga, firme mas devagar.
Por isso a questão do Manoel demorou muito para ser resolvida. Ele
cansado de esperar mudara-se para o centro, fora residir numa velha
pensão à Rua São José. E logo encontrou trabalho na remoção do
convento D’Ajuda, de onde é a Cinelândia, para a Praça Sete, em
Vila Isabel. Um belo dia fora procurado pelo advogado, que ao vê-lo
exclamou: ”Manoel, há dias que te procuro por toda parte para
entregar-te o dinheiro”. Ganhei a causa no Tribunal e a Justiça
mandou que a velha te pagasse os quatro contos de réis pela casa.
Deduzir deles duzentos mil réis para as custas do processo e mais
oitocentos mil dos meus honorários e aqui tens um cheque de três
mil contos de réis, que te entrego mediante recibo.
Manoel agradeceu ao advogado e disse: “Tudo bem, Doutor.
Do perdido a metade”. No mesmo dia um seu patrício que assistiu a
tudo, dissera-lhe: “Manoel, se eu tivesse três contos de réis em mãos
nunca mais seria pobre nem trabalharia mais para ninguém”.
- E o que farias tu então?
- Investiria tudo em aplicações financeiras. Compraria marco
alemão e esperaria a alta.
- Mas eu não sei fazer essa espécie de transação.
- É muito fácil. Se você quiser e confiar em mim eu o levarei
amanhã mesmo a uma casa bancária, na av. Rio Branco, cujo gerente
é meu velho amigo, que o ajudará a fazer o Investimento.

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Segundo ele mesmo me informou, comprar marco alemão é o melhor
negócio do momento para quem tem dinheiro assim como você.
- Então amanhã vamos dar uma chegadinha até lá e ver como
funciona a coisa.
Na manhã seguinte, quando o estabelecimento de crédito
abriu as portas, já os dois lusitanos estavam lá. Manoel observara o
tamanho da fila de compradores de marcos, gente de todas as classes
social disputava a compra da moeda alemã. Movimento que muito o
animou.
Apresentado pelo amigo, o gerente o tratou atenciosamente e
realizaram o negócio.
Nesse dia Manoel voltou à pensão carregado de papéis. Era
tanto marco alemão que dava para aterrar grande parte do Rio São
Francisco. Uma semana depois quando Manoel fazia a barba no
banheiro da pensão, chegou correndo o amigo, com um jornal
embaixo do braço para mostrar-lhe a alta que o marco tivera na
Bolsa de Valores. Era uma alta insignificante que não justificava
tamanho espalhafato, mesmo assim Manoel ficara contente e
convidara os amigos para uma chopada no próximo domingo na
Galeria Cruzeiro. À hora marcada todos estavam a postos para
festejarem o evento. De repente chega o garçom da Confeitaria
Colombo, trazendo uma bandeja com salgadinhos e seis galinhas
recheadas, encomendadas de véspera, para o tira gosto. Um penetra,
vendo tanta fartura grita! “Viva o Manoel dos Quintos”. Um outro
aparteia: “Das Quintas, sua besta”! Aí todos riam alegremente e
Manoel sente, em toda sua vida, um lampejo de felicidade.
Foi quando o alto-falante da casa anunciou: Atenção,
atenção. Notícia de última hora. A Alemanha acaba de decretar
bancarrota e extingue o seu papel moeda. E acrescenta,
ironicamente: O marco foi pra cucuia e a vaca de quem comprou foi
p’ro brejo.

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2ª PARTE

QUARENTA CONTOS DE RÉIS

CAPÍTULO I

Depois do enxurro de mulheres europeias para o Rio de
Janeiro, uma demonstração de que nesta vida nem tudo está perdido,
um dia apareceu uma francesa diferente na cor e na conduta, uma
morena tão linda que se tivesse vivido no tempo de Napoleão
Bonaparte, por certo que teria sido trocada por Josefina Baunier de
Lapegere, tais os seus encantos femininos. Hospedara-se essa Vênus
morena numa pensão no bairro do Catete. A rapaziada desocupada
ao vê-la chegar assim sozinha e tão bonita, caiu-lhe em cima como
um bando de gaviões em perseguição a uma rolinha solitária, mas
isso sem nenhum proveito para eles, pois ela sabia defender-se
inteligentemente, deixando todos eles com água na boca. Mas os
Dons Juans não desistiam e transformaram a velha pensão num rico
festival. Eram flores, presentes, jogos, bailes, finalmente tudo que
pudesse agradar-lhe, mas nada – Um certo dia, ela já cansada de
tanta bajulação, abriu o jogo e disse para eles; “Senhores! Eu vos
agradeço de todo coração esse afeto carinhoso que dos senhores
tenho recebido desde que aqui cheguei, sou muito grata por tudo”.
Meu nome é Janô, sou parisiense de nascimento e criada em Zurique,
na Suíça, o único país da Europa que não foi molestado pela guerra,
e isso talvez devido à sua fé cristã e o alto nível cultural de seu povo,
base fundamental da civilização humana. Não pretendo com isso
desfazer dos brasileiros que tão gentilmente me receberam no seu
seio! Apenas observo que os brasileiros são muito preocupados com
os prazeres sexuais, como se isso fosse a base fundamental da vida e
não um meio. Não sei se esse fenômeno genético é proveniente do
clima tropical ou da fusão das três raça que os torna assim tão viris e
insaciáveis em questão de sexo. Não respeitando nem mesmo a quem
não lhes dá confiança e não alimenta tal objetivo. Eu por exemplo,
não vim da Europa para aumentar a prostituição no Brasil. Não! O
meu objetivo é outro; é criar aqui uma empresa séria e rendosa para

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isso preciso de alguém que disponha de quarenta contos de réis para
ser meu sócio. No grupo dos conquistadores houve um silêncio
tumular: Quarenta contos de réis, a esse tempo, era muito dinheiro,
duas vezes o prêmio da Loteria Federal, portanto quem os tinha?.
Numa mesa ao lado dos que jogavam ou piruavam o pif-paf,
dois indivíduos alheios ao grupo conversavam sobre corridas de
cavalos. Um deles ouvindo a exposição da francesa levanta o braço e
dizem voz alta: “Eu topo a parada!” E acrescenta: “com a senhorita
eu faço qualquer negócio seja ele bom ou mal, ponho amanhã a sua
disposição a importância pedida”. Ela levanta-se de onde está, vai
até ele, beija-lhe carinhosamente a face e dia “Venha jantar comigo e
acertaremos a base do negócio, sim?” E sai sorrindo para o quarto.
Os conquistadores, mortos de inveja e de ciúme, terminam o jogo e
saem de mansinho, um para cada lado, com a cara no chão.

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A BOUTIQUE

CAPÍTULO II
Madame Janô, conforme se tornara conhecida no Rio de
Janeiro, após receber os quarenta contos de réis do seu associado,
viajara para Paris de onde voltou com um grande carregamento de
mercadorias selecionadas, que antes só entravam no Brasil através de
contrabando, modalidade irregular, mas conhecida e usada em todo o
mundo. Madame Janô, abriu uma luxuosa boutique à Rua do Passeio
esquia da Rua das Marrecas no bairro da Lapa. Foi, aliás, a primeira
Boutique do Rio de Janeiro, que logo se transformara num
verdadeiro acontecimento social. Madame Janô soubera empregar
bem aqueles quarenta contos de réis naquele negócio que prosperou
tanto e tão rapidamente de causar inveja aos seus concorrentes do
ramo. Por não haver ainda na época a Rádio e a TV, propaganda era
feita de boca em boca, contanto que a Boutique de Janô já era
conhecida em todo país. Muitas damas de São Paulo, de Minas
Gerais e de outros Estados vinham ao Rio conhecer a famosa
Boutique e nela comprarem alguma coisa. Era Janô uma mulher
dinâmica e inteligente. A ela devem as cariocas um grande serviço.
Foi ela, num rasgo de coragem e decisão, que abriu no Rio não só
uma Boutique como também o mercado de trabalho para à mulher
carioca, coisa que era até então privativo do sexo forte. A mulher era
destinada apenas, além da procriação, a prendas domésticas, um tabu
vindo de suas avós desde o Brasil Colônia. Foi Janô quem acabou
comesse tabu, dando mais liberdade a mulher moderna. Esse
mercado de trabalho feminino foi ampliado dez anos depois, pelas
Lojas Americanas, aberta em todo Brasil. Enquanto a Boutique de
Janô crescia velozmente e os sócios agora, de cama e mesa iam
gozando as delícias da vida. Eram vistos juntinhos aos domingos no
Jockey Club, nos cinemas, em passeios marítimos, chás dançantes e
em outros prazeres próprios para os ricos. Mas cuidado Madame
Janô. Cuidado, que as coisas boas desta vida são sempre de pouca
duração.
Jesus Cristo dissera que a felicidade não é deste mundo, e ele
sabia o que estava dizendo, portanto cuidado!

29
Página em branco...

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CARTA ANÔNIMA

CAPÍTULO III

Carta anônima é um meio irregular de se denunciar alguém
por baixo do pano sobre qualquer irregularidade praticada, mas que o
autor não assina para não ser identificado. E ela sempre existiu em
todos os tempos e em todas as partes. Aliás, dizem que Napoleão
Bonaparte, imperador da França, dava muito valor às cartas
anônimas que recebia. Dizia ele que elas continham sempre algo de
verdade, por isso que mandava averiguar cuidadosamente sempre
que algumas lhes chegassem às mãos. Muitos segredinhos de Estado
e de alcova ele conseguia saber através de carta anônima. O Brasil
como parte integrante desse velho mundo não poderia ficar isento a
essa modalidade de correspondência. Por isso que volta de 1923 o
chefe de polícia carioca também recebera uma carta anônima e por
sinal muito interessante. Convém ressaltar aqui que as cartas ditas
anônimas nem sempre o são na realidade, por vezes há confusão
neste sentido. Por exemplo, constou a ver D. João III, rei de
Portugal, por volta de 1528, recebido uma carta anônima,
aconselhando-o a mandar colonizar o Brasil, visto que potências
estrangeiras queriam dele se apossar. Nós pesquisamos o assunto e
nem aqui, nem em Portugal, algo que confirmasse essa versão. D.
João III recebera realmente uma carta nesse sentido, mas normal,
assinada por Pedro Fernandes Sardinha, na pensão Santa Barbara em
Paris, a pedido de Diogo Alves Correia, O “Caramurú”, que tinha
ido da Bahia a Paris, a convite, para assistir ao casamento de
Henrique II com Catarina de Médice, e se hospedara nessa pensão
que era subvencionada pelo rei de Portugal para hospedar os
estudantes lusos que cursavam na Sorbonne, visto que a
Universidade de Coimbra, fundada a 13 de agosto de 1290, por D.
Diniz, não dispunha ainda de algumas matérias exigidas para o
complemento do curso. Sardinha é o mesmo que pela Bula Papal de
21 de fevereiro de 1551, foi nomeado, pelo Papa Júlio III, primeiro
Bispo do Brasil. Como a esse tempo o Vaticano não conhecia bem a
Geografia do “Novo Mundo” em vez de nomeá-lo para a Bahia de

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Todos os Santos, nome que já era conhecido desde 01 de novembro
de 1501, quando lá chegaram Gaspar Lemos e Américo Vespúcio,
que a serviço de D. Manoel, exploravam a Costa do Brasil, nomeou-
o para São Salvador, lá nas Antilhas onde Colombo havia chegado
em 1492, por isso que a Capital da Bahia até anos atrás era São
Salvador. Depois desse remendo histórico voltamos à carta anônima
do chefe de polícia. A carta era longa e denunciava um certo cidadão
residente na Rua Honório, no Bairro do Méier, que vinha gastando
os tubos sem haver tirado a sorte grande, a ponto de humilhar a
vizinhança com seu poder econômico, exigindo, entre outras coisas
que todos se descobrissem à sua passagem e o tratassem de senhor, e
outro detalhes.

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O RELATÓRIO

CAPÍTULO IV

O chefe de polícia após ler e reler a carta anônima que
recebera e baseando-se no conceito de Fernando Magalhães a
caminho do Pacífico, de que “onde há fumaça há fogo”, designou um
de seus auxiliares para averiguar a denúncia e informá-lo por escrito.
O tempo corria depressa e a resposta não vinha. Certo dia porém,
recebeu ele um autêntico relatório que o estarreceu. Dizia o mesmo
que o cidadão acusado era preto e por demais orgulhoso no trato com
as pessoas, era funcionário público, contínuo da Caixa de
Amortização, mas não ia à repartição, pagando sempre alguém para
fazer seu serviço, que seu ordenado era de 400 mil réis mensais, que
apesar de ser na época um ordenado polpudo, visto que o pessoal da
Fazenda, por motivo não bem justificado, sempre ganhou mais que
seus colegas de outras repartições, mesmo assim não se justificava
aquele esbanjamento econômico que vinha praticando; que o dito
cidadão só vestia linho inglês, SS 120 T11, muito em moda para a
classe nobre, que suas vestes eram confeccionadas no Domerindo, na
Av. Rio Branco, o mais caro alfaiate de capital, que diariamente
almoçava no “Trianon” à Rua Senador Dantas, onde se serviam os
senadores e Deputados, por ser o mais luxuoso estabelecimento do
gênero e que só usavas bebidas estrangeiras e que as gorjetas dadas
aos garçons superavam em muito a despesa consumida, e que
acabava de importar um carro zero quilômetro, último tipo e pago à
vista, que seus vizinhos mais íntimos, a quem pedia cigarros e
dinheiro emprestado, agora torcia-lhes a cara, evitando até mesmo
cumprimenta-los; que aos sábados e domingos ia ao Jockey Club,
onde como os demais perdia fortunas, que durante a semana
frequentava o Cassino de Icaraí, sempre cercados de mulheres
louras, etc... etc...
O chefe de polícia de posse desse minucioso Relatório passou a agir
como era do seu dever. Determinou um outro policial para
acompanhar todos os passos do rico cidadão. Certa noite, na

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barca Niterói Rio que transportava os passageiros saídos do cassino
Icaraí, houve uma briga entre o pessoal e nela foi envolvido o
cidadão da Rua Honório, o policial que o vigiava não perdeu tempo,
deteve-o e levou-o a presença do Chefe de Polícia que de há muito
esperava por essa oportunidade. O Homenzinho já chegou à polícia
ameaçando Deus e a todo mundo.

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SOLUÇÃO DRÁSTICA
CAPÍTULO V

“Doutor! Acabo de sofrer uma violência sem precedente na
história. Fui preso por um dos auxiliares, apenas por tentar apartar
uma briga na barca em que viajava, só por isso e nada mais”. Assim
falou o rico cidadão da Rua Honório ao Chefe de Polícia. Este
aparentando calma, respondeu-lhe: “Mas o senhor não está preso”.
Pelo menos por enquanto. E quanto àquela briguinha lá na barca, foi
coisa de menos importância.
- E por que fui conduzido até aqui?
- O senhor foi convidado a vir aqui para colaborar comigo em
favor da lei e da justiça, como procede todo cidadão honesto e
civilizado deste país!
- Mesmo assim me oponho a essa espécie de convite, porque
viola as minhas imunidades de funcionário público que sou.
- Eu acho que o amigo está equivocado! Pois só existem duas
espécies de imunidades, a Diplomática e a Parlamentar, sendo que
esta última está suspensa em virtude do Estado de Sítio. Funcionário
público não goza de nenhuma imunidade, apenas o respeito por ser
um servidor da nação, assim mesmo quando cumpre com seus
deveres a contento, fazendo jus ao ordenado que recebe.
- Finalmente o que é que o senhor deseja de mim?
- Desejo que o amigo me mostre o “Mapa da Mina”. E
juntando a palavra ao ato, retira o chefe de polícia, de uma gaveta o
famoso Relatório e o lê, pausadamente depois pergunta-lhe: “o que o
senhor tem a dizer disto?”
- Digo que o pobre neste país não pode usar três camisas.
Tem que ter duas, uma no corpo outra na lavanderia, e se for preto
então aí esta desgraçado.
- Mas o senhor não veio aqui para fazer discurso e sim
esclarecer de uma vez por todas a origem desse dinheiro que anda
exibindo por aí.·.

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- O meu advogado lhe dará a resposta no tribunal, pois
pretendo processá-lo na forma da lei, por perseguição, abuso de
autoridade e violação dos direitos humanos.
Aí o Chefe de Polícia não se conteve, levanta-se, dá um
formidável murro na mesa e diz: “Ó seu descarado, você vem aqui
para ameaçar-me? Seu canalha, em vez de confessar as falcatruas e
bandalheiras que vem praticando a olhos vistos por aí, vem me fazer
ameaças. O que é que você esta pensando? Eu tenho F.M. no nome
mas não é sigla de placa de caminhão pra ninguém andar montado
não. Ouviu bem seu miserável? E abrindo a gaveta, dela retira uma
navalha velha toda enferrujada, com alguns dentes no fio, e diz para
os dois auxiliares que estão ao seu lado, levem esse negro filho da
puta lá para os fundos, e cape-o”.
?...
Cape-o sim! Que eu quero ver se o advogado dele coloca-lhe
direitinho os bagos no lugar.

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SURPRESA NO BAILE

CAPÍTULO VI

A Boutique de madame Janô, continuava de vento em popa,
o negócio prosperava dia a dia, e tão bem iam às coisas que o sócio
capitalista resolveu comemorar, com um grande baile, o primeiro
aniversário da chegada de Janô ao Brasil. E para isso tomou todas as
providências para a realização do evento. Alugou um salão no
Automóvel Club do Brasil, contratou um artista para decorá-lo a
capricho com as cores do Brasil e da França, contratou duas
orquestras famosas na época, encomendou os serviços de “Buffet”, a
Confeitaria Colombo, depois de tudo arranjado disse para ela:
”Querida! Você fica encarregada dos convites, neles devem constar
local, dia mês e hora e serão enviados aos nossos amigos e às altas
figuras sociais; nada de negro e nem de pés de chinelos em nossa
festa. Para cavalheiros, traje a rigor e para as damas, o cor de rosa.
Quero um baile à francesa que lembre Napoleão Bonaparte no
Trianon de Paris ao lado de Maria Luiza, sua última esposa”. À
hora marcada todos convidados compareceram no local e se
extasiaram ante a profusão de luzes e de cores que ornamentavam o
rico salão. O anfitrião, acompanhado por madame Janô, faz um
ligeiro discurso justificando a festa e conclui com um viva ao Brasil
e outro à França, no que é acompanhado por todos. E dá início a
festança.
Já passava da meia noite, no auge do prazer e da alegria, risos
e abraços por todo canto, quando três indivíduos, completamente
estranhos ao meio, chegaram à porta e tentaram entrar no salão,
sendo barrados pelo porteiro, pois além de não portarem convites,
não estavam em traje como mandava o figurino.
O que vinha à frente, demonstrando mais disposição, empurra
o porteiro para um lado e entra na “marra” com os dois
companheiros. O anfitrião percebendo a invasão dos três penetras vai
ao encontro e após um curto diálogo, convida-os a retirar-se
imediatamente, antes que ele chame a polícia. Um dos indivíduos
dissera-lhe: “Nós não queremos acabar com o baile, que alias está

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bonito, desejamos apenas falar com o diretor da Caixa de
Amortização, por acaso o senhor o viu?”
- O senhor esta a falar com ele em pessoa, sou eu em carne e
osso. E o que os senhores desejam de mim?
- Que sorte! Nós a procura-lo lá fora e o senhor aqui a se
divertir. Eu sou o 4º delegado auxiliar e esse aí é um oficial de
justiça, viemos aqui busca-lo preso.
?-
Por uma deferência toda especial, tem o senhor 10 minutos
para trocar de roupa para não entrar no xadrez de casaca e cartola.
Seja Breve! Sim?

38
A CONFISSÃO

CAPÍTULO VII

Ah! Meus amigos, navalha de polícia não faz graça para
ninguém rir.
O rico cidadão da Rua Honório, de quem já falamos em
Capítulo anterior, sentiu o fio da navalha da polícia roçar-lhe o pelo
pubiano, não teve jeito. O homenzinho abriu uma boca maior que a
da noite. Confessou tudo que sabia e até mesmo o que não sabia.
Chorou, pediu perdão de joelhos ao Chefe de polícia, toda aquela
arrogância de véspera se transformara na mais humilhante covardia,
disse que sempre fora honesto por tradição de família e crença
religiosa. Que tudo aconteceu por culpa exclusiva de seu chefe, que
o induziu ao mau caminho, por causa de um rabo de saia, que
realmente se tratava de uma criatura muito linda, dona de umas
curvas sensuais capaz de endoidar qualquer mortal do sexo forte, que
a vendo passar toda se remexendo como cobra na folhagem sentia
logo um desejo incontido de possuí-la, mas tudo isso não justificava
o deslize praticado perante o governo e a sociedade, pelo alto cargo
que exercia. Contou mais a origem de onde havia saído aqueles
quarenta contos de réis para a madame Janô fundar a tão falada
Boutique. E passou a descrever com detalhe como funcionava o
negócio. O seu chefe, o diretor da Caixa da Amortização mandava
mensalmente uma circular à rede bancária, requisitando as notas
velhas e dilaceradas para serem substituídas por novas, que uma vez
de posse dessas notas, trancava-se com ele num quarto para fazerem
os pacotes de uns cinco e dez contos de réis para serem incinerados,
só que em lugar das notas velhas punha nos pacotes recortes de
jornais, com uma nota real cobrindo por fora, para não causar
desconfiança ou suspeita, isso que os malandros chamam de “paco".
Depois era marcada uma solenidade com a presença de fiscais e de
outras autoridades que dia e hora marcada compareciam, à Praça EI
Dourado para assistirem à queima do dinheiro. Depois de contados
os pacotes e conferidos os valores era lida uma ata e assinada por
todos, então os pacotes eram jogados no forno crematório, após esta

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solenidade de caráter oficial cada um tomava seu destino. De volta a
Caixa da Amortização o diretor punha as notas recolhidas novamente
em circulação, dava ao declarante um terço da “moamba” e ficava
com o resto. E assim o dinheiro nunca acabava nos bolsos dos
meliantes.
O Chefe de Polícia fê-lo assinar as declarações em liberdade,
concluiu o processo e encaminhou à Justiça para os devidos fins.

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O DESFECHO

CAPÍTULO VIII

Dizem as más línguas que a Justiça brasileira não condena
ladrão de colarinho branco. Nós achamos que isso é uma Inverdade,
uma injustiça contra a justiça, porque nós pelo menos nesse curto
espaço de 60 anos, vimos um desses larápios ser condenado. E
acreditamos mesmo que se nos próximos 60 anos um outro ladrão de
colarinho branco for condena do, bastará para tapar a boca desses
maldizentes.
No caso em pauta a justiça agiu rápido e com desassombro,
não só demitiu a bem do serviço público o diretor da Caixa da
Amortização, como ainda condenou-o a seis meses de cadeia e que
só não entrou na Casa de Detenção porque à última hora o seu
advogado, um rábula muito ladino, exibiu um diploma de dentista
tirado não sei de onde, mas que dava ao seu constituinte o direito a
prisão especial. Com essa manobra muito bem engendrada à última
hora, o prisioneiro foi recolhido a uma sala do Quartel da Polícia
Militar, à Rua Evaristo da Veiga, 78 no bairro da Lapa. Nós na
ocasião éramos praça dessa velha Corporação e fomos encarregado
de montar guarda ao seu cubículo ao lado de um outro detento não
por roubo e sim por haver falado mal das Autoridades. Seu nome
Mário Rodrigues. Quanto ao primeiro detento, quando os amigos
souberam, através da imprensa, de sua prisão, como sempre
acontece, fugiram todos; só madame Janô não lhe Virou as costas,
numa demonstração evidente de que quando o amor é sincero está
presente mesmo na adversidade. Janô ia diariamente levar-lhe as
refeições, frutas, doces e outras iguarias, que nós às vezes para não
contrariarmos os insistentes rogos, também saboreávamos, pois
devido à longa convivência, já éramos todos amigos. E ele dizia
sempre - Seu praça! O senhor não acha que é crime queimar
dinheiro? Depois eu não roubei ninguém, apenas coloquei um pouco
mais de dinheiro em circulação, só por isso fui condenado, uma
grande injustiça, não acha? E quando eu sair daqui vou arranjar-lhe
uma boa nomeação.·.

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Saiu da prisão e nós nunca mais o vimos. Quanto a madame Janô, 52
anos depois a encontramos na Avenida Ipiranga em São Paulo, velha
mas ainda bonita, chamei-a mas ela não me reconheceu. O tempo
tudo vence, nós também não mais reconhecemos, muitos amigos de
ontem.

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COISAS QUE SÓ O AMOR JUSTIFICA

Alexandre José dos Santos, sargento do 21Q Batalhão de
caçadores, aquartelado em Recife - Pernambuco, não era um militar
de conduta muito exemplar que merecesse elogios dos seus
superiores, mas cumpria, como os demais, seus deveres profissionais
sem maiores alterações. Lá por volta de 1920 ou 21, foi designado
para garantir um pleito eleitoral no interior do Estado. Naqueles
tempos era comum quando havia uma desinteligência política entre
coronéis, e não dispor a polícia de meios suficientes para coibir a
questão, ser mandada força do exército, que o povo do interior
chamava de tropa de linha, para apaziguar os ânimos e por as coisas
em seus respectivos lugares.
Cumprida a missão e ao passar Alexandre de raspão por uma
aldeia de índios Tabajaras, enamorara-se de uma donzela da tribo,
sendo amplamente correspondido nesse amor à primeira vista. Como
ele estivesse de passagem e não pudesse demorar-se muito, pediu
autorização ao pai da menina para trazê-la para Recife onde se
casariam. O velho cacique se opôs a essa proposta, alegando que ele
não era índio e como branco não lhe merecia confiança para um
negócio de tal importância. Alexandre, que conhecia bem a história
de Pernambuco, argumentou que em tempos idos uma princesa
Tabajara, filha do chefe Japaraquira (Arco Verde) fora levada pelo
branco para Olinda onde fora batizada com o nome de Maria do
Espírito Santo Arcoverde, casando-se com o fidalgo Jerônimo de
Albuquerque, cunhado de D. Duarte Coelho Pereira, donatário da
Capitania de Pernambuco, sendo muito feliz e conseguindo a aliança
dos Tabajaras com colonizadores portugueses. Este fato era
conhecido da nação Tabajara por tradição, passada oralmente de
geração a geração, graças a isso pode Alexandre convencer o cacique
e trazer para Olinda a eleita do seu coração.
Em Olinda alugou um quartinho numa pensão e passou a
morar com a índia Tabajara. E quando esta lhe perguntava quando

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seria o casamento, ele com maior cara de pau, respondia-lhe que já
estavam casados, que casamento de branco era só aquilo, dormir
juntos. Depois de pouco mais de um ano de convivência começou
Alexandre a aborrecer-se com a companheira, que apesar de ser
bonita e carinhosa nunca se amoldara aos costumes dos civilizados,
criando-lhe alguns problemas. Tentou então uma separação,
devolvendo-a a sua aldeia, mas ela se opunha a qualquer conversa
neste sentido, dizendo ser casada e seu lugar era junto ao marido,
assim mandavam as Leis de Tupã, Deus de sua raça.
Neste impasse conjugal Alexandre querendo burlar as leis de
Tupã acha uma saída estratégica; conseguiu, sem que ela soubesse,
transferência para o Rio de Janeiro, sendo incluído num dos
Regimentos de Infantaria da Vila Militar, e embarcando no primeiro
barco rumo ao Sul. Como ele não aparecesse mais em casa ela foi
procurá-lo no quartel; -lá disseram que Alexandre tinha sido
transferido para o Rio de Janeiro e que não voltaria mais a
Pernambuco.
Ela então perguntou onde ficava esse Rio de Janeiro. Um
colega de Alexandre, com um talo de palha de coqueiro, desenha na
areia da praia um mapa e nele mostra-lhe onde o marido foi servir.
Ela se admira do tamanho do Brasil, agradece a aula de geografia e
sai sem nada dizer.
Diz um velho ditado que o boi solto lambe-se todo. Alexandre no
Rio de Janeiro, agora descompromissado e livre daquela índia
selvagem e inoportuna, sentia-se num mar de rosas dentro dessa
liberdade e com o tempo procurou conquistar novos amores. Quanto
à índia Tabajara, que abandonara em Recife, era apenas mais um
caso. Desde a chegada de Cabral às terras de Santa Cruz até os
nossos dias que o destino do índio tem sido sempre o mesmo, curtir
o sofrimento na carne e alma imposto pelo branco que
mentirosamente se diz civilizado.
Seis meses já eram passados quando o sargento Alexandre se
enamorava de uma moça em Realengo e já estava tudo pronto para o
casamento. Certo dia, ao regressar com seu regimento da instrução
nos Campos de Gericinó, teve uma surpresa desagradável. É que na
entrada do quartel estava a índia Tabajara à sua espera.

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Ninguém conseguira compreender até hoje como aquela
criatura chegara ao Rio de Janeiro em tão curto espaço de tempo,
transpondo dezenas de serras e rios caudalosos, enfrentando animais
ferozes e a agressividade das matas, algumas nunca dantes pisadas
por pé humano, sem um mapa ou ajuda de alguém que pudesse
auxilia-la nesta dura tarefa, tempo em que não havia ainda transporte
terrestre, nem sequer caminhos. Pois enquanto Gabriel Soares de
Sousa, saindo da Bahia, levou dois anos para chegar a São Paulo,
conforme deixou consignado no seu livro histórico “Tratado
Descritivo do Brasil”, a índia Tabajara percorrera mais de 600 léguas
de Recife ao Rio de Janeiro em apenas seis meses, atrás do ingrato
marido.
Coisas que só o amor justifica.

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OS 18 DO FORTE

CAPÍTULO ESPECIAL

Dizem que os velhos são livros vivos compostos pela vida.
Nem sempre interessantes, aliás. Uns tornam-se ilegíveis, com os
melhores capítulos ruídos pela traça da desmemoria. Outros, no
entanto, têm melhor sorte. Depois de cuidadosamente analisados
fazem renascer na consciência da maioria da juventude, ainda não
contaminada pelos vícios modernos, ensinamentos dignos de serem
aproveitados na conservação moral e cultural da sociedade como um
todo. Numa demonstração evidente de que nesta vida nem tudo está
perdido.
Vejamos aqui, por exemplo, no quadro dos acontecimentos
históricos, o que houve de mais interessante no último trimestre do
ano de 1918. Nesse período três fatos importantes abalaram o mundo
civilizado. O primeiro foi o fim da primeira grande guerra mundial.
O segundo a reunião dos QUATRO GRANDES, em Versalhes para
impor à Alemanha vencida os rigorosos termos da Paz. E por último,
o êxodo incontrolável de imigrantes europeus para os Estados
Unidos em busca de agasalhos e de comida.
A fome é um dos grandes males deste nosso Universo. Todo
animal com fome torna-se violento e perigoso. E para domá-lo é
preciso que se mate a quem o esteja matando: a fome.
Nesse período histórico o Brasil não poderia ficar incólume;
teve também que fazer alguma coisa digna de registro. Na política,
eleger um novo presidente, Dr. Francisco Rodrigues Alves; no
comércio, procurou desenvolver seus negócios com o exterior e
preparou-se na expectativa de melhores dias. A cidade do Rio de
Janeiro, então Capital da República, preparava-se festivamente para
receber a Esquadra de Guerra que regressava dos Altos Mares onde
com outras de outros países atuara em defesa das liberdades dos
povos civilizados.
No auge da alegria veio o luto. É que no dia 28 de dezembro
desse ano falecia o grande poeta Olavo Brás Martins dos Guimarães
Bilac.

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Foi justamente neste cenário histórico, pintado com cores
vivas e reais, que iniciamos o nosso Capítulo Especial. Capítulo este
que dedicamos à memória dos quatorze heróis, oficiais e praças, que
tombaram na madrugada de 05 de julho de 1922. Na revolução que
entrou na história como “OS 18 DO FORTE”. E o fazemos sob a
responsabilidade de quem foi peça vital desse bélico acontecimento.
E segundo consta, somos o último sobrevivente dos feridos naquela
noite trágica. E por vontade de Deus vivemos até agora para contar
às gerações novas as coisas do passado.
Tudo começou assim: Em 1918 foi eleito Presidente da
República o paulista de Guaratinguetá, Dr. Francisco Rodrigues
Alves, que deveria tomar posse no dia 15 de novembro desse ano,
mas por questão de saúde não pode fazê-lo, sendo então empossado
em seu lugar o Vice-presidente, Dr. Delfim Moreira da Costa
Ribeiro. Logo em janeiro seguinte falecia Rodrigues Alves. O
Congresso Nacional em obediência à Constituição de 1891,
convocou novas eleições para o preenchimento da vaga do
Presidente morto. A essas eleições concorreram como candidatos
dois Senadores da República, Rui Barbosa e Epitácio Pessoa, sendo
que o segundo se achava em Haia, representando o Brasil na
Conferência da Paz. E ao saber haver sido indicado a candidato
regressou imediatamente ao Brasil para dar início à sua campanha
eleitoral, que, aliás, foi curta e sem atropelo. E durante a campanha,
Epitácio, querendo mostrar ao mundo o seu alto espírito pacifista,
prometeu que se eleito fosse nomearia para as pastas Militares,
Marinha e Guerra, dois civis. Não havia ainda no Brasil Ministério
da Aeronáutica que só foi criado dez anos depois, por Getúlio
Vargas.
Em contra partida, um certo general do nosso Exército, numa
reunião no Clube Militar, também prometeu que se Epitácio fosse
eleito e tivesse a petulância de nomear um civil para a pasta da
Guerra, ele, general, iria cortar a rebenque a cara desse Ministro.
Houve em torno dessa declaração uma certa repercussão nos meios
políticos, com reflexos aceitáveis entre os militares. Realizadas as
eleições em abril desse ano e feita à apuração dos votos, ganhou
Epitácio, que foi empossado no dia 28 de julho de 1919.

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Dizem que os paraibanos são antes de tudo, valentes e
teimosos, não se intimidam face a nenhum perigo, nem deixam sem
resposta qualquer imposição ou ameaça. Assim foi na guerra
holandesa, na guerra do Paraguai, na revolução do “QUEBRA
QUILOS”, em 1874, surgida em Campina Grande e se espalhando
depois por todo Nordeste, tendo as forças governamentais, para
domina-la, que matar muita gente. Estão os paraibanos sempre
prontos para uma briga, em qualquer terreno; está no sangue da raça.
Aquela oposição sistemática de João Pessoa ao Presidente
Washington Luís reafirma o conceito popular.
Ora, Epitácio era paraibano e não podia desmentir as
tradições do seu povo, tão logo foi empossado cumpriu a promessa
de Campanha, nomeou para a Marinha o Dr. Raul Soares e para a
Guerra o Dr. João Pandiá Calógeras, ambos civis.
Dizem que os mineiros trabalham em silêncio. Nunca se sabe
ao certo a direção do pensamento de quem trabalha em silêncio,
tanto pode ser um estágio para uma prece como para uma vingança,
dependendo tudo das circunstâncias e do momento em que a ação
possa ser praticada. É um enigma para os observadores.
Calógeras era mineiro e sabia da promessa do general;
querendo testar-lhe a coragem, tão logo assumiu o Ministério, criou
por aviso ministerial o uso obrigatório do tal rebenque, pequeno
chicote com que se açoitam os cavalos, de modo que qualquer
oficial, de aspirante a general, que fosse encontrado na rua fardado e
sem aquela peça do uniforme, pegaria 30 dias de Estado Maior sem
direito a apelação. Como se vê, estava declarada a guerra fria entre
Governo e o Exército. Calógeras, embora haja mais tarde se
revelado, pelo seu trabalho e eficiência, um dos melhores ministros
militares deste século, não conseguira, contudo, curar a cicatriz
aberta com o seu revanchismo no seio das Forças Armadas. Nem
estreitar as relações amistosas entre estas e o governo, de modo que
quando Epitácio indicou o nome do governador de Minas Gerais, Dr.
Artur da Silva Bernardes, para substituí-lo no Poder, o Exército
colocou-se imediatamente do lado oposto, escolhendo para seu
candidato o velho professor Nilo Peçanha, mesmo sabendo que este
não tinha chance de vitória por falta de apoio popular. Durante a
campanha política, saiu publicada no CORREIO DA MANHÃ,
jornal de grande circulação, uma carta atribuída do Dr. Artur
49
Bernardes, que fazia alusões desairosas às Forças Armadas e
chamava o Marechal Hermes de Sargentão. Houve um verdadeiro
reboliço entre os militares.
O Marechal tomou a defesa sua e a dos seus subordinados.
Bernardes foi chamado ao Rio para as devidas explicações. Aqui
chegando foi muito mal recebido, carecendo da intervenção da
polícia para evitar o pior.
Foi então criada uma comissão de alto nível para estudar o
assunto. Esta, após muita pesquisa, declarou que a assinatura era
realmente falsa, nada tendo a ver com o governador de Minas. Mas
aí os ânimos já estavam à flor da pele e a imprensa política agitando
dos dois lados, como sempre acontece em vésperas de eleições. O
Presidente Epitácio, vendo que as coisas estavam descambando para
um lado perigoso, proibiu que os militares se manifestassem pela
imprensa sobre política. O Marechal Hermes desrespeitou essa
ordem e por isso foi preso. A reação não se fez esperar. Pesava em
favor do Marechal preso ser ele filho de outro Marechal, herói da
Guerra do Paraguai, Ernesto Hermes da Fonseca, e sobrinho de outro
Marechal, que proclamou a República, Manoel Deodoro da Fonseca,
ser ex-presidente da República e o único Marechal da ativa, em
tempo de paz, e ainda Presidente do Clube Militar. Portanto, ser
preso, com todas essas credenciais, por um civil, a coisa não passaria
sem uma reação imediata nos meios militares. O filho do Marechal,
capitão Euclides, que comandava o Forte de Copacabana, idealizou
fazer uma revolução para depor o Governo e soltar o pai. Passou a
aliciar os companheiros, especialmente os que cursaram com ele na
Escola de Guerra de Realengo, para esse objetivo. Não foi difícil
essa tarefa de adesão. Finalmente tudo pronto e marcado dia e hora
para a eclosão do movimento, um tiro de canhão 305 da Fortaleza
seria o sinal da largada! Acontece que o Governo, que vinha
acompanhando todos os passos dos revoltosos por intermédio dos
que lhe eram fiéis, tomou em tempo todas as providências cabíveis
sobre o assunto. Colocou as Forças de terra e mar em regime de
prontidão rigorosa. Dispôs a Polícia Militar do Distrito Federal, em
pontos estratégicos. A polícia, na época era constituída de cinco
Batalhões de Infantaria e um Regimento de Cavalaria, muito bem
armada e melhor adestrada, conservando ainda parte dos louros
conquistados com bravura nos campos do Paraguai, onde operara
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sob a denominação de 31 DE VOLUNTARIOS DA PATRIA,
impondo o respeito e a admiração das demais corporações. E sempre
pronta a abafar, em curto espaço de tempo, qualquer agressão à
Ordem Pública. Comandava-a o General José da Silva Pessoa, irmão
do presidente, portanto, tudo a favor do Governo. 04 de julho, às 18
horas, véspera do levante, o Presidente manda chamar a Palácio o
Capitão Euclides. Este ao receber a ordem dissera para os
companheiros. “Acho que o Presidente descobriu os nossos planos e
manda me chamar para me prender”. Tenente Siqueira Campos,
assuma o comando do Forte e fique atento, se até a meia-noite eu
não voltar dispare o canhão e dê início à revolução. Siqueira Campos
era o 1º Tenente mais antigo e ficou de relógio em punho à espera do
Capitão. Como este não voltou à hora combinada, cumpriu a sua
ordem.
Euclides ao chegar ao Catete teve uma surpresa com a qual
não contava. O Presidente o recebeu com toda cortesia e carinho.
Pediu aos auxiliares que o deixassem a sós com o Capitão. Tão logo
o Presidente fora atendido nessa exigência abriu o jogo.
Depois de conversar amistosamente por algum tempo com o
Capitão Euclides, vai direto ao assunto. Dissera: “Euclides, eu
sempre tive uma particular admiração e confiança por você, por isso
mandei colocá-lo no comando da mais importante Fortaleza do
Brasil”. Entretanto, lamento pesaroso vê-lo envolvido numa
conspiração audaciosa e sem sucesso como esta. Um ato de
verdadeira loucura que poderá arruinar a sua carreira, até agora tão
brilhante. Tenho aqui comigo, trazidos pelos seus próprios
companheiros, todos os planos dessa ousada conspiração, para a qual
já tomei todas as providências para sufoca-la no nascedouro e punir
os culpados. Quanto à prisão do seu estimado pai, foi apenas um ato
de rotina, em nada diminui o seu prestígio conquistado com força e
trabalho. Como Presidente que foi, prendeu também muita gente
importante na Revolução dos Marinheiros, onde alguns morreram
sufocados nos porões dos navios. Na repressão aos “Iluminados do
Contestado” não foi menor a sua ação. Entretanto não houve
nenhuma indisciplina nem ato atentatório ao “Poder”. Aí, fez o
presidente uma pausa, mandou servir café com biscoitos e requeijão

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da Paraíba. E, após, prosseguiu: - Eu gostaria que você, a bem do
Brasil, a quem servíamos com denodo e patriotismo, desistisse, com
seus companheiros, dessa ideia maluca de revolução, mormente
agora que acabo de convidar 54 Delegações Militares estrangeiras a
tomarem parte na grande parada de 07 de setembro próximo, por
ocasião dos festejos do 1º centenário da Independência do nosso
querido Brasil. Euclides, depois de ouvir com atenção as
ponderações do Presidente, caiu vencido. Mudou de ideia, resolveu
então mandar um portador com um recado ao tenente Siqueira
Campos para sustar o movimento até a sua volta ao Forte. Acontece
que do Palácio do Catete ao Forte de Copacabana é uma distância
considerável e o único meio de transporte na época era o bonde.
Este, depois das 22 horas, tinha o espaço entre um e outro ponto bem
maior, de modo que o portador não conseguiu alcançar a tempo a
Fortaleza e transmitir o recado ao Capitão a Siqueira Campos, vendo
que Euclides não voltou à hora marcada, cumpriu-lhe as ordens.
Disparou o famoso canhão 305, que quebrou as vidraças dos prédios
vizinhos. Abriu o portão principal da Fortaleza e deu saída a quem
quisesse sair, ficando apenas entre oficiais e praças dezessete
elementos que iniciaram a marcha para o Catete. O primeiro tiro foi
dentro do Palácio da Guerra, tendo um petardo arrancado uma
enorme lasca de uma velha e frondosa amendoeira, no pátio, em cuja
sombra os soldados se reuniam para o bate-papo e o descanso após o
almoço. O Ministro Calógeras transferiu imediatamente o seu
Ministério para o Quartel do Corpo de Bombeiros, do outro lado do
Campo de Santana. E para que o edifício não ficasse abandonado, foi
acionada uma Companhia de Fuzileiros Navais para guardá-lo.
Há essa hora, mais ou menos, passava pela rua N. S. de
Copacabana o tenente Siqueira Campos com o seu grupo a caminho
do Catete, quando saía de uma boate um seu velho amigo, que o
vendo pergunta-lhe: - Para onde vão vocês a estas horas da
madrugada? - Respondeu-lhe Siqueira: - Vamos ao Catete depor o
Presidente da República. - Então dê- me uma arma que eu também
vou! Entra no grupo. Na fotografia histórica é o único que está de
chapéu, chamava-se Corrêa.

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Enquanto isso acontecia o Ten. Cel. Péricles de Albuquerque,
comandante do 159 Regimento de Cavalaria, aquartelado na Vila
Militar, recebe um telefonema anônimo, avisando-o que os alunos
haviam saído de Realengo em uniforme de campanha e com todo
material de guerra em direção à Vila Militar. Ele tenta comunicar-se
com o Diretor da Escola, Cel. Xavier de Brito. Este não responde, é
que induzidos pelos instrutores, já havia aderido ao movimento
revolucionário, passando mesmo a comanda-lo na área. O Cel.
Péricles, compreendendo a gravidade da situação, tratou de organizar
a defesa do quartel, mandou iluminá-lo, ensilhar a cavalhada e
distribuir a munição ao pessoal. Encarregou o 1º tenente Armando de
Morais Ancora a fazer a segurança dos fundos do quartel e o capitão
Francisco Gil Castelo Branco guarnecer a frente e a ala esquerda, já
que o lado direito tinha o apoio do 1º Regimento de Artilharia
Pesada.
Há essa hora chegava Siqueira Campos ao túnel, onde é
barrado por uma força do 2º Batalhão da Polícia Militar. Houve aí
uma ligeira discussão em torno do passa não passa, quando um do
grupo atira e mata o sargento Godinho da mesma P. M. O oficial que
comandava a força, vendo o seu auxiliar cair morto, manda abrir
fogo e assim começou o tiroteio de parte a parte, cai morto mais um
cabo da P. M., na escuridão da noite.
Na Vila Militar o Cel. Péricles ordena o tenente José Teófilo
de Arruda a ir com seu pelotão a Realengo ver o que lá se passava e
informa-lo com a possível urgência. O tenente diz Pelotão, a cavalo
em direção a Realengo, marcha de estrada, e acrescenta: - anspeçada
157 e soldado 118 vão cem metros a frente como exploradores de
ponta. Por uma coincidência não muito plausível o 157 é o autor
deste capítulo.
A poucos metros do quartel, alguém grita à minha frente -
Quem vem lá?
Respondo. “Aqui é o 15 de Cavalaria”. “Avança a senha”, ordenou-
me ele. Ora, ninguém me havia dado senha nenhuma. Insisto:
“Aqui é o 15 de Cavalaria”.

53
“Cavalaria inimiga! Infantaria, fogo!” Foi sua ordem de comando.
Uma bala na cabeça arrancou-me de cima do cavalo e ao cair,
ferido, percebi que o meu companheiro fora também atingido. Tentei
levantar-me mas as pernas fraquejaram. Ainda ouvi o tenente
mandar o pelotão fazer meia volta a passo de carga. Senti um
zumbido estranho nos ouvidos e o mundo parecia rodar em torno de
mim. O sangue tapava-me a vista. Nisso, perdi os sentidos, só os
recobrando às 05:30 horas da manhã, isso porque a essa hora vinha
de Realengo uma carroça trazendo o pão para os Quartéis da Vila
Militar, o boi que puxava a carroça tinha uma campainha atada ao
pescoço que a identificava em toda a área. E quando a carroça
chegou perto de onde me encontrava alguém perguntou ao carrero:
O que levas aí? Ele respondeu: - Pão para a Vila Militar!
Então volta, que o pão da Vila hoje é bala. E a carroça voltou,
estava clareando o dia e como os alunos não puderam dominar a
Vila, iniciaram sobre ela o bombardeio de Artilharia, preferindo os
quartéis do 1º e 2º Regimentos de Infantaria, leais ao Governo. Estes
abandonaram os alojamentos e abrigaram-se nos matos da
vizinhança, tendo já alguns feridos. Às 06:00 horas o fogo
continuava de parte a parte com mais intensidade quando um tenente
do 1º Regimento de Artilharia Pesada descobriu um canhão dos
alunos posicionado no morro da Arvore Seca fazendo fogo sobre a
Vila Militar. Ele então ajustou bem a sua peça e, num certeiro tiro,
conseguiu quebrar o canhão dos alunos, que rolou morro abaixo
como um bólido. Foi aí que os alunos colocaram na ponta de um
bambu um lençol branco, pedindo paz. Tinham perdido apenas um
companheiro nessa luta formidável. Às 08:00 horas, uma carroça do
15º Regimento de Cavalaria foi nos buscar no campo da luta, eu
ferido e o soldado 118, Hipólito José dos Santos, morto. Ao chegar
ao Quartel já havia uma ambulância militar para nos conduzir ao H.
C. E. (Hospital Central do Exército). E ao passar a ambulância pelos
Regimentos de Infantaria recolheu o capitão Barbosa Lima, morto
em combate, e mais alguns feridos, um deles morreu na ambulância
a caminho do Hospital, onde soubemos que a revolução, que durou
06:00 horas, já havia terminado. Estavam agora a recolher os feridos

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e a contar os mortos, entre oficiais e praças morreram 12 e no dia
seguinte, mais 02, e no total 14. Tinha o Governo vencido com
relativa facilidade a intentona, conforme havia o Presidente avisado
ao capitão Euclides na conversa particular que com ele tivera. Última
página histórica da Revolução de 22, contada com todos os detalhes
para a posteridade.
Vencida a Revolução pelo Governo, foi o Presidente, no dia
seguinte, acompanhado de cinco Ministros de Estado, dos sete que
então havia, e dos Embaixadores da Inglaterra e da Argentina, visitar
os feridos no H. C. E. Á sua frente uma comissão de senhoras
religiosas distribuía santinhos e proferia palavras de fé. Logo após
entrou o Presidente com sua comitiva na 11ª enfermaria e mais o
Diretor do Hospital e um médico cirurgião, prestando todas as
informações sobre as operações feitas. Em frente ao leito 18 (o meu
era o 15) a comitiva parou e disse: - Senhor Presidente, eu sou
cirurgião há mais de 17 anos e nunca vi ou tive um caso assim. Este
paciente é um fuzileiro naval, estava ontem de guarda no portão do
Quartel em frente à Central do Brasil, quando uma granada decepou-
lhe o pé. Trazido ontem mesmo para aqui, foi operado e hoje mais
duas operações, todas feitas sem nenhuma espécie de anestesia, pois
o Hospital não estava preparado para esta catástrofe e ele não dá
sequer um gemido ou faz uma contração física, apenas uma lágrima
grossa como um pingo de vela lhe escorre pela face.
O Presidente entusiasmado com o heroísmo do moribundo
diz - “os senhores que derramaram o seu sangue em favor da
Legalidade e dos Poderes Constituídos da República, serão bem
recompensados”
- Pergunta-lhe o Ministro da Guerra
- serão promovidos Excelência?
- Todos, no posto mediato.
(Apesar desse curto espaço de 70 anos eu ainda não recebi a
promoção prometida).

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O Presidente abre uma carteira e dela retira uma nota de 50
mil réis e deposita nas mãos do naval, que lhe agradece com um
olhar triste e de despedida. O Presidente vai com sua comitiva à
enfermaria dos oficiais. Minutos após entra na enfermaria uma irmã
de caridade com uma bandeja com alguns copos de leite para quem
pudesse tomar. Ao chegar ao leito 18, este tinha falecido. Enquanto
ela foi providenciar a sua remoção para o necrotério quase que houve
uma outra revolução entre os doentes, uns sem pernas, outros sem
braços, caíram todos em cima do corpo do falecido à procura dos 50
mil réis. Dizia um que alguém os tinha roubado, outro argumentava
que o falecido sabendo que ia morrer, engolira a nota, um verdadeiro
reboliço, mas sem sucesso. A nota só foi encontrada na lavanderia,
pela irmã, no dia seguinte, para desespero de todos. Na enfermaria
dos oficiais, o cirurgião explicando ao Presidente o estado de cada
um, apontou para o tenente Newton, que estava virado para a parede,
e disse:
Este tenente chegou aqui com os intestinos de fora, operamo-
lo e espero que ele se recupere da saúde. Diz o Presidente “Tanto
heroísmo para uma luta inglória”. O tenente Newton Prado desvirou-
se da posição em que se encontrava, encara o Presidente e diz:
- “Por tua causa, filho da P. é que eu estou aqui”.
Rasga as costuras da barriga e dá o último suspiro.

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SOBRE O AUTOR:

Altino Gomes da Silva, Alagoano da cidade de Curipe. É
oficial reformado da P. M. do antigo Distrito Federal, professor por
São Paulo, onde lecionou História Geral e Geografia por muitos
anos. Tem trabalhos publicados sobre a língua tupi. Foi membro do
Instituto Genealógico Brasileiro, tendo recebido dessa entidade a
mais alta consideração, como professor emérito, ”A Cruz de ]oão
Ramalho'. Foi fundador do Clube dos Estados, diretor da Casa do
Poeta Lampião de Gás e, conselheiro da Sociedade Geográfica
Brasileira e Procurador Geral do Banco da América S. A. (Itaú hoje).
É detentor do Colar Cândido Mariano da Silva Rondon no grau de
Comendador.

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