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I- Conceitos introdutórios
1. O que é lógica?
Podemos usar a palavra “lógica” em dois sentidos
principais. Por um lado, usamos “lógica” quando queremos
nos referir a um sistema de inferência particular. Entenda-se
aqui “sistema de inferência” como uma estrutura na qual
encontramos um conjunto de regras para derivar proposi-
ções (conclusões) a partir de outras proposições (premissas)
de uma dada linguagem. Compreendida essa acepção,
verificar-se-á que, na mesma medida em que podemos
propor uma enorme quantidade de conjuntos de regras de
inferência e de linguagens para os mais variados propósitos,
assim também são inúmeras as lógicas que se podem
formular. Assim, falaremos, por exemplo, da “lógica de
Aristóteles”, da “lógica proposicional”, da “lógica de
predicados de primeira ordem”, da “lógica modal S5”, etc.
Ao leitor que tem agora o seu primeiro contato com a lógica
pode parecer surpreendente que possa haver várias lógicas.
Mas essa surpresa provavelmente é ocasionada pelo fato de
se esperar que a lógica deva representar o raciocínio correto.
Deve-se, porém, notar que, mesmo que fosse esse o escopo
da lógica, não há raciocínio correto de per si. Todo raciocínio
é contextual. Assim, por exemplo, o que se considera um
raciocínio correto na vida cotidiana não será necessariamente
considerado assim num contexto matemático ou filosófico.
Por outro lado, usamos “lógica” para nos referirmos ao
estudo dos diferentes sistemas de inferência. Este livro é,
portanto, um livro de lógica, porque ele pretende apresentar
um estudo acerca de alguns exemplares de lógicas
particulares. Um lógico pode empreender o estudo dos
sistemas de inferência de diferentes maneiras. É possível, por
exemplo, efetivar esse empreendimento trabalhando
maximamente dentro do formalismo matemático, sem dar
muita atenção às motivações filosóficas que estão ligadas ao
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desenvolvimento de uma lógica. Por outro lado, e essa é a


proposta deste livro, é possível investigar as propriedades de
uma lógica observando-as sobre um fundo de concepções
filosóficas de relevante interesse histórico e heurístico. Neste
livro, optamos pelo segundo tipo de abordagem e, com isso,
quisemos privilegiar o leitor que, por um lado, procura situar
o desenvolvimento da lógica dentro do quadro mais amplo
da história das idéias, e, por outro, deseja obter uma
compreensão mais profunda das conexões entre o
formalismo lógico e as discussões filosóficas acerca da
linguagem, da matemática, do conhecimento, da racionali-
dade etc.
Ainda podemos nos referir à lógica como o objeto de
estudo desse livro, e é nesse sentido que doravante usaremos
a palavra “lógica” na maioria das vezes. Dessa forma,
usamos “lógica” em um sentido intermediário entre os acima
aludidos. Quando mencionarmos “a lógica”, estaremos nos
referindo às lógicas estudadas nesse livro. No seguimento
dessa seção, esclareceremos esse conceito de lógica
explicitando os traços que o caracterizam de forma mais
completa, quais sejam, o caráter formal, a generalidade e a
normatividade.

1.1 Caráter formal, Generalidade e Normatividade

Nós sabemos algumas coisas, mas não sabemos tudo. A


lógica nos permite descobrir verdades desconhecidas
(teoremas) a partir de verdades conhecidas ou admitidas
(premissas ou axiomas). Assim, a lógica não nos dá o
conhecimento do que é verdadeiro, ela apenas indica o
caminho que nos leva de uma verdade à outra. O pai da
lógica contemporânea, Gottlob Frege (1848-1925), escreveu:
“Descobrir a verdade é tarefa de todas as ciências; cabe à
lógica discernir as leis da verdade” (Der Gedanke, 1918). E as
leis da verdade, na acepção clássica, seriam aquelas que nos
garantem que, caso haja verdade nas premissas, ela será
transmitida à conclusão. Nesse sentido, a lógica não é uma
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ciência criativa: costuma-se dizer que a lógica apenas revela o


que já está “implícito” nas premissas. É claro que nesta
forma de falar oculta-se bastante da metafísica aristotélica da
potência e ato: a conclusão estaria presente nas premissas em
potência. A conclusão de um argumento lógico nada mais é
que o resultado final de combinações e recombinações
regulamentadas de elementos primitivos.
Quando o lógico estabelece uma ligação entre premissas e
conclusão através das regras de inferência, ele está
fornecendo a representação formal de um raciocínio válido.
E um raciocínio válido, classicamente falando, é aquele em
que a verdade das premissas é condição suficiente para a
verdade da conclusão. Em outras palavras, a validade de um
raciocínio consiste na preservação da verdade das sentenças
que o compõem, o que depende exclusivamente da relação
entre as formas sintáticas destas. Quando usamos uma
linguagem formalizada, podemos perfeitamente saber se um
raciocínio é válido ou não, mesmo sem qualquer indicação
do significado das sentenças que o compõem. É neste
sentido que falamos de “lógica formal” para nos referirmos à
lógica dedutiva em geral.
Foi devido a este caráter formal que, desde Frege e
Russell, a lógica foi usada para codificar os raciocínios
matemáticos. Com efeito, grande parte dos raciocínios
matemáticos podem ser formalizados pela lógica (aqui
pensamos especificamente na lógica de primeira ordem), vale
dizer, traduzidos para a linguagem da lógica. As vantagens
desta tradução são evidentes. As provas matemáticas, uma
vez codificadas pela lógica, podem ser verificadas por um
processo mecânico efetivo. No início da década de trinta,
com o teorema da incompletude de Gödel, provou-se que a
lógica de primeira ordem é incapaz de formalizar toda a
matemática. Todavia, graças ao programa logicista de reduzir
matemática à lógica, trabalhamos hoje com uma lógica
construída em moldes matemáticos, que com razão
chamamos ainda de “lógica matemática”.
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Costuma-se distinguir a forma e o conteúdo do


raciocínio. A lógica é uma ciência formal, não conteudística.
Um exemplo pode ajudar a compreender esta diferença.
Tome-se a frase: “ontem choveu”. Dir-se-ia, com razão, que
para poder avaliar se esta afirmação é verdadeira ou falsa é
necessário conhecer o significado das expressões usadas
“ontem” e “choveu”. É claro que, além disso, algumas
condições empíricas são necessárias: que se tenha olhado
ontem pela janela, que se tenha memória do que aconteceu
ontem, etc. Estas condições empíricas não são necessárias se
a afirmação tivesse sido: “ontem choveu ou não choveu”,
pois neste caso poderíamos concluir que a afirmação é
verdadeira sem observação empírica alguma. Tal verdade é,
diriam os filósofos, uma verdade a priori. Mesmo assim,
parece ser necessário que se conheça o significado - o
conteúdo - das expressões usadas. Suponha-se, por outro
lado, que um alemão que mal fala português tenha a
desagradável mania de misturar as duas línguas, e que ele
diga: “ontem geregnet ou não geregnet”. O interessante e
surpreendente neste caso é: Mesmo um brasileiro que não
entende nenhuma palavra de alemão também poderia
afirmar com absoluta certeza que o que o alemão afirmou é
verdadeiro, o que quer que “geregnet” signifique: fazer sol,
chover ou nevar. Pois, independente do que x signifique,
uma afirmação como “ontem x ou não x” é sempre
verdadeira. Esta é, portanto, uma verdade que depende única
e exclusivamente da forma sintática da expressão que a
comunica, é uma verdade formal, uma verdade lógica, uma
tautologia.
Um outro exemplo de uma verdade lógica seria:

Se ocorre A, e sempre que ocorre A também ocorre B,


então ocorre B.

O que quer que A e B signifiquem, a simples análise da


forma da expressão garante a verdade da conclusão. Um
terceiro exemplo de uma verdade lógica é:
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Se todos os barbis são berbis, e todos os berbis são birbis,


então todos os barbis são birbis

O que quer que sejam barbis, berbis ou birbis, sejam eles


classes de animais, de partículas subatômicas, de substâncias
orgânicas, de grupos indígenas, a afirmação é sempre e
necessariamente verdadeira. A relação lógica representada
pelo argumento independe do conteúdo semântico deste, e a
conclusão de que todos os barbis são birbis independe de
sabermos a qual área do conhecimento as expressões
pertencem. Porque a lógica é uma ciência formal, o exemplo
acima pode ser aplicado na biologia:

Todos os primatas são mamíferos


Todos os humanos são primatas
Todos os humanos são mamíferos.

Se barbis, berbis e birbis fossem conjuntos de partículas


subatômicas, a afirmação pertenceria à física, se fossem
classes de substâncias orgânicas a afirmação pertenceria à
química, se fossem grupos indígenas, a afirmação pertenceria
à etnologia. Daí muitos dizerem que a lógica não é, a rigor,
uma ciência, mas sim uma disciplina propedêutica, uma
ciência anterior ou pressuposta por todas as ciências.
Distingue-se, em geral, dois tipos de disciplinas: as
descritivas e as normativas. As disciplinas descritivas têm a
pretensão de apresentar uma descrição de como as coisas
são na realidade; exemplos são a biologia, a psicologia, a
anatomia, a cosmologia, a física, a sociologia, etc. As
disciplinas normativas, também chamadas de prescritivas, não
dizem como as coisas são, mas sim como elas deveriam ser.
Disciplinas normativas são: o direito e a ética. A lógica
pertence a esta última classe, pois ela não descreve como os
seres humanos raciocinam em geral (isso seria tarefa da
psicologia cognitiva), mas instrui como eles deveriam
raciocinar, ou seja, construir argumentos válidos relativa-
mente a certos contextos argumentativos. Importa observar,
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no entanto, que o enorme desenvolvimento da lógica nas


últimas décadas tem trazido consigo a necessidade da
reflexão sobre a caracterização da lógica como disciplina
estritamente prescritiva. Alguns desenvolvimentos da lógica
contemporânea, como as lógicas epistêmicas ou as lógicas
não monotônicas, tentam justamente formalizar argumentos
plausíveis que ultrapassam os limites da validade tal como a
definimos anteriormente.
Uma conseqüência da normatividade da lógica é que ela
produz objetos algorítmicos ideais; as próprias normas que
ela prescreve constituem estes objetos. Um algoritmo, dito
de modo informal, é um conjunto de instruções que indicam
como certas tarefas devem ser realizadas. Exemplos de
algoritmos são: o procedimento geral para somar dois
números, a receita de um bolo, o conjunto de instruções que
seu computador interpreta para executar uma ação, os
passos para se fazer um origami etc. Para que um algoritmo
possa ser executado é preciso que ele possa se referir a
ações, a coisas que estarão envolvidas nestas ações e a
relações entre estas coisas. Por exemplo, se eu quiser criar
um algoritmo que mostre como empilhar caixas, eu preciso
me referir à ação de empilhar, às caixas e aos modos de
dispô-las. Cada uma dessas coisas a que eu me refiro é um
objeto algorítmico. Tais objetos serão processados com
maior simplicidade e eficiência se eles forem definidos de
modo formal, com clareza e sem ambigüidades. Agora
suponha que eu quisesse criar um algoritmo para verificar se
um raciocínio é válido ou não. Tal algoritmo será muito mais
eficiente se o raciocínio estiver vertido em um argumento
lógico formal, se seus elementos estiverem bem deter-
minados e as relações entre eles explicitadas. É isso que a
lógica provê e por isso os objetos algorítmos que ela produz
são ideais.
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1.2 Lógica e Filosofia

Existe uma longa e controversa discussão sobre a


problemática da relação entre filosofia e lógica. Duas
questões se destacam: (1) A lógica é parte da (uma disciplina
da) filosofia ou não? (2) Existe uma relação de dependência
mútua entre lógica e filosofia (ou o resto da filosofia, caso
lógica seja uma parte desta)?
Não há dúvida de que as duas ciências têm uma íntima
relação, e que, quando Aristóteles criou a lógica enquanto
disciplina (o que não quer dizer que as pessoas não
pensassem logicamente antes dele, mas que ele explicitou um
sistema de deduções corretas já praticadas), ela foi tratada
como parte da filosofia. Na tradição clássica, durante toda
idade média (Agostinho, Petrus Hispanus, Tomás de
Aquino) e no início da modernidade (Descartes, Spinoza,
Leibniz) a lógica continuou sendo tratada como parte
integrante e inseparável da filosofia. A partir de autores de
orientação mais matemática no início do século XIX como
Boole, de Morgan, e depois, no final do século como Hilbert
e Frege, a lógica começou a se desenvolver independente-
mente da filosofia. Para muitos, devido à sua universalidade,
a lógica é uma ciência até mesmo anterior à filosofia, a qual
sempre havia sido considerada uma scientia prima. Em todo
caso, a parte da filosofia que se ocupa com a lógica é
chamada filosofia da lógica e não deve ser confundida com a
lógica propriamente dita. Na filosofia da lógica pretende-se
tratar, filosoficamente, dos princípios e fundamentos da
lógica.
A relação inversa, da dependência da filosofia em relação
à lógica, está fora de qualquer controvérsia séria. Que a
filosofia dependa e faça necessariamente uso da lógica nunca
foi colocado em questão na longa história da filosofia,
embora os filósofos tenham diferido radicalmente sobre o
que é propriamente lógica (basta comparar neste sentido
Hegel e Frege). Todo argumento filosófico aceitável tem de
ser logicamente estruturado. Posto ser este um texto de
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introdução à lógica formal, estas questões fundamentais


referentes à relação da lógica com a filosofia não serão
tratadas.

2. Linguagem
Uma linguagem é um sistema simbólico, ou seja, um
sistema de representação. A definição de linguagem na lógica
é diferente, de certo modo mais simples, mais “matemática”,
do que a definição na lingüística. Uma determinada lingua-
gem L é definida, formalmente, por meio do par:

〈A, S〉

Toda linguagem é composta de um alfabeto A, que é o


conjunto de todos os símbolos elementares desta linguagem
e de regras sintáticas ou gramaticais S, que prescrevem como
esses símbolos devem ser combinados. Exemplos de
alfabetos são {a, b, c, ..., z}, {α, β, χ, ..., ζ}. Exemplos de
símbolos que costumam aparecer nos alfabetos das
linguagens lógicas são {¬, ∧, ∨, →, ∃, ∀, x, F, ‘}. As regras
sintáticas ou gramaticais determinam como expressões
complexas devem ser formadas a partir dos símbolos do
alfabeto, por exemplo: a casa é bela, ∀xFx, etc. Parte da
tarefa deste livro será ensinar ao leitor uma nova linguagem:
ao invés de escrevermos “todos os humanos são mortais”
escreveremos formalmente “∀x(Fx→Gx)”.
O leitor poderia sentir um certo incômodo neste
momento, afinal, para que complicar? Não seria muito mais
fácil manter a nossa linguagem usual, que já dominamos tão
bem, se elas dizem o mesmo? Deve-se perceber, no entanto,
que o sistema de escrita, o sistema gráfico ou simbólico
escolhido, pode influenciar em muito a capacidade de
raciocínio. Pense no seguinte exemplo: Nós podemos
representar um número por meio de palavras (como
“trezentos e vinte e sete”) ou por meio de numerais (“327”).
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Imagine, por um instante, que nós dispomos apenas de


palavras, mas não de numerais. Procure então calcular:

trezentos e vinte e sete


mais quatrocentos e setenta e dois

Escrito desta maneira, o cálculo se torna muito difícil.


Substitua, porém, agora as palavras pelos numerais corres-
pondentes:

327
+ 472

Escrito desta forma, qualquer pessoa instruída em


aritmética pode realizar facilmente a operação. A mera troca
de sinais pode ter, portanto, grande influência na nossa
capacidade de pensamento. Embora possa parecer
trabalhoso aprender uma nova linguagem escrita, a longo
prazo, isso se mostrará altamente eficiente para os
propósitos de raciocínio. Este insight talvez seja a maior lição
da filosofia analítica para a história da filosofia.
É importante distinguir linguagens naturais de linguagens
artificiais. Linguagens naturais surgiram espontaneamente ao
longo da história da humanidade, como o latim, o grego, o
chinês, o inglês e o português. Linguagens artificiais foram
criadas segundo um planejamento, com semântica e sintaxe
definidas arbitrariamente. Exemplos são: esperanto, as
linguagens de programação e a da lógica formal.
Na linguagem natural, o conjunto de seqüências de
símbolos que têm um valor semântico (“gato” e “casa” têm
um valor semântico, “brcad” não tem) é chamado vocabulário
da linguagem, e seus elementos vocábulos ou termos. Estes
termos são combinados de acordo com as regras sintáticas
para formar frases como “o gato está em casa”.
Transgredindo as regras sintáticas se obtém seqüências não
significativas, por exemplo: “casa o está em”. A gramática
das linguagens naturais, no entanto, não é rigorosa o
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suficiente para excluir combinações ilegítimas como “o


número 5 dorme furiosamente”, que são gramaticalmente
corretas, mas óbvios disparates lingüísticos.
Na linguagem artificial da lógica (especificamente da
lógica de primeira ordem), os símbolos que serão associados
a um valor semântico são os termos (nomes) e os
predicados. Este valor, porém, não é fixo; ele será atribuído
em cada caso por uma função chamada tecnicamente de
interpretação. As regras de sintaxe se dividirão em dois grupos:
a gramática dos termos, que estabelece quais seqüências de
símbolos são termos e quais não são, e a gramática das
fórmulas, que estabelece quais seqüências de símbolos são
fórmulas bem formadas e quais não são.
Leibniz é o precursor da idéia de uma língua universalis,
semelhante à matemática, que pudesse ser combinada com
um calculus ratiocinator, de modo que inferências lógicas
pudessem ser realizadas de maneira puramente mecânica.
Frege, com sua Conceitografia (Begriffsschrift) de 1879, é seu
primeiro realizador efetivo, e essa lógica é o tema principal
deste livro.
Na linguagem se distinguem três dimensões, respecti-
vamente estudadas por três disciplinas: a semântica, a sintaxe
e a pragmática. Grosso modo, pode ser dito: A semântica se
ocupa com a relação entre o discurso e o objeto do discurso,
a sintaxe com a relação dos símbolos entre si e a pragmática
com a relação da linguagem e os seus usuários. Neste livro a
pragmática não será estudada, apenas a sintaxe e a semântica,
sendo esta última entendida de um modo mais restrito: não a
relação com qualquer objeto, mas com uma estrutura ou um
modelo.
É fundamental distinguir duas categorias lingüísticas: (1)
expressões subsentenciais e (2) sentenças ou proposições. Classica-
mente define-se a sentença na linguagem natural como
unidade mínima de comunicação. Exemplos de sentenças
são:

A casa é pequena.
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Pedro canta.
João ama Maria.
Chove.
Irei ao cinema ou à praia.

Expressões subsentenciais não constituem sentenças


isoladamente. Seria insuficiente para caracterizar univoca-
mente expressões subsentenciais, dizer que elas são partes de
sentenças posto que sentenças também podem ser partes de
sentenças. A sentença “Pedro canta” é uma parte da
sentença “Pedro canta enquanto Maria toca piano”, mas não
é uma expressão subsentencial. Exemplos de expressões
subsentenciais são: casa, pequena, canta, ou, muito, o
presidente do Brasil, ao cinema ou.
Há uma noção ingênua de que as sentenças são mais
complexas que as expressões subsentenciais. Mas a
complexidade não é um bom critério de distinção. A
expressão subsentencial

o preço do corte de cabelo do irmão do atual presidente


do Brasil

é muito mais complexa que a sentença

Chove.

Um critério de distinção adequado correspondente na


lógica só será possível depois de definirmos algumas noções
elementares no capítulo sobre lógica proposicional. Um
critério natural de distinção entre componentes subsenten-
ciais e sentenças é a aplicabilidade do conceito de verdade:
expressões subsentenciais não são verdadeiras nem falsas,
sentenças são (ou podem ser) verdadeiras ou falsas. Mas nem
todas as sentenças são verdadeiras ou falsas; é preciso
distinguir:

Sentenças interrogativas (p.ex.: Quem fechou a porta?)


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Sentenças imperativas (p.ex.: Pedro, faça o favor de


fechar a porta!)
Sentenças interjectivas (p.ex.: Oxalá, Pedro feche a
porta!)
Sentenças declarativas (p.ex.: Pedro fechou a porta.)

Apenas as últimas são verdadeiras ou falsas. A lógica se


ocupa apenas com as sentenças declarativas (também
designadas de afirmativas, assertivas ou enunciados).
Filosoficamente seria importante distinguir sentenças de
proposições, mas no contexto deste livro, os termos “frase”,
“sentença”, “proposição” e “enunciado” serão usados
muitas vezes como sinônimos.
É importante também distinguir entre linguagem e
metalinguagem. A primeira é composta de elementos através
dos quais nos referimos aos fatos empíricos, às ficções, aos
pensamentos, aos sentimentos, enfim, a tudo o que pode ser
descrito. Já a segunda é o meio pelo qual nos referimos aos
elementos da própria linguagem. Em geral, a metalinguagem
é constituída de letras gregas, que são usadas para
representar os símbolos da linguagem de forma genérica. Por
exemplo, a frase “p→q é verdadeira” assevera a verdade de
uma sentença particular; em contrapartida, a frase “α→β é
verdadeira” assevera a verdade de toda uma classe de
sentenças, todas as do tipo α→β, e.g., p→q, (p∨q)→r etc.

3. Verdade
A lógica clássica é bivalente, ou seja, ela admite apenas
dois valores de verdade: a verdade e a falsidade (ou o verdadeiro
e o falso). A expressão “valor de verdade” é um termo
técnico, e pode causar uma certa estranheza quando dizemos
que a falsidade seja um valor de verdade. O caso aqui é
análogo ao da expressão “saldo”: ter um saldo no banco
parece motivo de alegria, mas quando você descobre que
tem um saldo negativo, você não se alegra (ou será que
sim?). Da mesma forma, o valor de verdade pode ser
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“positivo” (verdade) ou “negativo” (falsidade). Logo,


quando se diz que algo (uma afirmação, proposição,
sentença, teoria, etc) tem um valor de verdade, diz-se com
isto que este algo é verdadeiro ou falso. Verdade e falsidade
se comportam, pelo menos classicamente, como noções
excludentes (ou seja, vale o princípio de não contradição) e
complementares: quando uma proposição não é verdadeira,
ela é falsa, e vice-versa. Como se diria na escolástica: tertium
non datur (não há uma terceira alternativa). Existem, porém,
hoje lógicas alternativas, ditas polivalentes, que admitem
mais do que dois valores de verdade, p.ex: verdadeiro, falso e
indeterminado.
Na distinção entre sentenças e expressões subsentenciais
já foi utilizado o conceito de verdade de modo intuitivo. Em
geral as pessoas têm uma idéia intuitiva do que seja verdade.
É importante diferenciar duas questões centrais relativas à
verdade: a definição (o que é a verdade) e a determinação de
um critério de verdade (como decidir se uma proposição é
verdadeira ou falsa). Diferentes concepções de verdade
foram propostas na história da filosofia, e toda discussão a
seu respeito é altamente complexa. Mesmo assim, para dar
uma visão global ao leitor que talvez ainda nem tenha tido
oportunidade de conhecer o assunto, apresentamos um
esboço caricatural. As principais concepções de verdade
apresentadas foram:

Teoria da correspondência: Classicamente se compreende


como verdade a correspondência entre juízo/pensamento/frase/
proposição e realidade (veritas est adaequatio intellectus ad rem) A
teoria da correspondência foi defendida por vários autores,
como: Aristóteles, Tomás de Aquino, Kant, Frege, Russell,
Wittgenstein e, num certo sentido, Tarski. A teoria semântica
de Tarski goza de ampla aceitação entre os lógicos. Segundo
essa teoria, verdade é um conceito da metalinguagem (da
linguagem que trata da própria linguagem), aplicável a frases
declarativas: A frase “a neve é branca” é verdadeira se e
somente se a neve for branca.
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Teoria coerentista: Foi defendida, em geral, por autores de


tendência holista, como Hegel, Bradley, Neurath e Rescher.
Ela parte da idéia de que proposições não podem ser
confrontadas direta e isoladamente com a realidade. Nós só
podemos confrontá-las com a realidade em conexão com
outras proposições. E assim, uma proposição é verdadeira
quando ela é compatível com o conjunto de outras
proposições aceitas num sistema. Só um todo sistemático e
completo – uma teoria - pode ser considerado, portanto,
verdadeiro.
Teoria pragmática: Foi defendida por filósofos como
Charles S. Peirce, William James e John Dewey. Segundo ela,
uma teoria é verdadeira quando ela leva de alguma forma ao
sucesso. Disto decorre que a verdade é historicamente
relativa. James escreve em O conceito de verdade do pragmatismo
(1975): “Verdade é, para dizê-lo de modo conciso, nada mais
que aquilo que nos leva adiante no caminho do pensar, assim
como o correto é aquilo que nos leva adiante no nosso
comportamento”.
Teoria do consenso: É uma teoria relativamente nova,
defendida freqüentemente por muitos autores com uma
perspectiva mais sócio-política. Segunda a teoria do
consenso discursivo de Jürgen Habermas, uma teoria é
verdadeira quando ela é aceita pela maioria racional de uma
determinada comunidade ideal de comunicação.
Teoria da redundância: Foi defendida explicitamente por
Ramsey e, em algumas passagens, por Frege. Segundo tal
teoria, considerada uma teoria deflacionista, o predicado
“verdade” não diz nada, pois dizer “a neve é branca” e dizer
“é verdade que a neve é branca” é exatamente a mesma
coisa. A teoria performativa de Strawson é uma variante
desta linha: dizer que p é verdadeiro é apenas endossar a
afirmação de p, tendo portanto um efeito meramente
performático.
Além das diferentes concepções a respeito do que seja
verdade, existe também uma classificação de diferentes tipos
de verdade. Em geral, quando falamos em verdades,
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pensamos em verdades contingentes, ou seja, verdades que


poderiam ser falsas se o mundo fosse diferente, p.ex.
“Brasília é a atual capital do Brasil”. Esta afirmação poderia
ser falsa, p.ex. se o governo tivesse tomado outra decisão.
Mas existem alguns tipos de verdade que parecem ter um
estatuto mais forte, a saber:
Verdade tautológica: Um enunciado é tautológico quando
ele é verdadeiro graças à sua forma sintática. Por exemplo:
“Se chover amanhã, choverá amanhã” ou “ou chove amanhã
ou não chove amanhã”. Uma verdade tautológica é uma
verdade lógica, e uma verdade não tautológica é uma
verdade não lógica.
Verdade analítica: Um enunciado é analiticamente verda-
deiro, diz a tradição kantiana, quando o conceito do
predicado está contido no conceito do sujeito. Hoje se fala
mais em termos de significados lingüísticos: Uma verdade
analítica é determinada simplesmente pelo significado das
palavras usadas. Por exemplo: “Todo solteiro não é casado”.
Uma verdade não analítica é chamada “sintética”.
Verdade a priori: Um enunciado é verdadeiro a priori
quando a sua verificação independe da observação empírica.
Por exemplo: “se a bola é completamente vermelha, ela não
é azul”. Uma verdade não apriorística é chamada “a
posteriori”.
Verdade necessária: Segundo Duns Scottus e Leibniz, uma
verdade é necessária quando sua negação é contraditória. Por
exemplo: “o círculo não é quadrado”. Segundo Kripke
(Naming and Necessity, 1972) existem verdades necessárias,
que não são a priori: “Túlio é Cícero”. Uma verdade não
necessária é chamada “contingente”.
É importante perceber que esta classificação aponta para
diferentes aspectos da verdade: A verdade tautológica é uma
verdade sintática ou lógica, a verdade analítica é uma verdade
semântica, a distinção a priori - a posteriori tem a ver com o
estatuto epistêmico, e a distinção necessário-contingente tem
a ver com o estatuto metafísico (ou lógico-modal). Observe-
se que cada um destes modos de distinguir verdades
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corresponde a uma disciplina da filosofia: lógica (tautologia),


filosofia da linguagem (analítica), teoria do conhecimento (a
priori) e metafísica (necessária). A relação entre estas
categorias, p.ex. se toda verdade a priori é também analítica,
é motivo de grande discussão na filosofia.

4. Definições
Em todas as ciências existem definições. A palavra
“definir” significa “delimitar”, estabelecer critérios claros
para o uso de um termo ou expressão. Definir um termo
significa reduzi-lo a (ou explicitá-lo com) outros termos
conhecidos. Em geral, uma definição pode ser compreendida
como a afirmação de uma igualdade. Observe-se a definição
clássica: o ser humano é um animal racional. Formalmente,
definições são apresentadas da seguinte forma:

Ser humano =def. animal racional

A expressão que aparece à esquerda do sinal de igual é


chamada definiendum (do latim: aquilo que se quer definir), a
expressão à direita do sinal de igualdade é chamada definiens
(do latim: aquilo que define). O sinal de igualdade entre as
duas expressões com seu índice “def.” indica que as duas
expressões podem ser consideradas equivalentes, no sentido
de terem o mesmo significado. O definiens estabelece o
significado do definiendum. Nesta definição a expressão “ser
humano” é definida com recurso à expressão “animal
racional”. Alguém que não conhece o significado da
expressão “homem” pode aprender, assim, o seu significado,
desde que ele conheça o significado dos termos “animal” e
“racional”.
Nesta concepção clássica de definição está implícita a
noção aristotélica extensionalista de conceitos, representada
pela árvore porfiriana. Nesta concepção, o definiens contém
sempre um conceito geral (genus: “animal”), o qual inclui o
definiendum (homem) e uma qualidade específica (racional)
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que delimita o definiendum em relação aos outros conceitos. O


homem é um tipo de animal, e o que o distingue (a sua
differentia specifica) dos outros animais (cavalos, ratos, etc) é a
sua racionalidade.
Uma definição explícita bem sucedida tem de satisfazer a
três requisitos:

(1) Permutabilidade (em contextos extensionais), ou


eliminabilidade. O definiendum e o definiens podem ser
substituídos em qualquer contexto (extensional), sem troca
do valor de verdade (princípio de substituição salva veritate).
Exemplo: Muitos seres humanos tocam piano ⇒ Muitos
animais racionais tocam piano.

(2) Não circularidade. O definiens não deve pressupor o


significado do definiendum. Uma definição como:

cajueiro =def. a árvore que produz o fruto do cajueiro

seria um caso claro de circularidade, pois o conhecimento do


significado do termo definido é pressuposto na definição.
Além disso, é possível que duas definições que não são
circulares por si só o sejam numa teoria, p.ex. as definições:

reta =def. a curva mais curta entre dois pontos


ponto =def. interseção de duas retas concorrentes

Embora haja uma mútua dependência entre as definições,


neste caso a circularidade é inevitável e não compromete a
eficiência da teoria.

(3) Não redundância. O definiens não deve conter


nenhuma informação supérflua. Exemplo: na definição

ser humano =def. animal racional que pode usar óculos


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a expressão “pode usar óculos” não é, a rigor, falsa, mas


supérflua.

A concepção clássica de definição não é a única possível.


A teoria das definições é atualmente um tema amplo, e não é
possível tratá-la aqui com detalhe. O único intuito de incluir
esta rápida incursão num curso introdutório à lógica formal
é porque conceitos lógicos também são introduzidos por
meio de definições. Por isso é importante apontar para
alguns tipos de definições:

1) Definições explícitas: São definições expressas em uma


fórmula de equivalência, onde um termo desconhecido
(definiendum) é definido com recurso a termos já conhecidos
(definiens). Essas definições sempre satisfazem os requisitos
mencionados. Um exemplo seria a definição do ser humano
acima.

2) Definições implícitas. São definições não explícitas, ou seja,


são definições que não podem ser expressas em uma
sentença, e encontram-se subentendidas em um contexto.
Na geometria axiomática euclidiana, por exemplo, aceita-se
alguns conceitos que somente a fortiori serão esclarecidos,
ou seja, eles são introduzidos axiomaticamente, e
esclarecidos dentro do seu contexto de uso no sistema. Veja-
se, por exemplo, as definições de ponto e reta acima.

3) Definições operacionais. São definições que ocorrem com


freqüência em contextos empíricos. Elas estipulam regras de
procedimento empírico para se descobrir se uma determi-
nada coisa tem uma propriedade ou não. Propriedades
disposicionais, como por exemplo “combustível” ou “solú-
vel em água” são definidas operacionalmente: “Coloque-se x
na água, se x se dissolver, então x é solúvel em água.”

4) Definições ostensivas. É claro que não pode haver somente


definições explícitas, pois se elas recorrem a conceitos
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anteriormente conhecidos, esses conceitos já precisam ser


definidos de alguma forma. Uma cadeia de definições
explícitas seria infinita. Por isso é preciso haver termos que
não são definidos explicitamente. Os termos mais primitivos
da linguagem são definidos ostensivamente, ou seja, por
meio do ato de apontar: “vermelho é essa cor aqui” (quando
a mãe ensina a criança a falar).

5) Definições indutivas: São definições muito importantes para a


lógica e a metamatemática. Uma definição indutiva define
uma seqüência de elementos gerados a partir de um
conjunto inicial pela aplicação reiterada de uma ou mais
funções. Por exemplo, o conjunto dos números naturais foi
definido por Leibniz e Peano da seguinte maneira (considere
que “s”=sucessor e “0”= elemento inicial):

Nº. def. de Leibniz def. de Peano


1 = 1 s(0)
2 = 1+ 1 ss(0)
3 = 1+ 1+ 1 sss(0)
etc...

6) Definições extensionais e intensionais: Definições extensionais


são definições por meio de listagem completa. Definições
intensionais definem por meio de uma propriedade
identificadora. Se A = {Huguinho, Zezinho e Luizinho},
esta é uma definição extensional de A, e “os sobrinhos do
pato Donald” é uma definição intensional de A.

É importante ainda diferenciar definições nominais de


definições reais. Definições nominais são estipulações
arbitrárias, e por isso nem verdadeiras nem falsas. Por
exemplo: ao invés de falar em “rosas brancas” e “rosas
vermelhas” poder-se-ia arbitrariamente chamar rosas brancas
de “brarrosas” e rosas vermelhas de “verrosas”. Definições
reais, por outro lado, pretendem ser mais do que uma
simples estipulação arbitrária. A filosofia grega, em sua
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tentativa de definir conceitos como “belo”, “bom”,


“virtude”, não pretendia simplesmente estipular, mas sim
descobrir a essência de alguma coisa. Esta distinção é
importante para entender que definições parecem ser, por
um lado triviais, por outro, grandes descobertas. A definição

água =def. H2O

foi uma importante descoberta da química, mas uma vez


estabelecido isto, é trivial dizer que se água mata a sede, H2O
mata a sede.

5. Indução e Dedução
Distinguem-se dois tipos de inferências: as indutivas e as
dedutivas. Na dedução, a conclusão é conseqüência necessária
das premissas e, na indução, a conclusão é conseqüência
plausível das premissas. Em outras palavras, se P é inferido
dedutivamente do conjunto de premissas Γ, podemos dizer
que sempre que temos Γ, temos P, per contra, se a inferência
é indutiva, só temos o direito de dizer que, geralmente, quando
temos Γ, temos P. O raciocínio representado por uma
dedução é infalível, ao passo que o raciocínio representado
por uma indução, por mais sensato que pareça, é refutável.
Por exemplo

Premissa 1: Todos os homens são mortais


Premissa 2: Sócrates é um homem
Conclusão: Sócrates é mortal

representa um caso clássico de inferência dedutiva.


Nenhuma nova premissa que venha a ser incluída no
argumento pode refutar a conclusão de que Sócrates é
mortal. Devido a tal característica, diz-se no jargão técnico
da lógica que a dedução é monotônica
Já no raciocínio abaixo notamos algo diferente:
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Premissa 1: Pedro é homem e mortal.


Premissa 2: João é homem e mortal.
Premissa 3: Sócrates é homem e mortal.
Premissa 4: Judas é homem e mortal.
...
Premissa n:... ________
Conclusão: Todos os homens são mortais

Neste exemplo, está claro que a conclusão não está


necessariamente garantida pelas premissas. Mesmo que
todos os homens tenham morrido até hoje, não é
logicamente assegurado que todos sempre morrerão
(lembre-se de Enoque e Elias). O status lógico e epistemo-
lógico da indução é ponto de grande controvérsia. Claro é
apenas que seu grau de certeza é muito menor que o da
dedução. Além disso, é importante esclarecer que n deve ter
um valor suficiente para garantir a evidência, o que vai
depender de cada situação. Se em cinco rodadas uma roleta
cai no mesmo resultado, você pode concluir legitimamente
que o resultado sempre será o mesmo. Por outro lado, se
descobriu que pombas, galinhas, patos, perus e canários têm
penas, isso ainda não constitui base suficiente para concluir
que todas as aves têm penas.