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RESENHAS REVIEWS 1131

te de modo indissociável da busca de garantia dos di- Poder das Mães; (8) A Família do Futuro. Nessas se-
reitos fundamentais da pessoa humana. Ouvir os ido- ções há diálogo com autores importantes, constando
sos e compreender melhor o processo de construção na primeira, por exemplo, a abordagem de Lévi-
de uma identidade coletiva com maior expressão po- Strauss sobre família, parentesco, sendo destacada a
lítica, já demonstrado com o movimento dos aposen- idéia desse autor de que a vida familiar se apresenta
tados, é uma interrogação a ser explorada. Em tem- em praticamente todas as sociedades humanas, mes-
pos de Estatuto do Idoso, mais que nunca, a partici- mo que sob distintas configurações. A respeito do fe-
pação poderá ser o caminho para minimizar os riscos nômeno familiar, essa seção considera possíveis duas
de se consagrar a velha e incômoda distância entre abordagens: a primeira, sociológica, histórica ou psi-
direitos que se consagram em leis, e sua expressão no canalítica, privilegiando a verticalidade de filiações,
cotidiano da população brasileira. gerações, continuidades, transmissão de saberes; en-
quanto a outra, mais antropológica, privilegia a hori-
Mônica de Assis zontalidade estrutural, comparando alianças: cada
Universidade do Estado do Rio de Janeiro,
família, fruto do estilhaçamento de duas outras famí-
Rio de Janeiro, Brasil.
lias. Nesta discussão, há ênfase na proibição do in-
cesto, como princípio fundamental, assegurador da
passagem da natureza à cultura, uma função simbó-
A FAMÍLIA EM DESORDEM. Elizabeth Roudinesco. lica, fato de cultura e de linguagem, que diferencia
Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003. 199 pp. mundo humano/ mundo animal (observando a qua-
ISBN: 85-71107-00-9 se invariabilidade da proibição do incesto, entre
mãe/pai e filhos, considerando variações). Bem mar-
Estudos marcantes, a respeito da temática da família, cada é a concepção da família como instituição hu-
ampliaram-se desde a modernidade até o momento mana duplamente universal, associação de um fato
contemporâneo, trabalhando sobre questões de ele- de cultura e um fato da natureza – o da ordem do bio-
vada importância tendendo, em geral, para a priori- lógico na reprodução – sendo assinalado que a pró-
dade de seu campo – histórico, antropológico-social, pria palavra família encerra diferentes realidades,
subjetivo; mas, na verdade, muitos deles desenvol- tendo chegado ao modelo nuclear, do Ocidente, após
vem correlações interdisciplinares, constituindo ri- longa evolução (séc. XVI ao XVIII). Três grandes pe-
cas articulações. Vemos este perfil na presente pro- ríodos são considerados: 1 o – a família tradicional
dução, o que lhe confere valor especial, ao oferecer a (sob a ordem do mundo imutável e submetida à au-
vários campos subsídios atualizados, tendo um al- toridade patriarcal, Deus Pai); 2o – a família dita “mo-
cance precípuo a respeito do campo da saúde (e da derna”, de lógica afetiva, sob divisão de poderes, en-
saúde pública, por sua extensão social), ao contem- tre Estado e pais; 3o – a família dita “contemporânea”,
plar uma compreensão profunda das complexas ou “pós-moderna”, valorizadora da vida privada, e na
questões familiares na atualidade – olhando antece- complexidade com a autoridade, de transmissão ca-
dências, desdobramentos – e situando os planos in- da vez mais problemática (com rupturas e recompo-
dissociáveis do social e físico/mental (ou, melhor di- sições conjugais), imagens destituídas de pai heróico
zendo, das desordens somatopsíquicas). ou guerreiro. Percorrendo figuras paternas da mitolo-
Logo no prefácio (da própria autora), evidencia- gia grega, de autoridade paterna na inquisição, é vis-
se a proposta deste trabalho: o exame da questão to o amesquinhamento que o lugar paterno foi so-
constituída por um desejo de família, contemporâ- frendo, até seu visível enfraquecimento (1757), em
neo e existente, inclusive, nos grupos que a contesta- paralelo a um discurso misógino, até maior deterio-
vam como instância colonizadora, e opressora, como ração da figura paterna ao declínio da monarquia,
o cunho patriarcal; o exame do que é visto como um com elevado temor à feminilização do corpo social.
profundo distúrbio gerado por nossa época a propó- A seção 2 focaliza mobilizações a respeito de um
sito da família, propondo-se este ensaio “a penetrar o possível advento dessa feminilização, ao final do sé-
segredo desses distúrbios de família” (p. 11); e a neces- culo XIX, o qual foi marcado por vasta polêmica so-
sidade de adoção de uma perspectiva do movimen- bre patriarcado e matriarcado, surgindo nova organi-
to histórico-cultural, despida de preconceitos, para zação de soberania patriarcal: o padre-padrone, assi-
acompanhar as configurações familiares inovadoras milando vida privada e vida de trabalho (o biológica
que se apresentam. Esse desejo de família, que emer- e o econômico), para garantir poder; o que não impe-
ge em meio às alterações dos costumes e da instabili- diu a fragmentação de sua imagem que cedeu: à re-
dade econômica moderna, é tratado, aqui, como uma presentação de uma paternidade ética (o pai justo) e
expressão instigante, sintoma relacionado à família ao casamento como contrato livremente consentido,
ocidental, a qual pareceria pervertida em sua função mas continuando ameaçado o patriarcado; mais ain-
de base social, o que repercute no nível sócio-políti- da, na aurora do século XX, com a emancipação fe-
co, democrático, sob risco de se decompor, uma rea- minina repudiada por não poucos (ao considerá-la
lidade de efeitos negativos. favorecedora da feminilização do corpo social e anu-
Podendo utilizar-se com segurança de sua forma- lando a diferença sexual).
ção, a autora (historiadora e psicanalista) percorreu a Na seção 3, é destacado o impacto provocado pe-
evolução histórico-cultural da família, para pensar la concepção freudiana da família edipiana – que pe-
sua desordem atual que implica a saúde de seus netrou o século XX – pelo que ela implicou a revisão
membros, em particular, da ordem emocional. Esta da descrição moderna do parentesco; o que é expos-
produção está distribuída em oito seções, que assim to em termos de uma etapa teórica de Freud (séc.
se sucedem: (1) Deus Pai; (2) A Irrupção do Feminino; XIX-XX), que a realizou introduzindo na modernida-
(3) Quem Matou o Pai?; (4) O Filho Culpado; (5) O Pa- de uma mitologia do destino e da maldição, advindas
triarca Mutilado; (6) As Mulheres têm um Sexo; (7) O do teatro grego e elisabetano, e da literatura roma-

Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 20(4):1127-1132, jul-ago, 2004


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nesca do século XIX: processo-busca de Freud, teste- derna encerrava os tormentos mais atrozes; Winni-
munha privilegiada do grande mal existente em fa- cott, propondo um equilíbrio entre dois pólos – ma-
mílias vienenses, no qual se voltou para Sófocles terno e paterno, o pai como apoio à mãe e encarna-
(com o Édipo) – mudando da teoria traumática do ção da lei e da ordem (visão ainda maternalista). A se-
conflito para a do psiquismo inconsciente – e daí in- ção 7 assinala a passagem do feminino-materno para
do a Hamlet, ambos os personagens tendo inspirado a posição feminina de “progressivamente dominar os
a idéia freudiana para o neurótico vienense. Diz a au- processos de procriação” (p. 149): é o “poder das mães”,
tora: “Hamlet, portanto, é Édipo mascarado ou Édipo com acusações, temores sobre fertilidade e masculi-
recalcado” (p. 67), havendo, no cerne desta concep- nização femininas, e feminilização dos homens, sen-
ção, a inscrição do desejo sexual e a culpa filial, edí- do que “Todas essas metamorfoses não faziam senão
pica; o que é desenvolvido na seção 4, na relação com traduzir as angústias de um mundo abalado por suas
a tragédia da subjetividade e busca de identidade, de- próprias inovações” (p. 152), no qual surgiu a contes-
correntes “das grandes mutações da soberania ociden- tação à família edipiana e emergiu a “família recom-
tal” (p. 68). A seção 5 assinala que a invenção freudia- posta”, contemporânea, “frágil, neurótica, consciente
na “(...) esteve na origem de uma nova concepção da de sua desordem” (p. 153), mas interessada na busca
família ocidental capaz de lidar, à luz de grandes mi- de equilíbrio, de onde brotou também seu vigor.
tos, não apenas com o declínio da soberania do pai, A seção 8 focaliza manipulações procriativas
mas também com o princípio de uma emancipação da (sem devida avaliação, responsáveis, a partir de 1970,
subjetividade” (p. 88). Ainda nessa seção são aborda- por desastres psíquicos e, depois de 1985, por medi-
das: a questão do controle (normalizador) da libido calização ainda maior nas procriações assistidas),
na conjugalidade burguesa, que “só poderia provocar com detenção do poder materno, designando ou ex-
desastre” (p. 98) e contestações; a mudança do filho- cluindo o pai. A respeito do futuro da família, há con-
objeto para filho-sujeito; a homologação da autori- siderações como: a importância da psicanálise pen-
dade parental dividida, com “maternalização”, no sé- sar o movimento da história (incluindo a família); a
culo XX, da família nuclear. A seção 6 discute domi- necessidade de aceitação dos pais homossexuais, no
nação/igualdade, entre homens e mulheres, e cita direito de constituir família. Por fim, admitindo a cri-
Beauvoir (1949), separando feminilidade/maternida- se do princípio da autoridade no Ocidente (o logos
de, até admitir-se, já na atualidade, mulher/família separador), é enfatizada a capacidade da família co-
monoparental – em vez de filho bastardo. mo instância capaz de assumir este conflito e de pro-
Sobre a desordem familiar, há abordagens, como mover nova ordem simbólica, sob a demanda de que:
a de psicanalistas, entre eles: Lacan (destacando a “a família do futuro precisa ser reinventada” (p. 199).
questão do nome do pai); Melanie Klein (ao tratar
distúrbios emocionais infantis, e sérios) apontando Lucíola de Castro Domingues
Departamento de Ensino, Instituto Fernandes Figueira,
que, sob aparente normalidade, a família afetiva mo-
Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, Brasil.

Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 20(4):1127-1132, jul-ago, 2004