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Nome: ________________________________________ Turma: 89__

Ciências Sociais – 2018


Aula – Feminismo negro

A máscara do silêncio
Djamila Ribeiro

Minha experiência de vida foi marcada pelo incômodo de uma incompreensão profunda. Não que
eu buscasse respostas para tudo. Na maior parte da minha infância e adolescência, não tinha consciência de
mim. Não sabia porque sentia vergonha de levantar a mão quando a professora fazia uma pergunta já
supondo que eu não saberia a resposta. Não sabia por que eu ficava isolada na hora do recreio. Por que os
meninos diziam na minha cara que não queriam formar par com a ‘neguinha’ na festa junina. Eu me sentia
estranha e inadequada, e, na maioria das vezes, fazia as coisas no automático, me esforçando para não ser
notada.
Todo dia eu tinha que ouvir piadas envolvendo meu cabelo e a cor da minha pele. Lembro que nas
aulas de história sentia a orelha queimar com aquela narrativa que reduzia os negros à escravidão, como se
não tivessem um passado na África, como se não houvesse existido resistência. Quando aparecia a figura
de uma mulher escravizada na cartilha ou no livro didático, sabia que viriam comentários como “olha a
mãe da Djamila aí”. Eu odiava essas aulas ou qualquer menção ao passado escravocrata – me encolhia na
carteira tentando me esconder.
Em casa, a situação era outra: eu gostava da atenção, me sentia segura. Soltava meus cabelos
crespos, era falante e até pretensiosa. Gostava de ler e brincar, como qualquer criança. No prédio onde
cresci, éramos a única família negra. Morávamos no apartamento número 1 e, sempre que alguém fazia
uma traquinagem, culpavam “os neguinhos lá da frente”, embora, na maioria das vezes, nem tivéssemos
participação no caso. Mas morar no térreo tinha suas vantagens. Foi da janela do meu quarto, que dava para
a rua, que ouvi uma conversa entre um dos moradores do prédio e uma vizinha de doze anos. Enquanto
regava o pequeno jardim, esse senhor perguntou à menina quando ela iria ao seu apartamento de novo para
brincar de sentar no colo dele – evito aqui a expressão que de fato usou por considerá-la ofensiva demais.
Contei tudo para minha mãe, e descobriram que não somente aquele senhor abusava dela, mas também o
pastor de uma igreja próxima. Houve uma tentativa de me desmentir, argumentando que eu era muito nova
e não havia entendido direito, mas depois daquele dia eles quase não foram mais vistos no prédio. A
“neguinha lá da frente” tinha se mostrado muito mais esperta do que eles.
Mais de uma vez fui premiada por estar entre os melhores alunos da escola. No Anuário Escolar do
Estado de São Paulo de 1990, com os nomes dos estudantes que tiraram melhores notas no ano, lá estava
eu como aluna do meu colégio. Eu tinha dez anos na época. Meus pais e eu ficamos muito felizes. Ainda
tenho a foto da minha mãe me entregando um livro de presente pelo meu desempenho. Apesar do orgulho
visível em meus olhos, sentia uma força agindo sobre mim que muitas vezes me impedia de falar ou
existir plenamente em alguns espaços.
Estudei inglês na escola mais conhecida de Santos. Lembro que, quando cheguei para a minha
primeira aula, as conversas animadas foram substituídas pelo silêncio assim que fui vista. Todos pararam
para me olhar e comentar. Mas não perdi a pose. Segurei os livros bem junto de mim, ergui a cabeça e fingi
que não havia nada acontecendo. Depois daquilo, comecei a chegar em cima da hora para a aula, em mais
uma tentativa de não ser notada.
Quando fui estudar nessa escola de inglês, minha capa de proteção precisou ficar mais grossa. Às
vezes mentia sobre conhecer outras cidades e outros países e dizia que meu pai era advogado, e não um
trabalhador braçal. Também falava que ele ia me buscar, mas que esperava na outra esquina com o carro
porque não conseguia estacionar. Quando me viam no ponto de ônibus, eu dizia que ele estava trabalhando.
O fato de ser a única menina negra da sala por anos numa escola de pessoas de outra classe social me fez
agir assim.
Ser a CDF evitou que eu fosse xingada algumas vezes, mas nunca me protegeu de verdade. Descobri
que podia fazer com que os outros alunos, que até então só riam de mim, precisassem de mim. Ajudava-os
a estudar, fazia a lição por eles, passava cola. Vivia explicando para os outros as matérias que dominava
bem. Então passei a dar aulas particulares de inglês e português para crianças mais novas e a receber por
isso.
Meu pai, autodidata e militante comunista e do movimento negro, exigia que tirássemos boas notas
e nos obrigava a ir à escola sem falta. Mas eu me perguntava se ele sabia o que acontecia lá. Se entendia
quão difícil era aturar os xingamentos diários. Senti raiva dele muitas vezes, como quando dizia que eu
devia ter orgulho das minhas raízes e me proibia de alisar o cabelo. “Isso porque não é no seu cabelo que
eles escondem borrachas”, eu pensava. “E orgulho de quê? De ser a neguinha feia do cabelo duro?” Eu não
compreendia por que meu pai insistia em dizer que meu cabelo era lindo, em vez de simplesmente diminuir
meu sofrimento permitindo que o alisasse. Eu chegava a colocar toalhas na cabeça quando estava em casa
para simular fios mais longos. Com o tempo, ele cedeu e minha mãe alisava meus cabelos e os da minha
irmã em casa. Era um ritual de tortura, no qual ela acendia uma boca do fogão, deixava o pente de ferro ali
até ficar pelando e passava nos fios. Aquilo era comum, mas inúmeras vezes o cabelo queimava: você sentia
o cheiro e via os fios se desfazendo. Podia-se até queimar o couro cabeludo nos piores casos. A vontade de
ser aceita nesse mundo de padrões eurocêntricos é tanta que você literalmente se machuca para não ser a
neguinha do cabelo duro que ninguém quer.
A sensação de não pertencimento era constante e me machucava, ainda que eu jamais comentasse
a respeito. Até que um dia, num processo lento e doloroso, comecei a despertar para o entendimento.
Compreendi que existia uma máscara calando não só minha voz, mas minha existência.
Depois de passar na faculdade de jornalismo, comecei a procurar um emprego. Apesar de falar
inglês, ser medalhista de xadrez e ter recebido prêmios escolares, uma ‘amiga’ da minha mãe me ofereceu
uma vaga de auxiliar de serviços gerais na empresa de que era gerente para me ‘ajudar’. Eu limpava e servia
café, mesmo tendo currículo melhor do que os das moças que trabalhavam no escritório.
Minha mãe não queria que eu fizesse aquilo e perpetuasse o ciclo de exclusão, mas insisti. Chegava
na faculdade cheirando a água sanitária, mas, numa época anterior a políticas afirmativas importantes –
como as cotas raciais e o Prouni, por exemplo –, trabalhar para pagar a mensalidade era a única opção. Meu
pai, que era estivador e estava perto de se aposentar, não soube do meu trabalho. Ele sempre dizia que se
matava de trabalhar na estiva para que nós tivéssemos mais oportunidades, e eu não podia contar a ele que
seu esforço, por mais digno que fosse, tinha sido barrado pela estrutura racista da sociedade.
Antes desse emprego, eu havia trabalhado numa barraca de pastel, o que fez com que ele ficasse
meses sem falar comigo. Então decidi não deixá-lo saber que a máscara, a mesma que o fez perder muito,
também me excluía das oportunidades. Apesar disso, a cada intervalo entre uma varrida e uma passada de
pano no vaso sanitário, eu lia. Quando saía para almoçar, eu lia.
“O chefe gosta muito do seu café, em time que se está ganhando não se mexe”. Foi assim que a
gerente me negou a oportunidade de mudar de cargo, e então resolvi que era hora de mudar o placar. Minha
mãe havia falecido há pouco tempo e, em homenagem a ela, pedi demissão.
Enquanto cuidava do meu pai no hospital, que adoeceu logo depois da minha mãe, conheci a Casa
da Cultura da Mulher Negra, que fica em Santos. Foi lá que tive a primeira oportunidade de um trabalho
que valorizava minha formação, oferecida por mulheres negras feministas de fato. Trabalhei quase quatro
anos na biblioteca da Casa de Cultura, onde entrei em contato com autores negros como Carolina de Jesus,
Lima Barreto, Sueli Carneiro, Angela Davis. Fui aprendendo a falar por outras vozes, a me enxergar através
de outras perspectivas. Redescobri minha força.
Quando fiquei grávida, aos 24 anos, me libertei da tortura do alisamento, já que não podia usar
química. Meus cabelos foram voltando ao natural e pude sentir novamente sua textura gostosa. Eu não
queria mais me esconder, não queria ser invisível. As autoras e os autores que eu lia haviam me ajudado a
recuperar o orgulho das minhas raízes.
Alguns anos depois, passei na faculdade de filosofia na Universidade Federal de São Paulo, o que
depois levaria a um mestrado em filosofia política. Não foi fácil – minha filha tinha três anos, eu morava
em Santos e o campus ficava em Guarulhos. A barreira da vez foi o sexismo, porque muitas pessoas da
minha família foram contra eu voltar a estudar sendo mãe. Lembro como foram difíceis os primeiros meses,
quando pensei em desistir.
Saía correndo do trabalho em uma empresa portuária por volta das cinco e meia da tarde e fazia o
trajeto de três horas até a universidade. Chegava muito atrasada ou já no intervalo, o que me fez entrar em
desespero após algumas semanas: não havia a menor possibilidade de ir e voltar todos os dias. Então resolvi
pedir demissão e seguir meu sonho. Por muito tempo não recebi o devido apoio do meu então companheiro,
mas seguia em frente. Passava quatro dias por semana em Guarulhos e descia às quintas à noite para Santos.
No segundo ano da faculdade, passei no concurso para ser professora de filosofia no ensino médio no estado
de São Paulo e pude então pagar minhas despesas com o curso. Ficar longe da minha filha não era fácil,
mas, ainda que sentisse minha falta, ela me admirava.
Tudo o que aprendi na luta política do dia a dia e nas organizações em que atuei foi essencial para
meu crescimento e minha visão de mundo. Dar aulas em cursinho comunitário e trabalhar como voluntária
em ações sociais me ensinou tanto quanto os textos que li na universidade. Outra coisa que me marcou
muito foi a declaração que a escritora brasileira Conceição Evaristo me deu em entrevista em 2017: “Nossa
fala estilhaça a máscara do silêncio. Penso nos feminismos negros como sendo esse estilhaçar, romper,
desestabilizar, falar pelos orifícios da máscara”.

(Trechos da introdução do livro Quem tem medo do feminismo negro?, São Paulo: Companhia das Letras, 2018, de Djamila Ribeiro)

Alguns pontos de discussão trazidos pelo feminismo negro:

Ainda é muito comum se dizer que o feminismo negro traz divisões ou separações, quando é
justamente o contrário. Ao nomear as opressões de raça, classe e gênero, entende-se a necessidade de não
hierarquizar opressões, de não colocar, como diz Angela Davis, em Mulheres negras na construção de uma
nova utopia, ‘em primeiro plano e lugar uma opressão em relação a outras’. Pensar em feminismo negro é
justamente romper com a divisão criada numa sociedade desigual, logo é pensar projetos, novos marcos
civilizatórios, novos valores, para que pensemos em um novo modelo de sociedade.
(Trechos do livro O que é lugar de fala, de Djamila Ribeiro).

O racismo e a cultura do estupro

Angela Davis demonstrou como, nos Estados Unidos, as mulheres negras escravizadas não eram
vistas como femininas, mas tratadas com brutalidade e violência, obrigadas a trabalhar tal como um homem.
O que as diferenciava dos homens negros escravizados era que elas eram sistematicamente estupradas pelos
senhores de escravos. No Brasil, não foi diferente.
Atualmente, as mulheres negras no Brasil ainda são o grupo que mais sofre com a violência
doméstica e sexual, segundo pesquisa realizada pela Unicef. Por mais que todas as mulheres estejam
sujeitas a esse tipo de violência, é importante observar que o grupo das mulheres negras tem mais chances
de sofrer essa violência, já que seus corpos são desumanizados e hipessexualizados, sendo tratadas como
objetos sexuais. Luiza Bairros tem uma frase muito interessante que explicita muito bem o lugar que a
sociedade confere à mulher negra: ‘Nós carregamos a marca’. Não importa onde estejamos, a marca é a
exotização, a sexualização dos nossos corpos.

Representatividade nos espaços de poder

Outro tema levantado pelas feministas negras é a questão da representação das mulheres negras nas
posições de poder na sociedade brasileira. O que significa o termo representação? Significa que as posições
de poder na sociedade deveriam ser ocupadas também pelas mulheres negras.
Angela Davis, uma das principais feministas negras dos Estados Unidos, afirma que a luta pela
representação é importante sobretudo porque a população negra não está representada nos espaços de poder.
Mas representação não significa para ela apenas uma questão de identidade, uma mulher negra ocupando
uma posição de poder: é necessário para o movimento negro um comprometimento dessa mulher negra que
ocupa posições de poder em romper com as opressões de gênero e racial.

Lugar de fala e quebra do silêncio

Muitas feministas discutem a questão da quebra do silêncio como essencial para a sobrevivência
das mulheres negras. Angela Davis, Audre Lorde e Alice Walker abordam a importância do falar em suas
obras. “O silêncio não vai te proteger”, diz Lorde. “Não pode ser seu amigo quem exige seu silêncio”, diz
Walker. “A unidade negra foi construída em cima do silêncio da mulher negra”, diz Davis. Uma violência
não pode ser combatida sem que se fale sobre ela, sem que ela seja nomeada e dita em voz alta. Por isso,
as feministas negras vão dizer em bom e alto som quais são as especificidades de sua luta: a violência de
gênero atinge todas as mulheres, mas atinge de forma mais grave aquelas que sofrem e lutam contra mais
de uma opressão.
Vejamos um exemplo dessas opressões que se articulam. Ainda é muito comum a gente ouvir a
seguinte afirmação quando a discussão é desigualdade salarial: ‘mulheres ganham 30% a menos do que
homens no Brasil’. Essa afirmação está incorreta? Logicamente não, mas está incorreta de um ponto de
vista ético e político. Explico: mulheres brancas ganham 30% menos do que homens brancos. Homens
negros ganham menos do que mulheres brancas e mulheres negras ganham menos que todo mundo.
A história tem mostrado que a invisibilidade mata. A reflexão fundamental a ser feita é perceber
que, quando pessoas negras estão reivindicando o direito a ter voz, elas estão reivindicando o direito à
própria vida. O ato de falar não se restringe ao ato de dizer palavras, mas de poder existir.

Exercícios – Calcular a representatividade das mulheres negras em certos espaços


Vamos calcular a porcentagem de mulheres negras presentes em alguns espaços. Depois do cálculo,
assinale se as mulheres negras são sub-representadas ou sobre-representadas. Para isso, você terá que
comparar a porcentagem total de mulheres negras na população e a porcentagem de mulheres negras em
cada espaço.

Professoras negras na PUC – Rio de Janeiro


PUC (Universidade) – Rio de Janeiro
Total de professores: 1985
Professoras negras: 8
Porcentagem de professoras negras: ______
Porcentagem de mulheres negras na cidade do Rio de Janeiro: 26%
Entre os professores da PUC-RJ, as mulheres negras são:
( ) Sub-representadas ( ) Sobre-representadas
Professoras negras que eu tive em São Cristóvão II, no Colégio Pedro II
Total de professores do campus:
Total de professoras negras: _____
Porcentagem de mulheres negras no estado do Rio de Janeiro: 26%
Porcentagem de professoras negras: ______
Entre os professores de São Cristóvão II, as mulheres negras são:
( ) Sub-representadas ( ) Sobre-representadas

Deputadas negras federais


Total de deputadas negras na Câmara Federal: 2
Total de deputados: 513
Porcentagem de mulheres negras no Brasil em relação ao total da população: 26%
Entre os deputados federais, as mulheres negras são:
( ) Sub-representadas ( ) Sobre-representadas

Vereadoras negras no Rio de Janeiro


Total de vereadoras negras na Câmara municipal: 1
(eram duas, mas Marielle Franco foi assassinada)
Total de vereadores na Câmara do Rio de Janeiro: 51
Porcentagem de mulheres negras no município do Rio de Janeiro: 26%
Porcentagem de vereadoras negras na Câmara: _____
Na câmara dos vereadores municipais, as mulheres negras são:
( ) Sub-representadas ( ) Sobre-representadas

Empregadas domésticas negras no Distrito Federal


Total de empregadas domésticas registradas: 75.000
Total de empregadas domésticas negras: _____
Porcentagem de empregadas domésticas negras em relação ao total de empregadas: 80%
Porcentagem de mulheres negras no DF: 26%
Entre as empregadas domésticas no Distrito Federal, as mulheres negras são:
( ) Sub-representadas ( ) Sobre-representadas

Mulheres negras presas


Total de mulheres presas no Brasil: 40.500
Total de mulheres negras presas: 25.500
Porcentagem de mulheres negras presas em relação ao total de mulheres: _____
Porcentagem de negras em relação ao total de mulheres no Brasil: 53%
Nos presídios, as mulheres negras são:
( ) Sub-representadas ( ) Sobre-representadas