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VIVÊNCIA DAS TEORIAS DE AQUISIÇÃO DE SEGUNDA LÍNGUA NAS AULAS

DE LINGUÍSTICA APLICADA II

Francisco Lizarvel Costa Querino

Introdução

Para Vera Lúcia de Menezes em seu livro intitulado “aquisição de segunda


língua” é reforçada a importância das teorias de “ASL” ali apresentadas em “[...]
demonstrar que muitos dos pressupostos fazem sentido quando os confrontamos
com histórias de aprendizagem de línguas.” (PAIVA, 2014, p. 10), logo é com este
intuito que iremos confrontar algumas destas teorias à minha própria experiência
com o manejo inicial dos idiomas exposto em carta de apresentação para a
disciplina de Lingüística aplicada II, ministrada pelo professor Fabio Marques de
Souza, além das primeiras impressões reportadas em registro no momento da
visualização dos filmes “Espanglês”, “O Terminal” e “Um Conto Chinês”, haja vista
que estas produções cinematográficas estão repletas de experiências entre pessoas
de diferentes nacionalidades e níveis distintos de aquisição de língua estrangeira e
/ou adicional, oferecendo assim um segundo corpus de analise frente a obra da
autora já citada e minha vivencia pessoal documentada.

Construção analítica entre teorias de ASL, carta e filmes

Ao tentar estabelecer vínculos entre as teorias, situações apreciadas nos


filmes e meu próprio relato, notamos inicialmente que é possível correlacionar nos
nas histórias aqui inseridas, um olhar distinto a cada proposição teórica, porém
dificilmente notaríamos uma unidade nessas “ligações” sem uma ótica que as
predetermine como parte de um sistema maior. Dentro da perspectiva da
complexidade, Vera Lúcia nos afirma que “[...] são várias teorias que contribuem
para uma visão complexa dos fenômenos.” (PAIVA, 2014, p. 141), logo
observaremos a possibilidade de dialogar com as principais teorias apresentadas no
libro “Aquisição de Segunda Língua” e do artigo “O sujeito vê a aquisição de segunda
língua”, “já que foram alvo de seminários durante todo o período da disciplina de
linguística II e por exposição em sala ministrada pelo o professor Fábio Marques de
Souza, contudo respeitando um cenário maior que postulado pelo “[...] caos é o de
que existe uma ordem subjacente à aparente desordem.” (PAIVA, 2014, p. 141).
Para tanto iremos selecionar um núcleo narrativo retirado do filme “Espanglês”,
mudando a proposta original, pois dada a extensão da narrativa ter superado mais
que quatro laudas e para fins didáticos, termos conseguido abordar todas as
narrativas num só enredo, não foi possível comtemplar todo o material exposto em
sala. Procuraremos discorrer dentro das possibilidades visíveis as hipóteses
behaviorista, da compreensão, da aculturação, inatista, conexionista, da interação,
do output e de mediações sociocultural, relacionadas às teorias da ASL respeitando
a dialética da teoria da complexidade, bem como, na medida do possível as minhas
identificações pessoais e uma posterior conclusão.

No filme “Espanglês”(JAMES L. BROOKS, 2004), nos importa explorar o processo


de aquisição de linguagem vivido pela personagem Flor Morena e sua filha Cristina,
além da condução estabelecida pela família Clasky no trato às personagens citadas
ao longo do filme. As protagonistas Flor e Cristina saem do México para os Estados
Unidos num contexto de necessidade de sobrevivência e sem nenhuma instrução
formal da língua, cultura ou sociedade do país de destino, porém elas terão
enfrentamentos diferentes com estes temas, o que pode ajudar-nos a elaborar várias
conversas com as teorias de ASL. Schumann no capitulo 3, “[...] lista uma série de
fatores que influenciam a aquisição, identificados [...] por outros autores e agrupados
por ele em nove grupos [...], os dois mais importantes são o social e o afetivo [...]
que define como <<a integração social e psicológica do aprendiz com o grupo da
língua-alvo>>” SCHUMANN (1978a :28, apud PAIVA, 2014, p. 51). Flor já adulta e
restrita a sua própria identidade cultural irá criar uma forte barreira na aquisição do
inglês como língua estrangeira e/ou adicional, mantendo distância comedida de tudo
o que foge de suas raízes mexicanas, o que inclusive buscará fortemente preservar
em sua filha. Cristina sendo apenas uma criança e como tal para poder interagir com
as demais, necessita dominar o código linguístico específico, logo utiliza
inconscientemente o engajamento social e afetivo com a família, adquirindo com
desenvoltura e de maneira progressiva o uso da língua inglesa ao ponto de ser
capaz de estudar na mesma instituição que os filhos dos patrões. O modelo da
aculturação explica perfeitamente o êxito obtido por ela, no entanto, o espaço
integrativo social entendido como mais um aspecto das teorias de ASL, não abarca
a totalidade de fatores envolvido no processo, uma vez que, na perspectiva da
complexidade “[...] cada uma dessas teorias explica um elemento do mesmo
fenômeno e esses elementos estão em inter-relação com os demais.” (PAIVA, 2014,
p. 148). No meio em que estava inserida era preciso identificar blocos de
conhecimento onde diversas estruturas se repetiam principalmente na fala das
pessoas e o estar atento a identificação dos mesmos, bem como memoriza-los pode
ter ajudado no processo que com o passar do tempo a repetição levaria a um hábito
quase automatizado para adquirir novas estruturas linguísticas. Dentro da visão
behaviorista, a autora fundamenta este processo na fala de Bowen que salienta: “[...]
as estruturas de nossa língua são provavelmente os hábitos mais restritos de nossa
existência humana. Temos que observar a estrutura da ordem das palavras ou não
seremos entendidos.” (PAIVA, 2014, p. 22). A repetição levaria a uma aquisição por
sistematização, tentativa e erro (estimulo-resposta), como reforça a seguinte
proposição de Skinner, “[...] uma criança adquire comportamento verbal quando
suas vocalizações começam a ser reforçadas ao produzirem consequências em uma
dada comunidade verbal” (PAIVA, 2014, p. 14). Em minha vivência reporto a
aquisição inconsciente de minha dicção em língua espanhola ao permanecer no
habito de ouvir e cantar as canções do cantor Alejandro Sanz, conforme cito abaixo:

“Verdaderamente sé hasta hoy todas las canciones de Alejandro


incluso las más recientes. Entiendo que este hecho me ayudó y me dio
mucho vocabulario, dicción, escucha y escritura ya que leía las letras
de cada canción. Para mí fue un curso avanzado de español
inconsciente.” (QUERINO, 2018, p. 2).
No conjunto de hipóteses feitas por Krashen e mais recentemente denominada de
teoria da compreensão, podemos entender que estas mesmas estruturas podem
servir de entradas de conhecimento (INPUT), ao se afirmar que “[...] adquirimos a
língua [...] quando compreendemos a mensagem.” (PAIVA, 2014, p. 31), logo em um
determinado plano do “caos” a repetição abre espaço para a importância de
compreender a mensagem transmitida entre comunicantes, o que geraria um efeito
cascata na aquisição da linguagem, tendo pelo pressuposto de que a teoria inatista
de Chomsky corrobora a ideia de Krashen ao sustentar que “[...] o aprendiz não
adquire apenas o que ouve pois existe também a contribuição do DAL que gera
regras possíveis de acordo com os processos inatos.”(PAIVA, 2014, p. 31). Em
contraste com a importância dada ao INPUT por KRASHEN, duas hipóteses se
antepõem afirmando que é preciso considerar em primeiro plano: os itens (1) e item
(2).

Item (1), o interacionismo ao estabelecer contato, para somente depois


aprender/usar as construções sintáticas, o que na visão de:

[...] Hatch (1978 ) e Long (1981, 1996), por exemplo, defendem a hipótese da
interação. Ambos consideram que o input sozinho não é suficiente para
explicar a ASL. Hatch (1978, p.404) discorda de que aprendizes primeiro
aprendem estruturas e depois as usam no discurso. Ela a posta o contrário:
“Aprende -se primeiro a conversar, a interagir verbalmente, e é na interação
que as estruturas sintáticas são desenvolvidas.” (PAIVA, 2009, p. 34)

Item (2), a ênfase na produção linguística do aprendiz (hipótese do OUTPUT),


permitindo automodelar uma nova produção subsequente e mais acurada, como
afirma abaixo:

[...] que o uso da língua ajuda o aprendiz a observar a própria produção, o


que ela considera essencial para a ASL. Ela acredita em que o “[...] output
pode estimular os aprendizes a se moverem da semântica, um
processamento estratégico não determinístico e aberto prevalente na
compreensão, ao processamento gramatical completo necessário para uma
produção acurada.” SWAIN (1995, p.128, apud PAIVA, 2009, p. 34).

Notamos como é vasto o como de análise da ASL e no tocante ao processo de


aquisição da personagem Cristina, podemos estabelecer ainda uma dicotomia entre
a valoração chomskiana da gramatica universal e do DAL ( dispositivo de aquisição
de linguagem) que postula o aspecto da capacidade linguística inata possuidora das
crianças aprendizes de L1/L2/LE/LA como o caráter neurofisiológico computacional
que pressupõe o modelo conexionista em tentar

[...] descrever o processamento cognitivo à semelhança de um computador –


os dados que alimentam a mente (input ou entrada de dados), seu
processamento (dados ocultos) e o produto ou output (dados de saída).”
(PAIVA, 2009, p. 85)
Relato sobre minha motivação, curiosidade e sentimento de descoberta, o que
vinculo com varias hipóteses acima pois a minha pessoa como criança naquela
época concorria meu desenvolvimento cerebral (conexionismo em minha neutro
plasticidade), o estimulo do meio (reforço behaviorista) e os inputs, outputs e
interações mediadas por meio contexto socioeconômico e cultural.

“En ese escenario me había mucha curiosidad por el mundo, por lo que un
día cogí la guía telefónica (Sistema TELEBRAS) de mí mamá como que, a
buscar a algo jamás imaginado y estaba delante de un listado de números
telefónicos de todos los países a que uno pudiera pedir una llamada a cobro
revertido mismo estando en el extranjero. Después de este hallazgo me puse
a llamar desde el terminal telefónico (público) en la plaza de mi cuidad, todos
los días a todos los países que pudiera funcionar, pero tenía muchas ganas
de oír a los países de habla hispánica. Ya después de un tiempo sólo llamaba
a ellos. Siempre me pasaba lo mismo, cuando decía “Holá” en vez de “hola”
ya me habían colgado la llamaba” (QUERINO, 2018, p. 1).

Tomada por uma experiencia negativa com a família Clasky e mais especificamente
com a Sra. Deborah que interfere no vinculo em mãe e filha, Flor Moreno decide
retirar a filha da esfera dos Clasky se despedindo do cargo de empregada doméstica
e retornando ao seu ponto de partida inicial. A filha já adulta aparece nas cenas
finais relatando que esta ação definiu os seus horizontes e tudo o que ela é se
define pelo o que sua mãe foi e é. Conforme afirma a teoria sociocultural
fundamentada no pensamento de Vygotsky, em que numa “[...] perspectiva
sociocultural, a aprendizagem inicial de uma língua por uma criança surge do
processo de produção de sentido em atividades colaborativas com outros membros
de uma dada cultura.” MITCHELL; MYLES (2004, p.200 apud PAIVA,2009), vemos
nitidamente que o processo em andamento de aquisição de linguagem de Cristina
foi interrompido, já que, não participaria mais da vida escolar num colégio
tradicionalmente norte-americano como fruto de uma “bolsa de estudos” bancada
pela senhora Deborah, perdendo assim a mediação estabelecida por docentes,
discentes, membros da família Clasky onde todos diretamente ou indiretamente
contribuíam para a produção de sentido nos atos de fala estabelecidos pela menina
naquela cultura especifica. Digamos que ela sai de um segundo universo de
aquisição de linguagem que havia estabelecido recentemente para então mergulhar
novamente em sua primeira língua e cultura, contudo a modelagem fractal da ASL
com um sistema complexo apresentado por Vera Lúcia na figura 1 abaixo,
permanece a mesma, mudando apenas o rearranjo das variáveis de uma cultura
norte-americana e língua inglesa para sua cultura de origem (mexicana) e código
linguístico materno, a língua espanhola.

Figura 1 – Sistema complexo de ASL

Num ultimo paralelo a meu contexto de vida, finalizo os elos de minha narrativa
trazendo a prática mediada de minha primeira professora de língua estrangeira e/ou
adicional, da qual contribuiu muito na minha formação e gosto pelo estudo e
aquisição de novos idiomas.

“Ahora ya con mis siete años llego al “Colégio Municipal Padre Galvão”, en
estos años (siete a los once) tuve mi primero contacto con otra lengua que no
la mía y fue obviamente el inglés. Esta experiencia me probó como siempre
hubo en mi vida la facilidad por los idiomas y las diferentes hablas que uno
puede reproducir. A mí me encantaba las clases de inglés y mi profesora
“Nerivanda” también me encantaba a mí con sus hazañas en la pizarra y el
modo intuitivo que enseñara la lengua.” (QUERINO, 2018, p. 1).

Conclusão
A aquisição de um idioma indepedente de sua nuancia no contexto de assimilação
(L1/L2/LE/LA entre outros), é um processo complexo do qual não pode ser explicado
em moldes simplistas. O modelo da ASL na pespectiva da complexidade se encaixa
numa possivel tentativa de enquadramento teorico contudo percebo uma
continuidade permanente no desdobramento de novas pesquisdas dada a natureza
da capacidade humana de comunicação e interação com o mundo.
Bibliografia

PAIVA, Vera Lúcia Menezes E. Como o sujeito vê a aquisição de segunda língua. In:
CORTINA, Arnaldo; NASSER, Sílvia Maria Gomes da Conceição (Eds.). Sujeito e
linguagem. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2009.

PAIVA, Vera Lúcia Menezes E. Aquisição de segunda língua. São Paulo:


Parábola, 2014.

PAIVA, Vera Lúcia Menezes E. <<Figura 1 – Sistema complexo de ASL.>>, Disponível


em: <http://www.veramenezes.com/modelo.htm>. Acesso em: 12 jun. 2018.

Espanglês. Direção: JAMES L. BROOKS. [Estados Unidos] : Columbia Pictures,


2004.

QUERINO, Francisco Lizarvel Costa. ¿Quién soy YO? …Francisco Lizarvel Costa
Querino: Contexto de los idiomas en mi vida. Campina Grande, 2018.