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74 Marcos Roberto Teixeira Primo

2.8 O Teorema da Função Implı́cita


Consideremos agora a função f : R2 → R definida por

f (x, y) = x2 + y 2 − 1,

para todo (x, y) ∈ R2 . Estamos agora interessados em resolver equação do tipo

f (x, y) = x2 + y 2 − 1 = 0. (2.33)

Sabemos que a equação acima não define y como função de x e nem x como função de y. Mas se
a, b ∈ R − {0} com |a| < 1 e b > 0 são tais que

f (a, b) = 0.

y
6

1
b

-
−1 a 1 x

−1

Então existem intervalos A = (a − ε, a + ε) ⊂ [−1, 1], e B ∋ b tais que para todo x ∈ A, existe
um único y ∈ B tal que
f (x, y) = 0.

Assim, fica definida uma função h : A → B tal que

• y = h(x);

• f (x, h(x)) = 0.

Particularmente no caso da equação (2.33) temos que h : A → B é definida, para todo x ∈ A, por

f (x) = 1 − x2 .
Análise no Rn 75

Notemos que neste caso temos que

∂f (x, y) ∂f (a, b)
= 2y =⇒ = 2b 6= 0
∂y ∂y
e
∂f (x, y) ∂f (a, b)
= 2x =⇒ = 2a 6= 0.
∂x ∂y
No caso geral consideremos

f : Rn × Rm → Rm
(x1 , x2 , . . . , xn , y1 , y2 , . . . , ym ) 7→ f (x, y) = (f1 (x, y), . . . , fm (x, y)).
| {z } | {z }

Estamos interssados em resolver a equação





 f1 (x, y) = 0,


 f2 (x, y) = 0,
f (x, y) = 0 ⇐⇒ ..


 .


 f (x, y) = 0,
m

em m incógnitas
(y1 , y2 , . . . , ym ) = y ∈ Rm

dependentes de n variáveis
(x1 , x2 , . . . , xn ) ∈ Rn .

Suponhamos que existam a ∈ Rn e b ∈ Rm tais que





 f1 (a, b) = 0,


 f2 (a, b) = 0,
f (a, b) = 0, isto é, ..


 .


 f (a, b) = 0,
m

A pergunta, motivada pelo caso m = n = 1, é a seguinte

”Em quais condições podemos garantir que a cada x próximo de a, existe um único
y = y(x) próximo de b tal que tal que

fi (x, y(x)) = 0,

para todo i = 1, 2, . . . , m.”

O próximo exemplo mostra que a unicidade na pergunta acima pode não acontecer.
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Exemplo 2.85. Seja f : R2 → R definida para todo (x, y) ∈ R2 por

f (x, y) = x2 − y 2 .

Temos que
f (0, 0) = 0

e para cada x próximo de 0, temos duas soluções

y1 (x) = x e y2 (x) = −x,

tais que
f (x, y1 (x)) = 0 e f (x, y2 (x)) = 0.

Vamos começar a responder a pergunta acima para o caso em que f é uma transformação
linear. Dado T ∈ L(Rn × Rm , Rm ) definamos

T 1 : Rn → R m
x 7−→ T1 (x) = T (x1 , . . . , xn , 0, 0, . . . , 0)
e

T 2 : Rm → R m
y 7−→ T2 (y) = T (0, 0, . . . , 0, y1 , . . . , ym ).

Então, T1 ∈ L(Rn , Rm ) e T2 ∈ L(Rm , Rm ) e

T (x, y) = T1 (x) + T2 (y), (2.34)

para todo (x, y) ∈ Rn × Rm .

Teorema 2.86. Sejam T ∈ L(Rn × Rm , Rm ), T1 ∈ L(Rn , Rm ) e T2 ∈ L(Rm , Rm ). Se T2 ∈


LI (Rm , Rm ), então para cada x ∈ Rn existe um único y ∈ Rm tal que T (x, y) = 0. Ainda mais,

y = −T2−1 (T1 (x)).

Antes de enunciarmos a versão geral do teorema da função implı́cita, observemos que

f : Ω ⊂ Rn × Rm → Rm
(x, y) 7−→ f (x, y) = (f1 (x, y), . . . , fm (x, y))

e como acima,

Df (a, b) : Rn × Rm → Rm
(h, k) 7−→ Df (a, b)(h, k) = D1 f (a, b)(h) + D2 f (a, b)(h, k),
Análise no Rn 77

onde D1 f (a, b)(h) = Df (a, b)(h, 0) e D2 f (a, b)(k) = Df (a, b)(0, k). Por outro lado, a matriz
associada a Df (a, b) é a matriz jacobiana de f em (a,b) dada por
 ∂f (a,b) 
1 (a,b) 1 (a,b) ∂f1 (a,b)
1
∂x1
. . . ∂f∂x n
| ∂f∂y 1
... ∂ym
 
 
 
 .. ... .. .. ... .. 
Jf (a, b) =  . . | . . .
 
 
 
∂fm (a,b) (a,b)
∂x1
. . . ∂fm
∂xn
| ∂fm∂y(a,b)
1
... ∂fm (a,b)
∂ym

Assim, a matriz
∂fi 
J2 f (a, b) = (a, b) m×m
∂yj
é a matriz jacobiana da função

fa : Ωa ⊂ Rm → Rm
y 7−→ fa (y) = f (a, y)
no ponto y = b e a matriz
∂fi 
J1 f (a, b) = (a, b) m×n
∂xj
é a matriz jacobiana da função

fb : Ωb ⊂ Rm → Rm
y 7−→ fb (x) = f (x, b)

no ponto x = a. Ainda mais, para todo (h, k) ∈ Rn × Rm temos que

Df (a, b)(h, k) = Jf (a, b)hk = J1 f (a, b)h + J2 f (a, b)k = D1 f (a, b)(h) + D2 f (a, b)(k),

onde hk é a matriz coluna [h1 . . . hn k1 . . . km ]T .

Teorema 2.87 (Teorema da Função Implı́cita). Seja f : Ω ⊂ Rn × Rm → Rm uma função de


classe C 1 no aberto Ω ⊂ Rn × Rm = Rn+m . Se (a, b) ∈ Ω é tal que

f (a, b) = 0

e
∂fi 
det (a, b) m×m 6= 0 (D2 f (a, b) ∈ LI (Rm , Rm )),
∂yj
então

(i) existem abertos U ⊂ Rn × Rm e V ⊂ Rn tais que (a, b) ∈ U, a ∈ V e para cada x ∈ V, existe


um único y = g(x) ∈ Rm satisfazendo

(x, y) ∈ U e f (x, y) = 0.
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(ii) A aplicação g : V → Rm definida no item anterior é uma aplicação C 1 no aberto V tal que

g(a) = b;
f (x, g(x)) = 0, ∀x ∈ V ;
Dg(a) = (D2 f (a, b))−1 ◦ D1 f (a, b).

Exercı́cio 2.88. Seja f : U ⊂ R2 → R uma função contı́nua definida no aberto U ⊂ R2 tal que

(x2 + y 4 )f (x, y) + f (x, y)3 = 1,

para quaisquer (x, y) ∈ U. Mostre que f é de classe C 1 em U.

Vamos aplicar agora o Teorema da Função Implı́cita para sistemas não lineares.

Exemplo 2.89. Dado o sistema


 1 2 3
2 3 2
 x + 2y + z − z = 2



 3
x + y 3 − 3y + z = −3.

Vamos usar o Teorema da Função Implı́cita para mostramos que podemos encontrar y e z como
função de x, em uma vizinhança de (−1, 1, 0).