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Título

original: The Jesuit Guide to (Almost) Everything

Copyright © 2010 por James Martin, S.J.


Copyright da tradução © 2012 por GMT Editores Ltda.
Publicado mediante acordo com Harper Collins Publishers.
Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste livro pode ser utilizada ou reproduzida
sob quaisquer meios existentes sem autorização por escrito dos editores.

tradução: Joel Macedo


preparo de originais: Cristiane Pacanowski
revisão: José Tedin e Luis Américo Costa
projeto gráfico e diagramação: Valéria Teixeira
capa: Miriam Lerner
geração de Epub: SBNigri Artes e Textos Ltda.

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ
M334s

Martin, James, 1933-


A sabedoria dos jesuítas para (quase) tudo [recurso eletrônico] / James Martin; [tradução de Joel Macedo]; Rio de
Janeiro: Sextante, 2012.
recurso digital

Tradução de: The jesuit guide to (almost) everything


Formato: ePub
Requisitos do sistema: Adobe Digital Editions
Modo de acesso: World Wide Web
ISBN 978-85-7542-882-5 (recurso eletrônico)

1. Inácio, de Loyola, Santo, 1491-1556. 2. Jesuítas – Vida espiritual 3. Vida espiritual – Igreja Católica 4. Livros
eletrônicos. I. Título.

12- CDD 248.8


9121 CDU 2-584

Todos os direitos reservados, no Brasil, por


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Sumário

Créditos

Capítulo 1 – Um modo de conduta


O que é a espiritualidade inaciana?

Capítulo 2 – Os seis caminhos


Espiritual, religioso, espiritual não religioso e todas as outras
possibilidades

Capítulo 3 – O que você quer?


Desejo e vida espiritual

Capítulo 4 – Passados bonitos


Encontrando Deus e deixando que Ele o encontre

Capítulo 5 – Começando a orar


Encontrei Deus... e agora?

Capítulo 6 – Amizade com Deus


A descoberta do Padre Barry

Capítulo 7 – Deus o encontra onde você está


Tradições inacianas de oração

Capítulo 8 – Vida simples


A liberdade surpreendente do movimento de descida

Capítulo 9 – Assim como os anjos?


Castidade, celibato e amor

Capítulo 10 – Mais ações do que palavras


Amizade e amor

Capítulo 11 – Render-se ao futuro


Obediência, aceitação e sofrimento

Capítulo 12 – O que devo fazer?


O caminho inaciano para tomar decisões

Capítulo 13 – Seja quem você é!


Trabalho, emprego, carreira... e vida

Capítulo 14 – O contemplativo em ação


Nosso modo de conduta

Agradecimentos
Capítulo 1

Um modo de conduta
O que é a espiritualidade inaciana?

Q uem é Santo Inácio de Loyola e o que ele tem a nos dizer hoje?
Santo Inácio de Loyola foi um soldado que se tornou místico e fundou, no
século XVI, uma ordem católica chamada Companhia de Jesus, cujos
integrantes eram conhecidos como jesuítas. Sua visão não ortodoxa do
cristianismo tem ajudado milhões de pessoas a descobrirem a paz, a alegria e a
liberdade e a terem experiências com Deus na vida cotidiana.
O caminho de Inácio, ou seu “modo de conduta”, para usar uma de suas
expressões preferidas, permitiu que muitas pessoas encontrassem mais
satisfação em suas vidas em um período de mais de 450 anos.
O caminho de Inácio nos leva ao encontro da liberdade: a liberdade de nos
tornarmos a pessoa que somos destinados a ser. Ele nos ensina a amar e a aceitar
o amor. E nos torna capazes de tomar boas decisões, desfrutar da beleza da
criação e participar do mistério do amor de Deus. O caminho de Inácio é
fundamentado em seus próprios escritos, assim como nas tradições, nas práticas
e nos conhecimentos espirituais transmitidos pelos padres e irmãos jesuítas de
geração a geração.
Embora essas tradições, práticas e conhecimentos espirituais tenham
orientado os membros da Ordem dos Jesuítas desde a sua fundação, em 1540,
Inácio sempre desejou que seus métodos se tornassem acessíveis a todos e não
ficassem restritos apenas à comunidade jesuíta. Desde os primórdios da ordem,
Inácio incentivou os jesuítas a transmitir esses ensinamentos a outros padres, a
irmãs e irmãos do ministério, e também aos leigos. A “espiritualidade inaciana”
deve alcançar o maior número possível de fiéis em busca da verdade.
Talvez seja pertinente fazer esta outra pergunta antes de seguir adiante: o que
é “espiritualidade”?
A espiritualidade é um modo de viver em relacionamento com Deus. Na
tradição cristã, todas as espiritualidades, independentemente de sua origem, têm
o mesmo foco: o desejo de união mística com Deus, a ênfase no amor e na
caridade e a fé em Jesus como o Filho de Deus enviado a este mundo.
No entanto, cada espiritualidade ressalta aspectos diferentes da tradição –
uma enfatiza a vida contemplativa; outra, o ativismo, e daí por diante. A
espiritualidade inaciana dá mais importância à alegria, à liberdade, à tomada de
consciência, à dedicação à oração e ao cuidado com os pobres. Todos esses
aspectos são relevantes para todas as espiritualidades cristãs, porém a diferença
está na atenção dedicada a eles por cada “escola” espiritual.

Os jesuítas são práticos


Os jesuítas seguem o exemplo de Inácio no que se refere a uma
espiritualidade prática. Contam uma piada em que um franciscano, um
dominicano e um jesuíta estão celebrando uma missa juntos e, de repente,
falta luz na igreja. O franciscano agradece a chance de poder rezar uma
missa com mais simplicidade. O dominicano aproveita para fazer um
sermão erudito sobre como Deus traz luz para este mundo, enquanto o
jesuíta vai até o porão e troca o fusível.

Em seu livro Os jesuítas: suas doutrinas e práticas espirituais, publicado em


1964, Joseph de Guibert, um jesuíta francês, apresenta uma analogia
interessante que vem da Idade Média.
A espiritualidade é como uma ponte: nos leva de um lugar para outro,
algumas vezes sobre terrenos perigosos, como um rio ou grandes precipícios.
Todas as pontes têm a mesma função, mas a cumprem de maneiras diferentes.
Elas podem ser feitas de concreto, madeira, pedra ou metal; podem ser
arqueadas, pênseis ou apoiadas sobre vigas. “Portanto”, escreve o padre De
Guibert, “sempre haverá muitos tipos diferentes, e cada uma terá suas vantagens
e desvantagens. Cada tipo é adaptável a terrenos e contornos específicos e não a
outros. No entanto, cada ponte, com sua característica própria, alcança o
propósito comum a todas: proporcionar travessias por meio de uma
combinação organizada e equilibrada de materiais e formatos.”
Da mesma forma, todas as espiritualidades proporcionam uma “travessia” até
Deus.
Muitas das espiritualidades da tradição cristã tiveram sua origem nas ordens
religiosas: beneditinos, franciscanos, carmelitas e cistercienses. Cada ordem
desenvolveu, ao longo dos séculos, suas próprias tradições, algumas diretamente
elaboradas por seu fundador, outras resultantes de uma meditação posterior
sobre sua vida e suas práticas. Hoje os membros dessas ordens religiosas vivem
o que o padre De Guibert chama de “tradição de família”.
Quem passa algum tempo com os franciscanos, por exemplo, logo irá notar o
amor que eles têm pelos pobres e pela natureza, uma paixão que marcou a vida
de seu fundador, São Francisco de Assis. Viver alguns dias em uma comunidade
beneditina significa desfrutar do espírito caloroso e hospitaleiro transmitido por
São Bento, o que não é nenhuma surpresa tratando-se de alguém que disse certa
vez: “Todos os hóspedes devem ser recebidos como Cristo.” As ordens religiosas
chamam isso de “carisma”, que vem da palavra em latim para “dom” e
“presente”. O carisma, portanto, é o espírito original, passado adiante pelo
fundador.
Da mesma forma, passar algum tempo com um padre ou irmão jesuí​ta é
experimentar a espiritualidade distintiva de Santo Inácio de Loyola e da Ordem
dos Jesuítas. Isso significa vivenciar as práticas, os métodos, o ânimo, o estilo de
vida e a maneira de compreender o cristianismo e a vida cristã que chegou a nós
por meio de Santo Inácio e ficou conhecida como “espiritualidade inaciana”.
Essa espiritualidade ajudou a Companhia de Jesus a realizar feitos admiráveis
durante a sua movimentada história. É impossível falar sobre as realizações
jesuítas sem que eu pareça muito orgulhoso delas, então deixarei que o
historiador inglês Jonathan Wright faça isso por mim. O trecho a seguir foi
retirado de seu ótimo livro God’s Soldiers: Adventure, Politics, Intrigue and
Power – A History of the Jesuits:

Eles foram conselheiros da corte em Paris, Pequim e Praga, orientando os reis sobre quando e como
deviam se casar ou partir para a guerra. Foram os astrônomos dos imperadores chineses e os capelães
do exército japonês na invasão da Coreia. Como esperado, ministraram sacramentos e sermões e
proporcionaram educação a homens tão diversos quanto Voltaire, Fidel Castro, Hitchcock e James
Joyce. Mas também foram pastores em Quito, fazendeiros no México, viticultores na Austrália e
latifundiários nos Estados Unidos antes da guerra civil. A Companhia de Jesus frutificou no mundo das
letras, das artes, da música e da ciência e dissertou sobre dança, enfermidades e leis da eletricidade e da
óptica. Os jesuítas enfrentaram os desafios de Copérnico, Descartes e Newton, e 35 crateras da
superfície lunar foram nomeadas por cientistas jesuítas.

Nos Estados Unidos, os jesuítas talvez sejam mais conhecidos como


educadores, dirigindo atualmente 28 instituições de ensino superior entre
faculdades e universidades, além de dezenas de colégios e escolas técnicas na
periferia das cidades.
Seguindo a orientação de Inácio para que fossem homens práticos que se
expressassem de maneira acessível, não é de surpreender que, ao longo dos anos,
os jesuítas tenham sintetizado sua espiritualidade em algumas frases fáceis de
lembrar. Nenhuma definição isolada é capaz de traduzir a riqueza da tradição,
mas, juntas, essas frases proporcionam uma introdução ao caminho de Inácio.
Apresento a seguir quatro vias para o entendimento da espiritualidade
inaciana. Pense nelas como arcos sob as pontes de que já falamos.

Quatro vias

Costumava-se dizer que a formação jesuíta era tão organizada que, se


fizéssemos uma mesma pergunta para cinco jesuítas espalhados pelo mundo,
todos dariam a mesma resposta. Hoje, porém, a ordem é bem mais flexível, e
provavelmente teríamos cinco respostas diferentes.
Mas se fossem convocados a definir a espiritualidade inaciana, eles seriam
unânimes em dizer: encontrar Deus em tudo.
Essa frase simples um dia foi considerada revolucionária. O que ela quer dizer
é que nada pode ser considerado fora do alcance da vida espiritual. A
espiritualidade inaciana não está confinada às paredes de uma igreja e não
acredita que a vida espiritual de uma pessoa seja composta apenas pelas orações
e pelos textos sagrados.
Acima de tudo, ela não considera trabalho, dinheiro, sexo, depressão ou
doença tópicos a serem evitados quando se trata de vida espiritual.
A espiritualidade inaciana considera tudo um elemento importante da nossa
vida. Isso inclui os cultos religiosos, a leitura da Bíblia, a oração e o cuidado dos
pobres, evidentemente, mas também se estende aos amigos, à família, ao
trabalho, aos relacionamentos, ao sexo, ao sofrimento e à alegria – assim como à
natureza, à música e à cultura pop.
Uma boa história para ilustrar esse ponto vem de um padre jesuíta chamado
David Donovan, que serviu como sacerdote paroquiano em Boston antes de
entrar para a Ordem dos Jesuítas aos 39 anos.
Após ingressar na Ordem, David passou décadas estudando a sabedoria de
Inácio de Loyola e durante muitos anos foi o responsável pela formação dos
jovens jesuítas. Foi também um diretor espiritual muito capacitado, que ajudava
os fiéis nas orações e em seu relacionamento com Deus.
David e eu nos encontramos pela primeira vez quando ingressei no noviciado
em Boston. Nos dois anos seguintes, ele foi meu guia espiritual, me orientando
na caminhada com Deus em conversas que eram muitas vezes marcadas por
risos e lágrimas.
Graças a seu programa de treinamento abrangente, David era sempre muito
requisitado em seminários, casas de retiro, paróquias e conventos ao redor do
mundo. Há alguns anos, porém, ele morreu subitamente de um ataque cardíaco
aos 65 anos. Sua irmã estimou que ele estava encarregado da direção espiritual
de cerca de 60 pessoas. Muito do que sei sobre oração aprendi com ele.
Certa tarde, eu estava aborrecido por causa de alguns problemas familiares,
mas evitava falar sobre o assunto porque eles não estavam relacionados com a
minha “vida espiritual”. David sentou-se em sua cadeira de balanço e me
escutou atentamente. Depois de alguns minutos, ele disse: “Tem alguma coisa
que você está me escondendo?”
Eu admiti que andava preocupado com minha família, mas evitava falar sobre
aquilo, pois achava que ali deveríamos conversar apenas sobre coisas espirituais.
Ele retrucou: “Jim, tudo faz parte de sua vida espiritual. Você não pode colocar
um pedaço de sua vida numa caixa, trancá-la numa estante e fingir que ela não
está lá. Você tem que abrir essa caixa e confiar que Deus o ajudará a olhar para o
que está dentro dela.”
A imagem de David sempre me impressionou. Na espiritualidade inaciana
não há nada que possa ser trancado e escondido. Não há nada a ser temido.
Nada a ser deixado de lado. Tudo pode ser aberto perante Deus.
Este livro é um guia para descobrir como Deus pode ser encontrado em todas
as dimensões de nossa vida. Como Deus pode ser encontrado em tudo – e
também em todos.
As perguntas a seguir são apropriadas à espiritualidade inaciana, da qual
iremos tratar nos próximos capítulos:
Como descubro o que devo fazer na vida?
Como descubro o que devo ser?
Como tomo boas decisões?
Como pratico uma vida simples?
Como consigo ser um bom amigo?
Como consigo lidar com o sofrimento?
Como posso ser feliz?
Como encontro Deus?
Como devo orar?
Como devo amar?

Todos esses questionamentos são adequados à espiritualidade inaciana, pois


estão diretamente relacionados às pessoas.
Depois de “encontrar Deus em tudo”, a segunda questão com a qual aqueles
cinco jesuítas talvez concordem é a seguinte: a espiritualidade inaciana é voltada
para a contemplação na ação.
Essa questão mobiliza muita gente hoje em dia. Quem não gostaria de ter
uma vida mais contemplativa ou simplesmente mais tranquila? Você não
gostaria de se desligar por um tempo de celulares, TV, e-mails, e ter uma vida
mais sossegada? Mesmo que goste de todos esses recursos da tecnologia, nunca
pensou em se afastar deles?
Bem, mesmo que a paz e a solidão sejam essenciais para o crescimento
espiritual, a maioria de nós não vai abandonar seus empregos e ingressar em um
mosteiro para viver em permanente oração. E isso não quer dizer que a rotina
dos jesuítas não seja dura.
Embora Inácio tenha aconselhado os jesuítas a dedicar um tempo à oração,
também esperava que eles levassem uma vida ativa. “A estrada é o nosso lar”,
disse Jerônimo Nadal, um dos primeiros companheiros de Inácio. No entanto,
deviam ser pessoas ativas que adotavam uma postura contemplativa e
meditativa em relação ao mundo – deviam ser “contemplativos em ação”.
A maioria de nós tem rotinas atarefadas e não nos sobra muito tempo para
orar e meditar. Mas, tomando consciência do mundo ao redor, é possível obter
um enfoque contemplativo que dê mais qualidade às nossas ações. Em vez de
enxergar a vida espiritual como algo que só pode existir na clausura de um
mosteiro, Inácio pede que você enxergue o mundo como o seu mosteiro.
A outra maneira de compreender o caminho de Inácio é a espiritualidade
encarnada.
A teologia cristã sustenta que Deus se tornou humano, ou “encarnado”, na
pessoa de Jesus de Nazaré. A palavra encarnação vem da raiz latina carn, para
“carne”. Ter uma espiritualidade encarnada significa acreditar que Deus pode
ser encontrado nos acontecimentos diários de nossa vida. Ele não está em algum
outro lugar; Ele está aqui também. Se você está procurando Deus, olhe em volta.
Uma das melhores definições de oração foi dada por Walter Burghardt, um
teólogo jesuíta do século XX, que se referiu à oração como um “olhar demorado
e amoroso para o real”. A espiritualidade encarnada, portanto, fala desse novo
olhar para a realidade.
Com certeza não podemos conhecer Deus por completo, pelo menos nesta
vida. Santo Agostinho, o excepcional teólogo do século IV, disse certa vez que,
se nós pudermos compreendê-Lo, então “Ele” não pode ser Deus, pois Deus é
incompreensível. Mas isso não significa que não possamos começar a conhecê-
Lo. Portanto, se por um lado a espiritualidade inaciana admite essa
transcendência de Deus, ela, por outro lado, crê na encarnação, reconhecendo a
imanência, ou proximidade, de Deus em nossas vidas.
A espiritualidade inaciana, por fim, diz respeito à liberdade e ao desapego.
Inácio tinha consciência aguçada do que impedia que ele e os demais
levassem uma vida de liberdade e alegria. Grande parte de seu livro clássico,
Exercícios espirituais, escrito entre 1522 e 1548, foi produzida para ajudar as
pessoas a encontrar a liberdade de tomar boas decisões. O título original da obra
era “Exercícios espirituais para vencer a si mesmo e organizar a vida livre de
decisões influenciadas por algum sentimento desequilibrado”.
Algumas ideias importantes estão embutidas nesse título tão esquisito. No seu
final, por exemplo, o que ele chama de “sentimento desequilibrado” é o seu
modo de descrever tudo o que nos impede de ser livres. Quando Inácio diz que
devemos ser “desapegados”, ele está falando de não ficarmos aprisionados a
coisas sem importância. O que acontece se a sua maior preo​cupação na vida, por
exemplo, for ganhar dinheiro? Bem, você pode não ter tempo para se relacionar
com pessoas que não contribuam para o seu crescimento profissional. Pode até
começar a tratá-las como instrumentos – ou pior, como empecilhos – na sua
busca de ascensão desenfreada. Com o passar do tempo, pode até ver todas as
coisas girando em torno do seu trabalho e da sua ambição de enriquecer.
Claro que todos nós queremos nos realizar profissionalmente e progredir na
carreira. Mas, se depois de algum tempo sacrificarmos todo o resto para
alcançar este fim, logo descobriremos que o trabalho se tornou um tipo de
“deus” para nós.
Quando me perguntam de que forma alguém pode desobedecer ao primeiro
mandamento (“Não terás outros deuses além dEle” ou “Amar a Deus sobre
todas as coisas”), costumo dizer que, embora algumas poucas pessoas hoje ainda
acreditem em muitos deuses como no passado, muito mais gente está
acreditando em novos “deuses”. Para algumas, seu “deus” é a carreira. Ou o
dinheiro. Ou o sucesso.
O que Santo Inácio diria sobre tudo isso?
Muito provavelmente ele franziria o cenho e diria que, embora os seres
humanos precisem ganhar dinheiro, eles têm de tomar cuidado para não
deixarem o trabalho se tornar um “sentimento desequilibrado” que os impeça
de serem livres para conhecer gente nova, passar tempo com quem amam e ver
as pessoas como fins e não como meios. Trata-se de um “sentimento” na
medida em que ele afeta a pessoa. E é “desequilibrado” porque não está em
harmonia com o fluir da vida.
Inácio nos convidaria a abraçar o desapego. Quando conseguimos alcançar
esse estado, nos tornamos mais livres e felizes.
Ele aconselhou as pessoas a evitar os sentimentos desequilibrados porque eles
bloqueiam o caminho para o desapego, impedindo-as de viver com mais
liberdade e crescer como seres humanos, chegando mais próximo de Deus. Se
isso parecer surpreendentemente budista, não se espante: essa proposta de vida
faz parte de muitas tradições espirituais.
Portanto, se alguém pedir que eu defina em poucas palavras a espiritualidade
inaciana, eu diria que ela significa:

1. Encontrar Deus em tudo.


2. Tornar-se um contemplativo em ação.
3. Enxergar o mundo na perspectiva da encarnação.
4. Desejar liberdade e desapego.
Para entender o pensamento de Inácio, é relevante conhecer um pouco o
homem que ele foi. Assim como acontece com todos os mestres espirituais, as
experiências dele influenciaram sua visão de mundo e suas práticas espirituais.
Mais ainda, a história de Santo Inácio de Loyola é um bom lembrete de que a
vida é, antes de tudo, uma jornada do espírito.

Uma breve biografia de Inácio de Loyola

Inácio nasceu na região basca do nordeste da Espanha, em 1491, e passou


grande parte de sua juventude se preparando para ser cortesão e soldado. Era
popular entre as mulheres e, segundo algumas fontes, um tanto colérico. O
primeiro parágrafo de sua autobiografia revela que ele era “dado às vaidades do
mundo” e movido principalmente por “grande desejo de conquistar fama”.
Em outras palavras, era um sujeito vaidoso, interessado principalmente no
sucesso mundano. “Ele tinha mania de sair vestindo casaco de carteiro”,
escreveu um contemporâneo sobre o Inácio da faixa dos 20 e poucos anos, que
“tinha cabelo comprido até os ombros e costumava desfilar com um gibão de
duas cores e um chapéu extravagante”.
Assim como muitos homens santificados, Inácio nem sempre foi santo. O
historiador jesuíta John W. Padberg me contou que Inácio pode ter sido o único
santo com ficha na polícia por agressão.
Durante uma batalha em Pamplona em 1521, o aspirante a soldado teve uma
das pernas estilhaçada por uma bala de canhão e sua dolorosa recuperação se
estendeu por longos meses. A primeira cirurgia foi malsucedida, e Inácio, que
desejava poder usar os trajes bem apertados da moda, se submeteu a uma série
de operações pavorosas. A maratona cirúrgica, entretanto, o deixaria manco
para o resto da vida.
Enquanto convalescia no castelo da família em Loyola, a esposa de seu irmão
o presenteou com um livro sobre a vida de Jesus e outro sobre a vida dos santos.
Mas esses eram os últimos temas sobre os quais ele desejava ler. O soldado
ambicioso preferia as movimentadas novelas de cavalaria, com cavaleiros
executando façanhas galantes para impressionar nobres donzelas. “Mas naquele
lugar nenhum dos livros que ele costumava ler podiam ser encontrados”, diz sua
autobiografia.
Quando ele folheava, entediado, as páginas das vidas aparentemente
entediantes daqueles santos, algo surpreendente aconteceu. Inácio começou a
imaginar se ele poderia seguir os seus passos. Dentro dele um estranho desejo se
acendeu: tornar-se como os santos que servem a Deus. “E se eu pudesse fazer o
que São Francisco fez e o que São Domingos fez?”, escreveu ele.
Ele era um homem mediano que nunca se interessara pela observância
religiosa acreditando que poderia imitar dois dos maiores santos da tradição
católica.
Inácio trocara sua ambição pela vida militar por uma vontade de seguir a vida
espiritual? David, meu diretor espiritual no noviciado jesuíta, explica de outra
forma: Deus usou até mesmo o orgulho arrogante de Inácio para o bem. Pois
todas as partes de uma vida podem ser transformadas pelo amor de Deus. Até os
aspectos que consideramos mais pecaminosos podem se tornar dignos e santos.
Como diz o ditado popular: “Deus escreve certo por linhas tortas.”
E assim começou a transformação de Inácio. Em vez de querer empreender
heroicas expedições militares para impressionar “certa senhora”, como escreveu,
ele sentia um desejo ardente de servir a Deus, assim como fizeram os santos,
seus novos heróis.
Depois de se recuperar, Inácio ponderou sobre os insights que teve no castelo
e, apesar dos protestos da família, decidiu renunciar à vida militar e se consagrar
inteiramente a Deus. Assim, em 1522, aos 31 anos, ele peregrinou até uma
abadia beneditina em Montserrat, na Espanha, onde se despojou de todos os
seus trajes e os deu a um mendigo. Em seguida, depositou sua armadura e sua
espada diante de uma estátua da Virgem Maria.
Ele ficou quase um ano morando numa pequena cidade nas imediações
chamada Manresa e passou a adotar práticas ascéticas: além de fazer jejum e
orações intermináveis, parou de cortar o cabelo e as unhas. Foi um período
sombrio em sua vida, durante o qual ele experimentou uma grande aridez
espiritual, se arrependeu de seus pecados e chegou a pensar em cometer
suicídio.
A dificuldade de tentar viver como um santo o levava ao desespero. Como ele
poderia mudar sua vida tão drasticamente? “Como você será capaz de suportar
esta nova vida pelos 70 anos que tem pela frente?”, parecia dizer uma voz dentro
dele. Mas ele rejeitou aqueles pensamentos, considerando que eles não vinham
de Deus. Com a ajuda de Deus, decidiu que conseguiria mudar. E foi assim que
venceu a depressão.
Pouco a pouco, Inácio foi reduzindo o rigor de suas práticas e recuperou o
equilíbrio interno. Mais tarde, em Manresa, ele iniciou uma série de
experiências místicas em oração que o convenceram de que fora chamado para
um relacionamento mais profundo com Deus.
Para ele, foi uma época de aprendizado sobre a vida espiritual. Em uma
analogia comovente, Inácio escreveu: “Deus me tratou como um professor trata
uma criança a quem está educando.”
Certo dia, caminhando pelas margens do rio Cardoner, nas redondezas, e
envolvido na oração, teve uma experiência de união mística com Deus. Em sua
autobiografia, ditada a Pe. Luís da Câmara, ele conta:

Quando prosseguiu, absorto em suas meditações, sentou-se por um instante com o rosto voltado para o
rio que corria caudaloso. Enquanto estava ali sentado, os olhos do seu entendimento começaram a se
abrir. Ainda que não tenha tido visão alguma, ele entendeu e conheceu muitas coisas, tanto espirituais
quanto questões de fé e de aprendizado, e aquilo foi uma iluminação tão grande que tudo pareceu novo
para ele.
Os detalhes do que compreendeu naquele instante ele não pôde manifestar, exceto que
experimentou uma grande clareza em seu entendimento. E foi uma clareza tal que por todo o curso de
sua vida, ao longo de 62 anos, mesmo que ele reunisse todas as muitas ajudas que havia recebido de
Deus e todas as muitas coisas que conhecia e as somasse, acreditava que não se equiparariam ao que ele
recebeu naquele momento tão especial.

O tempo que passou em Manresa foi fundamental para sua formação e


também ajudou a sedimentar as ideias que um dia seriam reunidas nos
Exercícios Espirituais.
Depois de vários inícios falsos, incluindo uma peregrinação à Terra Santa –
onde descobriu ser impossível obter permissão oficial para trabalhar –, Inácio
decidiu que poderia servir melhor à Igreja tendo uma educação específica e se
tornando padre ordenado. Então retomou seus estudos em duas universidades
espanholas, depois de aceitar dividir salas de aula do curso primário para
aprender os rudimentos do latim. Por fim, foi para a Universidade de Paris,
onde dependeu de caridade para se sustentar.
Em Paris, fez vários novos amigos que se tornariam seus companheiros
originais, ou os primeiros jesuítas. Entre eles estavam homens como Francisco
Javier, conhecido mais tarde como o grande missionário São Francisco Xavier.
Em 1534, Inácio e mais seis amigos fizeram um voto conjunto de pobreza e
castidade.
Na época, Inácio concluiu que o seu pequeno grupo poderia ter mais
utilidade se recebesse aprovação do papa. Assim, finalmente solicitaram ao papa
permissão formal para começar uma nova ordem religiosa, a Companhia de
Jesus. Mas não foi fácil conseguir a aprovação. Em 1526, quando estudava na
cidade espanhola de Alcalá, suas novas ideias sobre oração levantaram suspeita,
e ele foi preso pela Inquisição. Ficou preso por 17 dias sem ser interrogado e
sem saber o motivo de sua detenção.
O conceito de “contemplativos em ação” também incomodou muitos no
Vaticano, por ser considerado vagamente herético. Alguns clérigos
proeminentes acreditavam que membros de ordens religiosas deveriam estar
enclausurados nos mosteiros, assim como os cistercienses e as carmelitas, ou,
pelo menos, levar uma vida separada das loucuras do mundo, como os
franciscanos. Era chocante a ideia de membros de uma ordem religiosa estarem
soltos no mundo sem se reunirem de hora em hora para orar. Mas Inácio
permaneceu firme em seu propósito: seus homens deveriam ser contemplativos
em ação, orientando as pessoas a encontrar Deus em todas as coisas.
Alguns consideraram até o nome da ordem arrogante. Quem eram esses
desconhecidos que se autoproclamavam a Companhia de Jesus? O termo
“jesuíta” foi aplicado como zombaria pouco depois da fundação da ordem, mas,
por fim, foi adotado como uma insígnia de honra.
Em 1537, Inácio e outros companheiros foram ordenados, mas ele preferiu
adiar por um ano a celebração de sua primeira missa, a fim de se preparar
espiritualmente para esse acontecimento tão importante. Ele esperava celebrá-la
em Belém, mas, quando viu que seria impossível, realizou-a na Basílica de Santa
Maria Maior, em Roma, que muitos acreditavam ser o verdadeiro berço de
Jesus.
Na ocasião, Inácio convenceu seus críticos ao explicar meticulosamente os
objetivos de seu grupo e ao apresentar os Exercícios Espirituais a alguns de seus
detratores. Em 1540, a Companhia de Jesus foi oficialmente reconhecida pelo
papa Paulo III. A meta dos jesuítas era ao mesmo tempo simples e ambiciosa: ao
contrário do que se pensa, não era se “opor” à Reforma Protestante, e sim
“ajudar as almas”.
Inácio viveu o restante de seus dias em Roma como superior da Companhia
de Jesus. Na capital italiana, escreveu as Constituições dos jesuítas, enviou
homens a todos os cantos do mundo, correspondeu-se com as comunidades
jesuítas, prosseguiu com seu aconselhamento espiritual, criou o primeiro
orfanato de Roma e inaugurou o Collegio Romano, uma escola para meninos
que logo se tornou universidade.
No final, os tempos de ascetismo apresentaram a conta. Nos últimos anos de
vida, Inácio teve problemas de fígado, febre alta e exaustão física, além das
complicações estomacais que sempre o atormentaram. Por fim, ele ficou
confinado ao seu quarto. Pouco antes de sua morte, a enfermeira jesuíta que
cuidava dos enfermos da ordem relatou ter ouvido Padre Inácio suspirando
durante sua oração, clamando suavemente por Deus. Ele faleceu em 31 de julho
de 1556.
Nos dias de hoje, Santo Inácio de Loyola pode não provocar o tipo de afeição
calorosa que muitos outros santos despertam – como São Francisco de Assis e
Santa Teresinha. A razão disso talvez seja o tom austero de sua autobiografia.
Ou talvez porque suas cartas em geral se refiram a assuntos práticos, como a
arrecadação de dinheiro para as escolas jesuítas. Talvez ainda porque em
algumas pinturas ele esteja retratado não como um jovem romântico, mas como
um administrador sisudo diante de sua escrivaninha.
Mas a sua habilidade para reunir seguidores dedicados mostra que ele deve
ter sido um homem bastante cordial. Sua compaixão profunda também o
tornou capaz de lidar com algumas personalidades difíceis na Companhia de
Jesus. Um contemporâneo seu escreveu: “Ele é manso, amigável e agradável, e
fala do mesmo jeito com o letrado e o analfabeto, com gente importante e com
gente simples. É um homem digno de todo o louvor e reverência.”

Em todas as coisas, atitudes e conversas, Inácio contemplava a presença de


Deus e vivenciava a realidade das coisas espirituais, de forma que ele era
um contemplativo em ação e acreditava que Deus deve ser encontrado em
tudo.

– Jerônimo Nadal, um dos primeiros membros


da Companhia de Jesus
Graças às suas práticas espirituais, Inácio desfrutava de uma potente
liberdade interior: ele se considerava “desapegado” até mesmo de sua ordem.
Disse certa vez que, se o papa algum dia ordenasse a dispersão dos jesuítas, ele
precisaria de apenas 15 minutos em oração para se restabelecer e seguir em
frente.
No entanto, foi bom ele não estar por perto em 1773, quando a Santa Sé
dispersou os jesuítas. Uma confusão armada pelos poderes políticos europeus
forçou o papa a dissolver a ordem, principalmente porque seus integrantes
achavam que a sua universalidade e a devoção ao papado colidiam com sua
soberania. O papa Clemente XIV expediu formalmente um documento de
“supressão”, dissolvendo a Companhia de Jesus. A imperatriz Catarina, a
Grande, que não era favorável a Clemente, se recusou a promulgar o decreto na
Rússia, e assim os jesuítas continuaram a existir naquele país.
Após quatro décadas, os ventos políticos mudaram, e os membros da ordem,
que mantiveram contato entre si durante os anos de separação, foram
oficialmente “restaurados” em 1814.

Os Exercícios Espirituais e as Constituições

Enquanto escrevia as Constituições, Inácio dava também os últimos retoques


no seu texto clássico Exercícios Espirituais, seu manual de meditação de quatro
semanas sobre a vida de Jesus, publicado pela primeira vez em 1548. E para
entender seu conteúdo é preciso saber alguma coisa sobre os exercícios
espirituais em si, o primeiro presente de Inácio para o mundo.

Os Exercícios Espirituais
Eles são organizados em quatro seções separadas, que Inácio chamou de
“semanas”. Uma versão convida a pessoa a renunciar à vida cotidiana para se
entregar a quatro semanas de meditação, com quatro ou cinco perío​dos diários
de oração. Hoje, esta versão costuma ser aplicada nas casas de retiro, onde o
praticante é orientado por um diretor espiritual. E assim os exercícios espirituais
em geral são completados no curso de um mês inteiro.
Mas, como Inácio queria que o máximo de pessoas se beneficiasse dos
exercícios, ele incluiu em seu texto várias anotações a fim de torná-los mais
flexíveis. Algumas pessoas podem não estar prontas para o programa completo
de exercícios, mas ainda assim poderiam desfrutá-los parcialmente. Ele sugere,
por exemplo, que as pessoas envolvidas em “questões públicas ou atividades
tensas” poderiam fazer os exercícios por períodos maiores em meio aos seus
compromissos diários. Em vez de se afastarem e orarem durante um mês
inteiro, elas poderiam orar uma hora por dia e estender o programa por vários
meses.
“O ensinamento fundamental de Inácio era que os indivíduos encontrassem o
caminho em que se encaixassem melhor”, escreveu o historiador jesuíta John W.
O’Malley em sua obra sobre os primeiros anos da Companhia, The First Jesuits.
Os exercícios seguem um esquema minucioso baseado na trajetória de
progresso espiritual que Inácio observou em si mesmo e mais tarde nos outros.
A Primeira Semana é dedicada à gratidão pelas dádivas de Deus na vida do
praticante e depois à sua tendência ao pecado. Algumas vezes é revelado um
pecado profundo, como o egoísmo. No final da primeira semana, o praticante
geralmente é levado a perceber que é um pecador – ou um ser humano falho –,
mas mesmo assim é amado por Deus.
A Segunda Semana consiste em uma série de meditações extraídas
diretamente do Novo Testamento, com foco no nascimento, na juventude e, por
fim, no ministério de Jesus de Nazaré. O praticante acompanha Jesus em suas
pregações, suas curas e seus milagres e entra em contato, de forma imaginativa,
com Jesus em seu ministério terreno.
A Terceira Semana é dedicada à Paixão: a entrada final de Jesus em Jerusalém,
a Última Ceia, seu julgamento, crucificação, sofrimento na cruz e morte.
A Quarta Semana está baseada nos relatos do Evangelho sobre a ressurreição
e, de novo, no amor de Deus pelos indivíduos.
Ao longo dos exercícios, Inácio inclui meditações específicas sobre temas
como humildade, tomada de decisão e escolha entre o bem e o mal.
Algumas obras clássicas de espiritualidade foram feitas para serem lidas de
forma contemplativa. Com Exercícios Espirituais é diferente. Em vez de apenas
lido, esse livro deve ser colocado em prática.
Quando os jesuítas pensam sobre os exercícios, eles estão pensando sobre um
estilo particular de oração recomendado por Inácio: usar a imaginação como
ajuda para orar, como um meio de se colocar dentro de alguns episódios
específicos da Bíblia. Logo, os Exercícios não se resumem a um programa de
oração: eles também introduzem um modo de orar.
Os Exercícios Espirituais são a maior referência para entender o caminho de
Inácio – que conduz a Deus, proporciona maior liberdade e o guia para uma
vida com propósito.

As Constituições
Durante seus anos em Roma, Inácio passou muito tempo escrevendo as
Constituições, uma série de diretrizes que governa a vida jesuíta – nas
comunidades, nos vários trabalhos que fazemos, na maneira como nos
relacionamos – em quase todas as áreas. Inácio trabalhou nelas até sua morte e,
assim como aconteceu com os Exercícios Espirituais, aprimorava o texto
constantemente. Elas são um outro recurso para se entender a sua espiritua​-
lidade singular.
Todas as ordens religiosas têm algum documento parecido com as
Constituições. Normalmente ele é chamado de “regra”, como no caso da Regra
de São Bento, que governa a vida da ordem beneditina. Cada regra é uma janela
para a espiritualidade subjacente, ou “carisma”, da ordem religiosa. É possível
aprender bastante sobre os beneditinos lendo a sua Regra, assim como é possível
aprender muito sobre a espiritualidade inaciana lendo as Constituições.
Para um jesuíta, se os Exercícios ensinam como viver a própria vida, as
Constituições orientam a como se relacionar com os outros. Os Exercícios são
sobre você e Deus; já as Constituições são sobre você, Deus e seus irmãos jesuí​-
tas.
Nas Constituições, Inácio apresentou suas ideias sobre a maneira como os
jesuítas deviam ser treinados, como deviam conviver uns com os outros, como
deviam trabalhar melhor juntos, os tipos de atividade que deviam desempenhar,
como os superiores deviam se comportar, como os doentes deviam ser cuidados
e que homens deviam ser aceitos na ordem – em suma, todas as facetas da vida
jesuíta que ele conseguiu imaginar. Buscando inspiração divina, ele orava
fervorosamente sobre cada item antes de colocá-lo no papel.
Nesse processo, ele consultou alguns de seus primeiros companheiros sobre o
melhor curso de ação. Portanto as Constituições são resultado de sua própria
experiência e suas orações, assim como do conselho de seus amigos de
confiança. Por isso elas refletem uma espiritualidade bastante sensível. André de
Jaer, um jesuíta belga, diz que elas incorporam “um realismo espiritual, sempre
atento ao concreto e prático”.
Ainda que as Constituições estabeleçam regras precisas para a vida nas
comunidades jesuítas, Inácio reconhecia a importância da flexibilidade. Depois
de uma extensa descrição do que era exigido para a vida comunitária, ele
acrescentaria um adendo, sabendo que circunstâncias imprevistas sempre
pedem flexibilidade: “Se alguma coisa mais for conveniente para um indivíduo,
o superior examinará a matéria com prudência e poderá abrir uma exceção.”
Flexibilidade é a marca distintiva desse documento.
Também são encontradas sugestões sobre tomadas de decisão, trabalho em
conjunto, como levar um estilo de vida modesto e sobre como contar com os
amigos. Portanto é uma fonte bastante útil não apenas para jesuítas, mas para
todos os interessados em seguir o caminho de Inácio.

Cartas, atividades, santos,


regras vivas e especialistas

A Autobiografia, os Exercícios Espirituais e as Constituições são três das


principais fontes para a espiritualidade jesuíta, mas não são as únicas. Várias
outras podem ajudar a entender o caminho de Inácio.
Entre elas estão as cartas que ele escreveu – e foram muitas. Algumas de suas
cartas são pequenas obras-primas do gênero, combinando incentivo, conselhos,
novidades e promessas generosas de apoio e amor. Assim como muitas figuras
públicas do século XVI, para ele, escrever cartas era uma arte. E, assim como
muitas figuras religiosas, ele considerava isso um ministério. Ele aconselhava os
jesuítas em postos oficiais, em especial os missionários, a escreverem duas
cartas: a primeira traria histórias edificantes para os camaradas jesuítas e o
público em geral. A segunda conteria mais novidades pessoais e nela o
remetente deveria se expressar “de maneira impetuosa e do fundo do coração”.
Outra fonte para a compreensão do caminho de Inácio são as atividades
jesuítas. O historiador John W. O’Malley ressalta que para entender a
espiritualidade inaciana é importante olhar não apenas para o que os jesuítas
escreveram, mas também para o que eles fizeram.
Saber, por exemplo, que os primeiros jesuítas implantaram tão variadas
instituições como colégios para meninos e um lar para prostitutas aposentadas,
enquanto eram conselheiros de papas e de um concílio ecumênico, nos dá uma
ideia de sua abertura para novos ministérios, o que não se pode imaginar lendo
as Constituições. E ao ler sobre seus primeiros trabalhos na educação
compreende-se a ênfase que Inácio dava à razão, ao aprendizado e à formação
acadêmica.
A história dos santos jesuítas que seguiram Inácio é outro recurso para
entender o seu legado. Esses homens aplicaram seus próprios insights ao
caminho de Inácio tanto no cotidiano mais conhecido quanto nos ambientes
mais hostis. Quer estivessem trabalhando entre os huronianos e iroqueses,
povos nativos da Nova França do século XVII, como Santo Isaac Jogues e São
João de Brébeuf, ou ministrando secretamente para os católicos ingleses do
século XVI durante a perseguição da Coroa, como Santo Edmundo Campion,
ou sobrevivendo em um campo de trabalhos forçados soviético nas décadas de
1940, 1950 e 1960, como Walter Ciszek. Ou ainda trabalhando junto aos pobres,
como os jesuítas salvadorenhos que foram martirizados nos anos 1980. Cada
vida desses santos e homens de Deus ressalta uma faceta específica da
espiritualidade inaciana.
Em muitas ordens religiosas, os membros cujas vidas incorporam os ideais de
sua ordem são chamados de “regras vivas”. Se a comunidade por alguma razão
perdesse a sua regra ou constituição, seria preciso apenas olhar para esses
homens e mulheres para entendê-las de novo. Estas regras vivas, cujas histórias
irei compartilhar aqui, são outra fonte de compreensão da espiritualidade
inaciana.
Finalmente, há o recurso dos experts, os especialistas que fizeram do estudo
da espiritualidade inaciana a obra de suas vidas. Felizmente, isto se estende para
muito além dos padres e irmãos jesuítas. Em uma progressão que teria alegrado
Inácio – que recebia qualquer um em seu caminho espiritual –, freiras, padres e
irmãos católicos de outras ordens religiosas, clérigos e leigos de outros
segmentos cristãos, e até homens e mulheres de outras tradições religiosas,
todos adotaram o caminho de Inácio. Alguns estiveram entre os mais
perspicazes comentaristas de sua espiritualidade.
O caminho de Inácio

O caminho de Inácio foi trilhado por centenas de milhares de jesuítas nos


últimos 450 anos em todas as partes do mundo e em quase todas as situações
concebíveis, muitas delas perigosas.
As concepções de Inácio inspiraram o jesuíta italiano Matteo Ricci a viver e se
vestir como um mandarim para poder ter acesso à corte imperial chinesa nos
anos 1600. Elas estimularam o paleontólogo e teólogo francês Teilhard de
Chardin a partir para uma escavação arqueológica pioneira na China na década
de 1920. Também inspiraram John Corridan, um cientista social americano, a
lutar pela reforma trabalhista na Nova York dos anos 1940.
O caminho de Inácio deu consolo a Alfred Delp, um jesuíta alemão, quando
ele estava preso aguardando a execução por ter ajudado o movimento aliado de
resistência ao nazismo. Também trouxe conforto a Dominic Tang, um jesuíta
que passou 22 anos em uma prisão chinesa por sua lealdade à Igreja Católica. E
motivou Daniel Berrigan, o pacifista americano, em seus protestos contra a
Guerra do Vietnã, nos anos 1960.
E milhares de jesuítas menos conhecidos encontraram na espiritualidade
inaciana um guia para suas vidas diárias. O professor tentando se comunicar
com as crianças da periferia. O médico trabalhando em um campo de
refugiados. O capelão assistindo um paciente moribundo no hospital. O pastor
confortando um paroquiano angustiado. O capelão do exército acompanhando
os soldados e tentando achar o sentido da vida no meio da violência. Essa lista
está bem próxima de mim, pois conheci cada um desses homens.
Acrescente a esse rol os milhões de irmãos leigos e irmãs leigas que vieram a
conhecer a espiritualidade inaciana por meio de escolas, paróquias ou casas de
retiro – maridos, esposas, pais, mães, solteiros de ambos os sexos, de todas as
camadas sociais, de todas as partes do mundo –, que encontraram nela um
caminho para a paz e a alegria, e você começará a ter um vislumbre da enorme
vitalidade desta tradição antiga, porém bem viva.
Em resumo, a espiritualidade inaciana funcionou para as pessoas de uma
impressionante variedade de épocas, lugares e procedências. E funcionou para
mim: ela me ajudou a passar de uma sensação de paralisia para a certeza de estar
livre.
Este livro é uma introdução ao caminho de Santo Inácio de Loyola, pelo
menos da forma como o aprendi em mais de 20 anos como jesuíta. Ele não tem
a intenção de ser excessivamente intelectual ou acadêmico e também não
pretende ser completo. É impossível sintetizar quase cinco séculos de
espiritualidade em poucas páginas.
Porém a espiritualidade inaciana é tão ampla que a apresentarei em uma
grande variedade de tópicos, entre eles: fazer boas escolhas, encontrar uma
ocupação relevante, ser um bom amigo, viver com simplicidade, pensar sobre o
sofrimento, aprofundar a oração, se esforçar para ser uma pessoa melhor e
aprender a amar.
O caminho de Inácio nos ensina que não há nada que não faça parte da vida
espiritual. Todos aqueles assuntos nos quais você tem evitado tocar –
dificuldades conjugais, problemas no trabalho, uma doença grave, um
relacionamento rompido, preocupações financeiras – podem ser abordados e
examinados sob a luz de Deus.
Veremos como encontrar Deus em tudo e tudo em Deus. E tentaremos fazer
isso com senso de humor, um elemento essencial da vida espiritual. Não há
necessidade de ser ranzinza ao lidar com a religião e a espiritualidade, porque a
alegria, o humor e o riso são presentes de Deus.
Também apresentarei algumas maneiras claras e simples de incorporar a
espiritualidade inaciana à sua vida cotidiana. Desenvolver a espiritualidade não
deve ser uma tarefa complexa, por isso oferecerei dicas simples e exemplos da
vida real.
Você não precisa ser católico, cristão, religioso nem espiritualizado para se
beneficiar de alguns dos insights de Santo Inácio de Loyola. Quando transmiti a
alguns incrédulos as técnicas inacianas para se tomar boas decisões, eles se
encantaram com os resultados. E, quando expliquei a alguns ateus por que
tentamos viver com simplicidade, eles se admiraram com a sabedoria de Inácio.
Mas seria insano negar que para Inácio “ser espiritual” e “ser religioso” não
eram a coisa mais importante do mundo. Seria igualmente insano separar Deus
ou Jesus da espiritualidade inaciana. Isso tornaria os escritos dele absurdos.
Deus estava no centro da vida de Inácio. O fundador dos jesuítas teria algumas
coisas afiadas a dizer sobre quem ousasse separar suas práticas de seu amor por
Deus.
Mas Inácio sabia que Deus encontra as pessoas onde elas estão. Nós estamos
todos em estágios diferentes na nossa caminhada com Deus, e em estradas
diferentes também. O próprio Inácio fez um percurso tortuoso e reconhecia que
a ação de Deus não pode estar limitada ao povo que se considera “religioso”.
Portanto a espiritualidade inaciana abraça naturalmente a todos, desde o crente
consagrado até o buscador errante. Para usar uma das expressões prediletas de
Inácio, seu caminho é uma “via de conduta” na jornada para Deus.
Mas não se preocupe se não se sentir perto de Deus neste momento. Nem se
nunca se sentiu. Ou se tem dúvida da Sua existência. Ou mesmo se está
razoavelmente convencido de que Deus não existe. Continue lendo. Deus
cuidará do resto.
Capítulo 2

Os seis caminhos
Espiritual, religioso, espiritual não religioso
e todas as outras possibilidades

S e você está lendo este livro, presumo que, além de estar interessado em fazer
boas escolhas, encontrar sentido no trabalho, cultivar relacionamentos
saudáveis e ser feliz, você é pelo menos moderadamente interessado em
questões religiosas. Então vamos começar com uma questão difícil.
Uma vez que o caminho de Inácio está fundamentado na crença de que existe
um Deus – e de que Ele deseja estar em relacionamento conosco –, é importante
pensar primeiro sobre esse Deus, porque, assim, tudo o que vier depois irá
parecer comparativamente mais fácil.
Mas isso não significa que você precisa acreditar em Deus para achar a
sabedoria de Inácio útil para sua vida. No entanto, até para isso é preciso
entender onde Deus se encaixa na sua visão de mundo.
Portanto, como eu encontro Deus?
Essa pergunta é o ponto de partida para todos aqueles que O buscam. Mas,
surpreendentemente, muitos livros de espiritualidade subestimam ou ignoram
essa questão. Alguns livros pressupõem que o leitor já acredita em Deus, que ele
já O encontrou e que Ele já faz parte de sua vida. Mas seria ridículo não abordar
esse ponto num livro como este.
Para começar a responder a essa pergunta, vou apresentar as várias maneiras
como as pessoas buscam Deus.

Seis caminhos para Deus

O caminho da crença
Para as pessoas que seguem este primeiro caminho, crer em Deus sempre fez
parte de suas vidas. Elas nasceram em famílias religiosas ou foram iniciadas na
religião ainda crianças. A fé sempre foi um elemento essencial em suas vidas.
Elas oram regularmente, frequentam missas ou cultos religiosos e sentem-se à
vontade conversando sobre Deus. Não estão livres do sofrimento, mas a fé as
ajuda a compreendê-lo.
A vida de Walter Ciszek, um padre jesuíta americano que passou 20 anos nas
prisões soviéticas e nos campos de concentração da Sibéria por fazer trabalho
missionário clandestino na Rússia, reflete esse tipo de criação. Em sua
autobiografia With God in Russia, publicada após seu retorno aos Estados
Unidos, ele conta que foi criado em uma família católica da Pensilvânia. A vida
era centrada na paróquia local: missas dominicais, feriados festivos, confissões
semanais. Portanto não é surpresa quando Ciszek diz no primeiro capítulo de
seu livro: “Eu devo ter sido gerado pelas orações e pelos exemplos de minha
mãe, pois antes de ingressar no ensino médio eu já tinha decidido que seria
padre.”
O que para muita gente seria uma decisão difícil, para Walter Ciszek foi a
coisa mais natural do mundo.
Os benefícios de trilhar o caminho da crença são evidentes: a fé dá sentido às
alegrias e aos sofrimentos da vida. Ter fé em Deus significa saber que nunca está
sozinho. Viver em uma comunidade que acredita em Deus proporciona
companheirismo. Durante os tempos de provação, a fé é uma âncora. E a fé
cristã também contém a promessa de uma vida além desta vida terrena.
Esse tipo de fé sustentou Walter Ciszek durante seus longos anos nos campos
de trabalho soviéticos e o capacitou para finalmente ser resgatado da Rússia em
1963, abençoando o país cujo governo o submeteu a sofrimentos físicos e
mentais inimagináveis. Algumas vezes ele se confrontou com sua crença – quem
não faria isso em tais condições? –, porém, no fim, a sua fé prevaleceu.
Algumas pessoas às vezes invejam quem trilha o caminho da crença. Uma
amiga costuma me dizer: “Se ao menos eu tivesse fé como você...” Ainda que eu
entenda o seu sentimento, essa perspectiva faz a fé parecer alguma coisa que se
tem, mais do que uma coisa que nos esforçamos para manter. É como se alguém
já nascesse com uma fé inquebrantável, assim como se nasce com cabelos ruivos
ou olhos castanhos. Ou como se ter fé fosse equivalente a entrar em um posto de
gasolina e encher o tanque.
Nenhuma das duas metáforas serve. Sem dúvida, fé é um dom de Deus. Mas,
mesmo assim, não é algo que se tenha. Talvez uma metáfora melhor seja que a fé
é como um jardim: ainda que você já tenha o básico – solo, semente e água –, é
necessário cultivar e regar. Assim como um jardim, fé exige paciência,
perseverança e até trabalho.
Se você inveja alguém que segue o caminho da crença, não se preocupe –
muita gente atravessa um período de dúvida e confusão antes de conhecer Deus.
Inácio, por exemplo, aceitou a presença de Deus na idade em que seus amigos já
estavam constituindo família e conquistando sucesso financeiro.
Nenhum desses seis caminhos está livre de perigos. Um tropeço para os que
trilham a via da crença é a incapacidade de compreender os que seguem outros
rumos e a tentação de julgá-los por suas dúvidas ou descrenças. A certeza
impede alguns crentes de serem compassivos, solidários ou mesmo tolerantes
com pessoas que não têm tanta certeza de sua fé. A arrogância faz com que se
sintam os “únicos eleitos”, excluindo os outros, consciente ou
inconscientemente, do seu abastado mundo de fé. Essa é a religiosidade amarga,
sem alegria e cruel contra a qual Jesus se levantou: a cegueira espiritual.
Há um perigo ainda mais sutil para esse grupo: uma complacência que torna
estagnado o relacionamento da pessoa com Deus. Alguns se agarram aos
modelos de fé que aprenderam na infância mas que não funcionam para um
adulto. Você pode se apegar, por exemplo, à noção infantil de um Deus que
nunca permite que algo de mal aconteça. Quando a tragédia bater à porta, se a
sua imagem de Deus não estiver fincada na realidade, você pode abandonar o
Deus da sua juventude. Ou pode abandoná-Lo completamente.
A vida adulta exige uma fé adulta. Faça esta analogia: você não se consideraria
preparado para a vida com o conhecimento de matemática que adquiriu no
terceiro ano do colégio. No entanto, as pessoas muitas vezes acreditam que a
instrução religiosa que tiveram no curso primário será capaz de sustentá-las no
mundo adulto.
Em seu livro A Friendship Like No Other, o autor espiritual jesuíta William A.
Barry convida os adultos a se relacionarem com Deus de uma maneira adulta.
Assim como um filho adulto precisa se relacionar com seus pais de uma nova
maneira, ele diz, os crentes adultos precisam se relacionar com Deus de forma
diferente quando amadurecem. Caso contrário, a pessoa permanece estagnada
em uma visão de Deus que a impede de abraçar plenamente a fé madura.

O caminho da independência
Os que estão no caminho da independência tomaram uma decisão consciente
de se separar da religião institucional, mas ainda creem em Deus. Talvez não
encontrem sentido nos cultos e nas missas, ou os achem desagradáveis e tolos.
Talvez tenham se magoado com alguma igreja ou sido desrespeitados por um
padre, pastor, rabino ou imã. Pode ser que tenham se sentido afrontados por
certos dogmas da religião institucional ou ficado incomodados com a hipocrisia
dos líderes religiosos.
Ou talvez eles estejam apenas entediados. Creia, eu já ouvi vários sermões que
me deram sono e até me fizeram dormir. Hoje em dia, a pergunta que importa
não é: por que tantos católicos deixam a Igreja? Mas sim: por que eles
permanecem?
Os católicos podem estar decepcionados com os ensinamentos da Igreja sobre
alguma questão moral específica, ou com o seu posicionamento político, ou,
talvez, tenham ficado escandalizados com as notícias sobre abusos sexuais
envolvendo padres. Por isso, embora ainda creiam em Deus, não se consideram
mais parte da Igreja. Eles são chamados, às vezes, de católicos “desviados”,
“decaídos” ou “em recuperação”.
Embora mantenham distância das igrejas, sinagogas ou mesquitas, muitas
pessoas neste grupo ainda são crentes convictos. Muitas vezes elas encontram
consolo nas práticas religiosas que aprenderam quando crianças. Na mesma
proporção, aspiram por modos mais formais de louvar a Deus em suas vidas.
A força desse grupo é uma independência saudável que lhes permite enxergar
as coisas de uma maneira renovada – algo que sua própria comunidade religiosa
necessita desesperadamente. Os que são “de fora”, aqueles que não estão
limitados às regras costumeiras sobre o que é apropriado e inapropriado falar
dentro da comunidade, podem muitas vezes se expressar mais honestamente.
O maior perigo desse grupo, entretanto, é o perfeccionismo que enxerga toda
religião organizada como uma falácia.
Certa vez, um amigo meu parou de ir à igreja que sua família frequentava. Ele
é um homem inteligente e generoso que crê em Deus e cujos pais têm raízes
profundas na Igreja Episcopal. Mas ele percebeu que a sua comunidade religiosa
era muito alinhada com as pessoas mais endinheiradas, por isso resolveu
procurar uma igreja que reconhecesse o lugar do pobre no mundo.
Depois de abandonar sua igreja, ele tentou frequentar uma paróquia católica
onde viu muitos pobres irem à missa aos domingos. No entanto, ele discordou
da proibição de ordenar mulheres e também rejeitou o catolicismo.
Em seguida, ele experimentou o budismo, mas achou impossível conciliar a
sua crença em um Deus pessoal e a sua fé em Jesus Cristo com a visão de mundo
budista.
Por fim, foi parar em uma igreja unitarista que a princípio pareceu se
encaixar com suas convicções. Ele elogiou sua espiritualidade cristã tolerante e
seu comprometimento com a justiça social, assim como a recepção calorosa
àqueles que não se sentiam bem em outras igrejas. Até que surgiu um problema:
ele achou que os unitaristas não possuíam um sistema de crenças claro o
suficiente. No fim, meu amigo decidiu não frequentar igreja nenhuma.
A experiência vivenciada por ele me lembra que a procura por uma
comunidade religiosa perfeita está fadada ao fracasso. Como o monge trapista
Thomas Merton escreveu em A montanha dos sete patamares: “O primeiro e
mais elementar teste do chamado de alguém para a vida religiosa – seja ele
jesuíta, franciscano, cisterciense ou cartusiano – é a disposição para aceitar a
convivência em comunidade na qual todo mundo é mais ou menos imperfeito.”
E isso vale para qualquer organização religiosa.
Não se trata de justificar todos os problemas, as imperfeições e até mesmo os
pecados das organizações religiosas. Ao contrário, é uma admissão realista de
que enquanto formos humanos seremos imperfeitos. É também um alerta para
os que trilham o caminho da independência – gente de fé que abandonou a
religião – de que a procura pela comunidade religiosa perfeita pode não ter fim.

O caminho da descrença
Aqueles que trilham o caminho da descrença não apenas acham que a religião
institucionalizada não possui atrativos – ainda que, às vezes, considerem seus
cultos e rituais reconfortantes – como chegaram também à conclusão de que
Deus não existe, pode não existir ou não pode existir. Em geral eles procuram
provas da existência de Deus e, ao não acharem nenhuma e diante do
sofrimento intenso, rejeitam completamente o ponto de vista teísta.
A vantagem principal desse grupo é não acreditar nas amenas garantias de
segurança dadas pela religião. Algumas vezes seus integrantes até têm ideias
mais profundas sobre Deus e a religião do que alguns crentes. Da mesma forma,
às vezes as pessoas mais abnegadas em nosso mundo são ateias ou agnósticas.
Por exemplo, alguns dos mais comprometidos agentes humanitários que
conheci quando eu trabalhava com refugiados do leste da África eram ateus. O
conceito de “santo secular” é real.
Essas pessoas também possuem um tino especial para detectar a hipocrisia, o
fanatismo ou respostas decoradas. Diga a alguém desse grupo que o sofrimento
faz parte do plano misterioso de Deus e que precisa ser aceito sem
questionamento e ele o desafiará a explicar isso melhor. Um colega meu dos
tempos de faculdade pratica seu ateísmo religiosamente, e suas perguntas têm
me mantido em alerta pelos últimos 30 anos. Tente conversar com ele sobre a
“vontade de Deus” e você receberá uma lição de moral afiada sobre
responsabilidade pessoal.
O maior perigo é que os integrantes desse grupo esperam que a presença de
Deus seja comprovada apenas pela via intelectual. Quando alguma coisa
profunda acontece em suas vidas, algo que os toca intensamente, eles rejeitam a
possibilidade de que isso seja um sinal da atuação de Deus. Seu intelecto pode se
tornar uma muralha que bloqueia seus corações, impedindo-os de experimentar
a presença de Deus. Eles também podem relutar em atribuir a Deus qualquer
coisa que um crente enxerga como manifestação clara da presença de Deus.
É como a anedota do ateu que fica preso numa enchente. Ele pensa que essa é
a oportunidade ideal para provar definitivamente se Deus existe. Então diz a si
mesmo: Se Deus existe, eu lhe pedirei ajuda e ele me salvará. Ele ouve um alerta
no rádio recomendando aos ouvintes que saiam de suas casas, mas o ignora.
Mais uma vez, pensa: Se Deus existe, ele me salvará. Um bombeiro vai até sua
casa e pede que ele deixe o local. Mas o ateu responde: “Se Deus existe, ele me
salvará.” Quando o nível da água começa a subir, o sujeito sobe para o segundo
andar. A equipe de salvamento aproxima-se de bote de sua janela para resgatá-
lo, mas ele recusa a ajuda e diz: “Se Deus existe, ele me salvará.”
Finalmente, ele chega ao terraço da casa, já quase toda submersa. Do
helicóptero que sobrevoa o local, um bombeiro joga uma corda para içá-lo. Mas
ele recusa a ajuda e grita: “Se Deus existe, ele me salvará.”
De repente, o homem cai na água e acaba se afogando, indo para o céu.
Quando Deus aparece, o ateu fica surpreso, mas logo se mostra furioso. “Por
que você não me salvou?”, indaga ele, petulante.
“Como assim não o salvei?”, pergunta Deus. “Eu mandei aviso pelo rádio,
enviei uma equipe de resgate, um bote de salvamento e um helicóptero, e você
não quis me ouvir!”

O caminho do retorno
A cada ano, mais pessoas escolhem esse caminho. Elas geralmente vêm de
uma família religiosa, mas acabam se afastando de sua fé. Ao longo da infância
foram estimuladas – ou obrigadas – a ir a missas ou a outros cultos religiosos,
mas começaram a achá-los cansativos ou irrelevantes. A religião passou a ser
algo distante, embora estranhamente atraente.
Então algo reacende sua curiosidade por Deus. Talvez essas pessoas tenham
conquistado sucesso financeiro e profissional e perguntem a si mesmas: “Isso é
tudo?” Ou após a morte de um parente elas comecem a pensar na sua própria
mortalidade. Ou seus filhos perguntem sobre Deus, despertando questões que
tinham ficado adormecidas por muitos anos.
Elas começam, então, uma trajetória de retorno à fé, embora possa não ser a
mesma fé que conheceram quando crianças. Talvez encontrem mais clareza em
outra tradição. Ou podem até retornar para a religião original, mas de uma
maneira diferente e mais comprometida do que quando eram jovens.
Isso não é surpresa. Porém muitos crentes interrompem sua educação
religiosa ainda crianças e esperam que aquele entendimento infantil da fé os
sustente pela vida adulta. As pessoas nesse grupo em geral precisam se reeducar
para entender sua fé de maneira madura.
Quando eu era menino, por exemplo, costumava pensar em Deus como o
Grande Solucionador de Problemas que resolveria todas as minhas dificuldades
se eu apenas orasse com convicção. Me dê uma nota máxima em estudos sociais.
Me faça ir bem na prova de matemática. Melhor ainda, faça com que amanhã
seja um lindo dia de sol, eu pensava.
Se Deus era todo bondade, eu raciocinava, então responderia às minhas
orações. Que razões Ele poderia ter para não respondê-las?
À medida que fui crescendo, Deus deixou de ter esse rótulo de Grande
Solucionador de Problemas. Por mais que eu orasse, muitas de minhas
dificuldades continuavam sem solução. Deus se importa comigo?, eu pensava.
Meu narcisismo adolescente conduzia a sérias dúvidas que me levavam a
considerar a possibilidade de Deus não existir.
Esse agnosticismo brando se tornou mais exaltado na época em que estudei
na Universidade da Pensilvânia. Como alunos do segundo ano, meus amigos e
eu passamos muitas noites em claro discutindo sobre religião. Aqueles
encontros despertaram em mim dúvidas sobre o Deus a quem eu havia orado
quando criança. Porém, na época, eram apenas dúvidas sem propósito e
perguntas desconexas.
Mas elas ganharam consistência quando meu colega de quarto na
universidade morreu em um acidente de carro. Brad era um de meus melhores
amigos, e sua morte foi quase insuportável para mim.
No velório, em uma elegante igreja episcopal, eu estava rodeado pela família
de Brad e por meus amigos, todos arrasados, e pensei sobre o absurdo de crer
em um Deus que permitia que aquilo tivesse acontecido. No final do culto, eu
havia resolvido não acreditar mais em um Deus que agia de maneira tão cruel. O
Grande Solucionador de Problemas, quem diria, em vez de resolvê-los, agora os
estava criando.
Meu ateísmo recém-descoberto era estimulante. Eu não só me considerava
uma pessoa de intelecto privilegiado como estava orgulhoso de haver rejeitado
algo que obviamente não tinha funcionado. Por que acreditar em um Deus que
não podia ou não queria evitar o sofrimento? Ter me tornado ateu também me
trouxera alguns benefícios práticos: minhas manhãs de domingo agora estavam
livres.
E foi assim que eu enveredei pelo caminho da descrença.
Isso se estendeu por alguns meses, até o dia em que conversei com Jackie,
amiga minha e de Brad. Ela era o que meus colegas e eu costumávamos chamar
de “fundamentalista” – alguém cuja fé molda a sua vida –, embora tivéssemos
uma ideia muito superficial do que isso significava. Nós três tínhamos morado
na mesma ala do alojamento da universidade. Ainda que ela e Brad tivessem
interesses e visões de mundo bastante diferentes, eles ficaram muito próximos.
Naquele dia contei a Jackie como estava zangado com Deus por Ele ter
deixado Brad morrer e que decidira não ir mais à igreja. Meu tom a desafiava a
explicar por que isso acontecera com alguém que antes tinha fé.
– Sabe, James, eu tenho agradecido a Deus pela vida do Brad.
Eu ainda lembro que me senti surpreso com o comentário dela. Em vez de
falar sobre o sofrimento, ela estava me dizendo que havia outras maneiras de se
relacionar com Deus, outras maneiras de vê-lo, e não apenas como o Grande
Solucionador de Problemas.
Foi a reação de Jackie que me colocou no caminho do retorno. Ela não
respondeu à minha pergunta acerca do sofrimento. Ao contrário, suas palavras
me lembraram de que essa pergunta não é a única a se fazer sobre Deus. Sua
atitude demonstrou que é possível não solucionar a questão do sofrimento e
ainda assim acreditar em Deus – um pouco como uma criança confia nos pais
mesmo quando não entende claramente todas as atitudes deles. Isso também me
lembrou de que há outros questionamentos igualmente importantes, como, por
exemplo: “Quem é Deus?” Não conseguir responder a uma pergunta não
significa que outras não são igualmente relevantes. Por isso a reação de Jackie
me abriu uma janela para outra visão da fé.
No entanto, eu ainda estava preso a uma grande pergunta: se Deus não era o
Grande Solucionador de Problemas, como eu O imaginara em minha infância e
adolescência, quem era Ele? Ou Ela?
Somente quando me tornei jesuíta e comecei a ouvir sobre um tipo diferente
de Deus – um Deus que nunca abandona a pessoa nas horas de sofrimento, que
valoriza cada pessoa – foi que a vida começou a fazer mais sentido. Isso não
quer dizer que eu tenha encontrado uma resposta plenamente satisfatória para o
mistério do sofrimento – ou por que meu amigo teve a vida interrompida aos 21
anos. Mas essa nova compreensão me ajudou a entender a importância de
manter um relacionamento próximo com Deus, mesmo em tempos difíceis.
Quando eu era noviço, um de meus diretores espirituais citou o filósofo
escocês John Macmurray, que confrontava a “religião verdadeira” com a
“religião ilusória”. A máxima da “religião ilusória” é: “Não tenha medo. Confie
em Deus e Ele cuidará para que nenhuma das coisas que você teme lhe
aconteça.” Mas a “religião verdadeira” fornece uma orientação diferente: “Não
tema; as coisas de que você tem medo provavelmente acontecerão, mas elas não
devem ser temidas.”

O caminho da exploração
Certa vez trabalhei com uma companhia teatral que montava uma peça sobre
o relacionamento entre Jesus e Judas. Depois de alguns encontros, fui convidado
para ser consultor teológico do espetáculo e ajudar o elenco a entender melhor o
tema.
Durante seis meses conversei com os atores sobre Jesus e Judas e sobre a vida
espiritual deles, respondendo a perguntas estimuladas pelas discussões sobre os
Evangelhos, o pecado, o arrependimento e a fé.
Vários atores tinham perambulado de uma religião para outra em busca de
algo que se encaixasse em seu modo de pensar.
A temporada que passei com esses atores foi muito valiosa tanto por me
aproximar do teatro quanto por eu ter encontrado pessoas que estavam viajando
por um caminho que eu ainda não conhecia: o caminho da exploração. Mas isso
não é surpresa quando se trata de pessoas que escolheram essa profissão. Afinal,
o bom ator sempre pesquisa antes de começar um novo papel. Um ator escalado
para o papel de policial em uma peça irá se aproximar de agentes de polícia da
vida real para construir seu personagem. Então a ideia de “exploração” é natural
para a classe artística.
Algumas pessoas mais convictas de suas crenças religiosas acreditam que
muitas vezes suas próprias práticas espirituais são aprimoradas por interações
com outras tradições religiosas. Há alguns anos, por exemplo, fiquei surpreso
com a riqueza da minha oração em uma manhã de domingo numa casa de
encontro quacre próxima à casa de meus pais na Filadélfia. Ainda que eu tivesse
uma grande experiência de oração contemplativa pessoal e de adoração
conjunta nas missas católicas, o “encontro de silêncio” dos quacres era um tipo
de contemplação que eu nunca havia imaginado. A tradição deles, portanto,
enriqueceu a minha.

Eu peregrinei livremente pelas tradições místicas que não são religiosas e


fui profundamente inspirado por elas. Entretanto, é para a minha Igreja
que eu estou retornando, pois ela é o meu lar espiritual.

– Anthony de Mello, jesuíta (1931-1987)

O benefício de se trilhar o caminho da exploração é claro. Depois de uma


busca sincera, é comum se descobrir uma tradição compatível com o
entendimento que se tem de Deus, com os anseios de uma experiência
comunitária e até com a própria personalidade. Da mesma forma, retornar à
comunidade original pode proporcionar à pessoa um apreço renovado por seu
“lar espiritual”. Os exploradores também podem ficar mais gratificados com o
que encontraram e não mais tão preocupados em aceitar a comunidade original
como verdadeira. O peregrino mais gratificado, portanto, é aquele que conclui a
jornada mais longa.
A armadilha desse caminho é semelhante à do caminho da independência: o
perigo de não se firmar em tradição alguma porque nenhuma é perfeita. Um
risco ainda maior para os exploradores é não seguir nenhuma tradição religiosa,
justamente por nenhuma satisfazê-los: Deus pode se tornar alguém que deve
supostamente satisfazer as nossas necessidades.
Outro perigo é a falta de comprometimento. As pessoas podem transformar
sua vida inteira em uma exploração – experimentação constante, flerte
espiritual. E quando o caminho se torna a meta, em vez de Deus, as pessoas
acabam se sentindo incompletas, confusas, perdidas e talvez até um pouco
deprimidas.

O caminho da confusão
Esse caminho perpassa todos os outros em vários aspectos. As pessoas que
optam por segui-lo nunca têm convicção em sua fé infantil, achando
relativamente fácil acreditar em Deus em alguns momentos, e quase impossível
em outros. Elas não abandonam sua fé, mas também não estabelecem nenhuma
conexão. Elas clamam a Deus em oração, mas se assombram quando parece não
haver resposta. Elas sentem a presença de Deus em momentos importantes, e
talvez durante as cerimônias religiosas, mas se mostram muito incomodadas
com os problemas advindos de fazer parte de uma igreja, sinagoga ou mesquita.
Podem orar de tempos em tempos, sobretudo quando há uma necessidade
premente, e ir aos cultos apenas nos dias santos.
Para esse grupo, a busca de Deus é um mistério, uma preocupação ou um
problema.
O maior benefício desse caminho é que muitas vezes ele ajuda as pessoas a se
relacionarem melhor com a fé de sua infância. Ao contrário daquelas que se
consideram claramente religiosas ou claramente opostas a qualquer religião,
aqueles que seguem por esse caminho ainda não se decidiram e, por isso, estão
sempre aprimorando seu entendimento sobre o comprometimento religioso.
No entanto, a confusão pode se tornar preguiça. Evitar ir aos cultos por causa
de alguma crítica pode levar ao total abandono da religião formal, porque você
acha que dá muito trabalho ou que é preciso ter muita energia para pertencer a
um grupo que exige a prática da caridade e do perdão.
Passei boa parte de minha vida adulta trilhando esse caminho, antes de entrar
para a Companhia de Jesus. Eu fui criado em uma família amorosa, que ia à
igreja regularmente, mas não adotávamos as práticas dos católicos muito
religiosos – por exemplo, agradecendo antes das refeições, orando antes de
dormir e estudando em escolas católicas.
Depois que a resposta misteriosa de Jackie me levou a dar uma nova chance a
Deus, voltei à Igreja, mas de modo desordenado. Eu não estava exatamente
seguro do que, ou em quem, eu acreditava. Então, por vários anos, o Deus
Solucionador de Problemas foi substituído por um conceito espiritual mais
amorfo: Deus a Força Vital, Deus o Outro, Deus o Alguém Distante. Ainda que
essas sejam representações válidas de Deus, eu não tinha ideia de que Deus
pudesse ser qualquer coisa além dessas imagens abstratas. E eu imaginava que as
coisas sempre continuariam assim.
Então, aos 26 anos, com uma rotina de trabalho pesada e sintomas de
estresse, cheguei do trabalho exausto e liguei a televisão para relaxar. Estava
passando um documentário sobre Thomas Merton, um homem que virou as
costas para uma vida mundana e ingressou em um mosteiro trapista no início
da década de 1940.
Algo em sua expressão facial mexeu comigo: seu semblante irradiava uma paz
que eu desconhecia – ou pelo menos havia esquecido. O programa foi tão
interessante que no dia seguinte eu comprei e comecei a ler a autobiografia de
Merton, A montanha dos sete patamares.
Aos poucos descobri dentro de mim um desejo de fazer algo parecido com o
que Thomas Merton havia feito, talvez não ingressar em um mosteiro, mas de
algum modo levar uma vida mais contemplativa e religiosa. Enfim, aquela
experiência me ajudou a trocar o caminho da confusão pelo da crença, o que me
levou a ingressar na Companhia de Jesus.

Esses são os seis caminhos pelos quais muitos parecem enveredar. O que
Santo Inácio tem a dizer para as pessoas que trilham cada um desses caminhos
em busca de Deus? A resposta é: muito.
O caminho de Inácio é um convite para aqueles que sempre acreditaram em
Deus, que acreditam em Deus mas não na religião, que rejeitaram Deus, que
estão voltando para Deus, que estão explorando ou que estão confusos. A
sabedoria de Inácio irá acompanhá-lo no caminho que você escolher e o
aproximará ainda mais de Deus.

Espiritual, mas não religioso

Antes de esmiuçar a questão de como encontrar Deus, gostaria de fazer


algumas considerações sobre dois conceitos importantes: religião e
espiritualidade. Todos parecem ser espirituais hoje em dia. Ser “espiritual” está
na moda, ao passo que ser “religioso” não está com nada.
Ser religioso significa obedecer às regras e aos dogmas conservadores e ser
instrumento de uma instituição opressiva que não lhe permite pensar por si
mesmo. Quem pensa assim acredita que a religião sufoca o crescimento do
espírito humano. Ou, ainda pior, como vários autores contemporâneos
sustentam, a religião é o mais desprezível dos males sociais, responsável por
todas as guerras e conflitos ao redor do mundo.
Infelizmente, a religião é mesmo responsável por muitas mazelas do mundo
moderno e por muitos males ao longo da história, entre eles, a perseguição aos
judeus, as intermináveis guerras religiosas, a Inquisição, sem mencionar a
intolerância religiosa e o fanatismo que provoca o terrorismo.
É possível acrescentar a essa lista coisas menores: o seu vizinho presunçoso
que lhe diz em voz alta quanto ele ajuda na igreja, aquele parente que faz
questão de dizer para todo mundo quantas vezes por dia ele lê a Bíblia, e aquele
chato do trabalho que vive lhe dizendo que crer em Jesus é uma garantia
infalível para o sucesso financeiro.
Existe, sim, um lado humano e pecaminoso na religião, já que ela é uma
instituição criada pelo homem e, portanto, sujeita ao pecado.
Alguns dizem que, se colocada na balança, a religião fica devendo. Ainda
assim, na minha opinião, há mais aspectos positivos do que negativos: tradições
de amor, perdão e beneficência, assim como o florescimento de milhares de
organizações de fé que cuidam dos pobres e a imensa rede de hospitais e escolas
católicas que assistem os mais necessitados. Pense também nos homens e
mulheres generosos como Francisco de Assis, Teresa de Ávila e Martin Luther
King. Podemos citar ainda os movimentos pela abolição da escravatura, do voto
feminino e dos direitos civis, todos baseados em princípios claramente
religiosos. Além disso, podemos acrescentar à lista os bilhões de crentes que
encontraram consolo e apoio moral nas suas tradições religiosas, levando-os a
viver de maneira mais altruísta.
E Jesus de Nazaré. Embora tenha confrontado as convenções religiosas de sua
época, ele era um homem profundamente religioso.
Por sinal, os antecedentes do ateísmo também não são lá grande coisa. Em
seu livro No One Sees God: The Dark Night of Atheists and Believers, o escritor
Michael Novak ressalta que, apesar de os pensadores ateus nos incitarem a
questionar tudo, eles não questionam seus próprios antecedentes. Pense, então,
na crueldade e no banho de sangue dos regimes totalitários que professavam o
“ateísmo científico”. A Rússia stalinista vem logo à mente.
No fim das contas, acho que a religião se sobrepõe. E, quando penso em seus
efeitos maléficos, logo me lembro do romancista inglês Evelyn Waugh, que
muitos consideravam uma pessoa má. Certa vez, uma de suas amigas disse que
não entendia como ele poderia ser, ao mesmo tempo, tão amargo e cristão.
Waugh comentou: “Você não imagina quanto eu seria pior se não fosse
religioso.”
Sendo assim, não é surpresa que, mesmo com todos os problemas que
envolvem a religião, muitas pessoas digam que não são religiosas, mas
acrescentem que levam a sério a parte moral da vida, talvez até colocando Deus
como o centro de tudo, mas sem abrir mão de sua individualidade.
Por outro lado, o termo espiritual é usado para indicar que, livre das amarras
desnecessárias, a pessoa pode ser ela mesma perante Deus. O termo pode
implicar também que a pessoa experimentou uma variedade de práticas
religiosas que foram incorporadas à sua fé. Ela pode meditar em um templo
budista, participar da Páscoa judaica, cantar no coral de uma igreja batista e
assistir à missa da véspera de Natal em uma igreja católica.
A pessoa encontra o que funciona para ela, mas não se filia a nenhuma igreja,
pois isso seria muito limitador. Ela poderia acrescentar que não existe religião
que manifeste exatamente aquilo em que ela crê.
Porém há um problema. Ser uma pessoa espiritualizada é obviamente uma
atitude saudável, ao passo que ser antirreligioso pode ser outra maneira de dizer
que fé é algo entre você e Deus somente. E, mesmo que a fé seja um assunto
privado, ela não é apenas um assunto entre você e Deus. Porque isso implica que
você – e só você – está se relacionando com Deus. E significa que não há
ninguém a quem recorrer quando você estiver se desviando do rumo.
Nós tendemos a pensar que estamos certos na maioria das coisas, e nas
questões espirituais não é diferente. Não fazer parte de uma comunidade
religiosa quer dizer que há menos chance de ser desafiado por uma tradição de
doutrinas e experiências. Significa também menor probabilidade de perceber
que se pode estar enganado, vendo apenas uma parte da história, ou mesmo que
se está completamente equivocado.
Pense em alguém que deseja seguir os ensinamentos de Jesus Cristo por si
mesmo. Talvez ele tenha ouvido que seguir Jesus lhe trará sucesso financeiro,
uma crença muito popular hoje em dia. Se pertencesse a uma igreja cristã
tradicional, ouviria que o sofrimento faz parte da vida até mesmo dos cristãos
mais devotos. Sem a sabedoria de uma comunidade de fé, a pessoa pode tender a
uma visão reducionista do cristianismo. Se atravessar momentos difíceis
financeiramente, ela até pode abandonar Jesus, por ele não a ter livrado daquele
problema.
Apesar de nossos melhores esforços para sermos espirituais, é normal que
cometamos erros. E, quando isso acontece, é importante poder contar com a
sabedoria de uma tradição religiosa.
Isso me faz lembrar de um trecho do livro Habits of the Heart, de Robert
Bellah, um sociólogo da religião. No livro, uma mulher chamada Sheila disse a
respeito de suas crenças religiosas: “Eu acredito em Deus, mas não sou uma
fanática religiosa. Nem me lembro da última vez que fui à igreja. Minha fé tem
me carregado. É o ‘sheilaísmo’, aquela vozinha que fala dentro de mim.”
Mais problemáticas do que o “sheilaísmo” são as espiritualidades
inteiramente focadas no eu, sem lugar para a humildade, a autocrítica ou a
preocupação com a comunidade. Alguns movimentos da chamada Nova Era são
focados não em Deus, ou em algum bem maior, mas no desenvolvimento
próprio – um alvo respeitável, mas que pode degenerar no egoísmo.
A religião pode colocar em xeque a tendência de nos considerarmos o centro
do universo, de que temos todas as respostas, de que sabemos mais sobre Deus
do que qualquer um e de que Deus fala mais claramente por intermédio de nós.
Pelo mesmo critério, as instituições religiosas precisam prestar contas a
alguém. E, aqui, aqueles que são profetas em nosso meio, que são capazes de
enxergar as falhas, as fraquezas e os velhos pecados da religião institucional,
exercem um papel decisivo. Assim como os indivíduos que nunca são
confrontados, as comunidades religiosas podem, muitas vezes, conduzir as
coisas de maneira estupidamente equivocada, convencidas de que estão fazendo
a “vontade de Deus”. Elas até nos incentivam a ser complacentes nas críticas.
Uma religião irracional pode, às vezes, levar as pessoas a cometer piores erros do
que cometeriam se não estivessem lá. Portanto, aquelas vozes proféticas que
trazem suas comunidades para uma permanente autocrítica são sempre ouvidas
com dificuldade pela instituição, embora sejam necessárias.
Inácio, por exemplo, exerceu uma ação profética ao pedir que os jesuítas não
desejassem altos cargos na hierarquia da Igreja. Na verdade, os jesuítas fazem
uma promessa de não “ambicionar” altos cargos até mesmo dentro de sua
ordem. Com isso, Inácio não só tentou prevenir o carreirismo entre os jesuítas
como também profetizou para a cultura eclesiástica exuberante na Igreja
Católica de sua época.
É uma tensão saudável: a sabedoria de nossas tradições religiosas fornece
correção para nossa tendência de acreditar que temos todas as respostas. E os
indivíduos com o dom da profecia equilibram a tendência natural das
instituições para resistirem à mudança e ao crescimento. Para o bem de nossa
vida espiritual, precisamos encontrar vida na tensão.
Isaac Hecker foi um convertido ao catolicismo do século XIX que se tornou
padre e fundou a ordem religiosa conhecida como Congregação dos Padres
Missionários de São Paulo Apóstolo. Ele fez um dos melhores resumos que
conheço. A religião, disse Hecker, nos ajuda a “nos relacionar e corrigir”. Em
uma comunidade, somos convidados a nos ligar uns aos outros e a uma
tradição. Ao mesmo tempo, somos corrigidos quando há necessidade. E
podemos ser chamados a corrigir nossa própria comunidade – muito embora
uma modalidade especial de discernimento e humildade seja requerida nesses
casos.
A religião, em alguns casos, pode levar as pessoas a fazerem coisas terríveis.
Mas ela também modifica nossa tendência natural a acreditar que temos todas
as respostas. Portanto, apesar do que dizem seus muitos detratores, e apesar da
arrogância que corrompe muitas vezes os grupos religiosos, a religião pode
ensinar humildade aos que se aproximam dela.
A religião também reflete a dimensão social da natureza humana. Os seres
humanos desejam naturalmente estar uns com os outros, e esse desejo se
estende à adoração. É natural querer cultuar juntos, reunir-se com outras
pessoas para compartilhar do amor de Deus e trabalhar com essas mesmas
pessoas para realizar os sonhos da comunidade de fé.
É possível vivenciar Deus também por meio das relações pessoais no interior
da comunidade. É claro que Ele se comunica em nossos momentos íntimos e
particulares – como na oração e na leitura dos textos sagrados –, mas Deus
também se apresenta no meio das pessoas em uma comunidade de fé. Para
muitos, essa comunidade é uma igreja, uma sinagoga ou uma mesquita. Ou, de
forma mais ampla, a religião.
A religião, por fim, significa que nosso entendimento de Deus e da vida
espiritual pode transcender com mais facilidade nosso entendimento e
imaginação pessoais. Você pensa em Deus como um juiz? Bom, se isso o ajuda a
se tornar uma pessoa mais correta e amorosa, tudo bem. Mas uma tradição
religiosa pode enriquecer sua vida espiritual por caminhos que não seria
possível descobrir sozinho.
Aqui vai um exemplo: o Deus das Surpresas, que descobri no tempo que era
noviço, é uma de minhas imagens prediletas de Deus. Naquela época, foi muito
gratificante ouvir sobre um Deus que nos surpreende, que nos reserva coisas
maravilhosas. É uma imagem agradável e até divertida de Deus. Porém eu nunca
chegaria a ela sozinho. Ela me foi descrita por meu diretor espiritual David
Donovan, que tinha lido um livro com esse título.
Aquela imagem foi ampliada quando eu li um dos maiores romances
espirituais modernos, Mariette in Ecstasy, de Ron Hansen, escritor e diácono
católico ordenado. A obra conta a história das experiências religiosas de uma
jovem freira no início do século XX, livremente inspirada na vida da carmelita
francesa Santa Teresa de Lisieux. No fim do romance, Mariette, que deixara o
convento muitos anos antes, escreve para sua antiga diretora no noviciado e lhe
conta que Deus ainda se comunica com ela.

Nós tentamos ser moldadas, controladas e presas por ele, mas, ao contrário disso, ele nos oferece
liberdade. E agora, quando eu tento conhecer sua vontade, seu carinho me inunda, seu grande amor me
arrebata, e eu o ouço sussurrar: “Surpreenda-me.”

A imagem do Deus que surpreende e do Deus que espera por surpresas


chegou a mim por intermédio de três padres jesuítas e pela imaginação religiosa
de um escritor católico.
Em suma, ser espiritual e ser religioso fazem parte de se estar em
relacionamento com Deus. Um não pode estar completamente realizado sem o
outro. Religião sem espiritualidade pode se tornar uma lista vazia de preceitos
dogmáticos separados da vida do espírito. Foi contra isso que Jesus alertou. Por
outro lado, espiritualidade sem religião pode tornar-se um convencimento
autorreferente separado da sabedoria da comunidade. É contra isso que estou
alertando.
Para Santo Inácio de Loyola os dois caminham de mãos dadas. O caminho de
Inácio entende a importância de sermos ao mesmo tempo espirituais e
religiosos.

Encontrar Deus em tudo

Após a conversão, a vida de Inácio passou a ser focada em Deus. Na


introdução aos Exercícios Espirituais se lê: “Seres humanos são criados para
louvar, reverenciar e servir a Deus nosso Senhor, e por meio disso salvar suas
almas.” Inácio afirma que Deus é o centro de tudo e que é Ele que dá sentido às
nossas vidas.
Outra maneira de entender essa visão de mundo é uma citação do Padre
Arrupe, superior da Ordem Jesuíta de 1965 a 1981, período de mudanças
intensas na Igreja Católica. Ele talvez seja mais conhecido por lembrar aos
jesuítas que grande parte de seu trabalho original foi com os pobres e
marginalizados. Nos anos 1970, um jornalista fez a seguinte pergunta ao padre:
Quem é Jesus Cristo para o senhor?
Em vez de responder “Jesus Cristo é meu Salvador”, como muitos poderiam
pensar que ele faria, Padre Arrupe disse: “Para mim, Jesus Cristo é tudo!” Era
assim que Inácio via Deus.
Mas nem todos os leitores deste livro têm o mesmo tipo de relacionamento
com Deus. Talvez poucas pessoas tenham. Para aquelas no caminho da
independência, no caminho da crença, no da exploração ou no da confusão, a
questão é menos sobre se consagrar inteiramente a Deus e mais sobre a
pergunta que deu início à nossa discussão: como eu encontro Deus?
Podemos recorrer a um importante insight de Inácio: Deus pode falar
diretamente com as pessoas de modos surpreendentemente pessoais. Isso pode
levar até mesmo o incrédulo, o confuso e o perdido a conhecer Deus. É preciso
crer que essas experiências íntimas são maneiras de Deus se comunicar com
cada um de nós.
Em Exercícios Espirituais, Inácio escreveu que o Criador trata “intimamente
com a criatura e a criatura com seu Criador”. Ele se comunica conosco. Os
buscadores, então, precisam estar conscientes das diversas maneiras que Deus
tem de se comunicar conosco, de tornar a sua presença conhecida.
Em outras palavras, o começo do caminho para encontrar Deus é a
consciência. Não somente consciência das maneiras pelas quais podemos
encontrar Deus, mas consciência de que Ele deseja nos encontrar.
Isso nos remete ao primeiro momento importante na trajetória de Inácio: a
sua conversão. Ao examinar cuidadosamente esse episódio, é possível perceber
como Deus pode usar qualquer coisa para nos encontrar. Portanto vamos
retornar àquele acontecimento e observá-lo em mais detalhes.

Passo a passo

Inácio tinha 30 anos quando sua perna foi estraçalhada por uma bala de
canhão em 1521, durante o cerco a um castelo de Pamplona pelo exército
francês. Esse acidente crucial marcou o início de sua nova vida.
Depois de passar por maus momentos e ficar à beira da morte, Inácio se
recuperou no castelo de sua família, onde só havia livros sobre a vida de Jesus e
a vida dos santos. Pensar sobre o que os santos haviam feito lhe deu a certeza de
que poderia seguir seu exemplo.
Ainda assim, ele se sentia atraído pelos ideais do serviço de cavaleiro, e
quando não estava lendo sobre a vida de Cristo ou dos santos ele fantasiava
sobre realizar grandes feitos para certa senhora.
Ele oscilava entre querer realizar atos heroicos para a dama da nobreza e
alcançar atos heroicos para Deus. Foi quando aconteceu algo que influenciaria
não apenas Inácio, mas a vida de todos os jesuítas e de qualquer pessoa que viria
a seguir o caminho de Inácio.
Inácio percebeu lentamente que suas reflexões lhe provocavam efeitos
diferentes. Pensar sobre as coisas mundanas, como impressionar a tal dama, não
tinha o mesmo efeito que pensar sobre como fazer grandes coisas e passar
tribulações por causa de Deus.
Ele começou a compreender que esses sentimentos e desejos podiam ser
maneiras como Deus estava se comunicando com ele. Isso não quer dizer que
Inácio opunha Deus às mulheres. Ao contrário, ele começou a perceber que seu
desejo de conquistar fama impressionando os outros o afastava de Deus. Inácio
não apenas tinha esses lampejos, mas os entendia como vindos de Deus.
Como resultado de sua experiência, Inácio começou a entender que Deus
quer se comunicar conosco. Diretamente. Essa convicção o colocou em apuros
com a Inquisição e ele acabou preso.
Como já mencionei, a religião capacita as pessoas para encontrar Deus de
formas profundas em suas vidas. Mas Inácio reconhecia que Ele não podia ser
confinado dentro dos muros da Igreja. Deus era maior do que a Igreja.
Hoje, a ideia de o Criador se relacionar diretamente com os seres humanos é
menos controvertida. É uma realidade para os que estão na viagem “espiritual,
mas não religiosa”. Muito mais questionável nos dias de hoje é a ideia de que
Deus fala conosco por meio da religião.
Mas essa compreensão de Inácio é tão libertadora hoje quanto foi na época
dele. E é aqui que a espiritualidade inaciana pode ajudar até os mais reticentes a
ter um encontro com Deus.
Alguns agnósticos ou ateus aguardam um argumento racional ou uma prova
filosófica que demonstre a existência de Deus. Uns só acreditarão quando
alguém lhes demonstrar como o sofrimento pode coexistir com a crença em
Deus. Outros podem até estar esperando por um “sinal” físico incontestável
para serem convencidos da existência de Deus.
No entanto, Deus fala muitas vezes por meios que estão além de nosso
intelecto e de nossa razão, e além das provas filosóficas. Enquanto muitos são
trazidos até Ele através da mente, outros tantos são trazidos pelo coração. Aqui,
Deus fala ainda mais amorosa e suavemente do que falou durante a
convalescença de Inácio. Nesses momentos de quietude, Ele costuma falar de
forma mais audível.
Vamos ver alguns exemplos desses momentos calmos e sensíveis em nossas
próprias vidas:

Você está segurando um bebê – talvez seu próprio filho –, e ele o fita com
os olhos bem abertos, e você é tomado por um surpreendente sentimento de
gratidão ou reverência. Você pensa: De onde esses sentimentos fortes vieram?
Eu nunca tinha sentido algo assim antes.
Você está caminhando na praia e, quando fixa os olhos no horizonte, é
tomado por uma sensação de paz além do normal. Você pensa: Por que eu
fiquei tão emotivo nesta praia?
Você está no meio de um momento íntimo com sua namorada ou
namorado e se encanta com a sua capacidade de contentamento. Então se
pergunta: Como é possível ser tão feliz?

Você sai para jantar com um amigo e sente uma súbita sensação de
felicidade, e percebe como aquela amizade é uma bênção. Então pensa: Esta é
uma noite especial. De onde vem esse sentimento profundo?

Finalmente, você conseguiu superar o impacto de uma tragédia em sua


vida, uma doença grave ou morte, foi consolado por um amigo e uma paz
profunda o invade. Você imagina: Como eu posso ser tomado por esta paz em
meio a uma situação tão triste?

Gratidão, paz e alegria são meios de Deus se comunicar conosco. Nesses


momentos, sentimos uma ligação real com Ele, ainda que no início não a
identifiquemos como tal. O segredo é aceitar que esses são caminhos que Deus
usa para se comunicar conosco. Ou seja, para dar o primeiro passo é preciso um
pouco de confiança.
Também em tempos de estresse, dúvida, tristeza e ódio nós podemos
vivenciar a aproximação de Deus.

Você acompanha um amigo ou parente na luta contra uma doença grave,


ou talvez seja você mesmo quem esteja doente. Então pensa: Como isso
aconteceu? E sente uma necessidade forte, um desejo urgente de consolo ou
contato.

Você está passando por um momento difícil e imagina como conseguirá


atravessar aquele dia. Então alguém diz algo simples, mas que fala direto ao
seu coração, e você se sente fortalecido e amado. E pensa: Como essas simples
palavras me ajudaram tanto?
Você está em um velório e medita sobre o sentido da vida. Ou está
estressado e cansado e imagina quanto mais poderá suportar. Você pensa: Há
alguém lá em cima que se preocupa comigo? Quem está tomando conta de
mim?

Em cada uma dessas situações – sejam elas felizes ou tristes, reconfortantes ou


confusas, calmas ou devastadoras –, alguma coisa de especial está acontecendo,
algo mais do que apenas “descarga” emocional. O sentimento parece
desproporcional à situação, ou talvez seja difícil enxergar um motivo claro para
ele existir. É possível sentir também certa expansão da alma e a perda de
inibição, e a pessoa talvez até sinta que seus sentimentos de amor e generosidade
aumentaram. Pode ser que a pessoa até mude sua maneira de ver a vida e se
sinta inundada por uma grande sensação de alegria e paz.
Nesses momentos, eu creio, sente-se uma manifestação daquela atração inata
por Deus, da qual Santo Agostinho falou no século IV: “Senhor, nossos corações
ficam inquietos até acharem descanso em Ti.” O puxão que nos atrai para Ele
vem do próprio Deus.
Agora precisamos falar sobre essa atração de um ponto de vista diferente.
Vamos falar sobre algo que Inácio considerava o cerne da vida espiritual. E isso
pode surpreendê-lo.
Vamos falar do desejo.
Capítulo 3

O que você quer?


Desejo e vida espiritual

D ois dos Evangelhos relatam a história enganosamente simples de Jesus de


Nazaré encontrando um cego à beira do caminho. No Evangelho de Marcos,
esse homem se chama Bartimeu (ver Marcos 10, 46:52).
Bartimeu pedia esmolas sentado à beira da estrada quando Jesus e seus
discípulos atravessaram a cidade. Os Evangelhos contam que uma multidão
acompanhava Jesus, portanto deve ter havido uma grande comoção. É fácil
imaginar aquele cego, atônito, tentando saber o que estava acontecendo.
Quando Bartimeu descobre quem está passando ali, ele grita: “Filho de Davi,
tem misericórdia de mim!” Aqui há alguma ironia: como Marcos relata em seu
texto, a maioria das pessoas não tem ideia de quem é Jesus, pois sua verdadeira
identidade como Messias permaneceu oculta para muita gente. O cego,
entretanto, enxerga.
A multidão repreende Bartimeu. Mas ele é insistente e grita ainda mais alto.
Provavelmente por ter sido ignorado a maior parte de sua vida, quer que Jesus
repare nele. O homem ignorado quer ser visto.
Por fim, Jesus o ouve e manda chamá-lo. Em um trecho que parece pura
verdade, os amigos daquele homem, que antes haviam mandado que ele se
calasse, lhe dizem: “Levante-se! Ele o está chamando.” Em um gesto de
libertação, ele lança fora a sua capa e se aproxima de Jesus.
Jesus diz a Bartimeu:
– Que queres que eu te faça?
– Mestre, eu quero ver!
– Recupera a visão! – diz Jesus no Evangelho de Lucas – A tua fé te curou.
Bartimeu é curado e segue Jesus pelo caminho.
Ainda noviço jesuíta, ouvi essa história e ela me desconcertou. Por que Jesus
perguntou a Bartimeu o que ele queria? Jesus podia ver que o homem era cego.
E já havia curado muitas pessoas, portanto sabia não apenas que o cego queria
ser curado, mas que ele podia curá-lo.
Então, por que Jesus fez aquela pergunta? Aos poucos, uma resposta foi
surgindo: Jesus pergunta a Bartimeu o que ele quer não tanto por si mesmo, mas
pelo cego. Ele estava ajudando o homem a identificar o seu desejo e a ser
específico sobre ele.
O termo desejo tem uma reputação suspeita nos meios religiosos. Quando
muitas pessoas religiosas ouvem essa palavra, pensam em duas coisas: desejo
sexual ou desejos materiais, ambos condenados por alguns líderes religiosos. O
primeiro é um dos maiores presentes de Deus para a humanidade e sem ele a
raça humana não existiria. O segundo faz parte do nosso desejo natural por uma
vida saudável – por comida, moradia e vestimenta.
Pode ser difícil para algumas pessoas aceitar o desejo como parte de sua vida
espiritual. Um dos melhores livros sobre o caminho de Inácio é The Spriritual
Exercises Reclaimed, escrito por Katherine Dyckman, Mary Garvin e Elizabeth
Liebert, três irmãs católicas. No livro, elas sugerem que certas dinâmicas da
espiritualidade inaciana podem apresentar alguns obstáculos para as mulheres e
talvez precisem ser retrabalhadas. O desejo é uma delas. “As mulheres podem
sentir que dar atenção a seus desejos é, de certo modo, egoísta e que elas não
deveriam valorizar seus desejos se quiserem verdadeiramente agradar a Deus.”
As autoras incentivam as mulheres a “identificarem” e “darem nome” aos seus
desejos.
Por que essa ênfase no desejo? Porque desejo é uma maneira-chave por meio
da qual Deus fala conosco.
Desejos santos são diferentes de vontades superficiais como “Eu quero um
carro novo” ou “Eu quero um computador mais potente”. Na verdade, estou me
referindo a nossos desejos mais profundos, aqueles que moldam nossas vidas: os
que nos ajudam a saber quem vamos nos tornar e o que devemos fazer. Nossos
desejos mais profundos nos ajudam a conhecer a vontade de Deus para nós e
quanto Ele deseja estar conosco. E Deus, eu creio, nos estimula a identificar e
dar nome a esses desejos da mesma maneira que ele encorajou Bartimeu a
articular verbalmente o seu desejo. Conhecer nosso desejo significa, portanto,
conhecer o desejo de Deus para nós.
Para ilustrar essa questão do desejo, conto a seguir um episódio dramático
que aconteceu na minha vida.
Alguns meses antes de ser ordenado diácono, comecei a ter fortes dores de
cabeça. Na época, estava no meio do curso de teologia e não via a hora de
concluir a universidade. Eu já tinha sofrido de enxaqueca antes, mas nunca com
aquela intensidade. Então achei melhor procurar um médico.
Após alguns exames, ele me disse que identificara um “ponto” no resultado
dos exames e suspeitava que fosse um pequeno tumor, embaixo do maxilar, que
precisaria ser retirado.
Na ocasião, eu era hipocondríaco, e muito embora meu pai tivesse feito a
mesma operação 30 anos antes, fiquei alarmado. E se fosse um câncer? E se eu
ficasse desfigurado? Eram muitos e se...
Felizmente, Myles, meu médico, também era jesuíta e se ofereceu para
providenciar a cirurgia no Hospital Católico de Chicago, onde ele trabalhava,
com um cirurgião que ele conhecia bem. A fim de me convencer, ele me
convidou para ficar na sua comunidade jesuíta durante o período de
recuperação. Ao ouvir seu convite, senti um grande alívio! Eu estava grato por
sua amizade, sua ajuda profissional e sua compaixão.
Até então, eu não havia passado por nenhuma grande cirurgia. Por isso, o
medo se instalou em mim – e, com ele, a autopiedade. No entanto, quando vi
todas aquelas pessoas na sala de espera do hospital algumas semanas antes da
operação, compreendi a verdade do que Myles dissera: “Quando você recebe o
diagnóstico, pergunta a si mesmo: ‘Por que eu?’ Mas, quando depara com outras
pessoas passando por problemas semelhantes ou até piores do que o seu, você se
pergunta: ‘Por que não eu?’”
Na manhã da cirurgia, já preparado para o procedimento, o medo me
consumia. Myles estava lá e, depois de me apresentar à equipe médica, disse
algumas palavras de encorajamento e prometeu que oraria por mim.
Pouco antes de aplicar a anestesia, um dos médicos pediu que eu relaxasse e
contasse de 1 a 100. Foi então que, de repente, um desejo avassalador surgiu
dentro de mim e eu pensei: Eu não posso morrer aqui neste hospital! Não posso
morrer porque quero me tornar padre!

A energia da vida
É comum pensarmos que, se desejamos algo, provavelmente se trata de
alguma coisa que não deveríamos querer ou ter. Mas sem desejo nunca
levantaríamos pela manhã nem nos aventuraríamos porta afora. Nunca
leríamos um livro nem aprenderíamos algo novo. Ausência de desejo
significa ausência de vida, de crescimento, de mudança. Desejo é o que faz
duas pessoas darem origem a uma terceira. Desejo é energia, a energia da
criatividade, a energia da própria vida. Então não vamos ser relutantes com
nosso desejo.

– Margaret Silf, Wise Choices

Eu nunca tinha sentido isso tão forte antes. É claro que havia pensado sobre o
sacerdócio desde o dia em que entrei para o noviciado, e me senti atraído para a
vida de padre durante todo o meu treinamento. Mas nunca houvera um
momento em que senti esse desejo de forma tão intensa. Talvez se pareça com o
que Bartimeu sentiu quando Jesus passou por ele.
Quando acordei, horas mais tarde, foi como se eu tivesse dormido por apenas
alguns minutos. Ainda sonolento, escutei vagamente alguém falando o meu
nome. Myles dissera à equipe que eu era jesuíta, então eles imaginaram que eu já
fosse um padre ordenado. Por isso, a primeira coisa que ouvi, após aquele desejo
ardente de me tornar padre, foi uma das enfermeiras sussurrando: “Padre?
Padre? Padre?”
Para mim foi uma confirmação surpreendente do meu desejo vinda do Deus
das Surpresas. Durante a recuperação, descobri outra razão por que Jesus pode
ter perguntado a Bartimeu o que ele queria. Nomear nossos desejos nos diz algo
sobre quem somos. No hospital, aprendi alguma coisa sobre mim que ajudou a
me livrar das dúvidas sobre o que eu queria fazer e sobre quem eu queria ser. É
libertador poder dizer: “Isto é o que eu desejo na vida.” Dar nome aos nossos
desejos também pode nos tornar mais gratos quando nossas esperanças
finalmente se realizarem.
Expressar esses desejos nos leva a ter um relacionamento mais próximo com
Deus. Do contrário, seria como nunca contar a um amigo nossos pensamentos
mais íntimos. Quando contamos a Deus nossos desejos, aprofundamos nosso
relacionamento com Ele.
Desejo é um meio primordial pelo qual Deus leva as pessoas a descobrirem
quem elas são e o que estão destinadas a fazer. No nível mais óbvio, um homem
e uma mulher sentem desejo físico, emocional e espiritual entre si, e dessa forma
descobrem a vocação para se casarem. Uma pessoa sente atração por ser médico,
ou advogado, ou professor, e assim descobre sua vocação. Os desejos nos
ajudam a encontrar nosso caminho. Mas primeiro precisamos conhecê-los.
Os anseios profundos de nosso coração são nossos desejos santos. Não apenas
desejos de cura física, como o de Bartimeu, mas também desejos de mudança,
de crescimento e de uma vida mais plena. E nossos desejos mais profundos,
aqueles que nos levam a nos tornar quem somos, são os desejos de Deus para
nós. Eles são uma maneira de Deus falar diretamente conosco – uma forma,
como diz Inácio, de o Criador lidar com a criatura. Esses desejos são também a
maneira como Ele realiza seus próprios sonhos para o mundo, designando
pessoas para certas tarefas.
Algumas semanas após a operação, dividi esses pensamentos com Myles. Ele
concordou que foi uma obra da Graça eu ter reconhecido isso, mas então riu e
disse: “Não teria sido melhor se você não precisasse de uma cirurgia desse porte
para fazer essa descoberta?”
Também rindo, respondi que se não tivesse feito a operação provavelmente
não teria me dado conta de nada disso. Não que Deus quisesse que eu ficasse
doente, ou que ele tenha me causado esse mal para que eu pudesse reconhecer
Sua presença. Da mesma forma que não foi Jesus quem causou a cegueira de
Bartimeu. Porém, quando minha própria força ficou debilitada, pude enxergar
as coisas mais claramente.
Essas são algumas razões por que Inácio pede, no início de cada oração nos
Exercícios Espirituais, que oremos por nossos desejos. A prática nos lembra da
importância de pedir coisas relacionadas à vida espiritual, e de nos
conscientizarmos de que tudo o que recebemos, sem exceção, é um presente de
Deus.
O desejo desempenha uma função muito importante na vida de um jesuíta.
Aquele que sonha em trabalhar no estrangeiro, ou em se aprofundar nos estudos
bíblicos, ou em atuar como diretor de retiro, deve ser estimulado a prestar
atenção a seus desejos. Os superiores jesuítas, portanto, respeitam os desejos dos
membros da ordem quando tomam decisões sobre quais missões delegar a cada
jesuíta. Isso faz parte do processo de tomada de decisão conhecido como
“discernimento” no meio jesuíta.
Por vezes, um jesuíta pode não ter desejo por algo que ele quer desejar.
Vamos supor que você esteja morando em uma comunidade jesuíta confortável
e tenha pouco contato com os pobres. Você pode dizer: “Eu sei que deveria
querer viver com simplicidade e trabalhar com os pobres, mas não tenho desejo
nenhum de fazer isso.” Ou talvez você saiba que deveria querer ser mais
tolerante com alguém na comunidade, mas não tem esse desejo. Como orar por
isso com sinceridade?
Em resposta, Inácio perguntaria: “Você tem desejo de ter esse desejo?”
Mesmo que não queira isso, você deseja querer isso? Isso é um modo de
vislumbrar o convite de Deus mesmo nos sinais mais débeis de desejo.
Alguns acham que seus desejos profundos são difíceis de identificar. O que
fazer, então? Margaret Silf, autora inglesa de livros de espiritualidade, diretora
de retiro e conferencista, responde a essa questão em Inner Compass: An
Invitation to Ignatian Spirituality.
Ela indica duas maneiras para se chegar a conhecer o desejo oculto: “Fora
dentro” e “Dentro fora”. A abordagem “Fora dentro” considera tais desejos já
presentes, o que pode apontar para outros ainda mais profundos. Desejos como
“Eu quero um emprego novo” ou “Eu quero me mudar” podem significar um
anseio por maior liberdade em geral.
A abordagem “Dentro fora”, por outro lado, utiliza as histórias arquetípicas
como sinalizações para seu desejo. O que os contos de fadas, os mitos, as
novelas, os filmes ou os romances transmitiam a você quando era criança ou
adolescente? A mesma pergunta poderia ser feita a respeito das histórias das
Escrituras Sagradas. Você é atraído pela história de Moisés libertando os
escravos hebreus? Ou pela cura do homem cego por Jesus? Por quê? Por acaso
essas histórias da vida real contêm sinais indicativos de seus desejos mais
santos?
Desejo é um elemento-chave da espiritualidade inaciana porque é uma das
principais maneiras de a voz de Deus ser ouvida em nossas vidas. E,
definitivamente, nosso desejo mais profundo, que está plantado dentro de nós, é
o desejo por Deus.

Experiências do desejo por Deus


Talvez essa afirmação de que todos têm um desejo inato por Deus possa ser
surpreendente. Se você for agnóstico, talvez possa acreditar nisso sem ter
passado pela experiência. Se for ateu, você pode simplesmente não crer nisso.
Então, para o descrente, o indeciso e o curioso – e todos mais que tenham a
ver com isso –, vamos ver como esses desejos santos se manifestam na vida
diária. Com que eles se parecem? Como podem ser sentidos? Como alguém se
torna consciente de seu desejo por Deus?
Aqui vão algumas das maneiras mais comuns de nossos desejos santos se
revelarem. Enquanto lê, tente identificar quais têm surgido em sua vida.

Incompletude
Muitos de nós já tivemos a sensação de que, apesar do sucesso e da felicidade,
falta algo em nossa vida. Nós todos sentimos essa inquietação, a sensação
incômoda de que deve haver algo mais do que apenas a existência cotidiana.
Sentimentos de incompletude podem ser reflexos da insatisfação com a rotina
e nos apontar para algo que precisa ser corrigido. Se somos prisioneiros de um
emprego ruim, de um relacionamento falido ou de uma situação familiar
adoecida, pode estar na hora de pensarmos em sérias mudanças. Insatisfação
não é para ser eternizada estoicamente – ela pode conduzir a uma decisão, a
uma mudança e a uma vida mais prazerosa.
No entanto, por mais feliz que nossa vida possa ser, um pouco dessa
inquietação nunca vai embora. Na verdade, ela proporciona um vislumbre de
nosso anseio por Deus. Como Agostinho escreveu: “Nossos corações ficam
inquietos até acharem descanso em Ti.” Esse é um sinal de que o coração do
homem anseia por Deus. É um dos meios que Ele tem para nos atrair. Nos ecos
de nossa inquietação, ouvimos a voz de Deus.
Por vezes, essas sensações são mais fortes do que uma simples incompletude e
falam mais de um terrível vazio. Um escritor definiu esse vazio em nossos
corações como um “buraco do tamanho de Deus”, o espaço que só Ele pode
preencher.
Alguns tentam preenchê-lo com dinheiro, status ou poder. Eles pensam: “Se
eu tivesse um emprego melhor, ou uma casa mais bonita, eu seria mais feliz.” Mas
mesmo depois de conquistar essas coisas as pessoas podem ainda se sentir
incompletas, como se estivessem perseguindo algo que nunca podem alcançar.
Elas correm, se esforçando para atingir a meta da satisfação plena, porém ela
sempre parece tentadoramente fora de alcance. O prêmio da completude é
ilusório. O vazio permanece.
Já passei por essa situação na vida profissional. Depois de me graduar em
administração e negócios, pensei que, se conseguisse um bom emprego,
aumentasse minha conta bancária e enchesse meu armário de ternos finos, eu
seria um homem feliz. Mas, mesmo com um emprego, dinheiro e roupas
sofisticadas, eu não estava contente. Sentia falta de alguma coisa. E levei vários
anos para descobrir o que era.
Uma das melhores reflexões sobre esses tópicos vem de Henri Nouwen, padre
holandês e psicólogo que escreveu The Selfless Way of Christ, no qual ele
examina essa busca implacável por preencher o vazio em nossas vidas. Ele
observa que as pessoas que se esforçam para preenchê-lo acabam percebendo
que se trata de uma busca inútil:

Em algum lugar, no fundo de nossos corações, já sabemos que sucesso, fama, influência, poder e
dinheiro não proporcionam a felicidade interior que almejamos. Em algum momento podemos até
sentir certa inveja daqueles que se libertaram das falsas ambições e encontraram satisfação profunda no
seu relacionamento com Deus. Sim, em algum momento podemos até sentir um gostinho dessa alegria
misteriosa no sorriso dos que não têm nada a perder.

Em sua busca para preencher esse buraco, alguns são arremessados na direção
de comportamentos prejudiciais: drogas, álcool, jogo, consumismo exacerbado,
compulsão por sexo, por esportes ou por comida. Mas esses comportamentos
levam somente a uma desintegração maior, a um vazio ainda mais profundo e,
por fim, à solidão e ao desespero.
Esse buraco em nossos corações é o espaço de onde nós clamamos por Deus.
É o espaço onde Ele mais quer nos encontrar. Nosso anseio para preencher esse
espaço vem do próprio Deus.

Desejos e contatos mais comuns


Algumas vezes sentimos desejo por Deus em situações muito comuns:
ficando em silêncio observando o pôr do sol, nos emocionando durante um
filme, reconhecendo uma estranha sensação de comunhão durante um culto
religioso – e sentindo um desejo inexprimível de saborear esse sentimento e de
entender o que ele é.
Logo depois que minha irmã deu à luz meu primeiro sobrinho, eu costumava
passar um bom tempo com ele e sentia um amor imenso quando estávamos
juntos. Era uma criança linda, alguém que nunca tinha existido antes, doado
graciosamente ao mundo. Certa vez retornei de uma visita e estava tão tomado
de amor que chorei – de gratidão, de felicidade e de deslumbramento – e desejei
estabelecer uma ligação mais forte com essa misteriosa fonte de prazer.
Anseios comuns e conexões profundas são meios de nos tornarmos
conscientes de nosso desejo por Deus. Nós queremos entender os sentimentos
que parecem vir de fora.
Muitos de nós temos tido experiências como essas quando nos sentimos no
limiar de alguma coisa importante, à beira de experimentar algo que está além
de nós. E ficamos maravilhados. Então por que não damos mais ouvido a essas
sensações?
Porque, muitas vezes, nós as ignoramos, rejeitamos ou negamos que elas
existem. Nós as classificamos de assombrosas, exageradas, excessivamente
emocionais. Podemos até dizer: “Ah, foi apenas uma tolice!” E não as levamos a
sério como experiências genuinamente espirituais. Então negligenciamos os
suspiros de quando a primeira brisa da primavera acaricia nosso rosto depois de
um longo e sombrio inverno, porque dizemos – ou alguém nos diz – que
estamos sendo muito sentimentais. Isso acontece até mesmo com praticantes da
vida espiritual: muitas vezes, após uma profunda experiência de oração durante
um retiro, as pessoas são tentadas a reduzir tudo a “alguma coisa que
simplesmente aconteceu”.
E nós simplesmente não reconhecemos esses momentos como originados de
Deus.
“Eu não acredito em Deus, mas sinto saudades Dele.” Assim Julian Barnes
inicia seu livro de memórias Nada a temer, no qual aborda seu assombroso
medo da morte. Ele escreve: “Eu sinto saudades do Deus que inspirou a pintura
italiana e os vitrais franceses, a música clássica alemã e as casas universitárias
inglesas; e do Deus que colocou aqueles amontoados de pedras dilapidadas nas
penínsulas célticas que funcionavam como faróis na escuridão e na tormenta.”
Barnes sente saudades de Deus. Quem pode dizer que esse sentimento não
emerge do seu desejo profundo por Deus, o qual vem de Deus?
Uma amiga minha, workaholic confessa, há muitos anos não ia à igreja. Certa
vez, na cerimônia de batismo do filho de uma amiga, subitamente foi tomada
por sensações fortes – principalmente pelo desejo de viver uma existência mais
serena e equilibrada. Ela começou a chorar, sem saber por quê. Depois me
contou que foi tomada por uma sensação de paz intensa enquanto estava ali, em
pé, na igreja e viu o padre derramar água sobre a cabeça do bebê.
Para mim, pareceu evidente o que estava acontecendo: naquele momento,
quando sua guarda estava baixa, ela teve consciência do desejo de Deus por ela.
E faz todo sentido que uma experiência espiritual como essa acontecesse no
contexto de uma cerimônia religiosa. Mas minha amiga riu e dissimulou: “Ah,
eu acho que estava muito emotiva.” E ficou por aí.
É uma reação natural: muita coisa na cultura ocidental tenta obstruir ou
mesmo negar essas experiências espirituais e explicá-las em termos puramente
racionais. E atribuí-las a qualquer coisa, menos a Deus.
Da mesma maneira, nós costumamos minimizar esses acontecimentos como
sendo banais demais, simples demais para procederem de Deus. Mike, um
professor jesuíta, certa vez pregou um pequeno sermão em nossa capela. A
leitura do dia foi uma história do Antigo Testamento sobre o sírio Naamã (em 2
Reis 5:1-19), comandante do exército do rei da Síria. Naamã era leproso e foi
mandado pelo rei para que o profeta Eliseu o curasse. Como receita, Eliseu
prescreve a Naamã algo muito simples: mergulhar sete vezes no rio Jordão.
O general fica furioso. Ele preferiria se banhar em algum outro rio mais
importante do que o Jordão. Mas os que o acompanhavam disseram: “Se o
profeta lhe tivesse pedido alguma coisa difícil, o senhor não faria?” Em outras
palavras, por que o senhor está procurando algo espetacular? Faça a coisa
simples. Então Naamã cede, mergulha sete vezes no Jordão e é curado.
No sermão, Mike disse que a nossa busca de Deus é muitas vezes como a de
Naamã: nós precisamos de algo espetacular para nos convencer da presença
Dele. Mas é nas coisas simples, nos fatos e nos sentimentos comuns, que Deus
pode ser encontrado.
Você pode também sentir medo de aceitar esses momentos como sinais do
chamado divino. Se aceitá-los como vindos de Deus, pode ter que admitir que
Ele quer se relacionar pessoalmente com você ou que está se comunicando com
você diretamente, o que pode ser algo assustador.
Sentir medo é uma experiência comum na vida espiritual. Ser confrontado
com um indício de que Deus está próximo a você pode ser alarmante. Pensar
que Ele está querendo se comunicar conosco é uma coisa que muitos de nós
preferiríamos evitar.
É por essa razão que várias histórias da Bíblia sobre homens e mulheres se
encontrando com a presença divina começam com as palavras “Não tenha
medo”. O anjo anunciando o nascimento de Jesus para Maria diz: “Não tenha
medo” (Lucas 1:30). Nove meses depois, na véspera do nascimento de Jesus,
outro anjo saúda os pastores com “Não tenham medo” (Lucas 2:10). E, quando
Jesus faz um de seus primeiros milagres na frente de Pedro, o pescador se
prostra com assombro e diz: “Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um homem
pecador.” Mas Jesus retruca: “Não tenha medo” (Lucas 5:10).
Medo é uma reação natural ao que é divino, ao mysterium tremendum et
fascinans, como diz o teólogo Rudolf Otto, o mistério que tanto fascina quanto
nos deixa tremendo.
As experiências religiosas são com frequência desprezadas não pela dúvida de
que sejam reais, mas pelo medo de que sejam de fato verdadeiras.

Desejos incomuns
Também na ampla categoria dos desejos acontecem experiências mais
intensas. Algumas vezes temos uma sensação quase mística de desejo por Deus
ou de termos um contato com Ele, o que pode ser deflagrado por circunstâncias
inesperadas.
O misticismo geralmente é visto como uma experiência que cabe apenas na
vida dos supersantos. Mas ele não está restrito aos santos. Nem cada experiência
mística precisa refletir exatamente o que os santos descrevem em seus escritos.
No seu livro Guidelines for Mistical Prayer, uma freira carmelita diz que o
misticismo não é propriedade exclusiva dos santos. “Pois o que é a vida mística
senão Deus vindo fazer o que nós não podemos fazer; Deus tocando as
profundezas de nosso ser, lá onde o homem está reduzido ao seu elemento
básico?” Karl Rahner, o teólogo jesuíta alemão, falou de um “misticismo diário”.
Muitos costumam definir a experiência mística como aquela em que nos
sentimos cheios da presença de Deus de uma forma intensa e irrefutável. Ou
quando nos sentimos arrebatados do jeito normal de ver as coisas. Ou quando
estamos tomados pela sensação de Deus de tal maneira que parece transcender
nosso próprio entendimento.
Não é preciso dizer que essas experiências são difíceis de traduzir em
palavras. É o mesmo que tentar descrever a primeira vez que você se apaixonou,
ou quando tomou nos braços o seu bebê recém-nascido, ou quando viu o mar
pela primeira vez.
Durante o período em que ficou meditando em Manresa, Inácio relatou ter
vivenciado a Trindade – o Pai, o Filho e o Espírito Santo, na fé cristã – como
três claves que tocam uma nota musical de modo diferente, mas unificado. Às
vezes as pessoas descrevem que se encontram próximo às lágrimas mas não
conseguem conter o amor e a gratidão que sentem. Recentemente, um rapaz me
falou de sua experiência de se sentir como se fosse um jarro de cristal com o
amor de Deus como água transbordando da borda do jarro. Ele disse que foi sua
maior experiência de se sentir “cheio”.
Ainda que possam não ser ocorrências diárias, as experiências místicas não
são tão raras quanto alguns poderiam supor. Ruth Burrows escreve que elas não
são “o caminho privilegiado de uns poucos”.
Esses momentos aparecem com frequência surpreendente não apenas na vida
dos crentes consagrados, mas também na literatura moderna. Em seu livro
Surpreendido pela alegria, o escritor inglês C. S. Lewis descreve uma experiência
que teve ainda criança:

Eu estava diante de um arbusto de groselha florido em um dia de verão e de repente surgiu em mim,
sem aviso – e como se tivesse vindo de uma lonjura não de anos, mas de séculos –, a memória daquela
antiga manhã na Old House em que meu irmão havia trazido seu brinquedo de jardim para o quarto de
criança. É difícil encontrar palavras suficientemente fortes para descrever a sensação que me invadiu
(...) Foi uma sensação de desejo, é claro; mas desejo de quê? Antes que eu soubesse o que desejava, o
desejo evaporou, o vislumbre inteiro esvaneceu, o mundo voltou de novo ao lugar-comum, ou apenas
foi transformado em uma saudade do desejo que acabara de desaparecer.

É uma boa descrição do desejo – com acréscimos. Eu não sei como é um


arbusto de groselha florido, mas sei com que o desejo se parece. Pode ser difícil
identificar exatamente o que você quer, mas, no fundo do coração, você sente
saudades da realização de todos os seus desejos, que é Deus.
Isso se aproxima do sentimento de temor que o rabino Abraham Joshua
Heschel identificou como premissa para o encontro com Deus. “Temor... é mais
do que uma sensação; é um caminho de entendimento. É o ato de apreen​der
uma realidade maior do que nós mesmos... O temor nos capacita a penetrar nos
indícios do mundo divino, para perceber nas pequenas coisas um elo com o
infinito, para vivenciar o inatingível no comum e no simples.”
Eu deparei com sentimentos desse tipo algumas vezes ao longo da vida. Cito
uma. Quando era menino, eu costumava ir de bicicleta ao colégio pela manhã e
voltar à tarde. Em algumas ocasiões eu pedalava animado junto com um grupo
de colegas do meu bairro. Mas, em outras manhãs, eu ia para o colégio
pedalando sozinho.
Como eu gostava de disparar rua abaixo pelo nosso bairro, atravessando as
calçadas vazias, cruzando as casas novinhas do princípio dos anos 1960, por
baixo das árvores frondosas, sob o sol alaranjado da manhã, com o vento
assobiando em meus ouvidos!
Próximo de nosso colégio havia um pequeno caminho de acesso que separava
duas casas do bairro. O colégio ficava do outro lado do caminho, atrás do que
parecia ser um grande lote de terra. No final do caminho havia um acesso com
degraus, portanto eu precisava desmontar e carregar a bicicleta escada acima.
No topo da escadaria ficava um dos meus lugares prediletos neste mundo,
cuja lembrança me emociona ainda hoje. Era uma vasta campina, com enormes
carvalhos à esquerda e campos de beisebol à direita. O local era lindo em todas
as estações do ano.
Nas manhãs frias de outono, eu pedalava minha bicicleta por uma superfície
instável de folhas amarronzadas, grama ressecada e serralha seca coberta pela
geada. No inverno, a campina era uma vasta paisagem de neve silenciosa que
coloria minhas galochas enquanto minha respiração fabricava nuvens de
algodão à minha frente.
Mas na primavera a campina explodia em vida. Naqueles dias, eu sentia como
se estivesse pedalando por um daqueles experimentos científicos que fazíamos
no colégio. Gafanhotos bem nutridos saltavam por entre as margaridas e os
malmequeres. Grilos se escondiam no gramado e entre o remanescente das
folhas secas. Abelhas zuniam. Cardeais e pintarroxos voavam de galho em galho.
O ar era fresco e a natureza exalava vida com a força da criação.
Certa manhã de primavera parei no meio do bosque para tomar fôlego. A
cesta de metal da bicicleta, carregada com meu material escolar, pendeu
bruscamente para um lado e quase perdi meu dever de casa. Apoiado no chão,
eu tive a percepção de muita coisa acontecendo à minha volta – tantas cores,
tanta atividade, tanta vida.
Olhando em direção ao colégio no alto da colina, uma felicidade inebriante
tomou conta de mim. Eu me senti feliz de estar vivo. E senti um desejo
fantástico: tanto de possuir como de fazer parte do que estava em volta. Ainda
consigo me ver de pé naquele campo, cercado pela criação, com mais clareza do
que qualquer outra memória da infância.
Em momentos incomuns como esse, encoberto pela grandiosidade da visão
campestre, Deus nos chama.

Exultação
Similares a esses desejos são os momentos que não podem ser descritos como
desejos inefáveis ou contatos poderosos, mas em que alguém é arrebatado ou
experimenta uma sensação de exultação e felicidade. Diferente do desejo de
saber do que se trata, aqui nos sentimos muito próximos, ou a ponto de
encontrar, o objeto de nosso desejo.
Aqui sentimos a alegria esplendorosa de estar perto de Deus. Podemos estar
no meio de uma oração, ou em um culto de adoração, ou ouvindo uma boa
música, e, de repente, somos tomados por sentimentos intensos de beleza e
luminosidade. Somos arrebatados e desejamos mais.
Certa noite, o poeta W. H. Auden estava reunido com seus colegas de
magistério quando algo inesperado lhe aconteceu. Ele descreve o episódio na
introdução do livro The Protestant Mystics:

Em uma agradável noite de verão em junho de 1933, eu estava sentado num jardim após jantar com três
colegas, duas mulheres e um homem. Nós nos gostávamos muito, mas certamente não éramos amigos
íntimos, nem havia ali algum interesse sexual de quem quer que fosse. Também não havíamos ingerido
bebida alcoólica. Conversávamos sobre assuntos do dia a dia, quando, súbita e inesperadamente, algo
aconteceu. Eu me senti invadido por um afeto que, embora tenha sido receptivo a ele, era irresistível, e
com certeza não era meu. Pela primeira vez em minha vida eu soube exatamente o que significa amar o
seu próximo como a si mesmo... Meus sentimentos em relação a eles não mudaram – eles continuavam
sendo meus colegas e não amigos íntimos –, mas senti a existência deles como sendo de infinito valor
para mim e me regozijei nisso.

Auden parece quase ter encontrado o desejo de seu coração, quase ter
encontrado exatamente o que estava procurando, mas, quando chegou ao lugar,
ele foi rapidamente afastado dali. Experiências poderosas como essa aumentam
nosso apetite por um relacionamento com Deus no futuro, mesmo que nunca
mais experimentemos Sua presença de modo tão claro.

Clareza
Há uma história em quadrinhos da revista New Yorker que mostra um
homem com aparência de mago ou monge curvado sobre um grande livro. Ele
ergue os olhos e diz a si próprio: “Por Deus, por um minuto, de repente tudo fez
sentido!”
Às vezes nos sentimos tentadoramente próximos de entender o que é este
mundo. No dia de minha ordenação, entrei pelos fundos da igreja algumas
horas antes de a missa começar. O coral estava ensaiando e eu fiquei ali, de pé,
na igreja vazia, enquanto ela não lotava. E pensei: “Estou exatamente onde eu
deveria estar.”
Sensações de clareza podem ser semelhantes às de exultação. Na verdade,
muitos dos sentimentos que estamos examinando podem se sobrepor. Em
alguns dos casos descritos neste capítulo podemos também experimentar o que
Inácio chama nos Exercícios Espirituais de “consolação sem motivo prévio”,
uma sensação de Deus se comunicando diretamente conosco e nos dando
ânimo. “Quando a consolação vem sem uma causa que a precede, não há
desilusão nela”, escreveu ele, “desde que venha somente de Deus, nosso
Senhor.”
Isak Dinesen falou dessa clareza em seu livro Out of Africa: “Você pode voar
tão baixo para ver os animais nas campinas e sentir amor por eles como Deus
sentiu quando os criou, antes de ter delegado a Adão a tarefa de lhes dar
nomes.”

Desejos de seguir
Desejos de seguir Deus são mais explícitos. Não é um desejo por “não sei bem
o quê”, mas é bem claro. E é possível identificá-lo como um desejo por Deus.
Na Primeira Semana dos exercícios, os diretores espirituais com frequência
nos convidam a meditar nos dons que Deus nos dá, e então, como sugere Inácio,
sobre nosso próprio caráter pecaminoso. Isso não tem uma fórmula tanto
quanto possa parecer. Depois de passar um tempo meditando sobre as bênçãos
em suas vidas, as pessoas muitas vezes se sentem, de certa maneira, indignas do
que recebem. Não que sejam más pessoas. Mas pensam: O que eu fiz para
merecer tudo isso?
Nesse momento dos exercícios suas falhas podem ficar em evidência. Como
Bill Creed, um diretor espiritual jesuíta, me disse certa vez: “Sob a luz
resplandecente do amor de Deus nossas sombras começam a aparecer.”
Isso pode levar à descoberta de que você é, como dizem os jesuítas, um
“pecador amado”: imperfeito, mas amado por Deus. Normalmente isso gera
gratidão, que leva a um desejo de retribuir. Você pode ficar tão impressionado
com o amor de Deus por você, mesmo no seu estado “imperfeito”, que vai
querer dizer: “Obrigado! O que posso lhe ofertar em troca?”
Para os cristãos isso geralmente se manifesta como um desejo de seguir
Cristo. A resposta a esse impulso vem na Segunda Semana dos exercícios: uma
série de meditações sobre a vida de Cristo. Nela, o desejo é mais explícito e se
concentra em um estilo de vida específico, que é seguir Cristo.
Não é preciso estar envolvido com os exercícios espirituais para que esse tipo
de desejo se manifeste. A pessoa pode estar lendo algum texto poderoso sobre
religião ou espiritualidade e pensar: Isso é o que eu sempre quis, seguir esse
caminho. A pessoa pode estar no culto de uma igreja, ouvir falar de Jesus e
pensar: Por que não o sigo? Ou pode se recordar do que sentia por Deus quando
criança e pensar: O que aconteceria se eu voltasse a seguir esse caminho? Os
desejos são mais bem formatados nesses casos. É possível identificar com clareza
nosso desejo de seguir uma trilha específica ou de seguir Deus. Esse é um novo
modo de Deus nos chamar.

Desejos de santidade
Uma atração por exemplos de santidade é outro sinal de desejo por Deus. Isso
pode ser desencadeado de pelo menos duas maneiras: primeiro, pesquisando
sobre o povo de Deus do passado; e segundo, encontrando o povo de Deus hoje.
No primeiro caso, um conhecido exemplo dessa experiência é o de Inácio.
Estava ele prostrado em seu leito, lendo sobre a vida dos santos, quando
começou a pensar algo do tipo: Ei, eu poderia fazer alguma coisa assim. A
vaidade chamava Inácio para grandes façanhas, mas uma parte mais verdadeira
de seu ser foi atraída pela santidade dos homens e das mulheres de Deus.
Santidade, porém, não se resume aos santos canonizados como o próprio
Inácio, mas aos que circulam entre nós – como o pai que cuida de seus
filhinhos, a filha que se dedica aos pais idosos e a mãe que trabalha duro para o
bem-estar de sua família. Santidade também não significa perfeição: os santos
sempre foram seres humanos falhos e limitados. A santidade, portanto, sempre
constrói sua casa na humanidade.
Logo, podemos ser atraídos por modelos de santidade tanto passados quanto
presentes. Aprender sobre exemplos passados de santidade e encontrar os
santos de hoje costuma nos fazer querer ser como eles. Santidade nas outras
pessoas é naturalmente inspiradora, já que é uma forma de Deus nos atrair para
Ele. Vivenciar o poder atrativo da santidade nos dias de hoje nos leva a
compreender por que Jesus de Nazaré atraía grandes multidões aonde quer que
fosse. Santidade nos outros nos remete às profundezas santas de nós mesmos.
“Um abismo chama outro abismo”, diz o salmo 42:7.
Isso é o que Marilynne Robinson, autora do romance Gileade, tinha em
mente quando escreveu em um artigo: “O que eu poderia chamar de santidade
pessoal é, na verdade, a abertura para a percepção do sagrado na existência em si
e, acima de tudo, em cada um de nós.”

Vulnerabilidade
Aqui vai uma afirmação geralmente mal-entendida ou mal-interpretada:
muitas pessoas se rendem a Deus em situações de sofrimento.
Por ocasião de uma doença grave, uma crise familiar, a perda de um emprego
ou a morte de um ente querido, muita gente dirá que se encontrou com Deus de
maneira diferente. Os mais céticos podem atribuir isso ao desespero. No
raciocínio deles, a pessoa não tem mais para onde se voltar e se volta para Deus.
Sob essa ótica, Ele é visto como uma muleta para o tolo e um amuleto para o
supersticioso.
Mas, em geral, não nos voltamos para Deus na hora da dor porque, de
repente, nos tornamos irracionais. De certa forma, Deus é capaz de nos alcançar
por estarmos com as defesas baixas. As barreiras que levantamos para mantê-Lo
a distância – seja pelo orgulho, pelo receio ou pela falta de interesse – são postas
de lado, intencionalmente ou não. Não nos tornamos menos racionais. Ficamos
mais receptivos.
Você se lembra da história de eu ter descoberto meu desejo de ser padre
quando estava na mesa de operação? Isso foi uma manifestação desse mesmo
fenômeno. O desejo esteve sempre lá, assim como o chamado de Deus no
interior daquele desejo. Com as minhas defesas enfraquecidas, foi muito mais
fácil reconhecê-lo.
Aos 50 e tantos anos, meu pai perdeu um ótimo emprego. Depois de muito
tempo, ele se recolocou no mercado, mas não ficou plenamente satisfeito. Como
todos nós sabemos, é difícil achar emprego ou começar uma nova carreira na
idade em que muitas pessoas estão planejando a aposentadoria. Foi um período
duro para ele e para minha mãe.
Seu emprego novo exigia que ele se deslocasse por uma hora, todos os dias, na
ida para o trabalho e na volta para casa. Então, em uma noite escura, no
estacionamento do escritório, bem distante de casa, meu pai teve uma tontura,
perdeu o equilíbrio e caiu. Ele acabou no hospital. Os exames mostraram o que
todos temiam: câncer. A doença que atingira seus pulmões havia migrado para o
cérebro, o que provocou a queda.
Nos nove meses seguintes, a condição física de meu pai só piorou, apesar das
sessões de quimioterapia. Logo ele estava preso à cama e começou a depender
dos cuidados de minha mãe para todas as suas necessidades. No seu último mês
de vida, quando minha mãe já não podia ajudá-lo fora do leito, ele disse: “Eu
acho que deveria ir para o hospital.” E nós o transferimos para uma unidade
semi-intensiva.
Mas, se por um lado a condição física de meu pai só declinava, a sua condição
espiritual só melhorava.
Já quase no fim da vida, meu pai começou a falar muito sobre Deus, o que foi
uma grande surpresa para toda a família. Ainda que ele tenha sido criado como
católico, feito todos os seus estudos em colégios católicos e frequentado a igreja
nas datas religiosas, até onde eu sei, ele nunca se interessou por religião.
No entanto, com a proximidade da morte, ele pediu que meus amigos jesuítas
orassem por ele, começou a valorizar os cartões com mensagens espirituais que
as pessoas lhe mandavam, brincou sobre quais membros da nossa família ele
desejava ver no céu, perguntou com que eu achava que Deus se parecia e disse
como gostaria que fosse seu funeral. Meu pai também se tornou mais amável,
mais tolerante e bem mais emotivo.
Para mim, essas mudanças foram ao mesmo tempo gratificantes e confusas.
Uma das últimas pessoas a visitá-lo foi minha amiga Janice, uma irmã
católica que havia sido minha professora ao longo da minha formação teológica.
Depois da morte dele, tive a certeza de que meu pai se tornara mais receptivo a
Deus. No encontro com ele, a irmã Janice respondeu a uma pergunta dele
dizendo algo que eu nunca tinha ouvido, mas que pareceu que eu já sabia.
“Morrer tem a ver com se tornar mais humano”, disse ela.
O insight da irmã Janice foi verdadeiro de pelo menos dois modos. Primeiro:
para meu pai, tornar-se mais humano significou admitir sua ligação inata com
Deus. Todos nós estamos conectados a Ele, ainda que possamos ignorá-Lo,
negá-Lo ou rejeitá-Lo durante toda a vida. Mas, com suas resistências
completamente debilitadas, Deus pôde encontrar meu pai de novas maneiras.
As barreiras que mantinham Deus a distância não mais existiam.
Isso, e não o desespero, é que gera tantas experiências espirituais profundas
perto da morte, quando a pessoa está mais apta a permitir que Deus rompa as
barreiras que O separam dela.
Porém, há um segundo modo pelo qual a resposta de irmã Janice fez sentido.
Meu pai estava se tornando mais humano porque estava se tornando mais
amoroso. Ficar mais perto de Deus nos transforma, da mesma maneira que
quanto mais tempo passamos com alguém que amamos, mais ficamos parecidos
com o objeto do nosso amor. Paradoxalmente, quanto mais humanos nos
tornamos, mais divinos ficamos.
Isso não quer dizer que Deus nos queira sofrendo. Mas, quando nossas
defesas enfraquecem, nossa conexão definitiva com Ele pode ser mais bem
revelada. Assim, a vulnerabilidade é outra maneira de experimentarmos nosso
desejo por Deus.

Essas experiências que muitos de nós tivemos – sensações de incompletude,


desejos e contatos comuns, desejos incomuns, exultação, clareza, desejos de
seguir, desejos de santidade e vulnerabilidade – são todas maneiras de nos
tornarmos conscientes de nosso desejo inato por Deus.
Qualquer um, a qualquer momento, por qualquer dessas maneiras, pode se
tornar consciente de seu desejo por Deus. Além do mais, encontrá-Lo e ser
encontrado por Ele são a mesma coisa, uma vez que essas expressões de desejo
têm em Deus tanto a sua fonte como a sua meta.
Assim, o começo do caminho para Deus é acreditar não apenas que esses
desejos são colocados dentro de nós por Ele, mas que Ele nos busca da mesma
maneira que nós O buscamos.
Esta é uma outra maravilhosa imagem de Deus: o Buscador. No Novo
Testamento, Jesus usou com frequência essa imagem (ver Lucas 15:3-10). Ele
comparou Deus ao pastor que perde uma ovelha no meio de 100 e deixa as 99
no pasto para procurar a que está perdida. Ou com a mulher que perde uma
moeda e varre a casa inteira até encontrá-la. Esse é o Deus buscador. Minha
imagem favorita, no entanto, vem da tradição islâmica que enxerga Deus como
alguém que nos busca mais do que nós O buscamos. Ela está em um dos
provérbios divinos revelados por Deus ao profeta Maomé: “E se [o meu servo]
der um passo para mim, eu darei dois para ele; e se ele der dois passos para mim,
eu darei dez para ele; e se ele vier até mim caminhando, eu vou até ele
correndo.”
Deus quer estar com você. Ele deseja estar com você. E mais: Deus deseja
estabelecer um relacionamento com você.

Deus o encontra onde você está

Quando ingressei no noviciado jesuíta, fiquei intrigado com o que significava


ter um “relacionamento” com Deus. Mas o que supostamente eu devo fazer para
me relacionar com Deus? O que isso significa?
Meu maior equívoco foi achar que eu teria que mudar antes de me aproximar
de Deus. Eu me sentia um bobo tentando rezar e confessei isso a David
Donovan. Então lhe perguntei:
– O que preciso fazer antes de me relacionar com Deus?
– Nada. Deus o encontra onde você está – respondeu ele.
Essa foi uma revelação libertadora. Muito embora Deus esteja sempre nos
chamando para permanente conversão e crescimento, e apesar de sermos
imperfeitos e algumas vezes pecadores, Ele nos ama como somos hoje. Como o
jesuíta indiano Anthony de Mello disse um dia: “Você não Precisa mudar para
Deus amá-lo.” Portanto um dos principais insights da Primeira Semana dos
exercícios espirituais de Santo Inácio é: somos amados mesmo em nossas
imperfeições; Deus já nos ama.
Os cristãos podem ver isso claramente no Novo Testamento. Jesus chama as
pessoas para a conversão, para pararem de pecar, para mudarem suas vidas, mas
ele não espera que elas façam essas coisas para só então encontrá-las. Ele começa
a se relacionar com elas quando as acha. E ele as encontra onde elas estão e do
jeito que são.
Mas há outra maneira de se entender isso. Deus não somente deseja estar em
relacionamento com você hoje, mas a maneira de Ele se relacionar com você
depende muitas vezes de onde você está em sua vida.
Portanto, se você encontra a felicidade principalmente por meio dos
relacionamentos, pode ser por aí que Deus escolha encontrá-lo nas amizades. Se
você é um pai ou uma mãe, Deus pode encontrá-lo por intermédio de seu filho
(ou seu neto). Outro dia, um homem me disse que estava tendo muita
dificuldade em ser grato. Quando lhe perguntei onde ele mais encontrava Deus,
seu rosto imediatamente se iluminou e ele disse: “Em meus filhos!” Era fácil
para ele encontrar Deus, já que ele sabia onde procurar.
Você encontra alegria na natureza? Então procure Deus no mar, no céu, nas
matas, nos campos e nos rios. Você se relaciona com o mundo por meio da
ação? Procure Deus no seu trabalho. Gosta de artes? Vá a um museu, a um
concerto ou ao cinema e busque Deus por lá.
Deus pode nos encontrar em qualquer lugar. Um de meus amigos jesuítas
mais próximos é George, um capelão carcerário, que ministra os exercícios
espirituais para os internos de uma penitenciária de Boston. Certa vez, um
prisioneiro lhe disse que estava prestes a agredir outro interno com um soco no
rosto quando, de repente, sentiu que Deus estava lhe dando “algum tempo” para
reconsiderar aquela decisão. E ele decidiu não partir para a violência. Ali estava
Deus encontrando um interno em sua cela de prisão.

Busque graça nas coisas mínimas, e você achará graça também para
conquistar, acreditar e ter esperança nas coisas máximas.

– Pierre Favre, um dos primeiros jesuítas

Deus também o encontra por meios que você pode entender, por caminhos
que fazem sentido para você. Algumas vezes, Ele o encontra por aqueles meios
que acabei de descrever, mas, outras vezes, de uma maneira tão pessoal, tão sob
medida para as circunstâncias singulares de sua vida que chega a ser quase
impossível contar para os outros.
Um de meus exemplos favoritos disso na ficção vem do romance de Gustave
Flaubert Um coração simples, escrito em 1877, que conta a história de uma
pobre servente. Por muitos anos, Félicité, uma jovem de bom coração, suportou
pacientemente o jugo de sua patroa, a autoritária Madame Aubain. Em um
ponto da história, Madame Aubain presenteia sua criada trabalhadora com um
papagaio de cores muito vivas chamado Lulu, a única coisa realmente
extraordinária que Félicité teve na vida.
Então acontece a tragédia: Lulu morre. Desesperada, Félicité manda o cadáver
do pássaro para um empalhador de animais. Quando o recebe de volta, ela o
coloca no topo de um grande armário com outras relíquias sagradas que ela
mantém. “Todas as manhãs”, escreve Flaubert, “quando levanta, ela o vê com as
primeiras luzes do dia, e então relembra dos tempos que se foram e dos
mínimos detalhes de episódios sem importância, sem tristeza, completamente
serena.”
Depois da morte de sua ama, Félicité envelhece e se recolhe a uma vida
simples de consagração. Muitos anos se passam e, por fim, na hora de sua
própria morte, Félicité tem uma linda e estranha visão: “Ao dar seu último
suspiro, ela viu, quando os céus se abriram, um papagaio gigante rondando a
sua cabeça.”
Deus vem a nós por maneiras que podemos entender.
Eis mais um exemplo: em dado momento ao longo da minha formação como
jesuíta passei dois anos em Nairóbi, no Quênia, trabalhando no Serviço Jesuíta
de Assistência aos Refugiados. Lá eu ajudava os refugiados leste-africanos que se
estabeleceram na cidade a iniciar pequenos negócios para que pudessem se
sustentar. Nas primeiras semanas ali, longe dos meus amigos e da minha família
nos Estados Unidos, senti uma solidão esmagadora. Depois de alguns meses de
trabalho duro, também contraí mononucleose infecciosa e precisei passar por
dois meses inteiros de recuperação. Foi um período de prova.
Felizmente, eu trabalhava com pessoas generosas, entre as quais estava Uta,
uma advogada alemã com ampla experiência com os refugiados do Sudeste
Asiático. Nosso trabalho floresceu: Uta e eu conseguimos ajudar os refugiados a
montar em torno de 20 negócios, entre eles alfaiatarias, vários pequenos
restaurantes, uma padaria e até uma pequena granja. Juntos, também abrimos
uma lojinha que vendia o artesanato que eles faziam, localizada numa favela de
Nairóbi.
Foi uma reviravolta impressionante – da prostração em meu leito,
completamente exausto, imaginando como havia chegado ali, angustiado com a
possibilidade de voltar para casa mais cedo e confuso pelo que eu poderia ter
conseguido, a trabalhar intensamente com refugiados de todo o leste da África,
gerenciando uma loja com muito movimento e percebendo que jamais me
sentira tão livre e feliz. Foram muitos dias difíceis. Mas muitos dias também em
que eu pensava: “É incrível como eu amo este trabalho!”
Certo dia, numa caminhada de volta para casa, passei pela longa estrada de
terra que começava em uma igreja das redondezas, na divisa da favela, que
ficava empoleirada em uma montanha com vista para um amplo vale. De lá, a
estrada sinuosa descia através de um matagal de folhas caídas de bananeira,
figueiras espessas, lírios alaranjados, relva de pasto alta e roças de milho. No
caminho para o vale, cruzei com pessoas trabalhando em silêncio em seus
pedaços de terra. Pássaros coloridos cantavam. No fundo do vale corria um
riacho, e atravessei uma ponte estreita para chegar ao outro lado.
Quando galguei o outro lado da montanha, me virei para olhar para trás.
Embora já fossem quase cinco da tarde, o sol brilhava sobre o vale, iluminando a
longa estrada de terra, o riacho, as pessoas, as bananeiras, as flores e a relva.
Subitamente fui tomado de felicidade. Como estou feliz por estar aqui!, pensei.
Depois da solidão, da doença e das lutas, senti que estava exatamente onde
deveria estar.
Foi uma experiência surpreendente. Deus falava comigo onde eu estava –
física, emocional e intelectualmente – e oferecia o que eu precisava naquele dia.
Isso era clareza? Desejo? Exultação? Difícil dizer. Talvez todas essas coisas.
Mas era especialmente significativo para onde eu estava no momento.
Deus nos fala por meios que podemos entender. Ele começou a se comunicar
com Inácio durante sua convalescença, quando ele estava vulnerável e mais
receptivo a escutar. Naquele fim de tarde em Nairóbi, Deus falou comigo no
esplendor daquele vale ensolarado.
Deus também pode encontrar você a qualquer momento, mesmo que as
coisas pareçam muito confusas. Não é preciso ter um cotidiano perfeitamente
organizado para vivenciar Deus. A sua casa espiritual não precisa estar
arrumada para Ele entrar.
Nos Evangelhos, Jesus quase sempre encontra as pessoas em meio a suas
vidas ocupadas. Pedro consertando sua rede de pesca à beira-mar, Mateus
sentado na sua banca coletando impostos. Da mesma forma, ele as encontra
quando estão no seu pior momento: uma mulher adúltera em vias de ser
apedrejada, uma mulher que estava com hemorragia há muitos anos, um rapaz
possesso completamente desorientado. Em cada uma dessas situações, Deus
disse a essas pessoas ocupadas, angustiadas, preocupadas e atemorizadas: “Eu
estou pronto para encontrá-lo, caso você me queira.”
Se Deus o encontra onde você está, então onde você está é o lugar do
encontro com Deus. Não é preciso esperar que sua vida se aquiete, que seus
filhos saiam de casa, que você encontre o apartamento perfeito ou se recupere
de uma longa enfermidade. Não é preciso esperar até que você supere os hábitos
pecaminosos, ou que se torne mais “religioso”, ou que consiga orar “melhor”.
Não é preciso esperar por nada disso.
Porque Deus está pronto para você agora.
Capítulo 4

Passados bonitos
Encontrando Deus e deixando que Ele o encontre

P ara Inácio e seus amigos, encontrar Deus geralmente significava perceber


onde Ele já estava ativo em suas vidas. E podemos perceber a presença dEle não
apenas nos momentos mais turbulentos, mas também nos acontecimentos
banais nos quais Sua presença é quase sempre ignorada. Deus está sempre nos
convidando a encontrar o transcendente no dia a dia. A chave é perceber.
Entender que o fato de encontrar Deus tem a ver com a percepção ajuda de
duas maneiras aquele que O procura. Primeira, facilita a busca. Como já
mencionei, o jesuíta Walter Burghardt definiu a oração como “um grande e
amoroso olhar para o real”. Contemplar o real, em vez de tentar compreender
um conceito abstrato como a transcendência de Deus, ou tentar resolver um
complicado texto filosófico, é o modo mais fácil para a maioria das pessoas
começar.
Com isso não digo que se deva negar o atrativo do caminho intelectual. Em
seu livro A Testimonial to Grace, publicado pela primeira vez em 1946, Avery
Dulles, um teólogo eminente e o primeiro jesuíta a ser nomeado cardeal,
escreveu que seu próprio despertar religioso foi estimulado pela filosofia grega,
que o ajudou a enxergar o mundo como um todo ordenado. “O ideal platônico
de virtude teve enorme impacto na minha filosofia pessoal”, escreveu ele.
Assim, esse homem extremamente racional foi finalmente levado a conhecer
Deus quando ligou o conceito filosófico de Deus ao mundo natural. Quando
estudava na Universidade de Harvard e caminhava às margens do rio Charles,
ele teve uma revelação provocada por algo bem mais lugar-comum do que um
texto filosófico: uma “jovem árvore”.

Em sua fragilidade, galhos flexíveis eram jovens brotos aguardando ansiosamente a primavera que já se
insinuava. Enquanto meus olhos repousavam neles, com toda a força e a novidade de uma revelação,
veio a mim subitamente o pensamento de que esses pequenos brotos em sua inocência e doçura
seguiam uma regra, uma lei sobre a qual, naquele instante, eu nada sabia.
“Aquela lei vinha de Deus”, escreveu Dulles, “alguém que até então eu não
conhecera.”
Isto nos leva à segunda razão da importância de perceber, assim como a
consciência que Avery Dulles teve daquela árvore. Perceber nos ajuda a
descobrir que a nossa vida já está totalmente envolvida pela presença de Deus.
Ao começarmos a olhar em volta e nos arriscarmos a crer em Deus, nós O
veremos em ação facilmente em nossa vida.
A esta altura você pode estar dizendo: “Que bom. Mas como eu faço isso?”
Aqui é onde o caminho de Inácio pode ajudar.

O exame

Nos Exercícios Espirituais, Inácio inclui uma oração destinada a capacitar os


crentes a encontrar Deus em suas vidas. Na verdade, é mais apropriado dizer
que ele popularizou essa oração, já que versões dela já circulavam havia algum
tempo. Ele a chamou de “exame de consciência” e costumava dizer que era tão
importante que, embora os jesuítas não fizessem todas as outras orações durante
o dia, nunca deveriam se esquecer dessa.
A oração mencionada tem muitos nomes hoje em dia, mas o propósito
comum é examinar nosso dia considerando os sinais da presença de Deus.
Ela pode ser feita uma vez por dia – em geral, antes de ir deitar – ou até
mesmo duas – ao meio-dia e à noite. Como em todas as orações, você começa
clamando pela graça de Deus. Essa é uma maneira de, conscientemente,
convidá-Lo a estar com você e de você se lembrar de que está na presença dEle.
O primeiro passo é a gratidão. Você recorda as coisas boas que lhe
aconteceram durante o dia e dá graças por todos os “benefícios”, como escreveu
Inácio. Assim o jesuíta David Fleming me escreveu em uma carta: “Inácio
considerava o exame uma oração não apenas focada na pessoa, mas direcionada
a Deus. É por isso que ele começa com agradecimentos a Deus, pois Ele é o foco.
Não se trata simplesmente de um autoexame ou de introspecção sonhadora – é
um modo de oração, um modo de estar com Deus.”
Inácio entendia “benefícios” no sentido mais amplo possível. Entre eles
estavam qualquer boa notícia, um instante carinhoso com a esposa e a
conclusão de um projeto importante no trabalho. Mas também incluíam-se as
coisas menos óbvias, como a visão surpreendente da luz do sol sobre a calçada
no meio de um dia frio de inverno, o sabor de um sanduíche na hora do lanche,
a satisfação no fim de um dia cansativo.
Para Inácio, muitas coisas são motivos de gratidão, por mais que pareçam
banais. Você as relembra e sente um enorme prazer – ou as “desfruta”, como ele
diria.
Saborear é um antídoto para as nossas existências cada vez mais corridas. Nós
vivemos em um mundo apressado e valorizamos a rapidez, a eficiência e a
produtividade. A vida se tornou uma sequência interminável de tarefas e listas
de providências a serem tomadas. Nós nos tornamos “humanos funcionais”, em
vez de simplesmente “seres humanos”.
Desfrutar os acontecimentos desacelera o nosso ritmo. Durante o exame de
consciência, não recordamos uma experiência importante apenas para
acrescentá-la a uma lista de coisas que vimos ou fizemos. Ao contrário, nós a
saboreamos como se ela fosse uma refeição gostosa. Fazemos uma pausa para
sentir o que aconteceu. É um aprofundamento de nossa gratidão a Deus,
revelando as alegrias ocultas de nossos dias. Como disse Anthony de Mello:
“Você santifica tudo aquilo pelo que dá graças.”
O segundo passo do exame é clamar por graça para “conhecer meus pecados”,
para enxergar onde você se desgarrou da sua parte mais profunda, aquela que o
conecta a Deus. Onde você agiu ao contrário do seu melhor juízo, ou contra a
voz de Deus dentro de você, ou em desacordo com a centelha divina que existe
no seu íntimo? Talvez em uma conversa sobre um colega de trabalho você tenha
contribuído com uma observação mal-intencionada. Ou você tenha tratado
alguém sem o respeito que todos merecem. Ou, quem sabe, tenha ignorado
alguém que estava realmente com necessidade.
Refletir sobre o caráter pecaminoso soa como uma reminiscência nada
saudável da ênfase católica na culpa. Mas hoje a culpa pode estar subestimada. A
voz de nossa consciência que nos diz que fizemos alguma coisa errada e nos leva
a nos corrigirmos é uma voz que nos torna mais generosos e, por fim, mais
felizes. Em seus diários, Peter Favre, um dos primeiros jesuítas, referiu-se a seus
pecados como um “certo bom espírito” que o conduz ao arrependimento.
Quando pensar sobre os seus pecados, sugiro que considere uma reflexão
muito útil do meu professor de teologia moral, James F. Keenan. Ele observou
que no Novo Testamento, quando Jesus condena pessoas por comportamento
iníquo, ele geralmente não condena os fracos que estão tentando fazer melhor,
ou seja, pecadores tentando se emendar. O tempo todo, Jesus alcança as pessoas
que estão prontas para a mudança e as convida à conversão.
Porém, com frequência, ele condena os “fortes” que poderiam melhorar se
quisessem mas não se incomodam com isso. Na famosa parábola do Bom
Samaritano, aqueles que passam pelo homem caído à beira da estrada têm
plenas condições de ajudá-lo, mas simplesmente não se interessam. Nas palavras
do Padre Keenan, pecado é muitas vezes uma “falta de interesse”.

São Francisco Xavier sobre o exame de consciência

Duas vezes por dia, faça seus exames particulares. Seja cuidadoso para
nunca omiti-los. Viva, então, para cobrar mais da sua consciência do que
você costuma cobrar dos outros, pois aquele que não é bom a respeito de si
mesmo, como pode ser bom a respeito dos outros?

Esse método pode nos ajudar a ver onde falhamos em responder ao convite
de Deus em nosso dia. Onde falhamos em nos interessar? Onde poderíamos ser
mais generosos? Talvez tenhamos deixado de ajudar um amigo que precisava
apenas de cinco minutos do nosso tempo, ou um parente enfermo que esperava
por um telefonema carinhoso. Poderíamos ter feito, mas não fizemos – e
falhamos. Essa é uma nova maneira de meditar sobre aquilo que os teólogos
chamam de “pecados de omissão”.
Será que examinar nossos pecados ainda parece uma manifestação dos piores
estereótipos do cristianismo? Bem, uma admissão de nossa própria iniquidade,
ou de nossa incapacidade de fazer o que é correto, nos ajuda não apenas a
chegar mais perto de Deus como também a nos tornarmos pessoas mais
amorosas. Nós podemos também enxergar mais claramente a nossa necessidade
de Deus, que nos convida a crescer em amor, não importa quantas vezes
tenhamos que dar um passo atrás. Esse segundo passo do exame nos remete à
nossa humildade. Nós nos tornamos mais conscientes de como ferimos os
outros e podemos nos afastar dessas partes de nós mesmos que impedem os
outros de nos amar.
Isto é, caso não tenhamos nos afundado na culpa. A consciência de nossos
pecados pode ser um convite ao crescimento, mas também uma armadilha.
Algumas vezes, a culpa mal elaborada leva uma pessoa a acreditar que não pode
ser perdoada por Deus ou que o pecado faz dela alguém sem valor. Isso pode
conduzir ao desespero, um sinal de distanciamento de Deus. Todos nós lutamos
com o pecado e devemos buscar o perdão de Deus e das pessoas, porém todos
nós ainda somos amados por Deus – mais do que podemos imaginar. A
parábola do Filho Pródigo contada por Jesus (Lucas 15 11:32), segundo a qual o
pai não só perdoa o filho insubmisso, mas o cobre de amor, é a origem desse
conceito formulado na espiritualidade inaciana como o “pecador amado”. A
culpa é um meio para um fim e não o fim da história.
Ter consciência da própria tendência ao pecado é importante para o
crescimento espiritual. É por isso que Anthony de Mello escreveu: “Seja grato
por seus pecados. Eles lhe trazem a graça.”
A terceira parte dos exames é o cerne da oração, uma revisão de seu dia.
Basicamente, você pergunta: “O que aconteceu hoje?” Pense nisso como um
filme passando em sua cabeça. Aperte o botão “Play” e deixe seu dia passar, do
princípio ao fim, desde que se levantou até que foi se deitar à noite. Repare no
que o deixou feliz, no que o inquietou, no que o deixou confuso e no que o
ajudou a ser mais amoroso. Lembre-se de tudo: visões, sons, sentimentos,
gostos, texturas, conversas, pensamentos, palavras e ações. Cada momento
oferece uma janela em que Deus esteve no seu dia.
Agora você pode dizer: “Eu já sei o que aconteceu comigo hoje!” Mas sem a
disciplina do exame de consciência você poderia perdê-lo. Isso é algo que
aprendi de forma muito surpreendente durante meus estudos de filosofia em
Chicago.
Quando meus irmãos jesuítas e eu estávamos no meio de nossos estudos
filosóficos, depois de nosso período como noviços, nós também esperávamos
ministrar. Embora nossos superiores instruíssem de que nossa tarefa principal
era estudar filosofia, nós não perdemos contato com o mundo exterior nem
esquecemos que nossos estudos tinham um objetivo prático: ajudar almas.
Ao longo do meu primeiro ano de filosofia na Universidade Loyola, em
Chicago, trabalhei em um programa de apoio aos integrantes de gangues de rua
na periferia. No segundo ano, me alistei em um centro comunitário de um
bairro de classe média baixa próximo à residência dos jesuítas. Utilizando
minha experiência nos negócios, ajudei homens e mulheres desempregados a
conseguirem um novo emprego, escrevendo currículos, procurando as vagas
disponíveis e preparando-os para as entrevistas.

Dos Exercícios Espirituais


Eis aqui o exame nas palavras de Santo Inácio de Loyola, direto dos
Exercícios Espirituais:

O primeiro ponto é dar graças ao nosso Deus pelos benefícios que recebi.
O segundo é pedir graça para conhecer os meus pecados e me livrar
deles.
O terceiro é prestar contas de minha alma desde o momento de levantar
até o momento do presente exame, hora após hora, primeiro quanto aos
pensamentos, depois palavras, depois ações, na mesma ordem que foi
dada para o exame particular.
O quarto é pedir perdão a Deus nosso Senhor por minhas culpas.
O quinto é resolver corrigi-los, com a sua graça.
Encerrar com o Pai-Nosso.

Depois do desafio de atuar junto a gangues de rua, trabalhar em um centro


comunitário foi comparativamente mais fácil. Mas, embora o trabalho pastoral
com as gangues fosse excitante, as tarefas no centro de classe média pareciam
mais prosaicas. E não parecia especificamente cristão. Onde estava Deus? Eu
gostava da equipe carinhosa no centro comunitário e do contato com os
homens e mulheres desempregados que pareciam estar interessados no que eu
lhes ensinava. Mas o trabalho em si parecia monótono. Sobretudo porque os
clientes vinham de um dia duro procurando emprego. Eu achava cansativo e ao
mesmo tempo infrutífero.
Uma mulher exemplifica isso. Wanda estava acima do peso e tinha uma
aparência desleixada, o que não era nenhuma surpresa, dada a sua péssima
situação financeira. Além disso, só estudara até o ensino médio.
Sem trabalho havia vários meses, ela estava desesperada por um emprego, por
isso procurou a ajuda do centro comunitário. Nós elaboramos um currículo
juntos, destacando as suas habilidades, e ela respondeu a ofertas de emprego nos
classificados de jornais, comparecendo a algumas entrevistas.
No entanto, por mais que nos empenhássemos, Wanda nunca conseguia
emprego; então comecei a me sentir frustrado no meu trabalho com ela.
Um dia, confessei isso ao meu diretor espiritual, Dick, um simpático padre de
meia-idade com muita experiência na espiritualidade inaciana. Como acontece
com muitos diretores espirituais, eu sentia que podia conversar com ele, mas
Dick sabia quando eu não estava lhe contando tudo.
– O seu ministério pastoral aparece com frequência no seu exame de
consciência? – perguntou ele.
Não aparecia. Uma vez que minha prioridade eram os estudos, eu estava mais
concentrado nisso. No meu exame de consciência, eu revisava cuidadosamente
as experiências que havia tido nas aulas e durante o almoço e o jantar com meus
amigos jesuítas na comunhão diária. Eu nem pensava no meu trabalho com
Wanda e nos outros clientes.
– Talvez esse trabalho pareça monótono porque você não o está apresentando
a Deus em oração – comentou Dick.
– Não. Ele é monótono – retruquei.
Dick me lembrou de que, quando sentimos resistência a alguma coisa em
oração, geralmente é porque estamos resistindo ao convite de Deus para crescer.
Então, no dia seguinte, depois de passar um tempo no centro comunitário com
Wanda, prometi a mim mesmo que me lembraria dela durante meu exame de
consciência.
Naquela noite me concentrei na capela de nossa comunidade jesuíta e
comecei meu exame. Após o longo dia, recordei os acontecimentos relacionados
aos meus estudos e à vida em comunidade. Quando cheguei à parte do dia que
passei no centro comunitário, me lembrei de que deveria fazer uma pausa.
Percebi uma resistência, mas me obriguei a lembrar das pessoas que tinha visto
ali: os sem-teto que se confrontavam com a falta de trabalho por muitos anos; o
homem de cadeira de rodas que vinha tentando um emprego havia meses; e,
finalmente, Wanda.
Eu havia passado uma hora daquele dia preparando-a para uma entrevista
que poderia levar meses para acontecer – e, até, nunca acontecer. De repente, na
oração, vi o rosto de Wanda e fui tomado por uma tristeza intensa. As coisas
pareciam tão sem esperança para ela. Foi como se eu tivesse mergulhado em um
poço fundo de compaixão infinita. Antes que pudesse dar conta, eu estava
chorando por alguém que mal conhecia.
No dia seguinte contei a Dick como havia ficado surpreso com essa reação.
“Talvez você estivesse sentindo a compaixão de Deus por Wanda”, disse ele. “De
que outra maneira Deus comunicaria suas esperanças em Wanda senão
trabalhando por seu intermédio?” Não era de admirar que eu tivesse sentido
tanta resistência a pensar sobre aqueles com quem eu trabalhava, Dick
ponderou. Talvez por medo das fortes emoções que se escondiam logo abaixo
da superfície.
No encontro seguinte com Wanda foi como se eu estivesse diante de alguém
que Deus amava de um modo especial. É claro que Deus amava a todos naquele
centro comunitário, mas a oração me lembrou de que Wanda era alguém que
Deus me havia pedido que cuidasse, ainda que de maneira breve. Aquele único
passo do exame – a revisão – mudou a forma de eu me relacionar com meu
ministério, mudou a forma de eu me relacionar com as pessoas com quem eu
trabalhava e, mais importante, mudou a maneira de eu me relacionar com
Wanda. Isso me ensinou a ver Deus não apenas em retrospecto, mas no
momento.
Como Margaret Silf escreve em Inner Compass: “Você rapidamente
descobrirá que está começando a enxergar a presença de Deus, e a sua atividade,
em lugares que nunca teria pensado antes.”

O momento presente contém riquezas infinitas que estão além dos seus
sonhos mais ousados, porém só é possível desfrutá-las na medida da sua fé
e do seu amor. Quanto mais uma pessoa ama, mais ela deseja, mais ela tem
expectativas, mais ela encontra.
– Jean-Pierre de Caussade (1675-1751),
The Sacrement of the Present Moment

O quarto passo do exame é clamar pelo perdão de Deus por qualquer pecado
que se tenha cometido durante o dia. Os católicos podem sentir a necessidade de
cumprir essa exigência com o sacramento da confissão se houve algum pecado
grave. Podemos também reconhecer o desejo de buscar o perdão da pessoa que
nós ofendemos.
Clamar pelo perdão de nossos pecados pode ser libertador, nos lembrando da
vontade de Deus de nos ter de volta – assim como o pai na parábola do Filho
Pródigo –, não importa o que tenhamos feito, se estivermos verdadeiramente
arrependidos. Nos estudos teológicos, um de nossos professores, Peter Fink,
ensinou à nossa turma que a ênfase na confissão não deve ser em quanto eu sou
mau, mas em quanto Deus é bom.
Por fim, no último passo do exame, clamamos pela graça da ajuda de Deus
para o dia seguinte e podemos encerrar com qualquer oração que quisermos.
Inácio sugere o Pai-Nosso. Aqueles que não são cristãos podem querer encerrar
com uma prece de sua própria tradição.

Exame(s)

Muito embora Inácio dissesse aos jesuítas que nunca deixassem de repensar
seu dia, o exame de consciência não deve ser visto como um fardo pesado. Para
Inácio, o exame se resume a gratidão, consciência dos pecados, revisão, perdão e
graça.
Mas os jesuítas o praticam de várias maneiras. Para mim, é difícil identificar
pecados sem antes relembrar os acontecimentos do dia. É também mais fácil
pedir perdão depois de refletir sobre meus pecados. Portanto o meu exame
segue esse roteiro: gratidão, revisão, consciência dos pecados, perdão e graça.
Outros acham que os passos se sobrepõem. Alguns embarcam na revisão e,
no caminho, lembram-se de alguma falha e imediatamente pedem perdão.
O exame foi feito para todos, não apenas para os jesuítas. Dorothy Day, a
americana fundadora do Movimento de Trabalhadores Sociais Católicos, fala do
exame de consciência em seus diários publicados. “Santo Inácio diz para sempre
fazermos dois exames por dia, cada um de 15 minutos”, escreveu. E ela mostra a
sua própria maneira de fazê-lo:

1. Agradeça a Deus pelas bênçãos.


2. Implore para ser iluminado, isto é, pela graça de ver claramente.
3. Examine.
4. Arrependa-se.
5. Corrija.

Dorothy percebeu que o exame não somente lhe lembrava as alegrias simples
da vida como também a impulsionava para o crescimento. “Nós todos falamos
demais”, ela escreveu em 1973, aos 75 anos. Ela sentiu que reclamava e fofocava
demais. “Eu preciso parar.” E foi o exame de consciência que a fez agir.
“Não existe a maneira ‘certa’ de orar”, David me disse certa vez. Portanto ore
da maneira que o leve para mais perto de Deus.
Entretanto, há uma cilada: não faça o exame como se ele fosse simplesmente
uma lista a ser cumprida. Muitos jesuítas – incluindo eu – são vítimas dessa
tentação. Para as pessoas muito ocupadas é tentador dar uma paradinha à noite
e revisar os fatos do dia por conta própria – eu fiz isso, depois fiz aquilo – e não
se aprofundar em coisa alguma.
Para evitar que isso aconteça, é preciso lembrar a si mesmo que o exame é
para ser feito com Deus. Recordar esse detalhe faz o exame ser mais uma oração
e um diálogo, e menos uma tarefa que precisa ser cumprida. Às vezes, apenas
lembrar que se está na presença de Deus é o suficiente.

O exame em cinco passos


É assim que eu gosto de fazer o exame de consciência.
Antes de começar, como em todas as orações, lembre-se de que está na
presença de Deus e peça a Ele para ajudá-lo.

1. Gratidão: Lembrar-se de qualquer coisa no dia pela qual é


especialmente agradecido e dar graças.
2. Revisão: Lembrar-se dos acontecimentos do dia, do começo ao fim,
destacando em quais foi sentida a presença de Deus e em quais foi aceito
ou recusado qualquer convite para crescer em amor.
3. Arrependimento: Lembrar-se de qualquer ação que precisa de
arrependimento.
4. Perdão: Clamar pelo perdão de Deus. Acertar-se com as pessoas que
você feriu.
5. Graça: Clamar a Deus pela graça que é necessária para o dia seguinte e
pela capacidade para enxergar a presença de Deus com mais clareza.

Você me verá pelas costas

Ao realizar o exame de consciência, é mais fácil enxergar Deus em retrospecto


do que no momento. Para ilustrar essa constatação, deixe-me contar uma
história.
Há alguns anos editei um livro chamado How Can I Find God?, no qual eu
pedia a algumas pessoas que respondessem a essa pergunta.
Meio atrevido, escrevi para o superior geral da Companhia de Jesus, Peter-
Hans Kolvenbach, e exultei quando ele me respondeu com um ensaio conciso
sobre o tema. Sua abordagem enfatizava a prática do “olhar para trás” a fim de
enxergar Deus.
Padre Kolvenbach recontou a história de um abade na Idade Média que falava
todos os dias sobre “encontrar Deus, procurar Deus e ser encontrado por Deus”.
Certo dia, um monge perguntou ao abade se ele já havia encontrado Deus. Ele
tivera uma visão ou estivera cara a cara com Deus?
Após um longo silêncio, o abade respondeu com franqueza: não, ele não
havia encontrado. Mas isso não era nenhuma surpresa, emendou o abade, pois
até para Moisés, conforme o livro do Êxodo (33:20), Deus disse: “Não me
poderás ver a face, porquanto homem nenhum verá a minha face e viverá.”
Deus diz que Moisés o verá pelas costas quando Ele tiver passado.
“Por causa disso”, escreveu Padre Kolvenbach, “olhando para trás pelo
comprimento e largura de sua vida, o abade pôde ver por si mesmo a passagem
de Deus.”
O exame nos ajuda a ver Deus em retrospecto. E o que o Padre Kolvenbach
disse sobre a procura de Deus poderia ser aplicado a essa oração diária. “Neste
sentido, é menos um assunto de procurar por Deus do que se permitir ser
encontrado por Ele em todas as situações da vida, onde Ele não para de passar e
onde Ele se permite ser reconhecido uma vez que já tenha realmente passado.”
Da mesma forma, apesar de frequentemente pedirmos ajuda a Deus em
algumas áreas específicas da vida, nós, também com a mesma frequência,
deixamos de reconhecer a ajuda Dele quando ela vem. Algumas vezes, o exame
de consciência pode ajudar a responder à pergunta: “Por que Deus não
responde à minha oração?”
Suponha que você comece em um emprego novo, inicie novos estudos ou se
mude para uma nova cidade e esteja se sentindo sozinho. Você pede ajuda a
Deus: Ajude-me a me sentir menos solitário. Ajude-me a encontrar amigos.
Normalmente nós esperamos uma mudança imediata: um amigo novo já no
dia seguinte. Porém não é o que costuma acontecer, pois amizades verdadeiras
não surgem com tanta rapidez.
Mas, aos poucos, você pode começar a fazer amizade com algumas pessoas.
Talvez no dia seguinte à sua oração alguém faça um comentário amável ou
pergunte se você precisa de ajuda. Se está procurando apenas um “amigo
instantâneo”, pode ser que uma coisa tão simples quanto um comentário amável
passe despercebida. O exame de consciência ajuda você a reparar que Deus
muitas vezes trabalha gradualmente – o que me faz lembrar de uma de minhas
imagens prediletas de Deus.
Certa vez, um jesuíta ancião me disse que Deus é como um velho carpinteiro
em um vilarejo do interior. Se perguntarmos aos aldeãos onde encontrar alguém
que faça consertos e trabalho de carpintaria, eles dirão: “Só há uma pessoa a
quem recorrer. Ele faz um trabalho excelente. É caprichoso, minucioso,
consciente, criativo, preciso nos encaixes, e faz trabalhos que atendem
exatamente às suas necessidades. Só há um problema: ele demora uma
eternidade!”
Com o exame, o trabalho lento de Deus tem menos chance de passar
despercebido.
Com o correr do tempo, você também começará a perceber os padrões da
atividade de Deus em sua vida. Talvez relembre todas as noites em que se sentiu
a pessoa mais feliz por ajudar os outros em suas necessidades físicas – como
ajudar uma vizinha idosa na limpeza da casa. Você pode pensar: Que
interessante. Nunca reparei nisso antes. Talvez eu deva fazer isso outras vezes. Ou
você repara que todas as noites agradece a Deus pela mesma pessoa de seu local
de trabalho, e pensa: Que interessante. Talvez eu deva contar-lhe quanto sou
grato por sua amizade.
Encontrar Deus em seus exames de consciência o faz procurar mais por Ele
durante o dia. Você se torna mais consciente de onde Deus estava e de onde Ele
está. Aos poucos, você descobre que Ele está agindo em todos os momentos do
dia. Encontrar Deus olhando para trás torna mais fácil enxergar Deus bem na
sua frente.
O exame pode ser usado também para contemplar a presença de Deus a longo
prazo. Em Inner Compass, Margaret Silf conta sobre uma viagem de carro que
ela fez pelos campos escoceses com seus familiares e o momento em que se
depararam com uma placa que dizia: “Esta é a nascente do rio Tweed.” Eles
então contemplaram um riacho que começava com um insignificante filete de
água, se alargava e crescia, tornando-se progressivamente uma “presença
marcante na cidade”, um grande rio atravessado por uma ponte, um paraíso
para os pescadores, manancial de beleza em toda a região.
Margaret pergunta se olhamos para nossas vidas dessa maneira. Será que
podemos usar o exame de consciência para olhar para trás e encontrar as fontes
escondidas da “paisagem de nossas circunstâncias”? Que partes de nossas
paisagens resistiram ao fluxo da água e o que as levou a isso?
Colocando de outra maneira, nós podemos utilizar o exame para fazer uma
retrospectiva de toda a nossa vida? Isso, então, pode ser chamado de “exame de
vida”.
Deus está em todas as pessoas
Encontrar Deus em tudo também significa encontrá-Lo em todas as
pessoas. Santo Alphonsus Rodríguez (1532-1617) foi um irmão jesuíta que
por 42 anos serviu na faculdade jesuíta da ilha de Maiorca, na Espanha, na
tarefa humilde de porteiro. Sobre ele, o jesuíta Joseph Tylenda escreveu em
seu livro Jesuit Saints and Martyrs: “Seu ofício era o de receber os visitantes
que vinham à faculdade, procurar os padres e estudantes que eram
aguardados no púlpito, entregar mensagens, fazer compras, confortar os
angustiados de coração que, não tendo a quem recorrer, vinham a ele, dar
conselho aos transtornados e distribuir mantimentos aos necessitados.”
Santo Alphonsus se dedicava a encontrar Deus no momento presente.
“Senhor, deixe-me conhecê-Lo. E faça com que eu conheça a mim
mesmo”, ele costumava orar. A cada toque da sineta, ele olhava para a
porta e visualizava o próprio Deus parado do lado de fora querendo entrar.
No caminho para o portão ele dizia: “Senhor, estou indo!”

Passados bonitos

O exame diário é particularmente útil tanto para aqueles que buscam Deus
quanto para os agnósticos e os ateus. Para estes, o exame pode ser enfocado
como uma “oração de consciência”. O primeiro passo é estar plenamente
consciente de si mesmo e de seu entorno. O segundo passo é lembrar do que
você é grato. O terceiro é a revisão do dia. O quarto, pedir perdão, poderia ser
uma decisão de se reconciliar com alguém que tenha ferido. E o quinto é
preparar-se para estar alerta no dia seguinte. Aos poucos, eles podem começar a
relacionar os acontecimentos diários com o amor, a presença e o cuidado de
Deus na vida deles.
Há alguns anos, comecei a liderar grupos grandes nesse tipo de oração. A
maioria era formada por pessoas envolvidas com a espiritualidade cristã. Porém
mesmo quem nunca havia orado anteriormente ficava entusiasmado com o
exame. E por volta da mesma época fui convidado para trabalhar com um grupo
teatral que ensaiava uma peça em Nova York. No verão seguinte, ao fim do
espetáculo, me convidaram para participar do workshop da companhia, onde
eles encenavam peças inéditas e ofereciam cursos sobre os vários setores das
artes cênicas. A maioria dos “convidados” deveria apresentar para a companhia
um seminário sobre algum tópico relacionado ao palco, como o teatro de
Shakespeare, impostação de voz ou expressão corporal.
O que eu poderia oferecer? Não tinha experiência como ator. Então me dei
conta: o exame de consciência. Certa tarde, no estúdio de dança, conduzi cerca
de 15 pessoas, entre atores, escritores, diretores e dramaturgos, nos cinco passos.
Alguns já haviam meditado antes, outros não; alguns acreditavam em Deus,
outros não; alguns não tinham certeza, outros se omitiam. No fim da sessão, nós
conversamos sobre o que sentimos.
O comentário de que eu mais gostei veio de um jovem ator de Nova York que
confessou sempre ter tido muita dificuldade de meditar e que não tinha certeza
se acreditava em Deus. Mas, quando o exame acabou, ele disse: “Eu nunca tinha
me dado conta de que o meu passado era tão bonito.”
Esse é o tema da peça Our Town, do dramaturgo americano Thornton
Wilder. Uma das personagens, Emily Webb, morreu durante o parto e pede
para retornar ao mundo dos vivos. Quando vê as coisas singelas que compõem
esta vida – por exemplo, passar roupa, banhos quentes, refeições, dormir e
acordar –, ela diz: “Algum ser humano costuma perceber a vida enquanto vive?”
O exame nos ajuda a “perceber” a presença de Deus. Para mim, ele
transcende quaisquer provas da existência de Deus ao nos pedir para reparar
onde Ele já existe na vida de cada um de nós, para reparar onde o nosso passado
foi bonito. Com essa consciência, acabamos por perceber a presença de Deus
mais e mais em nosso dia.
Finalizo este capítulo com uma história do jesuíta indiano Anthony de Mello.
Seu livro The Song of the Bird apresenta diversas parábolas maravilhosas sobre
tomar consciência de Deus. Esta é chamada de “O peixinho”.

– Desculpe-me – disse um peixe do oceano. – Você é mais velho do que eu, logo, pode me dizer onde
encontrar esta coisa que chamam de oceano?
– O oceano – disse o peixe mais velho – é isto onde você está agora.
– Oh, isto? Mas isto é água. O que eu estou procurando é o oceano – disse o peixinho, desapontado,
antes de sair nadando para procurar em outro lugar.

“Pare de procurar, peixinho”, diz Mello. “Não há nada que procurar. Você só
precisa ver.”
Capítulo 5

Começando a orar
Encontrei Deus... e agora?

O exame é uma maneira fácil de descobrir Deus na sua vida diária. No


entanto, por mais útil que ele seja, há muito mais coisa por que orar além de
fazer a retrospectiva do seu dia.
Eu gostaria de contar sobre os meus primeiros passos na vida de oração, o
que pode lhe dar confiança para começar ou prosseguir sua caminhada. Já que
eu conhecia muito pouco sobre oração até atingir a maturidade, é fácil eu me
identificar com os iniciantes.
Mas, na verdade, todos nós somos iniciantes na oração, porque o nosso
relacionamento com Deus muda com o tempo e está em permanente renovação.

Posso pedir ajuda a Deus?

Quando era garoto, eu costumava rezar bastante. Durante o ensino


fundamental, eu enxergava Deus não como o Criador ou o Juiz Todo-Poderoso,
mas, como já disse, como o Grande Solucionador de Problemas, aquele a quem
recorremos para resolver coisas, mudar coisas ou nos tirar de enrascadas. E
como havia muitas coisas que eu precisava resolver – entre elas, meu talento
para jogar beisebol, minha habilidade com o trompete, minha capacidade para
matemática –, eu me voltava para Deus com frequência.
É tão natural se dirigir a Deus quando se tem uma necessidade quanto é para
uma criança pedir ajuda aos pais, ou para um adulto pedir um favor a um
amigo. Ser humano significa estar em relacionamento. Ser humano também
implica ter necessidades. Logo, ser humano significa pedir ajuda muitas vezes.
Na infância, meu método preferido de pedir a ajuda de Deus era recitar
orações formais como o pai-nosso e a ave-maria, com a quantidade de
repetições diretamente proporcional ao resultado desejado. Se eu estivesse
preocupado com a competição da liga de beisebol ou com um solo de trompete
no ensaio da banda, eu rezava muitas ave-marias. Quanto mais eu queria uma
coisa, mais orações eu fazia.
Esse tipo de oração é chamado de oração de petição e é provavelmente o tipo
mais conhecido da maioria das pessoas. Pedir a Deus alguma coisa que
queremos é comum e natural.
Ainda assim, todas as formas de oração têm suas armadilhas. Um perigo da
oração de petição é que ela pode excluir da nossa vida espiritual a consciência da
liberdade de Deus e pode nos transportar para o domínio da superstição ou da
magia. Podemos achar que, se fizermos determinada oração de um modo
específico ou a repetirmos certo número de vezes, seremos capazes de seduzir
Deus para que Ele faça o que queremos, ou de obrigá-Lo a responder. Orações,
porém, não são feitiços ou encantamentos destinados a “fazer” alguma coisa
acontecer – embora essa fosse a minha expectativa quando criança!
Talvez pelo receio da superstição, muita gente já me disse que, quando usa a
oração de petição, se sente culpada. Ou egoísta. “Há tanta gente no mundo que
precisa tão mais do que eu. Como eu posso ficar pedindo a Deus coisas para
mim?”, elas costumam dizer.

Ah, Deus, esquece!


Numa piada sobre oração de petição, um homem procura
desesperadamente uma vaga no estacionamento de uma igreja em um dia
de casamento. Por ser um dos padrinhos, ele não podia chegar atrasado.
Então resolve orar intensamente: “Deus, se você me arranjar uma vaga, eu
prometo ir à igreja todos os domingos pelo resto de minha vida!”
De repente surge uma vaga, e ele rapidamente diz: “Ah, Deus, esquece!
Acabei de achar uma.”

Com certeza, há muitas pessoas que precisam de mais coisas que você e eu.
Mas, se por um lado é importante manter nossas próprias carências em
perspectiva, é impossível não orar desse modo – eu não conheço ninguém que
não sinta necessidade de pedir ajuda a Deus.
O próprio Deus quer que nós levemos as nossas necessidades até Ele. Isso faz
parte de um relacionamento aberto e honesto com Deus. Vamos supor que
alguém tenha perdido o emprego ou recebido um diagnóstico assustador do
médico. Como essa pessoa não clamará a Deus por ajuda?
Orações de petição existem desde que os seres humanos tomaram consciência
das limitações de sua própria existência. Elas tiveram origem em algumas
práticas da pré-história – pedindo favores a vários deuses, divindades e espíritos
por meio de rezas, rituais e sacrifícios.
Mas isso não significa que o crente moderno não deva recorrer a elas: as
orações de petição pré-históricas podem simplesmente refletir o desejo humano
primitivo de se relacionar com Deus. Ademais, elas têm uma longa linhagem na
tradição judaico-cristã e são pelo menos tão antigas quanto os salmos. “Ouve, ó
Deus, a minha voz nas minhas perplexidades”, escreveu Davi no salmo 64.
Quase todos os grandes personagens do Antigo Testamento, assim como os
profetas, em algum momento clamaram a Deus por ajuda.
Essa forma de se relacionar com Deus continua no Novo Testamento. Pense
em Bartimeu, o mendigo cego, que clamou em alta voz mesmo quando seus
amigos mandaram que se calasse. “Que queres que eu te faça?”, perguntou Jesus.
O próprio Senhor instruiu seus discípulos sobre como orar: “O pão nosso de
cada dia nos dai hoje.” Essa é a oração de petição na sua forma mais simples.
Oração de petição é natural, humana e comum. Ela expressa a nossa
necessidade real de ajuda divina. E era a minha maneira principal de rezar
quando menino.
Nunca me havia ocorrido que oração poderia ser algo mais que isso.

Fazendo listas, pegando uma cor


e encontrando Deus

Tudo mudou quando eu tinha 26 anos e comecei a pensar em fazer parte de


uma ordem religiosa. Àquela altura, eu rezava do mesmo jeito de quando tinha
9 anos. Ainda recitava todos aqueles pai-nossos e ave-marias sempre que
precisava muito de alguma coisa.
O Padre Jim Kane, um diretor de vocações, encarregado de recrutar e avaliar
os pretendentes, foi a primeira pessoa com quem conversei sobre ingressar na
Companhia de Jesus. Padre Kane, um simpático quarentão com uma disposição
de fazer inveja, disse que queria que eu participasse de um retiro dirigido
completo.
Um quê?
Por ter lido sobre a vida de Thomas Merton no mosteiro, eu sabia que um
retiro significava passar um tempo recluso em oração. Mas o que era um retiro
dirigido? Talvez, pensei, eles nos dirijam para estudar várias partes da Bíblia.
Mas, como queria me tornar um jesuíta, eu simplesmente concordei.
“Quantos dias eu devo reservar para o retiro?” foi minha única pergunta.
Padre Kane me respondeu:
– Bem, trata-se de um retiro de silêncio de oito dias.
– Oito dias! – exclamei. Como alguém poderia orar durante oito dias?
Eu me imaginava sentado imóvel em uma sala escura com os olhos fechados
pelos oito dias que duraria o retiro. Ou talvez sentado em um banco de madeira
desconfortável de alguma capela empoeirada. Ficar em silêncio por tanto tempo
me pareceu tarefa impossível.
No dia seguinte pedi ao Padre Kane que me passasse a agenda do retiro por
fax, para que eu pudesse me organizar para a viagem. Ele riu. “Não tem agenda.
É um retiro.”
Uma de minhas recordações mais fortes daquela época é a de estar sentado à
minha mesa ouvindo a resposta do Padre Kane e questionando como qualquer
executivo questionaria: Não tem agenda? Oito dias? Quem são essas pessoas?
Porém o meu desejo de aderir aos jesuítas e abandonar minha antiga vida era
tão forte que pedi folga ao meu gerente e comecei a planejar minha ida ao retiro,
onde eu passaria oito dias em silêncio.
Algumas semanas depois, no meio de junho, cheguei a Weston, nas cercanias
de Boston, e me dirigi ao local do retiro. O imenso complexo atijolado,
construído em 1926, que funcionara como escola de filosofia e teologia para
seminaristas jesuítas existia agora como um misto de casa de retiro e asilo para
os jesuítas idosos da região da Nova Inglaterra. Foi chamado de Campion
Center em homenagem a Santo Edmund Campion, um dos jesuítas
martirizados no século XVI durante o reinado de Elizabeth I por ministrar para
os católicos na Inglaterra protestante.
Meu quarto era simples e mobiliado como todos os outros cômodos da casa
de retiro que eu vi: uma cama de solteiro, uma mesa com uma cadeira, uma pia,
uma cadeira de balanço e um crucifixo na parede. Naquele ano, o verão em
Boston estava especialmente quente e um antigo ventilador fazia o melhor que
podia para espanar o calor opressivo do quarto, mas na maioria das manhãs eu
acordava suado.
Pouco depois de ter chegado encontrei Ron, um jovem jesuíta que disse ter
sido escalado para ser meu diretor espiritual e me orientar nas orações. Tentei
imaginar o que seria isso. Em seguida, ele sugeriu que eu passasse o primeiro dia
aproveitando a natureza. Então me senti aliviado, porque com certeza eu
poderia fazer aquilo.
O dia seguinte foi mais prazeroso do que imaginei. Por alguma razão, ficar
em silêncio não foi tão difícil. O fato de possivelmente ingressar na vida
religiosa ainda era uma novidade para mim, então eu pude me imaginar como
uma pessoa humilde e silenciosa quando atravessei o piso de mármore do local e
circulei pelas áreas espaçosas carregando uma Bíblia. Depois de seis anos em um
ambiente empresarial estressante, a oportunidade de deitar na grama, ler livros e
pegar um bronzeado era bem-vinda.
No dia seguinte, eu disse a Ron como aquela experiência estava sendo
relaxante. No fim da conversa, ele me perguntou: “Por que você não dedica um
tempo amanhã para pensar sobre quem Deus é?”
Ah, um truque! Bem que eu ouvi falar que os jesuítas eram espertos. É claro
que eles estavam testando a minha educação religiosa a fim de verificar se eu
sabia o suficiente para me tornar um bom padre.
Naquela tarde, me deitei no vasto gramado ao lado da casa de retiro e tentei
imaginar como eu deveria descrever Deus.
Eu pensei: Deus é

1. Criador
2. Amor
3. Todo-poderoso

Ainda que todo-poderoso seja mais um adjetivo, achei que a lista era bem
impressionante. Na tarde seguinte, apresentei a Ron minhas conclusões, que eu
acreditava que confirmariam o apreço dele por meu assombroso intelecto.
“Certo”, disse ele, inclinando-se para trás com suavidade em sua cadeira de
balanço. Conversamos sobre minha lista, mas, lamentavelmente, ele pareceu
pouco impressionado com a minha perspicácia teológica. E disse: “Talvez hoje
você possa dedicar seu tempo a pensar sobre quem Jesus é.”
Outro truque, mais astucioso do que o primeiro! “Bem, Jesus é Deus, certo?”,
eu disse.
Eu imaginava que Ron fosse me parabenizar por ter me desvencilhado de sua
armadilha jesuíta. Porém, em vez disso, ele respondeu: “Sim, é verdade. Mas por
que você não pensa sobre quem Jesus é para você? Na sua vida.”
Depois do almoço, estiquei-me de novo na grama macia e ensolarada e saí de
lá com uma nova lista. Jesus é:

1. Salvador
2. Messias
3. Príncipe da Paz

Terminei a tarefa em 10 minutos e voltei a me bronzear.


De repente, uma palavra se apoderou de minha mente: amigo. Jesus é um
amigo. Isso era uma coisa que eu nunca havia pensado antes. Nem me lembrava
de alguém insinuando isso. Ou, se alguém insinuara, eu não tinha prestado
atenção.
Durante alguns minutos continuei deitado no gramado, contemplando o céu
azul sem nuvens, e imaginei como seria ter Jesus como amigo. Se ele fosse meu
amigo, iria gostar de me ouvir. Comemoraria o meu sucesso e se entristeceria
com as minhas dores. Ele iria querer o melhor para mim. Iria gostar da minha
companhia e de ouvir sobre a minha vida.
Então imaginei com que Jesus de Nazaré realmente parecia. É claro que eu
havia escutado as leituras do Evangelho durante a missa, entendera alguma
coisa sobre a vida dele e sabia de seus milagres e de sua ressurreição, mas agora
eu imaginava como ele era como pessoa. Como era para os apóstolos caminhar
com Jesus? Deve ter sido maravilhoso acompanhá-lo, receber seu apoio e
encorajamento, ouvir as respostas dele para as suas perguntas. Pensar sobre
Jesus dessa maneira foi gostoso, estimulante e até excitante. E comecei a querer
tê-lo como amigo.
No entanto, percebi que me distraía da maneira como deveria estar pensando
sobre isso. Então tentei me concentrar novamente na minha lista. O que mais eu
deveria acrescentar?
Jesus é também:

4. Bom pastor
5. Juiz
6. Cordeiro de Deus (o que quer que seja isso)

Na manhã seguinte, apresentei a nova lista a Ron. Ele escutou pacientemente


e então conversou comigo sobre essas imagens.
Como uma conclusão culposa, acrescentei: “Uma coisa estranha tomou conta
da minha mente. Por um instante, pensei em Jesus como um amigo. Pensei
sobre os apóstolos e os imaginei convivendo com Jesus. Foi gostoso pensar nele
dessa forma. Isso me deixou feliz.”
Ao dizer essas palavras, fiquei petrificado. Não tinha dúvida de que Ron me
acusaria de ter desperdiçado meu tempo. Então aguardei a inevitável censura, já
imaginando que ele diria que eu não era apto para ser um jesuíta.
Em vez disso, ele se reclinou em sua cadeira e pediu que eu falasse mais sobre
ter Jesus como amigo. Depois que falei tudo o que me viera à cabeça, ele sorriu e
disse: “Acho que você está começando a orar.”
Foi um instante de regozijo, no qual vislumbrei a possibilidade de um novo
tipo de relacionamento com Deus. Ron não estava dizendo que essa era a
maneira correta, ou a errada, ou que era a única maneira de orar. Mas estava
dizendo que pensar em Jesus como um amigo era um tipo de oração. Que era
aceitável ter sentimentos a respeito de Deus, além de pensar sobre Ele. E que
usar nossa imaginação na oração também era bom.
A observação de Ron implicava também outra coisa. Por meio desses
pensamentos, sentimentos e desejos muito pessoais – ser atraído pela ideia de
Jesus como um amigo, pensar sobre como isso era para os apóstolos, pensar se
ele poderia ser meu amigo, esperar que eu pudesse algum dia viver essa amizade
–, Deus estava se comunicando comigo. Isso era revelador.
Por mais estranho que soasse, Deus aparentemente queria estabelecer um
relacionamento comigo.
Para um iniciante, essa é uma compreensão-chave sobre oração. Deus deseja
se comunicar conosco e pode usar todos os tipos de meios para fazer isso.
No capítulo 2, conversamos sobre como nos tornarmos conscientes do desejo
por Deus. Durante esse retiro, meu desejo se manifestou na simples atração pela
ideia de ter Jesus como amigo. Para outros, sua primeira experiência memorável
de oração pode chegar quando contemplam um inseto exótico se movendo
sobre uma folha, ou quando ouvem um concerto de Mozart. Mas, para o
caminho de Inácio, a compreensão de que Deus quer se comunicar conosco é
fundamental.

Afinal, o que é oração?

Algumas semanas após o meu retiro no Campion Center, no verão de 1988,


ingressei no noviciado jesuíta. Na época, ele se localizava em Jamaica Plain, um
bairro habitado principalmente por famílias pobres latinas e afro-americanas.
O primeiro mês lá foi glorioso: eu transbordava de alegria por ser um jesuíta.
E me adaptei facilmente à rotina diária, que incluía o estudo da história e da
espiritualidade jesuíta, e ao trabalho externo, que, para mim, naquele outono foi
em um hospital para pessoas gravemente enfermas.
De segunda a sexta, o dia começava com a oração matinal coletiva às 7 horas.
Aos sábados fazíamos a faxina na casa pela manhã e aos domingos assistíamos à
missa em uma paróquia das redondezas.
Por tradição, um dos noviços dirigia a oração matinal, que poderia ser feita de
várias formas. Um dia, ela precisava ser a oração-padrão para os padres e irmãos
católicos, chamada de Ofício Diário e contida em um livro chamado de
breviário, e consistia principalmente nos salmos e nas leituras do Antigo e do
Novo Testamento.
Outro dia, a oração matinal podia ser uma versão mais simples do Ofício
Diário, com um noviço escolhendo um salmo para ser rezado e reservando um
tempo maior para a meditação silenciosa. Os salmos eram rezados de forma
alternada, com um lado da sala recitando uma estrofe e o outro lado, a estrofe
seguinte, e assim sucessivamente até o final, como se faz nos mosteiros.
Embora não gostasse de acordar muito cedo, eu amava aquela parte do dia:
rezar com a comunidade reunida enquanto a luz matinal entrava pelas janelas
da nossa capela ampla e arejada. A oração das manhãs me mantinha centrado
pelo resto do dia.
À tarde, participávamos da missa, que era celebrada por um dos padres no
noviciado. Esse era sem dúvida o meu momento preferido do dia. Antes de
ingressar na ordem, eu nunca havia frequentado uma missa diária e, portanto,
não sabia o que esperar. O que as pessoas faziam, afinal, em uma missa de meio
de semana? Era o mesmo que uma missa de domingo? Elas cantavam? Havia
uma homilia? As orações eram as mesmas?
Como vim a descobrir, a missa diária era quase igual à missa dominical,
porém mais austera: as mesmas orações, sempre uma homilia, poucos cânticos.
Minha parte predileta da missa eram as leituras do Antigo e do Novo
Testamento. Como tive pouca educação religiosa formal, eu conhecia apenas
algumas das histórias da Bíblia. Enquanto a maioria dos noviços sabia de cor a
história, digamos, de José do Egito, eu não fazia ideia do que iria ouvir. Era
como se eu estivesse participando de um romance ou de um filme cujo final eu
não conhecia.
E durante os feriados dos santos jesuítas fui apresentado às histórias dos
homens cujos exemplos de vida nós éramos incentivados a seguir. Como era
maravilhoso escutar esses relatos durante a missa em um momento de oração
com meus novos irmãos.
Normalmente, os festejos de santos jesuítas são celebrados apenas em
comunidades jesuítas. Nesses dias, o celebrante conta as histórias dos padres e
irmãos ou irmãs que penetraram nas florestas da Amazônia para alcançar povos
indígenas, ou se arriscaram ao martírio na Inglaterra por ministrar aos católicos,
ou remaram com americanos nativos por entre os rios da Nova França para
anunciar o Evangelho. Ouvir essas histórias já era, em si, uma oração.
Tínhamos também que dedicar uma hora por dia à oração contemplativa. A
nossa tarefa era desenvolver um relacionamento pessoal com Deus, mas éramos
livres para orar como quiséssemos. No entanto, no final do dia nós devíamos,
sem falta, fazer o exame de consciência.
Com todo esse tempo para a oração contemplativa, a missa e o exame, e
mesmo com todo o incentivo da equipe do noviciado, comecei a ficar frustrado
com meu “progresso” espiritual. Talvez por causa do foco na oração, eu ficava
apreensivo quanto a possíveis “falhas” na minha vida espiritual.
E, apesar da minha experiência positiva durante o retiro de oito dias no
Campion Center, as preocupações não deixavam de me rondar: Como saber se
eu estou orando certo? Ou se, ao menos, eu estou orando? Como eu posso saber
se Deus está se comunicando comigo em oração? Qual é a melhor maneira de
orar? Como alguém pode evoluir na oração?
Todas essas perguntas confusas pareciam convergir para apenas uma
pergunta: O que é a oração?
Há muitas definições de oração. Uma das mais tradicionais vem de São João
Damasceno, no século VII, segundo a qual oração é uma “elevação da mente e
do coração de alguém até Deus”. Ele também diz que orar é “requerer boas
coisas de Deus” – como vimos na oração de petição. Elevar a mente e o coração
nos lembra que oração não é apenas um exercício intelectual, mas também
emocional.
No entanto, essas definições deixavam Deus de fora. O que Ele estava
fazendo? Esperando que eu elevasse minha mente e meu coração até Ele? Essa
imagem de Deus era passiva demais para mim. Isso é o que Mark Thibodeaux
classifica como o primeiro estágio da oração em seu livro Armchair Mystic:
“Conversar em Deus.” Segundo ele, os outros estágios são: conversar com Deus,
ouvir de Deus e estar com Deus.
Walter Burghardt definiu a oração como “um olhar demorado e amoroso
para o real”. Ele explica que ela é “demorada” porque é feita com calma e sem
pressa. É “amorosa” porque acontece no contexto do amor. Oração é um “olhar”
porque tem a ver com estar consciente. “Eu não a analiso, a discuto ou a
descrevo”, disse Burghardt. “Eu sou um com ela.”
Finalmente, a oração é real “porque a nossa vida espiritual é principalmente
sobre o que aconteceu em nosso cotidiano”. A definição esplêndida de
Burghardt ressalta a materialidade da oração.
Mas isso ainda parecia subestimar o papel de Deus. O que Ele estava fazendo
enquanto olhávamos amorosamente para o real? Parecia muito estático, como
se nós estivéssemos apenas olhando e não muito mais que isso.
Santa Teresa de Ávila disse que oração é uma conversa com Deus. Essa
definição parecia tapar alguns buracos, uma vez que enfatizava o aspecto
relacional das coisas: era uma via de mão dupla.
Porém essa definição levantava quase tantas perguntas quantas as que
respondia. Se oração era uma conversa, eu deveria ouvir vozes? Como eu devia
ouvir Deus? Como devia conversar com Ele? Isso podia funcionar para uma
mística como Teresa, mas daria certo para um crente mediano como eu?
Em essência, a minha pergunta sobre oração era a mesma de muitos recém-
chegados: o que acontece quando fecho meus olhos? Graças a alguns jesuítas, eu
logo descobriria.
Capítulo 6

Amizade com Deus


A descoberta do Padre Barry

Q uando a minha confusão chegou ao auge, David me emprestou um


pequeno livro chamado God and You: Prayer as a Personal Relationship, de
William Barry, autor de livros sobre espiritualidade e antigo superior regional
dos jesuítas na Nova Inglaterra. A descoberta-chave desse livro maravilhoso é
que oração é como uma relação pessoal com Deus que pode ser
proveitosamente comparada com uma relação com qualquer pessoa.
É claro que a analogia é imperfeita. Afinal de contas, nenhum de nossos
amigos criou o universo a partir do nada. E oração não é apenas o
relacionamento em si, mas também a maneira como ele se expressa. Talvez se
possa dizer que oração é a conversa que acontece em uma relação pessoal com
Deus.
Mas, no geral, a constatação do Padre Barry era reveladora: a maneira como
pensamos sobre amizade pode nos ajudar a pensar, e aprofundar, o nosso
relacionamento com Deus.
De início, a descoberta do Padre Barry soa meio estranha. Mas, se
observarmos o que torna uma amizade saudável, veremos que alguns dos
mesmos traços ajudam a construir uma boa relação com Deus. Então usarei a
obra de Barry como base para conversar sobre oração. O que constrói uma boa
amizade entre seres humanos constrói um bom relacionamento com Deus, e
isso cria uma oração de qualidade. Portanto o que devemos fazer em nossa
relação com Deus?

Passar um bom tempo

Uma amizade floresce quando passamos um bom tempo com nosso amigo. E
o mesmo vale para nosso relacionamento com Deus. Ninguém pode dizer que é
amigo de alguém se nunca passar um bom tempo com essa pessoa. Porém muita
gente faz isso com Deus. Alguns religiosos declaram: “Deus é a coisa mais
importante na minha vida!” Mas, quando você pergunta quanto tempo passam
na companhia de Deus intencionalmente, eles admitem que não é lá grande
coisa.
Que tipo de relacionamento é esse em que nunca se passa um bom tempo
com a outra pessoa? Um relacionamento superficial e insatisfatório para ambas
as partes. É por isso que a oração, ou o tempo gasto com Deus, é importante
quando se quer ter uma amizade com Ele.
Isso não quer dizer que a única forma de se passar um bom tempo com Deus
é por meio da oração individual. Como você já sabe, uma das marcas registradas
da espiritualidade jesuíta é “encontrar Deus em todas as coisas”. É possível
encontrá-Lo nos cultos de adoração, na leitura, no trabalho, na família – em
tudo.
Mas, como em qualquer amizade, algumas vezes é preciso passar um bom
tempo sozinho com Deus. Assim como é preciso separar um tempo para
encontrar um bom amigo ou uma boa amiga, é preciso fazer o mesmo com
Deus e permitir que Ele faça isso com você – presumindo que você deseje
manter e aprofundar essa relação. Como o livro do profeta Amós coloca:
“Andarão dois juntos se não houver acordo?” (3:3).
Encontrar os amigos em uma viagem, no trabalho ou em grupos é muito
bom, mas de vez em quando precisamos dar atenção individual a algum em
especial. Oração é isto: ser atencioso com Deus. Quanto tempo você tem
desejado passar em intimidade com Ele?

Aprender

Um das coisas mais gostosas de uma nova amizade é desvendar o mundo do


amigo – descobrir seus gostos e interesses, ouvir belas histórias sobre a sua
infância e conhecer suas alegrias e expectativas. Quando duas pessoas se
apaixonam, há um desejo ainda mais intenso de conhecer a outra pessoa, o que
é outra forma de se tornar íntimo.
O mesmo acontece em nosso relacionamento com Deus. Particularmente nos
estágios iniciais, você pode sentir um desejo forte de aprender o máximo
possível sobre Ele. Você se pega pensando em Deus e divagando: Com que Deus
se parece? Como eu posso aprender mais sobre Ele?
Uma das maneiras mais fáceis de descobrir as respostas para essas perguntas é
ouvir outras pessoas falarem sobre suas próprias experiências com Deus.
Há alguns anos, quando eu editava o livro Como posso encontrar Deus?, recebi
um belo ensaio da Irmã Helen Prejean, autora do livro Dead Man Walking, que
deu origem ao premiado filme Os últimos passos de um homem. Ela escreveu: “A
via mais direta que encontrei para Deus está nos rostos dos pobres e do povo
batalhador.” Irmã Helen falava de como trabalhar com os mais necessitados –
especialmente com homens e mulheres no corredor da morte – a havia
conduzido a lugares “além daquela parte de nós que quer estar sempre segura,
com as coisas sob controle e de preferência na zona de conforto”.
Ela faz analogia com um barco a vela. “Quando se começa a buscar Deus, as
velas ficam cheias de vento, e nosso barco é levado a lugares inesperados. Mas a
oração é parte essencial dessa viagem. Seu barco”, diz ela, “não precisa apenas de
velas, mas também de um leme.” A resposta da Irmã Helen me lembra de
quanto ainda temos de aprender sobre Deus por meio das experiências que
outras pessoas tiveram com Ele.
Cada ensaio me ensinou uma coisa nova sobre Deus. Eu nunca havia pensado
em Deus como um leme, por exemplo. Permitir que outros nos contem suas
experiências com Ele é como ter um amigo nos apresentando a outro amigo. Ou
como descobrir alguma coisa nova sobre um velho amigo.
Outra maneira de aprender sobre Deus é através da Bíblia. Um de meus
ensaios prediletos é do jesuíta Daniel J. Harrington, que leciona o Novo
Testamento na Faculdade de Boston e foi um de meus professores mais
queridos ao longo da minha formação teológica. No ensaio, ele conta uma
comovente história sobre conhecer Deus.
Quando era menininho, Harrington gaguejava. Aos 10 anos, ele ficou
sabendo que o profeta Moisés também falava com dificuldade. Ele foi ao livro
do Êxodo e confirmou. Sem dúvida, Moisés disse para Deus: “Eu sou pesado de
boca e pesado de língua.” O garoto leu o resto da história narrada em Êxodo 4,
que conta como Deus prometeu o que aconteceria com Moisés e que libertaria
definitivamente o povo de Israel.
“Eu li essa história muitas vezes”, escreveu Harrington, “e aos poucos ela teve
efeito em mim a ponto de moldar minha consciência religiosa até hoje. Como
um garoto de 10 ou 11 anos de idade eu encontrei Deus na Bíblia e continuei a
encontrá-Lo desde então.”
Mas há mais coisas na história do que isso. Como pesquisador bíblico,
Harrington passa boa parte de seu dia estudando e ensinando a Bíblia. Como
padre, ele prega sobre o livro sagrado. E, às vezes, “no meio dessas maravilhosas
atividades, vez ou outra eu gaguejo”.
Ele conta:

E isso me traz de volta para onde a minha jornada espiritual com a Bíblia começou. Embora eu gagueje
como Moisés, ainda ouço as palavras de Êxodo 4 11:12: “Quem fez a boca do homem? Ou quem faz o
mudo ou o surdo, ou o que vê, ou o cego? Não sou eu o Senhor? Vai, pois, agora, e eu serei com a tua
boca e te ensinarei o que hás de falar.”

A Bíblia é uma estrada antiga para o conhecimento de Deus. Lê-la ajuda a nos
inspirar, no sentido literal da palavra – colocando o Espírito de Deus em nós. A
Bíblia nos fala do relacionamento de Deus com a humanidade e, portanto, nos
fala de alguma coisa mais sobre Deus. Ela também nos mostra os caminhos
pelos quais as pessoas ao longo daquela história – desde os profetas do Antigo
Testamento até São Paulo, passando pelos apóstolos – se relacionavam com
Deus. Na Bíblia vemos Deus se relacionando com você, com a humanidade e
com os indivíduos. Por todos esses caminhos a Bíblia o ajuda a conhecer melhor
Deus.

Conhecer Deus é mais importante do que saber sobre Deus.

– Karl Rahner (1904-1984)

Para os cristãos, conhecer Deus também significa conhecer uma pessoa: se


você quiser conhecer mais sobre Ele, aprenda mais sobre Jesus. Uma das razões
por que Deus se tornou humano foi para nos mostrar mais claramente como Ele
era. Jesus literalmente corporifica Deus, logo, qualquer coisa que se puder dizer
sobre Jesus se pode dizer sobre Deus.
É possível compreender esse conceito por meio das parábolas de Jesus,
histórias da vida diária que abrem nossa mente para novas maneiras de pensar
sobre Deus.
A narrativa em forma de parábola é uma das principais linguagens com que
Jesus de Nazaré comunica seu entendimento sobre situações simples mas
importantes. No Evangelho de Lucas, por exemplo, ele ensina à multidão que se
deve amar o próximo como a si mesmo. E, quando lhe perguntam “Quem é o
meu próximo?”, Jesus, em vez de oferecer uma definição precisa, conta a
história do Bom Samaritano, na qual um homem caridoso ajuda um próximo
em dificuldade (Lucas 10 29:37). Quando lhe pedem que explique o que
significa o “reino de Deus”, que é a mensagem central de sua pregação, Jesus
conta pequenas histórias sobre grãos de mostarda, trigo e joio, e sementes
caindo em solo pedregoso (Marcos 4).
Em vez de apenas definições superficiais, uma parábola abre a mente do
ouvinte e tem uma profundeza infinita. Histórias carregam um significado sem
precisarem ser convertidas em declarações rígidas. As parábolas também
confrontam as expectativas comuns da plateia, como quando o samaritano,
pinçado de uma minoria étnica odiada (pelo menos pela multidão que seguia
Jesus), é revelado como a pessoa de bom caráter que cuida do desconhecido
ferido.
De certa forma, Jesus de Nazaré foi uma história contada por Deus. Como
Jesus comunicava verdades espirituais por meio de parábolas, você pode atribuir
o mesmo a Deus Pai. Com o intuito de comunicar uma verdade fundamental,
Ele nos ofereceu uma parábola: Jesus.
Jesus é a parábola de Deus. Portanto, para os cristãos, se você quiser aprender
sobre Deus, conheça Jesus.
É possível também aprender sobre Deus conhecendo a vida dos santos
homens e mulheres e descobrir como Ele os conduziu a realizar Seus sonhos para
o mundo. Para mim, poucas coisas são mais agradáveis do que ler sobre a vida
dos santos, em particular, os jesuítas. Quando leio histórias sobre como eles
amavam Deus e como vivenciavam o amor Dele em suas próprias vidas,
aprendo mais sobre a fonte desse amor.
Pierre Teilhard de Chardin, o jesuíta e paleontólogo francês que viveu de
1881 a 1955, por exemplo, encontrava Deus não apenas na celebração da missa e
em outras obrigações óbvias de um padre, mas em seu trabalho de cientista e
naturalista, que o levou a viajar pelo mundo. Ao longo da vida, Teilhard
escreveu bastante sobre a influência mútua da ciência e da religião. Suas obras
chegaram a ser consideradas polêmicas pelo Vaticano, que suspeitava de suas
maneiras heterodoxas de falar de Deus.
Teilhard se encontrou com Deus por meio de diversos caminhos, entre eles o
da contemplação da natureza. Ele escreveu: “Há uma comunhão com Deus e
uma comunhão com a Terra, e uma comunhão com Deus através da Terra.”
Quando li isso pela primeira vez, consegui entender melhor aquelas
experiências que eu tinha em minha bicicleta a caminho da escola. Teilhard
entendia que se pode aprender sobre Deus através do mundo natural, ao ver
como Ele derrama beleza e ordem sobre o universo e está sempre criando e
renovando o mundo físico.
Podemos aprender sobre Deus conhecendo as experiências desses homens e
mulheres santos. Através deles nós podemos vislumbrar o transcendente. Não
que eles sejam divindades. Em vez disso, eles são como uma janela limpa através
da qual as luzes de Deus podem brilhar.
Conheci Joe, um jesuíta de 60 e tantos anos que morava conosco no
noviciado. Ele era como um “pai espiritual” para nós, um grande exemplo para
os rapazes.
Joe foi uma das pessoas mais livres que já conheci. Certa vez, em uma viagem
para conhecer os jesuítas de Kingston, na Jamaica, seu avião atrasou por cinco
horas em Boston. Por fim, o voo foi cancelado e Joe voltou para casa. Naquela
mesma noite, eu o encontrei calmamente sentado lendo um livro na sala de
estar do noviciado. E me espantei:
– Já está de volta, Joe? O que aconteceu?
– Veja só que engraçado, James. Estávamos prontos para decolar, e aí ficamos
parados dentro do avião por umas duas horas. Então descemos e aguardamos
por mais algumas horas até que o voo foi cancelado.
Joe ria ao me contar aquela desventura que provocou a suspensão de sua tão
desejada viagem. Depois de tanto esperar, ele ainda teve que fazer uma longa
jornada de volta do aeroporto até o metrô de Boston para conseguir chegar em
casa.
– E aqui estou! – disse ele, rindo.
– Você não está zangado? – perguntei. Porque, se aquilo tivesse acontecido
comigo, eu estaria roxo de raiva.
– Zangado? Por quê? Não havia nada que eu pudesse fazer para mudar a
situação. Para que se estressar quando não se pode mudar?
Tranquilidade diante das adversidades não nos santifica. Mas é um começo.
Desapego, liberdade e senso de humor são placas de sinalização na estrada da
santidade. Joe, um homem bem sintonizado com o caminho de Inácio, sabia
que uma espiritualidade sadia requer liberdade, desapego e receptividade.
Sempre que lhe perguntávamos se queria fazer algo novo – como assistir a um
filme polêmico, ir a um restaurante recém-inaugurado ou a uma missa em uma
paróquia distante –, ele respondia: “Por que não?”
Pois é, por que não? Pessoas como Joe mostram os frutos de uma amizade
com Deus: espontaneidade, receptividade, generosidade, liberdade e amor. No
tempo que passei na companhia dele aprendi mais sobre a maneira como Deus
age nas vidas de homens e mulheres. Pessoas santas nos ensinam de que modo
Deus trabalha, e é assim que aprendemos mais sobre Deus.
Além do mais, aprender sobre Deus – por meio das experiências de outras
pessoas, por meio da Bíblia e também de mulheres e homens santos – faz parte
do fortalecimento de nossa vida espiritual, porque aprender sobre Ele implica
estar em relacionamento com Deus.

Ser honesto

“Senhor, tu me sondas e me conheces”, diz o Salmo 139. Deixar Deus


conhecer você também é essencial. Permitir ser conhecido por Deus é mais ou
menos a mesma coisa que isso significa em uma amizade: falar sobre sua vida,
compartilhar seus sentimentos e se mostrar receptivo.
É uma parte importante do processo. Padre Barry nos orienta a pensar sobre
o que acontece quando não somos honestos em um relacionamento. Em geral, a
relação começa a esfriar, as pessoas se tornam distantes e o que era espontâneo
se torna formal. Se evitamos alguma coisa desagradável, o relacionamento
degenera em mera convenção social. Por fim, ele fica estagnado ou morre.
O mesmo acontece com a oração. Se falarmos apenas o que achamos que
deveríamos dizer a Deus, em vez do que realmente queremos falar, então nosso
relacionamento vai esfriar, tornando-se distante e formal. Honestidade na
oração, assim como na vida, é fundamental.
Não faz muito tempo me tornei amigo de um jesuíta a quem admiro bastante.
Ele parecia ter uma vida fascinante: era feliz, otimista, trabalhador, amável e
consagrado a Deus. Por um bom tempo tentei descobrir qual o seu segredo. O
que o levava a ter essa vida quase perfeita?
Alguns anos depois, esse mesmo amigo enfrentou um período de forte crise
pessoal e se voltou para mim, e para outros, em busca de ajuda. Ao longo de
muitas conversas, ele expressou sua dor e revelou uma parte de si que eu nunca
tinha visto.
Felizmente a crise passou. Mas, depois que ele abriu seu coração, eu me senti
mais próximo dele e ele disse que se sentia mais próximo de mim. Ambos
estávamos gratos pelo novo patamar a que nossa amizade chegara. Embora eu
soubesse que ele não mais encarnava o modelo da vida perfeita, passei a gostar
dele ainda mais. A sua sinceridade mudou o relacionamento.
Como se pode ser honesto com Deus em oração? Uma maneira fácil é
imaginar Deus bem na sua frente. Você pode imaginar Deus, ou Jesus, na sua
frente, sentado de pernas cruzadas numa cadeira, ou sentado ao seu lado
recostado em uma poltrona – use a sua imaginação para isso. Agora fale de
maneira franca, em silêncio ou em voz alta, sobre a sua vida.
É claro que Deus já sabe o que está acontecendo na sua vida. Ainda assim, é
importante ter transparência na vida espiritual. Mais uma vez, comparar isso
com uma amizade humana pode ajudar. Vamos imaginar que um ente querido
morreu. Um bom amigo já sabe a dor que o enlutado está sentindo e não precisa
ouvir sobre isso. Mas ainda assim é bom que ele expresse a dor da perda, certo?
Certa vez, almocei com um amigo que havia perdido um irmão mais novo em
decorrência de um câncer. Meu amigo era uma pessoa ativa e generosa e eu
sabia que ele estava arrasado. Mas para mim foi um privilégio escutá-lo falar
sobre o que aconteceu, ouvir as histórias engraçadas que ele contou sobre o seu
irmão e poder oferecer meu apoio.
Contar para um amigo ajuda a tornar a perda mais concreta e nos dá a
oportunidade de aceitar a consolação de nosso amigo.
Ser honesto com Deus significa dividir tudo com Ele, não apenas as coisas
que consideramos apropriadas para dizer em oração ou simplesmente agradecer
e louvar. Honestidade implica compartilhar coisas que podemos considerar
inadequadas para uma conversa com Deus.
A raiva é um exemplo perfeito. É normal estar zangado com Deus quando
sofremos muito na vida. Mas sentir raiva é sinal de que estamos vivos.
Deus sabe lidar com a raiva, independentemente de quão intensa ela seja. Ele
tem lidado com esse sentimento desde que os humanos começaram a orar. Leia
o livro de Jó no Antigo Testamento, no qual ele brande sua ira contra Deus por
ter-lhe permitido tamanho sofrimento. Em geral, Jó é visto como símbolo da
paciência, e no começo de seu livro, de fato, ele é um homem muito paciente.
Mas com o tempo Jó perde a paciência e começa a amaldiçoar o dia em que
nasceu. “Eu odeio a minha vida”, desabafa ele. “Darei livre curso à minha
queixa, falarei com amargura da minha alma.” (Jó 10:1)
Ódio, tristeza, frustração, decepção e amargura em oração têm uma longa
história. Por que você não expressaria também esses mesmos sentimentos
sinceros?
Há alguns anos eu disse a meu diretor espiritual que estava tão decepcionado
por Deus não fazer nada para me ajudar que até usara um palavrão em minha
oração. Certa noite, eu estava tão irado que fechei o punho e gritei bem alto: “E
sobre a @#$% daquela ajuda que eu havia pedido, Deus?”
Alguns leitores podem ficar chocados por um padre usar linguajar como esse,
sobretudo durante uma oração. E pensei que meu diretor espiritual me
repreenderia. Mas ele disse: “Essa é uma boa oração.”
Achei que ele estivesse sendo irônico, mas ele completou:
– É uma boa oração porque é sincera. E Deus quer a sua sinceridade, Jim.
Ser honesto me fez ter certeza de que Deus sabia exatamente como eu me
sentia. Você alguma vez já revelou um segredo a um amigo e se sentiu aliviado?
Era como se Deus pudesse agora me acompanhar melhor, como um bom amigo
poderia. Ou, mais precisamente, eu seria capaz de permitir que Ele me
acompanhasse.
Orar em voz alta também me colocou face a face com a minha lamentável
ingratidão. Claro que havia um problema muito grande em minha vida, mas ao
mesmo tempo havia coisas maravilhosas acontecendo. Eu agi como um
adolescente dizendo ao pai “Eu te odeio!” porque ele me mandou desligar o
computador e ir dormir, por exemplo. Ouvir a mim mesmo falando em voz alta
me revelou como uma parte de meu relacionamento com Deus ainda era
infantil e quanto eu queria mudar minha maneira de orar.
A tristeza é outro sentimento que as pessoas relutam em compartilhar com
Deus. Alguém me contou, certa vez, sobre a experiência de ir ao cinema com
um grande amigo. Mas o tema do filme tinha a ver com sua vida, e a pessoa
começou a chorar durante a sessão e ficou envergonhada. Depois, o amigo ficou
em silêncio no carro, apenas a vendo chorar.
O amigo não foi o único a demonstrar amor. A pessoa que chora também está
permitindo que a outra entre em sua vida, dando a ela o presente da intimidade.
Você consegue dividir com Deus a intimidade do seu verdadeiro eu, suas
emoções verdadeiras, mesmo quando está triste?
Quando se trata de oração, o sentimento mais inapropriado é o desejo sexual,
pelo menos para muita gente.
Um dos melhores livros sobre oração é God, I Have Issues, de Mark
Thibodeaux, um dos jesuítas mais iluminados que conheço. Cada capítulo
apresenta a oração mais adequada para se lidar com cada um dos sentimentos.
No capítulo intitulado “Sexualmente excitado”, o autor diz: “Muitas pessoas
cristãs se preocupam com suas excitações sexuais e ficam confusas e
envergonhadas com isso.”
Ele nos lembra que a sexualidade e a atividade sexual são maravilhosos
presentes de Deus para serem desfrutados. Elas unem as pessoas pelo bem do
companheirismo e geram novas vidas. No nível espiritual, esses sentimentos nos
remetem ao amor que Deus tem por nós. Muitos escritores usam o amor erótico
como uma metáfora para o amor de Deus pela humanidade.
Mas, como qualquer presente, a sexualidade deve ser usada com sabedoria. Se
motivada pelo egoísmo, ela se torna um desejo possessivo. Mas pensamentos
sexuais durante a oração também podem ser uma distração. Então o que fazer
com esses sentimentos na oração?
Novamente a solução é ser honesto. “Em vez de esconder essa realidade,
devemos compartilhá-la com Deus”, diz Mark, “e usá-la para nos lembrarmos
de como é bom estar vivo, de como é bom ser uma criatura de Deus e de que
forma maravilhosa nós fomos criados.” Se isso não funcionar, ou se esses
sentimentos forem problemáticos porque são dirigidos a alguém com quem
você não pode ter uma relação, apenas seja honesto com Deus sobre isso. Seja
honesto com Ele sobre todas as coisas.

Escutar
Amizade implica escuta. Para ser um bom amigo, você não pode apenas falar,
precisa também saber escutar. No entanto, isso acontece em alguns
relacionamentos com Deus. As pessoas acham, às vezes, que sua oração é apenas
recitar uma lista das coisas de que precisam ou uma consulta sem fim para
contar a Deus como estão. Como em qualquer amizade, nós precisamos escutar.
Mas o que significa “escutar” Deus? Por acaso isso significa ouvir vozes?
Algumas pessoas afirmam já terem ouvido a voz de Deus de forma audível. E
isso realmente acontece. Notas misteriosas nos diários pessoais de Inácio se
referem a essa oração como loquela, algo próximo a discurso, fala ou conversa.
O exemplo mais atual pode ser o de Madre Teresa, que escreveu em 1946 ter
“ouvido” Deus pedir que ela trabalhasse com os mais miseráveis entre os pobres
das favelas de Calcutá. Anteriormente, ela havia feito para Deus a promessa de
nunca recusar qualquer coisa que Ele lhe pedisse. Anos depois, ela contou ao seu
diretor espiritual que escutara a voz de Deus lhe pedindo que deixasse o
trabalho na escola de meninas, mas mesmo assim ela ficou temerosa de largar
uma atividade consolidada por um desafio novo que parecia arriscado.
Madre Teresa acabou aceitando o convite de Deus para trabalhar com os
pobres. Ela poderia ter dito não, pois o relacionamento com Deus não anula
nosso livre-arbítrio.
Mas o tipo de experiência relatado por Madre Teresa é extremamente raro
entre os católicos. Portanto talvez seja melhor pôr de lado as esperanças
piedosas – ou os medos injustificados – de que vamos ouvir a voz de Deus de
forma literal.
Em 21 anos como jesuíta, encontrei apenas duas pessoas que me disseram ter
ouvido Deus falar pessoalmente com elas. Uma é Maddy, uma mulher alegre
que integra a ordem das Irmãs de São José em Massachusetts. Maddy e eu nos
conhecemos quando trabalhávamos no leste da África na década de 1990. Hoje
ela trabalha na casa de retiro jesuíta em Gloucester, onde costumamos dirigir
retiros juntos.
Como somos amigos de longa data, eu acho que a conheço bem. Mas essa
mulher articuladíssima me surpreendeu em um desses retiros, ao relatar,
durante uma conversa com os participantes, ter ouvido a voz de Deus quando
era jovem e cogitava ingressar em uma ordem religiosa. Ele lhe disse: “Eu a
escolhi para estar comigo. Você encontrará seu caminho.”
Antes de entrar para a Companhia de Jesus, eu teria pensado que Maddy era
louca. Mas agora acredito que esses momentos – por mais raros que sejam –
podem ser experiências privilegiadas de comunhão com Deus. Ainda assim,
temos que avaliá-los cuidadosamente, excluir qualquer distúrbio psicológico,
compará-los com o que sabemos sobre Ele e submetê-los a guias espirituais
experientes.
A maioria de nós nunca chegará a ter esse tipo de experiência. Eu nunca tive.
Logo, se você está preocupado em ouvir vozes, relaxe. Ou, se vai ficar
decepcionado por não escutar Deus falando com você dessa forma, não fique.
Por outro lado, muitas pessoas dizem que durante a oração, muito embora
não escutem a voz de Deus audivelmente, sentem como se Ele estivesse falando
com elas. Isso pode acontecer de diversas maneiras, sutis ou não. Por exemplo,
um amigo pode dizer algo tão pertinente que é quase como se uma janela se
abrisse em sua alma: você pode sentir como se as palavras de seu amigo fossem
um modo de Deus se comunicar com você.
Minha mãe contou-me, certa vez, que estava olhando pela janela e perguntou
para Deus: “Você me ama?” E imediatamente as palavras “Mais do que você
imagina!” vieram à sua mente. Ela me disse que não foi uma voz, mas palavras
que lhe surgiram. Minha mãe não estava procurando aquela resposta; ela veio
espontaneamente. E é claro que Deus a ama mais do que ela possa imaginar.
Porém, para muitas pessoas, essas experiências também são raras.
Mas há outras maneiras de ouvir Deus? Com certeza.
Às vezes, por exemplo, quando você tenta se imaginar falando com Deus, é
possível também tentar imaginar o que Deus lhe diria. Há um modo de oração
conhecido de muitos católicos que Inácio sugere como uma técnica nos
Exercícios Espirituais.
Tenho dificuldade em orar dessa maneira. Mas algumas pessoas conseguem
fazer isso sem problemas. Quando se veem falando com Deus, podem
facilmente imaginá-Lo falando com elas, com a maior naturalidade. Algumas
vezes pode ser útil imaginar estar escutando Jesus em um lugar conhecido da
Bíblia, como, por exemplo, o mar da Galileia, ou mesmo na casa dele em
Nazaré. Entretanto, o que você conseguir imaginá-lo dizendo deve ser sempre
confrontado com o que você já se sabe sobre Deus, sobre si mesmo e com o que
a sua comunidade de fé acredita sobre Deus. Isso o leva a ser mais amoroso e
compassivo? Soa autêntico? Como diz Vinita Hampton Wright em seu livro
Days of Deepening Friendship: “As palavras de Deus têm o toque da verdade.”
Se esse tipo de oração for muito difícil, você deve tentar alguma coisa como o
que descobri por acaso recentemente: imagine o que você acha que Deus diria
com base no que já sabe sobre Ele.
Mais uma vez, aqui a analogia com a amizade é útil. Vamos supor que você
tenha uma amiga mais velha experiente, sábia, compassiva e que dá excelentes
conselhos. Por muitos anos você tem admirado e conhecido a sua visão de
mundo. Quando você lhe conta um problema, às vezes nem tem que esperar que
ela responda, pois já sabe o que ela vai dizer.
Como tenho dificuldade em imaginar Deus falando comigo, às vezes me
pergunto: “Com base no que eu já conheço de Deus segundo a Bíblia, e levando
em conta a minha experiência, o que Deus provavelmente diria sobre isso?” Em
geral, não é difícil imaginar. Muitas vezes a comunicação é “sentida” ou intuída,
em vez de ouvida como numa conversa normal.
Mas, para a maior parte das pessoas, a ideia de ouvir Deus é até mais delicada
do que as maneiras que acabei de descrever. Então vamos examinar os modos
mais frequentes por meio dos quais Ele se comunica em oração com as pessoas.

Ouvir cuidadosamente

Deus usa as nossas emoções para falar conosco em oração. Podemos estar
orando sobre uma passagem bíblica e, de repente, nos sentimos felizes por
estarmos mais pertos de Deus, ou revoltados pela maneiras como Jesus ou os
profetas foram tratados, ou tristes pela situação dos pobres. Ele pode estar
falando conosco por meio dessas emoções. Lembra-se da história de Wanda, a
mulher desempregada que ajudei no centro comunitário? Durante o período de
oração, eu me compadeci de Wanda, o que pareceu ter sido uma maneira de
Deus me levar a cuidar melhor dela.
Esses convites para ouvir podem ser facilmente ignorados porque são, muitas
vezes, fugazes. Se não estivermos atentos, iremos perdê-los.
Outra maneira de Deus falar em oração é por meio de revelações. Talvez você
esteja orando por mais clareza e receba um insight que lhe permite enxergar as
coisas por um novo ângulo. Assim, você pode perceber um jeito novo de
abordar um velho problema.
Ou pode, em um flash, perceber algo surpreendente a respeito de Deus.
Vamos supor que você esteja lendo uma história do Evangelho que fala de Jesus
se retirando para orar em solidão. Você pode já ter lido essa história muitas
vezes, mas dessa vez constata: Se até Jesus precisou de um tempo para orar, talvez
eu precise fazer o mesmo. Nesse caso, a percepção não é tanto emocional, mas
intelectual.
Embora alguns diretores espirituais privilegiem os momentos emocionais da
oração, é importante não negligenciar o modo como um insight intelectual pode
ser revelador.
As memórias também vêm à tona durante a oração. Deus pode, então, nos
lembrar de alguma coisa que nos alegra ou consola. O que Ele está nos falando
por meio dessas memórias confortadoras?
Há alguns anos, por exemplo, durante um retiro em Gloucester, tive dúvidas
sobre a castidade e fiquei preocupado com a solidão de um homem celibatário.
Não que eu estivesse pensando em romper o meu voto. Era mais uma
preocupação abstrata. E pedi a Deus que não deixasse que eu me sentisse
solitário.
Subitamente, como se uma válvula tivesse se aberto, lembranças gostosas
afluíram à minha mente. Recordações de amigos que eu fizera depois de me
tornar jesuíta me vieram à mente. Essas lembranças falavam do amor que eu
recebera durante a vida de jesuíta.
Muitos podem chamar de coincidência o fato de me lembrar dessas pessoas
bem na hora em que estava orando sobre solidão. Mas Deus nos envia essas
lembranças reconfortantes como um modo de dizer: “Lembre-se do que eu já
lhe fiz.”
No Evangelho de Lucas (1 26:38), o anjo Gabriel visita Maria para informá-la
do nascimento de Jesus. Ela questiona Gabriel, dizendo: “Como isto pode
acontecer, se sou virgem?” Gabriel lhe responde que o Espírito Santo a
“envolverá”. O anjo também lembra a Maria que sua prima mais velha, Isabel,
está grávida. “Sendo este já o sexto mês para aquela que diziam ser estéril.” Em
outras palavras, veja e lembre-se do que Deus já fez.
No entanto, memórias também podem revelar coisas amargas. Um dos
melhores exemplos vem do romance de William Maxwell So Long, See You
Tomorrow, que conta a história de uma amizade entre dois meninos. Por meio
de flashbacks, um dos personagens conta como seu amigo Cletus foi
marginalizado pelos colegas depois que seu pai matou um homem. Certo dia, na
escola, ele deliberadamente ignora seu melhor amigo. Anos mais tarde, ele
escreve sobre isso com tristeza:
Cinco ou dez anos se passaram sem que eu pensasse em Cletus, e então alguma coisa me fez lembrar
dele... E, de repente, lá está ele, vindo em minha direção pelo corredor daquela enorme escola, e lembro
que o ignorei... Mas não penso apenas na minha falha de caráter. Eu também penso nele, sobre o que
lhe terá acontecido.

As lembranças podem tanto nos consolar quanto nos levar a nos


entristecermos por nossos pecados.
Os sentimentos também são importantes. Além das emoções reconhecíveis –
como alegria e tristeza –, outros sentimentos, como a sensação de paz e
comunhão com Deus, podem ser indícios da voz de Deus. É possível se sentir
fortemente ligado a Deus de uma maneira incompreensível para os outros, mas
profundamente significativa para você. Aqui, nós experimentamos um estranho
desejo por algo que não sabemos o que seja, acompanhado de um estranho
temor dessa coisa. Confie nesses momentos, muito embora eles sejam difíceis de
explicar ou, às vezes, até de entender.
O próprio Inácio algumas vezes achava difícil expressar o que acontecia na
oração. Os fragmentos de seu diário contêm frases do tipo “com inspirações de
entendimento grandes demais para serem escritas”, “uma experiência que não
pode ser explicada” e “uma profundidade maravilhosa de reverência que eu
acho impossível descrever”. Só porque não podemos explicar ou traduzir em
palavras, não significa que não seja real.
Preste atenção nas sensações físicas também. Recentemente conversei com
Matt, um jovem jesuíta em treinamento que acabara de dirigir um retiro de um
grupo de jovens adultos e que falou para eles sobre como ouvir Deus. Além dos
sentimentos de paz e de conforto, e até dos sentimentos inexplicáveis e
incompreensíveis, Matt acrescentou as sensações corporais como outra
indicação da presença de Deus.
Vamos supor que você está lendo o Salmo 23, que fala sobre Deus o dirigindo
para os “verdes pastos” e para as “águas tranquilas”, e seu corpo começa a
relaxar fisicamente. Preste atenção. Ou você depara com um trecho da Bíblia
que parece estar desafiando-o a fazer algo que preferiria evitar – como perdoar
alguém – e você começa a se sentir inquieto. O que está acontecendo? Deus está
lhe falando por meio de sua reação física. Escute o seu corpo, onde Deus habita.
E, finalmente – como se nós tivéssemos que mencioná-los de novo –, vêm os
desejos. Eles surgem na oração com frequência. Há os desejos por Deus: o desejo
de santidade, o desejo de mudança e crescimento na vida e todos os desejos que
nós descrevemos nos capítulos anteriores. A oração é um momento
fundamental para que desejos santos aflorem.
Em todos esses casos é útil lembrar a história de Elias, no Primeiro Livro dos
Reis. Ele espera pacientemente em uma caverna pela manifestação de Deus.
Primeiro, ele ouve um vento forte, mas Deus não estava no vento. Depois um
terremoto, mas Deus também não estava ali. Elias vê fogo, mas Deus não estava
lá. Por fim, surge, como uma tradução bem descreve, uma “voz suave e
tranquila”, e Elias envolveu o rosto em seu manto e compreendeu que era Deus
se comunicando com ele (1 Reis 19 11:13).
Por meio dessas formas “suaves e tranquilas” – emoções, insights, memórias,
sentimentos e desejos – Deus fala conosco na oração.
Mas não esqueça de prestar atenção no que está acontecendo em sua vida
diária. Por essa razão é que o exame é tão necessário: ele o ajuda a escutar seu
dia. Os acontecimentos diários da vida são talvez sua parte mais fácil de se
ignorar. Em especial, se já estiver orando por algum tempo, pode ser que você
comece a privilegiar o mundo contemplativo em detrimento do mundo ativo.
Refletir sobre nosso cotidiano é também um meio importante de descobrir
como as orações são respondidas. Algumas vezes oramos por algo de que
precisamos e não recebemos aquilo que pedimos. Por isso nós devemos ouvir
cuidadosamente a resposta de Deus naquela “voz suave e tranquila”.
Nós podemos também pedir alguma coisa e não reconhecer que Deus está
respondendo a nossa oração de uma maneira oculta ou inesperada. Naquele
retiro, por exemplo, pedi um fim para a solidão que sentia. Como resposta de
Deus recebi o presente das boas lembranças que me ajudaram a enxergar que,
embora houvesse solidão em minha vida, também havia abundância de amor.
Foi uma resposta diferente às minhas orações, mas, sem dúvida, uma
resposta. Se eu não a tivesse escutado, não teria conhecido a resposta de Deus.
Como em qualquer boa amizade, nós não temos só que falar, mas também
ouvir cuidadosamente.

Mudanças

Outro aspecto dos relacionamentos saudáveis é a mudança. Amizades que


começam na infância e na adolescência podem estar entre as mais
enriquecedoras. Porém, se não permitirmos que a outra pessoa mude, a amizade
não vai se aprofundar nem amadurecer. Assim como em uma amizade entre
duas pessoas, a mudança pode ser uma ameaça no relacionamento com Deus.
Muitos crentes pensam que o relacionamento deles com Deus continua​rá o
mesmo – ou deveria permanecer o mesmo – de quando eram crianças. Alguns
adultos, por exemplo, acham que não podem ficar zangados ou decepcionados
com Deus, já que não tinham esses sentimentos na infância. Ou, mais que isso,
eles aprenderam que esses sentimentos estavam errados.
Certa vez, recebi de uma mulher católica a cópia de algumas perguntas
contidas no Catecismo de Baltimore, o livro de instrução religiosa usado por
muitas crianças católicas americanas entre o final do século XIX e o fim da
década de 1960. Na conclusão do capítulo sobre pecado havia perguntas para
ajudá-las a entender melhor sua fé. Algumas delas, porém, soavam mais como
perguntas de uma prova de curso jurídico. Ela destacou a seguinte, dizendo,
ironicamente ser a sua favorita.

Giles foi assassinado por um comunista quando saía da igreja, após ter se confessado. Ele estava
afastado da Igreja havia 28 anos. Ele cumpriu os requisitos de uma boa confissão, tendo apenas que
rezar algumas orações de penitência. O comunista quis saber se Giles era católico, ameaçando matá-lo
caso ele fosse. Destemido, Giles respondeu: “Sim, graças a Deus!” A pergunta é: Giles vai imediatamente
para o céu ou passará algum tempo no purgatório? Justifique a sua resposta.

Coitado do Giles! E coitada mais ainda da criança que teve de descobrir essa
resposta. É claro que regras e preceitos religiosos existem desde os Dez
Mandamentos. Jesus de Nazaré, durante seu curto ministério, deixou seu
próprio código de regras para os discípulos. E quase todas as religiões têm seus
próprios regulamentos. O mesmo acontece nas ordens religiosas.
Regras são uma parte indispensável de qualquer comunidade, pois nos
capacitam a conviver de modo saudável uns com os outros. Regras trazem
ordem para o grupo e ajudam a organizar nossas vidas pessoais. Ironicamente,
alguns críticos das regras religiosas destinadas a produzir saúde espiritual
seguem um código de regras ainda mais rígido para obterem saúde física.
Muitas dietas e programas de exercício são tão cruéis quanto qualquer lei
canônica.
Mas uma ênfase excessiva na religião legalista pode levar a uma imagem de
Deus como severo guarda de trânsito preocupado apenas com o cumprimento
da lei ou, como disse um amigo meu, como um agente penitenciário. Quantas
crianças que passaram pelo Catecismo de Baltimore não devem ter concluído
que a vida espiritual, longe de ser um convite para um relacionamento amoroso
com Deus, era uma série de regras complicadas de um Deus tirano?
Esse estilo de instrução pode até ser necessário para educar criancinhas, mas
se esse ensinamento nunca for aprofundado ele pode atrofiar a capacidade delas
para, quando adultas, se relacionarem com Deus. Seria como se na faixa dos 20
anos alguém continuasse a se relacionar com os pais da mesma maneira de
quando estava na alfabetização. O exemplo mais claro de ficar preso a uma ideia
infantil de Deus, que ouvi de quase todas as pessoas que dirigi nos retiros, é a
tendência de enxergá-Lo não apenas como um juiz, mas, ainda pior, como um
“gênio do mal”, para usar a imagem do filósofo francês René Descartes.
Quando uma pessoa começa a ter propósitos em sua vida espiritual, a oração
se torna muito prazerosa. Como em qualquer relacionamento, o momento
inicial é de paixão cega. Ler a Bíblia e os livros espirituais é gostoso, conversar
com seus novos companheiros crentes sobre espiritualidade é excitante, os
cultos na igreja são transformadores. Tudo flui com naturalidade, intensidade e
alegria, exatamente como em um caso amoroso. Caramba, você pensa, como é
bom ser uma pessoa espiritualizada!
Mas logo somos convidados – por meio da oração, do aconselhamento
pastoral ou da voz da consciência – a corrigir nossos caminhos, a deixar os
hábitos pecaminosos, a nos entregarmos a uma vida nova. Em uma palavra: a
mudar. Percebemos que o egoísmo é incompatível com as novas crenças. Nós
podemos nos sentir chamados a perdoar alguém contra quem guardamos um
amargo rancor. Nós podemos nos sentir atraídos por um estilo de vida simples
baseado nos princípios bíblicos.
É quando o medo aparece.
E é natural. A mudança assusta. Mas é um medo diferente: é um medo de
saber para onde Deus está nos levando. É o medo de Ele estar nos convidando
para alguma coisa má ou perigosa, para o entendimento natural. Nós pensamos:
Muito embora eu me sinta chamado para perdoar essa pessoa, eu sei que isso será
um desastre para mim. É um ardil de Deus para minha vida! Certo jovem,
refletindo sobre se tornar um jesuíta, temeu que, se aceitasse o convite de Deus,
acabaria infeliz.
É quando as pessoas precisam rever a sua imagem de Deus. Nessas situações é
recomendável cavar mais fundo e perguntar: “Quem é Deus para mim?” Muitas
vezes a imagem que se tem dEle ainda é infantil. Ou é negativa: o juiz severo, o
pai ausente ou o parente rancoroso. “A imagem pessoal que temos de Deus
dependerá muito da nossa criação e de como respondemos a ela”, escreveu o
jesuíta Gerard W. Hughes em God of Surprises, “porque nossos conceitos e
sentimentos derivam da nossa experiência.”

No dia que você parar de mudar, você para de existir.

Anthony de Mello (1931-1987)

A própria religião pode ser um obstáculo para se desenvolver uma imagem


saudável de Deus. Em seu livro God’s Mechanics, o cientista jesuíta Guy
Consolmagno, que trabalha no Observatório do Vaticano e tem pós-graduação
avançada no MIT, fala da fé de um cientista em Deus. Ele escreve: “Uma
maneira clara de deixarmos que uma religião limite a nossa visão do universo é
insistir que suas doutrinas são a descrição completa e final da natureza e de
Deus.” Deus é maior do que a religião.
A sua imagem infantil de Deus precisa evoluir. Quando se é criança, é
aceitável ver Deus como eu O via: o Grande Solucionador de Problemas. Mais
tarde, você pode pensar nEle como um pai. Quando amadurece, pode se
relacionar com Deus de maneiras ainda mais diferentes: como Criador, Espírito,
Amor. Os cristãos podem olhar para Jesus de modo diferente também: não
apenas como Salvador e Messias, mas talvez como irmão e amigo.
A maneira como nos relacionamos com Deus reflete, muitas vezes, os
relacionamentos em outras áreas de nossa vida, particularmente com figuras
paternas ou de autoridade. Lembre-se, porém, que, embora a imagem parental
seja agradável para algumas pessoas, Deus não é o seu pai nem a sua mãe. Ele é
especialmente importante para qualquer um que sofreu abuso físico, emocional
ou mental de um pai ou parente. Richard Leonard, um padre jesuíta, disse certa
vez que nos relacionamos melhor com o pai ou a mãe quando nos relacionamos
com Deus como pai.
Mesmo se você se sentir atraído pela imagem de Deus como pai, lembre que
filhos adultos se relacionam com seus pais de maneira diferente de quando eram
crianças. Em seu livro Friendship Like No Other, Padre Barry assinala que,
quando pregadores se referem a Deus como pai, eles geralmente usam a imagem
de um pai com uma criança. Barry acredita que o “relacionamento entre um
filho adulto e seu pai ou sua mãe é uma imagem melhor do relacionamento que
Deus quer ter conosco quando adultos”.
Você também pode ficar surpreso ao descobrir imagens frescas guardadas em
tradições antigas. Em seu livro She Who Is, Elisabeth Johnson, uma irmã teóloga
católica, escreve sobre as imagens femininas de Deus contidas nas escrituras
judaicas e cristãs. Para mencionar apenas dois exemplos dessa obra pioneira, a
palavra hebraica para “espírito”, ruah, é feminina. Da mesma forma, a palavra
grega sophia, ou sabedoria, é uma imagem tradicionalmente feminina de Deus.
A sabedoria de Salomão diz: “Ela alcança poderosamente de uma extremidade a
outra da Terra e ordena bem todas as coisas.” Na tradição islâmica, o profeta
Maomé fala de 99 nomes de Deus, cada um ressaltando um atributo divino,
entre eles o Benévolo, o Restaurador da Vida e o Guia. Cada nome é um convite
para imaginar Deus de novas maneiras.
Uma de minhas imagens prediletas está no Livro de Jeremias e é
particularmente útil para quem teme que Deus possa ser um trapaceiro que o
convida a mudar apenas para lançá-lo em uma vida miserável. Ao contrário, o
Deus do profeta Jeremias diz: “Eu bem sei os pensamentos que tenho a vosso
respeito [...] pensamentos de paz, e não de mal, para vos dar o fim que desejais.”
(Jeremias 29:11) Deus quer apenas o melhor para você!
É possível encontrar também algumas imagens mais novas e modernas, como
a do Deus das Surpresas, que o desconcerta com convites novos e inesperados
para evoluir. Ou talvez nos surjam imagens próprias. Certa vez, um amigo
jesuíta estava viajando pelo interior e acabou retido em um aeroporto com todos
os seus voos cancelados. Um agente de viagens apareceu para atender os
passageiros e conseguiu acomodá-lo em outro voo. Foi uma contundente
imagem de Deus, ele me disse: alguém que o ajuda a encontrar o caminho de
casa.
A mudança pode também fazer parte de sua relação em crescimento com a
religião institucional. Alguns de nós fomos criados em famílias muito religiosas.
Uns permanecem enraizados na sua tradição religiosa original e desenvolveram
uma fé madura que os alimenta. Você se lembrará daqueles que viajam no
“caminho da crença” que abordamos no primeiro capítulo. Outros descartaram
as velhas crenças religiosas, uma vez que não funcionavam mais para eles na
vida adulta, e começaram a procurar novas tradições religiosas (o “caminho da
exploração”). São também comuns aqueles que se distanciaram da religião por
um período e depois encontraram seu caminho de volta para a mesma tradição
em seus próprios termos, reincorporando uma fé mais adulta que funciona para
eles (o “caminho do retorno”).
Em cada um dos casos, o relacionamento com Deus também mudará. Como
o jesuíta espanhol Carlos Vallés escreveu em seu livro Sketches of God: “Se você
sempre imaginar Deus da mesma maneira, por mais verdadeira e bonita que ela
seja, nunca poderá receber o presente das novas maneiras que Ele tem para
você.”

Ficar em silêncio

Está pronto para o silêncio em sua vida espiritual? Às vezes Deus parece
distante e nada parece estar acontecendo na sua vida cotidiana ou em sua vida
de oração.
As cartas e os diários de Madre Teresa, compilados por Brian Kolodiejchuk e
publicados no livro Venha, seja minha luz, falam de sua dolorosa “noite escura”
– um longo período de oração quando parecia que Deus estava ausente – e
lembram às pessoas que o silêncio é comum, mesmo na vida dos santos. Muitos
ficaram espantados e até escandalizados por ela ter afirmado que algumas vezes
não sentia a presença de Deus em suas orações. Alguns críticos seculares até
mencionaram suas descrições do silêncio como sinal de que a fé de Madre
Teresa estava vacilante. Ou de que Deus não existe.
Mas o silêncio faz parte de qualquer relacionamento. Pense nas vezes em que
um casal é separado pela distância física. Ou nas longas viagens de carro ao lado
de um amigo. Seu companheiro tem que falar o tempo todo? Pense em duas
pessoas apaixonadas caminhando abraçadas na beira do mar sem dizerem uma
palavra. Algumas vezes o silêncio pode ser doloroso e confuso entre amigos,
mas, outras, um silêncio amigável é confortador.
Irmã Maddy, minha amiga da casa de retiro em Gloucester, observou outra
semelhança entre o silêncio na oração e o silêncio na amizade. “Muitas vezes
fico bastante tempo sem saber dos meus amigos”, disse ela. “Mas, sabendo deles
ou não, sei que ainda são meus amigos. E acontece da mesma forma na oração.
Sentindo ou não a presença de Deus, eu sei que Ele está aqui.”
Quando eu era noviço, o silêncio na oração me enlouquecia. Um dia eu disse
para David Donovan:
– Isso é ridículo! Nada acontece na minha oração. É um desperdício de
tempo.
– O que você quer dizer com isso? – perguntou ele.
– Bem, eu me sento para orar e nada acontece. Apenas me sento com Deus
por uma hora. É uma perda de tempo.
– Perda de tempo? – perguntou David, surpreso. – Estar com Deus é uma
perda de tempo?
Eu também tive que rir. Nunca é uma perda de tempo estar na presença de
Deus, mesmo que se sinta que não tem muita coisa acontecendo.
É possível desfrutar da companhia de alguém mesmo sem palavras. Como
Margaret Silf escreveu em uma carta para mim, é possível ficar em silêncio
juntos, acreditando que silêncio não significa que Deus o abandonou. E você
pode simplesmente se alegrar por estar na presença Dele.
Outro modo de enxergar isso vem de Aristóteles, que acreditava que nos
tornamos o objeto de nossa contemplação. Você já conheceu algum casal idoso
em que parece que cada um absorveu as características do outro? Eles partilham
os mesmos interesses, concluem as frases um do outro e às vezes ficam até bem
parecidos. O mesmo acontece com Deus: quanto mais tempo você passa com
Ele, mesmo que em completo silêncio, quando parece que nada está
acontecendo, mais você cresce, porque ficar na presença de Deus é sempre
transformador. Pense em Moisés descendo do Monte Sinai com seu rosto
brilhando. “Passar um bom tempo com Deus”, que é uma das definições de
oração prediletas de David, mesmo com períodos silenciosos, não é de forma
alguma uma perda de tempo.
Mas há outro motivo para o silêncio incomodar tanto na oração: nós não
valorizamos mais o silêncio.
Equipamentos eletrônicos – como iPods, BlackBerrys, celulares, notebooks e
a própria televisão – criaram um mundo de estímulos permanentes. Essas coisas
podem ser boas, úteis e divertidas. Por que não ter nossas músicas favoritas
prontas para entrar em ação quando estamos presos num engarrafamento? Por
que não ter a televisão, o rádio e a internet para se manter atualizado com o
mundo ao redor?
Outro dia, uma executiva do cinema me ligou do celular em seu carro para
perguntar sobre uma trilha sonora que ela pretendia usar em um filme sobre a
Igreja Católica. Quais seriam os hinos católicos mais apropriados para seu
filme? Quando comecei a dar algumas sugestões, ela me interrompeu: “Espere,
preciso mandar isso por mensagem para uma pessoa enquanto conversamos.”
Confuso, eu quis confirmar: “Você está dirigindo, falando ao celular e enviando
mensagens de texto, tudo ao mesmo tempo?”
Estamos perdendo de vista a arte do silêncio. De caminhar pelas ruas
concentrados em nossos pensamentos. De fechar a porta do quarto e
simplesmente nos aquietarmos. De sentar no banco do parque e contemplar.
Evitamos o silêncio porque tememos que nele possamos ouvir nossos lugares
mais profundos. Podemos estar com medo de ouvir aquela voz “suave e
tranquila”. O que ela pode nos dizer?
Ela pode nos pedir mudanças?
Você pode ter que se desconectar para poder se conectar – desligando-se do
mundo tagarela e barulhento para se conectar com o silêncio em que Deus fala
de uma maneira diferente. Não podemos mudar este mundo barulhento, mas
podemos nos desconectar dele com alguma frequência para dar a nós mesmos o
presente do silêncio.
Ficar em silêncio é um dos melhores meios de se ouvir Deus, não porque Ele
não esteja nos falando durante o dia barulhento, mas porque no silêncio é mais
fácil ouvir nosso coração. Voltando à analogia da amizade, algumas vezes é
preciso ficar silencioso e escutar muito cuidadosamente o que nosso amigo está
tentando dizer. Como a minha irmã costuma dizer a seus filhos: “Nós temos
dois ouvidos e uma boca por uma razão: escutar é mais importante do que
falar.”
Se o seu ambiente (externo e interno) é muito barulhento, pode ficar difícil
ouvir o que Deus, seu amigo, está tentando dizer.
As novas maneiras que Deus tem preparadas

Ainda que a amizade seja uma tremenda analogia para o relacionamento com
Deus, ela não é perfeita. Como já mencionei, nenhum de nossos amigos criou o
universo. E Deus, ao contrário de qualquer outro amigo, sempre permanece
constante. Como Richard Leonard escreve em seu livro Preaching to the
Converted: “Se você se sente distante de Deus, adivinhe quem se afastou de
quem.”
No entanto, usar a rica descoberta do Padre Barry – pensar na oração como se
fosse uma amizade pessoal – pode ajudar a esclarecer nosso relacionamento
com Deus. Se você está insatisfeito com seu relacionamento com Deus, pense
nele em termos de uma amizade e analise de que forma pode estar
negligenciando essa amizade e como pode alimentá-la.
Esse modelo também pode tornar a vida espiritual menos assustadora. Ele
ajuda a tornar o relacionamento com Deus mais compreensível, como algo que
pode ser incorporado em nossa vida, em vez de alguma coisa reservada apenas
aos santos e aos místicos.
Até mesmo o progresso da vida espiritual se assemelha ao de um
relacionamento. No começo de muitas relações, como mencionei, há sempre
um período de empolgação. Tudo o que se quer é ficar o maior tempo possível
com o outro. Mas o relacionamento tem que se deslocar desse nível superficial
para um patamar mais profundo e mais complexo. Ele terá que confrontar
situações que você não poderia ter imaginado quando se apaixonou. Haverá
altos e baixos, períodos de silêncio, momentos de frustração. Assim como em
qualquer amizade.
Nosso relacionamento com Deus mudará ao longo da vida: às vezes isso
acontecerá naturalmente e parecerá fértil e estimulante; outras vezes, parecerá
difícil, quase um fardo, rendendo pouco em termos de “resultados”. Mas o
importante – como em qualquer amizade – é se manter nele e, por fim, vir a
conhecer e amá-Lo mais profundamente. E permitir que Ele venha a conhecer
você e amá-lo mais profundamente.
Capítulo 7

Deus o encontra onde você está


Tradições inacianas de oração

N os três capítulos anteriores vimos como uma oração como o exame de


consciência pode nos ajudar a identificar Deus em nossas vidas e como
podemos ouvi-Lo na oração e na vida cotidiana. No entanto, há muitas outras
tradições de oração além do exame. Então, entre elas, qual a melhor maneira de
orar?

Deus olha para mim e eu olho para Ele

A resposta é: aquela em que você se sentir mais à vontade. Deus o encontra


onde você está. Nenhuma forma de oração é melhor do que outra, assim como
não há uma maneira de se estar com um amigo que seja melhor do que outra. O
que for melhor para você é que vai funcionar.
Aqui vai uma história que David gostava de contar sobre ele mesmo, sobre
classificar formas de oração como “melhores” ou “piores”.
Em um final de semana, depois de ter retornado de sua missão como diretor
espiritual num seminário em Ohio, David foi visitar a mãe, uma senhora
irlandesa, nas cercanias de Boston. Ele reparou que ela estava rezando com seu
terço, uma antiga tradição católica. O terço é um colar de contas de tamanhos
variados, organizado em cinco grupos de 10. As pequenas são para rezar as ave-
marias e as maiores são para rezar os pai-nossos. No terço também há
acontecimentos diferentes das vidas de Jesus e Maria sobre os quais devemos
meditar enquanto se reza cada conjunto de 10.
As origens do terço remontam à Idade Média: mulheres e homens leigos o
usavam para orar junto com as comunidades monásticas próximas, que
recitavam os 150 salmos ao longo do ano. Como Sally Cunnen escreve em um
livro de ensaios chamado Awake My Soul: “Quando a maioria dos cristãos era
analfabeta e os livros, entre eles a Bíblia, eram exclusividade dos mosteiros, um
terço de contas ou sementes representava um meio simples para os fiéis
católicos reviverem a sua ligação sentimental com os acontecimentos do
Evangelho quando rezavam a oração que Jesus ensinou e também repetiam as
palavras de Gabriel e Isabel para Maria”, que é a oração da ave-maria.
Após sua experiência como diretor espiritual, David sentiu que esse “modo
simples” de oração que sua mãe apreciava era, na verdade, simples demais.
Então resolveu ensinar a ela um pouco da “oração verdadeira”, como ele definiu.
– Por que a senhora reza o terço? – perguntou ele.
– David, sempre rezei dessa forma – respondeu ela.
– Mas qual a razão?
– Bem, eu gosto.
Sentindo que não estava avançando muito, David decidiu que investigaria a
experiência limitada de sua mãe com a oração e lhe ensinaria uma maneira
melhor de orar. Então ele voltou a perguntar:
– O que acontece quando a senhora reza o terço?
– Eu me acalmo. Eu olho para Deus e Deus olha para mim.
David disse que, ao ouvir isso, percebeu que estava errado ao prejulgar as
experiências espirituais de sua mãe. Quem sabe o que está acontecendo no
íntimo de outra pessoa? Ele reconheceu o perigo de privilegiar um modo de se
relacionar com Deus em detrimento de outro. Como escreveu Santo Inácio: “É
perigoso fazer todos seguirem pela mesma estrada.”
David também percebeu que, apesar de toda a capacitação pela qual ele
passara, a mãe provavelmente tinha um relacionamento mais profundo com
Deus do que ele.
Ele costumava contar essa história para me lembrar de que não há uma
maneira certa de orar, mas pode haver um método particular de oração que nos
deixe mais à vontade.
Por isso, vamos conversar sobre alguns modos de orar que são considerados
parte da tradição inaciana. No final do capítulo discorrerei mais amplamente
sobre outros modos, mas os métodos seguintes estão mais estreitamente ligados
à espiritualidade inaciana.
À medida que for lendo, repare por qual deles você se sente mais atraído.
Talvez Deus o esteja chamando, por meio dessa atração, para experimentá-lo.
Talvez em alguma dessas práticas Deus possa olhar para você e você possa olhar
para Ele.
Contemplação inaciana

Você se lembra daqueles cinco hipotéticos jesuítas que mencionei no


primeiro capítulo? Os que nos deram quatro definições da espiritualidade
inaciana? Bem, se você pedir que eles descrevam as tradições inacianas de
oração, é possível que todos comecem pela “contemplação inaciana”.
Toda oração é contemplativa. Mas, aqui, estou usando o termo para falar de
certo tipo de oração que também é conhecida pelos nomes de “contemplação”,
“oração contemplativa” e “oração imaginativa”. Embora Inácio não tenha
inventado essa oração, ele a popularizou, chamando-a de “composição da cena”
e reservando-lhe lugar de destaque nos seus exercícios espirituais.
Na contemplação inaciana, a pessoa “compõe a cena” ao se imaginar em um
cenário da Bíblia, ou na presença de Deus, e depois fazendo parte dele. É um
modo de permitir que Deus nos fale por meio de nossa imaginação.
Essa foi uma das maneiras favoritas de Inácio para ajudar as pessoas a
começarem um relacionamento com Deus. E ela foi criada a partir de sua
própria experiência com a oração. Embora Inácio tenha sido um excelente
pensador analítico (ainda que provavelmente ele não se visse como um
intelectual), o atributo mental que norteou sua vida espiritual foi sua
extraordinária imaginação.
Quando ouvi sobre esse método pela primeira vez no noviciado, não o levei a
sério. Usar a imaginação? Fazer as coisas tomarem forma em sua cabeça? Tudo o
que imaginarmos significa que é Deus falando conosco?
Em uma de minhas primeiras conversas com David expus minhas dúvidas e
até meu desapontamento sobre a “contemplação inaciana”. Enquanto escutava,
ele começou a sorrir e de repente falou:
– Você acredita que Deus pode lhe falar por meio de seu relacionamento com
outra pessoa?
– É claro – respondi.
– Através da leitura da Bíblia e por meio dos sacramentos?
– Sim, acredito.
– Por meio de suas experiências diárias, de seus desejos e emoções?
– Sem dúvida.
– Você acredita que Deus pode se comunicar por meio do que você vê todos
os dias, e pelo que ouve, sente e, até, cheira?
– É claro!
– Então por que Deus não poderia falar com você por meio da sua
imaginação?
Aquilo fazia sentido. “Leve a sério a sua imaginação”, me disse David. “Ela
também não é um presente de Deus, assim como seu intelecto e sua memória?
Portanto, se ela é um presente, por que não pode ser usada para se comunicar
com Deus?”
Isso também fazia sentido. Usar minha imaginação para gerar imagens não
era tão difícil quanto acreditar que a imaginação poderia me conduzir até
Aquele que a criou: o próprio Deus. Isso não significa que tudo o que
imaginamos durante uma oração vem de Deus. Mas quer dizer que, de vez em
quando, Ele pode usar nossa imaginação como um meio de comunicação
conosco.
Então, como realizar a contemplação inaciana? Bem, é nesse ponto que nos
voltamos diretamente para os exercícios espirituais em busca de ajuda.

Imaginando o cenário
Primeiro, selecione uma passagem bíblica da qual você goste muito. Para
aqueles que praticam com o livro Exercícios Espirituais, é o trecho bíblico
assinalado para o dia. Por exemplo, na Segunda Semana dos exercícios, você
segue Jesus por seu ministério: pregando, viajando, curando os enfermos,
perdoando os pecadores, acolhendo os proscritos, e daí por diante.
Uma de minhas cenas preferidas da Segunda Semana é a tempestade no mar,
que aparece em alguns Evangelhos. Ela costuma ser benéfica para todos aqueles
que estão enfrentando grandes lutas na vida.
Na versão da tempestade no Evangelho de Lucas (8 22:25), os discípulos estão
no barco com Jesus quando começa uma súbita tormenta. “O barco se encheu
de água e eles corriam perigo”, descreve Lucas. O pavor toma conta da
embarcação, eles avisam a Jesus, que está dormindo, que estão quase
naufragando. “Mestre, Mestre, estamos perecendo!”, gritam eles em meio à fúria
do vento. Jesus acorda e “repreende” o vento e a chuva, acalmando a tormenta
com a sua palavra. Em seguida, se volta para eles e pergunta: “Onde está a fé de
vocês?”
Os discípulos ficam admirados. “Quem é esse que até os ventos e as ondas lhe
obedecem?”
Inácio convida você a entrar nessa passagem pela “composição da cena”,
imaginando-se dentro da história com tantos detalhes quantos possa reunir.
Nosso ponto de partida são os cinco sentidos.
Depois de pedir a ajuda de Deus em oração, você deve perguntar a si próprio:
O que eu vejo? Supondo que você esteja se imaginando no barco, tente se ver
com alguns dos discípulos à sua volta, todos vocês aconchegados na pequena
embarcação de madeira.
Há muito a imaginar quando se trata de sua “visão imaginativa”. Com que o
barco pode se parecer? Você pode ter visto as fotos de um barco pesqueiro a vela
da época de Jesus que foi recuperado no mar da Galileia em 1986. É uma grande
embarcação de madeira com tábuas colocadas como assentos desconfortáveis.
Ao vermos isso, podemos imaginar aquele barco lotado de discípulos, coisa que
talvez nunca tivéssemos pensado antes. Por sinal, não é preciso ser um
especialista em cultura antiga ou um arqueólogo para fazer esse tipo de oração.
Com que a cena vista de fora do barco parece? Parte do receio de se navegar
na tempestade é não saber o que acontecerá a seguir, se um raio atingirá o
mastro, se o mar violento complicará a travessia ou se uma onda inesperada
virará a embarcação. E à noite é difícil ver as ondas, a não ser quando elas são
iluminadas pelo brilho dos relâmpagos. Com apenas um de seus cinco sentidos
– a visão –, é possível começar a experimentar um pouco do medo que os
discípulos devem ter sentido.
Depois imagine ver Jesus dormindo no barco. Mesmo algo tão simples
quanto observá-lo dormindo pode levá-lo a elaborar novas perguntas sobre
Jesus. Por exemplo, você pode perceber que o fato de ele estar dormindo não
demonstra falta de zelo por seus amigos nem ignorância dos perigos daquela
travessia, mas simplesmente fadiga após um longo dia de atividades. Jesus levava
uma vida ativa, é fácil enxergar, com pessoas sempre clamando por sua atenção
e seus cuidados. Como ele poderia não estar cansado?
Nosso entendimento do medo dos discípulos agora se soma à compaixão de
Jesus pela humanidade, e à constatação de que ele, apesar de tudo, tinha um
corpo físico que se cansava.
Uma coisa é ler o Evangelho e ouvir simplesmente que “Jesus dormia”. Outra
coisa é compor a cena com os olhos de sua mente. Você pode receber novos
insights sobre a humanidade de Jesus, percebendo além da leitura do livro ou da
escuta da pregação.
Em seguida, pergunte a si mesmo: O que eu ouço? Você pode imaginar não
apenas o uivo do vento e o estrondo dos trovões, mas também o barulho das
ondas se chocando contra o barco. Talvez imagine a água inundando o assoalho
e os equipamentos de pesca chacoalhando na proa enquanto o barco é jogado de
um lado para outro. Talvez você ouça os gritos dos discípulos. Estarão eles
ressentidos com a indiferença de Jesus? Em meio ao som da ventania e das
ondas você escuta alguns resmungos? Os protestos ficam mais altos à medida
que a situação se agrava? Eles gritam mais alto que o trovão? E nossas
reclamações a Deus são parecidas durante as tempestades de nossa própria vida?

Dos Exercícios Espirituais


Neste trecho Santo Inácio está usando a composição ao imaginar a cena da
Natividade. Observe as perguntas que ele faz e repare que ele não nos diz
exatamente o que imaginar, deixando isso a cargo da nossa imaginação, na
qual Inácio acredita que Deus influa.

Imagine a estrada de Nazaré para Belém. Considere seu comprimento e


sua largura, se ela é calma ou se venta pelos vales e montanhas. Da mesma
forma, contemple a gruta da Natividade. Ela é grande ou pequena? Baixa
ou alta? E como está mobiliada?

Com a sua visão e audição imaginativas, você começa agora a entrar mais
inteiramente na cena bíblica. Mas ainda restam outros sentidos para explorar.
Que cheiros você sente? Junto com a água do mar se chocando contra o barco
de pesca, você sente cheiro de... peixe! Provavelmente, naquele espaço apinhado
de homens rudes e suados será possível sentir o odor de corpos rançosos e talvez
até algum fedor.
Nenhum desses exercícios imaginativos requer que visualizemos algo de mau
gosto ou bizarro. Tudo o que Inácio sugere é que você tente imaginar – da
melhor maneira que puder – com que as coisas se parecem. Também devemos
confiar que, uma vez que tentamos compor uma cena para encontrar Deus, Ele
nos ajudará nessa tarefa.
Você ainda tem dois sentidos à disposição. O tato é um deles. O que você
sente? Está usando roupas simples? Talvez o tecido arranhe a sua pele. Se está
sentado em um barco durante uma tormenta, provavelmente está encharcado e
sentindo frio, além de estar exausto por ter se movimentado com Jesus pela
Galileia durante todo o dia.
Por fim, o que você saboreia? Para esse tipo de cena, esse sentido não tem
muita importância. Mas, para outras, como momentos em que Jesus e os
discípulos estão comendo e bebendo – como nas bodas de Caná e na Última
Ceia –, o paladar é fundamental. Porém, mesmo aqui no barco, é possível
imaginar o sabor da água salgada que é lançada do mar.
Agora que você usou seus sentidos e compôs a cena, o cenário está completo.
Nesse ponto, você pode deixar a cena fluir livre em sua mente.
Mas não se trata apenas de assistir. Como o jesuíta Joseph A. Tetlow escreve
em Making Choices in Christ: “Você não apenas imagina o acontecimento como
se estivesse assistindo a um filme. Você entra na cena, revelando-a aos poucos
como se fizesse parte dela.”
Deixe a história se desenrolar em sua imaginação com o mínimo de
julgamento possível da sua parte. Permita-se ser atraído por aquilo que lhe
parecer mais inusitado ou interessante. Por exemplo, se você se concentrar nos
discípulos mais do que em Jesus, tente não julgar isso inadequado ou errado.
Enquanto estiver em meditação, permita que Deus o dirija através de sua
imaginação.

Preste atenção!
Em seguida, tome nota do que aconteceu dentro de você enquanto esteve
envolvido na experiência. Como qualquer tipo de oração, há muitas coisas que
podem ser reveladas: insights, emoções, desejos, lembranças, sentimentos.
Deus deseja se comunicar conosco o tempo todo, e quando intencionalmente
nos tornamos receptivos à Sua voz podemos escutá-la com mais clareza. É quase
o mesmo que dizer a um amigo: “Você tem a minha completa atenção.” A
contemplação inaciana nos prepara para ouvir a voz de Deus mais facilmente e a
reconhecer coisas que de outra maneira podiam passar despercebidas.
Tornando-nos receptivos
Embora a intenção de Inácio fosse a de ajudar as pessoas a penetrarem nos
acontecimentos da vida de Cristo, a contemplação inaciana pode ser usada
por todas as tradições religiosas para ajudar a apreciar o que o jesuíta John
J. English define como “eventos sacros”.
Na contemplação inaciana, construímos o hábito de mergulhar nos
eventos sacros significantes. Depois de alguma prática inicial, aprendemos
como permanecer na cena e nas suas ações, a relaxar na presença dos que
falam e se movimentam nela, e a nos abrirmos sem reservas ao que
acontece, a ponto de sermos profundamente impactados pelo significado
misterioso daquele evento.

Os insights, por exemplo, são comuns na contemplação inaciana. Toda vez


que um deles ocorrer durante sua oração, alguma coisa que é claramente nova,
resultado da sua oração, preste atenção.
Vamos supor, por exemplo, que você perceba como os discípulos estavam
assombrados, não só pela tempestade, mas por algo mais surpreendente: a
demonstração do poder de Jesus. Seus milagres podiam ter sido assustadores
para esse bando de galileus. Embora você já possa ter ouvido essa história
dezenas de vezes, talvez perceba de uma maneira nova que assistir ao seu amigo
aquietar o mar e o vento é impressionante, assombroso, excitante – e assustador.
Você acabou de ter um vislumbre da vida dos discípulos: pode ter sido
assustador andar com Jesus. Talvez você já tenha ouvido o termo “temor de
Deus”. Essa é uma reação bastante natural. “Quem é esse que até os ventos e as
ondas lhe obedecem?”, exclamam quando tudo termina. Pela primeira vez você
sente não apenas a surpresa por trás dessa exclamação, mas também o medo. E
então você imagina se eles conversaram sobre essa reação com Jesus. O que ele
teria respondido?
A experiência poderia prosseguir tanto quanto durasse o insight. Se você tiver
uma compreensão mais profunda da Bíblia, isso ajudará a aprofundar sua fé.
Mas quase sempre esse entendimento nos leva a um insight a respeito de nossa
própria vida. Isso pode levá-lo a perguntar: Onde eu tenho medo de Deus? Há
lugares onde você viu sinais da presença de Deus, mas teve medo de admitir
porque tem medo do poder de Deus. Algumas vezes é assustador pensar sobre
Ele manifestando um interesse pessoal por nossa vida. É o medo que o impede
de aceitar um relacionamento mais profundo com Deus?
Uma reação mais emocional também é bastante comum na oração
contemplativa, o que pode ser surpreendente e esclarecedor. O modo mais fácil
de explicar isso é contando o que aconteceu comigo quando eu orava em torno
dessa passagem bíblica.

Inundado!
Eu viajava pela Califórnia para fazer os exercícios espirituais pela primeira vez
desde que passara pelo noviciado, mais de 20 anos antes. Fazia parte do último
estágio de minha formação como jesuíta.
Em algum encontro, durante a Segunda Semana, exatamente aquele trecho
surgiu. Para ser sincero, eu pensei: A tempestade no mar? Já estive lá, já orei
sobre isso. Eu não conseguia imaginar nada de novo no horizonte. Mas o Deus
das Surpresas tinha outros planos.
Quando orei sobre a tempestade no mar, não houve insight nenhum, poucos
desejos, pouca emoção, lembranças tênues e quase nenhuma sensação. Mas eu
sabia que não seria decepcionado. As orações costumam ser desérticas e, pelo
menos na superfície, pouco parece estar acontecendo.
No dia seguinte, voltei para a cena em minha imaginação. Logo que entrei no
barco, uma palavra veio à minha mente: inundado. O barco vinha recebendo
muita água durante a violenta tempestade e estava inundado, com os discípulos
aterrorizados.
Inundado era a palavra que eu usava quase sempre quando queria descrever
minha vida cotidiana para os meus amigos. Eu estava sempre correndo contra o
tempo para fechar um monte de projetos e me sentia inundado. Daí comecei a
pensar numa mudança – estava na hora de procurar um novo emprego ou
mudar a maneira de trabalhar.
Provavelmente você também já se sentiu assim em alguma época de sua vida.
Muitos de nós – pais de filhos pequenos, executivos estressados, professores
apressados, estudantes ocupados, padres atarefados – nos sentimos inundados
pela vida, empurrados para um milhão de direções diferentes. E pensamos: Eu
tenho que mudar meu ritmo de trabalho ou me mudar de onde estou morando.
No dia seguinte, meu diretor me incentivou a voltar à cena. Repetir é uma
parte importante da tradição inaciana de oração. Inácio considerava importante
extrair todos os frutos possíveis de uma oração. Ele escreveu nos Exercícios: “Eu
deveria me deter e orar nos pontos em que senti maior consolo ou aflição.”
Quando retornei à cena, me imaginei em uma praia ensolarada do mar da
Galileia, depois que a tempestade passou. A seguir me imaginei contando a Jesus
como eu me sentia inundado. Sentar na areia da praia e liberar meus
sentimentos foi confortador. Que alívio dividir isso com Jesus.
Então, em minha imaginação, o barco que Jesus tinha salvado começou a
afundar lentamente no mar da Galileia. Senti alívio ao vê-lo desaparecer – como
se todas as minhas ansiedades estivessem naufragando com ele. Talvez eu
estivesse sendo convidado a deixar aquela velha vida desaparecer.
Por vezes, como você já deve ter percebido, essas orações contemplativas vão
além dos limites da cena evangélica e nos levam a lugares inesperados. É claro
que não há nada no Evangelho sobre o barco afundando! Mas não quer dizer
que Deus não possa trabalhar também por meio desse tipo de oração
imaginativa.
Depois eu imaginei nós dois construindo um novo barco, com madeira
novinha e cheirosa. Ao mesmo tempo, eu pensava em rebocar o velho barco do
fundo do mar e consertá-lo. Talvez o antigo precisasse apenas de uma pequena
reforma: um pouco de revestimento e algumas tábuas novas. Talvez a minha
antiga vida só precisasse de uma pequena reforma também.
Na oração, perguntei a Jesus como ele era capaz de dar conta de tudo, como
era capaz de lidar com todas as demandas de sua época. Uma resposta surgiu:
Jesus tratava das coisas quando elas apareciam e confiava que era Deus quem
colocava as situações diante dele, em vez de ficar planejando tudo. Ele também
entendia que era preciso se afastar da multidão de vez em quando.
No fechamento do período de oração, percebi que não importava o barco que
eu escolhesse – o novinho em folha ou o reformado após o naufrágio. Jesus
sempre estaria lá comigo. Não havia nada a temer. Essa descoberta me encheu
de paz. Eu não me sentiria mais inundado porque percebi que tinha uma
escolha na vida. No final, escolhi restaurar o antigo barco.
Nem todas as orações contemplativas são tão ricas. Nem todas levam a
insights e emoções. Talvez seja preciso tentar várias vezes antes de se sentir
como se estivesse dentro da cena. Nos últimos 20 anos gastei muitas horas
lutando em vão para “compor a cena”, com poucos resultados aparentes. O que
não quer dizer que nada estava acontecendo, porque passar tempo com Deus é
sempre transformador. Mas nem todas as orações produzem frutos memoráveis.
Algumas vezes, no entanto, são muito ricas. E compartilhei essa experiência
pessoal não porque fosse importante que eu me sentisse inundado, mas para
demonstrar que mesmo nos trechos mais conhecidos da Bíblia Deus pode
revelar coisas inusitadas se estivermos receptivos a escutá-las.

Lectio divina e o Segundo Método

A segunda forma da oração inaciana é similar à contemplação inaciana. Ela


leva o nome de lectio divina ou meditação.
Lectio divina quer dizer “leitura sagrada”. Assim como a contemplação,
utiliza a Bíblia para levá-lo a uma relação mais profunda com Deus. Ela se apoia
tanto na imaginação quanto no intelecto. Mas a maioria dos tipos de oração se
sobrepõe; então não há problema em combinar aspectos de um com o de outro.
Quando topei pela primeira vez com o termo lectio divina, imaginei velhos
monges confinados em celas silenciosas, virando circunspectamente as páginas
de pergaminho de manuscritos medievais, enquanto a luz do sol atravessava um
vitral, iluminando as palavras que eles liam. Ainda que parecesse romântico,
também parecia bem distante da minha realidade de vida.
Porém, depois que ingressei no noviciado, David me introduziu nessa prática
ancestral de um modo acessível. Monges e freiras reclusos ainda praticam a
lectio divina, mas ela é uma prática acessível até aos mais ocupados e não
monásticos em nosso meio. Ela é, basicamente, a prática de encontrar Deus
através da Bíblia.
Como a contemplação inaciana, embora essa forma de oração não tenha sido
criada por Inácio, ela é muito popular entre os jesuítas. Inácio a chama de o
“Segundo Método” de oração nos Exercícios.
Em vez de explicar como a lectio divina difere da contemplação, vou
apresentar a técnica e você poderá entender algumas das diferenças por si
mesmo.
A maneira mais fácil que encontrei de abordar a lectio foi sugerida pelo meu
professor de Novo Testamento, Daniel Harrington. Ele sugeriu repartir o
processo em quatro etapas.
Antes de começar, é claro, você escolhe um trecho específico da Bíblia como
base de sua oração. Vamos usar aqui a história de Jesus pregando na sinagoga de
Nazaré, como registrado no Evangelho de Lucas (4 16:30).
No começo de seu ministério, Jesus chega à sua cidade natal e entra na
sinagoga para pregar. Ele desenrola o pergaminho da Torá e lê uma passagem
do Livro de Isaías. “O Espírito do Senhor está sobre mim”, diz ele, citando o
profeta. “Ele me enviou para libertar os cativos e dar vista aos cegos.” Então diz
com ousadia para a congregação judaica: “Hoje se cumpriu essa Escritura que
vocês acabaram de ouvir.” No início, os religiosos se maravilharam de um jovem
daquela cidade ser tão letrado.
Mas depois Jesus critica os judeus por sua falta de fé e diz: “Nenhum profeta é
bem recebido em sua própria terra.” Os religiosos, então, se voltam contra ele.
“E, levantando-se, expulsaram-no da cidade e o levaram até o cume do monte”,
de onde pretendiam lançá-lo despenhadeiro abaixo. Sem se abalar, Jesus “passou
por entre eles e retirou-se”.
Como em qualquer oração, nós começamos pedindo ajuda a Deus. Agora
vamos examinar a passagem usando a lectio divina.

1. Leitura
O que diz o texto?
Primeiro, leia a passagem. O que está acontecendo? Isso fica claro com a
maioria das passagens do Antigo e do Novo Testamento. Mas nem sempre.
Verifique o rodapé da sua Bíblia, onde os editores colocam as notas explicativas.
Os comentários bíblicos que dão explicações sobre as palavras pouco
conhecidas, as práticas e as tradições o ajudarão a entender o contexto da leitura
antes de prosseguir.
Numa das edições que tenho da Bíblia, por exemplo, há um comentário sobre
o que Jesus estava fazendo na sinagoga aquele dia. “[Jesus] vive e ministra
dentro de sua tradição. Ele frequenta a sinagoga regularmente e participa, como
é permitido a todos os fiéis do sexo masculino, lendo as Escrituras e
comentando. Ele segue a prática costumeira: levanta-se para ler e senta-se para
comentar.” Agora você sabe que Jesus seguia a prática normal, o que pode
acrescentar à sua oração.
Quando Jesus lê o pergaminho, ele revela a sua identidade e missão a seus
amigos e vizinhos. Deve ter sido chocante para o povo da pequena cidade de
Nazaré ouvir um dos seus dizer: “Hoje se cumpriu essa Escritura que vocês
acabaram de ouvir.” Em outras palavras: “Eu sou o cumprimento dessa
Escritura.”
Inicialmente, a multidão acha seu discurso agradável, mas depois se enraivece
e tenta matá-lo. Não é à toa que essa passagem é, às vezes, chamada de “A
rejeição de Nazaré”.

2. Meditação
O que Deus está me falando por meio do texto?
Pergunte agora se há alguma coisa que Deus quer lhe revelar por meio desse
texto. É nesse ponto que a sua imaginação pode tomar a dianteira, quando você
começar a meditar mais profundamente sobre o texto.
Às vezes, o trecho bíblico pode ter uma relação direta e imediata com alguma
circunstância de sua vida. Por exemplo, onde você se sente chamado para ser
profético, mesmo tendo que enfrentar rejeição? Nesse episódio do Evangelho,
Jesus queria proclamar sua mensagem mesmo suspeitando de que ela causaria
polêmica. Há alguma situação em sua vida que requer uma atitude corajosa
semelhante a essa?
Aqui é onde os vínculos com a nossa vida são importantes. Vamos supor que
estejamos orando sobre essa história e nos venha à mente uma situação
incômoda no trabalho: uma colega no escritório está sendo intencionalmente
maltratada. Nosso desejo é sair em defesa dela, mas isso pode nos prejudicar e
até ameaçar o nosso emprego.
Por que nos lembramos dela durante essa oração específica? Preste atenção!
Essa lembrança enquanto oramos sobre o posicionamento confrontador de
Jesus pode não ser mera coincidência.
Há alguns anos cheguei ao meu retiro anual um tanto confuso. Nas semanas
anteriores eu estivera pensando sobre um assunto controvertido na Igreja e
queria me posicionar, mas estava preocupado com a reação que o meu ponto de
vista provocaria. Durante o retiro, meu diretor espiritual trouxe à tona
exatamente essa história. Quando eu orava sobre essa passagem, reparei a
habilidade de Jesus para falar a verdade e senti um desejo ardente de ser como
ele. Então escrevi em meu diário de oração: “As pessoas na congregação sentiam
coisas diferentes e houve várias reações a Jesus. Alguns ficaram indignados,
outros alegres, e outros, ainda, amedrontados com aquilo. Mas ele falou o que
queria, apesar de tudo!
O texto mostrava a liberdade confiante de Jesus. Pela minha reação à história,
parecia que Deus estava me ungindo com a mesma confiança e liberdade.

3. Oração:
O que você quer dizer para Deus sobre o texto?
Agora é a sua vez de falar com Deus. Como o texto o faz se sentir? Que
perguntas surgem em sua mente? Qual a sua reação? Derrame tudo isso sobre
Deus.
Depois de meditar nessa passagem, é possível que fiquemos temerosos. Tanto
defender a colega de trabalho como preferir salvar a própria pele pode ser
perigoso. Nós podemos nos preocupar, e com razão, em sermos rejeitados como
Jesus foi na sua própria cidade.
Por outro lado, podemos nos sentir encorajados por sua atitude confiante e
concluir que todas as atitudes proféticas provavelmente deixaram os profetas
temerosos. Porém, como aconteceu com Jesus em Nazaré, todos os profetas
agiram, apesar do medo, colocando sua confiança em Deus. Talvez seja um
misto de medo e confiança. É hora de sermos sinceros com Deus sobre nossos
sentimentos.
Durante minha própria oração senti medo de falar o que queria. Ser profético
parece romântico até ter que se enfrentar uma multidão enfurecida. Ou mesmo
uma ou duas pessoas iradas. O que aconteceria se eu me posicionasse? As
pessoas me rejeitariam?
Quanto mais eu orava, mais retornava para a mesma questão: como Jesus foi
capaz de fazer um pronunciamento tão ousado, sabendo que seria rejeitado?
Aos poucos, percebi que não apenas todos naquela sinagoga conheciam Jesus
como ele provavelmente os conhecia. Ou seja, ele sabia da rejeição que iria
enfrentar – da mesma forma que podemos supor como nossos amigos reagirão
se dissermos alguma coisa que os confronte. Logo, Jesus sabia da reação que eles
teriam. No entanto, Jesus foi capaz de falar porque ele era livre, imune a
preocupações sobre aceitação ou rejeição, revestido completamente do que
Inácio chamava de “desapego”.
4. Ação:
O que você quer fazer com base na sua oração?
Finalmente, nós agimos. A oração deve sempre nos conduzir à ação, mesmo
se ela simplesmente nos levar a querer ser mais generosos e fiéis. Entrar em um
relacionamento com Deus nos desafiará, nos tornará mais amorosos e nos
levará a agir.
Agora que já lemos a história de Jesus na sinagoga de Nazaré, que já
perguntamos o que Deus está nos falando por meio dela e que já conversamos
com Deus sobre a nossa reação, é hora de fazer alguma coisa. Talvez resolvamos
ser mais corajosos para nos levantarmos em favor de nossa colega de trabalho.
Ou tomemos a decisão de perdoar alguém que nos magoou bastante. Ou, quem
sabe, cheguemos à conclusão de que é preciso orar mais um pouco. Porém o
importante é que a nossa oração nos leve realmente à ação.
No meu caso, a atração pela liberdade de Jesus me encorajou a falar sobre o
tema. Foi difícil e, como previsto, minha posição deixou algumas pessoas iradas;
porém me senti como se tentasse seguir o exemplo de Jesus. Aquilo me ajudou a
atravessar os dias difíceis e gerou confiança. E no final tudo se apaziguou:
ninguém tentou me lançar despenhadeiro abaixo, literal ou figuradamente.
Esses são os quatro passos da lectio: leitura, meditação, oração e ação.

Outro modo ligeiramente diferente de orar pela lectio divina é enfatizar uma
única palavra ou frase e, como disse Inácio, “temperar” ou “saborear” o texto.
Para pessoas que não se sentem à vontade com imagens em sua oração, esse
método funciona bem, em especial com os salmos.
Nesse método, deve-se ler a passagem bíblica meditativamente, fazendo uma
pausa a cada palavra ou frase que parecer significativa.
Isso era algo que tinha muito valor para Inácio. Em seu Segundo Método de
Oração, ele diz que se deve fazer uma pausa nas palavras e frases “tão logo sejam
encontrados sentidos, comparações, prazeres e consolações relacionados a elas”.
Vamos tomar como exemplo o Salmo 23, que começa com a frase: “O Senhor
é o meu pastor.” Na linha seguinte se lê: “Ele me faz repousar em pastos
verdejantes.” Talvez você se sinta atraído a meditar sobre como seria repousar
nesses “pastos verdejantes”. Se for uma pessoa muito ocupada, você pode
simplesmente descansar em Deus. Talvez tudo o que Ele esteja querendo nessa
oração é lhe dar descanso.
Ou talvez você leia “pastos verdejantes”, se sinta inesperadamente triste e
tente imaginar por quê. Ou pode ser que não esteja conseguindo ver nenhum
pasto verde em sua vida. Você poderia partilhar a sua tristeza com Deus e sentir
uma proximidade renovada com Ele, que sempre quer consolá-lo.
Ou você pode sentir alegria. Essa pode ser a hora de compartilhar com Deus a
sua gratidão pelos “verdes pastos” em sua vida. Ou talvez Ele esteja apenas lhe
pedindo que preste atenção naqueles “pastos verdejantes” que você está
subestimando. Sua oração pode ser, então, de gratidão. Tudo isso com uma
simples frase de um salmo.
Inácio enfatiza a necessidade de relaxar durante a lectio. Não é preciso correr
nem esperar por um resultado estrondoso. Oração não tem a ver com produção.
Encontre o seu tempo. Como Inácio escreve nos Exercícios, precisamos
desacelerar o ritmo:

Se alguém encontrar em uma ou duas palavras material que suscite reflexão, prazer ou consolação, não
deve ficar ansioso para avançar na leitura, mesmo se todo o tempo da oração for consumido no que foi
encontrado.

Preste atenção também a cada frase que o assusta. É possível ler sobre o “vale
da sombra da morte” no mesmo salmo e sentir medo e, por isso, querer passar
rápido por essas palavras ou até se sentir incomodado por elas. Você pode ser
tentado a seguir adiante, mas os locais de resistência podem ser precisamente
aqueles em que Deus quer encontrá-lo. Resistência é outro fruto da oração,
assim como as emoções, os insights e as lembranças.
Em geral, a resistência é um convite a orar ou pensar mais profundamente
sobre aquelas sensações. Por que sinto resistência? Você está sendo convidado a
se libertar daquilo que o impede de experimentar um amor mais profundo da
parte de Deus? Por que tenho medo desses vales escuros? É por que não confia
que Deus tome conta de você? Talvez isso o faça se lembrar de tempos sombrios
do passado em que recebeu ajuda de amigos, familiares ou colegas de trabalho e
enxergue a mão de Deus ali também. A sua atenção à resistência pode levá-lo a
um novo nível de confiança e autoconhecimento.
Essa resistência sempre me faz lembrar de massagem. Tenho uma dor crônica
nas costas e costumo ir ao consultório de uma massoterapeuta. Esse ponto
necessita de atenção especial porque ali é onde está a maior parte da “energia”,
como ela diz. É uma área importante para se prestar atenção.
O mesmo acontece com a oração. Quando nos sentimos relutantes a orar
sobre algum tópico específico, isso pode significar resistência a averiguar
alguma coisa urgente, ou uma situação, ou uma lembrança à qual é necessário
prestar atenção. Talvez Deus o queira consolar, ou então curá-lo de alguma
compulsão ou apego. Nesses momentos, Deus nos dá a chance de pararmos de
resistir e de permitirmos ser curados. E libertos.

Oração centrante e o Terceiro Método

Um pouco de teologia ajudará na nossa discussão da “oração centrante”, que


se tornou popular nos ambientes católicos.
Como dois grandes rios, duas tradições de oração fluem por meio da
espiritualidade cristã. Uma é chamada de “apofática” e a outra de “catafática”. O
termo apofática vem da palavra grega apophatikos, que significa negativo. Esta é
uma abordagem de Deus que se afasta de imagens, palavras, conceitos e
símbolos. Ela dispensa conteúdos. A teologia subjacente é que Deus está além da
nossa compreensão, além de qualquer imagem mental que possamos ter, Ele é
insondável. Então a procura de Deus se dá pelo esvaziamento das noções
preconcebidas do divino.
O jesuíta e professor de teologia Harvey Egan observou que essa tradição tem
raízes tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. No Livro do Êxodo, Deus
habita uma “espessa escuridão” (20:21) e aparece a Moisés como uma “nuvem”
(34:5). Moisés não pode ver a face de Deus quando Ele passa, o que é outra
maneira de expressar a “alteridade” divina. Santo Tomás de Aquino disse que
apenas se pode saber que Deus é, mas não o que Deus é.
A outra corrente é a oração catafática, termo que vem da palavra grega
kataphatikos, que significa “positivo”. Esta tradição busca vivenciar Deus na
criação e faz farto uso de imagens, conceitos, palavras e símbolos na oração. A
oração catafática é mais “rica em conteúdos”. Com ela, podemos começar a
conhecer Deus através de toda a criação.
Esse método também está firmemente enraizado na Bíblia. O Antigo
Testamento afirma que Deus pode ser entendido por meio de suas obras visíveis
– ou seja, do mundo natural. Na teologia cristã, isso é colocado de modo ainda
mais explícito: Deus é conhecido como uma pessoa. Como Jesus diz no
Evangelho de João (14:9): “Quem vê a mim, vê o Pai.” E Tomás de Aquino –
agora argumentando do lado oposto – afirma que, embora Deus seja, em última
instância, impossível de ser conhecido pelos seres humanos, podemos encontrá-
Lo por meio das coisas que são “conhecidas por nós”.
Ao defender os dois lados da questão, Tomás pode até ser acusado de certa
duplicidade. Mas ele está certo em ambos os casos. Deus pode ser conhecido por
meio de suas obras (catafática), mas não inteiramente conhecido (apofática). As
duas abordagens são corretas e ambas têm sido usadas por crentes ao longo de
milênios. Além disso, muitos se veem usando essas duas abordagens diferentes
em épocas distintas de suas vidas.
Você talvez tenha adivinhado para onde estou indo: a contemplação inaciana,
com sua ênfase na imaginação, se encaixa perfeitamente na tradição catafática.
Assim como a lectio divina.
A oração centrante, uma prática que procura encontrar Deus no centro do ser
de cada pessoa sem o uso intencional de imagens, está mais próxima da tradição
que dispensa os conteúdos. O Padre Egan afirmou categoricamente: “A oração
centrante é apofática.”
Consequentemente, a oração centrante não é muito associada à
espiritualidade inaciana. Em vez disso, muitos a aproximam do zen-budismo e
da ioga. Mas há indícios claros de oração centrante nos Exercícios Espirituais.
Em um ponto dos Exercícios Espirituais, Inácio fala sobre o “Terceiro Método
de Oração”, realizado de acordo com medidas rítmicas. Toma-se uma única
palavra – ele sugere alguma palavra do pai-nosso – e concentra-se nela
enquanto se respira, inalando e exalando. “Isso é feito de tal maneira que uma
palavra da oração é dita entre uma respiração e outra”, ensina ele. Essa prática
inaciana é muito parecida com a oração zen, assim como com as orações de
concentração mais contemporâneas.
Porém, antes de avançarmos nas comparações, vamos conversar sobre o que é
a oração centrante (em vez de, apofaticamente, sobre o que ela não é) e como ela
se encaixa no caminho de Inácio.
Os três principais responsáveis por introduzir a oração centrante nos círculos
católicos contemporâneos do mundo de fala inglesa são John Main, M. Basil
Pennington e Thomas Keating.
Main era monge beneditino; Pennington e Keating, monges trapistas, assim
como Thomas Merton. Pennington escreveu que o termo oração centrante foi
inspirado pelo uso de expressões similares nos escritos de Merton.
Pennington e Keating escreveram um livro chamado Finding Grace at the
Center, junto com Thomas E. Clarke. Padre Clarke, ministro sereno e generoso,
escreveu uma introdução concisa ao método:
“Nosso tema é o centro, o local do encontro entre o espírito humano e o
divino Espírito, e o lugar em que o cristão em oração encontra a completa
realidade, divina e humana, pessoas e coisas, tempo e espaço, natureza e
história, mal e bem.”
Quando li essas palavras pela primeira vez, pensei: Quem pode fazer isso? Mas
o ponto de Padre Clarke é simples. A oração centrante é um movimento em
direção ao nosso centro, onde encontramos Deus. Mas não é uma contemplação
do próprio umbigo nem é apenas sobre Deus e você, pois qualquer encontro
com Ele o levará ao restante da criação.
Essa estrutura simples pode parecer suspeita para muita gente. No início, eu
suspeitava mais da oração centrante do que da oração imaginativa. Se a
contemplação inaciana parecia ridícula, encontrar Deus dentro de mim parecia
arrogante. Quem sou eu para afirmar que Ele mora em mim? Alguns cristãos
acham a oração centrante suspeita porque ela está “perigosamente” próxima do
zen-budismo e das práticas orientais (o conceito equivocado de que cristãos não
têm nada a aprender com as espiritualidades orientais foi uma grande fonte de
decepção para Thomas Merton).
Porém quanto mais eu lia sobre a oração centrante, mais tolas as minhas
objeções pareciam, pois a ideia de Deus morando dentro de nós é uma crença
cristã constitutiva. Por um lado, a maioria dos crentes reconhece a consciência
como a voz de Deus dentro de nós. Por outro, várias declarações de que Deus
habita em nós aparecem no Novo Testamento e na Igreja primitiva. O apóstolo
Paulo chega a dizer que o nosso corpo é “templo do Espírito Santo” e lugar onde
Deus habita. Santo Agostinho escreveu que Deus é intimior intimo meo: está
mais próximo de mim do que eu estou de mim mesmo.
A oração centrante nos leva para o nosso centro, onde Deus habita esperando
para nos encontrar.

Três passos
O ensaio do Padre Pennington em Finding God at the Center divide a oração
centrante em três passos:

Um: No começo da oração reservamos um ou dois minutos para nos aquietarmos e depois nos
dirigimos em fé e amor para Deus, que mora em nossas profundezas. No final da oração, destinamos
vários minutos a voltar, orando mentalmente o pai-nosso.

“A fé”, assinala o Padre Pennington, “é fundamental para esta oração, assim


como para todas as outras.” Ao se mover para o centro, você confia que está se
movendo na direção de Deus, que está mais próximo de mim do que eu estou de
mim mesmo.

Dois: Depois de descansar um pouco na presença em fé cheia de amor, escolhemos uma única palavra
que expresse a nossa resposta e começamos a repeti-la dentro de nós.

Ou seja, você encontra um mantra, ou palavra de oração, tal como “amor”,


“misericórdia” ou “Deus”, para ajudá-lo a manter o foco. Não se concentre no
significado da palavra. Ao contrário, deixe que ela o ancore na presença de
Deus. Como o autor anônimo de The Cloud of Unknowing diz: “É melhor
quando esta palavra é totalmente interior sem um pensamento definido ou som
audível.”

Três: Durante a oração, toda vez que nós tomamos consciência de qualquer outra coisa, retornamos
suavemente à palavra de oração.

Distrações são inevitáveis na oração. Até Inácio as menciona. (“Eu fui


perturbado por alguém assobiando”, escreveu ele certa vez, “mas não me
desconcentrei muito.”) A palavra de oração (o mantra) nos reconduz
suavemente à presença de Deus.
Na teoria, a oração centrante é simples. Na prática, ela pode ser difícil para os
iniciantes, principalmente se a sua vida está repleta de “conteúdos”. A ideia de
que é possível encontrar Deus sem “fazer” nada pode parecer exótica. Mas a
oração centrante não é sobre produzir, fazer ou conquistar. É sobre ser. Ou
melhor: sobre estar com.
Como diz Margaret Silf: “No olho do furacão há um centro de perfeita paz,
onde nossos desejos mais profundos são acolhidos pelo próprio desejo de Deus
por nós.” Ou, para usar a analogia da amizade do Padre Barry, a oração
centrante é como uma longa caminhada em silêncio com um bom amigo.
Embora não estejamos falando um com o outro, um tipo de comunicação mais
profundo pode estar acontecendo.

O colóquio

No capítulo 6 abordamos a proposta de “falar” com Deus imaginando Ele ou


Jesus à nossa frente. Para mim, essa sempre foi uma maneira difícil de orar. Mas
para Inácio era uma parte essencial dos exercícios espirituais: ele queria que
conhecêssemos Deus e Jesus. A conversa – ou “o colóquio”, como denominou
ele – é uma maneira de fazer isso. Para muitas pessoas que percorrem o
caminho de Inácio, essa é a forma mais prazerosa de rezar.
No fim da maioria das meditações nos exercícios espirituais, Inácio
recomenda que nós nos imaginemos falando com Maria, Jesus e Deus Pai. Em
um momento, durante a Primeira Semana, Inácio pede que falemos com Jesus
na cruz e que perguntemos a nós mesmos: O que eu tenho feito para Cristo? O
que eu devia fazer para Cristo?
Às vezes essa oração funciona maravilhosamente bem para mim. Em um
retiro, por exemplo, me imaginei diante de Jesus e perguntei a mim mesmo: “O
que eu estou fazendo para Cristo?”, e comecei a ficar com raiva. Esse sentimento
era um sinal claro de que algo não estava indo bem. “Eu estou fazendo até
demais!”, bradei para Jesus em oração e então listei todos os projetos
desnecessários que eu deveria ter recusado. E senti Jesus me dizendo: “Eu não
estou lhe pedindo que faça tudo isso.”
A maior parte dos colóquios nos exercícios espirituais não está ligada a
perguntas específicas como O que eu estou fazendo para Cristo?. Com
frequência, na Segunda Semana, quando estamos refletindo sobre o ministério e
os milagres de Jesus, um diretor de retiro pedirá que nos imaginemos
conversando com Jesus, ou com um dos discípulos, a fim de revisar o que
aconteceu durante a oração. Inácio recomenda que nos imaginemos
conversando com Deus da mesma forma que “um amigo conversa com outro”.
Colóquios podem ser simples. Uma irmã católica que participou de um retiro
que dirigi passou quatro dias sentada em um banco imaginando Jesus sentado
ao seu lado, enquanto ela lhe contava o que estava pensando. “Nós dois tivemos
uma grande tarde!”, disse ela.
O que você escuta na oração precisa se harmonizar com as suas crenças
religiosas, com o seu entendimento de Deus e com o que você já conhece a
respeito de si mesmo. Dessa forma, você estará capacitado para discernir melhor
o que parece genuinamente vir de Deus.

Outras formas de oração

Não quero deixá-lo com a impressão de que as formas de oração que


abordamos são as únicas por meio das quais os jesuítas oram, ou os únicos
métodos na tradição inaciana, ou, ainda, os únicos métodos recomendados por
outros santos, teólogos ou escritores de livros sobre espiritualidade.
A oração comunal, por exemplo, pode acontecer em qualquer grupo em que
os participantes estejam focados em Deus. Para os católicos, isso inclui a
recitação do Ofício Diário, como praticado pelas comunidades monásticas e
outros grupos; recitações do terço; e a adoração par excellence: a celebração da
missa, chamada de “a fonte e o ápice” da vida da Igreja.
Outras denominações cristãs se reúnem para cultos dominicais nos quais a
leitura da Bíblia, os cantos de louvor e a pregação aproximam a congregação de
Deus. Para os judeus, o shabbat de sexta-feira à noite recorda sua aliança com
Deus e seus compromissos com a comunidade. Para os muçulmanos, o
chamado para oração cinco vezes ao dia, que normalmente é feita de forma
privada, mas muitas vezes em grupo, lembra seu pacto com Alá, o Guia, o
Restaurador, o Generoso.
Às vezes é fácil esquecer que Deus nos encontra em grupos, e não somente
quando oramos sozinhos. Um jovem jesuíta me disse recentemente: “Ontem
aconteceu comigo a coisa mais inusitada. Eu me senti tocado por Deus de tal
forma na missa que quase cheguei às lágrimas.” Nós dois rimos muito dessa
tendência de subestimar a adoração em grupo como um meio de produzir
comunhão íntima com o Criador. A oração comunal é tanto uma ocasião para o
“Criador tratar diretamente com a criatura”, como diz Inácio, quanto a oração
individual.
As orações decoradas, como o pai-nosso e a ave-maria, o rosário e o terço, o
Shema judaico (“Ouve, ó Israel, o Senhor é o nosso Deus...), e também os
salmos, quando rezados, são úteis para o crente de diversas maneiras. Uma delas
é fornecer uma plataforma pronta que pode ser útil quando for difícil encontrar
palavras para orar. Cristãos que oram o pai-nosso (ou a oração do Senhor)
sabem que são palavras que foram dadas à Igreja por Jesus. Ela tem sido
chamada de “a oração perfeita”, passando de louvor para esperança, para
petição e para perdão. Uma outra razão é que as orações decoradas nos
conectam com fiéis do mundo todo. As fórmulas decoradas também podem
ajudar seus praticantes a se esquecerem na oração. Como a mãe de David disse
sobre o terço, ele a ajudava a olhar para Deus e a ser vista por Ele.
É recomendável anotar em cadernos ou diários as experiências de oração e da
vida espiritual. Esse método ajuda a registrar e estudar as experiências que de
outro modo poderiam ser subestimadas como “apenas alguma coisa que
aconteceu” ou simplesmente relegadas ao esquecimento, como é mais comum.
Algo na natureza humana trabalha contra lembrar os frutos da oração – pois, se
nos lembrássemos de tudo o que ouvimos na oração, teríamos que mudar, e
uma parte de nós foge disso.
Dorothy Day, a cofundadora do Movimento de Agentes Sociais Católicos,
manteve por quase 50 anos um diário espiritual, que depois foi publicado como
The Duty of Delight. Ela apontou outro benefício dessa prática: “É sempre bom
registrar nossos problemas para que, ao lê-los mais tarde, possamos ver que eles
se foram.”
No seu livro Birth: A Guide for Prayer, Jacqueline Syrup Bergan e Marie
Schwan fazem distinção entre manter um diário de oração e a escrita meditativa,
em que a escrita por si mesma é uma oração.
Praticar a escrita meditativa é como “escrever uma carta para alguém que se
ama”, dizem elas. As autoras apresentam três maneiras de fazer isso: escrever
uma carta para Deus; escrever uma conversa imaginada entre você e Deus;
escrever uma resposta para uma pergunta do tipo “O que o Senhor quer que eu
lhe faça?” e depois escrever a resposta na voz de Deus. A escrita meditativa é útil
para aqueles que têm dificuldade em se concentrar na oração: ela pode livrar a
mente das distrações e deixar Deus falar por meio do simples ato de escrever.
Oração da natureza é o meu termo para encontrar Deus nos campos, nas
matas, nos jardins ou quintais. É curtir o céu à noite, caminhar na areia da praia
ou participar de expedições para admirar pássaros raros, o tempo todo
encontrando a presença divina. Essa pode ser uma maneira poderosa de se
conectar com Deus, algo que eu descobri quando uma mulher me desafiou com
seu estilo de oração durante um retiro que eu dirigia.

De cada coisa pequena


Pedro Ribadaneira, um dos primeiros jesuítas, escreveu sobre a capacidade
de seu amigo Inácio para encontrar Deus na natureza:

Com frequência o víamos examinando coisas pequenas para elevar sua


mente até Deus, que é grande mesmo nas mínimas coisas. Ao ver uma
planta, uma folha, uma flor, qualquer tipo de fruta, ao considerar um
pequeno inseto ou qualquer outro animal, ele se elevava aos céus e
mergulhava nos mais profundos pensamentos, e de cada pequena coisa
extraía sabedoria e os conselhos mais úteis para o aprendizado da vida
espiritual.

“Como foi a sua oração ontem?”, perguntei a uma irmã no retiro. “Bem,
passei um longo tempo abraçando uma árvore.” Ao ouvir a resposta dela, tive
que conter o riso. Ela estava brincando?
“Enquanto abraçava a árvore, me senti ligada à terra e à beleza da criação de
Deus”, prosseguiu ela. “Envolver o tronco da árvore me fez sentir enraizada,
conectada à terra de um jeito que nunca senti antes. E lá estava eu agarrada a
uma criatura viva, que me lembrava de que Deus está permanentemente
criando.” Os comentários dela mudaram a minha maneira de ver esse tipo de
oração.
Minha vida corrida em Nova York me oferece poucas oportunidades para
admirar a natureza. A vista de minha janela é um conjunto de muros de tijolos
com uma réstia de céu azul, visível apenas quando estico o pescoço. Por isso,
valorizo qualquer ocasião ao ar livre. Certa vez, fui a Gloucester, em
Massachusetts, para dirigir um retiro de fim de semana com a irmã Maddy. A
casa de retiro jesuíta fica espetacularmente situada a apenas alguns metros do
oceano Atlântico. E bem próximo da casa há um grande lago de água cristalina.
Para mim, esse é um dos lugares mais bonitos que já conheci.
Naquela sexta-feira, entretanto, cheguei tarde da noite, depois de uma série
infindável de metrôs e trens que me transportaram de Nova York para Boston e
de lá até Gloucester. Com isso, não pude ver nada da natureza encantadora da
casa de retiro.
Mas, na manhã seguinte, quando pus os pés lá fora e contemplei aquele
outono ensolarado, a vista quase me tirou o fôlego. Perto da casa de retiro havia
algumas árvores muito altas com folhas vermelhas e alaranjadas que se agitavam
à brisa fresca. Acima de mim estava a abóbada de um céu azul brilhante.
Quando caminhei por trás da casa, vi barcos de pesca ancorados na baía,
flutuando no lindo mar azul. E, embora o ar estivesse tomado pelo som de
gaivotas, patos e melros, um silêncio enchia a minha alma.
As cores, os cheiros e até os sons pareciam meios de Deus me alegrar, me
acalmar e me consolar.
Os participantes do retiro disseram o mesmo e perguntei a um dos presentes:
– Como você está vivenciando Deus neste fim de semana?
– Em tudo isso! – respondeu ele, fazendo um aceno na direção da janela.
Em uma conversa naquela tarde, irmã Maddy contou a história de sua
sobrinha, que certa vez ficou sobre as rochas contemplando o Atlântico e
respirando fundo.
Maddy se aproximou e lhe perguntou na ocasião:
– O que você está fazendo?
– Tentando aspirar tudo isso para levar para casa – respondeu a jovem.
O uso inaciano da imaginação pode nos ajudar na oração da natureza. Inácio
costumava admirar as estrelas do terraço da moradia dos jesuítas em Roma.
Sempre que estou em alguma praia, uso o mar como a imagem de um Deus que
carrega minhas preocupações. Em cada onda que avança pela areia e depois
recua imagino meus receios e ansiedades sendo levados pelo mar, para serem
recebidos por Deus.
A música é outra maneira de orar. “Quem canta bem ora duas vezes”, disse
Santo Agostinho. Pergunte a qualquer membro de um coral ou a um cantor de
igreja que já se sentiu tocado por Deus durante uma celebração. Ou pergunte a
um monge ou a uma freira que cantou os salmos por anos a fio até que não
somente as palavras, mas também a melodia, se tornaram meios de se expressar
para Deus. Algumas vezes, por meio da música conseguimos expressar o que
sentimos até melhor do que pelas palavras. Ultimamente, quando sinto
dificuldade para orar e as palavras não me vêm facilmente, uso uma gravação
dos salmos cantada pelo coral de um mosteiro.
Olivier Messiaen, um compositor do século XX, disse certa vez que a música
serve para a humanidade como um cabo que a conecta ao inefável. Quando
perguntado se um ouvinte precisava passar por uma experiência espiritual para
apreciar sua música, Messiaen respondeu: “Não precisa. Mas seria uma enorme
satisfação para mim, como compositor, se alguém tivesse uma experiência
espiritual por ter ouvido a minha música.”
O trabalho pode ser uma oração, se feito de forma contemplativa. “Mãos à
obra, corações em Deus”, os membros da seita Shakers costumavam dizer. Às
vezes, quando estou lavando louça, passando roupa ou preparando o altar para a
missa, me sinto envolvido espiritualmente por estar fazendo pequenas coisas
com amor.
Mas precisamos ter cuidado. Jesuítas muito atarefados dizem de vez em
quando: “Meu trabalho é minha oração.” Isso deve significar que o nosso
trabalho nos leva a Deus. Ou pode ser uma desculpa para não orar de verdade.
Ou pode indicar que não estamos fazendo nenhuma das duas coisas de coração.

Deus se comunica conosco de várias maneiras. Mas a oração é um momento


especial em que a voz de Deus é ouvida com mais clareza porque estamos dando
a Ele a devida atenção. Seja na contemplação inaciana, na lectio divina, no
colóquio, no exame ou em qualquer outra prática, a voz “tranquila e suave”
pode ser ouvida com uma clareza capaz de encantá-lo, abismá-lo e surpreendê-
lo.
Então, quando você orar, da forma que for, e sentir que Deus está lhe falando,
preste atenção.
Capítulo 8

Vida simples
A liberdade surpreendente do movimento de descida

A gora já falamos o suficiente sobre oração. Não quero que você pense que o
caminho de Inácio se resume a horas e horas de oração. Lembre-se de que um
dos ideais de Inácio era a contemplação em ação.
Então, depois dessa maratona de oração, vamos conversar sobre como o
caminho de Inácio afetará a sua vida ativa, a sua caminhada por esta existência.
Começaremos com três conceitos que estão no cerne da visão inaciana que
provocam terror no coração de muitos leitores. Pobreza, castidade e obediência.
Seria difícil achar três palavras mais ameaçadoras.
Todo mundo quer evitar a pobreza, não é? Quem quer ser pobre? Todo
mundo não quer ser o mais próspero possível? Trabalhe duro e viva bem, certo?
Essa é a força propulsora do capitalismo – a ideologia de Adam Smith de que, ao
perseguirmos a livre-iniciativa, o bem comum pode ser atendido. A ética de
trabalho protestante e a crença de que Deus abençoará os que trabalham
diligentemente com prosperidade financeira fazem parte da cultura americana.
A pobreza não só é uma coisa a ser evitada como é motivo de vergonha.
Pobreza voluntária, portanto, é algo que soa absurdo para a maioria das
pessoas.
E a castidade? Quem não quer sexo? Sexo é um componente de uma vida
emocional saudável para a maioria dos adultos. No entanto, vivemos em uma
cultura em que tudo parece girar em torno do sexo: televisão, anúncios de
revista, música, filmes e internet. Não é preciso ser puritano para reconhecer
que vivemos em uma sociedade hipersexualizada. Nesse contexto, falar de
castidade parece uma piada. Ou apenas doença.
A obediência parece quase tão “ridícula” quanto a castidade. Em uma
sociedade em que as pessoas se orgulham, com razão, da liberdade de fazer, falar
e ser quem desejam ser, a obediência é vista como controle da mente ou, pior,
como uma forma de escravidão. Como Kathleen Norris, autora de The Cloister
Walk, escreveu, a obediência é vista por muitas pessoas como “uma boa
qualidade para os cachorros, mas quando se trata de seres humanos ela é vista
de modo suspeito”. Por que deixaríamos alguém nos dizer o que fazer, o que
falar e o que pensar?
Em uma sociedade que venera dinheiro, sexo e liberdade, uma vida religiosa
de pobreza, castidade e obediência não apenas é irrelevante, mas uma ameaça –
à economia, à estrutura social, ao nosso sistema político e ao bem-estar do
indivíduo. Todas as três deveriam ser repudiadas com contundência, e até
combatidas, por qualquer adulto saudável. Certo?
Bem, nem tão rápido.
Porque essas são precisamente as virtudes que Santo Inácio de Loyola e os
primeiros jesuítas desejaram abraçar na forma de voto perpétuo para Deus.
Por que ele teria feito isso? Por que os jesuítas de hoje ainda fazem?

Por quê?

Inácio não inventou a ideia de pobreza, castidade e obediência. A “vida


devotada” já era uma tradição estabelecida das ordens religiosas católicas como
os beneditinos, dominicanos e franciscanos séculos antes do nascimento de
Inácio. Todos os padres e bispos católicos devem viver com simplicidade, mas,
tecnicamente, somente os membros das ordens religiosas fazem voto formal de
pobreza.
E por que fazem isso? Vou expor duas razões, uma teológica e outra logística.
A razão teológica é que os membros de ordens religiosas estão tentando
imitar Jesus de Nazaré. Embora tenha nascido provavelmente em uma família
de classe média baixa, ele passou a vida adulta como um homem pobre. (“O
Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça”, diz Jesus no Evangelho de
Lucas 9:58).
Pobreza.
Embora pudesse ter se casado, Jesus escolheu não se unir por matrimônio a
ninguém. Há muitas razões para acreditar nessa afirmação, e a principal é: os
escritores do Evangelho mencionam quase todos os membros da família de
Jesus. (“Sua mãe e seus irmãos estão lá fora e querem vê-lo”, lhe diz alguém em
Marcos 3:32). Logo, não mencionar a sua esposa, se ele tivesse uma, seria
indesculpável.
Castidade.
E, embora Jesus pudesse ter feito o que quisesse, ele era obediente à vontade
de seu Pai, mesmo quando isso o levou à cruz. (“Não se faça a minha vontade, e
sim a Tua”, diz Jesus em uma oração registrada em Lucas 22:42).
Obediência.
Jesus era pobre, casto e obediente. É por isso que os membros de ordens
religiosas fazem esses votos: eles procuram imitar Cristo.
A outra razão é mais logística. Os três votos ajudam a vida diária de uma
comunidade religiosa. Pobreza significa que não possuímos nada de nós
mesmos mas temos tudo em comum. Isso torna a vida em comunidade mais
simples e estimula a unidade. Castidade implica que não somos casados, por
isso podemos dedicar mais tempo àqueles a quem ministramos. Obediência
significa que uma pessoa é sempre responsável pelo andamento das coisas, o que
proporciona limites claros de autoridade. Cada um desses votos ajuda no
funcionamento da comunidade.
Neste ponto, aposto que você está pensando: Grandes coisas! Ou talvez: E daí?
Ou até mesmo: Talvez eu devesse pular este capítulo! Você pode estar pensando:
Não faço parte de ordem religiosa e não pretendo viver na pobreza, em castidade
ou em obediência. O que esses detalhes da vida jesuíta podem me ensinar?
Mais do que você imagina. Nos próximos capítulos, trataremos de cada uma
dessas ideias ameaçadoras e de como elas podem ajudá-lo a ter uma vida mais
feliz.

Motivo de grande alegria

Anthony de Mello foi um padre jesuíta indiano conhecido por seus insights
espirituais e, principalmente, por suas histórias e parábolas. Autor de muitos
livros sobre vida espiritual, ele era um conferencista muito requisitado nos
ambientes católicos.
Algumas das parábolas de Mello foram extraídas da cultura indiana, outras
foram criadas por ele mesmo, e outras, ainda, são uma espécie de mistura. Eis
uma sobre um sannyasi (homem sábio) que ilustra a visão de Mello sobre
riqueza e pobreza. Como muitas de suas histórias, ela tem sua inspiração nas
espiritualidades orientais, porém é muito inaciana. Chama-se “O diamante”.
Um sannyasi chegou aos arredores de uma aldeia e se acomodava debaixo de uma árvore para passar a
noite quando um aldeão veio correndo em sua direção e disse:
– A pedra! A pedra! Me dê a pedra preciosa!
– Que pedra? – perguntou o sannyasi.
– Na noite passada, Shiva me apareceu em sonho e disse que se eu fosse aos arredores da aldeia ao
anoitecer encontraria um sannyasi que me daria uma pedra preciosa que me faria rico para sempre.
O sannyasi remexeu em sua trouxa e apanhou uma pedra:
– Talvez Shiva estivesse falando desta aqui – disse ele, estendendo a pedra para o aldeão. – Eu a
encontrei numa floresta há alguns dias. Você pode ficar com ela.
Quando viu a pedra, o homem ficou em delírio. Era um diamante, sem dúvida. Talvez o maior do
mundo, pois era tão grande quanto a cabeça de uma pessoa.
Ele agarrou o diamante e foi embora. Durante toda a noite ele rolou na cama sem conseguir dormir.
No dia seguinte, ao nascer do sol, ele voltou para onde estava o sannyasi, acordou o homem santo e
disse: “Me dê a riqueza que permitiu que você me desse aquele diamante tão facilmente.”

A pobreza é um mistério para mim, mas não da maneira que você pode estar
pensando.
O mistério é por que mais pessoas não escolhem viver com mais
simplicidade. Não estou sugerindo que alguém venda tudo o que possui,
dependa da caridade de outras pessoas para se alimentar, deixe o cabelo e as
unhas crescerem e vá morar numa caverna, como Inácio fez logo após sua
conversão. Ao contrário, como a parábola de Mello sugere, não ser controlado
pelas posses é um passo importante para a liberdade espiritual, o tipo de
liberdade que a maioria das pessoas afirma querer.
A pobreza permitiu a Inácio seguir o “Cristo pobre” dos Evangelhos, para se
libertar de embaraços desnecessários e se identificar com os pobres a quem Jesus
de Nazaré amava. Como tal, a pobreza é uma fonte de contentamento. Em uma
carta de 1547 aos jesuítas de Pádua, na Itália, que se debatiam com a exigência
do voto, Inácio escreveu que a pobreza “é motivo de grande alegria para aquele
que a recebe voluntariamente”. Essa verdade surpreendente foi algo que
descobri no início de minha vida jesuíta.

O jovem rico

Depois do oitavo dia de retiro no Campion Center – quando pensei em Jesus


como um amigo –, perguntei aos jesuítas se eu poderia ingressar no noviciado
naquele mesmo verão. Sabiamente, eles me aconselharam a esperar um ano,
para que eu desenvolvesse minha experiência de oração e conhecesse mais a
Companhia de Jesus. Impaciente, pedi que reconsiderassem meu pedido. Por
fim, eles concordaram em me deixar começar o processo, alertando que isso
significava que eu teria pouco tempo para deixar meu emprego, sair do
apartamento e me preparar para ingressar na ordem em 28 de agosto. Então
embarquei em um longo processo: participar de várias entrevistas de avaliação,
me submeter a infindáveis testes psicológicos, escrever longas redações, resgatar
meu registro de batismo, e daí por diante.
Em 15 de agosto, o diretor de vocações me ligou para dizer que minha
admissão havia sido aceita. “É isso que eles querem dizer com receber o
chamado?”, perguntou minha irmã com sarcasmo.
Logo depois, muito embora isso não seja recomendado, comecei a distribuir
os meus bens. A maioria dos jesuítas espera até fazer os votos no final do
noviciado para se desfazer de suas posses.
Meus pais ficaram com minhas economias e meu carro. Meus ternos ficariam
na casa de meus pais, caso o noviciado não desse certo. Mas eu nem contava
com isso. O restante de minhas roupas foi para o Exército da Salvação, que
distribuiria tudo entre os pobres. Meus livros foram dados aos amigos que
apareceram lá em casa numa tarde para vasculhar minhas estantes.
Quando escrevo sobre isso hoje, consigo me lembrar da explosão de
felicidade que me atingiu. Como foi libertador! Eu não precisava mais me
preocupar se meus ternos estavam na moda, se meus sapatos eram de uma
marca valorizada, se minhas gravatas acompanhavam a evolução do design. Não
precisava mais perder horas pensando se deveria alugar ou comprar um
apartamento.
Na missa dominical, alguns meses antes, a leitura do Evangelho havia sido
sobre o encontro de Jesus com o “jovem rico” que lhe perguntou o que era
preciso para entrar no céu. A inclusão dessa história nos Evangelhos de Mateus,
Marcos e Lucas ressalta a sua importância para os cristãos primitivos. Quando
Jesus diz para ele cumprir os Dez Mandamentos, o rapaz responde, no
Evangelho de Lucas: “Tudo isso tenho observado desde a minha mocidade.”
(18:21) Jesus pôde ver que ele era um bom hebreu. O Evangelho de Marcos diz
que Jesus “fitando-o, o amou”.
“Só uma coisa te falta”, disse Jesus, em Lucas. “Vai, vende tudo o que tens, dá
aos pobres e terás um tesouro no céu; então vem e segue-me.”
Mas Lucas escreve que o jovem rico “se entristeceu”. Ele não queria abrir mão
de seus bens. O Evangelho de Marcos é mais contundente. “Quando ouviu isso,
ele ficou contrariado e retirou-se triste, porque era dono de muitas
propriedades.”
Essa passagem é interpretada, algumas vezes, como se dissesse que a única
maneira de ir para o céu é vendendo tudo o que se possui. De fato, Jesus disse,
em Marcos: “Como é difícil para os que têm riquezas entrar no reino de Deus!”
Logo, esse é um trecho da Bíblia muito desagradável para muita gente. Um
amigo meu disse certa vez que odiava essa história. Ele achava que Jesus estava
fazendo uma exigência descabida. “Quem pode fazer isso?”, perguntou ele.
Mas, no meu entendimento, Jesus não está afirmando que alguém deve se
privar de tudo o que possui para se tornar uma boa pessoa. Como São Tomás de
Aquino observou: “A posse de alguns bens é importante para que se tenha uma
vida bem ordenada.” Todo mundo fora dos mosteiros e das ordens religiosas
precisa de alguns bens para viver.
Além da ênfase numa vida simples, Jesus está mostrando o que estava
impedindo aquele jovem de chegar mais perto de Deus. Ele estava ressaltando o
que Inácio chamaria de “apego desequilibrado” daquele homem. Para outra
pessoa, Jesus poderia ter dito: “Abra mão de seu status.” Para outra, ainda:
“Desista de sua ambição de sucesso.” Jesus não estava apenas convidando o
rapaz para uma vida simples; ele estava identificando uma falta de liberdade e
dizendo: “Livre-se de tudo o que o impede de seguir Deus.”
Quando transformei minha vida naquele verão, me senti com o coração leve.
Na ocasião, como você pode até dizer, havia algum orgulho espiritual envolvido
naquele ato. Mas a alegria tinha menos a ver com orgulho e mais com a
sensação recém-descoberta de estar menos sobrecarregado e mais receptivo a
Deus.
É claro que eu tive que levar alguns pertences para o noviciado. No dia
seguinte, o diretor dos noviços me ligou com uma lista de itens que eu deveria
levar: roupas e cuecas para dois anos de uso, uma camisa clerical de cor preta,
calças pretas, sapatos pretos e alguns livros do meu agrado. Então seria mentira
dizer que abri mão de tudo.
Mas o noviciado me trouxe um estilo de vida infinitamente mais simples do
que aquele que eu estava vivendo. É semelhante ao que se costuma sentir
quando se sai de férias com apenas uma mala pequena. Ficamos surpresos de
como podemos viver com tão pouco. Nós pensamos: Por que não posso viver
assim o tempo todo?
Pouca gente pode, ou quer, viver como os membros de uma ordem religiosa.
Você talvez precise ter muitas roupas, uma boa moradia e um carro para ir ao
trabalho. Se tiver filhos, precisará ainda de mais coisas para poder cuidar deles e
suprir as necessidades. A questão não é que você precise dar tudo o que tem. No
entanto, quanto mais você parar de comprar coisas de que não precisa, e quanto
mais se livrar de itens que não usa, mais fácil será simplificar a sua vida. E
quanto mais simplificá-la, mais livre você se sentirá e será.
Há algumas razões para isso.
Primeiro, as posses custam não apenas dinheiro, mas tempo. Pense no tempo
que você perde preocupando-se com o que vai vestir. Você tem que planejar,
procurar a roupa, comprá-la, lavá-la, ajustá-la ao corpo, guardá-la, vesti-la e
colocá-la de volta no lugar. O mesmo acontece com sua casa, seu carro, móveis,
televisões, ferramentas, computadores e outros equipamentos eletrônicos.
Quanto menos você resolver comprar, mais tempo terá para as coisas que têm
mais importância.
A segunda razão é menos óbvia. Nossa cultura consumista trabalha com
comparações. Quando eu trabalhava na General Electric, os funcionários
ouviam sempre que as roupas eram um aspecto importante da vida profissional.
“Vista-se de acordo com o emprego que você tem”, meu gerente dizia. “Gaste
uma semana de seu salário com sapatos”, me dizia um amigo. “Nunca use uma
gravata estampada com uma camisa que não seja lisa”, dizia uma consultora do
seminário anual Vestidos para o Sucesso.
Assim é também com o tempo gasto comprando carros, apartamentos,
móveis e aparelhos de uso pessoal. Quanto menos comprarmos, menos
gastaremos nosso tempo comparando nossos bens com os do vizinho.
Quando visitei minha irmã e sua família recentemente, eu usava uma velha
camisa xadrez de manga curta. O meu sobrinho, na ocasião com 9 anos, me
disse: “Tio Jim, há 20 anos essa camisa já estava fora de moda!” Eu ri e perguntei
onde ele aprendera essa expressão. Ele disse ter ouvido em um desenho
animado. Os hábitos consumistas são incutidos muito cedo.
Em terceiro lugar, quanto mais coisas a indústria produz, mais iremos querer,
ou ser estimulados a querer, e mais infelizes seremos. Em seu livro The Progress
Paradox, Gregg Easterbrook resume isso muito bem: “Já que há cada vez mais
bens materiais disponíveis que não conseguem nos fazer felizes, a abundância
material pode até produzir um efeito perverso de infelicidade ansiosa – porque
nunca será possível possuir tudo o que a tecnologia produz.” A libertação da
necessidade de ter sempre mais significa que, paradoxalmente, podemos ser
mais felizes.

Competição exaustiva
John Kavanaugh, um teólogo comportamental jesuíta que escreve sobre o
tema da cultura consumista, diz isto sobre o seu impacto corrosivo em
nossas vidas, sobretudo nas famílias, em seu livro Following Christ in a
Consumer Society:

Em conversas com pais e seus filhos sobre o problema do estresse e da


fragmentação da família, não identifico nenhuma força tão persuasiva, tão
poderosa e tão sedutora quanto a ideologia consumista do capitalismo e
sua fascinação pelo acúmulo desmedido, pelas horas de trabalho
prolongadas, o estímulo de novas necessidades a serem satisfeitas, as
compras a distância, a comparação econômica, o desejo de legitimidade
por meio do dinheiro e das posses e a competição exaustiva em todos os
níveis da vida.

A escada

Uma das melhores análises sucintas do mundo consumista em que vivemos é


um artigo de Dean Brackley publicado no periódico Studies in the Spirituality of
Jesuits em 1988. Foi um dos primeiros textos que li no noviciado. Padre
Brackley era um dos poucos credenciados a escrever sobre esse tópico, tendo
vivido e trabalhado com os pobres de um gueto no Bronx, em Nova York.
Poucos anos depois, ele se mudaria para El Salvador para substituir os padres
jesuítas que haviam sido assassinados por lutarem em favor dos pobres naquele
país.
Seu artigo foi chamado de “Movimento de descida”, um termo do padre,
psicólogo e escritor holandês Henri Nouwen. Brackley compara o caminho do
mundo, que pode ser resumido como “movimento de subida”, com a visão de
Inácio nos Exercícios Espirituais, que nos convida a praticar o desapego e a
liberdade.
Esse impulso para ter, esse esforço permanente em direção ao “movimento de
subida”, é motivado inicialmente por um sentimento saudável: nossos desejos.
Todos nós temos um desejo natural por Deus. Mas, como Brackley assinala, a
cultura consumista nos diz que podemos satisfazê-lo por meio do dinheiro, do
status e da posse de bens materiais. Parece loucura? Pense nos comerciais de TV
que prometem a felicidade se você apenas comprar uma item a mais.
Como funciona esse processo? A seguir, veja um resumo dos 12 passos de
Brackley, com alguns comentários meus.

1. A cultura consumista é primordialmente individualista, com as pessoas


privilegiando as metas particulares em relação às coletivas. Em um ambiente
competitivo, é cada um por si.
Isso não significa que as metas individuais sejam negativas em si. A busca
individual é a base do sistema capitalista, considerado o sistema econômico
mais eficiente para a produção e distribuição de bens. O perigo, entretanto, é
concentrar o interesse somente no seu próprio bem-estar, sem nenhuma
preocupação com o que acontece fora de sua família, de seu círculo de amigos
ou da comunidade local.
2. As pessoas são tentadas a aliviar sentimentos de insegurança com o
movimento de ter ou consumir. Nós tentamos preencher nosso vazio com
coisas, em vez de preenchê-lo com Deus ou com relacionamentos amorosos.
Sem isso, a indústria da propaganda iria à falência: ela existe para fomentar o
desejo por coisas.
3. Esse individualismo e consumismo levam à escada como o modelo
dominante para a sociedade – com algumas pessoas em lugares mais elevados
que as outras. Algumas estão no alto e outras embaixo.
4. Os indivíduos mostram seu status por meio de símbolos sociais
mutuamente aceitos: posição profissional, posses, títulos e similares. O valor de
alguém depende de sua riqueza ou situação profissional.
Por isso, conversar sobre salário talvez seja o maior tabu no ambiente social: é
a maneira mais objetiva de classificar as pessoas e a maneira principal de medir
nosso valor na sociedade. Descobrir os rendimentos de alguém nos faz enxergar
instantaneamente tal pessoa sob certa ótica. Se a outra pessoa ganha menos que
você, você pode vê-la como inferior. Se ela ganha mais, você pode invejá-la e
passar a se ver como inferior. Muitos tópicos de conversa são bem-vindos entre
amigos – tais como problemas familiares, enfermidades, morte –, mas salário é
um tabu, pelo seu poder inerente.
5. Gradualmente, essas medidas de comparação são interiorizadas. Passamos
a nos avaliar por nosso trabalho, nossa renda e por aquilo que “produzimos”.
Agora somos todos chamados a agir, a fazer e a trabalhar. Mas quando nos
julgamos somente por essas medidas nos tornamos um “humano funcional”, em
vez de um “ser humano”.
E, se você não estiver no alto ou se movendo para o alto da escada, você se
sente inferior aos outros. Por seu desejo de pertencer à sociedade, a ascensão na
escada se torna a coisa mais urgente.
6. No topo da escada está a figura mítica – a celebridade, o milionário, o
modelo. No degrau mais baixo está o “perdedor” – o desempregado, o
refugiado, o sem-teto.
Fica mais fácil, portanto, ignorar os pobres. Eles são uma ameaça implícita
para o sistema, uma vez que nos lembram que a escada não funciona com
perfeição. Nós pensamos: E se fosse eu? Esse pensamento sinistro confere mais
urgência à escalada para cada vez mais longe dos “perdedores”.
7. Sob essas regras, a competição se torna a força condutora da vida social. A
sua segurança não é aumentada, mas ameaçada pelo sucesso dos outros. Como o
escritor americano Gore Vidal escreveu certa vez: “Não é suficiente que eu
vença. Os outros precisam fracassar.”
8. A segurança de alguém depende da subida. Como Brackley observa, nem
toda intenção de movimento de subida é arrogante ou desejosa de poder. Mas
até os generosos são obrigados a se confrontar com os perigos e os riscos da
escada. Você pode acabar não perguntando “Isso está certo?”, mas, sim, “Isso é o
melhor para mim?”.
9. O modelo social, portanto, não é simplesmente uma escada, mas uma
pirâmide, na qual grupos inteiros se unem contra as ameaças de cima ou de
baixo. Divisões são formadas não apenas entre pessoas, mas entre grupos.
10. Nem todos podem chegar ao topo. Logo, os que estão no topo trabalham
para se manter na sua posição e para manter os que estão embaixo nos seus
lugares. O poder é exercido geralmente para manter os grupos mais baixos
dependentes, desorganizados ou na ignorância.
11. Classe social, raça, gênero, orientação sexual, educação, aparência física e
outros fatores explícitos ajudam a definir a pirâmide, o que leva a mais divisões.
12. Finalmente, a competição entre os grupos não gera confiança nem
cooperação, mas medo, desconfiança e, eu acrescentaria, solidão.

Você pode não concordar com todos esses fatores. Mas, de maneira geral, o
modelo de Brackley descreve bem o universo consumista no qual muitos de nós
vivemos.
A pressão constante para o movimento de subida, a fim de manter a posição,
consome tempo e energia. Então por que não colocar pelo menos um pouco
disso de lado e ficar livre? Foi o que Inácio quis dizer quando afirmou que a
pobreza, um tipo de estilo de vida simples, um movimento de descida, deixando
de lado alguns dos valores descritos anteriormente, é motivo de grande alegria
para aqueles que a abraçam. Vida com simplicidade não é um castigo, mas um
movimento em direção a maior liberdade. Portanto, vamos ver o que o caminho
de Inácio tem a nos ensinar sobre viver com simplicidade.

Simplicidade sensível

Inácio começa assim sua abordagem da pobreza nas Constituições: “A


pobreza, como a muralha forte da prática religiosa, deveria ser amada e
preservada na sua integralidade, na medida em que isso é possível com a graça
de Deus.” Ela é fundamental.
O ponto de vista de Inácio sobre a vida simples foi forjado por sua própria
experiência. Depois de se converter, ele depositou sua armadura de cavaleiro
diante de uma estátua de Maria e se despojou, tanto quanto possível, de seus
bens terrenos no mosteiro beneditino de Montserrat.
Na véspera da festa de Nossa Senhora, em uma noite de março, no ano de 1522, ele se dirigiu
secretamente a um mendigo e, se despindo de suas vestimentas, ele as deu para o mendigo. Depois ele
se cobriu com outro traje e foi se ajoelhar diante do altar de Nossa Senhora.

Essa é uma resposta de coração inteiro ao convite de Jesus para o jovem rico
nos Evangelhos. Para Inácio, essa era uma maneira explícita de seguir Cristo. A
sua resposta tomou como modelo a prática de outras ordens religiosas,
principalmente a fundada por seu herói espiritual, São Francisco de Assis.
Como John O’Malley observa em The First Jesuits: “A influência dos
franciscanos sobre ele, direta ou indiretamente, em nenhum outro lugar é mais
palpável do que na sua ênfase em abrir mão dos bens materiais.”
Pouco depois, em uma cena comovente, um homem corre até Inácio para
contar o que acontecera com aquele mendigo:

Quando ele se dirigia para uma sociedade em Montserrat, um homem que corria atrás dele o alcançou e
perguntou se ele tinha dado algumas roupas para um mendigo, como o homem dissera. Respondendo
que sim, as lágrimas escorreram de seus olhos por compaixão daquele a quem dera as roupas –
compaixão porque o pobre homem havia sido maltratado por acharem que ele as havia roubado.

Em seguida, Inácio passou quase um ano em reclusão na aldeia de Manresa,


onde orava, mendigava por comida e jejuava. A pobreza dele era extrema.

Inácio mendigava por alimento todos os dias. Não comia carne nem bebia vinho, ainda que lhe fossem
oferecidos... Porque havia sido muito vaidoso em cuidar de seu cabelo de acordo com a moda da época
– e o seu cabelo era muito bonito –, ele decidiu deixá-lo crescer livremente, sem penteá-lo ou cortá-lo.

Inácio até resolveu seguir o exemplo de um santo, de nome desconhecido,


que passou vários dias sem se alimentar para conseguir uma bênção específica
de Deus. Inácio faz isso e chega a um limite extremo, em que morreria se não se
alimentasse. Ele fica prostrado e com tendências quase suicidas.
Aos poucos, ele vai percebendo que tamanho rigor não apenas coloca a sua
saúde em risco como também o impede de realizar o trabalho que queria fazer.
A experiência pessoal de Inácio muito cedo o convence de que um
entendimento muito severo da pobreza verdadeira atrapalhava suas tentativas
de ajudar as almas, e mais tarde, ele e seus colegas da Companhia de Jesus viram
ainda mais claramente a impraticabilidade de tal entendimento para a
instituição que estavam fundando.
Anos mais tarde, por exemplo, Inácio insistiu em que os jesuítas em
treinamento cuidassem adequadamente da saúde para que pudessem ser
capazes de levar adiante a sua obra. “Uma preocupação adequada com a
preservação da saúde e com o fortalecimento do corpo para o serviço divino”,
escreveu nas Constituições, “é digna de louvor e deveria ser exercida por todos.”
Essa é a razão de a opção inaciana pela vida simples ter sido tão útil para tanta
gente. Ela não pede que você fique seminu, subnutrido e morando em uma
caverna como um eremita. Ela apenas o convida a viver com simplicidade. Ela é
uma simplicidade sensível. Um ascetismo equilibrado. Uma pobreza saudável.
Para Inácio, a pobreza não era um fim em si mesmo. Ela era, primeiro, um
meio de se identificar com o “Cristo pobre”; segundo, um meio de nos libertar
para servir a Deus mais facilmente; e, terceiro, um meio de identificação com os
pobres, a quem Jesus amava. No geral, a pobreza era “apostólica” e tornava
Inácio mais disponível para a obra de Deus.
Tudo isso combinado faz da pobreza um fator decisivo na sua espiritualidade
e, em última análise, uma potência geradora de vida para ele e seus seguidores.
Como o jesuíta e diretor espiritual belga André de Jaer observou em seu livro
Together for Mission: “Começar com uma busca por atos de ascetismo pode
rapidamente nos conduzir ao desejo de colocar nossa completa confiança
somente em Deus. Quando Inácio começou a elaborar os Exercícios Espirituais,
ele se apoiou na sua própria experiência para escrever o que podia ser útil para
os outros.”

Riquezas, elogios E soberba

O outro motivo para Inácio valorizar a pobreza é que ele percebeu a maneira
sutil com que a subida da escada pode nos levar para longe de Deus.
Na Segunda Semana dos Exercícios Espirituais aparece uma das imagens
centrais da espiritualidade inaciana. Ela é chamada de Dois Modelos. Aqui,
Inácio pede que imaginemos dois “exércitos” preparados para a batalha sob
duas bandeiras (ou modelos) diferentes. De um lado está o exército de Satanás;
do outro, o de Cristo. Nessa meditação, a influência do ofício de soldado de
Inácio aparece claramente.
O propósito da meditação é ajudar a entender os mecanismos da natureza
humana. Por meio de imagens fortes, que podem até ser estranhas para a
sensibilidade moderna, Inácio apresenta um modo de analisar uma realidade
que a maioria de nós não considera nada estranha: a batalha interior para fazer
as coisas certas.
Desde a época de sua conversão, Inácio foi capaz de reconhecer o que o
impulsionava para Deus – a paz que ele sentia quando pensava em servir a Deus
– e o que o afastava Dele – a sensação de inquietude que acompanhava seus
planos de obter fama. Inácio acreditava que uma pessoa com discernimento
poderia analisar a natureza dessas forças antagônicas e fazer a escolha certa. Na
espiritualidade inaciana isso é chamado de “discernimento de espíritos”.
A batalha, portanto, é a metáfora-chave para Inácio. Ele acreditava na
presença do mal neste mundo, e não apenas como uma força vaga e impessoal,
mas como uma entidade personificada – Satanás – que está sempre trabalhando
para nos afastar de Deus. Os Exercícios se referem a qualquer coisa que nos
aproxima de Deus como “bom espírito” e ao que nos empurra para longe como
“o inimigo” ou “o inimigo da espécie humana”.
Ultimamente, tenho sugerido às pessoas os livros ou os filmes da trilogia O
Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien, como uma forma de entender o que Inácio
tinha em mente: de um lado, o exército do gênio do mal Saruman e seus
medonhos Orcs; de outro, os exércitos do nobre Frodo e seus fiéis
companheiros Hobbits, meio humanos, meio duendes. A série de Harry Potter –
também em livros ou filmes – é outra ilustração contemporânea desse tipo de
batalha: de um lado, Voldemort e seus asseclas malvados; de outro, Harry e seus
amigos valentes.
Mas não é necessário entender as coisas exatamente como Inácio para se
beneficiar da espiritualidade inaciana. Em seu livro The Discerniment of Spirits,
o autor Timothy Gallagher resume o conceito de “inimigo” como “aqueles
movimentos interiores que nos arrastam para longe de Deus”.
Mais importante do que a batalha de imagens é a compreensão da maneira
como essas duas forças trabalham. Nos Dois Modelos, Inácio pede que
imaginemos Cristo chamando as pessoas para o seu lado, para uma vida
simples, a fim de renunciarem ao desejo por honrarias e aspirarem a uma vida
humilde. Em outras palavras, Cristo nos convida, assim como fez com o jovem
rico, a levar uma vida sem apegos.
Inácio depois nos convida a imaginar Satanás aconselhando seus “incontáveis
demônios” sobre como capturar homens e mulheres por meio dos apegos. Essa
mesma técnica literária tão inteligente – os conselhos de um demônio
experiente a seu aprendiz – foi usada, séculos depois, pelo escritor inglês C. S.
Lewis em seu livro Cartas do inferno.
Ele diz que o inimigo trabalha primeiro tentando as pessoas a quererem ser
ricas, o que leva aos elogios, que, naturalmente, as levam a uma soberba
presunçosa, que é a porta para uma série de comportamentos iníquos. Como
qualquer jesuíta lhe dirá, a frase abreviada é “riquezas levam aos elogios e à
soberba”.
O processo é traiçoeiro porque riquezas e elogios são coisas sedutoras. Eu sei
disso por experiência própria.

Dos Exercícios Espirituais


Aqui, Inácio fala dos perigos constantes de não se viver com simplicidade.
Nesta passagem dos Exercícios Espirituais conhecida como os Dois
Modelos, ele quer que imaginemos Satanás dando conselhos a seus asseclas
sobre como tentar os seres humanos com a soberba:

Primeiro eles devem tentar as pessoas a cobiçar riquezas – como ele


costuma fazer na maioria dos casos –, para que elas sejam enleadas pelos
elogios vãos deste mundo, de onde finalmente emergirá a soberba. Nessa
trajetória, a primeira etapa são as riquezas, depois a bajulação pelos
elogios e, por último, a soberba. Com essas três etapas o inimigo as
aprisiona para todos os outros deslizes.

Ao longo dos anos como jesuíta publiquei vários livros e escrevi artigos para
jornais, revistas e websites. Por isso, tenho sido convidado a falar em diversos
eventos, assim como no rádio e na televisão. De maneira geral, fico feliz por as
pessoas considerarem útil o que escrevo, em especial porque o trabalho de um
jesuíta supostamente é ajudar almas. Quanto mais as pessoas lerem livros sobre
vida espiritual, maior é a chance de mais vidas serem ajudadas.
Falar na televisão e no rádio também é proveitoso, não só porque isso ajuda a
vender livros e, portanto, a ajudar mais pessoas, mas porque podemos falar
sobre Deus para milhões de indivíduos – mais do que eu poderia em um sermão
de domingo. John Courtney, um teólogo jesuíta americano que trabalhou como
consultor no Concílio Vaticano II, disse certa vez que os jesuítas deveriam
explicar o mundo para a Igreja, e a Igreja para o mundo. Atuar nos meios de
comunicação é uma das formas de fazer isso.
Mas há um perigo. Muito embora eu tente impedir que isso me suba à cabeça,
todas essas atividades – livros, artigos, aparições na mídia – são o que nossa
cultura considera sucesso. Elas são um exemplo do que Inácio chama de
“riquezas”.
No princípio desse sucesso ocasional, vieram elogios de familiares, amigos,
conhecidos e até de estranhos. Essas são as honras de que Inácio fala. E, por
mais que eu ficasse grato pelos cumprimentos, algo mais estava em jogo. Algo
traiçoeiro.
Depois de experimentar algum sucesso, comecei a observar dentro de mim
uma sensação traiçoeira de poder. Por que tenho que celebrar missa na nossa
comunidade? Eu estou ocupado! Por que tenho que esvaziar o lava-louça da casa?
Eu tenho coisa mais importante a fazer!
Ainda que eu nunca tenha cedido a esses sentimentos, me entristeci por
identificá-los dentro de mim, sobretudo por já conhecer os Exercícios. Meu
diretor espiritual sorriu e sussurrou: “Riquezas, elogios e soberba!” Embora eu
tenha me tornado jesuíta há mais de 20 anos, ainda estou sujeito às mesmas
tentações que os outros estão.
Isso foi uma lembrança poderosa não apenas da minha própria humanidade e
da necessidade de ficar vigilante, mas também dos insights afiados de Inácio
sobre o amor às “riquezas” de todos os tipos, sobre o “bom espírito”, o
“inimigo” e a velha natureza humana.
Uma grande preocupação
Inácio sabia que as honras eclesiais podiam fazer os jesuítas ficarem
orgulhosos. Uma nomeação como bispo ou cardeal trazia riquezas e
honras para a pessoa e sua família e, portanto, era amplamente cobiçada,
em especial na época de Inácio. É por esse motivo que há tantas ressalvas
nas Constituições quanto aos jesuítas se tornarem bispos ou cardeais.

Introduzindo a pobreza?

Um noviço do primeiro ano visita uma grande comunidade jesuíta durante


uma celebração do dia de Santo Inácio de Loyola, em 31 de julho, ocasião em
que se costumam servir grandes jantares. Ele espiona a imensa mesa de jantar,
os lugares reservados, os vasos de flores e as iguarias prontas sobre a mesa e
anuncia eufórico: “Se isto é pobreza, introduzam a castidade!”
Apenas os jesuítas riem dessa piada. A pobreza jesuíta ajuda a nos
identificarmos com os “pobres de Cristo”. Ela também representa ser
“apostólico”, algo que nos liberta do trabalho secular. Os primeiros jesuítas
eram diligentes na prática da pobreza, preferindo os piores alojamentos, a pior
comida e as piores roupas para seguirem Jesus de perto.
As acomodações dos jesuítas contemporâneos, porém, costumam ser bem
confortáveis, pelo menos nos Estados Unidos. Nas comunidades jesuítas em
algumas faculdades e colégios, por exemplo, até 50 jesuítas podem morar sob o
mesmo teto. Isso significa que alguns arranjos práticos são inevitáveis: salas de
estar e de jantar bem amplas (para acomodar tantos homens), uma equipe
completa de cozinha (principalmente nas casas com membros idosos), várias
máquinas de lavar e uma considerável quantidade de comida.
Para o público externo, essa vida institucional pode soar esbanjadora. Alguns
jesuítas, melancolicamente, se referem a elas como comunidades de “serviço
completo”. Para o público interno. Todas as comunidades jesuítas tentam viver
com simplicidade, mas no meio da fartura às vezes é difícil sentir que se está
praticando isso. Em outras palavras, os jesuítas estão muitas vezes no mesmo
barco em que está todo mundo quando se trata de um estilo de vida simples: nós
precisamos nos esforçar para viver com simplicidade – sobretudo em uma
cultura de abundância.
Certa vez, um amigo meu que estava desempregado disse: “Você fez um voto
de pobreza, mas eu a vivencio na carne!” É uma crítica justa. No sistema de bens
coletivos, nossas necessidades básicas – comida, vestuário e abrigo – são
devidamente supridas.
Mas há também a crítica errada. Fazer um voto de pobreza significa viver
com muita simplicidade e com um orçamento limitado. Nosso soldo mensal
para despesas e necessidades pessoais é modesto. Nenhum jesuíta tem carro ou
casa particular. Toda a renda – salário, cachês, doações, presentes e royalties de
livros – é revertida para a comunidade.
Nós precisamos de autorização para fazer viagens longas, assim como para
obter o dinheiro necessário para despesas com itens como óculos de grau, um
novo terno ou novo casaco, que não são cobertas por nossa personalia. Às vezes
essa autorização não é concedida.
Por exemplo, depois de servir em Nairóbi, alguns amigos leigos perguntaram
se eu poderia acompanhá-los em uma viagem de férias de uma semana pelo
oceano Índico, me hospedando em albergues estudantis, o que me custaria cerca
de 100 dólares. O superior jesuíta me informou que isso estava fora de questão.
Quando tentei convencê-lo de alguma forma, ele deu uma risada: “Não se trata
de ser ou não uma boa ideia, Jim. Nós simplesmente não podemos pagar.”
Comparando com o americano médio, nós vivemos com extrema
simplicidade. Comparando com aqueles que passam necessidade em todo o
mundo, não vivemos com tanta simplicidade assim. Entretanto, todos os padres
e irmãos jesuítas desejam estar tão livres das posses, amar a pobreza e viver com
simplicidade quanto for possível, como pretendeu Inácio. “Os votos lhe
facultam viver com simplicidade. O nível desta simplicidade é por sua conta”,
disse um dos meus diretores espirituais.
Felizmente, além de Inácio, tenho tido muitos personagens inspiradores –
como mencionei no primeiro capítulo, homens cujas vidas servem de modelo
para seus irmãos jesuítas. Muitos deles são reverenciados especificamente por
sua simplicidade.
Por vários anos morei com um velho jesuíta chamado John. Sábio, inteligente
e compassivo, ele era uma verdadeira “regra viva”. Certo dia, bati na porta de
John para pedir que ele ouvisse minha confissão. Seu quarto era a própria
modéstia: um tapete surrado, nada além de algumas fotos nas paredes, um
crucifixo pregado acima de um genuflexório bambo de madeira e lâmpadas de
baixo consumo.
Então espiei sua cama de solteiro e sem cabeceira. Não passava de uma caixa
de molas e um colchão empoleirado em cima de uma armação de metal
raquítica. Mas o que prendeu minha atenção foi a colcha amarela. Um poliéster
barato estendido que mal cobria o colchão, ela parecia antiga, e de tão fina
beirava a transparência. Eu nunca vira uma colcha tão modesta.
– Padre – ousei dizer. – Acho que está na hora de uma colcha nova.
– Mas essa colcha é nova! – respondeu ele com uma risada.
Lembrei que na semana anterior eu havia pedido dinheiro para uma colcha
nova (que, na verdade, eu não precisava) e tive um sentimento de culpa. Essa
visita me fez recordar que para os jesuítas há poucos bens materiais de que
realmente precisamos.
A pobreza voluntária também pode ser um estímulo para ajudar os
verdadeiramente pobres. Como os primeiros cristãos costumavam dizer, o
casaco sobressalente pendurado no seu armário não lhe pertence: ele pertence a
uma pessoa pobre.
Jesuítas que trabalham diretamente com os pobres parecem mais capazes de
assumir uma pobreza que está mais próxima da que Inácio provavelmente
pretendeu que os membros de sua ordem vivenciassem. Parte disso é por causa
dos recursos limitados nesses países. Mas parte também tem a ver com a
experiência de viver com os materialmente pobres, de quem os jesuítas
aprendem mais sobre a pobreza real do que jamais aprenderiam nos Exercícios
Espirituais. Proximidade com os pobres proporciona entender por que Inácio se
referia à pobreza como algo “que deveria ser amado como uma mãe”.

Gaudi, Agustino e Loice

Na metade de meu treinamento, meu superior regional enviou-me para


Nairóbi, no Quênia, para trabalhar na Agência Jesuíta para Refugiados, uma
organização fundada em 1980 por Pedro Arrupe, então superior geral da ordem.
A agência faz parte dos esforços da Companhia de Jesus para assistir os
pobres, que são uma parte inarredável do discipulado cristão desde a época de
Jesus. No Evangelho de Mateus, Jesus lembra a seus discípulos que o que torna
bom um discípulo não é quantas vezes ele ora por dia, ou que igreja ele
frequenta, mas como ele trata “os pequeninos irmãos de sua família”, ou seja, os
pobres (Mt 25:40).
As “obras corporais de misericórdia” (incluindo alimentar o faminto, vestir o
nu e visitar os doentes e encarcerados) sempre têm estado no âmago da missão
cristã. Muitos dos santos mais conhecidos são lembrados especificamente por
seu trabalho com os pobres, de Francisco de Assis a Madre Teresa. Inácio não
foi diferente no seu desejo de dar atenção ao chamado para cuidar dos
“pequeninos”.
Desde o princípio, trabalhar junto aos pobres esteve no foco da missão
jesuíta, mais do que simplesmente fundar escolas, como geralmente se pensa. E,
por sinal, o propósito original das escolas é não apenas educar os jovens e ajudar
na formação de seu caráter, mas também servir ao bem comum. Os jesuítas
primitivos esperavam que os graduados em seus colégios viessem a se tornar
“pastores de almas, servidores públicos, membros do judiciário, e que
exercessem outras funções importantes para o bem e proveito de todos”, como o
secretário de Inácio, Juan de Polanco, assinalou.
Logo que a Companhia foi oficializada pelo papa Paulo III, em 1540, os
jesuítas começaram a visitar hospitais e prisões, cuidar dos moribundos e
trabalhar com os órfãos, as prostitutas aposentadas e os filhos de prostitutas. E,
quando a fome, a enchente ou a praga irrompiam, eles se organizavam
rapidamente para providenciar assistência física e financeira às vítimas.
É claro que outras ordens religiosas também se envolveram em obras de
caridade, uma vez que isso faz parte da vida cristã. O que foi incomum em
relação aos jesuítas é o que John O’Malley chama de “articulação explícita”
dessas obras de caridade como elemento essencial da ordem que surgia.
“Em alguns casos esse comprometimento atingiu dimensões heroicas”,
escreveu O’Malley em The First Jesuits. Em 1533, os jesuítas ficaram quase
sozinhos para cuidar dos doentes durante a peste em Perúgia, na Itália, e vários
deles morreram ao longo da missão. Aloisio Gonzaga, um dos santos jesuítas
daquele período, adoeceu e faleceu enquanto cuidava das vítimas da peste em
1591, com apenas 21 anos.
Em todas essas obras, eles não estavam seguindo apenas a tradição judaico-
cristã de assistência aos necessitados, mas também a máxima de Inácio de que
“o amor deve se expressar mais por atos do que por palavras”.
Meu próprio trabalho no Quênia era ajudar os refugiados que haviam se
estabelecido nas favelas em expansão de Nairóbi a começar seus próprios
negócios a fim de garantirem seu sustento e o de suas famílias. Grande parte do
trabalho consistia em visitas aos refugiados em seus pequenos barracos,
mobiliados apenas com um colchão, um lampião, uma panela e alguns baldes de
plástico para armazenar água e comida.
Esse patamar de pobreza – no qual o ser humano não tem acesso às suas
necessidades básicas – não é ao que os jesuítas, ou qualquer pessoa, aspiram. A
pobreza desumana, ao contrário, é combatida por muitos jesuítas que dedicam
toda a sua vida a trabalhar com os pobres ou a defender seus direitos. A meta
jesuíta de pobreza voluntária como imitação de Cristo é bem diferente da
pobreza involuntária que é um flagelo para bilhões ao redor do mundo.
As duas, porém, estão intrinsecamente ligadas: viver com simplicidade
significa que alguém precisa de menos e suga menos do mundo, sendo,
portanto, mais capaz de dar àqueles que vivem na pobreza. Viver com
simplicidade nos aproxima dos pobres.
Participar da vida dos pobres também incentiva a vida simples. Nós vemos
como eles conseguem se virar com tão pouco; como desfrutam, muitas vezes, de
uma liberdade maior; como costumam ser mais generosos em compartilhar o
que têm e como costumam agradecer mais pela vida do que os mais abastados.

Aprendendo sobre a pobreza


Pedro Arrupe, o superior geral dos jesuítas entre 1965 e 1981, tinha senso
de humor até nos assuntos mais sérios. Dois jovens jesuítas americanos
apareceram certa vez em seu escritório em Roma. Arrupe perguntou que
missão os levara até ali. Eles responderam que estavam a caminho da Índia
para trabalhar com os pobres, como parte de seu treinamento. Depois,
Arrupe disse a um assistente: “Com certeza precisamos de muito dinheiro
para ensinar nossos homens sobre a pobreza!”
Quando penso sobre as maneiras como os pobres nos ensinam, me lembro de
alguns dos refugiados que conheci no Quênia. Uma das mulheres se chamava
Gaudiosa, que significa “alegre” em latim. Gaudi, como era conhecida por
todos, fugira de Ruanda e se estabelecera em Nairóbi com a família nos anos
1960.
Ela também era uma costureira talentosa que, no ano anterior à minha
chegada, tinha recebido uma doação da agência jesuíta para comprar uma
máquina de costura. Desse início modesto, ela e outras mulheres ruandesas
conseguiram montar uma próspera confecção.
Certo dia, Gaudi apareceu no meu escritório. Na ocasião, já havíamos
resolvido abrir uma loja para comercializar a produção dos refugiados. E eu
estava empenhado em incentivar os padres e outros membros das ordens
religiosas a comprar o artesanato feito pelos africanos.
Os itens confeccionados por Gaudi superaram as nossas expectativas e mal
paravam nas prateleiras. Quando aumentei as encomendas logo na primeira
semana, Gaudi cruzou as mãos sobre o colo, curvou a cabeça e disse: “Deus é
bom.”
Eu quis saber por que ela havia dito aquilo, e ela, rindo e batendo palmas,
reagiu com surpresa: “Irmão Jim, Deus está me ajudando. Ele está mandando
dinheiro para confeccionarmos todos esses produtos. Foi Deus que me colocou
nesse negócio junto com as outras senhoras. Dá para ver que Deus é muito,
muito bom!”
Assim como muitos outros refugiados, os pensamentos de Gaudi nos bons e
maus momentos se voltavam para Deus. Talvez eu tivesse identificado a mão de
Deus agindo, no final, mas Gaudi enxergava Deus imediatamente. Ela
personificava o relacionamento que muitos dos refugiados tinham com Ele.
Para usar a analogia da amizade, Gaudi se colocara mais perto de Deus e assim
se tornara uma amiga melhor do que eu.
No período que passei no Quênia também conheci Agustino, um entalhador
moçambicano. Nós nos conhecemos numa esquina movimentada de Nairóbi,
onde ele estava sentado sobre um pedaço de papelão, esculpindo suas belas
estatuetas de ébano e jacarandá, tentando vendê-las para os transeuntes.
Quando lhe perguntei se ele não preferiria ficar próximo à loja de artesanato e
vender para mais clientes, ele aceitou de imediato e foi para lá no dia seguinte.
Certa manhã, Agustino me mostrou uma escultura de 90 centímetros talhada
em uma única peça de madeira de ébano. Ele a chamava de “árvore da vida” e
ela retratava homens trabalhando nos campos, mulheres cuidando de filhos e
crianças brincando. Embora muito bem-feita, o preço era bastante alto. Eu
duvidava que ele conseguisse vendê-la em nossa loja e lhe disse isso, mas
concordei em ficar com a peça em consignação.
– Você vai rezar para que ela seja vendida? – perguntou ele.
– Sim – eu lhe respondi, mas tinha minhas dúvidas.
Além de ser cara, a escultura era muito grande, mas nós arrastamos aquela
peça de madeira maciça para dentro e a colocamos em cima de uma de nossas
mesas de exposição.
Alguns minutos depois, uma mulher estacionou seu jipe na calçada em frente
à loja, entrou, examinou a peça e imediatamente a comprou – por um valor
ainda maior do que havíamos pedido.
– As suas orações foram ouvidas – disse Agustino.
Quando precisava de ajuda, Agustino rezava pedindo a Deus. Quando sentia
gratidão, seu primeiro instinto era louvar a Deus. Ele se apoiava em Deus até
mais do que eu mesmo.
No decorrer de nossas conversas se tornou claro que sua confiança tinha
alguma relação com sua pobreza: seu dia a dia era tão precário que lhe lembrava
sua total dependência de Deus, uma virtude a que os mais ricos geralmente não
dão importância. Agustino parecia também ser amigo íntimo de Deus. Muitos
pobres, pelo menos na minha experiência, demonstram essa qualidade.
Deus nos encontra onde nós estamos. E os pobres normalmente já estão perto
Dele.
Mesmo assim, é perigoso romancear demais os pobres. Nem todos são
religiosos. Nem todos são espirituais. Até falar sobre “os pobres” é problemático.
Contudo, os refugiados com quem trabalhei estavam mais propensos a
depender de Deus e a louvá-Lo do que eu mesmo estava.
Essa gratidão fazia deles também pessoas mais generosas. Certa vez, marquei
uma visita a Loice, uma mulher de Uganda a quem também havíamos doado
uma máquina de costura. Ela vivia na periferia de Nairóbi em um barraco de
madeira de uma extensa área agrícola. Ao entrar em sua minúscula moradia,
percebi que ela havia preparado uma suculenta refeição: amendoins assados,
vegetais e até carne, que era raridade para ela. Aquilo deve ter lhe custado o
equivalente a uma semana de trabalho. Fiquei impressionado com sua
generosidade. Loice, como Jesus disse da viúva pobre nos Evangelhos, “da sua
pobreza deu tudo quanto possuía” (Marcos 12:41-44).
Mas nem todos os refugiados eram tão generosos quanto Loice. Então,
novamente, não devemos generalizar. Porém minha experiência com muitos
dos refugiados mostra o que acontece quando nos recusamos a depositar
confiança em coisas ou pessoas. E, quando somos capazes de refletir sobre as
nossas bênçãos, a nossa gratidão aumenta.
Deus é bom, como disse Gaudi.
Sempre que essas coisas aconteciam no Quênia, eu pensava em um versículo
da Bíblia que havia muito tempo me intrigava: “O Senhor ouve o clamor do
pobre.” Ele era também a estrofe de um hino que cantávamos no noviciado. Mas
por que o Senhor ouviria o clamor do pobre em particular? Por que Ele não
ouviria o clamor de todos? Não parecia justo. Um versículo dos Salmos dizia
algo na mesma linha: “Perto está o Senhor dos que têm o coração quebrantado.”
(34:18) Por quê?
No Quênia, encontrei uma resposta. Ambições variadas aparecem entre
muitos de nós e Deus: preocupação com status, conquistas materiais, aparência,
e daí por diante. Entre os refugiados e Deus existem menos demandas desse
tipo. Por isso, eles eram mais conscientes de sua dependência de Deus. Então,
como Gaudi, eles louvavam a Deus nos momentos bons; como Agustino, eles
clamavam a Deus quando precisavam de ajuda; e, como Loice, manifestavam
gratidão com generosidade.
Os pobres se colocam próximos de Deus, há menos coisas que os separam de
Deus, eles dependem de Deus, eles fazem de Deus seu amigo e geralmente são
mais gratos a Deus. Logo, Deus está perto deles. Esse é um motivo pelo qual
Inácio pedia aos jesuítas que amassem a pobreza “como uma mãe”.

Movimento de descida?

Essas são histórias bonitas sobre as experiências que ele teve, mas o que elas
têm a ver comigo? Você quer que eu viva como um refugiado?, você deve estar
pensando.
Em geral, sempre que eu falo sobre viver com mais simplicidade, as reações
das pessoas tendem a ir aos extremos. Elas são de dois tipos:
1. “Você perdeu o juízo? Eu não posso abrir mão de tudo o que tenho. Isso é
ridículo!” – Essa é a reação mais comum.
2. “Eu me sinto culpado quando penso em quanta coisa eu tenho e não
preciso. Quando penso nos pobres, me sinto péssimo. Mas não tem como
eu viver com simplicidade. Para mim é impossível mudar.” – Essa é a reação
mais próxima do “jovem rico” na parábola do Evangelho de Mateus.

As duas reações demonstram raiva e desesperança.


Ambas bloqueiam a nossa liberdade. Se ignorarmos os insights que vêm dos
pobres e rejeitarmos o convite à simplicidade dizendo “Eu não posso viver
assim”, então esses convites nunca farão diferença em nossas vidas. Se a
mensagem for inatingível, ela também será mais fácil de ser rejeitada. Da mesma
forma, quando mergulhamos na culpa e decidimos que é impossível mudar,
sutilmente nos livramos da responsabilidade, nos tornando cínicos em relação à
mudança.
As duas reações significam que a liberdade não pode ser assumida.
O convite para viver uma vida simples não implica desfazer-se de tudo o que
se possui. Abrir mão de todas as posses é o caminho certo para apenas poucas
pessoas, em geral aquelas que escolhem viver comunitariamente com outras.
Não precisamos viver exatamente como Gaudi, Agustino ou Loice. Mas o
oposto da maneira que eles vivem – ou seja, uma imersão total na cultura
consumista que diz que só é possível sermos felizes se tivermos mais – é um
beco sem saída.
O convite para levar uma vida simples não significa que também teremos que
nos sentir mal em relação a nós mesmos. Mas, de vez em quando, é bom sentir o
peso da consciência. Inácio disse que a voz da consciência parece, algumas
vezes, com “a queda d’água sobre uma pedra”, um sentimento forte que nos
desperta para a realidade. Se você se sente culpado por ter tanta coisa, talvez isso
seja um chamado de Deus para repartir um pouco e começar a viver com mais
simplicidade.
Mas trata-se de um convite para a liberdade, e não para a culpa. A mudança
para um estilo de vida simples nos lembra de nossa dependência de Deus, nos
torna pessoas mais gratas e nos leva a desejar o “movimento de subida” para
todos e não só para alguns privilegiados. Por fim, essa conversão nos leva para
mais perto dos esquecidos e marginalizados, algo que está no âmago do
ministério de Jesus de Nazaré e é um tema genuíno da profecia do Antigo
Testamento. Essa mudança nos faz lembrar de pessoas como os refugiados do
leste da África, de pessoas que talvez nunca encontremos, mas que passam a
fazer parte de nossas vidas. Como Dean Brackley escreve em “Movimento de
descida”:

Essa visão revela uma igualdade fundamental de todos os seres humanos que se sobrepõe a toda
diferença. Em outras palavras, o excluído tem potencial de destroçar o meu mundo. Quando consigo
me identificar com o excluído, permitindo que ele irrompa em meu mundo, a escada desmorona, pelo
menos para mim, e é exposta a sua fraude colossal. A superioridade do grande se dissolve na
inferioridade do pequeno. Nem que por apenas um instante nós todos apareçamos nus e em pé de
igualdade. Essa experiência crucial mostra que se identificar com o excluído nos capacita a nos
identificarmos com todos. Eu já consigo dizer: “Essas pessoas são todas como eu.”

Portanto, quando acontece a mudança para a vida simples, Gaudi, Agustino e


Loice têm muito a ver com você.

Mas como eu faço isso?

Isso ainda suscita uma questão: como é possível viver com simplicidade? Já
que não precisamos abrir mão de tudo, como podemos simplificar nossa vida e
aceitar o convite para viver com menos coisas entre Deus e nós?
Deixe-me sugerir três passos de dificuldade progressiva. Depois, um desafio.
Em todas essas coisas, confie que Deus o ajudará ao longo do caminho, porque é
um caminho para a liberdade que Ele deseja para você.
Primeiro, livre-se de tudo que não precisa – esse é o primeiro passo para
simplificar. O que você deve fazer com todas essas coisas? Bem, repito: o casaco
que você não está usando não lhe pertence mais, ele pertence ao pobre. Ligue
para uma igreja, um abrigo ou um centro de distribuição de roupas e faça a sua
doação.
Mas não dê coisas imprestáveis para os pobres – jogue-as fora! Durante o
noviciado, trabalhei em um abrigo para sem-teto em Boston. Certo dia, dei a um
homem uma jaqueta laranja esfarrapada. “Que horror!”, exclamou ele. “Não vou
usar isso.” Minha primeira reação foi pensar que ele deveria estar agradecido.
Então, como se lesse o meu pensamento, ele perguntou: “Você usaria isso?”
Não, eu não usaria. Portanto, lembre-se de que as pessoas mais necessitadas
merecem roupas dignas, assim como você.
Em segundo lugar, diferencie o desejo da necessidade. Você precisa de uma
televisão maior, do último modelo de celular ou do computador mais
mirabolante? Ou são apenas coisas que você quer porque seus amigos
compraram ou porque viu a propaganda na TV? É difícil resistir ao desejo de ter
o que os amigos têm ou ao que dizem que você precisa ter, mas resistir a esses
impulsos leva à liberdade.
Pense nisso como uma dieta. Por mais dura que seja, nos sentimos melhor
quando evitamos ingerir calorias desnecessárias. Também ficamos mais leves,
mais saudáveis e mais livres quando evitamos compras desnecessárias.
Em terceiro lugar, livre-se das coisas que você acha que precisa, mas de que, na
verdade, consegue viver sem. Estou me referindo tanto àquilo que você sabe que
não precisa quanto ao que você acredita que precisa mas pode muito bem viver
sem. Ainda acho difícil fazer isso, mesmo depois de mais de 20 anos seguindo o
voto de pobreza. Mas fico muito feliz quando faço progressos nesse caminho.
Por exemplo, depois que uma amiga cuidou de meu pai durante sua fase
terminal, eu lhe dei um bem precioso: um edredom multicolorido que ganhei de
presente de alguns refugiados na África e que cobria a minha própria cama. Foi
complicado eu me desfazer de algo de que gostava tanto, mas sempre que
reencontro essa amiga e me lembro da dedicação e da bondade que ela dedicou
ao meu pai naquele momento difícil fico alegre por ter-lhe presenteado.
Finalmente, o grande desafio: conhecer os pobres. Isso é muito difícil para
alguns de nós, porque nos acostumamos a ignorá-los, a enxergá-los como
preguiçosos ou a ter medo deles. Porém ser voluntário em um projeto ou até em
um abrigo permitirá que você tenha contato com outras realidades diferentes da
sua e você poderá conhecer as pessoas e suas histórias de vida e aprender com
essas experiências.
Elas provavelmente terão sofrido muito e pode ser que a convivência seja
difícil no início. No entanto, elas podem lhe ensinar bastante sobre gratidão,
perseverança e como viver perto de Deus.
Pobreza de espírito

Muitos homens e mulheres pobres se voltam para Deus instintivamente:


assim como Gaudi nos momentos felizes ou como Agustino quando precisou de
esperança. Isso acontece porque eles vivenciam um outro tipo de pobreza que
muitas vezes acompanha a pobreza material: o entendimento radical sobre a
dependência de Deus também chamado de “pobreza de espírito”.
Pobreza de espírito é um conceito subestimado por muitos grupos religiosos e
espirituais. “Bem-aventurados os pobres de espírito” é o primeiro ensinamento
de Jesus no Sermão da Montanha, no relato do Evangelho de Mateus (5:3). Mas,
para muitos cristãos, essas palavras continuam sendo tão misteriosas quanto
foram quando Jesus as pronunciou pela primeira vez. Se você perguntar a um
cristão praticante se ele deveria ajudar os pobres, ele dirá que sim. Se perguntar
se ele deveria ser um pobre de espírito, ele provavelmente reagirá com espanto.
Eu talvez tenha feito meu primeiro contato com a pobreza verdadeira no leste
da África, mas de maneira indireta.
Embora eu estivesse animado para trabalhar em Nairóbi, quando cheguei
senti uma solidão arrasadora por estar longe de meus amigos e familiares, fiquei
preocupado de não conseguir permanecer lá pelos dois anos previstos e com
medo de pegar alguma doença tropical rara.
No princípio, fui designado para funções burocráticas nas quais cuidava
apenas da papelada. Mas eu tinha ido ao Quênia para lidar com a parte
burocrática? Em poucos meses eu começaria a trabalhar com os pequenos
negócios, a melhor ocupação que já tive na vida, mas, naquela ocasião, a minha
vida andava chata e solitária.
Nessa época, meu diretor jesuíta enviou um livro para me encorajar: Poverty
of Spirit, de Johannes Baptist Metz, um teólogo católico alemão. Metz fala da
pobreza de espírito como sendo as limitações que todos os seres humanos
enfrentam no dia a dia. Ela é o despertar espiritual que vem da consciência não
só dos dons e talentos que nos são dados por Deus e que nos proporcionam uma
gratidão confiante, mas também da consciência de nossas limitações. Ter
pobreza de espírito significa aceitar que não temos poder para mudar alguns
aspectos de nossa vida. Ele escreve: “Somos todos membros de uma espécie que
não é autossuficiente. Somos criaturas atormentadas por dúvidas e inquietações
intermináveis e por corações insatisfeitos.”
Ter pobreza de espírito significa também aceitar que todos nós enfrentaremos
decepções, dor, sofrimento e, por fim, a morte. Embora isso possa ser óbvio para
qualquer um que já refletiu seriamente sobre a vida, a cultura ocidental sempre
nos estimula a evitar, ignorar ou negar esta verdade básica: nós somos limitados
e mortais. Nós somos humanos. E um componente dessa humanidade é que às
vezes nós sofremos e não temos controle sobre o que acontece conosco, com os
outros e com o mundo à nossa volta. Aceitar isso significa chegar mais perto da
pobreza de espírito.
Ao contrário da pobreza material que coloca na miséria centenas de milhões
de nossos semelhantes, a pobreza espiritual é uma virtude a ser perseguida. Eu
disse que não romantizo a pobreza material: já atravessei esgotos a céu aberto e
pilhas de lixo podre, já comi com refugiados pobres em ambientes insalubres e
convivi com todos os tipos de carências e enfermidades. Essa pobreza jamais
pode ser romantizada.
Pobreza de espírito é outro jeito de falar de humildade. Sem ela, não
admitimos que dependemos de Deus, somos tentados a fazer tudo sozinhos e
ficamos mais propensos a nos desesperar quando fracassamos. E, porque a
pobreza de espírito reconhece a nossa fundamental dependência de Deus, ela
está no âmago da vida espiritual.
Quase no fim de seu livro, Metz escreveu: “Assim, a pobreza de espírito não é
somente uma virtude entre muitas. Ela é a motivação oculta de toda ação
transcendente, a raiz de todas as virtudes teológicas.”

Os três degraus da humildade

Inácio deu destaque à pobreza de espírito. Em Exercícios Espirituais, seguindo


a meditação sobre os Dois Modelos, ele apresenta a estrutura das Três Maneiras
de Ser Humilde, também conhecidas como Os Três Degraus da Humildade.
Em seu livro Draw Me into Your Friendship, o jesuíta David Fleming diz que
Inácio traçou um espectro da humildade em que somos incentivados a escolher
o degrau maior e assim seguir Jesus mais de perto. George Aschenbrenner
descreve os três degraus em Stretched for Greater Glory como “três modos de
amar”.
O primeiro degrau é aquele no qual seremos sempre obedientes à “lei de
Deus” por observar uma vida moral. Nós desejamos fazer a coisa certa e não
faríamos nada que pudesse nos afastar de Deus. Aschenbrenner diz: “Isso
equivale a amar tanto alguém que você enfrentaria qualquer obstáculo para
corresponder ao desejo explicitamente manifesto daquela pessoa [no caso,
Deus].”
O segundo degrau é aquele no qual, quando confrontados com uma opção de
escolha na vida, nós lutamos para não fazer a escolha que traria riquezas, honra
e vida longa. Esse degrau é o exemplo clássico da “indiferença” ou do
“desapego” inaciano. Não apenas faremos a coisa certa como estaremos livres
para aceitar o que a vida apresentar. Nesse estágio, diz Fleming, “a única
motivação verdadeira da escolha é fazer a vontade de Deus”. Estamos livres e
determinados a nunca nos afastarmos de Deus. “Esse degrau do amor”, escreve
Aschenbrenner, “vai além do primeiro e implica a liberdade da indiferença.”
O terceiro degrau, a maneira “mais perfeita” de amar, é aquele em que
escolhemos o modo mais humilde para nos tornarmos parecidos com Jesus. Nós
desejamos tanto servi-lo que, como Fleming escreve, “as suas experiências são
refletidas na minha”. Em outras palavras, nós escolhemos ser pobres e até
rejeitados como Jesus foi. Aschenbrenner observa: “Aqui, o desejo de imitar se
torna uma ânsia por compartilhar o completo ser e o caráter do Amado.”
Isso é masoquismo? Outra confirmação dos estereótipos sobre quanto o
cristianismo é “insano”? Só se houver mal-entendido. O terceiro degrau da
humildade não procura pobreza ou rejeição em benefício próprio, mas como
um meio de identificação com Cristo e como uma maneira de se libertar da
autoestima exagerada. A analogia da amizade volta a ser útil: quando seu amigo
está sofrendo, você não deseja sofrer com ele?
O terceiro degrau é muitas vezes uma meta inatingível para mim, pois em
alguns dias sinto como se mal pudesse dar conta do segundo degrau! Mas o
terceiro nível é importante porque ajuda a nos libertar dos apegos
desequilibrados que nos impedem de seguir Deus. Como o jesuíta Brian Daley
observou em um artigo chamado “To Be More Like Christ” (Ser mais como
Cristo), esse tipo de humildade tanto nos leva a “nos desapegarmos da
autorreferência enraizada quanto nos conduz para a mais inteira resposta ao
chamado concreto de Jesus para que cada indivíduo seja um discípulo à sua
imagem”.
Em que você acredita?
Muitas piadas jesuítas giram em torno de nossas supostas lutas para
sermos humildes. Em uma, um jesuíta, um franciscano e um dominicano
morrem e vão para o céu. Eles são conduzidos até a sala do trono onde
Deus está sentado em uma imensa cadeira dourada cravejada de
diamantes. Ele diz para o dominicano: “Filho de Domingos, em que você
acredita?” O dominicano responde: “Eu creio em Deus Pai, o Criador do
céu e da terra.” Deus pergunta ao franciscano: “Filho de Francisco, em que
você acredita?” O franciscano diz: “Eu creio no seu Filho, Jesus, que veio
para trabalhar com os pobres.” Por fim, Deus se vira para o jesuíta e
pergunta: “Filho de Inácio, em que você acredita?” O jesuíta diz: “Eu
acredito... que o Senhor está sentado na minha cadeira!”

Bem-aventurados os pobres de espírito

Pobreza de espírito não tira a alegria de nossa vida. Muito pelo contrário. Ela
é a porta para a alegria, porque nos capacita para a máxima dependência de
Deus, que é o caminho para a liberdade. Fleming escreve: “Com essa pobreza,
paradoxalmente nos tornamos ricos, com uma identidade que só Deus pode dar
e que ninguém pode tirar de nós.”
Dependência de Deus pode soar como uma receita para a preguiça, como se
não precisássemos fazer mais nada por nós mesmos. Mas na realidade é o
oposto disso. Ela é uma postura prática que nos lembra que não podemos fazer
tudo. Não temos o poder de mudar muitas coisas. Algumas que estão fora de
nosso controle devem ser entregues na mão de Deus. A pobreza de espírito nos
liberta do desespero que surge quando achamos que tudo vai depender de nosso
esforço.
Esse novo estado pode nos libertar de uma tentação típica de nossos dias: o
excesso de trabalho e o messianismo. É fácil imaginar que somos indispensáveis,
que tudo depende de nós e que precisamos cuidar de tudo. A competência pode
degenerar numa forma sutil de soberba. “Eu vivo ocupado. Sou muito
importante!” Ou então: “Tudo depende de mim!” A pobreza de espírito faz você
acreditar que só você pode fazer as coisas.
Ou, como meu diretor espiritual ironizou quando reclamei de ter tantas
tarefas a cumprir: “Existe um Messias, e ele não é você!”
Na temporada que passei no Quênia, muitas vezes não embarquei no impulso
de resolver os problemas de todos não só porque era impossível, mas também
porque essa tarefa impossível teria me levado ao desespero. Além do mais, não
correspondia à realidade. Algumas refugiadas a quem doamos máquinas de
costura voltaram para seus lares e viram que vizinhos invejosos tinham
incendiado suas casas. João, criador de gado, fez tudo certinho para prosperar:
arrendou um pedaço de terra com muito pasto, adquiriu a raça certa de gado e
comprou o tipo de ração indicado. No entanto, seus planos foram
interrompidos por uma seca inclemente que assolou a região, acabando com a
água e destruindo o pasto do qual as vacas se alimentavam. Ainda me lembro de
sua expressão desolada quando ele me perguntou: “O que vou fazer agora?”
Eu não tinha resposta. Eu não poderia fazer chover nem conseguiria achar
água numa terra castigada pela seca. Tudo o que pude fazer foi pedir que ele
recebesse uma doação e rezar junto com ele por uma mudança no clima.
Pobreza de espírito é uma atitude humilde diante da realidade: nós não
podemos mudar todas as situações.

Um grande senso de humor


Deixe-me ter um grande senso de humor em vez de ser orgulhoso.
Deixe-me conhecer o meu absurdo antes de agir absurdamente.
Deixe-me perceber que quando sou humilde eu me torno mais humano,
mais íntegro e mais digno da sua admiração.

– Daniel Lord (1888-1955)


Pobreza espiritual significa também estar livre da necessidade de constante
locomoção, de constante atividade e de trabalho incessante. Ela nos encoraja a
dizer não no momento certo, uma vez que não podemos fazer tudo, agradar a
todos, comparecer a todas as reuniões, telefonar para todos os amigos e ajudar
todos que têm dificuldade. Isso significa aceitar que nós não podemos fazer tudo
em casa, no trabalho e na igreja. A pobreza de espírito nos livra de ser um
“humano funcional”, em vez de um “ser humano”.
Ironicamente, nosso desejo generoso de fazer tudo, cuidar de todos e deixar
todo mundo feliz pode nos tornar mais distraídos, o que não faz bem para
ninguém. Dizer não para uma coisa significa dizer sim para outra. Dizer não
para uma responsabilidade que talvez você não possa assumir significa dizer sim
para prestar mais atenção com o que já está sob sua responsabilidade.
Pobreza de espírito, portanto, não é uma via de lamentações – é um caminho
para a liberdade. Ela não é também uma doutrina mística que só os santos
podem seguir; é uma simples aceitação da realidade. Ao nos lembrar de nossa
dependência fundamental de Deus, essa virtude espiritual nos capacita a sermos
mais gratos pelas bênçãos que vêm de Deus, porque aprendemos como elas são
valiosas. É por isso que Jesus chama os pobres de espírito de “bem-
aventurados”.
Apresento a seguir uma história de Pedro Arrupe, o superior geral dos
jesuítas, que durante seu tempo no cargo desafiou bastante os jesuítas a se
envolverem com os pobres. Este relato reúne, de maneira exemplar, os insights
inacianos sobre a vida simples, a pobreza e a pobreza de espírito.

Que contraste

Padre Arrupe era conhecido por seu amor pelos pobres. Certa vez, ele contou
sobre uma visita que fez a alguns jesuítas que trabalhavam em uma favela da
América Latina. Lá, ele rezou uma missa para a população local em um prédio
caindo aos pedaços.

Quando a missa acabou, um homem enorme com olhar de cachorro faminto me disse: “Venha até
minha casa. Tenho uma coisa para lhe dar.” Eu não sabia se aceitava ou não, mas o padre da
comunidade, que me acompanhava, sugeriu que eu aceitasse o convite. Fui até a casa dele, um barraco
que parecia que iria desabar a qualquer momento. Ele pegou uma velha cadeira bamba para que eu me
sentasse. De lá, pude ver o pôr do sol. O homem me disse: “Olhe, senhor, como é bonito!” Ficamos em
silêncio por alguns minutos, até o sol desaparecer no horizonte. Então ele disse: “Eu não sabia como
agradecer por tudo o que o senhor fez por nós. Eu não tinha nada que pudesse lhe dar, mas achei que o
senhor gostaria de ver o sol se pôr daqui da minha casa. O senhor gostou, não foi?” E apertou minha
mão em despedida.
Enquanto caminhava de volta, eu pensei: “É muito raro encontrar uma pessoa com um coração tão
generoso.” Eu tentava saltar uma vala da favela quando uma mulher muito simples se aproximou e
beijou minha mão. Com os olhos fixos em mim e a voz tomada pela emoção, ela disse: “Padre, ore por
mim e por meus filhos. Eu assisti à sua missa. Foi linda. Estou voltando para casa, mas não tenho nada
para dar de comer aos meus meninos. Peça ao Senhor por mim; Ele é o único que pode nos ajudar.” E
foi embora em direção ao seu barraco.
Capítulo 9

Assim como os anjos?


Castidade, celibato e amor

S anto Inácio de Loyola começa assim a sua exposição sobre castidade nas
Constituições:

O voto de castidade não precisa de interpretação, já que é muito claro que ele deve ser preservado pelo
esforço implícito de imitar a pureza dos anjos na integridade do corpo e da mente. Portanto, com esse
pressuposto, trataremos agora da obediência santa.

Quando li esse trecho no noviciado, perguntei a meu diretor espiritual:


– É só isso? E todo o restante da discussão sobre a castidade?
– Não. É só isso! – respondeu ele dando risada.
Como John O’Malley observa em The First Jesuits, embora Inácio e os
primeiros jesuítas oferecessem reflexões sobre a castidade, estava decidido entre
eles que o voto era fato consumado e não precisava de explicação.
Logo, de acordo com Inácio, os jesuítas deveriam observar a castidade assim
como os anjos. Os cristãos do século XVI consideravam a sexualidade sob um
prisma muito diferente do que nós a vemos hoje. Em primeiro lugar, havia uma
ênfase acentuada na castidade como meio de “pureza” espiritual, como Inácio
escreveu. O ideal cristão deveria aspirar à pureza de Jesus, de Maria e dos santos
– e também dos anjos. E o conceito de pureza incluía o de castidade. Pierre
Favre, um dos primeiros jesuítas, fez esta correlação muito cedo em sua vida:
“Aos 12 anos fui para uma fazenda onde, de vez em quando, ajudava a cuidar do
rebanho da família, e lá, cheio de alegria e com um enorme desejo de pureza, fiz
um voto de castidade perpétua ao Senhor.”
Pierre Favre, cercado de flores silvestres, com o sol a pino, fazendo um
ardente voto de castidade com Deus, é uma imagem comovente. Mas muito
pouca gente incentivaria esse tipo de compromisso nos tempos de hoje.
Primeiro, porque pureza não implica abrir mão de sexo. Pureza flui de um
coração puro, e há muitos homens e mulheres casados que têm corações puros.
Depois, que pré-adolescente tem um entendimento correto da sexualidade para
fazer um voto perpétuo de castidade? Mas é preciso lembrar que Favre vivia em
um mundo diferente.
Os membros de ordens religiosas costumavam ir a extremos para incentivar a
castidade, ou, como diziam, para “protegê-la”. Na idade madura, Favre fez outra
promessa: nunca “aproximar meu rosto” de ninguém – fosse homem ou
mulher, jovem ou velho –, como modo de ampliar a preservação da castidade.
Santo Aloísio Gonzaga, um jovem nobre que se tornou jesuíta, nunca olhava
para o rosto de uma mulher – nem o de sua própria mãe!
Santo Inácio de Loyola, entretanto, foi amigo de muitas mulheres, que ele
assistia, por meio de cartas ou pessoalmente, como um requisitado conselheiro e
mentor espiritual. Muitas das amigas de Inácio retri​buíam o favor ajudando
financeiramente a ele e à sua nova ordem religiosa. Duas mulheres
especificamente – Isabel Roser e Juana, a regente da Espanha – até se
consagraram como jesuítas. “Um perfil mais minucioso de Inácio o descreve
como uma personalidade relacional e não como uma figura solitária; estes
relacionamentos incluíam especificamente as mulheres.”
Esse enredo intricado suscita algumas perguntas: A castidade religiosa pode
nos ensinar alguma coisa? As ideias de Santo Inácio sobre castidade podem nos
oferecer algum ensinamento? Homens que viveram em um mundo em que a
sexualidade era considerada perigosa – e má – podem nos ensinar algo sobre
relacionamentos saudáveis e amorosos?
Você não ficará surpreso quando eu disser que a resposta para todas essas
perguntas é sim. Mas pode se surpreender quando descobrir que a resposta tem
menos a ver com abstinência sexual e pureza e mais a ver com amor e amizade.
Porque castidade tem a ver com amor.

Castidade? Celibato?

Castidade é o assunto mais difícil de explicar sobre a vida em uma ordem


religiosa. Ele suscita inevitavelmente o estereótipo do padre frio e detestável ou
da freira amarga e reprimida, sem contato com a própria sexualidade, desligados
do universo do amor e dos relacionamentos humanos, rígidos, rancorosos e
talvez até um pouco cruéis. Ah, e loucos também.
No rastro da crise de abuso sexual na Igreja Católica, da qual a castidade é
vista pelas pessoas em geral como uma provável causa, o voto de castidade
levanta mais suspeitas do que nunca. Agora ele já não é visto apenas como
loucura, mas como prejudicial à saúde, doentio e perigoso – opiniões que teriam
espantado os cristãos do século XVI.
O pensamento popular sobre castidade se manifesta em três pontos de vista:

1. Castidade não é natural; ela tenta suprimir um aspecto espontâneo da


vida e por isso provoca comportamentos desviantes.
2. Castidade é insana, por isso as ordens religiosas atraem pessoas insanas.
3. Castidade é impossível. Ninguém consegue cumprir esse voto com
honestidade, portanto, quem afirma que não tem vida sexual está
mentindo.

Antes de prosseguir, eu deveria explicar que, apesar de serem confundidos, há


uma diferença entre castidade e celibato.
Especificamente falando, castidade se refere ao uso adequado e amoroso da
sexualidade. Em seu livro sobre a sexualidade humana, In Pursuit of Love,
Vincent J. Genovesi, um professor jesuíta de teologia moral, cita outro autor
para quem viver como uma pessoa casta significa que nossas “expressões
exteriores” de sexualidade estariam “sob o controle do amor, com carinho e
plena consciência do outro”. Resumindo a obra de outro teólogo, Genovesi
define a castidade como “honestidade no sexo”, em que nossas relações físicas
“expressem verdadeiramente” o nível de comprometimento pessoal que temos
com os outros. Em outras palavras, o objetivo da castidade é receber e dar amor.
A Igreja Católica acredita que todos – casados, solteiros, ordenados, leigos ou
clérigos – são chamados a esse tipo de castidade, no qual as relações físicas
expressem nosso grau de comprometimento e a sexualidade seja norteada pelo
amor e o cuidado pela outra pessoa. A maioria de nós concordaria com essas
ideias gerais: amor, compromisso, honestidade e cuidado nos relacionamentos
sexuais.
Com o celibato é diferente. Tecnicamente, ele é a restrição ao casamento para
os membros do clero católico. Por exemplo, os jesuítas fazem um voto de
castidade após o noviciado, mas os padres fazem uma promessa de celibato no
ato de ordenação.
Celibato é uma exigência canônica que teoricamente pode ter sido levantada
pela Igreja Católica. Na primeira metade da história da Igreja, não havia
restrições ao casamento e muitos sacerdotes se casavam. Como o reverendo
Donald Cozzens escreve em Freeing Celibacy, somente no século XII o celibato
se tornou a norma para toda a Igreja ocidental e latina. Nós sabemos, por
exemplo, que São Pedro era casado, já que o Evangelho de Marcos menciona a
sua sogra (1 29:31). Hoje há muitos padres católicos casados: padres dos ramos e
ritos orientais da Igreja Católica e ministros de outras denominações cristãs que
se converteram ao catolicismo mas permaneceram casados. Mesmo entre
católicos, a castidade e o celibato são confundidos, usados inadequadamente e
tidos como a mesma coisa. Além disso, a espiritualidade que cerca o celibato e a
castidade para padres e membros de ordens religiosas é semelhante. Por vezes,
as pessoas falam sobre “castidade religiosa” para distinguir entre a castidade
para a qual todos são chamados e o tipo exercido pelas ordens religiosas.
Pode parecer confuso, por isso daqui por diante, quando falar de castidade,
estarei me referindo à privação de sexo por causa de um compromisso religioso.
E mais importante: irei descrever o que uma vida de castidade religiosa pode lhe
ensinar – mesmo se você estiver fazendo sexo todos
os dias.

Castidade amorosa

A ironia é que algumas das pessoas mais amorosas da história – aquelas que
até os incrédulos admiram – eram castas. Pense em São Francisco de Assis e
Madre Teresa de Calcutá. Alguém diria que eles não expressavam o seu amor? E
agora você já sabe que Santo Inácio de Loyola era um homem amoroso,
compassivo e generoso.
Melhor ainda, pense em Jesus de Nazaré, sobre quem os mais respeitados
estudiosos da Bíblia concordam (por inúmeras razões) que nunca se casou.
Alguém jamais teve dúvida de que Jesus foi uma pessoa amorosa?
Quando ouço esse estereótipo de padre frio e distante, tenho vontade de
apresentar para as pessoas todos os padres, irmãs e irmãos generosos que já
conheci, homens e mulheres que foram exemplos de castidade amorosa e que
irradiaram muito amor.
Quisera você pudesse conhecer o meu amigo Bob, que, apesar de alguns
problemas crônicos, trabalhou por muitos anos sem remuneração em uma
reserva indígena em Dakota do Sul, Estados Unidos, e que hoje atua como
diretor espiritual e arte-terapeuta. Poucos jesuítas são mais amorosos ou mais
amados.
Bob é um ótimo ouvinte. As pessoas ficam naturalmente à vontade
conversando com ele, talvez porque sintam, pela sua limitação física, que ele
entende o que significa sofrer e ainda sentir prazer na vida. Sempre que o
procurei para lhe contar sobre um problema pessoal, Bob me escutou com toda
a atenção, completamente focado em minhas palavras. Essa é uma forma de
amor casto.
Ou quisera eu pudesse lhe apresentar Tim. Durante os nossos estudos
teológicos, Bob, Tim e eu morávamos na mesma residência jesuíta em
Massachusetts. Tim é um homem trabalhador que foi servir em uma paróquia
da periferia de Chicago depois de terminar os estudos. Durante o verão, quando
eu me recuperava daquela grave cirurgia em Chicago, Tim me deu um grande
presente.
Apesar de sua agenda apertada, ele dirigia todos os dias por cerca de uma
hora até a comunidade jesuíta em Evanston só para estar comigo. Ao longo de
duas semanas, Tim me visitou, me fez rir, me levou para passear de carro, me
preparou uma refeição quando eu estava impossibilitado e conversou comigo
sobre o momento que eu atravessava. A sua generosidade era uma forma de
amor casto.
E quisera que você conhecesse Irmã Maddy, minha amiga jesuíta do retiro em
Gloucester. Ela trabalhou com duas outras freiras americanas em uma parte
remota da Tanzânia, onde dirigiam uma escola para meninas.

Apaixone-se
Não existe nada mais prático do que encontrar Deus, isto é, do que se
apaixonar de uma maneira absoluta e definitiva. Aquilo por que você se
apaixona, o que ocupa o seu coração, afetará tudo. Isso irá influenciar o seu
despertar pela manhã, o que você fará nas suas noites, como passará os fins
de semana, o que irá ler, a quem vai conhecer, o que o emociona e o que o
encanta com alegria e gratidão.
Apaixone-se, permaneça apaixonado e tudo será decidido por isso.

– Pedro Arrupe

Por causa de algumas limitações físicas, Maddy tem dificuldade de se


locomover pelo terreno irregular da casa de retiro, mas, mesmo com
temperaturas gélidas e neve, seu espírito alegre e suas risadas não desaparecem.
Maddy demonstrou ser uma diretora afiada, que me ajudou em um período
difícil da vida contrabalançando com perícia a responsabilidade de uma diretora
espiritual com a de uma amiga. Entre outras coisas, tanto o trabalho duro de
Maddy com suas alunas na Tanzânia quanto a sua escuta paciente na casa de
retiro de Gloucester são uma forma de amor casto.
Cada um desses meus amigos que fez voto de castidade expressa o amor de
uma maneira muito própria. Cada um deles me lembra uma máxima de Santo
Inácio de Loyola escrita nos Exercícios: “O amor deve se expressar mais por
ações do que por palavras.”

Castidade tem a ver com amor

Um dos objetivos principais da castidade é amar o maior número de pessoas


possível da maneira mais intensa possível. Isso pode soar estranho para os que
estão acostumados a conceituar a castidade negativamente – ou seja, apenas
como abstinência sexual. Mas essa tem sido por muito tempo a tradição da
Igreja Católica. Castidade é um outro tipo de amor e, como tal, tem muito a
ensinar a todos, não apenas aos membros de ordens religiosas.
A castidade nos libera para servir as pessoas com mais prontidão. Não
ficamos presos a uma pessoa ou a uma família, logo, é mais fácil nos
deslocarmos de um serviço para outro. Como dizem as Constituições jesuítas, a
castidade é “essencialmente apostólica”. Ela existe para nos ajudar a sermos
melhores “apóstolos”. Como todos os outros votos, ela ajuda os jesuítas a
estarem “disponíveis”, como diria Inácio.
Castidade, portanto, diz respeito a amor e liberdade.
É claro que a maior parte das pessoas é chamada para o amor romântico, o
casamento, a intimidade sexual e a vida familiar. O seu foco principal de amor
são os cônjuges e os filhos. O que não quer dizer que os casados não devam
amar ninguém fora da família.
Para uma pessoa em uma ordem religiosa, a situação é inversa. O voto de
castidade é feito como oferecimento de seu amor a Deus e como meio para se
tornar disponível para amar tantas pessoas quantas possível. Isso não quer dizer
que homens e mulheres, casados ou solteiros, não possam fazer isso. Apenas que
esse é o caminho que funciona melhor para nós.
Castidade é também uma lembrança de que é possível amar com qualidade
sem a necessidade de estar envolvido em um relacionamento exclusivo e de
estar sexualmente ativo. Dessa forma, a pessoa casta pode servir como referência
em uma sociedade hipersexualizada, em que amar alguém costuma ser
confundido com levar para a cama. Logo, a castidade pode nos ajudar a refazer
nossas prioridades: o objetivo da vida, seja do solteiro, do casado ou do
religioso, é amar.
Quem é mais amoroso? O casal apaixonado que atropela tudo com a sua vida
sexual hiperativa, o casal de meia-idade que tem vida sexual menos intensa por
causa das demandas familiares ou o casal de idosos que por causa de alguma
enfermidade não está sexualmente ativo? Quem é mais amoroso: o homem
casado que ama sua esposa ou a mulher solteira que ama seus amigos? Quem é
mais amoroso: o padre celibatário ou a esposa sexualmente ativa?
A resposta é: todos são amorosos, mas de maneiras diferentes.
Castidade também envolve prática. Ninguém se torna um marido perfeito ou
uma esposa perfeita no dia do casamento. Nem se compreende a castidade
totalmente no dia do voto. Leva tempo para se praticar os votos de maneira
plena. Para isso existem os noviciados e os seminários.
“E como lidar com o desejo carnal?”, me perguntou um amigo recentemente.
A verdade é que a pessoa casta ainda vira sua cabeça para olhar alguém atraente
e não deixa de sentir desejo sexual. Afinal de contas, somos humanos. Mas,
quando isso acontece, você reflete sobre algumas coisas. Em primeiro lugar, é
uma emoção natural. Depois, percebe que a vida que você escolheu não permite
isso. E, em terceiro lugar, se você estiver completamente dominado por um
desejo constante de intimidade sexual, então alguma coisa pode estar faltando
na sua vida afetiva. O quê, por exemplo? Um relacionamento mais íntimo com
Deus em oração? Amizades gratificantes? Trabalho satisfatório? Ou você pode
não estar sendo sensível ao amor de Deus na sua vida casta – porque a pessoa
casta não apenas faz um voto de castidade, mas também crê que Deus a ajudará
a cumpri-lo.
Castidade também ajuda algumas pessoas a se sentirem seguras. A outra
pessoa sabe que você se comprometeu a amá-la de um modo que o impede de
usá-la, manipulá-la ou ficar com ela apenas como meio para atingir algum fim.
Você oferece um espaço de confiança e tranquilidade. Como consequência, as
pessoas podem se sentir mais livres com seu próprio amor.
Há alguns anos, como mencionei, trabalhei com uma companhia de atores
em Nova York na montagem de uma peça sobre Jesus e Judas. Tivemos várias
conversas sobre os Evangelhos, sobre Jesus, pecado, graça, desespero e
esperança. “Por que Judas traiu Jesus?” “Por que os apóstolos fugiram depois da
crucificação?” “Jesus se apaixonou por Maria Madalena?” Essas discussões eram
diferentes das que eu costumava ter nos círculos religiosos.
E ali estava um grupo de pessoas que habitavam um mundo diferente do
meu: o teatro. Quando começamos, fiquei imaginando como elas reagiriam a
uma figura estranha – um padre – em seu meio. Mas, com a convivência, elas
tiveram a certeza de que o único motivo de eu estar lá era ajudá-las.
Provavelmente por causa disso algumas delas se sentiram à vontade para se
abrir com alguém que mal conheciam sobre detalhes íntimos de suas vidas,
compartilhando tristezas e momentos de alegria.
A confiança que esses jovens depositaram em mim foi um presente que me
ajudou, de alguma maneira, a me apaixonar por todos eles. Sempre que eu
entrava nos camarins era cercado por rostos sorridentes e recebido com abraços.
Como em outras situações, percebi que estava lá não só para dar amor, mas
também para receber. Quando o espetáculo acabou, reconheci que eu fora
chamado para não me apegar ao amor deles. Embora eu esperasse que alguns
continuassem meus amigos – o que de fato aconteceu –, sabia que não poderia
“possuir” o amor de ninguém. O amor tinha que ser livremente dado e
livremente recebido.
Eis outra lição da castidade: o amor não pode ser possuído.
Meu amigo Cris, um irmão jesuíta que trabalha em Nova York, disse que isso
também acontece com os professores nas escolas: “Quando o ano letivo termina
precisamos lembrar que não podemos nos apegar ao amor de ninguém. Temos
que amar livremente e ser amados livremente.” Como Jesus disse depois da
ressurreição, “Não me segure”.
Este pode ser um dos maiores presentes que uma pessoa casta pode oferecer:
mostrar que não apenas há muitas maneiras de amar, mas que amar uma pessoa
livremente, sem possuí-la, é um presente tanto para quem ama quanto para
quem é amado. Geralmente nós somos tentados a achar que amar alguém – uma
esposa, um namorado, uma namorada, ou até mesmo uma amiga – significa
ficar grudado na pessoa, o que é uma forma disfarçada de posse. Amor, porém,
significa abraçar a pobreza de não possuir o outro.
Logo, a castidade pode ser capaz de ensinar o mundo sobre um modo livre de
amar e sobre um modo amoroso de ser livre.

A castidade é possível?

Mas a castidade religiosa é realmente possível, com algum grau de saúde,


integridade e honestidade?
Com a ajuda de Deus, é. Vou contar um pouco sobre a minha própria
experiência de castidade, na esperança de que ela possa ajudá-lo a com​preen​der
a sua vida de amar e ser amado.
Depois de alguns meses no noviciado, David me disse que em algum
momento como jesuíta eu me apaixonaria por alguém e que alguém se
apaixonaria por mim. Fiquei chocado!
A resposta dele foi memorável. “Se você não se apaixonar de vez em quando,
alguma coisa errada está acontecendo com você”, disse ele. “Isso é humano e
natural. A questão é: o que você vai fazer quando se apaixonar?”
A verdade é que os padres e todos os demais homens e mulheres nas ordens
religiosas têm que aceitar a possibilidade de se apaixonar. Se você pretende ser
um homem amoroso ou uma mulher amorosa, correrá o risco de se apaixonar.
Jesus, como uma pessoa plena, também se abriu para essa possibilidade quando
ofereceu seu coração aos outros e foi receptivo ao seu amor.
Mesmo que você tenha lido isso em livros de ficção, Jesus não se casou
secretamente. Está muito claro no Novo Testamento que Jesus de Nazaré
permaneceu solteiro por toda a vida. Mas, por ser humano, Jesus estava
propenso como todo mundo a se apaixonar e a levar as mulheres a se
apaixonarem por ele. Mas ele escolheu amar as pessoas de maneira casta e
intensa.
O que acontece quando o membro de uma ordem religiosa se apaixona? Ele
precisa escolher. Ou ele descobre que não consegue manter o seu voto e precisa
deixar a ordem, ou precisa reafirmar o compromisso com seu voto. Como
David Donovan me disse, de certa forma essa é a situação de uma pessoa casada
que se apaixona por alguém fora do casamento. Em ambos os casos, é preciso se
lembrar do compromisso assumido e dar os passos certos para honrá-lo.
David estava certo. Pouco tempo depois de concluir o noviciado, eu me
apaixonei. A profundidade de meu amor e a paixão que senti na ocasião foram
inesperados, arrebatadores e confusos. Durante alguns meses acreditei que
aquela era a pessoa com quem eu passaria o resto da minha vida. Aquilo era ao
mesmo tempo maravilhoso e assustador. Maravilhoso porque eu estava
apaixonado. Assustador porque levar a relação adiante implicava abandonar a
ordem dos jesuítas.
Em meio a esse turbilhão de emoções, encontrei meu novo diretor espiritual,
que ouviu a minha história e disse quase a mesma coisa que David havia me
dito: “A paixão faz parte da vida e é talvez o sentimento mais humano que
alguém possa ter. Isso mostra que você é uma pessoa amorosa. É uma coisa
maravilhosa para qualquer um. Mas você precisa decidir o que quer fazer agora.
Você é livre para deixar os jesuítas e dar uma chance a esse relacionamento, e é
livre para honrar seu compromisso com Deus e terminar a relação amorosa.”
Depois de muita oração, aconselhamento espiritual e conversas com amigos,
percebi que, embora tivesse me apaixonado, meu desejo maior era permanecer
comprometido com meu voto. Largar tudo pareceu sedutor em alguns
momentos, mas quando examinei meu passado recente vi como estava sendo
feliz como jesuíta. Percebi também como tinha crescido vivendo em castidade –
não tendo um relacionamento exclusivo, mas muitos.
Assim como Inácio, que discerniu seus sentimentos sobre os dois modos de
vida, eu, quando pensava em abandonar os jesuítas, sentia angústia, frustração e
inquietude. Quando pensava em ficar, me sentia em paz, esperançoso e
animado.
Ficar apaixonado me proporcionou crescer em sabedoria no coração e na
mente. Recebi também alguns insights sobre a condição humana que me
ajudaram quando precisei aconselhar outras pessoas. A experiência me ajudou a
ficar mais humano.
Além do mais, ela me ajudou a ver que somos confrontados por desejos que
competem em nossa vida. Na espiritualidade inaciana, aprendemos a discernir
qual deles é o mais forte, ou o “desejo governante”. Desejos em disputa não
neutralizam a escolha que viermos a fazer – ao contrário, eles tornam essa
escolha ainda mais verdadeira. Que pessoa casada, ocasionalmente, não sente o
mesmo? Quem não sente, às vezes, uma pitada de tristeza por uma decisão que
vai mudar sua vida? A chave é descobrir o seu desejo governante, assim como
ser fiel ao seu compromisso original.
Manter-se casto não é fácil. Quanto mais amoroso você é, mais
provavelmente você se apaixonará e mais provavelmente alguém se apaixonará
por você.
A vida de castidade religiosa também pode ser solitária. Não importa quantos
amigos você tenha, quanto esteja próximo de sua família, quanto a sua
comunidade religiosa lhe dá apoio nem quanto o seu ministério lhe dá prazer,
você sempre irá deparar com uma cama vazia à noite. Não há uma pessoa
específica para compartilhar as boas notícias, um ombro onde você possa
chorar, ou alguém para abraçar no final de um dia difícil. Homens e mulheres
solteiros, divorciados e viúvos conhecem muito bem essa sensação.
Charles M. Shelton, professor de teologia da Regis University, em Denver,
Colorado, colocou desta maneira: “Todas as vezes que falo para jovens jesuítas
sobre esse assunto começo dizendo que castidade significa que você nunca será
a pessoa mais importante na vida de ninguém. Primeiro, eles me olham com
espanto. Depois de alguns minutos, eu lhes pergunto se eles aceitam bem esse
fato. Finalmente, digo que, mesmo que esteja tudo bem agora, para todos os
jesuítas chega uma hora em que eles se dão conta dessa verdade amarga. Isso é
um bom trampolim para discutir a densidade do voto de castidade.”
No final, como diz Shelton, o voto se torna uma opção mais profunda. “No
noviciado, quando alguém me perguntava por que eu não fazia sexo, eu
costumava dizer: ‘Porque me faz quebrar o voto.’ Agora eu digo: ‘Porque essa foi
a minha escolha.’” Trata-se de integridade e compromisso.
Shelton acrescenta que a castidade tem algo de especial. Ele, por exemplo, é
capelão de duas equipes de sua universidade. Assim, ele acompanha os
estudantes, se interessa por quem eles são e pelo que fazem, comparece aos
jogos e conhece suas famílias. Essas coisas ocupam o tempo que ele, com toda a
razão, iria querer dedicar à sua família, caso fosse casado.
“Porém há algo mais”, diz Shelton. “Percebi que não trocaria esses momentos
e as relações duradouras que foram construídas com os estudantes por uma vida
com esposa e filhos. A castidade me reveste de uma unção que não poderia ter
se fosse casado e que significa tanto quanto o casamento. É isso que eu classifico
como ‘especial’.” Ele se refere a essa unção da mesma maneira que os casais
costumam falar de seu amor: como um dom especial.

Como é possível amar castamente?

A esta altura você pode estar dizendo para si próprio: Que assunto chato! O
que eu tenho a ver com o fato de a castidade funcionar para um jesuíta? Ou mais
direto ainda: Sexo é uma parte gostosa da minha vida, então o que castidade tem
a ver comigo?
Bem, os insights da castidade religiosa podem ajudá-lo mesmo que você não
seja padre nem pertença a uma ordem religiosa – ao menos, como uma
lembrança de que o sexo não é a única maneira pela qual se pode dar e receber
amor. Meus amigos Maddy, Bob e Tim, todos vivendo castamente, me
demonstraram amor por meio de suas ações em momentos diferentes de minha
vida. Esses meios podem ser tão valiosos, significativos e importantes quanto
uma expressão sexual de amor.
Castidade religiosa significa amar as pessoas fora do contexto de uma relação
romântica exclusiva. E, pensando bem, isso se aplica à maioria das pessoas,
sejam elas solteiras, viúvas ou separadas. Portanto, os insights do amor casto são
mais relevantes para uma pessoa leiga do que ela, a princípio, pode imaginar.
Então como é possível amar castamente em nossa própria vida?
Deixe-me sugerir seis maneiras breves baseadas na máxima de Inácio de que
o amor se mostra mais por ações.
Primeiro, escute com compaixão. Como já mencionei, meu amigo Bob é um
bom ouvinte. Há alguns anos ele me ajudou a superar um problema pessoal
sério escutando meu desabafo. Mas a escuta verdadeira é uma arte. Antes de
Bob dizer uma palavra, ele escutou toda a minha história por quase uma hora
com grande concentração. Sem uma escuta sincera, compassiva e atenta, os
passos seguintes – conselho, consolo e estímulo – fracassarão, porque você não
investiu tempo suficiente para entender o outro.
A escuta compassiva também é um modo importante de fazer alguém se
sentir respeitado e amado. Quase sempre ficamos envergonhados com nossos
próprios problemas, sobretudo quando sentimos que de alguma forma somos
responsáveis por eles. Ter alguém escutando até os nossos erros mais grosseiros
faz com que nos sintamos amados em meio às lutas, o que é sempre uma dádiva
bem-vinda.
A escuta nos momentos felizes também é importante. Deixar alguém que
você ama partilhar as bênçãos com você – mesmo que tenha a ver com uma
parte da vida dela que você não conheça – pode aumentar ainda mais a sua
alegria.
Em segundo lugar, esteja presente. Quando éramos noviços jesuítas,
trabalhávamos como capelães e nos ensinaram que um “ministério de presença”
– o simples fato de estar com uma pessoa – é parte importante do cuidado
pastoral. Ainda que não se possa fazer muito por uma pessoa doen​te, podemos
estar ao seu lado.
Em geral, esse é o caso quando entes queridos passam por duras provações: já
que não podemos resolver seus problemas, a atitude mais amorosa é ficar perto
deles. Como disse Woody Allen: “Noventa por cento da vida consistem em
simplesmente comparecer.” Algo semelhante pode acontecer com o amor casto.
Quando Tim me visitava todos os dias durante minha longa convalescença em
Chicago, sua presença tranquila contribuía para minha recuperação. O efeito de
sua companhia era muito mais potente do que o de qualquer telefonema ou
cartão que ele pudesse me mandar.
Em terceiro lugar, faça alguma coisa prática. Às vezes, por outro lado, você
precisa fazer alguma coisa além de escutar ou estar presente. Quando Maddy foi
para a Tanzânia, ela ajudou a construir uma escola. Quando nos visitou em
Nairóbi, ela preparou suas famosas massas italianas para nos agradar. Ela fez
alguma coisa prática que ajudou pessoas de uma maneira concreta e, ao fazer
isso, manifestou o seu amor. E o amor deve se expressar mais por ações do que
por palavras.
Que formas ativas de amor casto podem fazer parte da minha vida? Ajudar sua
mãe idosa a arrumar sua casa, levar um amigo doente ao hospital, tomar conta
dos filhos de um jovem casal de amigos, convidar uma amiga para jantar mesmo
não sendo nenhuma data especial, telefonar para alguém solitário, mandar um
cartão de aniversário dizendo quanto a sua amizade é preciosa. Todas essas são
formas de amor.
Em quarto lugar, ame livremente. Uma das partes mais difíceis do amor é
permitir que o outro o ame como ele pode, e não como você quer ser amado.
Você já se flagrou pensando que a pessoa que ama deveria fazer isso ou aquilo?
Se ela me amasse, faria isso. Nós geralmente esperamos que o ser amado esteja
completamente focado em nossas necessidades. Mas ele pode não ser capaz de
fazer exatamente o que você quer. É certo que em alguns casamentos os
cônjuges devem pedir um ao outro que atenda às suas necessidades. Porém
reclamar disso tira a liberdade da pessoa, o que pode minar e até destruir o
relacionamento.
Alguns amigos meus, por exemplo, não são muito bons em manter contato.
Eles sempre foram assim – comigo e com outros que eles amam. É
simplesmente o jeito deles. Aceitá-los como são significa não apenas confiar em
seu amor, mas respeitar o modo que eles têm de amar.
Dar liberdade às pessoas para serem quem elas são é uma forma de amor. É
como dizer: “Eu o amo por quem você é, e não pelo que quero que você seja.”
Essa é uma maneira de reverenciar a pessoa que Deus criou.
Em quinto lugar, perdoe. Mesmo aqueles que mais nos amam poderão,
eventualmente, nos magoar. Talvez nos dirijam uma palavra rude, nos
desapontem com uma ação impensada, ou quem sabe até nos traiam. Você
conseguiria perdoá-los? Algumas das pessoas mais infelizes que conheci são as
que se recusam a perdoar um cônjuge ou membro da família e vivem
mergulhadas na amargura e na crítica.
O perdão liberta o outro da armadilha da culpa e também o ajuda a se libertar
da própria raiva. Perdoar nunca é fácil, mas no final é um ato de amor que cura
tanto quem perdoa quanto quem é perdoado. Deve ser por isso que Jesus de
Nazaré enfatizou tanto o perdão em seu ministério de amor.
Em sexto lugar, ore. Peça a Deus que ajude aqueles que você ama. E, acima de
tudo, peça a Ele que lhe permita enxergar os outros da maneira como Deus os
enxerga.
Pode soar estranho ouvir tantas coisas simples sendo descritas como atos de
amor. Porém elas são formas castas de expressá-lo. E, por sinal, assim como
qualquer ato de amor verdadeiro, essas ações podem ser difíceis. Dostoievski
escreveu que, “comparado ao amor nos sonhos, o amor em ação é uma coisa
difícil e terrível”.
E, quando é difícil amar, sabemos que Deus deseja que sejamos pessoas
amorosas e que Ele estará sempre conosco quando agirmos dessa maneira.
Essas maneiras castas de amar podem ajudar os que não estão envolvidos em
uma relação de compromisso exclusivo – e que temem não ser capazes de viver
uma existência amorosa – a encontrar seu acesso ao amor e à intimidade.
Embora seus atos não sejam sexuais, eles talvez estejam entre as expressões mais
potentes de amor que alguém pode dar.
Também para aqueles que se sentem aprisionados em relações que parecem
ser apenas sexuais, esses conceitos sobre o valor da castidade podem lembrá-los
de que o amor implica diversos outros aspectos, e não a mera troca sexual, por
mais prazerosa que possa ser.
Finalmente, esses insights podem ajudar aqueles que estão levando uma vida
de casado saudável e sexualmente feliz ao lembrá-los de que o amor pode
assumir muitas formas. A compreensão do conceito de castidade pode
enriquecer a todos nós, adotemos ou não esse estilo de vida.
Você deve ter reparado que muito do que foi dito aqui sobre o amor pode ser
repetido sobre a amizade. E essa é outra área em que as experiências da pessoa
casta são úteis para todos. Porque a pessoa que vive seu voto de castidade de
maneira saudável em uma comunidade religiosa também valoriza
profundamente as amizades.
Para um jesuíta, as amizades são essenciais. Assim como para todos os
solteiros saudáveis. E para os casados saudáveis. Para todo mundo. Então vamos
tratar de uma área subvalorizada da vida espiritual: a amizade.
Capítulo 10

Mais ações do que palavras


Amizade e amor

A lgumas pessoas se agarram à ideia de que ser membro de uma ordem


religiosa significa não ter que se importar com os relacionamentos da vida real.
Elas costumam pensar que, uma vez que passamos o tempo todo orando, nunca
temos de nos relacionar com ninguém nem enfrentar qualquer problema
interpessoal. E somos vistos como tipos solitários, despreocupados com coisas
tão banais quanto amizades.
Mas, no geral, os jesuítas têm muita experiência em fazer amigos. Em
primeiro lugar, como homens castos, não podemos desfrutar dos
relacionamentos sexuais íntimos que homens e mulheres casados desfrutam.
Portanto, além de contar com a nossa amizade com Deus, com nossas famílias e
comunidades, contamos com o amor de nossos amigos mais próximos, tanto
homens quanto mulheres.
Em segundo lugar, os jesuítas se deslocam com muita frequência, de missão
em missão, de lugar para lugar. Ao longo de meus 20 e poucos anos como
integrante da Companhia de Jesus, morei em Boston, Jamaica, Nova York,
Chicago e Quênia. A cada mudança, fiz novos amigos. Apesar do preconceito de
muitos contra o celibato, os jesuítas têm que desenvolver a capacidade de fazer e
manter bons amigos. E nós os valorizamos bastante.
Pessoas solteiras, divorciadas e viúvas sabem disso muito bem. Certa vez uma
amiga solteira recebeu um pedido de seu chefe para ir trabalhar em outra
cidade. Ele lhe disse: “Você é solteira. Não tem filhos. Então mudar de cidade
será fácil para você.” Mas, justamente porque não tinha marido nem filhos, ela
não aceitou a sugestão do chefe, porque não queria deixar para trás seus amigos,
as únicas pessoas com quem podia contar. Eles eram a sua principal fonte de
amor e afeto.
Muitas pessoas também acreditam que os padres não entendem muito sobre
relacionamentos porque são muito “cristãos”. Meu cunhado disse certa vez:
– Deve ser bom morar num lugar onde não há discussões.
– O que você quer dizer com isso? – perguntei.
– Bem, não é proibido aos jesuítas serem indelicados uns com os outros?
Isso resume o pensamento-padrão sobre as comunidades religiosas: elas estão
cheias de pessoas santas que sempre se dão bem umas com as outras.
Fazer parte de uma ordem religiosa significa viver com pessoas reais que
muitas vezes têm interesses conflitantes e convicções das quais não querem abrir
mão. Com o tempo você se torna especialista em lidar com vários tipos de
personalidade.
Isso me faz lembrar de uma história sobre os jesuítas americanos que
planejavam nos anos 1860 uma nova escola teológica na área rural de Maryland.
Naquela época, muitos homens estavam ingressando em seminários e ordens
religiosas e, portanto, a construção teria que ser grande.
O superior regional se reuniu com os arquitetos para elaborar os projetos do
complexo, com centenas de quartos para padres, irmãos e estudiosos em
treinamento, salas de aula, uma imensa sala de jantar e uma capela
ornamentada. Nenhum detalhe parecia esquecido. Depois de finalizar o projeto,
o superior regional enviou as plantas para o escritório geral dos jesuítas em
Roma.
Alguns meses depois, os desenhos voltaram com uma única observação: “Eles
são anjos?”
Os arquitetos tinham esquecido de projetar os banheiros.
Por isso, é bom deixar claro: nós não somos anjos. E isso significa que
podemos ter o pavio curto e ser retrógrados e pouco tolerantes uns com os
outros.
A comunidade jesuíta é uma grande bênção. Os homens com quem morei
nos últimos 21 anos são alegres, piedosos e trabalhadores – e tão diferentes uns
dos outros! Tenho um amigo gerontologista que gosta de pescar. Outro é
capelão de presídio e cria furões. Outro é ex-consultor político e canta em bares
durante a noite. Todos enriquecem minha vida com suas opiniões, me inspiram
com sua fé e me desafiam a me tornar uma pessoa melhor. Depois de 21 anos
como jesuíta, não conseguiria imaginar a vida sem meus amigos jesuítas. Toda
vez que penso na promessa de Jesus para seus discípulos de que os que deixaram
tudo para segui-lo receberiam “cem vezes mais” de tudo o que abandonaram
por causa dele, penso em meus amigos da ordem.
Mas a vida em comunidade é um desafio. Como em qualquer agrupamento
humano, ressentimentos se alastram, resmungos se intensificam e
relacionamentos esfriam na comunidade.
O santo jesuíta do século XVII John Berchmans, que morreu com apenas 22
anos, disse, antes de concluir seu treinamento: Vita communis est mea maxima
penitentia. Alguns jesuítas traduzem a frase como “A vida em comum é a minha
maior penitência”. Ou seja, a vida em comum de todos os homens e mulheres é
bastante difícil. Mas a maioria dos jesuítas acredita que é mais adequado
traduzir como “A vida em comunidade é a minha maior penitência”.
Como qualquer grupo – seja a família, o escritório ou a igreja –, uma
comunidade jesuíta pode ser fonte tanto de alegria quanto de tristeza. Viver em
paz com os outros e conservar amizades saudáveis requer uma boa dose de
amor, paciência e sabedoria.
Mas isso é um desafio para todo mundo, não só para jesuítas. Todos nós
somos chamados a viver com compaixão uns com os outros e a manter
amizades saudáveis com amor, paciência e sabedoria. Ninguém é anjo.
Tendo em vista nossos desejos em comum por amor e amizade e nossas
limitações humanas, o que o caminho de Inácio e a tradição dos jesuítas dizem
sobre amor, amizade e relacionamentos?

As Pressuposições

Os Exercícios Espirituais começam com um bom conselho. No que ele chama


de suas Pressuposições, Inácio diz que “devemos estar mais interessados em
interpretar bem a declaração de qualquer pessoa do que em condená-la”.
Sempre dê a ela o benefício da dúvida. Quando não tiver certeza do que
alguém disse, pergunte-lhe o que quis dizer com aquilo, ensina ele. Inácio
colocou esse aviso importante no começo dos Exercícios para assegurar que
tanto o diretor espiritual quanto o participante do retiro não interpretassem mal
um ao outro. Cada um deve pressupor que o outro está tentando dar o melhor
de si.
Essa sabedoria é aplicável não apenas à direção espiritual. Ela é um insight
decisivo para relacionamentos saudáveis na família, no trabalho e entre amigos.
E mesmo que a maioria das pessoas, a princípio, concorde com isso,
costumamos fazer o oposto. Nós esperamos que os outros nos julguem de
acordo com as nossas intenções, mas julgamos os outros de acordo com as suas
ações.

Cuidado para não condenar a ação de qualquer pessoa. Leve em conta a


intenção de seu próximo, que, em geral, é honesta e inocente, muito
embora seus atos pareçam externamente maus.

Santo Inácio de Loyola

Em outras palavras, dizemos a nós mesmos: “Minha intenção é boa. Por que
não veem isso?” Mas, quando se trata dos outros, muitas vezes falhamos em lhes
conceder o benefício da dúvida. Nós dizemos: “Olhe o que ele fez!”
As Pressuposições nos ajudam a lembrar a intenção das pessoas, o que
contribui para consolidar os relacionamentos na franqueza. Nós abordamos
cada diálogo com a mente e o coração abertos, pressupondo – mesmo que seja
difícil fazê-lo – que a outra pessoa esteja tentando o seu melhor sem querer nos
ludibriar.
As Pressuposições também ajudam a nos libertar dos rancores e dos
ressentimentos. Elas diminuem a chance de encararmos uma relação turbulenta
como uma batalha. Em vez de se armar para outro confronto com seu inimigo,
o que requer uma boa dose de energia, você pode relaxar.
Às vezes a outra pessoa está mal-intencionada – em um ambiente de trabalho
conturbado, por exemplo –, mas isso não significa que as interações humanas
devem ser encaradas como batalhas. Em vez de se preparar para a guerra, você
pode depor suas armas. Isso ajudará a outra pessoa a se sentir mais apta para
interagir com você – porque, sem dúvida, você também é parte do problema. As
Pressuposições o afastam da raiva e dão à outra pessoa o espaço emocional
necessário para o encontrar em um território mais pacífico. Elas até podem
incentivá-la a mudar.
Minha mãe me contou, certa vez, que no supermercado em que ela
costumava fazer compras trabalhava uma atendente que tinha um olhar
malvado e sempre parecia estar irritada. Nenhuma das outras funcionárias
gostava dela. Minha mãe se lembrou de um conselho que seu pai lhe dera, outra
versão das Pressuposições: “Seja delicada com todos, porque você nunca sabe
que problemas eles têm em casa.” Então ela resolveu tratar a mulher com
carinho e tentar conversar com ela. Com o tempo, a mulher abrandou. E minha
mãe acabou descobrindo que a mãe daquela mulher, de quem ela cuidava, era
doente e que ela mesma sofria com dores na cervical desde que sofrera um
acidente de carro. Nós nunca sabemos que problemas as pessoas podem ter.
As Pressuposições também ajudam a nos abrirmos para a mudança, o
crescimento e o perdão. Pierre Favre, um dos primeiros jesuítas, passou muitos
anos interagindo com as novas denominações cristãs de sua época. Naquele
tempo, católicos e protestantes suspeitavam intensamente uns dos outros. Para
muitos protestantes, os católicos eram “papistas”, Roma era “Babilônia” e o papa
era o “anticristo”. Para os católicos, os protestantes eram hereges.
Favre se recusou terminantemente a deixar que esses estigmas bloqueassem
seu coração, o que foi assombroso para a época. “Lembre-se”, escreveu ele para
um jesuíta que lhe pedia conselho, “se quisermos ajudá-los, precisamos olhá-los
com amor, amá-los com ações e com verdade e extirpar de nossa alma qualquer
sentimento que possa afetar nosso amor e apreço por eles.” Eis um comentário
impressionante para um período de grandes hostilidades religiosas como o
século XVI.
Minha citação preferida de Favre é ainda mais simples: “Cuidado para nunca
fechar o seu coração para alguém.”
A hospitalidade não vai curar todo o relacionamento, mas ela pode
proporcionar uma abertura para a mudança, o que impedirá que as coisas
fiquem ainda piores. As Pressuposições podem tornar as relações saudáveis
ainda mais saudáveis e as relações difíceis menos difíceis.

Inácio e seus amigos

Com seu grande talento para fazer amizades, Inácio desfrutou de


relacionamentos afetuosos com um amplo círculo de amigos. Aliás, a primeira
maneira como Inácio se referiu aos jesuítas não foi com frases do tipo
“Defensores da Fé” ou “Soldados de Cristo”, mas com algo mais simples:
“Amigos do Senhor”.
A amizade era uma parte fundamental de sua vida. Dois de seus amigos mais
próximos dividiam o quarto com ele na faculdade: Pierre Favre, da região
francesa da Saboia, e Francisco Xavier, o espanhol que veio a ser conhecido
como São Francisco Xavier.
Os três se conheceram em 1529, no Collège Sainte-Barbe, da Universidade de
Paris, na época a maior da Europa. Pierre e Francisco já tinham ouvido histórias
a respeito de Inácio antes de conhecê-lo: o antigo soldado era uma figura
destacada no campus, conhecido por sua intensa disciplina espiritual e pelo
hábito de mendigar por alimento. Aos 38 anos, Inácio era muito mais velho do
que Pierre e Francisco, que tinham 23 na ocasião. E a trajetória de Inácio até a
universidade foi mais sinuosa. Depois de sua carreira no exército, de sua
recuperação e de sua conversão, ele passou muitos meses orando para descobrir
o que faria na vida.
Por fim, ele entendeu que precisava estudar e começou com aulas de
gramática até chegar às universidades de Alcalá e Salamanca. Seus estudos nos
fornecem um dos retratos mais memoráveis da redescoberta de sua humildade:
o antigo soldado orgulhoso espremido em uma carteirinha ao lado de meninos
numa sala de aula, recuperando o tempo perdido.
O comprometimento de Inácio com a vida simples impressionou seus novos
amigos. Assim como sua perspicácia espiritual. Para Favre, um homem
perturbado por problemas de consciência, ou seja, por uma excessiva
autocrítica, Inácio foi uma dádiva de Deus. “Ele me fez entender a minha
mente”, escreveu Favre. Por fim, Inácio o dirigiu nos exercícios espirituais, o
que mudou consideravelmente a visão de mundo de Favre.
Isso aconteceu apesar das diferenças em suas vidas pregressas. Foi então que
Inácio e seus amigos descobriram uma novidade sobre os relacionamentos:
amigos não precisam ser iguais. O amigo com quem você tem menos em
comum pode ser o que mais irá contribuir para seu crescimento espiritual. Até
se conhecerem, Inácio e Favre tiveram vidas radicalmente diferentes. Criado em
uma família humilde, Favre chegou a Paris aos 19 anos, tendo passado a
juventude no campo como pastor. Imbuído de uma devoção popular por Maria,
pelos santos, por relíquias, procissões e santuários, e também pelos anjos, ele se
apegou à fé ingênua de sua infância.
Inácio, por outro lado, passou muitos anos como cortesão, alguns deles como
soldado. Sua conversão foi radical: ele se sujeitou a penitências extremas e
peregrinou por Roma e pela Terra Santa buscando seguir a vontade de Deus.
Um dos amigos experimentou pouco do mundo; o outro, bastante. Um
sempre encontrou na religião uma fonte de alívio; o outro se encontrou com
Deus por caminhos tortuosos.
Por fim, Inácio ajudou Favre a tomar decisões importantes por meio da
liberdade oferecida nos exercícios espirituais. A indecisão de Favre sobre seu
momento de vida se assemelha à indecisão de qualquer aluno de faculdade de
hoje. Ele escreveu sobre isso em seus diários:

Antes disto – quero dizer, antes de ter acertado o rumo de minha vida pela ajuda que Deus me deu por
intermédio de Inácio –, sempre fui muito inseguro e levado por muitos ventos. Algumas vezes quis
casar, outras quis ser médico, outras advogado, professor de teologia, clérigo – e até monge.

Com o tempo, Favre decidiu acompanhar Inácio em seu novo caminho, cujo
destino derradeiro ainda não estava claro. Favre, que às vezes é chamado de o
“segundo jesuíta”, desde o início demonstrou entusiasmo pela aventura
arriscada. “No final”, escreve ele, “nos tornamos um em desejo e vontade e um
no firme propósito de abraçar a vida que levamos hoje.” O amigo mudara sua
vida. Mais tarde, Inácio diria que Favre se tornara o jesuíta mais capacitado para
ministrar os exercícios espirituais.
Inácio também mudaria a vida do seu outro companheiro de quarto.
Francisco de Jassu y Javier, nascido em 1506, foi um excepcional atleta e
estudante. Ele começou seus estudos superiores em Paris aos 19 anos. Todos os
biógrafos o descrevem como um rapaz ativo de ambição desmedida. “Don
Francisco não compartilhava das atitudes humildes de Favre”, escreveu um
deles.
Francisco Xavier foi muito mais resistente à mudança do que Pierre Favre
havia sido. Somente após Favre deixar Paris para visitar a família, e quando
ficou a sós no alojamento com o orgulhoso espanhol, Inácio conseguiu dobrar a
inflexível resistência de Xavier. Diz a lenda que Inácio usou um versículo do
Novo Testamento: “O que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder
a sua alma?” Como John O’Malley relata em The First Jesuits, a conversão de
Francisco foi “tão consistente quanto a de Favre, porém mais dramática, porque
a sua vida naquele instante mostrava sinais de mais ambições terrenas”.
É impossível ler os diários e as cartas desses três homens – Inácio, o fundador,
Xavier, o missionário, e Favre, o conselheiro espiritual – sem reparar nas
diferenças de temperamentos e dons.
Nos anos tardios, Inácio se tornaria principalmente um administrador
dirigindo as atividades da Companhia de Jesus e dedicando grande parte de seu
tempo a escrever as Constituições jesuítas. Xavier tornou-se o missionário global
enviando cartas com aventuras de arrepiar os cabelos que emocionavam seus
irmãos.
Favre, por sua vez, passou o resto da vida como conselheiro espiritual, sendo
nomeado para expandir a fé católica durante a Reforma. Seu trabalho foi mais
diplomático, exigindo negociações habilidosas em meio às muitas guerras
religiosas da época.
As cartas trocadas entre eles mostram como as três personalidades eram
diferentes. E por meio delas fica fácil enxergar como eles se amavam.
As variadas realizações de Inácio, Francisco e Pierre começaram com o
compromisso que eles assumiram com Deus e cada um com os outros em 1534.
Em uma capela de Montmartre, em Paris, esses três homens, com mais quatro
outros amigos da universidade – Diego Laínez, Alfonso Salmerón, Simão
Rodrigues e Nicolás Bobadilla –, fizeram votos de pobreza e castidade. Juntos,
eles se consagraram a Deus.
Na ocasião, a amizade era a coisa mais importante em suas vidas. Laínez
observou que, embora não dormissem no mesmo quarto, eles faziam refeições
juntos sempre que possível e articulavam o que um escritor jesuíta chamou de
“a ligação humana de união”. Em um belíssimo artigo na série Studies in the
Spirituality of Jesuits, denominado “Friendship in Jesuit Life” (Amizade na vida
jesuíta), o professor de psicologia Charles Shelton escreve: “Podemos até
especular se a Companhia de Jesus teria se consolidado se os primeiros jesuítas
não tivessem se entregado a uma amizade tão rica.”
O estilo de amizade entre os primeiros jesuítas derivou do “caminho de
conduta” de Inácio. Para usar um termo mais adequado, eles não tentavam
possuir uns aos outros. De certo modo, era uma forma de pobreza. A amizade
deles não era autocentrada, mas dirigida ao outro, sempre visando ao bem do
outro. A indicação mais clara disso foi a disposição de Inácio de pedir que
Francisco o deixasse a fim de se tornar um dos grandes missionários da Igreja.
Mas isso quase não aconteceu. O primeiro homem que Inácio quis mandar
em missão para as Índias caiu doente. “Eis uma obrigação para você”, disse
Inácio. “Ótimo, estou pronto”, retrucou Francisco. Inácio sabia que se enviasse
Francisco para um lugar tão distante talvez nunca mais viesse a reencontrar seu
grande amigo.
Francisco pensou o mesmo. Em uma carta, escreveu antes de seu embarque:
“Nós precisamos pedir a Deus nosso Senhor a graça de nos vermos novamente
reunidos na vida futura, pois não sei se voltaremos a nos ver nesta... Quem
primeiro chegar na outra vida e não encontrar o seu irmão a quem ama no
Senhor deve pedir a Cristo nosso Senhor que volte a unir nós três.”
Durante suas viagens, Francisco escreveria longas cartas a Inácio não apenas
relatando sobre os novos países que havia explorado e os novos povos que havia
encontrado, mas expressando seu inabalado afeto. Eles sentiam falta um do
outro como os grandes amigos sentem. Ambos reconheciam a possibilidade de
algum deles morrer antes de um reencontro.
“Você me escreve sobre o grande desejo que tem de me ver antes de partir
desta vida”, escreveu Francisco. “Deus sabe a impressão que estas palavras de
amor provocaram em minha alma e quantas lágrimas derramo sempre que me
lembro delas.” A lenda diz que Francisco se ajoelhava para ler as cartas que
recebia de Inácio.
As premonições de Francisco eram agudas. Após alguns anos de viagens
cansativas, ele embarcou em um veleiro em direção à China, seu destino final.
Em setembro de 1552, portanto 12 anos após ter se despedido de Inácio, ele
aportou na ilha de Sancian, próximo ao litoral da China. Com muita febre, ficou
confinado em uma palhoça. Acabou morrendo em 3 de dezembro, e seu corpo
foi primeiro enterrado naquela ilha, sendo depois transportado de volta para
Goa, na Índia.
Alguns meses depois e sem saber da morte de seu melhor amigo, Inácio, que
morava na sede dos jesuítas em Roma, escreveu para Francisco pedindo que ele
voltasse.

Caros Irmãos
Para que eu nunca me esqueça de vocês e sempre guarde uma lembrança
especial de vocês, quero que saibam, meus caros irmãos, que para meu
próprio consolo recortei seus nomes das cartas que vocês me escreveram
para que possa carregá-los comigo junto com a profissão de fé que fiz...
Agradeço em primeiro lugar a Deus nosso Senhor, e depois a vocês, meus
caríssimos Irmãos e Padres, por Deus os abençoar tanto a ponto de eu
receber tanta consolação pelo simples fato de carregar os seus nomes. E, já
que em breve iremos nos ver de novo na vida futura com uma paz maior
do que temos nesta, nada mais preciso dizer.

– Francisco Xavier, das Ilhas Malaca, em 1546,


para seus amigos jesuítas em Roma.

Amizade e liberdade

Uma importante lição que podemos aprender das amizades dos primeiros
jesuítas – principalmente entre Inácio, Francisco e Pierre – tem a ver com a
complexa inter-relação entre liberdade e amor.
Amizade é uma bênção em qualquer vida. Para os crentes, também é uma das
maneiras de Deus comunicar a própria amizade que tem por nós. Mas, para a
amizade florescer, nem as amizades nem os amigos devem ser vistos como
objetos a serem possuídos. Um dos melhores presentes que se pode dar a um
amigo é liberdade.
Esse é um tema constante na vida dos primeiros jesuítas. Um Inácio mais
egoísta teria mantido Francisco Xavier em Roma, para lhe fazer companhia e
dar-lhe apoio, em vez de deixar o amigo seguir o próprio coração. Shelton
sugere em seu artigo que os jesuítas consideravam a amizade entre eles um
“porto seguro”, uma base firme que lhes permitia aproveitar suas vidas e realizar
suas obras, em vez de se preocuparem em demasia com relacionamentos.
O que isso lhe diz? De fato, você não irá viver sequer de forma parecida com o
que Inácio, Pierre e Francisco viveram. Ainda assim, poderá algumas vezes se
sentir inclinado a possuir, controlar ou manipular seus amigos ou amigas, como
também seu cônjuge ou outros membros da família.
Quantas vezes você já pensou por que seus amigos não eram amigos
melhores? E quantas vezes ser um amigo melhor significava fazer os seus
caprichos? Quantas vezes você imaginou por que seus amigos ou familiares já
não o aguentam mais? Com que frequência você se preocupa se está sendo um
bom amigo? São sentimentos naturais. A maior parte de nós já passou pela
tristeza de ver amigos se afastando, ou mudando, ou ficando mais arredios.
Então como Inácio, Francisco e Pierre foram capazes de ser amigos tão
íntimos e tão livres ao mesmo tempo?
Muitas vezes tive que lembrar a mim mesmo que meus amigos não existem
apenas para me ajudar, consolar ou enriquecer. Há alguns anos, um dos meus
melhores amigos, Matt, me disse que estava sendo mandado para servir em uma
paróquia em Gana, no oeste da África.
Matt estava bem preparado para seu trabalho na África. Por duas vezes,
durante o treinamento jesuíta, ele havia visitado Gana, morando num vilarejo
distante com pescadores pobres e suas famílias e ajudando numa pequena
paróquia enquanto aprendia o idioma nativo. Mais tarde, durante os estudos de
graduação em teologia, quando morávamos na mesma comunidade, ele
direcionou suas disciplinas eletivas para seu trabalho na África.
Matt me contou como estava empolgado por retornar a Gana, agora como
padre. Sabendo da seriedade com que ele havia se preparado para essa missão e
quanto ele amava aquele país, eu deveria estar feliz por ele. Mas, de forma
egoísta, fiquei triste por mim mesmo, por saber que não o veria por alguns anos.
A tristeza é comum para todos que dizem adeus – eu teria sido um robô se não
tivesse ficado triste com a partida de meu grande amigo.
Ainda assim, foi difícil me livrar do sentimento de querer que Matt não
seguisse o seu caminho para satisfazer minhas necessidades. Foi o oposto da
liberdade que Inácio e Francisco demonstraram e que valorizava o dom da outra
pessoa. Foi um exemplo da possessividade que às vezes pode marcar e, se não
for combatida, até destruir um relacionamento.
A liberdade e o desapego de Inácio eram obrigatórios.
William Barry, o escritor espiritual jesuíta, também é um psicólogo
experiente. Eu lhe perguntei sobre essa tendência à possessividade na amizade e
ele me disse: “Nós precisamos de amigos íntimos, mas não queremos nos unir a
eles sem o desejo de mantê-los presos a nós. Isso é uma realidade para todo
mundo e não apenas para os jesuítas.” Ele apontou também os primeiros
jesuítas como modelos. “Francisco Xavier tinha um amor muito profundo por
seus amigos e mesmo assim isso não o impediu de sair pelo mundo em missão e
nunca mais ser visto.”
Outra história que ilustra essa liberdade vem do século XVII, quando
Alphonsus Rodríguez, o porteiro do colégio jesuíta em Maiorca, na Espanha,
ficou amigo de Pedro Claver, outro jesuíta.
Alphonsus tinha chegado à Companhia de Jesus por uma rota tortuosa.
Nascido em 1533, ele foi o segundo filho de um rico comerciante de tecidos de
Segóvia, na Espanha. Quando Pierre Favre visitou a cidade para pregar, a família
Rodríguez lhe ofereceu hospedagem. Favre, na verdade, preparou o jovem
Alphonsus para sua primeira comunhão, um importante rito de passagem na
Igreja.
Aos 12 anos, Alphonsus foi mandado para o colégio jesuíta em Alcalá, mas a
morte de seu pai interrompeu seus estudos. Ele foi obrigado a voltar para casa
para assumir o negócio da família. Aos 27, se casou. Ele e sua esposa, Maria,
tiveram três filhos, mas tanto sua mulher quanto seus filhos foram morrendo
um após outro. Impostos pesados e dívidas levaram Alphonsus à bancarrota.
Muitos biógrafos o descreveram como alguém que se sentia fracassado. Em
desespero, ele pediu ajuda aos jesuí​tas. O viúvo solitário orou por muitos anos
até entender o desígnio de Deus para ele.
Aos poucos, Alphonsus foi sentindo no coração o desejo de se tornar jesuíta.
Aos 35 anos, ele foi considerado muito velho para começar o longo treinamento
exigido para o sacerdócio e teve o seu ingresso vetado. Mas a sua santidade ficou
evidente para o superior local, que, dois anos depois, o aceitou no noviciado. O
superior teria dito que, se Alphonsus não estivesse qualificado para se tornar um
irmão ou um padre, ele poderia ingressar para se tornar um santo. Ele ficou por
apenas seis meses antes de ser enviado, em 1571, para a escola jesuíta em
Maiorca, onde assumiu a função de vigia, ou porteiro.
Cada vez que a campainha da porta tocava, como já contei, Irmão Alphonsus
dizia: “Senhor, já estou indo!” A prática me lembrou de tratar cada pessoa com
tamanho respeito como se ela fosse o próprio Jesus batendo à porta.
Em 1605, Pedro Claver, um seminarista jesuíta de 25 anos, encontrou o
humilde Alphonsus, então com 72 anos, no colégio. Os dois se reuniam quase
diariamente para conversas espirituais e, na ocasião, Alphonsus incentivou o
seminarista a trabalhar nas missões estrangeiras. A perspectiva o entusiasmou
tanto que Pedro pediu autorização a seu superior e foi mandado para Cartagena,
na Colômbia, para trabalhar com os escravos africanos aprisionados por
mercadores e embarcados para a América do Sul. Por seus esforços incansáveis
para alimentar, aconselhar e confortar os escravos, que enfrentavam condições
terríveis, Pedro receberia a alcunha de “escravo dos escravos”.
São Pedro Claver, o grande missionário, foi posteriormente canonizado por
seus feitos heroicos. Santo Alphonsus Rodríguez também foi canonizado por
levar uma longa vida de humildade e reverência.
Alphonsus e Pedro se encontravam com frequência para cultivar sua
amizade, mas isso não impediu Alphonsus de encorajar o seminarista a se
apresentar como voluntário para missões na América do Sul. Ele deu a Pedro
não somente o presente da amizade, mas também a liberdade, assim como
Inácio, Pierre e Francisco se deram uns aos outros.

Obstáculos para a amizade saudável

Em razão da importância da liberdade nos relacionamentos, não é surpresa


que, em seu estudo sobre a amizade, Charles Shelton, o psicólogo jesuíta,
classifique a possessividade como a principal barreira para uma amizade
saudável. Seu amigo pode não corresponder aos seus sentimentos porque pode
estar direcionando a atenção para outras coisas; por exemplo, a uma questão
complicada na família ou na vida profissional. Seu amigo pode também ter se
mudado para outra cidade, ou ter menos tempo para dedicar a você, por ter se
casado recentemente ou por causa do nascimento do filho. Todas essas coisas
podem aumentar o seu sentimento de posse e despertar o desejo de controlar o
outro.
Ser amigo é dar à outra pessoa liberdade para crescer e mudar. O desejo por
amizade não deve ofuscar o amigo. Mas há outro aspecto nesse desejo de
liberdade, como ressaltou Padre Barry em uma conversa. “O perigo é que pelo
fato de as pessoas se mudarem, partirem ou até morrerem, você seja tentado a
não entregar mais seu coração a nenhum outro amigo.”
A lista de advertências de Padre Shelton sobre outras armadilhas é útil para
todos os interessados em relações saudáveis.
Muitas vezes, amizades são perdidas porque as pessoas estão ocupadas demais
para estar umas com as outras. Felizmente, sou abençoado com muitos amigos.
O fato de não ser casado me permite ter mais tempo para estar com eles. Para os
casados, porém, a carga pode ser enorme, e é possível que se percam amizades
preciosas.
Como eu posso equilibrar todas as responsabilidades do casamento com o
prazer de estar com meus amigos?, perguntaria a si mesma uma pessoa casada. O
casamento não consegue preencher todas as necessidades emocionais de um
casal. Na verdade, esse nem é o propósito dele. No passado, os casamentos
proporcionavam sustento para a nova família e proteção contra o meio externo.
Hoje, os casais precisam ter amigos. Amizades saudáveis fora do casamento
ajudam maridos e esposas em seus próprios relacionamentos.

Você deve se lembrar disso


Alguns dos melhores conselhos dos jesuítas sobre relacionamentos são
bastante realistas. Quando John O’Malley era um noviço jesuíta, um velho
padre lhe disse que ele deveria se lembrar sempre de três coisas quando
vivesse em comunidade: Primeiro, você não é Deus. Segundo, aqui não é o
céu. Terceiro, não seja burro. Se eu tivesse seguido essas diretrizes antes,
poderia ter evitado muitas dores de cabeça que eu mesmo provoquei.

Quando se trata de manter uma relação saudável com o trabalho, é preciso


avaliar se você está com excesso de atividades, o que veremos no próximo
capítulo. Por enquanto, basta dizer que, quando o trabalho ocupa tanto espaço
que impede que você dê atenção a seus amigos, a vida fica empobrecida.
Por outro lado, como assinala Shelton, existe o perigo do envolvimento
emocional excessivo. Nesse caso, a tendência é se dedicar em excesso às
amizades, fixando-se obsessivamente nos sentimentos que emergem e
interpretando todos os comentários. Pessoas grudentas sufocam as amizades e
repelem até os amigos mais generosos. Uma relação saudável é como uma
chama que aquece os amigos mas que pode ser apagada por falta de atenção,
assim como sufocada por atenção em excesso.
Competição é outro perigo. Em uma sociedade em que as pessoas são quase
sempre avaliadas pelo que fazem e pelo que têm, as tentações para competir
podem ser intensas. Shelton pergunta se o sucesso de seu amigo é uma ameaça
para a sua própria noção de valor. Se for, talvez seja hora de enxergar com mais
cuidado as bênçãos em sua própria vida.
A inveja, eu acrescentaria, também é venenosa. Você pode se distanciar desse
sentimento negativo sendo grato pelas bênçãos em sua vida e percebendo que a
vida de todo mundo é uma bagagem sortida de presentes e lutas. Se você duvida
disso, converse com seus amigos sobre os problemas deles.
Shelton também chama a atenção para os relacionamentos marcados pela
queixa, nos quais se reunir é um pretexto para buscar defeitos ou procurar
falhas. Em situações como essa, a relação começa a assumir o seu lado sombrio.
As reclamações são frequentes nas conversas até que tudo fique contaminado e
ambas as partes se entreguem à amargura e ao desespero. Shelton alerta também
contra as relações prejudiciais, que estimulam comportamentos doentios e
destrutivos, como o alcoolismo ou o vício de drogas.
Nesses casos, é preciso se questionar se a amizade é saudável. Se não for, é
possível discutir a situação? Ou você precisa se afastar daquela amizade para
preservar a própria saúde? Um de meus diretores espirituais certa vez me
perguntou: “Estar com esse seu amigo é bom para a sua vocação?”
Mesmo assim, é parte essencial do amor manter o que nós chamaríamos de
uma relação difícil. A história de Simão Rodrigues, um dos amigos de Inácio,
ilustra o que eu quero dizer.

Um amor especial

Simão Rodrigues, um dos primeiros jesuítas, era uma pessoa difícil. Nascido
em Portugal e estudando em Paris, foi um dos seis amigos que, em 1534, fizeram
votos de pobreza e castidade junto com Inácio na capital francesa. Depois da
fundação da Companhia de Jesus, Inácio pediu a Rodrigues que assumisse a
importante responsabilidade de supervisionar todos os jesuítas em Portugal.
No entanto, como William Bangert registra em A History of the Society of
Jesus, Rodrigues “muito cedo demonstrou instabilidade e relutância que quase
levaram Inácio a desligá-lo da ordem”. O homem reclamava o tempo todo, além
de ser muito permissivo com os jesuítas sob os seus cuidados. Por causa disso,
os jesuítas em Portugal viveram uma grande confusão.
Rodrigues também se tornou confessor do rei João III de Portugal e foi morar
nas dependências da corte, enquanto continuava como supervisor. Segundo os
relatos, Rodrigues passou a ser um escândalo para a ordem, pois não conseguia
viver sem “os palácios e as pompas do mundo”, como escreveu um de seus
contemporâneos.
Como Inácio reagiu a esse amigo difícil?
Em vez de repreendê-lo severamente, escreveu várias cartas ao velho amigo,
pedindo-lhe que respondesse com mais frequência para que ele pudesse ajudá-lo
em seus problemas. Mas Inácio também foi rigoroso em seu posto de superior
geral: como Simão não respondia e a crise aumentava, ele o demitiu de sua
função em dezembro de 1551 e o mandou para a Espanha. Infelizmente, Simão
continuou sendo uma fonte de problemas e Inácio foi obrigado a levá-lo de
volta para Roma.
O fato de um de seus mais antigos confidentes falhar foi uma prova dura
mesmo para alguém tão equilibrado quanto Inácio, que deve ter ficado
decepcionado com o amigo ou envergonhado pela confiança que depositara
nele. Ou até zangado com a obstinação de Simão.
No entanto, Inácio tratou seu amigo com dignidade, lembrando-se das
Pressuposições e dando a ele o benefício da dúvida. Na carta em que o demitia
de sua função em Portugal, Inácio não menciona as deficiências e os problemas
de Simão – que ambos sabiam quais eram –, mas o fardo que estava colocado
sobre ele como supervisor e como “não parecia apropriado mantê-lo mais
tempo nessa tarefa”. Depois de pedir a Simão que voltasse para Roma, Inácio foi
generoso ao escrever-lhe sobre seu desejo de preservar a sua reputação e cuidar
de seu futuro. Não há um pingo de recriminação na sua bondosa carta.
Além do mais, Inácio valorizava a amizade de Simão. Se ele amava os outros
jesuítas, sentia uma afeição ainda maior por seus primeiros companheiros,
“principalmente por você, por quem, você sabe, eu sempre tive um amor muito
especial no Senhor”, diz Inácio. É uma carta admirável que mostra como Inácio
compreendia bem o valor e os desafios da amizade e do amor.
Nós todos temos amigos ou membros da família que se encontram em
dificuldades, que nos decepcionam com comportamentos destrutivos e que
parecem incapazes ou sem vontade de mudar, apesar dos muitos esforços
daqueles que os amam. Esses períodos podem durar semanas, meses, anos, ou
até a vida inteira. Nessas situações somos convocados a ser amigos especiais não
apenas os encorajando a terem vidas mais saudáveis como também estendendo-
lhes nosso “amor especial”, como Inácio fez com Simão Rodrigues.
E, se você acha que seus relacionamentos são complicados demais para isso,
lembre-se de que Inácio precisou lidar com uma situação terrivelmente
complexa, tendo que equilibrar sua responsabilidade com os jesuítas de Portugal
e da Espanha, sua obrigação com aqueles com quem ele trabalhava nas escolas e
nas igrejas, sua necessidade de manter boas relações com o rei de Portugal e de
preservar a reputação da Companhia de Jesus e o desejo de não magoar um de
seus mais antigos amigos.
Inácio foi capaz de atravessar esses mares por causa de seu “caminho de
conduta”. Para começo de conversa, Inácio, que era afinal de contas o autor das
Pressuposições, concedeu a Simão o benefício da dúvida, tentando ver as coisas
do ponto de vista do outro. Depois, ele foi franco sem precisar ofender. Em
terceiro lugar, foi sensato sobre o que funcionaria e sobre o que não funcionaria,
tomando decisões e promovendo ações que seriam dolorosas para ele e que até
poderiam ser mal interpretadas. Em quarto lugar, ele compreendeu a absoluta
centralidade do amor. Em quinto, estava suficientemente “desapegado” para
saber que podia não ser capaz de mudar seu “amigo difícil”. Por fim, de acordo
com The First Jesuits, Simão Rodrigues foi receptivo à sabedoria das medidas
tomadas por Inácio.
Inácio tinha vocação para a amizade porque tinha talento para a caridade, a
honestidade, a razão, o amor e o desapego.

União de corações e mentes

Quando escrevia este capítulo, recebi o telefonema de um grande amigo. Davi


era professor de matemática antes de ingressar na Companhia de Jesus e é uma
das pessoas mais trabalhadoras e organizadas que eu conheço. E também uma
das mais carinhosas – não me lembro de tê-lo escutado dizer qualquer palavra
depreciativa sobre ninguém. Durante os estudos de filosofia em Chicago,
moramos na mesma comunidade.
Hoje, embora Davi more em Chicago, raramente nos encontramos.
Contei a ele que estava escrevendo este capítulo e lhe perguntei: “O que você
acha necessário para manter uma boa amizade?”
Ele não hesitou em responder: “Manter contato é o mais importante.”
Quando a distância ou o excesso de trabalho tornam difícil para alguém
conservar suas amizades, é preciso ser mais cuidadoso e manter-se em contato
com os amigos. E Davi prosseguiu dizendo que nas épocas em que estamos mais
tentados a negligenciar as amizades, o que pode nos lançar na solidão, é quando
temos mais necessidade de cuidar de nós mesmos alimentando aqueles
relacionamentos.
Mesmo com os obstáculos da distância e do tempo, as amizades verdadeiras
precisam ser sustentadas. “Como a maioria daqueles que chegaram a conhecer
bem outra pessoa, nós temos uma afinidade que nos permite reconectar”, disse
Davi. “Logo, distância não é tanto um problema.”
Inácio se referia a isso como uma “união de corações e mentes”, na qual os
jesuítas poderiam estar unidos em torno de um propósito comum e sendo
companheiros, mesmo separados por muitos quilômetros. Essa é uma boa meta
para qualquer amizade.
Depois do telefonema providencial de Davi, resolvi telefonar para alguns
amigos, homens e mulheres versados na espiritualidade inaciana, para
perguntar-lhes o que o caminho de Inácio lhes ensinara sobre amizade e amor.
Muitos depoimentos se encaixaram com o artigo do Padre Shelton sobre
amizade, no qual ele destaca algumas coisas que devem ser evitadas e oferece
também algumas dicas positivas que facilitam amizades saudáveis. Vamos
examinar algumas recomendações de Shelton e outras que vieram da sabedoria
de meus amigos.
Shelton começa dizendo que bons amigos conhecem a vida uns dos outros.
Isso parece óbvio, não é? Mas uma amizade pode se tornar uma via de mão
única. Algumas vezes achamos que nossos amigos e familiares existem para
preencher nossas necessidades – como se fossem psicólogos ou técnicos – e nos
esquecemos de demonstrar interesse sincero pela vida do outro. Mas tanto um
como outro precisam dar e receber. Inácio escreveu nos Exercícios: “O amor
consiste em comunicação mútua entre duas pessoas. Uma partilhando com a
outra.”
Irmã Maddy, minha amiga de Nairóbi e Gloucester, também acentuou essa
dinâmica, mas quis enfatizar o ato de receber. “É preciso deixar que seu amigo
seja de fato um amigo para você”, disse ela. “Às vezes é mais difícil receber.” E
citou um de seus ditados prediletos: “Um amigo conhece a música do meu
coração e a canta para mim quando minha memória falha.”
Quando perguntei a Bill, diretor de um colégio em Portland, se eu poderia
mencioná-lo aqui como o meu amigo jesuíta mais antigo, ele riu: “Diga que sou
seu amigo de longa data, não o mais antigo!” Bill e eu ingressamos no noviciado
no mesmo ano e concluímos os 20 anos de treinamento jesuíta, por isso nos
conhecemos muito bem. Ele é um sujeito agradável, fácil de lidar e tem muitos
amigos.
Para Bill, a “obra” da amizade está relacionada a tomar iniciativas. “É fácil
dizer que vocês querem se ver”, disse ele, “mas é igualmente fácil deixar as coisas
como estão. O desgaste pode acabar com uma amizade se não tomarmos
iniciativas.”
Paula, uma amiga dos tempos da faculdade, é uma mulher cheia de vida e de
fala tranquila. Dez anos depois de concluir sua formação em teologia, ela está
casada, tem dois filhos e trabalha como pastora do campus de uma universidade
jesuíta em Cleveland. Ela riu quando lhe perguntei sobre como manter boas
amizades.
“Com jesuítas ou com os outros?”, quis saber. “Porque para manter a amizade
com jesuítas é preciso ter uma combinação especial de estratégias.”
Paula ressaltou que a “intencionalidade” é um elemento-chave. “Há valores
substanciais que vão além da circunstância que os aproximou? Foi apenas uma
amizade de faculdade ou ela é mais profunda? Vocês são capazes de conversar
sobre aspectos relevantes de suas vidas?”, perguntou.
Ela concordou, do ponto de vista da espiritualidade inaciana, com os alertas
de Shelton contra a possessividade no casamento. “O princípio e fundamento
dos Exercícios Espirituais trata de não sermos apegados a nenhuma coisa ou
pessoa. E isso se estende a nosso cônjuge”, disse ela.
“Quando ouvi pela primeira vez que eu deveria me desprender do meu
marido, achei ridículo!”, conta ela. “Mas, quando amadureci, percebi que por
mais maravilhosa que seja a relação, ela não pode ser mais importante do que o
meu relacionamento com Deus, pois um dia ela acabará. Você não pode ser
totalmente dependente de alguém e contar com apenas uma única pessoa para
preencher suas necessidades. Até porque ela não será capaz de preencher.” Paula
costuma compartilhar essa descoberta com alunas de faculdade que tendem a
fazer de seus namorados o centro de suas vidas.
Colocar Deus no centro de sua vida significa ter menos amor disponível para
o cônjuge? “Ah, não”, ela reagiu imediatamente. “Se Deus está no centro,
sempre há espaço para os outros. Na verdade, há mais espaço.”
Em seu artigo, Shelton observou que um bom amigo também é capaz de
dividir seus sentimentos verdadeiros e dar atenção aos dos outros, mesmo
quando não for algo muito agradável de se fazer. Uma boa pergunta é: Em quem
eu confio para compartilhar minhas emoções negativas? Em outras palavras, com
quem eu posso ser sincero?
Para isso, é preciso ser honesto consigo mesmo. Um de meus amigos mais
próximos é George, que ingressou no noviciado um ano antes de mim. Hoje ele
é capelão de um presídio de Boston. George transmitiu alguns insights preciosos
sobre como a espiritualidade inaciana pode ajudar na amizade.
“A espiritualidade inaciana nos ajuda a sermos honestos conosco e também
nos incentiva a sermos sinceros nos relacionamentos com os amigos”, disse
George. “Meus amigos são aqueles com quem posso ser eu mesmo: eles
conhecem minha história e minhas limitações. Eles também admiram as minhas
virtudes – talvez até mais do que eu mesmo. E quando penso na frase de Inácio,
‘pecadores amados por Deus’, ela facilmente se transforma em ‘pecadores
amados pelos amigos’.”
Isto significa olhar para si e para os amigos com compaixão. “Ser mais
compassivo comigo mesmo”, diz George, “me faz ter mais compaixão pelos
amigos.”

É de grande valia para o crescimento ter um amigo que consegue lhe


mostrar as suas falhas.

– Santo Inácio de Loyola


Assim como George, cada um de meus amigos fez conexões explícitas entre a
espiritualidade inaciana e a amizade. Bob, por exemplo, diretor de um colégio
em Jersey City, é um ouvinte excelente e, em consequência, um ótimo amigo.
Bob refletiu sobre a ligação entre a amizade e o entendimento inaciano do
desejo.
“Do ponto de vista inaciano, Deus interage com uma pessoa diretamente”,
afirmou Bob. “E isso geralmente acontece por meio de nossos amigos. Logo, a
amizade, tanto no apoio quanto nos desafios, é uma das principais maneiras de
descobrirmos Deus. Nós percebemos que somos pessoas amadas e descobrimos
isso em nossos amigos.”
“O desejo por amizade vem de Deus”, disse ele. “É um desejo de descobrir o
que está acontecendo na vida de alguém. E é o desejo pelo infinito, que vem de
Deus, e o desejo de participar do infinito, que é em última análise satisfeito por
Deus, que é nosso amigo.”
Os jesuítas cultivam amizades pela prática do “compartilhamento da fé”. A
prática pode dar pistas sobre como construir relações sinceras com os amigos.

Escute muito

Todos os domingos à noite no noviciado, nossa comunidade se reunia para o


“compartilhamento da fé”, ou seja, para trocar experiências sobre a nossa vida
espiritual. Nesses momentos debatíamos sobre como estávamos vivenciando
Deus no cotidiano e trocávamos experiências sobre oração.
Havia duas regras. A primeira era que tudo era confidencial. A segunda era
que não se podia fazer comentários depois das falas a não ser para pedir
esclarecimento de algum ponto.
A primeira regra fazia sentido, mas a segunda me parecia ridícula. No
começo, quando as pessoas falavam das dificuldades que enfrentavam, eu queria
dizer: “Por que você não tenta isso?” Se alguém dissesse que estava sentindo
falta da sua vida anterior, eu tinha vontade de dizer que o mesmo acontecia
comigo. Se alguém reclamasse da solidão, eu queria dizer: “Bata na minha
porta.” Eu não entendia por que o diretor queria que ficássemos em silêncio.
Aos poucos, eu percebi: era assim que nós conseguiríamos escutar.
A escuta é uma arte perdida. Nós queremos escutar, nós queremos achar que
estamos escutando, mas ficamos tão ocupados preparando o que vamos dizer na
sequência que deixamos de prestar atenção.
Como o nosso diretor de noviços explicou, no noviciado há outras ocasiões
para consolar, incentivar e aconselhar. A prática repercutiu um dos ditados
menos conhecidos de Inácio: “Fale pouco, escute muito.” Lá, também nos
ensinaram que manter a conversa em segredo faz as pessoas se sentirem mais
confiantes para falar.
Comecei a gostar muito do compartilhamento da fé. Quando meus colegas
noviços contavam como haviam experimentado Deus na semana anterior, eu
ficava fascinado. Que maravilha descobrir como aqueles homens eram
complicados e quanto, mesmo assim, todos eles tentavam se tornar mais santos
e ser pessoas e jesuítas melhores.

Escuta atenta
Jesuítas nem sempre são bons ouvintes, e este episódio ilustra bem essa
constatação:
Um padre sábio e idoso, conhecido por sua capacidade na direção
espiritual, conheceu em uma reunião meu amigo Kevin, que na época era
um noviço. O padre perguntou: “Então, de onde você é?” Kevin
respondeu: “De Boston.”
Kevin resolveu perguntar a esse respeitado diretor espiritual algo
relevante. “Padre, qual é a parte mais importante da direção espiritual?” O
velho padre respondeu: “Muito fácil, Kevin: é escutar. Você deve ser um
bom ouvinte. A escuta é o segredo para ser um bom diretor espiritual.”
Kevin exultou: “Obrigado, padre. Foi realmente útil.”
E o padre disse: “A propósito, Kevin, de onde você é?”

Após algumas semanas, eu fiquei não só encantado com o que Deus estava
trabalhando na vida deles como mais tolerante com as suas fraquezas. Quando
um noviço era temperamental, eu lembrava que ele tinha passado por situações
difíceis com a família. Quando outro ficava mal-humorado, eu lembrava que ele
estava lidando com um problema de rebeldia em seu ministério. A maneira
como eles reagiam ao mundo era influenciada por sua própria experiência
subjetiva. Isso me ajudou a praticar as Pressuposições e dar a eles o benefício da
dúvida.
Meu amigo Chris é um irmão jesuíta que trabalhou durante muitos anos no
escritório vocacional ajudando no recrutamento e na seleção de candidatos à
Companhia de Jesus. Ele tinha muitos amigos, entre jesuítas e leigos. Na nossa
entrevista sobre amizade e amor, ele ressaltou o valor da escuta e se referiu ao
compartilhamento da fé.
“Há um bom tempo eu acho o compartilhamento da fé muito importante”,
disse ele. “No começo, morei com um membro da comunidade jesuíta que eu
considerava, digamos, problemático. Conhecer suas lutas nas sessões de
compartilhamento da fé foi útil porque é mais difícil rejeitar ou julgar uma
pessoa quando se sabe que ela está enfrentando questões delicadas.”
Ouvir atenta e compassivamente os meus camaradas noviços também me
ajudava a me sentir menos louco. Até então eu achava que todos, menos eu,
tinham uma vida saudável e harmoniosa. No compartilhamento da fé percebi
pela primeira vez que a vida de todo mundo é uma mistura complexa de alegria
e sofrimento. E que todos nós somos mais complexos do que a nossa aparência
demonstra.

Nós deveríamos demorar para falar e ser pacientes para escutar a todos...
Nossos ouvidos deveriam estar bem abertos para nosso próximo até que
ele pareça já ter dito tudo o que está em seu coração.

– Santo Inácio de Loyola


Escutar também me permitiu comemorar com meus amigos. Quando um
noviço que estava enfrentando problemas pessoais conseguiu resolvê-los, pude
me alegrar bastante com ele, por saber o que ele havia
passado.
A maioria de nós não tem tempo para fazer compartilhamento da fé, ou de
qualquer outro tipo, com nossos amigos durante uma hora por semana.
Mas esse conceito pode fornecer aprendizados importantes para desenvolver
relacionamentos amorosos no cerne das famílias e para conservar boas
amizades. Primeiro, antes de começar a consolar, a aconselhar, ou mesmo a se
compadecer de alguém, verdadeiramente escute. Em segundo lugar, tente
escutar sem julgamento. Em terceiro, quanto mais você souber sobre seu amigo,
mais fácil será compreendê-lo, consolá-lo, animá-lo e até perdoá-lo. Em quarto
lugar, quanto mais compartilhar com honestidade, maior será a sua capacidade
de ajudar. Em quinto, quanto mais você escutar e entender, mais você será capaz
de se alegrar com as vitórias de seus amigos.
Por essas maneiras simples é possível aprofundar nossos relacionamentos,
nossas conversas e nossa compaixão pelos amigos e começar a desenvolver uma
proximidade genuína, em que, como diz São Francisco de Sales, “o coração fala
ao coração”.

Humildade e amizade

James Keenan, um professor de teologia moral, escreveu certa vez que


compaixão é a disposição para entrar no “caos” da vida de outra pessoa. Mas até
os melhores amigos algumas vezes evitam se envolver no caos dos outros. Você
pode ficar impactado com os problemas de um amigo ou se sentir frustrado por
não conseguir resolver as coisas para ele. Inconscientemente, você pode se
distanciar de amigos ou familiares que estejam enfrentando problemas no
trabalho, no casamento, ou doença grave ou morte. O que acontece quando
você sente que não pode ajudar alguém?
É nessas horas que somos chamados não para fazer, mas para ser. Para
lembrar que não somos todo-poderosos. Pouco depois de eu ingressar na
Companhia de Jesus, por exemplo, dois amigos meus tiveram uma discussão
acalorada e cortaram relações. Eu confessei a David, meu diretor espiritual, que
estava muito decepcionado comigo mesmo por não ser capaz de promover a
reconciliação entre eles. Eu estava me sentindo um fiasco e isso estava me
enlouquecendo.
– Um jesuíta não deveria ser capaz de resolver isso? – perguntei.
– De onde você tirou essa ideia? – retrucou ele.
– Bem... é o que Jesus faria. Ele os ajudaria a se reconciliar. Jesus se
empenharia até que houvesse paz entre eles, certo?
– É verdade – disse David. – Jesus provavelmente seria capaz de fazer tudo
isso. Mas sinto lhe informar, Jim, que você não é Jesus!
Nós dois rimos. Não porque aquilo fosse uma bobagem, mas porque era
verdade. Em alguns dos momentos mais dolorosos da vida de nossos amigos e
familiares – doença, divórcio, morte, preocupações com os filhos, problemas
financeiros – normalmente não podemos fazer milagres. Algumas vezes nossos
esforços produzem alguma mudança, mas outras vezes não.
Paradoxalmente, reconhecer nossa própria limitação pode nos libertar da
fantasia de corrigir tudo e nos aproximar, verdadeiramente, da outra pessoa em
uma escuta amorosa. Certa vez li uma tirinha numa revista que mostrava uma
mulher falando com irritação para a amiga: “Não tem como sermos amigas se
você não deixar que eu a corrija.”
Humildade não se aplica apenas à maneira como você se relaciona com seus
amigos, mas com você. Além de não conseguir resolver todos os problemas de
seus amigos (e aceitar que eles não poderão resolver os seus), reconhecer os
próprios defeitos é fundamental se quiser cultivar relações saudáveis. Em outras
palavras, você precisa pedir desculpas e desculpar.
Ao longo dos anos, fiz muitas coisas impensadas com as pessoas. Contei
fofocas sobre elas, suspeitei delas e tentei manipulá-las para fazerem o que eu
queria. Nessas ocasiões, eu sentia necessidade de pedir perdão, algo que está no
âmago da mensagem cristã. Na mesma medida, elas se aproximaram de mim
para pedir perdão.
A maldade existe em qualquer ambiente humano. E as comunidades jesuítas
não são exceção. Por isso, a desculpa e o perdão são sempre necessários. Buscar
o perdão é difícil e, uma vez que isso vai contra os nossos desejos egoístas de
estarmos certos o tempo todo, é sempre um exercício de humildade.
As pessoas me perdoaram quase todas as vezes e as amizades evoluíram. Mas
em uma ou outra ocasião não fui perdoado. Acho que devo orar pela pessoa e
estar sempre aberto para a reconciliação, mas, assim como eu não posso obrigar
ninguém a me amar ou mesmo a gostar de mim, também não posso obrigar
ninguém a me perdoar.

Amizades saudáveis

Vou retomar alguns conselhos do Padre Shelton para relacionamentos


saudáveis e ver se é possível encontrar dicas para nossos próprios
relacionamentos com os amigos e a família.
Sem sinceridade, diz ele, uma amizade se enfraquecerá e morrerá. William
Barry nos deu uma descrição concisa de como isso acontece. “É difícil ser
sincero”, disse ele, “mas, quando algo traumático acontece – por exemplo, a
outra pessoa está doente ou morrendo, ou se estamos irados por algum motivo
–, se não conseguirmos falar sobre isso nos tornamos mais e mais distantes. E, se
há alguma coisa que estamos segurando, então não conseguiremos falar sobre
mais nada. E em pouco tempo teremos perdido um amigo.”
Estar aberto para o confronto, Shelton observa, não é algo que esperamos
fazer por nossos amigos; é também algo que esperamos da parte dos nossos
amigos. Você pode aceitar o eventual confronto de seus amigos, que o acusam
de agir com egoísmo e dizem que precisa se desculpar de vez em quando?
“Há duas dificuldades em ser honesto”, disse meu amigo Chris. “Uma é
quando você sabe que seu amigo não quer escutar alguma coisa. A outra é
quando você não quer falar – sobretudo quando sabe que errou. Mas é
importante ser humilde para admitir os próprios enganos e falhas.”
Amigos também desejam o bem do outro. Isso vale para membros da mesma
família que querem amar uns aos outros. Inácio deu a Francisco Xavier
liberdade para ser a pessoa que ele foi chamado a ser, mesmo que tão distante
dele. Isso também significa se alegrar quando a outra pessoa acerta ou é bem-
sucedida.
Os jesuítas às vezes podem ser competitivos. Sob muitos aspectos isso é uma
coisa boa: a competitividade natural nos impulsiona para conquistas maiores.
Santo Inácio de Loyola, de certa forma, estava sendo “competitivo” com São
Francisco de Assis e São Domingos quando pensou em criar uma nova ordem,
seguindo o exemplo dos dois religiosos. Sem essa saudável competitividade,
Inácio talvez não tivesse fundado a Companhia de Jesus. Mas, quando
envelheceu, ele desistiu do lado sombrio da ambição e até prescreveu regras nas
Constituições jesuítas a fim de limitar e moderar as ambições e a
competitividade nociva entre os jesuítas.
A competitividade é uma característica normalmente presente entre amigos,
parentes, vizinhos, colegas de trabalho ou onde quer que duas ou três pessoas se
reúnam. Durante meus estudos de filosofia e teologia, houve alguma
competitividade saudável. Sempre que eu via meu amigo Davi, que mantinha
suas anotações cuidadosamente ordenadas em um fichário, começar a estudar
alguns dias antes de uma prova, eu sabia que chegara a hora de mergulhar nos
livros. O esforço e a organização de Davi me estimularam a ter melhor
desempenho nos estudos.
No entanto, competitividade em excesso é prejudicial. A competição que leva
uma pessoa a desejar o fracasso da outra fatalmente leva ao fim da amizade.
Padre Shelton lista outro aspecto de uma amizade saudável. É preciso
aprender a manter um silêncio discreto. Em alguns casos, nossos amigos ou
familiares não precisam de nosso conselho. Ou pelo menos não em determinado
momento.
Meu amigo Steve, diretor de um colégio jesuíta, concorda. Graças ao seu bom
humor contagiante e à sua surpreendente capacidade de lembrar datas de
aniversário, ele tem muitos amigos.
Steve falou sobre a importância da discrição nas amizades: “Sou muito
objetivo e gosto de ir direto ao ponto”, disse ele, “e acredito no tipo de conversa
que leva ao âmago da questão, principalmente para aqueles que têm uma vida
agitada. Mas nós também precisamos ser discretos: aprender quando trazer algo
à tona ou esperar por um momento melhor – um momento em que seja bom
para o outro ouvir, e não apenas bom para você falar.”
Às recomendações de Shelton eu acrescentaria mais algumas. Em primeiro
lugar, amigos devem dar uns aos outros liberdade para mudar. A pessoa que
conhecemos há alguns anos, no colégio, na faculdade, no trabalho ou no
noviciado, pode mudar completamente. É importante não obrigar a pessoa a ser
quem ela era no passado. Faz parte da liberdade que podemos dar aos nossos
amigos. E aos cônjuges também. Um amigo casado me confidenciou: “Com
quase toda a certeza, o maior destruidor de casamentos que conheço é a falta de
liberdade para crescer e mudar.”
Em segundo lugar, a amizade é sempre hospitaleira, em vez de exclusiva ou
defensiva. Isso parece razoável, não é? Mas, para os jesuítas, “exclusivo” é uma
palavra pesada.
Durante grande parte do século XX alguns superiores jesuítas censuraram as
amizades particulares. Muita “exclusividade” ou “particularidade” entre jovens
jesuítas poderia estimular vínculos próximos demais e talvez conduzir alguns
dos membros a quebrar seus votos de castidade. Os superiores jesuítas
desencorajavam relacionamentos exclusivos, com a exigência de que durante os
intervalos, quando os noviços passeavam pelo pátio, deveria sempre haver pelo
menos três em cada grupo. Numquam duo, semper tres – Nunca dois, sempre
três!
Essa atitude refletia o mal-entendido generalizado sobre a homossexualidade.
E, mais importante, ela refletia um mal-entendido generalizado sobre amizade.
Ter um amigo íntimo é uma bênção e não uma maldição.
Mas não devemos menosprezar o fato de que os superiores jesuítas
reconheciam que muita exclusividade nas amizades poderia levar as pessoas a
ficarem isoladas e separadas de uma comunidade mais ampla. Quando uma
amizade (ou paixão) se fecha nela mesma e exclui o restante das pessoas, ela se
torna menos saudável, com tendência à atenção obsessiva, a construir
expectativas irreais e a levar os dois lados a se decepcionarem.
Há algumas perguntas que podem ser feitas com relação a se preservar da
exclusividade doentia. Você hesita em acolher outras pessoas em uma relação de
amizade? Sente ciúmes quando seu amigo, ou amiga, se encontra com outros
amigos? Acha que seu amigo deve estar sempre disponível? Se suas respostas
forem “sim” a todas essas perguntas, então você precisa se lembrar de que seu
amigo, ou amiga, não existe apenas para ser seu amigo.
Isso é verdadeiro também para a sua amizade com Deus. Como Maureen
Conroy diz em The Discerning Heart: “Quando crescemos em relacionamento
mútuo com Deus, queremos partilhar com os outros nosso amor generoso.”
Nossa amizade com Deus não é exclusiva, mas inclusiva e hospitaleira.
Em terceiro lugar, as amizades precisam ser regadas com humor. Uma das
facetas mais importantes da amizade é simplesmente divertir, alegrar e dar boas
risadas – elementos de uma psicologia e uma espiritualidade saudáveis.
Amizades são divertidas – uma palavra que está fora de uso nos ambientes
espirituais –, e parte do divertimento é o humor e o riso.
É papel dos amigos nos lembrar de que não devemos nos levar
demasiadamente a sério. Certa vez, meu amigo Chris me ouviu resmungar sobre
um problema insignificante. Depois de alguns minutos de reclamações, cheguei
a me lamentar: “Minha vida é uma cruz!”
Sem perder tempo, ele retrucou: “Uma cruz para você ou para os outros?” Foi
uma brincadeira que me ajudou a colocar as coisas em perspectiva. Quando fico
muito focado em meus próprios problemas, gosto de me lembrar da pergunta
irônica de Chris. O humor ajuda a desinflar nossos egos.
Em quarto lugar, amigos precisam ajudar uns aos outros. A amizade não se
resume a conversas, trocas e escuta. Algumas vezes seu amigo precisa que você
faça alguma coisa: visitá-lo no hospital, ajudá-lo a mudar o sofá de posição,
tomar conta de seus filhos pequenos, emprestar coisas a ele, levá-lo ao
aeroporto. Isso faz parte da obra fundamental de oferecer auxílio e é uma parte
do chamado de todos. Como David Fleming escreve em What Is Ignatian
Spirituality?: “Ajudar não exige preparo intenso e um punhado de diplomas
acadêmicos.”

Crescendo em gratidão

Até aqui o modelo de amizade que descrevi soa quase utilitário: amigos
deveriam fazer essas coisas e evitar aquelas para que esse tipo de amizade
funcione. Mas a amizade, assim como qualquer relação de amor, não é uma
máquina projetada para gerar felicidade. Talvez uma metáfora melhor seja a de
flores em um lindo jardim. A não ser que você seja uma abelha, as flores não
estão lá para fazer algo por você além de serem apreciadas.
Isso me leva à parte final de nossa discussão: a gratidão.
O caminho de Inácio exalta a gratidão. Os Exercícios Espirituais estão repletos
de referências que expressam gratidão pelos presentes de Deus. “Eu considerarei
que todos os bons presentes e todas as boas coisas vêm do alto, do Supremo e
Infinito Poder do alto, assim como os raios procedem do sol”, Inácio escreveu
na Quarta Semana. O exame, como já mencionei, começa com gratidão. Para
Inácio, a ingratidão era “o mais abominável dos pecados: a causa e a origem de
todos os pecados e desventuras”.
Quando perguntei a Steve sobre amizade, a primeira coisa que ele mencionou
foi despertar a gratidão durante o exame de consciência. “Quando penso sobre
amizade, a primeira coisa que me vem à mente é encontrar Deus em todas as
coisas”, disse ele. “Isso vem à tona ao longo do meu exame, quando Deus me
direciona para coisas que Ele considera importantes, em vez daquilo em que eu
possa estar focado. Muitas vezes são os amigos ou os relacionamentos com
outros jesuítas – até nas situações mais corriqueiras: algum comentário furtivo
nos corredores ou o sermão de outro padre. O exame me ajuda a ser mais
cuidadoso com meus amigos e mais agradecido por tê-los em minha vida.”
Minha amiga Paula, por sua vez, observou ironicamente que, embora todos
possam dizer que são gratos por seus amigos, o exame proporciona um foco
maior na gratidão. “O exame sempre auxilia nas amizades e nas relações
familiares”, disse ela, “porque ele enfatiza a gratidão.” Para Irmã Maddy, mesmo
nos dias em que os amigos não estão presentes, nós devemos ser gratos por eles.
“Todas as noites, durante meu exame, me lembro de agradecer por meus amigos
– ainda que não tenha estado com eles naquele dia. Eu sou grata por eles, não
importa onde estejam.”
Paul, que é reitor de uma grande comunidade jesuíta, disse que a gratidão era
a parte mais negligenciada da amizade. Ele tem uma longa experiência em
aconselhar pessoas na área espiritual. “Uma das partes mais importantes da
amizade é viver em gratidão por esse dom e crescer nesse tipo de gratidão”, disse
ele.
Paul observou que um problema comum nas amizades jesuítas derivava da
falta de gratidão. Sem gratidão, a amizade vira coisa corriqueira. “Acaba-se
esquecendo que é preciso algum esforço. E as coisas pequenas importam:
reservar tempo para dar um telefonema, manter contato. Se as pessoas
consideram uma amizade e conseguem valorizá-la, ficam mais propensas a se
empenhar para conservá-la.”
Amizades verdadeiras são difíceis de conquistar, disse Paul, e elas dão
trabalho. E exigem paciência. “Há um grupo reduzido de pessoas que, sabe-se lá
por que, têm facilidade para fazer amigos e para mantê-los. Mas com a grande
maioria das pessoas isso não acontece, e é preciso ter paciência para esperar por
um grande amigo ou amiga. Quando imaginamos amizades, costumamos
pensar nas coisas acontecendo instantaneamente. Mas, como qualquer coisa que
é rica e maravilhosa, você cresce em gratidão.”
Este capítulo pode tê-lo ajudado a encontrar meios para fortalecer ou
aprofundar a sua valorização dos relacionamentos com a família e os amigos.
Mas o que dizer para os leitores para quem falar de amizade só os faz lembrar de
sua solidão? Se aqui é onde você está, saiba que pode desfrutar da amizade de
Deus na oração, percebendo como Ele está ativo no seu trabalho, na sua leitura e
no seu lazer.
E, ainda, o que eu posso dizer àqueles que anseiam por um bom amigo?
Seria errado minimizar a dor da solidão: eu tenho conhecido muita gente
solitária cujas vidas estão repletas de tristeza. Talvez eu possa sugerir a alguém
nessa situação que se mantenha receptivo à possibilidade de encontrar novos
amigos e que não se entregue ao desespero, confiando, o máximo que puder,
que Deus quer que você um dia encontre uma bela amizade. O próprio desejo
por amizades é um convite de Deus para você estender a mão para os outros.
Acredite que Ele deseja que você viva em comunidade, ainda que esse alvo
pareça distante.
“Para os que questionam a razão de isso não acontecer mais rapidamente em
suas vidas”, prosseguiu Paul, “acho que é mais importante amar e dar o
primeiro passo. E pode parecer também que a maioria das pessoas tem que
passar a vida dando mais do que recebendo.”
“Mas no final”, concluiu Paul, “mesmo com todo o trabalho envolvido,
mesmo que você só tenha conseguido um amigo, ou amiga, durante toda a sua
vida, vale a pena!”
Capítulo 11

Render-se ao futuro
Obediência, aceitação e sofrimento

S anto Inácio foi bem claro sobre o lugar da obediência na vida de um jesuíta.
Foi assim que ele começou a falar sobre esse voto nas Constituições, em uma
seção chamada “No que concerne à obediência”:

Todos devem estar resolutamente dispostos a praticar a obediência e a se destacarem nela não apenas
nas questões de obrigação, mas em todas, ainda que nada mais seja percebido além de um sinal da
vontade do superior sem um comando expresso.

Em outras palavras, nós, jesuítas, devemos nos distinguir pela obediên​cia, e


apenas o sinal de uma intenção de um superior deve ser motivo suficiente para
agirmos. E mais: nós devemos receber a voz de comando de nosso superior
“como se ela viesse de Cristo”, uma vez que estamos praticando obediência por
amor a Deus. Devemos estar prontos para colocar de lado tudo o que estivermos
fazendo – até estarmos “prontos para deixar qualquer texto inacabado” –
quando entendermos o que o superior deseja.
Para a maioria das pessoas é impossível compreender isso. Muitos até acham
o termo superior, que é usado para o líder de uma comunidade religiosa, muito
esquisito. Rick Curry, um amigo jesuíta, conhecia uma psiquiatra que morava
no mesmo prédio em que ele tem um escritório. Em uma ocasião, Rick estava
no elevador acompanhado de outro jesuíta e o apresentou à psiquiatra:
– Este é meu superior – disse ele.
Depois que o outro deixou o prédio, ela disse a Ricky:
– Eu preferiria que você não dissesse coisas desse tipo.
– Que coisas?
– Ora, ele não é seu superior! Sob todos os aspectos você é tão bom quanto
ele!
Rick sorriu e tentou explicar o que o termo significava em seu contexto.
Antes de abordarmos como a experiência jesuíta com a obediência pode
ajudar na sua vida cotidiana, vou explicar o voto de obediência.

A obediência como escuta

Na época de Inácio, a obediência era uma parte normal da vida religiosa.


Desde que aquele grupo de amigos com os mesmos propósitos decidiu formar
uma ordem religiosa, seria impensável organizar a coisa de qualquer outra
maneira. A obediência sempre fez parte, e continua fazendo, de quase todas as
ordens religiosas católicas.
A palavra vem do latim oboedire, que contém a raiz de “ouvir” e significa
ouvir ou escutar. Assim como os votos de pobreza e castidade, a obediência é
destinada a nos ajudar a seguir o exemplo de Jesus, que escutava e era obediente
a Deus Pai.
Homens e mulheres nas ordens religiosas acreditam que Deus está operando
não só por meio de suas próprias orações e vidas diárias, mas também por meio
das decisões de seus superiores, que tentam discernir a direção certa a tomar.
Nós cremos que o Espírito de Deus está operando através das decisões do
superior, que, assim como o jesuíta que lhe está subordinado, está tentando
“ouvir” Deus.
Isso não significa que o superior toma as decisões completamente sozinho.
Superior e jesuíta tentam discernir juntos os desejos de Deus. Antes de designar
um jesuíta para uma tarefa em particular, o superior leva em conta os desejos da
própria pessoa, uma vez que ele sabe que essa é uma maneira de os desejos de
Deus serem conhecidos. Isso é o que o fundador da Ordem dos Jesuítas
pretendia.
Os jesuítas William Barry e Robert Doherty observam em Contemplatives in
Action: The Jesuit Way que a insistência de Inácio no discernimento individual é
surpreendente quando se considera como eram hierárquicos e autoritários os
ambientes em que ele circulava – cortes de reis e nobres, círculos militares,
academia e Igreja. Contudo, eles escrevem: “Inácio também tinha expectativas
de que a vontade de Deus pudesse se manifestar através da experiência dos
próprios homens.”
Como um superior conhece os desejos de um homem? Por meio de uma
prática chamada “consideração da consciência”. Uma vez por ano, o superior
regional se reúne com cada jesuíta sob seus cuidados para discutir seu trabalho,
sua vida em comunidade, seus votos, suas amizades e sua vida de oração. Assim
o superior tem uma ideia clara da vida interior do jesuíta e fica mais capacitado
a dirigi-lo.
Depois que uma decisão é tomada, se um jesuíta sente que não foi
contemplado adequadamente, ele pode retornar ao superior e pleitear. A isso se
chama “recorrer”. Se isso também não o satisfizer, o jesuíta pode apelar para
uma autoridade mais elevada, até chegar ao superior geral. Mas, no final – a não
ser que seja uma questão de consciência –, o jesuíta está preso ao seu voto de
obediência. Depois da oração, da conversa e do discernimento, mesmo que sinta
que é uma decisão indesejada, ele deve aceitá-la.

Jesuítas espertos
Os jesuítas devem ser inteligentes – e até espertos – quando se trata de
obediência. Conta a piada que um jesuíta, sentindo-se culpado por um
mau hábito, pergunta ao seu superior: “Padre, posso fumar enquanto
rezo?” Horrorizado, o superior responde: “Claro que não!” E então vem a
história de outro jesuíta que tinha esse mesmo hábito. Depois de refletir
sobre a questão, o jesuíta fumante mudou a pergunta: “Padre, posso rezar
enquanto fumo?” “É claro, meu filho!”, respondeu o superior.

Ou, como supostamente disse um superior jesuíta: “Eu pondero, você


pondera, nós ponderamos, mas eu decido!”
Desde os anos 1960, os superiores jesuítas recuperaram a compreensão
original de Inácio de que Deus está operando por meio dos desejos, das
esperanças e dos talentos do homem, assim como a pessoa irá progredir mais se
optar por uma função da qual goste. Em sua maioria, os jesuítas que lecionam
em universidades, por exemplo, passaram anos se preparando para o trabalho e
se sentem felizes por utilizarem seu preparo acadêmico, e seus superiores
também ficam felizes por os terem designado para tal missão. A verdade é que a
consideração pelos desejos e talentos de um homem há muito tempo faz parte
do processo de tomada de decisão dos jesuítas. “Se as pessoas entre nós
mostrarem zelo e aptidão por determinada tarefa – por exemplo, as missões
estrangeiras –, elas podem, de modo geral, ser designadas a realizá-la”, escreveu
o jesuíta inglês Gerard Manley Hopkins em 1874.
Cumprir a vontade dos superiores normalmente é uma experiência agradável
quando se sente que o seu desejo e as necessidades de uma comunidade mais
ampla estão alinhados. Mas há momentos em que você é enviado para algum
lugar que não teria escolhido. Ou é mandado fazer algo que preferiria não fazer.
Muitos leitores que têm dificuldade de aceitar esse aspecto da obediência
talvez possam aceitá-lo mais facilmente por uma razão mais prática: alguém
precisa estar no comando. É preciso haver uma autoridade máxima para dirigir
uma ordem religiosa de alcance global, como Inácio fez. Portanto, o voto de
obediência é sempre “apostólico”, como o são os outros votos – isto é, ele nos
ajuda a cumprir nossas tarefas com mais diligência.
Na verdade, sempre me surpreende a quantidade de pessoas que criticam a
obediência nas ordens religiosas, mas a praticam religiosamente em suas
próprias vidas. Muitos dos que trabalham em empresas prestam contas a um
gerente que lhes dá direcionamentos que eles muitas vezes não escolheriam por
si próprios. Quando trabalhava na General Electric, vi muitos funcionários
antigos serem transferidos para cidades longínquas, mas eles nunca pensariam
em reclamar, porque eram muito dedicados à empresa. Essas decisões são vistas
como necessárias para a organização atingir suas metas – assim como as
decisões em uma ordem religiosa.
Passei seis anos trabalhando em empresas nos Estados Unidos, por isso posso
afirmar que na Companhia de Jesus há mais diálogo sobre esses assuntos do que
no mundo corporativo. O superior religioso leva em conta nossos desejos,
sentimentos e conclusões, mas isso nem sempre acontece no mundo dos
negócios.
Além dos votos regulares de pobreza, castidade e obediência que fazem os
membros das ordens religiosas, Inácio pediu que muitos jesuítas fizessem o que
ele chamava de “quarto voto”. No fim de seu treinamento, um jesuíta promete
“obediência especial ao soberano pontífice com respeito a missões”.
Qual era a ideia por trás desse voto? Mobilidade por todo o mundo. Inácio via
o quarto voto nem tão centrado no papa – embora esperasse que seus homens
tivessem um profundo respeito pelo Santo Padre –, mas por entender que o
papa sabia onde as carências eram maiores, por conta do seu conhecimento
completo da Igreja em todo o mundo. “O voto presumia que o papa tinha a
visão geral requerida para um posicionamento mais efetivo na ‘vinha do
Senhor’”, escreveu John O’Malley em The First Jesuits.
“É um voto para ser missionário, para viajar para qualquer lugar do mundo”,
declarou Padre O’Malley em uma carta.
A vontade de Inácio era clara: a obediência de um jesuíta era uma marca
distintiva da vida religiosa. Mas, além de garantir a eficiência de uma ordem
religiosa, quais são os outros benefícios da obediência?
A pobreza nos libera para viver com simplicidade e nos liberta de preo​cu​pa​-
ções com bens materiais. A castidade nos libera para amar as pessoas livremente
e para nos movimentarmos com mais desembaraço. Obediência também tem a
ver com liberdade. Ela nos liberta de um excesso de interesse próprio, de
carreirismo e de orgulho e nos permite responder mais prontamente às maiores
carências da comunidade. Em vez de ficarmos imaginando qual a melhor
maneira para eu seguir em frente, a obediência nos leva a confiar que nossos
superiores, que presumivelmente têm uma ideia melhor das maiores carências,
serão capazes de responder a outra pergunta: De que forma os talentos desta
pessoa podem servir melhor às carências da comunidade?
A obediência nos livra desse encargo.
Como isso funciona na prática? Se alguém perguntar à maioria dos jesuítas
sobre obediência, ouvirá a respeito das experiências de serem designados ou
enviados para um novo trabalho. São Francisco Xavier foi para as Índias e Santo
Isaac Jogues para a Nova França não apenas porque quiseram ir, mas porque
foram designados para lá. O voto de obediência que eles fizeram deu aos seus
trabalhos a dimensão adicional de estarem sob a direção e os cuidados de Deus.
Como todos os jesuítas, eles acreditavam que a sua missão estava sintonizada o
máximo possível com os propósitos de Deus, uma vez que fluíra do desejo deles
de servir a Deus e fora confirmada por seus superiores. Em resumo, os
missionários acreditam que Deus leva seus votos a sério, porque o voto
verdadeiro é feito a Ele, a quem todos os jesuítas obedecem.

Com o máximo possível de amor e caridade


Como a obediência aparece na vida cotidiana de um jesuíta? Os superiores
ficam dando ordens pela casa ou enviando as pessoas arbitrariamente para
missões fortuitas?
A resposta é diferente da que teria sido dada há algumas décadas. No passado,
os jesuítas americanos não costumavam tomar conhecimento de suas tarefas
durante a conversa com seus superiores, mas somente quando a lista anual de
transferências era publicada em 31 de julho, dia consagrado a Santo Inácio de
Loyola.
Certa vez, um jovem jesuíta, ao examinar a lista, viu, para seu espanto, que
havia sido designado para ensinar química. Bem, com certeza foi um equívoco,
pensou ele. Não só ele nunca havia ensinado essa matéria como também nunca
a havia estudado. Ele então descobriu o que tinha acontecido: havia outro
jesuíta, com o mesmo sobrenome que o dele, que era formado em química e
tinha sido designado para ensinar inglês – matéria que aquele outro havia
estudado. Então ele marcou uma audiência com o superior para “recorrer”.
– Padre, acho que o senhor cometeu um equívoco – disse o jovem jesuíta.
Quando ele me contou essa história, fez uma pausa, deu uma risada e disse:
“Bem, essa era a última coisa que o meu superior queria ter ouvido!” Irritado
com a presunção do jovem, o superior garantiu que nenhum equívoco havia
ocorrido: ele havia sido designado para ensinar química em um dos colégios da
província.
– E o que você fez? – perguntei.
– Eu ensinei química durante um ano. E sabe o que mais? Eu fui bom nisso
também!
Aquele episódio foi uma confusão que meu amigo transformou em graça.
Alguns jesuítas alimentaram grandes ressentimentos sobre decisões infelizes
tomadas por seus superiores. Certa vez, um amigo jesuíta se reuniu com um
grupo de integrantes da ordem, amigos e familiares e afirmou categoricamente:
“Tudo o que eu conquistei na Companhia de Jesus foi o despeito de meus
superiores!”
Durante grande parte do século XX, a ênfase foi colocada no discernimento
do superior, e não no do indivíduo. Mas desde o Concílio Vaticano II, quando
as ordens religiosas foram exortadas a resgatar o espírito de seus fundadores, os
jesuítas recuperaram esta faceta essencial da sabedoria inaciana: o Espírito Santo
opera por meio de todos. Hoje, as decisões são amadurecidas em um longo
processo de conversas e orações.
Mas o que acontece se alguém ainda não concorda? Bem, é possível
“recorrer” e explicar suas razões por uma última vez. No caso raro em que uma
séria controvérsia se instala, o superior pode ordenar que o jesuíta aceite a
decisão “sob obediência”. Nessa circunstância, o desafio é encontrar uma
sensação de paz e confiar que Deus está no controle mesmo nas decisões com as
quais não se concorda.
No âmago dessas deliberações está a responsabilidade do superior de orar
para descobrir a vontade de Deus e de levar sua decisão com amor para o
jesuíta. Como Barry e Doherty escrevem: “A prática da obediência na
governança jesuíta, obviamente, não implica autoritarismo e arbitrariedade...
Inácio quer que os superiores ajam com amor, mesmo quando precisam fazer
algo doloroso para alguém.” Por exemplo, pedir a um jesuíta que faça algo que
ele preferiria não fazer.
Isso inclui a decisão mais dolorosa de todas: a de exonerar alguém dos
jesuítas. De fato, Inácio alinhavou cuidadosamente os passos a serem dados
depois que for tomada a decisão de pedir que um integrante deixe a ordem. Esse
exemplo de um superior misericordioso poderia ser aproveitado pelo mundo
corporativo.
Primeiro, disse Inácio, o superior deverá assegurar-se de que o homem é
capaz de deixar a casa com o respeito de seus pares, sem nenhuma vergonha ou
desonra. Segundo, o superior deverá dispensá-lo com o máximo de amor e
compaixão possível por parte da comunidade e com todo o conforto esperado
no Senhor. Terceiro, ele deverá conduzi-lo para outras boas maneiras de servir a
Deus, quer na vida religiosa, quer fora dela, ajudando-o com conselhos, orações
ou com o que parecer melhor.
Ironicamente, essa lista inusitada de como proceder na dispensa de um
integrante está entre os escritos mais comoventes de Inácio. Seu coração sensível
é revelado com mais clareza do que em qualquer outra parte das Constituições.
Inácio encara até essa decisão violenta sob a égide do amor. Compare isso com a
maneira como as demissões e as dispensas geralmente são conduzidas no
universo das empresas.
Todos os jesuítas entendem os objetivos da obediência. Mas há ocasiões em
que mesmo com esse entendimento ela permanece um desafio. Vou contar duas
histórias curtas sobre isso.
Duas histórias sobre obediência

O jesuíta Robert Drinan foi durante muitos anos um deputado federal por
Massachusetts. No fim dos anos 1960, sua oração e seu discernimento o levaram
a concluir que ingressar na vida política seria a melhor forma de efetuar
mudanças duradouras na sociedade, e ele obteve aprovação de seus superiores
para concorrer ao cargo. Ele permaneceu na vida pública até 1981 e tornou-se
conhecido por ser o primeiro membro do Congresso a pedir o impeachment do
presidente Richard Nixon em 1973, por causa de sua conduta durante a Guerra
do Vietnã.
Mas o Vaticano deliberou que os padres não deveriam se envolver
diretamente na atividade política, e Pedro Arrupe, então superior geral da
Companhia de Jesus, em obediência a seu superior – o Papa João Paulo II –,
ordenou que Drinan não concorresse à reeleição em 1980. As declarações de
Drinan em uma entrevista coletiva foram impressionantes. Lá estava um jesuíta
abdicando de seu importante trabalho e – mais importante – confiando na
obediência que fizera parte de seus primeiros votos.

Eu me sinto honrado e orgulhoso por ser padre e jesuíta. Como homem de fé, devo acreditar que há
uma tarefa para eu realizar que, de algum modo, será mais importante do que o trabalho que estou
sendo requisitado a abandonar. Eu assumo esta nova peregrinação com tristeza e orações.

Em seguida, Robert se tornou um conceituado professor de direito da


Universidade de Georgetown e autor de muitos livros e artigos sobre direitos
humanos, respeitado dentro e fora dos círculos religiosos. Nos últimos anos de
vida, ele foi criticado por alguns de seus escritos sobre o aborto. Ainda assim,
sempre o admirei como alguém que demonstrou o que significava confiar que
Deus está trabalhando até nas decisões mais dolorosas.
Algumas décadas antes, outro jesuíta proeminente, o teólogo John Courtney
Murray, se defrontou com uma ordem semelhante. Homem erudito, Murray era
um acadêmico brilhante que havia sido capa da revista Time. Mas a sua
reputação não o impediu de aceitar uma dura decisão de seus superiores.
Nos anos 1950, um grupo de talentosos teólogos, entre eles Murray, foi
silenciado pelas autoridades do Vaticano e por suas próprias ordens religiosas.
Murray, que era professor de teologia na Faculdade Jesuíta de Woodstock, havia
escrito muito sobre a questão de Igreja e Estado, propondo que a liberdade
religiosa fosse matéria constitucional, isto é, que a liberdade de culto dos
indivíduos estivesse de acordo com os ensinamentos católicos. O Vaticano não
concordou e, em 1954, os superiores de Murray lhe ordenaram que parasse de
escrever sobre esse tópico. Um jesuíta lembrou-se de tê-lo visto devolvendo
tranquilamente todos os seus livros sobre o tema para a biblioteca da Faculdade
Woodstock.
Alguns anos mais tarde, entretanto, foi graças a isso que Francis Spellman, o
poderoso cardeal arcebispo de Nova York, conseguiu que Murray fosse
nomeado autoridade especialista do Concílio Vaticano II. Lá, o anteriormente
silenciado Murray serviria como um dos arquitetos da “Declaração sobre
Liberdade Religiosa” do Concílio, que recorreu ao trabalho anterior de Murray
que tinha sido banido e afirmou com clareza que a liberdade religiosa era um
direito de todos. Próximo ao fim do Concílio, John Courtney Murray,
juntamente com outros acadêmicos que haviam sido silenciados, foi convidado
a celebrar uma missa com o Papa Paulo VI, como um sinal público de sua
“reabilitação” oficial.
Talvez você esteja lendo sobre esses dois jesuítas e pensando: Isto é ridículo!
ou Por que Drinan não continuou sua carreira política?, ou, ainda, Por que
Murray não continuou escrevendo sobre o que queria escrever? De fato, alguns
jesuítas decidiram que não conseguem viver sem observar seus votos e
preferiram deixar de dizer ou de fazer o que gostariam.
O que capacitava homens como Drinan e Murray a aceitar essas decisões
superiores era acreditar que Deus estava, de algum modo, no controle. Por meio
de seus votos, oferecidos livremente a Deus, eles acreditavam que Ele
intercederia mesmo que as decisões de seus superiores parecessem ilógicas,
injustas ou mesmo tolas.
A posição é similar à seriedade com que os casais perseveram em seus votos
de casamento nos períodos difíceis. É comum que ocorram na vida conjugal
situações insanas, perturbadoras e destrutivas que precisam ser confrontadas e
mudadas. Porém, em meio a tudo isso, o casal acredita que, embora seu
casamento esteja passando por um período turbulento e não pareça ter mais
sentido, seus votos permanecem como um sinal da aliança de Deus com eles,
como um símbolo da sacralidade de seu compromisso e uma razão para confiar
que Ele os está acompanhando. Os votos são parte do relacionamento de uma
pessoa com Deus, e a pessoa confia que Ele cumprirá Sua parte no trato.
O voto de obediência raramente conduz a situações que sejam realmente
dolorosas. Na maioria das vezes o voto é cumprido com facilidade, e grande
parte dos jesuítas começa sua nova missão com entusiasmo. E, mesmo nos casos
em que no primeiro instante eles não concordam com a decisão tomada, a
sabedoria é quase sempre reconhecida no futuro, algumas vezes após muitos
anos.
Em determinado momento de minha formação, quando eu estava na África,
eu me apaixonei por uma pessoa. Na ocasião, eu tinha reunido toda a
documentação necessária e havia sido aceito no mesmo programa de graduação
em teologia que meus colegas haviam cursado.
Quando contei por telefone ao meu superior como me sentira confuso ao me
apaixonar e como isso me fizera refletir sobre a questão da vocação sacerdotal,
ele resolveu que seria melhor adiar por um ano minha matrícula no curso de
teologia.
Foi uma grande decepção. Ora, meus amigos já sabiam que eu havia sido
aprovado academicamente para o curso. A decisão de meu superior me obrigava
a aceitar o adiamento. Temi que isso pudesse ser um aviso para que eu deixasse
a Companhia de Jesus. Teria eu fracassado como jesuíta?
Na verdade, nunca estive tão perto de deixar a ordem. Por que ficar, se eu não
podia fazer o que desejava? Por que ficar, diante daquele constrangimento? Por
que ficar, se os jesuítas aparentemente não me queriam? Foi assim, de maneira
equivocada, que eu interpretei a situação; o superior não havia dito ou
insinuado nada sobre a minha saída.
Confuso, encontrei meu diretor espiritual, um jesuíta fervoroso e compassivo.
George fora um professor de ciências por muitos anos e descobrira tarde os
exercícios espirituais de Inácio. Aos 70 anos, ele aceitou uma nova incumbência
na casa de retiro de Nairóbi, onde eu o procurava para direcionamento
espiritual uma vez por mês. Ele era um homem agradável, de cabelos muito
brancos e sorriso largo. Estar na presença de George era um bálsamo para meu
espírito. O respeito que eu tinha por ele era ainda maior do que o que eu nutria
por outras pessoas.
Ou minha gratidão era acima da média. Certa vez, quando contraí
mononucleose e estava doente demais para levantar da cama, George dirigiu
durante uma hora, da casa de retiro até a comunidade em que eu vivia, para me
prestar ajuda espiritual. “Estou fazendo uma consulta a domicílio!”, disse ele
com carinho.
Depois que falei com meu superior, passei a me preocupar com meu futuro
como jesuíta. No dia seguinte ao telefonema, fui até a casa de retiro e contei a
George a má notícia. Como eu poderia aceitar a decisão ridícula do meu
superior? O que eu iria dizer para minha família e para meus amigos,
principalmente os que também eram jesuítas e sabiam que eu tinha tudo pronto
para começar os estudos de teologia?
George, pacientemente, me fez recordar todas as coisas boas que tinham
acontecido durante minha estada no Quênia. A Agência Jesuíta para Refugiados
havia ajudado um número considerável de refugiados a iniciar o próprio
negócio, eles tinham montado confecções, padarias, carpintarias e até
restaurantes. Após um ano, inauguramos uma loja para comercializar o
artesanato feito por eles. Eu fizera vários amigos entre os refugiados e tinha
dado e recebido muito amor. E as minhas orações como jesuíta haviam sido
úteis e consoladoras. George até me lembrou daquela experiência contemplativa
no alto da colina, no caminho do trabalho para casa, e da sensação que eu tivera
naquele lugar.
“Como você pode duvidar de sua vocação depois de tudo isso?”, questionou.
Mas eu estava inflexível. A decisão do superior era um sinal de que devia
deixar a ordem. Olhando para trás, parecia claro que eu estava me afastando a
passos largos de Deus e abraçando o desespero, abrindo mão de um adiamento
do meu curso para o total abandono do meu objetivo. O “inimigo”, como disse
Inácio, estava agindo – trabalhando no meu orgulho e rapidamente me
conduzindo ao desespero e a uma decisão precipitada.
George perguntou:
– Jim, como você enxerga a sua formação jesuíta?
Não entendi bem a sua pergunta. Então ele me dirigiu para uma reflexão que
mudou a minha percepção da vida espiritual.
– É uma prova de obstáculos que você tem de saltar? É uma escada que você
está subindo para chegar a algum lugar? Ou é como Deus o está moldando?
Envergonhado, admiti que encarava a formação jesuíta como uma prova de
obstáculos em que eu teria de saltar muitas vezes para atingir o grande objetivo:
ordenar-me padre. Eu ainda enxergava a ordenação mais como um trabalho –
em que a meta era uma promoção – ou como uma escola – a graduação. No
entanto, talvez algo maior estivesse em andamento. Talvez eu realmente
estivesse sendo “formado” por Deus.
Com a ajuda de George, reconheci algo importante: o contentamento que eu
experimentara como jesuíta naqueles últimos dois anos tinha sido real. Eu fora
chamado a ser um jesuíta no meio de tudo isso e, portanto, também fora
chamado a aceitar a decisão de meu superior. A mão de Deus, tão difícil de eu
enxergar, devia estar em operação. Então resolvi ficar.
Após outras conversas, o superior me indicou para assumir uma nova tarefa:
trabalhar na revista America.
A “má” decisão daquele superior acabou me conduzindo a uma carreira de
escritor. Não fosse pela decisão que ele tomou, à qual me opus com veemência,
você não estaria lendo este livro. Hoje, ao olhar para trás, posso entender como
a minha vida teria sido diferente caso eu não tivesse sido fiel ao meu voto de
obediência.
Anos depois, encontrei esse meu antigo superior em uma celebração de Natal
dos jesuítas. Nessa ocasião nós já éramos amigos. Mas eu nunca conversara com
ele sobre a provação que passei no Quênia.
– Pois é, você esteve certo aqueles anos todos – eu lhe disse na festa de Natal.
– Sobre quê? – ele quis saber.
– Sobre adiar meu curso de teologia. Olhando para trás, reconheço que não
estava pronto. Eu andava muito inquieto e confuso e não estava preparado para
fazer um bom curso e receber a ordenação. Aquele ano na revista America
mudou minha vida. Portanto, fazendo uma retrospectiva, você estava certo.
Eu esperava que ele dissesse que então, depois de tanto tempo, ele podia
finalmente vislumbrar a sabedoria de sua decisão. Ao contrário, ele riu e disse
com a maior naturalidade:
– Jim, eu já sabia que estava certo naquela época!

A realidade da situação

Por isso os jesuítas fazem voto de obediência. Grande coisa, certo?


Provavelmente você está se perguntando o que isso tem a ver com você. É quase
certo que você não pertença a uma ordem religiosa e nem pretenda fazer parte
de alguma. Você provavelmente nunca fará “voto de obediência” a quem quer
que seja – a não ser em uma cerimônia religiosa tradicional, que mesmo assim é
um tipo diferente de “obediência”.
Pode ser difícil entender como esse aspecto da espiritualidade jesuíta se
relaciona com a sua vida. A pobreza e a castidade têm aplicações mais claras: a
pobreza encaminha para a liberdade da vida simples. A castidade oferece a
possibilidade de se amar livremente e de ser um bom amigo. Mas o que dizer da
obediência?
Bem, obediência é uma coisa que todo mundo terá que enfrentar na vida
espiritual. Porque, estando ou não em uma ordem religiosa, você terá que se
render à vontade ou aos desígnios de Deus. Mas não da maneira que você pode
pensar.
Geralmente, quando pensamos sobre a vontade de Deus, pensamos em tentar
entender tudo isso. O que é a vontade de Deus? O que devo fazer? Um dos
temas deste livro tem sido o modelo inaciano de “discernimento”, pelo qual
nossos desejos ajudam a revelar os desejos de Deus para nós. Nós procuramos
sinais daqueles desejos em nossas vidas.
Porém há um perigo: podemos fazer vista grossa para o fato de que o “plano”
de Deus muitas vezes não precisa de muito entendimento ou discernimento.
Algumas vezes ele está bem diante de nós. E foi o que um dos meus heróis
jesuítas descobriu em um campo de trabalhos forçados da União Soviética.
No começo deste livro, contei a história de Walter Ciszek, o padre jesuíta
americano que havia sido mandado por seus superiores para trabalhar na
Polônia no final da década de 1930. Originalmente interessado em servir a Deus
na União Soviética, Ciszek achava impossível entrar naquele país e foi parar em
uma igreja de liturgia oriental em Albertin, Polônia. Quando o exército alemão
ocupou Varsóvia em 1939, e o exército soviético invadiu o leste da Polônia e
Albertin, Ciszek se evadiu junto com outros refugiados poloneses para o
território soviético, na expectativa de servir por lá (disfarçadamente) como
padre.
Em junho de 1941, Ciszek foi detido pela polícia secreta soviética sob suspeita
de espionagem. Ele passou cinco anos na execrável prisão Lubianka, em
Moscou, e recebeu a sentença de 15 anos de trabalhos forçados num campo da
Sibéria. Mesmo como prisioneiro, ele serviu como sacerdote aos seus camaradas
de cativeiro, arriscando sua vida em aconselhamentos, ouvindo confissões e –
mais perigosamente que tudo – celebrando missas clandestinas.

Nós celebrávamos a missa em armazéns muito gelados, ou agachados na lama e na neve derretida... No
entanto, nessas condições primitivas a missa nos transportava para perto de Deus de um modo que
ninguém poderia imaginar.
Ciszek só retornaria aos Estados Unidos em 1963. Durante muito tempo os
jesuítas acreditaram que ele estivesse morto. E por que não acreditariam? A
Companhia de Jesus expediu um comunicado oficial de sua morte em 1947.
Mas, próximo ao final de seu cativeiro, permitiram que ele escrevesse cartas para
casa. Só então seus familiares e amigos ficaram sabendo que estava vivo.
Depois de uma negociação diplomática delicada com a participação do
presidente Kennedy, ele voltou aos Estados Unidos em 12 de outubro de 1963,
vindo diretamente para a comunidade jesuíta em Nova York.
Ciszek logo começou a escrever a história de sua longa temporada na Rússia,
chamada With God in Russia, detalhando as condições extremas em que viveu –
sua súbita captura pelos soviéticos, os interrogatórios estafantes, a longa viagem
de trem para a Sibéria, os campos de concentração deprimentes e sua libertação
final no meio da população russa como um ex-condenado sob vigilância. Mas,
alguns anos depois, ele percebeu que o livro que desejava verdadeiramente
escrever era sobre uma história diferente: a sua jornada espiritual.
Ciszek escreveu que quis responder à pergunta que lhe faziam
constantemente: “Como você conseguiu sobreviver?” “Foi a Divina Providência
que me ajudou”, respondeu ele. Em seu livro, ele conta como encontrou Deus
em tudo, até em um campo de trabalhos forçados soviético.
Em um dos capítulos mais interessantes do livro, Ciszek descreve uma
aparição divina sobre o que significa seguir a “vontade de Deus”. Durante muito
tempo, quando labutava no campo de prisioneiros, ele refletia sobre como seria
capaz de garantir seu futuro. Qual era a vontade de Deus? Como ele devia
entendê-la? Certo dia, junto com outro padre que também era prisioneiro,
Ciszek teve uma revelação. Quando se trata da vida cotidiana, a vontade de
Deus não é uma ideia abstrata que deve ser descoberta, decifrada ou mesmo
compreendida. Ao contrário, a vontade de Deus é o que aparece diante de nós
todos os dias.

A vontade [de Deus] se manifesta 24 horas por dia: as pessoas, os lugares, as circunstâncias que nos são
apresentados diariamente. Essas são as coisas que Deus sabe que são importantes para cada um de nós
naquele momento, e são as coisas sobre as quais Ele quer que eu atue. Nada relativo a algum princípio
abstrato ou a algum desejo subjetivo de “fazer a vontade de Deus”. Essas coisas que nos acontecem
durante 24 horas por dia são a Sua vontade, e nós todos devemos aprender a reconhecê-la na realidade
de cada situação cotidiana.

Essa descoberta era tão libertadora que Ciszek retorna ao tema várias vezes
em seu livro. Tal revelação lhe permitiu suportar os muitos anos de provação,
sofrimento e dor.

A verdade pura e cristalina é que a vontade de Deus é o que Ele nos envia a cada dia por meio de
situações, lugares, pessoas e problemas. O truque é aprender a enxergá-la não apenas em um lampejo
conseguido pela graça de Deus, mas todos os dias. Nenhum de nós precisa especular sobre qual seja a
vontade de Deus, pois ela nos é revelada em todas as situações do dia a dia.

E como Ciszek respondeu à pergunta acerca de sua sobrevivência?


Obediência ao que a vida colocou diante dele. “O desafio é aprender a aceitar
essa verdade e agir de acordo com ela”, escreveu. E todos sabem que nossas
vidas mudam de maneiras que não podemos controlar.
Quando as mudanças melhoram nossa vida, é mais fácil aceitá-las. Você
encontra um amigo novo, é promovido no trabalho, se apaixona, descobre que
em breve se tornará mãe, pai, avô ou avó. Nesses casos, tudo o que você precisa
fazer é ser grato.
Mas o que acontece quando a vida o presenteia com um sofrimento
avassalador e inevitável? Esse é um caso em que a compreensão jesuíta da
obediência pode ser útil. O que faz com que um jesuíta aceite as decisões difíceis
de seu superior é a mesma coisa que pode ajudar você: a percepção de que isso é
o que Deus o está convidando a vivenciar neste momento. É o entendimento de
que, de algum modo, Deus está com você, intercedendo por você e se revelando
de uma nova maneira nessa experiência.
Vou ser mais claro: não estou dizendo que Deus planeja sofrimento e dor.
Nem que qualquer um de nós algum dia entenderá por completo o mistério do
sofrimento, muito menos que devemos enxergar todas as dificuldades como
vontade de Deus. Alguns sofrimentos devem ser evitados, amenizados ou
combatidos, tais como as doenças, os relacionamentos nocivos, as situações
prejudiciais no trabalho, as relações disfuncionais.
Contudo, Ciszek entendeu que Deus nos convida a aceitar as situações
inevitáveis que aparecem diante de nós. Podemos rejeitar essa aceitação da vida
e continuar por conta própria ou podemos mergulhar na “realidade da situação”
e tentar encontrar Deus nela de novas maneiras. Obediência, nesse caso,
significa aceitar a realidade.

Render-se ao futuro

Há alguns anos, minha amiga e freira católica Janice trouxe esse tema à tona.
Muito querida pelos estudantes, ela foi minha professora na faculdade de
teologia e lecionava história da Igreja e espiritualidade cristã. No final do meu
segundo ano de faculdade, ela conheceu meus pais e eles logo se tornaram
amigos.
Alguns anos depois, minha família recebeu a notícia de que meu pai estava
com câncer e que teria de começar logo a quimioterapia e a radioterapia.
Quando soube, fiquei atônito. Não conseguia parar de pensar como eu
poderia fazer o que parecia ser a vontade de Deus: ajudar minha mãe,
acompanhar meu pai em seus últimos meses de vida e continuar trabalhando.
Ao ver meu pai passar por uma situação tão difícil, senti uma tristeza que eu
nunca havia experimentado antes. Foi quando contei a Janice meu medo de
enfrentar tudo aquilo. “Eu sei que tenho de pisar firme neste caminho, mas não
sei se serei capaz”, confessei. Ela logo me fez uma pergunta: “Você pode se
render ao futuro que Deus reservou para você?”
Essas palavras me ajudaram a compreender a obediência na vida diária. Era a
aceitação do que a vida colocava na minha frente, a “realidade da situação”,
como disse Ciszek. Para a maioria das pessoas, obediência não significa ser
enviado para trabalhar numa terra estrangeira. É enfrentar o caminho da vida
cotidiana e prosseguir nele.

Tudo é precioso
Aqueles que se entregaram a Deus sempre levaram vidas misteriosas e
receberam Dele presentes excepcionais e milagrosos por meio das
experiências mais comuns, naturais e cotidianas, nas quais nada
aparentava ser sobrenatural. O sermão mais simples, as conversas mais
corriqueiras, os livros menos eruditos se tornam a fonte de conhecimento
e sabedoria dessas almas por obra do propósito de Deus. É por essa razão
que elas recolhem cuidadosamente as migalhas que os espíritos iluminados
deixam pelo caminho, pois para elas tudo é precioso e fonte de
enriquecimento.

– Jean-Pierre de Caussade (1675-1751), The Sacrament


of the Present Moment

Sempre há uma escolha: em vez de aceitar, pode-se recusar a realidade da


situação. Pode-se reclamar de tudo, como se a realidade não fosse a própria vida
em si mesma. Pode-se andar na ponta dos pés, se esgueirando pelas margens ou
evitando completamente o caminho.
A reflexão proporcionada pela pergunta de Janice me ajudou a percorrer o
caminho que Deus me convidava a trilhar. Isso é algo que Walter Ciszek
percebeu: obediência era aceitar o que se apresentava diante dele a cada
momento. “Quando entendemos que cada momento contém algum sinal da
vontade de Deus, encontramos tudo que possamos desejar”, disse o jesuíta
francês Jean-Pierre de Caussade.
A morte de meu pai abriu em mim um poço sem fundo de tristeza. No
entanto, ainda assim consegui celebrar a missa de seu funeral e pregar sobre a
sua vida, que tinha sido bastante humana, repleta de alegrias e tristezas. Por fim,
me senti feliz por ter conseguido ajudar minha mãe, acompanhando meu pai
nos seus últimos dias ao mesmo tempo que cumpria minhas tarefas diárias
como jesuíta. Eu não poderia ter feito nada disso se tivesse me recusado a pisar
firme no caminho que Deus trilhou para mim.

Encontrar Deus no sofrimento

Como se encontra Deus no sofrimento? Mas essa pergunta suscita outra


ainda mais difícil: por que nós sofremos? Essa é uma questão que precisamos
examinar antes de passarmos ao que a espiritualidade inaciana tem a dizer.
Há milhares de anos esse questionamento tem instigado teólogos, santos e
místicos. Como um Deus bom permite o sofrimento?
Primeiro, é preciso admitir que nenhuma resposta é completamente
satisfatória quando enfrentamos um sofrimento real – o nosso ou o de outras
pessoas. A melhor resposta ainda é: “Não sabemos o porquê.”
Segundo, talvez tenhamos que admitir que cremos em um Deus cujos
caminhos permanecem misteriosos. Em um artigo publicado na revista
America, o rabino Daniel Polish coloca isso de maneira sucinta: “Não creio em
um Deus cujos propósitos e vontades são claros para mim. E, como uma pessoa
de fé, eu suspeito profundamente daqueles que afirmam compreender tudo.”
Polish prossegue citando o rabino Abraham Joshua Heschel: “Para a pessoa
piedosa, o conhecimento de Deus não é um pensamento ao alcance de suas
mãos.” “O maior desafio da fé é viver com um Deus que não podemos
compreender inteiramente, cujas ações nós explicamos por nossa própria conta
e risco”, afirma Polish.
Terceiro, embora não haja respostas definitivas para a pergunta do
sofrimento, e ainda que nunca possamos entendê-lo completamente, há
algumas perspectivas consagradas pelo tempo que as tradições judaica e cristã
oferecem que têm ajudado os crentes em períodos de sofrimento e dor.
Ao longo da minha formação teológica, participei de um curso fascinante
chamado “Sofrimento e salvação”, ministrado pelo Padre Daniel Harrington,
um estudioso do Novo Testamento. Nesse curso, Padre Harrington examinava
as explicações tradicionais apresentadas na Bíblia. Nenhuma das respostas, por
si só, respondia de fato à pergunta. No entanto, reunidas, elas podiam fornecer
“recursos” para o crente.
Então a turma leu no Antigo Testamento os salmos de lamento, o Livro de Jó,
trechos do Livro de Isaías sobre o “servo sofredor” e do Novo Testamento sobre
a paixão e a morte de Jesus, assim como as meditações sobre o significado da
cruz de Cristo nos escritos de São Paulo.
Estudamos também as principais maneiras de compreender o conceito de
sofrimento encontradas na Bíblia – sofrimento é um castigo pelos pecados de
alguém (ou pelo pecado de algum antepassado), é um mistério, é um tipo de
purificação – e a visão de que o sofrimento nos capacita a participar da vida de
Jesus. Da mesma forma, o Cristo que entende o sofrimento pode ser uma
companhia em nossa dor. O sofrimento é parte da condição humana em um
mundo imperfeito. E ele pode nos proporcionar um encontro com Deus de
maneiras novas e inesperadas.
Porém algumas dessas abordagens não me pareceram muito úteis. O conceito
de que o sofrimento é um castigo de Deus, por exemplo, não faz o menor
sentido, sobretudo quando se trata de alguma doença terrível, guerras ou
desastres naturais. Alguém consegue acreditar que uma criança com câncer está
sendo castigada por seus “pecados”? Essa é uma imagem monstruosa de um
Deus vingativo e cruel.
Jesus rejeita essa imagem de Deus (Evangelho de João) quando encontra um
homem cego de nascença. Seus discípulos lhe perguntam: “Mestre, quem pecou,
este homem ou seus pais, para que ele nascesse cego?”
Jesus responde: “Nem ele nem seus pais pecaram, mas isso aconteceu para
que a obra de Deus se manifestasse na vida dele.” E então Jesus o curou.
No entanto, muitos desses recursos têm sido de ajuda inestimável em minha
própria vida em períodos diferentes de sofrimento. Um episódio se destaca, não
por sua gravidade, mas por sua duração, porque ele permanece até hoje. E o
aprendizado que ele me proporcionou ainda me traz alguns entendimentos
novos.
Quando iniciei meus estudos teológicos, comecei a ter dores agudas nas mãos
e nos pulsos. A princípio, achei que elas diminuiriam, mas, após algumas
semanas, elas se tornaram permanentes. Não conseguia mais digitar, quase não
podia mais escrever e aos poucos fui perdendo a capacidade de fazer coisas
simples, como virar a maçaneta de uma porta ou segurar uma caneta.
Depois de seis meses consultando vários médicos recebi o diagnóstico de
LER, lesão por esforço repetitivo. Eu deveria parar de digitar imediatamente, do
contrário meu estado pioraria muito e eu nunca me curaria, sentenciou o
especialista que me atendeu.
Desesperado, procurei massoterapeutas, quiropráticos, acupunturistas e até
uma rezadeira, que me benzeu e orou por mim.
Com o tempo, aprendi a controlar a dor fazendo alongamento, exercícios e
massagem, e passei a digitar menos. Todas essas medidas pareceram me ajudar a
amenizar a dor. Mas ela nunca desapareceu – na verdade, eu ainda a sinto e
tenho limitações na atividade diária de escrever.
Alguns anos depois, a dor passou a me incomodar cada vez mais. Por que
Deus permitia que eu sofresse assim? Que sentido há em um escritor que não
pode escrever? Um dia confessei a minha decepção a Jeff, meu diretor espiritual.
– De alguma forma, Deus está nessa situação? – perguntou ele.
– Não – respondi, sentindo raiva da pergunta. Eu tentava encontrar Deus em
todas as coisas, mas aquela situação parecia confusa e frustrante. A dor me
impediu de digitar durante o curso de teologia e dificultou meu trabalho na
revista. Por que Deus impedia que eu realizasse o trabalho para o qual eu fora
designado? Então, mal-humorado, admiti que não conseguia encontrar Deus
em nenhum lugar daquela situação.
– É mesmo? Não o enxerga em lugar nenhum? – perguntou Jeff.
Então comecei a relatar como a doença tinha me modificado. Desde que eu
pudesse digitar por um curto período todos os dias, eu disse a Jeff, eu me sentia
grato pelo que era capaz de escrever, porque sabia que isso acontecia somente
pela graça de Deus e pelo dom da saúde, mesmo que temporariamente. Eu
também passei a ter mais cuidado com o que escrevia. E, já que não poderia
fazer tudo de uma vez, talvez eu estivesse me tornando mais paciente. Além
disso, comecei a prestar mais atenção nas pessoas com limitações físicas e com
doenças muito mais graves. Era possível que eu estivesse me tornando mais
compassivo.
– Mais alguma coisa? – perguntou Jeff, sorrindo.
– Estou mais consciente de quanto dependo de Deus, pois entendi que não
consigo fazer tudo por mim mesmo. E estou menos propenso a esquecer da
minha pobreza de espírito.
Jeff riu.
– Então, Jim, me responda: Deus realmente não está intercedendo nessa
situação de algum modo?
De repente percebi que Deus estava, sim, presente naquele episódio. Isso não
quer dizer que fiquei, de súbito, satisfeito com a minha condição, ou que teria
escolhido passar por aquilo, e nem mesmo que havia compreen​dido aquilo
plenamente.
Mas eu vi alguns sinais de Deus, muitos dos quais até faziam parte das visões
tradicionais cristãs sobre o sofrimento. Para mim, tinha sido bom e até saudável
me queixar dessas coisas com Ele. Isso era, sem dúvida, misterioso, algo que
talvez eu nunca pudesse de fato entender, como as perguntas de Jó no Antigo
Testamento. Eu só sabia que ainda poderia estar me relacionando com Deus. E
que poderia tentar seguir – embora com algumas falhas – o modo paciente
como Jesus enfrentou o sofrimento. Pude compreender então que Jesus podia
ser, por meio do meu relacionamento com ele, alguém que entendia as minhas
provações, por menores que fossem. Esse sofrimento podia me abrir novas
janelas para a experiência de Deus. Acima de tudo, ele me mostrava que Deus
tinha estado comigo e que pequenos sinais de ressurreição só são notados
quando se aceita a realidade da situação.
Na vulnerabilidade, na pobreza de espírito e no enfraquecimento, estamos
aptos a encontrar Deus de novas maneiras, talvez porque nossa guarda esteja
baixa e fiquemos mais receptivos à presença Dele. Não é isso que explica o
sofrimento, mas pode fazer parte da experiência como um todo.
Mas o meu sofrimento é pequeno se comparado ao de outras pessoas.
Quando estive na África, conheci refugiados cujos familiares haviam sido
assassinados diante de seus olhos. Em Boston, conheci uma mulher que ficara
confinada a um leito de hospital por mais de 20 anos. E, recentemente, a jovem
esposa de um amigo meu foi surpreendida com o diagnóstico de um tumor
maligno no cérebro. Ao saber das experiências de outras pessoas, percebi como
todo aquele meu sofrimento crônico era insignificante.
Assim como cada fiel deve encontrar um caminho pessoal para Deus, ele
também precisa encontrar uma perspectiva pessoal sobre o sofrimento. E,
embora a sabedoria coletiva da comunidade religiosa seja de grande ajuda, as
respostas-clichês que outros fiéis dão não costumam acrescentar nada. Algumas
vezes essas respostas fáceis chegam a interromper o processo de reflexão
individual mais profunda.
Os que creem em Deus suspeitam com razão das respostas fáceis sobre o
sofrimento. Certa vez minha mãe me contou sobre uma freira idosa que morava
em uma casa de repouso. Numa conversa com sua madre superiora, que tinha
ido visitá-la, a freira lhe falou da intensa dor que estava sentindo. “Pense em
Jesus na cruz”, tentou consolá-la sua superiora. Mas a velha freira respondeu:
“Jesus só esteve na cruz por algumas horas.” Lembre-se: palavras superficiais
podem fazer mais mal do que bem.
Meu amigo Richard Leonard, um jesuíta australiano, escreveu sobre sua
experiência com tais respostas superficiais em seu livro Where the Hell Is God?.
Seu pai morrera de um derrame cerebral aos 36 anos, deixando a mãe sozinha
para cuidar de três crianças. Já adulto, Richard recebeu a notícia de que sua irmã
Tracey sofrera um grave acidente de carro e ficara tetraplégica. Aos prantos, a
mãe do jovem jesuíta começou a questioná-lo sobre o sofrimento que estava
colocando sua fé à prova. Para Richard, aquela foi a discussão teológica mais
profunda que já tivera na vida.
“Onde afinal está Deus?”, perguntou sua mãe à beira do desespero. Richard
respondeu que Deus nunca os abandonaria em seu sofrimento. “Eu acho que
Deus está arrasado”, disse ele na ocasião. “Como o Deus que lamenta a ruína em
Isaías, como o Jesus que chora diante do túmulo de seu melhor amigo, Deus nos
acompanha em nossa dor, nos acolhendo em Seus braços e compartilhando
nossa tristeza.”

Tempo de semear, não de colher


Alfred Delp, pastor e escritor alemão, foi executado pelos nazistas em 1945,
próximo ao fim da guerra, por se opor a Adolf Hitler. Ele foi um mártir
improvável, obstinado na juventude, mas sereno diante da morte iminente.
Na prisão, Delp escreveu sobre o seu destino:
Uma coisa está ficando cada vez mais clara: eu devo me entregar
completamente. É tempo de semear, não de colher. Deus planta a semente
e algum dia Ele fará a colheita. Só devo me certificar de que a semente caia
em solo fértil. E preciso me defender da dor e da depressão que algumas
vezes tomam conta de mim. Se essa é a maneira que Deus escolheu – e
tudo indica que é –, então devo seguir o meu caminho de boa vontade e
sem rancor. Que no futuro outros possam ter uma vida melhor e mais
feliz, porque nós morremos neste tempo de provação.

Além da ideia de que o sofrimento, às vezes, nos abre novas janelas para
experiências com Deus, esta é a compreensão teológica que considero mais útil
em tempos de angústia: a imagem do Deus que sofreu, do Deus que compartilha
de nossa tristeza e a entende. Quanto mais instintivamente você se voltar para
um amigo que já passou pela mesma luta que você está passando, mais
facilmente poderá se voltar para Jesus, que sofreu. “Pois não temos um sumo
sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas.” (Hebreus 4:15)
Richard tem uma visão sombria daqueles que oferecem respostas superficiais.
“Algumas das cartas mais assustadoras vieram dos melhores cristãos que
conheci”, conta ele. Algumas pessoas diziam que a irmã dele devia ter feito algo
que desagradara a Deus. Outras afirmavam que o sofrimento dela era um
“glorioso material de construção para a mansão [no céu] quando ela morresse”.
Algumas escreveram que a família dele era “verdadeiramente abençoada”
porque “Deus só dá a cruz àqueles que podem suportá-la”. Ou, numa versão
mais simplificada, que é tudo um “mistério” que só precisa ser aceito quase
irracionalmente.
Richard rejeitou essas manifestações e preferiu um olhar rigoroso sobre a
realidade do sofrimento, um olhar que só pode vir com a grande luta para se
engajar em uma “discussão inteligente sobre as complexidades de onde e como a
presença divina se encaixa em nosso mundo humano e frágil”.
Quando estamos sofrendo, nossos amigos naturalmente hão de querer nos
ajudar a encontrar algum sentido na dor e darão respostas como as que Richard
relatou. Algumas delas funcionarão para nós. Outras podem nos deixar
perplexos ou até agressivos. Mas, no fim, cada um de nós deve lutar com o
sofrimento por si mesmo. E, embora nossas tradições religiosas nos forneçam
uma ajuda importante, precisamos adotar uma visão que nos auxilie a
confrontar a dor e a perda honestamente com Deus.
O sofrimento é um mistério para a maioria dos fiéis, mas um mistério que
deveríamos abraçar plenamente com o coração, a alma e a mente. E o caminho
de Inácio pode nos ajudar nisso.

Algumas visões inacianas sobre o sofrimento

A visão de mundo inaciana aceita a concepção tradicional da Bíblia, mas nos


convida a meditar profundamente sobre a vida de Cristo, para refletir sobre
como Deus pode nos acompanhar em nossa própria dor e nos ensinar coisas
novas.
A questão do sofrimento é abordada em uma das primeiras seções dos
Exercícios Espirituais. Depois de destacar o propósito da vida dos homens –
louvar, reverenciar e servir a Deus, e por meio disso salvar suas vidas –, Inácio
nos exorta a tentarmos ser indiferentes a todas as coisas criadas. Isso significa
desprezar a doença, a pobreza, as afrontas e até uma vida breve. Por meio de
uma variedade de meditações, ele nos lembra de que no mundo teremos
aflições: isso é assumido nos Exercícios, assim como na tradição cristã.
Na verdade, duas das maiores meditações nos Exercícios incorporam algumas
abordagens da tradição cristã sobre sofrimento. No começo da Segunda
Semana, cujo foco é a vida de Cristo, Inácio pede aos praticantes que meditem
sobre o que ele define como o Chamado do Rei. Nessa meditação, devemos
imaginar um líder carismático nos conclamando a segui-lo.
Primeiro, devemos imaginar “um rei humano” nos chamando para combater
a seu lado. Hoje, o imaginário monárquico pode causar arrepio a muita gente. A
ideia de seguir Ricardo Coração de Leão numa batalha, por exemplo, pode não
ser tão atraente hoje quanto foi na época de Inácio. Por isso, muitos diretores
espirituais sugerem que se imagine alguém mais próximo de um herói ou
heroína da modernidade. Eu, por exemplo, escolhi Thomas Merton no meu
primeiro retiro longo e Madre Teresa no segundo.
Imagine como seria excitante receber um chamado pessoal de seu herói para
acompanhá-lo em uma grande missão. Se fossem chamadas por seus heróis
modernos – Martin Luther King, Mahatma Gandhi, Madre Teresa, Papa João
Paulo II ou o Dalai-Lama –, muitas pessoas diriam sim imediatamente. Mas o
seu herói avisa que você terá que fazer exatamente o que ele faz, vestir as
mesmas roupas, trabalhar como ele trabalha, por mais difícil que seja.
Depois Inácio nos convida a imaginar Jesus nos chamando para trabalhar ao
seu lado. Se ficamos entusiasmados com a possibilidade de um herói nos
convidar, imagine como nos sentiríamos se Jesus nos chamasse a seguir seu
caminho. Porém, diz Inácio, nós devemos nos agradar de passar pelo que Jesus
passou. “Portanto, aquele que vier depois de mim deve fazer as obras que eu
faço, para que, ao me seguir na dor, possa também estar comigo na glória.”
O Chamado do Rei nos lembra, como fazem os Evangelhos, de que a vida
cristã sempre envolverá algum sofrimento – algo que Inácio, Walter Ciszek e
todos os santos compreenderam.
Implicitamente, isso também ressalta a imagem de um Jesus que entende
completamente o sofrimento humano, e essa imagem pode ajudar a não nos
sentirmos tão sós diante da dor.
O sofrimento de Jesus, a propósito, não é apenas a sua Paixão. Durante a sua
vida em Nazaré, ele deve ter ficado doente como qualquer outra pessoa,
experimentado a pobreza e se entristecido com a morte de amigos e familiares,
particularmente com a de José, seu pai adotivo. Em seu ministério, quando
atravessava o país a pé, ele enfrentou muitas provações, suportou afrontas de
autoridades religiosas e, provavelmente, se sentia solitário em sua missão, cujo
alcance ninguém podia imaginar. Jesus compreendia a natureza humana.
Mais adiante na Segunda Semana dos Exercícios Espirituais, Inácio apresenta
os Dois Modelos, mencionados no capítulo 8, em nossa discussão sobre
riquezas, elogios e soberba. Aqui estão dois lados de uma batalha titânica entre o
bem e o mal, perfilados um contra o outro. “O supremo comandante dos bons é
Jesus Cristo nosso Senhor, ao passo que o líder inimigo é Lúcifer.” Na visão de
mundo de Inácio, uma batalha é travada dentro de nós entre a atração para fazer
o bem ou o mal. Mas Inácio confia na crença cristã de que as forças do bem
prevalecerão em definitivo sobre as do mal.
Além disso, os Dois Modelos nos lembram de que, embora a escolha pela vida
esteja clara – escolher a Cristo –, ela envolverá algum sofrimento,
especificamente pobreza, afrontas e desprezo. Inácio diz que, se quisermos
imitar Cristo, desejaremos ser parecidos com ele e, portanto, escolheremos um
caminho mais árduo.
A questão de escolher um caminho mais árduo aparece várias vezes nos
Exercícios. O raciocínio é: se eu quero seguir Jesus, então escolho ser como ele.
E, se isso significa aceitar provações, eu almejarei essas coisas, acreditando que
meu desejo não contraria a vontade de Deus.
Assim como o restante dos Exercícios, nada disso faz sentido sem que se
entenda o objetivo de seguir Deus. A pessoa que espera imitar Cristo no
sofrimento faz isso não porque deseje sofrer por sofrer, ou porque o sofrimento
é bom, ou porque queira punir a si mesma, mas para ficar mais parecida com o
seu herói, Jesus, que aceitou o sofrimento que lhe foi imposto.
Escolher o caminho mais árduo pode ser a parte da espiritualidade inaciana
mais difícil de entender. No entanto, para muitos fiéis isso é libertador, pois, ao
escolhê-lo, estão imitando seu líder, seguindo pela mesma estrada que ele
trilhou e desfrutando liberdade e alegria: a liberdade resultante de estar
desapegado de uma autorreferência excessiva e a alegria que vem de seguir seu
herói.
Inácio nos ajuda a entender o sofrimento de uma maneira única através de
seu convite para imaginarmos o sofrimento de Cristo com a prece imaginativa.
Essa é a parte principal das meditações da Terceira Semana. Sofrer é um
mistério a ser considerado no contexto de seu relacionamento com Deus, e
parte disso pode ser vivenciada na oração, meditando-se principalmente sobre
as experiências de Jesus de Nazaré.
Na Terceira Semana, os participantes do retiro se imaginam seguindo Jesus
na Última Ceia, na aflição do jardim do Getsêmani, na prisão e na tortura, na
negação de Pedro, na crucificação, no sofrimento da cruz e na morte. Inácio
escreve: “Repare no que Cristo nosso Senhor sofre, ou deseja sofrer, de acordo
com a passagem que está sendo observada.”
Nessas meditações, a pessoa aceita o convite para ser parecida com Cristo.
Nós buscamos identificação com o sofrimento de Jesus. Devemos estar juntos
de Jesus quando ele sofre, o que é difícil para a maioria de nós que achamos tão
complicado enfrentar sofrimentos que não podemos evitar ou extinguir.
David Fleming escreve que é como se Jesus estivesse nos dizendo: “Deixe-me
lhe contar como foi, o que eu vi e o que senti... Só fique ao meu lado e ouça.”

Uma aceitação voluntária


Por causa de seu intenso desejo de seguir e se identificar com Cristo,
alguns santos jesuítas recebiam bem o martírio quando era inevitável,
apesar de não o procurarem por conta própria. Eles o consideravam o
oferecimento definitivo de si mesmos a Deus, a sua obediência derradeira.
Embora essa espiritualidade possa ser difícil de entender, ela era a
principal maneira com que os mártires encaravam os perigos que
enfrentavam. No século XVII, Santo Isaac Jogues e seus companheiros
foram martirizados pelos índios iroqueses. Essa ideia de aceitação
voluntária aparece repetidamente em muitas das cartas que eles
escreveram para casa. A seguir, reproduzo o relato de Isaac do último dia
de René Goupil, que era um irmão leigo dos jesuítas.

No caminho, ele esteve sempre ocupado com Deus. Suas palavras e os


discursos que fazia eram todos expressões de submissão à Providência
Divina e mostravam uma aceitação voluntária da morte que Deus estava
lhe mandando. Ele se entregou em sacrifício para ser reduzido a cinzas
pela fogueira dos iroqueses. Ele procurava agradar a Deus em todas as
coisas e em todos os lugares.
Antes de sua morte em 1642, Goupil fez seu voto como jesuíta. Poucos dias
depois foi morto cruelmente. Seu corpo foi ocultado pelos iroqueses em
uma ravina profunda, e Isaac só conseguiu encontrar alguns ossos. Quatro
anos depois, Isaac foi martirizado.

Cristo é o exemplo maior daquele que se rendeu ao futuro que Deus tinha
reservado, como expôs Irmã Janice; que aceitou a realidade da situação, como
disse Walter Ciszek; que foi obediente até a morte, como São Paulo escreveu. Ao
meditar com a imaginação em sua vida, podemos compreender o que significa
“aceitar” e o que acontece quando o fazemos, e como Deus pode extrair vida
nova mesmo das situações mais tenebrosas.
Além disso, ao penetrar na cena bíblica, normalmente alcançamos um
entendimento mais elevado e pessoal do sofrimento, que nem mesmo os
maiores teólogos conseguem oferecer. Como David Fleming observa em What
Is Ignatian Spirituality?, esse modelo de oração “faz do Jesus Cristo do
Evangelho o nosso Jesus”. Isso nos ajuda a compreender melhor os sofrimentos
de Jesus e também os nossos.
Eis o que Fleming acredita que as pessoas podem aprender durante essas
meditações:

A Terceira Semana de meditação também nos ensina como a aceitação é difícil. Quando não podemos
mudar a circunstância, somos tentados a nos afastar dela. Podemos literalmente ir embora; ficamos
ocupados demais para sentar e escutar um amigo que sofre. Ou nos afastamos de maneira intempestiva;
escolhemos endurecer e nos manter emocionalmente distantes. Podemos reagir dessa forma até aos
relatos evangélicos sobre a Paixão e a morte de Jesus. Eles descrevem cenas terríveis e muito dolorosas;
portanto, podemos nos defender dessa dor. Nós já conhecemos a história da Paixão. Inácio, porém, nos
quer vivenciando algo novo e direto. Aprendemos a sofrer com Jesus e, desse modo, aprendemos a
sofrer com aqueles que fazem parte de nossa vida.
No fim, aprendemos que a compaixão inaciana é essencialmente a nossa presença amorosa. Não há
nada que possamos fazer. Muito pouco que possamos dizer. Mas podemos estar lá.
E você se lembra da técnica simples do “colóquio”, na qual você fala com
Deus em oração como se estivesse conversando com um amigo? Quando
meditam sobre a Paixão, os participantes dos retiros em geral se sentem tocados
para conversar com Jesus sobre seus próprios sofrimentos. “Ver” Jesus sofrer,
para os cristãos, é uma lembrança de que somos acompanhados por um Deus
que, mesmo se por alguma razão misteriosa não carrega as nossas dores, as
compreende, já que viveu como um ser humano. Nos momentos de pior aflição
em minha vida, foi esta oração imaginativa que mais me confortou: falar com o
Jesus que conhece o sofrimento.
Falar sobre sofrimento requer, eu acredito, um testemunho pessoal. Por isso,
aproveito a oportunidade para compartilhar como a contemplação inaciana
pode nos ajudar a encontrar Deus por meios tão pessoais, íntimos e
surpreendentes.

Jesus de Los Angeles

Recentemente, participei de um retiro de 30 dias em Los Angeles. Essa foi


apenas a segunda vez – e talvez a última – que eu faria os exercícios espirituais
completos. Muito embora tivesse muitas expectativas, eu ainda estava
preocupado em desempenhar e obter resultados impactantes na oração,
colocando sobre mim mesmo expectativas a respeito do que devia fazer na
oração, em vez de deixar isso por conta de Deus.
Depois de 20 anos eu deveria fazer melhor, era o que eu pensava.
O retiro longo fazia parte do último estágio da formação jesuíta, que
acontecia quase 20 anos depois do meu ingresso na Companhia de Jesus, e eu o
faria com alguns velhos amigos da época do noviciado e das graduações em
filosofia e teologia.
A Primeira Semana pareceu fácil, com sua ênfase em “pecadores amados”, e
mais ainda a Segunda Semana, que tinha seu foco no ministério terreno de
Jesus. Como o oceano Pacífico não era longe da casa de retiro, pude correr na
areia da praia de manhã bem cedo. Assim, ler os episódios do Evangelho em que
Jesus chamou seus discípulos na beira de uma praia foi como uma brisa.
Quando me aproximei da Terceira Semana e comecei a meditar nos últimos
dias de Jesus, a oração continuou sem percalços. Revelações, lembranças,
emoções, sentimentos e desejos afloraram durante cada meditação.
Meditar sobre Jesus no jardim do Getsêmani, por exemplo, me proporcionou
novas percepções sobre aceitação, obediência e os tipos de tentação que Jesus
pode ter enfrentado. Quando confrontado com a possibilidade de rejeição, ele
pode ter sentido a tentação de não incomodar ninguém com a sua pregação e,
assim, se desviar do seu destino. É o que poderíamos chamar de tentação à
acomodação. Quando confrontado com a oposição, Jesus pode ter sentido a
tentação de simplesmente varrer seus oponentes, fosse por meios humanos –
como estimular seus discípulos a se levantarem em furiosa rebelião – ou por
meios divinos – que poderia ser o que seus discípulos esperavam: a tentação do
aniquilamento. Por fim, Jesus pode ter se sentido tentado simplesmente a deixar
seu ministério de lado e evitar o caminho que Deus estava pavimentando em
troca de uma existência estável e convencional: a tentação do abandono.
Acomodação, aniquilamento e abandono. Quantas vezes somos tentados a
não aceitar completamente a realidade do sofrimento, por exemplo, quando
viramos as costas para os entes queridos que sofrem, preferindo a comodidade
do banco de reservas? Podemos aniquilar ao rejeitarmos os desafios do
sofrimento de amigos e familiares, ao eliminarmos de nossa vida qualquer
pessoa ou situação que nos coloque frente a frente com a dor. E podemos
abandonar ao ignorar nossas responsabilidades diante do sofrimento.
Jesus, porém, aceita a realidade da situação.
Finalmente, vi Jesus preso na cela úmida de Pilatos, chorando. Na minha
imaginação, Jesus chorava não apenas por si mesmo e pelo tormento físico que
estava por vir, mas também por outra coisa: a perda de seu grande projeto.
Quantas vezes você esperou por alguma coisa grande, teve sonhos maravilhosos
ou planejou algo esfuziante e viu tudo ir por água abaixo?
Na minha meditação, Jesus se lembrou de todas as vezes que pregou, de todas
as pessoas que curou e de todos que se reuniram em torno dele – pronto para
começar algo novo, realizar grandes mudanças, trazer alegria para o mundo.
Sentado naquela cela, tudo parecia perdido. Seus amigos, sobre quem havia
derramado amor em abundância, tinham-no abandonado. Seu projeto
aparentemente tinha fracassado.
Mais do que nunca
Pedro Arrupe escreveu estas palavras depois de ter sofrido um derrame e
em meio a alguns embates com o Vaticano. Elas fizeram parte de seu adeus
dirigido aos jesuítas na Congregação Geral, que havia se reunido para
escolher seu sucessor como superior geral em 1983.

Mais do que nunca eu me sinto nas mãos de Deus. Isso é o que eu


sempre quis em toda minha vida, desde a juventude. Porém, agora, há
uma diferença: a iniciativa é inteiramente de Deus. É, sem dúvida, uma
profunda experiência espiritual saber e sentir que estou totalmente em
Suas mãos.

Jesus acreditava em seu rumo e confiava em seu Pai, mas como poderia não
estar triste? Talvez em seus momentos de fraqueza – pelo menos assim imaginei
na oração – ele possa ter pensado se aquilo tudo valeu a pena. Então Jesus
chorou.
Para os cristãos, estas são portas de entrada para a vida de Jesus: nos
momentos de tristeza, solidão e rejeição em sua própria vida, você pode se
identificar com a experiência humana de Jesus e, talvez mais importante, ele
pode se identificar com você.
Agora compartilharei algo muito pessoal e explícito, como ilustração do que
pode, às vezes, acontecer na Terceira Semana de meditações, enquanto
contemplamos o sofrimento.
Curiosamente, todas as meditações que mencionei vieram e se foram com
pouca emoção. Quando contei isso a Paul, meu diretor de retiro, foi também
com sentimento reduzido. Jesuíta experiente, Paul escutou com atenção e depois
disse:
– Eu acho que você está bloqueando alguma coisa.
– Não estou bloqueando nada. Eu lhe disse tudo o que havia vivenciado –
retruquei.
Paul ficou surpreso de haver tão pouco sentimento nessa meditação e me
encorajou a retornar à Paixão de Jesus:
– Sente-se no túmulo onde Jesus foi posto. E peça a graça de estar livre de
tudo que o impede de ficar mais perto de Deus. Há alguma coisa em você que
precisa “morrer” naquele túmulo?
Quando relutantemente voltei para a meditação no dia seguinte, uma coisa
surpreendente aconteceu. Ao me imaginar sentado no túmulo, vi Maria, vestida
de preto da cabeça aos pés, sentada silenciosamente ao meu lado. E pedi a Deus
que me livrasse de tudo que estava me sobrecarregando.
De imediato, tomei consciência das cargas da vida que eu queria sepultar
naquele túmulo. Todos os conteúdos que, inconscientemente, eu reprimira nas
semanas anteriores – coisas que eu não queria trazer à tona, pois poderiam
perturbar o equilíbrio do retiro, coisas que não queria tirar da caixa – por fim
apareceram. Para começar, a solidão. Não aquela de não ter amigos, mas a
solidão existencial da vida religiosa: a solidão da castidade. Depois, o cansaço.
Não o da vida diária, mas o que parecia um estresse permanente.
Então, eu disse a Jesus: “Eu estou só e cansado.” Expressar isso proporcionou
o que Inácio chamou certa vez de o “dom das lágrimas”.
Imediatamente me vi aos pés da cruz na experiência mais real de oração que
eu já tivera. Eu me imaginei fitando o rosto de Jesus. E ele me disse claramente:
“Esta é a sua cruz. Você pode aceitá-la?”
Ele pedia que eu a aceitasse. Solidão e fadiga são fardos de muita gente, não só
de padres e freiras. Eu podia aceitar a realidade da situação? Podia me render ao
futuro que Deus tinha reservado para mim?
Eu sabia qual deveria ser a resposta, mas quis ser sincero.
– Eu não sei – respondi, aos prantos.
– Você quer me seguir? – perguntou ele.
– Sim, mas mostre-me o restante – eu disse.
Ao fim da meditação eu estava quebrado. Esse tipo de oração intensa não é
tão comum para mim.
No dia seguinte voltei àquela cena e pedi a Jesus mais uma vez que me
mostrasse a Ressurreição. E percebi com tristeza que teria feito um martírio
pobre, pedindo uma prova da “nova vida” antes de aceitar minha cruz. Embora
não quisesse me comparar aos mártires jesuítas, eu já parecia ter fracassado. E
me senti deprimido.
Ao meio-dia entrei no refeitório, onde soava uma música. A melodia me
transportou para o Quênia e fui tomado por lembranças da minha época no
leste da África. Eu me vi novamente junto com Maria, ainda vestida de negro,
na colina gramada de que eu gostava tanto, próxima ao escritório da Agência
Jesuíta para Refugiados, um lugar onde havia encontrado grande consolo havia
alguns anos e que ainda simbolizava liberdade e alegria para mim.
Junto com Maria, caminhei por lugares onde havia trabalhado nos dois anos
que passei em Nairóbi: pela lojinha de artesanato que abrimos para os
refugiados, pelas casas quase às escuras, pelas ruas de terra que eu atravessava,
pelas favelas em que os refugiados moravam. Eu vi seus rostos reluzentes, pude
ouvir seus sotaques e até sentir o seu afeto caloroso.
Isso é uma boa ressurreição, pensei. Mas era tudo? Era o bastante para mim?
Então, de repente, Jesus estava em pé ao meu lado, radiante e alegre em sua
túnica branca. Foi uma cena que não precisei imaginar: ela simplesmente veio à
minha mente. Jesus estendeu sua mão e disse: “Siga-me!” Nós dois retornamos
aos mesmos lugares, agora com ele me tomando pela mão. Foi uma lembrança
pungente de que ele havia estado comigo durante todo aquele tempo.
Jesus apareceu no lugar onde eu havia experimentado a maior liberdade em
minha vida. Foi um modo surpreendente, pessoal e íntimo de vivenciar uma
ressurreição. De súbito, ocorreu-me que apenas aceitando a solidão e o cansaço
eu seria capaz de sentir a paz que vivenciara no Quênia. Deus parecia estar
dizendo: “Sim, você precisa aceitar a solidão e o cansaço, mas eis o que o espera.
Eis o que acontece quando você diz sim. E você soube disso pela experiência. Eis
a nova vida.”
Essa experiência foi uma lembrança de como a oração inaciana pode ser útil,
proporcionando um momento que é pessoal, significativo e transformador, mas
ao mesmo tempo difícil de explicar aos outros. Foi também uma lembrança de
como a direção espiritual pode ser útil, pois sem a orientação de Paul eu
simplesmente teria evitado mergulhar nessa passagem.
Desde aquela época não tive mais tanto medo da solidão ou do trabalho duro.
Isso faz parte do que preciso aceitar na vida. Mas também sei que aceitação
significa que vou poder ver sinais da nova vida. A cruz leva à ressurreição.
Tudo isso leva à obediência. Deus, às vezes, pede a cada um de nós algumas
coisas que parecem inaceitáveis na ocasião. Insuportáveis. Até impossíveis. Para
mim, eram a solidão e o cansaço. Para outros, podem ser uma doença terrível; a
perda de um emprego; a morte de um cônjuge; ou ainda uma situação familiar
estressante.
Isso não significa que as circunstâncias não devam ser mudadas. É certo que
algumas lutas são inevitáveis e, pelo menos na minha própria vida, aceitá-las
pode, às vezes, conduzir a novas formas de encontrar Deus.
Essa compreensão pode ser nada diante do sofrimento que você está
passando. Mas ela me ajudou e eu quis compartilhá-la com você, na esperança
de que também possa ajudá-lo nos momentos difíceis.
Aceitação. Entrega. Humildade. Pobreza de espírito. Encontrar Deus em
todas as coisas.
Todas essas palavras e frases apontam para uma palavra, uma palavra que
pode ter parecido estranha no começo do capítulo e que está no âmago deste
caminho de vida: obediência.
Capítulo 12

O que devo fazer?


O caminho inaciano para tomar decisões

T alvez a decisão mais difícil que já tive que tomar tenha sido a de ficar ou
deixar a Companhia de Jesus após o adiamento dos meus estudos teológicos. Eu
fizera um voto perpétuo a Deus, mas a vida, de alguma forma, pareceu estar me
afastando daquele compromisso. Eu sabia que seria uma escolha que voltaria a
mudar radicalmente a minha vida. Por sorte, meu diretor espiritual era adepto
do que os jesuítas chamam discernimento.
Esse é o termo adotado para as práticas de tomada de decisão ressaltadas por
Inácio nos Exercícios Espirituais. Um superior jesuíta é considerado bom em
discernimento não apenas quando leva a sério a necessidade de orar por cada
decisão, mas também quando entende as técnicas inacianas específicas para
chegar a uma boa decisão.
Como mencionei no último capítulo, os jesuítas acreditam que, quando as
decisões são tomadas, um processo rico é essencial. Nós também acreditamos
que, se o superior e o sujeito estiverem procurando ouvir a voz de Deus, será
possível contar com a ajuda Dele nesse processo de escolha. Desse modo,
mesmo quando os jesuítas são enviados para onde prefeririam não ir, a
frustração deles é abrandada se o discernimento foi meticuloso. De maneira
semelhante, quando os jesuítas vão para onde querem ir, se o discernimento
pareceu superficial, pode permanecer uma dúvida incômoda sobre se a decisão
foi tomada corretamente.
Nossas técnicas para a tomada de decisões vêm principalmente das práticas
destacadas nos Exercícios Espirituais. Presumindo que os que praticavam os
exercícios passavam por um momento decisivo em suas vidas, Inácio incluiu
algumas técnicas para fazer boas escolhas. É por meio delas que o caminho de
Inácio o ajudará a responder à pergunta “O que eu devo fazer?”.
Os métodos práticos de Inácio se mostraram de grande utilidade para
milhões de pessoas que percorreram esse caminho. Eles podem parecer
abstratos, por isso utilizarei alguns exemplos da vida real para demonstrar o que
ele estava falando.

Indiferença

Antes de entrar no processo de tomada de decisão, Inácio pede que tentemos


ser indiferentes. Em outras palavras, que tentemos abordar o processo de
tomada de decisão da maneira mais livre possível. “Eu Te peço, meu Senhor,
que removas tudo o que me separa de Ti e o que Te separa de mim”, orou Pierre
Favre.
A indiferença costuma ser mal compreendida. Quando a maioria das pessoas
ouve essa palavra, não a relaciona com liberdade, mas com ficar entediado ou
desinteressado. Há alguns anos, um jovem que acabara de ficar noivo me
procurou, muito aflito, com um problema: não sabia se deveria seguir adiante
com aquele noivado, pois duvidava que estivesse preparado para assumir um
compromisso para a vida inteira. Com certeza, aquele era um dilema
angustiante. No nosso primeiro encontro, eu lhe disse:
– Bem, você tem que começar pela indiferença.
– Indiferença?! Mas é a minha vida que está em jogo! – ele reagiu.
No entanto, o que Inácio queria expressar como indiferença era a liberdade, a
liberdade de abordar cada decisão de maneira renovada. A capacidade de se
desapegar dos preconceitos iniciais e recomeçar, examinando as alternativas
com cuidado e boa vontade. Uma receptividade para o trabalho de Deus na vida
de alguém.
Orientei o noivo angustiado a pensar a respeito de adiar seu casamento. Eu
lhe disse:
– De maneira nenhuma indiferença significa despreocupação ou negligência.
Ela se refere à liberdade interior.
Todas as grandes decisões carregam uma bagagem. O questionamento a
respeito de levar o casamento adiante ou não pode conter, no fundo, pressões do
futuro cônjuge, de seus pais ou de seus amigos para que você se case. Ou para
não mudar seus planos.
Mas, ainda que os conselhos de amigos e familiares possam nos ajudar a
tomar uma boa decisão, Inácio pede que recomecemos o processo de tomada de
decisão de forma tão imparcial quanto possível. Essa pitada de senso comum
geralmente é esquecida.
Para usar uma famosa imagem inaciana, a pessoa deveria procurar ser como o
indicador de uma balança. Se você já viu aqueles pesos de ferro usados nos
açougues para pesar carnes, deve se lembrar de uma seta que aponta
diretamente para o zero quando a balança está vazia e em perfeito equilíbrio,
sem pender para nenhum dos lados.
Isso é o que Inácio quer dizer. Quando estivéssemos prestes a tomar uma
decisão deveríamos imitar o indicador de metal e não pender para nenhum dos
lados. Não siga o exemplo do açougueiro mau-caráter que apoia o polegar na
balança para enganar o cliente. Isso é trapaça. Começar a tomada de decisão
presumindo que você deveria pender para um lado ou para o outro é impedir a
si mesmo de fazer uma boa escolha.
A indiferença na tomada de decisão é algo difícil de conquistar. O rapaz que
orientei se encontrava no meio de uma crise emocional em que parecia quase
impossível recorrer à indiferença. Mas essa é uma meta importante a perseguir.
Como tudo na vida espiritual, por mais que você tente seguir em frente e se
esforce para ser o mais livre possível, a indiferença depende da graça de Deus.

Inácio corta o cabelo

Muitas das práticas conhecidas de Inácio para tomar boas decisões vieram de
sua própria experiência de vida. O exemplo mais remoto foi a revelação que ele
recebeu quando estava lendo sobre a vida de Cristo e a dos santos. Quando
resolvia seguir o exemplo dos santos, ele ficava cheio de paz. Quando pensava
em impressionar as senhoras, se sentia vazio. Aos poucos, Inácio chegou à
conclusão de que esse era o caminho que Deus estava lhe apontando.
Ele percebeu que, se você agir de acordo com os desígnios de Deus,
experimentará naturalmente uma sensação de paz. Chegar a essa compreen​são é
uma parte fundamental do discernimento inaciano. Se estiver em sintonia com a
presença de Deus dentro de você, terá uma sensação de equilíbrio, de paz, que
Inácio chamou de “consolação”. É um sinal de que estamos na direção certa.
Por outro lado, sentimentos de desolação espiritual, que Inácio descreve
como movimentos de inquietação e tentações, sinalizam que estamos no
caminho errado. Os pensamentos e sentimentos que jorram da consolação e da
desolação são contrários uns aos outros. Os primeiros nos levam à direção certa,
à atitude certa e ao relacionamento certo com Deus; os outros, à direção
contrária.

Consolação × desolação
Uma vez que a consolação e a desolação espiritual são pontos centrais no
discernimento inaciano, acho importante conhecer as definições originais
de Inácio. A consolação abrange desde sentimentos que levam uma alma a
estar inflamada de amor por Deus, derramar lágrimas pelo amor que tem a
Ele, todo aumento de esperança, fé e caridade, até toda alegria interior que
convida e atrai alguém para as coisas celestiais e da salvação da alma, por
trazerem tranquilidade e paz no seu Criador e Senhor.
Por desolação, Inácio entende os sentimentos que são “contrários” à
consolação, ou seja, insensibilidade da alma, tormento interior, impulso
para as coisas baixas e vis e inquietação proveniente de várias agitações e
tentações. Isso leva à falta de fé e deixa a pessoa sem esperança e sem amor.
Ela fica completamente apática, desanimada e infeliz e sente-se separada de
nosso Criador e Senhor.
Esses sentimentos, que Inácio conhecia desde que se convertera, nos
capacitam a discernir que escolhas nos ajudarão a chegar mais perto de
Deus.

Esse elemento básico do discernimento inaciano está fundamentado nas


experiências de Inácio, assim como em suas observações sobre como Deus
trabalhou na vida de outras pessoas. David Lonsdale, que leciona espiritualidade
numa faculdade de Londres, afirma que discernimento tem a ver com
“interpretação e avaliação espiritual dos sentimentos e, particularmente, com a
direção em que somos movidos por eles. O jesuíta Michael Ivens ressalta que
isso é reconhecer a operação do Espírito Santo nas mentes dos homens. David
Fleming chama esse processo de tomada de decisão por um coração amoroso.
O discernimento tem uma finalidade prática. Não é simplesmente um meio
de tentar conhecer a vontade de Deus, nem é apenas um meio para se chegar
mais perto Dele em oração. O discernimento nos ajuda a decidir qual é a melhor
maneira de agir. Ele não se resume ao nosso relacionamento com Deus, mas
sobre viver a nossa fé no mundo real e concreto. Inácio era um místico voltado
para resultados. E, como um homem prático, ele não era resistente à mudança
do seu pensamento diante de dados novos.
Não muito depois da sua conversão, Inácio se retirou para uma caverna. Com
seu entusiasmo característico, ele resolveu que tomaria a direção oposta, para
que pudesse se despojar de sua antiga vaidade. A pessoa outrora muito vaidosa
não se importaria mais com a aparência, deixando o cabelo crescer e não
aparando mais as unhas. O que aconteceu? Ele concluiu que a sua austeridade
estava fazendo muito pouco para ajudá-lo no seu objetivo final de “ajudar as
almas”. Muito embora tivesse adotado aquelas práticas por um propósito
específico, ele as abandonou para atingir suas metas. Os motivos não são difíceis
de entender: ele pode ter percebido que seu visual estava repelindo as pessoas.
Desde então ele se tornaria mais moderado, suavizando as severas penitências
da religiosidade popular de sua época. Anos mais tarde, Inácio exortou os
jesuítas a não seguirem práticas austeras similares que os impedissem de
trabalhar com eficiência. Nas Constituições, ele aconselhou os jesuítas a adotar a
moderação em todas as coisas e cuidar bem da saúde: prefiram comidas
saudáveis, façam exercícios físicos e descansem de maneira adequada para
realizar suas tarefas. “Uma preocupação equilibrada com a preservação da saúde
e do fortalecimento do corpo para o serviço divino é louvável e todos deveriam
tê-la”, escreveu ele com muita sinceridade.
Uma decisão aparentemente sem importância como cortar o cabelo foi a
primeira entre muitas em que Inácio pesaria os prós e os contras de uma
tomada de decisão e de perceber a necessidade constante de uma avaliação e
reavaliação dos dados.
Anos depois de sua conversão, quando celebrava missa, ele costumava ser
inundado pela emoção até chegar às lágrimas. Isso exigiu muito dele fisicamente
e, para não prejudicar sua vista e conservar a saúde, resolveu interromper a
celebração por um tempo a fim de cuidar bem das outras tarefas. Para Inácio, o
discernimento muitas vezes representava mudar de direção.
Inácio era indiferente o bastante para aprender com a experiência. O
peregrino asceta que negligenciava a saúde pôde com grande liberdade mudar
de direção e mais tarde aconselhar os jesuítas a cuidarem da saúde. E um dos
maiores místicos da história do cristianismo pôde diminuir o seu próprio
período de oração e aconselhar os jesuítas a não permitirem que uma
consagração excessiva os afastasse de suas tarefas práticas. Inácio percebeu que
alcançar o objetivo implica, algumas vezes, mudança de rota. Ocasionalmente, é
necessário até dar meia-volta.
Um dos primeiros companheiros de Inácio, Jerónimo Nadal, relatou que,
mesmo quando se tratou de planejar a direção da Companhia de Jesus, ele foi
delicadamente conduzido para onde não conhecia.
Para Inácio, todas as escolhas maduras são opções boas. Em outras palavras,
uma alternativa má não pode ser considerada no processo de escolha. Portanto,
uma pergunta do tipo “Devo dar um soco no imbecil do meu chefe?” está fora
de cogitação. Assim como algo parecido com “Devo cortar a árvore do terreno
do vizinho que sempre suja o meu gramado com suas estúpidas folhas secas?”.
Ambas são obviamente más escolhas e, embora você até queira fazê-las, não são
opções que Inácio achasse que deveriam ser levadas em consideração.
Algumas escolhas não estão mais disponíveis. Se você já tomou uma decisão
que não pode ser mudada, Inácio recomenda que se agarre a ela. Compromissos
devem ser mantidos. E se você tomou uma decisão que ainda pode ser
modificada, mas se sente em paz e não há motivo para alterar as coisas, então
não se incomode em tomar uma nova decisão.
Então não chego ao retiro questionando: “Eu devo continuar sendo um padre
jesuíta?” Agora e depois eu posso buscar mais clareza, e até posso ser tentado a
pensar sobre isso de vez em quando. Mas não é algo que demande uma decisão.
Inácio diria: “Não perca seu tempo. Você já assumiu um compromisso.”
Da mesma maneira, se você toma uma boa decisão e, de repente, se sente
desanimado com ela, este não é um sinal a ser considerado. Vamos supor que
você tenha resolvido ser uma pessoa mais generosa e perdoar alguém com quem
se desentendeu há algum tempo. Então você vai procurar esse amigo. Se a sua
iniciativa não restaurar a relação imediatamente, isso não significa que você
deva parar de perdoar outras pessoas. “Quando tomamos uma decisão de seguir
melhor a Deus e pouco depois nos sentimos abatidos, não devemos mudar a
decisão porque esse sentimento pode vir de um espírito mau”, escreve Joseph
Tetlow no livro Making Choices in Christ. “Quando nos sentimos abatidos, é
hora de intensificar as orações e aumentar a ajuda que damos aos necessitados.”
Por outro lado, se você tomou de maneira errada uma decisão passível de ser
mudada, deve reconsiderá-la. Você pode querer “tomar a mesma decisão de
uma forma nova e mais apropriada”, ensina Inácio. Se tomou uma decisão
infeliz que ainda pode ser modificada, por que não lançar um olhar renovado
sobre as coisas?
Nos Exercícios Espirituais, Inácio lista três estágios de uma tomada de decisão
que também poderiam ser descritos como três situações em que nos
encontramos diante de uma escolha. Agora, a discussão seguinte pode parecer
delicada, e você no início pode se sentir até um pouco confuso pela terminologia
e pelos vários passos. Essa foi a minha primeira reação ao ser apresentado a
essas práticas quando noviço.
Mas não se preocupe. Talvez porque viesse de uma vida militar ou porque
precisasse dirigir uma grande ordem religiosa, Inácio gostava das coisas
organizadas de forma precisa. Como resultado, os Exercícios Espirituais estão
cheios de listas, a maioria delas dividida em duas ou três. Os Dois Modelos. Os
Três Degraus da Humildade. Os Três Estágios da Tomada de Decisão.
E não se preocupe se ficar confuso com as exposições a seguir sobre o estágio
em que você se encontra ou que método está usando. O mais importante é
descobrir algumas técnicas, ou uma combinação delas, que funcionem para
você. Por fim, se praticar o bastante, verá que as técnicas se tornarão um hábito.

Os Três Estágios

O Primeiro Estágio
Algumas vezes não há dúvida sobre o que fazer. Essa é a tomada de decisão
em seu Primeiro Estágio. A nossa decisão, diz Inácio, “vem sem dúvida e sem
poder despertar dúvida”.
Um exemplo: você estava procurando emprego em uma empresa em
determinada cidade, começando em uma época específica. Após alguns meses
de entrevistas, recebe uma proposta. Você fica exultante com a sua boa sorte e
está claro que esse é o movimento correto; então aceita o novo emprego sem
pestanejar.
Inácio compara o Primeiro Estágio à história de São Paulo quando foi
ofuscado por uma luz vinda do céu e ouviu a voz de Jesus. Nenhuma dúvida
aqui. Jesus pediu que Paulo fosse para Damasco e assim ele fez.
Recentemente, um ator me contou que se apaixonara pelo teatro ainda na
escola. Ele optou por essa carreira logo após a sua primeira peça, nunca voltou
atrás e jamais lamentou a escolha. “Eu gostava tanto de representar que doía”,
disse ele.
No livro The Spiritual Exercises Reclaimed, as três autoras dão um ótimo
exemplo do Primeiro Estágio, vindo de uma mulher conhecida de uma das
autoras:

Passei os últimos 20 anos incentivando o meu marido e depois os meus filhos a estudar. Eu ficava feliz
de levá-los para praticar esportes, mas agora eu quero tempo para mim. Há uma faculdade comunitária
aqui perto, e meu filho mais velho já tem carteira de motorista, então não há necessidade de eu levá-lo
mais para lá e para cá. Agora quem vai estudar sou eu. É a hora certa e a coisa certa a ser feita.

Em todos esses casos, uma decisão foi tomada e, embora ninguém possa
comparar suas experiências à de São Paulo, não houve dúvida em nenhum deles.
De certa maneira, a resposta aparece tão logo a pergunta é formulada.

O Segundo Estágio
O Segundo Estágio não é tão claro. Não é como ficar perplexo com a
claridade, como ocorreu com São Paulo.
No Segundo Estágio você pode não estar completamente seguro. Forças e
desejos contrários parecem empurrá-lo para decisões diferentes. Voltando ao
exemplo do emprego: você recebeu uma proposta de emprego com um bom
salário, mas não começaria numa época muito conveniente. Ou o salário é bom,
mas a função não lhe agrada. Ainda que a decisão possa não estar clara
inicialmente, com o tempo, depois de conversar sobre ela e de orar, ela vai
ficando mais clara. Você se sente mais inclinado a aceitar o emprego.
Nesse ponto, diz Inácio, é bom meditar sobre que opção nos deixa mais
tranquilos. Ele pede que observemos os movimentos dentro de nós como um
sinal da ajuda de Deus para a nossa escolha. A paz interior nos encoraja, nos dá
confiança e tranquiliza a nossa tomada de decisão.
Durante muitos anos, refleti sobre a ligação entre tomar uma boa decisão e
sentir paz. Parecia quase uma superstição. Por acaso Deus nos inunda de paz,
como num passe de mágica, para nos ajudar a fazer a escolha certa?
Não. Como David Lonsdale escreve, sentimos paz depois de determinada
decisão quando ela está “em consonância” com a vontade de Deus para nossa
felicidade. Inácio acreditava que Ele intercede em nossas vidas por meio de
nossos desejos mais profundos. Quando estamos seguindo o caminho traçado
por Deus, as coisas parecem certas. E elas parecem estar em harmonia porque de
fato estão em harmonia.
A característica principal da sensação de paz é que ela está direcionada para o
crescimento, a criatividade e uma plenitude genuína de vida e amor que nos
levam a amar mais plenamente a Deus e às pessoas, e também a nós mesmos de
forma equilibrada.
O contrário da paz é a aflição. Inácio a classifica como qualquer coisa que nos
leve ao desespero. Ficamos agitados e inquietos ou, como ele diz, “abatidos,
desnorteados e infelizes”. Sentir isso significa que estamos na direção contrária à
da boa decisão.
O discernimento inaciano implica confiar que Deus falará com você nessas
experiências espirituais por meio das escolhas que estão sendo consideradas.
Como escreve Fleming, nosso coração nos dirá que escolhas estão nos levando
para mais perto de Deus. Tudo isso está baseado na crença de que Ele toca
nossos corações e de que podemos crescer em nossa sensibilidade para ouvir
Sua voz dentro de nós.
Enquanto se recuperava das cirurgias, Inácio sentia paz quando pensava em
seguir o exemplo dos santos. Quando pensava em impressionar “certa senhora”,
ele não tinha paz. Aos poucos percebeu que esses eram meios que Deus usava
para lhe mostrar qual o melhor caminho a seguir. Essas sensações conflituosas
devem ser examinadas durante a oração do Segundo Estágio.
Além de orar sobre as decisões e de perceber se está sentindo paz no coração,
há outra prática que pode ser utilizada durante o Segundo Estágio. É se imaginar
vivendo cada escolha, durante um tempo, e observar qual lhe proporciona
maior sensação de paz.
Durante alguns dias aja como se fosse optar por uma alternativa. Embora
ainda não tenha feito a escolha, imagine que a tenha feito e comporte-se como
se já tivesse tomado a decisão. “Experimente” a decisão, como se estivesse
provando uma roupa nova. Como ela o faz se sentir? Você se sente em paz ou
agitado? Depois, em outro dia, assuma a direção oposta. Como ela o faz se
sentir?
Essa é uma técnica poderosa. Normalmente o nosso pensamento se agita
entre uma opção e outra, inquieto, nunca dando tempo suficiente para
considerar ambas as alternativas. Mas, depois de conviver hipoteticamente com
uma opção e depois com a outra, algumas coisas que você não tinha percebido
antes virão à sua mente. Com o tempo, vantagens e desvantagens se tornam
mais claras. Em certo sentido, você enxerga as consequências da decisão antes
de tomá-la. No final do processo, pergunte-se qual das opções lhe trouxe mais
paz. Então confie no seu coração e tome a decisão.
Discernimento, no entanto, como observa Fleming, não é apenas uma
questão de se sentir em paz. Devemos ter acesso ao que acontece dentro de nós.
“Complacência e presunção a respeito de uma decisão podem se disfarçar de
paz. Por vezes, a falta de paz pode ser uma indicação oportuna de que
precisamos seguir uma nova direção”, afirma ele. Acima de tudo, é preciso ter
honestidade sobre o que estamos realmente sentindo e por quê.

O Terceiro Estágio
Para muita gente, a situação mais comum de uma tomada de decisão é o
Terceiro Estágio. Você se vê com duas ou mais alternativas boas, porém
nenhuma delas é uma escolha óbvia. E há pouca clareza na oração.
“A alma está sendo levada de um lado para outro por espíritos contrários”,
diz Inácio. É nesse momento nebuloso que as práticas claramente definidas de
Santo Inácio podem ser mais úteis. Suas técnicas podem lhe dar também uma
coisa inesperada: a calma. Um rapaz que me procurou, certa vez, em busca de
direção espiritual disse que apenas conhecer essas técnicas fez com que ele se
sentisse menos sobrecarregado pela perspectiva de ter que tomar uma grande
decisão.
Para o Terceiro Estágio, Inácio apresenta dois métodos. Imagine que você
tenha que decidir entre comprar uma casa nova ou continuar no pequeno
apartamento alugado em que mora. Como qualquer um que já tomou uma
decisão como essa sabe muito bem, esse tipo de mudança é bastante complexo e
envolve questões de natureza econômica e emocional.
O Primeiro Método é baseado na razão. Mais uma vez começa com a
indiferença. Você deveria estar inclinado a não pender nem para um lado nem
para o outro, apesar da agonia que já está atravessando sobre essa decisão.
Essa compreensão é decisiva. Não podemos considerar com liberdade uma
decisão se já a tomamos ou se a tomamos por não termos outra opção. “Eu não
estou mais inclinado, ou emocionalmente mais disposto, a assumir a questão
proposta do que estou inclinado a abdicar dela”, escreve Inácio, “nem a abrir
mão dela mais do que abraçá-la. Em vez disso, devo me posicionar no meio,
como o ponteiro de uma balança.”
Neste Primeiro Método, Inácio nos apresenta seis passos:
Primeiro passo: Coloque a escolha diante de você em oração; neste caso,
comprar uma casa ou ficar em seu apartamento.
Segundo: Identifique seu objetivo final, que para Inácio é o desejo de agradar
a Deus, assim como a necessidade de ser indiferente.
Terceiro: Peça que Deus o ajude a guiar seu coração para uma decisão
melhor.
Quarto: Faça uma lista, mentalmente ou por escrito, dos possíveis resultados
positivos e negativos da primeira opção. Depois faça uma lista dos possíveis
resultados positivos e negativos da segunda opção.
Você, a seguir, fará a lista dos benefícios que terá se comprar um novo
imóvel: mais espaço, mais liberdade para fazer o que quiser com o lugar, o
dinheiro que seria destinado ao aluguel seria investido na propriedade, etc.
Depois fará a lista dos aspectos negativos: assumir um financiamento,
administrar o imóvel, cortar a grama, preocupar-se com consertos, etc.
Então examine a alternativa. Quais os aspectos positivos? Permanecer no seu
apartamento evitaria perder tempo com mudança, você conservaria o conforto
do velho lar e manteria sua rotina doméstica. E os negativos? Aumento do
aluguel, ambiente apertado, vizinhos barulhentos.
O Primeiro Método nos lembra de que nenhuma decisão leva a um resultado
perfeito, pois qualquer decisão sempre contém prós e contras. Listar os aspectos
positivos e negativos nos liberta da ideia de que uma boa decisão significa
escolher a perfeição.
Quinto passo: Agora que tem as suas listas, ore sobre elas e veja para que
caminho a sua razão se inclina. Por fim, você chegará a uma decisão que trará
paz. Mas há um passo adiante.
Sexto: Peça alguma confirmação de Deus de que você está tomando a decisão
certa.
Uma confirmação deve ser buscada em todas as decisões. E Inácio esperava
que a pessoa sentisse a confirmação da “escolha correta”, como diz Lonsdale.
Isso pode levar à experiência de paz ou simplesmente à sensação de estar em paz
consigo mesmo e com Deus. Uma escolha equivocada normalmente geraria
sentimentos de inquietação e agitação, como se, de alguma forma, tivéssemos
tomado o caminho errado. Nós oramos por confirmação para termos certeza de
estar fazendo a vontade de Deus e para conter a nossa tendência a optar por
conclusões rápidas.
Michael Ivens nos lembra de que deveríamos estar satisfeitos com a
confirmação que vier, mesmo que simples. “Esta, no final, pode ser apenas a
confirmação negativa de que nada surge para questionar aquela decisão.”
Isso não quer dizer que uma boa decisão não mexa com você. Se decidir se
mudar, haverá muito por fazer. E todos sentirão algum tipo de arrependimento.
Você pode sentir ansiedade ao pensar sobre todas as providências necessárias
para morar em um novo imóvel. Mas, se lá no fundo você sentir alegria, paz e
tiver a sensação de que está na direção certa, provavelmente terá feito uma boa
escolha.
A confirmação vem, às vezes, de forma dramática. Em outras, a clareza pode
até fazê-lo sorrir. Meu amigo de longa data, Chris, esteve pensando em largar
seu antigo emprego como gerente de investimentos em uma grande corretora.
Ele havia recebido uma proposta de uma universidade para administrar o seu
portfólio de investimentos. Ele estava prestes a aceitar o novo emprego, mas
algo parecia impedi-lo.
Na manhã em que se comprometera a dar a resposta à universidade, ele leu
uma prece que recebe por e-mail todos os dias, uma curta reflexão sobre algum
trecho da Bíblia. O título era: Tempo de partir.

Talvez o Senhor tenha mandado esta mensagem para sua vida nesta hora para lhe dar mais um
incentivo de obedecer ao Seu direcionamento de deixar a segurança e segui-Lo para algo maior e
melhor, ainda que desconhecido.

Chris conseguira a sua confirmação. Ele riu quando me contou essa história e
disse: “Não é bacana quando Deus é bem direto?”
Na maioria das vezes, porém, Ele não é tão explícito. Por isso, contente-se
com a confirmação que Deus lhe dá.
Ela também precisa ser encontrada fora de você. Não é só o que você sente ou
mesmo a sensação de “justiça”. Na vida jesuíta, se tomamos uma decisão e o
superior não a apoia, devemos dizer que ela não foi confirmada. Para a maioria
das pessoas, a confirmação também vem quando se coloca tal decisão à prova.
Vamos supor, por exemplo, que você resolveu confrontar seu gerente a
respeito das críticas que ele faz ao seu trabalho. Você discerniu cuidadosamente
que falará com ele durante a avaliação anual de desempenho. Mas, no dia
esperado, você descobre que seu chefe está de péssimo humor e que já teve uma
discussão acalorada com um de seus colegas de trabalho. Parece que a sua
decisão de confrontá-lo não recebeu confirmação, por isso talvez seja mais
sensato aguardar alguns dias. Não é porque discernimos algo com clareza que
não devamos olhar para a realidade em busca de alguma confirmação concreta.
Como disse um jesuíta: “Confie no seu coração, mas também use a cabeça.”
Isso não significa que você fez uma escolha ruim. Pode ser apenas uma
indicação para discernir com base nas novas informações. Esse é o modelo de
“reflexão-ação-reflexão” que os jesuítas ensinam a seus alunos. Você reflete
sobre uma decisão, age sobre ela, vê o que acontece e então reflete sobre aquela
experiência, o que o leva a tomar outra decisão que o impulsiona para a frente.
Isso é ser um “contemplativo em ação”, alguém que está sempre refletindo sobre
a sua vida ativa, como Inácio fez.
Agora você pode dizer que o Primeiro Método é um modo claro de tomar
uma decisão do Terceiro Estágio. Mas Inácio destaca alguns passos que
normalmente ignoramos quando fazemos uma escolha.
Primeiro: Ele nos lembra do valor da indiferença. Muitas vezes entramos em
um processo de decisão com a mente já condicionada ou preocupada sobre
como os outros julgarão nossa decisão. Tente evitar essas armadilhas.
Segundo: O Primeiro Método tem o foco na razão, e não na emoção. Isso
ajuda a remover a tremenda ansiedade que geralmente está ligada a uma grande
decisão. Emoções são importantes em uma tomada de decisão, mas em geral
somos tão emocionais ao tomar uma grande decisão que, embora saibamos que
o melhor é fazer uma lista, nunca colocamos essa medida em prática por causa
de toda a pressão emocional. Por isso, o Primeiro Método nos lembra do valor
da razão.
Terceiro: Inácio nos lembra de que todo curso de ação será imperfeito, pois
toda e qualquer solução tem aspectos positivos e negativos. Há prós e contras
em ambos os lados, e isso nos ajuda a evitar a armadilha de perseguir o
resultado perfeito.
É comum recorrer a listas em tomadas de decisão. O que Inácio acrescenta a
essa abordagem é a questão da indiferença, de orar sobre a lista, buscar
confirmação e confiar que Deus está no processo, porque Ele deseja nossa
felicidade e nossa paz.
Algumas vezes o Primeiro Método pode ser difícil. Um homem me confessou
que com todas essas listas achou o processo de tomada de decisão muito
analítico, pois envolvia uma extensa coleta de dados. Mas eu logo lhe contei que
Inácio elaborara outro método.
O Segundo Método se fundamenta menos na razão e mais na imaginação. Ele
emprega algumas técnicas criativas para nos ajudar a pensar sobre a decisão de
modo leve. Inácio é flexível. Ele oferece uma variedade de maneiras para se
tomar uma decisão, dependendo do perfil psicológico da pessoa – algumas se
apoiam na oração, outras na razão, outras na imaginação. Mais uma vez, ele nos
mostra seu entendimento aguçado da natureza humana.
Primeiro: Ele sugere imaginar alguém a quem você nunca tenha visto ou
conhecido e pensar que conselho você daria a essa pessoa em relação à mesma
decisão que você está pleiteando. Isso pode ajudá-lo a se libertar de um foco
excessivo em si próprio.
Há alguns anos, por exemplo, me senti compelido a falar sobre um tema
controvertido na Igreja, mas meu superior disse que não queria que eu falasse.
Foi uma situação difícil, pois minha integridade me apontava uma direção, mas
meu voto de obediência me guiava para outra. Se eu seguisse a minha
integridade, teria de desobedecer ao meu superior. E, se eu fizesse isso, teria que
abrir mão da minha integridade.
Chegar a uma boa decisão parecia impossível. Na oração, fui atraído para a
figura de Jesus pregando corajosamente a verdade. Em outros momentos,
imaginei que ele me lembrava de meu voto de obediência. Minhas emoções me
impediram de chegar a uma resposta clara: por um lado, eu sentia o desejo de
falar; por outro, desejava ser um bom jesuíta. Minha razão também fracassou
em me guiar a uma resposta clara: por um lado, eu devia falar a verdade; por
outro lado, devia cumprir meus votos.
No meio dessa confusão me lembrei do Segundo Método. Então imaginei
alguém na minha situação: um jesuíta que se sentia impelido a se expressar, mas
que queria manter seu voto de obediência. Logo ficou claro o que eu deveria
dizer a ele quando me livrei do foco em mim mesmo.
Imaginei essa figura que precisava da aprovação de seus superiores, muito
embora isso pudesse levar anos. Dessa maneira ele seria sincero, tentando falar o
que sua consciência pedia, ao mesmo tempo que se mantinha fiel a seus votos.
Ao fim da oração, senti que me libertara de um peso. O Segundo Método me
libertou para enxergar claramente. Eu sabia o que tinha de fazer, porque soube o
que ele tinha de fazer.
Segundo: Inácio diz que você pode se imaginar a ponto de morrer. Sei que isso
soa mórbido, mas também traz clareza. Tente se imaginar em seu leito de morte
perguntando a si mesmo: O que eu deveria ter feito?
É fácil perceber por que isso é tão eficaz. Geralmente escolhemos algo que é
mais conveniente agora, a saída mais fácil, que sabemos ser uma decisão da qual
não nos lamentaremos. Como se sabe, ninguém em seu leito de morte jamais
declarou que gostaria de ter passado mais tempo trabalhando, o que ilustra esse
insight.
Terceiro: Podemos nos imaginar no Juízo Final. Que escolha iríamos querer
apresentar a Deus?
Para usar aquele exemplo anterior de quem procura um novo imóvel para
morar, é claro que ninguém vai ser repreendido por Deus por decidir
permanecer em um apartamento, em vez de adquirir um novo. Sobretudo nas
escolhas morais, esse método pode nos ajudar a focar nas demandas da fé.
Talvez você precise decidir, por exemplo, se aceita um novo emprego que lhe
pague mais, mas que diminuirá seu tempo com a família. Então você pode
imaginar Deus, no final de sua vida, ficando triste com a sua decisão.
Quero acrescentar uma sugestão às de Inácio, uma espécie de quarta técnica:
imagine o que o seu “melhor eu” faria.
Você provavelmente tem uma ideia daquele que gostaria de se tornar, da
pessoa que Deus o está chamando a ser, e que é também o seu “melhor eu”, o
seu “eu verdadeiro”, o seu “eu autêntico”. No meu caso, ele é uma pessoa livre,
confiante, madura, independente e amorosa. Você consegue imaginar o seu
melhor eu, aquele em que espera se tornar algum dia? Quando se confrontar
com a tomada de decisão, pergunte-se: O que o meu melhor eu faria? Às vezes, a
resposta virá imediatamente – você pensa: se eu fosse uma pessoa mais livre e
mais amorosa, com certeza escolheria tal opção.
No início, pode parecer estranho tomar decisões com base nessa quarta
técnica. Ou seja, é possível que não se sinta à vontade ao agir como se você fosse
o seu melhor eu. Mas, por fim, ao agir dessa forma, você seguirá na direção de se
tornar o seu melhor eu. Como o poeta jesuíta Gerard Manley Hopkins escreveu,
uma pessoa pode “agir perante Deus da forma como os olhos Dele a veem”.
Tomar decisões como se fosse o seu melhor eu o ajudará a se tornar essa pessoa.
A mula que discernia
Em sua autobiografia, Inácio conta a história arrepiante de um de seus
discernimentos mais antigos e mais equivocados. Logo após sua conversão,
ele encontrou um homem que viajava pela estrada insultando a Virgem
Maria. Impetuoso, Inácio ficou com raiva e chegou a pensar em matar
aquele blasfemador. Ele se dirigiu a uma bifurcação da estrada e resolveu
que, se sua mula seguisse o mesmo caminho do homem, aquele seria um
sinal de Deus e ele mataria o homem. Felizmente para todos os envolvidos,
a mula tomou o outro caminho. Quando contou essa história para um
grupo de jovens jesuítas, um superior regional arrancou risos ao dizer: “E,
desde então, asnos têm tomado decisões na Companhia de Jesus!”

Regras para o discernimento

Além desses métodos e práticas, Inácio descreve o que poderíamos chamar de


dicas úteis para tomar grandes decisões. Ele também mostra como reconhecer
quando o “inimigo da raça humana” está em atividade e quando o “bom
espírito” está em operação nas nossas escolhas.
Você pode ficar confuso com os termos antiquados que Inácio usa. Mas não
se engane: ele acreditava que o “bom espírito” é o Espírito de Deus nos
conduzindo a uma vida mais saudável e santa. O “espírito mau” ou “inimigo”,
na visão de mundo inaciana, é o de Satanás.
Outra maneira de pensar é reparar naqueles sentimentos que nos afastam do
Senhor por serem opostos ao Espírito de Deus. Ou distinguir entre o que é “de
Deus” e o que “não é de Deus”. A maioria de nós sente a pressão entre bem e
mal, saudável e doentio, egoísta e generoso. Inácio vislumbrava esse
antagonismo em termos de uma batalha que, por diversos modos, nos ajuda a
identificar que espírito está em atividade. Timothy Gallagher, em Discernment
of Spirits, diz: “Inácio reconhece que, quando procuramos abraçar o amor de
Deus e seguir Sua vontade de acordo com a verdade plena de nossa natureza
humana, nós encontramos algo que se opõe a essa busca – nós estamos diante
de um inimigo.”
Mas não importa como você imagina o inimigo atuando; a maneira como ele
atua dentro das pessoas é instantaneamente identificável e tem algumas
características que a tornam reconhecível. Não importa como o entenda, você
verá que aqui, especialmente, Inácio é um companheiro digno de Freud e Jung
na sua compreensão arguta do psiquismo humano.
Essas dicas, chamadas de Regras para o Discernimento, não são tanto técnicas
como as outras anteriores, mas insights. A seguir, apresento as que considero
mais úteis.

O pingo d’água
Se você está indo de mal a pior e a sua vida está descendo ladeira abaixo, o
inimigo o instiga a continuar. Ele o “faz imaginar delírios e prazeres dos
sentidos e os utiliza rapidamente para aprofundar os seus pecados”, diz Inácio.
Logo, se você está envolvido em algum comportamento pecaminoso, o espírito
mau o fará se sentir bem com essas coisas. Se você está envolvido em algum
esquema de negócio sujo, o espírito mau lhe dirá algo do tipo: “Ah, continue!
Não se preocupe. Imagine o dinheiro que você vai ganhar com isso! Todo
mundo faz isso. Você merece. Tudo acabará bem.”
No filme de Alfred Hitchcock Rebecca, a mulher inesquecível, há uma cena
encantadora na qual a senhora Danvers, a empregada malvada da casa, espreita
de uma janela a nova esposa do dono da casa. A criada ciumenta despreza a
nova esposa e decidiu fazer da vida dela naquela casa um inferno. Solitária e
sentindo-se desamparada, a nova esposa vê o chão ruir diante dela quando a
empregada a incita a se matar.
É assim que o diabo atua: incentivando as pessoas a continuarem com seus
maus pensamentos ou más ações, até o fundo do poço.
O bom espírito age de maneira inversa. Aqui você sente o picar da
consciência “com arrependimento”, diz Inácio. Se você está roubando dinheiro
de sua empresa, sentirá um peso na consciência como um alerta: “Acorde! O
que você está fazendo é errado!” Esse é o bom espírito em ação.
Aqui, Inácio utiliza a metáfora conhecida do pingo d’água. Para aqueles que
vão de mal a pior, o espírito mau se parece com um pingo d’água caindo sobre
uma esponja: amaciando, acalmando, incentivando. Ou como diz Inácio:
“delicado, gentil, sedutor”. Mas o bom espírito nesses casos é como um pingo
d’água caindo sobre uma pedra: incisivo, grave, até barulhento. Como diz
Inácio: “violento, sonoro e perturbador”. Como meu amigo David diria: “Preste
atenção!”
Quando estamos indo de mal a pior, o pingo d’água incisivo sobre a pedra
pode acontecer interior ou exteriormente: ele pode tomar a forma do conselho
duro de um amigo que nos desperta da complacência espiritual.
Para a maioria de nós que se move na direção contrária, tentando levar uma
boa vida, num esforço para se tornar cada vez melhor, acontece o inverso. Neste
caso, o bom espírito é como o pingo d’água numa esponja; e o mau, o pingo
d’água sobre a pedra.
Vamos supor que você se ofereceu como voluntário para um projeto de
fornecimento e preparo de refeições para os pobres. Neste caso, o bom espírito o
estimula docemente a seguir esse bom caminho. “O bom espírito injetará
coragem e força, consolação, lágrimas, inspiração e paz. Ele torna as coisas mais
fáceis e remove todos os obstáculos, de maneira que as pessoas sigam em sua
missão de fazer o bem”, disse Inácio. Você se sente confortado, inspirado e
animado quando pensa em se oferecer como voluntário e avançar por um
caminho de amor.
O inimigo o impele na outra direção, agindo como o pingo d’água na pedra.
“Ai! Eu nunca fiz algo assim”, você pensa de repente. Em geral, esse pensamento
vem como um medo súbito e ansioso. O mau espírito tem como característica
“provocar ansiedade, tristeza e impor obstáculos. Dessa maneira, ele abala as
pessoas com motivos falsos a fim de impedir seu progresso”, diz Inácio.
Por que o bom e o mau espírito trabalham de maneiras opostas dependendo
da disposição da alma? “Isso acontece pelo fato de que a disposição da alma ou é
similar ou é diferente dos respectivos espíritos que estão atuando. Quando a
alma está diferente, os espíritos entram com ruído perceptível e são facilmente
percebidos. Quando a alma está similar a cada um deles, eles entram
silenciosamente, como quem entra na sua própria casa por uma porta aberta.”
Outro discernimento que gosto de usar é o do “e se” e do “se ao menos”. Para
a pessoa que tenta fazer o bem, o mau espírito a desestimula com “e se” e com
“se ao menos”. Vamos supor que você tenha acabado de se oferecer como
voluntário em um abrigo para sem-teto. De repente, um pensamento de pavor
lhe ocorre: Ah, não! E se eu pegar uma doença ao conviver com essas pessoas? E se
um deles me atacar? E se a equipe achar que sou muito inexperiente? Essas
situações hipotéticas não têm fim. O inimigo só projeta coisas ruins para o seu
futuro, que é desconhecido. Trata-se do espírito mau causando ansiedade
atormentadora, e isso deve ser evitado.
Em situações do tipo “se ao menos”, o foco está no passado. Você pode ser
derrotado pelo pensamento: Se ao menos eu tivesse começado isso há alguns
anos! Se ao menos eu não tivesse perdido tanto tempo! Se ao menos eu tivesse me
interessado um pouco antes em ajudar os mais necessitados! O espírito mau está
causando ansiedade atormentadora, só que dessa vez centrada no passado.
Também é um beco sem saída: o passado não pode ser mudado. Portanto,
ignore esses pensamentos.
Algumas vezes os “e se” e os “se ao menos” podem nos ajudar a sonhar, ou
podem nos levar a nos entristecermos por nossos pecados. Mas quando eles o
conduzem ao medo, impedindo-o de seguir adiante de forma saudável,
guiando-o a becos sem saída e causando ansiedade atormentadora, quase
sempre isso não vem de Deus.
Por fim, você pode examinar cuidadosamente os “puxões” e “empurrões”
também. Um de meus diretores espirituais disse que quando nos sentimos
compelidos a fazer algo – Eu devia fazer isso, eu devia fazer aquilo –, com uma
sensação de pressão e obrigação insanas ou por um desejo de agradar a todos,
isso pode não vir de Deus.
Os “empurrões” de Deus, por outro lado – convites suaves que acenam com
amor –, são bem diferentes. É claro que precisamos cumprir as obrigações para
sermos pessoas boas e decentes. Mas tenha cuidado para que sua vida não seja
apenas uma sucessão de pressões e empurrões que podem não proceder de
Deus.

Não mude no desespero


“Em épocas de desespero, não se deve fazer mudanças”, aconselha Inácio. Por
que não? Porque, quando estiver se sentindo distante de Deus e desesperado,
você estará mais sujeito a ser influenciado pelo mau espírito. Quando estiver se
sentindo abandonado por Deus, o mais provável é que diga “Isto é inútil!” e
mude a direção. Ou pergunte desesperadamente “Qual o sentido?”, e
simplesmente desista.
Isso faz sentido, não é? Se alguém nos diz que está confuso, que não consegue
pensar direito e que se sente desesperado, você diria a ele que é um bom
momento para tomar aquela grande decisão? Claro que não. Ele não está
raciocinando com clareza. “Não tome decisões quando estiver fora de si” é outra
maneira de dizer isso. O mais provável é que essa pessoa seja influenciada por
motivos doentios. Porém tomar decisões em períodos de desespero é mais
comum do que se pensa. Resista a esse ímpeto.
Aos desesperados, Inácio recomenda que orem e meditem ainda mais,
invistam no autoexame, aceitem que não são todo-poderosos e tentem ser mais
pacientes. Da mesma forma, quando alguém se encontra em um período de paz,
deve “armazenar forças” para o futuro. É bom aproveitar esses momentos para
escrever um diário, de modo que quando estivermos nos sentindo distantes de
Deus possamos recordar os períodos em que estávamos próximos Dele. Isso
também pode ajudá-lo a se agarrar às boas escolhas que já fez.

Minha má decisão: um estudo de caso


Vamos dar um exemplo de “pingo d’água” e de “tomar decisões em
momentos de desespero” e ver como esses dois insights trabalham juntos. Para
isso, quero relatar uma das piores decisões que já tomei.
Certa manhã, cheguei ao centro de refugiados em Nairóbi e verifiquei que
alguém havia roubado o cofre em que estavam guardados centenas de dólares, o
equivalente a uma semana de faturamento da loja de artesanato. Indignado,
reuni a equipe, disse como eu me sentia traído e exigi que o autor do delito
confessasse imediatamente. Todos negaram veementemente qualquer
participação no furto.
Tomado pela fúria, acompanhei cada um para uma revista na sua própria
casa em busca do dinheiro, o que é um insulto grave.
Por alguns dias tentei orar sobre um curso de ação. Mas eu estava
transtornado e ficava andando em volta da cama, sem conseguir rezar. Em vez
de me concentrar em Deus e nos movimentos de minha alma, tudo o que fiz foi
ruminar sobre a traição. Eu estava mais irado por alguém ter me traído do que
pela perda dos recursos para os projetos dos refugiados. Embora meus amigos
jesuítas tenham me aconselhado a ter paciência, ignorei o conselho e me
empenhei em castigar alguém. Eu estava subestimando Deus e meus amigos,
cultivando o desespero e me isolando dos dois modos com que Ele se comunica
conosco: a oração e os amigos.
Então alguém disse que a melhor maneira de resolver a situação era me livrar
de todos os funcionários, despedindo toda a equipe. “Dessa maneira, você vai
transmitir o recado de que não irá tolerar episódios como o que aconteceu.”
Sim!, eu reagi, radiante. Isso tornaria tudo mais fácil. O espírito mau estava me
incentivando, como o pingo d’água caindo sobre a esponja.
Eu despedi todos. Como era injusto castigar todos pelo erro que apenas um
cometera. Foi uma cena desoladora. Eles choraram e me imploraram que
fossem mantidos no emprego. Depois que deixaram o escritório, eu também
chorei e refleti brevemente se estava tomando a decisão certa. Mas preferi
sufocar esse sentimento.
Na manhã seguinte, senti um peso na consciência. O que eu havia feito? Eu
deixara a raiva, a vingança, o orgulho e a injustiça me dominarem. E percebi –
em estado de choque – que tinha cometido um erro terrível. Era o pingo d’água
sobre a pedra, “violento, barulhento e perturbador”, tentando me despertar.
Como Inácio fez em muitos casos, mudei o curso. Nas semanas seguintes,
recontratei dois dos funcionários que tinha desligado, arranjei um novo
emprego para um terceiro e comecei a providenciar ajuda financeira para o
último. No final, pedi perdão e me reconciliei com todos eles. E só depois que fiz
isso voltei a sentir paz.
O que Inácio diria? Provavelmente, que eu havia tomado uma decisão ruim
num momento de desespero. O espírito mau me empurrou para o caminho
errado, mas felizmente o bom espírito me despertou. E, depois que mudei de
direção, senti paz, como confirmação de que agira corretamente.

Três maneiras pelas quais o “inimigo” age


Apresentei a visão de mundo de Inácio e suas imagens do espírito bom e do
espírito mau. Ele tinha um entendimento agudo das maneiras específicas como
esse espírito mau – o “inimigo” ou, se você preferir, nosso “pior eu” – opera em
nossas vidas. E ele identifica três modos principais.
Essa foi a parte da espiritualidade inaciana que achei mais fácil de ver em
atividade. E, uma vez que ela se torna comum para você, é mais fácil enxergá-la
na própria vida.
Primeiro, o inimigo se conduz como uma criança mimada, que é “fraca
quando confrontada pela firmeza e forte quando está diante da complacência”.
Muitas vezes somos atacados pelo que parece uma criança dentro de nós. E
pensamos: “Eu quero isto! E agora!”
Qual é a solução? Faça o que você faria com uma criança mimada: repreenda
essas tentações. Você verá o efeito. A tática do inimigo é enfraquecer, intimidar
e incitar quem se mostra corajoso e determinado.
Tenha pena dos pais que cedem à criança mimada que exige sempre mais. E
tenha pena daquele que não repreende seus próprios caprichos egoístas. Os
casados que dão ouvidos àquela voz infantil que diz “Eu tenho que ir pra cama
com essa pessoa!” se arriscam a fazer uma escolha destrutiva. Se você começar a
“temer e se intimidar”, como Inácio diz, as tentações irão ficar mais fortes. Logo,
comece a repreender!
Segundo, o inimigo atua como um falso amante. Ele prefere que as tentações,
as dúvidas e o desespero sejam mantidos em segredo, o que só torna as coisas
piores.
Inácio classifica o inimigo como um canalha que tenta agir em segredo sem
ser descoberto. Ele compara o inimigo a um galã sedutor que tenta afastar a
esposa virtuosa de seu marido. O canalha faz tudo para que seus convites
permaneçam secretos, para que o marido não descubra e defenda seu
casamento.
Na mesma direção, ele escreve: “Quando o inimigo da raça humana estende
as garras da persuasão para uma pessoa íntegra, ele pretende e deseja que a sua
sedução seja recebida e mantida em segredo. Mas, quando a pessoa a revela a
um bom confessor ou a qualquer um que seja espiritualizado, ele fica seriamente
abalado, pois logo percebe que não irá prevalecer.”
Qual a solução? Trazer tudo às claras – todos os sentimentos negativos,
tentações e impulsos para fazer a coisa errada, para cair no desespero ou se
distanciar de Deus. Converse sobre eles com um amigo em quem você confia ou
com um conselheiro espiritual. Você se surpreenderá ao ver como essas
tentações que pareciam tão poderosas quando estavam escondidas no seu
coração perdem rapidamente a força ao serem reveladas.
Isso é bastante comum de acontecer em um aconselhamento espiritual.
Alguém fica tentando abordar um tema incômodo, algo que receia revelar,
justamente porque sabe que uma vez que venha à tona ele será desafiado a
reconhecer que o sentimento é maligno.
Uma vez revelada, a vontade, a decisão ou a tendência maligna pode ser
examinada, rejeitada e tratada. Quando um jovem jesuíta é tentado a quebrar
seus votos de alguma maneira, ele em geral evita falar de suas lutas com seu
superior ou diretor espiritual, e por isso o conflito, o medo, o segredo e os
problemas fatalmente se agravam.
“O diabo nunca obtém tanto sucesso conosco quanto quando trabalha em
silêncio e na escuridão”, diz Inácio. Ou, como os membros dos Alcoólicos
Anônimos costumam dizer: “Você é tão doente quanto os seus segredos.”
Por fim, o inimigo atua como um comandante militar. Essa é a minha
imagem preferida e remete ao passado de Inácio como soldado. O comandante
militar sabe exatamente quais são e onde estão os pontos fracos do inimigo e
mira neles. Quando se prepara para atacar um alvo, o comandante monta seu
acampamento, analisa minuciosamente as fraquezas e as forças do inimigo e
ataca os pontos mais vulneráveis.
Da mesma forma, o mau espírito analisa onde somos mais fracos, mais
passíveis de cair em tentação, até mesmo nos bons momentos. “Então ele ataca e
tenta nos dominar”, escreve Inácio. Em outras palavras, o espírito maligno
atacará onde formos mais vulneráveis. Seu ponto fraco é o orgulho? Nesse caso,
quando tudo estiver indo bem em sua vida, o diabo tentará atacá-lo neste ponto.
“Quando o diabo quer atacar alguém, ele procura ver de que lado as defesas
estão mais fracas ou mais desorganizadas, então lança sua artilharia para abrir
uma brecha naquele lugar”, disse Inácio.
Vamos supor que você tenha começado a cuidar de um parente idoso, o que
sem dúvida é uma atitude muito generosa. Aos poucos, os outros começam a
elogiar sua nobreza de caráter. Você começa a pensar: Eu estou fazendo uma boa
ação. Mas o comandante militar está procurando um meio de invadir suas
defesas. Então, pouco a pouco, você passa a pensar: Que pessoa boa eu sou. E
logo passa a: Eu sou tão santo! E, finalmente: Eu sou mais santo do que todos.
Você se torna mais orgulhoso, arrogante e confiante na própria justiça. E assim
começa a julgar, a condenar e até a odiar as pessoas que não parecem tão
“santas” quanto você.
Você pode se gabar: Como eu cheguei até aqui? Nesse caso, o mau espírito
conseguiu encontrar seu ponto fraco e está vencendo a batalha.
Qual a melhor defesa para evitar que isso aconteça? Reforçe os pontos
vulneráveis do seu castelo espiritual, dê atenção especial às maneiras como as
tentações lhe aparecem e aja contra essas tendências.
Com o tempo, é possível prever os modos como seremos tentados. Para mim,
as tentações geralmente vêm de duas maneiras: quando me sinto solitário ou
preocupado com a saúde. No mês anterior à minha ordenação, por exemplo, fui
invadido pelo desejo sexual. Uma semana antes, contraí uma terrível virose que
me deixou acamado. Não foi difícil constatar como meus pontos fracos estavam
abertos para o ataque. Por essa razão, reforcei esses aspectos da minha vida. No
dia da ordenação, lá estava eu feliz e saudável na igreja.
Identifique esses sentimentos a tempo e saiba quando está sendo tentado a se
desviar para o caminho errado.

O anjo de luz
Isso nos leva a outra descoberta inaciana: o espírito mau se disfarça de bom.
Parece extraído de um filme de terror, não é mesmo? Mas é uma maneira afiada
de compreender a natureza humana. Resumindo, quer dizer que as coisas que
parecem boas para nós podem tomar subitamente uma direção errada e revelar
uma influência maligna. O espírito mau, diz Inácio, “toma a aparência de um
anjo de luz”.
Vamos imaginar o caso de um pai de família que decide orar mais. Ele pensa
que isso o levará a ser mais contemplativo e mais amoroso como marido e pai.
Mas talvez seus motivos não sejam tão puros. Talvez, inconscientemente, ele
deseje escapar de sua família. Aos poucos, ele fica tão absorvido em seu desejo
de orar que começa a negligenciar suas obrigações como marido e pai. Logo
começa a ficar irritado sempre que seu precioso tempo de oração é
interrompido. “Saiam daqui, estou orando!”, ele grita para seus filhos. O espírito
maligno sutilmente se disfarçou de bom para conduzir a pessoa a um
comportamento egoísta e amargo.
“O espírito mau traz pensamentos bons e santos que são atraentes para as
pessoas elevadas, e então, aos poucos, vai tentando chegar aonde deseja,
enfeitiçando a alma daquele a quem ele quer contaminar com suas intenções
ocultas enganosas e más”, diz Inácio.
John English, um jesuíta canadense, observa em Spiritual Freedom que o mau
espírito também pode usar o pretexto do início de uma pessoa na vida espiritual
para sugerir: “Bem, agora que tudo depende de Deus, vamos relaxar um pouco!”
English escreve que as pessoas se tornam preguiçosas e dispersivas e acabam
abandonando seu entusiasmo pelo amor e pelo serviço.
Essa é uma experiência sutil. Quando ela acontece, diz Inácio, devemos
examinar os meios pelos quais o espírito maligno nos tenta para podermos nos
prevenir no futuro. Essa é uma boa prática sempre que conseguirmos identificar
o modo como fomos arrastados para o caminho do erro.
Ao colocar isso em prática, começamos a saber quando estamos sendo
tentados para o erro, porque teremos passado por essa experiência. No filme
Matrix, em que o personagem principal Neo é convidado a ver a realidade
radical do mundo em que vive, há um exemplo desse tipo de conhecimento do
caminho errado por experiência. Em uma cena, ele se encontra em um carro
que está sendo dirigido por uma mulher que já sabe a verdade sobre o mundo
dele. Relutante em aceitar o convite da mulher para uma nova vida, Neo abre a
porta do carro pronto para sair e retornar à sua antiga vida. Ele depara com uma
rua escura. A mulher o aconselha a não escolher esse caminho e ele quer saber
por que não.
“Porque você já esteve lá, Neo”, responde ela. “Você conhece essa estrada e
sabe exatamente onde vai dar. E eu sei que não é onde você deseja estar.”
Essa é uma boa maneira de ilustrar o discernimento. Se você sabe que o
caminho o leva a um final desagradável, por que tomá-lo?
Ao examinarmos os caminhos em que fracassamos no passado, seremos mais
capazes de fazer boas escolhas e desfrutar de vidas felizes e prazerosas,
alimentando nosso “eu” verdadeiro e resistindo às nossas tendências mais
egoístas. Seremos capazes de trilhar os caminhos corretos que nos levarão para
onde queremos estar.

Dizer sim para tudo

Preciso ressaltar que fazer boas escolhas significa aceitar que mesmo as
melhores decisões terão inconvenientes. Muitas vezes, no entanto, acreditamos
que se fizermos as escolhas certas não haverá tropeços. Então, quando
assumimos essa escolha e descobrimos seus pontos negativos, perdemos o
ânimo. Recém-casados, por exemplo, percebem que perderam parte de sua
liberdade após o casamento, pois precisam abrir mão de alguns dos programas
que antes faziam com os amigos. Por isso, é comum que eles comecem a duvidar
se o enlace foi uma boa decisão.
Boas decisões significam um sim determinado tanto aos aspectos positivos
quanto aos negativos inerentes a cada escolha. Dizer sim para ingressar na
Companhia de Jesus, por exemplo, não representa aceitar apenas os aspectos
positivos – a espiritualidade inaciana, os amigos atenciosos, o trabalho
estimulante, as comunidades acolhedoras, o estímulo intelectual. Representa
aceitar também os aspectos negativos – a solidão esporádica, o excesso de
trabalho frequente, os problemas na Igreja, etc.
Todos os estágios da vida incluem alguma dor que deve ser aceita se
abraçarmos integralmente as decisões que tomamos e a vida nova. “Todas as
sinfonias permanecem inacabadas”, lembrou Karl Rahner. Não há escolha,
resultado ou uma vida perfeitos. Aceitar a imperfeição nos ajuda a viver melhor
a realidade. Quando aceitamos que todas as escolhas são condicionais, limitadas
e imperfeitas, nossas vidas se tornam paradoxalmente mais satisfatórias, alegres
e tranquilas.
Tudo isso nos aponta para Aquele ilimitado, incondicional e perfeito a quem
dizemos sim: nosso Deus. Todas as nossas decisões deveriam estar focadas nessa
realidade. “Nosso único desejo deveria ser: eu quero e escolho o que melhor
aprofunda a consciência de Deus dentro de mim.”
O discernimento inaciano, como mencionei no início deste capítulo, pode
parecer complicado, com suas definições de paz, desespero e confirmação, sem
mencionar os Três Estágios e os Dois Métodos, assim como a criança mimada, o
amante falso e o comandante militar.
Mas no fundo ele é simples. Ter discernimento inaciano significa acreditar
que por meio de nossa razão e de nossa vida interior Deus nos ajudará a tomar
boas decisões, porque Ele deseja que façamos escolhas boas, amorosas,
saudáveis, positivas e geradoras de vida. Portanto, encontre o que funcionar
melhor para você, o que o aproximar mais de Deus e o que o levar a tomar boas
decisões. E, acima de tudo, confie que Deus está com você sempre que precisar
escolher o que fazer e por onde andar.
Capítulo 13

Seja quem você é!


Trabalho, emprego, carreira... e vida

Q uando conheci John, ele já era um conceituado diretor espiritual jesuíta na


Nova Inglaterra. Um homem de traços rudes na faixa dos 70, que usava uma
barba bem branca, John era uma figura querida na casa de retiro em Gloucester,
Massachusetts.
John era uma daquelas pessoas em cuja presença eu sempre me sentia mais
calmo. Meu diretor espiritual na África, George, que ajudara na minha luta com
a obediência, também era assim. Se eu estivesse preocupado com alguma coisa,
apenas uns minutinhos com um desses homens me davam a sensação de que
não era difícil encontrar solução para nenhum problema.
Graças à idade avançada, eles tinham experimentado muita coisa e se
tornaram ricos de sabedoria e compaixão. Além disso, por serem diretores
espirituais e tendo passado muitos anos imersos na espiritualidade inaciana, eles
vieram a incorporar as lições do caminho de Inácio – a compaixão, a
generosidade e, principalmente, a liberdade.
E sabiam quem eles eram. Após décadas de formação, retiros, orações e
leituras espirituais, e depois de enfrentarem as batalhas normais da vida, esses
padres conheciam a si mesmos e entendiam seu lugar na criação. Por isso,
irradiavam essa paz.
Certo dia, na casa de retiro, John fez um sermão sobre vocação, usando o
evangelho em que Jesus pergunta ao cego Bartimeu “Que queres que eu te
faça?”. John falava sobre como os nossos desejos ajudam a descobrir nossas
vocações – eles nos ajudam a ser quem nós somos.
No final do sermão, John resumiu tudo com um ditado: “Você tem que ser
quem você é, e não quem você não pode ser!”

Chamado
No capítulo anterior abordamos a tomada de decisão de acordo com o
caminho de Inácio. Agora vamos tratar das duas grandes perguntas envolvendo
as grandes decisões:

1. O que devo fazer?


2. Quem devo ser?

Vamos examinar como a espiritualidade inaciana nos ajuda a conhecer o que


fomos designados a fazer e a nos tornarmos a pessoa que fomos destinados a ser.
Vamos analisar como o caminho de Inácio o ajuda a “ser quem você é”.
Vocação é uma palavra que é facilmente mal compreendida. Em alguns
ambientes católicos, ter uma vocação ainda significa ser “chamado” para o
sacerdócio ou para a vida religiosa. Alguns católicos costumavam achar que a
vocação verdadeira se limitava a essas duas áreas, ao passo que as outras
escolhas da vida – casar, ficar solteiro, ser pai ou mãe, ser médico, advogado ou
negociante, etc. – eram consideradas inferiores.
Trata-se de um resquício da velha corrente teológica que colocava a vida dos
padres, freiras e irmãos consagrados acima da dos leigos casados ou solteiros.
Em uma aula da escola dominical, por exemplo certa vez foi apresentada uma
gravura colorida com o título Vocações. Do lado esquerdo havia a figura de um
casal. Debaixo da figura estava a palavra Bom. Do lado direito havia a figura de
um padre e uma freira. Embaixo se lia: Melhor.
Mas, desde o Concílio Vaticano II, no início da década de 1960, que ampliou
o “chamado universal à santidade”, os católicos foram alertados de que todos
têm uma vocação. Isso é algo que poderíamos facilmente ter aprendido de
outras denominações cristãs: suas igrejas sempre tiveram uma participação ativa
de membros leigos e, comparativamente, deram uma ênfase menor aos
ministérios clericais. Todos têm uma vocação.
O significado etimológico da palavra já aponta para isso. Ele tem pouco a ver
com ordenação ou ordens religiosas. A palavra vem do latim vocare, “chamar” –
uma vocação é algo para que somos chamados.
Vocação é diferente de trabalho, emprego e até de carreira. Pode-se dizer que
trabalho é o esforço requerido para se cumprir uma tarefa. Emprego é a situação
na qual se trabalha. Carreira é a trajetória de longo prazo de muitos empregos.
Vocação, porém, é algo mais profundo do que cada um desses conceitos.
“Há algumas ideias problemáticas com relação aos termos trabalho, carreira,
vocação”, afirmou Chris Lowney, ex-jesuíta que tem grande experiên​cia no
mundo corporativo e autor de Heroic Leadership. “Trabalho tende a ser
entendido como o ganha-pão, mas na verdade é qualquer atividade com
propósito; logo, é recomendável que se tenha um conceito mais abrangente
desse termo. Carreira tende a ser entendido como se alguém se preparasse para
uma profissão que exercerá pelo resto da vida. Mas, para muita gente, isso não
se aplica. No conceito moderno, uma carreira tem menos a ver com um local de
trabalho, ou até mesmo uma profissão específica, e mais com a maneira como
alguém desenvolve suas habilidades e seus talentos.”
E o que dizer de vocação?
“As pessoas tendem a associar vocação com um trabalho, emprego ou carreira
específicos”, disse ele. “Os reformadores protestantes se referiam a um chamado
universal para tornar as pessoas santas e a um chamado específico para
diferentes tipos de ministério e serviço, o que é mais exato.”
Vocação abrange nosso trabalho, emprego e carreira e se estende ao tipo de
pessoa que desejamos ser. Ela é o que fomos chamados para fazer e quem fomos
chamados para ser. Mas como descobrimos nossa vocação?
Nos capítulos anteriores, falei brevemente de minha própria vocação, que foi
despertada quando assisti a um documentário. Mas como isso aconteceu? Por
meio do desejo. A cada etapa fui impulsionado pelo desejo, por uma atração ou
um interesse por aquela vida. O desejo é a via principal para descobrirmos o que
fomos designados a fazer e também para descobrir quem somos.
A maneira mais fácil de refletir sobre isso é usar um exemplo conhecido: o
casamento. A maioria dos fiéis concordaria prontamente que é Deus quem
chama duas pessoas para o casamento. Mesmo que elas não entendam o
matrimônio como um sacramento, como os católicos, a maioria concordaria
que Deus, de certa forma, é quem une os casais. Isso acontece, em parte, por
meio de vários desejos. Um homem e uma mulher são atraídos um para o outro
pelo desejo – físico, emocional, espiritual – e descobrem sua vocação para o
casamento. Essa é uma forma de Deus unir essas pessoas, e é assim que o
chamado para o casamento se manifesta.
O desejo opera de maneira semelhante na vida dos que são atraídos para
profissões específicas. Contadores, escritores, médicos, artistas, advogados e
professores, entre outros, descobrem uma atração por seu trabalho talvez ao
ouvirem sobre essas atividades ainda crianças, conhecendo profissionais dessas
áreas. Eles encontraram suas vocações atendendo a desejos naturais. O desejo
faz o mesmo na vida de quem opta pela vida religiosa, direcionando cada um
para os diferentes tipos de serviço na Igreja.
Quando eu trabalhava na General Electric, por exemplo, tinha um colega que
adorava ler jornais de negócios no seu tempo livre.
– Como você consegue ler isso depois do trabalho? – perguntei certa vez,
apontando para o exemplar do Financial Times que ele segurava.
– Você está brincando? – respondeu ele. – Eu amo esse assunto.
Trabalhar numa grande corporação era apenas um emprego para mim; para o
meu colega, no entanto, era uma vocação autêntica. Ela fluiu de um desejo claro:
sua atração pelo mundo dos negócios e a vontade ser bem-sucedido. Aquilo foi
também uma indicação prévia de que eu podia não estar no lugar certo, pois só
terão sucesso os que amam o que fazem.
Como vimos nos capítulos anteriores, o desejo é um elemento essencial da
vida espiritual. É por isso que Inácio pede que rezemos pelo que desejamos no
início de cada oração nos Exercícios Espirituais. O primeiro exercício inclui o
convite “para pedir a Deus nosso Senhor pelo que eu quero e desejo”. “Os
diretores de retiro, eu creio, fazem seu trabalho mais relevante quando ajudam
seus orientandos a descobrir o que eles realmente querem”, escreveu William
Barry.
Deus chama cada um de nós para vocações diferentes. Ou melhor, Deus
planta dentro de nós essas vocações, que são reveladas em nossos desejos e
aspirações. Então os desejos de Deus para o mundo são preenchidos quando
realizamos nossos mais profundos desejos. Vocação é menos sobre encontrar
um desejo e mais sobre tê-lo revelado para cada um de nós, quando oramos para
discernir “o que eu quero e desejo”.
O desejo tem má reputação nos meios religiosos. Mas não é de vontades
egoístas que Inácio está falando. Como Margaret Silf ressalta em Wise Choices:
“Há desejos profundos e há vontades superficiais.”
Uma forma de distinguir entre esses dois e de compreender mais plenamente
a nossa vocação é refletir sobre o que nos está atraindo para realizar com
sucesso em longo prazo. Você pode utilizar as técnicas do exame de consciência
para entender para onde está sendo atraído. E pode perguntar a si mesmo: Que
desejos permanecem há muito tempo em meu coração? O que eu mais gosto de
fazer? Qual é o emprego dos meus sonhos?

Dentro de cada coração humano está latente, e às vezes trancado, um


sonho esperando para nascer.

– Jacqueline Syrup Bergan e Marie Schwan,


em Birth: A Guide for Prayer

Se o seu emprego exige que você fique grudado numa mesa às voltas com
números, mas há muito tempo você sonha em trabalhar interagindo com
pessoas, seu desejo pode estar apontando para uma vocação verdadeira. Talvez
você devesse trabalhar com recursos humanos ou aconselhamento. Ao
contrário, se você é um professor atarefado que sonha com uma ocupação mais
solitária, esse desejo pode apontar para sua vocação. Talvez você queira ser um
escritor – ou, se isso for impossível, talvez queira se dedicar à pesquisa.
Recentemente, um amigo me contou que havia começado um trabalho
voluntário em uma prisão como capelão leigo, embora seu emprego fosse de
gerente financeiro de uma grande corporação. Seu voluntariado lhe acrescentou
uma grande dose de satisfação e energia, e ele transbordava de entusiasmo só de
falar a respeito. Era possível ver o brilho no seu rosto enquanto ele contava
sobre essa nova paixão.
Às vezes, uma imagem pode nos ajudar a descobrir tais desejos. Deixe-me
sugerir uma que tem me ajudado ao longo dos anos.
Quando eu estava no ensino fundamental, nossa professora de ciências
acompanhou a turma em uma visita a um riacho nas proximidades da escola.
Lá, cada um encheu um copo com água e a levou para a sala de aula a fim de ser
examinada em um microscópio. Mas, antes, a professora explicou que
deveríamos deixar a água repousar por uma noite, para que as folhas e os
gravetos contidos nela fossem para o fundo e a água não ficasse tão turva. A
professora brincou: “Se deixarmos a água quieta, as coisas ficam mais claras.”
Você é capaz de sentar e deixar a sujeira, as folhas e os gravetos de sua vida –
suas vontades egoístas – se aquietarem para que as coisas fiquem mais claras?
Ou, então, pense em garimpar as coisas da superfície de sua alma, livrando-se
do que o está impedindo de ver claramente, e observar o que está nas
profundezas.
Fiquei espantado ao deparar com esta metáfora no livro A Time to Keep
Silence, do escritor inglês Patrick Leigh Fermor, que visitou La Grande Trappe, a
abadia trapista na Normandia, litoral da França. Na sua cela monástica ele
escreveu: “As águas turbulentas da mente ficam sossegadas e claras, e muito do
que está oculto e turvo flutua na superfície e pode ser removido. Após um
período, se alcança um estado de paz que é inimaginável na vida normal.”
Você consegue esperar que algo flutue até a superfície? Às vezes, quando a
água está em repouso, uma coisa emerge do fundo do copo – uma pequena
bolha, um pedaço de folha ou até mesmo um peixinho. Talvez seja isso que
Deus quer que você veja. Você consegue deixar seus sonhos e desejos subirem à
superfície?
David Lonsdale nos lembra em Eyes to See, Ears to Hear que muitas vezes o
que é mais importante não está na superfície do rio. “A superfície de um rio que
corre rápido geralmente é tomada por ondas e redemoinhos nos quais a água
parece jorrar em todas as direções, até as contrárias ao curso normal. Enquanto
isso, no fundo de toda essa agitação há uma corrente estável e constante que
pode ser sentida de maneira mais forte abaixo da superfície, onde o rio é mais
fundo.”
Fazer uma retrospectiva de sua vida também pode conduzir à descoberta dos
desejos. Ou você pode tomar uma direção oposta: a pergunta que lhe permite
enxergar sua vocação está à frente, e não atrás. Depois de meses me ajudando a
refletir sobre os jesuítas, o psicólogo pediu que eu imaginasse uma vida
completamente nova sem pensar em nada do passado. Ele me perguntou: “Se
você pudesse fazer qualquer coisa que quisesse, o que seria?” Essa pergunta
trouxe à tona uma resposta que estava enterrada no fundo do meu ser. Quando
a água do copo clareou, a resposta emergiu na superfície.
O que você responderia? E existe um meio realista para chegar, ao menos,
mais próximo da resposta?
Uma maneira menos metafórica de pensar sobre essas questões é usando
algumas imagens-chave do discernimento inaciano que examinamos no
capítulo anterior: imaginar-se no leito de morte; visualizar-se diante de Deus;
imaginar-se dando conselhos para alguém numa situação parecida.

Tente estas perguntas


Usando temas inacianos, Margaret Silf pede que tentemos encontrar
respostas para a pergunta “O que você realmente quer?”. O trecho a seguir
é do livro Wise Choices:

“Agora dê uma olhada no nível mais profundo do seu desejo. Há algo


que você sempre quis fazer mas que nunca conseguiu? Quais são seus
sonhos incompletos? Se pudesse recomeçar sua vida, o que você mudaria?
Se tivesse apenas alguns meses para viver, como utilizaria seu tempo? Se
uma quantia excepcional de dinheiro chegasse às suas mãos, como a
gastaria? Se pudesse ter três desejos satisfeitos, quais seriam? Há alguém
ou alguma coisa por quem você, literalmente, daria sua vida?”

Reserve um tempo para refletir sobre uma ou mais dessas perguntas. As


respostas honestas que der para si mesmo serão indicadores de onde seus
desejos mais profundos estão localizados.
Examine com transparência, refletindo sobre o que encontrar. Pode haver
padrões nos seus desejos que o ajudem a entender melhor quem você é.
Como quaisquer desejos, estes precisam ser testados. Só porque alguém
deseja ser um astro ou estrela da ópera não significa que de fato poderá realizá-
lo, sobretudo se não souber cantar! É nesse ponto que entra a proposta inaciana
de confirmação, como discutido no capítulo anterior. Você precisa levar em
conta não somente seus desejos, suas orações e os frutos do seu discernimento,
mas também a realidade da situação.
Portanto, é preciso refletir sobre os desejos à luz da vida cotidiana. Como Cris
Lowney me disse: “Por vezes, as pessoas recebem direcionamentos românticos
demais quando se trata de carreira ou vocação. Essas ideias de ‘siga o seu prazer’
ou de que o seu chamado é ‘onde houver uma carência mais profunda do
mundo’ podem ser ilusórias. Esses conceitos podem até ser válidos, mas, com
certeza, não são o único fator para se descobrir o que deve ser feito. Toda
decisão tem a ver com interesses e necessidades, mas também com
circunstâncias e talentos.”
Vocação não diz respeito apenas ao desejo ou pensamento de alguém sobre as
carências do mundo, mas também à realidade, que muitas vezes não está de
acordo com nossos desejos. Confie em seu coração, mas use a cabeça.
“Eu posso ter vontade de ser um jogador de futebol, mas não tem como!”,
exemplifica Lowney. “Talvez eu possa ser muito bom em fazer gols diante de um
quadro-negro numa sala de aula. Decisões desse tipo vão depender de nossos
talentos, necessidades, interesses e circunstâncias, e em todas essas coisas, não
apenas em nossos desejos, estão as marcas de Deus. Sentir-se bem na atividade
escolhida é um dado importante, assim como o fato de eu poder ou não realizá-
la. Isto também deve ser visto como as marcas de Deus.”

Uma espiritualidade de trabalho

Mesmo que tenhamos uma boa ideia sobre vocação, ainda assim podemos ter
dificuldade de ver a mão de Deus intercedendo. O que o caminho de Inácio tem
a dizer sobre encontrar Deus no emprego?
Antes de ingressar na Companhia de Jesus, passei seis meses em uma grande
empresa, por isso posso dizer que conheço um pouco do mundo real. Mas,
quando ingressei na ordem, não parei de trabalhar! Durante minha longa
formação religiosa trabalhei em um grande hospital em Cambridge; lecionei em
uma escola na periferia de Nova York; gerenciei uma loja e operações de
microfinanças em Nairóbi durante dois anos; e atuei como capelão de um
presídio em Boston.
Há 10 anos trabalho em uma revista semanal, o que inclui reuniões, prazos,
orçamentos, avaliações de desempenho e convívio com um grupo eclético de
colegas com personalidades e temperamentos diversos, o que às vezes suscita
rivalidades e disputas. E, muito embora os jesuítas não tenham de se preocupar
muito com aumentos de salário, redução de custos ou ascensão na escada
profissional, esperam que trabalhemos duro.
Como a maioria dos trabalhadores, tento ser um bom funcionário, um bom
colega e um bom gerente. Em muitos aspectos, a minha situação pode não ser
tão diferente da sua. E, através da vida de meus amigos não jesuítas que atuam
em diversas profissões, tento me atualizar com os desafios de outros setores. Em
resumo, acredito ter uma boa noção do que sejam os desafios de uma vida
espiritual no ambiente profissional.
E são muitos. Viver a espiritualidade no mundo profissional se torna cada vez
mais desafiador à medida que mais e mais exigências são feitas aos empregados.
Portanto, apresento a seguir os principais desafios para se manter uma vida
espiritual utilizando algumas das práticas inacianas que abordamos.

Encontrar tempo para Deus e para você


O tempo é um bem precioso para a maioria das pessoas no mercado de
trabalho. A despeito dos incentivos por produtividade e da tecnologia, a
quantidade de tempo exigida dos funcionários por parte das empresas só
aumentou. Mercados que não fecham, noticiários ininterruptos, acessos
permanentes por e-mail, celulares, smartphones e notebooks traduzem-se em
trabalho fora do expediente. Além do mais, a instabilidade no mercado formal
de empregos e o aumento da jornada dupla para as mulheres significam mais
esgotamento e menos tempo livre para os que são casados e pais.
Então surge o primeiro desafio: como achar espaço para uma vida de oração e
adoração?
Quando perguntei a vários amigos sobre isso, alguns sugeriram que a única
maneira de conseguir é sacrificando tempo de trabalho. “É uma escolha
consciente”, disse um amigo que trabalha em uma grande empresa. Embora
achasse isso difícil, ele disse que poderia evitar o que chamou de “armadilha do
trabalho permanente” apenas ao escolher passar mais tempo com a família e
dedicado à vida espiritual. De outro modo, a pessoa vive apenas em função do
trabalho, sem o fortalecimento da oração, tanto individual quanto comunitária
– ou seja, ela leva uma vida espiritual que irá se atrofiar aos poucos.
Mas, se por um lado esse meu amigo é um homem ocupado que tem uma
família que ainda está crescendo, ele também é bem-sucedido financeiramente e
pode se dar ao luxo de não viver para o trabalho. No entanto, isso se torna mais
difícil para aqueles que lutam para pagar as contas no fim do mês: a mãe solteira
com dois empregos e o cidadão subempregado que chegam ao limite das
próprias forças para garantir o sustento e o bem-estar de suas famílias.
Há alguns anos, coeditei um livro com Jeremy Langford chamado Professions
of Faith, no qual pedíamos a vários católicos que refletissem sobre seus
trabalhos. Amelia Uelman, uma ex-advogada que hoje leciona numa
universidade em Nova York, escreveu: “De longe, o maior desafio na prática
advocatícia em uma grande empresa não é a falta de abertura para conversas
sobre responsabilidade social. É a necessidade de manter a vida equilibrada para
que a pessoa seja capaz de se envolver com esse tipo de perspectiva.”
O tempo é um problema para qualquer pessoa muito ocupada. Aqui o exame
de consciência pode ser extremamente útil. Para os que estão oprimidos pelas
exigências de tempo, o exame inaciano, que requer apenas entre 10 e 15 minutos
por dia, pode ser um salva-vidas espiritual. Tenho um amigo, um atarefado
consultor de investimentos que tem três filhos, que faz o exame na mesa de
trabalho pela manhã, pensando nos acontecimentos do dia anterior. Se ele
estiver muito ocupado de manhã, ele faz a lectio divina no intervalo do almoço,
fechando a porta por alguns minutos para mergulhar na leitura do dia.
Equilibrar trabalho e oração, o ativo com o contemplativo, foi fundamental
para os primeiros jesuítas. E ainda é. Uma de nossas reuniões congregacionais
recentes estabeleceu que os jesuítas precisam ser “indivisivelmente apostólicos e
religiosos”. A ligação entre trabalho e culto “precisa permear todo o nosso estilo
de vida, oração e atividade”. Trabalhar sem orar nos afasta de Deus. Orar sem
trabalhar nos desliga dos seres humanos.
Trabalho em excesso é um perigo para os jesuítas pela mesma razão que é
para todo mundo. Primeiro, porque ficamos distantes de Deus, o alicerce de
nossas vidas; segundo, porque ficamos revoltados quando as coisas não
acontecem como planejamos, já que podemos ignorar a nossa dependência de
Deus; terceiro, porque passamos menos tempo com os amigos e com a família e
começamos a nos sentir isolados; e, quarto, porque começamos a acreditar que
somos o que fazemos e, sendo assim, no final da vida, quando tivermos pouco a
fazer, nos sentiremos sem valor.
Para aqueles que consideram absolutamente impossível arrumar mais tempo
livre – quem tem filhos pequenos ou se divide em dois ou três empregos –, a
meta de ser um “contemplativo em ação” é particularmente relevante. Você
consegue manter uma consciência permanente da presença de Deus à sua volta?
Inácio não apenas reservava tempo para oração – ele mantinha uma atitude
contemplativa durante todo o dia. Um de seus camaradas, Jerónimo Nadal,
escreveu isto sobre seu amigo e líder: “Em todas as coisas, nas ações e conversas,
ele contemplava a presença de Deus e vivenciava a realidade das coisas
espirituais, de modo que Inácio estava sempre em ação contemplativa.” O
caminho de Inácio é um convite para aqueles que sentem que estão deixando
Deus triste por não encontrarem tempo para orar durante os momentos mais
ocupados de suas vidas.
Como David Lonsdale observa: “O tempo colocado à parte para
contemplação é, sem dúvida, um modo de ser contemplativo; mas um
envolvimento intenso no trabalho pode ser também, pois as pessoas que são
‘contemplativas em ação’ aprendem a encontrar Deus na atividade em meio ao
que é necessário e possível.”

Encontrar Deus à sua volta


“Você não pode trancar parte de sua vida em uma caixa”, disse David
Donovan, meu diretor espiritual. Na espiritualidade inaciana nada é camuflado;
tudo pode ser trazido à tona como uma maneira de encontrar Deus em todas as
coisas.
Quando estamos em um emprego do qual gostamos, é fácil. O próprio
trabalho se torna um veículo para encontrar Deus. A satisfação emocional,
mental e às vezes até física que vem com o trabalho é um modo de experimentar
a alegria de Deus e o desejo Dele para criar junto com você. Um dos principais
personagens do filme Carruagens de fogo, sobre competidores na Olimpíada de
1924, é um pastor escocês que também é um corredor. Quando perguntado por
que gosta de competir, ele responde: “Quando corro, sinto prazer.” É uma
descrição tão boa quanto qualquer outra sobre viver uma vocação. O trabalho é
prazeroso.
Com certeza, algumas pessoas são capazes de encontrar Deus em seu
trabalho. Mas o que fazer quando se está atrelado a uma profissão que parece
sem graça, a um trabalho que não parece ser uma vocação ou a um emprego que
não nos agrada? Vamos ser realistas: a maioria não consegue seguir o que
acredita ser a sua vocação profissional por vários motivos – condição financeira,
exigências familiares, restrições educacionais, limitações físicas ou um mercado
de trabalho reduzido. Como podem encontrar Deus nessa situação utilizando a
tradição inaciana?
Minha sugestão é: tentando encontrar Deus em todas as coisas, não apenas no
trabalho. Antes de mais nada, por meio das pessoas em volta. Essa talvez seja a
rota mais fácil.
No ensino médio e ao longo da faculdade, eu costumava arrumar empregos
temporários para juntar uma graninha. Nessas experiências, conheci muita
gente que detestava seus empregos. Durante alguns anos trabalhei como
entregador de jornais, aparador de grama, lavador de pratos, carregador de tacos
de golfe e lanterninha de cinema e teatro – todos empregos temporários que os
adolescentes da época costumavam arranjar no verão. Mas um desses empregos
me ensinou mais sobre trabalho infeliz do que todos os outros juntos.
No verão seguinte ao meu ano de calouro na faculdade, eu tinha três
empregos. À noite, eu era lanterninha de um cinema; aos sábados e domingos,
era garçom de um pequeno restaurante; nos dias da semana eu trabalhava na
seção de empacotamento de uma fábrica. Este último foi com certeza o pior
emprego que já tive. Mas eu tive a sorte de encontrá-lo, já que ele pagava melhor
do que os outros dois.
Eu me levantava às seis da manhã e ia direto para o chuveiro. Tomava o café
da manhã correndo e em seguida pegava carona com um amigo. Às sete horas,
eu estava diante de uma máquina imensa e ensurdecedora que enfiava pílulas
em caixas e lançava as embalagens cheias numa correia transportadora que se
movia velozmente.
Minha função era pegar as caixas menores que tombavam da linha e colocá-
las em caixas maiores, e então embrulhá-las com um plástico. Mais adiante, um
operário as empacotaria em embalagens definitivas. Por fim, alguém as levava
para serem transportadas para um depósito.
Como eu odiava aquilo. Todos detestavam. A cada 10 minutos eu olhava para
o relógio na parede para ver quanto tempo faltava para o almoço. No intervalo
para o almoço, alguns dos funcionários mais jovens se juntavam para consumir
substâncias ilegais no estacionamento, provavelmente para aliviarem o desgosto
de estarem ali. Pelo menos uma vez por semana alguém jogava uma lasca de
madeira no meio da máquina para interromper o seu funcionamento; então
respirávamos fundo e descansávamos até que alguém chamasse o mecânico e ele
fizesse a maquina funcionar de novo. Todos eram muito infelizes naquela
fábrica.
Mas, por incrível que pareça, três mulheres na linha de produção riam
praticamente o dia inteiro. Por trabalharem na fábrica há alguns anos, elas se
conheciam bem e conversavam o tempo todo sobre suas famílias e os planos
para o fim de semana. Aos poucos, elas me atraíram para o seu grupo e nós
conversávamos principalmente sobre quanto todos nós detestávamos aquele
emprego.
Elas detestavam o trabalho, mas se amavam.
Desde aquela época, trabalhei em vários lugares onde as pessoas podiam não
gostar do emprego, mas gostavam umas das outras. Comemoravam
aniversários, comentavam sobre programas de televisão, se encontravam fora do
ambiente profissional, consolavam-se nas perdas, trocavam fotos de filhos e
netos – esses eram os meios de elas estabelecerem um vínculo mais íntimo e
afetivo. Facetas importantes como essa geralmente passam despercebidas nas
discussões sobre a espiritualidade no trabalho: encontrar Deus nos outros em
meio a um trabalho espinhoso.
Entender que seu trabalho existe para um objetivo maior é o segundo modo
de encontrar Deus em um emprego difícil. Quem toma conta de crianças ou de
idosos pode até não gostar do esforço físico exigido nessas tarefas e da sensação
de náusea ao fazer a higiene deles, mas o propósito nobre disso tudo faz a pessoa
seguir em frente. De certa forma, essa parte ruim da obrigação é vista como um
meio para um fim.
No início da minha carreira empresarial trabalhei com um homem que
odiava seu emprego, como todos sabiam. Depois de algumas décadas no setor
de contabilidade, ele foi despedido. Na última semana, ele lamentou a demissão,
mas reconheceu que nunca gostou do que fazia. Eu, um profissional recém-
formado e cheio de ideais, fiquei horrorizado. Achava que as pessoas fossem
mais felizes e mais realizadas naquela grande empresa.
– Então como você conseguiu suportar esse tempo todo um emprego do qual
não gostava? – perguntei a ele.
O homem pegou a carteira e a abriu diante de mim.
– Por isto! – respondeu, apontando uma foto da esposa e dos filhos. Com um
gesto simples, ele me mostrou a razão de seu sacrifício.
No entanto, isso não torna o emprego nem um pingo mais prazeroso. Certa
vez, vi uma tirinha na revista New Yorker que mostrava escravos egípcios
arrastando enormes blocos de pedra para construir uma pirâmide. Um escravo
dizia para outro: “Ah, pare de reclamar! É uma honra fazer parte de um
empreendimento desta grandeza.” Alguns empregos realmente são horríveis. E,
às vezes, é necessário deixá-los. Mas nem sempre é possível cair fora.
Mesmo em empregos desagradáveis, entretanto, manter o foco em objetivos
maiores pode ser de grande ajuda. Isso não minimiza o fato de alguns empregos
serem mesmo uma droga, mas, para alguns, vincular o trabalho a uma meta
maior pode trazer sentido ao seu esforço diário. O fiel também pode vincular
seu trabalho a um bem maior que Deus tem em mente, como, por exemplo,
sustentar os filhos e a família.
Mesmo para Walter Ciszek, o padre jesuíta condenado a trabalhos forçados
na antiga União Soviética, ser obrigado a construir casas para trabalhadores se
tornava mais tolerável quando ele pensava nos resultados. Embora não estivesse
ajudando sua família, ele dizia aos outros presos que estava fazendo uma coisa
importante:

Eu tentava explicar que o orgulho que eu sentia do meu trabalho era diferente do que um comunista
sentia na construção de uma nova sociedade. A diferença era a motivação. Como cristão, eu podia
compartilhar a preocupação deles em construir um novo mundo. Eu poderia trabalhar tão duro quanto
eles pelo bem comum. As pessoas, famílias inteiras que precisavam de abrigo, se beneficiariam dos
meus esforços.

O terceiro modo de encontrar Deus pode ser agir como fermento em


situações insalubres de trabalho. No Evangelho de Mateus (13:33), Jesus lembra
a seus discípulos que eles devem ser como “fermento” no mundo, o pequeno
grão de levedo que ajuda o pão a crescer. Um pequeno agente de mudança pode
alterar consideravelmente uma situação. Embora dependessem de um emprego
que detestavam, as mulheres naquela fábrica se ajudavam a tornar sua jornada
no trabalho mais feliz.
Se você se encontrar em uma situação desumana poderá buscar um propósito
sabendo que está atuando contra aquelas tendências e ajudando a melhorar o
ambiente, mesmo que de maneira sutil.

Encontrar tempo para a solidão


Seja preso no trânsito a caminho do trabalho, em casa à noite ou nos fins de
semana, ou até em férias, cada vez mais trabalhadores não se afastam dos e-
mails, do celular ou das redes sociais. A cena de pessoas falando ao telefone
enquanto correm para pegar a condução se tornou comum nas grandes cidades,
assim como a imagem de passageiros usando o notebook enquanto esperam
para embarcar em um aeroporto movimentado.
Apesar de serem ótimas para nos manter em contato com o trabalho, os
amigos e a família, essas novas tecnologias nos fazem desperdiçar os poucos
momentos que nos restam para vivenciar a solidão – momentos preciosos para a
meditação, a reflexão e o silêncio interior. Onde está o tempo para o
recolhimento?
Então o segundo desafio é: Como o trabalhador pode equilibrar a necessidade
de estar conectado com a necessidade de solidão, que é pré-requisito para se ter
uma vida espiritual de qualidade?
Algumas vezes parece que não podemos mais suportar ficar sozinhos ou fora
de área. Mas, sem algum silêncio interior, fica difícil escutar aqueles desejos dos
quais falamos. Fica difícil escutar aquele som suave e tranquilo, como descrito
em 1 Reis 9:12. Se seus olhos estiverem grudados no smartphone e seus ouvidos
hipnotizados pelo mp3, fica difícil ouvir o que está se passando dentro de você.
Reduzir o uso desses aparelhos e não responder imediatamente a cada
mensagem eletrônica ou chamada de celular pode levar a um estado de calma
bem edificante.
Solidão e silêncio também nos capacitam a nos comunicarmos em nível mais
profundo com os outros, porque fomos colocados em contato com a parte mais
profunda de nós mesmos – Deus. E, ao conhecê-Lo, também seremos capazes
de enxergá-Lo nas pessoas e, assim, de ficar livres do isolamento. Logo, é preciso
desconectar para conectar.
Da mesma forma, se estivermos completamente absorvidos pelo mundo
eletrônico, acompanhando obsessivamente as redes sociais e retornando todas
as ligações, pode ficar impossível vivenciar as surpresas peculiares do mundo
que nos cerca. O exame permite tomar consciência da atuação de Deus em
nosso passado e no presente. Mas, se estivermos sempre ligados com os amigos,
poderemos perder essa bênção.
Cuidar da saúde física também é um tipo de solidão. Cultivar a solidão
proporciona mais tempo para o descanso e o exercício, ambos ingredientes
necessários para uma vida saudável. Para isso, é preciso dizer não a alguns
supérfluos e evitar a correria constante que caracteriza a vida moderna, de modo
a ter um estilo de vida mais equilibrado.
Nas Constituições, Inácio enfatiza a importância de se ter uma preocupação
adequada com a própria saúde. Na seção chamada “A Preservação do Corpo”,
ele mostra um entendimento da necessidade de equilíbrio entre trabalho, oração
e descanso, com base na sua própria experiência prévia, quando se entregou a
penitências que comprometeram sua saúde. Por fim, ele reconheceu a
necessidade de moderação. “Com um corpo saudável somos capazes de realizar
mais”, escreveu ele.
Na visão de Inácio, a exigência de uma vida saudável para os jesuítas inclui a
manutenção de uma rotina equilibrada e do cuidado com alimentação, vestuário
e outras necessidades do corpo. Ele identificava a necessidade de exercícios até
para os jesuítas mais sedentários:

Assim como não é sábio se entregar a tamanha atividade física que oprima o espírito e prejudique o
corpo, um pouco de exercício físico para ajudar tanto o corpo quanto o espírito é recomendável a todos,
mesmo àqueles que precisam se dedicar a intensos trabalhos mentais.

Esse é um alerta contra o excesso de trabalho e é recomendável que todos o


sigam.
Em seu livro Crazy Busy: Overstretched, Overbooked, and About to Snap, o
psiquiatra Edward M. Hallowell observa que o excesso de trabalho patológico
pode refletir as necessidades reais de nossa época e ocultar problemas
subjacentes. O excesso de ocupação, afirma ele, age como um tipo de sensação
de poder que serve como um símbolo de status. Nós também tememos ser
descartados caso mudemos de ritmo e evitamos olhar para algumas evidências
da vida – pobreza, morte, aquecimento global – ao saltarmos de atividade para
atividade. Como ele sugere, nós podemos ter desaprendido a não ficar
ocupados.
Criar um tempo para a oração e a solidão e equilibrar trabalho e descanso,
mesmo em uma vida corrida, é um passo importante para se tornar um
contemplativo em ação. Isso não significa ser preguiçoso. Longe disso. Mas a
possibilidade de contemplação inexiste se estivermos sempre estressados ou
prestes a desabar de cansaço.

Trabalhar (e viver) de maneira ética


Quando estudei ética de negócios na Wharton School, os casos apresentados
nos livros, na sua maioria, eram bem básicos e demandavam respostas muito
fáceis. “Você daria propina a alguém?” “Poluiria o meio ambiente com produtos
químicos venenosos?” “Discriminaria alguém por causa de raça ou sexo?”
Quando ingressei no mundo corporativo, me surpreendi ao descobrir quanto
as questões éticas são mais sutis.
Isso não quer dizer que as questões simples nunca apareçam. Tenho um
amigo contador que certa vez recebeu o pedido de um gerente para falsificar
alguns números em um relatório. Ele se recusou polidamente, o gerente
reconheceu o erro e pediu desculpas.
As questões sutis são mais comuns. Como, por exemplo, você reage quando
descobre que trabalha em uma empresa em que os valores morais nem sempre
são contemplados? No período em que trabalhei no departamento de recursos
humanos de uma empresa, pediram que eu questionasse um gerente que
pretendia demitir um antigo funcionário que acabara de receber um prêmio por
sua produtividade excelente. Achei estranha a demissão súbita de um de nossos
melhores colaboradores e disse ao gerente que não parecia uma boa ideia
desligá-lo. “Não me importa”, respondeu ele secamente. “Eu quero ele na rua.
Não gosto dele.”
Eu lembrei ao gerente que aquele profissional já estava na empresa havia 20
anos, sempre mostrando um ótimo desempenho. Também lhe disse que
simplesmente “não gostar” de alguém não era argumento válido para uma
demissão. Nada disso importava, ele me disse. Por fim, lhe perguntei: “Você tem
compaixão? Esse homem tem uma família.” A resposta do executivo foi curta e
grossa: “Para o inferno com a compaixão!” Felizmente, seu superior impediu a
demissão e o funcionário foi mantido, mas o episódio me deixou com uma
impressão amarga da empresa.
Portanto, o terceiro desafio para o trabalhador é: Como posso ser fiel aos
meus valores éticos, morais e religiosos?
Para muitas pessoas, isso significa procurar uma empresa cujos valores sejam
compatíveis com os seus.
Mas o que acontece quando se trabalha em um ambiente em que, digamos, a
compaixão não é valorizada, ou pior, é ignorada? Encontrar trabalho em uma
nova empresa ou um novo cargo na mesma empresa pode não ser viável.
Parte da solução pode estar em manter o desapego inaciano em relação aos
valores corrompidos do lugar de trabalho. Mesmo que trabalhe em um
ambiente que estimula o comportamento agressivo ou a atitude maliciosa, você
não precisa ser nem agressivo nem malicioso. O talento pode algumas vezes
triunfar sobre a agressão e a maldade.
Você deve também atuar, como mencionado anteriormente, como um
“fermento” em um ambiente antiético, fazendo a sua parte e esperando que a
sua influência positiva possa contribuir para a mudança. “Nunca duvide que um
grupo de cidadãos pensantes e comprometidos possa mudar o mundo”,
escreveu a antropóloga Margaret Mead. “Na verdade, é a única coisa que pode.”
Da mesma forma, você pode ser completamente incapaz de mudar qualquer
coisa, porém pode conseguir ajudar os outros em suas lutas. Em outras palavras,
uma das maneiras mais fáceis de encontrar sentido no trabalho é sendo
atencioso com aqueles que mais estão lutando – a mãe que trabalha em dois
empregos; a secretária maltratada pelo chefe tirano; o faxineiro desprezado. Para
utilizar a linguagem inaciana, você consegue se ver como alguém que pode
“ajudar almas” no ambiente de trabalho?
Ou você pode considerar sua missão levantar-se contra a injustiça que está à
sua volta. Algumas vezes não precisamos de coragem para fazer a coisa certa?
Aqui, o fiel se recorda do dever de cuidar de todas as criaturas de Deus, não
importando onde elas estejam. O cristão se lembra do chamado de Jesus para
fazermos o bem aos “menores” entre nossos irmãos e irmãs. Os católicos se
recordam das encíclicas sociais da Igreja que nos exortam a defender os direitos
dos pobres e marginalizados. E os seguidores do caminho de Inácio se lembram
dos Três Degraus da Humildade, em que se escolhe ficar ao lado dos que são
perseguidos.
Talvez seja preciso sacrificar algo em troca de uma consciência aguda, uma
vez que a maioria dos ambientes de trabalho jamais recompensa o profeta. Um
amigo advogado disse: “Eu não espero muitos parceiros porque não jogo o jogo
deles e porque realmente não quero isso; não me faz bem.” Se você está
trabalhando em uma empresa que incentiva o egoísmo, pode ter de escolher
entre promoções e valores. Se tiver mais sorte, você poderá encontrar uma
empresa cujos valores combinem com os seus.
Algumas perguntas inacianas do capítulo anterior podem nos ajudar a
descobrir como reagimos aos desafios éticos: O que você recomendaria a
alguém numa situação parecida? O que o seu “melhor eu” faria?
A tríade inaciana de “riqueza, honras e soberba” também pode trazer alguma
luz. Salário e riqueza são as medidas de valor que prevalecem em nossa
sociedade, por isso tanta gente ainda evita conversar sobre salário.
Logo, é preciso ter cuidado para que as riquezas (o alto salário) que levam às
honras (o elogio e a estima dos colegas) não resultem em orgulho e soberba (a
crença de que somos melhores do que os outros simplesmente porque o nosso
contracheque é mais polpudo).

Lembrando-se dos pobres


E chegamos ao desafio final: Como nos lembrarmos da necessidade de cuidar
dos mais necessitados? A presença deles é prova da incapacidade do sistema
capitalista de prover a todos. Por isso, os pobres representam uma crítica
silenciosa ao “modo de conduta” capitalista. Nas palavras do Papa João Paulo II,
o mundo vê os mais necessitados como “um fardo, intrusos incômodos
tentando consumir o que os outros produzem”.
Tenho um amigo que definiu três princípios valiosos para guiar sua vida: ser
grato pelo que se tem; colaborar em alguma igreja; e ser generoso quando se
trata de caridade.
Em vez de enxergar os pobres apenas como objetos de caridade, você já
pensou em passar um tempo com os mais necessitados, para saber como é o dia
a dia deles? Eles não serão os únicos a se beneficiarem desse contato. Você
também vai descobrir um dos segredos do reino de Deus: os pobres têm a
capacidade de fazer os ricos pensarem sobre Deus de uma forma diferente,
como os refugiados fizeram comigo na África. Como Jon Sobrino, um jesuíta
que ensina teologia em El Salvador, escreveu em Resurrección de la verdadera
Iglesia. Los pobres, lugar teológico de la eclesiologia: “Os pobres são aceitos como
os recipientes primários das boas-novas e, portanto, como tendo capacidade
intrínseca de entendê-las melhor do que qualquer um.”

Como levar o seu melhor eu para o trabalho

Disposição para confiar na providência de Deus era o que Pedro Arrupe tinha
em mente quando um jornalista inocentemente lhe fez a pergunta: “Onde a
Companhia de Jesus estará daqui a 20 anos?” Arrupe riu e respondeu: “Não
tenho a menor ideia!” Assim como a Igreja, a Companhia pode ser dirigida por
homens, mas nós cremos que é Deus quem nos guia. E quem sabe para onde
Deus nos levará no futuro?
Ainda assim, pode haver algumas razões concretas que expliquem o sucesso
de muitas de nossas empreitadas: os jesuítas têm uma missão em comum; nós
tentamos trabalhar duro; estamos disponíveis para muitos tipos de trabalho; e
somos inspirados pelo exemplo de Jesus, assim como todos os cristãos, a aceitar
os sacrifícios necessários na busca do bem comum.
Hoje é possível acrescentar a essa lista de motivos um outro importante: os
jesuítas trabalham em parceria com cristãos leigos talentosos que compartilham
da visão inaciana. E, mais que isso, os jesuítas oferecem trabalho para estes
leigos que compartilham da nossa visão.
Mas pode haver aspectos mais específicos do nosso modo de conduta que
ajudaram a Companhia de Jesus a perdurar por mais de 450 anos, aspectos que
podem ser úteis para os que atuam no mundo dos negócios. O livro de Chris
Lowney Heroic Leadership (Liderança heroica) tem como subtítulo Best
Practices from a 450-Year-Old Company that Changed the World (As melhores
práticas de uma Companhia de 450 anos que mudou o mundo). O livro
examina as características de “nosso modo de conduta” que ajudaram a
Compañia de Jesús a florescer, e ele propõe algumas dessas ideias como modelos
de “melhores práticas” para funcionários, administradores e empresas.
Como ex-jesuíta que se tornou gerente de investimentos, Chris Lowney, autor
de Heroic Leadership, elaborou uma lista dos segredos de liderança jesuítas que
ele chama de “os quatro pilares”: autopercepção, perspicácia, amor e heroísmo.
Em primeiro lugar vem a autopercepção. “Líderes têm sucesso pelo
entendimento de quem são e do que valem”, escreveu Lowney, “por estarem
conscientes dos pontos cegos e nocivos ou da fraqueza que pode desestabilizá-
los, ao cultivarem o hábito da autoanálise e aprendizado permanentes.”
Até agora isso deveria ser uma parte conhecida da espiritualidade jesuíta. O
caminho de Inácio é designado para nos ajudar não apenas a chegar mais
próximo de Deus, mas também a compreendermos a nós mesmos – conhecer
nossas forças e fragilidades – e tudo o que nos afasta da liberdade. O exame de
consciência, por exemplo, nos convida continuamente a refletir sobre o que
fizemos, o que estamos fazendo e o que iremos fazer. Parte da espiritualidade
inaciana é esse processo permanente de reflexão, ação e avaliação.
Essa prática espiritual é aplicável à vida profissional. Bons funcionários ou
líderes sempre estarão familiarizados com as fraquezas e os obstáculos que
podem atrapalhá-los, conseguem resolver esses problemas e refletir sobre o que
os impulsiona para a excelência.
Em segundo lugar vem a perspicácia. “Líderes estão e deixam as pessoas à
vontade em um mundo em transformação”, escreveu Lowney. “Eles exploram
apaixonadamente novas ideias, abordagens e culturas, em vez de ficarem na
defensiva com medo do que pode estar à espreita na próxima esquina.
Ancorados em princípios e valores inegociáveis, eles cultivam a ‘indiferença’ que
lhes permite se adaptarem com confiança.”
Isso é visto claramente na vida de Inácio, que entendeu que o tempo exigia
que seus homens não fossem monges reclusos, mas que, ao contrário,
estivessem “no mundo”. Sua indiferença o capacitava sempre a ser adaptável e
não excessivamente preocupado com mudanças de circunstância e incidentes.
Esse tipo de perspicácia encontra expressão também nas vidas de grandes
missionários jesuítas. São Francisco Xavier, por exemplo, usava quaisquer meios
disponíveis para pregar o Evangelho, até tocar um sino para atrair a atenção e
entoar cânticos em línguas nativas.
Talvez o exemplo mais admirável venha de Matteo Ricci, um jesuíta italiano
do século XVI que se dedicou ao estudo do chinês e vestiu os paramentos de um
acadêmico mandarim para se apresentar como um homem de profundo
conhecimento aos membros da nobreza da China. Ele escreveu aos seus
superiores:

Nós deixamos as barbas crescerem e os cabelos acima da orelha, e ao mesmo tempo vestimos o traje dos
literatos... de seda violeta, com a bainha da túnica, o colarinho e as bordas adornados com uma faixa
azul de seda, pouco menor do que a largura de um palmo.

Em pouco tempo a casa de Ricci havia se tornado um ponto de encontro de


acadêmicos e pensadores chineses. “Seu prestígio intelectual”, escreve William
Bangert em A History of the Society of Jesus, “foi consolidado por suas mais de
20 obras em chinês clássico sobre apologética, matemática e astronomia,
algumas das quais alcançando lugar de honra na história da literatura chinesa.”
Por fim, a aventura de Ricci foi interrompida pela desaprovação da Santa Sé à
aceitação dos jesuítas de que a “adoração dos ancestrais” e a veneração prestada
a Confúcio na sociedade chinesa eram compatíveis com o cristianismo. (Ricci as
enxergava apenas como reverência prestada aos familiares mortos e a um dos
homens mais importantes da história da China, e, nas suas palavras,
“certamente não idólatra e talvez nem mesmo supersticiosa”). Com o tempo,
Ricci inaugurou um centro jesuíta em Pequim, com a aprovação do imperador,
e por volta de 1610, ano da sua morte, 2.500 chineses haviam se tornado
católicos.
Essas novidades fizeram com que os jesuítas diminuíssem a ênfase no
aprendizado, que Inácio entendia como de suma importância em sua própria
vida, e também a perspicácia. Somada a isso surgiu a “indiferença” dos jesuítas
em relação a investimentos extras e o seu desejo de tentar coisas novas.
Perspicácia significa também flexibilidade e adaptabilidade: o que funciona
bem em um lugar pode não funcionar em outro. Inácio tinha deixado seu cabelo
crescer como meio de se tornar mais ascético. Quando percebeu que isso pouco
tinha a ver com seu crescimento espiritual, ele o cortou. Ricci, por outro lado,
percebeu que para ser aceito completamente teria que deixar o cabelo crescer. A
flexibilidade inaciana, portanto, também pode ser um componente do sucesso
no ambiente de trabalho moderno.
A terceira virtude da liderança heroica mencionada por Lowney é o amor.
“Os líderes enfrentam o mundo com uma percepção saudável e confiante de si
mesmos, imbuídos de talento, dignidade e potencial para liderar. Eles veem
esses mesmos atributos nos outros e se comprometem apaixonadamente a
honrar e desenvolver o potencial que encontram em si próprios e nos outros.
Eles criam atmosferas propícias e positivas por meio da lealdade, do afeto e do
apoio mútuo.” Lowney contrasta o caminho de Inácio com o de um
contemporâneo dele, Nicolau Maquiavel, que ensinava que “ser temido é mais
seguro do que ser amado”.
A indicação mais clara disso vem da instrução de Inácio para o diretor dos
noviços, o homem mais importante da organização. A pessoa precisa ser não
apenas um homem que possa dar aos jesuítas “admoestação amorosa”, mas
alguém a quem todos eles “possam amar” e com quem possam “se abrir em
confiança”. No início do treinamento jesuíta, Inácio deseja imprimir um sentido
de amor para ajudar os rapazes a progredir.
Como isso era diferente da minha própria experiência no mundo do trabalho.
Muitas vezes eu tinha a sensação de que eram os de espírito mais egoísta e
perverso que chegavam ao topo. Ainda assim, imagine minha surpresa quando
reparei que os jesuítas se tornam mais delicados à medida que vão assumindo
cargos na ordem. Isso não apenas me estimulou a querer ser como eles, mas
também a querer segui-los com alegria.
Nas Constituições, Inácio enfatiza o valor extremo do amor a cada estágio do
treinamento jesuíta, começando com o noviciado, e o inclui entre as principais
qualidades requeridas de um superior geral, ao qual ele dedica várias páginas. O
superior geral precisa estar intimamente unido a Deus, diz Inácio, de quem
“sobressai a caridade para com o próximo, em especial os membros da
Companhia, assim como uma humildade genuína que o fará muito amado por
Deus nosso Senhor e pelos seres humanos”.
Inácio pretendia que a Companhia fosse um lugar amoroso e estimulante.
Não é óbvio que um ambiente amoroso e estimulante, no qual os talentos e as
habilidades de todos são respeitados, será um bom lugar de trabalho? Isso vale
tanto para ordens religiosas quanto para empresas.
A característica final listada por Lowney é o heroísmo. “Líderes imaginam um
futuro brilhante e se esforçam para construí-lo, em vez de assistir passivamente
o futuro ser moldado diante deles. Heróis extraem ouro das oportunidades que
se apresentam e não ficam esperando que oportunidades de ouro sejam
apresentadas a eles”, escreveu.
Lowney menciona uma carta para a comunidade jesuíta em Ferrara, na Itália,
na qual Inácio aconselha os superiores locais a “se esforçarem para conceber
grandes soluções e provocarem igualmente grandes desejos”. Mais uma vez,
Inácio destaca o lugar do desejo, desta vez como um modo de encorajar as
pessoas a realizarem seus sonhos.
E grandes sonhos também. Uma das características importantes da
espiritualidade jesuíta que ainda não abordamos neste livro é o conceito de
magis, a palavra em latim que significa fazer mais, o melhor, para Deus. Quando
estiver trabalhando, dê o melhor de si. Quando fizer planos, planeje com
ousadia. E, quando sonhar, sonhe grande. Mas, como David Fleming me
escreveu recentemente, magis implica uma noção comparativa. É mais, e não o
mais. O melhor de si, e não o melhor de todos. “Inácio nunca lida com
superlativos”, disse Fleming. “Quando queremos ser o melhor, podemos ficar
imobilizados. Se queremos fazer o nosso melhor, temos liberdade de escolha.”
Magis significa agir de maneira sábia e dentro da realidade. Não fazemos essas
grandes coisas para nós mesmos ou para glória da instituição ou empresa em
que trabalhamos. Ao contrário, nos esforçamos para fazer grandes coisas para
Deus. Daí a frase usada por Inácio como critério para a liberdade de escolha,
que vem de um lema informal jesuíta: Ad Majorem Dei Gloriam – Para maior
glória de Deus.
Portanto, o desejo por magis foi concebido no caminho inaciano. Em última
instância, “provocar grandes desejos” e convidar pessoas a pensar grande é a
semente para conquistar grandes coisas para Deus.
Um exemplo histórico da magis em ação serviu de inspiração para o filme A
Missão, talvez o mais conhecido sobre a Companhia de Jesus. Os atores Robert
de Niro, Jeremy Irons e Liam Neeson representam padres e irmãos que
trabalham nas Reduções Jesuíticas da América do Sul no século XVII. Nessa
época, esses jesuítas começaram a reunir os povos nativos, que eram alvo dos
mercadores de escravos inescrupulosos, em comunidades organizadas. O termo
“reduções” vem do desejo de “reduzir” os assentamentos espalhados e
desordenados a territórios menores, como um meio de protegê-los dos
mercadores de escravos e introduzi-los mais facilmente ao cristianismo.
“Nós trabalhamos duro para organizar tudo isso”, escreveu o missionário
Roque Gonzáles, em 1613, sobre o seu trabalho entre os povos guaranis, “porém
com ainda mais entusiasmo e energia – na verdade, com todas as nossas forças –
nós trabalhamos para edificar templos para o Nosso Senhor, não apenas os
construídos por mãos, mas também templos espirituais nas almas desses
índios.”
Nesses vilarejos, espalhados por territórios que hoje pertencem à Argentina,
ao Paraguai e ao Brasil, os jesuítas ensinaram vários trabalhos manuais, o que
levou ao florescimento inédito de uma arte cristã indígena, inspirada por
jesuítas europeus, mas criativamente traduzida no idioma artístico das
populações locais. Em A History of the Society of Jesus, William Bangert descreve
um vilarejo típico no seu apogeu:

A partir de uma praça central, expandiam-se as casas dos habitantes, construídas com matéria-prima
local, incluindo pedras e tijolo cru. Perto da praça ficava o complexo de oficinas para carpintaria,
construção e trabalho em metal. Por trás das casas ficavam os pomares, o pasto para o gado e as
fazendas onde se produziam trigo, arroz, cana-de-açúcar e algodão. Na igreja, a construção mais nobre
de todas e centro da vida comunitária, os índios, iniciados na cerimônia da liturgia e inspirados pela
beleza do altar, cantavam hinos cristãos na própria língua e tocavam instrumentos musicais feitos por
eles mesmos. Para estabelecer centros de fé tão vibrantes, os jesuítas trouxeram, além dos sacramentos e
da palavra de Deus, suas habilidades como metalúrgicos, criadores de gado, arquitetos, fazendeiros e
construtores.
Algumas dessas imensas igrejas de pedra, ou suas ruínas, localizadas nas
antigas selvas da América do Sul, são atrações turísticas muito visitadas hoje em
dia. Outras ainda são utilizadas como paróquias para as populações locais, que
seguem a fé introduzida em seus ancestrais há mais de três séculos. Aqui vemos
um legado claro da magis: pessoas que estavam em circunstâncias muito difíceis
tentando fazer mais, o melhor de si, o melhor para Deus e para o povo de Deus.
A magis também se encontra em atividades pouco badaladas: a professora que
passa horas em casa corrigindo provas; o capelão de um campus universitário
que dirige um ônibus cheio de estudantes animados para uma excursão
missionária; o padre que aconselha um jovem casal antes do casamento. Esses
meios de cumprimento da magis são bem menos radicais do que, digamos, as
Reduções Jesuítas, mas têm a mesma importância.
De modo algum a magis está restrita às realizações dos jesuítas, de membros
de ordens religiosas ou de padres. Qualquer pessoa que sonha fazer grandes
coisas para Deus pode vivenciar a magis – seja um pai cuidando de seu filho,
uma mulher de meia-idade assistindo um parente idoso ou uma professora
ficando além do horário para ajudar um aluno necessitado. Grandes obras são,
muitas vezes, silenciosas.
Além dos quatro pilares de Lowney para organizações, instituições e
empresas, eu incluiria mais três itens a essa lista de melhores práticas para outro
grupo específico: os religiosos no mundo do trabalho.
O primeiro é uma avaliação da dignidade do trabalho.
Um dos aspectos mais subestimados da espiritualidade cristã é o fato de que
Jesus trabalhava. E não falo de simplesmente pregar, curar enfermos e fazer
milagres, como acalmar a tempestade, transformar água em vinho e ressuscitar
mortos. Eu me refiro a algo que aconteceu antes na vida dele.
Sabemos muito pouco sobre o que aconteceu na vida de Jesus entre os 12 e os
30 anos. Na verdade, quase nada. Tudo o que o Evangelho de Lucas tem a dizer
é que “Jesus crescia em sabedoria, estatura e graça”. O que Jesus fazia nesse
período? Trabalhava. De acordo com o apóstolo, Jesus seguira a profissão do pai
adotivo, que era carpinteiro e artesão.
Jesus, portanto, era carpinteiro e negociante autônomo. Ele escolhia o melhor
tipo de madeira, negociava preço com os clientes e viajava para diferentes
cidades. Não surpreende que tantas de suas parábolas tenham a ver com
agricultores, pescadores, arrendatários de terra e trabalhadores temporários.
Jesus sabia o que significava trabalhar duro.
Todo trabalho tem dignidade. Nenhum serviço, quando feito
espontaneamente, é desprezível. Parte do nosso treinamento no noviciado
incluía tarefas humildes, como limpar os banheiros da casa de retiro, esfregar o
chão e lavar a louça. Nenhum trabalho feito livremente e com boa intenção é
indigno. Jesus, por acaso, era menos Filho de Deus quando realizava seus
trabalhos manuais?
Quando percebemos que somos, como dizem os teólogos, “parceiros” na
criação de Deus, identificamos a dignidade no trabalho. Nos Exercícios
Espirituais, Inácio pede que nos imaginemos “trabalhando” com Deus e Ele
“trabalhando” a nosso favor. Nós nos unimos a Ele para construir um mundo
melhor. E Deus vê o fruto de nosso trabalho, mesmo que os outros não vejam.
Pense em José, o carpinteiro que ensinou seu ofício a Jesus. O trabalho dele foi
de suma importância, muito embora as pessoas não tenham visto isso na época.
Como isto se parece com os muitos milhões de pessoas que fazem trabalho
anônimo hoje em dia: dedicando muitas horas para fazer os filhos avançarem na
escola; fazendo hora extra no intuito de juntar dinheiro para pagar o tratamento
de um parente enfermo; trabalhando exaustivamente na faxina da casa, lavando
quantidades enormes de roupa e passando horas no fogão para alimentar suas
famílias. Mesmo que seus esforços não sejam notados pelos outros, são vistos
por Aquele cujo olhar mais importa.
Há uma parábola de que gosto muito: um velho escultor estava trabalhando
na estátua de mármore de uma santa em uma catedral medieval. Ele passou
muitos dias esculpindo diligentemente as dobras do vestido na parte de trás.
Usou cinzéis de diferentes tamanhos e lixou com bastante cuidado. Outro
escultor reparou no que ele estava fazendo, mas lamentou que a estátua seria
colocada em um nicho escuro, com as costas voltadas para a parede, pois toda a
perícia do colega ficaria escondida. Ele, então, perguntou ao amigo:
– Por que você está trabalhando duro nisso? Ninguém vai ver!
– Mas Deus verá – respondeu o artista.
O segundo insight inaciano sobre trabalho é a aceitação do fracasso. Ainda
que usemos nossa autopercepção, perspicácia, amor e heroísmo, não há garantia
de que sempre seremos bem-sucedidos. Aceitar isso – no trabalho, no lar ou na
vida – é um modo de admitir o que Walter Ciszek chamou de “realidade da
situação” e de vivenciar a nossa própria humildade e pobreza de espírito.
Uma das histórias mais fortes que já ouvi sobre esse tópico foi contada por
Jim, um irmão jesuíta. Ele me contou a história de Carol, uma ex-modelo que
conheceu no centro de assistência social que ele fundou em uma paróquia de
Los Angeles.
A moça estava passando por um período difícil quando foi ao centro, certa
manhã, e encontrou Jim. Carol lhe disse que precisava de algumas peças de
vestuário, e Jim a levou à sala de distribuição de roupas. Porém, alguns minutos
depois, ela teve um ataque, correndo, bêbada e seminua, pelo local, reclamando
das peças que tinham lhe dado e ofendendo a equipe. Jim tentou acalmá-la e
disse que procuraria ajudá-la, desde que estivesse sóbria.
Ao longo dos três anos em que Jim trabalhou no centro, Carol foi até lá várias
vezes, bêbada e zangada. Nas ocasiões em que estava sóbria, ela contou a Jim
sobre sua vida, sua família, sua batalha contra o alcoolismo e os sonhos que
nunca conseguira realizar.
Em seu último dia no centro de assistência, Jim avistou Carol passando do
outro lado da rua acompanhada de um homem que, conforme ela mesma
contara, já tinha abusado dela no passado. Jim ficou paralisado. Pensou em
atravessar a rua e se despedir dela, mas preferiu se conter. Carol percebeu e deu
um aceno discreto, continuando seu caminho.
Tempos depois, Jim me enviou uma carta contando o desfecho dessa história.
“Eu queria deixar a paróquia em alto astral, sabendo que tinha feito coisas boas
e ajudado os mais necessitados. Quando Carol virou a esquina e desapareceu,
fiquei ainda mais preocupado com ela. Fiquei triste porque esperava que ela
estivesse no caminho de uma vida mais saudável e plena, e também
decepcionado e frustrado por vê-la na companhia de um homem que ela jurara
nunca mais encontrar.”
Tudo o que Jim pôde fazer, ele reconheceu, foi orar pelo bem-estar e a
felicidade de Carol.
Por mais duro que tenhamos trabalhado, há coisas que não podemos mudar,
e o fracasso não acontece por preguiça, incompetência ou falta de planejamento.
Algumas vezes, o trabalho pode ser um poço de sofrimento.
Homens e mulheres que são dispensados sem explicação e passam por reveses
na área profissional sabem muito bem disso. Em algumas situações somos
impotentes, e nossos esforços parecem infrutíferos. Porém mesmo o trabalho
que parece infrutífero ainda pode ser direcionado para Deus.
Fracasso cristão
São Francisco Xavier morreu em uma pequena ilha a alguns quilômetros
da costa da China, o último destino de sua viagem missionária. Ele se
sentiu um tanto fracassado por não poder concluir sua meta por motivos
de saúde. Walter Burghardt, em seu livro Saints and Sanctity, faz uma
reflexão sobre o fracasso mesmo depois de alguém ter trabalhado duro
para o sucesso:

Esta é uma dificuldade extrema para uma pessoa aceitar, mesmo para
alguém como Xavier. Mesmo eu tentando fazer a obra de Deus com cada
gota de suor do meu esforço, não há garantia de que meus planos darão
certo. Não há garantia de que um apóstolo cristão consiga alcançar o seu
alvo mais importante... Não há garantia de que, porque você se entregou a
um casamento cristão, sua união conjugal irá perdurar... de que, porque
amou a Deus profundamente, não perderá seu emprego, sua casa, sua
família, sua saúde.... Não há garantia de que, porque você crê, nunca terá
dúvidas; de que, porque tem esperança, nunca será desapontado; de que,
porque ama, seu amor não esfriará. Não há garantia de que um Xavier
desembarcará na China. É por esse motivo que existe uma frustração
cristã, um fracasso cristão...
Nós cumprimos nossa missão cristã do modo como Deus nos faz
enxergar, mas o crescimento está em Suas mãos. Deus ainda usa as coisas
loucas deste mundo para confundir os sábios, ainda usa as coisas fracas
deste mundo para confundir os fortes, e ainda usa as coisas insignificantes
e desprezíveis para aniquilar os que se acham tão importantes... Nesse
sentido, não há frustração cristã nem fracasso cristão.

O terceiro aspecto é a dependência de Deus.


Santo Inácio era um trabalhador bem-sucedido que sabia que tudo o que
havia conseguido fora pelas mãos de Deus. Essa atitude é libertadora, desde que
reconheçamos que não estamos trabalhando sozinhos, mas que temos um
parceiro de trabalho e que por causa disso não podemos fazer tudo por conta
própria. A experiência de Jim com Carol é uma lembrança de que ele não podia
“salvá-la”. Depender de Deus traz tanto humildade quanto liberdade. Como
disse o meu diretor espiritual: “Existe um Messias, e ele não é você.”
Essas são algumas maneiras pelas quais o caminho de Inácio pode ajudá-lo no
trabalho quando você encontra a sua vocação no mundo.
Vocação, porém, não se refere apenas a trabalho. Tem muito a ver com o ser.
Não diz respeito ao que você faz, mas, sobretudo, ao que você é. Então vamos
examinar a pergunta: “O que eu deveria ser?”

Seja quem você é!

Cada um de nós é chamado para uma vocação na vida, com base nos desejos
que Deus planta dentro de nós, assim como em nossos talentos, habilidades e
personalidade. Essa é uma razão pela qual Inácio fala de um Deus que quer
estabelecer um relacionamento profundo conosco e de um Criador que trata
diretamente com a criatura. Deus sabe que nossos desejos mais profundos são
os que trarão alegria para nós e para o mundo.
Mas não se trata apenas de trabalho, emprego ou até de uma profissão, pois a
vocação mais profunda é se tornar quem você é, seu “eu verdadeiro”, a pessoa
que Deus criou e o convoca a ser.
Parte desse caminho é aceitar que Deus já nos ama como nós somos. Homem
ou mulher, jovem ou velho, rico ou pobre, somos todos amados por Ele. Não
importa como você enxerga a si mesmo, Deus o ama. Difícil de acreditar? Então
deixe-me contar uma história sobre aceitação.

Admiravelmente formado

Rick Curry é um jesuíta espirituoso, com doutorado em artes cênicas, que


fundou uma companhia teatral para deficientes. Ele nasceu sem um dos braços,
mas superou muitos obstáculos e trabalhou como ator durante um tempo.
Depois de ser tratado de maneira preconceituosa num teste para um
comercial, ele decidiu fundar a companhia teatral especializada em atores com
algum tipo de deficiência.
Na década de 1950, quando Rick era pequeno, o antebraço direito
embalsamado de São Francisco Xavier foi levado até Filadélfia. Por mais
estranho que isso possa parecer para os fiéis de outras religiões, essa relíquia é
particularmente conhecida entre os católicos: é o braço que o missionário jesuíta
usou para batizar milhares de pessoas durante seus anos de catequese na África,
Índia e Japão.
A professora primária de Rick, uma freira católica, achou que seria uma boa
ideia levar o menino para ver a relíquia. Embora ela não esperasse nenhum
milagre, seus coleguinhas de turma torciam para que o santo o curasse.
Uma longa fila ocupava os corredores da catedral. Por causa da multidão, os
organizadores anunciaram que os visitantes só poderiam tocar o relicário, a
urna de vidro que continha o braço de Francisco. Não seria permitido beijá-lo,
como alguns católicos piedosos pretendiam. Mas, quando os padres viram o
menino sem o braço direito, disseram à professora que ele poderia beijá-lo.
Rick, no entanto, não desejava ser “curado”.
Mesmo assim, ele beijou o relicário.
No caminho de volta à escola, o menino ficou examinando seu braço.
Nenhuma mudança, nenhum milagre acontecera. Na sala de aula, percebeu a
decepção dos colegas. Talvez, disseram eles, Rick não fosse digno de receber a
graça de um milagre.
Ao chegar em casa, Rick se surpreendeu com a reação de sua irmã, Denise,
que mais tarde se tornaria freira. Ela lhe disse que tinha ficado muito contente
por nada ter acontecido. “Porque eu gosto de você do jeito que você é!”,
exclamou a menina.
Deus nos ama como nós somos! Denise ajudou o irmão a enxergar sua
deficiência como um dom, como uma maneira de enxergar a humanidade das
pessoas e uma lembrança do chamado para ser grato durante toda a vida. Ele me
disse que uma deficiência só se torna um fator negativo se a pessoa internaliza as
impressões negativas dos outros.
Portanto, um milagre pode ter acontecido naquele dia.
Autoaceitação é o primeiro passo para a santidade. Mas, para muitos, o
caminho pode ser árduo. Homens, mulheres e crianças que pertencem a
minorias étnicas, com deficiências físicas, criados em famílias disfuncionais, ou
aqueles que se acham feios, ignorantes ou burros, podem lutar durante muitos
anos até se enxergarem como filhos amados de Deus.
“Tu criaste o íntimo do meu ser e me teceste no ventre de minha mãe”, diz o
salmo 139. “Eu te louvo porque me fizeste de modo especial e admirável.” Deus
nos ama como nós somos porque foi como Ele nos criou.

Comparação e desespero

A principal dificuldade para aceitarmos a nós mesmos e valorizarmos nossa


individualidade é a falsa crença de que para nos tornarmos santos, úteis ou
felizes precisamos ser perfeitos. A jovem mãe pode dizer a si mesma com
tristeza “Nunca serei como Madre Teresa”, quando a sua vocação é ser uma mãe
dedicada e carinhosa. O advogado ou o médico, ou o professor que lê sobre a
vida de São Francisco Xavier, pode dizer: “Nunca serei como ele.” Mas eles não
foram feitos para serem santos, por mais estimados que sejam. Eles foram
criados para serem eles mesmos.
Isso significa abandonar o desejo de se tornar outra pessoa e lembrar que a
própria vocação – não a dos outros – é o caminho para a felicidade. Não é
preciso usar o mapa de alguma outra pessoa para o céu, porque Deus já colocou
dentro da alma de cada um de nós todas as direções de que precisamos.
Isso também significa aceitar a própria personalidade e os próprios sonhos.
Um diretor espiritual jesuíta certa vez me deu um dos conselhos mais valiosos
que já recebi. Na época, eu trabalhava com alguém muito desagradável. Com o
passar do tempo, fui me tornando meramente reativo – mais calado, mais
defensivo, mais cuidadoso, mais desconfiado – no intuito de me proteger de seu
temperamento forte. Esse modo de agir começou a me transformar em uma
pessoa rígida e fria. Certo dia, então, confessei ao meu diretor espiritual que
sentia que aquela pessoa estava me moldando para ser alguém que eu não queria
ser.
Com que frequência sentimos que há pessoas, grupos ou circunstâncias
tentando nos moldar em alguma coisa que não escolhemos ser.
Meu diretor disse: “Não deixe que ninguém tire sua liberdade de ser quem
Deus quer que você seja.”
O artesão todo-poderoso
A lenha rústica e intocada não tem ideia de que pode se transformar em
uma estátua que será considerada uma obra-prima, mas o escultor antevê o
que pode ser feito com ela. Muitos não entendem que Deus pode esculpi-
los em santidade, até se entregarem às mãos do artesão todo-poderoso.

– Santo Inácio de Loyola

Durante o noviciado passamos por vários testes de personalidade cuja


finalidade era nos ajudar a entender como as pessoas interagem de maneira
diferente com o mundo. Uma série de testes foi estruturada para descobrir se
éramos extrovertidos ou introvertidos. O resultado: eu era o único extrovertido
na casa de retiro.
Os testes me ajudaram a enxergar que as pessoas que reagiam à vida de forma
diferente da minha não estavam erradas ou equivocadas, mas apenas viam as
coisas de modo diferente. Ou, para ser mais exato, eu é que era o diferente!
Depois que os resultados saíram, fiquei desanimado. Será que eu me tornaria
um mau jesuíta por não ser introvertido? Mas meu diretor me tranquilizou
dizendo que a Companhia de Jesus também precisava de gente extrovertida.
É sempre difícil evitar comparações com outras pessoas e não achar que elas
conseguem tudo com mais facilidade. É por isso que devemos cultivar uma
tensão saudável entre aceitação da realidade e desejo. Por um lado, devemos
honrar a pessoa que Deus criou – com sua história de vida, personalidade, seus
talentos, habilidades e capacidades. Por outro, permitimos que Ele nos aponte
novas direções, para mudar, crescer e descobrir quem fomos destinados a ser.
Deus o criou, mas não se esqueça de que você ainda é uma obra em andamento.
Grande parte da minha jornada para a autoaceitação envolveu abrir mão da
necessidade de ser outra pessoa. Não era ninguém em particular, apenas uma
sensação de que eu precisava ser diferente. No início do noviciado, eu pensava
que precisava reprimir minha personalidade e impedir que meus desejos e
tendências naturais viessem à tona, em vez de pedir a Deus que os consagrasse.
Eu sabia que não era uma pessoa santa; logo, eu deveria ser alguém diferente.

É perigoso fazer todo mundo seguir a mesma estrada e é pior ainda avaliar
os outros com base em si mesmo.

– Santo Inácio de Loyola

David me lembrava o tempo todo de que eu não precisava ser ninguém além
de mim mesmo. “Você não precisa mudar para Deus o amar”, disse Anthony de
Mello. Demorou um pouco até eu assimilar essa noção. Além de uma vaga
sensação de que eu não era digno de ser um jesuíta, em vários momentos da
vida, principalmente quando as coisas não iam tão bem, eu tive inveja de outras
pessoas. Eu achava que os outros obtinham as coisas de modo mais fácil e, por
isso, eram mais felizes do que eu.
Além de falsa, essa maneira de pensar é perigosa. É comum comparar a
própria vida, que é sempre uma mistura de altos e baixos, com o que falsamente
se percebe como sendo a vida perfeita de alguém. Dessa forma, subestima-se os
próprios dons e graças recebidos e se supervaloriza os de alguma outra pessoa.
Ironicamente, fazemos o oposto com problemas e defeitos: supervalorizamos
os nossos e minimizamos os das outras pessoas. Os outros parecem mais
inteligentes, mais atraentes, mais aceitos, mais centrados, mais em forma, etc., e
por isso têm vidas encantadoras. Do mesmo modo, presumimos que eles não
enfrentam problemas sérios. E, se os enfrentam, achamos que não são tão graves
quantos os nossos.
Mas ninguém leva uma vida perfeita. Todos temos graças e bênçãos, assim
como desafios e lutas. “Todo lar tem seus problemas”, dizia minha mãe quando
passeávamos de carro pelos bairros mais ricos, desejando morar lá. E, se
compararmos a fundo a nossa própria realidade com a suposta perfeição da vida
de alguém, será que vamos mesmo desejar ser outra pessoa?
Comparar é se desesperar.
Como aceitar quem você é? Apresento a seguir alguns passos importantes
para essa jornada de descoberta de uma vida inteira,

Tornar-se você mesmo

Primeiro, lembre-se de que Deus o ama. Como David costumava dizer,


parafraseando os salmos: “Deus tem prazer em você!” Caso duvide disso, uma
rápida análise das coisas pelas quais você é grato pode ajudá-lo a perceber as
maneiras como Deus o tem abençoado e amado. Ler alguns versículos do salmo
139 – “Tu me teceste no ventre de minha mãe” – também pode ajudar.
Segundo, perceba que Deus o ama como um indivíduo, e não apenas de modo
abstrato. Ele se interessa por sua personalidade, assim como um amigo. Lembre-
se de como Deus fala com você de modo íntimo e pessoal, no seu dia a dia e na
oração, de uma forma que só você consegue valorizar. Esse é um sinal do amor
pessoal de Deus por você.
Terceiro, aceite seus desejos, habilidades e talentos como presentes dados a
você por Deus para a sua felicidade e a dos outros. Eles são presentes do Criador.
Quarto, evite a tentação de se comparar com os outros e de se criticar ou se
desvalorizar. Lembre-se: comparar é se desesperar.
Quinto, em vez de se dedicar às atitudes perversas que o impedem de ser
compassivo, amoroso e livre, livre-se delas. Pensar na meditação sobre os Dois
Modelos contida nos Exercícios Espirituais vai ajudá-lo nesse desafio.
Sexto, confie que Deus o ajudará porque Ele deseja que você se torne a pessoa
que foi destinada a ser. E ore pedindo a ajuda Dele.
Sétimo, reconheça que o processo de se tornar a pessoa que você foi destinado
a ser é um processo longo.

Levará algum tempo até que você seja capaz de desenvolver uma
compreensão plena desses ensinamentos, muito tempo até que eles se traduzam
em ação e ainda mais tempo até que você descubra que mudou tanto por dentro
quanto por fora.
Se duvida disso, lembre-se da história de Inácio.
Cinco anos depois de ter ingressado nos jesuítas, retornei à casa onde havia
feito meu primeiro retiro, em Weston, Massachusetts. Naquele ano o diretor foi
um jesuíta muito divertido chamado Harry.
Naquele verão, falei a Harry que sentia que não mudava rápido o suficiente.
Eu sabia que queria ser livre, espontâneo, tranquilo, desembaraçado,
compassivo, paciente, maduro e generoso. Mas as imperfeições não me
deixavam progredir. Como Deus me mudaria? Quando isso aconteceria? Por
que a mudança não estava acontecendo mais depressa?
Harry me escutou com atenção. Ele sorriu e olhou pela janela que dá para o
pátio da casa de retiro. “Você está vendo aquela árvore?”, perguntou ele.
Então reparei na grande árvore na colina, pela qual costumava passar quando
vagava pelos bosques. “Ela está verde agora, mas em poucos meses ficará coberta
de lindas flores vermelhas”, disse ele. “E ninguém verá a sua mudança.”

O trabalho lento de Deus


A paciência é uma companhia importante no caminho para se descobrir a
própria vocação, para nos tornarmos quem gostaríamos de ser e, na
verdade, para qualquer mudança. Pierre Teilhard de Chardin, o
paleontólogo jesuíta que conhecia tudo sobre a lenta ação do tempo,
escreveu sobre a paciência em uma carta para um amigo:

Acima de tudo, confie no trabalho lento de Deus.


Por natureza, somos impacientes em tudo para alcançar o fim e
gostaríamos de pular os estágios intermediários.
Nós somos impacientes para enfrentar o desconhecido e abraçar tudo
que é novo.
E, no entanto, o trabalho lento de Deus é a lei de todo progresso que se
faz quando conseguimos superar alguns estados de instabilidade – e ele
pode demorar muito.
E dessa forma eu acho que ele está com você. Suas ideias amadurecem
gradualmente, portanto, deixe-as crescer e tomar suas formas sem
afobação indevida. Não tente forçá-lo, como se você pudesse ser hoje o que
o tempo (com a graça e as circunstâncias atuando sobre a sua vida) o
tornará amanhã.
Somente Deus poderia dizer o que será esse novo espírito que aos
poucos toma forma dentro de você.
Dê ao nosso Senhor o benefício da crença de que as mãos dele o estão
guiando e aceite a perplexidade de se sentir em suspenso e inconcluso.

A boneca de sal

Encontramos nossa identidade e vocação em Deus. Nossos desejos vêm de


Deus e nos conduzem a Ele.
Anthony de Mello tem uma metáfora que ilustra muito bem o conceito de
vocação que abordamos neste capítulo.
Uma boneca de sal viajou milhares de quilômetros até finalmente chegar ao
mar.
Fascinada diante daquela estranha massa grandiosa, diferente de tudo o que
ela havia conhecido antes, ela perguntou ao mar:
– Quem é você?
O mar, sorrindo, respondeu:
– Venha e veja.
A boneca de sal aceitou o convite. Quanto mais ela avançava mar adentro,
mais se dissolvia. Antes que ela desaparecesse totalmente, a boneca exclamou
admirada:
– Agora eu sei o que sou!
Capítulo 14

O contemplativo em ação
Nosso modo de conduta

U m de meus momentos marcantes no cinema vem do filme francês Paris, eu


te amo (2006), que reúne uma série de 20 pequenas histórias dirigidas por
cineastas internacionais, todas ambientadas na capital francesa. Uma retrata um
caso de amor; outra, um encontro entre pai e filha; outra, um assassinato brutal.
Uma delas apresenta Carol, uma mulher de meia-idade que é carteira no
interior dos Estados Unidos e economiza dinheiro para realizar seu sonho:
conhecer Paris. Ela até frequentou um curso de francês durante dois anos como
parte dos preparativos para sua grande aventura.
Ela se descreve como uma pessoa feliz, mas a solidão permeia suas
divagações. Sua história é contada em off e seus pensamentos são traduzidos em
palavras muito simples – porque são as únicas que ela sabe em francês.
Numa das cenas, após perambular por uma praça ensolarada, Carol senta-se
em um banco e pensa sobre o trabalho, os amigos, seus cães, sua paixão perdida
e sua mãe, que pouco tempo antes morrera de câncer. Naquele lugar tranquilo,
Carol percebe sinais de vida em tudo em volta dela: casais que conversam
animadamente, crianças brincando, uma mulher descansando na grama. Uma
brisa sopra suavemente, levantando seus cabelos. Então uma coisa
extraordinária acontece. Ela diz:

Sentada naquele banco de praça, sozinha em um país estrangeiro, longe de


meu emprego e de todos que conheço, fui tomada por um sentimento.
Foi como me lembrar de algo que nunca soube antes, ou tivesse esperado,
mas que eu não sabia o que era. Talvez fosse algo que eu tivesse esquecido ou
de que senti falta por toda a minha vida.
Tudo o que posso dizer é que eu senti, ao mesmo tempo, alegria e tristeza.
Mas não tanto a tristeza.
Porque eu me senti viva.
Sim, viva.

Quando ela diz isso, uma atmosfera de paz toma conta de suas feições
cansadas.
Não tenho certeza se o diretor pretendeu retratar uma epifania espiritual nem
se Carol era para ser um personagem espiritual. Mas, com palavras simples, ela
não somente expressa aquilo a que nós nos referimos em páginas anteriores
como “sensações incomuns”, mas abre uma janela para um dos principais
objetivos do caminho de Inácio: sentir-se vivo.

Sim, vivo

Ao longo destas páginas viajamos juntos pelo caminho de Inácio. Agora você
pode perguntar: Para onde esse caminho conduz? Qual é o nosso destino?
No primeiro capítulo, imaginamos como cinco jesuítas definiriam o caminho
de Inácio. Eles deram quatro respostas: ser contemplativo em ação; encontrar
Deus em tudo; enxergar o mundo por meio da encarnação; e almejar liberdade e
desapego. Todas são metas para o viajante no caminho de Inácio.
A primeira meta é ilustrada pela personagem de Carol, que se sente viva,
talvez pela primeira vez na vida. Ela repara. Ela está atenta. Quando se senta
naquele banco, ela descobre uma conexão: “Foi naquele instante que me
apaixonei por Paris. E senti que Paris se apaixonou por mim.” O estado de alerta
a levou a amar.
Na vida real, Carol teria uma escolha a fazer, além de apenas decidir estender
sua reserva de hotel e ficar mais algum tempo na França. Ou mesmo de resolver
que Paris seria a sua cidade. Ela pode aceitar sua experiência como apenas
“sensações” ou pode investigar se elas têm outra fonte.
O contemplativo em ação, de acordo com Santo Inácio de Loyola, não apenas
contempla o mundo ativo e vê coisas maravilhosas, mas enxerga também nessas
coisas maravilhosas sinais da presença de Deus mesmo no meio de uma vida
agitada. É uma postura de consciência. Consciência de Deus.
Isso leva a uma segunda meta: encontrar Deus em tudo. Até agora você viu
como tudo pode ser um meio para vivenciar Deus. Nos capítulos anteriores,
falei sobre encontrar Deus na oração, na adoração, na família, no amor, na
música, na natureza, no trabalho, nas tomadas de decisão, no viver com
simplicidade, na amizade e em tempos de sofrimento. Em todas as coisas. E em
todas as pessoas. Falei sobre um modo fácil de deflagrar essa consciência, de
ajudá-lo a encontrar Deus em tudo: o exame. O contemplativo em ação busca
Deus e procura encontrá-Lo na ação.
Isso significa que ele vê o mundo de uma maneira encarnada, uma terceira
definição. Deus habita nas coisas reais, em lugares reais, em pessoas reais. Não
apenas “lá”, em algum outro lugar, mas “em tudo aqui”. Para os cristãos, Jesus é
a encarnação de Deus, mas não é preciso ser cristão para ter uma visão de
mundo encarnada. Quanto mais viajamos pelo caminho de Inácio, mais
percebemos um Deus encarnado.
E quanto mais viajamos pelo caminho de Inácio, mais queremos seguir
adiante. Quanto mais vivenciamos Deus, mais queremos vivenciá-Lo. E quanto
mais O conhecemos, mais queremos conhecê-Lo.
Para isso, você precisa cultivar o desapego e a liberdade, o quarto objetivo.
Você deseja ficar livre de tudo o que o impede de seguir o caminho adiante.
Como Inácio disse, você quer ficar livre dos “afetos desequilibrados”. E tem que
ter cuidado para não retomar as práticas que o afastam de Deus. Como ele diria,
tem que “discernir”.
Portanto, podemos dizer: contemplativos em ação buscam encontrar Deus
em tudo ao enxergar o mundo sob a ótica da encarnação divina. Nessa busca,
eles descobrem seu desejo por liberdade e desapego, que os ajuda a se
aproximarem de Deus. Esse é um bom resumo da espiritualidade inaciana.
Essa foi também a minha experiência.
Nos capítulos anteriores, dei alguns exemplos pessoais da ação de Deus em
minha vida, não porque eu seja mais importante ou mais espiritualizado do que
quem quer que seja, e nem mesmo um modelo a ser seguido. Ao contrário, para
demonstrar que qualquer pessoa pode vivenciar Deus se enveredar pelo
caminho de Inácio.
Quando ingressei no noviciado jesuíta, aos 27 anos, eu tinha muito pouca
experiência com oração. Eu não imaginava que poderia ter um dia um
“relacionamento pessoal” com Deus. Não imaginava que poderia me libertar de
alguns padrões nocivos que tinham me acompanhado desde a infância. E não
me imaginava trilhando um novo caminho. Na verdade, eu nem sequer
imaginava que existia um novo caminho, por isso não vislumbrava a
possibilidade de mudança.
Mas Deus já havia imaginado por mim.
O caminho de Inácio me desafiou a um contínuo crescimento, à liberdade e à
expansão da consciência, com amor e autenticidade, até me sentir finalmente
“vivo”. Neste livro, tentei mostrar como isso funciona no nível pessoal, porque é
nele que Deus costuma estar presente em nosso eu mais íntimo – mais próximo
de mim do que eu mesmo. Se permitirmos que isso aconteça, Deus pode
trabalhar desta maneira em nossas vidas, e esta é a razão de eu ter incluído
algumas histórias reais de santos jesuítas, de jesuítas que conheci e de vários
amigos e companheiros, homens e mulheres, que conheci ao longo do caminho
de Inácio.
Mas esses atributos – crescimento, liberdade, movimento, amor,
autenticidade e até sentir-se vivo – não são os objetivos finais. O objetivo final
do caminho inaciano não é um atributo, mas algo além.

A estrada é o nosso lar

O objetivo final é Deus.


A espiritualidade inaciana é uma fonte de conhecimento para muitas pessoas,
não apenas jesuítas, católicos ou cristãos. Assim como há insights do zen-
budismo que são úteis para mim como cristão, existem práticas e técnicas da
espiritualidade inaciana que podem ajudar um zen-budista. E judeus e
muçulmanos também. A verdade é que todos podem utilizar essas práticas para
melhorar sua vida.
Entretanto, para entender plenamente o fim da viagem, você precisa
compreender o destino. Para a espiritualidade inaciana nada tem sentido sem
Deus. O destino, portanto, não é um lugar. É Deus.
Você se lembra da analogia que usei sobre os Exercícios Espirituais no começo
do livro? Eles não existem para serem lidos, mas para serem experimentados. O
mesmo vale para um manual de instruções sobre dança. Não vai adiantar muito
se você apenas lê-lo: é necessário praticar para entender melhor o que está
escrito.
Bem, nesta dança, Deus é nosso par. Então lembre-se de que o objetivo do
caminho é estabelecer um relacionamento com Deus, que quer Se relacionar
com você.
Para mim, a espiritualidade inaciana foi o principal caminho para encontrar
Deus. Ela tem sido a minha estrada até Ele. E até Jesus Cristo. As práticas e os
insights de Inácio aumentaram o meu apreço pela tradição católica, pela Bíblia,
pela vida em comunidade, pela oração, por quase tudo. O caminho de Inácio me
ajudou a estabelecer um relacionamento com Deus, algo que eu pensava ser
impossível aos 27 anos.
Mas ninguém, nesta vida, atinge o fim da jornada. Depois da morte ficaremos
diante de Deus, como escreveu São Paulo. Mas aqui nesta Terra podemos ser
como peregrinos a caminho Dele.
É por isso que muitos escolhem a imagem de um caminho para descrever a
espiritualidade inaciana. E é por essa razão que eu gosto tanto da frase
emblemática de Jerónimo Nadal, um dos primeiros companheiros de Inácio: “A
estrada é o nosso lar.” E é por isso que os jesuítas viajavam constantemente em
alguma nova missão, sempre receptivos à mudança.
Mas a frase de Nadal também carrega outro significado. Ele quer dizer que
nós estamos sempre na estrada para Deus e que quanto mais entendermos nosso
destino, mais nos sentiremos em casa nesta estrada.
Deus é o objetivo. Assim como nossa dedicação a Ele. Isso faz parte da
amizade. Em qualquer amizade verdadeira existe uma troca. Deus se oferece
para nós, e nós nos oferecemos para Ele. Eu gostaria, portanto, de terminar este
livro com uma oração desafiadora extraída dos Exercícios Espirituais. Trata-se
de dar alguma coisa para Deus: você mesmo.

Toma, Senhor, e recebe

Ao longo do livro, mencionei as quatro semanas dos Exercícios Espirituais.


Mas ainda há uma semana sobre a qual não falamos: a Quarta, cujo foco é a
ressurreição.
No fim dos exercícios, a maioria dos participantes dos retiros fica encantada
por ser capaz de meditar nas histórias radiantes da ressurreição: Jesus
aparecendo para Maria Madalena e os demais discípulos, Jesus perdoando
Pedro por sua traição, Jesus alimentando seus discípulos junto ao mar da
Galileia. E, num ímpeto de entusiasmo piedoso, Inácio até acrescentou algo ao
Novo Testamento: uma cena de Jesus encontrando a mãe após a ressurreição.
“Embora isso não esteja na Bíblia”, ele escreve, “está subentendido no registro
que ele apareceu para muitos outros.”
No fechamento da Quarta Semana, Inácio nos convida para uma maravilhosa
contemplação que com frequência é ignorada pelas pessoas ansiosas por fazer as
malas e ir embora. Ela é chamada de Contemplação para Alcançar o Amor
Divino e seu propósito é nos ajudar a compreender o amor de Deus por nós.
Para isso, Inácio nos oferece um exercício de pensamento e uma variedade de
metáforas riquíssimas.
Primeiro, lembrar “com profundo afeto quanto Deus nosso Senhor fez por
mim” e “quanto Ele me deu do que possuo”. Isso é parecido com o tipo de
gratidão incluído no exame de consciência.
Segundo, pensar sobre o modo como Deus “habita” em todas as criaturas.
Nos elementos, Deus lhes dá existência. Na plantas, dá vida. Nos animais,
sentimentos. Nos seres humanos, inteligência. E em você, em quem Deus habita
“me dando existência, vida, sentimentos e inteligência; e ainda mais, tornando-
me Seu templo, pois fui criado à Sua imagem e semelhança”. Como Deus
“habita” em você?
Terceiro, considerar como Deus trabalha em toda a criação. Isso sempre foi
uma imagem poderosa para mim. Deus trabalha em nosso favor e em favor de
todas as criaturas, “dando a elas a sua existência, preservando-as”, ajudando-as a
crescer e a ser elas mesmas.
Finalmente, pensar sobre como todos esses presentes – e outros como justiça,
bondade, compaixão e misericórdia – procedem de Deus “como os raios
procedem do sol ou as chuvas de sua fonte”. Deus está trabalhando com você e
para você.
Todas essas imagens são belos convites para pensarmos sobre o amor de Deus
por nós – e o experimentarmos.
Na contemplação final está uma das orações inacianas mais conhecidas e
talvez uma das mais difíceis. Após as quatro semanas dos exercícios, depois de
meditar sobre o amor incondicional de Deus por ela, a pessoa é levada a
responder de modo completamente amoroso. Como muitos dos ideais
inacianos – como indiferença, apego e humildade –, esta prece é uma meta.

Toma, Senhor, e recebe toda a minha liberdade,


minha memória, minha inteligência e toda a minha vontade;
todo o meu ter e meu possuir.
Tu me deste e a ti devolvo,
Tudo é teu;
Tudo é teu; dispõe de tudo
Conforme tua vontade.
Dá-me teu amor e graça,
Que estes me bastam.

Essa é uma prece de entrega plena. Eu Lhe ofereço tudo, Deus. Tudo o que eu
preciso é de Seu amor e Sua graça. Isso é tudo de que eu preciso para me “sentir
vivo”.
Por que escolhi uma oração tão intensa para terminar o livro? A finalidade é
lembrar a você que a vida espiritual é uma viagem permanente. Acho que nunca
fui capaz de fazer essa oração de um modo completamente significativo. Ou
seja, eu ainda quero todas essas coisas. E não estou certo de poder afirmar que
tudo o que me basta são o amor e a graça de Deus. Eu ainda sou humano demais
para isso. Mas, como disse Inácio, é suficiente desejar ter desejo. Basta querer
esta liberdade, pois Deus cuidará do resto.
Portanto, você e eu estamos juntos no caminho para sermos contemplativos
em ação, encontrar Deus em tudo, vê-Lo encarnado neste mundo e almejar
liberdade e desapego.
O caminho de Inácio foi trilhado por milhões de pessoas que buscam Deus no
dia a dia. E, por nos ter ensinado esse caminho – fácil algumas vezes, difícil em
outras, mas sempre nos levando para mais perto de Deus –, devemos agradecer
a nosso amigo Santo Inácio de Loyola.
Agradecimentos

O exame de consciência se inicia com a gratidão. E este livro se encerra com


ela. Então vou listar algumas pessoas a quem sou muito grato.
Primeiro, gostaria de agradecer a meus diretores espirituais nos últimos 20
anos, que me ensinaram mais sobre a espiritualidade inaciana do que eu poderia
aprender lendo um livro, em especial aqueles jesuítas que me acompanharam
por muitos anos ao longo do meu treinamento: David Donovan, Ken Hughes, J.
J. Bresnahan, Jack Replogle, Dick Anderson, George Drury, Ozy Gonsalves,
George Anderson, Jeff Chojnacki e Damian O’Connell.
Aos homens e às mulheres que dirigiram meus retiros anuais e aprofundaram
minha percepção da atividade de Deus em minha vida também faço um
agradecimento carinhoso: Ron Mercier, Joe McHugh, Jim Gillon, Phil Shano,
Harry Cain, Jim Bowler, Bill Devine, Jim Keegan, Paul Harman, Dick Stanley,
John Kierdejus, Paul Fitterer, Pat Lee, assim como Gerry Calhoun e Maddy
Tiberii, irmãs da Companhia de Jesus. Eu agradeço também a Bill Creed,
Martha Buser, Maureen Steeley e Eleanora Murphy.
Agradeço a um grupo de pessoas extremamente sábias, generosas e pacientes
que leram o manuscrito deste livro e acrescentaram sabedoria, ideias e
correções! Alguns são especialistas em espiritualidade inaciana, outros em
história jesuíta, outros ainda em Bíblia, teologia ou psicologia. Todos dedicaram
um bom tempo à leitura e me ajudaram a tornar este livro mais preciso e
acessível.
Sou imensamente grato a Bill Barry, John O’Malley, John Padberg, David
Fleming, John Donohue, Charles Shelton, Dan Harrington, Drew Christiansen,
Richard Leonard, assim como a Margaret Silf, Maureen Conroy, Ron Hansen,
Robert Ellsberg e Matt Weiner – e também à minha mãe, Eleanor Martin, e
minha irmã, Carolyn Buscarino. Agradeço também a Jim Siwicki, Joseph
Koterski, Peter Schineller, Antonio Delfau e Bill Campbell, que me ajudaram
com trechos específicos do livro.
Agradeço aos meus queridos irmãos da Companhia de Jesus, a quem este
livro é dedicado, por me acompanharem pelo caminho de Inácio. Por mais de
20 anos, eles me ofereceram amor, amizade, incentivo e orações, assim como
seu modo de compreender a espiritualidade inaciana e seus exemplos como
padres e irmãos fiéis. Meu agradecimento especial aos membros de meus grupos
de compartilhamento da fé ao longo dos anos e também a George Williams,
Steve Katsouros, Bob Reiser, Chris Derby, Dave Godleski, Ross Pribyl, Kevin
White, Matt Cassidy, Bob Gilroy, David McCallum, Tim Howe, Myles Sheehan,
Jack McCain, Bill Campbell, Tom Reese, Brian Frain, George Witt e Kevin
O’Brien.
Sou muito grato às pessoas tão generosas que me ajudaram a digitar estas
palavras quando minha síndrome do túnel do carpo me impedia de fazer o meu
trabalho: Veronica Szczygiel, Kaitlyn Rechenberg, Regina Nigro e Jim Keane.
Agradeço a Heidi Hill, que me salvou de vários equívocos factuais, a Donald
Cutler, meu agente literário, e a Roger Freet, da Harper Collins, por seu
entusiasmo contagiante e suas excelentes sugestões, que me ajudaram a não
perder o foco do projeto. Também sou muito grato a Carolyn Holland e Mary
Ann Jeffrey, cujo trabalho de edição melhorou consideravelmente o livro.
Por fim, sou grato a Santo Inácio de Loyola e, é claro, a Deus, com quem
todas as coisas são possíveis.
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O amor vence
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Com mais de 300 mil livros vendidos, Rob Bell apresenta uma nova e
transformadora visão sobre o que Jesus realmente queria nos ensinar quando
veio à Terra.
Rompendo com alguns conceitos clássicos do cristianismo – como céu e
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faz questionar tudo aquilo em que acreditamos e nos inspira a fazer perguntas
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respostas a essas perguntas.

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Você já temeu que Deus o condenasse por seus pecados ou se perguntou por
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inferno se não obedecermos aos seus mandamentos.
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o amor de Deus. Ele não vai julgá-lo nem penalizá-lo por seus erros. Deus é
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A partir de uma das mais belas passagens da Bíblia – I Coríntios 13 –,
Hufford descreve as características de Deus e nos faz sentir amparados e
protegidos de uma maneira que jamais experimentamos. Além disso, nos faz ver
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esquecemos do incrível exemplo de superação, coragem, liderança e
perseverança que ele nos deu.
Nesse livro, Steven K. Scott revela os tesouros escondidos na trajetória do
filho de Deus sobre a Terra, aproximando-o das experiências do dia a dia pelas
quais todos passamos.
Conhecer a história de Jesus à luz de seus valores como ser humano traz
benefícios extraordinários: além de nos tornar pessoas melhores, nos ensina a
construir relacionamentos mais profundos e a amar verdadeiramente aqueles à
nossa volta.
Com um texto envolvente e histórias inspiradoras, o autor nos convida a
repensar nossa conduta e a descobrir uma nova forma de alcançar nossos
sonhos.

Jesus, o maior psicólogo que já existiu


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da saúde emocional, do bem-estar e do crescimento pessoal.
Em uma linguagem simples e cativante, ele mostra que, seja qual for a nossa
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daquele que, como diz o autor, foi o maior psicólogo de todos os tempos.
Organizado em dezenas de lições concisas, esse livro é uma coleção de
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contratar e treinar as pessoas certas, criar uma visão do negócio, estabelecer
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