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EI Matemática Discreta II(17/18)

1 - Lógica de predicados.
A linguagem da Lógica de Predicados é mais rica que a da Lógica Proposicional, pois para
além de conter todos os objetos desta, contém também quantificadores, símbolos de funções e de
predicados. Sendo assim, a Lógica de Predicados é uma extensão da Lógica Proposicional, tendo
assim um maior poder de representação.

1.1 A linguagem da Lógica de Predicados.


Definição 1.1 (Alfabeto)
O Alfabeto da Lógica de Predicados é constituído por:
 Sinais de pontuação: ( , ) ,
 Símbolos de verdade: V (verdadeiro), F (falso).
 Um conjunto enumerável de símbolos para variáveis: x, y, z, w, x1 , y1, z1, w1, x2,…
 Um conjunto enumerável de símbolos para funções: f, g, h, f1 , g1, h1, f2..
 Um conjunto enumerável de símbolos para predicados: p, q, r, p1, q1, r1,…
 Símbolos proposicionais: P, Q, R, P1, Q1, R1,…
 Conectivos: , , ,, ,, 

Associado a cada símbolo para função ou predicado, tem –se um número k  IN0 que indica
a aridade ou número de argumentos da função ou predicado.
Quando k=0, tem-se uma função ou predicado com zero argumentos ou aridade nula. As
funções com aridade nula representam constantes (a, b, c, a1 , b1, c1, a2;…) os predicados com
aridade nula representam os símbolos proposicionais que ocorrem no alfabeto proposicional (P, Q,
R, P1, Q1, R1,…).

Elementos básicos da linguagem


Definição 1.2 (termo)
Os termos da linguagem da Lógica de Predicados são construídos segundo as regras:
 As variáveis são termos;
 Se t1, t2, …,tn são termos e f é um símbolo para função n-ária, então f(t1, t2, …,tn) é um
termo.

Exemplo 1.1 (termos):


a) x,9,y,10
b) +(5,8)
c) +(-(8,7),3)
d) *(1,2,3) não é termo, caso * seja considerada uma função binária.

Definição 1.3 (átomo)


Os átomos da linguagem de predicados são construídos segundo as regras:
 Os símbolos de verdade verdadeiro e falso são átomos.
 Se t1, t2, …,tn são termos e p é um símbolo para predicado n-ária, então p(t1, t2, …,tn) é
um átomo.

Exemplo 1.2 (átomos):


a) >(+(5,8),3)
b) (-(8,7),3)

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c) O símbolo proposicional P.

Definição 1.4 (fórmula)


As fórmulas da linguagem da Lógica de Predicados são construídas conforme as regras a seguir.
 Todo átomo é uma fórmula.
 Se H é uma fórmula, então (H) é uma fórmula.
 Se H e G são fórmulas, então (HG) é uma fórmula, em que ={,,,}.
 Se H é uma fórmula e x uma variável então ((x)H) e ((x)H) são fórmulas.

Definição 1.5 (expressão)


Uma expressão da Lógica de Predicados é um termo ou uma fórmula.

Definição 1.6 (subtermo, subfórmula, subexpressão)


 Se E=x, então a variável x é um subtermo de E.
 Se E= f(t1, t2, …,tn) então ti e f(t1, t2, …,tn) são subtermos de E.
 Se t1 é subtermo de t2 e t2 é subtermo de E, então t1 é subtermo de E.
 Se H é uma fórmula e E = (H) então H e (H) são subfórmulas de E
 Se H e G são fórmulas e E é uma das fórmulas (H  G), (H  G), (H  G), (H  G),
então H, G e E são subfórmulas de E.
 Se H é uma fórmula, x uma variável, Q um dos quantificadores  ou  e E=((Qx)H),
então H e ((Qx)H) são subfórmulas de E.
 Se H1 é subfórmula de H2 e H2 é subfórmula de E, então H1 é subfórmula de E.
 Todo o subtermo ou subfórmula é também uma subexpressão.

Definição 1.7 (literal)


Um literal na Lógica de Predicados é um átomo ou a negação de um átomo. Um átomo é um literal
positivo. A negação de um átomo é um literal negativo.

Definição 1.8 (forma normal)


Seja H uma fórmula de Lógica de Predicados.
 Uma fórmula H está na forma disjuntiva (fnd), se é uma disjunção de conjunção de literais.
 Uma fórmula H está na forma normal conjuntiva (fnc), se é uma conjunção de disjunção de
literais.

Definição 1.9 (ordem de precedência)


Na lógica de predicados, a seguinte ordem decrescente de precedência é estabelecida relativamente
aos conectivos:

 
 , 
 ,
 , 

Exemplo 1.3 (ordem de precedência): As fórmulas 𝐺 = (∀𝑥)(∃𝑦)𝑝(𝑥, 𝑦)(∃𝑧)¬𝑞(𝑧) ∧ 𝑟(𝑦) e


𝐻 = ((∀𝑥)((∃𝑦)𝑝(𝑥, 𝑦)) ((∃𝑧)(¬𝑞(𝑧)) ∧ 𝑟(𝑦))) são logicamente equivalentes.

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Definição 1.10 (correspondência entre quantificadores).


Sejam uma fórmula H e uma variável x. Os quantificadores existencial  e universal  relacionam-
se pelas correspondências:

 ((x)H) =  ((x)(H))
 ((x)H) =  ((x)(H))
Exemplo 1.4 (correspondência entre os quantificadores):
Considere a interpretação p(x) = “x voa”, n(x) =”x é nocturno” e o respectivo domínio: “conjunto
de todas as aves”.

((x)p(x)) : “Todas as aves voam” é logicamente equivalente a  ((x)(p(x))) : “Não existem


aves que não voam”.

((x)n(x)): “Algumas aves são nocturnas” ou “Existem aves nocturnas” é logicamente equivalente a
 (x)( n(x)): “Nem todas as aves não são nocturnas “.

Definição 1.11 (abrangência de um quantificador).


Seja E uma fórmula da Lógica de Predicados. Se (x)H é uma subfórmula de E, então a
abrangência de (x) em E é a subfórmula H. Se (x)H é uma subfórmula de E, então a abrangência
de (x) em E é a subfórmula H.

Exercício 1.1: Considere a fórmula E=(x)(y)((z)p(x,y,w,z)(y)q(z,y,x,z1)). Indique a


abrangência de cada um dos quantificadores existentes na fórmula E.

Resposta:
Quantificador Abrangência
(x) (y)((z)p(x,y,w,z)(y)q(z,y,x,z1))
(y) ((z)p(x,y,w,z)(y)q(z,y,x,z1))
(z) p(x,y,w,z)
(y) q(z,y,x,z1)

Definição 1.12 (ocorrência livre e ligada).


Sejam x uma variável e E uma fórmula. Uma ocorrência de x em E é ligada se x está na abrangência
de um quantificador (x) ou (x) em E. Uma ocorrência de x em E é livre se não for ligada.

Definição 1.13 (variável livre e ligada).


Sejam x uma variável e E uma fórmula que contém x. A variável x é ligada em E se existe pelo
menos uma ocorrência ligada de x em E. A variável x é livre em E, se existe pelo menos uma
ocorrência livre de x em E.

Exercício 1.2: Identifique as variáveis livres e ligadas da fórmula E.


Resposta: variáveis livres: w,z, z1; variáveis ligadas: x,y,z

Definição 1.14 (símbolo livre).


Dada uma fórmula E, os seus livres são as variáveis que ocorrem livres em E, os símbolos de
função e os símbolos de predicado.

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Exercício 1.3: Identifique os símbolos livres da fórmula E.


Resposta: símbolos livres: w,z, z1,p,q.

Definição 1.15 (fórmula fechada).


Uma fórmula diz-se fechada quando não possui variáveis livres.

Definição 1.16 (fecho de uma fórmula).


Seja H uma fórmula da Lógica de Predicados e x1 , x2 ,..., xn  o conjunto das variáveis livres em H.
 O fecho universal de H, indicado por * H , é dado pela fórmula x1 x2 ...xn H .
 O fecho existencial de H, indicado por * H , é dado pela fórmula x1 x2 ...xn H .

Exercício 1.4: Determine o fecho universal e o fecho existencial da fórmula E.


Resposta:  
* E =(w)( z)(z1)(x)(y)((z)p(x,y,w,z)(y)q(z,y,x,z1))
 E =(w)(z)(z1)(x)(y)((z)p(x,y,w,z)(y)q(z,y,x,z1))
*

1.2 A semântica da Lógica de Predicados.


Para interpretar-se uma fórmula H com quantificadores, deve-se ter em ter consideração:
 o domínio da interpretação;
 o valor da interpretação dos símbolos livres de H.

Definição 1.17 (interpretação de variáveis, funções e predicados)


Seja U um conjunto não-vazio. Uma interpretação I sobre o domínio U, na lógica de predicados, é
uma função tal que:
 O domínio da função I é um conjunto dos símbolos de função, de predicados e das
expressões da Lógica de Predicados.
 Para toda a variável x, se I[x] = xI, então xI  U.
 Para todo símbolo de função f, n-ário, se I[f]=fI, então fI é uma função n-ária em U, isto é,
fI: Un  U.
 Para todo símbolo de predicado p, n-ário, se I[p]=pI, então pI é um predicado n-ário em U,
isto é, pI: Un  {V,F}.
 No caso em que E é uma expressão, I[E] é definida por um conjunto de regras semânticas
consideradas mais adiante.

Definição 1.18 (regras semânticas para interpretação de fórmulas sem quantificadores no início).
Seja E uma expressão e I uma interpretação sobre o domínio U. A interpretação de E conforme I,
indicada por I[E], é determinada pelas regras:
 Se E= F, então I[E]=I[F]=F
 Se E= V, então I[E]=I[V]=V
 Se E=f(t1,…,tn) onde f(t1,…,tn) é um termo então I[E]=I[f(t1,…,tn)]= fI(t1I,…,tnI) onde I[f] =
fI e para todo termo ti, I[ti]=tIi.
 Se E=p(t1,…,tn) onde p(t1,…,tn) é um átomo então I[E]=I[p(t1,…,tn)]= pI(t1I,…,tnI) onde I[p]
= pI e para todo termo ti, I[ti]=tIi.
 Se E= Q onde H é uma fórmula, então
I[E] = I[Q]=V se I[Q]=F e I[E] = I[Q]=F se I[Q]=V.

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 Se E=Q  S onde Q e S são duas fórmulas, então
 I[E] = I[Q  S]=V se I[Q] = V e/ou I[S]=V e
 I[E] = I[Q  S]=F se I[Q] = I[S] =F.
 Se E= (Q  S), então
 I[E]=I[Q  S] = V se I[Q] = V e I[S]=V
 I[E]=I[Q  S] = F se I[Q] = F e/ou I[S]=F.

 Sejam Q e S duas fórmulas. Se E= (Q  S), então


 I[E]=I[Q  S] = V se I[Q] = F e/ou I[S]=V
 I[E]=I[Q  S] = F se I[Q] =V e I[S]=F
 Sejam Q e S duas fórmulas. Se E= (Q S), então
 I[E]=I[Q  S] = V se I[Q] = I[S]
 I[E]=I[Q  S] = F I[Q]  I[S]

Exercício 1.5: Considere as fórmulas H  px, y, a, b  r f x , g  y  ,


G  px, y, a, b  qx, y   r y, a  e a interpretação I, sobre o domínio dos números naturais IN 0 ,
tal que I x  3;I y  2;I a  0;I b  1;I  px,y,z,w  V  xI .yI  z I .wI ;
I qx , y   V  xI  yI ; I r x , y   V  xI  yI ; I  f x  xI  1 e I g x   xI  2

Resolução: p.183 do livro “Lógica para Ciência da Computação – Fundamentos de linguagem,


semântica e sistemas de dedução” de João Nunes de Souza, Ed. Campus

Definição 1.19 (Interpretação extendida)


Seja I uma interpretação sobre um domínio U. Considere x uma variável da Lógica de Predicados e
d um elemento de U. Uma extensão I conforme x e d é uma interpretação sobre U, denotada por
x  d I , tal que:
x  d I    d se   x e x  d I    I   se   x , onde  é uma variável qualquer.

Nota: A extensão mais à esquerda tem precedência sobre a extensão que ocorre mais à direita. Dada
uma interpretação I sobre um domínio U, as interpretações estendidas x  d y  c I e
y  c x  d I são equivalentes quando x  y . No caso, em que x  y , as interpretações são
equivalentes somente quando c  d .

Definição 1.20 (regras semânticas para interpretação de fórmulas com quantificadores).


Sejam H uma fórmula, x uma variável e I uma interpretação sobre o domínio U. Os valores
semânticos de I[(x)H] e I[(x)H] são determinadas pelas regras:

 I[(x)H]=V  d  U, x  d I H   V
 I[(x)H]=F  d  U, x  d I H   F
 I[(x)H]=V  d  U, x  d I H   V
 I[(x)H]=F  d  U, x  d I H   F

Exercício 1.6: Seja I uma interpretação sobre o domínio dos números naturais IN, tal que I[x]=3,
I[y]=4 e I[p]=<. Interprete as fórmulas seguintes: G=(x)p(x,y) e H=(x)(y)p(x,y).

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Resolução: p.189 e 190 do livro “Lógica para Ciência da Computação – Fundamentos de
linguagem, semântica e sistemas de dedução” de João Nunes de Souza, Ed. Campus

Exercício 1.7: Seja I uma interpretação sobre o domínio dos números racionais Q* (diferentes de
zero), tal que I[a]=1, I[b]=25, I[x]=13, I[y]=77, I[f]= : e I[p]= <. Interprete as fórmulas seguintes:
a. G1=(x)(y)p(x,y)p(b,f(a,b)) c. G2=(x)((y)p(x,y)p(x,y))
b. G3=(x)(y)p(x,y)p(x,y) d. G4= (x)(y)p(x,y)p(f(a,b),x)
Resolução: p.193 e 194 do livro “Lógica para Ciência da Computação – Fundamentos de
linguagem, semântica e sistemas de dedução” de João Nunes de Souza, Ed. Campus

1.3 Propriedades semânticas da Lógica de Predicados.

[P1] Uma fórmula P é uma tautologia ou é válida se e somente se existe para toda a interpretação I,
I[P]=V.
[P2] Uma fórmula P é factível ou é uma contingência se e somente se existe pelo menos uma
interpretação I, tal que I[P]=V.
[P3] Uma fórmula P é contraditória se e somente se para toda a interpretação I, I[P]=F.
[P4] Dadas duas fórmulas P e Q, P P é logicamente equivalente a Q sse para toda a interpretação I,
I[P]= I[Q].
[P5] Dadas duas fórmulas P e Q, P implica Q (P  Q) sse para toda a interpretação I, se I[P]=V
então I[Q] =V.

Exercício 1.8: Considere a fórmula H=((x)p(x,y))(x)(p(x,z)). Mostre que H é uma fórmula


factível, mas não é uma tautologia.

Resolução: p.202-204 do livro “Lógica para Ciência da Computação – Fundamentos de linguagem,


semântica e sistemas de dedução” de João Nunes de Souza, Ed. Campus

Lema 1 (igualdade e interpretação).


Sejam H e G duas fórmulas da Lógica de Predicados e I uma interpretação.

{I[H]=I[G]}{I[H]=V I[G]=V}

Corolário (igualdade e interpretação). Sejam H e G duas fórmulas da Lógica de Predicados e I uma


interpretação.

{I[H]=I[G]}{I[H]=F I[G]=F}

Exercício 1.9: Mostre que a fórmula G  x  px   x px  é uma tautologia.

Resolução: p.205 e 206 do livro “Lógica para Ciência da Computação – Fundamentos de


linguagem, semântica e sistemas de dedução” de João Nunes de Souza, Ed. Campus

Exercício 1.10: Verifique que as fórmulas H  x  px   rx  e G  x  px   x r x  são
logicamente equivalentes.

Resolução: p.211 e 212 do livro “Lógica para Ciência da Computação – Fundamentos de


linguagem, semântica e sistemas de dedução” de João Nunes de Souza, Ed. Campus
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Exercício 1.11: Mostre H= (x)p(x)  G=p(a).

Resolução: p.209 do livro “Lógica para Ciência da Computação – Fundamentos de linguagem,


semântica e sistemas de dedução” de João Nunes de Souza, Ed. Campus

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