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INSTITUTO FEDERAL DE CIÊNCIA, EDUCAÇÃO E TECNOLOGIA DE SÃO

PAULO

CAMPUS SÃO PAULO

CURSO SUPERIOR DE LICENCIATURA EM LETRAS

PEDRO DE OLIVEIRA RODRIGUES

RESENHA: Todo poder ao Povo!

SÃO PAULO

2017
Poder ao povo, mas pra que povo?

Sesc Pinheiros, Av. Theodoro Sampaio, cidade de São Paulo, estado de São Paulo,
Brasil. Eis onde se encontra a exposição “Todo poder ao povo!” que está em execução desde o
dia 09/03/2017 e irá permanecer até o dia 02/07/2017. É impressionante, é provocativa, é
antipática, mas, sobretudo e antes de tudo, é necessária.

“Todo poder ao povo! ”. Título emblemático, pode significar muitas coisas e a


exposição, em sua constituição, se preocupa mais em expandir estas possibilidades do que
escolher uma pra si. De caráter completamente expositivo, gera a dúvida se é informativa dos
fatos ou persuasiva das ideias, fazendo questão de apresentar vozes potentes como as de Stokely
Carmichael e Malcolm X, teorizando e demonstrando os problemas de um povo que busca sair
da narrativa do outro e construir a sua própria, pelos meios que se apresentam eficientes.

O foco é o movimento racial ativista “Panteras Negras”, executando um resgate


histórico, apresentando comícios, reuniões do movimento, entrevistas, documentários,
documentos e músicas do movimento e sobre o movimento, evidenciando as pautas, ideologias,
pensamentos e organização deste movimento. Entretanto não é, de muitas formas, uma
exposição simpática àqueles que nada sabem, tratando exclusivamente dos dados e fatos
relacionados ao movimento, não se preocupa em dar qualquer background histórico
estadunidense nem contextualização para o surgimento do movimento, suas motivações e
causas. Em outras palavras, um aluno do ensino médio do ensino público brasileiro se sentiria
perdido lá.

A exposição é uma experiência magnânima. Você já se sentiu em meio a um daqueles


protestos ou reuniões de organizações ativistas? Se não, lá vai descobrir o que é esse sentimento,
ou quase. Sua iluminação média, com discursos ecoando o tempo inteiro pelo ambiente;
cartazes, jornais, documentários e vinis por todo o lugar com suas cores, sons e conteúdos
constroem um ambiente absurdamente cultural e informacional. É plural em suas formas de
comunicação.

Para entender a experiência que é esta exposição é necessário resgatar, novamente, a sua
localização. Pinheiros, Av. Faria Lima, bairro nobre de São Paulo. O SESC é enorme, escadas
rolantes, elevadores, um restaurante, espaço pro descanso e, sobretudo, pessoas brancas. Sim,
a etnia dos frequentadores do espaço é digna de nota, já que se estende para a exposição. É rara
a presença de pessoas pretas na exposição, e quando acontece, é austera, pequenos grupos, de
no máximo 3-4 pessoas, quando aparecem, em rivalidade aos frequentes casais e grupos de
alunos brancos que lá aparecem. A exposição é de temática racial, objetiva e direta ao ponto. É
criado um sentimento de incoerência ao se observar isso. Numa exposição que fala de pretos,
de racismo enquanto opressão, de uma fração da história mundial preta, por que tantos brancos
e por que tão poucos pretos? Ao sair do SESC e ir andar pela cidade, a resposta é cruel: estão
ocupados tentando sobreviver em trabalhos de naturezas várias; morando na rua em miséria;
estão distantes do centro, estão à margem. Numa cidade como São Paulo, num país como o
Brasil, isto é evidência da necessidade deste tipo de exposição.

Fato relevante é sua organização: comece por onde quiser e você entenderá tudo. É
simplesmente brilhante o pensamento por trás da sistematização dela, todos os pontos, dentro
do que nela está contido, são pontos de partida e pontos de conclusão para compreender as
ideias e mensagens ali passadas.

A conclusão é que é uma exposição que surge em boa hora, mas num contexto social
equivocado, sem responder a quem se destina e ao que busca levar o espectador realmente. Seu
maior êxito é explicar de maneira didática e realista um movimento tão complexo, forte e
importante quanto foi o movimento dos Panteras Negras. Transcreve-se, aqui, os 10 pontos do
Programa dos Panteras Negras, para fins elucidativos da conclusão presente:

1. Queremos liberdade, queremos o poder para determinar o destino da nossa comunidade


negra.
2. Queremos pleno emprego para nosso povo.
3. Queremos que acabe a perseguição de nossa comunidade negra por parte do homem
branco.
4. Queremos casas decentes, adaptadas para o ser humano.
5. Queremos para nosso povo uma educação que mostre a verdadeira natureza desta
sociedade americana decadente.
6. Queremos uma educação que ensine nossa verdadeira história e nosso papel na
sociedade atual.
7. Queremos que todos os homens negros sejam liberados do serviço militar.
8. Queremos o fim imediato da brutalidade policial e do assassinato da população negra.
9. Queremos a liberdade para todos os homens negros detidos nas prisões e nos cárceres
federais, estatais, de condados e municipais.
10. Queremos terra, pão, habitação, vestimenta e paz.
INFORMAÇÕES TÉCNICAS

Organização e curadoria geral: La Silueta; Curadoria Educativa: Alexandre Bispo; Produção


Arte 3: Ana Helena Curti; Produção Executiva: Julia Brandão; Produção: Rodrigo Primo e
João Luiz Calmon; Projeto Expográfico: Marta Bórgea e Anna Helena Vilella, Metrópole
Arquitetos; Colaboradora: Liz Arakaki; Projeto de Iluminação: Luz Projetos; Projeto Gráfico
e Comunicação Visual: Elaine Ramos e La Silueta; Produção Gráfica: Aline Valli; Assistente
de Design: Lívia Takemura; Texto Panteras Negras e o Brasil: Raquel Barreto; Museologia:
Denyse L.A.P da Motta; Coordenação de Montagem: Lee Dawkins; Tradução: Ana Virgínia
Massaguer, Eladia Martin e Laura Valente Schichvarger; Revisão: Fabiana Pino; Edição
Sandra Brazil; Assessoria de Imprensa: Canal Aberto e Marcia Marques; Despacho
Aduaneiro: Immensum Transportes Logística e Eventos Culturais Ltda; Transporte:
Airseatrans S.A (Los Angeles) e Art World (Brasil); Seguro: Pró Affinitté Consultoria e
Corretagem de Seguros.
Exposição originalmente concebida por La Silueta para realização do Banco de La Republica
(Bogotá/Colômbia) de 26 de novembro de 2015 a 22 de fevereiro de 2016, com produção da
empresa 3D Family.