Você está na página 1de 234

)'IIf

Max Weber
FUNDAÇÃO UNIVERSIDADE DE BRASíLIA

Reitor Lauro Morhy

Vice-Reitor Timothy Martin Mulholland

Diretor
EDITORA UNIVER.."ilDADE DE BR4.síUA
Alexandre Lima
ECONOMIA
CONSELHO EDITOR[AL
E SOCIEDADE
CONSELHEIROS
Alexandre Lima
Clarimar Almeida Valle Fundamentos da
Dione Oliveita Moura
Henryk Siewierski sociologia compreensiva
Jader Soares Marinho Filho
Ricardo Silveira Bemardes
Suzete VentutelH VOLUME 1

Economia e Sociedade:

1111111 1II11111/! 11111 11I11 ""1 11 111 1I1I1 1111 1111


09089/07

Iõmprensa@ficial IMPRENSA OFICIAL IlO ESTADO DE SÃO PAULO


Tradução de
Regis Barbosa e Karen E lsabe Barbosa
(a partir da quinta edição, revista, anotada
Diretor Presidente Hubert Alquéres
c organizada por Joharwes Wincklelmann)
Diretor Vice-Presidente Luiz Carlos Frigerio
Direlor industrial Teiji Tomioka
Flávio Capello Revisão técnica de
Diretor Financeiro e Administrativo
Gabriel Cohn
Núcleo de Prajetos !nstiluciunais Emerson Bento Pereira
Projetos Editoriais Vera Lucia Wey

rn
; EDITORA

lãmprensaoficial
UnB

São Paulo, 2004


Copyright © 2003 "te. J. C. B. Mohr (paul Siiebeck) Tübingen 1972
Em memória de minha màe,
Titulo original: Wirtschaft und Gesellschaft: Grundriss der verslehenden Soziologie Helena Weber (naaida FalJensrein).
1844 -1919
Impresso no Brasil

DIREITOS :EXCLUSIVOS PARA ESTA EDiÇÃO EM LíNGUA PORnJGUESA:

EDITORA UNIVERSlDADE DE BRASíLIA IMPRENSA OFICIAL DO ESTADO DE SÃO PAULO


SCS - Q. 02 - Bloco C'· n" 78 - Ed. üK ~ 2" andar Rua da Mooea, 1921 ~ Mooca
70300-.500 I3rasília-DF 03103-902 - São Paulo-SP
Tel.: (0:x.x6I) 226-6874 Tel.: (O:x.xll) 6099-9800
Fax: (0:x.x6I) 225-5611 Fax: (O"" lI) 6099·9674
edilora@unh.br www.imprensaoficial.com.br
livros@imprensaoficial.ccm.br
SAC 0800-123 401

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá .'ier armazenada ou reproduzida
por qualquer meéo sem a autoriz('lção por escrito da Editora.
r '
PREPARAÇÃO E EDrJORAÇÃO DE ORIGINAIS
MAlUA CAROLINA ARAÚJO F. MnS{ffi MORISSAWA

REVISÃO OE PROVAS U
MAURO CAIXETA O" Dws E TeR>:sA CRISTINA BkANI)ÂY-K~FnPt:B;;:''l-/,--tr~~~::'':'':+~'''':''~~~f
I J
CAPA
LUlZ EnuARDo RF~f<:~DE DE BRITO

FOTOliTO, IMPRESSÃO E ACABAMENTO


908(.
Iimprensaoficial

Editora Uníversidade de Brasília Imprensa Oficial do Estado São Paulo


ISBN 85-230-0743-1 Obra Completa ISBN 85-7060-253-7 Obra Completa
ISBN 85-230-0314-2 Volume I ISBN 85-7060-217-0 Volume I
ISBN 85-230-0390·g Volume 2 ISBN 85-7060-252~9 Volume 2

Dados intemacionais de catalogação na publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Weber, Max, 1864-1920


Economia e sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva / Max Weber; tradução
de Regis Barbosa e Karen Elsabc Barbosa; Revisão técnica de Gabriel Cohn - Brasilia, DF ,
Editora Universidade de Brasilia : São Paulo, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 1999:
464 p

Traúução de: Wirtschaft und Gcsellschafl: Grundriss der verstchendcn Soziologie

L Economia. 2. Socledade. 3. Assuntos. I. Título

91-1205 CDD-330
-301
Índice para catálogo sistemático;
I. Economia 330
2. Suciedade: Sociologia 301

Foi feito o depósito legal na Bihliotcca NlLcional (Lei nO 1.825, de 20/12/1907)


sUMÁRIO

Volume 1

Alguns problemas conceituais e de tradução em Economia e sociedade. (Gabriel


Cohn)... xiii
Prefácio à qUinta edição . xvii
Prefácio à quarta edição.. xxxi
Pl'efácio à primeira edição . .. .... xxxix
Prefácio à segunda edição . xli

Primeira Parte

Teoria das Categorias Sociológicas

capítulo 1.~ªceit~s_sodológlcosf~l1~en~ . 3-35


§ I. Conceito da Sociologia e do "sentido" da ação sociaL. 3
I. Fundamentos metodológicos. 4
11. Conceito de ação social. ... 13
§ 2 Elementos determinantes da ação social. 15
§ 3. A relação social.. 16 1.
§ 4. Tipos de ações sociais: uso, costume..... 17 1I
§ 5. Conceito de ordem legítima 19
§ 6. Tipos de ordem legítima: convenção e direito.. 20
§ 7. Fundamentos da vigência da ordem legitima: tradição, crença, estatuto . 22
§ 8. Conceito de luta. .. . 23 II
§ 9. Relação comunitária e relação associativa . 25
§ 10 Relações abertas e relações fechadas. .. . 27
§ 11. Imputabilidade das ações. Relações de representação. 29 11
li
§ 12. Conceitos e tipos de associação. 30
§ 13, Ordens de uma associação. .
§ 14 Ordem administrativa e ordem reguladora.... .....
.. 31
32
I
§ 1.5;. Empresa e associação de empresa, união, instituição 32 11;
§ '1<;;) Poder, dominação . 331
§ 17. Associação política, associação hierocrática.... 34 'I
I
i
I

I
II
I
:l

viii MAXWEBER ECONOMIA E SOCIEDADE

Capítulo u. Categorias sociológicas fundamen1als da gestão econômica. 37-138 11 § 2.' Os três tipos puros de dOminação legítima: dominação racional, dominação
- tradicional, dominação earism:itica.. .. .. ... .. .. .. ... .. .. .. .. .. .. . .. .. .. ..... .. .. .. .. 141
§ J. COnceiw de gestão econômica.- .. . ..... ...... .. 37
§ 2. Conceito de utilidade.... _ 40 2. A dorrrinação legal com quadro administrativo burocrático
§ 3. Orientação econômica da açao.................. 41
§ 4 Medidas tipicas da gestão econômica nacional 42 §§ 3. 4. Dominação legal: tipo puro mediante quadro administrativo burocrático. 142
§ 5. Tipos de associações econômicas. .. ..... ..... ... 44 § 5. A administração burocrático-monocrática...... 145
§ 6. Meiosdetcoca, meios de pagamento, dinheiro 45 '·~A dominac;ã.o tradicional
§ 7. Conseqüências primárias do uso tipico de dinheiro. Crédito...... 49
§ 8. Situação de mercado, mercabilidade, liberdade de mercado, regulação do §§ 6. 7. Dominação tradicionaL................... 14B
mercado......... .. . 50 §§ 'la. 8. Geromocracia, patriarcalismo, Jlatrimonialismo............................. 151
§ 9 Racionalidade formal e racionalidade material ela economia.... 52 §.Voominação· patrÍOlonial-estamental... :................... 155
§ 10. Racior:alídade do cálculo em dinheiro .. 53 § 9:li) Dominação tradicional e economia...... . 156
§ 11. Conceitos e tipos de aquisição.. 56
§ 1:<:. Cálculo em espécie e economia natural . 62 4. Dominação carismática
§ 13. Condições da racionalidade formal do cálculo em dinheiro..... 68 § 10. Dominação carismática, suas características e relações comunitárias. .. 158
"§ 14. Economia de troca e economia planificada.... 68
§ 15. Tipos de distribuição econômica de serviços (generalidades) .. 72 5. A rotinização do carisma
§§ 16. 17. Formas de articulação técnica de serviços . 75 §§ 11. 12. 12a. A rorinização do carisma e seus efeitos.. 161
§ 18. Formas sociais de distribuição de serviços. T7
§ 19 Apropriação da utilização de serviços.. 80 i:?) Feudalismo
§ 20 Apropriação dos meios de obtenção .. 84 § 12b. Feudalismo, feudalismo de feudo............. 167
§ 2 L Apropriação dos serviços de coordenação. 88 § 12c. Feudalismo de prebenda e outros tipos de feudalismo. ........ .... ... .... 171
" §§ 22 23 Expropriação dos trabalhadores da posse dos meios de obtenção.. 89 § 13. COmbinaçãodosdiversostiposdedominação.................................... 173
§ 24. Profissão e formas de divisão das profissões 91
§ 24a. Formas principais da apropriação e relações no mercado . 94 7. A reinterpretação anriaUlorilária do carisma
§ 25. Condiçoes de serviços rentáveis: adaptação, habilidade, inclinação ao traba-
§ 14. A reinterpretação antiautoritária do carisma . 175
lho etc.. 99
§ 26. Relações comunitárias estranhas à rentabilidade dos serviços: formas de co- 8. Colegialidade e divisão de poderes
munismo....... 101
§ 27. Bens de capital, cálculo de capitaL. .... 102 § 15. COlegialidade e divisão de poderes .. 17B
§§ 28. 29. 29a. Conceito e formas de comércio 103 §. 16. Divisão especificada de poderes... . 186
§ 30. Condições do grau máximo de racionalidade formal do cálculodecapilal. .. 107 § 17. Relações da divisão de poderes políticos com a economia . 187
§ 31 Tendências típicas da orientação "capitalista" das atividades aquisitivas.... 109 9. Partidos
§ 32. A regulamentação monetária no Estado moderno e os diversos tipos de di-
nheiro: dinheiro corrente . 111 § 18. Conceito e natureza dos partidos.. ........ .. 188
§ 33. Dinheiro limitado..... . " 117
10. Administração de associações alheia à dominação
§ 34 Dinheiro em forma de notas. . . . 119 e administração de representantes
§ 35. Validade formal e validade material do dinheiro 120
§ 36 Meios e fins da politica monetária.. 121 § 19. AdminiStração de associações alheia à dominação e administração de repre-
Excurso sobre a teoria estatal do dinheiro.... 125 sentantes. ..... .. .. .. .. ... .. .. .. .. . .. .. . ... .. . ... .. 190
§ 37. Importância extramonetária das associações poJjticas para a economia ... 130 § 20. Administração de membros honorários......... 191
§ 38 O financiamento de associações poJj(Ícas. . ..... . .. .. ..... . . 130
§ 39 Repercussão sobre as economias privadas. . . .. ... .. ..... .. " .. 134 11. Representação
§ 40. Influência da economia sobre a formação de associações 135 § 21. Natureza e formas da representação .. 193
§ 41 Os motivos determinantes da gestão econômica 136 § 22. Representação por representantes de interesse 19<5

Capítulo 1II. Os tipos de dominação.. 139-198 Capí~® Estamentos e classes '" .. 199-206
1. A vigência da legitimidade 1. Conceitos
" § '1. Definição, condiçãoe liposdedominação. Legitimidade . 139 § 1. \ Situação de classe, classe, classe proprietária . 199
~.'t. ·,··,
......
~ .. ,.\
.'
"

MAXWE8ER ECONOMIA E SOCIEDADE xi


x
§ ~ dasse aquisitiva, classe social. , . 201 3. Relação com a comunidade política 'Tribo" e "povo.... 274
§ . Situação e5tamenlal, estamento , . 202 <I Nacionalidade e prestigio cultural. 275
~:
.'-'- Apêndice
Capítulo V. Sociologia da reUgião (tipos de relações comunitárias reUglo-
sas)....,.... , 279--418
§ 1 o nascimento das religiões.. 279
§ 2. O mago e [) sacerdote.. 294
Segunda Pane § 3 Conceilo de deus Ética religiosa Tabu.. 295
§ 4 O "profeta" 303
§ 5 Congregaçao.. .. 310
A Economia e as Ordens e Poderes Sociais § 6. Saber sagrado. Sermão. Cura de almas. 314
§ 7 Estamentos, classes e religião. 320
§ 8 O problema da tcodícéia 350
Capítulo LA economia e as ordens sociais. 20')-227 § 9 Salvação e renascimento 355
§ 10 Os camin:lOs de salvação e sua influência sobre a condução da vida.. 357
§ 1. Ordem jurídica e ordem econômica . 209 § 1 L Ética religiosa e "mundo.... 385
§ (2) Ordem jurídica, convenção e costume . 215 § 12. As religiões mundiais e o "mundo". 404
§ 3. Importància e limites da coação jurídica para a economia. 223
Capíndo VI. O mercado. 419 422
Capítulo D. Relações econômJcas das comunidades (economia e socieda-
de) em geraL.. .. '" .. 229-242
§ 1. Natureza da economia. Comunidade econômica, comunidade de gestão
econômica e comunidade de regulação econômica.. 229
§ ReJaçâes econômicas "abertas" e "fechadas"......
2. 231
§ 3 Formas de comunidades e interesses econômicos . 233
§ 4. Tipos de obtenção de serviços econômicos por comunidades "de gestão
economica" e as formas de economia ,. . . 237
§ 5 Efeitos do provimento das necessidades e da distribuição dos encargos nas
comunidades. Ordens de regulação econômica .. 239

Capítulo DI. Tipos de relação comunl1ária e de relação associativa em seus


aspectos econõmlcos....... 243-265
§ I. A comunidade doméstica........... 243
§ 2. Comunidade de vizinhança, comunidade econômica e comuna.. 246
§ 3. As relações sexuais na comunidade doméstica. ...... 249
§ 4 O clã e a regulação das relações sexuais.. Comunidade doméstica, de clã,
de vizinhança e polhica ,. 250
5. Relações com a organização militar e econômica. O "direito de bens no
matrimônio" e o direito hereditário.. .. 254
§ 6 Adissolução da comunidade doméstica: modificações de sua posição f uncio-
nal e crescente "calculabilídade". Nascimento das modernas sociedades
mercantis... 258
§ 7 O desenvolvimento para o oikos.. .. " 262

Capítulo IV. Relações comunitárias étnIcas . 267-277 j

I
li L A pertinência ã "raça". 267
li 2 Nascimento da idéia de coletividade étnica. Comunidade lingüística e de
cult~....... . 268
I'

J
Alguns problemas conceituais
e de tradução em Economia e sociedade

No final dos anos 30 Raymond Aron escrevia, em livro sobre a Sociologia alemã
contemporânea, que não era o caso de introduzir Max Weber na França, já que "todos
os sociólogos conhecem Wircschafe und Gesellschafc, a construção mais monumental
que se lenha tentado nas ciências sociais". Fina ironia, ainda mais quando dita por
quem fora buscar na Alemanha o contato com aucores que a tradição durkheimiana
procurava manter à distância. Passado meio século, ainda seria temerário afirmar que
lodos os sociólogos, não só da França mas do mundo, conheçam Economia e sociedade
para além das referências e das passagens obrigatórias. Mas é este o pontO; é consenso
universal que ninguém que tenha alguma coisa a ver com, no mínimo, a Sociología,
a Ciência Política e a HistÓria possa passar ao largo daquele que se firma definitivamente
como o grande clássico do pensamento político-social neste século. Claro que não cabe
exigir de cada qual o estudo desse monumento na íntegra, nem mesmo quando se
trate de um weberiano (afinal, a proporção de weberianos que atravessaram Economia
e sociedade de ponta a ponta é da mesma ordem da dos marxistas que estudaram
os três volumes de O capital; mas não é preciso ser uma coisa Ou outra para saber
que são ambas obras indispensáveis, para se ter sempre à mão}
Vale a pena, portanto, neste momento em que Economia e sociedade começa
a ser edicado na íntegra no Brasil, apresentar ao leitor deste primeiro volume alguns
dos principais problemas de leitura - e, conseqüentemente, de tradução - que nele
se encontram. com as razões para as soluções adotadas.
A base para a presente tradução é a quinta edição revista da versão-padrão da
obra, organizada a partir da segunda edição por Johannes Winckelmann, a quem se
deve a minuciosa exposição da sua história edilOrial reproduzida neste volume. Justifi-
ca-se o esforço de Winckelmann, especialmente quando consideramos que Economia
e socied3dc é em grande medida uma obra póstuma, organizada a partir da gigantesca
massa de manuscritos legados por Weber a sua viúva, Marianne,responsável pela primei-
ra edição, e mais tarde confiados aos cuidados editoriais de Winckelmann. Não é este
o lugar para examinar as controvérsias que se vêm avolumando sobre a organização
da obra e até mesmo sobre a sua unidade interna. Uma única referência já poderá
indicar quão vasta é a matéria para debate, no caso É que seu próprio tílU[O está
sujeito a dúvidas bastante plausíveis, que remetem à primeira das mencionadas dificul-
dades de tradução. Ocorre que o termo' 'sociedade'· (Gesellschafr) não exprime conceito
central na terminologia weberiana, na qual é substituído nos momemos decisivos por
uma expressão que designa mais propriamente as relações imerindividuais constitutivas
da sociedade do que esta como rede de relações já dada. Esta expressão - Vergesells-
chafrung - poderia ser traduzida diretamente por "socialização" Mas esta solução ,L
foi abandonada, não somente porque poderia induzir a confusões em algumas passagens ·l
I
I
MAXWEBER ECONOMIA E SOCIEDADE xv
xiv

como também porque convinha realçar o aspecto de relação e, ponanto, de ação social têm dos motivos, meios e fins das açãessociais em que se envolvem. Oaí a dimensãosubjetíva
envolvido na análise weberiana. Optou-se, assim, pela forma "relação associativa", da ação. E motivos, meios e fins têm, para o agente, caráter significativo. Oaí a dimensão
aré porque, na concepção weberiana, a Vergesellschaftung é explidramente uma "rela- de sentido da ação.
ção social", como se pode ver nos parágrafos 3 e 9 do primeiro capítulo. Em confor- Um segundo problema de grande alcance aprese'.lta.se no tratamento das categorias
midade com isso o termo "relação comunitária" traduz Vergemeinschaflung. fundamentais da ação econômica, no segundo capírulo. E que, ao examinar seu tema central
Outra conseqüência da narureza póstuma da obra é a carênda de unidade termino- neste ponto - as formas de racionalidade da ação econômica - Weber collStrói um par
lógica, resultado da circunstâncía de que nela se associam escritos de períodos diferentes conceítual de decisiva importância na sua argumentação. Trata-se do contraste entre Haus-
dl. produção weberiana, numa seqüêncía definida pela ordem dos temas e não pela ~ft, ~e aq~j ~ ~;aduz por .'gestão patrimonia~", e Erwerbswiruchaft, que se traduz por
ordem cronológica da redação. Ocorre que as questões conceituais foram trabalhadas gestao aqulSltJva . Esses conceitos e sua traduçao merecem um comentário
por Weber em duas oportunidades. A primeira em 1913, num texto da maior impor- O termoHaushafttem equivalente díretoem inglês (household)mas não em ponuguês
tância, "sobre algumas categorias da Sociologia Compreensiva", no qual é desenvolvido Na pioneira edição da Fondo de Cultura Econômica (a primeira tradução integral de Econo-
pela primeira vez o inovador quadro conceitual destinado a servir às análises daquilo mia e s<Xiedade no mundo, em 1944) coordenada por José Medirul Echevarria adota-se um
°
que mais t'lrde seria publicado sob título "Economia e sociedade", e a segunda naquilo termo perfeitamente aceitável, em principio: hadencid, quedaria" fazenda". Esta foi também
a opção dos tradutores brasileiros Regis Barbosa e Karen Elsabe Barbo.la, no excelente texto-
que seria <l capítulo primeiro desta obra, sobre os "conceitos sociológicos fundamen-
tais", redigido em 1918. Procurou-se nesta tradução uniformizar a terminologia confor- base que elaboraram para esta edição. Não me parece, contudo, uma solução satisfatória,
me a versão de 1918 (primeiro capítulo deste volume). Para isto foi efetuada uma "tradu- mesmo admitindo que dificilmente, no caso, haverá uma que satisfaça plenamente. Ainda
ção" dentro da tradução: da terminologia de 1913 para a de 1918, sempre que se tratava que abrindo mão cla elegância e mesmo da busca de uma equivalência inequívoca, foi adota-
de evitar as confusões que poderiam ser causadas, por exemplo, pela círcunstâncía de do um critério que aliás está presente ao longo de roda esta tradução: na ausência de equiva-
que aquilo que em 1918 se denomina "ação social" era "ação comunitária" em 1913. lentes diretos, usem-se termos que explicitem a referência central na construção do conceito
Finalmente, dois esclarecimentos de maior alcance, de natureza conceitual e quan- por Weber Central, no caso, é a referência a urna forma degescão. Essa referência, aliás,
to à tradução. O primeiro diz respeito ao conceito de sentido, que desempenha papel é intrínseca ao próprio termo usado: tanto em Haushair quanto em household os sufixos
central na obra weheriana. O problema, aqui, diz respeito à êfÚase de Weber no caráter hail ou hold remetem à noção, muito significativa no caso, de "manutenção". Adorou-se
subjeUvo do sentido da ação sociaL A preocupação de Weber em não deixar dúvidas assim a fooma "gestão patrimonial". E por que "patrimonial'" Uma tradução literal daria
quanto a isso, de que na sua análise a ação social é examinada pelo prisma do sentido "doméstica", já que na origem do termo alemão, e também inglês, está a noção de domus,
que ela assume par... o agente, portanto "subjetivamente" nesta acepção rigorosamente ou de oikos (o que nos remeteria à origem do cermo "ecollomia") Por trás de tudo isso
não-psicológica do termo, é de tal ordem que ele próprio reconhece, já no texto de está a idéia de patrimônio; daí poder-se sustentar a tradução "fazenda". E é disto mesmo
1913, o caráter "pedante" das suas insistentes explidtaçóes terminológicas, que se justifi- que se trata: da gestão de um patrimônio num período dado, tendo em vista o suprimento
cava pelo que esses conceitos tinham de polemicamente inovador. Dada a centralidade de necessidl.des, com base num orçamento. Mais do que o instrumento bá5ico de gestão,
dessa questâo da natureza subjetiva do sentido associado à ação, Weber procura cercá-la o orçamento define o seu critério, no caso: trata-se de operar no interior de limites fixos,
por todos os lados A expressão mais completa que ele usa para isso tem sua tradução dados de antemão. Em contraste com isso, a gestâo aquisitiva, como o nome indica, opera
rnaisadequada (ainda que não inteiramente satisfatória) por "sentido subjetivamente conforme um critério expansivo, voltado para o aumento; não simplesmente de incremento
visado". Claro que é suficiente falar el,l1 "sentido subjetiVO" ou em "sentido visado" patrimonial mas de expansão da capacidade de ação econômica, de "poder de disposição
como se faz aqui no mais das vezes. Mesmo admitindo que o termo "subjetivo" te~ sobre bens" para usar a terminologia weberiana. Por um lado, suprimento de necessidades
indesejáveis ressonâncías psicológicas, o problema maior reside no termo "visado". relativas a um patrimônio dado no irúcio do período; pelo outro, gestão orientada prospecti-
Sua ambigüidade, no caso, consiste em que, embora remeta ao agente (e, portanto, vamentepara a busca de vantagens no final do periodo Os problemas que esse par conceitual
à dimensão' 'subjetiva" nesta acepção estrita1 "visado" pode ser entendido como uma permite formular sâo dos mais interessantes, como o texto demonstra.
referência subjetiva a algo já dado, que seria o próprio "sentido". E aí reside o pesadelo De modo geral, a equipe envolvida na elaboração desta versâo final do texto buscou
terminol?gico weberiano, que ele buscava exorcizar mediante a acumulação de qualifi· conciliar três exigências difíceis de serem satisfeitas simultaneamente, no caso de uma obra
cativos. E que, entendida a coisa deste modo, tecíamos de volta exatamente aquilo oom as enormes dificuldades da de Weber: rigor conceitual, fidelidade ao e,"lilo do autor
que Weber queria evitar, a saber, um sentido "objetivo", já dado independentemente e - o mais difídl - legibilidade corno requisito mínimo, já que a fluência e a elegância
do curso de ação do agente. Essencial em Weber, contudo, é que o sentido da açáo poderiam ser aumentadas, sem dúvidl., mas às custas do cumprimento das outras duas exi-
fia0 é algo já dado que de algum modo seja "vísado" pelo agente como "meta" da
gências, de que não se poderia abrir mão.
sua ação mas é a representação que ele, como agente, tem do curso da sua ação e Finalmente, mnvém esclarecer que as passagens entre colchetes seguidas da abrevia-
que comanda a sua execução. Se isso não fosse ainda mais pedante do que o próprio tura N. T, que ocorrem ao longo do texto, não são do original mas foram acrescentadas
Weber, caberia falar de um "sentido subjetivamente representado", para deixar claro na versão final desta tradução como apoio à leitura, sem qUllquer pretensão ao rigor cien-
que o que conta na ação e a torna efetiva não é o seu sentido sem mais mas o modo tífim.
como o agente o represeIlt3 para si ao conduzi-la. Dessa forma seria possível evitar a impres-
são de que o sentido já estivesse de alguma forma "pronto" antes de se encetar a ação e São Paulo, julho de 1991
fosse portanto uma referência objetiva já dada. No esquema analítiCO weberiano wdo passa
pelas concepções ou representações que os agentes (sempre individuais, em última instância) GAJlRlFI COHN

~ -....IÍlIII ~_~
Prefácio à quinta edição

No prefácio à nova edição de Wktschaft und Gesellschafr [Economia c Sociedade),


quarta edição, 1956, foram relacionados vários aspeaos reveladores da estrutura ine-
(ente da obra, com referência a um artigo de seu organizador que examina os respectivos
pormenores'. Essa indicação sobre as exposições mais específicas ficou restrita, no
mais das vezes, a notas de rodapé, e o conteúdo permaneceu sem ser lido. Como
não ficaram suficientementt' nítidas, nas exposições anteriores, a lógica interna da obra
e a necessidade premente de reestruturação da matéria efetuada na nova edição, reto-
ma-se a questão neste prefácio à nova edição revisada (quinta edição} Pretende-se,
nesta versão definitiva, demonstrar de novo, de modo conciso mas consistente, a estru-
tura irrecusável da dispo.sição sistemática (mais exatamente tipológica) da obra. Ao lado
disto mostrar-se-á que também as partes finais inacabadas, tanto da primeira quanto
da segunda parte de Economia e sociedade são inequivocamente reconstruiveis a partir
da concepção estrutural, da idéia compositora unitária da obra.
Além das considerações de natureza mais "técnica", o novo prefácio pretende, i:'
portanto 1), explicitar sumariamente a idéia compositora imanente a ser extraída do l
curso das idéias, relativa à ordem reconstruída da matéria tratada por Max Weber,
assim como 2) expor, pelo menos em esboço, o efeito dos princípios fundamentais
de sua Sociologia, isto é, o significado metódico do "sentido subjetivo" e o conteúdo
sistemático da teoria por ele desenvolvida sobre a ação social e 3)sobre o escalonamento
desta rumo a formações sociais cada vez mais abrangentes.
A estruturação da matéria na nova edição, elaborada pelo organizador e apoiada
estritamente na redação do texto, foi ocasionalmente contestada na Alemanha, servindo,
porém, de base para todas as traduções mais recemes. Servem de exemplo os casos
da segunda edição espanhola (1%4\ da primeira e segunda edição italiana (1961, 1%8),
da edição none-americana em três volumes (1968) e da edição francesa cujo primeiro
volume foi publicado em 1971. Entretanto, a tradução norte-americana apresenta subdi-
visões adicionais dos capítulos e as duas edições citadas por último não incorporaram
a parte final com o título "Sociologia do Estado", compilada pelo organizador alemão
a partir de diversos trabalhos escritos na última fase da vida de Max Weber. No emre-
tempo, novas análises do texto e estudos aprofundados da bibliografia em que se baseia
a obra não somente revelaram grande número de erros a serem corrigidos, como tam-
bém levaram à conclusão de que a curta exposição sobre "Os três tipos puros da domi-
nação legítima", incluída na reedição de 1956, não cabe no contexto do manuscrilO,
mas sim no âmbito das reflexões do artigo sobre algumas categorias da Sociologia
:':ompreensiva, de 1913, tendo por isso de ser eliminada da nova ediçã o2

Winckelmann, Johannes. Max Weber opus postllumum ZIschr f d ges. S,a.l:5Wis5. vaI tOS, 1949, p.
l68- 387; d.
no!a 5 no prefácio à 4~ edição,
, Por pormenores, d. o pref:icio de Mal< Weber, à terceira edição de Wis5enschaftslehre, 1968, p !XX
XVIII :'>IAX WEBER ECONOMIA E SOClEDADE .\1 :-.

pais O GdS completo foi dividido em cinco livros e subdividido em nove s<:,;,'Jl'S 1l<'lll r"
do primeiro livro, "Fundamentos da Economia", as primeiras seções mlli;ol11 I ir lJ I, ,.,
Quando, em 1952, () editor pediu ao presente autor para começar o trabalho como "Economia e ciência econômica" (n "Economia e natureza" (11 1), "ECUIl(Jllli.L
da nova edição, ror este prqposta, da principal obra sociológica de Max Weber, havia, e técnica" (lI 2), e assim, conseqüentemente, o título da seção III era; "Ecollollli:L ("
como pomo de partida, algulnas declarações do próprio Max Weber: o programa global, sociedade", e foi subdividido nas seguintes duas partes principais:
redigido ror ele como redator da coletãnea Grund,iss da Sozial6konomik (Gd5) [Fun-
damentos da Economia Social], p\lblicada pela primeira vez em 1915, no relarório anual Seção 1lI
de 1914 da Editora jeR Mohr (Paul Siebeck}, o sumário sistemátiCO da "divisão da ---.J
obra completa", incorporado por Max Weber aos volumes avulsos ainda por ele mesmo Economia e socíedade ~
,-v-
editados, de Gd'i e, além dis.'io, o mesmo sumário completo como anúncio editorial
na primeira edição do livro Bankpolirik, de Felix Somary, publicado em 1915 pela
A Economia e as ordens e poderes sociais. Max Weber. ;::=
mesma edirora Tamo o relatório da editora (1915) quanto o anúncio (do mesmo ano) 11 Desenvolvimento dos sistemas e ideais politjco~econômicos :z:
U..Jl
rellcionanm para cada contribuição à obra completa o nome do autor previsto. O e polilico-sociais. E. von PhiJippovich. (---J
último volume editado sob a redação de Max Weber (seção V I) de GdS foi publicado '<C
em 1918, e aínda a edição defínitiva e integral da seção VII foi publicada, em 1922, Compaoando~se com isso a página de rosto definida pelo próprio Max Weber U
com o plano completo da "divisão da obra completa". Cada uma dessas estruturações para a primeira entrega de sua exposição (ver acima), percebe~se claramente que ele, W
sistemáticas de Gd5 compreendeu, ao mesmo tempo, a disposição, desenvolvida por desde o princípio, tinha determinado o titulo de sua contribuição e o mantivera. Era f---
o seguinte: "A Economia e as ordens e poderes sociais". O número "1" colocado na J
Max Weber, de sua própria contribuição a este manual sistemático, disposição que repro-
--IJ
duzimos no prefácio à quarta edição deste volume. página de rosto em cima deste título e embaixo da indicação "seção uI" etc resultou CO
A publicaçao na seqüência de GdS, que segue a seção V, primeira parte (1918),
foi a primeira entrega do próprio Max Weber, preparada ainda por ele mesmo para
do falO de essa contribuição ter sido projetada como primeira parte principal da seção
m, cuja segunda parte principal fora reservada para Eugen V Philippovich Este havia m
impressão e publicada em 1921, após sua mOrte. Apresenta a seguinte página de rosto publICado, em 191(}, na mesma editora, uma coletânea de conferências, com o título
Die Enoocklung der wirrscna[{spo!irischer Ideen in 19 jahrhunderr Faleceu, porém,
GRUNDRlSS em 1917, e MaxWeber, sem dúvída, partiu da conjetura de que apareceria outro redator
para continuar e atualizar o manuscrito deixado por Philippovich Isso foi realizado,
der de fato, por Eduard Heimann, só que, depois, na impressão da segunda edição da
seção [ (1924), toda aquela parte foi agregada a esta Em todo caso, desistiu-se, após
a morte de Max Weber, do plano de integrá-la na seção llI, abandonando-se assim
SOZIALÓKONOMIK
sua concepção compositora básica para a seção "Economia e sociedade". Pois, segundo
ele, a primeira pane principal compreende a percepção empírica, isto é, partiria do
m Abteilung ser humano, agindo empíricamenle e de seu mundo de existência para expor o processo
Winschaft und Gesellschafl. constitullvo da sociedade. A segunda pane principal ficaria reservada para a perspectiva
da história das idéias, isto é, ao exame das idéias (os sistemas e os ideais) a partIr
do movimento (aparentemente) puro de pensamento
Por fim o adiramento "Primeira Parte", que segue ao título "A Economia e as
Die Wirtschaft und die gesellschaftlichen ordens e poderes sociais" de Max Weber, explica-se por ser destinado a anteceder
Ordnungen und Machte. as exposiçóes conceilltais e metódicas, a primeira pane, portanto, de sua contri!->uiçju,
denominada pelo organizador, de acordo com a expressão de Marianne Weber', "Teoria
das categorias sociológicas". A essa parte Max Weber não tinha dado subtítulo, ma~
Bearbeitet a designa às vezes por "Introdução geral (conceitual)" e, noutra ocasião, por "Sociologia
geral"', enquamo que a segunda parte (que ainda jazia em sua escrivaninha) ficou , ~

von reservada para a análise e exposição da matéria.


Essa situação, no momento da morte de Max Weber, mostra que ele havia mantido,
MAXWEBER em principio, o plano que originalmente esboçara para sua comrinuição (assim como
o de toda a seção III~. Apublicação da obra póstuma de Max Weber, em 1922, destruiu
Erster rei!.
, Weber, M3ri.nne. Max Welxr - Ein Lebensblid 1926, p 6117 e seg , 7(f)
De uma análise cuidadosa disso resulta a Cene7-<l de que Max Weber não modificou " Weber. M~x W'irtS(h:i!c und Geellsch3{t, '; eu., p l (nura prdim. J, 63 tirem 1), 212
nada em principio na estruturação da matéria de toda a seção m, especialmente de ') As dlvergências decermínad<ls por ete mesmo foram expo~t:J..s deu.! hadtmenre no prdicio à <lU;J na edit;~<}
sua própria contribuição, projetada apenas corno uma (a primeíra)de suas partes princi- deste ...·olllme: Wiflschaft und GcsclJschaft, ). ed.. p. XXVII
xx MAXWEBER ECONOMlA E SOCIEDADE xxi

essas articulações compositoras, substituiu sua página de rosto por outra - modifi- mente novas,' É que desde então registraram-se algumas circunstâncias da maior impor-
cando-a em pontos essenciais, o que fez do título da seção o título do volume inteiro, tância para a nova edição do original alemão que se fez necessária.
eliminando a segunda parte principal correspondente -, e introduziu tanto uma estrutu- Antes de mais nada, a descoberta do manuscrito dos capítulos I e VII da segune.tI
raçáo própria da matéria que deixava completamente de lado o esboço do próprio parte de Economia e socied:Jde foi um acontecimento de importância fundamental,
Max Weber, quanto a sua divisão em três panes, criada pela própria editora e objetiva- que não apenas possibilitou uma revisâo autêntica do texto dessas panes da obra, mas
mente não justificada. rambém permitiu tomar exato conhecimento do método usado pelo autor e da extensão
Além das declarações do ptóprio Max Weber e da edição antiga, havia, para prepa- em que se valeu de outra literatura. Tanto a "Sociologia do Direito" quanto a "Sociologia
rar uma nova edição, três outras publicações para serem consultadas na revisão: as do Estado" de Max Weber existem, entrementes, como edições avulsas a. Foi possível
análises lógico-metódicas nas exposições impressas de Max Weber sobre a lógica e meto- tornar acessíveis, passo a passo, os resultados da revisão às traduções estrangeiras.
dologia das ciências culturais e sociais, coleção que, após sua mone, recebeu da organi- Uma posição especial ocupa nes~e caso, a ediçâo norte-americana. Mediame íntima
zadora o título Aufsitze zur Wissenschaftslehre [Exposições sobre a teoria das ciências), colaboração por mais de quatro anos, conseguiu-se obter revisões do texto e conheci-
1922, dedicadas especialmente à relação entre o conceito e o concebido, assim como mentos da bibliografia inteiramente proveitosos para ambas a~ edições a serem elabo-
as referências na biografia de Max Weber por Marianne Weber (1926)\ além das ref/e- radas. É meu desejo reiterar aqui minha gratidão aos professores Dr. Guenther Roth
xôes já mencionadas do preseme autor sobre as concepções compositoras da "Obra e Claus Wittlich pela colocação de inúmeros problemas, indicações, informações e pela
póstuma de Max Weber"'. Por outro lado, não existia nenhum manuscrito do próprio assistência no tratamento do texto e na compilação da bibliografia Sem essa colaboração
Max Weber para a obra, e também não havia provas das panes por ele preparadas frutífera, alguns problemas que a crítica do texto teria de enfrentar permaneceriam
para impressão. certamente sem solução. Além disso, a análise contínua do texto, necessária para a
Assim, a tarefa de elaborar a nova edição antes de 1956 tinha dois objetivos nova edição alemã, rendeu ainda um número maior de correções. Por conseguinte,
Por um lado tratava-se de recuperar a estrutura do pensamento e a conexão interna talvez possamos agora enunciar a esperança de que a versão do texto atualmente elabo-
da grande Sociologia de Max Weber e de realizá-las na nova edição, embora o nexo rada resista à análise crítica. Não se exclui, com isso, a possibilidade de surgir um
com a outra exposição, baseada na história das idéias, ficasse suspenso. Por outro lado, outro posicionamento do problema, talvez até inteiramente novo. Sem as partes do
importava em eliminar, na medida do possível, as inúmeras mutilações e os erros tipo- manuscrito que faltam, a revisão do textO não pode ser considerada uma tarefa definiti-
gráficos do texto, que chegavam a privá-lo de sentido. Para a publicação, essas duas vamente acabada.
tarefas tinham um caráter essencialmente conservador Pois, além de toda depuração, Em conseqüência disso, o indice das correções do texto tinha de ser considera-
importava sobretudo reconstituir, com a maior fidelidade possível, a concepção compo- velmente expandido Em contrapartida, o apêndice que tratava da Sociologia da Música
sitora na condução das idéias de Max Weber como sendo o elemento mais essencial de Max Weber teve de ser suprimido, depois de a editora ter decidido atualizar a edição
da força persuasiva de sua Sociologia especifica, e não desenvolver um esquema próprio avulsa desta obra importante, confiando a revisão a mãos competentes. Para maior
de pensamento, por mais plausível que fosse. E, também na revisão do texto, apesar clareza, o índice foi dividido em índice onomástico e índice de assuntos; ambos foram
de ser indicado descobrir e rever todas as dúvidas possíveis, não se podia substituir ampliados em vários itens e adaptados à nova edição.
por invenções próprias passagens, por mais duvidosas ou mesmo erradas que fossem, De acordo com as idéias dos redatores e organizadores da edição none-amerícana,
das quais não se pudesse comprovar, com toda certeza, a forma correta. Acrescenta-se o presente autor, com a aprovação do editor, dedicou-se a ampliar consideravelmente
ainda o estado de nossas bibliotecas naquela época. Pois, apesar de o organizador do os comentários criticas ao texto. Na quarta edição, estes serviam principalmente -
texto ter usado, naquele tempo, as mais diversas bibliotecas públicas e de institutos
abstraindo-se algumas poucas explicações de conceitos e indicações sobre exposições
universitários, nem de longe se pôde pensar na possibilidade de consultar pelo menos em outros lugares da obra de Max Weber - para justificar modificações ou manutenção
a maioria das obras necessárias, simplesmente porque não estavam disponíveis. Se,
do texto Cheguei à conclusão de que isso, nesta forma, não é suficiente e, em con~e­
apesar de rudo, a edição anterior, apresenta grande número de conjeturas cautelosas,
pode-se constatar hoje que apenas muilO poucas delas tiveram de ser revogadas ou qüência, ampliei a finalidade dos comentários. Os comentários críticos ao texto servem
substituídas por outras soluções. agora a três finalidades, tendo, porém, ao mesmo tempo, de ser limitados a estas
Nessas condições, não restava alternativa ao organizador do texto, naquela época, Servem:
senão reconhecer claramente a obrigação de deixar no texto um número considerável 1) para esclarecer conceitos, assim como para legitimar a correção ou confirmação
de passagens duvidosas sem corrigir, sem poder considerar-se autorizado a intervenções de trechos duvido~os do texto,
improvisadas, arbitrárias. Isto se aplica, em grande parte, aos capítulos I e VII, assim 2) para indicar, na forma de comentários, outras passagens da obra completa
como à "Tipologia das cidades", na segunda parte da nova edição. Restava apenas de Max Weber, a fim de demonstrar as conexoes internas nesta obra;
exprimir, no prefácio à quarta edição, a esperança de que um dia reaparecesse o manus- 3) para documentar indicações bibliográfICas, resulrantes dir~tamente d~ texto,
crito de Economia e soded:Jde. assim como para citar literatura a que se refere ou em que se apOla o conteudo do
Esse desejo não ficou completamente sem resposta, de modo que, pelas razões texto.
mais diversas, pôde-se enfrentar outra revisão e correção da obra, em condições total- Na medida em que a bibliografia destina-se a esclarecer o conteúdo do texto,
citamos, em primeiro lugar, titulos e edições que estavam à disposição do prórrio

• Weber. M3ri3nne Lebensbjld, op cit., p. 425, 697 e seg, 7(fj


Ver acim.a. nula 1 , Weber, Max. Slaat.<SOZlo/ogie, Z. <Xl , ] %6, "'cber, Max Rechtssozio/ogie, Z. ed, 1!Xii
xxii MAXWEBER ECONOMIA E SOCIEDADE xxiii

Max Weber. Para o esclarecimento de conceitos e fatos ou para a colocação de problemas si, assim como as transições que os ligam, evidenciam a idéia compositora da obra
que extrapolam o texto, recorremos também à literatura mais atuat Inegavelmente, como anexo coerente de sentido de um todo e como seqüência de pensamenw essencial,
a descoberta da bibliografia originalmente usada por Max Weber ao escrever a obra mente didática, na qual as remissões às passagens anteriores ou posteriores do texto
é principalmente um assunto da ciência alemã, que, pela recuperação das bibliotecas, realmente encontram nestas suas correspondências adequadas ~ com algumas raras
no entretempo e pelo grande progresso nas reedições de livros neste pais, tornou-se exceções". Além disso, os títulos dos capítulos - "Sociologia da Religião", "Sociologia
mais fácil de levar a cabo. do Direito", "Sociologia da Dominação" e "Sociologia do Estado" - foram anunciados
literal e elipressamente por Max Weber em seu último manuscrito acabado de Economia
11 e sociedade e assim Iigitimados B
Além disso, entretanto, pode-se comprovar também o sentido da estruturação
A idéia compositora da primeira parte, reimpressa sem alterações, porém imca- da matéria com referência ao conteúdo desta, revelando-se sua idéia compositora ine-
bada, que permite reconhecer a divisão em cinco capítulos, é desde logo transparente. reme. A seguir, citarei exposições que já apresentei noutro lugar em resposta a obje-
Mas não se pode excluir a possibilidade de ela compreender um total de seis cãpítulos, ções".
caso se suponha que Max Weber tivesse destinado outro capítulo (fora da tipologia A análise e exposição da matéria da segunda parte inicia com duas exposições
geral do projetado capítulo V) à esquemática c1assificatória da pretendida' 'investigação gerais que resultam da metodologia específica de MaxWeber. Por um lado, referem·se
das formas de comunidade religiosa"9 Em suma, pode-se reconhecer, sem dúvida, à relação entre o modo de ver sociológico-empírico e o jurídico ou normativo, de
que a primeira parte, iniciando com minima socialia, ou seja, com o comportamento modo geral, nas relações recíprocas entre seus objetos. Isto significa concretamente
e a ação sociologicamente relevames do indivíduo como "caso-limite típico-ideal" da a relação de princípio entre a economia e as ordens sociais. Por ouero lado, o texto
teoria, ascende às relações sociais. Daí alcança a açJo social conjunta (mas não organi- passa a explicar as relações mais gerais entre economia e sociedade, sua relação de
zada associativamente) de pessoas, uniões e grupos e finalmente as formações socíais, dependência mútua e os efeitos empíricos recíprocos desta. Desta forma, estes dois
culminando na unidade da associação politica, no domínio territorial que hoje em dia capítulos (1 e 11) constituem a transição da primeira parte que, segundo Max Weber,
lhe é típico e no moderno Estado institucionalizado. Seguem os complexos abrangemes expõe as "categorias mais gerais da Sociologia", para a segunda parte, com sua análise
de ações orientadas para a sociedade: economia e dominação, depois as camadas, grupos concreto-empírica das formas especiais das sociedades, ordenadas segundo as relações
e associações (classes e estamentos), em especial, pretendendo-se concluir esta pane, de sentido específicas e caraererísticas existentes entre elas.
num quinto capítul0 9" com uma exposição geral dos tipos de ação orientada para a O exame do manuscrito do capítulo I (da segunda parte) revela que o grande
comunidade e para a sociedade. Mas, como jáfoi dito, não se pode excluir a possibilidade algarismo romano I a ele anteposto foi escrito pelo próprio Max weber l5
de Max Weber ter destinado um sexto capítulo separado à tipologia especial das formas A análise e exposição que seguem, iniciando-se com o capitulo I1I, começam com
religiosas de comunidade e sociedade. a forma de comunidade mais restrita e mais especial: a família (comunídade doméstica),
Cabe aqui observar o quanto Max Weber sempre aproximava sua sociologia dos ascendendo daí progressivamente a comunidades (unidades de sentido) cada vez mais
minima socialia, vale dizer, do sentido subjetivo Concreto da ação social individual abrangentes: o clã, a associação de vizinhos, a comunidade militar e econômica, a
e coletiva e das associações intencionalmente formadas. Isso se mostra especialmente associação comunal. Em cada capítulo são mais abrangentes as comunidades tratadas
em seu intenso interesse nas seitas, das quais afirmava repetidamente que represen- - as comunidades étnicas (capítulo IV) - a tribo e a nação - as relações de todas
tavam, pelo menos em princípio, nas ações conjuntas, contrárias e paralelas dos agentes, as comunidades citadas com a relígiosa e a política. Seguem-se imediatamente os tipos
o arquétipo de toda moderna SOCiedade humana. Isso se aplica particularmentcàs formas de comunidades religiosas (capítulo V) que, na figura das religiões universais, são apre-
da vida associativa, que, exatamente por isso, prestam-se de maneira excelente ao estudo sentados com a pretensão de abranger todos os demais tipos de comunidades.
do caráter das seitas W Acima disso, afirmou ele, a seita, "num sentido importante O rratamento das ações orientadas para o mercado, que começa o capítulo VI
para todo o início dos tempos modernos, é o arquétipo daquelas formações sociais incompleta, inicia-se com a declaração de que todos os tipos de comunidades até então
de grupos que hoje moldam a 'opinião pública', os 'valores culturais' e as 'individualida- tratados baseiam-se somente numa racionalização parcial, diferenre para cada tipo,
des'''''. Os grupos (em semido amplo), como relações sociais perenes (tendo ou não da estrutura significativa, enquanto que o mercado, ao promove a cabal racionalização
o caráter de associações) constituíam, portanto, para ele, o ponto de partida e o objeto das ações sociais por ele abrangidas em cada caso, revela-se o próprío arquétipo das
empírico primário de toda análise e teoria sociológica relações societárias. Mas Max Weber diz mais nesse capítulo. Uma vez que a discussão
Quanto à estruturação do pensamento na segunda parte, a ordem do manuscrito, dos processos no marcado constitui o conteúdo essencial da Economia Social, não há
reconstituída segundo o esboço do próprio Max Weber, já pode ser deduzida, de maneira necessidade de expor neste contexto o mecanismo especificamente econômico do mero
puramente formal, do fato de que agora as diversas partes se encadeiam e se juntam cado e da formação dos preços - na primeira parte, Max Weber escreve sobre a situação
sem violência, e conformes ao sentido. A posição dos diversos capítulos e seções entre da luta pelos preços no mercado. Cabe aqui acrescemar que ele apresentou,

" Wirrsehafr und Cesel1sch,fr, 5. "d., p. 36(1 " Wirtsehffr ulldGesellsdlafr, 5. ed., p. 187, 235. 239. 594, 613, 758.
", Wirtsehaft und Gesellschnr, p. 43, 58, 67, 73, 75. " Wirtsehffr und Gesellschafr. p 18 e sego 25, 27 e seg., 30.38,157,168
m AreI> f Sozi,lwiss. u Sozi,lpoJ., v XXXI. 1910. P 587, Ges Auf. z 5o"iol08ie u. So"iaJpolirik, p. " Winckelm,"n, Jonannes. Mn Weber 8row" Soziologie AreI> f Re<fJrs- und Sozi,/p/liJ v. XLIJI, 1957,
442, Cô Aufs 7.. ReligiollSSoz., v I, p. 217. P 117-124
" AreI> f SoziaJwiss. u. 5ozi,ipoi., v. ~ 19tO, p. 202 " Os pormenores cf. minha ímrodução à segunda edição ,je, Weber. Max Reelrt'<OZÍoJogie. p. 52

----------------J..--.. . . . . --...lr
xxiv MAXWEBER ECONOMIA E SOCIEDADE

na primeira pane, uma Sociologia econômica com classificações detalhadas, de modo obra baseia·se, portanto, numa concepção estruturadora cuidadosamente equilibrada,
que o tratamento conciso e inacabado da relação associativa no mercado encontra aí coerente tanto sistemática quanto historicamente e que rUo deve ser abandonada. Ao
-'i,-: sua correspondência classificatória. Não cabe, portanto, objeção contra deixá-lo no contrário, é especialmente apta a aumentar, de maneira excelente, a força persuasiva
lugar previsto pelo autor, Além disso, o capítulo encontra, ai, em termos sistemáticos, do curso do pensamento e,·assim, a legibilidade do livro.
seu espaço estruturalmente adequado. Nos capítulos anteriores, já foram preludiadas Permito-me dedicar algumas palavras à colocação da seção sobre a ddade sul
as relações com as comunidades políticas, e isso se repete não apenas ao tratar da e norte-européia, Max Weber sempre uniu, em suas obras mais diversas, como caracte-
socialização no mercado como também a última frase do capítulo sobre o mercado rística sua a condição de particular; mais especificamente, de associação política autôno-
refe;e·se literalmente a ess~ relação com a comunidade pOlítica. Ao mesmo tempo, ma 17, Ele depreende a especificidade do desenvolvimento das cidades ocidentais, em
porem, eVldencla-se a relaçao concreta do mercado e de sua legalidade específica com comparação com todas as demais formações urbanas, do caráter polltico especial chs
a ordem e a comunidade jurídicas, cidades européias, do fato de terem elas sido "comunidades" autônomas com direitos
Devido precisamente a essa relação intima, Max Weber pretendera originalmente políticos própriosl", Por isso, a tipologia das cidades, na forma em que foi concebida,
tratar das comunidades políticas e do condicionamento social do direito com seus efeitos tem seu lugar, sem dúvida - e em coincidência com o plano -, na Sociologia da
sobre a sociedade num capítulo comum, sob o título "A comunidade política", Porém, dominação, e precisamente ali onde foi colocada: por razões sistemáticas, em sua parti·
deejdiu logo depois ~bando~ar ~ssa idéia e tratar da Sociologia do Direito numa expo. cularidade como associação revolucionária, após <lS formas da dominação política, e,
slça~ completa ~speClfJCa; e e assIm que a encontramos nos manuscritos por ele deixados por consider<lções históricas, como precursora da constituição e administração racional
(capitulo VII} E um dos casüs muitos raros em que o próprio Max Weber afastou-se do Estado, antes da exposição destas.
do esboço de seu plano, como comprova o manUScrito. Em conseqüência disso, os O manuscrito de "A economia e as ordens e poderes sociais", redigido antes
assuntos restantes do capítulo VII planejado foram reunidos num capitulo particular da Primeira Guerra e inacabado, deixou em aberto, para exposição posterior, as seções
(VIII) "Comunidades políticas", o que é adequado à coerência do pensamento nessas previstas sobre o Estado moderno e os modernos partidos políticos, Isso não foi realiZ<l-
exposições e compreende, ao mesmo tempo, a distribuição do poder entre os grupos do, porém, dado o falecimento prematuro do autor, Nessas circunstâncias, a parte
dentro das comunidades políticas: classes, estamentos, partidos. Aproximidade do direi- que falta (Sociologia do Estadd 9), neste compêndio escrito por Max Weber conscien-
to em face do mercado e da economia, par um lado, a intimidade da relação entre temente para fins didáticos, foi completada parcial e provisoriamente, no interesse
a formação de comunidades políticas e a constituição das formas de dominação, por dos estudantes e da pesquisa, a p<lrtÍf de três de suas obras impressas que tratam dessa
outro lado, e, por fim, o fenômeno estrutural de que a comunidade jurídica costuma problemática. Para incorporar Sistematicamente as passagens escolhidas, serviu não
ou pode ser menos abrangente do que a polltica, e esta, por sua vez, menos abrangente apenas o esboço de plano de Max Weber, mas também a disposição por ele ditada
d~ qu~ a domin~çã,o,. levara~ à disposição mercado-direito-comunidade política-do- em seu último curso não terminado sobre a Sociologia do Estado. Cumpria ai explicitar
mmaçao, Estes tres ulumos capltulos (VII a IX)são, em conjunto, os mais pormenorizados a relação das partes escolhidas, quanto ao pensamento e à sistemática, com a obra
de toda a obra, e certamente não é errada a suposição de que Max Weber tenha tido global, evidenciando seu "lugar tipol6gico" indubitável. Aseção completada foi assina-
um interesse muito especial por eles, lada expressamente - como já havia sido feito nos dois prefácios às novas edições
A perspectiva da articulação imanente da concepção torna-se assim evidente, e (1956, 1972) e nos comentários ao texto - no lugar em que foi incorporada, na nota
a estruturação interna da ordem do pensamentO constitui, sem dúvida, uma pane da de rodapé (início da seção 8, do capítulo IX, volume 2), para indicar como contribuição
força,comprobatória,do livro. Por isso essa estruturação não pode ser interrompida que mio foi escrita, nesta forma, pelo próprio Max Weber. Aidéia de que a organização
ou ate mesmo destrUlda sem ser posta em dúvida a compreensibilidade do conjunto, racional da administração, com a prática de princípios administrativos racionais pelos
Revela-se, assim, na estruturação do texto da grande Sociologia de Max Weber, Estados territoriais, tem origem nas comunidades pollticas particulares das cidades autô-
em sua forma autêntica, seu elemento compositor geraL a ampliação continua da esfera nomas era uma doutrina repetidamente pronunciada por Max Weber. Assim, as exposi-
das formas sociais de ação, relação c organização e, com isso, a ampliação das unidades ções sobre a moderna Sociologia do Estado constituem uma continuação sisrematica-
de sentido sociologicamente relevantes, E, por conseguinte, é também evidente que, mente adequada da tipologia das cidades, Nesta seção final foram incluídas, de outros
tanto histórica quanto sistematicamente reservavam-se para coroamento da obra socioló- comextos correspondentes, somente aquelas formulações de Max Weber que se enqua-
gica completa, a análise e exposição da instituição do Estado racionalmente constituido, dram como teses numa Sociologia da dominação. Ao incluí·las, coube - diferentememe
como última forma de dominação,' por enquanto. Também, no extenso capítulo sobre do tratamento dos capitulas anteriores de Economia e sociedade - adaprar parcialmente
a dominação, o prónrio texto deixa transparecer daramente sua idéia diretriz, Come- as exposições às outras panes, procedimento adequado a uma obra científica e ademais,
çando com a análise da dominação burocrátíca, que no contexto foi colocada expressa compêndio de estudos, em contraposição ao panfleto político, Em face das exigências
e justificadamente no início das exposições1 6, o texto ganha fluência no desenvolvimento rígidas do próprio autor qU<lnto à objetividade e ao caráter neutro da Sociologia cientí-
da análise e exposição, E também na perspectiva histórica a exposição aproxima-se fica, não pareceria justificável outro procedimento. Os textos originais completos das
gradativamente do desenvolvimento mais recente especificamente institucional-estatal respectivas exposições estão todos acessíveis ao público nas três publicações separadas,
c, ao mesmo tempo, racional·legal, após o fim do Estado patrimonial absolutista, A
" Wiroch3f158escJrjchte; Abriss der utUverstlen Sozia/- und Wimch:úlSflesdlkhre, 3. ed., t958, p, 273 e
seg,; G=mmelre poljlischeSchriflen, 3.00,.1971, P 508,513.
" Wiruch3ft und Gese//schaft, 5 ed., p 550 (em relação à p. 579}. isso cOfresponde ao procedimeao " Ges. Aufsãtze zur Rdiglonssoziolosje, v, L, p, 291.
paraklo na primeira pane, p. 122, INlnor. preliminar:l segunda seção] " Winschúr und GeseOschaft, p, t68.

. _-----~-~---~
xxvi MAXWEBER ECONOMIA E SOOEDADE

cuja temática ultrapaSS<l de longe a escolha utilizável para Economia e sociedade. Pode- . objetiva das condições e dos meios adequados de enfrentá·la de acordo com os objetivos
se, ponamo, recorrer a eles em qualquer momento para leitura complementar. Seu visados, aiém da contínua orientação pela conduta atual ou vinual dos outros panici-
çaráter autônomo em nada é prejudicado pela incorporação parcial, para fins de ilustra- pames ela ação social A ação individual e o sentido concreto são alimentados, desde
ção, na Sociologia da dominaçãdo o início, co~ cont~dos e referênáas significativOs objetivos. Além disso, precisamente
esse estado mtenclonal inicial subordina-se, na sua realização, ao processo sociológico:
III cada individu.o é socializado junto com sua intenção e ação. Nas ações conjuntas, para-
lelas e contr~nas de um ou vários i;1di'v /duas, acontecem inevitavelmente processü<;
Chegamos agora a uma breve elucidação do significado metodológico da categoria de modiflcaçao e fusão do sentido. E da essência do "processo de socialização" e de
do "sentido subjetivamente visado" e das conseqiiências da ação social na Sociologia todo o enredamento do indivíduo nele que intenções e ações sejam levadas a operar
de Max Weber'. Isso se contrapõe por inteiro a uma concepção teórica segundo a no c~>njuntO das circunstâncias sociais e do processo permanente de scdetarização.
qu;;[ o sentido subjetivo de cada agente individual em nada contribui para as relações Se nao fosse assim, não existiria o problema específico da Sociologia: o resultado ela
rezis entre as ações e somente o sentido funcional objetivo dos eventos e das instituiçõeS interação mostra, na maioria dos casos, um sentido modificado, por assim dizer, sociali-
observáveÍ!"c pode despenar o interesse da pesquisa. A isso opõe-se a idéia de que é zado, mvesudo no resultado da ação conjunta social. E os domínios de sentido, que
sempre a a~:ão social que provoca (produz ou mantém) os fenômenos sociologicamente se iniciam com o indivíduo como agente social e se lornam cada vez mais abrangentes,
relevantes e de que o acesso à ação humana necessariamente passa pela intenção hu- podem levar - comparadas àquela situação inicial - a uma transformação máxima
mana. do sentido e dos resultados das ações. Isto é, o agente individual tem de participar
A sociologia de Max Weber distingue claramente entre o sentido objetivo (tanto na constituição do sentido objetívo-funcional das relações e instituições com que Bela,
de sistemas de sentido quanto de artefatos de sentido concretos) e o sentido subjetivo- incorporando-as cada vez mais - ao preço de sua própria participação ativa nesses
intencional". Além disso, poder-se-ia, sem dúvida - em concordância com Alexander fenômenos.
von Schelting'3 - distinguir, como caso subordinado, o semido causal ao qual corres- Por conseguinte, temos como complexos que abrangem inevitavelmeme cada indi-
ponde, no mesmo nivel metodológico, o sentido objetivo-funcional. Isso se justifica víduo envolvido numa ação socialmente orientada: 1) a situação inicial objetiva (que
tanto mais se considerarmos que, na área do método quantitativo-teórico, a terminologia inclui o companamento a ser esperado de outros}, 2)a causalidade de finalidade, meios
de causa e efeito pode tornar-se inadequada para formular relações funcionais entre e conseqüências secundárias; 3)0 conteúdo funcional objetivo da relação ou da configu-
magnitudes. Neste caso, é necessário que "no lugar de enunciados sobre relações de ração de s:ntido em questão; ~) o falo de que tanto o sentido intencional quanto o
causa e efeito... ocorram enunciados sabre relações funcionais entre magnitudes exata- funCIOnal sao Impostos à formaçao SOCIal, sempre de novo, pelo ser humano sociaBzado,
mente mensuráveis, expresso, portanto, em termos matemáticos"". sendo possível, neste caso, que as concepções de finalidAde de uma minoria maior
O sentido "subjetivamente visado" da ação social individual, mesmo sendo con- ou menor dos participantes sejam eliminadas ao se formarem pactos ou maiorias; e,
ceito definitório limite, não constitui um sentido isolado solitário; pelo contrário, coinci- finalmente, 5) o processo de modificação do significado ou da função, o que leva a
dem nele, na maioria dos casos, o sentido subjetivo e O funcional. Além disso, a orien- uma situação diferente, "impondo-se", portamo, aos participantes e provocando-os
tação da ação abrange necessariamente o sentido a ser espetado do oomportamento a enfrentá-la de novo. Essa divergência entre a finalidade intencional e a função efetiva
ou dos agentes partkipames potenciais. Pois toda ação social orienta-se, por definição, (muitas vezes não pretendida)de uma formação ou instituição social, na forma de uma
pela situação objetiva e por suas conexões de efeitos. Isso aplica-se mesmo à ação modificação do significado social, assim como de uma modificação efetiva das circuns,
irracional, em grau indeterminável, enquanto que a ação tradicioml consiste de per lâncias socialmente decisivas (social change), é um fenômeno empírico freqüentemente
si numa acomodação contínua aa que é dado e transmitido pela tradição. Max Weber observado'l. O processo de SOCialização significa, portanto, uma incorporação complexa
ressalta reiteradamente essa contínua orientação adequada à situação voltada para o do indivíduo, de suas intenções ou interações, em relações ou associações sociais mais
estado objetivamente compreensível das ciramstâncias. Servem nísso como referências abrangentes. E isso acontece sei a em virtude de seu interesse (por sua situação de
tanto o valor preexistente quanto os fatos e modos de funcionamento da constelação interesses, e afinal em virtude do hábito) ou pelo exercício do poder, pela coerção,
pOnanto. A:; acomodações necessárias às representações, instituições e poderes sociais
podem, portanto, corresponder inteiramente ao próprio interesse do indivíduo, servin-
2fl Uma explicação detalhada depreende.se da ãnrrodução e dos comem:ádos a: Weber, Max. St34fS.so· do talvez de meios para realizar outros objetivos de suas ações.
7i%gie; Sozio/og;e der radona/en SUals:msraJI vnd der modemen poJitsdlen p.me;en und E'Jrlameme 2. Para dar um exemplo de como Max Weber demonstra as articulações de uma
ed,l966
" Uma invesrigaçio pormenorizada enCOOl....-se em: Girndt, Helmul Dassozia/e H:mdelnals Gruncfkategurle
ampliação do conteúdo e do ãmbito de sentido mediante a orientação pelo sentido
erfilhrungswisserlSChafrJicher Soziologie. (J\1blioções do Max Weber Ins(i(u[ da Universidade de Munjque, funcional, indicamos o caso da economia monetária 26 O dinheiro como instiluição
01967 social é um sistema objetivo de sentido O processo social econõmico-monetário é um
" Winckelm.nn, ]OMllfIes. I\f;Jx Webers Versêindnls von Mensch und Gesellsch;út, (Gedãchlnissdlrift der âmbito de sentido objetivo e, ao mesmo lempo, um sistema de relações funcionais:
~niversiliil München rur 100. Wiedet"kehr von Max Webers GebunstlIg. 1964 (19661. p. 223 e sego
s<:hehlllg, Alexander von Dle logische Theone der historischen KultufWissensmart von Max Weber und
um complexo de finalidade, meios e conseqüências secundárias. Para o sentido subjeti-
im besonderen sein Begrjff des Ideal trpus. Arch. I Soz. wíss. u. Soz. poi. v 49. 1922. p. 686 e seg
\f'p. V], _do mesmo auror, Max Webers WiSsensdJúfSiehre (l934~ p. 354 e sego ~ Sobre :l tra.n.sform:l~O do sentido de ;l$..S /Xhç6es ver, por exemplo, Wirtscfuft und GeseJlschafl, 5 ed
S'egmulle<, Wolfg;mg. Dos ProbJem der lúusalitil (problemeder Wjssensçhaltslheorie. f~nr! f. VIClOr
p. 118·119 (§ 40~ cf. p. 204 (§ 3)
Kfalr,org por Ems! Topirsch, Wien, 1960. p. 17/, 190~ p. 182.
" Wirtsch:ift und eesellschaft. 5. ed., p 382.
MAXWEBER ECONOMIA E SOCIEDADE
xxviii
vamente visado coincidem aí, portanto, os fatores objetivo e subjetivo tanto na orien- apenas se opõe decididamente ao hipostasiamemo de personalidades coletivas que refle-
tação objetiva dotada de sentido quanto na orientação subjetiva intencional. Efetua-se tem e agem 'por si mesmas"~ Ao mesmo tempo, ele inc~rpor?u pro~u~dameme a
esta não apenas pelo sistema de sentido (dinheiro) e pela situação concreta à qual o enérgica sentença de Kant que considera um escândalo da ftlosofla e do JUIZO humano
agente seja confrontado, não apenas por cada parceiro individual nas relações econômi- em geral negar, apesar de toda a "revolução do pensamento", a realidade objetiva
co-monetárias e pela finalidade objetiva intencional da ação própria, mas igualmente, do mundo exterior29. É que justamente Max Weber indica expressamente o fato de
pelo complexo das funções monetárias e pelo que possa ser realizado por meio deste. as disciplinas empíricas, "onde quer que se trate das relações reais,~ntn: seus objetos::,
Palenteia-se, assim, um escalonamento do conteúdo significativo dos processos, não poderem proceder de outra maneira a não ser sobre a base do realismo mgenuo ,
relações e regularidades sociais: a intenção do indivíduo na ação social cOl15titui a unida- "mas, dependendo do caráter qualitativo do objeto, de forma diversa"JO.
de inferior na escala conceitual; acima desta situa-se a estrutura de sentido interno À ação social coruronta-se inevitavelmente o coníunto do mundo objetivo-con-
às relações sociais, com seu equilibrio interno. Acima delas, por sua vez, encontram-se creto, Em todo caso, ressalta inequivocamente Max Weber, a ação social vincul~-~
os objetivos superiores de associações baseadas em acordos mútuos com estruturas às "Situações objetivas condicionantes" de seu ponto de partida concreroR isto e, a
mais ou menos soltas ou de associações (organizadas) cujos estarutos fixam finalidade constelação objetivamente dada das condições. realizando-se nas bases destas. Não se
especifica. Mesmo nestas pode acontecer uma modificação da finalidade, em virtude trata aí, de modo algum, de um confromo direto entre ação e situação, mas sempre
de mudançl do rumo da ação organizada, e isso independememente da aprovação de uma concatenação de ambas in acw: pela orientação (subjetiva) do agente na situação
decidida ou tácita dos participantes ou associados. Mas já as concepções sobre a finali- inicial, pelas esperanças reais por este nutridas, pela causalidade entre fim e meios,
dade, no momento da fundação de associações com finalidade fixada nos estatutos, pela possibilidade anterior-subjetiva (e a posterior-o~jetiva), flt;la proba.bi[id~de e~tatís­
significam a criação de um sentido supra-individual. A modificação da finalidade pode tica do sucesso intencionado3l. Através desses fatores Intermedlanos, a sltuaçao objetiva
ser efetuada modificando-se estatutos ou decidindo-se a correção das ações organizadas favorece- no caso da consideração racional, orientada pelo fim -a escolha de determi-
estatutariamente discrepantes por meio de uma "revolução". Neste último caso, portan- nada decisão (ou várias). São essas circunstâncias concreta ou geralmente favorecedoras
to, pela substituição dos membros dos órgãos que exerçam suas funções de maneira às quais se dirige o interesse especial das ci~~cias empír,icas e que constituem a base
divergente por outra equipe com diretivas conformes aos eStatutos. Nessas condições, da compreensão das regularidades e probabtlldades emplncas.
a interPretação do sentido fica, portanto, com os membros da associação. No caso As ações dos participantes orientam-se, portanto, cominuamente pelos processos
das associações de dominação baseadas numa ordem de dominação estatuída, traIa-se "a serem esperados", e não podem ser realizadas sem percepção concreta do desenvol-
de finalidades das ações associativas impostas pelo quadro administrativo, com apro- vimento de circul15tâncias e dos métodos e sem perspectivação da finalidade visada.
vação majoritária. A maioria, por sua vez, constitui-se, nas formas modernas de demo- A compreel15ão (antecipada e contínua) desses processos e regularidades efetua-se, no
cracias associativas, de associações com estruturas semelhantes, conforme Max Weber nível da ação cotidiana, pela experiência primária. Na área das ciências, isso se dá,
observara primeiro nos Estados Unidos da América do Norte. As "revoluções" dentro inicialmente, pela experiência empírica, metodicamente purificada. e, afinal, na com-
das existentes' 'regras do jogo" democráticas consistem num" render de guarda" legal. preensão funcional, formulada em termos matemáticos. Para as ciências que se ocupam
mente efetuado. A circunstância de que pode haver e realmente há revoluções fora da ação importa, então, principalmente verificar até que ponto e de que maneira a
da legalidade não se opõe a isso. ação humana, de maneira reconhecível, tempanicipação colaboradora nesses processos
Com a integração progressiva em contextos de relações sociais, especialmente e regularidades. Também desses fatos (de ação) pode ser obtido conhecimento nomo-
nos de caráter permanente, e mais ainda de organização em associações, diminui, por- lógico.
tanto, na maioria dos casos, a possibilidade dos índividuos de fazer valer seus respectivos As imenções, interações e cooperações de seres humanos interessados e orientados
objetivos e finalidades subjetivos, desde que não consigam elevar estes a uma volonté atuam cominuamente sobre fatos e contextos na sociedade e na história, e podem in-
de tous, permanecendo minorias. Isto se aplica especialmente à crescente extensão fluenciá-las e formá· las até um certo grau geralmente indeterminável: se não fosse
e desenvolvimento de corporações territoriais, nas quais, entretanto, vai se ampliando, assim, não naveria ações. Mas, da mesma maneira, o desenvolvimento das circunstâncias
ao mesmo tempo, a margem para realizar intenções e interesses não ligados à associação, e os contextos da realidade social-histórica determinam o mundo ideal e as intenções
o que pode levar casualmente à formação de uma volonté de tous modificada ou de de seres humanos praticamente ativos, uma vez que estes - em virtude da experiência
caráter diferente. Em contrapartida, a volonrégénérale pode representar então o sentido social - conhecem as circunstâncias e os contextos, e por eles se orientam. Com refe-
funcional objetivo das atividades da associação, o qual, entretanto - conforme vimos rência a eles, portanto, formam, no conjunto deste mundo material, seus interesses
-, pode ser alcançado também por parte da volonté de tous, sendo tanto incorporável matetiais e ideais e desenvolvem afinal objetivos que partem do que é "dado" (ou
como modulável. Neslas condições, sob formas empíricas de dominação ou associação do que consideram como tal) e de possibilidades objetivas (adequadas) inerentes a este
livre-democrática, a volonré de tol15 é formada por maiorias simples ou qualificadas.
É evidente, portanto, que Max Weber não reduz a realidade social a algo como
a orientação das ações, e também não se pode fazer a objeção de que ele, ao falar '" W,mehaft und GeselJsch:Ht, 5 00., p. 6 (item 9), 13 (§ 3, item 2), cf wís.sensch1úrslehre, 3. ed, P
da ação social. põe como absoluto, ilicitamente, um elememopardal do processo social. 439.
Muito menos ainda coll5idera ele a ação social do ponto de vista solipsístico, no sentido " !<ant, lmmanuel. Vorrede ror 2. Aufl. der Kririk der reínen Vemunfr (1787), nOt:l à p. XXXIX-Xl.
de não existirem coisas, mas somente ações, na formulação de Bergson17 . Max Weber .. WI.ssenschafrslehre, 3. ed., p. 437.
" Ver, por exemplo, Wínschaft und GeseJlsdWt. 5. ed., p. 227, adma .
" Conforme também o comeIlláfio esclarecedor em, We1Jer, l>Iax Ecvnomy md sooery, 00. by Guenther
" Bergson, Henr;. Matíére OI mémoíre (1896>' prllneira lraduç,io alemã, 1908. ROlh and aaus Wittlch, New York, 1968, v I, p. 59. nota 13 (Talcot! Parsons)
ri
xxx MAXWEBER

"dado" para conseguir, com meios apropriados, o objetivamente possível de formação


e traI15farmação da realidade, no sentido das respectivas metas. Nesse processo, os
objetivos dos diversos indivíduos socialmente ativos são diversos - conforme a respec-
Iiva idéia sobre a situação inicial e a dos interesses: há tantas divergências entre os Prefácio à quarta edição
interesses quanto diferenças nas percepções e concepc;õe5. De maneira alguma trata-se
de conceber essa espontaneidade como pura reprodução; sempre são desenvolvidas
e seguidas na prálica, em projeções especulativas, orientações das ações com vistas
ao fim. A obra póstuma principal de Max Weber apresenta-se aqui de forma modificada
Nisso e em concordância com as tendências opostas da realidade entre si a afirma- e desprendida do contexto da obra coletiva Grundríss der Sozialókonomik (GdS) [Funda-
ção de Max Weber3 J , de que os interesses determinam as ações sociais dos seres humanos, mentos da Economia Social], da qual constituiu até agora a seção 1lI. A nova edição
incluido também o confronto com as cruel necessities oIliJe, encontra correspondência foi realizada segundo os princípios expostos pelo organizador na revista Zeicschrifl
na conclusão complementar, igualmente por ele acentuada, de que as percepções e für dle gesamte Staatswissenscha[cl. A idéia fundamental é simples. A primeira parte
concepções de agentes humanos costumam ser determinadas de maneira significativa da grande Sociologia de Max Weber, que contém a teoria dos conceitos, foi escrita
e em grande parte pela situação social, econômica e política em que eles se encontram. após a primeira Guerra Mundial, nos anos de 1918 a 1920. O manuscrito da segunda
Ambas as conclusões estão também cientificamente relacionadas, como perspectivas parte, ao contrário, foi redigido antes da Primeira Guerra Mundial e, exceto algumas
explicativas de caráter heurístico, e abarcam assim aquela pluralidade de causações inserções posteriores, nos anos de 1911 a 1913. O autor deu notícia da existência anterior
opostas que cabe demonstrar no caso individual. deste manuscrito, pela primeira vez, na nota introdutória a seu anigo sobre as categorias
Trata·se, portanto, de desenvolver um saber nomológico, tanto dos contextos sociológicas de 191Y. Max Weber publicou o plano de sua contribuição destinada ao
objetivos, expondo-se estes também de maneira quantitativa-teórica, quanto das inten· GdS, seção !lI: "Economia e sociedade", depois de já ter aparecido o manuscrito mais
ções racionais e irracionais das ações, das orientações com vista~ ao fim e dos processos amigo, no resumo sobre a "divisão das obras completas", adicionado inicialmente a
dotados de sentido. Nenhum exame compreensivo-interpretativo dos motivos determi- cada volume da coletânea que foi aparecendo a partir de 19143 Uma vez que o manus-
nantes das ações humanas sociais é imaginável sem esse património de saber nomoló- crito da parte mais antiga não foi submetido a nenhuma profunda revisão, não é de
gico O conhecimento significativo-interpretativo das mC!tivaçôes, por sua vez, pode se admirar que seus respectiyos componentes coincidam com o plano original. Assim,
- e deve - ser transformado em saber nomológico. E só dessa maneira que fica este revela a idéia compositora da obra. O manuscrito mais novo desenvolve então
garantido aquele excedente do conhecimento compreensivo em oposição ao abstrato a primeira seção do plano para uma ampla teoria classificatória das categorias, que,
- pela inclusão do ser humano. Conhecimento do qual Max Weber partia, coI15ide- entretanto, permaneceu inacabada. O próprio plano de Max Weber para seu compêndio
rando-o urna aspiração específicà das ciências que tratam das ações e do ser humano, da sociologia compreensiva, impresso mais adiante para fins de ilustração e para possi- ,
em cujo âmbito suas interpretações abrangentes incluJam, sempre de novo, justamente bilitar a comparação, serviu de base, quanto ao conteúdo, para a edição atual da obra. r-
I
a Sociologia. A manutenção do título do livro Economia e sociedade requer algumas palavras I
Devo meus agradecimentos ao Professor Dr. Anton Spitaler, pelo aconselhamento de justificação. A "Divisão da obra completa", mostra que a seção III tinha o !í!lllo
na transcrição de expressões semitas e árahes, ao Professor Dl. Wolfgang Müller e geral de "Economia e sociedade"', mas estava subdividida, por sua vez, em duas seções
ao Dl. Jürgen Von Beckerath, pelas informações egiptológicas, aos Professores De. principais, das quais somente a primeira, com o titulo "A Economia e as ordens e
Wener Betz, Dr. Knut Borchardt, Dl. Karlfried Gründer, Dr. Reinhard Lauth, De. Rainer poderes sociais";, fora redigida por Max Weber Na realidade, este era o título previsto
Lepsius, Dl. Gerhardt Oeslreich, Dr. Konrad Zweigen e ao Dr. Werner Diein, por infor- da contribuição de Max Weber que continha sua grande sociologia para o conjunto
mações e indicações científicas especiais. Agradeço ao Sr. Stefan Vogt tanto pela elabo- do GdS. Não obstante, esta última e mais abrangente obra de Max Weber adquiriu
ração do índice onomástico quanto pela adaptação deste e do índice de assuntos, em fama mundial sob o título "Economia e sociedade' '. É que, com a publicação da página
muitos itens ampliado pelo organizador do texto a nova contagem de páginas. Gostaria de rosto original modificada da primeira edição, abandonara-se a idéia de incorporar
também de expressar novamente meus sinceros agradecimentos a meus amigos colabo· a segunda contribuição à seção m, e o titulo rezava então: "Seção Ill. Economia e
radores no Max Weber Institut da Universidade de Munique, Ora. Elisabeth Konau e
Dr. Gen Schmidt, pela assistência na confirmação de grande número de referências
I Max Webers Opus Posthumum (Zlschr. f d. ges. S",arswiss., v. 105, 1949, p. 368 e seg) .
bibliográficas. E especialmente agradeço ao bibliotecário Dl. Franz Merta, da Bibli(){eca , über einige Kategorien der verstehenden Soziologie Q..oga', v IV, 1913, p. 253 e sego ~ reproduz1do em
Estadual da Baviera, por sua disposição incansável de assistir na bibliografia p:lra os Ges:Jmmelre AufsJtze mr Wíssenscru.frslehre. 2 ed. 1951, p. 427 e sego
comentários. :} Uma exposição mui[Q decalhada da "Divisa0 da obra oompleu", éitando-se cada comríbuíçâo e s.e'U autor
previslo, lraz também o relatÓrio de atividades do ano de 1914, publicado em 1915. da edi,oraj.C B. Mohe
Munique, verão de 1976 (Paul Slebed<~ (p. 9-13) A disposição nele contida da contribuiçio de M.xWeber corresponde literalmeme
à divisão impressa nos voJumes avulsos de Grundriss der So2iaJókonomik, isto é, àquilo que, com todo
direito, pode ser desigruldo como plano original
.. Em rorresJX)ndência, por exemplo, às pan.es "Economia e dência econômica". .,Economia e [Uwren"
e "Ecollomia e lécruca".
!i Para a outra parte desta seçio estava previsto, como amor, ~ugen von Philippovi<h. Pormenore5 no estudo

" Ges. Aufs;iC2~ zu. I1eligiol1SSOziologie, v. I, p. 252 dtado na nOU L.


xxxii MAXWEBER ECONOMIA E SOCIEDADE xxxiii

sociedade, Redigida por Max Weber", Assim, a COntribuição de Max Weber, desde sua das categorias sociológicas" e na exposição da matéria com a designação de "A Economia
publicação no ano de 1922, preenchia sozinha toda a seção m, sob o título desta: Econo- e as ordens e poderes sociais"',
mia e sociedades. Se para o futuro seria conservado este título da obra, mesmo em A primeira parte reproduz inalterada a versão da primeira entrega organizada
Sua forma autônoma, independente daquela coletânea, a razào decisiva disso é dupla. pelo próprio Max Weber, Só que os subtítulos de Max Weber, que estruturam o texto,
Com vistas à matéria, é decisivo que no fururo o corpo principal da obra, toda a segunda foram insertos também no sumário entre a divisão dos parágrafos, e os esbOÇOS de
parte, voltará a levar a designação de "A Economia e as ordens e poderes sociais", uma tipologia dos estamentos, encontrados nos escritos póstumos, foram anexados
precedido apenas pela primeira parte, "Teoria das categorias sociológicas", de origem como "apêndice", após o capítulo sobre estamentos e classes. A segunda parte traz
posterior e não denominada pelo próprio Max Weber, enquanto que o titulo Economia o texto do manuscrito mais antigo numa disposição das matérias correspondente ao
e sociedade que compreende ambas as partes, mostra·se, quanto à matéria, muito ade- plano original de MaxWeber; no entanto, a estruturação efetuada desta parte se distingue
quado a este fim. Sob o aspecto prático, esse título para a Sociologia de Max Weher em quatro pontos daquele plano. Em concor~ncia com as edições anteriores, as duas
já está introduzido desde o início, e é usual mencioná-lo e citá-lo apenas desta forma. subseções restantes do tópico I do plano foram destinadas a serem capítulos separados;
A seguir reproduzimos o plano original, sob o título da seção, somente no referente os tópicos 2 e 3 foram reunidos num capítulo único, e a Sociologia do Direito, que
à contribuição do próprio Max Weber. existia em forma acabada autônoma. foi anteposta, como capítulo independente, ao
capítulo que correspondia ao tópico 7 restante do plano. Tudo isso deve ter resultado
ECONOMIA E SOCIEDADE do manuscrito póstumo, quando da publicação anterior. Um último desvio de Max
Weber de seu plano original consiste em que para os tópicos 8 d e 8 e deste foi previsto
A Economia e as ordens e poderes sociais
inicialmente um tratamento separado do desenvolvimento do Estado moderno e dos
1. Categorias das ordens sociais partidos políticos modernos. Em oposição a isso, Max Weber relegou, na teoria das
Economia e Direito em sua relação fundamental categorias entregue por ele mesmo à impressão no ano de 1920, a exposição material
Relações econômicas das associações em geral da estrutura e função dos partidos para a Sociologia do Estad09. Além disso, uma vez
2. Comunidade doméstica, oikos e empresa que os parlamentos caracterizavam o tipo do moderno "Estado legal com constituição
3. Associação de vizinhos, dã e comunidade representativa" (e, por conseguinte, são tratados por Max Weber em sua particularidade
4. Relações de comunidades étnicas como órgão do Estado'O), mas, por sua parte, "não podem ser explicados", em sua
5. Comunidades religiosas função, "sem a interferência dos partidos"ll, parece impossível um tratamento separado
Condicionamento de classe das religiões; religiôes mundiais e mentalidade econômica das modernas formas estruturais do Estado, dos partidos e dos parlamentos. As exposi ~
6. A relação comunitária no mercado ções referentes ao Estado racional, ao parlamento e aos partidos foram reunidas, por
7. A associação política isso, numa (última) seção única dentro do capítulo que trata da Sociologia da dominação.
As condições de desenvolvimento do Direito. Estamentos, classes, partidos, Anação. Nestes quatro pontos, o plano original de Max Weber pode considerar-se, de fato,
8. A dominação por ele abandonado, em virtude de suas próprias exposições.
a) Os três tipos da dominação legítima Na segunda parte, modificada em sua disposição segundo as propostas desenvol-
b) Dominação política e hierocrátíca vidas pelo organizador do texto, os antigos títulos e especificações do conteúdo dos
c) Adominação ilegítima. Tipologia das cidades capítulos e parágrafos experimentavam várias alterações, na medida em que a necessi-
d) O desenvolvímento do Estado moderno dade da nova estruturação adaptada ao plano original e a exigência de uma composição
e) Os partidos polílicos modernos
do conteúdo mais adequada ao sentido as sugeriam; por outro lado, sua redação difere
parcialmente também da do plano, a fim de se ajustar mais intimamente à edição do
Externamente, a nova edição distingue· se em sua estruturação do plano original texto. Em comparação com as propostas anteriores do presente autor, alguns desses
de Max Weber em vários aspeaos. Os dois corpos do manuscrito colocam-se cada vez títulos foram formulados com maior precisão. Isso se aplica especialmente à seção
sob um tema diferente, Enquanto que o manuscrito mais recente desenvolve a tipologia 7" do capítulo IX, cujo título foi restabelecido na concisão característica de Max Weber,
dos conceitos, o mais antigo apresenta uma exposição das relações e desenvolvimentos em concordância com o plano original, já que, segundo a indicação autêntiCa de Max
sociológicos. No título da primeira entrega de Economia e sociedade, ainda organizada Weber, agora incluída na seção 8'3, não pode haver dúvida de como ele emende o
pelo próprio Max Weber e que trouxe o começo das exposições conceituais inacabadas, sentido da categoria da "dominação legítima"; esta surgiu primeiro no ãmbito da civili-
l; \
estas são designadas como a "primeira parte", o que é confirmado tanto pelas freqüentes zação ocidental mediterrânea, em conseqüência da constituição política das cidades
referências, na teoria das categorias, à "exposição detalhada" posterior quanto pela
observação, na segunda parte, sobre a "Sociologia geral" distinta da exposição detalha·
da" Em conseqüência disso, a nova edição experimentou uma bipartição na "teoria a rambém: Weber, Marianne. Max Weber - ein Lebensbild 1. ed t926, p. 425. 675, 687 e seg.,
09~
Wirtsehafr und GeseJlschafr, p. 168
Ibid, 5.ed., p. 656-
6 Para cjtar uma exposjç:io mais detalhada, pe(milirn~nos indiCilr O t.ralado mencionado adma, p. XXV, Ibid,p.l72, n?i.
nota 1, em 2eicsd/rifr für die g=mre Sc.acswisseTJsd/ú, (especialmente às p. 370-371, 373. 376-3n. Contagem dos seções a seguir conforme. 5. ed
, Wirrsch3fr ond Gesellschafr 4. ed. p. 2t2. lbid. 5 00., p. 827.
xxxiv MAXWEBER ECONOMIA E SOCIEDADE xxxv

como comunidades autônomas "livres" - "livres: não no sentido da liberdade de domi- também da edição póstuma, assim como do tratado polítiCO ParJamenr und Regierung
nação violenta, mas, sim, no sentido de: ausência de poder dos príncipes, legítimo
• em vinude da tradição Ce na maioria dos casos consagrado pela religião), como fonte
im neugeordneren Deutseh1and (Parlamento e governo na Alemanha da nova ordem
polífica]17 e da conferência Po/ifik ais Beruf(Poiítica CORlO vocaçãoJ s. Tal ousadia de-
« exclusiva de IOda autoridade". froma-se com reparos consideráveis e tinha de ser cuidadosamente ponderada. No
No que se refere ao tratamento do próprio teXlo, este, com exceção das alterações artigo mencionado no princípio '9 , o organizador do texto mostrou quanto o pensamento,
( acima mencionadas na estruturação, nos titulas e nas especificações do conteúdo, foi o trabalho doceme e a atividade de conferencista da última época produtiva de Max
formado das edições anteriores. Entretanto, foi submetido a uma meticulosa revisão.
•« Eliminaram-se todos os erros tipográficos evidentes, assim como enganos casuais do
manuscrito, após cuidadoso exame das fomes. Quase todas as correÇóes do texto pro-
postas por Ono Hinze 14 puderam ser admitidas Com exceção das correções necessárias
Weber foi dedicado a esta problemática, cuja exposição dentro do quadro de sua Socio-
logia da dominação precisava ainda de uma elaboração, de modo que já existem impres-
sas partes isoladas desta, ainda que essencialmente na forma de trabalhos preparatórios
A inserção, de caráter ilustrativo, do processo sociológico da formação do "Estado"
daí resultantes, abstivemo-nos de qualquer intervenção no próprio texto. Somente na racional nas seções instrutivas e nas exposições sobre a teoria do Estado dos três escritos
« seção V (inacabada) do capítulo IX da segunda pane procedemos, em três lugares, acima mencionados, adota em sua concretízaçio os conceitos e temas da obra principal
a transposições do texto, a fim de chegar a uma estruturação concludente ls . O apêndice
« músico-sociológico foi comparado com a primeira edição do escrito avulso do ~no
e os anima com plasticidade interna, para documentar, assim, ao mesmo tempo, o
lugar ideal-sistemático das considerações Ainda que não tenham recebido do autor

• de 1921, verificando-se nesta ocasião que nela também não se podia confiar por com-
pleto. Várias deficiências do texto da investigação de Max Weber com respeito à raciona-
sua configuração definitiva para à obra principal, as idéias fundamentais sobre a Socio-
logia do Estado elaboradas por Max Weber, nos últimos anos de sua vida, e preformadas

• lidade e Sociologia da Música podiam ser eliminadas.


Pelas informações solicitamente dadas com respeito a uma série de expressões
nos escritos mencionados enquadram-se de maneira surpreendente na concepçio global
que transparece na nova edição de Economia e sociedade e iluminam a unidade da
•« estrangeiras na área indológica, orientalista e etnológica e os vários incômodos impli-
cados nisto, quero expressar aqui também meu sincero agradecimento aos pastores
Dr. Ernst L Dietrich, Wiesbaden, Professor Dr. Otto Eissfeldt, Halle Saale, Professor
conexão de pensamento de toda a Sociologia da dominação do autor. Do reconhe-
cimento dessa conexão interna resulta, ao mesmo tempo, a estruturação do pensamento
nas exposições detalhadas sobre a Sociologia do Estado, colocadas no fim da obra princi-
Dr. Helmuth V. Glasenapp, Tübingen, Professor Dr. Hellmut Rilter, FrankfurtlMain pal, conforme a subdivisão adotada. O título principal da seçào 8 expressa seu propósito
• e Professor Dr. Franz Temer, Hamburgo. Do mesmo modo, estou cordialmente agrade-
cido aos professores Dr. Carl SChmitt, Pleltemberg, Dr. RoU Stooter, Hamburgo, e
o antigo Professor Dr. Car! Brinkmann, Tübingen, pelo esclarecimento de alguns termos
efetivo de acordo com o plano original e a terminologia de Max Weber A divisão
em parágrafos e a escolha dos titulas tinham de ser efetuadas pelo organizador do
texto A esta disposição foram adaptadas a seleção e a sucessão das partes impressas,
especiais O Profes>or Dr. Walter Gerstenberg, Tübingen, por fim, encarregou-se, pelo efetuando-se muitas transposições e deixando-se de lado todas as exposições que não
que estou muito grato, da revisão de vários conceitos da teoria da música assim como se referem a aspectos estruturais e fundamentais. O texto é aqui também, exceto uma
da revisão final do texto da Sociologia da música. Somente a solicitude altruísta de infima frase de transição dificilmente prescindível, o de Max Weber; somente foram
todas as pessoas citadas possibilitou conseguir um texto confiável da obra pósmm prin- eliminados os puros juízos valora!ivos, e a versão do texto foi várias vezes transferida
cipal de Max Weber. E não em último lugar, meu agradecimento dirige-se ao editor, do modo de alocução ao de enunciado. Uma vez que os escritos originais estão acessíveis
Sr. Hans G. Siebeck, que se decidiu aceitar minha proposta de uma modificação ao público, não deve haver reparos contundentes contra esta maneira de tratar o texto
fundamental da obra e me confiou a execução da tarefa assim colocada, agradecen· para os fins especiais desta edição. Cabe agradecer particularmente ao proprietário
do·lhe também pela ampla assistência prestada pela editOra na realização do objetivo da editora Duncker & Humblot, Dr. Hans Broermann, editor dos três escritos consul-
visado lados para a seleção, pela amável autorização da reprodução das passagens escolhidas
O manuscrito de Economia e sociedade não pcxIia ser consultado, uma vez que do texto.
é impossivel encontrá-lo e talvez deva ser considerado perdido_ Se mais tarde vier No entanto, não pode haver dúvida alguma sobre a circunstãncia de que se !rata,
a ser encontrado, uma nova revisão do texto terá de averiguar se as versões e as diversas neste empenho, de um sucedâneo e que aquilo que na seleção efetuada foi organiz.ado
conjeturas formuladas, assim como os títulos dos capítulos, seçôes e parágrafos da scgundo aspectos sistemáticos figura como pars pro lOCO, não sendo esgotada pelas
segunda parte podem ser mantidos ou não. É possível que neste caso possam ser preen- exposições existentes a temática de uma Sociologia do Estado. Há de se aceitar, além
chidas as lacunas existentes na presente edição. disso, certa falta de homogeneidade na edição. Esta reside não apenas na circunstância
Diferente sob todos os aspectos é a última seção do último capitulo, adicionada da modificação parcial da exposição original mediante ao;titamenlos c omissües Para
para concluir a segunda parte. A Sociologia do Estado pretendida por Max Weber não justificá. la pode-se fazer valer o fato de que os aditamentos que transm item a.~ palavras
foi escrita. Ousamos aqui - essencialmente com intenção didática - a tentativa de de Max Weber apenas indiretamente já estão publicados e que na seção adicionada
fechar esta lacuna mediante a inserção das idéias fundamentaiS de Max Weber na área nada aparece que não eSteja impresso e - em sua irregularidade csttlistica -- documen-
da Sociologia do Estado, retiradas de sua Wirtsch3frsgeschichre {Hisrória da economia I '6, tado como seu pensamento e convicção. Acrescenta-se, antes de mais nada. o caráter
diverso do estilo de pensamento das esparsas manifestações que, feitas pelo P'-''''Illisador
" Na recensao di segundl ediçào de Wifl5Chafr und GeselJschafr (Sdunoll.}b. ano 50, 1926, p. 87-88).
" WiruchMlImdGeselJsch.af'. 4.ed. 665·669, 684-685, 690-695; 5.ed.. p. 657-661, 676-6n. 681·687). l' Escrito no verão de 1917, revisadu t" pub]jcadoem 1918 i
" WiruchMtsgeschi<h'e. Abriss der universalerr Sozi./- und Wirrschafrsgesc/lichle 1 ed., 192); 2.ed., 1924; ]~ Prorerida como conferência no inverno de 1918-1919; impressa no outon() dt..' 11) I iJ
3 ed completa. t958 " Zls<:h. [ d ge5. Sr..,sOfi.<S. v t05. p. 372.376. 386.
I·I-
11
I

xxxvi MAXWEBER ECONOMIA E SOCIEDADE xxxvii

em seu lugar ocasional para fins de explicação e motivação, voltam a ser colocadas cia do século XX Enquanto que o peso intelectual da própria conferência se concentra
agora, co~ a coordenação, em seu "lugar tipológico", conforme sua origem teóriGl. nas possibilidades e conseqüências da vida política profissional e, antes de mais nada,
Cabe aquI lembrar que também as diversas camadas do manuscrito de EcOnomia e nas exposições filosófico-morais sobre os conflitos internos entre política e ética, interes-
sociedade pertencem aos mais diversos períodos e que nele coexistem, por toda parte, sam a uma Sociologia teórica apenas as idéias sociológicas fundamentais. Em conse-
as formas de pensamento sintético-tipológica, genético-analística e polêmica, como cor- qüência, precisamente a temática peculiar daquele escrito não pertence ao âmbito da
responde ao modo do trabalho e ao impulso do pensamento de Max Weber. exposição intitulada "Sociologia do Estado" Por isso, nada foi incorporado aqui deste
Por fim, cabe ter em conta que a seção 8 traz (por extrato) idéias fundamentais assunto essencial do famoso escrito.
de. Max Weber sobre a Sociologia do Estado, tomadas de outros escritos, e (em parte) Todos os esforços dedicados à estruturação e conformação do texto de Economia
aditamentos, mas que ambos figuravam originalmente em outros contextos, não haven- e sodedade não podem desfazer o fato de que, ao morrer, Max Weber deixou sua
do sido destinados a formar parte de Economia e sociedade. Especialmente as partes grande Sociologia sem levá-Ia a cabo. Isso se aplica tania ao plano global quanto a
reprodUZIdas de Parlamenco e governo foram escritas, em grande parte, com intenções todas as seções inacabadas da primeira e segunda partes, e nesta última especialmente
político-programáticas. Na nota preliminar a esta "Crítica política do estamenta dos à Sociologia do Estadd' e à exposição da teoria das revoluções25. Mas refere-se também
funcionários e da organização partidária", de 1918, o autor ressalta que ela "nada ao fato de que não foi dado a Max Weber integrar no resto do manuscrito o aparatO
de novo diz a um especialista em Direito Público, mas também não se cobre com a dos conceitos elaborado por ele após 1918, na teoria d1s categorias da primeira parte 26 .
aUlOridade de uma ciência. Pois as posições últimas tomadas pela vontade não podem Assim, quantO à terminologia, a texto reflete ainda a posição de pensamento do artigo
ser decididas com os meios de uma ciência." Suas exposições naquele tratado culminam contemporâneo, do ano de 1913, sobre as categorias. Por isso, as explicações desse
com a elaboração de determinada forma de Estado e na consciente tomada de posição artigo, no que se refere aos conceitos fundamentais nele tratados, são sempre pressu-
em seu favor: a democracia parlamemar, tal como se desenvolveu desde a segunda postas para a compreensão da segunda parte, em vez da tipologia dos conceitos da
metade do século XIX E o ponto de vista a partir do qual se julga neste caso não primeira parte. Só podemos dar aqui, portanto, o quadro da concepção global, na
é o estritamente empírico da "ciência neutra"W diante das atitudes sociais ob5ervadas. medida em que está preenchido. Dentro dos limites assim tratados, esperamos, entre·
Aplicam-se neste ponto as próprias palavras de Max Weber: "Para toda a opinião parti- tanto, ter conseguido obter um texto logicamente estruturado que esclareça a estrutura
dária - e também, por exemplo, para a minha - há fatos extremamente incômodos"2I. interna da obra e a contextura de seu pensamento como uma unidade de sentido.
Max Weber ter·se·ia decididamente recusado a admitir em sua obra suas opiniões aqui Então teria sido alcançado o objetivo que orientou o organízador do texto: abrir a
reproduzidas, nessa forma em que não são ciemíficas no sentido da "Sociologia não uma compreensão ampliada a obra principal de Max Weber mediante a maior facilidade
valorativa"". Ele manifestou claramente sua opinião acerca disso com referência ao de leitura c o acesso mais fácil a seu curso do pensamento - em benefício da pesquisa,
tratamento crítico do governo parlamentar de gabinete por Wilhelm Hasbacha . Se, do ensino e da cultura intelectual
apesar disso, o fazemos aqui, com todas as expressas restrições acima mencionadas,
é porque estas exposições de principio de Max Weber salientam de forma plástica suas Oberursel, verão de 1955.
idéias sobre a sociologia do Estado, cabendo atribuir-lhes uma importância tão eluci-
dativa para o conhecimento que, por mais que se queira respeitar a memória do autor, JOHANNES WINCKELIMNN

não se deve privar delas, em seu verdadeiro "lugar tipológico", aquele que busca
compreender a Sociologia de Max Weber como um todo.
Reconhecendo esses pomos de vista, pode parecer justificada a tentativa de propor-
cionar, por mOlivos didáticos e em acabamento da obra, uma vista geral da concepção
e da matéria conjuntas, procurando assim evitar que as idéias teóricas fundamentaiS
de Max Weber sobre a Sociologia do Estado racional, esparsas em lugares diversos
fora da obra principal, passem despercebidas ou desconhecidas no contexto sistemático
do significado universal em que se encontram na verdade.
Essa ordem de idéias e a incorporação parç[al de determinadas seções a que
aqui se procedeu não devem levar a ignorar o sigrúficado próprio, como um todo,
da conferência de Max weber Polícica como vocação, cuja atualidade continua intocada.
Nela, as exposições teóricas dos pressupostos sociológicos de uma atividade racional
do Estado e da organização partidária moderna são apenas preliminares, enquanto
que seu verdadeiro interesse, expresso no título, constitui a situação de conflíto especí-
fica em que se encontra inevitavelmente o político profissional, nas condições de existên-

'" Wictsduf, UIld GeseJJschaft. p. I B. I


l> Wissenschafl5Jehre, 2 00, p. 587 (l 00., p. 6(3).
" Wiruchaf, ""d GeseHschaf<. p. 16B. I

U Wirrschafr und GeseJJsdt>fr. p 140.


" Ibid., p. 155. i
" WisseIlSChafrsfehre. 2. ed., P 427 e sego
" Ibid, P 173
r
i
I
I

Prefácio à primeira edição

A continuação de Economia e sociedade, publicada nesta entrega e nas duas que


se seguirão, encontrava-se nos escritos póstumos do autor. Esses escriros foram fixados
antes do conteúdo da primeira emrega: a teoria sistemática dos cOllceitos sociológicos.
Essencialmente. isto é, com exceção de alguns complementos posteriormente inseridos,
são dos anos de 15'11 a 15'13. É'que a parte sistemática. que provavelmente teria tido
continuação, pressupunha para o pesquisador o domínio consumado da matéria empí-
rica que pretendia incorporar a uma teoria dos conceitos sociológicos mais precisa
possível. Por outro lado, a compreensão e adaptação dessa teoria pelo leitor facilita-se
substancialmente pela exposição mais descritiva dos fenômenos sociológicos. Mas tam-
bém nessas panes. que poderiam ser designadas como Sociologia" concreta" em contra-
posição à "abstrata" da primeira parte. a enorme matéria histórica já está organizada
"sistematicamente". diferente de uma exposição puramente descritiva. por meio de
conceitos "ideal-típicos" (Uma forma principalmente descritiva foi escolhida apenas
para a parte sobre "A cidade". que constitui uma unidade fechada.) Mas, enquanto
que na primeira parte abstrata o histórico a que se recorre por toda parte serve substan-
cialmeme de meio para ilustrar os conceitos. entram agora. ao contrário. os conceiros
ideal-típicos a serviço da captação compreensiva das séries de fatos. das instituições
e dos desenvolvimentos da h'lStória universal.
A publi<:ação desta obra principal póstuma do aUlor ofereceu, naturalmente, várias
dificuldades. Para a estruturação de todo o material não existiu plano algum. O plano
original, esboçado nas páginas X e XI do primeiro volume de Gmndriss der Sozia16ko-
nomik (Gdç) ofereceu alguns pontos de referência. mas em aspectos substanciais já
fura abandonado. Por isso. a ordem dos capítulos linha de ser decidida pela organizadora
do texto e seu colaborador. Algumas seções sao inacabadas e têm de permanecer assim.
Aespecificação do conteúdo dos capítulos só fora fixada para a .'Sociologia do Direito".
Alguns exemplos empregados para esclarecer ímporrames processos típicos, assim como
algumas leses de importãncia especial, repetem-se várias vezes. mas cada vez sob um
ângulo diferente. É possível que o autor. se lhe tivesse sido dado rever de forma coerente
a obra completa, teria retirado algumas coisas Aorga nizadora do texto podia permitir- se
isso somente com umas poucas passagens. A decifração dos manuscritos. para a qual
cahe grande mérito aos tipógrafos da editora, particularmente a versão correta das
numerosas expressões especializadas de origem estrangeira para designar instil uições
não-européias e coisas semelhantes, deu lugar a muitas dúvidas e consultas, e é possível
que. apesar do amável apoio de diversos especialistas. tenham ocorrido imprecisões.
A organizadora contou com a assistência do Dr. Melchior Palyi. sem cuja colabo-
ração dedicada e abnegada teria sido impossível levar a cabo a tarefa, que assim adquiriu
mérito duradouro

Heidelberg, outubro de 15'21

MARtAr-.'NE WEBER
TII
i

j;
i

Prefácio à segunda edição

A obra foi depurada de erros tipográficos e, para mais fácil manuseio, dividida
em dois volumes. Além disso, foi· lhe acrescentado como apêndice o "tratado músiccrso-
ciológico", mas sem incluir o conteúdo deste no índice de assuntos, cuja revisão por
ora não foi possível.
Parecia adequado incorporar este trabalho difícil, publicado primeiro como bro-
chura isolada com prefácio do Prof. Dr. T. Kroyers, que teve o grande mérito de revisar
as expressões especializadas, àquela obra sociológica de Max Weber com que mantém
relação mais próxima - ainda que indireta. Constitui o primeiro elemento de uma
Sociologia da Arte planejada pelo autor. Nessa primeira investigação das formas musicais
do Oriente e do Ocidente provocou funda impressão em Max Wíeber a descoberta de
que também e justamente na música - esta arte que aparentemente nasce, de forma
mais pura, do sentimento - a cario desempenha um papel tão importante É que sua
peculiaridade, no Ocidente, está condicionada por um racionalismo de caráter especi-
fico: o mesmo que está preseme nas ciências e em todas as instituições estatais e sociais.
Quando se ocupava deste tema comenrou ele numa carta: "Provavelmente escreverei
sobre cerras condições sociais da música, a partir das quais se explica que somente
nós temos uma música 'harmônica', embora outros círculos culturais renham um ouvido
muiro mais fino e apresentem uma cultura musical muito mais intensa. É estranho
- esta é, conforme veremos, uma 'obra dos monges'."

Heidelberg, março de 1925.

MARJANNE WEBfR

l I

ii
r
I
Primeira parte
,
i
TEORIA DAS CATEGORIAS SOCIOLÓGICAS

i
i
! ,

r
~-~- .. _----
'I
Capítulo I

CONCEITOS SOCIOLÓGICOS FUNDAMENTAIS

Nota preliminar" O método destas definições conceituais introdutórias, dificilmente dispen-


sáveis mas que inevitavelmente parecem abstratas e estranhas à realidade, não pretende de modo
algum ser algo novo. Ao contrário, apenas deseja formular de maneira mais adequada e um
pouco mais correta (o que justamente por isso talvez pareça pedante) aquilo que roda Sociologia
empírica de fato quer dizer quando fala das mesmas coisas. Isto se aplica também ao emprego
de expressões aparememenre não habiruais ou novas. Em comparação com o artigo "Über einige
Kategorien der verstehenden Soziologie" ["Sobre algumas categorias da Sociologia Compreen-
siva"] em Logos IV (1913, p. 253 e seg_ [Gesammelie Aufsacze zur Wissenschafrs/ehre, terceira
ed., p. 427 e seg.)), a terminologia foi oportunamente simplificada e, portamo, modificada em
vários pontos para ser mais compreensível. Claro que a exigência de popularização incondicional
nem sempre seria compatível com a máxima precisão conceitual, havendo a primeira de ceder
à última.
Sobre o concelro de "compreensão", compare AlIgemeine Psychoparologie, de K ]aspers
(algumas observações de Rickert, na segunda edição de Grenzen der nacurwissenschafr/IChen
Begrjfssbildung [1913, p. 514·523], e particularmente de Simmel em Problemen der Geschichrs-
philosophie, também se referem a este conceitO) Quanto 11 metodologia, remeto aqui, como
já o fiz diversas vezes, às exposições de F. Gottl, no escrito Die Herrschafr des Worrs, ainda
que esta obra esteja escrita em estilo difícil e nem sempre alcance estruturar completamente
o pensamento. Quanto à matéria, refiro-me sobretudo 11 bela obra de F. ..l'211Il1..es.,~ GemeinsdJafe
und Gese1Jschafe; além disso, ao livro fonemente desoriernador de R. Stammler, Winschafe und
Recht nach der mareriaJiseichen Ceschichtsauffassung, e à minha critica a este, em Archiv für
Sozia/wissenschafe XXlV (19ú7, [Gesammelte Aufsirze zur Wissenschafrslehre, terceira ediçâo,
p. 291 e seg.]), a qual já comém, em grande parte, os fundamentos do que segue. Da metodologia
de Simmel (na Soziologie e na Philosophie des Geldes) distancio-me ao diferenciar logo o "sen-
tido" visado do "sentido" objetivamente válido, que ele não apenas deixa de distinguir como
propositadamente permite que se confundam amiúde. ; 1

§ 1. 'SOciolo ia (no sentido aqui entendido desta palavra empregada com tantos
significados diversos significa: uma ciência que pretenst~.fom.-p.!~n~ter)!1t.~l]lr~ªti:1.
vamente a ação soc:ial e asstm expliCá-Ia Ç::lusalm.ente em seu curso e em S~t1S efeitw I"
Por "ação" entende-se, neste caso; um comportamento humário (tanto faz tratar-se
--ele um fazer externo ou interno, de omitir ou permitir) sempre que e na medida em
que o agente ou os agentes o relacionem com um sentido subjetivo. Ação "social",
.:J por sua vez, significa urna ação que, quanto a seu sentido visado peIOageme ou os
agentes, se refere ao comportamento de outros, orientando-se por este em seu curso.
7J
I

4 MAXWEBER ECONOMIA E SOCIEDADE 5

1. Fundamentos metodológicos pontos de orientaç:1o, Impulsos afetivos (medo, cólera, ambição, inveja, ciúme, amor, entus~as.
mo, orgulho, sede de vingança, piedade, dedicaç:1o, apetências de toda espécie) e as reaçoes
irracionais (do ponto de vista da aç:1o racional, orientada por um fim) que deles resultam podem
1, "Sentido" é o sentidosubj etivameme visado: a) na realidade a, num caso historicamente ser revívidos por nós emocionalmente e com tanto mais evidência quantomais suscetíveis sejamos
dado, por um ageme, ou (3, em média e aproximadamente, numa quantidade dada de casos, a esses mesmOS afetos; em todo caso, porém, mesmo que ultrapassem absolutamente por sua
pelos agentes, ou b) num tipo puro conCeitualmeme, OOllSlf\lído pelo ageme ou pelos agentes intensidade nossas próprias possibílidades, conseguimos compreendê, los intuitivamente e avalJar
concebidos como típicos, Não se trata, de modo algum, de um sentido objetivamente "correto" mteleaualmeme seus efeitos sobre a orientação e os meios da ação.
ou de·u m semido "verdadeiro" obtido por indagação metafísica. Nisso reside a diferença entre Para a consideraçào científica que se ocupa com a construção de lipos, IOdas as conexões
as ciências empíri~s da ação, a Sociologia e a História, e todas as ciências dogmáticas, a Jurispru- de sentido irracionais do comportamento afetivamente condicionadas e que influem sobre a
dência, a Lógica, a Etica e a Estética, que pretendem investigar em seus objetos O sentido"correto" aç:1o são investígadas e expostaS, de maneira mais clara, COmO "desvios" de um curso construído
e "v1lido",
dessa ação, no qual ela é orientada de maneira puramente racional pelo seu fim Na explicação
2, Os limites entre uma ação com sentido e um comportamento simplesmente reativo de um' 'pânico financeiro", por exemplo, é conveniente averiguar primeiro como se leria proces~
(como aqui o chamamos), não relacionado COm um sentido visado pelo agente, são inteiramente sado a ação sem influências de afetos irracionais, para registrar depois aqueles componentes
fluidos, Uma parte muitO importante de todo comportamento sociologicamente relevante, espe. irracionais como "penurbações". Do mesmo modo, quando se trata de uma a~ão política ou
oaImente a ação puramente tradicional (ver abaixo~ situa-se na fronteira entre ambos. Em alguns militar, é conveniente verificar primeiro como se (eri~ desenrolado a ação caso se uvesse conhecI-
casos de processos psicofísicos não temos ações com sentido, isto ê, compreensíveis e', em outros, mento de todas as circunstãncias e de todas as intenções dos protagonistas e a escolha dos meios
estas somente existem para os especialistas; processos místicos e, por isso, não comunicáveis ocorresse de maneira estriramente racional orientada pelo fim, conforme a experiência que
adequadameme em palavras não podem ser compreendidos plenamente pelos que não tenham consideramos válida. Somente esse procedimento possibilitará a imputação causal dos desvios
acesso a esse tipo de experiências, Por outro lado, não é pressuposto da compreensibilidade às irracionalidades que os condicionam, Em virtude de Sua compreensil:>ilidade evidente e de
de uma aç:1o a capacidade de produzir, com os próprios recursos, uma aç:1o análoga: "Não sua inequivocal:>i1idade - ligada à racionalidade -, a construç:1o de uma ação orientada pelo
é preciso ser César para compreender César". A possibilidade de "reviver" completamente a fim de maneira estritamente racional serve, nesses casos, à Sociologia como tipo Cripo ideal")
ação é importante para a evidência da compreensão, mas não é condiç:1o absoluta para a interpre- Permite compreender a ação real, influenciada por irracionalidades de toda espécie (afetos, erros),
tação do sentido. Componentes compreensíveis e não cOlnpreensiveis de um processo estão COmO "desvio" do desenrolar a ser esperado no caso de um comportamento puramente racional.
muitas vezes misturados e relacionados entre si Nessa medida, e somente por esse motivo de conveniência metodológica, O método da
3 Toda interpretação, assim como toda ciência em geral, pretende alcançar "evidência" Sociologia "Compreensiva" é "racionalista", No entanto, é claro que esse procedimento não
/I. evidência da compreensão pode ser de caráter [.1 racional (e, neste caso, ou lógico ou matemá- deve ser interpretada como preconceito racionalista da Sociologia, mas apenas como recurso
tico), ou [b] intuitivamente compreensivo (emocional, receptivo-:umtico). No domínio da ação, melOdológico. Não se pode, portanto, imputar~lhe a crença em uma predominãncia efetiva do
é racionalmente evidente, antes de mais nada, o que se compreende ince/ecrualmenre, de modo raciona Isobre a vida. Pois nada pretende dizer sobre a medida em que na realidade ponderações
cabal e transparente, em sua conexão de sentido visada~ Intuitivamente evidente, no caso da racionais da relaç:1o entre meios e fins determinam ou não as ações efetivas. (Não se pode
ação, é o que se revive plenamente em sua conexão emocional experimentada. Racionalmente negar, de modo algum, o perigo de interpretações racionalistas no lugar errado. Toda a expe-
compreensíveis, isto é, neste caso, direta e inequivocamente apreensíveis em seu sentido intelec- riência confirma, infelizmente, sua existência)
tual, são principalmente, e em grau máximo, as conexões de sentido que se encontram na relação 4 Processos e ob;eros alheios ao sentido são levados em consideração por todas as ciências
de proposições mat!,máticas entre si. Compreendemos inequivocamente o que significa, quanto ocupadas com a ação: como ocasião, resultado, estímulo ou obstáculo da ação huma na "Alheio
ao sentido, qu.mdo alguém utiliza, pensando ou argumentando, a proposição 2 x 2 = 4 Ou ao sentido" não é idêmico a "inanimado" ou "não-humano" Todo artefato, uma máquina por
o teorema pitagórico, ou quando extrai uma cadeia de conclusões lógicas de maneira "correta" exemplo, somente pode ser interpretado e compreendido a partir do sentido que a ação humana
(conforme nossos hábitos de pensar). O mesmo ocorre quando ele, panindo de "fatos de expe- (com finalidades possivelmente muito diversas) proporcionou (ou pretendeu proporcionar) à
riéncia" que consideramos" conhecidos" e de finalidades dadas, tira em sua ação as conseqüências sua produção e utilização, sem o recurso a esse sentido permanecerá inteiramente incompreen-
daí inequivocamente' resultantes (conforme nossa experiência) relativas à espécie de meios a síveL O compreensivel nele é, portamo, sua referência à ação humana, seja como "meio" seja
serem empregados, Toda imerpretação de uma aç:1o desse tipo, racionalmenteorJeotada por como" fjm" concebido pelo agente ou pelos agentes e que orienta suas ações. Somente nessas
um fim, possui - quanto à compreensão dos meios empregados - um grau máximo de evidência categorias realiza-se a compreensão dessa classe de objetos. Allieios ao sentido permanecem,
Com menor grau de evidência, mas suficiente para nossas exigências de explicação, compreen. ao contrário, todos os processos ou estados - animados, inanimados, eXlra-humanos e humanos
demos também aqueles" erros" (inclusive "enredamento" de problemas) nos quais poderíamos - que náo tenham um conteúdo de semido "subjetivo", na medida em que não entrem em
incorrer ou de cuja formação podemos ter a experiência intuitiva. Ao comrário, muitas vezes relações com a aç:1o como "meios" ou "fins", mas representem apenas a ocasiào, o estímulo
não conseguimos compreender, COm plena evidência, alguns dos "fins" últimos e "valores" ou o obstáculo 'desta, A grande ínundação que deu origem à formaç:1o do Dollart, no fim do
pejos quais podem orientar-se, segundo a experiência, as ações de uma pessoa, eventualmente século XlIlI02n)], tem (talvez) um significado "histórico" como estímulo a certOS processos
conseguimos apreendê-los imeleaualmente mas, por outro lado, quanto mais divergem de nossos de migração de considerável alcance, A mortalidade e o ciclo orgãnico da vida em geral: do
próprios valores últimos, tanto mais dificuldade encontramos em torná-los compreensíveis por desvalimento da criança aré o do ancião, têm naturalmeme alcance sociológico de primeira ordem
uma reviv~ncia mediante a imaginação intuitiva, Nessas condí.pe:;, temos de contentar·nos, con- em virtude dos diversos modos em que a ação humana se orientou e se orienta por essas circuns-
forme o caso, com sua imerpretaç:1o exclusivamente incelecruaJ, ou, eventualmente, quando tincias Outra categoria diferente constituem as proposições empíricas suscetíveis de compreen-
até eSta tentativa falha, aceitá-los simplesmente como dados. Trata·se, neste caso, de tornar são sobre O desenrolar de fenõmenos psíquicos e psicofisiológicos (cansaço, rOlina, memória
inteligível para nós o desenrolar da aç:1o por eles motivadas, a partir de seus pontos de orientação etc., mas, também, por exemplo, euforias IÍpicas ligadas a determinadas formas de mortificação,
interpretados inteleaualmente na medida do possível, ou inruirivamente revividos, na maior diferenças tipicas nos modos de reação quanto à rapidez, maneira, inequivocidade etc) Mas,
aproximação possível. A esta classe pertencem, por exemplo, muitas ações virtuosas, religiosas em última instãncia, a situação é a mesma dos oultos fatos não suscetíveis de compreensão:
e caritativas para quem é insensível a elas, do mesmo modo que muitos fanatismos de eXlremo do mesmo modo que a pessoa atuame na prátjca, a consideração compreensiva os aceita como
racionalismo ("direitos humanos") para quem, por sua vez, se aborrece radicalmente desses "dados" com os quais há de contar.

-
,
6 MAXWHBER 7
-~
ECONOMIA E SOCIEDADE

Há ainda a possibilidade de que a investigação futura descubra regularidades ruo suscelÍveís Toda interpretação pretende alcaaçar evidência (tópico 3) Mas nenhuma interpretação,
de compreeruão em comportamentos especificos dotados de sentido, por menos que isto tenha por mais evidente que seja quanto ao sentido, pode pretender, como tal e em virtude desse
acontecido até agora. Diferenças na herança biológica (das "raças"), por exemplo, teriam de caráter de evidência, ser também a interpretação causal válida. Em si, nada mais é do que uma
ser aceitas pela Sociologia como dados desde que e na medida em que se pudessem apresentar hip6rese causal de evidência particular. a) Em muitos casos, supostos "motivos" e "repressões"
provas estatísticas concludentes de sua influência sobre o modo de comportamento sociologi- (isto é, desde logo, motivos não reconheCidos) ocultam ao próprio agente o nexo real d:J orien-
camente relevante - especialmente, portanto, sobre o modo como se dá na ação social a refe- tação de sua ação, de modo que também seus próprios testemunhos subj etivamente sinCer?s
rência ao seu sentido -, do mesmo modo que a Sociologia aceita fatos fisiológicos do tipo têm valor apenas relativo Neste caso, cabe à Sociologia a larefa de averiguar essa conexao
da necessidade de alimentação ou dos efeitos da velhíce sobre as ações. E o reconhecimento e fixá·la pela interpretação, ainda que nãO tenha sido elevada á consciência, OlI, o que se aplica
de seu significado causal nada alteraria, naturalmente, nas tarefas da Sociologia (e das ciências á maioria dos casos, não o lenha sido plenamente, como conexão "visada" concretamente: um
qlIe se ocupam com a ação, em geral). compreender interpretativamente as ações orientadas caso-limite da interpretação do semido. b) manifestaçôes externas da ação que consideramos
por um sen{jdo. Ela se limitaria a inserir, em dererminados pOntos de suas conexões de motivos, "iguais" ou "parecidas" podem basear·se em conexões de semido bem diversas para o respectivo
interpretáveis de maneira compreensível, fatos não suscetíveis de compreensão (por exemplo, agente ou agentes; e" compreendemos" também ações extremamente divergentes, ou até opostas
relações típicas de fteqüência entre determinadas finalidades das ações ou do grau de sua radona- quanlO ao sentido, em face de situações que consideramos "idênticas" entre si (exemplos na
Iidade típica e o índice craniano ou a Cor da pele ou quaisquer outras qualidades fisiológicas obra de Simmel, Die Probleme der Geschichtsphilosophie). c) Diante das situações dadas, os
hereditárias), o que já hoje em dia ocorre nesta área (ver acima) agentes humanos ativos estão freqüentemente expostos a impulsos contrários que se amagonizam,
5· Compreensão pode significar: I) compreensão acuaI do sentido visado de lIma ação todos eles "compreensíveis" para nós. Mas, seja qual for a inrensidJde relativa com que C05lUmam
(iaclusive de uma maaifestação) "Compreeademos", por exemplo, de maneira atual, o sentido se manifeslar as diversas referências ao sentido envolvidas na "Ima dos motivos" igualmente
da proposição 2 x 2 = 4 que ouvimos ou lemos (compreensão racional atual de pensamentos), compreensíveis para nós, é algo que, em regra e segundo lOdo a experiência, não se pode
ou um ataque de cólera que se manifesta na expressão do rosto, interjeiçôes e movimentos avaliar seguramente e, em grande número de casos, nem aproximadamente. Somente o resultado
irracionais (compreensão irracional atual de afetos), ou o comportamento de um lenhador ou efetivo da luta dos motivos nos esclarece a esse respeito. Como em lOda hipótese, é imprescindível,
de alguém que põe a mão na maçaneta par. fechar a porta ou que 'ponra com o fuzil para portanto, o controle da interprelação compreensiva do sentido, pelo resultado no curso efetivo
um anímal (compreensão racional atual de ações) Mas, compreensão pode significar também: da ação. Esse controle só pode ser alcançado, com precisão relativa, nos casos especialmente
2)compreensão explicativa: ,. compreendemos", pelos mocivos, que sentido tem em mente aquele adequados a este fim e ilÚelizmente raros de experiências psicológicas. Também por meio da
que pronuncia ou escreve a proposição 2 X 2 = 4, para fazê-lo precisamente nesse mamemo CSlalística, mas apenas em grau muito variado de aproximação, nos casos (igualmente limitados)
e nessa situação, quando o vemos ocupado com um cálculo comercial, uma demonstração cientí~ de fenômenos em massa de natureza enumerável e inequívoca quanto a sua imputabilidade.
flca, um cálculo técnico ou outra ação a cuja conexão "pertence" aquela proposição pelo senrido De resto, há apenas a possibilidade de comparar o maior número possível de processos da
que nós atribuímos a ela, quer dizer, a proposição adqlIire umaconexio de semido compreensível vida histórica ou cotidiana que sejam quase idênticos mas que dlfiram num único pontO decisivo:
para nós (compreensão racional de motivação) Compreendemos as .ções de tirar lenha ou de o "motiva" ou "impulso" a ser examinado cada vez com respeito a sua significação prático.
apontar com o fuzil não apenas de maneira atual, mas também pelos motivos, quando sabemos 1sto constitui uma tarefa importante da Sociologi. comparada. Em muitos casos, entretanto,
que o lenhador executa essa ação para ganhar um salário ou para consumo próprio ou para só resta o meio inseguro da "experiência ideal", qlIef dizer, a eliminação imaginada de certos
recrear-se (racional), ou então "porque descarregou uma exciração" (irracional), ou quando componentes da cadeia de motivos e a construção do desenvolvimento enrão provável da açào,
sabemos que o atirador age assim obedecendo a uma ordem de executar alguêm, ou combatendo para alcançar uma imputação calIsal .
um inimigo (racional), ou por vingança (de maneira aferiva, e neste sentido, irracional) Final- A chamada "lei de Gresham", por exemplo, é urna interpretação tacionalmente evidente
mente, compreendemos, pelos motivos, a cólera, quando sabemos que a origem dela é o ciúme, da ação humana em condiçóes dadase sob o-pressuposto ideal· típico de lIma ação orientada
a vaidade ofendida ou a honra ferida (ação afelivameme condicionada; ponanto, irracional pelos por selI objetivo, de maneira paramente racionaL Até que pomo a ação real corresponde a
motivos). Todas estas são conexões de sentido compreensíveis, cuja compreensão consideramos essa lei é uma coisa que somente pode ensinar-nos a experiência (expressável, a princípio, em
uma explicação do curso efetivo da ação. "Explicação" significa, portamo, para uma ciência alguma forma "estatistica") sobre o desaparecimento efetivo da circulação das classes de moedas
ocupada com o sentido da ação, algo COmO: apreensão da conexão de sentido a que pertence
uma ação compreensLvel de maneira atual, segundo seu sentido subjetivamente visado (sobre
o significado causal desta "explicação" ver item 6) Em todos estes casos, incluídos os processos
que a regulamentação monetária fixa abaixo de seu valor; essa experiência comprova, de fato,
a validade muiro ampla da lei. Na verdade, o curso do conhecimento foi eSte: primeiro existiram I
as observações empíricas e em seguida foi formulad, a interprelação Sem esta interpretação
afetivos designaremos o sentido subjelivo do evento e também o da conexão'de sentido como bem·sucedida, nossa pretensão à causalidade permaneceria evidentemente insatisfeitã. Mas, por
° outro lado, sem a prova de que o desenrolar idealmente construido do comportamento se reali~a
senlido "visado" (ultrapassando assim uso habitual que fala de "visar", neste sentido, somente
quaaoo se trata de ações racionais e intencionalmente orientadas por um fim)
.. 6. "Compreensão" significa em todos estes casos: apreensão interpretativa do sentido
ou da conerio de sentido: a)efetivamente visado no caso individual (na consideração histótica~
em alguma medida na prática, esse tipo de lei, por mais evidente que seja, seria uma conslruçao
sem valor algum para o conhecimento da açâo reaL Neste exemplo, é concllIdeme a concordância
entre adequação de sentido e prova empirica, e há número suficieme de casos para considerar
f
ou b) visado em média e aproximadamente (na consideração sociológica em massa), Ou c) O a prova suficientemente segura. A brilhame hipótese de Eduard Meyer sobre a importância ca usa I
~entidu ou conexão de sentido a ser construído cientificamente (como "ideal-rípico") para O das batalhas de Maralona, Salamina e Platéia para o desenvolv imento peculiar da cultura helênica
tipo puro (tipo ideal) de um fenômeno freqüente. Construções ideal-rípicas desta classe são, (e, com isso, da ocidental) - hipótese explorável quanto ao sentido e apoiada em proces.'os
por exemplo, os conceitos e as "leis" estabeleCidos pela teoria plIra da economia. Expõem como sintomáticos (alirudes dos oráculos e profetas helênicos para com os persas) - apenas pode
se desenrolaria uma ação humana de determinado caráter se estivesse orientada pelo fim de ser fonalecida pela 'prova obtida dos exemplos do componamemodos persas nos casos de vitória
maneira estritamente racional, sem perturbação por erros e afetos, e se, além disso, estivesse Oerusalém, Egito, Asia Menor) e, portamo, rem de permanecer necessariameilte incompleta em
orientada exclusiva e inequivocamente por um único fim (o econômico). A ação real decorre muitos aspectos. A considerável evidênCia racional da hipótese forçosamente serve. de apo!o
apenas em raros casos (Bolsa) mesmo então só aproximadamente, tal como foi construída no nesse pomo. Mas, em muitos casos de imputação histórtca mu"o evidente na aparenc.., nao
tipo ideaL (Sobre a finalidade de tais construções ver [meu artigo em)Ardlív {iir Sozíalwíssenschafr, há posSibilidade alguma de uma prova desse tipo. Em conseqüência, a imputação permanece
~ p. 64 e sego [Gesammelre Aufsãrze zur Wissenschafrslehre, p. 190 e seg.] e abaixo tópico 11. definítivamente "hipótese".

f
~~~_ _,---- .......f·
MAX WEBER ECONOMIA E SOCIEDADE 9
7. Denominamos "motivo" uma conexão de sentido que, para o próprIo agente ou para a predsão, na semido das ciências naturais, Com que são concebidos, jamais é este o caminho
o observador, constitui a "razão" de um comportamento quanto ao seu sen[ido. Deflominam01 ceno para chegar a uma interpretação que se baseia no seneido visado. Para a Sociologia (no'
"adequado quanto ao sentido" um comportamento que se desenrola de maneira aniculada quan- sentido aqui adotado, assim como para a HJStória1 O objeto a set investigado é precisameme
do afirmamos, comorme os hábitos médios de pensar e sentir, que a relação entre seus comjX)- a conexão de sentido das açôes. Podemos procurar observar e investigar, em princípio, pelo
nentes constitui uma conexão de sentido típica (costumamos dizer "correta") Ao contrário, é menos, o componamemo das unidades fisiológicas, das células, por exemplo, ou de elementos
"causalmeflte adequada" uma seqüência de fenômenos na medida em que, segundo as regras psíquicos quaisquer, obter regras ("(eis") correspondentes e, apoiando-nos nestas, "explicar"
da experiencia, existe a possibilidade de que se efetue sempre da mesma maneira. (Segundo fenómenos isolados, isto é, subsumi-Ios a regras. A interpretação das ações, entretanto, somente
essas definições, é adequada quamo ao sentido, por exemplo, a SOlUÇa0 cor-rera de um problema leva em consideração esSeS fatos e regras na medida em que e no sentido de que o faz com
aritmético, de acordo com as normas correntes de calcular ou pensar Causalmente adequada outros fatos quaisquer (por exemplo, fatos físicos, aslronômicos, geológicos, bolánicos, zooló-
- no ámbito das ocorrências estatísticas - é a probabihdade existente, conforme as regras gicos, fisiológicos, anatômicos, psicopatológicos alheios ao sentido ou condiçôes cientifico-na-
comprovadas da experiência, de uma solução "correia" ou "falsa" - do pontO de vista de turais de faros técnicos)
nossas atuais normas, portanto também de um "'erro de cálculo" ou de um "enredamento de Para OUlroS fins de conhecimentO (por exemplo, jurídicos} ou para finalidades prálicas,
problemas" típicos.) A explicaçao Clusal significa, ponanto, a verificação de que, de acordo por outro lado, pode ser conveniente e mesmo i~ev},tá,~eJ Irat~r ~e delerminadas form~ções
com de[~rminada regra de probabilidade avaliável ou no raro caso ideal numericamente expres- sociais ("Estado", "cooperativa", "SOCIedade por açoes , fuodaçao )como se fossem mdlv.duos
sável, 3 determinado evento observado (interno ou externo) segue outro evento determinado (por exemplo, como detentores de direiros e deveres ou como Jgentes em açôes /uridiaJmente
(ou ap31 ece juntamente com ele) televames) Para a interpretaçáo compreensível das açôes pela Sociologia, ao contrário, essas
Um3 imerpreraçào causal correta de uma ação concreta significa: que o desenrolar externo formações nada mais siío do que desenvolvimentos e concatenaçôes de ações específicas de
e o mmi\'o são conhecidos de maneira exata e, ao mesmo tempo, compreensível qU3nto ao pessoas individuais, pois só estas são portadoras compr~ensíveis para nós de ações_ orientadas
sentido em seu nexo. Uma interpretação causal correia de uma ação fÍpica (tipo de ação compreen- por um semido. Não obstante, a SOCIologia nao pode Ignorar, mesmo para os propnos f]fls,
sível) significa: que o desenrolar considerado típico tanto se apresenta como adequado quanto aquelas formações conceituais de caráter coletivo próprias a outras concepções POIS a interpre-
ao sentido (em algum grau) quanto pode ser confirmado (em algum grau) como causalmente (ação da ação mantém com aqueles conceitos colerivos as três relações seguinte5: a) ela mesma
3dequado Na ausencia da adequaçãO de sentido, apenas temos uma probabilidade estatística se vê freqüefltemente obrigada a trabalhar com conceitos coletivos bastante semelh2ntes(muitas
incompreensível (ou não completamente compreensíveJ1 mesmo que exista regularidade máxima vezes denominados de forma inteiramente idêntica) se quiser chegar a Jlguma rermmologia
do desenrolar (tanto do externo quamo do psiquico) e esta possa ser fixada numericamente compreensível. Por exemplo, a linguagem jurídica, bem como a cocidiana, designa como' 'Estad,?"
com a maior precisão. Por outro lado, meSmo a adequaçao de sentido maIS evidente somente tamo o conceito lurídico quamo aquela realIdade da ação social d,ante da qual a regulamentaçao
pode ser considerada uma proposiçáo causal correia para o alcance do conhecimento sociológico jurídica pretende vigência. Para a Sociologia, a realidade .'Estado" não necessariamente se cOm-
na medida em que se comprove a existência de uma probabilidade (determinável de alguma põe exclusiva ou jusiamenle de seus elementos jurídÍcamenre relevantes E, em todo caso, nao
forma) de qlle a açào costuma desenrolar-se, de faro e com determinada freqliência ou aproxi- existe para ela uma personalidade coletiva "em ação". Quando fala do "Estado", da "nação",
mação (em média ou na caso "puro"), da maneira adequada quanto ao sentido_ Apenas aquelas ou da "sociedade por ações", da "família", da "corporação militar" ou de outras "formações"
regubridades estatísticas que correspondem a um senlido vísado compreemível de uma a\':i" semelhames refere·se meramente a determinado curso da ação social de indivíduos, efetivo
socia I são (conforme a definição aqui empregada) tipos de ações compreensíveis e, porr,mto, ou construido como possivel Atribui assim ao conceiw juridico que emprega, em vinude de
"regras sociológicas" E cof1Srituem ripos sociológicos de acontecimento real apenas aquebs sua precisão e caráter habitual, um sentido inteiramente distinto. A interpretação da ação deve
construções racionais de ações compreensíveis pelo semido que possam ser observadas na rea Ij. tomar nota do fa(o fundamentalmente importante de que aquelas formações coletIvas, que fazem
dade pelo meflOS tum alguma aproximação. Nem de longe ocorre que, paralelamente à adequ"'/IO pane tanto do pensamento cotidiano quanto do jurídico (ou de oueras disciplinasl sao reprcsen-
de _sentido inteligivel, cresça sempre a probabilidade efe(iva da freqüéncia de um desenrlJlar wç<5es de algo que em pane existe e em parte pretende vigência, que se encontram na mente
corresp0rluen(e Pois apenas a existência externa pc.:Je mOStrar em caJa caso se isso se dei "li de pessoas reais (não apenas dos juízes e funcionários, mas também do "público") e pelas quais
não Há eSlafísricJs (de mortalitl<tde, de fadiga, de rendimento Je máquinas, de quamilbde dt.: se oriencam suas ações. Como {ais, têm importãncia causal enorme, muitas vezes até dominante
chuva) tanto de processos alheios ao sentido quanto de proce.'sos dotados de sentido. A CS('" blic" par3 o desenrolar das açôes das pessoas rea is. Isto se aplica especialmente às representações
sociológica (de Ctiminaildade, Je profissões, de preço.s, de cultivo), emrelanto, se limIta ""s de algo que deve ter l'igencia (ou não a deve ter) (Um "Estado" moderno existe em grande
últimos. (Na I uralmente s:io freqüentes os casos que compreenJem :Imhu', por exernp!", a l'st;1I is- medIda dessa maneira - comO complexo de específicas ações coniumas de pessoas ~, porque
tica dos colheitas) determinadas pessoas orientam suas ações pela idéia de que eSle eXlsre ou deve eXÍstir dessa
B. Processos c regularidades, que, por serem incompreensíveis, não podem 'l'r qll"lifi- forma, isto é, de que e5fãoem vigor regulamentações com aquele caráter juridicamente orientado.
cados como "fatos" ali regras "sociológicas", conforme a defmição aqui empregada, nem por Voltaremos a este assunto.) Ainda que, para a terminologia própria da Sociologia (ver a acima),
isso s:io menos imporranfes Também não o são para a Sociologia no semido aqui adorado (que seja possivel, embora pedante e prolixo, eliminar toralmente esses conceitos emprega?os pela
·1
Jmplica a i1mira\'ão à "Sociologi3 Compreensiva", que a ninguém deve nem pode ser imposta) linguagem corrente, não apenas para as pretensões jurídicas de vigênaa, mas tambem para
Só que, como é metlxlologicamenre inevitável, ocupam uma po.\ição distmta elas açôe., compreen- designar proc"ssos reais e SUbslituí-los por palavras inteiramente novas, é claro Que esseps?Cedi-
I
.1
siveis: a de "condições", "ocasiões", "obstáculc>s" ou "estimulo.'" destas. memo seria impossivel diante desse fato tão importante O método da chamada SOCIologIa orga-
.cc;;: 9. Aç:io como orientação compreensível pelo sentido do próprio comportamenw .sempre nicista" (tipo clássico: o brLlhante livro de Schãffle, Bau und Leben des sozialen Kõrpers) procur~
exiSle para nós unicamente na forma de comportamemo de um ou VáflOS indit'íd1l'" explicar a açâo social conjunta parrindo de um "todo" - por exemplo, uma "economIa naCIonal
Para oUlros fins de cunhecimento talvez possa ser Ú(i! oU necessário conceber o individuo, _ dentro do qual o indivíduo e Seu componamemo são ínterprerados da mesma m3nelta que, '\
por exemplo, como uma associação de "células" ou um complexo de reaçi)es bilXjuimicas, ou por exemplo, a fisiologi3 (rara da situação de um "órgão" dentro da "economIa" do organismo
.'lIa \'ida "psiqlllca" como algo COllStilUido por diversos elementos individu3is (como qu"r que
sejam qualificados) Sem dúvida, obtêm-se desse modo conhecimento.s \'a Iio",,,s (regras causais).
Con[Uuo, nós não compreendemos o compon:amemlJ expre:lSo em reRrJ-'" ue,'l,\t'!"i elemenw:-i Tam
hém nao o comrreendemos quando se trata de elementos psiquicos, e ran(o menos quanllJ m;]i"l
-- isW é, do pontO de vista da "conservação" desle} (Compare o famoso dIto, eIT,', aula, de
11m fisi6logo' "§ X O baço Do baço, senhores, nada sabemos Lsso quamo ao baço' _De fato,
aquela pessoa' 'sabia" bastame acerca do baço, posição, tamanho, forma e~~. So.mente nao soube
dizer nada sobre a "função", e a eS5a incapacidade chamou "não saber nada .) :'Iao exammaremos
II,
f
. . .1IiiIIiilIIII ...._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ I'
1
10 MAXWEBER ECONOMIA E SOCIEDADE 11

aqui at~, que ponto, em outras disc!plinas, esse tipo de consideração fundonal das "panes" fato serve ao Interesse de preservação do grupo diferenciado Onde quer que houvesse progreSso
de um tod? tem de ser (necessa!'l3mente! de caráter definitivo: é sabido que a Bioquímica na pesquisa desses aspectos este ocorreu pela clemonslração experimental (ou suposição) de
e a BJomecamca pnnclpalrnente nao podenam comentar-se com tal consideração_ Para uma estímulos químiC05 ou fatos fisiológicos (processos de nutrição, castração parasitária etc.) nos
Sociolo~ia int~rpretativa, ,esse modo de expri~ir-se pod<;: 1) servir para fins de ilustração prática respectivos indivíduos ísolados. Até que pomo há a esperança problemática de tornar-se veros-
e de Oflemaçao provlsóna (sendo nesta funçao mUllo util e neressário - ainda que também símil, por meios experimentais, a existência de uma orientação "psicológica" e "pelo sentido",
possa ser prej udidal no caso de uma superestimação de seu valor cognoscitivo ou de um falso é uma coisa que hoje nem os próprios espedalislaS poderiam dizer, Um quadro controlável
realismo conceitual}, e 2) em cenas drcunstâncias, somente ele pode nos ajudar a descobrir da psique desses animais individuais que vivem em sociedades, sobre a base de uma "compreen-
.1..: aquela. ação social CUia compreensão interpretativa seia imporrame para explicar determinada são" orientada pelo sentido, parece, mesmo considerado comO meta ideal, apenas alcançável
~onex.ao_ Mas someme nesse pomo começa o trabalho da Sociologia (tal como aqui o entendemos} dentro de limites muito estreitos. Em lOdo caso, não se pode esperar chegar por este caminho
E que, na caso das "formações sociais" (em oposição aos "organismos"1 estamos em condições à" compreensão" da ação social humana Muito pelo contrário, nesta área trabalha-se, e precisa-se
de reahzar uma COIsa que ulrrapassa a simples constatação de conexões e regras (" leis")funcionais trabalhar com analogias humanas, Talvez possamos esperar que essas analogias, algum dia, nos
e que está eternamente negada a todas as "ciências naturais" (no sentido do estabelecimento sejam úteis para resolver o seguinte problema: como avaliar, nas fases primitivas da diferenciação
de regras causais para processos e fenômenos e formações da "explicação" dos processos p.anicu- social humana, a área da diferenciação puramente mecânica, inslinciva, em relação ao que o
lares a partir dessas regras} precisamente a "compreensão" das ações dos indivíduos nelas envol- indivíduo compreende pelo sentido e, em continuação, ao que cria de maneira conscience e
VIdos, enquanto que, ao contrário, não podemos "compreender" O componamento, por exem- raciona I, A Sociologia Compreensiva terá de aceitar, sem dúvida, o fato de que também para
plo" das ,células, mas apenas registrá-lo funcionalmente e determiná-lo segundo as regras às o homem, nas fases primitivas, o primeiro componente é absolutamente predominante, e não
quaIs esta submetido, Esta vantagem da explicação interpretativa em face da explicação observa. deverá se esquecer de que esce, nas'fases posteriores de Sua evolução, continua a exercer influt'n~
dora tem, entretanto, se~ preço: o caráter muito mais hipotético e fragmentário dos resultados cia constante (e influência decisiva), Toda açao "tradicional" (§ 2) e boa pane cio "carisma"
obtJdos pela Interpretaçao, Mas, mesmo assim, esta constitui precisamente o ponto específico (capitulo I1I~ enquanto germe de "contaminação" psíquica e, por isso, ponador de "estímulos
do conhecimento 5Oci610gico, de desenvolvimento" sociológicos, estão muito próximas, com transições imperceptíveis, daque-
. Até que ponto pode ser-nos "compreensível" pelo sentido o componamento de animais les processos apenas biologicamente explicáveis, não suscetíveis de interpretação ou apenas frag-
e vIce-versa - ambas as coisas num sentido altamente inseguro e problemático em sua extensão mentariamente interpretáveis, quanto aos motivos, Mas tudo isso não dispensa a Sociologia Com-

. ,
.' -, e até que ponto, ponanto, poderia haver uma sociologia das relações entre homens e animais
(anima_is domésticos, animais de caça - muitos animais "compreendem" ordens, cólera, amor,
preensiva da tarefa, com plena consciência de seus estreicos limites, de fazer o que só ela pode
fazer,
mte~çoes agressivas e reagem perance essas atitudes, evidentemente não apenas de maneira ~) Os diversos trabalhos de Olhmar SPAN ~ ricos de idéias aceitáveis, ocasionalmente prejudi-
mecamca, instintiva, mas muitas vezes de alguma forma na qual transparece a consciência de cadas por equívocos e, sobretudo, por argumentos baseados em juízos puramente valorativos
um sentido e a orientação pela experit'ncia) é um problema do qual não trataremos aqui. No alheios à investigação empírica - têm sem dúvida razão em sublinhar a imponância, por ninguém
f~ndo, o grau em que coml'reendemos intuiCivamente o componamento de' 'homens primitivos" seriamente contestada, da colocação prévia do problema da funcionalidade (procedimento que
nao é essencJalmente supenor. Mas, quanto aos métodos seguros de constatar a situação subjetiva ele chama "método universalista") para toda a Sociologia, Cenamente temos de saber prlf!l~!~o
do animal, estes em pane não existem, em parle são bastante insuficientes: como é sabido, quais são aS ações que tt'm importância funcional, do pomo de v'isià da "c6'ti5erv-ação" (mas:
os problemas da psicologia animal são tão interessantes como espinhosos. Existem e são pa nicu- além disso e sobretudo, também da peculiaridade culturalkclod~llvp!vi!1!ent()emdeterminada
lar~ente conhecidas sociedades animais das mais diversas espécies: "familias" monógamas e direçâo de um~eação social, ._an!~s ."!.e..Jl2der fazer_.!!~,g~ll!a-'-.9!!"Lt_~~,~)[~ig~de~s~
poh?amas, rebanhos, alcatéias e, por fim, "Estados" com divisão de funções, (O grau da diferen· ações? Quais são º,,-lI1~ivos qu_~ de~rmin..m? Precisa-se saber primeiro quais são as taretas
c,aÇlo funCIonai dessas sociedades animais não rorresponde, de modo algum, ao grau da diferen- de -um"rei~um "funci0tlário:',_u""- "etllpres!r!ü",_ym "rufiâo",. um "mágico". -:- quaissão
(laça0 evolutiva morfológica ou dos órgãos alcançada pela respectiva espécie animaL Assim, as ações típicas (pois só elas o enquadram numa dessascategorJas) que têm ]mjJOrrâiJCia @a
!;'Or ,:xemplo, a diferenciação funcional das térmitas ~, por conseguinte, a de seus anefatos, } análise e nel~ J~.rª--'?~9\lSideradas, amescle comeÇaX a fazer a prÓ[irlã-ãi-lálTse("rclerênciã-
e mUllO ma~or do que a das formigas e das abelhas,) E evidente que, na maioria desses casos, ao valor" no semido de H. Ricken). Mas só essa análise, por sua vez, realiza o que a compreensão
a mvesllgaçao tem de aceitar como definitiva, por enquanto, a consideração puramente funcional: sociológica das ações de indivíduos tipicamente diferenciados (e só de indivíduos humanos) pode
o estudo das funções decisivas que tt'm os tipos particulares de indivíduos ("reis", "rainhas", e deve realizar Em todo caso, cabe eliminar o enorme equivoco de que um mtrado "indivi-
"operários:', "soldados", "7.angões", "reprodutores", "rainhassubstitucas" elc.) na preservação dualista" significa uma ValoraçãO individualista (em qualquer semido), tal como a opinião de
das respectIvas sociedades animais, isto é, na alimentação, defesa, propagação e renovação dessas que o caráter inevitavelmente raciona lista (em termos relativos) da conceituação significa a crença
sociedade~, Tudo,o que ultr~passou os limites dessa consideração foram, por muito tempo, puras no predomínio de motlvos racionais ou até uma va/ocaçio positiva do "racionalismo", Também
especulaçoes ou Investlgaçoes referentes ao grau em que predisposições hereditárias, por um uma economia socialista teria de ser compreendida, pela Sociologia, de maneira' 'individualista",
lado, e o meio ambiente, por outro, panicipam na formação dessas disposições "sociais". (Assim, isto é, interpretando-se as ações dos individuas - os tipos de "funcionarios" que nela existem
particularmente, as controvérsias entre Weismann - cuja"onipotência da cultivação pela nature- -, do mesmo modo que, por exemplo, os processos de troca se compreendem mediame a
7.a" se fundamenta, em considerável grau, em deduções eXlra-empíricas - e Gõtte.) Mas há teoria da utilidade marginal (ou qualquer outro método "melhor" que um dia se encontre,
um ponto em que os pesquisadores sérios estão completamente de acordo: essa Jimilação ao mas que seja semelhante neste aspeao} Pois, também nesse caso, o decisivo trabaUlo empirico-
conhecimento funcional é uma in;unçao que se espera ser apenas provisória, (Veja-se, por exem- sociológico começa com a pergunta: que motivos derermill2ram e dererminam os funcionáriOS
plo, para a situação atual da pesquisa sobre as térmitas, o escrito de Escherich, 1909,) Não e membros individuais dessa "comunidade" a se componarem de tal maneira que ela chegou
se tr~la de limicar-se à percepção re1ativament., fácil da "importância para a preservação" das a existir e COntinua existindo? Toda conceituação funcional (partindO de um "todo") realiza
f~nçoes de cada um daqueles tipos diferenciados e de buscar saber de que modo torna-se expli- apenas o trabalho preparatório para isso, trabalho que - quando efetuado de maneira adequada
cavei aquela dIferenciação, seja rejeitando a herança de determinadas qualidades seja admitindo-a ~ é sem dúvida úliI e indispensável.
(c, neste caso, em nome de que interpretação desse pressuposto~ mas de saber também: I) 10, As "leis", como são habitualmente designadas por algumas proposições da Sociologia
o que é que decide o início da diferenciação num indivíduo ainda neulroe indiferencíado, Compreensiva - por exemplo, a "lei" de Gresham -, são probabilidades típicas, conflrmadas
e 2) o que leva o indivíduo diferenciado a componar-se (em média) de uma maneira que de pela observaç:1o, de determinado curso de ações sociais a ser esperado em determinadas condi-
"I
,i

12 MAXWEBER ECONOMIA E SOCIEDADE

ções, e que são compreensíveis a partir de mOlivos típicoS e do semido típico visado pelos agentesc tualmente o tipo médio, do gênero dos tipos empírico--estalÍsticos: constcução que n;lo r<''lucr
São compreensiveis e inequívOGls, em grau máximo, quando o curso típico observado baseia-se espedal esclarecimento metodológico.)~:!aªgll~dºu~JªJala,çl"S'!.s_QS "cípk(:Jf_~ r~frr!,:sç "'1II1)fl'
em motivos racionais orientados por fins (ou quando, por razões de conveniência, estes são ao ripa ideal Este,. por sua vez, fl!J!fe_se_r racio~lou ir~_ci~f1:a:IL~in2agu~na_,!,aj()ria ,hscas<,s
seK se
tomados como base do tipo metodicamenre construído), e quando a relação entre meio e fim,
segundo a experiência, é inequívoca (no caso do meio "inevitável"} Nesse caso é admissível
a afirmação de que, se se agisse de maneira rigor0S3rnente radonal, rer-se-ia de agir necem-
ºo rãliQrii.l(s~ni2r:e, QQrex~mpl9Jna teoria ~COn9!Ilil"ª)eemtodº_ca~o cQ{lSlJ:ya com a<bllJ.I
de sentido,
c' - -- - Deve-se compreender claramente que, no domíniO da Sociologia, somente se podem COtlS
riamenre dessa maneira e de nenhuma ouera (pois os agentes, no serviço de seus fins inequivo- 1ruir "médias" e, portamo, "tipOS médios" com alguma utlÍvocidade quando se trata de diferen~..s
camente definidos, dispõem, poi razões "técnicas", apenas desses meios e de nenhum outro). de grau entre ações qualitativamente iguais, determinad:!s por um sentidoc Existem tais casüs
Mas precisamente esse caso mostra, por ourro lado, como é errôneo considerar como fund:!memo Na maioria das vezes, porém, as ações histórica ou sociologicamenre relevantes estão influen-
"último" da Sociologia Compreensiva alguma "psicologia"c Por "psicologia" cada qual entende, ciadas por motivos qualltativameme heterogêneos. entre os quais nào se pode obrer uma' 'média"
hoje em dia, coisa diferente. Determinad05 fins metodológicos, no caso de um tcatamento de propriamente ditac As construções lípico-ideais da ação social feitas pela teoria econômica, por
certOS processos na base das ciências rulturais, justíficam a separação entre o "físico" e o "psíquí- exemplo, são, pOI1anto, "estranhas à realidade·' no sentido de que - neste caso - costumam
ca", coisa que, neste sentido, é estranha a disciplinas que se ocupam com a ação cOs resultados perguntar: como se agiria no caso ideal de uma racionalid:!de puramenLe orientad:! por um
de uma ciência psicológica que unicamente investiga O "psíquico", no senlido da metodologia fim, o econômico, para poder compreender a ação real determinada também, pelo menos em
Uas ciências naturais e COm os meios próprios a estas ciências, e, portanto, não se ocupa ~ pane, por inibições ligadas à tradição, por elementos afetivos, por erros, por considerações
<) que é l,ma coisa completamente diferente - da interpretação do comportamento humano e propósitos não-econômicos, l)na medida em que realmeme esteve co-deterrnlnada por motivos
quanto a seu sentido, quaisquer que sejam seus métodos, podem, naiuralmente, bem como racionais econômicos, no caso concreto, ou cosruma sê-lo no caso médio, Z) mas lambém para
os de qualquer outra ciência, ser importantes, no caso conerelO, para a investigação sociológica facilitar o conhecimento de seus motivos reais precisamente media nte a disrjncia entre seu curso
e, em muitos casos, O são em alto grau. Mas, em termos gerais, as relações que a Sociologia real e o típico-ideal' O mesmo aplica-se a uma construção lÍpico-ideal de uma atitude de rejeição
tem com a Psicologia nâo são mais íntimas do que as que tem COm todas as outras ciênciasc do mundo conseqüente, misricamel1le condicionada, perame a vida (por exemplo, em face da
O erro está no canceiro do "psíquico": ludo o que não é "físico" seria "psíquico"c Mas, certa- politica e da economia) Quanto mais nítida e inequivocamente se construam esses tipos ideais,
mente, nao é coisa "psíquica" osenrido de um exemplo aritmético que alguém tenha em mente. quanto mais alheios do mundo estejam, neste sentido, tanto melhor prestarão seu serviço, termi-
A consideração racional de uma pessoa sobre se determinada ação é proveitosa ou não para nológica, dassificatÓria, bem como heuristicamente. Na prática, não procede de outra forma
dererminados interesses dados, em visia das conseqüências a serem esperad:!s, e a deCisão resul- a imputação causal concreta que a História faz de acomecimentos isolados, quando, por exemplo,
tame são coisas cuia compreensão nem por um fio é facilitada por considerações psicológicasc para explicar o desenvolvimento da campanha militar de 1866, põe-se (único procedimento possí-
Mas é precisamente em tais pressupostos racionais que a Sociologia (incluída a Economia) funda- vel) a averiguar primeiro (teoricamente), tamo para Moltke quanto para Benedek, como cada
mema a maioria de suas "leis'c Na explicação sociológica dos aspectos irraCionais das ações, um dos dois, reconhecendo plenameme a própria simação e a do inimigo, teria agido no caso
ao comrário, a Psicologia Compreensiva pode presrar, sem dúvida, serviços de importãncia deci- de absoluta racionalidade orientad:! pelos fins, para comparar o resulrado com as ações reais
sivac Mas isro em nada altera a situação merodológica fundamentaL e então explicar causalmente a diferença observad:! (condicionada talvez por falsas iJÚormações,
] I. A Sociologia constrói ~ Oque já foi pressuposlO várias vezes como óbvio - conceitos erros, conclusões errôneas, temperamemo pessoal ou considerações não-estratégicas)_ Também
de lipos e procura regras gerais dos acomecimentosc Nisso contrapõe-se à História, que busca neste caso se emprega (de modo larente) uma construção racional típico-ideaL
a análise e imputação causal de ações, formações e personalidades individuais culruralmente Mas os conceitos construtiv05 da Sociologia são típico-ideais não apenas externa como
importantes. A conceilUação da Sociologia encontra seu material, como casos exemplares e eSsen- rambém internamentec A ação real sucede, na maioria dos casos, em surda semiconsciência
cialmente, ainda que não de modo exclusivo, nas realidades da ação conSideradas também rele- ou inconsciência de seu "sentido visado". O ageme mais O "seme", de forma indeterminada,
vames do ponto de vista da História. Forma seus conceitos e procura suas regras sobretudo do que o sabe ou tem "dara idéia" dele; na maioria dos casos, age instintiva ou habitualmeme
t:imbém levando em conta se, com isso, pode prestar um serviço à impuraçào causal histórica Apenas ocasionalmente e, no caso de ações análogas em massa, muitas vezes só em poucos
dos fenômenos eullUralmeme importantes. Como em IOda ciência generalizadora, seus conceitos, indivíduos, eleva·se ~ con.sciência um sentido (seja racional, seja irracional) da ação. Uma ação
devido à peculiaridade de suas abstrações, têm de ser relaii\"3meme vazios quanto ao conreúdo, determinada pelo sentido eferivamente, isto é, claramente e com plena consciência, é na real idade
dianre da histórica realidade concretac O que pode oferecer, em compensação, é a maior univoci- apenas um caso-limile. Toda consideração hísr6riC3 e sociológica rem de ter em conta esse falO
dade dos conceitosc Alcança-se esra maior univocid:!de pelo Ótimo possível de adequação de ao analisar a realidade. Mas isto não deve impedir que a Sociologia construa seus conceitos
sentido, ral como O pretende toda a conceituação sociológica. ESla adequação pode ser alcançada mediame a classificação do possível "semido subjetivo", isto é, como se a ação, seu decorrer
em sua forma mais plena no caso de conceitos e regras racionais (oriemad05 por valores ou real, se orientasse conscientemente por um sentido_ Sempre que se trata da consideração <ia
por fins) Mas a Sociologia procura rambém exprimir fenômenos irracionais (místiCOS, proféticos, realidade conerera, tem de ter em conta a distância entre esta e a construção hipotética, averi·
inspiracionais, afetivos) em conceitos teórico.' e adequados por seu senridoc Em todos os casos, guando a natureza e a medida desta distância.
racionais como irracionais, ela se distancia da realidade, servindo para o conhecimento desta É que metodologicamente se esrá muitas vezes perame a escolha entre termos imprecisos
da forma seguinte, mediante a indicação do grau de aproximaçã.o de um fenômeno histÓrico ou precisos. Mas, quando precisos, serão irreais e "típico-ideais" Neste caso, porém, os últimos
a um ou vário.' desses conceitos lOrna-se poSSível classificá-lo [quanto ao tipo]c O mesmo fenô- são cientificamente preferiveísc (Veja sobre tudo isto [o ensaio sobre a objetividade nas ciências i
I
mcno histórico, por exemplo, pode ter, numa parte de seus componemes, caráter "feudal", sociais (N.T.)IArchivfürSozia/wissenschafr, XIX, loc cit. [cf. acima, pc 6, tÓpicO 6]) I,
noutra pane, caráter' 'palCimonial", numa terceira, "burocrático" e, numa quarta, "carismático".
Par. que com esras palavras se exprima algo unívoco, a Sociologia, por sua vez, deve delinear f
tipos "puros" ("ideais") dessas coJÚiguraçães, 05 quais mostram em si a utlÍdade conseqüente lI. Conceito de ação social
de uma adequação de senrido mais plena passível, mas que, predsamente por isso, ralvez sejam 1,f
tão pouco freqüemes na realidade quanto uma reação fisica calculada sob o pressuposto de I. A ação social (inclUindo omissão ou tolerância) orienta-se pelo comportamento de outros,
um espaço absolutamente vazíoc Somente desta maneira, panindo do tipo puro ("ideal"), pode seja esre passado, preseme ou esperado como futuro (vingança por aragues anteriores, defesa
realizar·se uma casuística sociológicac É óbviO que, além disso, a Sociologia também utiliza even" comra ataques presentes ou -medidas de defesa para enfrentar ataques futuros) Os "outros" 'j,

~iIIiiiiiiíiiIoi
rf
""l'T -
i
14 MAXWEBER ECONOMIA E SOOEDADE 15

podem ser indivíduos e conhecidos ou uma multiplicidade indeterminada de pessoas completa- social, Ou por outrOS motivos semelhantes, então existe uma relação de sentido - seja referente
mente desconhecidas ("dinheiro", por exemplo, significa um bem destinado à troca, que o agente ao comporumenro da pessoa imitada, de terceiros Ou de am~ ~ntr~ esses.casas há, natural-'
aceita no ato de !roca, porque sua ação está orientada pela expeet:lliva de que muitos OUlrOS, mente, transições. Ambos - o oondicionamenlo pela massa e a ttrutaçao - sao flUIdos e repre-
porém desconhecidos e em número indeterminado, estarão dispostos a aceitá-lo também, por sentam casos-limite da ação social que freqüentemente encontraremos, ~r ~emplo, ao examina~
sua parte, num ato de troca futuro} a ação tradicional (§ 2} A causa da fluidez, nesses, bem como em vanos outros casos, esta
2. Nem todo tipo de ação - também de ação externa - é "ação social" no sentido aqui em que a orientação pelo comportamento alheio e o sentido da ação própria nem sempre podem
adotado. Aação externa, por exemplo, não o é, quando se orienta exclusivamente pela expectativa ser verificados claramente, nem sempre são consdenres e ainda mais raramente são completa-
de determinado comportamento de objetos materiais. O comportamemo interno só é ação social mente consciemes. Por isso nem sempre é possível distinguir, com toda certeza, a mera "influên-
quando se orienta pelas ações de outros. Não O é, por exemplo, o comportamentO religioso, cia" da "orientação" pelo sentido. Mas podem ser separadas conceilUalmenle, ainda que, narural-
quando nada mais é do que contemplação, oração solitária etc A atividade econômica (de um meme, a imitação puramente "rea!iva" tenha sociologicamente pelo mepos o mesmo alcance
indivíduo) unicameme o é na medida em que também leva em consideração o comportamento daquela imitação que representa uma "ação social" propriamente dita. E que de modo algum
de lerceiros. De maneira muito geral e formal isso já acontece, portanto, quando ela tem em a S<xiologia tem que ver somenre com a "ação social", mas esta conslilui (para o gênero de
vista a aceilação por terceiros do próprio poder efetivo de disposição sobre bens econõmicos. Sociologia de que aqui se lrata) o fato cemral, o faco que, para ela, como ciência, é, por assim
De um p,)nto de viSla material: quando, por exemplo, durame o consumo, !ambém leva em dizer, o elememo constitUtivo. Mas com isto nada se afirma a respeito da importância deste
consideração os futuros desejos de terceiros, orientandO por estes, entre outros fatores, as pró- em relação a outros fatos.
prias medidas para "poupar". Ou quando, na produção, faz dos futuros desejos de terceiros
a base de sua própria orientação etc. § 2. A ação social, como toda ação, pode ser determinada: 1) de modo racion:J1
3- Nem lodo tipo de conlato entre pessoas tem caráter social, senão apenas um compor- referente a fins: por expectativas quanto ao comportamenw de objetos do mundo eJete-
tamento que, quanto ao senlido, se orienta pelo comporlamemo de Outra pessoa. Um choque
entre dois ciclistas, por exemplo, é um simples aconlecimento do mesmo caráter de um fenômeno
-'rlor:-ê-ae
oUlras pessoas, utilizando essas expectativas como "condições" ou "meios"
para alcançar fiIlS próprios, ponderados e perseguidos ncionalmente, como sucesso;
natural. Ao contrário, já constituiriam "ações sociais" as tentativas de desvio de ambos e o xinga-
2) qerno<:fof<!.çiQfl!!.Lrefe(e,n!e.J!yalores: pela crença consciente no valor - ético,
mento ou a pancadaria ou a discussão pacífica após o choque.
4. A ação social não é idêntica a) nem a uma ação homogênea de várias pessoas, b) nem estélico, religioso ou qualquer que seja sua interpretação - absoluto e inerente a deter-
a qualquer ação influenciada pelo comportamento de oulras. a) Quando na rua, ao começar minado componamento como tal, independentemente do resultado; 3) rff;.f]1od...o.!!fet)vQ,
Uma chuva, muitas pessoas abrem ao mesmo tempo os guarda-chuvas, a ação de cada um (normal~ especialmeme emocional: por afetos ou estados emocionais atuais; 4)çlemqiptradiciq-.
mente) não está orientada pela ação dos outros, mas a ação de todos orienta~se, de maneira fljlt por costume arraigado.
. homogênea, pela necessidade de proteção cOnlra a água b) É sabido que a ação do indivíduo
está fortemente influenciada pelo simples falO de ele seencomrardentro de Llma "massa" aglome- I. O componamento eSlritamente tradicional- do mesmo modo que a imitaçío puramente
rada em determinado local (objeto das investigações da "psicologia das massas", à maneira, reativa (veja o § anterior) ~ encontra-se por completO no limite e mui!as vezes além daquilo
por exemplo, das estudos de Le Bon) ação condicionada pela massa. E massas dispersas, também, que se pode chamar, em geral, ação orientada "pelo sentido". Pois freQÜemememe não passa
ao influirem sobre o individuo (por exemplo, por intermédio da imprensa), por meio de ações de uma reação surda a estímulos habituais que decorre na direção da alirude arraigada. Agrande
símullàneas ou sucessivas de muitos, percebidas como tais, podem tornar a ação do individuo maioria das ações cOtidianas habituais aproxima-se desse tipo, que se inclui na sistemática não
condicionada pela massa. Determinados tipos de reações são facilitados ou dificultados pelo apenas como caso-limite mas também porque a vinculação ao habitual (voltaremos mais tarde
simples fato de o individuo se sentir pane de uma" massa". Por conseguinte, determinado aconte- a este assunto) pode ser mantida conscientemente, em diversos graus e sentidos; nesse caso,
cimento ou comportamento humano pode provocar os mais diversos tipos de sentimentos: alegria, esse tipo se aproxima ao do tópico 2. .
cólera, entusiasmo, desespero ou paixões de todas as espécies, os quais não sucederiam (OLl 2. O componamento estritamente afetivo está, do mesmo modo, no limite ou além daquilo
não tão facilmente) no indivíduo isolado, como conseqüência - sem que exista, entretanto que é ação conscientemente orientada "pelo sentido"; pode ser uma reação desenfreada a um
(pelo menos na maioria dos casos), uma relação de sentido entre o comportamento do indivíduo estímulo nâo-c(){idiano. Trata-se desublimaÇio, quando a ação afetivameme condicionada apare-
e o falo de ele fazer parte de urna massa. Uma ação qLle, em seu curso, se determina ou se ce como descarga consciente do estado emocional: nesse caso encontra-se geralmente (mas nem
co-determina, de maneira apenas reativa, pelo simples fato de haver uma situação de "massa", sempre) no caminho para a "racionalização" em lermos valorativos ou para a ação referente
sem que haja uma relação de sentido com essa situação, não seria "ação social" no sentido a fins, ou para ambas.
aqui ad(){ado do termo. A distinção, entretanto, é naluralmente muilO fluida. Pois não apenas 3. Aação afetiva e a ação racional referente a valores distinguem-se entre si pela elaboração
na pessoa do demagogo, por exemplo, mas também na massa do público pode existir, em grau consciente dos alvos últimos da ação e pela orientação conseqíiente e planeiada com referência
diferente e suscetivel a diversas interpretações, uma relaçãO desemido com a silUaçãode "massa". a estes, no caso da última, Têm em comum que, para elas, o semido da ação não está no resultado
Além disso, a simples "imitação" da ação de oUlra pessoa (cuja importância, com toda a razão, que a transcende, mas sim na prÓpria ação em sua peculiaridade. Age de maneira afetiva quem
foi ressaltada por G. Tarde) não pode ser considerada urna ação especi{icamence "social" quando satisfaz sua necessidade atual de vingança, de gozo, de entrega, de felicidade contemplativa
é puramenle reativa, sem orientação da ação própria pela alheia quanto ao sentido. Neste caso ou de descarga de afetos (seja de maneira bruta ou sublimada}
o limite é tão flUido que muitas vezes a distinção parece impossível. Mas o simples falO de Age de maneira puramence racional refereme a valores quem, sem considerar as conse-
alguém adotar para si determinado comportamento observado em Outras pessoas e que lhe parece qüências previsíveis, age a serviço de sua convicção sobre o que parecem ordenar-lhe o dever,
conveniente para seu fins não é ação social em nosso sentido. Pois nesse caso o agente não a dignidade, a beleza, as diretivas religiosas, a piedade ou a importinda de uma "causa" de
orienta sua ação pelo comportamento de outros, mas, a observação desse comportamento permi- qualquer natureza. Em todos os casos, a ação racional referente a valores (no sentido de nossa
tiu-lhe conheoer determinadas probabilidades objetivas, e é por estas que orienta sua ação. terminologia) é uma ação segundo "mandamentos" ou de acordo com "exigências" que o agente
Sua ação está determinada causalmente pela de outra pessoa e não pelo sentido inerenle àquela. crê dírigidos a ele. Somente na medida em que a ação humana se orienta por tais exigências
Quando, ao contrário, se imita, por exemplo, um comportamento alheio porque está "na moda", ~ o que acontece em grau muito diverso, na maioria dos casos bastante modesto - falaremos
porque é considerado tradicional, exemplar ou "distinto" com respeito a determinada classe de racionalidade referente 3' valores. Conforme veremos, possui significação bastante para ser
1 16 MAXWEBER

destacada como tipo especial, embora, de resto, não se pretenda dar aqui uma classificaçio
completa dos tipos de ação
ECONOMIA E SOCIEDADE 17

ao sentido, à atitude do parceiro, que exista, ponamo, "reciprocidade" nesce sentido da palavra
"Amizade", "amor", "pieclade", "fidelidade contratual", "sentimento de solidariedade nacio-
4. Age de maneira racional referente a fins quem orienta sua ação pelos fins, meios e nal", de um lado, podem encontrar-se, do outro lado, com atividades completamente diferentes.
conseqüências secundárias, ponderando racionalmente tanto os meios em relação às conseqüên- Nesse caso, os participantes ligam a suas ações um sentido diverso: a relação é, assim, por
cias secundárias, assim como os diferentes fins possíveis entre si: isto é, quem não age nem ambos os lad05, objetivamente "unilateral". Mas mesmo nessas condições há reciprociclade,
de modo afetivo (e particularmente não-emocional) nem de modo tradicional. A decisão entre na medida em que o ageme pressupõe determinada atitude do parceiro perante a própria pessoa
fins e conseqüências concorrentes e incompatíveis, por sua vez, pode ser orientada racionalmente (pressuposto talvez completa ou parcialmente errõneo) e orienta por eSSa expectativa sua ação,
com rderência a valores: ntO.'se caso, a ação só é racional com referência a fins no que se o que pode ter, e na maioria das vezes terá, conseqüências para o CUrSo da ação e a forma
refere aOS meios. Ou também o agente, sem orientação racional com referência a valOtes, na da relação. Naruralmeme, esta é apen" objetivamente" bilateral" quando há "correspondências"
forma de "mandamentos" ou "exigências", pode simplesmente aceitar os fins concorrentes e quanto ao conteúdo do sentido, segundo as expeaarivas médias de cada Um dos panicipantes.
incompa tíveis como necessidades subjetivamente dadas e colocá· los numa escala segundo sua Por exemplo, quando, cliame da atilUde do pai, o filho mostra, pelo menos aproximadamente,
utgência conscientemente ponderada, orientando sua ação por essa escala, de modo que as a atitude que o pai (no caso concreto, em média ou {jpicamente) espera. Uma relação social
necessidades possam ser satisfeitas nessa ordem e5tabelecida (princípio da "utilidade marginal") baseada plena e inteiramente, quanto ao sentido, em atitudes correspondentes por ambos os
Aorientaçio racional referente a valores pode, portanto, estar em relações muito diversas com lados é na realidade um caso-limite. Por outro lado, a ausência da bilateralidade somente exclui,
" orientação racional referente a fins. Do ponto de vista da racionalidade referente a fins, entre- segundo nossa terminologia, a existência de uma "relação social" quando tenha essa COnse-
canto, a r3cionalidade referente a valores terá sempre caráter irracional, e lanto mais quanto qüência: que falte de faro urna referência reciproca das ações de ambas as partes. Transições
mais eleve o valor pelo qual Se orienta a um valor absoluto; pois quanto mais considere o valor de todas as espécies constituem aqui, 'como sempre na realidade, a regra e não a exceção.
próprio da ação (atitude moral pura, beleza, bondade absoluta, cumprimento absoluto dos deve- 4. Uma relação social pode ter um caráter imeiramente transitório, bem como implicar
res) tanto menos refletirá as conseqüências dessa ação. Mas também a racionalidade absolura permanência, isto é, que exista a probabilidade da reperição contínua de um comportamento
referente a fins é essencialmente um caso-limire conSiruído. correspondente ao sentido (considerado como tal e, por isSo, esperado} A "exisrência" de Uma
5. Só muito raramente a ação, e panicularmente a ação social, orienta·se exclusivamente relação social nada mais significa do que a presença dessa probabilidade, maior ou menor,
de uma ou de outra destas maneiras. E, naturalmente, esses modos de orientação de modo de que ocorra uma ação correspondente ao sentido, O que sempre se deve ter em conta para
a19um representam uma classificação completa de todos os tipos de orientação possíveis, senão
tipos conceitualmente puros, criados para fins sociológicos, dos quais a ação real se aproxima
evitar idéias falsas. Aafirmação de que urna "amizade" Ou um "Estado" exisreou existiu significa,
ponanto, pura e exclUSivamente: nós (os observadores) iulgamos que há ou houve aprobabilidade
J r
mais ou menos ou dos quais - ainda mais frequentemente - ela se compõe. Somente os resul- de que, por causa de determinada atitude de determinadas pessoas, se agirá de determinada
. tados podem provar sua utilidade para nossos fins maneira indicável, de acordo com um sentJdo visado em média, e mais nada (compare tópico
2) A alternativa, inevitável na consideração jurídica, de que uma disposição de dírei[Q com
§ 3. Por" relação" social emendemos o comportamento reciprocamente referido determinado sentido tenha ou não validade (em termos jurídicos1 de que uma relação de direito
quanto a seu conteúdo de sentido por uma pluralidade de agentes e que se orienta ou bem existe ou deixa de exislJr, não se aplica, portanto, à consideração sociológica_
por essa referência A relação social consiste, portamo, completa e exclusivamente 5. O conteúdo do sentido de uma relação social pode mudar: numa relação politica, por
na probabilidade de que se aia socialmente numa forma indícável (pelo sentido), não exemplo, a solidariedade pode transformar-se numa colisão de interesses. Neste caso, é apenas
uma queslão de conveniência terminoJógka e do grau de continuidade na transformação dizer
importando, por enquanto, em que se baseia essa probabilidade. que se criou uma "nova" relação ali que a amerior conrinua com novo "conteúdo do sentido"
Também é pü55ive1 que esse conteúdo seja em parte perene, em parte variável.
I. Um mínimo de relacionamento recíproco entre as ações de ambas as partes é, portanto, 6. O conteúdo do sentido que constitui de maneira perene uma relação social pode ser
a caracteristica conceitual. O conteúdo pode ser O mais diverso: luta, inimizade, amor sexual, expresso na forma de "máximas", cuja observação média ou aproximada os panicipames esperam
amizade, piedade, troca no mercado, "cumprimento" ou "contorno" ou "violação" de um acor- do ou dos parceiros e pelas quais oriemam (em média ou aproximadamente)suas próprias ações.
do, "concorrência" econõmica, erótica ou de outro tipo, comunidade estamental, nacional ou Isto ocorre tanto mais quanto mais a ação, segundo seu caráter geral, se orieme de maneira
de classe (no GlSO de estas últimas, além de meraS características comuns, produzirem' 'ações racional - seja referente a fins, ou a valores. No caso de uma relação erÓtica ou afetiva em
sociais" - voltaremos a isso mais tarde) O conceito, portanto, nada diz. respeito de que geral (de piedade, por exemplo), a possibilidade de uma formulação racional do conteúdo do
exista "solidariedade" entre os agentes ou precisamente o contrário sentido visado é naturalmente muito menor do que, por exemplo, no caso de uma relação contra·
2. Sempre se trata do sentido empírico visado pelos partiCipantes no caso concreto, em lUal de negócios.
média ou no tipo "puro" construido, e nunca do sentido normativamente "correto" ou metafisi- 7. O conteúdo do sentido de uma relação social pode ser combinado por anuência recipro-
camente "verdadeiro". A relação social consisre exclusivamente, mesmo no caso das chamadas ca. Isto significa que os panicipantes fazem promessas referentes. seu comportamento fUlUro
"formações sociah" como "Estado", "Igreja", "cooperativa", "matrimõnio" ete., na probabi· (comportamento mútuo ou outro qualquer) Cada um dos participantes - desde que pondere
lidade de haver, no passado, no presente ou no futuro e de forma indicável, ações reciprocamente racionalmente - considera então, em condições nonnais (e com diverso grau de certeza), que
referidas, quanro ao sentido Deve-se sempre ter em conta isso, para evirar a "subsrancialização" o ouuo orientará sua ação pelo sentido da promessa tal como ele (o agente) a entende. Este i
desses conceitos. Um "Estado", por exemplo, deixa de "existir" sociologicamente tão logo desa-
pareça a probabilidade de haver determinados tipos de ação social orientados pelo sentido.
orienra sua própria ação de maneira racional, em parte referida a fins (com maior ou menor
"lealdade" ao sentido da promessa), em parte a valores, isto é, no caso, ao dever de "observar", [
Essa probabilidade pode ser muito grande ou extremamente pequena. No mesmo sentido e por sua vez, o acordo contraído segundo o seu sentido para ele_ Isto em antecipação do assunto
na mesma medida em que ela realmente (pelo que se estima) existiu ou existe, existiu ou existe ao qual voltaremos nos §§ 9 e I3.
também a respeaiva relação social. Não há Outro sentido claro que se possa vincular à afirmação
de que, por exemplo, determinado "E.srado" ainda "exisle" Ou deixou de "existir".
§ 4. Podem ser observadas, na ação social, regulaC'idades de fato, isto é, o cuno
I
3 Não se afirma de modo algum que, no caso concreto, OS participantes da ação recíproca· !
mente referida ponham o mesmo sentido na relação social ou se adaptem internamente, quanto de uma ação repete· se sempre com o mesmo agente ou (às vezes simultaneamente) :l
11·

.......iiiiiiIiiI ....."""-_iiriIiiIiiI ..... _ :r


18 MAXWEBER ECONOMIA E SOCIEDADE 19

é comum entre muitos agentes, com sentido tipicamente homogêneo. Com estes tipos ções de interesses. Esse processo, no entanto, 0;10 esgou o oonçeilO da "racionalização" da
de cursos das ações ocupa-se a Sociologia, em oposição à História, que trata da imputação ação. Pois pode suceder que esta corra, de maneira positiva, em direção a uma racionalização'
causal de conexões singulares importantes, isto é, relevantes para o destino {do âmbito consciente de valores, porém, de maneira negativa, às custas não apenas do cOS(ume mas igual·
cultural de referência (N T.)]. mente da ação afetiva, e finalmeme também em direção 11 ação puramente racional referente
Denominamos uso a probabilidade efetivamente dada de uma regularidade na a fins e não crente em valores, às custas da ação racional referente a valores. Ainda nos ocupa·
orientação da ação social, quando e na medida em que a probabilidade dessa regulari- remos em vãrias ocasiõesdestapoJissemia do conceito de "racionalização" da ação. (pormenores
dade, dentro de determinado círculo de pessoas, está dada unicamente pelo exercício sobre o conceito, no final.)
efetivo. Chamamos o uso costume, quando o exercício se baseia no hábito inveterado. 4. A estabilidade do (mero) costume baseia-se na circunstância de que quem não oriema
por ele suas ações age de maneira "imprópria", isto é, tem de aceitar maiores ou menores
Dizemos, ao contrário, que a regularidade é condicionada pela "situação de interesses"
incomodidades e inconveniências enquanto a maioria das pessoas de seu círculo, em suas ações,
('condicionada por interesses"), quando e na medida em que a probabilidade de sua continua a contar com a existência do cOS(ume e por ele se oriema.
existência empírica depende unicamente de que os indivíduos orientem por expectarivas Aestabilidade da situação de inreresses fundamenta-se, de maneira semelhante, na circuns-
suas ações puramente racionais referentes a fins. tância de que quem não oriema suas ações pelo interesse dos outros - não "contando" com
este - provoca a resistência deles ou chega a um resultado não desejado nem previsto, correndo,
I. O uso inclui também a "moda". Chamamos um uso "moda", em contraposição ao portanto, o risco de prejudicar seus próprios interesses.
"costume", quando (em exata oposição ao caso do costume) o fato da novidade de determinado
comportamento é a fonte da orientação das ações. A moda rem seu lugar próximo à "convenção"
porque, como esta, nasce (na maioria das vezes) de interesses de prestígio esramenrais. Não § 5. Toda ação, especialmente a ação social e, por sua vez, particularmente a ( I
trataremos dela mais de perto neste lugar. relação social podem ser orientadas, pelo lado dos participantes, pela representação
2. Chamamos "costume", em comraposição à "convenção" e ao "direito", uma norma da existência de uma ordem legítima. A probabilidade de que isto ocorra de fato chama-
não garantida externamente e à qual o agente de fato se atém, seja de maneira "irrefletida", mos "vigência" da ordem em questão.
seja por "comodidade" ou por outras razões quaisquer, e cuja provável observação, pelas mesmas
razões, ele pode esperar de outras pessoas pertencentes ao mesmo círculo. O costume, neste I. Para n6s, a "vigência" de uma ordem significa, portanto, algo mais do que a mera
semido, não é uma Coisa que está "em vigor": não se exige de ninguém que a ele se atenha. regularidade, condicionada pelo costume ou pela situação de interesses, do decorrer de uma
Naturalmente, a transição entre ele e a convenção válida ou O ,direito é absolutamente fluida. ação social. Quando empresas transportadoras de móveis anunciam regularmente nos jornais,
Por roda pane a tradição efetiva é a mãe do que tem vigência. E "costume" hoje que tomemos perto das datas em que se realiza a maioria das mudanças, essa "regularidade" está condicionada
determinado tipo de café-da-manhã. mas isto não é, de modo algum, "obrigatório" (a não ser pela "situação de interesses". Quando um merceeiro ambulante procura determinados fregueses
para hóspedes de um hotel), e nem sempre foi costume, O modo de se vestir, ao comrário, em determinados dias do mês ou da semana, isto se deve ou a um costume adquirido ou a
amda que oriundo do "costume", hoje em grande parte não é mais costume, mas convenção. sua situação de interesses (determinado turno em sua clientela} Quando, ao contrário, um funcio-
Sobre uso e costume podem ser lidos com proveito, ainda hoje, os respectivos parágrafos em nário público comparece todos os dias, à mesma hora, à repartição, isto se explica (também,
J"'.'NG, Zweck im Rechr, volume I[ Compare-se também P. OERT>W<N, Rechrsordnung und Verkehrs- mas)nãoapenas pelo hábito (costume)e (também, mas) não apenas por sua situação de interesses,
sine (1914), e, obra mais recente, E. WEIGEUN, Sitre, Rechr und Morai, 1919 (que concorda comigo segundo a qual pudesse agir ou não segundo sua conveniência, Explica-se (em regra: também)
em oposiçáo a Stammler) pela "vigência" de uma ordem (regulamento de serviço), como mandamento, alja violação não
3. Grande número de regularidades muito salientes no decorrer das ações so:x:iais, particu- apenas seria prejudicial, mas - normalmente ~ também é abominada de maneira racional
larmente (mas não apenas) das ações econômicas, não se baseia na orientação por alguma norma referente a valores, por seu "sentimento do dever" (ainda que com graus muito variados de
considerada "vigente" nem no costume, mas unicamente na circunstância de que o modo de eficácia)
aglr dos partiCipantes, por sua própria natureza, melhor corresponde, em média, a seus interesses 2 Ao conteúdo do sentido de uma relação social chamamos a) "ordem" somente nos
normais, subjetivamente avaliados, e que por essa avaliação subjetiva e esse conhecimento orien· casos em que a ação se orienta (em média e aproximadamente) por "máximas" indicáveis, e
tam sua ação: assim, por exemplo, as regularidades na formação dos preços no mercado "livre", somente falamos b)de "vigência" dessa ordem quando a orientação efetiva por aquelas máximas
No mercado, os interessados orientam sua ação (o "meio") pelos próprios interesses econômicos sucede, entre outros motivos, rambém (quer dizer, num grau que tenha algum peso na prática)
subjetivos rípicos (o "fim") e pelas expectativas, igualmente típicas, que nutrem a respeito da porque estas são consideradas vigentes com respeiro à ação, seja como obrigações, seja como
ação presumível dos outros (as "condições" para alcançar seu fim} Desla maneira, quanto mais modelos de comportamento. Na realidade, a orientação das ações com referência a uma ordem
rigorosa a racionalidade referente a fins em suas ações, tanto maior a semelhança de suas reações ocorre nos participantes por motivos muito diversos, Mas a circunstãncia de que, ao lado dos
perante determinadas situações. Disso decorrem homogeneidades, regularidades e continuidades outros motivos, para pelo menos uma pane dos agentes essa ordem aparece como algo modelar
na atitude e na ação, às vezes muito mais estãveis do que as que existem quando a ação se ou obrigatório e, por isso, como devendo ter vigência, aumenta naluralmente, e muitas vezes
Orienta por normas e deveres considerados de falO "obrigatórios" por delerminado círculo de em grau considerável, a probabilidade de que por ela se orientem as açôes. Uma ordem observada
pessoas. Esse fenômeno de que a orientação exclusiva pela situação de interesses, próprios e somente por motivos racionais com referência a um fim, é, em geral, muito mais mutável do
alheios, produz efeitos análogos aos que se procura impor - muitas vezes em vão - pelo que a orientação por essa ordem unicamente em virtude do costume, em oonseqüência dD hábito
EStabelecimento de normas, provocou grande interesse especialmente na área econômica: pode- de determinado comportamento, sendo esta a forma mais freqüente da atitude interna. Mas
se dizer que foi uma das fontes do nascimento da economia como ciência. ExiSle, entretanto, esta, por sua vez, é ainda mais mutável do que uma ordem que aparece com o prestígio de
de forma análoga, em todos os dominios da ação. Constitui, por seu caráter consciente e interna· ser modelar ou obrigatória, ou, conforme dizemos, "legítima ". As transições entre uma orien-
mente independente, o pólo oposto de todas as espécies de vinculação interna mediante a submis- tação puramente tradicional ou puramente radonal referente a fins por uma ordem e a crença
são ao" costume" puramente habitual, bem como de toda entrega a normas em que se acredita, em sUa legitimidade são, naturalmente, inteiramente fluidas na realidade.
orientando-se por um valor. Um componente essencial da "racionalização" da ação é a substi· 3. Pode·se "orientar" a ação pela vigência de uma ordem não apenas "cumprindo" O
tuição da submissão interna ao costume habitual pela adaptação planejada a determinadas situa- sentido dessa ordem (conforme é entendido em média). Também no caso de se "contornar"
1 20 MAXWEBER

ou "violar" esse sentido podealuar a probabilidade em algum grau de sua vigência (como norma
obrigatória) Em primeiro lugar, isso aCOOlece de maneira purameme racional referente a fins.
ECONOMIA E SOCIEDADE

3. de modo religioso: pela crença de que de sua observância depende a obtenção


21

de bens de salvação; .
O ladrão orienta sua ação pela "vígência" da legislação penal: ao ocultá-Ia. A "vigência" da 11. também (ou somente) pelas expectativas de determínadas conseqüências exter-
ordem, para determinado círculo de pessoas, exprime-se no fato de ele ter de ocultar a violaçãO nas, portamo: pela situação de ínteresses, mas: por expectativas de determinadogênero.
dela. Mas, abstraindo-se deste Clso-limile: muitas vezes, a violação da ordem se limlta a número
Uma ordem é denominada:
maior ou menor de transgressões parciais, Ou se procura, com maior ou menor grau de boa-fé,
apresentá-Ia como legítima Ou existem de fato interpretações diferentes do sentido da ordem, a) convenção, quando sua vigência está garantída externamente pela probabi-
tbs quais - para a Sociologia ~ cada uma tem "vigência" na medida em que efetivamente lidade de que, dentro de determinado circulo de pessoas, um comportamento discor-
determina as açóes. Para a Sociologia não há dificuldade em reconhecer a vigência paralela dante tropeçará com a reprovação (relativamente) geral e praticamente sensível;
de diversas ordens, contraditórias entre si, no mesmo círculo de pessoas. Pois mesmo o individuo b) direito, quando está garantida elCternameme pela probabilidade da coação (físi-
pode orientar suas ações por divers35 ordens contraditórías. E não apenas sucessivamente, O ca ou psíquica) exercida por determinado quadro de pessoas cuja função especifica
que acontece todo dia, mas tami:>ém dentro de uma úníCl ação. Uma pessoa envolvida num consiste em forçar a observação dessa ordem ou castigar sua violação.
duelo oriema sua ação pelo código de bonra, mas, ocultando essa ação ou, em vez disso, apresen-
tando-se ao tribunal, orienta-a pelo código penaL Quando, entretanto, a violação do sentido Sobre convenção, veja, além de ]hering, op. cit., Weigelin, op cit., e F. TO'NIES, Die Sirre
(conforme é entendido em média) de uma ordem ou o aIO de contorná-la se converte em regr3, (1909).
entào a urdem passa a ter "vigência" limitada ou, finalmente, deixa de existír. Entre a vigência
e a não-vigência de uma ordem não há, portanto, para a Sociologia, alternativa ai:>soluta, como 1. Chamamos convençào o "coslUme" que, no inrerior de determinado círculo de pessoas,
existe para a jurisprudência (em Virtude de sUa finalidade inevitável} Existem transiçóes fluidas é tido como "vigente" e está garantido pela reprovaçào de um comportamento discordante.
entre os dois casos, e pode haver, conforme já observamos, vigência paralela de ordens contradi- Em oposição ao direito (no sentido aqui adotado da palavra1 falta o quadro de pessoas especial-
tórias entre si, o que significa que cada uma delas vige na medida em que há a probabilidade mente ocupadas em forçar sua observação. Quando Stammler pretende distinguir a convenção
de que a açào efelivamente se oriente por ela. do direito pela "voluntariedade" absoluta da submissão no caso da prImeira, não está de acordo
Conhecedores da literatura pertinente lembram-se, sem dúvida, do papel que o conceito com o uso corrente da palavra nem acerta no caso de seus próprios exemplos A observação
de "ordem" desempenha no livro de R Starnmler, citado na nota preliminar deste capímlo da convençào (no semido corrente da palavra)- por exemplo, da forma habitual de saudaçào,
Ip. 3]--livro certameme escrito, como todas suas obras, em estilo brilhante, maS profundamente do modo de vestir-se, dos limites de forma e conteúdo nas relações com Outras pessoas -
equivoco e confundindo os problemas de maneira fataL (Compare minha crítica citada no mesmo constitui uma exigência ai:>solutamenre séria ao indivíduo, Tenha esta caráter obrigatório ou mode-
lugar - infelizmente numa forma um t.mo dura devido ao desgosto que senti perante tal confu- lar, não a deixando à livre escolba - como, por exemplo, o simples "costume" de preparar
são.) Stammler não apenas deixa de distinguir entre a vigência empírica e a normativa como a comida de determinada maneira. Uma falta contra a convenção CcoslUme estamental") é casti-
também desconhece que a aç30 social não se oríema unicamenre por "ordens", e sobretudo gada frequentemente com muito mais rigor, peJa conseqtiência eficaz e sen.sível do boicOle social
converte, de um modo que careCe de toda lógica, a ordem em "forma" <.la ação social, impon- declarado pelos membros do próprio estamento, do que o poderia fazer qua lquer forma de
do-lhe, em relação ao "conteúdo", um papel semelhante ao que a "forma" desempenha na coação jurídica. O que falta é apenas o quadro de pessoas especialmente ocupadas em garantir
teoria do conhecimento (prescindindo-se de todos os demais erros). Na realidade, a ação (primor- seu cumprimento Guizes, procuradores, fuocionárJos administrativos, exeuJlores etc. 1 mas a
dialmente) econômica (capímlo 11) orienta-se, por exemplo, pela idéia da escassez de meios transição é fluida. O caso-limite da garamia convencional de uma ordem, em transição para
disponíveis para satisfazer determinadas necessidades, em relação às (presumíveis) necessidades, a garantia jurídiCl, é a aplicação do ooicote formal, anunciado e organizado Este, em nossa
e também pela aç:io futura e previsível de lerceiros que têm em visra os mesmos meios. Ao termInologia, já seria um meio de coação jurídica. Não nos interessa aqui a circunstância de
fazê-lo, contudo, orienta-se na escolha de Suas medidas "econõmlCas", além disso por aquelas que a convenção está também prOlegida por outros meios além da simples reprovação (por
"ordens" que o agente conhece como leis e convenções "em vigor", isto é, das quais ele sabe exemplo, pela aplicação do direito doméstico no caso de um comportamento contrário à conven-
que sua transgressão provocará determinadas reações de terceiros. Estes simples fatos empíricos çào) Pois o decisivo é que, nestes casos, quem apiJca os meios de coação (muitas vezes bem
foram confundIdos por Srammler de maneira inextricáveL Acima de tLIdo, afirma ele que é drásticos), em virrude da reprovaçào convencional, é o indivíduo, e não um quadro de pessoas
conceitualmente impossivel uma relação causal entre a "ordem" e a ação real Entre a vigência especialmente encarregadas dessa função
normativa, jurídico-dogmãtica de uma ordem e o curso empírico de uma ação não há, de fato, 2 Para nós, o decisivo no conceito do "direito" lque para ootros fins pode ser defimdo
relaçào causal, senão que ai somente cabe perguntar: está "atingido" juridicamente o curso de maneira completamente diferente) é a existência de um qU3rfrO coativo Este, naturalmente,
empírico da ação pela ordem (correramenre interpretada» Deve esta, ponanto, ter vigência de modo algum precisa ser semelhante ao que hOle em dia é habituai. Em particular, não é
(normativa) para ele' E, em caso positivo, o que é que ela estabelece, para ele, como norma neceS5ária a existência de uma instância "judiciária". O próprio clã (em casos de vingança de
vigente e obrig3lôria' Ao COntrário, entre a probabilidade de que a ação se oriente pela represen- sangue ali de llltas internas) pode representar esse quadro coativo quando de falO estão em
cação da vigência de urna ordem que, em média, se emende de determinada maneira, e a ação vigor, para a forma de sua reação, ordens de qualquer espécie. No entamo, este caso está no
econômica existe, evidentemente (em determinados casos), uma relação causal, no semido habi- extremo limite do que ainda se pode chamar "coação jurídica" Ao "direiTO internacional",
tual dJ palavra Para a Sociologia, preci.samente aquela probahilidade da orientação por esta como é sabido, foi negada repetidamente a qualidade de "direito" porque carece de um poder
representação, e mais nada, "é" a ordem vigeme. coativo supra-estatal. segundo a terminologia aqui adOlada (corno conveniente) nào se pode
qualifLcar, na realidade, de "direito" uma ordem garantida externamente apenas pela expectativa
§ 6. A legitimidade de uma ordem pode estar garanrida: de reprovação ou represálias, isto é, convencIonalmente e pela situação de inleresses, sem que
L unicamente pela atitude interna, e neste caso: exista um quadro de pessoas particularmenre encarregadas de impor seu cumprimento. Com
I. de modo afetivo: por entrega sentimental; a terminologia jurídica, enrreramo, pode muito bem ocorrer o contrário. Os meios coativos
2. de modo racional referente a valores: pela crença em sua vigência absoluta, são irrelevantes. Neles se inclui também, por exemplo, a "admoestação fraternal" - costumeira
sendo ela a expressão de valores supremos e obrigatórios (morais, estétiCOS em algumas seitas como meio mais suave de coação aOS pecadores - desde que eSleja ordenada
ou outros quaísquer\ [Xlr uma nOama e executada por um quadro de pessoas. O mesmo se aplica à repreensão cens6ria
1
I
20 MAXWEBER

ou' 'viajar" esse sentido pode acuara probabilidade em algum grau de sua vigência (como norma
obrigatória) Em primeiro lugar, isso acontece de maneira puramente racional referente a fins.
ECONOMIA E SOCIEDADE

3. de modo religioso: pela crença de que de sua observância depende a oblenção


de bens de salvação;
21

O ladrão orienta sua ação pela "vigência" da legislação penal: ao ocultá-Ia. A "vigência" da 11. também (ou somente) pelas expectativas de determinadas conseqüências exter·
ordem, para determinado círculo de pessoas, exprime-se no faw de ele ler de ocultar a violação
nas, porranto: pela situação de interesses, mas: por expectativas de determinado gênero.
dela MJs, abslraindo-se desle caso-limile: muiras vezes, a violação da ordem se limita a número
Uma ordem é denominada:
maior ou menor de transgressões parciais, ou se procura, com maior ou menor grau de boa-fé,
apresentá-la como legílima Ou exiSlem de fato interpretações diferentes do sentido da ordem, a) convenção, quando sua vigência está garantida externamente pela probabi-
das quais - para a Sociologia ~ cada uma tem "vigência" na medida em que efetivamente lidade de que, dentro de determinado circulo de pessoas, um comporramemo discor·
úetermina as ações. Para a Sociologia não há dificuldade em reconhecer a vigência paralela dance lropeçará com a reprovação (relativamente) geral e praticamente sensível;
de diversas ordens, cOnfradicórias entre si, nO mesmo d rrulo de pessoas Pois mesmo o individuo b )direilO, quando está garantida externamente pela probabílidade da coaçio (físi·
pode orientar suas ações por diversas ordens contraditórias. E não apenas sucessivamente, o ca ou psíquica) exercida por determinado quadro de pessoas cuja função específica
que acontece todo dia, mas também demro de uma única ação. Uma pessoa envolvida num consiste em forçar a observação dessa ordem cu caStigar sua víolação.
duelo orienta sua ação pelo código de honra, mas, OCUllando essa ação ou, em vez disso, apresen-
tando-se ao tribunal, orienta-a pelo código penal Quando, entretanto, a violação du sentidu Sobre convenção, vej~, além de]hering, or. cil., Weigelin, op. cil., e F. TÓNNlóS, Die Si[[e
(conforme é entendido em média) de uma ordem ou o alo de contorná-Ia se converte em regra, (l909)
enlão a urdem passa a ter "vigéncia" limilada ou, finalmente, deixa de existir Entre a vigência
e a não· vigência de uma ordem não há, porramo, para a Sociologia, alternativa absolula, como I. Chamamos convenção o "costume" que, no interior de determinado círculo de pessoas,
existe para a jurisprudência (em virtude de sua finalidade inevjlável). Existem transições fluidas é tido como "vigeme" e está garanlidu peja reprovação de um comporr.!rnemo discordame.
emre os dois casos, e pode haver, conforme já observamos, vigência paralela de ordem comradi- Em oposição ao direito (no semido aqui adotado da palavra), falta o quadro de pessoas especial-
tórias enlre si, O que signifJCa que cada uma delas v;ge na medida em que há a probabilidade mente ocupadas em forçar sua observação. Quando Stammler pretende distinguir a convenção
de que a ação efctivamence se onente por ela do direito pela "voluntariedade" absoluta da submissão no caso da primeira, não está de acordo
Conhecedores da literatura peniaenle lembram-se, sem dúvida, do papel que o cooceito com o uso corrente da palavra nem acerra no caso de seus próprios exemplos A observação
de "ordem" desempenha no livru de R Stanunler, cilada na nota preliminar deste capitulo da coavenção (no sentido correme da palavra)- por exemplo, da forma habilual de saudação,
Ip. 3 J-livro certamente escrito, como lodassuas obras, em estilo brilhante, mas profundamente do modo de vestir-se, dos limiles de forma e conteúdo nas relações com outras pessoas -
equívlxo e confundmdo os problemas de maneira fatal (Compare minha críuca cilada no mesmo conslilui uma exigência absolutamente séria ao individuo, tenha esta caráter obrigat6rioou mode·
lugar - infelizmente numa forma um lantO dura devido ao desgostu que senti perante tal coafu- lar, não a deixando à livre escolha - como, por exemplo, o simples" coslUme" de preparar
são.) Stammler não apenas deíxa de Jislinguir emre a vigência empirica e a normativa como a comida de determinada maneira Uma falra contra a convenção Ccoslume estamental") é casti-
Ia1nbcm desconhece que a ação sueia! não se orienta unicamenre por "ordens", e subretudu gada freqüentemente com muilo maIS rigor, pela conseqüência eficaz e sensível do boicOle socíal
cooverte, de um modo que carece de toda lógica, a ordem em "forma" da ação social, impon- dedarado peJos membros do própno eSlamento, do que o poderia fazer qualquer forma de
do-lhe, em rdação ao "conteúdo", um papel semelhame ao que a "forma" desempenha na coação juridica. O que falr.! é apenas o quadro de pessoas especialmente ocupadas em garamir
teona do conhecimento (prescindindo-se de lodos os demais erros). Na realidade, a ação (primor- seu cumprimento Guízes, procuradores, funcionários administrativos, executores etc), mas a
dialmente) ecunõmica (capítulo li) oriema·se, por exemplo, pela idéia da escassez de meios transição é fluida. O caso-Iimile da garamia convencional de uma ordem, em transição para
disponíveis para satisfazer determinadas necessÍ{udes, em relação ás (presumiveis) necessidades, a garantia jurídica, é a aplicação do boicote formal, anunciado e organizado. Este, em nossa
e também pela ação futura e previsivel de terceiros que têm em vista os mesmos meios. Ao terminologia, já seria um meio de coação jurídica Não nos interessa aqui a circunstãncia de
fazê·lo, contudo, oriema·se na escolha de suas medidas "econõmícas", além disso por aquelas que a convenção está também prOlegida por outros meios além da simples reprovação (por
"ordens" que o ageme conhece cumo leis e convenções "em vigor", isto é, das quais ele sabe exemplo, peJa aplicação do direito doméslico no caso de um comportamento comrário à convell
que sua transgressão provocará determinadas reações de terceiros. ESleS SImples falOS empiricos ção). Pois o decisivo é que, nestes casos, quem aplica os meios de coação (muitas vezes bem
foram cunfundidos por Stammler de maneira inextricável Acima de tudo, afirma ele que é drásticos), em virrude da reprovação convencional, é o indivíduo, e não um quadro de pessoas
conceitualmeme impossivel uma relação causal emre a "ordem" e a ação real. Emre a vigencia especialmente encarregadas dessa função.
norm;ltiva, jurídico·dogmática de uma ordem e o curso empírico de uma ação não ru, de fato, 2. Para nós, o deci5ivo no conceilO do "dLreito" (que para outros fins pode ser definido
relaçjo cau",l, senão que aí someme cabe pergumar: está "alingido" juridlcameme o curso de maneira completamente diferenle) é a existência de um quadro coativo. Este, naturalmeme,
empirico da ação pela ordem (corrccamemc imerpretada» Deve esr.!, portanto, ter vigência de modo algum precisa ser semelhante ao que hoje em dia é habitual Em panicular, não é
(normativa) para ele' E, em caso positivo, o que é que ela estabelece, para ele, como norma necessária a existência de uma instância "judiciária" O próprio clã (em casos de vingança de
vigente e obrigacóri~' Ao comrário, entre a probabilidade de que a ação se oriente pela represen- sangue ou de lutas internas) pode representar esse quadro coativo quando de falO estão em
{ação da vigência de uma ordem que, em mêdia, se emende de determinada maneira, e a ação vigor, para a forma de sua reação, ordens de qualquer espécie. No entanto, este caso está no
econômica eXJSle, evidemementc (em determinados casm), uma relação causal, no sentido habi- extremo limite do que ainda se pode chamar "coação jurídica". Ao "direito internacional",
lual ,l1 palavra Para a Sociologia, preci<;amente aquela probabLlídade da onenl.ção por e5ta
como é sabIdo, foi negada repetidamente a qualidade de "direito" porque carece de um poder
rCl'resencação, e mais nada, "é" a ordem vigenre. coalivo supra·esralal. Segundo a lerminologia aqui adOlada (como convenienle) não se pode
qualificar, na realidade, de "direito" uma ordem garantida externamente apenas pela expeClativa
§ 6. A legitimidade de uma ordem pode e;tar garancida.: de reprovação ou represálias, isto é, convencionalmente e pela situaçjo de interesses, sem que
L unicamente pela atitude interna, e nesle caso: exista um quadro de pessoas parricularmence encarregadas de impor seu cumprimento. Com
I. de modo afetivo: por entrega sentimental; a terminologia jurídica, entrelamo, pode muito bem ocorrer o conrrário. Os meios coa!ivos
2. de modo racional referente a valores: pela crença em sua vigência absoluta, são irrelevantes. Neles se inclui também, por exemplo, a ., admoestação fraternal" ~ Costumeira
sendo ela a expressão de valores supremos e obrigatórios (morais, eSléticos em algumas seitas como meio mais suave de coação aos pecadores - desde que CSleja ordenada
ou oulros quaisquer}, por uma nOrma e execulada por um quadro de pessoas. O mesmo se aplica à repreensão censória

.~ ,
;1,"
1
I
22 MAXWEBER

como meio de garantir nOrmas' 'morais" de componamento, e muito mais ainda à coação psíqu ica
exercida pelos meios disciplilUres da Igreja propriamente ditos. Existe, portanto, um "direito"
hierocratlcamente garantido do mesmo modo que um "direito" garantido politicamente ou pelos
ECONOMIA E SOCIEDADE

1. A vigênda de uma ordem em virtude de sustentar-se O caráter sagrado da tradição


é a forma mais universal e mais primitiva. O medo de danos de origem mágica fortaleceu a
inibição psíquica diante de toda mudança nas formas habituais de Comportamento, e os vários
23

estatutos de_uma associação, ou peja autoridade doméstica de cooperativas ou de uniões. Segundo interesses, que costumam estar vinculados :\ manutenção da submissão à ordem vigente, atuam
esta def1Olçao do conceito, as nOrmas estabelecidas para convivência estudanti~ também consti· no sentido da conservação desta ordem. Voltaremos a este assumo no capítulo m.
tuem "direito"~ O caso do § 888, 2 da RZPO [Reichszivilprozessordnung, ordem de processos 2. Primiuvamente, a criação consdence de ordens novas apresentou-se quase sempre sob
civis (N~ T.)I (direitos inexecutáveis) evidemememe tem seu lugar ali~ As leges imperfeaae e
I "obrigações naturais" são formas da linguagem jurídica em que se expressam indircrameme
limites ou condições da aplicação da coação jurídica. Neste sentido, uma "norma das relações
a forma de oráculos proféticos ou, pelo menos, de revelações profeticamente sancionadas e,
como tais, tidas por sagradas, mesmo no caso dos estatulOs dos aisimnetas rautores de ordenações
legais (N.T.)] helênicos. A submissão dependeria então da crença lU legitimidade do profela.
humanas" coativamente estabelecida também coru;titui "direito" (§§ 157 e 242 do Código Civil Prescindindo-se da revelação profética, a criação de ordens novas, isto é, a:msideraáas "novas",
(BGB) Sobre o conceito dos "bons costumes" (que merecem aprovação e, por isso, são sancio- só foi possível nas épocas em que dominava um tradicionalismo rigoroso, sendo tratadas então
I nados pelo direito), compare Max Rümelin em Schwiib. Heimargabe für 11J Hiiring (I918} como se, na realidade, tivessem vigorado desde sempre, porém não bem recooheddas, ou tives-
3. Nem IOda ordem vigente tem necessariamente caráter geral e abstrato. A "norma jurídi- sem estado temporariamente obscurecidas, tendo sido redescobertas.
ca" em vigor e a "decisão jurídica" de um caso concreto nem sempre foram separadas uma 3 O tipo mais puro da vigência aceita de modo racional referente a valores está repre-
da outra de maneira tão estrita como hoje o consideramos normal. Uma "ordem" pode aparecer semado pelo "direito natural". Não se pode negar a influência real e não insignificante de seus
também <:amo ordem unicamente de uma situação concreta. Os respectivos detalhes fazem parte preceitos logicamente deduzidos sqbre aS ações, por mais limitada que sej a em face de suas
da Sociologia do Direito Por questões de conveniência, trabalharemos por enquanto, salvo refe- prele05Ões ideais. Cabe distinguir estes preceitos tanto do direito revelado, quanto do estatuído
rência em comrário, com a concepção moderna da relação entre norma ;urídica e decisão jurídica. ou do tradicional.
4. Ordens "externamente" garantidas podem, ao mesmo tempo, também estar garantidas 4. A forma de legitimidade hoje mais corrente é a crença na legalidade: a submissão
"internamente". Para a Sociologia, as relações entre direito, convenção e "étlca" não constituem a estatutos eSlabetecidos pelo procedimento habitual e formalmenre correto. Nestas condições,
problema Um padrão "ético", para ela, c:uacteriza-se por adotar como norma, para a ação a oposição entre ordens paCtuadas e ordens impostas é apenas relativa, pois, quando a vigência
humana que pretende para si o predicado de "moralmente boa", determinada espécie de crença de uma ordem paCtuada não reside num acordo unânime - o que, nos tempos passados, freqüen-
raciona I referente a valores, do mesmo modo que a ação que pretende para si o predicado temente foi considerado indispensávet para alcançar a verdadeira legitímidade - mas na submis-
de "bela" se orienta por padrões estéticos Neste semido, representações de normas éticas podem são efeliva, dentro de determinado drculo de pessoas, dos discordantes à vontade da maioria
influir sobre as ações de maneira muito profunda, mesmo carecendo de toda garantia externa. ~ caso muito freqüente -, temos, na realidade, a imposição desta vontade à minoria O caso
JSto ocorre geralmente quandO sua transgressão quase não toca em interesses alheios. Por outra contrário, em que minori.'s violentas ou, pelo menos, mais enérgicas e inescrupulosas impõem
parte, estão freqüentemente garantidas pela religião. Mas, podem também estar garantidas (no ordens, que afinal são consideradas legítimas também pelos que no começo a elas se opuseram,
sentido da terminologia aqui empregada) pela convenção: reprovação da transgressão e boicote, é extremamente freqüente. Quando o meio legal para a criação ou modificação de ordens é
ou até, juridicamente, por reações penais ou policiais ou conseqüências civis. Toda ética efetiva- a "volação", observamos freqüentemente que a vOnlade minorilária alcança a maioria formal
mente "v'gente" - na sentido da Sociologia - costuma estar garantida, em considerável grau, e que a maioria a ela se submete, quer dizer: que o caráter majoritário é apenas aparência.
pela probabilidade da reprovação, no caso da transgressão, isto é, de maneira convencional A crença na legalidade de ordens pactuadas remonta a tempos muito remOlOS e também se
Por outro lado, nem todas as ordens convencional ou juridlcamente garantidas pretendem para encomra, às vezes, entre os chamados povos primitivos: neste caso, porém, quase sempre comple-
si (ou pelo menos, não necessariamente) Ocaráler de normas êticas. As segundas, que muitas tada pela autoridade dos oráculos.
vezes têm caráter puramente racional referente a fins, geralmente o fazem ainda muito menos 5 A disposição de uma ou várias pessoas de se submeter à imposição de uma ordem
do que as primeiras. O problema de se uma representação de vigência normativa difundida - desde que o decisivo não seja simples medo ou motivos racionalmente pondetados, ligados
entre muitas pessoas pertence ou não ao domínio da "ética" (sendo, em caso negativo, "simples" a Um fim, mas a existência de idéias de legalidade ~ pressupõe a crença na aucorieJade em
convenção ou "simples" norma jurídica) só pode ser decidido, pela Sociologia empirica, com algum sentido legítima daquele ou daqueles que impõem eSSa ordem. Trataremos disso separada-
referênCia àquele conceito do "ético" que efetivamence é ou era válido no círculo de pessoas mente (§§ 13 e 16, e capítulo 1II}
em questão. Por isso, não cabe a ela fazer afirmações gerais sobre esse assunto, 6. Em regra, a disposição de se submeter a uma ordem - desde que não se trate de
estatutos compleramente nOvOS - está condicionad3 por uma mistura de vinculação à tradição
§ 7. Vigência legítima pode ser atribuída a uma ordem, pelos agenres: e de idéias de legalidade ~ prescindindo-se das mais diversas situações de interesses. Em muitos
a) em virtude da lradição: vigência do que sempre assim foi; casos, as pessoas em cujas ações se mostra essa submissão não têm consciência de se trata r
b) em vil1ude de uma crença afetiva (especialmente emocional} vigência do novo de costume, convenção ou direito. Cabe então à Sociologia averiguar o gênero cípico de vigência
revelado ou do exemplar; em questão.
c) em virlUde de uma crença raciona! referente a valores: vigência do que se
reconheceu como absolutamente válido; § 8. Uma relação social denomina-se lula quando as ações se orientam pelopropó-
cf) em virtude de um estatura existente em cuja JegaJkI:lde se acredita. sito de impor a própria vontade contra a resistência do ou dos parceiros. Denominamos
Esta legalidade [d] pode Ser considerada Jegftim:l [pelos participantes]: "pacíficos" aqueles meios de luta que não consi5tem em violência física efetiva. Alma
"~jg:,: é "concorrência" quando se trata da pretensão formalmente pacífica de obter
a)em virtude de um acordo entre os interessados;
para si o poder de disposição sobre oportunidades desejadas também por outras pessoas.
f

II
(3) em virtude da imposição (baseada na dominação julgada /egftim:l de homens
sobre homen~) e da submissão correspondente [veja § 131. Há "concorrência regulada", na medida em que esta, em seus fíns e meios, se orienta
por uma ordem. À luta Oatente) pela existência, isto é, pelas possibilidades de viver
Todos os pormenores (salvo alguns conceitos a serem definidos)têm seu lugar na Sociologia ou de sobreviver, que se dá entre indivíduos ou tipos humanos sem que haja intenções
do poder ou na do Direito. limitamo-nos aqUi :\s seguimes observações: dirigidas contra outros, denominamos "seleção": "seleção social" quando se trata das

~
~...........,_ ~ ......... ~ ~t
_
' _ ----01[.
1 24 MAXWEBER

possibilidades que pessoas concretas têm na vida; "seleção biológica" quando se trata
das probabilidades de sobrevivência do patrimônio genético.
ECONOMIA E SOCIEDADE

b) que o curso da ação social e suas condições delerminantes, de lodas as espécies, levem ao
resultado acessório, não intencionado, de que para determinadas relações concretas ou delermi·
25

nadas calegorias de relações (islO é, as respectivas ações) diminua progressivameme sua prObabi·
lidade de subsislência ou de nova formaçio. No caso de mudanças, lodas as condições naturais
1. limre as formas de luta há as mais diversas tran.sições, sem interrupção da continuidade:
ou culluais, de qualquer nalureza, aluam de algum modo no sentido de modificar estas probabi·
desde a lUla sangrenta, dirigida il aniquilação da vida do adversáriO e alheia a roda regra, até
lidades para as mais diversas espécies de relações sociais. Cada qual está livre de falar, também
o combate entre cavaleIros convencionalmeme regulado (grilO do araulo antes da batalha de
Fonlen0y': 'Messi;,urs ,Ies ~glais, tirez les premiers") e o desafio esportivo Com suas regras,
>
nesles casos, de uma "seleção" das relações sociais - por exemplo, dos "Esrados" - na qual
desde a concorrenCla erolJca desregrada pelos favores de uma mulher ou a lUla concorrencial triunfa o "mais force" (no sentido de "mais adaplável") Mas deve· se ler em conta que eSla
por pOSSIbIlIdades de troca submetida á ordem do mercado, até as "concorrências" arcificiais chamada "seleção" nada tem a ver com a seleção dos Iípos numan05 nem no senlido social
reguladas ou a campanha elei~oral A separação conceirual da luta [não) violema íusrifica-se nem no biológico, e que, em cada caso concrem, cabe perguntar pela alllSa que produziu O
pela pecuJlandade de seus meIos normaIS e pelas con.seqüências sociológicas parriculares que deslOGlmento das probabilidades para esra ou aquela forma de ação social e de relações sociais,
acarreta e que resultam destes meios (veja capítulo Il e mais adianle) ou que destruiu uma relação social ou permitiu sua subsisrência em face das demais, COn.siderando
2 Toda luta ou concorrênçia IÍpica e em massa leva, a longo praw, finalmente á "seleção" que estas causas são tão múlriplas que parece impróprio abrangê· las com uma fórmula única
daquele~ que possue~ em maior grau.as qualidades pessoais mais imporrantes, em média, para Há então sempre o perigo de introduzir valorações incontroladas na invesligação empírica e,
trIUnfar ,1a lura _. mo obstame as muroeras intervenções possíveis da sorte ou do azar Quais sobretudo, de fazer a apologia de um resulrado que muiras vezes está individualmente condicio-
seI am essas qualIdades - se a força física ou a astúcia inescrupulosa, a intenSidade do rendimenlO nado no caso particular e, nesla acep)ão do lermo, lem caráler puramente "casual". Nos últimos
mleleetual ou a força dos pulmões e a lécnica demagógica, a devoção perante os superiores anos já nouve exemplos maIs do que abundanles disso, pois a simples eliminação de uma relação
ou perame as massas ~duladas, a origmalidade criativa ou a facilidade de adaptação social, as social (concrela ou qualitativamente especificada), muitas vezes condicionada exclusivamente
qualidades. e;«raordmaflas ou as que se elevam sobre as médias da massa -, isto se decide por causas concretas, não prova, de modo algum, sua incapacidade gerai de "adaptação".
pelas condlçoes da lUla ou da concorrência, ás quais, além de lodas as qualidades individuais
ou de massa Imagináveis, pertencem também as ordens pelas quais se orienta o comportamenlo § 9 Uma relação social denomina-5et~~las~~C::()~~!1it~ria":quandoe na medida
das pessoas na luta, de maneira seia lradicional seía racional refereme a valores ou a fins C3da em que a atitude na ação social - no caso parricular ou em média ou no tipa puro
uma dessas ordens influi sobre as probabilidades na "seleção social". Nem toda seleção social
- rep()usa no sentimento subjetivo dos participantes de pertencer (afetiva ou tradicia·
no sentido aqui adOlado, é "luta". O conceito de "seleção social", cama lal, nada mais signific~
d? que determmados llpoS de comportamenlo e, eventualmenle, qualidades pessoais têm prefe. naflIlenre) ao J!1t:S!!1pgrupo
~enCIJ q~~n.?O se trata ,<;'a,l(Osslblhdade d~ entr~,r ~~ determinada relação SOcial (como "amame", Uma relação social·denomina·se "relação associativa" quando e na medida em
ma~,do, deputado;, funclOnáno publico, contratador de obras", "direlor·geral", "em. que a atitude na ação social repousa num ajuste ou numa união de interesses racional-
presar~o bem· sucedIdo etc.) Nada diz, portamo, sobre a queslão de se essa possibilidade de mente motivados (com referência a valores ou fins). A relação associaliva, como caso
preferencia SOCial se adquire por meio de "luta" nem sobre o problema de se com ela se melhora típico, pode repousar especialmente (mas não unicamente) num acordo racional, por
a probabilidade de sobrevivência biológica do lipo em questão ou de se acomece o comrário. declaração recíproca. Então a ação correspondente, quando é racional, está orientada:
.some!:ne falar~mosC, Qe. "[uta': quªo9o_ef~tiv~.mente_e~i~te_lllll.'l 2~ã9 de concor.rênci;l. a) de maneira racional referente a valores, pela crença no compromisso próprio, b)
Segundo ,ensma ,a expenencla, a lUla é mevllavel de faro apenas no semido de "seleção", e de maneira racional referente a fins pela expectativa da lealdade da outra parte.
em prmoplO o e apenas no senlldo de seleção biológica. A seleção é "elerna" porque não se
pode lmagln.~r meIo alg~m para ~limjná.la de modo globa~ Uma ordem pacifista de observância
lll3Js."gorosa sempre 50 podera regular os melOS, OS objetos e a direção da lUla no sentido L A [erminologia lembra a disrinção esrabelecida por F Tónnies em sua obra fundamental
da ellmHlaçao de alguns (delerminados) deles. Isto significa que outros meios de luta continuam Gemeinschaft und Gesellschaft, entre "comunidade" e "sociedade". De acordo com seus próprios
a .Ievar à vil~ria, na concorrência (abe,:a) ou - imaginando-se esta tambêm eliminada (o que fins, contudo, Tonnies atribuiu desde logo a eSIa dislinção um conteúdo muito específico, que
50 sena poSS!vel de ~odo leóllco ou ulOpico) - na seleção (lateme) referente às probabilidades não lem ulilidade para nossos propósitos. Os tipos mais puros da relação associativa são: a}
de v~da e desobrevlvenCla, favorecendo aquelas pessoas que deles dispõem, seía como patrimõnio a troca estritamente racional referente a fins e livremente paauada, no mercado: um compromisso
genetlCo sela como produ 10 da educação. A seleção social constitui empirícamenle a barreira momemâneo entre interesses opostos, porém complementares; b) a uni:io livremente pactuada
contra uma eliminação da lUla, e a biológica a conslitui em principio. e puramente orientada por delerminados fins: um acordo sobre uma açao comínua, destinado
3. Cabe dislinguir, naturalmeme, entre a luta do individuo pelas possibilidades de vida em seus meios e propósiros exclusivamente à persecução dos interesses objetivos (econômicos
e de sobrevivência e a "luta" e a "seleção" das relações sociais. No caso destas últimas esses ou outros) dos participantes; c) a união de correligionários, racionalmente motivada com vista
conceilos_ só podem ser empregados em semido figurado, pois as "relaçõcs" exisrem ~pena5 a delerminados valores: a seita racional, na medida em que prescinde do cultiVO de interesses
como açoes humanas de delern;inado se':lido. Uma "seleção" ou "luta" entre elas siglÚfica, emocionais e afetivos e someme quer estar ao serviço de uma "causa". (Apenas em G1SOS especiais,
portamo, que delermlnada especre de açao, COm o lempo, é suplantada por outra, seja das emretanto, isso ocorre em seu tipo puro. )
meSm.as peswas s':la de OUlras. Isto pode_ocorrer de maneiras diversas A ação humana pode: 2. A relaçio comunitária pode apoiar-se em lodas as espécies de fundamentos afetivos,
a) dínglr-se consClencemence à percurbaçao de determinadas relações sociais concretas ou, de emocionáis ou tradicionais: uma confraria inspirada, uma relação erórica, uma relação de pieda·
modo ?eral, de retaçoes soe...s organizadas em determinada forma, isto é, a perturbar o curso de, uma comunidade "nacional", uma tropa unida por senlimen[os de camaradagem. Compreen·
das ~çoes csrrespo~.demes ao sentido dessas relações, ou a impedir seu nascimento ou sua subsis. de·se mais facilmente esse tipo na exemplo da comunidade familiar. Agrande maioria das relações
t~ncla (um Esra~? ,por melO,?e guerraou revoluçio; uma "conspiração", por meio de represo sociais, porém, tem caráler, em parte, comunitário e, em pane, associalivo. Toda relação social,
530 sangrenta; o _ con~bmalO , por meIO de medIdas policiais; negócios "usurários", recusan. por mais que se limite, de maneia racional, a derermínado fim e por mais prosaica que seja
do-lhes a proleçao IUlldtca e penalizando-05), ou a influenciá· las, favorecendo a subsislência °
(por exemplo, a freguesia), pode criar valores emocionais que ultrapassam fim primitivamente
de ?elermi~da categoria de relações às cusras das outras: tamo um indivíduo isolado quamo intencionado. Toda relação associativa, que ullrapassa a simples ação momentânea execurada
multos indiViduas aSSOCIados podem estabelecer para si tais objetivos. Mas pode ocorrer também: por uma união que se propõe determinado fim, isro é, que seja de mais longa duração, estabele·
26 MAXWEBER ECONOMIA E SOCIEDADE 27
cendo relações sociais entre determinadas pessoas e nâo se limitando, desde o princípio, a certas
~
>-:
representam o tipo JruliS importanle da influência reciproca das ações pela pura e simples si.tu;u;ão
tarefas objetivas - como, por exemplo, a relação associativa numa unidade do exército numa de interesses, fenômeno caraaerístico da economia modema~)
classe da escola, num escritório, numa oficina -, mostra, porém em grau muito divers~, essa
tendé~cia. Ao .contrário, uma relação social que, por seu semido normal, é COmunitária pode § 10. Uma relação social (tanto faz se comunitária ou associativa) sen designada
ser onentada mtelra ou parcialmente de modo racional referido a fins, por parte de alguns
abena para fora, quando e na medida em que a panicipação naquela ação reóproca,
,?u de todos os participantes Difero; muito, por exemplo, o grau em que um grupo familiar
e sentido por seus membros como' comunidade" ou aproveitado como "relação aSSOCiativa". que a constitui segundo o conteúdo de seu sentido, não é negada, por sua ordem
O conceito de "relação comunitária" é definido aqui, deliberadamente, de maneira muito ampla vigente, a ninguém que efetivamente esteja em condições e disposto a tomar pane
e que abrange situaçóes bastante heterogêneas. nela. Ao contrário, é chamada fechada para fora quando e na medida em que o conteúdo
, 3. A relação comunitária conslitui normalmente, por seu sentido visado, a mais radical de seu sentido ou sua ordem vigente exclui, limita ou liga a participação a determinadas
antltese da lUla. Mas isto não deve enganar~nos sobre o fato de, mesmo dentro das mais íntimas condiçóes~ O canter abeno ou fechado pode estar condiciot1Jldo de maneira tradicional,
dessas relações, serem bem nürOJais, na realidade, todas as espécies de pressão violenta exercida afetiva ou racional, com vista a valores ou fins. O caráter fechado, por motivos racionais
sobre as pessoas de natureza mais transigente. Do mesmo modo, a "seleção" dos tipos, que deve·se espedalmente à seguinte circunstância: uma relação social pode proporcionar
leva às .jiferenças entre as probabilidades de viver e sobreviver, tanto OCOrre dentro das comuni. aos panicipantes determinadas oportunidades de satisfazer seus interesses, interiores
dades (Orno em outras situações As relações associativas, ao contrário, muitas vezes nada mais ou exteriores, seja com vista ao fim ou ao resultado, seja através da ação solidária
são do que co.mpromissos entre interesses antagônicos, que eliminam apenas urna parte dos ou em virtude do equilíbrio de interesses incompatíveis~ Quando os participantes dessa
objetos ou meios da luta. (ou pelo menos tentam fazê.lo), deixando em pé a própria oposição
de mreresses e a concorrenCla pelas melhores possibilidades. "Luta" e comunidade são conceítos relação esperam de sua propagação melhores possibilidades para si mesmos, no que
relativos; a luta tem formas bem diversas, determina~s pelos meios (violentos ou "pacíficos") se refere ao aspecto quantitativo, qualitativo, de segurança ou de valor destas oportuni·
e a m~tor ou menOr brutalidade com que se aplicam. E um falo, como já disse, que toda ordem dades, interessa·lhes seu caráter aberto; quando, ao contrário, eles esperam obter essas
de açoes SOCIa'S, qualquer que seja sua narureza, deixa em pé, de alguma forma, a seleção vantagens de sua monopolização, interessa·lhes seu caráter fechado para fora~
efetiva na competição dos diversos ripos humanos par suas posSibilidades de vida. Uma relação social fechada pode garantir a seus participantes determinadas possi·
i\ 4. c~~m sempre o fato de algumas pessoas terem em comum deter.mil1adas qu~lidades_ bilidades monopolizadas da seguinte forma: a) como possibilidades livres; b) como
oU(jete~mmado comportamento ou. se encontr~rem na mesma situaçãO.!t!'l-'ljça uma Lelaçã~ possibilidades qualitativa e quantitativamente reguladas ou racionadas; ou c) como possi·
comUmt"-lla. ~or exemplo, a ClrCUnStancla de pessoas terem em comum aquelas qualidades biolÓ. bilidades apropriadas por indivíduos ou grupos, por tempo ilimitado e relativa ou plena· I~,
glcas heredllana~' cons,derad~s características "raciais" não signific:!, de per si, que entre elas
'.

mente inalienáveis (fechamemo para dentro). Às possibilidades objeto de apropriação


eXIsta uma relaçao wmunllána. Pode OCorrer que, devido à limitação do commercium e connu.
denominamos "direitos". Segundo a ordem vigente, a apropriação pode efetuar-se
bium imposta pelo mundo circundame, cheguem a encontrar·se numa situação homogênea,
ISolada d,ante desse mundo circundante~ Mas, mesmo que reajam de maneira homogênea a com referência: 1) a membros de determinadas comunidades e sociedades - por exem·
essa situ~Ção, .isto ai~da não co':'5titui uma relação comunitária; tampouco eSta se produz pelo pIo, comunidades domésticas; ou 2)a indivíduos, e neste caso: a)de um modo puramente
slmples senumenlO. da SJtuaçao comum e das respectivas conseqüências. ~o!l!enK.~lJ.C!Q, pessoal; ou b) de maneira que, quando morre o usufrutuário das possibilidades, uma
':tJl.ylrtu.cJ~. desse sem,mento, as pessoas come~ ...m de algum;! forma a orit:IlI"lr: seu com~m.ªmmlq ou várias pessoas ligadas a este por uma relação social ou por nascimento (parentesco),
pelo das outras, nasce entre elas uma relaçao social - que não é apenas \.Ima relação entre ou outras por ele designadas, tomem seu lugar em relação às possibilidades apropriadas
cada indivíduo e o mundo drcundante -, e só na medida em que nela se manifesta o sentimeniõ~ (apropriação hereditária). Por fim, pcxle realizar·se: 3) de maneira que o usufrutuáriO
de pert,eDcer ~o meSmo grupo existe uma"relação COtt:!ullitária". Entre os judeus, por exeni"plO," esteja mais ou menos livre a ceder as possibilidades, mediante um acordo: aja determi·
essa atlCude e relatlvameme ra ra - excluídos os círculos sionistas e algumas Outras relações nadas pessoas ou b)a outras pessoas quaisquer (apropriação alienável). Aos participantes
assoc13.tlvas que representam interesses judaicos -, e muitas vezes até é desaprovada~ Determi. de uma relação social fechada denominamos sócios; no caso de uma regulação da partici·
nada hnguagem comum, criada p,:fa tradição homogênea dentro da família ou da vizinhança,
pação, desde que esta lhes garanta a apropriação de determinadas possibildades, serão
faCIlita em alto grau a compreensao recíproca e, portanto, a formação de relações sociais de
todas as espécies Mas isto, de per si, não implica uma relação comunilária, mas apenas facilita sócios com direitos. Chamamos propn'edade (do indivíduo, da comunidade ou da socie-
o contato entre os membros dos respectivos grupos e, portanto, a formação de relações associa. dade) as possibilidades hereditariamente apropriadas por este ou aquelas; caso sejam
tivas. Facilita estas telações, em primeiro lugar, entre os indivíduos e não pelo fato de falarem alienáveis, designamo-Ias propriedade livre.
a mesma linguagem mas em virtude de Outros interesses quaisquer: a orientação pelas normas
da linguagem comum constitui, portamo, em primeiro lugar, apenas um meio para o entendi. A"penosa"defirtição destas situações, aparentemente inútil, é um exemplo de que precisa·
mento entre ambas as partes e não o conteúdo do sentido das relaçóes sociais. Somente aexistência mente o "evidente por si mesmo" (por ser habitual em virtude da experiência concreta) é o
de COntrastes ~nscientes em relação a terceiros pode criar, nos participantes da mesma lingua~ que menos coStuma ser "pensado"~
gem, um senttmento de comunidade e relações associativas cujo fundamento de existência, de 1. a) Fechadas com caráter tradicional costw1lam ser, por exemplo, aquelas comunidades
maneira, consciente, é a linguagem comum. A participação num "mercado" (sobre o conceito, nas quais a participação se fundamenta em relações familiares.
veJa capitulo 11), por sua vez, tem natureza diferente. Cria relações associativas entre os partici. b) Fechadas com caráter afetivo costumam ser as relações pessoais que se baseiam em
pantes individuais na troca e uma relação social (de" concorrência", sobretudo) entre os que sentimentos (por exemplo, relações eróticas ou, muitas vezes, de piedade} .
pretendem trocar e que, por isso, têm de orientar seu comportamento pelo dos ourros panicj. c) Fechadas (relativamente) com caráter racional referente a valores COSNmam ser comuru~
pant.es. Mas, fora dISSO, somente surgem relações associativas na medida em que alguns dos dades de fé de caráter estrito.
partiCIpantes fazem algum tipo de acordo, por exemplo, com O fim de aumentar suas oponu. d) Fechadas com caráter racional referente a fins são, no caSO típico, associações econô-
rudades na lura por melhores preços, ou todos os partidpanres o fazem a fim de regular e micas de caráter monopolista ou plutocrátiÇQ~
assegurar suas transações. (O mercado e a economia de troca que sobre este se fundamenta Seguem·se alguns exemplos tomados ao acaso
28 MAXWEBER ECONOMIA E SOCIEDADE 2')

o caráter aberto OU fechado de uma relação associativa efetiva baseada na mesma lingua- de funcionário:,; de ministérios ou outros funcionários públicos e de cidadãos, com caráter político
gem depend~ do conteúdo de seu sentido (conversação em oposição à troca de informações (por exemplo, na Antiguidade), e corporações de anesãos; b) escassez das probabilidades em
de natureza IntUTIa ou relauvas a neg6çtOS} As relações no mercado, na maioria dos casos, relaçào às necessidades (de consumo) ("espaço vital alimentício"). monoJX>lio de consumo (a-rqué,
costumam ser abenas. Em muitas relações comunitárias e associativas podemos observar alterna- tipo: a comunidade de camponeses na Idade Média~ c) escassez das possibilidades de ganho
damenre sua expansão e seu fechamento. Assim, por exemplo, nas corporações e nas cidades (" espaço vital de ganho"). monopólio de ganho (arquétipo: as uniões corporativas Ou as antigas
democráticas da Antiguidade e da Idade Média, cujos membros, em cenas épocas, estavam interes- associações de pescadores etc} Na maioria das vezes, O motivo a se combina com o b ou o c.
sados em assegurar suas possibilidades por meio de maior força e, por isso, pretendiam aumenUr
seu número, enquanto que, em Outras épocas, interessados em mamer o valor de seu mónoJX>lio, § 11. Uma relação social pode ter para os participantes, segundo sua ordem tradi-
pretendiam a limitação deste nÚmero. Também não é raro esse fenômeno em comunidades cional ou estatuída, a conseqüência de que determinadas ações a) de cada um dos
monásticas e seitas religiosas que, na interesse da manutenção do nivel ético ou por causas participantes se imputam a todos os demais (" companheiros solidários' ') ou b) de deter-
materiais, abandonam a propaganda religiosa para buscar o isolamentO. Aampliação do mercado minados participantes ("representantes") se imputam a tados os demais (os "represen-
com vista ao aumento das vendas e a limitação monopolista do mesmo encomram-se, de maneira
semelhame, lado a lado. Apropagação de determinada linguagem é, hoje, conseqüência normal tados"), de modo que tanto as probabilidades quanto as conseqüências, para o bem
dos ime,esses de editores e escritores, em oposiçào ao caráter secreto e estamentalmente fechado ou para o mal, recaiam sobre estes últimos, O poder de representação (pleno poder)
de determinados tipos de linguagem, não rarO nas épocas anteriores. pode, segundo as ordens vigentes: 1) estar apropriado em todos os seus graus e quali-
2. O grau e os meios da regulação e do fechamento para fora podem ser mLlito diversos, dades (pleno poder por direito próprio}, ou 2) estar concedido, temporária ou perma-
de modo que a transição entre o estado aberro e o regulado e fechado é fluida: encontramos nentemente, ao possuidor de determinadas características; ou 3) estar transmitido, tem-
as mais_diversas g;adações nas concUções de participação, como provas de admissão e noviciados, porária ou permanentemente, por determinados atos dos participantes da relação social
aqulSlçao de um mulo sob determinadas condições, vmação secreta em todos os casos de admis- ou de terceiros (pleno poder estatuído). Sobre as condições nas quais relações sociais
são, qualidade de membro ou admissão por nascimento (herança) ou em virtude da participação (comunidades ou sociedades) aparecem como relações de solidariedade ou de represen-
livre em determinadas atividades ou - no caso de apropriação e fechamento para dentro - tação, s6 se pode dizer, de modo geral, que o decisivo, em primeiro lugar, é o grau
mediante a adquisição de um direito apropriado. ··Regulação" e "fechamento" para fora são, em que as respectivas ações tenham como fim: a) a luta violenta; ou b) a troca pacífica.
portanto, conceitos relativos. Entre um clube elegante, uma representação teatral acessível a
todo comprador do ingresso e a reunião de um partido polírico em busca de apoios; emre
De resto, trata-se sempre de circunstâncias peculiares que só se podem averiguar na ilI,
um culto aberro a todos, o de uma seita e os mistérios de uma sociedade secreta existem inúmeras análise de cada caso particular. Naturalmente, essa conseqüência aparece menos nas 11
transições imaginãveis. relações sociais que, por meios pacíficos, perseguem bens puramente ideaiS. O fenô-
meno de solidariedade ou de representação caminha muitas vezes, mas nem sempre,
II
;'
3. O fechamento para dentro - emre os próprios participantes e nas relações que estes
mantêm uns com os o~tros - pode também adotar as formas mais diversas. Por exemplo, uma paralelo com o grau de fechamento para fora. :r
casta ou uma corpor.çao, fechadas para fora ou, talvez, uma associação da Bois. podem permitir
a seus membros concor<er livremente entre si por todas as possibilidades monopolizadas, ou, 1. A "imputação" pode significar, na prática: a) solidanedade .tiva ou passiva: pela açao
ao contrário, limitar rigorosamente para cada um deles determinadas posslbHidades, como clien- de um dos participantes, todos os demais se consideram responsáveis, do mesmo modo que
telas ou objetos de negócios, apropriadas vitaliciamente ou por herança (especialmenre na índia) ele mesmo; por outro lado, todos estão considerados legitimados, no mesmo grau que o próprio
e de caráter ailenável; uma comunidade de camponeses, fechada para fora, pode permilir a agente, a desfrutar das possibilidades asseguradas por essa ação. Aresponsabilidade pode existir
seus membros o livre usufruto dos bens comum ou conceder a cada família um contingente perante espiritos e deuses, portanto, estar orientada religiosamente. Pode também existir perante
ngorosamenre limitado; uma associação de coloni7.adores, fechada para fora, pode conceder homens, e nesle caso, de forma convencional, a favor ou contra sócios com direitos (vingança
c garantir o livre aproveitamento da terra ou determinados lotes, com caráter de apropriação de sangue contra ou por membros do mesmo clã, represãlias contra concidadãos e compatriotas),
permaneme; e tudo ISSO com inúmeras transições e gradações imaginãveis. Historicameme, por ou, de forma jurídica (medidas penais contra paremes ou membros da comulÚdade doméstica
exemplo, o fechamem,? para d~nrro das expeaativas de feudos, prebendas e cargos e sua apro- ou de qualquer outra comunidade, responsabilidade pessoal por dívidas dos membros de uma
pnaçao pelos usufrutuaflos tomaram formas muito diversas e, do mesmo modo, tamo a expec- comunidade doméstica ou de uma sodedade mercantil, de uns para com os outros e em favor
tativa quanto à ocupação de dererminados empregos - sendo o desenvolvimento dos "conselhos mútuo). Também a responsabilidade perante os deuses teve (para as comunidades primitivas
dos operãrios" ralvez (mas não necessariamente) o primeiro passo - podem mostrar gradações dos israelitas, cristãos e puritanos) conseqüências historicamente muito importante:;, b) A impu-
desde o cJosed shop até O direito a determinado emprego (medida prévia: proibição de demissão taçao pode siglÚficar também (em seu grau mílÚmo) que, numa relação social fechada, segundo
sem assentimento dos represemames dos operários). Todos os detalhes têm seu lugar numa sua ordem tracUcional ou estatuída, os panicipantes aceitam como legal, com respeito a seu
análise partírular do assunto. O grau mais elevado de apropriaçào permaneme existe nas possibi- próprio comportamento, a disposição sobre possibilidades de qualquer espécie (especialmente
!idades garantidas ao individuo (ou a determinadas associações de individuos, por exemplo, econômicas) assumida por um representante. ('Validade" das disposições da "direção" de uma
comunidades domésticas, clãs e famílias) de tal forma que: I) em caso de morte, sua transferência "união" ou do representante de uma associação política ou econômica sobre bens materiais
a determinadas mãos está regulada e garantida pelas ordens vigemes, ou que: 2) os usufrutur.irios que, segundo a ordem vigeme, eStão destinados a servir a ' 'fins próprios da associação".) i
da possibilidade podem transmiti, la livrememe a terceiros quaisquer, os quais se tornam assim 2. A situação de "solidariedade·' existe tipicamente: a) nas tradicionais comunidades fami- lf..
participantes da relação social: esla, em semelhante caso de uma plena apropriaçao para dentro, liares ou Iritalicias (tipo: casa e clã), b) nas relações fechadas que mantêm as possibilidades mono-
e ao mesmo tempo uma relação (relativamente) abena para {ora (desde que a adquisição da polizadas por medidas próprias violentas (este tipo é representado por associações políticas,
qualidade de membro não esteja ligada ao assentimento dos oUlros sócios com direitos} especialmente nos tempos passados, mas que em sentido mais amplo existem ainda na época
4. Morivos para o fechamento de relações sociais podem ser: a) a manutenção de uma atual, panicularmente na guerra); c)em relações associativas criadas para fins de ganho, quando I·
i
i'
,
alra qualidade e, por isso, (eventualmente) do prestígio e das probabilidades inerentes de honra
e (~ventualmeme) de ganho, Exemplo: comunidades de asceras, de monges (panicularmeme,
na lndia, [ordens! de monges mencUcames\ de seitas (os puritanos'), associações de guerreiros,
o empreencUmento é dirigido pessoalmente pelos participantes (este tipo é representado pela
sociedade mercantil aberta), ri) sob determinadas circunstâncias, em relações associativas criatlas
para fins de trabalho (este tipo é representado peloanef, na Rússia) Asituação de "representação"
I
..

~.: l i' IiiiiIíII_ _. . . . . . . . .a.b J .


30 MAXWEBER ECONOMIA E SOCIEDADE 31

existe tipicamente em uníões formadas para determinados fins e assodaç6es estatuídas, especial- da associação (por exemplo, na "associação Estado", a ação econômica privaela, que não serve
mente quando se junta e adminíslra um "pacrimônío" destinado ao respectivo "fim" (trataremos à imposição coativa da vigênda da ordem, mas a interesses Jl3tticulares, deve orientar-se pelo
disso na Sociologia do Direiro} direito "cívil"} Aos casos de a pode-se denominar "ação relativa à associação", aos de b, '"ação
3. Pode-se dizer que o poder represel1lativo é concedido segundo delerminadas "caracte- reguladl pela associação". Chamamos "ação associativa" somente a do próprio quadro adminís-
rístiCas" quando, por exemplo, se atribui pela ordem de idade ou critérios semelhal1les. trativo e, além disso, mclas as relativas à associação por este dirigida segundo um plano. Uma
4. Todos os detalhes dete assunto não podem ser expOStOS de fonna geral, mas apenas "ação associativa" para lodos os membros seria, por exemplo, uma guerra que um Estado "con-
na análise sociológica de situações particulares. A situação mais antiga e mais geral pertineme duz", uma "petição" acordada pela presidência de uma associação ou um "contratO" feito pelo
é a represália, tamo como vingança quanto para assegurar para si um penhOL dirigente e cuja "validade" se impõe aos membros e se lhes imputa (§ 11) e, além disso, todos
()S processos "judiciais" e "administrativos" (veja também § 14}

§ 12. Chamamos "associação" uma relação social fechada para fora ou cujo regula-
mento limita a participação quando a observação de sua ordem está garantida pelo Uma associação pode ser: a) autônoma ou heterônoIna; b)autocéfala ou hetero-
<.:omportamento de determinadas pessoas, destinado particularmente a esse propósito: céfala. Autonomia significa, em oposição à heteronomia, que a ordem da associação
de um dirigente e, eventualmente, um quadro administracivo que, dado o caso, têm não é estatuida por estranhos, mas pelos próprios membros enquanto tais (não impor.
cambém. em condições normais, o poder de representação. O exercício da direção tando a forma em que isto se realize). AUlocefalía significa que o dirigente da associaçáo
ou a patticipação nas açÕES do quadro administrativo - os "poderes de governo" e o quadro administrativo são nomeados segundo a ordem da associação e não, corno
nO caso da heterocefalia, por estranhos (não importando a forma em que se realize
- podem estar a) apropriados ou b) delegados a determinadas pessoas, segundo a
ordem vigente da associação ou segundo determinadas características, ou a pessoas a nomeação).
a serem escolhidas de determinada forma, em caráter permanente ou temporário ou
para determinados casos. Chamamos' 'ação da associação" a). a ação do próprio quadro Há heterocefalia, por exemplo, na nomeação dos governadores das províncias canadenses
(pelo governo central do Canadl) Uma associação heterocéfala pode ser autônoma e uma autocé-
administrativo, legítima em virtude do poder de governo ou de representação, e que
fala, heterônoma. Também é possível que uma associação, em ambos os aspectos, seja em parte
se refere à realização da ordem vigente, e b) a ação dos panicipames da associação
uma coisa e em parte a outra. Os estados-membro do império alemão, apesar de sua autocefalia,
[com respeito a esta (veja lópico 3, abaixo) I dirigida pelas ordenações deste quadro eram heterónomos noâmbilO da competência imperial e autônomos dentro de sua própria compe-
administrativo. tência (em questões escolares e eclesiásticas, por exemplo). A Alsácia-Lorena, como parte da
Alemanha [ames de 19181. era autônoma, dentro de certOS limItes, pcrém heterocéfala (o impe-
1. É indiferente, por agora, para o conceito adotado, se se trata de uma relação comunitátia rador nomeava o governador} Todos esses fenômenos podem também existir parcialmente.
ou de uma relação associativa. Basta, para nós, a existência de um "dirigellte" - chefe de Uma associação que seja ranro heterocéfala quanro inteiramente heterônoma (como, por exemplo,
família, direção da união, gerente comeráal, príncipe, presidente do Estado, principal da igreja um regimento dentro de um exércilo) deve considerar-se. em regra, como "parte" de uma
- cuja ação se dirija à realizaçáo ela ordem da associação, porque esse tipo específico de ação associação mais abrangente. Se este é o caso ou não. depende dogrou efetivo de independência
-- que não se limita a orientar-se pela ordem vigente, mas se dirige a imp&Ja coocivamence na orientação das ações, no caso particular, e terminologicamente trata-se de uma pura questão
- acrescenta sociologicamente à situação da "relação social" fechada uma nova característica de conveniência.
de importância prática, pois nem toda relação comunitária ou relação associativa fechada é uma
"associação": não O são, por exemplo, uma relação erótica ou uma comunidade de clã sem § 13. As ordens estatuídas de uma relação associativa podem nascer a) por acordo
chefe livre ou b) por imposição e submissão. O poder governamental numa associação pode
2 A "existência" de uma associação depende pcr completo da "presença" de um dirigente
pretender para si o poder legítimo para a imposição de ordens novas. Chamamos consti-
e, eventualmente, de um quadro administrativo, isto é, em termos mais precisos, da existência
da probabilidade de haver uma ação de pessoas indicáveis. cujo sentido consiste em pôr em tuição de uma associação a probabilidade efetiva de haver submissão ao poder Impo-
prática a ordem da associação: da existência, portanto, de pessoas" disposcas" a agir ne5e sentido, sitivo do governo existente, segundo medida, modo e condições. A estas condiçÕES
em dado caso. Por agora, é conceirualmenre indiferente em que se baseia essa disposição: seja podem pertencer, especialmente, segundo a ordem vigente, a consulta ou o assenti-
em devoção tradicional, afetiva ou racional referente a valores (deveres de feudo. de cargo mento de determinados grupos ou frações dos membros da associação, além de outras
ou de serviço) seja em interesses racionais referentes a fins (de receber um salário etc.) Do condições de natureza mais diversa.
ponto de vista sociológico e para nossa terminologia, a associaç:lo não consiste, portanto, senão As ordens de uma associação podem impor-se não apenas a seus membros como !
na probabilidade da tealização daquela ação, orientada de uma das maneiras expostas. Se falta também a não-membros aos quais se aplicam determinaelas condições de falO, Estes
a probabilidade dessa ação de um quadro indicável de pessoas (ou de uma pessoa individual fatos podem especialmente consistir numa relação territorial (presença, nascimento,
k
indicável\ existe, segundo nossa terminologia, apenas uma "relação social", mas não uma' 'asso- execução de determinadas ações dentro de determinado território} "vigência Territo-
ciação". Enquanto en'ile a probabilidade daquela ação, "existe" também, do ponto de vista rial". A uma associação, cuja ordem pretende, de princípio, vigência territorial, denomi-
sociológico, a associação, mesmo que mudem as pessoas que orientam suas ações pela ordem
em questão, (A forma de nossa definição pretende incluir, desde o princípio, precisamente eS13 namos "associação territorial", sendo indiferente se também para dentro, perante os
Cl rCllnst.inCia, )
membros da associação, se limita ou não a pretender semelhante vigência (o que é
3. a) Além da ação do próprio quadro administrativo ou sob a direção desle pode também possível e acontece, pelo menos em extensão limitada)
ha ver uma ação específica, com curso típico, dos outros participames, orientada pela ordem
da associação e cujo sentido consiste em garantir a realização desta ordem (por exemplo, tributos 1. "Imposta" no senlido desta tetminologia é roda ordem que nâ" nasça de um acordo
ou serviços pessoais de todas as espécies'. serviço militar, de jurado etc.} b)A ordem vigente pessoal e livre de todos os participantes. Isso incluí, portanto, a "decisão majoritáría" à 'qual
pode também conter nOrmas pelas quais deve orientar-se em outras coisas a ação dos particiJl3ntes se submete a minoria. Por isso, a legitimidade da decisão majoritária (veja mais adiante na Sacio-
32 MAXWEBER ECONOMIA E SOQEDADE 33
logia da dominação e do Direito), durante longo tempo nào foi aceita e permaneceu problemática 2, "União" e .. instituição" são ambas associações com ordens raaanalmeace estatuídas
(ainda nos estamemos da Idade Média e at~ na éJ;?ca arual, na obschcsch~ ru~a) . (segundo um plano) Ou, mais corretamente: uma associação, ru medida em que tenha orden,
2. Também os acordos formalmente ltvres -, como é geralmente sabIdo, sao mUltas vezes, racionalmente estatuídas, chama-se, em nossa terminologia, "união" ou "instituição", Uma "insti-
n.a realidade, impoôtos (as.sim, por exemplo, na obschtscruru) Neste caso, para a Sociologia tuição" é sobretudo O próprio Estado junto com todas suas associações heterocéfalas e - desde
só importa a situação efetiva. que suas ordens estejam racionalmente estatuídas - a igreja. 105 ordens de uma "instituição"
3. O conceito de "constituição" que aqui usamos é também o empregado por Lassalle pretendem vigência para toda pessoa à qual se aplicam determinadas características (nascimento,
Não é idêntico ao da constituição "escrita" ou, em geral, ao da constituição no sentido jurídico, domicilio, utilização de determinados serviços), sendo indiferente se pessoalmente se associou
O problema sociológico é unicamente este: quando, para quais assuntos e dentro de quais limites - como nO caso da união ~ ou nào e, menos ainda, se panicipou ou não na elaboração dos
e - eventualmente - sob quais condições especiais (por exemplo, aprovação de deuses ou estatutos. São, ponanto, ordens impostas, no sentido específico da palavra, A instituição pode
sacerdotes ou assentimento de corpos eleitorais etc.) os membros da associação se submetem ser especialmente uma associação terricoria}
ao dirigeme e estio à disposição dele o quadro administrativo e a ação associativa, no caso 3- A oposição entre união e instituição é relativa. 105 ordens de uma união podem afetar
de ele .. ordenar" alguma coisa, espedalmenle no caso de se tratar da impoôição de ordens os interesses de terceiros, e pode·se impor a estes o reconhecimento da vigência destas ordens,
novas. tantO por usurpação e arbitrariedade por pane da união quanto por ordens legalmente estatuídas
4. O tipo principal da "vigência territorial" imposta está representado pelas normas penais (por exemplo, o direito das sociedades por ações)
e algumas outras "disposições juridicas" em associações políticas, que pressupõem, para a aplica· 4, É evidente que aos conceitos de "união" e "instituição" não se pode subordinar, de
çao da c·rdem, a presença, o nascimemo, O local da a,.io, O Iugar de pagamento etc. dentro maneira abrangente, a tocaIidade de todas as associações imagináveis, Constituem apenas' 'pólos"
do território da associação, (Compare o conceito de "corporação territorial" de Gierke e Preuss, ) opOstOS (como, por exemplo, no domínio religioso, a "seita" e a "Igrela")

§ 14. Denominamos ordem administrativa uma ordem que regula a ação associa· ." § 16.'Poderkignifica toda probabilidade de ímpor a própria vontade numa relação
tiva. Àquela que regula oulras ações sociais, garantindo aos agemes as possibilidades social, mesmo contra resistênciais, seja qual for o fundamento dessa probabilidade.
que provêm dessa regulação, denominamos "ordem reguladora". Uma associação
pominaçió7é a probabilidade de encontrar obediên.c:ill_ a uma ?rdem de determi-
orientada unicamente por ordens do primeiro tipo denomina-se "associação adminis·
nado conteúdo, entre determinadas pessoas indicáveis; disciplina é a probabilidade
trativa"; quando se orienta someme pelas ordem do último ripa é uma associação regu-
de encontrar obediêncía pronta, automática e esquemãtica-al.lma ordem, entre uma
!adora.
pluralidade indicável de pessoas, em vil1ude de atividades treinadas,
1- É evidente que a maioria das associações tem tanto a primeira qualidade quanto a
segunda; uma associação unicamenre reguladora seria, por exemplo, um "Estado de direito" I. O conceito de "poder" é sociologicamente amorfo, Todas as qualidades imagináveis
puro de um absoluto laissez faire, teoricamente imaginável (o que faria supor, todavia, que de uma pessoa e todas as espécies de constelações possiveis podem pôr alguém em condições
a regulação do Setor monetário passasse para as mãos da economia privada) de impor sua vontade, numa siruação dada. 'por isso, o conceito sociológico de "dominação"
2. Sobre o conceito de "ação associativa" veja § 12, tópico 3. O conceito de "ordem adminis- deve ser ma.;s pr~ciso e só pode significar a probabilidade de encontrar obediência a uma ordem
tralJva" inclui IOdaS as nOrmas que prelendem vigência para o comportamemo tanto do quadro - 2, O conceito de "disciplina" inclui o "treino" na obediência em ma.>5a, sem críUca nem
administrativo quanto dos membros "em relação à associação", como se costuma dizer. Isto é, resistência.
pretendem vigência para todos aqueles fins cuja realização as ordens da associação procuram asse·
gurar mediante determinadas ações planeiadas e positivamente prescritas, a serem el<eclltadas pelo A situação de dominação está ligada à presença efetiva de alguém mandando
quadro adminislrativo e os demais membras Numa orga nização econômica absolutameme comu- eficazmente em outros, mas não necessariamente à existência de um quadro adminLs-
nista isto ahrangeria quase r(x!as as ações sociais; num Estado de direito absoluto, por outro lado,
apenas as ações dos juizes, da polícia, dos jurados e dos soldados, além das atividades IegíslalJvas
trativo nem à de uma associação; porém certamente - pelo menos em todos os casos
norma is - à existência de um dos dois Temos uma associação de dominação na medida
il
e eleitorais Em geral - mas nem sempre em particular - a separação emre as ordens adminis· I!.
em que seus membros, como tais, estejam submetidos a relaçües de dominação, em 'i
trativa e reguladora coincide com a separação entre o "direito público" e o "direito privado"
numa associação politica (pormenores na Sociologia do Direito (§ lj.) virtude da ordem vigeme.

§ 15, Denominamos empresa uma ação contínua que persegue determinados fiJl5, I. O pai de família domina sem quadro administrativo, O chefe beduíno, que levanta
cassociaçio de empresa urna relação associativa cujo quadro administrativo agecominua· contribuições junto às caravanas, pessoas e bens que passam por sua fortaleza nas rocbas, domina
mente com vista a determinados fins, rodas aquelas pessoas diversas e indetenninadas que não formam associação aljJuma, apoiando·se
Denominamos união uma associação baseada num acordo e ruja ordem estatuída em seu séquito, que, dado o caso, lhe serve como quadro administrativo para impor·se coativa·
mente. ('feoricamente imaginável seria também semelhante dominação por parte de um individuo
só pretende vigência para os membros que pessoalmente se associaram.
desprovido de quadro administrativo. )
Denominamos insfiruiçio uma associação cuja ordem estatuída se impõe, com (rela· 2, Uma associação é sempre, em algum grau, associação de dominação, em virtude da
tiva) eficácia, a toda ação com determinadas características que tenha lugar dentro de existência de um quadro administrativo. Só que o conceito é relativo. Aassociação de dominação,
determinado ãmbito de vigência. como lal, é normalmente também associação admirúsrrativa, A peculiaridade da associação é
determinada pela forma em que é administrada, pelo caráter do círculo de pessoas que exercem
I. Sob o conceito de "empresa" inclui-se naturalmente também a realização de atividades a administração, pelos objetos administrados e pelo alcance que tem a dominação. AI; duas primei-
IXllíticas e hierúrgicas( de caráter re~gioso (N. T. )), assumos de uma união ele., desde qlle apresen- ras ca raeteríSlicas, por sua vez, dependem principalmente do caráter dos fundamentos de legitlmi.
tem a característica da continuidade na persecução de seus fins. dade da dominação (sobre estes, veja capítulo 11I)
34 MAXWEBER ECONOMlA E SOQEDADE
35
§ 17. A uma associação de dominação denominamos associação política, quando da linguagem, acentuando esta claramente o que de fato é O elemento específico: a Coação
e na medida em que sua subsistência e a vigência de suas ordens, dentro de determinado física (efetiva ou evenlual). Sem dúvidl, a linguagem corrente chama "associações políticas"
território geográfico, estejam garantidas de modo contínuo mediante ameaça e a aplica- não apenas ospróprio:; executores da coação física considerada legitima como também, por
ção de coação física por parte do q!0i3dro admini5trativo. Uma empresa com caráter exemplo, p~rtldos ~. clubes que buscam a influência (também a expressamente não violenta:
sobre as açoes pobt,cas das respecuvas associações. Por nossa pane, separamos essa espécie
de instituição política denominamos:.êiilâ.ªJ.quan_do ~.na_me.9ida-:'!1_g~~u guadrQ
de ação social, como ação "politicamente orientada':, da ação "política" propriamente dita (da
adJ:!!inistrativo reivindica com êxito o monopólioJeg7iimo da coa窺 X!sif'l parat.-:<l~r ação ~ocialiva, realizada pelas P!.9pria5aSSOCiaç?es..políticas, no sentido do § 12, tópko 3).
as ordéns vigentes. Uma ação social, e espedalmente a de uma associação, é "politica- '.. 2» tre:comel1dáveldefmlr,o conceito de Esradc; em correspondência com seu tipo moder-
mente orientada", quando e na medida em que tenha por fim a influência da direção no, uma vez que este, em seu pleno desenvolvimento, é inteiramente moderno. Cabe, porém,
de urna associação política, particularmente a apropriação ou expropriação, a nova abstrair de seus fins concretos e variáveis, variabilidade que vivemos precisamente em nossa
distribuição ou atribuição de poderes governamentais rde forma não violenta (veja tópi- época. A caraaerística formal do Estado atual é a exis!ência de uma ordem administrativa e
co 2, no fim do parágrafo)). jurídica que pode ser modificadl por meio de estalUros, pela qual se orienta o funcionamento
Uma associação de dominação denomina-se associação hierocrálica quando e na da ação associativa tealízada pelo quadro adminislrativo (também regulado através de estatuto)
medida ,~m que se aplique coação psíquica, concedendo-se ou recusando.se bens de e que pretende vigência não apenas para os membros dl associação - os quais pertencem
salvação (coação hierocrática). Uma empre53. hierocriticil com caráter de instituição a esta essencIalmente por nascimento - senão, também, de maneira abrangente, para IOdl
é denominada igreja quando e na medida em qt:e seu quadro administrativo pretenda ação que se realize no território pominado (ponanto, à maneira da instituição territorial). É
caraaerística também a circunstãncia de que hoje só existe coaçio física "legítima", na medidl
para si o monopólio da legílÍma coação hierocrática
em que a ordem estatal a permita ou prescreva (por e.emplo, deixando ao chefe da família
o "direito de castigo físico", um resto do antigo poder legitimo, por direito próprio, do senhor
I. É evidente que, para associações politicas, a coação física não constitui o único meio da casa que se estendia até a disposição sobre a vida e a morte dos filhos e dos escravos).
administraIJvo, tampouco o normal. Na verdade, seus dirigemes servem-se de todos os meios Esse caráter monopólico do poder coativo do Estado é uma caraaerística tão essencial de sua
possíveis para alcançar seus fins Entretanto, a ameaça e, eventualmente, a aplicação desta coação situação atual quanto seu caráter racional, de "instituição", e o contínuo, de "empresa".
são seu meio específico e constituem a uicima ratio sempre que falhem os demais meios. Não 4 Para o conceito de associação hierocrática, a natureza dos bens de salvação prometidos
são somente as associações políticas que empregaram e empregam" coação física como meio - deste mundo Ou do outro, externos ou internos -, não pode ser caraaeristica decisiva,
legitimo. Fazem· no também o dã, a comunidade doméstica e outros grupos de pessoas; na mas apenas a circunstância de que sua adminjstração pode constituir o fundlmemo da dominação
Idade Média, em determinacbs circunstãncias, todos os autorizados a portar armas. Além dl espiritual de homens. Para o conceito de "Igreja", ao contrário, é caraaerístiÇQ, de acordo
Circunstância de que a coação fisica se aplica (pelo menos como um meio entre outros) para com o uso corrente (e adequado) da linguagem, o caráter (relativameme) racional de ilJS(ituição
garantir a realização de "ordens", a associação política está também caracterizada pelo fato e de empresa que se manifesta na natureza de suas ordens e de seu quadro administrativo,
de que pretende, para determinado cerritório, a dominação de seu quadro administrativo e suas e sua pretensão de dominação monopólica. De acordo com a tendencia normal da instituição
ordens, e a garante por meios coativos Onde quer que essa característica se aplique a associações eclesiástica, esta se caracteriza por dominação cerritoriai hierocrática e articulação tecritorial
que empregam meios coativos - por exemplo, comunidades de aldeia, comunidades domésticas, (em paróquias\ sendo uma questão de cada caso particular a de quais sejam os meios adequados
associações corporativas ou de trabalhadores ("conselhos")~, estas devem ser consideradas, para dar força a essa pretensâo de monop6lio. Mas rustoricameme o monopólio de dominação
no que se refere a este aspecco, associações politicas. territorial não foi tão essencial para a Igreja quanto para a associação política, e hoje o é muito
2. Não é possível definir uma associação política - mesmo o "Estado" ~ com referência menos ainda. O car1ter de "instituição" e especialmente a circunstância de que lá se "nasce"
ao fim de sua "ação da associação". Desde os cuidldos do abastecimento de alimentos até a dentro de uma Igreja a distingue da "seita", cuja caraCleríSlica consiste em set uma "união"
proteção das artes não existe nenhum fim que aS associações políticas não tenham perseguido, e em s6 aceitar como membros os religiosamente qualificados que pessoalmente se associam
em algum tempo, pelo meno:; ocasionalmente, e desde a garantia da segurança pessoal até a (Os pormenores pertencem à Sociologia dl Religião.)
jurisdição, nenhum que tenham perseguido todas as associações. Por isso, O caráter "político"
de uma associação só pode ser definido por aquele meio - às vezes elevado ao fim em si
- que não é sua propriedade exclusiva, porém constitui um elemento especifico e indispen.>:lvel
de seu caráter: a coação física. Isso não corresponde exatamente ao uso corrente dl linguagem;
este é inútil para nossos fins na ausência de maior precisão. Fala-se cb "política de divisas"
do banco estatal, da "política financeira" dl direção de uma união, da "política escolar" de
um município, referindo-se ao tratamento e à condução planejada de determinado assunto obje·
tivo. De forma muito mais caraaerística, separa-se o aspecto ou o alcance "político" de um
assunto, o funcionário "político", Ojornal "político", a revolução "política", a união "política",
o partido "político" e a conseqüéncia "política" de outros aspectos ou características - econô-
mico", cultura is, relígiosos etc - das respectivas pessOa5, coisas ou processos. Ao fazê-lo, consi·
dera·se tudo aquilo que está Iígado às relações de dominação dentro da associação "política"
(conforme costumamos dizer\ isto é, denrrodo Estado, e que pode produzir, impedir ou fomemar
,·I!
" a manutenção ou a transformação ou a subversão dessas relações, em oposição a pessoas, coisas
!i e processos que nadl têm a ver com isso. Também neste uso corrente da linguagem, procura·se,
portanto, a caraaerística comum no meio, na "dominação", islo é, no modo como esta se exerce
pelos poderes estatais, excluindo-se o fim a que serve a dominação. Por isso, pode-se afirmar
que a definição que nos serve de fundlmento constitui apenas uma precisão do uso corrente

--..--------------------- ----ll~
Capítulo II

CATEGORIAS SOCIOLÓGICAS FUNDAMENTAIS


DA GESTÃO ECONÔMICA

Nota prdiminar. Neste Olpítulo, IÜO pretendemos, de modo algum, desenvolvec uma "tel>-
ria econômica", mas apenas definir alguns conceitos freqüentememe usados nesta obra e exami-
nar ce"as relações sociolÓgicas elememaresdentro da vida econômica Também aqui a forma
da conceituação está determinada puramente por razões de conveniêncIa. Conseguimos evitar
complelamente, em nossa terminologia, o discutido conceito de "valor" No que se refere à
terminologia de K Bc'cm., s6 a mcxlíficamos, nas respectivas passagens (sobre a divisão do traba·
lho~ quando, paca nossos fins, parecia conveniente fazê-lo Qualquer "dinâmic3" fica, por en-
quanto, foca de n= consideração, r
§ L Uma ação será denominada "economicamente orientada" na medida em
I
que, segundo seu sentido visado, esteja referida a cuidados de salisfazer o desejo de
obter certas utilidades. Denominamos' 'gestão econômica" o exercício pacífico do poder r
de disposição que primariamente é economicamente orientado, havendo "gestão econô-
mica racional" quando tem caráter racional com referência a fins e de acordo com
um plano. Denominamos "economia" a gestão econômica aUlocéfala e contínua, haven-
do "empresa econômica" quando, além de continuidade, ela apresente a organi7J1ção
característica de uma empresa,

I. Já observamos antes (capítulo I, § I, lI, 2, p. 14) que a gestão econômica em sI não


é necessariamente ação social.
2, A definição da geslãoeoonõmlca tem de ser a mais geral possível,e expressar cla ramente
que todos os processos e objetos "econômicos" adquirem seu caráter como tais unicamente
pelo sentido que neles põe a ação humana - como fim, meio, obstáculo ou resultado ace~sório, ',i;
56 que não é possivel expressá-lo, como às vezes acontece, dizendo que a gestão econômica ,
é um fenômeno "psíquico", pois o preço, a produção de bens e mesmo a "valorização subjetiva"
destes ~ sendo processos reais - eSlão longe de se limitar à esfera "psíquica" No entamo, ,.I
a expressão significa uma coisa correta: esses processos lêm um seneido visado peculiar, e só
esle conslitui sua unidade e os loroa compreensíveis. A definição da gestão econômica, além
disso, tem de receber uma forma que também abranja a moderna economia aqujsitiva, náo
I
podendo, portanto, parrir das "necessidades de consUllJo" e sua "satisfação", sef\áo, por um if
lado, do fato (que cambémse aplica ao puro interesse em ganhar dinheiro) de que certas utilidades 'I I
são desejadas, e, por OUlro lado, do fato (que também se aplica à pura economia de satisfação
de necessidades, mesmo em sua forma mais primitiva) de que se procura satisfazer esse desejo I
i,-
"

r
,I
..
lJf
38 MAXWEBIóR ECONOMIA E SOCIEDADE 39
mediame determinadas provisões (por mais primitivas Ou tradicionalmente arraigadas que sejam). em geral, para toda ação racional), porém, num sentido diferente Na medida em que se trata
3. Denominamos "ação economicamente orientada", em oposição à "gestão econômica", de "técnica" pura, na acepção que damos à palavra, interessam a esta unicamente os meios .
lOda ação que esteja primariamente orientada a) por outros fins, mas em seu curso toma em mais apropriados para chegar a dererminado resultado, que aceita como finalidade dada e indiscu~
consideração a "situação econômica" (a necessidade subjetivamente reconhecida da provisão tível. Em comparação com outros que talve; ofereçam o m<;smo grau de perfeiçâo, segurança
econômica\ ou b) por essa situação, empregando, porém, como meio a coaçlo física, isto é, e durablltdade do resultado, esses meIos tel)l de ser também os mais econômicos quanto ao
toda ação que também se determina pela situação econômica, mas que não se orienta por ela esforço que exigem Em comparação com outros, a saber, desde que sejam imediatamenre compa·
em primeiro Jugar ou não o faz de maneira pacifica. "Gestão econômica" significa, portanto, r:!yeis os graus de esforço quando se busca o mesmo resultado por G1minhos diversos. À técnica
para nôs, uma orientação sub/eriva e primariamence econômica (Subjetiva porque o que importa pura não interessam, nesse processo, as demais necessidades. Por exemplo, el. resolveria o
é a crença na necessidade da provisão, e não a necessidade objetiva desta. ) No caráter' 'subjetivo" problema de se construir de ferro ou de pJacina determinado elemento tecnicamente indispensável
desse conceiw, isto é, na circunstãncia de que o sencido visado da ação lhe imprime o caráter de uma máquina - desde que concretamente houvesse quantidade suficiente desta úhima matéria
de gestão econômica, insiste com razão R LlEfMANN, apesar de supor, injustamente, que codos para chegar a delerminado resultado concreto em questão - unicamente sob o aspedO de como
os demais [autores I dizem o contrário alcançar a maior perfeição no resuhado e em qual dos dois caminhos, em comparação com
4. Toda classe de ação pode ser economicamente oáencada, inclusíve a ação violenta o outro, seria menor o dispéndio de outros elementos (de trabalho, por exemplo). Mas, quando
(por exemplo, a ação bélica: guerras de rapina, guerras comerciais) Aeste respeito, foi s9bretudo passa a considerar a diferença na raridade de ferro e de platina, em relação ã demanda total
Franz Oppenheimer quem opôs com razão ao meio "econômico" o meio "político". E de faw - O que hOle coslUma fazer lOdo "técnico", ainda no laborarório quimico -, sua orientação
conveniente separar este último aspedo da "economia" A orientação prática para a violência já não é "puramente técnica" (no sentido aqui adotado da palavra) mas também econàmica.
se opõe fortemente ao espírito da "economia" - no sentido corrente da palavra. Por isso não Do ponto de vista da "gestão econômica", problemas "técnicos" signifiGlm o exame dos "cusros"
cabe designar a apropriação imediata e violenta de bens alheios e a imposição real ç imediata - quesrão fundamentalmente importante para a econOmia, mas que, dentro de seu círculo de
de determinado comportamemo de oUlros por meio da luta como gestão econômica. E evidente problemas, sempre toma esta forma: como se realizará a satisfação de oucras necessidades (atuais
que a troca não é o único meio econômico, mas apenas um entre Outros, ainda que dos mais e qualitacivamente diferentes ou futuras e qualirativamente homogêneas, dependendo do caso)
imponantes. E também é evidente que a provisão economicamente orientada e formalmente quando, para satisfazer esca necessidade, se empregam agora esses meios (Tratam desle proble·
pacifica que se preocupa com os meios e os resultados de fUluras ações violentas (armamento, ma, de forma análoga, a obra de VON Gom, Grundriss der Sozialõkonomik, seção 11, 2; de
economia de guerra) é "economia" do mesmo modo que qualquer OUlra ação desse gênero maneira excelente e pormenorizada, as exposições de R. LI.FMAl", Grundsiieze der Vo1kswirrs·
Toda "polírica" racional serve-se da orientação econômica em seus meios, e toda polirica chafesfehre, vaI. J, p 334 e seg [2' ed. 1920, p. 327 e seg 1 É equivocada a redução "em última
pode pôr-se a serviço de fins econômicos. Do mesmo modo, a economIa - nem toda, mas Instância" de todos OS "meios" ao "esforço de trabaLho")
nossa economia moderna, em nossas condições modernas - precisa da garamia do poder de Pois a questão de quanto" custa", em termos relativos, a aplicação de determinados meios
disposição pela coação jurídica do Esrado. Isto é, pela ameaça de eventuais medidas coativas para alcançar determinado fim, de natureza técnica, está concatenada, em última insrância, com
para garantir a manmençao e aplicação dos poderes de disposição formalmeme "legítimos" a da aplicabilidade de meios (entre eles, sobretudo, a força de erabalho) para fins diversos.
Mas a economia que dessa maneira se protege não tem, ela mesma, caráter coativo De natureza "técnica" (flO senlido da palavra aqui adotado) é, por exemplo, o problema de
Nada revela melhor o equívoco na afirmação de que a economia (qualquer que seja sua quais os tipos de dispositivos que se devem empregae para mover determinada espécie de carga
defiJlição) é conceitualmente apenas "meiO" - em oposição, por exemplo, ao "Estado" etC ou para extrair produtos de minas a dererminada profundidade, e quais deles sejam os mais
- do que o fato de que precisamente o Estado só pode ser defi"nido a partir do meio que °
"'propriados"; que significa, entre outras coisas, 05 que levem ao resultado com um mínimo
hoje monopoli?,meme emprega (a coação físiCl) Se ecooomia signIfica algo, então na prática relarivo (em relação ao resultado) de trabalho eferi.·o. O problema adquire caráter "econômico"
ela é a escolha prevideme enrre fins precisamente, alOda que se orienre pela esCaSsez dos meios quando a questão é a seguinte, se - no caso de uma economia de troca - os gaslOs em dinheiro
que parecem disponíveis e ace~sjveis para estes vários fins serão compensados pela venda dos produtos obtidos, ou se ~ no caso de unta economia planifi·
S. Nem toda açâo racional quanto a sel1S meios pode ser chamada "gestão econômica cada - se pode colocar à disposição da obra em questão os trabalhadores e meios de produção
racioml" ou, em geral, "gestão econômica" Especialmente não devem ser empregados como necessáriOS para sua realizaçâo, sem prejudicar outros interesses de abastecimento, considerados
idênticos os termos "economia" e "técnica" A "récnica" de uma ação significa para nÓS a suma mais imfX)rranres. Em ambos os casos trata·se de um problema de comparação de finalidades
dos meios nela empregados, em OpOSiçlo ao sentido ou fim pelo qual, em última instância, A economia orienta-se, em primeiro lugar, pelo fim aplicado; a técnica, pelo problema dos
se oriema (in concreto}, a técnica "racional" significa uma aplicação de meios que, consciente meios a serem aplicados (dado o fim). ACircunstância de que toda atividade récnica se fundamenta
e planejadamente, está orientada pela experiência e pela reflexão, e, em seu máximo de raciona- em determinado fim aplicado é no fundo sem importância para a questão da racionalidade "técni-
lidade, pelo pensamento científico. O que concretamente Se entende por "técnica" é, ponanto, ca", do pontO de vista puramente conceicual (mas não, de fato) Técnica racional, segundo a
fluido· o sentido último de uma ação conerem, consíderado dentro de um complexo de ações, definição aqui empregada, pode também estar a serviço de finalidades para as quais não exisre I
.. 1
pode ser de natureza "Iécnica", isro é, consrituir um meio em relação àquele complexo; mas, demanda alguma. Assim alguém poderia, como pu ro passatempo "técnico", prcxluzir ar armosfé-
em relação à ação concreca, essa função técnica (técnica do ponto de vista daquele complexo rico, fazendo uso dos meios técnicos mais modernos, sem que se PJSS3 objetar um mínimo
de ações) constitUl o "sentido", e os meios que aplica s~() sua "técnica' '. Técnica, neste sentido, comra a racionalidade de seu procedimento: do ponto ele vista econàmico, sua ação, em condições
existe, portanto, em toda ação: técnica da oração, técnica da ascese, récnica do pensamemo normais, seria irracional porque não existe nenhuma necessidade de se preocupar com o abasleci-
e da pesquisa, técnica mnemônica, técnica da educação, récnica da dominação politica ou hiera- memo desse prcxluto (compare VON Gom-OrruuENFELD em Grundriss der Sozialõkonomik, 11, 2).
crárica, técnica administrativa, técnica erôtica, técnica militar, récnica musical (de um virtuoso, A orientação econômica do chamado desenvolvimento tecnológico pelas possibilidades de luclO
por exemplo), técnica de um escultor ou pintor, técnica juridica etc., e todas elas são suscetíveis é um dos fatos fundamentais da hisrôria da récnica. Mas não foi exclusivamente esta orientação
aos mais diversos graus de racionalidade. Sempre que se apresenlar uma "questão lécnica", econõmica - por mais importante que lenha sido - que indicou à técnica O caminho de seu
isto significa que existem dúvidas sobre os meios mais racionais. O critério de racionalidade desenvolvimento. Houve lambém, em parte, o jogo de idéias e a meditação de ideálagos "alheios
para a IÉrnica é, entre outros também, o f.moso principio do "esforço minimo", o resultado ao mundo", em parte, interesses fantástiCOS ou dirigidos ao além, em pane, problemas artísticos
ótimo em comparação com os meios a serem aplicados (não "com os meios - absolutamente e outros motivos extra-econômicos. No encanto, em todos os tem)XlS e especialmente hoje, o
~ mínimos"} O principio aparentememe equivalente vale também para a economia (como, fator principal para o desenvolvimento técnico é o condicionamento econômico; sem o cálculo
.",-

>1,:
~-1

MAXWEBER ECONOMLI. E SOCIEDADE 41


40
racionalcomo hase da economia, isto é, sem condições rustórico-económicas de namreza extrema- poderiam impedir e muitas outras formas de comporumenro podem ter igual importãncia para
mente concreta, não teria nascido a téalÍca racional- Acircunstãncia de termos incluído expresSl- a gestão econômica e também ser objelos da provisão econômica ou, por exemplo, de conrraros.
mente, já no conceito inicial, aqllilo que caracteriza a economIa em oposição à técnica, deve-se Mas obteríamos conceitos imprecisos subordínando-as a uma destas duas categorias. Essa concei·
ao ponto de partida sociológico. Do caráter de "continuidade" segue-se, para a Sociologia, prag- tuação é determinada unicameme por razões de converuência, portanto.
maticamente a avaliação dos fins entre si e em relação aos "custos" (na medida em que estes 2. Igll3lmeme imprecisos se tornariam os conceitos (conforme corretamente observou
sejam algo diferente da renúncia a determinado fim em favor de outros mais urgemes} Uma v. Bólun-Bawerk) se chamássemos indistintamente "bens" a todas as entidades da experiência
°
teoria econômica, ao comráno, faria bem em incluir aquela caracteristica desde princípio. e da linguagem corrente, e emio equiparássemos o conceilo de bens aos objetos úteis. Empre-
6. No conceJlO sociológico da "gestão eCOnômica" não deve faltar a caraeteríslica do poder gando-se num sentido rigoroso o conceito de "utilidade", não se pode dizer que um "cavalo"
de disposição, já que pelo menos a economia aquisitiva se realiza por complelo na forma de ou uma "barra de ferro" sejam "bens". Um "bem", neste sentido, é a aplicabilidade peculiar
contratos de troca, iSIO é, na aquisição planejada de poderes de disposiçáo. (Dessa maneira desses objetos - por exemplo, como força de tração Oll de sustentação etc. ~, que se considera
estabelece-se a relação COm o "Direito".) Mas também toda outra organização da economia desejável e na qual se acredita. Muito menos podem considerar-se "bens", segllndo eSSa termino-
implica alguma distribuição eferiva dos poderes de disposição, orientando-se, porém, por princí- logia, as possibilidades que têm a função de obje!Os de circulação econô~ica (na compra, na
pios completamente diferentes dos da economia privada de hoje, que garante estes poderes venda etc.), tais como a "clientela", a "hipoteca" Oll a "proptiedade" Aquilo que oferecem
Juridicamente a economias particulares com caráter autônomo e autocéfalo. Pois Ou OS dirigentes a uma economia essas oportunidades, estabelecidas ou garantidas pela ordem vigente (tradicional
(socialismo) Ou os membros (anarqllismo) têm de poder contar com o poder de disposição sobre ou estatuída), de obter poderes de disposição sobre utilidades objetivas e pessoais denominamos,
a mão-de-obra dada e as utilidades existentes: este fato pode ser terminologicamente disfarçado, para simplificar, "oportunidades econômicas" (ou simplesmente "oportunidades", quando não
porém não eliminado por via interpretativa. Nem os meios pelos qllaís se garante - seja de há perigo de equívocos}
forma convencional, seja de forma jurídica - essa disposição, nem a cirClltlstância de ela poder 3. A circunstância de sô chamarmos "serviços" a formas ativ-ds de comportamento (e não
carecer de qualquer garantia externa, podendo-se aperlaScontar com ela com segurança (relativa), a atos de "tolerância", "permissão" ou "omíssão") deve-se a razões de conveniência. 5eglle-se
em virtude de certo costume ou de determinada situação de interesses, têm importância do daí, entretanto, que as categorias de "bens" e "serviços" não consti(llem uma classificação abran-
pomo de vista conceitu.a/, por mais indispensável qlle sej2m, sem dúvida, para a economia moder- geme de todas as urifjdades economicamente estimadas.
na, as garantias jurídicas com caráter coativo O fato de 2quela Categofla ser conceitualmente Sobre o conceito de "trabalho", veja § 15.
indispensável para a consideração econômica da ação social não significa, portamo, que a ordem
jurídiQ garantidora dos poderes de disposiÇão seja igualmente indispensável para a conceituação,
lXIr mais indispensável qlle possa parecer do pomo de visra empirico § 3. A orientação econômica pode realizar-se de forma tradicional ou de forma
7 No conceito de "poder de disposição" incluímos também a possibilidade - efetiva racional refereme a fins. Mesmo com considerável racionalização da ação a influência
ou de alguma forma garantida - de dispor sobre a própria força de rrabalho (o que não se exercida pela orientação tradicional permanece relativamente importante_ A orientaçào
aplica auromaticameme - por exemplo, aos escravos) racional determina, em regra, primariamente a ação de direção (veja § 15) qualquer
8 Uma teoria sociológia da economia se vê obrigada a introduzir desde logo em Sll3S que seja a natureza desta. O desenvolvimento da gestão econômica racional a partir
categorias o conceito de "bens" (como acontece no § 2), pois ela se ocupa com aquele tipo da busca puramente instintiva e reativa de alimento ou a partir da utilização de uma
de "ação" que recebe seu sentido específico do ré'sulcado das cogitações (apenas teoricameme técnica tradicional e de relações sociais habjwais está condicionada também, em conside-
isoláveis) dos agentes econômicos. De oUlra maneira pode (talvez) proceder a teoria econômica, rável grau, por ações e acontecimentos não-econômicos e não-cotidianos e, além disso,
cujos resultados teóricos constituem a base da Sociologia econômica - ainda que esta, em cerlOS
pela pressão da necessidade por restriçào absoluta Ou (regularmente) relativa do espaço
casos, tenha de criar seus própflos conceitos.
de subsistência
§ 2. Por "utiIJdades" emendemos sempre as probabilidades (reais ou supostas) I. Naturalmente, não existe para a ciência, emprincípio, uma "Situação econômica primor-
concretas e particulares de aplicabilidade presente ou futura, cortSideradas como tais dial". Poder-se-ia, por convenção, chegar ao acordo de considerar e analisar como tal a situação
por um ou vários agentes econômicos cuja presumivel importância corno meios para da economia em determinado nível técnico: o do equipamento mínimo constatãveL Mas não
os fins desse agente (ou desses agente5) orienta suas atividades econômicas nos cabe, de modo algum, dedllzjr dos atuais rudimentos encontráveis entre povos primitivos
A5 utilidades podem ser serviços prestados por objetos não-humanos (coisas) OLl pobres em equipamento (por exemplo, os vedas ou certas tribos na interior do Brasil), que
por homens. Aos objeros suscetíveis de prestar serviços úteis de natureza qualquer a gestão econômica de todos os povos do passado situados no mesmo nível de desenvolvimento
denominamos "bens", e às utilidades que consistem numa atividade hLlmana denomi- técnico teve a mesma forma. Pois, do ponto de vista puramente econômico, existia nesse nível
namos "serviços". ObjelO de provisão econômica são também relações sociais aprecia- de desenvolvimento a possibilidade tanto de uma intensa acumulação de trabalho em grandes
das como fontes d!= possível poder de disposição, presente ou futuro, sobre delermi- grupos (veja § 16) quanlO, ao contrário, de um extremo isolamento em grupos pequenos. Para
nadas utilidades A5 0pol1unidades estabelecidas a favor de determinada economia, a decisão entre ambas as possibilidades, além de circunstâncias econômicas nalUralmemc condi-
cionadas, puderam oferecer também estimulos muilO diversos determinadas circunstãncias extra-
pelo costume, pela situação ou pela ordem (convencional ou juridicamenre)garantida, econômicas (por exemplo, militares)
denominamos" oportunidades econômicas". 2. Gllerra e migração não são, em si mesmas, processos econômicos (ainda que nelas
predominasse, especialmente nas épocas primitivas, a orientação econômica), mas freqüente-
Compare VON Bél'N-B'WERK, Rechte und Verhiillnissé' vom Standpunkt der volkswircschaf- mente liveram por conseqüência, em todos os tempos até a época mais recente, mudanças radicais
tlichen Güterlehre (Innsbruck, 1881). na economia. Na situação de uma crescente contração absoluta do espaço da subsistência (condi-
L Bens e serviços não esgotam o ãmbito das condições do mundo circundante que, para cionada por fatores climáticos, desflorestamento ou assoreamenlO1 grupos de homens reagiram
um agente econômico, podem ser importantes e objetos de provisão A relação de "fidelidade de forma muito diversa, conforme a estrutura da situação de interesses e o tipo de interferência
do freguês" ou a tolerãncia de determinadas medidas econômicas por parte daqueles que as de interesses não-econômicos. Mas a reação típica foi a restrição na satisfação das necessidades
I'.CONOMIA E SI "11-1 >A{" I',
42 MAXWEBER

e a diminuição absoluta de seu número. Na situação de uma contração relativa do espaço de Com respeito a a}. o sentido da ordem da a:;s, l<ÜÇI< I I" xI.· .".,
subsi5tência (condicionada por Um nível dado na satisfação das necessidade5 e na distribuição a. racionamento do abastecimento, ou do apruvl'ÍI,IIIWllltI, "" <I(l I (l"·,t1111" . . 1
das possibilidades de ganho ~ veja § 11), reagiram também de maneira muito diversa, porém fim de limitar a concorrência na produção ou obtenç--do (associaçjo rl'f:ubdOl.1 l,
com maior freqüência do que no primeiro caso, na forma de uma racionalização crescente da f3. criação de um poder de disposição unitário para administrar de form:1 pL/J/('l,/Ii.J
economia. Nem para esse ponto, contudo, ê possível estabelecer tendências gerais. O enorme as utilidades que até então se encontravam em âmbitos separados de dbposição (asso
crescimento da população na China (desde que possamos confiar na "estatística" deste pais) dação administrativa)
a partir do inicio do século XVIII produziu efeitos contrários aos do mesmo fenômeno paralela- Com respeito a b) a troca é um compromisso de interesses entre os panicipantes
mente observado na Europa (por raZões sobre as quais poderíamos dizer, pelo menos, alguma pelo qual se entregam bens ou possibilidades como retribuição recíproca. A troca pode
coisa}. a estreiteza crônica do espaço de subsistência no deserto árabe apenas em fases isoladas
suscitou a modificação da estrutura econômica e política, e, neStes casos, o estímulo mais fone ser ambicionada e realizada:
foi o desenvolvimento extra-econômico (religioso} 1) de forma tradícional ou convencional e, portanto, irracional, do pomo de vista
3. O tradieíonalismo forte e duradouro na condução da vida, por exemplo, da classe econômico (especialmente no segundo caso), ou
{rabalhadora no irúcio dos tempos modernos não impediu o intenso incremento da racionalização 2) de forma racional, economicamente orientada. Toda troca racionalmente orien-
nas economias de lucro sob direção capitalista, mas isso tampouco aconteceu no caso da raciona- tada é a conclusão mediante um compromisso de uma prévia luta de interesses aberta
linção Ciscai-SOCialista das finanças públicas no Egito. (Contudo, foi a superação pelo menos ou lateme. A luta entre os interessados numa troca cuja conclusão supõe um comprQ-
parcial dessa atitude tradicionalista que, no Ocidente, possibilitou o desenvolvimento em direção misso dirige-se sempre, no caso de uma luta pelo preço, contra os que estão interessados
a uma economia especificamente moderna, racional e capitalista. ) na troca na qualidade de participantes (meio típico: o regateio) ou, no caso de uma
lUla de concorrência, contra terceiros, reais ou possíveis (atuais ou futuros) imeressados
§ 4. As, medidas típicas da gestão econômica racional são as seguintes: na troca e concorrentes no tocante à produção ou obtenção (meio típico: oferecimento
I) distribuição planejada, emre o presente e o futuro (poupança), das utilidades de preços mais baixos ou mais altos).
com cuja disponibilidade crêem poder contar os agentes econômicos, por razões quais-
quer; I. Utilidades (bell5, trabalho Ou outros portadores das mesmas) encontram-se no âmbito
2) distríbuição planejada das utilidades disponíveis entre várias possibilidades de de disposição de um agente econômico quando este de fJco pode comar com a possibilidade
aplicação, estabelecendo-se uma ordem segundo a importãncia estimada delas: segundo de empregá-Ias (relativamente) a vontade, sem interferência de terceiros, qualquer que seja
a utilidade marginal. o fundamento dessa possibilidade: a ordem jurídica, a convenção, o costume ou a situação de
Observam-se esses casos (em sua forma mais rigorosa: "estática") com freqüência interesses. De modo algum a garantia jurídica do poder de disposição é conceitualmente (nem
significativa nas épocas de paz; sua forma atualmente mais freqüeme é a da gestão efetivamente) condição exclusiva da gestão econômica, ainda que hoje seja condição empinca-
econômica baseada na renda em dinheiro; mente indispensável com respeito aos meios materiais de produção ou obtenção.
3) abastecimento planejado - produção e obtenção - com aquelas Ulilidades 2. A falta de rruldureza para o consumo pode também consistir na distãncia entre os bens
das quais todos os meios para produzi-las ou obtê-Ias se encontram demro do âmbito maduros e o local de consumo. Por isso, consideramos aqui o transporte de bens (que se deve
distinguir, naturalmente, do comércio de bens, que implica transferência do poder de disposição)
dos poderes de disposição dos agentes econômicos. No caso de um procedimento racio-
como parte da "produção".
nal, realiza-se uma ação desta espécie quando se considera a urgência estimada do 3. No caso de falta do poder de disposição próprio é indiferente, em principio, a circuns-
desejo superior ao presumível esforço exigido para obter o resultado esperado, isto tãncia de quais sejam as causas ~ a ordem jurídica, a convenção, a situação de interesses,
é: 1) ao dispêndio dos serviços provavelmente necessários, e 2) às outras possibilidades o costume ou idéias éticas conscientemente culrivadas - que impedem açÕES violentas contra
de aplicar os bens necessários neste caso c, portanto, ao produto final que se poderia o poder de disposição alheio por parte do agente econômico
obter aplicando-os de outra maneira (produção em sentido amplo que inclui também 4. Concorrência na produção ou obtenção pode existir nas condições maIS diversas. Espe·
os serviços de transporte}, cialmente, por exemplo, no caso de um abastecimento baseado num ato de ocupação: caçar,
4) aquisição planejada de um poder garantido de disposição - ou da panicipação pescar, lenhar, pastar, desmoitar. Pode existir também e particularmente dentro de uma associa·
nesse poder - sobre aquelas utilidades ção fechada para fora. A ordem que se dirige contra essa situaçáo consiste sempre no raciona-
a. que elas mesmas ou mento da obtenção, o qual, em regra, se combina com a apropriação das possibilidades de
obtenção, dessa maneira garantidas por um numero rigorosamente limitado de indivíduos ou
f3. das quais os meios para produzi-las ou obtê-las se encontram em poder de (na rrulioria dos casos) de comunidades domésticas Todas as comunidades de camponeses e t,
disposição alheio ou pescadores, e a reguhl1;ão dos direitos de desmoitar, pastar e lenhar em terras comuns, a repar- I
y as quais estão expostas à concorrência de terceiros, no que se refere a sua tição dos pastos alpestres etc. têm e5se caráter. Todas as formas de "propriedade" hereditária
I
I
produção ou obtenção, ameaçando o abastecimento próprio, mediante o estabeleci- de terras aproveitáveis se propagaram mediante esse procedimento.
mento de uma relação associativa com os atuais detentores do poder de disposição 5. A Iroca pode estender-se a tudo que, de alguma forma, seja "transferível" ao âmbito
ou com os concorrentes no processo de produção, ou obtenção dessas utilidades. de disposição de outra pessoa e pelo qual esta esteja disposta a dar alguma retribuição. Portanto,
A relação associativa com os atuais detentores alheios do poder de disposição não apenas a "bens" e "serviços", mas também a oportunidades econômicas de toda espécie,
pode realizar-se: por exemplo, uma "clientela" disponível simplesmente em virtude do costume ou da situação
a. mediante a criação de uma associação por cuja ordem deve orientar-se o abaste- de interesses, mas sem qualquer garantia. Naruralmente, isso se aplica muito mais a lodas as
oportunidades de alguma fonna garantidas por uma ordem. Objetos de troca não são, portanlo,
cimento com utilidades ou sua aplicação;
apenas utilidades atuais. Para nossos fins, é troca, no semído mais amplo da palavra, fada ofena,
b. mediante a rrOGl
44 MAXWEBER ECONOMIA E SOCIEDADE 4S
baseada num acordo formalmente voluntário, de utilidades atuais, contínuas, presentes ou fum- 2. Associações econômicas, no sentido desta terminologia, são naturalmente não apenas
ras, qualquer que seja sua natureza, contra determinadas COntraprestações de qualqller espécie. as que hablluaime~te assIm se chamam, como, por exemplo, sociedades aquisitivas (por ações),
Assim é, por exemplo, a entrega ou disposição da utilidade de bens ou dinheiro para retribuição UlllO~S de consumld?res, a.rc.els, cooper~llvas e cartéis, como, em geral, todas as "empresas"
futura em bens da mesma espécie, ou a obtenção de alguma licença ou autorização de "desfrute" economlcas q,:,e su~m atlvlda?es de varras pessoas, desde a utilização de uma oficina comum
de cerro objeto contra pagamento de "aluguel" ou "arrendamento", ou a preStação de serviços por dOIS artesaos ate uma plauslvel associação comunista mundIal.
de qualquer espécie COntra um salário. O fato de hOle, sociologicamente considerado, esre último 3. Associações regulad.0ras da eC?nomia são, p<?r exemplo, as antigas comunidades aldeãs
processo significar, para os ''trabalhadores" no sentido dado no § 15, o ingresso numa associação de camponeses, as corpora~s e os gre~los de aneSaos, os sindicatos, aS associações patronais,
de dominação, não entra por ora em nossa cogitação, assim como as diferenças entre' 'emprés. os cart".ts e todas as assoclaçoes cuJa dlreçao regula, de modo material, o conteúdo eas tendências
timo" e "compra" etC da gestao econômica, exercndo "política econômica", isto é: lanto as aldeias e cidades da Idade
6 A troca pode estar determinada pela tradição e, apoiada nesta, ter caráter convencional, Média quanto todo EStado atual que pratica semelhanre politio.
ou estar delerminada por motivos racionais. Atos de troca convencionais eram as trocas depresen- 4. Uma associação ordenadora pura é, por exemplo, o puro Estado de direito, que confere
tes entre amigos, heróis, caciques, príncipes (veja-se a troca de armas entre Diomedes e Glauco), autonOm,a IOtegral, em seu aspecto malerial, à gestão económica das unidades domésticas e
ainda que muitas vezes com forte orientação e controle racionais (vejam-se as cartas de Tell·el-A· empreendimenlos individuais, limitando-se a regular formalmente, no sentido de urna "arbitra-
mama) A troca racional só é possível quando ambas as partes esperam beneficiar-se dela ou gem", o cumpri~ento das obrigações que provêm dos atos de troca livremente pactuados.
quando dma debs se encontra numa situação forçada, condicionada por algum poder econômico • <5. A eXlstenCla de ass:Xlações reguladoras e ordenadoras da eCOnomia pressupõe, em
ou por simples necessidades Pode servir (veja § 11) para fins de abasteCimento com produtos pnnClp'?, a autonomIa (maIOr ou menor) dos indivíduos economicamente ocupados. Isto é,
de necessidade cotidiana ou para fins de lucro, isto é, estar orientada pelo abastecimento de pressupoe nestes fundamemalrnenu' a liberdade de diSposição, embora limitada em graus diver-
um ou vários participantes com determinado bem, ou por oportunidade de lucro no mercado sos (pelas ordens que orient:m.as ações), e: pOf[a~to, a apropriação (pelo menos relativa) por
(veja § 11). No primeiro caso, as condições da troca estão, em grande pane, individualmente eles de op~rtunldades econom.cas das quais dJspoem de modo autônomo. O tipo mais puro
determinadas e, nesce sentido, ela tem caráter irracionaL os excedentes de uma gestão doméstica, de a~raçao ordenadora eX1S~e, portanto, quando todas as açóes humanas procedem, em seu
por exemplo, são avaliados, em Sua importância, segundo a utilidade marginal individual dessa conteudo, autonomamente, Orientando-se SOmente pelas normas formais estabeleCldas pela res-
economia particular e, eventualmente, trocados abaixo de seu valor; em determinadas circuns· pe~tJva ordem, enqua nto que todos os portadores objecivos de utilidades estão plenamente apro-
tâncias, desejos ocasionais fixam em nível muno alto a utilidade marginal dos bens pretendidos priados, de modo que se pode diSpor deles à vontade, especialmente mediante troca - correspon-
na troca. OSCIlam, portanto, em alto grau os limites de troca determinados pela utilidade marginal. dendo à c:rdem de propriedade tipicamente moderna. Qualquer outra forma de limitação da
Uma relação de troca de caráter racional sóse desenvolve no caso de bens trocados com facilidade apropnaçao e da autonomia implica uma regulação da economia porque compromete de alguma
no mercado (sLJbre o conceito, veja § 8) e, em grau mais elevado, quando se trata de bem forma a orientação da ação humana.
trocados ou utilizados em gestão econômica aquisitiva (conceito: § 11) 6. A oposição entre associações reguladoras e puramente ordenadoras é fluida. Pois, natu-
7. As intervenções de uma associação reguladora mencionadas no item a não são as únicas ralmente, o tipo da ordem "formal" pode (e deve) influenciar, de alguma forma, e às vezes
posskei.5, mas sim as que aqui interessam por serem aquelas resultantes de maneira mais imediata profundamente, o as-pecto material da ação. Muitas dIsposições jurídicas modernas, que preten-
de uma situação em que a satisfação d'S necesstdades como tal se vé ameaçada Sobre a regulação dem ser no~mas puramente "ordenadoras", tendem, em Virtude de sua forma, a exercer seme-
da venda, veja maIS adiante. lhante mfluencla (voltaremos a islO na Sociologia do Direito í Além disso, uma limitaçolo verdadei-
ran;enre ~!gon)Sa ~ dÍ5l,'?5ições puramente ordenadoras só é possível na teoria Muitas disposiçoes
§ 5 Uma associação economicamente orientada pode ser, segundo sua relaçãu
Jundlcas obr,gatonas - e delas nunca se pode escapar ~ contêm, em algum grau, limitações
lm!?~rtames tam~ém pira} forma d~ ?,estão_ econômica m3.Wá3.l. Precisa~eme as disposições
.r
i
com a economia' IUrldJcas que supoem uma aUlonzaçao contem, em determmadas clrClHl5tancias (por exemplo,
a) associaç3o com gestão econômica, quando a ação da associaçao, orientada no direito das sociedades por ações), limitações bem sensíveis à aUlOnomia econômica.
por sua ordem vigente e primariamente extra-econômica, inclui tamhém alguma gestão 7 Os efeitos da limitaçiio imposta pelas regulações no setor material da economia podem
econômica; manifestar-se: a) na cessação de detenninadas tendências da economia (no caso de taxas sobre
b )associação econômica, quando a ação da associação, regulada pela ordem vigen- os preços, cullivo de terras somente para satisfazer necessidades próprias), ou b) na efetivo
descumprimento das regulações (comércio clandestino).
te, é primariamente gestãO econômica autocéfala de determinada espécie;
c) associação reguladora da economia, quando e na medida em que a geStão § 6. Denominamos meio de croca um objeto material de troca, na medida em
econômica aUlOcéfala dos membros se orienta, de modo material e heterônomo, pelas que sua aceitação eSteja orientada, de modo típico, primariamence por determinada
Ordet15 da associação; expedativa do aceitante, que consiste na probahilidade duradoura - isto é, conside-
d) associação ordenadora, quando suas ordens regulam a gestão econômica amo- rando-se o futuro - de trocá-lo, nUma proporção que corresponde a seu interesse,
cdala e autônoma dos membros apenas de modo formal, estabelecendo determinadas por outros bens, seja por bens de qualquer espécie (meio de troca geral), seja por
regras e garantindo as oportunidades assim adquiridas. bens determinados (meio de troca específico). À probabilidade de sua aceitação, numa
As regulações econômicas de caráter material encontram seus limites de fato onde proporção calculável, em troca de outros bens (especificamente indicáveis) denomi-
a continuação de determinado comportamento econômico ainda é compatível com os namos validade material do meio de troca, em relação àqueles outros bens; e seu empre-
interesses vilais de abastecimento das economias reguladas. go em si, de validade formal.
É meio de pagamenlO um objeto típico, na medida em que a valida.de de sua
1 Associações com gesrão econômica são o "Estado" (nJo o socialista ou comunista) e entrega, como cumprimento de determinadas obrigações, paduadas ou impostas, é
todas as demais associaç6es (igrej as, uniões etc) com fi nanças própnas, mas também, por exem- convencional ou juridicamente garancid1 (validade formal do meio de pagamento, que
plo, as comunidades educativas, as cooperativas não primariamente econõmicas etC pode ao mesmo tempo, significar validade formal comG meio de troca).

J
46 MAXWEBER ECONOMIA E SOaEDADE 47
Denominamos meios de troca ou de pagamento canais aqueles artefatos que, Denominamos csCIlãS dos meíos de troca ou de pagamento as rarifações recípro-
em virtude da forma que receberam, têm determinada vigência formal- convencional, cas, convencionais ou juridicamente impostas dentro de uma associação, dos meios
jurídica, pactuada ou imposta - dentro de determinado domínio pessoal ou regional, de troca ou de pagamento naturais_
e que podem dividir-se emparedas, quer dizer, representam determinado valor nominal Denominamos dinheiro correllle as espécies de dinheiro que, de acordo com
ou um múltiplo ou uma fração deste, de modo que com eles é possível um cálculo a ordem de uma associação monetária, têm validade ilimitada em espécie e quantidade
puramente mecânico. como meios de pagamento; chamamos material do dinheiro a matéria com a qual este
Denominamos dinheiro um meio de pagamento canal que serve de meio de troca. se produz; e metalmonetário aquela com que se produz dinheiro de tráfico; entendemos
AssociaÇão monetária ou de meios de troca ou de meios de pagamento é urna por rarifação do dinheiro a valorização - fundamento da divisão em parcelas e da
associação, com referência ao dinheiro ou aos meios de troca ou de pagamento, quando denominação - das diversas espécies de dinheiro administrativo de material diferente,
e na medida em que a vigência convencional ou jurídica (forma!) destes, no âmbito em forma de noras ou de moedas, e por relação monerária o mesmo processo, referente
de vigência das ordens da associação, se impõe com alguma eficácia, em virtude dessas às diversas espécies de dinheiro de tráfico de material diferente.
ordens dinheiro interno ou meios de troca ou de pagamento internos. Aos meios de Chamamos meio de pagamento intercambiário aquele meio de pagamento que
troca empregados na troca com não-sócios chamamos meios de troca externos. serve para a compensação do saldo de pagamento entre associações monetárias diversas,
Denominamos meios de troca ou de pagamento naturais aqueles que não são em última instância - isto é, quando não se protela o pagamento mediante uma prorro-
carrais Cabe diferenciá-los: gação.
a) do ponto de vista técnico: Toda nova ordem de uma associação referente ao setor monetário parte inevitavel-
I) segundo o bem natural que representam (especialmente Jóias, roupas, obj etos mente do fato de que determinadas espécies de meios de pagamento foram aplicadas
úteis e instrumentos) ou na líquidação de dívidas. Ela se contenta com sua legalização como meios de pagamento
2) segundo sejam ou não empregados conforme seu peso (ponderados), ou - quando impõe novos meios de pagamento - converte em seus cálculos as amigas
b) do ponto de vista econômico: segundo seu emprego unidades naturais, cartais ou ponderadas em unidades novas (princípio da chamada
1) primariamente para fins de troca ou pa ra fins estamenrais (presúgio de (Xlsse), ou "definição histórica" do dinheiro como meio de pagamento; não examinamos aquí
2) primariamente como meios de troca ou de pagamento, internos ou externos. até que ponto esta repercute na relação de troca entre o dinheíro, como meio de troca,
Dinheiro ou meios de troca ou de pagamento têm qualidade simbólica, na medida e os bens}
em que, além de seu emprego como tais, não gozam (em regra, não gozam mais)
primariamente de um valor próprio; têm qualidade material, na medida em que seu Observamos expressameme que não pretendemos apresentar aqui uma "teoria do dinhei-
valor marerial, como tal, está ou pode estar influenciado pela avaliação de sua aplicabi- ro", mas apenas fixar terminologicamente, da forma mais simples possível, algumas expressões
lidade como bens de uso. que empregaremos mais adiante com alguma freqüência. Além disso, o que impona aqui é
O dinheiro tem: a descrição de delerminadas col15eqüências sodoJógicas elementares do uso do dinheiro. (Para
a) forma de moeda, ou mim, a teoria material do dinheiro mais aceitável é a de MLm. A Slaal!iche Theoeie des Geldes
h) forma de nota: título. de G F. Krw>, ~ obra mais notável nesta especialidade - resolve de maneira excelente sua
Em forma de notas ele costuma estar adaptado à divisão em parcelas sob a forma tarefa formal. No que se refere aos problemas materiais do dinheiro, é incompleta; voltaremos
de moeda ou referir-se a esta historicamente no que diz respeito a seu valor nominal. ao assunto mais adiante. Deixamos à parre, nesCe ponto, sua casuística louvável e lerminologi-
cameme valiosa. )
Em forma de moeda, o dinheiro constitui:
1. Meios de troca e meios de pagamento coincidem historicameme com freqüêncla. Mas
1) "dinheiro livre" ou "dinheiro de rráfico", quando a instituição encarregada essa coincidência não ocorre especialmente nas fases primitivas. Por exemplo, os meios de paga-
da emissão, por iniciativa de qualquer possuidor da respeaiva matéria, transforma mento para dOles. tributos, presentes obrigatÓrios, multas, impostos pessoais etc_ estão muitas
esta, em qualquer quantidade solicitada, em forma cartal de "moedas", orientando-se, vezes perfeitamente determinados do ponto de vista convencional ou jurídico, porém sem consi-
pOl1anto, a emissão malerialmente pelas necessidades de meios de pagamento dos inte- derar os meios de lroca que efetivamente circulam. A afirmação de M"" em Theorie des Geldes
ressados na troca; und der UmlaufsmicteJ (Munique, 1912)de que também ao Estado os meios de pagamento interes-
2) "dinheiro bloqueado" ou "dinheiro administrativo", quando a transformação sam apenas na qualidade de meios de troca só é correta quando se trata da gestão orçamentá ria
em forma canal depende da disposição da direção administrativa de uma associação, de uma associação com economia moner1ria, mas não nos casos em que a posse de determinaoos
meios de pagamento constitua sobretudo uma característica estamental (Sobre isso, veja H. ScHCRTZ,
li
,~
sendo essa disposição formalmente livre, mas materialmente orientada, em primeiro
lugar, pelas necessidades de meios de pagamento dessa direção; Grundriss einer Enlslehungsgeschichle des Geldes, 1898} A parttr dos primeiros regulamentos
3) "dinheiro regulado", quando, apesar de estar limitada a transformação lem referentes ao dinheiro, estabelecidos pelo Estado, "meio de pagamento" passou a ser o conceito ri
I
moedas I. a forma e a extensão de sua emissão regu Iam-se eficazmente mediante normas. jurídico e "meio de troca", o econômico. I
2, Os limites entre uma "mercadoria", que só se compra porque se têm em coma futuras !
Denominamos meio de circular;:io um título com a função de dinheiro em forma probabilidades de venda, e um' 'meio de uoca" são aparentemente fluidos. Na realidade, porém,
de nota, quando sua aceitação como dinheiro "provisório" se orienta pela probabilidade determinados objetos costumam monopolizar a função de meios de troca de forma tão exclusiva
de que, em condições normais, esteja assegurada em qualquer momento sua conversão - e já nas condições mais primitivas - que sua posição como tais é inequívoca. (O trigo a
em dínheiro "definitivo": moedas ou meios de troca metálicos ponderados. Chama- ser ceifado em determinado "prazo" está destinado, segundo seu sentido subjetivo, a encontrar
mo-Io cenifieado, quando essa probabilidade se apóia em regulações que fixam a arma- um comprador definirivo, não constiruindo nem "meio de pagamento" nem "meio de troca",
zenagem de fundos em moedas ou metal suficientes para sua coberrura plena. e menos ainda "dinheiro".)
48 MAXWEBER ECONOMIA E SOCIEDADE 4')

3. O desenvolvimento de determinadas espécies de meios de troca, enquanro não existe § 7. As conseqüências primárias do uso tipico do dinheiro são:
dinheIro cartal, está condicionado por costumes, situações de interesses e convenções de todos 1 A chamada "troca indireta" como meio de satisfazer as necessidades dos comu-
os tipos, pelos quais se orientam os acordos entre os participames na troca. Essas condições, não midares. Isto significa a possibilidade de uma separação: J) local, b)lemporal, c) pessoal
examinadas aqui em seus detalhes, em virrude das quais os meios de troca receberam primaria- (e também muito essencial), cf) quantitativa entre os bens oferecido;; e os desejados
meme a qualidade como ta is, eram bem diversas, conforme o tipo de troca de que se tratava. na troca. Daí resulta a extraordinária ampliação das possibilidades de troca num ma-
Nem todo meio de troca era universalmente utilizável (nem mesmo demro do circulo de pessoas
que deste modo o empregava) em trocas de todos os lipos (por exemplo, o "dinheiro" de conchas memo dado e, ao mesmo tempo,
nào era meio de troca específico para mulheres e gado). 2. o cálculo em dinheiro do valor das preStações prorrogadas, especialmente
4. Também os "meios de pagamento" que não eram os "meios de troca" habituais desempe- das contraprestações na troca (dívidas},
nharam papel importame no desenvolvimento do dinheiro até sua posi.ção particular. O "fato" 3- a chamada "reserva de valor", iSlo é o enresouramento de dinheiro em espécie
de existirem obrigações (G. F. Knapp). - tributárias, de dote e de preço da noiva, convencionais ou em forma de créditos realizáveis em qualquer momento, como meio de assegurar
de presentes aos reis ou dos reis emre si, de imposto pessoal etc. - e de estaS muilaS vezes (mas o fulOro poder de disposição sobre probabilidades de troca;
nem sempre) terem de ser cumpridas em determinadas espécies tipicas de bem (em virtude de 4. a transformação progressiva de oportunidades econômicas em oponunidades
convenç:io ou coação j ucídica) criou para estas espécies de bens (freqüentemente artefatos especifi- de dispor de quantidade de dinheiro;
ca<los por sua forma). uma posição particular. 5 a individualização qualitativa e, com isso, indiretamente, a ampliação da satisfa-
5 "Dinheiro" (no semido desta termmologia) poderia ser rambém as moedas com o valor ção de necessidades por pane das pessoas que lêm dinheiro ou créditos em dinheiro ;
de "um quinto de um sllekeI", com o cunho Ja casa (comercial), que se enCOntram mencionadas jl
nm documentos babilônicos. Supondo-se, naturalmente, que servissem de meios de troca. Ao con- ou oportunidades de ganhá-lo e, poreanto, podem oferecê-lo por qualquer tipo de
trário, as barras empregadas someme como unidades de determinado peso e não divididas em bens ou serviços;
6, a orientação, hOje típica, da obtenção de utilidades pela utilidade marginal
,li
parcelas não são, para nós, "dinheiro", mas apenas meios de troca ou de pagamento que podem "
ser pesaúos, por mais importante que seja este fato da ponderabilidade para o desenvolvimento daquelas quantidades de dinheiro das quais o dirigente de uma economia acredita poder !I"
Jo "cálculo monetárIO". As situações de transição (aceitação de moedas unicamente segundo seu dispor, provavelmente, em um futuro previsívet. E, com isso: I!f
peso ete. ) são, naturalmente, nu merosas. 7. a orientação das atividades lucrativas conforme toelas as oportunidades ofere· :11
6 "Cartal" é um termo Jntroduzido pela obra S[aalbche Theorie des Geldes de Knapp. Se- cidas por aquela possibilidade de lroca multiplicada por seus aspectos temporais, locais, :Jl
gundo ele, incluem-se neSta calegoria todas aS espécies de dinheiro, divídidas em parcelas ecunha- pessoais e materiais (tópico 1), tudo isso em vinude do fator mais imponante de todos, 111
das ou caflmhadas, metálicas e não-metálicas, que foram providas úe validade pela ordem juridica
ou por um acordo. Não há motivo de reStringir a definição Jo conceito à proclamação pelo Estado,
quer dizer ii
excluinJo·se a convenção ou a coação pactuada, Tampouco poderia ser decisiva, naluralmente,
8. a possibilidade de estimar em dinheIro IOdos os bens e serviços suscelíveis lir
de troca cálculo monetário.
a fabricação sob direção própria ou sob o comrole do poder políticO -o qual, na China, repetidas
vezes faltou por Inteiro, e na Idade Média existiu somente em termos relativos -, desde que haja Materialmente, o cálculo em dinheiro significa, antes de mais nada, que não lil
algumas normas referentes à forma definitiva (o que KNAPP também afirma). Avalidade como meio
Je pagamento e a urilização [ormal como meio de troca no comércio, denuo do <1mbito de domi-
se estimam os bens exclusivamenle segundo sua utilidade atual, em determinado lugar
e para determinadas pessoas, mas que, considerando-se a forma de seu emprego (seja II
nação da associação politica, podem ser impostas coativamente pela ordem i urídica. Veja adiante. como'meios de consumo, seja como meios de produção ou obtenção), têm-se em conta li!
7 Os mdos de troca e de pagamento naturais têm em parte sobretlldo a primeira função, também !adas as futuras probabilidades de utilização e estimação ~ em certas cirmns-
em parte a segunda, em pa rle se Jestinam malS ao tráfico imerno e em parte mais ao externo. tàncias, por um número indeterminado de terceiros, para seus fins - , na medida em 11'li
!:.
A casuística não será considerada aqui; tampouco - ainda não - a questão da validade material que estas se exprimem na forma de uma probabilidade de troca por dinheiro à qual I,
Jo dmheiro tenha acesso o atual detentor do poder de disposição. A forma como isso ocorre, no I
8 Tampouco cabe neste pomo o estabelecimento de uma teoria material do Jinbeiro com caso do cálculo lípico em dinheiro, denominamos situação de mercado (de determinado II
referência aos preços (,,ISO isso sequer sela tarefa da Slxioiogia econômica) Ser-nas-á aqui sufi· ,I II
CIente constatar o fato do emprego de dlnheiro (em suas formas mais importames), uma vez que objeto).
I
nos imeres.,am as cunseqüências sociológicas mais gerais desle fato que, do pomo de viSta econô·
mico, tem cadter puramente formal. Antes de mais nada cabe observar que o "dinheiro", em o que discorremos até agora refere-se apenas aos elementos mais rudiment'.res e já CO~I:. 1: b
sua qualtdade como tal, nunca será nem pode ser um simples "vale" ou uma "uniJade de cálculo" ddos de toda consiJeração do assumo <> dinheiro" e dispensa, jXJrtamo, qualquer comeniano
puramente nominal. Aestimação de seu valor será sempre (e de forma muilO complexa)lambém
uma eStimação de raridade (ou, no caso de "inflação", de abundânCia), conforme observamos
especial. Não examinamos, aqui, a Sociologia do "mercado" (sobre os conceilOs formais, veja
§§ 8, 10). I·
. lJ
precisamente em nossa época, e também nos tempos passados '*
No socialismo, um "vale" emitido, por exemplo, na base de Jelerminada quantidade de
"trabalho" feito (e reconhecido como "útil") e referente a determinados bem poderia tornar·se
um objetO de emesouramemo ou de Iroca, obedecendo, sem dúvida, às regras da troca de bens
Chamamos "crédito", no sentido mais geral, toda troca de poderes de disposição
sobre bens maleriais atualmente possuídos pera promessa de uma transferência futura ~ II
naturais (eventualmente, de forma indireta)
do poder de disposição sobre outros bens materiais, de qualquer espécie_ A concessão I
9. As relações entre a ulilização monetária e a não-monetária de um material tecnicamente de crédito significa, antes de mais nada, a orientação pela possibilidade de efetivamente i
apropriado para (abtlcar dinheiro podem ser observadas com perfeita precisão na rustória mone· reali7.ar-se essa transferência. Crédito, neste sentido, significa primariamente a troca
Iária da China e no alcance de Suas conseqüéncias para a economia, urna vez que, ali, ulili7.anuo-se do poder de dispo;;ição de uma economia sobre bens materiais ou dinheiro - poder I
moedas de cobre, cOm alIO custo de produção e grande flutuação no aproveitamento do malerial do qual esta carece no momento atual, mas que espera obler em excesso no futuro i
monelirio, as conJições se revelam com clareza singular. _ pelo poder de disposição de oUlra economia, existente atualmente, mas não utilizado
I

:~
T
52 MAXWEBER ECONOMIA E S( lUH"'1 11'.
,~;t.
.-,~

a situação deste, enquanto que as outras, em escala cresceme até a primeira, a impediam. Em do resuJt3do da gestão econômica, é também possível uma ('ri(il"~1 ('[h;L, .hl dli.L I" c.H 'Ij. I l.Iut. I

face destas regulações, estavam inreressados na liberdade de mercado todos aqueles participantes da atitude econômica quanto dos meios económicos., o que lamlX-nl It"'\'('ltI4l~, 11'1 C"lll 'lI tlll,1
na troca que se beneficiariam com a maior ampliação possível da merc:lbilidade dos bens, seja A todas elas a função "meramente formal" do cálculo em dinheiro I'ÀI,' p.II'" '" "'li.' ''''.. '
na quahdade de interessados no consumo, sela na de imeressados na venda. Regulações do subaltern3 ou até adversa a seus postulados (abstraindo-se ainda por completo ,llS "'''''''''1",'.", 1.1.,
mercado vo/unrárias apareceram primeiro e ocorreram em seguida com maior frequência por do modo de cálculo e5pecificamenre moderno) Não é possível aqui uma decisà(), UI".' "J"'tI.I·,
parte dos interessados na lucro Ao serviço de interesses monopólicos, podiam tamo I )limílar-se a averiguação e delimitação do que se deve chamar "formal". Por isso, o próprio '""IH .'' <,
a regular as possibilidades de venda e compra (de modo típico, os monopólios mercantls, univer· de "material" tem aqui caráter "[ormal", isto é, caráter abstrato de conceito genérico
salmente existentes) quanto estender-se 2) às oponunidades de lucro peio transporte (monopáhos
de n3vegaçao e ferroviários), 3) à produção de bens (monopólios de produção) ou 4) à concessão § 10. Do pomo de vista puramente técnico o dinheiro é o meio de cálculo econô-
de créditos e financiamemos (monopólios de caráter bancário) Os dois últimos significam em ----J
maior grau uma ampliação da regulação da economia por parte de associaçôes, mas uma regulaçào mico "mais perfeito", isto é, o meio formalmente mais racional de orientação da ação .<:.:(
que - em contraposição às regulações primárias, irracionais do mercado - arienta· se, de forma econômica. O:::
planeiada, pelas s·iwações de mercado. As regulações do mercado voluntárias, conforme sua O cálculo em dinheiro - não o uso efetivo do mesmo - é, portanto, o meio f-
própria natureza, provieram regularmente daqueles interessados cujo considerável poder de específico da economia de produção ou obtenção racional com vista a fins. O cálculo Z
LU
disposiç,;o efetivo sobre meios de produção ou obtenção permitia, lhes a exploração mOllopólica em dinheíro, no caso de maior racionalidade, significa em primeiro lugar: U
da liberdade formal de mercado. Ao contrário, as associaçôes voluntárias dos interessados no I. a estimação segundo a situação de mercado (atual ou esperada) de todas as
consumo (uni6es de consumidores, cooperativas de compra) em regra tinham origem em interes- «
utilidades ou meios de produção ou obtenção, do mesmo modo que de todas as oporm· U
sados economicamente fracos e, por isso, apesar de contribuir para a diminuição dos gaslOs nidades econômicas de alguma forma relevantes, consideradas necessárias para determi·
dos participantes, só conseguiram uma regulação efetiva do mercado em casos isolados e local, W
nado fim de produção ou obtenção atual ou futura, que efetiva ou provavelmente f-
mente limitados. <....J
estejam disponíveis ou, quando se encontram em poder de disposição alheio, podem
ser obtidos ou estão perdidos ou de alguma forma ameaçados, _JJ
§ 9 Chamamos racionalidade forma! de uma gestão econômica o grau de cálculo CO
2. a averiguação numérica a) das possibilidades e toda ação econômica intencional
recnicamente possível e que ela realmente aplica. Ao contrário, chamamos racionalidade ©"O
eb)do resultado de toda ação econômica realizada na forma de um cálculo em dinheiro
material o grau em que () abastecimento de bens de determinados grupos de pessoas
de "custo" e de "rendimento", que compara entre si as diversas possibilidades, e de
(~omo quer que se definam~ mediante uma açao social economicamente orientada,
um exame, que compara entre si os "rendimentos líquidos" estimados das diversas
ocorra conforme determinados posw!ados valorarivos (qualquer que seja sua nawreza)
formas de comportamento possíveis, sobre a base desses cilculos;
que constimem o ponto de referência pelo qual este abastecimento é, foi ou poderia
ser julgado. Esses postulados têm significados extremamente variados.
3. a comparação periódica do conjunto de bens e possibilidades disponíveis a
uma economia em relação aos de que esta diSpôs no começo do período, em ambos
l. A terminologia proposta (a qual, alii', nada mais é do que uma forma maIs precisa
os casos em dinheiro;
ele expressar aquilo que repelidamente aparece como problema nas considerações sobre a "socia- 4. a estimação prévia e averiguação posterior daquelas entradas e saídas consis-
lilação" e o cálculo "em dinheiro" e "em espécie") pretende apenas servir ao propósito de tentes ou calculáveis em dinheiro das quais uma economia ~ conservando-se o valor
um emprego mais inequívoco, na linguagem correme, da palavra" racional", no que se refere estimado em dinheiro do conjunto de seus meios disponíveis (tópico 3) - tem a poss ibi-
a este circulo de problemas. !idade de dispor durante determinado periodo;
2. lima geslio econômica é [ormalmeme "racional'" na medida em que a "previdência", 5. a orientação por esses dados (tópicos 1 a 4) da satisfação de suas necessidades,
essencial em IOda economia racional, pode exprimir-se e de fato se exprime em consideraç6es empregando-se o dinheiro disponível em determinado período de cálculo (conforme
de caráter numérico e calculável (sendo por enquanto sem importincia a forma técnica <Jestes
cálculos, isto é, se se trata de estimaç6es em dinheiro ou em espécie). Este conceito é, portamo,
°
tópico 4) para as utilídades desejadas, segundo princípio da utilidade marginal.
O emprego e a obtenção (seja por produção, seja por troca) contínuos de ben~
inequívuco (ainela que, comu logo veremos, apenas em termos relativos), pelo menos no sentiJo
de que a formo em dinheiro representa o máximo dessa calculabilidade formal (daroque também com o fim 1) de abastecimento próprio ou 2) de conseguir outros bens para utilização
aqUi: ceteris p3ribus!) própria denominam·segestão parrimonial. Seu fundamento, para um indivíduo ou para
3 O conceito de raciolUlidade m;llerial, ao contrário, é inteiramente vago Seus diverso' um grupo cuja gestão econômica apresenta.este caráter, constitui, no caso de procedi-
significados só têm uma COisa em comum: que a consideração não se satisfaz com O fato puramente mento racional, o plano de orçamento, no qual se expressa de que forma devem ser
formal e (relativamente) inequívoco de que se caJcula de maneira racional, com vista a um satisfeitas, mediante a renda esperada, as necessidades previstas de um período orça-
fim, e com os meios [ecnjcamente mais adequados possíveb, senão que esrabelece exi;:ência,." mentário (utilidades ou meios de obtenção para utilização própria)
éticas, políticas, utilitaristas, hedonistas, eSlamentais, igualitárias ou outras quaisquer, e as toma Denominamos renda de uma gestão patrimonial o montante de bens, estimado
como padrão dos re~uhados da gest.ã.o econômica - por mais racional, isto é, de caráter calculá· em dinheiro, do qual esta dispôs num período passado, calculando-se de maneira racio-
vel, que esta seja do POntO de vista fortn3l -, procedendo assim de modo racional, re[ereme nal segundo o princípio exposto no tópico 4, ou do qual tem a possibilidade de dispor,
a valores com racionalidade material referente a fins. Destes pcssíveis padrões valorativas racio·
nais neste sentido, há em princípio um número ilimitado. Entre eles, 05 socialistas e comunistas, calculando-se de forma racional, para um período corrente ou futuro.
por sua vez, heterogêneos entre si, e sempre em algum grau éticos e igualitários, formam eviden· A estimada soma global de bens que se encontram no poder de disposição de
temente apenas um entre os muitos grupos possrveis (graduação estamemal, empenho para fins uma gestão patrimonial e que - em condições normais -se empregam constantemente
de poder político, especialmente de guerra, e quaisquer outros aspeeros Imagináveis sáo, ne~te ou para o uso imediato ou para conseguir alguma renda - avaliando-se estes bens
semido, igualmente "materiais". Por outro lado, e independenremenre desta critica material segundo as 0poI1unidades no mercado (tópico 3) - denomina-se seu patrimônio.
54 MAXWEBER ECONOMIA E SOCIEDADE 55
o pressuposto do cilculo puramence monetário de uma gestão patrimonial é que novos rendimentos, e 3) a questão de como despender e aplicar bens materiais quapdo
a renda e o patrimônio consistam ou em dinheiro ou em bens transformáveis (em existem várias possibilidades de obtenção deles. Analisar a possívelfof111a racional destas
principio) em dinheiro em todo momento mediante a troca, isto é, que apresentem considerações é uma das tarefas mais importantes da teoria econômica, assim como
o málcimo absoluto de mercabilidade. o é para a história econômica perseguir através das épocas históricas o modo como
Gestão patrimonial e (desde que se proceda de maneira racional) plano de orça- procederam de fato as gestões patrimoniais calculadoras em espécie. Em substância,
mento ocorrem também no caso de cálculo em espécie, assunto a que logo voltaremos. pode-se dizer: l)que o grau de rationalidade formal na realidade (em geral)nãoalcan-
Mas este tipo de cálculo desconhece um "patrimônio" homogêneo no sentido de uma çou o nível de fato possível a ele (e, muito menos ainda, o teoricamente postulável),
estimação em dinheiro, bem como uma" renda" homogênea (isto é, estimada em dinhei- mas que os cálculos em espécie dessas economias, em sua grande maioria, sempre
ro} É feito com base na ''posse'' de bens em espécie e (desde que se limite a formas ficaram, em muitos aspectos, necessariamente vinculados à tradição, e 2) que, portanto,
pacíficas de aquisição) de "rendimentos" concretos resultantes do emprego, em sua as gestões patrimoniais em grande escala, justamente por não se ter realizado nelas
forma natural, de bens e força de trabalho disponíveis, os quais administra, estimando a expansão e o refinamento das necessidades cotidianas, tenderam sempre à utilização
o máximo da satisfação possível de necessídades, como meios para esta. Quando se extracotidiana (sobretudo artística) de seus excedentes (fundamento da cultura artística
trata de necessidades dadas e fixas, a forma deste emprego constitui um problema vinculada a determinado estilo, das épocas da economia de troca em espéde). ,
puramente técnico e relativamente fácil de resolver enquanto a situação de abasteci-
mento não exija uma averiguação exatamente calculada do máximo de utilidade no 1. É claro que o "patrimônio" não se compôe apenas de bens materiais, mas também
emprego dos meios para cobrir as necessidades, em comparação com outros modos de todas as possibilidades sobre as quais exísle um poder de disposição garantido, com alguma
possíveis de emprego muito heterogêneos. No caso contrário, mesmo a gestão patrimo- segurança, pelo costume, pela situação de interesses, pela convenção, pelo direito ou de outra
nial individual mais simples, sem troca, confronta-se com problemas cuja solução (for- forma qualquer (também a "clientela" de um empreendimento aquisitivo - seja o dono um
malr>:ente exata) mediante cálculos se vê extremamente limitada e cuja solução efeciva médico, um advogado ou um comerciante varejisra - pertence ao "patrimônio" deste quando,
por quaisquer mOlivos, é estável: sabemos que, no caso de apropriação jurídica, a cliemela
costuma apoiar-se em parte na tradição, em parte em estimativas muito aproximadas, pode ser "propriedade", confonne a definição do capítulo I, § lO}
inteiramente suficientes, no entanto, quando as necessidades e condições de obtenção 2. O cálculo em dinheiro sem uso efetivo do mesmo ou, pelo menos, com uso limitado
são relativamente típicas e facilmente compreensiveis. Se a propriedade se compõe a excedentes das quantidades de bens Irocados que não puderam ser compensadas em espéde,
de bens heterogêne05 (o que necessariamente ocorre no caso da gestão econômica é um fenômeno tipico nos documentos egípcios e babilônicos; encontramos o cálculo em dinheiro
sem troca), uma comparação calculada, formalmente exata, entre os bens possuídos como medida de uma prestação em espécie, por exemplo, tanto no código de Hamurábi quanto
no início e no fim de um período orçamentário, bem como entre as respectivas probabi- no direito romano vulgar e no dos irúcios da Idade Média, na autorização típica ao devedor
lidades de rendimentos, somente é possível dentro de classes de bens qualitativamente de pagar a respectiva importância em dinheiro: in quo pocueric. (A conversão só podia efetuar-se,
iguais. Neste caso, é típico alistá-los como conjunro de bens possuídos em espécie e nestes casos, sobre a base de preços internos tradícionais ou forçadamente impostos.)
3. De resto, esta exposlçâo só contém coisas já conhecidas, no interesse de uma fixação
fixar determinados conringences em espécie, destinados ao consumo, dos quais se supõe inequívoca. do conceito de "gestão patrimonial" racional em oposição ao conceito OposlO de
que estejam permanentemente disponíveis sem diminuição daquele conjunto de bens economia racional aquisitiva, do qual logo trararemos. Queremos observar expressamenre que
possuídos. Toda variação na situação de abastecimento (por exemplo, por más colheitas) ambas são possiveis em forma racional, que a "satisfação das necessidades", desde que proceda
ou nas necessidades exige, porém, novas disposições, uma vez que desloca a utilidade de maneira racional, não constitui algo "mais primitivo" do que a "aquisição", nem o "patrimô-
marginal. Em condições simples e facilmente compreensíveis, o ajustamento ocorre nio" é uma categoria necessariamente "mais primitiva" do que o "capital", nem o é a "renda"
sem dificuldade. Em todos os outros casos é Cecnicamente mais difícil do que no do mais do que o "lucro". Do ponto de vista histórico, entretanto, e com referência à forma predomi-
cálculo puramente em dinheiro, no qual todo deslocamento nas probabilidades de deter- nante de considerar assuntos econômicos no passado, é evidente que primeiro vem a "gestão
minados preços (em princípio) influí apenas sobre aquelas necessidades marginais na patrimonial".
escala de urgência que têm de ser satisfeitas com as últimas unidades dos rendimentos 4. Não importa quem seja o portador da "gestão patrimonial". O "plano orçamentário"
de um Estado e o "orçamento" de um trabalhador pertencem ambos à mesma categoria.
em dinheiro, 5 Agestão patrimonial e a gestão aquisitiva não são alternativas exclusivas. Uma "coope-
Além disso, no caso do cálculo em espécie inteiramente racional (isto é, não vincu- rativa de consumo", por exemplo, está (normalmeme)ao serviço da primeira, mas não constitui
lado à tradição), o cálculo da utilidade marginal, que, quando se dispõe de um patri- um empreendimento com caráter de gestão patrimonial mas, pela forma de suas atividades,
mônio ou de uma renda em dinheiro se realiza com relativa facilidade, sobre a base um empreendimento aquisitivo sem finalidade material aquisitiva. Na ação do indivíduo, a gestão
da escala de urgência das necessidades, tropeça com uma grande complicação. Enquanto °
patrimonial e a aquisitiva podem interpenetrar·se (e este é caso típico nas épocas passadas)
que ,di o problema da "margem" apresenta-se apenas na forma de trabalho adicional de tal forma que apenas o ato final (venda ou troca aqui, consumo ali) decide sobre o sentido
ou de satisfação de uma necessidade comparada com seu sacrifício em benefício de da ação (caso especialmente típico entre os pequenos camponeses} A troca característica da
outra (ou outras) (pois nISso expressam-se, em última instância, os ..custos" numage5tão gestão patrimOnial (aquisição de bens para o ronsumo, venda de excedentes) constirui um ele-
pacrimonial monetária\ o cálculo em espécie encontra-se obrigado a considerar, além mento integrante dessa gestão. Uma gestão patrimonial (de um principe ou latifundiário) pode
incluir empresas aquisitivas, no sentido do parágrafo seguinte, o que tipiçameme ocorreu no
da escala de urgência das necessidades: 1) a múltipla aplicabilidade dos meios de obten- passado: verdadeiras indústrias se desenvolveram a partir daquelas "empresas acessórias", hete-
ção, incluindo a quantidade existente até então de trabalho total, isto é, uma relação rocéfalas e heterônomas, que utilizaram os produtos próprios das florestas e dos campos de
entre a satisfação das necessidades e o dispéndio (de meios de obtenção e trabalho), latifundiários, mosteiros ou príndpes. "Empresas" de todas as espédes faze!" hoje em dia parte
diferente (e variável) segundo a aplicabilidade e, portanto, 2)a quantidade e a natureza de gestões patrimoniais, especialmente municipais, mas também estaduais. A"renda" pertence,
do novo trabalho ao qual o gestor patrimonial se veria obrigado a fim de conseguir naturalmente, calçulando-se de maneira racional, apenas o "produto líquido" dessas empresas
r,

56 MAXWEBER ECONOMIA E SOOEDADE 57


do qual a gestão pauimonial pode dispor. AD contrário, as empresas aquisitivas podem estabe- existam possibilidades de venda suficientemente amplas e seguras, estimáveis mediante
lecer como instituição acessória, unidades de gestão patrimonial fragmentárias de caráter heterô- o cálculo, portanto (em condições normais), haja mercabilidade, 2) que, além disso,
nom~, por exemplo, para a alimentação de seus escravos ou trabalhadores assaJariados ("insti- ClS meiuo; de gestão aquisitiva - meios de obtenção materiais e serviços de trabalho
ruições beneficenles", moradias, cozinhas) O "produto líqUido" (tÓpico 2) são OS excedentes - pClSsam ser adquiridClS no mercado com sufidente segurança e com "CUStOS" previa-
em dinheiro, descontados todos os custos em dinheiro. mente calculáveis, e, por fim, 3) que também as condições técnicas e jurídicas das
6. Àsignificação do cálculo em espécie para o desenvolvimento geral da rultura só podemos
medidas a serem tomadas, desde as relativas aos meios de obtenção até as referentes
referir-nos aqui com algumas primeiras indicações.
à venda dos objetos (transporte, elaboração, annazenamemo etc.) tenham custos (em
d!11heiro) calculáveis em princípio. Aextraordinária significação da calculabilid3de ótima
§ 11. Chamamos geSlão aquisitiva um componamento orientado pelas oportu- como fundamento do cálculo Ótimo de capital aparecerá de novo e repetidamente em
nidades de ganhar (uma só vez ou repetidamente, com ce~ regulari~~, isto é, conti- nossas exposições sobre as condições sociológicas da economia. DistanCiando-nos da
nuamente) novos poderes de disposição oobre bens; alIVJdade aqu15Jtwa, a alJvldade idéia de que nestas considerações só podem entrar aspectos econômicos, veremos que
que também, entre outros fatores, se o~ienta pelas o~~Unidades ?~ aquisiçã?; gestão a circunstância de o cálculo de capital, como uma das formas fundamentaiS do cálculo
aquisitiva econômica, aquela que se oflenta por pOSSIbilidades pacificas; gesra.o a.quJ5J- econômico, ter se desenvolvido apenas no Ocidente deve-se a obstruções de natureza
tiva segundo o mercado, aquela que se orienta pela sit~ação de ~erca~:.me/()5 de mais diversa, tanto externas quanco internas
aquisiçào, aqueles bens e possibilidades que estão ao servIÇO da gestao aqUlsliIva econô- O cálculo de capital e os cálculos prévios e posteriores do empresário ligado
mica; troca aquisitiva, a troca, orientada pela.situação de r.nercado, para!~ de aqul~l­ ao mercado não conhecem, em oposição ao cálculo da gestão patrimonial, a orientação
ção, em oposição à troca para fins de satisfaçao de necesstdades (troca àpICâ da gesrao pela "utilidade marginal", mas sim pelarenrabilidade. Aprobabilidade de haver rentabi-
patrimonial}, crédito de aquisição, o crédito que se dá ou se aceita a fim de se obterem lidade está condicionada, em última instância, pelas condições de renda e, através destas,
poderes de disposição sobre meios de aquisição.. . pelas constelações de utilidade marginal dos rendimentos em dinheiro dos quais podem
Própria da gestão aquisitiva econômica d~ caráter taclOna.1 é ~~ f?rma pecuh~r dispor os últimos consumidores dos bens prontos para o consumo (ou, como se costuma
de cálculo em dinheiro: o cálculo de capital. Cálculo de caplcaf SIgnifIca avahaçao dizer, pela "capacidade aquisitiva" destes com respeito às mercadorias da respectiva
e controle de oportunidades e resultados da gestão aquisitiva, comparando-se, por um espécie) Tecnicamente, porém, o cálculo do empreendimento aquisitivo e o da gestão
lado, a importância estimada em dinheiro de todos os bens de aquisição (existlm estes patrimonial são tão fundamentalmente diferentes quanto a aquisição ou a satisfação
em espécie ou em dinheiro) com o princípio de uma atividade aquisitiva, e, por ~U[ro das necessidades a que respectivamente servem. Para a teoria econômica, o consumidor
lado com a de todos os bens de aquisição (ainda existentes ou recentemente obtidos) marginal é quem determina a direção da produção. Na prática, dependendo da situação
ao fi'm da respeaiva atividade, ou no caso de um empreendimento aquisitivo contínuo, de poder, isto só é correto, atualmente, com certas restrições, uma vez que é o "empre-
com referência a um período de cálculo, mediante o balanço inicial e final. Denomina-se sário" quem "desperta" e "dirige", em grande parte, as necessidades do consumidor
capital a importância estimada em dinheiro, verificada a fim de elaborar no cálculo - desde que este possa comprar.
de capital um balanço dos meios de aquisição disfxmíveis par~ ~ ~ins ~ empree~­ Todo cálculo racional em dinheiro e, particularmente por isso, todo cálculo de
dimento. Lucro e perda são, respeaivamente, o aumento e a dlmmUlçao da Importânaa capital, em caso de aquisição no mercado, está orientado pelas oportunidades de preços
estimada, verificados no balanço final, em relação à importância do balanço inicial. provindas da lUla (luta de preços e de concorrência) e de compromisso entre interesses
A probabilidade estimada de ocorrer uma perda n~ balanço constitui o chamado risco diversos que ocorrem no mercado. Isso se reflete no cálculo de rentabilidade, de manei-
de capital. EmpreendimenlO econômico é uma açao que, de forma autônoma, pode ra particularmente plástica na forma tecnicamente (até agora) mais desenvolvida da
ser orientada pelo cálculo de capital. Essa orientação ocorre media~e o cálcul?: o contabilidade (a chamada contabilidade "por partidas dobradas "), no fato de que, atra- ,.
i

cálculo préviodoriscoedo lucro a serem esperados. wmando-se determmadas~edldas, vés de determinado sistema de comas, se toma por base a ficção de processos de troca !
e o cálculo posterior, a fim de controlar os resultados,. lucros ou perdas, efetivamente entre as diversas seções da empresa ou entre diversas verbas do cálculo, o que tecnica-
ocorridos Rentabilidade significa (em caso de procedImento racIonal) o lucro de um
período que I) se considera possivel na base do cálculo prévio e que o empresário
mente permite a forma mais perfeita de controle da rentabilidade de cada uma das
medidas tomadas. O cálculo de capital, em sua feição formalmente mais racional, pressu-
a
pretende realizar mediante determinadas medidas, e q~e 2)conforme o cál~lo poste- põe, portanto, a luta entre os homens, UllS contril os outros. E isso se deve ainda
·1. \
~ !
rior efetivamente se realiza e do qual a gestão pacrrmonJal do empresáno (ou dos a outra condição muito peculiar. Para nenhuma economia a "sensação de necessidade"
empresários) pode dispor .sem prejudicar possibilidades futuras de ~entabilidadee que subjetivamente existente pode ser igual à necessidade efetiva, isto é, à necessidade r
I
geralmente se expressa pelo quociente entre ele e o capital inICiai do balanço (ou, que se deve tomar por base para a satisfação através da obtenção de bens. Pois a questão I
hoje em dia, pela percentagem correspondente) _ de se aquela sensação subjetiva pode ser satisfeita ou não depende, por um lado, da I
Empreendimentos baseados no cálculo de capit~1 podem estar onenta?~ pelas escala de urgência e, por outro, dos bens (existentes ou, em regra, ainda a serem i
oportunidades de aquisição nomercado ou pelo aproveItamento de outras posslbill~~es obtidos, segundo a urgência) provavelmente disponíveis para a satisfação. Frustra-se
de aquisição - oriundas, por exemplo, das relações de poder (arrendamento do direito a satisfação quando, estando cobertas as necessidades precedentes em termos de urgên-
de receber tributos, compra de funções públiClS)
Todas as medidas particulares de empreendimentos racionais orientam-se, me-
diante o cálculo, pela rentabilidade prevista. Em caso de aquisiç;io nomercado, o cálculo
de capital pressupõe: 1) que para os bens produzidos pelo empreendimentO aquisitivo
da, as utilidades necessárias para esta satisfação não existem, ou não podem ser obtidas
de modo algum, ou apenas com tal sacrifício de força de trabalho ou bens materiais
que se prejudicariam n~idades futuras consideradas mais urgentes já pela estimativa
precedente. Isso ocorre em toda economia de consumo, mesmo na comunista.
i
r
t.
r
! l~
--'--"--1
ECONOMIA E SOCIEDADI;:
59
I
S8 MAXWEBER
assentar c:orn6 "lucro" o excedente tOlaI do "ativo" sobre o "passivo", averiguado mediante
Numa economia com cálculo de capital (portanto, com apropriação dos meios o inventário, estimado corretamente em dinheiro e que supera um milhão, podendo Só este
de obtenção pelas economias particulares e, porramo, com "propriedade:: - (vej~ im~e ser dJstrJbuido entre interessados para ~Iquer aplicação (no caso de uma empresa
capitulo I, § 10), isso significa que a rentabilidade depende dos preços q~e os consunu· indivIdual: que só esse acedeme pode ser consumido para fins da gesuo patrimonial da empresa ~
dores" podem e querem pagar (segundo a utilidade marginal do dinhetro e de acord? Significa que (com respeito ao item 2), em caso de grandes perdas, nio se deve esperar o momento
com seus rendimentos} só se pode produzir de forma rentável para aqueles consumI- em que, talvez só muitos anos depois, mediante a acumulação de eventuais 11IcrOS, se chega
a um excedente tota! de mais de um milhào, mas que se pode distribuir o "lucro" na base
dores que dispõem (conforme aquele prinópio) d~ rendimentOS correspond~tes. A de um excedente total menor: jUSlamenle para isso predsa~se reduzir o "capital", e esta é a
satisfação das necessidades deixa de se realtzar nao ape~ quand.o. J:cl n~ldad~ finalidade da operação. 3) A finalidade dos regulamentos referentes ao modo em que o capital
(próprias) mais urgentes, mas também quand? existe capacld;lde aquI~ItlVa (aJheJ3) maIs nominal deve ser cobeno e ao momento e ao modo em que pode ser "reduzido" ou "aumentado"
forte do que a pr6pria, com respeito a necessIdades de todas as espéCI~S~O p~upo~o é esta: dar a05 credores e acionistas a garantia de que a distribuição do lucro ocorre "correta-
da luta entre os homens no mercado, uns contra os outros, como condlçao da exLStênaa mente". de arordo com as regras do clJculo mdonal de empresa, isto é que a) mantém-se
do cálculo racional em dinheiro, pressupõe, portanto, por sua vez e de forma absoluta, a rentabilidade e b) isso não acarreta a redução da garantia real dos credores. Os regulamemos
a influência decisiva do resultado pelas possibilidades de oferecer preços maiS e1evad.~, referentes a05 "rendiment05" referem-se todos à inclusão de objetos na coma do "capital".
por parte dos consumidores que dispõem de maiores rendimentos, ?u pelas ~lbl­ 4) Que significa dizer "o capital dirige-se a oulros investimentos" (por falta de rentabilidade)'
lidades de vender por preços mais baixos, por parte dos produtores maIS bem eqUIpados Isso pode referir-se ao "património", pois "investir" é uma categoria da administração de bens
e moda atividade aquisitiva. Pode tilmbém (rarameme) significar que os bens de capital perdem
para a obtenção de bens - especialmente por parte daqueles que possuem .poderes
em parte essa qll3lidade por serem vendidos como rebotalho ou ferro-velho, em pane novameme
de disposição sobre dinheiro ou outros bens import~n~~spara a obt~çao. EspeClalment: a adquirem. 5) O que significa quando se fala do "poder do capitar'> Significa que os que
pressupõe preços efetivos - e não apenas preços fletl~IOS,.conven~'onalmente estabele lêm poderes de disposição sobre meios de aquisição e p05Sibilidades econômicas utilizáveis num
cidos para fins técnicos quaisquer - e, portanto, dinh~tro e(etlVo que circule como empreendimento aquisitivo como bens de capital, ocupam, em vinude desses poderes de dispo-
meio de troca demandado (e não tenha apenas caráter slmb6hco, para finS de cálaJ10s sição e em vinude da oríenração da gescão econÔmica pelO5 principias do cálculo aquisitivo
técnicos nas empresas} A orientação pela probabilidade d 7 determinados p~os em capitalista, uma posição de poder especifica diante de outros.
dinheiro e pela rentabilidade implica, ~ortanto, 1) que ~s diferenças entre os diver~~ Já lIQ(i prírnórdi05 de atos aquisitiv05 racionais, o capital (mas não com este nome) aparece
interessados na troca quanto ao abastectrnema em ~inhelro ou em outros.bens especifI- romo impone calculado em dinheiro: assim, por exemplo, na commenda, Bens de diversas
camente mercáveis se tomam decisivas para a dlreçao que toma a obtençao_ou a produ- espécies eram entregues a um comerdarne viajante para sua venda num mercado estrangeiro
ção de bens, desde que esta tenh~, finalidade .I:,~ra~!va, u":la vez que só sao e pode~ e - eventualmente - para a compra de outros bens destinados ao mercado próprio, repartin-
ser satisfeitas as necessidades com poder aqulSll1VO . Imphca, portanto, 2) ~ue a ques cJo.se os ganh05 e as perdas, em determinada proporção, ernre os participantes do empreen-
dimento: o comerdanle viajante e o dono do capital. PaTa se poder realizar isso, os bens tinham
tão de quais sejam as necessidades a serem cob~s mediante .a obtençao de bens de ser estimados em dinheiro - fazendo-se, portanto, um balanço inidal e outro final do em-
depende inteiramente da rentabilidade ou obtençao dos respectl~os bens, Esta, por preendimento: o "capital" da commenda (ou; societas nuris) conseituía o importe dessa estima-
sua vez, constitui urna categoria formalmente radanal, mas.q~e lus~amente por ISSO ção, importe que servia exdusmmente para fins de cálculo entre os panícipames e para mais
se comporta com indiferença em face de postuladOS marenaIS, a na~ .ser que .estes nada.
sejam capazes de se apresentarem no mercado na forma de poder a9uisJttvo sufJClenre. QlIe signifial dizer "mercado de capital"? Significa que há bens- espedahnente dinheiro
Denominamos bens de capital (em oposição a objetos possuldos ou parcelas de -, soIJdtados com o fim de empregá-los como bens de capital, e empreendimentos aquisitivos
um patrimônio) todos aqueles bens dos quais se disl?Õ: sob ~rientação por um. cálculo (panirolarrnente "bancos" de detenninada espécie), encarregados de colocá-las :l disposição
de capital. Chamamos juros de capit3l - ,em O~lçaO aos Juros. ~e emprésumo das (espedalmente dinheiro) para aquele fim, dai obtendo lucro. No caso do chamado" capital de
diversas espécies possíveis: 1) a possibilJoade mUllma de rentablhda;de, consi~erada empréstimo" - entrega de dinheiro contra a devolução do mesmo impone, com ou sem "juros"
-, nál' só falaremos de "capital" quando o empréstimo constitui a atividade essencial de um
normal, na base do cálculo de rentabilidade, com respeito a deter~ll~dos meios d~
empreendimento aquisitivo; em lodos 05 demais casos, falaremos simplesmente de "empréstimo
aquisição materiais; 2) os juros pelos quais os empreendimentOS aqUISItIVOS obtém di- em dinheiro". No uso correnle fala-se de "capital" sempre que se pagam "juros", uma vez
nheiro ou bep.5 de capital. que estes costumam ser calculados como detenninada quota do impone tOlaI: é SÓ por causa
desta f~o de dlculo que o impone em dinheiro de um empréstimo ou depósito é chamado
A exposição comém apenas fatos já conhecidos numa forma u~ I~nto mais especificada. "capital". No enlanto, nio há dúvida de que esta é a origem do lermo (GlpiraJe = importe
Quanto ao caráter térnico do cálculo de capitd, cabe recorrer às expoS1ÇoeS correntes, em parte total do empréstimo; segundo se afirma - mas não há prova -, significa a soma de "cabeças"
excelentes da teoria do cálculo (l.eitner, Schar etc} . . nos contral05 sobre o empréstimo de gado} Contudo, I.slo não tem ímporWida. Já nos primórdios
I) o,concello de capital tem aqui um rigoroso senlid? "co~c.:Ibil" e de economia pnvada, de nossa histÓrla encontram05 a entrega de beru; em espécie estim:ldos segundo seu valor em
como impõem as razões de converúência. Esra termin?logla cohde men05 com ~ ~ correnle dinheiro, sobre a base do qual se calculavam os jur05. de modo que wnbérn neste ca.so os
da linguagem do que com a tenninologia de que InfelIzmente ~e costumava ~rvJr a linguagem "bens de capital" e o "cf1cu1o de capital" aparecem lado a lado numa forma que desde endo
dentífica, de maneira pouro homogênea de resto. Para compro/ar em sua aphcabilJ~~ a terrnl- é tipica. No caso de um simples empréstimo, que, como é sabido, forma parte de toda admini.s-
nologia rigorosamente referida à economia privada, recemeJ/'e~te cada vez ma~ ~t1.hZ<lda pela tração de bens, não faIaremos de "capital de empréstimo", com referência ao emprestador,
linguagem dentifica, basta fazer as seguintes pergun~, bem s~ples: O que SIgnifIca .~n~ quando serve para fins de gestão patrimonial. Tampouco, naturalmente, do ponto de vista dQ
l)uma sodedade por ações possui um "capital nominal de.lImm~o, quam~2)eslese reduz presuc.:lrio.
e quando 3) as leiS contêm regulamentos referentes ao capital nommal detenmnando, ~ exem· O conceito de "empreendimento" corresponde ao correnle, só que salientamOS expressa-
pio, o que deve ser inve:;tido a favor desse capira! e como isso deve ser feito. Significa que mente a orientação pelo clJcolo de capital, que na maioria das vezes é pressuposta como evidente,
(com respeito ao item 1\ na distribuição do lucro, se procede de tal modo que SÓ se pode

I.
I

I
60 MAXWEBER ECONOMIA E SOCIEDADE 61
a fim de indicar que nem todJ< atividade aquisitiva como tal pode ser chamada "empreendimento" , outro, entre aqueles que consomem os bens oferecidos e aqueles que oferecem celtos meios
senão aperulS aquela que é suscetível de se orientar pelo cálculo de capital (quer se trate de de obtenção (sobretudo trabalho} Empreendimentos económicos só são fundados e continuam
capitalismo em escala gigamesca ou "minúscula"} Por ourro lado, é indifere~te se esse c;álculo funCi?nando (em forma capitalista.) quando se espe~a o mínimo dos "juros de capital". A ceoria
de capital se realiza de fato de maneira radonal, sendo efetuado segundo pnnóplos raaonals. economlca, que pod.e ser bem dIversa, dlfla~ entao, que aquele aproveitamenlü da situaçao
Do mesmo modo s6 falaremos de "lucro" e "perda" com referênda a empreendimentos com de poder ~ consequênCla da propnedade pnvada dos meios de produção e dos produtos ~
cálculo de capitai. É daro que para n6s as atividades aquisitivas sem interferênda de capital poSSIbilita apenas à pnmelra calegofla de sujeitos econômicos uma gestão econômica por assim
(do escrilor, médico, advogado, funcionário público, professor, empregado, técnico, trabalha- dizer, "adaptada aos juros". '
dor) constilUem "ganho", mas não as chamamos de "lucro" (tampouco é de uso corrente essa 2. Exte~namente, ,a administração de patrim?niO e o empreendimento aquisitivo podem
forma} "Rentabilidade" é um conceito aplicável a todo ato aquisitivo suscetivel de cálculo, de ~arecer aprOXJmar-se at: a lden~ldade. A pnmelra so se distingue de falO da segunda pelosencido
forma independente, com os meios da técnica da contabilidade comercial (contratação de determi- ultimo concreto da gestao economica; o aumento e a manutenção da rentabilidade e da posição
nado rrabalhador ou instalação de determinada máquirul, determinação de pausas na trabalho de poder no mercado pela empresa, por um lado, e a segurança e aumento do patrimônio
etc_) e da renda, por outro. Na prática, porém, este último sentido não tende necessariamente de
Para a definição do conceilo de "juros de capital" não é conveniente partir dos juros modo exclusivo a uma das alternativas, nem é possivel decidir· se, em cada caso, de qual delas
estipulados para um empréstimo. Quando alguém ajuda um camponês com sementes de cereais, se trata. Quando, por exe~plo, O patrimônio do gere~te de uma empresa coincide por completo
estipulando com ele determinado acréscimo ao devolvê-Ias, ou quando a mesma COISa ocorre com o poder de dlsposlçao sobre os meIOS de gestao empresarial, sendo o lucro idêntico à
com dinheiro que uma gestão patrimonial necessita e outra pode dar, não é conveniente desig- tenda, ambas parecem andar de mãos dadas. Mas circunstâncias da vida pessoal, de todo tipo,
nar-se este processo como "capitalista". Estipula-se o acréscimo (os "juros") - em caso de podem levar o gerente a tomar, na gerencia da empresa, um caminho irracional, irracional
procedimento racional - porque o presracário, considerando suas probabilidades de abasteCl- do ponto de vista da orientação pela racionalidade do funcionamenro da empresa. Mas, sobretudo
memo em aso de tomar o empréstimo, espera que estas superarao o acréSClmo estipulado, na maioria dos casos não coincidem património e disposição sobre a empresa. Além disso, dívida~
em oposição às previstas para o caso de renúncia ao empréstimo, enquanto que o empresr;/(Jt:r pessoais excessivas do proprietário, interesse pessoal em receitas atuais elevadas, parrilhas de
conhece essa situação e tira proveito dela, na medida em que a utilidade marginal de sua dlSpOSlçaO herança etc. exercem muitas ve>es uma influencia altamente irracional - do pomo de vista
sobre os bens emprestados, nesse momento, está superada pela utilidade marginal ~o acréscimo dos inreresses da empresa - sobre a gerência desta, O que leva freqiientemente à adoção de
estipulado para o momento da devolução. Trata-se aqui ainda de categorias da gestao orçamen- medidas que possam eliminar por completo esse tipo de influência (fundação de empresas familia-
tária e da administração de bens, mas não do cálculo de capital. Do mesmo modo, quem, em res em forma de sociedades por aç6es. por exemplo) Essa tendência à separação entre gestão
case de necessidade, pede a um "judeu do dinheiro" um empréstimo para fins de consumo patrimonial e empresa nào é casuaL Provém da circunstância de que o patrimônio e seu destino,
pr6prio mo paga "juros de capital" no sentido desta. te.rminologia, mas trata-se de u~ pagame~to do pomo de vista da empresa, e os interesses dos proprietários em obter determinados rendi-
para remunerar o empréstimo. O emprestador profiSSional calcula (em caso de gestao econômJ(:a mentos, do POnto de vista da rentabilidade, são fatores irracionais. Assim como o cálculo de
racional) os "juros" que receberá de seu capital comercial e sofrerá "prejuízo" se esse grau renta bilidadc de uma empresa nada nos di> sobre as possibilidades de provisão das pessoas
de rentabilidade Dia for alcançado, por não serem devolvidas certaS quantias emprestadas. Estes imeressadas, em sua qualidade de trabalhadores ou consumidores, os interesses no patrimônio
juros constituem, para n6s, "juros de capital"; todos os demais são simplesmente ."juros" ~ "Juros ou nos rendi mentos, por pane de um indivíduo ou de uma associação com poder de disposição
na
de capital", nO sentido desta terminologia, são, portanto, sempre .Juros do capital, e o ~ sobre a empresa, nào se orientam necessariamente pelo máximo persisrenre de temabilidade
o capital, e estão sempre ligados a eslimativas em dinheiro e, por conseguinte, ~~ f~to SO?ol6gJCo da empresa ou pela situação de poder no mercado. (Isso também não ocorre, naturalmente
do poder de disposição "privado", isto é, apropriado, sobre meIOs de aqulSIçao, sUjeItos ou - e precisamente não costuma ocorrer~, quando o poder de disposição sobre a empresa
não ao mercado, poder sem o qual não poderia haver um cálculo de "capital", tampouco, em aquisitiva está nas mãos de uma "cooperativa de produção" ) Os interesses oblelivos de uma
conseqüência, um cilrulo de "juros". No empreendimento aquisitivo racional, os juros calcula- gerêncja racional moderna de uma empresa nào são, de modo algum, idénticos aOS interesses
dos, por exemplo, sebre uma partida que aparece como "capital" representam o mínimo de pessoais do detentor ou dos detentores do poder de disposição, e até muitas ve>es se opõem'
rentabilidade, por cuja obtenção ou não se aprecia a idoneidade da respectiva f<:rma de em?r~go isso significa a separação, em principio, entre "gestão patrimonial" e "empresa", mesmo nos
dos bens de capital em questão ("idoneidade", naturafrnente, do pontO de vIsta de aquISição, casos em que os "donos" do poder de disposição e os "donos" dos objetos dos quais se disp6e
isto é, de rentabilidade} A taXa pela qual se calcula esse minimo de rentabilidade orienta-se, são os meSmOS.
como é sabido, apenas aproximadamente pelas possibilidades atuais de juros para créditos of~re­ Por motivos de conveniência, a separação entre "gestão patrimonial" e "empresa aquisi-
cidos no "mercado de capital", apesar de que, naturalmente, seja a existência desses créditos tiva" deveria ser adotada e mantida rigorosa mente também pela terminologia. Uma compra
que suscita essas medidas de cálculo, assim como a existência da troca mercantil suscita ~ àsse~ta­ de "valores" por Um remista, a fim de desfrutar dos rendimentos em dinheiro, não é investimento
memos nas contas. No entanto, a explicação daquele fenômeno fundamental da economia capita- de "capital", mas de patrim6nio. Um empréstimo em dinheiro concedido por uma pessoa particu-
lista: o de que continuamente se efetuam pagamentos em remuneração por "capitais de emprés- lar, a fim de adquirir o direito aos juros, não é a mesma coisa, do ponto de vista do emprestador,
timos" ~ por empresários - , sÓ pode ser obtida mediante a resposta a esta pergun~: por que um empréstimo em dinheiro concedido por um banco ao mesmo prestatário; diferem tam·
que os empresários, em média, têm sempre boas possibilidades de al.can?r certa r~n5abdldad.e bém, do ponto de vista do prestatárlo, um empréstimo em dinheiro dado a um consumidor
apesar de pagar essa remuneração aos emprestadcres, ou seja, quaIS sao as condlçoes geraIs ou a um empresário (para fins lucrativos}. no primeiro caso, trata·se de investimenro de capital
pelas quais, em média, a troca de 100 unidades presentes por 100 + x,unidades futuras é radonal? por parte do banco, no segundo, de obtençio de capital pot parte do empresário. Mas o investi-
A teoria econômica. nesse caso, responderá com a relação de ullUdade marginal entre bens mento de capital pelo emprestador, no primeiro caso, pode ter, para o prestatário, o caráter
presentes e bens futUros. Bem, para o sociólogo seria, então, interessa~te saber em que ação de um simples empréslimo para fins de sua gestão patrimonial; a aceitação de capiul por ele,
humana essa suposta relação se manifesta de modo que as pessoas atingidas podem tomar por no segundo caso, pode ter, para o emprestador, o caráter de um simples "investimento de
base de suas operações as conseqüências dessa estimai;ão diferencial, sob a forma de "juros". patrimônio". A fixação das diferenças entre patrimônio e capital, gestão patrimonial e empresa
Pois a questão de quando e onde isso ocorre não é de modo algum evidente. Isso de falO ocorre, aquisitiva não é sem importância, urna vez que, sem fazer essa distinção, não se pode chegar,
como é sabido, nas economias aquisitivas. Decisiva, em primeiro lugar, é a relação de poder especialmente, à compree~o do desenvolvimento na Antiguidade e dos limites do capitalismo
econômica enrre 05 empreendimentos aquisitivos, por um lado, e as gestões patrimoniais, por daquela época (para este problema, ainda são importantes os conhecidos estudos de RODB••m,
62 MAXWEBER ECONOMIA E SOQEDADE 63
apesar de tooos seus equivocos e apesar de eles serem incompletos - e, como complemento, Em ambos os casos, dada a pureza de tipo (ou na medida em que esta seja sufiden-
as exposições acertadas de K BOCHE.} te), só se conhece o cálculo em espécie_
3. Nem todos os empreendimentos aquisitivos com cálculo de capital estavam Ou estão No segundo caso (b), ela pode ser
orientados pelo mercado "em sentido duplo", isto é, tanto comprando no mercado os meios a) economia natural com uoca puramente em espécie, sem uso de dinheiro e
de obtenção ou produção quanto oferecendo nele os prooutos (ou resultados finais} Arrenda-
mentos de tributos e financiamentos das mais diversas espécies são efetuados com cálculo de sem cálculo em dinheiro (economia pura de troca em espécie), ou
capital sem que ocorra o último processo. As conseqüências, muito importantes, serão expostas (3) economia de troca em espécie com cálculo (ocasional ou típico) em dinheiro
mais adiante. Trata-se, nestes casos, de arividades aquisitivas com cálculo de capital, maS sem (comprovada, como tipo, no antigo Oriente, mas também muiw divulgada em outros
orientação pelo mercado ,r lugares}
4. Diferenciamos aqUi, por motivos de conveniência, atividade aquisitiva e empresa aquisi- Para os problemas de dlculo em espécie somente oferece interesse o caso a a
tiva. Realiza uma atividade aquisitiva aquele que, em determinada forma, atua, pelo menos Jj em suas duas formas, ou então uma situação especial do caso a 13 quando as prestações
entre ouuas coisas, com o fim de adquitir bens (na forma de dinheiro ou em espéde) que ;f são efetuadas em unidades racionais de empresa, como seria inevitável, mantida a
ainda não possui. Isto se aplica, pol1anto, tanto ao funcionário público ou ao trabalhador quantO
:~ técnica moderna, no caso de uma "socialização total"
ao empresário. Por Outro lado, SÓ chamamos empresa aquisitiva de mercado aquele tipo de Todo cálculo em espécie está orientado, segundo sua essênCia mais íntima, pelo
atividade aquisitiva que se orienta continuamente pelas oportunidades no mercado mediante
o emprego de bens como meios de aquisição para obter dinheiro no momemo da troca, ou consumo: satisfação de necessidades. É evidente que também na base da economia
a) mediante a produção e venda de bens procurados ou b) mediante o oferecimento de serviços natural pode-se realizar uma atividade correspondente à "aquisitiva". Isso ocorre de
procurados - seja por trOCa livre ou por aproveitamento de oportunidades apropriadas como forma que a) em caso de economia natural sem troca, os meios disponíveis de obtenção
nos casos expostos no parágrafo anterior_ Não apresema "atividade aquisitiva", no sentido desta .i ou produção, em espécie, e o trabalho são empregados na produção e obtenção de
terminologia, o rentista, por mais racional que seja sua "gestão econômica" com respei[Q a
sua propriedade. i bens, segundo um plano e sobre a base de um cálculo no qual se compara o estado
de satisfação de necessidades a ser alcançado com aquele que aconteceria sem satisfação
5. Ainda que teoricamente seja evidente a clrcunstância de que as estimativas da utilidade ,[ alguma ou em caso de emprego alternativo dos respectivos meios, considerando-se
marginal pelos últimos consumidores, vinculadas aos rendimentos destes, determinam a direção o primeiro mais vantajoso do ponto de vista da gestão patrimonial. Ou ocorre de forma
na rentabilidade das empresas aquisitivas produtoras de bens, a Sociologia não deve ignorar que b), em caso de economia de [roca em espécie, se procura alcançar planejadamente,
o fato de que a "cobenura de necessidades capitalistas" a) "desperta" novas necessidades e mediante a troca eferuada exclusivamente em espécie (eventualmente: em atos repeti.
faz com que outras, anteriores, desapareçam, eb)jnflui, em alto grau, mediante sua propaganda
agressiva, sobre a satisfação de necessidades pelos con,umidores, quaJiracíva e quanrirarivamenre dos), um abastecimento de bens que, comparado com o que existiu antes, na aU5ência
lsto constitui precisamente uma de suas características essenciais_ No entanto, cabe dizer que, dessas medidas, é avaliado como promovendo uma satisfação mais abundante das neces-
na maioria destes casos, não se trata de necessidades de urgência mãxima. Mas também o ripa sidades_ Mas, sÓ quando se trata de bens qualitativamente iguais, pode-se realizar uma
de alimentação ou habitação, numa eçonomia capitalista, está determinado, em grande medida, comparação numérica, inequívoca e sem estimativas inteiramente subjetivas. Natural-
por aqueles que as oferecem. mente, é possível criar determinadas depurações típicas de consumo, como aquelas
em que se baseavam as ordens de salários e prebendas pagos em espécie, particu-
§ 12_ O cálculo em espécie pode apresentar-se nas combinações mais diversas. larmente no Oriente (e que até se tornavam objetos de circulações, à semelhança de
Fala-se de economia monetária no sentido de uma economia com uso típico de dinheiro nossos valores públicos} Em caso de bens tipicamente muito semelhantes (cereais do
e, portanto, orientada pelas situações de mercado estimadas em dinheiro; fala-se de vale do Nilo), o armazenamento com operações de giro (como no Egito)era tecnicamente
economia natural no sentido de uma economia sem uso çJe dinheiro, podendo-se, de tão viável quanto o de barras de prata como cobertura para bilhetes emitidos por um
acordo com isso, diferenciar as economias historicamente dadas segundo grau em ° banco. Do mesmo modo (e isto é mais importante), pode-se averiguar numericamente
que empregam ou não dinheiro. o resultado técnico de determinado processo de produção e compará-lo com processos
A economia natural, por sua vez, não é uma coisa exatamente definida, mas pode técnicos de natureza diferente_ No caso de produto final igual, isso também pode dar-se
apresentar estruturas bem diversas. Pode significar segundo a natureza e quantidade dos meios de produção exJgidos. Ou, ainda, no caso I
a) uma economia absolutamente sem troca, ou de meios de produção ou obtenção iguais, segundo os produtos finais diferentes, com
procedimentos diversos. Nem sempre, mas muitas vezes, é possível, nesses casos, a (
b) uma economia com (roca em espécie, sem emprego de dinheiro como meio
de troca. comparação numérica em importantes problemas parciais. Mas o simples "cálculo"
(
No primeiro caso (a), pode ser tamo começa a tornar-se problemático no momento em que devem ser considerados meios
a) uma economia individual, de gestão econômica 1) plenamente comunista ou de produção de natureza diversa e de múltipla aplicabilidade ou produtos finais qualitati-
2) cooperativista (com cálculo na base de participação), e em ambos os casos sem qual- vamente diferentes_
I
quer autonomia ou autocefalia dos participantes individuais: economia doméstica fecha· Na verdade, todo empreendimento capitalista continuamente efetua em seus cálcu- (
da, quanto los operações de contas em espécie_ Dado um tear de determinada construção, com
f3) uma combinação de diversas economias individuais, em todos os demais aspec- urdume e fio de determinada qualídade, averigua-se, com os seguintes fatores dados: f
tos autônomas e autocéfalas, todas elas obrigadas a prestações em espécie destinadas capaddade das máquinas, grau de umidade do ar e consumo de carvão, lubrificante,
a uma economia central (existente para satisfazer às necessidades senhoriais ou da coope- material de desbaste etc.. o número de tramas por hora e trabalhador - e isto com C
respeito a cada trabalhad.or individual - e, com base nisso, o número de unidades
rativa} economia de prestações em espécie (Oik05, associação política rigorosamente
litúrgica [baseada em prestações (N_ T. )1_ do produto que lhe cabe produzir em determinado espaço de lempo_ Nas indústrias I C
r. C
r f
i~
MAXWEBER ECONOMIA E SOCIEDADE 65
64
em cuja produção aparecem sobras ou produtos acessórios típioos, essa averiguação modo individual, diferentes para cada empresa (segundo a localização\ seja de modo
pode ser feita sem qualquer cálculo em dinheiro, como de fato é. Do mesmo modo geral, considerando-se a "utilidade social", quer dizer, as necessidades de consumo
podem ser determinados e realmente se determinam, mediante o cálculo em espécie, (atuais e fueuras~
em circunstâncias dadas, a necessidade normal anual de matéria-prima de uma empresa, Não adianta aqui supor que algum sistema de cálculo será "encontrado" ou inven-
estimada segundo sua capacidade técnica de elaboração, o período de desgaste para tado uma vez enfrentado de um modo decidido o problema da economia sem dinheiro:
edifícios e máquinas, e os prejuízos típicos devidos a estrago, perda ou desperdíciO esse prcblema é um proolema fundamental de toda "socialização total", e não se pode
de material. Mas a comparação de processos de produção de nalureZ3 diversa e com falar, de modo algum, de urna "economia planificada" radonal enquanto nesse ponlo,
meios de produção ou obtenção de espécie difereme e múltipla aplicabilidade é uma o mais decisivo de todos, não seja conhecido um meio para a organização puramente
coisa que o cálculo de rentabilidade das empresas modernas realiza facilmente com racional de um "plano".
base nos custoS em dinheiro, enquanto o cálculo em espéci,e tropeça aqui com problemas As dificuldades do cálculo em espécie ainda aumentam quando cabe averiguar
difíceis, para os quais não encontra solução "objetiva". E certo que - aparentemente se determinada empresa com direção concreta de produção tem no lugar que ocupa
sem necessidade - o cálculo de capital, em suas operações efetivas nas empresas moder- sua loc:aJização racíonal ou - sempre considerado do ponto de vista da satisfação das
nas, adota de fato a forma de cálculo em dinheiro mesmo na ausência dessas dificul- necessidades de determinado grupo de pessoas - a teria em outro lugar, também
dades. Mas isso, pelo menos em parte, não é casual. Quando menos porque, por exemplo possível, e se, para uma associação econômica dada, com economia natural, do ponto
no caso das "amortizações", para cuidar das futuras condições de produção de uma de vista do emprego mais racíonal possível da força de trabalho e matéria-prima de
empresa, esta é a forma que combina a liberdade de ação dotada do máximo de pron- que dispõe, seria melhor obter determinac!os produtos mediante uma' 'troca de compen-
tidão adaptativa (quando em todo caso de armazenamento de provisões ou de quaisquer sação" ou mediante fabricação própria. E certo que os fundamentos da determinação
outras medidas efetuadas em espécie sem este meio eje comrole, essa ação seria irracio- da localização são puramente naturais, e também seus princípios mais simples podem
nal e fortemente inibida) ao máximo de segurança. E difícil imaginar que forma deve- ser formulados em dados naturais (veja fumD WEBE', Grundriss der SoziaJokonomik,
riam ter, no cálculo em espécie, os "fundos de reserva" não especificados, Além disso, seção VI} Mas a averiguação concreCa de se, segundo as circunstâncias características
dentro de uma empresa apresenta-se o problema da existência ou não de elementos de determinado lugar concreto, um empreendimento com determinada direção de pro-
que, do pomo de vista técnico e concreto, trabalham de um modo irracional (= não dução seria racional ou se talvez outro, com direção de produção modificada o fosse
rentável), e de se estes existem, quais são eles, e por que, isto é, quais elementos mais, só é possivel no cálculo em espécie com base em estimativas muito grosseiras
dos gastos em espécie (custos, do ponto de vista do cálculo de capital) deveriam ser - salvo no caso de uma localização forçada por ocorrência monopólíca de matéria-
poupados c, sobretudo, empregados de modo mais racional por outra parte, problema prima - enquanlO qw:, com base na cálculo em dinheiro, essa averiguação, apesar
que pode ser resolvido com relativa facilidade e segurança mediante uma verificação das incógnitas com as quais sempre se tem de comar, é sempre, em princípio, um
das relações, em dinheiro, entre "utilidade" e "custos" que constam nos livros - pro- problema de cálculo suscetível de solução. Por fim, a comparação, diversa da anterior,
cesso em que entra também, como índice, o débito dos juros de capital na conta -, da importância, isto é, da procura das distintas classes de bens especificamente diferen-
mas que apresenta extrema dificuldade mediante um cálculo em espécie de natureza tes, cuja obtenção mediante produção ou troca é igualmente possível, nas circunstâncias
qualquer e é resolvido apenas em casos muito simples e de forma muito sumária. dadas, constitui um problema que, em última instância, entra com todas suas conse-
(Não se trata aqui, provavelmente, de limites casuais que possam ser superados por qüêndas no cálculo de cada empresa, determinando, caso se calcule na base de dinheiro,
um "aperfeiçoamento" do método de cálculo, mas de limites fundamentais de toda de modo decisivo a rentabilidade, e condicionando assim a direção da produção ou
tentativa de calcular em espécie de maneira realmente exata Contudo, esta questão obtenção de bens dos empreendimentos aquisitivos. Para o cálculo em espécie este
ainda poderia ser discutida, embora não com argumentos provindos do sistema de problema só pode ser resolvido, em prindpio, com apoio seja da Iradição ou de um
Taylor e com a hipótese de alcançar algum "progresso", mediante um cálculo qualquer poder ditatorial que regule o consumo de modo inequívoco (tanto faz se estamen-
de prêmios ou pontos, sem emprego de dinheiro. Pois o problema é precisamente talmente díferenciado ou igualitário) e, além disso, encontre obediência. Mas, mesmo
o de como descobrir em que ponto de urna empresa esses meios poderiam eventual- neste caso, persistiria o fato de que o cálculo em espécie não é capaz de resolver
mente ser aplicados, porque justamente nele existem irracionalidades a serem elimi· o problema da impu cação do rendimenlo 100al de uma empresa aos "fatores" e medidas
nadas - irracionalidades em cuja exata averiguação o cálculo em espécie Iropeça com particulares, tal como o consegue o cálculo de rentabilidade em dinheiro, e de qu::,
dificuldades inexistentes na verificação com base no dinheiro. ) O cálculo em espécie portanto, precisamente o abastecimento atual de massas por empresas de produçao
como fundamento do cálculo nas empresas (as quais, neste caso, devem ser consideradas em massa opõe a resistência mais forte àquela forma de cálculo.
empreendimentos heterocéfalos e heterõnomos de uma direção planificada da produção
ou obtenção de bens) encontra seus limites de racionalidade no problema da impucação,
1. Os problemas de çálculo em espécie são tratados rom"singular pen~çio ~r Orro
o qual, para este tipo de cálculo, não se apresenta na simples forma de uma verificação Nw..rn, em seus numerosos trabalhos suscitados pelas tendêndas soc.allzadoras destes ulumos
segundo os livros de contabilidade, mas, sim, na forma extremamente controvertida tempos. Para uma "socialização total", isto é, para aquela que conta com o desapareclffiento
que possui na "teoria da utilidade marginal". O cálculo em espécie, para fins de uma dos preços efetivos, este problema é de fato fundamental. (Cabe observar explidtamente que
permanente administração racional dos meios de produção ou obtenção, teria de estahe-. a impossibilidade de sua solução fadoml SÓ indicaria todo: os problemas, ,~bém,~ puramente
lecer "índices de valor" para cada um dos objetos, os quais teriam de assumir a fUnção econÔmicos, que teria de enfrentar semelhante socializaçao, sem poder refutar , no entanto,
dos "preços de balanço" na contabilidade moderna. E essa hipótese ainda não inclui a "justificação" dessa tendência, uma vez que ela não se apóia em postuladOS técrucos, mas,
a questão de como esses índices poderiam ser desenvolvidos e controlados: seja de sim, como todo socialismo de convicçio, em posrulados éticos e outrOS, igualmente absolulos
66 MAXWEBER
ECONOMIA E SOCIEDADE 67
_ coisa que nenhuma ciência é capaz de fazer. Do ponto de vista p\1famerue técnico cabe,
de guerra oriema-se por um fim inequívoco único (em principio) e está em condições de tirar
p:>rém, levar em consideração a possibilidade de que, em regiões com densa população que
só podem ser abastecidas na base de um d/cuJo exatO, os limites de uma socialização estariam proveito de poderes absolutos de que dispõe a economia de paz apenas quando os "súditos"
dados, em sua forma e extensão, pela persístênda dos preços efetiVos. No entanto, não cabe estão na situação de "es<:ravos do Estado". Além disso, segundo sua essência mais íntima, é
tratar aqui dessa questio. Limitamo-nos a observar que a dislinção conceitual entre' 'socialismo" uma "economia de bancarrota": o fim que tudo domina faz com que desapareça quase toda
e "reforma social", se couber, tem de ser feita neste ponto.} consideração da futura economia de paz. Calcula-se com precisão apenas do ponto de vista
2. Naturalmente, é completamente cellO que a existência de cálculos "puramente" em técniCO, enquanto que, economicamente, com respeito a toooS os materiais que não estejam
dinheiro, seja numa empresa individual seja em muitas ou mesmo em todas, e também a estatislica ameaçados de esgotamento e, sobretudo, à força de trabalho, se calcula de um modo muito
mais abrangente do movimento de bens etc, em dinheiro, não nos dizem absolulaIDente nada grosseiro. Os cálculos têm, por isso, em sua grande maioria (mas não exclusivamente). caráter
sobre a nalUre7.3 do abastecimento de determinado grupo de pessoas com aquilo de que este, técnico. Na medida em que têm caráter econômico, quer dizer, que levam em consideração
em última insLância, necessita: bens em espécie; e que, além disso, as estimativas muilO discutidas a concorrência dos fins - e não apenas os meios para alcançar determinado fim -, satisfazem·se
do "patrimônio nacional" em dinheiro só podem ser levadas a sério, na medida em que sirvam (do ponto de vista de todo cálculo exato em dinheiro) com considerações e cálculos bastante
a interesses fiscais (isto é, na medida em que fixem o patrimônio sujeito a impolilOS) Às estllEÍsticas primitivos, segundo o princípio da utilidade marginal. São, segundo o tipo, cáleulos da gestão
de renda em dinheiro isso nem de longe se aplica, na mesma medida, mesmo do ponto de "patrimonial" e de modo algum têm o sentido de garantir a racionalidade permanente da distri·
vista do abastecimento em bens em espécie, quando os preços desles bens em dinheiro são buição do trabalho e dos meios de produção selecionados. Ponanto, é precário - por mais
estalislÍl'amenle conhecidos. Só que, também nesse caso, falta toda possibilidade de controle instrutivas que sei am precisamente as economias de guerra e de pós-guerra para o conhecimento
do ponto de vista da racionalidademateriaJ. Do mesmo modo está certo (o que foi excelentemente de "possibilidades econômicas" -.:- tirar das formas de cálculo em espécie que corresp:>ndem
exposto por Sismondi e W. Sombart mediante o exemplo da Campagna nOS tempos romanos) :\ situação destas economias conclusões sobre sua adequação à economia permanente nos tempos
que uma rentabiljdade satisfatória (como a apresentava a agricultura extremamente extensiva de paz.
da Campagna, e isso para rodos os participantes), em muitos casos. nada tem em comum, do Admitímos prontamente: J) que também o cálculo em dinheiro se vê obrigado a suposições
ponto de vista da utilização máxima de determinados meios de produção ou obtenção de bens arbitrárias, no caso daqueles meios de produção que não têm preço de mercado (o que particu-
destinados a satisfazer às necessidades de detenninado grupo de pessoas. com uma estruturação larmente ocorre na contabilidade da agricultura); 2) que algo análogo. ainda que em menor
satisfatória da economia. A forma da apropriação (especialmente da apropriação das terras - escala, se aplica à disrribuiçào dos "custos gerais" na contabilidade, especialmente de empresas
ponto em que concordamos com F. Oppenheimer -, mas não apenas desta) cria oportunidades com múltiplas atividades; e 3) que toda canelização. por mais racional que seja - isto é, orientada
de rendas e ganhos de várias espécies que podem obstruir de modo permanente o desenvol- pelas possibilidades de mercado -, faz com que diminua imediatamente o interesse no cálculo
vimento da aplicação tecnicamente ótima dos meios de produção. (Contudo, isto está muiro exato, mesmo na área do cálculo de capital, pois ele só é feilO onde e na medida em que existe
longe de constjtuir uma peculiaridade lustllmeme da economia capitalistll: especialmente as restri- a obrigação de fazê-lo. No entanto, no caso de cálculo em espécie, com referência ao item
ções muito discutidas da produção no interesse da rentabilidade dominavam totalmente as consti- I. aquela situação seria universal; com referência ao item 2, todo dlculo exato dos "custOS
tuiÇõeS econômicas da Idade Média, e a posição de poder da classe trabalhadora, em nossos gerais", efetuado todavia pejo cálculo de capital, ficaria impossível; e com referência ao item
tempos, pode produzir efeitosemelhame Mas, sem dúvida, encontramos esse fenômeno rambém 3, rodo interesse no cálculo exato ficaria eliminado e teria de ser despertado de novo, artificial-
na economia CApitalista.) A existênCia de estatísticas de movimentos do dinheiro ou na forma mente, por meios de efeito duvidoso (veja acima) A idéia de uma transformação de numerosa
de estimativas em dinheiro não impediu, porém, o desenvolvimento de estatíslicas em espécie, quadro de "empregados comerciais" ocupado com a contabilidade num pessoal ocupado com
como se poderia supor segundo algumas eXp:>sições, p:>r mais que se desaprovem, do p:>nto uma estat{stica universal, que se acredita aIXa a substituir a contabilidade em termos de cálculo
de vista de postulados ideais, o estado destas e os serviços que prestam. Nove décimos ou mais em espécie, desconhece não apenas os impulsos fundamentalmente diferentes como também
de nossas estatísticas não são estatísticas em dinheiro, mas, sim, em espécie. Considerado em as funções completamente diversas da "estatística" e do "cálculo". Elas se distinguem entre
conjunto, o trabalho de toda uma geração quase não consistiu em outra coisa senão a crítica si como o burocrata e o organizador.
das conseqüências que a orientação da economia puramente peta rentabilidade tral para a provi- 4. Tanto o cálculo em espécie quanto o cálculo em dinheiro são técnicas rac{onais. Mas,
são de bens em espécie (poiS é isso que, em última inst:lncia e de modo consciente, todo o de modo algum, estes dois abrangem a totalidade de gestão econômica existente. E que, além
trabalho dos chamados "socialistas de cátedra" tem em vista). Só que essa crítica vê a única deles, bá também a ação economicamente orientada de fato, mas alheia ao cálculo. Pode estar
solução p:>Ssívci numa economia de massas (seja temporária, seja definitiva), não na socialização orientada pela tradição ou condicionada por falOres afetivos. Toda procura primitiva de alimentos
total, mas, sim, numa reforma do caráter po/írico-social, - orientada, em oposição à economia pelo bomem é muito semelhante à busca instintiva pelos animais. Também as ações econômicas
baseada no cálculo em espécie. pela conservação dos preços efetivos. Naturalmente. cada qual plenamente conscientes, mas baseadas na devoção religiosa, na excitação guerreira, em senti-
tem a libetdade de considerar este pontO de vista "meio passo à frente", só que. em si mesmo, memos de piedade ou em OUlras emoções semelhantes, apresentam um grau mínimo de desenvol-
ele não era insensato. É verdade que nãO' se deu muita atenção aos problemas da economia vimento de formas de cálculo. "Entre irmãos" (da mesma tribo, da mesma corporação ou da
natural e especialmente à possibilidade de racionalizar o cá/cuia em espécie, e que, em todo mesma religião\ não se "regateia"; denlfo do circulo dos familiares, dos camaradas ou dos
caso, essa p:>uca atenção foi somente histórica e não atual. A guerra - como toda outra guerra discípulos, não se calcula. ou apenas se o faz de forma muito elástica, "racíonando"-se em
no passado - reativou esses problemas. mm vigoroso impulso, na forma dos problemas da caso de necessidade: um primeiro passo, muito modesto, em direção ao cálculo. Sobre a pene·
economia de guerra e de p6s-guerra. <E, sem dúvida, o mérito de Orro N,.....lH. entre outras tração do cálculo no comunismo familiar primitivo, veja, mais adiante, o capitulo V. O veículo
coisas, consiste em seu tratamento, imediato e penetrante, precisamente desses problemas, ainda
do cálculo era por toda parte o dinheiro, e isso explicá por que, de fato, o cálculo em espécie
que discutível tanto nos ptindpios quanto nos dwlhes O falo de "a ciência" quase não rer tornado permaneceu tecnicamente ainda menos desenvolvido do que os limites da sua narureza imanem"
posição cl1ame de suas el<pOSiçóes não surpreende, wna vez que elas até agora só existem na forma
lhe permitiriam (neste pomo cabe concordar com O. Neurath)
de prognósticos muilO sugestivos, mas rom caráter apenas enunciativo. o que torna difícil um exame Durante a impressão desta obra aparece (em Archiv f Sozia/wis., vai. 47, p- 86 e seg.)
crítico. O problema começa ali onde terminam suas exposições - até agora - publiaujas.)
o trabalho de L. MJSES que trata desses problemas ("Die Wirtsehafrsrechnung im sozialistischen
3 Os resultados e métodos da economia de guerra SÓ podem ser utilizados com muito Gemeinwesen"õ compare também, do mesmo aUlor: Die Gemeinwirrsmaft, 2~ edição, 1932,
cuidado na critica da racionalidade material de uma constituição econômica. Toda economia
p. 91 e sego (2~ parte. § 3) e o apêndice (p. 480 e sego )1·
68 MAXWEBER ECONOMIA E SOCIEDADE 69
I ~! § 13" A" racionalidade" formal do cálculo em dinheiro está, ponanto, vinculada cada" toda aquela que, dentro de urna associação, orienta-se sistematicamente por or.
li a condições materiais muito especificas que interessam aqui sociologicamente" Estas dens estatuídas, de nature7.a material, sejam estas paauadas ou forçadamente impostas.
são sobretudo: A satisfação de necessidades pela economia de troca pressupõe, normalmente
1. A luta no mercado de economias autônomas (relativamente, pelo menos} Os e em caso de racionalidade, o cálculo em dinheiro e, quando existe cálculo de capital,
preços em dinheiro são produtos de lutas e compromissos, portanto, de constelações a separação econômica entre gestão patrimonial e empreendimento econ6mico. Asatis-
de poder. O "dinheiro" não é uma inofensiva "referência a utilidades indeterminadas" fação de necessidades pela economia planificada (em sentido e grau diversos, segundo
que possa ser alterada arb itrariamente sem que isso tenha por conseqüência a eliminação sua extensão) não pode prescindir do cálculo em espécie, corno último fundamento
fundamental do caráter dos preços, marcada pela luta dos homens uns contra os outros; da orientação material da economia, enquanto que, formalmente, no que se refere
é, em primeiro lugar, meio de luta e preço de luta, e meio d~ cálculo apenas na forma às pessoas economicamente ativas, necessita orientar-se pelas instruções de um quadro
de uma expressão quantitativa da estimativa das probabilidades na luta de interesses. administrativo que para ela é indispensável. Na economia de troca, as ações das econo-
2. O cálculo em dinheiro alcança o grau máximo de racionalidade, como meio mias individuais autocéfalas orientam·se de modo autônomo: pela utilidade marginal
de orien13ção de caráter calculável para a gestão econômica, na forma do cálculo de da propriedade em dinheiro e da renda esperada em dinheiro, no caso da gestão econô-
capital e, nesse caso, com a condição material do máximo de liberdade de mercado, mica patrimonial, pelas possibilidades de mercado, no caso de atividades aquisitivas
no sentido de ausência de monopólios tanto forçadamente impostos e economicamente casuais, e pelo cálculo de capital, no caso dos empreendimentos aquisitivos Na econo·
irracionais quanto voluntariamente criados e economicamente racionais (istO é, orien- mia planificada - desde que seja realizada de modo conseqüente - toda ação econô-
tados pelas oportunidades de mercado). Aluta de concorrência pela venda dos produtos,
concatenada a essa situação, gera grande quantidade de gastos, especialmente para
mica tem caráter rigoroso da gestão econômica patrimonial e he[erônomo, orientan-
do-se por ordenações de caráter permissivo ou proibitivo, por presumíveis recompensas I
l'I~
a organiZação da venda e a propaganda (em sentido muito amplo), as quais não existiriam ou castigos. Quando a economia planificada oferece probabilidade de ganhos extras,
sem aquela concorrência (isto é, numa economia planificada ou em caso de monopólios como meio de despertar o interesse próprio, a natureza e a direção da ação assim
absolutos de caráter racional} O cálculo de capital rigoroso está, além disso, vinculado recompensada permanecem, no que se refere ao aspeao material, reguladas de modo
socialmente à "disciplina da empresa" e à apropriação dos meios materiais de produção heterônomo. Na economia de troca pode, certamente, ocorrer em considerável grau
11
ou obtenção, isto é, à existência de urna relação de dominação. a mesma coisa, ainda que de maneira formalmente voluntária. Ocorre sempre que
3. Não é a .'demanda" em si, mas sim, a demanda compoderaquisicivo de utilida- a diferenciação patrimonial, especialmente de bens de capital, obriga os nâo- possLJidores
des que regula materialmenre, por intermédio do cálculo de capital, a produção de
ben.~ pelas empresas aqu isitivas. Decisiva, pOI1antO, para a direção da produção de
a se submeterem a determinadas ordenações pa ra receber pelo menos algum pagamento
para as utilidades que oferecem: sejam estas as ordenações do dono abastado de urna
Il
bens, é a constelação da utilidade marginal no último nível de renda que, segundo economia doméstica ou então as ordenações, orientadas pelo cálculo de capital, dos li
a distribuição de propriedade, está tipicamente em condiçóes e disposto a adquirir
determinada utilidade. Em conexão com a indiferença absoluta - em caso de liberdade
possuidores de bens de capital (ou das pessoas de confiança que os últimos designaram
para administrar esses bens). Na economia puramente capitalista, este é o destino de
II'
total de mercado - da racionalidade formalmente mais perfeita do cálculo de capital toda a classe trabalhadora. <!
diante de postulados materiais de nature7.a qualquer, essas circunstâncias, próprias do Nas condições da economia de troca, o estímulo decisivo para todas as ações ,II
cálculo em dinheiro, constituem os limites fundamentais de sua racionalidade. É que econômicas é, normalmente: 1) para os que não têm propriedade: a) a pressão que
esta tem caráter puramente formal A racionalidade formal e a material (qualquer que exerce o risco de carecer de toda provisão, tamo para si mesmo quanto para os "depen- i·
seja o valor pelo qual se orientam) discrepam, em princípio, em todas as circunstâncias, dentes" (filhos, esposa e, eventualmente, pais), pelo sustemo dos quais o indivíduo
por mais freqüentes que sejam os casos individuais em que empiricamente coincidem assume tipicamente a responsabilidade, e b) em grau diverso, também a disposição
(mesmo que isto aconteça em todos os casos individuais, o que é urna possibilidade íntima para aceitar como forma de vida a atividade econômica aquisitiva; 2) para os
teórica, construída, porém, na base de condições inteiramente irreais} Pois a raciona- efetivamente privilegiados, em virtude de propriedade ou educação (condicionada, por
lidade formal do cálculo em dinheiro, de per si, nada nos diz sobre a forma da distri· sua vez, pela propriedade}. a) as possibilidades de obter, por meio de atividades aquisi-
buição material dos bens em espécie. Esta requer sempre uma consideração paI1icular. tivas, rendas de alto nível, b)a ambição, c)a estimação do trabalho socialmente privile-
Mas, do ponto de vista da produção ou obtenção de um mínimo de bens materiais giado como" profissão" (profissões inteleauais, artísticas, técnicas especializadas}, 3)
para abastecer um número máximo de pessoas, considerando-se este o critério da racio- para os que participam das possibilidades de empreendimentos aquisitivos: a) o risco
nalidade, na verdade coincidem, em considerável grau, segundo a experiência das últi· de capital próprio e as 0pol1unidades lucrativas próprias, em conexão com b) a dispo-
mas décadas, a racionalidade formal e a material, o que se explica pela natureza dos sição "profissional" para a atividade aquisitiva racional comou) "prova" da capacidade
impulsos que póem em movimento o único tipo de ação social economicamente orien- pessoal, e fl) corno forma de mando autônomo sobre as pessoas que dependem das
13da adequado ao cálculo em dinheiro. Mas, em todas as circunstâncias, vale o seguinte: disposições próprias, e, além disso, 'Y) sobre possibilidades de previsão, de interesse I
só em conexão com a forma de distribuição da renda, a racionalidade formal nos diz vital e cultural, para número indeterminado de pessoas: o poder. Entre estes motivos, r
alguma coisa sobre a situação do abastecimento material. urna economia planificada orientada pela satisfação de necessidades - em caso de :i
§ 14. Denominamos satisfação de necessidades pela "economia de troca" toda
satisfação econômica de necessidades possibilitada por alguma siruaçio de interesses,
realização racHeal - tem de diminuir, pelo menos, a coerção ao trabalho que provém
do risco de ficar sem meios de subsistência, uma vez que, em caso de racionalidade

que se orienta pelas oportunidades de troca e cujas relações associativas somente se material no sewr de abastecimento, náo poderia deixar sofrerem em extensão ilimitada
referem ao ato de troca. Chamamos satisfação de necessidades pela "economia planili- os dependentes de um trabàlhador eventualmente menos eficiente. Além disso, supon- li!., !
70 MAXWEBER ECONOMIA E SOCIEDADE 71

do-se ainda a mesma realização radical, ela tem de suprimir em considerável grau, 3. Não cabe examinar aqui, em seus detalhes, a formação de associações econômicas
e em última instiincia completamente, a autonomia da gerência de empreendimentos do tipo de canéis, corpor:açôeS ou outras associações de artesãos, isto é, a regulação ou utilização
monopólica de 0poI1unidades de aquisiçio, tanto faz se forçadamente imposta ou pactuada (regu-
produtivOS; e, no que se refere ao risco de capital e à comprovação da capacidade
larmente a primeira, mesmo ali onde formalmeme aparece a segunda). Sobre iSIO (em forma
própria pelo mando formalmente alltónomo ou pela disposição 311tÓnoma sobre pessoas muito geral) compare o capítulo I, § 10, e, mais adiante, no exame da apropriação de oponu-
ou possibilidades de abastecimento de importância vital, ela nem conhece essas coisas, nidades econômicas (este capítulo, §§ 19 e segUintes) A oposição entre as duas formas do socia-
ou então lhes reconhece apenas uma autonomia rigorosamente limitada. Prescindin- lismo - a evolucionista e oriemada pelo problema da produção - sobretudo, a marxisc.! -,
do-se das possibilidades (eventuais) de ganhos extras, de natureza puramente material, e a Outra que, partindo do problema da distribuição, tende à economia planificada racional
esta economia dispõe, portanto, essencialmente de estímulos ideais, de caráter "altruís- e que hoje em dia se voltou a chamar de "comunista" -, oposição que existe desde a Misere
ta" (em sentido mais amplo) para alcançar rendimentos semelhantes, em direção à de Ia phifosophie de Marx, ainda não pôde ser superada. A oposição enlre as tendências do
satisfação de necessidades, àqueles que, segundo a experiência, conseguem realizar socialismo russo, com as lutas apaixonadas entre Plekhanov e Lenin, eslava c.!mbém condicionada,
a orientação pelas oportunidades de aquisição, dentro da economia aquisitiva, em dire- em última inslância, pela mesma coisa, e a cisão atual do socialismo, apesar de estar condicionada,
em primeiro lugar, por lutas extremamenle fortes pelas posições de lideranças (e as respectivas
ção à produção de bens procurados por pessoas com poder aquisifivo. Além disso, prebendas~ deve-se também e no fundo à mesma prohlemática, ~ qual, em vinude da economia
em casü de realização radical, tem de aceitar a diminuição da racionalidade formal, de guerra, assumiu uma tendência específica, por um lado. em favor da idéia da economia
de cálculo, condicionada (neste caso) pela diminuição inevitável do cálculo em dinheiro planificada, e, por Outro, em favor do desenvolvimento dos interesses de apropriação. A questão
e do cálculo de capital. É que a racionalidade material e a formal (no sentido de cálculo de se dever ou não criar uma "economia planificada" (qualquer que seja seu sentido e extensão)
exaco) discrepam necessariamente em considerável grau: essa irracionalidade funda- não é, naturalmente, nesta forma, um problema Científico Do pontO de vista científico, só cabe
mentaI e, em última instância, inevitável é uma das origens de toda problemática "social" perguntar: quais as conseqüências que ela (com determinada forma) provavelmente teria, ou
e, particularmente, da problemática de lOdo socialismo seja, o que se teria de aceitar também em caso de tallentariva. É um mandamento da sinceridade
a admissão, por rodos os interessados, de que se coma com alguns fatores conhecidos, mas
também com o mesmo número de farores parcialmente desconhecidos. Os detalhes deste proble-
Com reopeiro aos §§ 13 e 14: ma. em seus aspectos materiais, não podem ser examinados de modo decisivo nesta exposição,
L Evidentemente, as exposições se referem apenas a coisas geralmente conhecidas, de e nos aspeaos que aqui interessam só podem ser tocados fragmentariamente e em conexão
forma um pouco mais acentuada do que normalmente acontece (veja as frases finais do §14). com as formas das associaçôes (particularmente, do ESlado). Temos aqui de nos limitarmos iI
A economia de troca é o tipo mais importame de todas as ações sociais típicas e universais exposição breve (mas inevitável) da problemática técnica mais elementar. O fenômeno da econo-
que se orientam por "situações de interesses". Amaneira como ela conduz à satisfação de necessi- mia de troca regulada também não foi tratado aqui ;;inda, pelas razões expostas no começo
dades é objeto das considerações da teoria econômica e um assunto que, em principio, damos desle parágrafD.
por cunhecido O emprego da expressão "economia planificada" não significa, naturalmente, 4. Apenetração da gestão econômica de uma sociedade pela economia de troca pressupõe,
que concordamos com 0$ conhecidos projetos do ex· ministro da economia; foi escolhida porque, por um lado, a apropriaçào dos ponadores materiais das utilidades e, por outro, a liberdade
além de não apresemar contradição lingüistica em sua formação, tornou-se a expressão costu· de mercado Esta última aumenta em importância, 1) à medida que se rorna mais completa
meira desde que se fez dela esse uso oficial (em vez da expressão empregada por o. Neurath, a apropriação dos portadores materiais das utilidades, panicularmente dos meios de obtenção
tampouco inadequada, de "economia administrativa"). (de produção e de tran'porte), pois o máximo de mercabilidade destes significa o máximo de
2. O conceito de "economia planjficada", neste sentido, exclui todas as economias de orientação da gestãO econômica pelas situações de mercado. Mas, além disso, e""a imponãncia
associações ou reguladas por associações que se orientam por probabilidades de aquisição (na cresce 2) à medida que a apropriação vai se limitando aos ponadores materiais de utilidades.
farma de corporações, canéis ou tf1lstes). Abrange apenas economias de associações oriemadas Toda apropriação de pessoas (escravidão, servidão) ou de possibilidades econômicas (monopólio"
pela sa[is{.1çio de nece.<skJades Uma economia orientada pelas possibilidades de aquisição, por de clientela) significa restrição da ação humana orientada por situações de mercado. Com toda
InalS rigorosamente que esteja rego iJda ou dirig ida pelo quadro administrativo de uma associação, razão designou Fiam (em Der geschiossene Handefssraar) como caraaerística da ordem moderna
pressupõe sempre "preços" efetivos, qualquer que seja a maneira como esles sejam criados de propriedade na ecnnomia de troca a limitação do conceito de "propriedade" a bens materiais
formalmente (no caso-limite do pan-canelismo: mediante compromissos entre os canéis, tarifas (ampliando-se, ao mesmo tempo, o grau de autonomia dD poder de disposiçào, inerente à proprie-
de salários estabelecidas por "comissôes" etc), e, portanto, cálculo de capital e oriemação por dade) Essa transformação da propriedade correspondeu aos interesses de todos os iO[eressados
esre. A "socialização plena", no sentido de uma economia planificada em termos de pura gestão no mercado, uma vez que favoreceu sua orientação írrestrlla pelas oporrunidades de lucro susci-
patrimonial e a socialização parcial (de ramos de obtenção de bens) com conservaçào do dlculo tadas pela situação de mercado. O desenvolvimento para essa forma característica da ordem
de capital, seguem, ape"ar da idemidade do fim e de todas as formas miSlaS, caminhos que, de pfOpriedade foi, portamo, principalmente obra de sua influência
de ponto de vista técnico, são fundamemalmemediferentes. Situação preliminar de uma economia 5. Aexpressão muito usada de "economia comum" foi evitada por motivos de conveniência,
planificada com gestão econômica patrimonial é todo racionamemo do COl15umo e, em geral, uma vez que faz supor como normal um "interesse comum" ou um "sentimento de comunidade"
wda medida que tende, em primeiro lugar, a influenciar a disrúbuiç;io dos bens em espécie. que não fazem necessariamente pane do conceito, a economia de um senhor feudal ou de um
A direção segundo um plano de obtenção de bens, tamo faz se realizada por canéis voluma· monarca absoluto (do tipo dos fara6s do "Novo Império") pertence, em oposição i\ economia
riamente criados ou forçadamente impostos, Ou por instiluições estatais, tem em vista, em primei, de troca, à mesma categoria que a economia doméstica de uma familia.
ro lugar, a organização racional do emprego dos meios de oblenção e da força de trabalho, 6. Para o conceito de "economia de troca" é indiferente se nela existem ou não, e em
e precisameme por iSso não - ou pelo menos (segundo seu próprio sentido) ainda não - que extensão, economias "capitalisc.!s", isto é, orientadas pelo cálculo de capital. Em panicular.
pode prescindir do preço. Por isso, ruio é casual que o socialismo de "racionamento" se de o tipo normal da economia de troca é a satisfação de necessidades com base l1a eçonomia mOIlt'·
muito bem com o socialismo do " conselho de fábrica" que (comra a vontade de seus dirigentes tária. Seria errado supor que a existência de economias capitalistas Cresce proporcio n;,[mt'lIll'

I
racional-socialistas) está necessariameme ligado a interesses de apropriação dos trabalha- ao desenvolvimemo da satisfação de necessidades com base na economia mon<'t~ri:l (., ,,,,,ih'
dores. maIs ainda, que esta se desenvolve necessariamente na mesma direção que 10010" no Oeid"flh'

.
I/
! ·1'
72 MAXWEBER ECONOMIA E SOCIEDADE 73

o certo é precisamente o romrário. Aextensão crescente da eConomia monetária: 1) pôde andar Com respeito a este parágrafo e aos seguintes, deve-se consultar a exposição sempre exem-
de mãos dadas com a monopolização progressiva, por pane do oikos de um príndpe, das oporill- plar, de K BOCHER, no anigo "Gewerbe", do HWB. d Sraat'wiss. e, do mesmo aUlor, Die Entsre-
nídades aproveitáveis com grandes lucros ~ assim foi no Egito, na época dos PlOlomeus, com hung der VolkswitTschafr: trabalhos fundamentais, de cuja terminologia e esquema afastamo-nos
uma economia monetária bastame desenvolvida, como provam OS livros de contabilidade ainda em alguns poncas apenas por motivos de conveniência. OuttOS citados aqui não seriam muito
conserv3dos: preservou-se, entretamo, o cálculo em dinheiro em termos de gestão econômica úteis, uma vez que não apresentamos novos resultados, mas apenas um esquema que serve
patrimonial, sem cornar-se cálculo de capilal; 2) pôde acontecer, com a ampliação da economia para nossos fins
monetária, e "emprebendamemo" das oportunidades fiscais, com o resultado de uma estabili- l. Observamos expressamente que aqui - conforme o exige o comexto - recapitulamos
7.ação tradicionalista da economia (assim na China, como será visto oportunamente}, 3)a ut]/ização sumariamente o aspecto sociológico dos fenômenos, enquanto que o econômico só aparece
capitalista de patrimônios em dinheiro pôde investi r estes em negócios ptomissores de lucro, na medida em que encontra sua expressão nas categorias sociológicas formais. A exposiçao só
mas não orientados pelas oportunidades de troca de um livre mercado de bens nem, porranto, teria caráter econômico material incluindo-se as condições de mercado e preço, tocadas até
pebs oportunidades de obtenção de bens (assim, quase exclusivamente, em rodas as regiões agora apenas em seu aspecto teórico. No enta oro, em observações prelimi nares gerais de nosso
eccnômicas fora do Ocidente moderno, por razões a serem air:da expostas). tipo, esses aspectos materiais da problem:ítica só poderiam Ser incluídos em forma de reses,
com O perigo de unilateralidades muito graves. E os mélOdos intetpretativos puramente econô-
micos são tão sedu[Qtes quanto contestáveis Veremos, por exemplo, as seguintes afirmações
§ 15. Toda forma típica de ação social economicamente orientada e de relação a época decisiva para o desenvolvimento do "trabalho livre", ainda que regulado pot associações,
associativa de conteúdo econômico, dentro de um grupo de pessoas significa, em alguma da Idade Médja é a época" das trevas" dos séculos X a XII, e nesta é especialmente imponanre
extensão, um modo particular de distribuir e coordenar serviços humanos para o fim a situação do trabalho qualificado (do camponês, mineiro, anesio), situação orientada pelas
da obtenção de bens. A realidade da ação econômica mostra-nos a distribuição de servi- oporrunidades de renda dos senhores territoriais, feudais c jurisdicionais - todos eles represen-
ços distintos entre pessoas diversas e a coordenação destes em resultados comuns, o tando poderes particulares em concorrência por estas. A época decisiva para o desenvolvimento
que, aliás, se dá em combinações altamente diversas com os meios materiais de obten- do capitalismo é a da grande revolução crônica dos preços, no século XVI Esta significa uma
alta absoluta e relativa dos preços de (quase) todos os produtos agrícolas (ocidentais) e, por
ção. Contudo, na multiplicidade infinita desses fenômenos pode-se distinguir alguns conseguinte - conforme conhecidos princípios da economia agrária -, tanto estímulo quanto
fipos. possibilidade do empreendimento comercial e, com isso, da grande empresa, em pane capitalista
Os serviços humanos de natureza econômica dividem-se em: (na Inglaterra), em parte de caráter feudal (nos territÓrios situados entre o rio Elba e a Rússia).
a) serviços de gerência e Por outro lado, significa, em parte (na verdade, na maioria dos casos), uma alta absoluta, porém
b) serviços orientados por gerência: trabalho (conceitO que empregaremos neste não relativa (em geral) de importantes produtos arresanais - üu até, ao contrário, em forma
sentido no que segue). lípica, uma baixa relativa desses preços e, por isso, um estímulo para criar formas de empresas
capazes de COnCOrrer no mercado, na medida em que existam, dentro das empresas e fora
delas, as condições prévias necessárias para isso~ O que não foi o caso da Alemanha, circunsrância
É claro que o trabalho também é serviço de gerência até no mais alto grau concebível, que marca o início de seu "declínio" econômico. Mais tarde foram criados os su cessores dessas
quando se o define como absorção de tempo e esforço. No emanto, o uso do lermo que escolhe- empresas, os empreendimentos industriais capilalistas. Condição prévia para isto é O desenvol-
mos, em oposiçio ao serviço de gerência, corresponde àquele que, por morivos sociais, é comum vimento de mercados em massa. Sintomas desse desenvolvimento são, sobretudo, determinadas
00 uso correme da Imguagem de hoje, e é neste sentido particular que o empregaremos no
transformações na política comercial inglesa (prescindindo-se de outros fenômenos). Estas e
que segue. Em geral, no emamo, falaremos de "serviços". outras afirmações semelhantes teriam de ser utilizadas para documentar considerações teóricas
sobre as condições econômicas mareriais do desenvolVimento da estrutura econômica Comudo,
As formas em que serviços e trabalhos podem scr reali7.ados em um grupo de isto não é possível aqui. Essas teses, bem como numerosas semelhantes (em sua grande maioria
pessoas distinguem-se tipicamente do segllinre modo: contestáveis), não podem ser incluídas nesses conceitos estritamente sociolôgicos, mesmo que
I. fecnicamenre - segundo a maneira pela qual, para o decurso técnico de pro- não sej am tOlalmente errôneas. Com a renúncia a um ensaio nesta forma, desiste- se nas subse-
qüentes considerações deste capítulo, por agora e conscientemente, de roda' 'explicação", limitan-
cessos de obtenção, os serviços de vários colaboradores se distribuam entre estes e do-se (provisoriamente) à tipificação sociol6gica (assim como ocorreu nas considerações anterio- i
se coordenem entre si e com os meios materiais de obtenção, res, com a renúncia ao desenvolvimento de uma reoria do preço e do dinheiro) Sublinhamos b
2 socialmenre, - e neste caso: fonememe o "por agora". Pois unicamente os fatos reais econômicos fornecem-nos a matéria
A) conforme OS serviços individuais sejam ou não objetos de economias a utocéfalas viva para uma verdadeira explicação capaz de abranger também o decurso do desenvolvimento
I
e autônomas, e segundo o caráter econômico das mesmas; e, em conexão direta com sociologicamente relevame. Trata-se aqui apenas de oferecer, por agora, um quadro básico '1
isso: para operar com conceitos definidos de forma razoavelmente inequívoca. . !~
B)segundo a forma e extensão em que estejam apropriados ou não: a)os serviços É claro que, aqui, tratando-se de urna sistemática em forma de esquema, não é possível
individuais; b) DE meios materiais de produção ou obtenção; c) as possibilidades econo- observar a seqüência hislórico-empírica nem a genéticQ-lípica das formas particulares possíveis
2. Foi criticado freqüentemente e com razão que, na terminologia econômica, muitas
micas de aquisição (como fontes ou meios de aquisição), e segundo a forma, condicio- vezes não se faz distinção entre 05 canceitos de "empresa" e "empreendimento". "Empresa",
nJda pelos fatores anteriores: a) da classificação (social) das profissões e ./3) da formação no âmbito da ação economicamenle orientada, significa uma categoria técniCl que designa a
(econômica) do mercado; por fim, forma em que estão continuamente coordenados determinados serviços de trabalho entre si
3 cabe perguntar, do pomo de vista econômico, em relação a todo tipo de coorde- e com os meios de obtenção materiais Seu contrário é a ação a) inconstante ou b) remicamente
nação de serviços entre si ou com meios materiais de obtenção, e também em relação descontínua, tal como sempre ocorre em toda gestão p~trimonial puramente empírica O contr;í-
ao modo como são distribuídas entre a gestão economica e a apropriação: trata-se rio de "empreendimento" - um tipo de orientação econômica (pelo lucro)- é a "gestão patrimo-
de emprego em termos de gestão patrimonial ou aquisítiva~ nial" (orienlação pela satisfação de necessidades) Mas a oposição entre "empreendimento" e ! i·i
1-
ir
,I'Ii.
~
MAXWEIlER ECONOMIA E SOCIEDADE 75
74
"gestão patrimonial" não é exaustiva, pois existem ações aquisitivas que não se incluem na racionais (c neste senrido "política da economia nacional", segundo a tenrninologia cOStumeira,
categoria de "empreendimento": toda alividade aquisitiva puramente pelo rrabalho - do escri- porém poua> adequada} Mas muito menos ainda acontece necessariamente de a estrutura interna
tor, do anista, do funaonário público - não é nem uma coisa nem outra, enquanto que o da economia - a forma em que os serviços se especificam, especialiZam e coordenam, o modo
recebimento e gasto de rendas é evidentemente "gestão patrimonia'" em que eles se cLslfibuem emre economias independentes e a forma da apropriação da valorização
ro.-os parágrafos anteriores, não obstante aquela oposição, falamos de "empresa aquisitiva" do trabalho, dos meios de obtenção e das possibilidades de aquisição - corresponder àquela
sempre que se realiza uma ação de empresário, duradoura e coerente em Sua continuidade: extensão da associação, portadora (pre.sumivell) de dererminada politica econõmica, e tampouco
tal ação não pode ser imaginada, de fato, sem a constituição de uma "empresa" (eventualmente de essa estrutura, quanto a seu fenrido, se modificar sempre que mude aquela extensão A
,ndividual, sem quadro de ajudames} O imporrante, neSses casos, para nós, foi acentuar a separa- comparação ent;e o Ocidente e a ~ia, e entre o Ocidente moderno e o da Amiguidade mostraria
ção entre gestão patrimonial e empresa. No entanto, cabe admitir agora que o termo "empresa o quanto é erronea essa SUpüSIÇlO. Mesmo assim, na consideração econômica, não se pode
aquisitiva", em vez de "empreendimento aquisitivo" com caráter contínuo, só é adequado (por deixar à parte a existência ou não de associaç6es marerialmente reguladoras da economia -
ser inequívoco) para o caso mais simples de coincidência da unidade récnica da "empresa" com mas isto não se refere exclusiva e especialmente às associações polírieas - e o 5emido fundamental
a unidade do "empreendimentO". Sem dúvida, pode ocorrer na economia de troca que várias de sua regulação. Pois é um fator que exerce influência muito fone sobre o modo de aquisição.
"empresas". tecnicamente separadas, estejam unidas numa unidade de "empreendimento". Mas, 4. A inrençio de nossas considerações é também aqui, sobretudo. a averiguação das condi·
naturalmente, isto não se realiza simplesmente pela união pessoal na figura do empresário, ções prévias do grau máximo de racionalidade formal da economia e a relação delas com as
mas se constitui pela unidade da orientação por determinado plano homogeneamente formulado, "exigências" mareriais de narureza qualquer.
referente à exploração para fins aquisirivos (por isso, transições são poss;veisJ Quando SÓ falamos
de "empresa", deve-se entender sempre que nos referimos àquela unidade técnica -consistente § J6. l. Tecnicamenre [§ 15 tópico J, p. 72) as formas de articulação de serviços
em instalações, meios de trabalho, força de trabalho e direção técnica (eventualmente hetero- cLstinguem-se:
céfaJa e heterônoma) -, unidade que também existe (segundo o uso COrrente da linguagem) A, segundo a divisão e coordenação dos serviços. E isto
na economJa comunista. O termo" empresa aquisitiva" sõ será empregado, no que segue, quando 1. segundo a natureza dos serviços aceitos pela mesma pessoa, isto é,
a unidade técmca e a econÔmica (de "empreendimemo")são idênticas a) nas mãos de uma pessoa podem estar:
A relação emre "empresa" e "empreendimento" mosrra·se tefminologicameme com agu- a) ao mesmo tempo, serviços de direção e de execução, ou
deza especial quando se trata de categorias como "fábrica" e "indústria domiciliar". A última (3) somente OS primeiros ou somente os segundos
é evidentemente uma categoria relativa ao empreendimento. Do ponto de vista do funcionamento
técnico, uma empresa comefcial e empresas como partes integrantes das unidades de gestão
Com respeito a a: a oposição é naturalmente relativa, uma vez que ocorre "colaboração"
palrimonial de trahalhadores (sem haver trabalho numa oficina - a não ser que se trate de
organização com mestres intermediários), com serviços especificados prestados à empresa comer- ocasional, em serviços de execução, por parte de pessoas que normalmente só realizam serviços
de direçào (camponeses com grande propriedade, por exemplo} De resto, todo pequeno lavra-
cial e vice-versa, coexistem lado a lado. Portamo, não há como compreender o processo exclusiva-
meme sob este aspeao; para isso, devem ser incluídas as categorias mercado, empresa, empreen- dor, artesão ou pequeno barqueiro constitui o tipo '"
dimento, gestão patrimonial (dos trabalhadores individuais), utilização aquisitiva dos serviços
remunerados. O conceito de "fábrica" poderia ser definido -- conforme muitas vezes propOSto b) A mesma pessoa pode executar
- de forma economicamente indiferente, uma vez que se pode deixar à pane a situação do a)serviços que tecnicamente sãohelerogêneos e produzem resultados finais diVer-
trabalhador (livre ou não), a forma da especialização do trabalho (especialiZação técnica interna sos (combinação de serviços), e isto
ou não) e a natureza d<Às meios de trabalho empregados (máquinas ou não} Portanto, simples- aa) por falta de especialização do serviço em seus componentes técnicos, ou
mente como trabalho de oficina. Mas, em todo caso, deve-se incluir na definição, além &,so, (3f3) de modo sazonal, ou
a forma da apropriação da oficina e dos meios de rrabalho (por um proprietário}, se isto não yy) em virtude da utilização de capacidades não exigidas pelo serviço principal
for feito, o conceito se confundirá com o do ergasrerion. E, uma vez feito, parece, em principio,
mais conveniente considerar tanto a "fábrica" quanto a "indústria domiciliar" como duas catego-
rias estritameme econômicas do empreendimemo baseado no cálru/o de capilaJ. Numa ordem
(serviços acessórios).
Ou a mesma pessoa executa
(1) unicamente determinados serviços específicos, e isto
I
'I

rigorosamente socialista, não exiSliriam enlão nem "fábricas" nem "indústrias caseira."', mas
apenas oficinas, insralaç6e5, máquinas, ferramenras e serviços de oficina e domiciliares de todas
as espécies.
aa) em virtude da natureza do resultado final: de modo que a mesma pessoa
executa todos os serviços exigidos por esse resultado, tecnicamente hererogêneos entre
lI
3. Sobre o problema das" elapas do desenvolvimento" econômico, nada cabe dizer, por si, tamo simultâneos quanto sucessivos (tratando-se, ponamo, neste sentido, de combi- I
enquanto, no que .Iegue, a não Ser o absolulamente imprescindível no respectivo contexto, e nação de serviços} especificação de serviços; ou
iSlO só de passagem. limitamo-nos aqui a anteCIpar o seguinte' fJf3) em virtude da natureza do próprio serviço, tecnkamente especializado, de li:;
Com loda ralão se faz recentemente a distinção emre formas da economia e formas da modo que em determinados caS05 o produto final só pode ser conseguido mediante
pofílica econômica. As fases definidas por Sc'iMOUE', antecipadas por SCIlOMlE.G e desde então os serviços simultâneos ou sucessivos (dependendo do caso) de várias pessoas: espeda- li
modificadas: economia doméstica, economia de aldeia - incluindo-se aqui, como outra "etapa",
a economia de gestão patrimonial fundiária senhorial e de nobreza patrimonial -, economia
Jização de serviços. I':1
A oposição é mu itas vezes relativa, porém existente, em princípio, e historicamente I
urbana, economia lcrrimrial e economia nacional, eSlavam delerminadas, em sua terminologia,
importante.
pela natureza da associaçio reguladora da economia. Mas nada garante que a associações de J
extensão diferente correspondam formas diferentes de regulação econômica. A "política da eco-
Com respeito a ba: o caso aa existe lipicamente em economias domésticas primitivas, li
nomia terrimr;al", por exemplo, era em grau muito amplo apenas uma adoção das regulações
nas quais - presdncLndo-se da divi,ão típica do trabalho entre os sexos (sobre isso, ver capítulo
da economia urbana, e suas cLsposições "novas" não se distinguiam especJt'icamenle da polilica
"mercantHista" das associações esrarais especificamenfe patrimoniaIS, porém já relativamente V) - cada qual cuida de lodos os serviços, segundo a necessidade.
iI
l
,~
oi
;r-
-r

76 MAX'l'/EBER
:f ECONOMIA E SOCIEDADE 77

Típica para o caso f3f3 era a alternância, devida à mudança das estações, entre o traba lho
agrícola e o industrial, no inverno.
Para o caso yy, o trabalho agrícola acessório dos trabalhadores urbanos e os numerosoS
'~I'
'-' Exemplàs: lavadeiras, barbeiros, representações anisticas etc.

b) produzam ou transformem bens materiais, isto é, elaborem "matérias-primas".


"trabalhos acessórios" que são aceitos- até hoje, nOS escritórios modernos ~ porque as pessoas Duas transponem. Mais exatamente, segundo sejam
têm tempo ocioso. t a) serviços de aplicação ou
Com respeito a bf3: tipica para O caso aa é a estruturação das profissões na Idade Média:
uma imensa diversidade de ofícios, cada um especificado num só produto final, mas sem tomar r (3) serviços de produção ou
y) serviços de transporte, de bens_ A oposição é muito fluida.
em consideração que este exigia muitas vezes processos de trabalho tecnicamente heterogêneos,
ocorrendo, ponanto, combinação de serviços. O caso f3f3 abrange todo o desenvolvimento mo-
Exemplos de serviços de aplicação: pintores, decoradores, estucadores etc
derno do trabalho No entanto, do pomo de vista rigorosamente psicofisico, quase não existem
serviços, nem mesmo os extremamente"especializados", que sejam de falO absolutamente isola-
dos; sempre há neles um momento de especi{ioção de serviços, ainda que tenha deixado de Distinguem-se, além disso,
estar orientada pelo pnx.luto final, como ocorreu na Idade Média. 2. segundo o grau em que deixem os respectivos bens prontos para o consumo;
desde o produto bruto da agricultura ou mineração até o produto pronto para Oconsumo
o modo de dividir e coordenar os seJ:Viços (veja A acima) difere, além disso, e trat15portado ao lugar de consumo.
2 segundo a forma e~ que se coordenam os serviços de várias pessoas para
a obtenção de um resultado. E possível: 3. por fim, segundo utilizem
a )3cumulação de serviços: combinJção técnica de serviços humogêneos de várias a) "instalações" e, neste caso,
pessoas a fim de chegar ao resultado: aa)instalações de energia, quer dizer, meios para a obtenção de energia aplicável,
a) mediante serviços paralelamente organizados e tecnicamente independentes isto é,
unsdos outros, 1) energia natural (água, vento, fogo), ou
f3) mediante serviços (homogêneos) tecnicamente unidos num serviço global. 2) energia mecaniZada (sobretudo: de vapor, elétrica, magnética),
(3f3) oficinas especiais,
Como exemplos servem, para o caso a, ceifeiros ou empedradores que trabalham de b)meios de trabalho e, neste caso,
modo paralelo; para o caso f3, os serviços de transporte de COI055OS, ocorridos no antigo Egito aa) ferramentas,
em grande escala (milhares de trabalhadores forçados), atre!ando-se grande número de pessoas (3(3) aparelhos,
para realizarem o mesmo serviço (tração por cordas) Y'Y) máquinas,
eventualmente sÓ uma ou outra destas categorias de meios de obtenção, ou nenhuma
b) Coordenação de seJ:Viços: combinaçào técnica de serviços qualitativamente hc- delas. Denominamos "ferramentas" aqueles meios de trabalho cuja criação se orienta
lerogêneos, isto é, especializados (A 1 b {3, f3f3) para a obtenção de um resultado: pelas condições psicofísicas do trabalho manual humano; "aparelhos", aqueles em cujo
a) mediante serviços tecnicamente independentes uns dos outros; funcionamento se orientam os serviços humanos de "manejo"; "máquinas", os apare-
aa) realizados de modo simultâneo, isto é, paralelo; ou lhos mecanizados. ~ diferenças, muito fluidas, têm certa importância para a caracte-
f3f3) sucessivamente, de forma espeCIalizada; rização de determinados períodos da técnica industrial.
f3) mediante serviços especializados, tecnicamente unídm (tecnicamente compIe. A utilização de instalações de energia mecanizada e máquinas, característica dJ
mentares), rcali7.ados em atos simultâneos grande indústria moderna, está tecnicamente condicionada 3) pela capacidade de rendi-
mento e economia de esforço humano específicas e b) pela uniformidade e calcula-
]. Um exemplo muito simples para Ocaso (l, aa são os trabalhos de tecelagem em trama
c urdumc, além de muitns processos de trabalho semelhames, na verdade, rodo< aqueles que bilielade especificas do rendimento, qualitativa e quantitativamente. Por isso, SÓ é racio-
se realizam de modo paralelo e tecnicamente independenre, resultando num produto final co- nal quando há procura suficientemente ampla dos respectivos produtos, isto é, nas
mum. condições da economia de troca, quando há capacidade de compra suficientemente
2. Para o caso a, /38, o exemplo costumeiro e mais simples, que se encontra em lodas extensa para estes bens, ou seja, quando existe uma confirmação correspondente da
as indústrias, é a relação entre fiar, tecer, pisoar, tingir e aprestar. renda em dinheiro,
3. Típicas para o casn /3, desde o segurar de um pedaço de ferro pelo ajudame e a manejada
pelo ferreiro, são todJs as formas de trabalhar "de mão em mão", nas fábricas modernas. Fora Naturalmente, não poderia ser estabelecida aqui uma teoria do desenvolvimento da técnica
da esfera de fábrica, o conj unto de uma orquestra ou de uma companhia de teatro constituem e economia das ferramentas e máquinas, nem em seus aspectos mais rudimentares. Por "apare-
um tipo máximo lhos" entendemos aqui Instrumentos de trabafuo como o tear movido a pedal e numerosos
outros, nos quais já se manifesta a autonomia da técnka mecânica em face do organismo humano
§ 17 (AindJ I, cf § 16) (ou animal,. em outros casos) e sem a existência dos quais (neles se incluem, particularmente,
Tecnicamente, as formas de articulação de serviços distinguem-se, além disso, as diversas "instalações extratlvas" da minetação)não teriam surgido as máquinas em suas funções
B. quanto à extensão e ao modo em que se combinam com meios de obtenção amais, (Al; "invenções" de Leonardo eram "aparefuos".)
materiais complemenlJres. Em primeiro lugar
1. segundo § 18. Il. Do ponto de vista social [§ 15, tópico 2], as formas da distribuição de
a) ofereçam serviços não-produtivos; serviços distinguem-se:
78 MAXWEllER ECONOMIA E SOCIEDADE 79

A. segundo o modo em que estejam distribuídos serviços qualitativamente díver. o tipo rara a 2 /3, no caso 11, esli representado por todos os exemplos de especialização
50s ou, particularmente, complementares, entre economias autocéfalas e (mais ou me- de serviços imposta, em várias pequenas indústrias muito antigas. Na indústria metalúrgica de
nos) autônomas; e, em seguim, do ponto de vista econômico, segundo estas sejam Solingen existia originalmente especialização de .serviços paClUada entre os participantes, a qual
a) gestões patrimoniais, ou b) empreendimentos aquisitivos. Pode haver; SÓ mais tarde assumiu caráter de índústria domiciliar, sob direção senhorial.
1. Econonúa unitária com especialização (ou especificação) e coordenação de Tipos para o caso a 2/31 (associação apenas reguladora)sào todas as regulações do comércio
lU aldeia e na cidade, na medida em que interferiam materialmente nas formas da obten~'ão
serviços puramente interna, isto é, lotalmente hetercx:éfala e heterônoma e de natureza
de bem.
puramente técnica (distribuição de serviços m economia unitária) Do ponto de vista O caso 2 b é o da moderna economia de troca.
econômico, a economia unitária pode ser: Em pormenores, acrescentaremos o seguinte:
a) gestão patrimonial, b) empresa' aquisitiva. 2. A5 ordens das associações do caso a 2 a I, enquanto referentes ã economia de gestão
patrimonial, estão orientadas de um modo partiailar: pelas necessidades previstas dos partici'
Uma ges~o patrimonial unitária seria, na maior escala possível, uma economia nacional pantes individuais e não pelos fins de gestão patrimortial da assodar;:io (de aldeia) k; obrigações
CO,:,~'rtista e, na m.enor, uma economia familiar primitiva, a qual abrange todos os serviços de serviços especificadas que assim se orientam denominamos liturgias naturais demiúrgicas,
dingldos ã obtençao de bens, ou a grande maioria destes (economia doméstica fechada} O e esta forma de providência chamamos satisfação de necessidades demiúrgica. Trata-se sempre
ripa do ·empreendimento aquisitivo com espedalízação e coordenação internas de serviços (;, de regulações - por uma associação - da distribuição e ~ eventualmente - coordenação
naturalrr'enre, o empreendimento combinado gigante, na medida em que aparece em face de de trabalho.
terceiros, no setor comercial, exclusivamente como unidade. Estes dois extremos iniciam e con- Não empregamos, no entamo, esta designação quandO (casos 2 a 11) a associaçIo (seja
cluem (por enquanto) o desenvolvimento das "economias unitárias" autônomas. esta senhorial Ou cooperaEivista) tem economia própria, em interesse da qual se distribuem servi-
ços especializados. Nestes casos, os tipos estão representados pelas ordens referentes a prestações
2. Ou existe distribuição de serviços entre economias autocéfalas. Esta pode ser: de serviços ou em espécie, especializadas ou especificadas, vigentes em grandes propriedades
a) especialização ou especificação de serviços entre econonúas individuais heterô- feudais, senhorios territoriais e outras gesrões patrimoniais em grande escala. Mas também os
nomas, porém. autocéfalas, as quais se orientam por determinada ordem pactuada ou selViços repartidos por príncipes ou associações poliEicas, comunais ou outras, em primeiro
forçadamente Imposta. Esta ordem, por sua vez, pode estar materialmente orientada lugar nao economicamente orientadas, em favor da gestJo patrimonial senhorial Ou da associação.
1) pelas necessidades de uma economia dominante, isto é, A estas obrigaçôe5 de fornecimento de bens ou serviços, qualitativamente especificados, por
a) da gestãopatrimonial de um senhor (distribuição de serviços do tipo do oikos), parte de lavradores, artesãos ou comerciantes, denominamos liturgias naturais de oikos, quando
ou o recebedor é uma grande gestão patrimortial pessoal; quando o recebedor é a gestão patrimonial
de uma associação, denominamos liturgias 1J3turais de assodaçáo; ao principia desta forma de
{3) de uma economia aquisitiva senhorial;
provisão da gestão patrimonial de uma associação econômica denominamos satisfação litúrgica
2) pelas necessidades dos membros de uma associação cooperativista (distribuição de necessidades. Esta forma de satisfação de necessidades desempenhou historicamente um papel
de serviços da economia de associações) e, neste caso, do ponto de vista econômico, extraordinariamente importante, ao qual voltaremos em várias ocasiôes. Em associaçõei políticas,
ou ocupou o lugar das modernas "contribuiçôes fiscais", em associações econômicas significou
a) segundo os prinCÍpios da economia de gestão patrimonial, ou uma "descentralização" das grandes gestões patrimoniais em virtude da repartição da satisfação
fJ) segundo os princípios da economia aquisitiva. de suas necessidades entre lavradores obrigados a fornecer serviços ou hens em espécie, artesãos

~
A associação, por sua vez, pode ser, em todos estes casos: em serviço da gestão dom(;stica e outros obrigados a prestar serviços de todas as espécies, os
I) associação apenas reguladora da economia (materialmente) ou, quais não foram mais mantidos e empregados na gesrão comum, mas tinham suas gestões pró-
11) ao mesmo tempo, associação econômica. prias, permanecendo, porém, dependentes da grande gestão patrimonial em villude de suas 1
Ao lado de tudo isto existe
b) a especialização de serviços da economia de trOGi, entre economias autocéfalas
obrigações pa ra com a mesma. Para a grande gestão patrimonial da Antiguidade, RoDBERTUS foi
o primeiro que empregou o termo oikos, o qual - segundo ele - se caracteriza pela autarquia
- em princípio - da satisfação de necessidades por membros da gestão Ou dependentes da
I
~
e autônomas, as qU,aisse orientam materialmente só pela situação de interesses e, portan- mesma, os quais dispõem, sem troca alguma, dos meios de obtenção materiais. De fato, as I

to, formalmente so pela ordem estabelecida por urna associação ordenadora (capítulo
11, § 5, d)
grandes gestões patrimoniais da Antiguidade, senhoriais e, mais ainda, as principescas (sobretudo,
as do "Novo Império", no Egito) representam, ainda que em grau muito diverso (raramente
Il
I. Tipo para o caso I: associação apenas reguladora da economia, com caráter de 2 (asso-
em forma pura), lipos de gestões cuja satisfação das necessidades se reparte entre dependentes,
obrigados a delerminadas prestações (de ser;'iços ou em espécie} O mesmo fenômeno se encon-
I1

;1
ciação cooperativista) e a (gestão patrimonial} o artesanato de aldeia, na India (escablishment), tra, em determinadas épocas, na China e na lndia e, em extensão menor, em nossa Idade Média, 'I
I

para o caso li: associação econômica, com Clráter de I (gestão patrimonial senhoriall é a repar-
lição da satisfação de necessidades da gestão patrimonial de príncipes, senhores territoriais ou
começando com o Capitulare de vjJJis; a troca externa mo faltava, na maioria das vezes, na li
grande gestão patrimonial, tendo, porém, caráter de troca para fins de provimento. Tampouco
feudais (também, no caso de principes, de necessidades poUticas) entre as economJas individuais faltavam transações efetuadas em dinheiro; mas desempenhavam Um papel secundirio na cober- I!
dos súditos, vassalos, servos, ou entre escravos, pequenos lavradores e artesãos de aldeia demiúr- IUra de necessidades e estavam vinculadas à tradição. Também nas economias obrigadas a presta-
gicos (veja adiante~ fenômeno que se encontra, em forma primitiva, no mundo inteiro. Car:iter çôes litúrgicas não faltava a troca externa. Mas o decisivo é que, principalmente, a satisfação ,I
apenas regulador da economia (I) tinham, por exemplo. freqüentemente os serviços artesanais de necessidades ocorria mediante os bens em espéde recebidos como remuneração pelos serviços ,I
exigidos, no caso I, em virtude do direito de proscrição do senhor territorial, e, no caso 2, repartidos: isto (;, mediante emolumentos em espécie e prebendas, na forma de terras. Natural- I·ir
em viliUde do direito de proscrição das cidades (na medida em que, como freqüentemente mente, as transições são fluidas. Mas sempre se trata de uma regulação, por parte de uma 'I
ocorreu, nJo perseguiram fins mareriais, mas apenas fiscais} No caso de economia aquisitiva
(a I fl} repartição de serviços industriais caseiros entre gestões patrimoniais individuais.
associação econômica, da orientação dos serviços em relação à distribuição e coordenação
do trabalho. i
f
I
i
i"
80 MAXWEBER ECONOMIA E SOCIEDADE 81

3. Para o caso a 2 I (associação reguladora da economia), são tipos bastante puros do Exemplos de 1 a a são para o caso L artesãos de aldeia; para o caso li: direitos artesanais
caso fJ (orientação pelos princípios da economia aquisitiva) aquelas regulações econômicas exis- "reais", na Idade Média; de I a (3, p-1ra o caSo I: todos os "direitos a um cargo"; de 1 a 1,
tentes nas comunas ocidentais da Idade Média, bem como nas corporações e castas da China casos I e 11; certos direitos artesanais na Idade Média, mas sobretudo na Índia, e "cargos" medie-
e da índia, que prescreviam o número e a natureza dos postos de mestre e a técnica do trabaUlo, vais de todas as espécies,
portanto, o modo de orientação do trabalho nas profissões artesanais. Mas isto só na medida
em que o sentido não era a satisfação de necessidades de consumo pelos serviços dos artesãos, Segunda possibilidade:
mas, sim - o que nem sempre, mas freqüentemente foi o caso - a garantia das possíbilidades
aquisilivas dos artesãos: especialmente a "manutenção" da qualidade de serviço e a repartição
b) apropriação da utilização da força de trabalho pelo proprierário dos trabalha-
da clientela. Como toda regulação da economia, esta também sisníficou, naturalmente, uma dores ("trabalho dependente"}.
li mitaçào da liberdade de mercado e, portanto, da orientação autônoma pelos princípios da a) livre, isto é, hereditária e alienável (escravidão total), ou
economia aquisitiva, por parte dos artesãos: estava orientada pela garantia do "sustemo" para {J) hereditária, mas nào alienável ou não livremente alienável, por exemplo, em
os empreendimentos artesanais existentes e, portanto, internamente afim, em seus aspectos mate- conjunto com os meios de trabalho materiais - particularmente o solo (servidão, sujei-
riais, com a orientação pelos princípios da economia de gestão patrimonial, não obstante sua ção hereditária).
forma de empreendimento aquisilivo
4, Tipos para o caso a 2 11 fJ, além dos tipos puros da indústria caseira já mencionados, A apropriação da utilização do trabalho por um senhor pode estar materialmente limitada
são sobn~tudo as gtandes quintas no leste de nosso pais, com as pequenas economias de lavradores (b, {3; servidão} Nesse caso, o trabalhador não pode abandonar seu posto por decisão unílaleral
dependentes, orientadas pelas ordens estabelecidas pela quinta, e também as do nordeste, com nem ser despedido por decisão uni1ater.1 do senhor.
sistema semelliante. Tanto a economia da grande quinta quanto a da indústria alseira são em-
preendimentos aquisitivos do senhor da quinta ou do comerciante empresário; os empreen- Essa apropriação da utilízaçào do trabalho pode ser aproveitada, pelo proprietário
dimentos econômicos dos lavradores dependentes ou dos trabalhadores a domicílio orientam-se, a) no interesse da própria gestão patrimonial e, nesse caso,
no que se refere à forma de distribuição e coordenação da, serviços que lhes foi imposta, primor- a) como fonte de rendas em espécie ou em dinheiro, ou
dialmente pelas obrigações de lrabalho que lhes impõem os regulamemos de lrabalho da quinta
ou derivadas da sua siluação de dependência de trabalhadores a domicilio. Em todos os demais
fJ) como força de trabalho nos serviços da gestão patrimonial (escravos da casa
aspectos são gestões patrimoniais, Sua atividade aquisitiva não é aUlônoma, mas heterônoma ou servos);
em favor do empreendimento aquisitivo do senhor da quinta ou do comerciante empresário. b) no imeresse de um empreendimento aquisitivo e, nesse caso,
Dependendo do grau de uniformização dessa orientação, a siluação pode aproximar-se da distri· a) como aa) fornecedores de mercadorias, ou f3f3) elaboradores, para a venda,
buição de serviços puramente técnica dentro da mesma empresa, como ocorre na "fábrica". de matéria· prima fomecida (indústria domiciliar dependente),
f3) como força de trabalho no próprio empreendimento (empreendimento com
§ 19, (Ainda lI, d, § 18,) Do ponto de vista social, as formas de distribuição trabalho de escravos ou servos).
de serviços se distinguem, além disso,
B. segundo o modo em que estào apropriadas as oportunidades que existem na Por "proprietário" entendemos aqui e no que segue sempre alguém que, como tal, não
forma de remuneração por delerminados serviços. Objetos da apropriação podem ser; participa necessariamente no processo de trabalho, seja como diretor seja como trabalha~or;
I, oportunidades de utilização de serviços; Como proprietário, pode ser o .. diretor", mas não necessariamenle e freqüentemente nao e
2, meios de obtenção materiais; ocaso
3 oportunidades de lucro em virtude de serviços de gerência. A utilização de escravos e servos (dependentes de todas as espécies) "para fins de gestão
patrirnonia I" , não como lraballiadores num empreendimento aquisHivo mas, como fonte de renda,
era típica na Antiguidade e nos inicios da Idade Média. Documentos cunelformes revelam, por
Sobre o conceito soáológíco de "apropriaçi:o" veja acima, capitulo I, § 10,
exemplo, a existência de escravos de um príncipe persa que foram instruídos em determinados
ofídos, talvez para servirem de força de trabalho na própria gestão patrimonial, ralvez p~ra
Com respeito a 1) apropriação de oportunidades de utilização de trabalho, neste
trabalharem para uma clientela, de forrrul materialmente livre e na base de certas prestaçoes
caso é possível:
ao proprietário (em grego, à1TOIpOplÍ, em russo obrok, em alemão, Halszins ou Leibzlfls} Esse
L que o serviço seja prestado a um destinatário individual (senhor) ou a uma foi quase sempre o caso com os escravos helênicos (houve, porém, exceções), em Roma, a
associação, economia independente com pecullum ou merx peculiarls (e, naturalmeme, tributos pagos ao
II que o serviço se venda no mercado. senhor) cristalizou-se em instituições jurídicas. Na Idade Média, a propriedade de servos (t.eib--
Em ambos os casos existem possibilidades, radicalmente opostas entre si; heITschafr)assumiu, em grande parte - regularmente, por exemplo, no oeste e sul da Alemanha
-, o caráter de um simples direito a certas rendas pagas por pessoas q~c, de resto, eram qU":5e
Primeira possibilidade: independentes; na Rússia, foi muito freqüente (ainda que não constitutsse a regra) a ItrrlJta~o
a) apropriação monopólica das oportunidades de utilízação pelo próprio traba- efetiva do senhor à obtenção do obrok por parte de servOS que, ainda que em precána SltuaçaO
lhador ('trabalho livre, denrro dos limites da corporação"}, esta pode ser: jurídica, estavam livres para mudar de domicílio,
a) hereditária e alienável, ou A utilização de trabalhadores dependentes para fins "aquisilivos" assumiu, especialmente
{3) pessoal e inalienável, ou nas indústrias domiciliares dos senhores territoriais (mas também, provavelmente, em algumas
y) hereditária, mas inalienável principescas, por exemplo, dos faraósl as seguintes fonnas: . .
a) indústria dependente com base em fomecimenro: entrega de bens em espécIe CUia
e em todos estes casos pode ter este carát<:'r ou incondicionalmente ou na base de matéria-prima (fibra de linho, por exemplo) foi produzida e elaborada pelos próprtos traballia-
determinadas condíções materiais. dores Oavradores servos), ou
82 MAXWEBER
ECONOMIA E SOCIEDADE 83
b) indústria dependente com base em elaboração: a elaboração de material fornecido Aqui ca~ toda apropriação por uma alS(a de trabalhadores ou por uma ".c~munidade
pelo senhor. Possivelmente, o produto, pelo menos em pane, foi convertido em dInheiro pelo mineira" constituída por trabalhadores (como ocorreu na mineração da Idade Media) Ou po,~
senhor. Em muitos caS05 (assim na Antiguidade) essa valorização no mercado se manteve nos uma associação de "ministeriais" sujeita ao direito da cone ou pelos "jardineiros debulhador,es.
limites de atos OGIsionais - o que não foi o caso nos inícios da Idade Moderna, particularmente
de uma associação rural. Em infinitas gradações, esta forma de apropriaçâo atravessa a hl~lOna
nas regloes fronteiriças eslavo-germânicas: foi sobretudo aqui (mas não exclusivamente) que social de todos os paL,es. A segunda forma, também muito divulgada, ganhou muita atuaIJdade
surgiram indústrias domiciliares mantidas por senhores de dependentes e servos. Agestão aquisi-
tiva do senhor pOde tornar-se empresa contínua tanto na forma de em virtude dos cJosed shops dos sindicatos e, sobretudo, em Virtude dos "conselhoõ de fábrica"
(Berriebsrfite).
a) trabaUlO dependente com base no domicílio, quanto na de
b) trabalho dependente com base na oDeina.
Ambas as formas encontram-se - a última como uma das fonnas diversas do ergasrerion ~, Toda apropriação de postos de trabalho em empreendimentos aquisitivos, por
na Antiguidade, nas ofiCinas dos faraós e dos templos, e também (segundo provam os frescos pal1e dos trabalhadores, bem como, ao contrário, a apropriação da utilização de traha-
de vários túmulos) naquelas de grandes senhores de servos, no Oriente; além disso, aparecem lhadores ("dependentes") pelo proprietário, significa uma limitação do livre recruta-
na Grécia helénica (Atenas: Demóstenes), nas oficinas coordenadas às grandes quintas romanas mento da força de trabalho e, portanto, da seleção segundo o máximo de rendimento
(d. as ('''Posições de GC"'ME'US), em Bizâncio, no gemlium (=gynaikeion carolíngio e, na Idade técnico dos trabalhadores e, por conseguinte, uma limitação da racionalização formal
Moderna, por exemplo, na fábrica russa que trabalha com servos (cf. o livro de M. v. TVGAN-B.-
RA.'O'-'KI, sobre a fábrica russa (1900j)
da gestão econômica. Fomenta materialmente a restrição da racionalidade técnica:
1) em caso de apropriação por um proprieririo da utilização dos produtos de
Terceira possibilidade: trabalho para fins aquisitivos,
c) Ausência de tada apropriação (lrabalho formalmente "livre", neste sentido a) pela tendência a estabelecer determinados contingentes de trabalho a serem
da pabvra), trabalho em virtude de um COntrato voluntário, por ambas as partes. O realizados (orientados pela tradição ou convenção ou pelo contrato}.
contrato, no entanto, pode estar materialmente regulado de muítas maneíras por ordens b) pela diminuição ou - em caso de livre apropriação dos trabalhadores pelo
forçadamente impostas pela tradição ou pela leí, referentes às condíçóes de trabalho. proprietário (escravidão toral) - elUinção do interesse próprio dos trabalhadores no
O trabalho livre na hase de contratos pode ser e é utilizado tipicamente máximo de rendimento téalico;
a) para fins de gestão patrimonial: lI) em caso de apropriação pelos trabalhadores: por conflitos entre o ~nteresse
a) como trabalho ocasional (chamado por BÚCHER'Lohnwerk" [trabalho assala-
próprio dos trabalhadores em conserva: a situação. de vida, tradicional e o Interesse
dado]); de quem os utiliza a) em forçá-los ao máXimo de rendImento tecolCO o~ b) em empregar
em) na própria unidade doméstica do empregador; meios técnicos em substituição a seu trabalho. Por ISSO, para o senhor e sempre tntere5·
j3(3) na unidade doméstica do trabalhador; (chamado por 8ÚCHE' "HeimwetX" rtra- sante a transformação numa simples fonte de rend3. Quando as der,nais circ~t.JStâncias
balho domiciliar]); são propícias, uma apropriação da mílização dos produtos para fins aqulslllvOS por
13) como trabalho permanente: parte dos trabalhadores favorece, ponanto, a expropriação, mais ou menos total, das
aa) na própria urudade doméstica do empregador (criado alugado), funções de direçio do proprietirio. Mas favorece também, em regra: o desenvo~v~mento
j3f3) na unídade doméstica do trabalhador (típico: o colono}. de dependência material, por parte dos t~aballiadores, e:n relaçao a~ partiCIpantes
b) para fins aquisitivos e, neste caso, na troca que lhes são superiores (os comercIantes empresáriOS), na funçao de duetores.
a) como trabalho ocasional, ou
(3) como trabalho permanente e, em ambos os casos, também unidade doméstica 1. As duas direções formalmente opostas da apropriação - a dos POStOS de trabalho pelos
1) na unidade doméstica do trabalhador (trabalho domiciliar), ou trabalhadores e a dos trabalhadores por um proprietário -têm, na prática, conseqüêncIas muito
parecidas. Nisto não há nada estranho. Em primeiro lugar, as duas estão em regra forma/mente
2) no empreendimento fechado do proprietário (trabalhadores de quinta ou ofici- vinculadas entre si. Isto ocorre quando a apropriação dos trabalhadores por um se~~r COinCide
na, e panicularmente de fábrica)
com a apropriação das oportunidades de aquisição dos trabalhadores por uma a.5sooaçao fechada
de trabalhadores, como, por exemplo, no caso da associação sujeita ao direito da cone. Como
No caso a, em virtude do contrato de rrabalho, o trabalhador esú a serviço de um consu- é natural, ocorre neste caso que as possibilídades de utilizar os trabalhadores se lO~nam cada
mido. que "dirige" o trabalho; no segundo caso (b), está a serviço de um empresirio com vez mais estereotipadas e seu rendimento se mede por um sistema de cont!ngen~es, dimmumdo
intenções aquisitivas: diferença que, apesar de observar a mesma forma iuridica, é fundamental o Interesse próprio deles nesse rendimento e surgindo, po~amo, a resIStênCia et:lcaZ desses
do pomo de vista econõmico Colonos podem ser ambas as coisas, sendo, porém, ripicamente trabalhadores contra .. inovações" técnicas de todas as espéCIes. Mas mesmo que nao seja .este
trabalhadores de Oik05.
o caso, a apropriação dos trabalhadores por um proprietário significa de fato, entre outras C~lsaS,
que o último se vê obrigado a utilizar predsamente estes trabalhadores, uma vez que ~o os
Quarta possibílidade: escolhe num processo de seJeção, como ocorre nas fábncas modernas, mas tem de acelú-los
cf) Por fim, a apropriação das opol1unidadr..'5 de utilização do trabalho pode reali- sem seleção alguma. Isto se aplica particularment~ ao traba!h0 de escravos. Tc:>da lentatrta de
7.ar-se por pane de uma associação detrahalhadores, sem que eXÍSta apropriação alguma forçar OS lCabalhadores apropriados a prestar servIÇOS que 000 selam tradicJon~s tr~peça numa
ou, pelo menos, apropriação livre por parte dos traballudores individuais, e isto obstruçào tradicionalista e só poderia ser reali2:lda coanvarnente .mediante a ap~lcaçao d: meios
a) por fechamento absoluto ou relativo para o exterior; bastante brutais e, normalmente, prejudiciais ao interesse pr6pno do senhor, !á que poem em
f3) por eliminação ou limitação da possibilidade de o diretor privar os trabalha- perigo os fundamentos tradicionais de sua posição de senhor. Por isso, os serv!ÇOS de trabalha-
dores de SilllS oporrunidades de aquisição pelo trabalho sem consultá-los. dores apropriados mostram quase por toda pane a tendênda ao conungenclarnento, e onde
este foi quebrantado pelo poder dos senhores (como ocorreu partirulannente na Europa Orientai
MAXWEBER ECONOMIA E SOCIEDADE 85
84
nos inícios da Idade Moderna) a ausência de seleção e de interesse e risco próprios, por parte que essa troca se transforme numa troca regular para fins de aquisição. Nesse caso, cosrumam
dos trabalhadores apropriados, obstruiu o desenvolvimento até o ótimo técníco. No caso de desenvolver.se indústrias típicas" de tribo" com especialização e rroca interétn'cas - uma vez
apropriação dos postOS de trabalho pelos (rabalh3dores, houve o mesmo resultado, ainda que que as possibilidades de venda se baseiam em monopólios e, na maioria dos casos, em segredos
mais rapIdamente herdados -, as quais mais tarde se tornam indústrias itinerantes e de pirias ou (quando os
2. O caSO indicado na frase anterior é típico para o desenvolvimento nos inícios da Idade artesãos se reúnefl,' numa associ.3ção polílica) castas (~bre a base de separação rirual interétnica),
Média (séculos X e XIII) Os Beunden [explorações agrárias senhoriais (N. T.)] da época carolíngia como ocorreu na India. O CaSO /3/3 é o das "cooperativas de produção". Economias domésticas
e rodas as demais tentativas de "empreendimentos agrícolas em grande escala" diminuíram e podem aproximar·se dele quando penetra nelas o cálculo em dinheiro. Fora disso, como associa·
desapareceram. A renoo do proprietário do solo e do senhor feudal acabou estereotipada, e ção de trabalhadores, é um fenômeno ocasional. Em forma típica, apresenta-se num caso Cerla-
isto em fÚvel muito baixo; o produto em espécie passou em proporção çrescente (agricultura, mente importante: o das minerações nos inícios da Idade Média.
mineração) para as mãos dos trabalhadores e os rendimentos em dinheiro (artesanato), quase
completamente. As "circunstâncias favorecedoras" desse desenvolvimento, que s6 se deu desta Com respeitO a b}. A apropriação por proprietários ou associações dos mesmos
forma no Ocidente, foram as seguintes: a impossibilidade de utilizar os trabalhadores de outro
só pode significar aqui - uma vez que já falamos sobre a apropriação por uma associa·
mexlo que como fonte de renda, devida: 1) à absorção da camada de proprietários por interesses
politico·militares e 2) à falta de um quadro ariministrarivo competente, em conexão com 3) a ção de trabalhadores - a expropriação dos trabalhadores dos meios de obtenção, não
liberd;,de dos trabalhadores, existente de fato e dificilmente obstávd, de mudar para concorrentes apenas dos trabalhadores individuais como de lOdos ele5 em conjunto. Ne5te caso,
paniculares, também interessados na apropriação deles e 4) as numerosas oportunidades de podem ser apropriados
novos arroteamentos, exploração de novas minas ou descoberta de novos mercados locais, em 1) pel05 proprietários, todos ou alguns ou um dos seguintes objetos
conexão com 5) a tradição técnica da Antiguidade. Quanto mais a apropriação dos trabalhadores a) o solo (inclusive as águas),
foi substituída pela apropriação das possibilidades de aquisição pelos trabalhadores (tipos clássi· [3) as riquezas subterrâneas,
cos: a mmeração e as corporações inglesas) mais progrediu, em conseqüência, a expropriação 'Y) as fontes de energia,
dos proprietários, que primeiro se tornaram puros recebedores de rendas (culminando, como ~) os locais de ,rabalho,
já era freqüente naquela época, na dispensa da obrigação de renda Ou no livramento dela, e) os meios de trabalho (ferramentas, aparelhos, máquinas),
por pane dos trabalhadores: (" o ar da cidade liberta"), tamo mais ganhou terreno, quase irnediata~
mente, a diferenciação das oportunidades de lucro no mercado, dentro do círculo próprio dos
O as matérias-primas.
trabalhadores (e, a partir de fora, pelos comerciantes) Todos eles podem estar apropriados, no caso indil'idual, nas mãos de uma ou
de várias pessoas
§ 20 (Ainda II B, cf §§ 18, 19.) Com respeito a 2) apropriação dos meios de Os proprietários podem utilizar os meio.1 de obtenção por eles apropriados
obrençio mHeriais, complementares do trabalho, esta pode ser: apropriação a) para fins de gestão patrimonial,
a) pelos trabalhadores, individualmente ou por associações dos mesmos, ou aa) como meios para a cobertura de necessídades próprias,
b) pelos proprietários, ou f3(3) como fontes de renda, emprestando· os, e isto
c) por associações reguladoras de terceiros. I) para utilização em outra gestão patrimonial,
Com respeito a a) apropriação pelos trabalhadores, esta pode ser lI) para ulilização como meio de aquisição e, nesse caso,
a) pelos trabalhadores individuais que então estão" de posse" dos meios de obten- aaa) num empreendimento aquisitivo sem cálculo de capital,
ção materiais, f3f3f3) como bens de capital (num empreendimento alheio) e, por fim,
(3) por uma a.ssociação de trabalhadores (companheiros), total ou relativamente [3) como bem de capital próprios (no empteendimento próprio).
fechada, de mexia que não é o trabalhador individual que está de posse dos meios É possível, além disso,
de obtenção materiais, mas sim uma associação de tais indivíduos. 2) apropriação por uma associação econômica, para cuja conduta existem as mes·
A associação pexie ter gestão económica mas alternativas que no caso 1.
aa) de economia unitária (comunista), Com respeilO a c) por fim, é possível
f3(3) com apropriação de panes (cooperativista). 3) apropriação por uma associação reguladora da economia que não utili7.a ela
Em todos estes casos, a apropriação pode ser aproveitada própria os meiOS de obtenção como bens de capital nem faz deles uma fome ele renda,
1) para fins de gestão patrimonial, ou mas os oferece aos participantes.
2) para fins de aquisição.
I. A aprupriação do solo por economias individuais ocorre primordialmente
o caso (.lpode significar absoluta liberdade de troca dos pequenos lavradores, artesãos a) pelo tempo entre o plantiO e a colheita,
("Pre;"werker" [trabalhadores por preço] na terminologia de Bücher), barqueiros Ou carroceiros. b) quando o cultivo exige med,das preparatórias, iSlO é,
Ou existem entre eles associaçôes reguladoras da economia; veja adiante. O caso {J abrange a) arrOleamenlO ou
fenômenos muito heterogêneos, segundo exista gestão econômica patrimonial ou aquisitiva. A fl) irrigação
economia domésrica - que, em prindpio, não é necessariamente comunísta, nem em suas"ori- pelo tempo em que haja cultivo continuo.
gens" nem efetivamente (veja o capItulo V)- pode esurorientada puramente pelas necessidades Só mais tarde, quando se faz semir a escassez de lerras, encontramos
próprias. Ou ela pode - no inJcio, ocasionalmente - desprender-se, numa troca orientada c) encerramento da admissão ao cultivo do solo e ao usufruto de pastos C nOrt"t:l". .11 .... I
pel.a.~ necessidades, dos excedentes que prexluziu monopolicamente, em virtude de sua lqcalizaçãO de contingenciamemo da utihzação dos mesmos para os membros da comunidade colo. tll:" I. " .•
privilegiada (matérias-primas específicas)'Ou em sua habilidade especifica adquirida. E possível O sujeita da apropriação que então ocorre pode ser:

,.
I
}
-,I
86 MAXWEBER ECONOMIA E SOCIEDADE K7
-I.
1) uma associação - de tamanho diferente, dependendo da natureza da UtiU7-'lçãO (para Os senhores fundiários Ou titulares de regalías podiam Ou explorar as jazidas aprq)rl~,L"
nonas, prados, terras de lavoura, paStoS, florestas: associações com tamanho crescente, desde sob direção própria (o que OCOrreu ocaSionalmente na Idade Média) ou utilí7.á-las com" runl<'
a família individual até a "tribo"} de renda, arrendando-as
Típicas são ,,) a uma associação de trabalhadores (comunidade mineira ~ Berggemeinde) - caso
:I)a associaçãO de clã (ou ao lado desta) d-ou
b) a associação de vizinhos (normalmente associação de aldeia) para as terras de lavoura, (3) a um descobridor qualquer (ou pertencente a determinado circulo de pessoas} (Assim
os prados e os pastos, ocorreu nas "minas livres" na Idade Média, origem da liberdade de mineração,)
c) a associaç:1o da comarca, muito mais ampla, de caráter e tamanho diversos, para as As aSsociações de trabalhadores assumiram, na Idade Média, lipicamente a forma de coope-
florestas, rativas de participação, com obrigaçiio de extração (em relação aos senhores de minas interessados
d) as economias familiares para a horta e a própria casa, com cefeiros, estábulos etc, na renda ou aos companheiros solidariamente responsáveis) e direito :l panicipação no produto,
com participação nas terras de lavoura e pastos, Essa participação pode manifestar-se e, mais tarde, a de "cooperativas" puramente constituídas por proprietários, com participação
"') na forma de equiparação empirica, quando se trata de cultivo de novas terras na agri- no produto e nas perdas, Os senhores das minas foram progressivamente expropriados em favor
cultura 'lmbulante, dos trabalhadores, e estes, por sua vez, com a necessidade Crescente de instalações, por síndicalOs
IJ) na forma de distribuição racional, sistemática, na agricultura se demária, sendo esta, em posse de bens de capital, de modo que, como forma final da apropriação, resultou o "sindi,
em regn, conseqüência cato" capitalista (ou seja, a socied3de por ações}
",a) de exigências fiscais, com responsabilidade solidária dos membros da associação de 3 Os meios de obtenção com caráter de "instalações" [§ 17 P 77] (I instalações de energia,
aldeia, ou especialmente movidas por água, "moinhos" para fins diversos, de todas as espécies e 2, oficinas,
f3f3) de exigências políticas de igualdade dos mesmos, eventualmente com aparelhos fixamente instalados) foram apropriados, nos tempos passados,
Portadores do (uncionamentosão notmalmente as comunidades domésticas (sobre o desen- particularmente na Idade Média, com bastame regularidade
a) por príncipes e senhores fundiáriOS (caso 1),
volvimento destas, veja o capitulo V}
b) por cidades (caso I ou 2),
O SUjeito da apropriação que segue à colonização pode também sef; c) por associações de trabalhadores (corporações, sindicatos, caso 2), sem constituição
2) um senhor fundiário, prescindindo-se rui questão (da qual trataremos mais tarde) de de uma empresa unitária
Sê es.'" posiç<lo senhorial se origina numa posiçào proeminente dentro do clã, na dignidade Ao contririo, nos casos a e b OCOrre emão aproveitamento como fonte de renda, permitin
c1e chefe de tribo com direito a prestações de serviços pessoais (çapítuJo V), em disposições do-se a utilização por remuneração e, mUitas vezes. forçando-a em virtude da situação monopó-
coativas de natureza fiscal ou militar ou no cultivo ou na irrigação sistemática de novas terras, lica A utilização das instalações se realizava por turno ou segundo a necessidade, em determinadas
A pmpriedade senhorial pode ser utilizad", circunstâncias, era, por sua vez, monopólio de Uma associação reguladora, Fornos de pão, moi-
:J)com trabalho dependente (de escravos ou servos), nhos de rodas as espécies (de cereais e óieo), pi5ões, amoJadeíras, matadouros, tinturarias, bran-
I) para fins de gestao ratrimoniaJ quearias (por exemplo, de mosteiros), forjas (estas, regularmente, para arrendamento a empre-
a) por prestações em espécie, sas), além de cervejarias, destilarias e outras instalaçóes. particularmente também estaleiros (na
IJ} por prestações de serviços, flama, propriedade das cidades), e pOSlOS de venda de todas as espécies, foram assim explorados
2) para fins de aquisição, pelos proprierários (indivíduos ou associações, paniculumente cidades~ de modo pré·capitalista,
comu plamação, permitindo- se aos trabalhadores sua utilização por remuneração e constituindo essas instalações,
h) com trabalho livre portamo, patrimônio dos proprietários e não bens de capital. A organização e exploração para
J) para fins de gestão p3trimonhl, como senhorio de renda, fins de gestão parrimonial daquelas fontes de renda, por proprietários individuais ou associações,
Cla} por rendas em espécie (participaç<lo dos arrendatários no cultivo ou prestações em e também a obtenção de bens por coopera,ivas de produção, precedeu à tramformação de
,,,[""cie por porte dos mesmos~ empresas particulares em "capital fixo", Os usuários das instalações, por sua vez, urilizavamnas,
fJf3) por rendas em dinheiro, pagas pelos arrendatários, Em ambos os casos em parte, para fins de gestão patrimonial (fornos de pão, além de cervelarias e destilarias).
",aa) com recursos próprios (arrendatários com gestio aquisirória) ou em parte, para fins aquisitivos,
fJf3IJ) com recursos senhonais (colonos), 4 Para a navegação marítima, nos tempos passados, era típica a apropriação do navio
11) para fins aqUisitivos: como grande empresa racionaL por vários proprietáriOS, os quai." por sua vez, se afastaram progressivamente dos trabalhadores
No caso a 1, o senhor fundiária costuma estar Ifadkionalmente vinculado - no que se ruluticos A circunstância de que se desenvolveu na mvegaç;io, mais tarde, uma participação
refere à forma da utilização -tamo a determinados trabalhadores (não há, ponamo, seleção) no risco, por pane dos fretallores, e que proprietários de navios, diretores ruluticos e tripulaçâo
'1UJl1lO aos serviços dos mesmos, O caso a 2 só se deu nas plantações canaginesas e romanas, também participaram no fretamemo, não criou relações de apropriaçio fundamemalmente dife-
na Antiguidade, e nas coloniais e norte·americanas. o caso b !I, someme no Ocidente moderno remes, mas apenas particul3ridades no cálculo e, portanto, nas oportunidades aquisitivas,
A f",ma cio desenvolvimento da propriedade senhorial (e. sobretudo, a de sua decomposição) 5, A apropriação de todos os meios de ob!ençjo - instalações (de todas as espécies)
("' declsiva para a forma das modernas relações de apropriação Nestas, em seu tipo puro, e ferramentas - por um proprietário, situação constitutiva para a fábrica de hoje, era exceção
s" existem as figuras 3)doproprieráriode terras; b)do arrendatário capitalista ec)do trabalhador
:twicola Sem propriedade, Só que esse tipo puro constitui uma exceção (existente na Inglaterra)
nos tempos passados, Particularmente o ergasrerion helênico-bizanrino (em Rom,,: ergasruJum)
era muito ambíguo em súa significação econômio, faro consumememe desconhecido pelos
2, Ao, rique7-'lS do solo exploradas pela mineraçio podem estar apropriadas historiadores, Era uma "ofiCina" que 1) podia ser parte integrante de uma gestão parrimonial
'I) pelo proprietário do solo (nos tempos passados, geralmente, o senhor fundihio), e na qual a) escravos reali7.aram tr3balhos p3ra a necessidade própria do senhor (por exemplo,
b) por um senhor político (senhor timlar de regalias). na economia da grande quinta~ ou b) lugar de um "empreendimento acessório" com produção
c) pejo "descobridor" de jazidas aproveitáveis ("liberdade de mineração"), para a venda, sobre a base de trabalho de escravos Ou 2) a oficina, como fome de renda,
d) por uma associação de trabalhadores, podia ser pane da propriedáde de uma pessoa particular ou associação (de uma cidade - assim,
e) por um empreendimento aquisitivo os ergastérios do Pireu~ arrendada por remuneração a pessoas individuais ou cooperativas de

'L-.:
i-'.'

88 MAXWEBER ECONOMIA E SOCIEDADE 89


trabalhadores, Quando se trata de trabalho em ergastérios (especialmente nOS das Cidades), cabe, aa) com ou
portamo, sempre perguntar: a quem pertence O próprio ergasreríon' A quem pertencem os fJfi) sem clientela garantida ou
demais meios de obtenção nele empregados, no processo de trabalho' Trabalham nele trabalha- f3) apropriação por uma associação, com apropriação pelos indivíduos apenas
doreslivre,' Por conta própria' Ou trabalham nele escravos' EvenfUalmenre: a quem pertencem pessoal ou materialmente regulada, ou seja, condIcional ou ligada a determinados pres-
os escravos que nele trahalham' Trabalham por conta própria (por apophora) ou por conta sUPOStOS, com as mesmas alternalivas que a anterior;
do senhor' A combinação das respectivas respostas a estas perguntas resulta em estruturas econô-
micas com mtureza cada vez mais radicalmente diversa Na maioria dos casos, parece que o b) em caso de separação entre direção e trabalho ocorre como apropriação mono·
er!?:Jsrl'rion fui considerado uma fome de renda - o que se mostra nas instituiçcle5 bizantmas pólica das possibilidades de empreendimento, em suas diferentes formas possíveis de
e islãmicas -, sendo, portanto, um fenômeno funciamemaimenre distil1lo da fábrica e mesmo "') monopólios de cooperativas ou corporaçôes, ou
dos precedentes da mesma, comparável, talvez, no que se refere à multiplicidade de suas formas f3) concedidos pelo poder político.
econômicas possíveis, aos múltiplos lipos de "moinhos" na Idade Média l Em caso de total ausência de apropria(;ão formal da direção, a apropriação
6 Mas até quando oficina e meios de trabalho estão apropriados peta mesmo proprietário dos meios de obtenção - ou dos meios de crédito exigidos para a obtenção dos meios
que ut!liza trabalhadores alugados não se alcança ainda, do pomo de vista econômico, a situação de capital ~ é praticamente idêntica, em empreendímem05 com cálculo de capital,
a qual hêJle costumamos chamar "fábrica", enquanto não exJstem J) fomes mecânicas de energia, à apropriação da disposição sobre os carg05 de direção pelos respectivos proprietários
Z) máquinas e ,o) especializaçao interna e coordenaçao do trabalho. A "fábnca" é hoje uma
Esses proprietários podem exercer aquela disposição
caleguflJ da economia capitalista. Empregamos aqui o termo no sentido de uma empresa que a) dirigindo pessoalmente sua própria empresa ou
pode ser ohJeto de um empreendimento com capiral fixo, tendo, portanto, a forma de uma
oficina com divisão interna do trabalho e apropriação de todos oS meios materiais de trabalho h) selecionando o gerente da empresa (eventualmente, em caso de vários proprie-
e com trahalho mecanizado, isto é, orientado para O uso de morores e máquinas. A grande tários, participando no atO de seleçao)
oficina de "Jack of Newbury" (século XVll camada pelos poetal contemporâneos, na qual, segun-
do consta, houve centenas de (eares manuais de sua propriedade, nos qualS trabalhavam, lado Estas obviedades dispensam comentário,
a lado e independentemente, como em casa, os trabalhadores que recebiam a matéria-prima
do empresário e pJra os quais existiam diversas "instituições beneficentes" - esta oficina carecia Toda apropriação dos meios materiais de obtenção complementares significa nalU-
de todas aquelas características Um ergasrerlon egípcio, helênico, bizantino ou islâmico, proprle· ralmente, na prática e em condiçôes normais, pelo menos um direito de co-gestâo
dade de um senhor de trabalhadores (dependentes) podia operar - existem talS caS05, sem decisivo na seleção da gerência e na expropriação (relativa, pelo menos) dos trabalha-
dúvida - com especialização imerna e coordenação do trabalho. Mas Já a circunstância de que dores desses meios, Mas nem toda expropriação dos trabalhadores individuais significa
tamhém nesses casos o senhor Se comemava ocasionalmente com apophora (de catla trabalhador expropriação dos trabalhadores em geral, sempre que uma associação destes, não"obs-
" dos capatazes com apophora elevada) - conforme demonstram claramente a5 fontes gregas
-, deve prevenir, nos de equipará-los economicamente o uma "fábrica" ou a uma oficina como tante a expropriação formal, esteja em condições de forçar materialmente a panicipação
a de "Jack of Newbury", As manufaturas principescas, como a manufaturo imperial de porcelana, na di reção ou na seleção da gerência,
na China, e as oficinas na Europa que a imitam, para artigos de luxo destinados ao uso naS
corres, e, sobretudo, as que produzem artigos para fins militares, estão muito mai5 próxima5 § 22. A expropriação do trabalhador individual da posse dos meios de obtenção
" "fcíhrica" no senlido corrente da palavra. Não se pode imp<.'\lir ninguém de chami,ias "fábri, materiais está condicionada de modo puramente técnico
cas" Mais próximas ainda, em seus aspectos externOS, à fábrica moderna estovam as oficina,\ a) nos casos em que m meios de trabalho exigem utilização simultânea e sucessiva
russas com trabalho de servOS. À apropriaçâo dos meios de obtenção acrescentava·se a apro- por grande número de trabalhadores,
pnaçjo dos 1r3balhadores Pela razão dada, empregamos aqu/o conceíto de "fjbrica" "urnen(e b) no caso de instalaçôes de energia que só podem ser aproveitadas de modo
quondo se trara de oficinas I) com apropriaçlo lotai dns meios de obtenção materiais pelm racional quando se empregam simultaneameme em grande número de processos de
proprierários, 2) com especializaçãO interoa dos serviços, 3) com emprego de fomes de energia
trabalho homogêneos, uniformemente organizados,
e máquinas mecanizadas que exigem ser "manejadas". Todos 05 demais tipos de "oficinas"
serjo designados com eSre nome e os respcaivos adItamentos. c) quando a orientação tecnicamente racional do processo de trabalho só pode
ser realizada em conexâo com processos de trabalho complementares, sob controle
§ 21 (Ainda: Jl B, cf §§ ]8, 19.) Com respeito a 3) apropriação dos serviçm comum e contínuo,
de c<xJrden1ÇÍo, esta é típica d) quando existe a necessidade de instrução específica para a direção de processos
I, em lOdos os casos de direçao patrimonial tradicional de trabalho conexos que, por sua vez, só são racionalmente aproveitáveis quando se 'I
a) em favor do próprio dirigente (chefe da família ou elo ela), realizam em grande escala, "
h) em favor do quadro administrativo nomeado para a direção de slIa gestão e) pela possibilidade de disciplina rigorosa de trabalho e controle do rendimento
patrimonial (feudo de serviço dos funcionários da casa) e, em conseqüência, maior regularidade da produção, em caso de disposição unitária
Ocorre, além disso, sobre os meios de trabalho e as matérias-primas,
2. nos empreendimentos aquisitivos
a) em caso de coincidência absoluta (ou aproximadamente absoluta) de direção
Mas estes fatores deixariam abena também a possibilidade de apropriação por
uma associação de trabalhadores (cooperativa de produção), o que signifiGlria apenas I
e trabalho Neste caso, é tipicamente idêntica à apropriação d05 meios de obtenção a separação dos trabalhadores individuais dos meios de obtenção, i
I
materiais pelos trabalhadores (B 2 3, § 20) Pode ser, nesse caso, Aexpropriação da totalidade dos trabalhadores (incluindo-se os tecnicamente ins-
n) apropriação ilimitada, isto é, apropriação pelos individuos, garantida como truídos e os do setor comercial) da posse dos meios de obtenção está economicamenre I:
hereditária e alíenável, condicionada, sobretudo,
i
l.L
MAX WEBER
ECONOMiA E SOCIEDADE 91
90
a) em geral, e sendo iguais as demais circunscâncias, pela maior racionalidade crédito ou financíamenco (veja adiante) - esteja em extensão considerável nas mãos
na empresa quando existe disposição livre da direção sobre a seleção e o modo de de interessados em aquisição, alheios à empresa (por exemplo bancos de crédito ou
financia dores) [p. 106]; ,
emprego dos trabalhadores, em oposic.;ão a obstruções tecnicamente irracionais e irra-
cionalidades econômicas que provêm da apropriação dos postos de trabalho ou do . b)separação entre direção da empre~a e p!Opriedade, especialmente pela Iimita-
direito de co·direção, particularmente: a intervenção de aspeaos extra-empresariais, ça~ d~s mteressados em propne~de à deslgnaçao do empresário e à apropriação livre
referentes à mícrogestão patrimonial caseira e à alimentação; (ah~navel~ e por qumas da propned.ade em forma de participação no capital de cálculo
b) dentro da economia de troca, pelo maior acesso a créditos de uma direção (açoes, açoes ~e mInas) Essa sl[Ua~ao (vl,nculada à apropriação purameme pessoal por
I de empresa que não vê suas disposições limitadas por direitos próprios dos trabalha- formas transl~onas de todas.as espeCles) e [ormalmeI?te raCional no sentido de permitir
i dores, mas tem pleno poder de disposição sobre as garantias materiais de seu crédito, - em oposlçao à apropnaçao permanente e heredltarl:l da própria direção em virtude
! e que está representada por empresários profissionalmente formados e considerados da propriedade herdada - a seleção de um gerente qualificado (do ponto de vista
!"I: "seguros" em virtude de sua gerência contínua da empresa; da rentabilidade). Na prática, porém, isto pode significar várias coisas:
0:) a disposição s?hre o cargo de gerente está - em virtude da apropriação da
c) historicamente tem suas origens numa economia que veio prosperando, devido
à ampliaçâo extensiva e intensiva do mercado, desde o século XVI, e isso em virtude propriedade - nas maos de imeressados em patrimônio, albeios à empresa: partici-
da superioridade absoluta e indispensabilidade efetiva de uma direção cujas disposiçôes pantes na propriedade que sobretudo procuram ohter rendas elevadas,
se orientam individualmente pela situação de mercado, por um lado, e de puras conste- fJ) a disposi çâo sobre o cargo de gerente está - em virtude de aquisição temporária
laç{)es de poder, por outco. no ffie:rcado -' nas mãos de interessados em ôpeculação, alheios à empresa (Possuidores
Prescindindo·se destas circunstâncias gerais, o emprendimenw orientado pelas de açoes que procuram obter lucro pela alienação das mesmas),
pos"ibilidades de mercado alua também em sentido favorável àquela expropriação: y) a disposição sobre o cargo de gerente está - em virtude de p::xIer de mercado
a) pela preferência pelo cálculo de ('apical - o qual só pode ser teenicamente ou de crédito - nas mãos de interessad(~~ em aquisiçio, alheios à empresa (bancos ou
racional em caso de apropriação tOlal pelos proprietários - em relação a roda oUlra interessados individuais - por exemplo, OS "financiadores" -, os quais perseguem seU'i
gestão econômica cujo cálculo apresenta menos racionalidade; interesses próprios de aquisição, muitas vezes incompatíveis com os da respeaiva empresa). "
.'
b) pela preferência pelas qualidades puramente comerciais da direção em relaçao Chamamos aqui "alheios à empresa" todos os interessados que não estão orien·
às técnicas, e guardando os segredos técnicos e comerciais; tados primordialmente pela rentabiJid;j(le persistente da empresa Isso pode ocorrer
c) pelo favorecimento da gerência especuladora da empresa, a qual pressupõe com todos os tipos de interesses de patrimônio; com freqüência específica, porém,
aquela expropriação. Esta forma de gerência é possibilirada, em última in.stãncia, sem no caso daqueles interessados que utílizam a disjX)sição sobre instalaçUes e bens de
que se 10me em consideração o grau de sua racionalidade técnica, capital, ou a participação neste~ (ações, ações de minas), não como investimento perma-
d) pela superioridade que possui nente de patrimônio, mas, sim, como meio para obter num momemo dado um lucro
0:) no mercado de trabalho, cada qual com propriedade, em relação à outra parte puramente especulath'o. Os interes~es mais facilmente conciliáveis (relativamente) com
na troca (os trabalhadores), os interesses materiais da empresa (o que significa, aqui, interesses na rentabilidade
{3) no mercado de bens, pela economia aquisitiva que opera com cálculo de capital, atual e duradoura) são os interesses puramente oriemados pela renda (a).
bens de capital e crédito para aquisição, em relaçao a todo concorrente na troca, que A interferência daqueles interesses "alheios à empresa" na forma de disposição
ca1cuL! de forma menos racional ou está menos bem equipado ç tem menos pos5ibi- sobre os cargos de gerência constitui, preci~amente no caso do máximo de racionalidade
lidades de crédilO. O fato de que o máximo de racionalidade [ormal no cálculo de formal de sua seleção, outra irracionalidade material especifica da ordem econômica
capilal só é possível em caso de submissiío dos trabalhadores à dominação dos empre· moderna (pois pode acontecer que tanto interesses individuais de patrimônio quanto
sários constitui outra irracionalidade marerial específica da ordem econômica. interesses de aquisição orientados para metas, sem qualquer conexão com as da empre·
Por fim, sa, ou ainda, interesses puramente especulativos se apoderem das ações da empresa
e) por ser de grau ótimo a dísCÍplina em caso de trabalho livre e apropriação e lOmem decisões referentes à pessoa do gerente - e sobretudo - à forma de gerência
tOla I dos meios de obtenção. da empresa que forçadamel1le lhe impõem). A influência sobre oportunidades de mer-
cado e sobrerudo sobre bens de capital e, em conseqüência, sobre a oriemação da
§ 23 A expropriação de todos os trabalhadores dos meios de obtenção pode obtenção de bens para fins aquisitivos, por parte de interesses alheios à empresa, pura·
significar praticamente: mente especulativos, é uma das fontes dos fenômenos da moderna economia de troca
1. direção pelo quadro administrativo de uma associação: também (e justamente) conhecidos como "crises" (problema que não cabe examinar aqui em seus detalhes)
toda economia unitária socialista racional manteria a expropriação de todos os trabalha·
dores, completando-a pela expropriação dos proprietários privados; § 24 Chamamos "profissão" aquela especificação, especiali7.ação e combinação
2. direção pelos proprietários ou seus representantes, em virtude da apropriação da, serviços de uma pessoa que, para esta, comtituem o fundamento de urna possibi-
dos meios de obtenção pelos primeiros. A apropriação, por interessados em proprie. lidade contínua de abastecimento ou aquisição. A divisão das profissões pode
dade, do (Xlder de disposição sobre a pessoa do gerente pode significar I. ocorrer em virtude de atribuição heterônoma de serviços e, ao mesmo tempo,
a) direção por um (ou vários) empresários que ao mesmo tempo são os proprie- de meios de subsistência dentro de uma associação reguladora da economia (divisão
rários: apropriação direta da posição de empresário. Mas esta não exclui a possibilidade dependente das profissões) ou em virtude de orientação autônoma pela situação de
de que, de faro, a disposição sobre a forma de direção __ em virtude do poder de
o
mercado para serviços profissionais (divisão livre das profissUes),
92 MAXWEBER ECONOMIA E SOCIEDADE 93

2. basear-se em especificação ou especialização dos serviços; ficamente pessoais se tornaram objeto ou da formação tradicional em associações fechadas ou
3 significar utilização econômica autocéfala ou heterocéfala dos serviços profis- da tradição hereditária. Profissões individuais de caráter não rigorosamente carismático foram
primeiro criadas, de forma litúrgica, pelas grandes gestões patrimoniais dos principes e senhores
sionais por parte de quem os presta.
Entre as profissões típIcas e as formas típicas das oportunidades de obter rendi- -l territoriais, e mais tarde, na base da economia de troca, pelas cidades. Mas, ao lado destas,
sempre continuaram exiSlindo as formas de educação estarnentajs, fjtenirias e consideradas" dis·
mentos existem conexões das quais falaremos no exame das situações "estamentais"
e "de classe". f tintas", sucessoras da formação profissional mágica ou ritual ou derical.

Sobre "e>tarnemos profissionais" e classes em geral, veja o capitulo IV.


o que antes dissemos sobre a especialização profissional não implica que esta
signifique necessariamente: serviços conrínuos, ou 1) de forma litúrgica para uma asso·
I Divisão dependente das profissões de forma litúrgica ou de oikos, através de recruta-
ciação (por exemplo, uma gestão patrimonial principesca ou uma fábrica), ou 2) para
mento coativo d3s pessoas designadas para delerminada profissão, dentro de uma associação
principesca, estalai, senhorial ou comunal. Divisão livre das profissóes: em virtude de ofena um' 'mercado" totalmente livre. Ao contrário, é possível e ocorre freqüentemente ~ .• ·-;I

bem-sucedida de serviços profissionais ou solicitação bem-sucedida de "vagas", no mercado I. que trabalhadores profissionalmente especializados, sem propriedade, são uti-
de trabalho. lizados, segundo a necessidade, como força de trabalho ocasional, e isto por um círculo
2. Especificação de serviços, conforme já observamos no § 16: a divisão das profissões relativamente constante
nos ofkios da Idade Média; especialização de serviços: a divisão das profissões nas modernas a) de clientes com gestão patrimonial (consumidores) ou
empresas racionais. A divisão das profissões na economia de troGl, considerada do pomo de b) de clientes com gestão aquisitiva (economias aquisitivas)
vista do método, é muitas vezes especificação de serviços tecnicamente irracional, e não especia- Com respeito a a), em economias com gestão patrimonial, neste caso se incluem
lização de serviços racional, uma vez que se orienta pelas oportunidades de venda e, ponamo, (1) em caso de expropriação dos trabalhadores, pelo menos, do fornecimenlo
pelos interesses dos compradores, ou seja, consumidores, os quais determinam o conj unto dos da matéria-prima e, ponanto, da dispoSiÇãO sobre o produto:
serviços oferecidos pela mesma empresa de modo que se afasta da especialização dos mesmos,
obrigando-a a combinações de serviços irracionais do ponto de visla do método. I) o trabalho na casa do empregador
(la) como ofício ambulante,
3. Especialização de profissóes autocéfala: empreendimento individual (de um artesão,
médico, advogado, arti"ta} Especialização de profissões heterocéfala: trabalhadores de fábrica, (J(3) como ofício sedentário, ainda que ambLllante dentro de um círculo local
funcionários públicos" de unidades de gestão patrimonial.
A estruturação profissional em grupos de pessoas dados é diferente: Il) o trabalho por salário: trabalho sedentário, trabalhando-se em oficina (ou
a) segundo o grau de desenvolvimento de profissões tipicas e estáveis, em geral. Para casa) própria para outra gestão patrimoníaf.
e<te é decisivo, sobretudo, Em todos os casos, a unidade de gestão paCFimoniaI fornece a matéria-prima,
a) O desenvolvimento das necessidades, enquanto que as ferramentas costumam estar apropriadas pelos trabalhadores (as gada-
(3) o desenvolvimento técnico (sobretudo, da técnica industrial), nhas, pelos ceifadores; O equipamento de costura, pelo alfaiate; todos os tiJXlS de ferra-
'Y) o desenvolvimento ou mentas, pelos artesãos)
aa) de grandes gestões patrimoniais: para a divisão dependente de profissões, ou
Nos casos do tópico I, a relação de trabalho significa a integração temporária
{J{» de oponunidades de mercado, para a divisão livre de profissões;
b) segundo o grau e a natureza da especialização profiSsional ou da especialização elas na unidade de gestão patrimonial de um consumidor.
economias Decisiva para isto é, sobretudo,
a)a situação de mercado, determinada pelo poder aquisWvo, para os serviços de economias Em confronto com isso, o caso de apropriação plena de todos os meios de obtenção foi
especializadas,
f3) a forma em que se distribui a disposição sobre os bens de capital;
designado por K BOCH" por "trabalho por preço". I
1
c) segundo o grau e a natureza da continuidade profis,;onal ou das muda nças de profissâo Com respeito a b) trabalho ocasional de trabalhadores profissionalmente especia-
Decisivos para esta última circunstância são, sobretudo,
a) o grau de instrução que pressupõem os serviços especializados,
lizados para economias com gestão aquisitiva:
f3) o grau de estabilidade ou mudança das possioilidades de aquisição, dependente, por em caso de expropriação dos trabalhadores, pelo menos, do fornecimento da
sua vez, do grau de estabilidade e da forma da distribuição de renda, por um lado, c, por matéria-prima e, portanto, da diSpOSiÇão sobre o produto: !
outro, da técnica. I) trabalho ambulante em empresas de patrões diversos,
Por fim, é jmpof1ame para tO<hs as formas que podem assumir as profissões: a es!ruturação II) trabalho a domicílio, ocasional ou sazonal, para um patrão.
eitamenral, com as possibilidades e formas de educação estamenrais que esta cria para determi·
mdos tipos de profis,{)Cs qualificadas. Exemplo de [: trabalhadores que em cef1as estações foram trabalhar nas indústrias da
Objeto de profissões independentes e estáveis só podem ser os serviços que pressupõem Saxônia
pe!o menos um mímmode instrução e para os quais existem possibilidades de aquisiçâocontinuas. Exemplo de 11: todo trabalho a domicílio que completa ocasionalmente o trabalho em
Profissões podem ser exercidas em Virtude da tradição (profissões hereditárias) ou escolhidas oficina
na base de considerações racionais, com vista a um fim (especialmente a renda), ou aceitas
por inspiração carismálica ou por mOlivos afetivos, especialmente em virtude de interesses esta·
memais (de "prestígio") As profiss6es índividuais tinham originalmente caráter inteiramente 2 O mesmo no caso das economias com apropriação dos meios de ohlcnçio:
carismático (mágico~ e o resto da estruturaçâo profissional- na medida em que esta já existia, a) em caso de cálculo de capital e apropriação parcial dos meios dc ohtellç;-,,)
de forma rudimentar - estava condiciOlUdo pela tradição A, qualidades carismáticas não especi- ~ especialmente apropriação limitada às instalações - pelos propriet;\ri..., ofidm"
M/lXWEBER ECONOMIA E SOCIEDADE 95
(fábricas) com trabalho ass,alari~do e, sobretudo, fábricas ..com traba~h~ a domicílio 1. Na área das terras de cultivo,
~ as primeiras existentes ha mU110 tempo, as segundas frequentes nos ultlmos tempos~ ..
'~
a) agricultura transumante, isto é, que após o aproveitamento do solo muda de
(3) em caso de apropriação total dos meios de obtenção pelos trabalhadores lugar: economi~ doméstica com apropriação do solo pela tribo, apropriação do aprovei-
a) pequenas empresas serrrcálculo de capital que trabalham tamento deste ~ lemporária ou permanentemente - por associações de vizinhos, ce-
aO') para gestões patrimoniais: crabalhadores por preço, com clientela, dendo-se esse direito apenas por tempo limitado a gestões patrimoniais.
f3{3) para empresas com gestão aquisitiva: indústria caseira sem expropriação dos Quanto ao tamanho, as associações de gestão patrimonial são, em regra,
meios de obtenção, ponanto, empreendimentos aquisitivos formalmente independen- 0') grandes comunidades domésticas, ou
tes, mas que, de fato, vendem seus produtos a um CÍrculo monopólico de compradores, f3) economias de clã organizadas, ou
b) grandes empresas com cálculo de capital: produção para um círculo de compra· y) gestões patrimoniais familiares em grande escala, ou
dores permanentes: conseqüência (em regra, mas não unicamente) de regulações de 8) gestões patrimoniais familiares em pequena escala
~'j venda do tipo cartel.
t:
Por fim, cabe observar que nem Em regra, a agricultura é "transumame" somente em relação às terras cultivadas, e muito
a') todo ato de aquisição é parte de uma atividade aquisitiva profissional, nem mais raramente e em intervalos mais longos no que se refere às instalações.
li
II b.1 todos os atos de aquisição, por mais freqüentes que sejam, pertencem por
I' necessidade conceitual a alguma especialização contínua, com sentido homogêneo. b) Agricultura sedentária: regulação pela comunidade de comarca ou aldeia dos
I: Com respeito a a) existe aquisição ocasional; direitos de aproveitamento das terras de lavoura, prados, pastos, florestas e águas,
0') na economia doméstica que troca por outras coisas os excedentes de sua prOOll- por (em regra) fazendas de famílias em sentido estrito. Apropriação das casas e hortas,
ção caseira. Do mesmo modo, realizam·se inúmeros atos ocasionais de troca correspon- por estas famílias; das terras de lavoura e (na maioria dos casos) prados e pastos, pela
dentes, para fins de aquisição, por parte de grandes gestões patrimoniais, especialmente comunidade da aldeia; das florestas, pelas comunidades de comarca. Segundo o direito,
das senhoriais. Começando ali, uma série contínua de possíveis "atos de aquisição oca- redistribuições do solo são originalmente possíveís, mas em grande parte obsoletas
sionais" leva até por não estarem organízadas sistematicamente Na maioria dos casos, a ecOnomia está
f3) a especulação ocasional de um renrista, a publicação de um artígo, uma poesia regulada pela ordem da aldeia (economia de aldeia primária).
etc, obra de um amador e semelhantes casos freqüentes em nosso lempo. Daí, se A comunidade de clã como comunidade econômica existe apenas excepcional·
chega à "profissão acessória". mente (na China) e, nesse caso, em forma de associação racionalizada (relação societária
Com respeito a b )cabe lembrar aqui que há também formas absolutameOle incoClS" de clã).
tantes de ganhar a vida, que variam entre atividades aquisitivas ocasionais de wdas c) Senhorio sobre as cerras e sobre as pessoas, com trabalho obrigatórío dos
as espécies, e eventualmente também entre atos de aquisição normais e mendicância, camponeses dependentes na quinta do senhor e determinadas prestaçõe.l em espécie, I'
funo, roubo etc
Situações especiais comtituem
provindas da fazenda própria dos mesmos Apropriação das terras e dos trabalhadores
pelo senhor, e da utilização das terras e do direíto aos postos de trabalho, pelos campo· rJ
.-1
a) o ganha· pão puramente por caridade, neses (associação senhorial simples de presraçÕES em espécie). I
b) a sustentação por instituições não-caritativas (particularmente, penitenciárias), cf) Monopólio do solo a) senhorial ou {3) fiscal com responsabilidade solidária
c) a aquisição organizada, mediante atos de violência, pelas cargas tributárias por pane das comunidades dos camponeses. Por isso, comuni-
cf) a aquisição não organizada (criminosa\ por meio de violência ou astúcia. O dade agrária e redistribuição sistematizada e regular das terras: apropriação permanente
papel desempenhado pelos casos b e d ofr:.-cce pouco interesse, enquanto que o de do solo, forçadamente imposta, como correlato das cargas, pela comunidade dos campo-
3 foi extraordinariamente importante para as associações híerocrâticas (ordens mendi-
neses e não pelas unidades de gestão patrimonial particulares; por estas apenas tempora-
cantes), e o de c, para as associações políticas (espólio de guerra), e em ambos os riamente e com a reserva de haver redistribuição para fins de utilização. Regulação
casos para as respectivas economias. O específico nestes dois casos é seu caráter "alheio da economia por ordens do senhor territorial ou político (comunidade agrária senhorial
à economia". Por isso, não cabe aqui classificá-los detalhada mente. As formas que ou fiscal)
assumem devem ser expostas noutro lugar. Por motivos parcialmente (mas só parcial- e) Senhorio cerricoríallivre, com utilização como fome de renda, para fins da
mente) semelhantes, mencionaremos (§ 38) a atividade aquisitiva dos funcionários públi- gestão patrimonial própria, dos rendimentos provindos das fazendas dos camponeses
cos (incluindo a dos oficiais do exército), como subclasse da aquisição por trabalho, dependentes. Portamo, apropriação do solo pelo senhor, mas
:lflCII.1S para fixar seu "lugar sistemático", sem examinar, por enquanto, os detalhes
casuísticos. Pois tal exame requer a consideração da natureza das relações de dominação a) colonos ou
em qllC se encontram essas categorias f3) camponeses parceiros ou
y) camponeses obrigados a pagar censo em dinheiro, como portadores dos em-
§ 243. Conforme mostram os esquemas teóricos aqui desenvolvidos, desde o preendimentos econômicos.
!l 15, é extremamente variada a casuística das relações técnicas de apropriação e de f) Economia deplanraçio: apropriação livre do solo e dos trabalhadores (escravos
mercado. comprados) pelo senhor, como meios de aquisição numa empresa capitalista com traba-
De fato, só algumas das numerosas possibilidades desempenham um papel domi- lho dependente.
nanuo:. g) Economia de quinca: apropriação do solo
T
MAXwEBER ECONOMIA E SOCIEDADE 97
96
a) por beneficiários da renda do solo, com cultivo por grandes economias de Analogamente, também, na área do transporte interno, ocorrem:
arrendatários ou a) apropriação pelo senhor territorial dos meios de transporte, COmo fonte de
(3) pelo próprio cultivador, como meio de aquisição. Em ambos os casos, com renda; repartição de serviços demiúrgicos entre determinados pequenos lavradores
trabalhadores livres que trabalham obrigados a presti-Ios;
aa) em gestão patrimonial própria ou [b)] caravanas de pequenos comerciantes reguladas de forma cooperativista, com
bb) em gestão patrimonial proporcionada pelo senhor; em ambos os casos apropriação da mercadoria.
Cf) com produção agrícola ou - caso limite - (3) sem produção própria de bens. Na área do transporte marítimo, ocorrem:
h) Ausência de senhorio territorial: economia de camponeses com apropriação a) propriedade dos oavios oas mãos de um oikos, senhor territorial ou patrício,
do solo pelos cultivadores (camponeses) A apropriação pode significar praticamente: com comércio próprio do senhor;
a) que de fato predomina a propriedade do solo hereditariamente adquirida ou, . b) construção e propriedade dos navios nas mãos de uma cooperativa; partici-
fi) ao contrário, existe redistribuição das parcelas, sendo o primeiro típico em pação no comércio, por conta própria, do capitão e da tripulação; ao lado deles, como
caso de propriedades isoladas ou de grandes lavradores, o segundo, em caso de proprie- fretadores, pequenos COmerciantes interlocalmenre viajantes; parlicipação no risco de
dades Situadas em aldeias e de pequenos lavradores. todos os interessados; comboios de navios rigorosamente regulados. Em todos os casos,
Condição normal para o caso e, y, bem como o de h, {3, é a existência de oportu- "comércio" significava ainda comércio interlocal e, portanto, uansporre.
nidades suficientes de mercado locai para os produtos do solo. c) indústria livre:
2. Na área da indústria e do transporte (incluindo-se a mineração e o comércio} r produção livre para clientes, como
a) indústria caseira, em primeiro lugar, como meio de trocas ocasionais, em se-
guodo, como meio de aquisição, com I a) trabalho oa casa do cliente ou
b) trabalho por salário, com apropriação da matéria-prima, pelo cliente (consu-
a) especialização de serviços interétnica (indústria de rribo). Daí deriva [even- midor}, dos instrumentos de trabalho, pelo trabalhador; das instalações (eventualmente
tualmente] utilizadas), por um senhor (como fome de renda) ou uma associação (com utilização
f3) a indúsrria de casta. por turno), Ou
Em ambos os casos ocorre, em primeiro lugar, a apropriação das fontes de maté- c) "trabalho por preço" com apropriação da matéria-prima e dos instrumentos
ria-prima e, portanto, da produção de matéria-prima, e só secundariamente a compra de trabalho e, com isso, da direção, por parte dos trabalhadores, e das instalações
de matéria-prima ou a produção por salário. No primeiro caso é freqüente a ausência eventualmente necessitadas (na maioria dos casos), por parte de uma associação de
de apropriação formal. Ao lado disso, e no segundo caso sempre, existe apropriação trabalhadores (corporação).
hereditária das possibilidades de aquisição vinculadas a serviços especificados, por parte Em todos estes casos é típica a regulação da atividade aquisitiva pela corporação.
de associações domésticas ou de clã. Na mineração: apropriação das jazidas por senhores políticos ou territoria is, como
b) Indúsrria vinculada a determinada clientela: especificação de serviços com res- fonte de renda; apropriação do direito de extração por uma associação de trabalhadores;
peito a uma associação de consumidores: regulação, por pane da corporação, da extração, considerando-se esta um dever para
a) senhorial (oikos, senhorio territorial) ou com o senhor da mina, interessado na renda, e para com a comunidade mineira, solida-
(3) cooperativista (demiúrgica). riamente responsável perante o senhor, e interessada no rendimento.
Nenhuma aquisição no mercado. No caso a, coordenação de serviços na forma Na área do transporte interno: corporações de barqueiros e transportadores de
de gestão patrimonial, às vezes trabalho de oficina no ergasrerion do senhor. No caso cargas, com viagens regulares e fixas, e regulaçjo de suas possibilidades de aquisição.
{3, apropriação hereditária (às vezes, alienável) dos postos de trabalho, serviços para Na área da oavegação marítima: propriedade em participação dos navios, com-
uma clientela apropriada (de consumidores)- escasso desenvolvimento ulterior: boios de navios, comerdantes viajantes por incumbência da commenda
l) Primeiro caso especial: os sujeitos da atividade industrial. com serviços especifi- Desenvolvimento em direção ao capitalismo:
cados, estão apropriados (formalmente dependentes), a) Monopolização de fato, por parte dos empresários, dos recursos monetários
a) na qualidade de fonte de renda do senhor, sendo, porém, não obstante sua da empresa, como meio de pagamentos antecipados aos trabalhadores. Em conseqüên-
dependência formal, pessoas materiafmeme livres que produzem (na maioria dos casos) cia, direção da obtenção de bens, em virtude do crédito de obtenção, e disposição
para uma clientela (escravos de renda). sobre o produto, apesar da apropriação, formalmente subsistente, dos meios de aquisi-
{3) oa qualidade de trabalhadores numa indústria domiciliar, dependentes do se- ção por parte dos trabalhadores (assim oa indústria e na mineração).
nhor e produzindo para fins aquisitivos do mesmo, {3) Apropriação do d;reiro de venda dos produtos, na base da rnonopoliz.ação
y) na qualidade de trabalhadores de oficina, no ergasrerion do senhor, para fins prévia e efetiva do conhecimento da situação de mercado e, em conseqüência, das
aquisitivos do mesmo (indústria domiciliar com trabalhadores dependentes) possibilidades de mercado e dos recursos monetários das empresas, em virtude de
11) segundo caso especial: especificação lirúrgica de serviços, para fins fiscais: ordens monop6licas forçadamente impostas pelas corporações ou privilégios do poder
tipo semelhante à iodústria de casta (a (3). político (como fonte de renda ou meio para obter empréstimo}
1) Disciplinamento interno dos trabalhadores dependeme~ na indústria domici-
Analogamente existem, na área da mineração: liar: fornedmento da matéria-prima e dos aparelhos pelo empresário.
empreendimentos de príncipes ou senhores territoriais que empregam trabalha- caso especial: organização racional rnonopólica de indústrias domiciliares, sobre
dores dependentes: escravos ou servos. a base de privilégiOS, em interesse da situação fiscal ou da população (proporciooar
f"-----·-- --'"-- ----,---.

98 MAXWEBER ECONOMIA E SOCIEDADE 99


possibilidades de aquisição} Regulação forÇ3darnente imposta das condições de traba- cf) o tipo c (indústria livre) encontra seu lugar clássico como tipo dominante na
lho, com concessão de atividades aquisitivas. Idade Média ocidental, e somente ali, apesar de aparecer por toda parte, tendo especial-
Il) Criação de oficinas, sem especialização radonal do trabalho dentro da empresa mente a corporação difusão universal (panicularmente na China e no Oriente Próximo),
e com a apropriação de todos os meios de obtenção materiais pelo empresário. Na enquanto que faltou completamente na economia "clássica" da Antiguidade. Na Índia
mineraçio: apropriação das jazidas, galerias e aparelhos pelo proprietário da mina. existiu, em lugar da corporação, a casta.
No transporte: companhias de navegação, nas mãos de grandes proprietários. Conse- e) as fases do desenvolvimento capitalista, na área da indústria, somente encon-
qüência, por tOda parte: expropriação dos trabalhadores dos meios de obtenção. traram difusão universal, fora do Ocidente, até o tipo {I Esta divergência não pode
e) Como último passo em direção à transformação capitalista das empresas de ser explicada exclusivamente por causas puramente econômicas.
obtenção: mecanização da produção e do tra1l5porre. Cálculo de capital. rodos os meios ,
de obtenção materiais vêm a ser capital ('fixo" ou de exploração), todos os trabalha-
dores, "mãos". Em virtude da transformação dos empreendimentos em sociedades
de possUidores de valores, acaba expropriado também o diretor, que se torna formal-
mente" funcionário" da empresa, enquanto que o proprietário se torna materialmente
,I § 25 I. Para se alcançar o ótimo de rendimento calculável no trabalho executante
(em seu sentido mais geral) importam, fora do domínio das três associações comunistas
lípicas (veja § 26] nas quais interferem motivos extra-econômicos, estes três fatores:
homem de confiança dos credores (os bancos).
Desses diferentes tipos I I. o ótimo de adaptação ao serviço,
2. O ótimo de habilidade no trabalho;
3. o ótimo de inclinação ao trabalho.
1. foi universal na área da agrÍCllltura o tipo la [p. 951, mas em suas formas
'" e f3 (grande comunidade doméstica e economia de clã) foi raro na Europa e típico,
! Com respeito ao fator 1, a adaptação (condicionada por fatores hereditários, edu-
cação ou influências do meio ambiente, tanto faz) só pode ser verificada mediante
ao contrário, no Extremo Oriente (China}, o tipo b (comunidade de aldeia e de comarca) prova. Na economia de troca, tratando-se de empreendimentos aquisitivos, esta tem
(p. 95J foi usual na Eumpa e na Índia; o tipo c (senhorio territorial comprometido) usualmente a forma de prova de "aprendizado". O sistema Taylor pretende realizá· la
foi universal e existe ainda hoje, em parte, no Oriente; o tipo d, em suas formas ex
e f3 (senhorio territorial e fiscal, com redistribuição sistemática do solo entre os campo-
neses) existiu, predominando a forma de senhorio territorial, na Rússia e (em sentido
modificado, com redistribuição da renda do solo) na Índia e, predominando a forma
de senhorio fiscal, no Extremo Oriente, bem como no Oriente Próximo e no Egito;
I
I
I
de modo racional.
Com respeito ao fator 2, o ótimo de habilidade de trabalho só pode ser alcançado
mediante especialização racional e contínua. Hoje é essencialmente especialização empí-
rica de serviços realizada com a idéia de poupar gastos (no interesse da rentabilidade
e limitada por esta). A especialização racional (fisiológica) está ainda nos começos (siste-
o tipo e (senhorio territorial livre, com pagamento de rendas por pequenos arrenda-
ma Taylor).
tários) foi caraaerístico na Irlanda, mas também existiu na Itália e no sul da França,
bem como na China e no Oriente helênico da Antiguidade; o tipo f (plantação com
[ Com respeito ao fator 3, a inclinação ao trabalho pode estar orientada da mesma
maneira que todas as demais ações (veja o capílUlo I, § 2} Mas a vontade de trabalhar
trabalho dependente) encontramos na Antiguidade romana e canaginesa, nas colônias
e nos estados sulistas da União norte-americana; o tipo g (economia de quinta), em I (no sentido específico de execução de disposições próprias ou de outras pessoas dirigen-
tes) esteve sempre condicionada ou por um forte interesse próprio no resultado ou
sua forma a (separação entre propriedade do solo e exploração), na Inglaterra, e em
sua forma f3 (exploração pelo proprietário do solo), no leste da Alemanha, em partes
da Austria, Polônia e Rússia ocidenta I; o tipo h (economia de camponeses proprietários)
foi comum na França, no sul e oesle da Alemanha, em partes da Itália, na Escandinávia,
I
1
por coação direta ou indireta; isto ocorre em grau extremamente alto no caso do trabalho
como execução das disposições de outras pessoas. A coação pode consistir ou
1. na ameaÇ3 direta de violência física ou outros prejuízos, ou
2. na probabilidade de desemprego em caso de rendimento insuficiente
lJem como (com restrições) no sul e oeste da Rússia e particularmente na China e na
India modernas (com modificações). Uma vez que a segunda forma, essencial na economia de troca, se dirige de
Estas grandes diferenças na constituição agrária (definitiva) devem-se apenas em maneira muito mais intensa ao interesse próprio e obriga (naturalmente, do ponto
parte a causas econômicas (contraste entre os cultivos de derrubada e de irrigação), de vista da rentabilidade) à liberdade de seleção segundo o rendimento (qualitativo
mas também a circunstâncias históricas, especialmente a forma dos ônus públicos e e quantitativo), atua com maior racionalidade formal (no sentido do ótimo técnico)
da constituição militar. do que toda coação direta ao trabalho. Condição prévia é a expropriação dos trabalha-
2. Na área da indústria - a situação do transporte e da mineração não foi ainda dores dos meios de obtenção e sua necessidade de concorrer às oportunidades de ganho
suficientemente examinada, em toda sua universalidade -, temos: mediante trabalho assalariado, isto é, a proteção, por medidas coativas, da apropriação
a) esteve universalmente divulgado o tipo 2 a a (indústria de tribo), , dos meios de obtenção por parte dos grandes proprietários. Em oposição à coação
b) o tipo a f3 (indústria de casta) alcançou divulgação universal somente na India; direta ao trabalho, descarrega-se assim naqueles que procuram trabalhar, além da preo-
em outros países existiu apenas com respeito a indústrias desclassificadas ("impuras"), cupação com a reprodução (família), também uma parte da preocupação com a seleção
c) o tipo b a (indústria de oikos) dominou em todas as gestões patrimoniais prinei- (segundo a aptidão para determinado trabalho). Além disso, em comparação ao emprego
pescas dó passado, principalmente no Egito, bem como nos senhorios territoriais do de trabalho dependente, tornam-se limitados e calculáveis a necessidade e o risco de
mundo inteiro: na forma b f3 (indústria demiúrgiea), existiu universalmente (também capital, e, por fim, amplia-se o mercado para bens consumidos em massa ~ em virtude
no Ocidente) como fenômeno isolado, porém, como tipo, apenas na Índia. O caso do pagamento de enorme quantidade de salários em dinheiro, A inclinação positiva
especial I (senhorio sobre as pessoas como fonte de renda) dominou na Antiguidade; ao trabalho não é assim obstruída, como ocorre - permanecendo iguais as demais
o caso especial II (especificação litúrgica de serviços), no Egito, na época helênica, circunstâncias - no caso de trabalho dependente; limita-se, porém às possibilidades
no fim da Antiguidade romana e, temporariamente, na China e na Índia. puramente materiais de salá'rio quando se [rata de especialização preponderantemente
r ECQNOMI,\. E SOCIEDADE 101
100 MAXWEBER

técnica em tarefas simples (taylorizadas)e monótonas. Estas só estimulam a maior rendi· possibilidades aquisitivas dos trabalhadores. Pois a instalação de muitos teares, numa
menta quando o salário se orienta pelo desempenho (salário por produção). Na ordem só oficina, pertencentes ao proprietário desta, junto com os respectivos trabalhadores,
de aquisição capitalista, a inclinação ao trabalho está condicionada primordialmente sem intensificação essencial da especialização e coordenação do trabalho, não signifi-
pelas possibilidades do salário por produção e pelo risco de demissão. cava, nas condições de mercado daquela época, um aumento tão significativo das proba-
[1' Sob a condição de trabalho livre, separado dos meios de obtenção, vale, além bilidades de que deste modo estaria garantida para o empresário a cobertura dos custos
disso, o seguinte da oficina e do risco elevado que corria. E, sobretudo, acontece que, na áreA da indús'
I) 1. A probabilidade de que haja inclinação ao trabalho de caráter afetivo é maior tria, uma empresa cujo capical consiste em grande parte em instalações (capital "fixo")
ri - permanecendo iguais as demais circunstâncias - no caso de especificação dos servi-
ços do que no de especialização dos mesmos, porque o resultado individual do trabalho
não é apenas sensível diante das oscilações da conjuntura, o que ocorre também na
agricultura, mas reage também com extrema sensibilidade a toda irracionalidade (incal-
aparece visivelmente perante os olhos do trabalhador Também é grande, naturalmente, culabilidade) da administração e da justiça, a qual existia por toda parte, fora do Ocidente
em todos os desempenhos de qualidade. moderno. A indústria caseira descentralizada pôde mamer sua posição, nessa região,
j 2 A inclinação ao trabalho de caráter tradicional, típica particularmente na agri· bem como na concorrência com as "fábricas" russas e, em geral, por toda parte, até
(ultura t, na indústria domicilíar (sob condições de vida tradicionais em geraI), tem que - ainda antes da introdução das fontes de energia mecanizadas e da maquinaria
" a peculbridade de que os trabalhadores oriemam seus serviços ou por resultados de - a necessidade de calcular os custos de modo mais exato e de padronizar os produtos,
trabalho qualitativa e quantitativamente estereotipados ou pelo salário tradicional (ou a fim de aproveitar as oportunidades ampliadas de mercado, em conexão como emprego
ror ambos), o que dificulta o aproveitamento racional deles e impede a elevação do de aparelhos tecnicamente racionais, levou à criação de empresas com especialização
rendimento por um sistema de prêmios (sa lário por produção). Ao contrário, conforme interna (e com noras movidas a água ou por cavalos), nas quais mais tarde se integraram
mostra a experiência, pode ser mantido alto grau de inclinação afetiva ao trabalho motores mecânicos e máquinas. Todas as outras grandes empresas com caráter de oficina
por relações tradicionais e patriarcais entre o senhor (proprietário) e o trabalhador. anteriores ocasionalmente criadas, no mundo inteiro, puderam desaparecer sem que
3. A inclinação ao trabalho de caráter racional, referente a valores, está condicio- isso perturbasse de modo considerável as possibilidades de aquisição de todos aqueles
nada, em forma típica, ou pela religião ou pela valoração social especificamente elevada que nelas participaram e sem que fosse seriamente prejudicada a satisfação das necessi-
do respectivo trabalho como taL Todos os demais motivos são, conforme ensina a dades Isto mudou quando surgiu a "fábrica". A inclinação ao trabalho dos trabalhadores
experiência, fenômenos transitórios. de fábrica, porém, esteve nos inícios condicionada por uma coação indireta muito forte,
É claro que a responsabilidade "altruísta" pela própría família contém um compo- combinada com a atribuição aos trabalhadores do risco de sua subsistência (sistema
nente tipicO de dever da inclinação ao trabalho de casas de trabalho, na Inglaterra\ e permaneceu sempre orientada pela garantia
II A apropriação dos meios de obtenção e o controle próprio (por mais formal forçadamente mantida da ordem da propriedade, conforme mostra, em nosso tempo,
que seja) sobre o processo de trabalho constitui uma das fontes mais importantes da o desmoronamento dessa inclinação em conseqüência da quebra do poder coativo pela
inclinação ilimitada ao trabalho. Esta é a causa, em última instância, da importância revolução.
extraordinária, na agricultura, dos empreendimentos de pequenos lavradores, especial-
mente em terras parceladas, tanto de pequenos proprietários quanto de pequenos arren-
datários (com a esperança de ,futura ascensão à situação de proprietário). O país clássico, § 26. A realização de serviços em comunidades ou sociedades comunistas e, além
a este respeito, é a China; a India o é no terreno dos ofícios qualificados com especifi- disso, alheias ao cálculo não se baseia na averiguação do grau máximo de abastecimento,
cação de serviços. seguida por todos os demais países asiáticos, mas também o Ocidente mas no sentimento imediato de solidariedade. Historicamente apareceu sempre - até
da Idade Média, onde todas as lutas essenciais tiveram o objetivo de alcançar o poder a atualidade - sobre a base de atitudes primordiahnente extra-economicamente orien-
(formal) de disposição própria. O grande volume de trabalho adicional que o pequeno tadas, isto é,
lavrador (sempre, inclusive como hortelão, trabalhando na base de especificação dos L como comunismo doméstico da família - com fundamentos tradicionais e
serviços, e não de especialização) despende em interesse de sua empresa e as restrições afetivos;
em seu modo de vida, às quais ele se submete para poder manter sua autonomia formal, 2. como comunismo de camaradas, no exército;
juntO com o aproveitamemo para fins de gestão patrimonial- possível na agricultura 3. como comunismo de amor da comunidade (religiosa) e, nos dois últimos casos
- dos produtos acessórios e "despojos" de todas as espécies, inaproveitáveis para (2 e 3\ primordialmente com fundamentos especificamente emocionais (carísmáticos).
fins de aquisição, isto é, nas grandes empresas, estes farores possibilitam a existência Mas sempre
dele precisamente porque nâo há cálculo de capital e porque se conserva a unidade a) em oposição à gestão econômica do mundo circundante, com caráter tradi-
de gestão patrimonial e empresa. Na agricultura, a empresa com cálculo de capital cional ou racional, referente a fins e, nesse caso, com cálculo e divisão dos serviços,
- em caso de exploração pelo proprierário - reage de modo muito mais sensível ou trabalhando efetivamente ou, pelo contrário, sustentada por mecenato (ou ambas
às oscilações conjunturais do que a pequena empresa - conforme provam todos os as coisas); ou
estudos (cf meus cálculos em Verh des XXIV Dc. juriscencags.) b) como associação de gestões patrimoniais de privilegiados, dofiÚnando as unida-
Na área da indústria, o fenômeno correspondente subsistiu até a época das empre- des de gestão patrimonial não associadas e mantida por estas de modo mecênico ou
sas mecanizadas e rigorosamente especializadas, com coordenação de serviços. Ainda litúrgico; ou
no século XVI, empresas como a de "Jack of Newbury" podiam simplesmente ser proi· c) corno gestão patrimonial de consumidores, separada do empreendimento aqui-
bidas (como ocorreu na Inglaterra) sem que isto significasse uma catástrofe para as sitivo e recebendo deste sua renda, isto é, associada com ele.
MAXWEBER ECONOMIA E SOCIEDADE 103
102
o caso a é típico para as economias comunistas, em virtude de religião ou ideologia (comu- o são os valores que proporcionam rendas ou dividendos. As mercadorias que o senhor
nidades de monges que rrabalham ou vivem retirados do mundo, comunidades de seitas, socia- recebe de seus vassalos, sobre o corpo ou sobre o solo, em virtude de seu poder senho-
!ismo iaírico) rial, como rributos obrigarórios, e leva ao mercado, são para nossa terminologia merca·
O caso b é lÍpico para as comunidades militares, total ou parcialmente comunistas (casas darias, e não bens de capital, uma vez que falta em princípio (e não apenas de faro)
de varõc.s, sissídas espartanas, comunidades de assaltantes ligúrios, organização do califa Ornar, o cálculo racional de capiral (cusros!) Ao contrârio, quando são utilizados escravos
comunismo de consumo e - em pane ~ de requisição dos exércitOs em campanha, em IOdas como meios de aquisição numa empresa (sobretudo, quando há um mercado de escravos
as époças), e, além disso, pa;a associaçõs religiosas autoritárias (o Estado jesuíra no Paraguai, e o emprego de escravos comprados, como forma típica), estes são bens de capital.
comunidades de monges, na India e em outros países, vivendo de prebendas de mendicincia).
O óso c é tipico de IOdas as gestões patrimoniais fami liares na economia de lroca. Quando se trara de empresas baseadas em prestações devidas por dependentes (heredj·
tários) que não são livremente compráveis ou vendáveis, não falaremos de empreen·
A disposição ao trabalho e o consumo alheio ao cálculo, dentro dessas comuni- dimentos capitalistas, mas de empreendimentos aquisitivos com trabalho comprometido
dades são conseqüências da atitude extra·economicamenre orientada e se fundam nos (com compromisso também do senhor perame os trabalhadores, o que é decisivo!),
casos 2 e 3, em considerável grau, no sentimentO do contraste e da luta com;a as ranco faz se se trara de empreendimentos agrícolas ou de indústria domiciliar com traba-
ordens do "mundo". Todos os modernos intentos comunistas, na medida em que preten· lhadores dependentes.
clem um; I organização comunista de massas, não podem prescindir, perante seus partidá- Na área da indúsrria, o "trabalho por preço ", a pequena empresa capitalista e
rios, de argumentos racionais referentes a valores, tampouco, em sua propaganda, a indústria domiciliar são empreendimentos capitalistas descentrali7.ados, e todos os
de argumentos racionais referentes a fins, isto é, em ambos os casos, de considerações empreendimentos verdadeiramente capiralistas com caráter de oficina são empreen-
especificamente racionais - em oposição ás relações comunirárias exrracotidianas, de dimentos capitalistas centralizados. Todas as espécies de trabalho na propriedade de
carárer religioso ou militar -, de considerações referentes à vida cotidiana. Por isso, quem paga, de trabalho a domicílio e de rrabalho por salário são simplesmente formas
suas P?ssibilidades de se imporem em condições normais e cotidianas diferem, por de rrabalho, as primeiras duas no interesse da gestão do empregador, a úhima no
sua propna narureza, substancialmente daquelas das comunidades exrracotidianas ou interesse do empreendimento aquisitivo do empregador.
primordialmente orientadas por fatores extra-econômicos.
o decisivo não é, portamo o fato empírico, mas, sim, a possibilidade em princípio do
§ 27. Bens de capiral, em sua forma primitiva, aparecem tipicamente camomerca- cálculo material de capital.
darias na troca interlocal ou interérnica, pressupondo-se que o "comércio" esreja sepa-
rado da ob~enção ~e bens para fins de gestão patrimonial. Pois o comércio próprio § 28. Além de todas as espécies anteriormente tratadas de serviços especializados
das economias domesrlcas (venda ou troca de excedentes)não pode empregar um cálculo ou especificados existe, em roda economia de troca (também, normalmente, na material-
de capital separado. Os produtos das indústrias familiares, de clã ou de rribo, que mente regulada), a mediaçio na rroca de poderes de disposição, próprios ou alheios.
entram na troca interétnica, são mercadorias; os meios de obtenção, na medida em Esta pode ser realizada
que continuam sendo produlOs próprios, são instrumentos e matérias-primas, e não 1. pelos membros do quadro adminisrrarivo de associaçÕES econômicas, por re-
bens de capital. O mesmo se aplica aos produtos destinados à venda e os meios de muneração fixa ou graduada, segundo o serviço presrado, em espécie ou em dinheiro;
obtenção dos camponeses e dos senhores feudais, desde que sua gestão econômka 2c por uma associação criada propriamente para atender às necessidades de troca
não apresente cálculo de capital {mesmo em suas formas mais primitivas, das quais dos membros de uma cooperativa (forma cooperativista), ou
já há exemplos na época de Catão} É evideme por si mesmo o fato de que todos 3. como atividade aquisitiva profissional, por remuneração, sem aquisição pró-
os movimentos de bens internos, dentro do circulo do senhorio territorial e do oilws pria do poder de disposição (forma de agência), em formas jurídicas bem diversas;
inclusive a troca interna ocasional bem como a típica de produtos, representam o conrrá: 4. como atividade aquisitiva profissional de natureza capitalista (comércio pró-
rio de uma economia baseada no cálculo de capitaL Também o comércio do oikos prio): por compra atual na espera de uma venda lucrativa no futuro ou venda a prazo
(por exemplo, do faraó), mesmo que não se destine exclusivamente à satisfação das futura na espera de compra lucrativa anterior; e isto
necessidades próprias - não se referindo, portanto, apenas à troca com vista ao orça- ~ a) Iivremenre no mercado, ou
mento da gestão patrimonial -, mas servindo em parte para fins de aquisição não b) materialmente regulado;
é capitalista no semido dessa terminologia enquanto não pode orientar-se pelo dlculo 5 por expropriação indenizada e continuamente regulada de determinados bens,
de capital, especialmente pela estimativa prévia em dinheiro das possibilidades de lucro. e venda - livre ou forçadamente imposta - destes, por parte de uma associação
! política (comércio forçado),
Isto só ocorreu no caso dos comercianres profissionais viajantes, ranto faz se vendendo I
mer~adoriaspróprias ou pertencentes à commenda ou i untadas por vários proprier:ários.
AqUI, na forma do empreendimento ocasional, está a origem do cálculo de capital I 6. por oferecimento profissional de dinheiro ou obtenção de crédito para paga-
mento de obrigaÇÕES surgidas em empreendimentos aquisitivos ou aquisição de meios
de obrenção, por meio de concessão de crédiro a
e da qualidade de bens de capiral. Pessoas utilizadas como fome de renda pelo senhor
sobre o corpo ou sobre o solo (escravos, servos) ou instalações de rodas as espécies,
utilizadas para o mesmo fim, são evidentemente objetos patrimoniais suscetiveis de
I a) economias aquisitivas, ou
b) associações (particularmente políticas}. negócio de crédito. O sentido econô-
proporcionar rendas, e não bens de capital, do mesmo modo que hoje (para a pessoa mico pode ser
paC!ieular interessada na oportunidade de renda e, excepciorullmenre, numa especu· 1 a) crédito para pagamento, ou
fJ) crédito para obtenção de bens de capiraL
laça0 ocasional- em oposição ao investimento temporário de capital de exploração) I
I
II
_.L~
104 MAXWEBER ECONOMIA E SOCIEDADE 105
Aos casos 4 e 5, e somente a estes, chamamos "comérdo"; ao caso 4, comereo tóes patrimoniais de "consumidores", incluindo-se, naturalmente, todas as espécies
H
"livre", e ao caso 5, "comércio monopólico forçado de associações, particularmente as políticas.
3. comérdo entre diversas economias aquisitivas.
Qlso 1: a)em economias com gestão patrimonial - principescas, senhoriais ou monástiGl5: Os casos 1 e 2 correspondem ao conceito de " comércio a varejo", o que significa:
negoej;1tores e aaores; b) em economias aquisitivas: "comissários" (representantes} venda a consumidores (sendo indiferente a procedência das mercadorias}, o caso 3
Caso 2: cooperativas de compra e venda Ondusive as "cooperativas de consumo"} corresponde ao conceito de "comércio por atacado" ou ..entre comerciantes".
Caso 3: corretores, comissionados, expedidores, agentes de seguros e outros "agemes",
O comércio pode realizar-se
caso 4: a) comércio moderno; a) em relação a um mercado, isto é,
b) fixação heteronomameme imposta ou autonomameme paCluada da compra de - ou
venda a - determinados clientes, ou da compra ou venda de mercadorias de determinada espécie, a) no mercado para consumidores, normalmente em presença das mercadorias
ou regulação material das condições de troca através de ordens estabelecidas por uma associação (comércio a varejo no mercado), ou
política ou cooperativista. (3) no mercado para economias aquisitivas,
Caso 5: exemplo: monopólio estatal do comércio de cereais. ao:) em presença das mercadorias (comércio de [eira);
!,
. t na maioria das vezes, mas não necessariamente sazonal.
§ 29. O livre comércio próprio (caso 4) - e somente trataremos deste, por ora i
- é sempre "empreendimento aquisitivo", nunca "gestão patrimonial", e, portanto, f f3f3) em ausência das mercadorias (comércio de bolsa},
em condições normais (ainda que não inevitavelmeme~ uma atividade aquisitiva, me-
diante a troca, efetuada em dinheiro, a qual toma a forma de contratos de compra Ii Na majoria das vezes, mas não necessariamellle, permanente.
e de venda. Mas pcxJe ser também I
a) "empreendimenlO acessório" de uma gestão patrimonial, ! b) em relação a clientes, abastecendo-se um círculo fixo de compradores, isto é,
a) gestões patrimoniais (comérdo a varejo com clientes), ou
por eJ{emplo, troca dos excedentes do artesanato doméstiro efetuada por membros da gestão
! f3) economias aquisitivas e, nesse caso,

I
patrimonial designados propriamente para essa tarefa e negociando por conca própria. Ao comrá- ali') produtoras (atacadistas), ou
rio, uma troca efetuada ora por estes, ora por aqueles membros da gestão patrimonial nem f3(3) varejistas (também atacadistas), ou
chega a constituir um "empreendimemo acessório". Quando os membros em questão se ocupam, 'l'Y) outras distribuidoras, de "primeira" mão, "segunda" etc., dentro do comér-
por conta própria, exdusivamente com a venda (ou compra) de produtos, temos o caso 4 (em cio por atacado (comércio entre atacadistas},
forma modificada); quando negociam por conta da comunidade, temos o caso I. Dependendo do local de procedência dos bens vendidos, o comércio pode ser:
a) comércio interlocal, ou
b) componente inseparável de um serviço global, O qual, por meio de trabalho b) local.
próprio, produz determinados bens prontos para o consumo (no local de produção) O comércio pode impor materialmente
a) sua compra às economias que costumam lhe vender seus produtos,
EJ{emplo: Os vendedores ambulantes e os pequenos comerdantes que viajam junro com b) sua venda às economias que costumam comprar dele.
as mercadorias e realizam primordialmente a deslocarão dos produtos ao local de mercado O caso a está próximo à forma em que o empresário-comerciante procede por
e que, por isso, foram antes mencionados n;J categoria de "transpone". Os comerciantes viajantes encomenda na indústria domiciliar, e muitas vezes idêntica a esta.
da commenda constituem, às vezes, um caso de lransição para o caso 3. A questão de quando O caso b é o do comércio materialmente "regulado" (tópico 4, b)
é "primário" o serviço de transporte e secundário, O "lucro comercial" e vice-versa é totalmente A venda própria de bens é naturalmente elemento de todo empreendimento aquisi·
fluida. Em lodo caso, trata-se, em todas estas categorias, de "comerciantes". tivO orientado pelo mercado, mesmo dos primoI'dialmente "produtores". Mas esta ven·
da não é "mediação" no sentido de nossa definição enquanto não existem determinados
O comércio próprio (caso 4) realiza-se sempre sobre a base da apropriação dos membros do quadro administrativo especialmente encarregados dessa tarefa (por exem-
meios de obtenção, mesmo que o poder de disposiÇão seja obtido por meio de crédito. plo, agentes de venda), isto é, enquanto não se realiza um serviço profissional próprio
Para o comerciante no comércio próprio, o risco de capital é sempre risco próprio, \
com caráter "(;()merdal", rodas as transições são totalmente fluidas
e em Virtude da apropriação dos meios de obtenção, sempre está apropriada por ele Chamamos "especulativo" o cálculo do comércio, na medida em que se orienta h
a oportunidade de lucro. por probabilidades ruja realização se considera "casual" e, nesse sentido, "incalcu·
II
A especificação e especialização dentro do livre comércio próprio (caso 4) é possí- lável", significando, por Isso, um "risco" que se aceita. A transição entre o cálculo I
vel sob aspectos muito diversos. Economicamente inteI'essam, por ora, apenas osseguin- racional e o especulativO (nesse sentido) é totalmente fluida, uma vez que nenhum
tes tipos: cálculo referente ao futuro está objetivamente assegurado contra" evenrualidades" ines-
a) segundo a natureza das economias com as quais o comerciante entra em rela- peradas. A diferença refere-se, portanto, apenas a graus diversos de racionalidade.
ções de troca: A especialização e especificação técnica e econômica de serviços, no comércio,
I. comérdo entre unidades de gescão patrimonial com excedentes e unidades nào oferece nenhum fenômeno peculiar. À "fábrica" corresponde - em virtude do
de gestão patrimonial consumidoras. grau extremamente elevado de especialização interna de serviços - a "loja de departa-
2. comércio entre economias aquisitivas ("produtores" ou "comerciantes") e ges- mentos...
1.• ·.'".·
n' 106
MAXWEBER ECONOMIA E SOCIEDADE 107

monetária escolhida para determinado território diame de mudanças no valor material


h
'ir
t'
§ 29 a. Chamamos bancos aquelas classes de empreendimentos aquisitivos comer·
ciais que profissionalmente
a) administram ou
do dinheiro, assegurando, assim, contra "perturbaÇÕes" por irracionalidades (mate-
riais), os cálculos econômicos (fortrullmente) racionais das gestões patrimoniais e, sobre-
I," b) proporcionam dinheiro. lUdo, da associação política, além daqueles das economias aquisitivas. Particularmente
procura-se sempre manter estãvel o preço do dinheiro próprio em relação ao dinheiro
f: Com respeito a a, administram dinheiro . . _ ,
a) para gestões patrimoniais particulare~ (depóSItos para fInS de gestao, depósItos de outrOS territórios monetários com os quais existem ou são desejadas relações comer-
ciais e de crédito ("câmbio estivel", "paridade monetária"). A essa política dirigida
de patrimônio),
(3) para associações políticas (tesouro público de Estados\ contra as irracionalídades do sistema monetário denominamos ''polícica lílriC3" (segun-
-y) para economias aquisitivas (depósitos de empresas, cooras correntes das mes- do G.F Knapp) No "Estado de direito" puro (Estado de laissez-faire), ela constitui
a medida político-econômica mais impottante, dentre as que este assume de modo
mas). típicoc Em forma racional, é absolutamente peculiar do Estado moderno.
Com respeito a b, proporcionam dinheiro .. ~
a) para necessidades de gestão patrimonial: , As medidas tomadas pela política chinesa referentes às moedas de cobre e às not35 de
aa) de pessoas particulares (crédito de consumo), i papel, bem como as da política monetária rui Anliguidade romarul serão mencionadas no lugar
f3fJ) de associações políticas (crédito político}, adequado. Não constituem poIJlica lílrica em sentido moderno Apenas a política de dinheiro
f3) para economias aquisitivas: bancário dos grêmios chineses (o mesmo modelo da política hamburguesa do marCo bancário)
era) para fins de pagamento a terceiros: era racional em nOSSo sentido
erera) letras de cimbio em dinheiro,
131313) endosso ou transferência bancária; . _ . Denominamos negócios financeiros todos os negócios - sejam estes realizados
f3f3) como adiantamento destinado a pagar obngaçoes futuras de clientes. caso por "bancos" ou por outras pessoas ou instituições (corno atividade aquisitiva ocasional
principal: o desconto de letras de câmbio; ou acessória, por pessoas particulares, ou corno componente da política de especulação
n) para fins de crédito de capital. de um "financiador") - que se orientam no sentido da obtenção de poderes de dispo-
É formalmente indiferente sição lucrativos sobre as possibilidades aquisitivas de empreendimentos:
1. se o dinheiro que adiantam ou põem à disposição de quem o pede ("conta a) transformando-se em valores os direitos a possibilidades aquisitivas apropria-
corrente") provém de fundos próprios, se exigem um penhor ou outra garantia por das ("comercíalizaç.io") e adquirindo-se estes valores ou diretamente ou através de
parte de quem precisa do dinheiro, ou empreendimentos "finanCiados" no sentido de c;
2. se mediante fiança ou de outra forma conseguem que terceiros concedam b) oferecendo-se (eventualmente, negando-se) sistematicamente crédico de aqui-
o crédilO. sição;
Na realidade, a gestão aquisitiva dos bancos costuma funcionar de modo que c) forçando-se (em caso de necessidade ou de desejo) a união de empreendi-
obtêm seu lucro concedendo créditos a partir de meios que eles mesmos receberam mentos até então concorrentes:
emprestados. a) no sentido de uma regu13çfio monopólica de empreendimentos com atividades
O dinheiro dado a crédito pode ser obtido pelo banco: iguais (criação de canéis\ ou
1) das instituições de emissão de dinheiro, adquirindo o banco a crédito parre 13) no sentido de uma união monopólica de empteendimentos até então concor-
dos estoques de metal ponderai ou de moedas, ou rentes sob uma direção, a fim de eliminar os menos rentáveis (fusão), ou
2) mediante criação própria de y) no sentido de uma união (não necessariamenre monopólica) de empreencli-
a) certificados (dinheiro bancário) ou mentos especialiZados com atividades complementares em sua5ucessio, numa "combi-
f3) meios de circulação (bilhetes de banco). Ou nação", [oul
3) dos depósitos de outros meios monetários, creditados a seu favpr por pessoas <'I) no sentido de pretender dominar, a paetirde um centro e mediante operações
particula res. de valores, empreendimentos com produção em massa (criação de rrustes), e - even·
Em todos os casos em que tualmente - de criar de forma organizada novos trustes para fins de lucro ou exc1l1Siva·
a) aceita créditos ou mente de poder (financiamento em sentido estrito)
b) cria meios de circulação
o banco está obrigado, desde que sua gestão seja racional, a cuidar de sua "solvência", "Negócios financeiros" são freqüencemente realizados por bancos e, em regra, muitas
isto é, de sua capacidade de fazer frente às exigências normais de pagamento, por vezes inevitavelmente, com a cooperação deles. Mas a direção está, na maioria das vezes, nas
meio de' 'cobertura", isto é, tendo à disposição uma quantidade suficientememe grande mãos de opendores na Bolsa (Harriman)ou de grandes empresários industriais (Carnegie); em
de dinheiro para pagamentos ou adaptando às obrigações os praws dos créditos que caso de cartéis, também muitas vezes nas m:ãos de grandes empresários (Kirdorf etc.); em caso
de "trustes", nas de "financistas" especiais (Gould, Rockefeller, Stinnes, Rathenau~ (pormenores
ele mesmo concede,
Em geral (mas nem sempre\ a observância das normas de solvência por parte mais adiante. )
dos bancos que emitem dinheiro (bancos emissores de ,?ilhetes) est41 ga~an!ida ~ ~egu­
!ações impostas por associações (grêmios de comerciantes ou assoClaçoes pohlJcas). § 30 O grau máximo de radonalidade formal do cálculo de capital nos empreen-
ES53S regulações costumam estar orientadas, igualmente, pelo fim de proteger a ordem
dimentOS de obtenção pode ser alcançado nas condições seguintes:
; · -·
f ,~'
;"'f •

108 MAXWEBER

1. apropriação completa, pelos proprietários, de todos os meios materiais de


obtenção e ausência completa de apropriação formal das possibilidades aquisitivas no
iIr ECONOMIA E SOCIEDADE

mais imponantes dessa utilização são as planal1ions cartaginesas, romanas, algumas coloniais
e as none-am~rican_as, além ~s "fábricas" russas. O esgotámento do mercado de escravos (em
109

vlrrude da paClftcaçaodo Im~en.o) ClUSOU a contração das plancations na Anliguidade, na América


mercado (liberdade no mercado de bens~
2. autonomia total dos proprietários na seleção dos diretores, isto é, ausência
completa de apropriação formal da direção (liberdade de empreendimento ~
f do Norte, 3 meSma cJrcunslanCla levou à procura condnua de novas terras mais baratas dado
não ser possível, ao lado da dos escravos, uma renda do solo, na Rússia, as fábricas com es~ravos
3 ausência completa de apropriação dos postos de trabalho e das possibilidades -f suportavam com dificuldade a concorrência do kuscar (indústria caseira1 mas de modo algum
a daquelas base~das no trabalho livre - sendo que, já antes da emancipação, continuamente
aquisitivas por parte dos trabalhadores e, inversamente, dos trabalhadores por parte pediam permlssao para libertar seus trabalhadores - e desapareceram com a introdução do
dos proprietários (trabalho livre, liberdade no mercado de trabalho e na seleção dos trabalho de ofjcina livre.
trabalhadores}, Em caso de emprego de trabalhadores assal1riadQ5; a) são menores o risco e o dispéndio
4 ausência completa de regulações materiais de consumo, obtenção ou preço, de capJlal; b) fICa sob a responsabJlldade do trabalhador o ônus da reprodução e da criação
ou de outras ordens que possam limitar a estipulação livre das condições de troca dos filhos, sendo este e <? conluge, por sua vez, obrigados a "procurar" serviço; c) em razão
Sliberdade material de contratos econômicos}, dISSO, o medo da demlssao posSIbilita a realizaçào do ótimo de rendimento; á) existe seleção
5 calculabilidade total das condições técnicas de obtenção (técnica mecanica- segundo a capacidade e a disposição para O trabalho.
mente r2.cional}, ,. 2. Com!eSpeito ao tópico 7: a separação, na Inglaterra, entre a exploração por arrenela.
6. calculabilidade total no funcionamento da ordem administrativa e jurídica, tanos, com calculo de capnal, e a propried:rde das terras fideicomissariamente vinculada não
ê um fenômeno casual, senão expressão do desenvolvimento que ali se deu há séculos, sem
e garantia confiável puramente formai de todos os acordos por parte do poder político
illterferé.~cia alguma Çfalta de proteção ao camponês, em conseqüência da situação insular).
(administração e direito formalmente racionais), Toda UnIao da propnedade do solo com seu culrivo transforma o solo num bem de capital
7. o máx:imo possível de separação entre a empresa e seu destino, por um lado, da e,conoffila. Aumcma, assim, 2 necessidade e o risco de capital, obstrui a separação entre
c a gestão patrimonial e o destino do patrimônio, por outro, particularmente entre gestao orçamentária e empresa (as indenizações aos co-herdeiros pesam sohre a empresa como
a disponibilidade e a solidez do capital das empresas e o património dos proprietários dívidas), impede a liberdade de movimento do capital do empresário e, por fim, onera, Ocálculo
e o destino que este pode experimentar em virtude de herança. Para grandes empreendi- de capital com fa~ores i:racionais. Formalmente, portanto, a separação entre a propriedade do
mentos, este seria, em geral, o caso {orma/menre ótimo: 1) nos empreendimentos solo e a exploraçao agncola corresponde à racionalidade das empresas COm cálculo de capital
e1aboradores de matéria-prima, de uaruporte e de mineração, na forma de sociedades (a avaliação material do fenômeno é um assunto à parte, que pode dar result.ados bem diversos,
por ações, sendo e:otas livremente alienáveis, com garantia de capital e na ausência dependendo do ponto de vista que se adote).
da responsabilidade pessoal, e 2)na agricultura, na forma de arrendamento a (relativa-
mente) longo prazo; § 31. Na orientação "capitalista" das atividades aquisitivas (isto é, que, em caso
8. o máximo possível de organização formalmente racional do sÍscema monecário. de procedimento racional, baseia-se em cálculo de capita!), há tendências típicas distintas
entre si por sua própria natureza:
Apenas alguns poucos pomos (já mencionados anteriormente) precisam aqui de comen- 1. Orientação: a) pelas oportunidades de rentabilidade na compra e venda contí-
t~rios. nuas no mercado ("comércio"1 em caso de troca livre (formalmente: não forçada;
I. Com respeito ao tópico 3 o trabalho dependente (especialmente a escravidão lOtai) per- materialmente: pelo menos relativameme voluntária); b) pelas oportunidades de renta-
mitia a disposiçào formalmente mais ilimilaela sobre os trabalhadores do que seu emprego por bilidade em empreendimentos de obrenção de bens, com cálculo de capiral.
salário Só que a) a necessidade de capital a ser investido em propriedade humana, para compra 2 Orientação pelas oponunídades de aquisição: a) por meio de comércio e especu-
e alimentação dos escravos, era muito maior do que no caso de trabalho por salário; b) o risco
de capital, neste caso, era especificamente irracional (condicionado em grau mais elevado do lação com dinheiro, realização de pagamentos de todas as espéCies e oblenção de meiOS
que no ClSO de trabalho assalariado por circuI15tãncias extra· econômicas de todas as espécies, de pagamento; b) por meio de concessão profissional de créditos: a) para fins de coruu-
particularmente porém e em grau extremo por CalOres polítiCOS}, c) era irracional o balanço mo; (3) para fins aquisitivos.
do capital em forma de escravos, em virtude elas flutuações no merc.do de escravos e, conseqüen- . 3. Orientação pelas oportunidades de obter despojos atuais de associações ou
temente, dos preços; cf) era irracional também e sobreludo, pela mesma causa, sua comple- pessoas políticas ou politicamente orientadas: financiamento de guerras ou revoluções
mentação e recrutamento (politicamente condicionado}, e) pesava sobre o emprego dos escravos, ou financiamento de chefes de partidos políticos por meio de empréstimos ou forneci-
quando foiloleraela a convivência destes com suas famílias, o ônus dos custos de alojamento mento de bens materiais.
e sobretudo da alimentação das mulheres e ela criação dos filhos, para os quais não existia 4_ Orientação pelas oportunidades de aquisição contínua em virtude de dominação
em 'si uma possibilielade de utilização economicamente racional como força de trabalho; f) só imposta, garantida pelo poder político: a) de tipo colonial (aquisição mediante planta-
era possivel o aproveitamento pleno dos serviços dos escravos em caso de ausência das famílias rioflS com fornecimento forçado de produtos ou trabalho, comércio monopólico ou
e de disciplina rigorosa, o que ainda intensificava consideravelmente, em suá irracionalidade,
forçado}, b) de tipo fiscal (aquisição mediante arrendamento de cargos públicos ou
" .lcance do fator indicado no item ti}, g) não era possivel, de acordo com toda a experiência,
o emprego de trabalho de escravos com ferramentas e aparelhos que exigiam em alto grau do direito de arrecadar impostos, seja na metrópole, seja nas colônias)
rcspoosabilidade e interesse próprios; h) faltava, sobretudo, a possibilielade de seleção - contra- 5. Orientação pelas oportunidades de aquisição mediante fomecimemos extraor-
tação após teste com máquin:l - e de demissão, em caso de oscilações coníunturais ou desgaste~ dinários de bens a associações políticas.
A empresa escravista só foi rentável em caso de: a) possibilidade de alimentação muilC 6_ Orientação pelas oportunidades de aquisição: a) por transações puramente
bar:rra dos escravos, b) disponibUidade regular de escravos no mercado; c) grandes exploraçõe~ especulativas em mercadooas tipificadas ou participação, em forma de títulos, em em-
awicolas com caráler de planracion ou manipulações indUStriais muito simples. Os exemplo~ preendimentos; b) por realização contínua de negócios de pagamento para associações I·

~
:
I~
f
'.,'"-
110 MAXWEBER
j
"

.;;;.

"
.~
-'!i
ECONOMIA E SOCIEDADE 111
~':'-1!
públicas; c) por financiamento de !undações de empreen?imentos, vendendo-se tímlo,s :~;~ Características próprias da economia mcxlerna, além do empreendimento racional
a investidores angariados; d) por finanCIamento especulativo de empreendimentos caPI- "'f capitalista, são: 1) o modo de organização do sisrema monetário, e 2) o modo de comer-
talistas e da constitllição de associações econômicas de todas as espécies, com o fim
de regular, de forma rentável, a gestão aquisitiva destas, ou de obter poder.
.rÍ cialização da participação em empreendimentos mediante títulos. Ambas as coisas devem
ainda ser examinadas. Começamos com o sistema monetário.
Os casos de números 1 e 6 são, em grande parte, peculiares do Ocidente. Os ,I
(
demais (2 aS) encontram-se no mundo inteiro há milhares de anos, verificados sempre § 32. 1. O Estado moderno mantém
onde ocorressem as possibilidades de troca (2) e economia monetária, e (nos casos a) sempre o monopólio da organização do sistema monetário, por meio de esta-
3 aS) financiamento em dinheiro. Como meios de aquisição, estes casos apenas local turas;
e temporariamente (particularmente: em tempos de guerra) alcançaram no Ocidente b) em regra, com pouças exceções, o monopólio da criação (emissão) de dinheiro, ~J'
a importância preeminente que lÍveram na Antiguidade. Sua freqüência diminuiu tam- pelo menos no que se refere ao dinheiro metálico
bém ali onde se deu a pacificação de grandes territórios (impérios unitários: China
'" a última fase do Império Romano ~ de modo que, como formas de aquisição capitalista,
[1]. Decisivos para essa monopolização foram inicialmente motivos purameme fiscais (ga-
sobraram somente o comércio e os negócios com dinheiro (tópico 2). Pois o financia- nhos provmdos da cunhagem) Por isso - o que deixamos de bdo por agora -, no irúcio,
mento Glpitalista da política foi por toda parte prcxluto: proibiçiio de dinheiro estrangeiro.
a) da concorrência entre os Estados pelo poder, e 2. A monopolização da criação de dinheiro não foi geral, até a atuaüdade (em Bremen,
b) condicionado por isso, da concorrência pelo capital disponível. Esta situação ames da reforma monetária, circulavam como dinheiro COrrente moedas estrangeiras) .,.. .i:
só terminou com a formação dos impérios unitários.
Além disso,
Pelo que eu me recordo, este pomo de vista foi exposto de forma mais clara, até agora,
por J.
Pl.!1<GE (Von der Diskonepolieik zur Herrsch:1ft über den Geldmarke, Berlim, 1913). Cf.
c) ele é em Virtude da importância crescente de ~eus impostos e empreendimentos
ames somenle minhas exposições, no anigo "Agrargeschichte, A1tenum", em Hw. d. SrW, 3~ econômicos próprios,
ed, vaI. 1[1909]. 0:) o maior recebedor de pagamentos e
fi) o maior efetuador de pagamentos, ou por meio das caixas próprias ou por
Apenas o Ocidente conhece empresas racionais capitalistas com capical fixo, traba- meio daquelas que operam por sua conta (chamamos ambas, em conjunto, "caixas
lho livre e especialii:ação e coordenação racionais do trabalho, bem Como uma distri- regimentais" ).
buição de serviços orientada puramente pelos princípios da economía de troca e reali· Mesmo prescindind~se dos pontos a e b, é, portanto, segundo o ponto c, de
zada sobre a base de economias aquisitivas capitalistas. Isto é: a forma capitalista da importância decisiva para um sistema monetário moderno o componamento das caixas
organizaçâo do rrabalho, formalmente de caráter puramente voluntário, como modo estatais em relação ao dinheiro; sobretudo, por um lado, a questão de qual é o tipo
típico e dominamede provimento das necessidades de amplas massas, COm expropriaçâo de dinheiro de que estas efefivamente (de modo "regimental"):
dos trabalhadores dos meios de obtenção e apropriação dos empreendimentos por 1) dispõem, isto é, podem entregar, ou
parte dos possuidores de títulos. Somente o Ocidente conhece o crédito público em 2)impáem ao público, como dinheiro legal,
forma de emissão de títulos rentáveis, a comercialização de títulos e os negócios de e, por Outro, a questão de qual é o tipo de dinheiro que efecivamenre (de modo
emissão e financiamento como objetos de empreendimentos racionais, o comércio em regimental):
bolsa de mercadorias e títulos, o "mercado monetário" e o "mercado de capital", 1) aceitam, ou
as associações monopolistas como formas de organização racional conforme os príncí- 2) repudiam, tOlal ou parcialmente
pios da economia aquisitiva, para a produção empresarial de bens (e não apenas para
a comercialização dos mesmos). Parcialmente repudiado está, por exemplo, o papel-moeda, quando se exige o pagamento
Esta diferença requer uma explicação, que não pode apoiar-se exc1usivamenre de taxas de alfândega em ouro; toralmente repudiados foram (pot fim) por exemplo, os 3"sign3/5
em argumentos econômicos_ Concebemos aqui o conjunto dos casos 3 a 5 como de da revolução francesa, o dinheiro dos estados secessionistas c as emissões do governo chinê.'
capitalismo politicamente orientado. Todas as exposições que seguem referem-se, antes durante a rebelião de Taiping.
de mais nada, também a esse problema. Em geral, só cabe observar o seguinte:
1. É claro, em primeiro lugar, que os acontecimentos po]ilicamente orientados, o dinheiro s6 pode ser definido como legal quando se trata de um ·'meio de
que oferecem essas possibilidades de aquisição, têm, economicamente considerados pagamento estabelecido pela lei" que todos - e também e sobretudo, portanto, as
- do ponto de vista da orientação pelas oportunidades de mercado (trarando-se de caixas estatais - estão obrigados a aceitar e dar em pagamento, seja até determinada
necessidades de consumo de gestões patrimoniais)- caráter irracional. quantidade, seja ilimitadamente. Como regimental pode ser definido o dinheiro que
2. Do mesmo modo é evidente que são irracionais as oportunidades de aquisição as caixas do governo aceitam e impõem; dinheiro legal obrigatório é especialmente
puramente especulativas (2 a e 6 a) e o crédito exclusivamente para fins de consumo aquele que estas caixas impõem.
(2 b, 0:), no que se refere à satisfação de necessidades e às economias produtoras de A "imposição" pode ocorrer:
bens, por estarem condicionados por constelações casuais de propriedade ou de merca· a)em virtude de autorização legal, existente há muito tempo, para fins de política
do, e que também JXXIem ser irracionais, em certas circunstâncias, porém não necessa- monetária (táleres e moedas de cinco francos depois da suspernão da cunhagem de
riamente, as probabilidades de fundação ou financiamento de empresa (6 b, c e d). prata - ainda que, como.é sabido, ela não tenha ocorrido),
,
i

I"
112 MAXWEBER ECONOMIA E SOClEDWE 113
b) em virtude de insolvência em outros meios de pagamento, a qual leva à situação o pomo de referênda do pagamento legal dessas dívidas é a fixa unidade nominal
de de dinheiro (mesmo que talvez tenha mudado a matéria do dinheiro) ali, em caso
a) só agora ser preciso fazer uso, de modo regimental, daquela autorização legal, de variação da unidade nominal, a "definição histórica". Além disso, a pessoa particular

• ou considera hoje a unidade nominal de dinheiro como alíquota de sua renda nominal


f3) criar-se ad hoc unu autorização formal (legal) para a imposição de um novo
rW'i') de pagamento (o que quase sempre acontece quando se passa de dinheiro metálico
para papel-moeda)
I
I
em dinheiro, e não como peça cartal, metálica ou de papel.
O Estado, por meio de sua legislação e de seu quadro administrativo, pode, de
fato, mediante comportamento efetivo (regimental), dominar formalmente o "sistema
• No últimu caso (n, f3), o processo é, em regra, o seguinte: um meio de circulação
até esse momento conversível Oegalmente ou de fato), e que, se já antes podia ser
monetário" vigente no território monetário que governa.

• legalmente imposto, o é, agora, de fato e se loma eferivamente inconversível.


Legalmeme, um Estado pode declarar qualquer tipo de objeto como "meio de
Este é o caso quando o Estado opera com meios administrativos modernos. A China, por
exemplo, não o conseguiu. Nem nas épocas anteriores, porque os pagamentos "apocêntricos"
• [>agalllelllu estabelecido pela lei", e qualquer objeto cartal pode ser declarado "dinhei- e "epicêmricos" efetuados ou recebidos' 'pelas" caixas estatais eram insignificantes em relação

,• ro" no ~entidü de "meio de pagamento". E estabelecer, para esses objetos, tarifas ao tráfico global. Nem nos úlrimos tempos: parece que não conseguiu transformar a prara em
.juahquu de valor - em caso de dinheiro de tráfico, relações intermonetárias - como dinheiro limitado com reserva de ouro, uma vez que não tinha meios sufjciemes para impedir
ihe convIer. a falsificação, que nesse caso cenamente ocorreria.

t Qua mo às perturbações formais do sistema monetário legal, o que o Estado difidl- No entanto, não há somente dívidas (já existentes), mas também trocas atuais
mente ou dc modo algum pode [suprimir] é: e contração de novas dívidas, que existirão no futuro. Esses atos orientam-se primordial-

•t a) em caso de dinheiro administrativo: a falsificação então quase sempre muito


rentável,
b) em caso de dinheiro metálico de todas as espécies:
mente pela qualidade do dinheiro como meio de troca [capítulo lI, § 6] - o que significa:
pela possibilidade de o dinheiro ser aceito, no futuro e em certa relação de preço
(aproximadamente eStimada), em troca de bens de espécie determinada ou indeter-
minada, por parte de número indeterminado de terceiros

•• a) a utiliza~'ão extramonetária do metal como matéria-prima, quando esses produ-


tos têm preços muito elevados; isto lhe é particularmente difícil quando a relação mone-
tária é desfavorável para o metal em questão (veja y},
{3) a exportação para outros territórios com relação monetária mais {,wor:ivel
L Orienlam-se tllmbém, em cenas circunstãncias, primordialmente pela probabilidade
de poder pagar com esle dinheiro dívidas prementes que existem para com o Estado ou pessoas
particulares. Mas um lal caso é, aqui, de signifjcação secu ndária, uma vez que pressupõe uma
(quando se trata de dinheiro de tráfico},
"siluaçio de necessidade".
y). a oferta de metal-moeda legal para fins de cunhagem, quando, em comparação 2. É neste ponto que começa a ser incomplela a "teoria estatal do dinheiro", de G.F.
ao preço de mercado, o dinheiro metálico foi tarifado em nível muito baixo em relação KN.", teoria que em todos os demais aspeclOs pode ser considerada "correta" e simplesmente
ao dinheiro corrente (metálico ou papel-moeda). brilhante, além de definitivamente fundamemal.
Em relação ao papel-moeda, a tarifação segundo a qual uma unidade nominal
metálica equivale a uma unidadc nominal de papel, com o mesmo nome, será demasia- o Estado, por sua parte, deseja o dinheiro que adquire mediante impostos ou
damente desfavorável para o dinheiro metálico sempre que se suspenda a conversi- outras medidas não somente como meio de troca, mas também, e freqüentemente
bilidade do meio de circulação: pois é isso que ocorre em caso de insolvência em com muita urgência, para pagar juros de dívidas. No entanto, seus credores querem
dinheiro metálico. ainda assim utilizá-lo como meio de troca e por iSSO O desejam. E quase sempre o
Relações monetárias entre diversas espécies de dinheiro metálico de rráfico podem próprio Estado o deseja também, e muitas vezes exclusivamente, como meio de troca
ser estabelecidas: para cobrir futuramente no mercado (em forma de economia de troca) necessidades
1) por tarifação do câmbio em cada caso panioular (sistema paralelo livre}, estatais de utilidades. Portanto, a qualidade de meiO de pagamento, por f1!-ais necessário
2) por tarífação periódica (sistema paralelo periodicamente tarifado), e que seja destacá-Ia como parte do conceito, não é a que define o dinheiro. Apossibilidade
3) por tarífação legal permanente (plurimetalismo, por exemplo: bimetalismo). de troca de determinada espéde de dinheiro, em comparação com outros bens definidos
- possibilidade que se baseia na estimatíva de seu valor em relação aos bens de mercado
Nos casos dos tópicos 1 e 2 acima, ocorre regularmente que apenas um metal é o metal- - denominamos validez material (em oposição'. I) à validez formal, legal, como meio
moeda regimental e efetiva (ru Idade Média: a prar.), enquanto que o Outro é moeda comercial de pagamento, e 2) à obrigação legal, muitas vezes existente, de utilização formal de
com câmbio tarifado (Friedrichsd'or, ducados) A diferenciação tOtal na utilização específica do determinado dinheiro como meio de troca} A estimaliv3 "material", como fato isolado
dinllciro de rnífico é rara nas sistemas monetários moderoos, mas foi freqüente anteriormente verificável, ocorre, em princípio: 1) apenas em relação a determiruldas classes de bens
(China, Idade Média) e 2) por parte de cada individuo, como estimativa baseada na utilidade marginal do
dinheiro para ele (segundo sua renda). É claro que essa utilidade marginal se desloca
2. Do ponto de vista sociológico, a definição do dinheiro como meio de paga- ~ para o indivíduo - com o aumenro da quantidade de dinheiro de que dispõe. Sendo
memo legalmente estabelecido e criação da administração" litrica" (dos meios de paga· assim, ela diminui, em primeiro lugar, para a instituição emissora, quando esta cria
memo)nãoé exaustiva. Baseia-se no "fa(Qde que existem dívidas" (G. F. Knapp), particu- dinheiro administrarivo, empregando-o de modo "apocêntrico" como meio de troca
larmente em forma de impostos devidos aos Estados e de juros devidos pelos Estados. ou impondo-o como meló de pagamento (não apenas, mas sobretudo nessa ocasião},
,
-D-.
114 MAXWEBER ECONOMIA E SOCIEDADE 115

em segundo lugar, para aqueles participantes na troca com o Estado em cujas mãos e no Japão, no passado, e atualmente em todos os territórios fechados uns para os
aumenta a quantidade de dinheiro em virtude da elevação de preços que lhes foi conce- outros por motivo de guerra) deix:J. de repercutir sobre os preços dentro desse território.
dida (de acordo com a estimativa diminuída da utilidade marginal, por parte da adminis- Também na utilização exclusiva como dinheiro administrativo regulado, essa forma
tração estatal} O "poder aquisitivo" aumentado, que assim adquirem - isto é, a utilida- de utilização monetária fixamente delimitada somente desempenharia um papel decisivo
de marginal do dinheiro diminuída, agora existente entre esses possuidores -, pode em caso de taxas de cunhagem extremamente elevadas, para acabar depois - pelos
levar, por sua vez, à aceitação de preços mais elevados nas compras deles e assim mesmos motivos da cunhagem particular livre - de forma semelhante.
por d.i3nte. Se, ao contrário, o ESlado retirasse de circulação pane das nOlas que retor-
nam a ele, isto é, se não a empregasse novamente (e a destruísse), teria de limitar O caso·limite teórico da monopolização de toda a produção do melaI, moeda e de sua
seus gastos de acordo com a estimativa da utilidade marginal, que então aumenta para elaboração - monetária e não-monetária - (o que se realizou temporariamente na China) não
abre, em caso de concorrência entre vária; territórios monetários e de emprego de trabalhadores
ele, de suas reservas diminuídas de dinheiro, baixando, portanto, em proporção corres-
assalariados, perspectivas tão novas como talvez seja possivel acreditar. Pois se, para lodos os
pondente, suas ofertas de preços. Nesse caso, a conseqüência seria precisamente o pagamentos apocêntricos, se empregasse o dmheiro metálico em questão, toda tentativa de limitar
contrário. Na economia de troca, pode ocorrer, ponanto, que o dinheiro administrativo a cunhagem ou de valorizá-Ia em nível muito alto para fins fiscais (o que, sem dúvida, propor·
(não apenas ele, mas em primeiro lugar) seja um fator modificador dos preços, dentro cionaria lucro considerável) levaria às altas taxas de cunhagem verificadas na China. O dJnheiro
de um território monetário isolado. seria, no inicio, muito "caro" em relação ao metal, sendo por isso a produção mineira (com
trabalho assa/ari.do) em grande pane pouco rentável. Com a ledução crescente desta, ocorreria
Não cabe examinar aqui quais são as classes de bens atingidas e quantO tempo leva esse então, ao contrário, o efeito de uma "contra·inflação" ("contração"1 processo que continuaria
processo. (como na China, onde levou temporariamente à liberação tOla I da cunhagem) até a passagem
para o emprego de sucedâneos de dinheiro e, por fim, para uma economia operando com bens
3 Universalmente considerado, o barateamento e o aumento da obtenção de em espéde (conreqüênda verificada nO país citado). Em caso de persL'tência da economia de
metal-moeda, ou, ao contrário, seu encarecimento e redução, poderiam ter conse- troca, a administração lítriça dificilmente jXJderia proceder, a longo prazo, diversamente ao
caso de elCistência legal de "cunhagem livre" - s6 que não se trataria mais de uma atividade
qüências semelhantes para todos os países que o empregam como dinheiro de tráfico. de "interessados", sobre cuja significação falaremos adiante. Em caso de socialização total, ao
A, utilizações monetária e extramonetária dw; metais existem lado a lado. Mas só no contrário, deixaria de existir o problema do "dinheiro" e dificilmente os metais nobres seriam
caso do cobre (China), a extramonetária foi por algum tempo decisiva para a estimativa objetos de produção.
de seu valor No caso do ouro, a cotaçáo equivalente na unidade monetária nominal
de ouro, descontado o custo da cunhagem, já foi considerada procedimento normal l.f
4. A posição dos metais nobres como metais-moeda e matéria de dinheiro, desen- 1'.1· I
desde o momento em que se tornou meio de pagamento inrercambiário e, ao mesmo volvida Iústoricamente a partir de sua função de adorno e, por isso, de bem tipicamente
tempo, dinheiro de tráfico no território monetário dos Estados mercantis mais impor- utilízado como presente, está condicionada, prescindindo-se da qualidade puramente ,,,',i li'
..
tantes, como ocorre em nosso tempo. No caso da prata, ocorreu o mesmo e, em circuns- técnica destes metais, por sua qualidade de bens trocados especificamente com base I~:i ~. ,
tâncias iguais, ocorreria ainda hoje. Um metal que náo seja meio de pagamentointercam- no peso. A conselVaçáo dessa posição não é evidente por si, uma vez que hoje, tratan- Ir'.,. 11J
biário, mas dinheiro de tráfico para alguns territórios monetários será cotado, natural- do-se de pagamentos adma de 100 marcos (do valor de ames da guerra1 todo mundo J

~.
mente, como nominalmente igual à unidade nominal do dinheiro ali existente - mas costuma pagar e receber em notas (bilhetes de banco, sobretudo), mas deve-se a motivos
esta, por sua vez, tem uma relação intercambiária que varia de acordo com os custos de peso.
e a quantidade necessária de cunhagem complementar, e o chamado "balanço de paga· 5. Também a emissão de dinheiro em forma de notas, em todos os Estados modero
mento" (de modo' 'pantopólico") Por fim, o valor daquele metal nobre, que é universal· nos, não apenas legalmente ordenada como também monopolizada pelo Estado. Efe-
mente utilizado para a cunhagem regulada (e, portamo, limitada) de dinheiro adminis- tua-se ou sob direção própria deste ou por uma ou várias instituições emissoras privile-
trativo, sem constituir dinheiro de tráfico (mas, sim, dinheiro limitado - veja o pará- giadas e regulamentadas pelo mesmo mediante normas impostas e medidas de controle
grafo seguinte), é determinado primordialmente com base em estimativas extramo· . (bancos emissores}
netárias. O problema é sempre: se o metal nobre em questão pode ser produzido 6. Denominamos"dinheiro corrente regimentaf' somente aquele que as citadas
de modo rentável e em que quantidade. Em caso de desmonetizaçáo total, a solução caixas impõem de faro; outro dinheiro corrente, não imposto por estas, mas sim em
orienta·se unicamente pela relação entre os custos em dinheiro, estimados com base virtude do direito fonnal no tráfico entre pessoas particulares, é chamado, em nossa
em meio de pagamento intcrcambiário, e a utilidade extramonetária. Em caso de utiliza- terminologia, dinheiro corrente acessório. Aquele que, segundo a ordem legal, só pode
ção como dinheiro de tráfico universal e meio de pagamento intercambiário, ela orien- ser imposto forçadamente no tráfico entre pessoas particulares, até determinada impor-
ta-se, naturalmente, em primeiro lugar, pela relação entre os custos e a utilidade mone· tância máxima, denominamos dinheiro divisionário.
tária. Por fim, em caso de utilização como dinheiro de tráfico particular ou como dinhei·
ro adminJstrativo, a soluçáo orienta-se a longo prazo por aquela" demanda" expressada A terminologia se apóia nos conceitos de Knapp; e isso ocorre muito mais ainda no que
no meio de pagamento intercambiário, que supere em extensão considerável os custos. segue.
Quando se trata de utilizaçáo como dinheiro de tráfico particular, dificilmente esta
terá, a longo prazo, caráter monetário, uma vez que a relação intercambiária do territó- Denominamos "definitivo" o dinheiro corrente regimental, e "provisório" todo
rio em que vale apenas este dinheiro de tráfico particular terá ao longo do tempo, dinheiro que em qualquer momento possui caráter efetivo (quaisquer que sejam as
para este, a tendência a baixar, que somente em caso de isolamento absoluto (na China caixas) por ser conversível em "definitivo" mediante saque ou cãmbio" '1:
I,

116 MAXWEBER ECONOMIA E SOCIEDADE 117

7 É claro que, a longo prazo, o dinheiro corrente regimental é necessariamente moeda, apesar de não existir ainda hilodromia formal. Não obstante, o efeito era pelo menos
idêntico 30 efetivo, e não ao "ofidal" que eventualmente difira dele, tendo só validez semelhante.
legal. O dinheiro corrente "ef~vo':, por sua vez, é, conf~rme exposto antes (~pítulo
II § 6), ou 1) dinheiro de tráfico lIvre, ou 2) dmhelro nao regulado, ou 3) dinheIro Com referência ao que acabamos de dizer, denominamos direito monetário mono-
ad~jnistrativoregulado. Ai; caixas estatais não pagam por decisão livre, orientada apenas metálico a situação em que um metal (ouro, prata ou cobre, dependendo do caso)
por alguma ordem monetária que lhes pareça ideal, mas comportam-se conforme o é legalmente hilodrómico, e direito monetário plurimetálíco (bi ou rrimetálico)a situação
que lhes impõem: I) os interesses financeiros próprios; 2) os interesses de classes aquIsI- em que vários met2is s:io legalmente hilodrómicos. existindo entre eles relaçio mone-
tivas poderosas. . tária fixa; direito monetário paralelo é a situação em que vários metais são legalmente
Segundo sua forma cartal, o dinheiro efetivo dentro de um sistema monetário hilodrômicos sem que exista entre eles relação monetária fixa. Só falamos de "meral-
~~ .. ... .. ,.
A. DinhCJro meta1Jco. Somence o dInheIro metáltco pode ser dmhelro de trafico
livre Mas de modo algum tem necessariamenre essa função.
Ele .±:
I,
!
moeda" e de "sistema monetário metálico" (ouro, prata, cobre, paralelo, dependendo
do caso) com referênda àquele metal que, no caso em questão, é efetivamente hilodrô-
mico, isto é, "dinheiro de tráfico" efetivo (sistema monetário de dinheiro de tráfico).

I. dinheiro de tráfico livre, quando a administração Iítrica cunha toda quantidade "Legalmenre" exisriu bimetalismo em todos os Estados d<t união monetárJa latina até a
do metal-moeda ou troca-a por peças cartais (moedas} hilodromia. Dependendo do suspensão da cunhagem livre da prata, ap)i; a reforma monetária alemã. Em cad<t ClSO concrelO,
r metal-moeda efetivo era em regra - pois a estabilização, d<t relação linha um efeito tão forre
tipo do metal-moeda nobre, existe então um sistema de dinheiro de tráfico livre e que muitas vezes a mudança pas.sava despercebida, exislindo eferivamenle o "bimetalismo" -,
efetivo com padrão ouro, prata ou cobre. A decisão por parte da administração lítrica somente o metal tarífado em nível demasiadamente elevado, segundo a situação de mercado
de permitir ou não a existência eferiva de hilodromia não é livre, mas depende de
haver pessoas interessadas na cunhagem.
a) Ahilodromia pode, portanto, existir "ofiCialmente" semser "efetiva". Segundo I então existente, isto é, o único hilodrômico. O dinheiro feito de olltros metais se tornava "dinheiro
acessório". (No que se refere aos fatos, concordamos inteiramente com KN"",.) Como sistema
monetário efetivo, o "bimetalismo" é, portanto - pelo menos em caso de concorrência entre
o que dissemos, não é efetiva, apesar de existir oficialmente,
aa) quando, existindo hilodromia legal tarifada para vários metais (plurimeta·
lismo), um (ou alguns) destes está (estão) tarifado(s) em nível demasiadamente baixo
!
;
várias instituições cunhadoras autocéfalas e autônomas -, sempre uma situação apenas transitôria
e, de reslo, em condições normais, puramente "legal", porém não efetiva.
O falo de o metal avaliado em nível demasiadamente baixo não ser levado à instituição
em relação ao preço atual de mercado do metal bruto Pois, neste caso, os particulares cunhadora não é, naturalmente, uma situação "regimental" (causada por disposições adminis·
I lra.tivas~ mas conseqüência da siruação de mercado (sujXJnhamos, allcrada) e da persistênda
oferecem para a cunhagem somente o metal tarifado em nivel demasiadamente elevado,
das relações fixamenre determinadas. É cerro que a administração monetárJa poderia, com prejui·
e só este será empl'egado nos pagamentos. Quando as caixas públicas se retiram desse zo, cunhar o dinheiro como dinheiro administrativo, mas não poderia mantê-lo em drculação,
processo, "estanca"-se nelas o dinheiro com tarifação muito elevada até o momento uma vez que a utilização exlramOnelária seria mais rentável.
em que também a elas não restam outros meios de pagamento. Em caso de bloqueio
suficiente dos preços, as moedas de metallarifado em nível muito baixo, podem então § 33. 11. Denominamos dinheiro limitado todo dinheiro metálico não- hilodrômico
ser fundidas, ou vendidas a peso, como mercadorias, em tcoca de moedas de metal quando corrente.
tarifado em nível muito elevado; O dinheiro limitado drada:
bb) quando os pagadores - particularmente as caixas estatais - , em situação a) ou como dinheiro "acessório", isto é, tarifado em relação a outro dinheiro
de necessidade (veja 3a)- fazem uso contínuo e extenso de seu direito - formalmente corrente do mesmo território monetário, seja em relação a:
garantido ou usurpado - de impor outro meio de pagamento, metálico ou em forma aa) outro dinheiro limitado, ou
de notas, o qual não apenas tem caráter provisório como também: l)é dinheiro acessório (sfJ) um papel.moeda. ou
ou 2) era provisório, mas deixou de ser conversivel em conseqüência da insolvência rY) um dinheiro de tráfico;
da instituição da conversão. fJ) ou como dinheiro limitado "orientado de modo intercambtirio". Isto oc~rre
A hilodromia cessa sempre no caso 3a e nos casos bb I e sobretudo 2 quando quando, apesar de ele circular como dinheiro corrente exclusivo, dentro de seu terntono
se tem uma forte e contínua imposição das espécies de dinheiro acessório que não monetário, foram tornadas medidas para manter à disposição, para pagamentos em
são mais efetivamente provisórias. outros territórios monetários, meios de pagamento intercambiários (em forma de barras
No caso a3, aparece exclusivamente uma hilodromia do metal superrarifado, que ou de moedas - fundo de reserva inrercambiário) siscema monetário de dinheiro
é então o único dinheiro de tráfico livre, iSlO é, que representa um novo sistema metálico limitado intercambiário.
(de dinheiro de tráfico); nos casos bb, o dinheiro metálico' 'acessório" ou eventualmente a) Denominamos particular o dinheiro limítado quando, sendo o único corrente,
as noras que deixaram de ser provisórias de modo efetivo, tornam-se o dinheiro próprio nio está orientado de modo intercambiário.
do sistema (no caso 1, sistema de dinheiro limitado; no caso 2, sistema de papel-moeda).
b) A hilodrOplia., por outra parte, pode ser "efetiva" sem possuir validade "ofi· o dinheiro limirado pode ser tamado, em relação ao meio de pagamento intercambiário,
cial", por diSIXJSição jurídica. ou 3d hoc - em cada caso particular -. na compra de meios de pagamento intercambiários
ou "divisas", 00 - para os casos admissíveis - de modo geral e regimental.
Exemplo: A concorrência enlre os senhores cunhadores da Idade Média, condicionada (Com respeiro a .. e {J) dinheiro limirado tarifado de '?ad:?
cambiár!? eJ<l o tá,l,er ,e é
pllJ<lmente por mOlivos fiscais - interesse por cunhar, se possível, exclUSivamente o metal· a moeda de prata de cinco francos, ambos com caráter de dinheIro acess6f1o . Moedas onen-
r--1-18- -- MAXWEllER
J ECONOMIA E SOCIEDADE 119
~l

:11 tadas de modo intercambiário" <Pelo ouro) são os florins holandeses de prata (depois de serem § 34. B. Dinheiro em forma de notas é, naturalmente, sempre dinheiro adminis-
~i'j "particulares", por pouco tempo, após a proibiçio da cunhagem}, também têm hoje a mesma trativo. Para uma teoria sociológica, o "dinheiro" é sempre o título que apresenta
~~ ;
qualidade as fÚpias. Os "yuans" (dólares) chineses permaneceriam '''particulares'', segundo a determinadas formas carrais (inclusive a impressão, com determinado sentido formal),
ordenação monetária de 24 de maio de 1910, enquamo realmente n:1o existisse a hHodromia
que se deixou de mencionar no esraruto (uma orientação intercambiária tal como a propôs a e nunC3 a "exigência" eventual- de mexia algum, necessária - que este representa
comissão americana, foi rejeitada) (por algum tempo tiveram essa qualidade OS florins holan- (e que falta por completo no caso do papel-moeda puro, inconversível).
deses; veja acima.) Do ponto de vista jurídico formal, pode ser um título de dívida ao portador:
a)de uma pessoa particular (de um ourives, por exemplo, na Inglaterra do século
Do ponto de vista da economia privada, a hilodromia em caso de dinheiro limitado XVII);
b) de um banco privilegiado (bilhetes de banco),
seria muito rentável para os possuidores de metais nobres. Apesar disso (e precisamente
por isso decretou-se a limitação para evitar que, ao intrexluzir:se a hilodromia do metal c) de uma associação política (bilhetes do Estado).
que até então sen'ira de matéria para o dinheiro limitado, deixasse de existir, corno Quando é "efetivamente" conversivel, sendo, portanto, somente meio de circu-
nio rentável, a hilodromia do outro metal, tarifado agora em nível demaSiadamente lação e, por conseguinte, "dinheiro provisório", esse dinheiro pode estar:
1. plenamente coberto - certificado - ou
baixo em l-elação ao primeiro, empregando-se para finS extramonetários mais rentáveis
o estoque monetário do dinheiro fabricado desse metal, o qual passou a ser dinheiro 2. coberto apenas de acordo com as necessidades da caixa - meio de circulação
limitado obstruído (veja adiante) Em caso de administração Iítrica racional, o motivo A cobertura pcxIe estar regulada:
de se pretender evitar isso é a circunstância de esse Qulro metal ser meio de pagamento a) por meio de reservas de metal medidas pelo peso (sistema monetário bancário),
intercambiário. fi) por meio de dinheiro metálico.
b) É dinheiro de tráfico obstruído o dinheiro limitado (portanto, corrente) quan- Originariamente, o dinheiro em forma de notas foi emitido, em regra, como
do, comrariamente ao caso a, a cunhagem livre existe legalmente, mas é pouco rentável dinheiro provisório (conversível), nos tempos modernos, tipicamente, como meio de
do ponto de vista da economia privada e, por isso, não se realiza de fato. A falta circulação, e quase sempre como bilhete de banco, tendo, por isso, na maioria dos
de rentabilidade deve-se, nesse caso, considerando-se o preço de mercado, a uma rela- casos, o mesmo nome de urna unidade já existente de dinheiro metálico.
ção monetária demasiadamente desfavorável, para o metal, entre este e
1. É claro que a primeira parte desta última frase nào se refere aos casos em que uma
a) o dinheiro de tráfico ou
m o papel-moeda.
espécie de dinheiro em forma de notas foi substiruída por ouera nova. Pois, nestes, ruo se trata
de enússão origJfclria.
O dinheiro em questão foi alguma vez dinheiro de tráfico, ma'> determinadas 2 Com respeito à frase inicial do parágrafo B, sem dúvida pode haver meios de troca
circunstâncias tornaram irrealizável para a economia privada a possibilidade de hilodro· e de pagamento que não sejam cartais, portamo, nem moedas nem Eírulos nem oUlros objetos
mia efetiva. Essas circunstâncias são, no caso a, existindo plurimetalismo, variações materiais. Mas a estes não chamamos "dinheiro", mas - dependendo do caso - "unidade
na relação de preços no mercado; no caso {J, existindo monometalismo ou plurime- de cálculo" ou algo correspondente a sua qualidade peculiar. Pois a qualidade caraaerística
talismo, catástrofes financeiras, que impossibilitaram às caixas estatais o pagamento do "dinheiro" é que este está vinrulado a quantidades de artefatos carrais - qualidade que
em dinheiro metálico e a.s obrigaram a impor dinheiro em forma de notas e a suspender de modo algum é "acessória" e apenas "externa".
a conversão do mesmo. O dinheiro de que falamos não se emprega mais no tráfico
(pelo menos em caso de racionalidade). No caso da suspensão efetiva da conversão de dinheiro até emão provisório,
c) Além do dinheiro limitado corrente (chamado aqui simplesmente "dinheiro cabe distinguir se esta, do pomo de vista dos interessados, tem o valor de:
limitado" 1 pode haver dinheiro limitado division3rJo, de metal, isto é, de aceitação a) medida transitória ou
forçada como meio de pagamento em determinada quantidade limitada. Em regra, b) medida definitiva, ramada a longo prazo.
mas náo necessariamente, esse dinheiro é cunhado propositalmente "abaixo de seu No primeiro caso, costuma ocorrer um "deságio" dos meios de pagamento em
valor nominal", sendo desvalorizado em relação às moedas do sistema (para protegê-lo .forma de notas, em relação aos metálicos nomílUlmente iguais, uma vez que, para
contra o perigo de ser fundidol e, nesse caso, na maioria das vezes (nem sempre), todos os pagamentos íntercambiários, procura-se o dinheíro metálico ou as barras de
é dinheiro provisório, isto t, conversível em determinadas caixas. metal; mas esta náo é uma conseqüência absolutamente necessária, e o deságio costuma
ser moderado (mas também não necessariamente, já que aquela demanda pode ser
O caso faz parte da experiência cotidiana e não oferece interesse especial. muito aguda).
No segundo caso, desenvolve-se, depois de algum tempo, um sistema de papel·
moeda definitivo ("autógeno"). Não se pcxIe falar de "deságio", mas sim (historica-
Texlo dinheiro divisíonário e muitos tipos de dinheiro limitado metálico estão mente!) de "desvalorização".
muito próximos, no que se refere a sua posição dentro do sistema monetário, ao dinheiro
em forma de notas (hoje, papel-moeda), e só se distinguem deste pela utilização mais Pois é alé possível, nesse caso, que o metal-moeda daquele antigo dinheiro de tráfico,
ampla de sua matéria, circunstânda que tem pelo menos alguma impoft.:inda. Muito
próximo aos meios de circulação está o dinheiro limitado metálico, quando é "dinheiro
provisório", isto é, quando foram tomadas disposições suficientes para garantir sua
agora obstruído, ao qual se referiam originariameme as noras, sofra uma forre baixa de preço
no mercado - quaisquer que sejam as causas - em relaçio aos meios de pagamento intercam-
biários, enquamo que a baixa do papel-moeda pode ser insignificante. Aconseqüência é necessa-
Ij •
conversão em dinheiro de tráfico. riamente (e de fato foi, na Áustria e na Rússia) que, afinal, a antiga unidade de peso nominal
f. •
r.
.l- f
E,".
T·.'.-·
.~.

i ECONOMIA E SOCIEDADE 121


120 MAXwt:HEIl

(,'''''U) "'J:' ,·"ml'l'ad" '"..- uma quamia nominalmente "menor" das notas correspondeIlle5, as a "política Iítrica" é, hoje, conforme mostram os fatos, em primeiro lugar, política
'Illah C·lllll·f1U·llll·.. . ~.(. 1(1.'!1.;,II':.111 '·.:l'_IIl~enas·'. Coisa perfeitamente compreens1vel, pois. ainda íntercambiária.
'1"" .1 1.0;". """"I d" .""H'IU" plIl'O de Il<lpd·moeda significasse, provavelmente sem exceção,
"'".1 '.rI""".,I" ""..., I""", da IIllidade nominal de papel em relação à de prata de igual nome Também isto e o que segue estão complet3mente de acordo com a "teoria estatal" de
cons<::qüência de insolvência de fato - o desenvolvimento
I-' 'I"" ,..'....,. ',".11 '11'" "''''PH' é Kru.pp. O livro, tanlo pela forma quanto pelo conteúdo, é uma das grandes obras·primas da
,,11"1''''. 1'''' ""'1111'10. "" Áusrria e na Rússia, dependia: 1) dos chamad~ "balanços de paga- literatura alemã e um modelo da agudeza do pensamento científico. O olhar dos críticos, no
111/'llll I'·. 1IIIrli;UlIlll;IrI;II1l('nt(~regulados e que delenninam a procurai por pane do "exterior", entanto, fixou-se naqueles problemas (relativamente poucos, porém não sem importãncia) que
,I,' """"', <1(' 1'.1)::""<''''0 lutemos de um país; 2) da extensão das emissões de papel-moeda; ele deixou de lado.
\ I' I" ',u, ".',,, "Lo IIIsliluir;ào emissora em conseguir meios de pagamemoimercambiária (da chama-
01.1 """In li'" d,' d,vis",,") Esses três fatores puderam e podem coordenar-se ~ e, no caso citado,
,'" L,I" ,,( ,z<'ram -, de forma que a COlação do papel·moeda em qUeJitão, no "tráfico do mercado Enquanto que a Inglaterra ainda aceitou para si, no passado, o padrão-ouro quase
"",,,dial", isto é, em sua relação ao meio de pagamemo inlercambiário (hoje: ouro) desenvol- contra a prÓj)iia vontade, pOrque a prata desejada como metal-moeda estava tarifada,
Vl'll·.'" no sentido de urna estabilização crescente e de tendências temporárias à alta, enquamo na relação monetária, em nível demasiadamente baixo, para todos os demais Estados
que () am'!i0 melai-moeda, em relação ao ouro, foi cotado cada vez mais baixo, por causa: organizados e regulados de modo moderno foi precisamente esse o motivo de passar
,,) do aumento e barateamento da produção de prata; b) da desmonetização cresrente da prata. para o padrão-ouro puro ou padrão-ouro com dinh~iro de prata limitado e acessório,
No caso de um siSlema de papel·moeda3utêntico Call1ógeno'')ninguém conta mais com a "resti- ou para um sistema de dinheiro de prata limitado ou ~istema regulado de notas com
ruiç;io" efetiva da antiga relação de conversibilidade em metal. . (em ambos os casos) uma política lítrica dirigida à obteiição de ouro para pagamentos
no exterior, a fim de conservar urna relação intercambiária a mais estável possível
§ 35. Sem dúvida, a ordem jurídica e administração de um Estado, dentro do para com a moeda-ouro inglesa. Os casos em que se passou para um sistema puro
âmbito de seu poder, podem conseguir a validade formal legal e também a formal