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José

por Pôncio Arrupe


(Ficção curta)
José

É sabido, com precisão estatística, que o número de


pessoas em redor do leito de um moribundo é diretamente
proporcional ao dinheiro e bens detidos por ele – a herança
que deixará, portanto. O mesmo se pode dizer sobre a
qualidade afetiva e de cuidados médicos e outros que ao
pobre coitado serão proporcionados nessas circunstâncias
de passagem, seja esta certa ou eventual.
Que sensação de solidão deverá emergir na sua mente e
coração se um moribundo com fortuna material souber
desta verdade científica e não conseguir abstrair-se dela!
Mas, claro, tem sempre ao seu dispor o artifício mental
muito humano, tão usado por todos nós em diferentes
circunstâncias e a propósito de tudo e de nada, de se julgar
um caso especial e quase único, uma exceção a esta regra.
E, até, em pura tese, o nosso concreto e terminal paciente
poderá ser uma dessas raras exceções, mas nunca
alcançará o ensejo de o comprovar inequivocamente.
Jamais terá a oportunidade de demonstrar aos outros, e a si
próprio, o que seria o mais necessário e importante, que
quem o rodeia lá está por genuíno afeto, por verdadeiro
temor de perda, primordialmente por amor e desejo de lhe
amenizar aquela hora. É que as verdadeiras razões e
motivações dos humanos, em cada situação concreta, de
ninguém são conhecidas com segurança. Ou, se quiser,
caro leitor, conhecer as tendências gerais do
comportamento humano não nos garante à partida a
explicação de cada comportamento, em cada momento, de
cada exemplar em concreto da nossa espécie.
Mas, avançando, pergunto-me, e os que têm muitos bens
e dinheiro e ainda não estão de pés para a cova? O que
fazer com aquela científica e estatística sentença universal
e, provavelmente, opino eu, intemporal? Refiro-me àqueles
que obtêm dos outros o cumprimento das suas vontades
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precisa e essencialmente porque possuem fortuna maior do
que os demais? Como poderão fugir a esta solidão
inevitável? De novo, considerando-se uma exceção? Ou
alegando a superioridade moral e ética, ou o seu superior
conhecimento e experiência, ou o bem comum, das suas
ordens e vontades? Ou o – suposto, claro! - benefício
daqueles próximos que o rodeiam, alvos das suas
instruções e veículos dos seus desejos? Uma coisa é certa,
os filhos soem ser as vítimas mais frequentes nestes últimos
casos.
Talvez por isto, não hajam desmandos mais exasperantes
e aviltantes do que os dos materialmente afortunados mais
estúpidos e ignorantes. Serão as vítimas e reféns
preferenciais, e as mais cegas e irredutíveis, dos artifícios
mentais a que me referi. Mas, no entanto, terão o seu leito
de morte rodeado de uma pequena multidão, e poderão
atribuir a esse facto as explicações que melhor lhes
convirem… Livres de qualquer escrutínio rigoroso, imparcial,
digamos, científico. Aliás, tal como o fizeram durante toda a
sua vida ativa.
A clarividência é madrasta, é contundente, é implacável.
Na vida e na morte. A mentira, a que nos dizem e, também,
a que nos dizemos, pode ser piedade doce, morna, suave,
afável, gentil, clemente… Pode ser mel! Pode ser vinho tinto
quente com canela! Na vida e na morte.
Por outro lado, quanto aos moribundos sem fortuna - não
nos esqueçamos deles -, ser-lhes-á consolador saberem
dos verdadeiros e crus motivos da sua aparente maior
solidão em comparação com os outros mais afortunados?
Não creio.
Enfim, é caso para se cunhar um novo aforismo, uma
nova máxima: Verdade, para que te quero?!!!
José não sabe da tal estatística. E mesmo que lha
dessem a conhecer, não seria capaz de dela retirar as
ilações mais imediatas. Ainda bem! Para ele… Mau para o

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mortificado António, que muito tem exasperado face à sua
total impotência perante a pura e simples ignorância e
estupidez. A tal condição de ignorância e estupidez que
pode ser providencial e reconfortantemente piedosa para o
seu portador. Logo, quase impossível de desmontar. Afinal,
quem escolhe sofrer se a impressão e crença de não sofrer
implica alcançar um pouco menos de sofrer? Quem sabe e
sofre da dor que tem se crê que não a tem? Quem, quando
no meio de outros, se verá só se nunca se soube de estar
só, se nunca provou de se encontrar desacompanhado o
tempo suficiente para se deparar de caras e em silêncio
com a sua solidão? Em suma, quem sabe que está só se
nunca sequer provou de outra circunstância? Que sabe o
escravo de ser livre se nunca experimentou a liberdade?
Que sabe o cego de ver se nunca viu? Ou seja, que sabe o
escravo de não se ser livre, que saberá o cego de se não
ver?…

José, sentado e imóvel na sua cadeira, soltava uma


risada prolongada, incontida, desbragada e alvar, perante
aquela queda com efeitos muito sérios, pelo menos na
aparência, na perspetiva de toda a gente presente. Os que
viram com os seus próprios olhos, muitíssimo consternados,
logo se levantaram e aproximaram de Maria, mulher de
José, caída no chão, sangrando da testa e ora gemendo,
ora lançando gritos e lamúrias pungentes enquanto passava
freneticamente a mão na zona superior lateral do glúteo
direito. Os restantes convidados de José, aqueles que
apenas se deram conta do sucedido pelos gritos da pobre
sinistrada, ficaram atarantados e sem perceber
minimamente o que pudesse ter sucedido para causar
acidente tão brutal e espetacular. Maria, ao descer uns três
degraus de umas escadas de mármore polido que davam
acesso da cozinha ao quintal, onde se encontravam todos
os convivas, havia escorregado e se desequilibrado. Na

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queda, bateu violentamente no vértice saliente de um dos
degraus e estatelou-se desamparada no chão, onde foi
bater com a testa na laje de pedra que cobria o terreno
naquela zona.
Mesmo já depois terem cessado as mais sonoras
manifestações de dor de Maria, e de a terem, a custo,
sentado numa cadeira, restando apenas alguns fios de
sangue correndo-lhe pela face como sinais evidentes do
sucedido, José mantinha-se sentado e continuava a rir de
forma incontida e convulsiva, em descontrolo total. António
sentiu um forte constrangimento perante tamanha
manifestação de insensibilidade e falta da prestação dos
cuidados que se impunham a qualquer ser humano,
particularmente a um cônjuge. Porque, naquela época,
ainda fazia muita cerimónia com todos os presentes, ficou
paralisado e mudo, estarrecido, mesmo, sem saber como se
comportar. Alguns dias depois, ainda matutando no insólito
sucedido, concluiu que aquele deveras grotesco
comportamento de José o chocou enormemente, causando-
lhe visceral indignação, ainda mais porque foi quase o seu
primeiro contato com a personagem, não conseguindo
descortinar naquele momento qualquer explicação razoável
para o mesmo.
Mas, com o devir dos anos, tendo presenciado alguns
outros episódios semelhantes, percebeu que se tratou de
uma reação de demarcação daquilo que José sempre
percecionava intimamente como o saliente e essencial: o
ridículo do sucedido, o risível naquele acontecimento
inesperado, o que entendia que poderia ser considerado
vergonhoso para si. E assim é: José, hipersensível ao que
os outros em geral podem pensar dele, sente nestas
ocasiões avassaladora vergonha, e impulsivamente age
demarcando-se ostensivo, preocupando-se apenas com a
sua imagem, indiferente aos efeitos, até eventualmente
graves, no acidentado.

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Sim, José preocupa-se sobretudo com a sua imagem, em
todas as situações, e sacrifica quem for preciso para a
tentar manter impoluta. É como se fosse um animal
acossado em permanência pelo risco do ridículo, sempre
tomado pelo pânico que os outros lhe possam apontar o
dedo em censura. Para isso, não hesita em, aos olhos dos
outros, se dissociar de quem for preciso no momento,
inclusive de seus próprios filhos e familiares próximos. Para
o lograr, trai sem hesitação; Mentalmente e, se necessário,
por palavras e atos.
Uma ocasião houve em que alguém, não sem alguma
malévola intenção, lhe mostrou um pequeno artigo, saído
num site de intriga social, que punha a completo ridículo
uma sua familiar próxima, Margarida de seu nome. Apesar
dos factos aduzidos no referido texto serem, em parte,
manifestamente falsos, e a maioria deturpados, exagerados
e olhados sob um ponto de vista, entre muitos outros
possíveis, manifestamente malicioso, José preocupou-se
única e exclusivamente com o seu medo da vergonha que
poderia vir a sentir se mais alguém o viesse a interpelar
enquanto familiar da personagem alvo do referido texto. Não
se incomodou minimamente com a gritante injustiça
perpetrada sobre Margarida. Não fez qualquer menção de
argumentar, nem em privado, em defesa dela. Só a
possibilidade da sua exposição ao ridículo o interessou e,
por isso, em algumas conversas, indignado lançou invetivas,
não contra o malicioso autor, mas sim contra Margarida,
procurando dela demarcar-se.
Aliás, como quase analfabeto que é, sempre atribuiu um
enorme peso ao que quer que seja que se lhe apresente na
forma escrita. Numa ocasião, ainda jovem adulto, cortou
relações com um outro familiar, e isto durante décadas, só
porque lhe passaram, por baixo da porta, maledicência
referente àquele num papel escrito, de autoria não

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identificada. Isto apesar de nunca ter ficado, nem
minimamente, a suspeitar de quem seria a autor daquilo
que, veio mais tarde a saber ao certo, era pura calúnia. Nem
assim reatou relações normais com a vítima, e jamais lhe
ocorreu que lhe devia desculpas. Na sua perspetiva imatura,
a culpa era inteiramente de quem havia escrito aquela
folhinha que foi sub-reptícia e cobardemente enfiada por
debaixo da sua porta. Mas nunca ficou a saber quem foi…
Volvendo ao episódio da gargalhada incontida de José,
António, vendo bem, não se lembra de alguma vez o ter
visto a rir, a bom rir, de alguma piada – normalmente não as
compreende -, ou de alguma situação engraçada ou
divertida, ou, até, de algum programa humorístico –
normalmente não os capta também, pelo menos aos de
humor menos óbvio –, enfim, rir de divertimento, de simples
e pura boa disposição. José só costuma fazê-lo de troça de
outros, por motivos mesquinhos, ou em circunstâncias
idênticas às do episódio referido, ou em jeito de fuga
quando fica demonstrado preto no branco a absoluta
imbecilidade e ignorância do que se atreve a dizer. Nestas
ocasiões, solta uma gargalhada alvar interminável,
sobrepondo-se às vozes argumentativas certeiras dos
outros, como disfarce para o simples facto de se sentir sem
capacidade de resposta e esmagadoramente humilhado por
força do ridículo em que cai. Isto acontece sobretudo e com
mais alarido quando está a ser observado por outros.

José sempre se orgulhou de ter muitos amigos. Mas todos


eles são, e sempre foram, relações iniciadas e mantidas
exclusivamente por motivos dos seus negociozitos, e não
por qualquer afinidade desinteressada e espontânea ou,
sequer, por comunhão de gostos ou atitudes. São relações
que nasceram e se alimentaram da troca de benefícios
financeiros, de maior ou menor dimensão. Tão só. José, lá
está, acredita que não. E também acredita que a

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subserviência que os seus familiares lhe votam se deve a
afeto e respeito. Em síntese, José acha-se feliz. Aliás,
podemos agora dizê-lo – já o sabemos e compreendemos
na sua verdadeira e justa medida – José é feliz.
Como os seus negócios são, e sempre foram, de
caracacá, as suas relações também o são, e sempre foram.
O nível intelectual e de carácter dos seus amigos é pouco
apresentável: donos de casas de alterne disfarçadas de
discotecas; corruptores de juízes em países do terceiro
mundo; antigos chulos e prostitutas; corruptores naquele
tipo de países de governantes e funcionários camarários;
cabeleireiras e manicuras peitudas e rabudas bem casadas;
mulheres e homens com pecúlio obtido por casamento com
homens e mulheres mais velhos entretanto falecidos;
foragidos da justiça de outros países, aguardando nesta
terra de brandos costumes a prescrição de seus crimes;
homens ricos casados em segundas e terceiras núpcias
com mulheres muito mais jovens em atitude inequívoca de
prostituição muito bem remunerada, em exclusividade, de
serviço vinte e quatro sobre vinte e quatro horas, a prazo
alargado, com termo certo - por certo! -, embora, à partida,
indefinido; refugiados que em tempos se aproveitaram de
outros países mais licenciosos quanto a diversas
ilegalidades, agora em busca da reputação e respeito que
jamais conseguiriam nos países de origem; fazedores de
fortunas em países africanos em conluio com governantes
corruptos, entretanto caídos em desgraça; herdeiros de
fortunas postas a salvo entre portas porque obtidas à
margem da lei no estrangeiro; etc.; e, numa proporção
significativa, perfeitos inúteis que vivem exclusivamente de
dinheiro herdado, ou recebido de outra forma mas sem
esforço ou mérito algum.
Como já foi referido, José faz mesmo questão de exibir e
demonstrar publicamente que é senhor de uma vasta
pletora de relações. E sempre o fez. Muita daquela gente

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em busca da respeitabilidade que não consegue conquistar
noutros círculos tira partido da leviandade e apetência com
que José utiliza o epíteto amigo. Naturalmente, quando
algum é visivelmente apanhado nas malhas da Justiça, José
afasta-se inapelavelmente, e só nessa altura. E em seu
redor faz-se absoluto e eterno silêncio sobre o assunto.
Para fazer ainda maior número, chegou ao ponto de
convidar um vendedor de automóveis para um almoço de
seu aniversário, que de lado nenhum conhecia, a quem
havia comprado recentemente o seu último Mercedes.
Vendedor esse que esfregou as mãos de contente, por
certo, quando fechou negócio com José e conseguiu
despachar uma viatura sobrante porque equipada com leitor
de cassetes numa era em que já ninguém comprava carros
com aqueles leitores, mas somente de cd. Quer dizer,
ninguém com a exceção do ignorante e crédulo José. E isto
apesar de um amigo dele, entendido em automóveis e a
quem José havia pedido que o acompanhasse como
conselheiro, lhe ter recomendado vivamente, na presença
dos dois – José e vendedor -, que visse outras opções. Fez
tábua rasa dessa recomendação, sem se incomodar
minimamente, infligindo-lhe uma pequena humilhação pela
desconsideração evidente em frente ao vendedor. E este
ainda conseguiu que José lhe ficasse particularmente grato
por, supostamente, lhe ter concedido um desconto especial.
Desconto esse que era considerável mas que, afinal, estava
previsto, fosse qual fosse o cliente que aceitasse levar
aquela viatura. Tinha sido o pensado em antecipação para
conseguirem despachar um carro que, de outro modo, seria
muito difícil de vender. José não compra preço, compra
desconto. Adora fazê-lo! E a sua ignorância ajuda-o a ficar
tranquilo e satisfeito com as escolhas que, para a maioria
um pouco mais informada, são absurdas. E, por maioria de
razão, como vimos, para aqueles que ele assume como

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mais conhecedores do assunto ou, até, especialistas na
matéria.
António considera que, apesar de singelo e relativamente
benigno, este é o episódio de que se recorda que toca em
quase tudo sobre José, o mais sincreticamente ilustrativo da
sua índole…
Algumas pessoas, poucas muito rapidamente - as mais
inteligentes e sem escrúpulos -, percebem, dentro de certos
limites, que se consegue levá-lo a fazer o que se queira
desde que se saiba explorar a sua necessidade extrema de
aprovação utilizando os devidos salamaleques e bajulices
encantatórios. Sim, é de encantamento que se trata. José
sempre se sensibilizou sobremaneira quando o tratam
acima da sua condição intelectual, social e reputacional. Por
isso, por exemplo, quando vai a uma consulta médica, se
aperalta quase como se estivesse a arranjar-se para ir a um
casamento.
Por vezes, faz alarde com orgulho das grandes festas que
dá e, sobretudo, das que deu no passado, sublinhando a
quantidade de convidados que compareciam, e a riqueza de
muitos deles. Convidados esses que, já sabemos, o caro
leitor já antevê, eram, em parte significativa, relações quase
inexistentes, de que o exemplo do vendedor acima relatado
serve de ilustração. No entanto, porque José se deixa afetar
muito por qualquer crítica, embora nunca o revele de forma
clara e direta, passou a conter-se no número de convidados
a partir do dia em que um familiar mais jovem, e menos
dado ao clima de subserviência e falso respeito
generalizado, talvez apenas por simples inconsciência, lhe
perguntou:
- Mas já experimentou dar essas festas de aniversário,
que costuma fazer em restaurantes, mas sendo cada
convidado a pagar a sua refeição? Aliás, como quase toda a
gente faz hoje em dia…

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José, profundamente magoado e envergonhado,
emudeceu instantaneamente. As pessoas que o rodeavam,
e ouviram a pergunta, também se silenciaram, em pesado
embaraço. Terá sido um dos raros momentos, diria
instantes, em que se defrontou de chofre, cruamente, a frio
e, mormente, em público, com a amarga solidão, ainda que
somente por visualização mental teórica em tese hipotética.
Mesmo assim, podemos dizer que lhe foi esfregada na cara,
à frente de “toda a gente”, uma verdade incómoda. Uma
indignidade da parte do rebelde, irreverente e inconveniente
e, até, implacável e impiedoso jovem familiar por afinidade.
Desculpável somente porque já se encontrava algo sob o
efeito do álcool, pensou António, mas era ainda uma época
em que mal conhecia os dois.

Apesar de no seu círculo de relações sempre terem


pontuado inúmeras pessoas de vida relativamente tranquila
e, sobretudo, anódina, sem trabalho ou profissão, limitando-
se a gastar e a administrar, a maior parte com pouquíssima
competência, dinheiro e bens recebidos, José, estando isso
ao seu alcance, jamais permitiu que seus dois filhos
enveredassem por esse tipo de existência. Isto apesar de
sempre ter votado admiração desmesurada, que não é mais
do que puro deslumbramento de pateta ignaro, àqueles que
ostentam a sua condição de financeiramente ainda mais
afortunados e, sobretudo, apenas mais gastadores do que
ele. José não tem qualquer interesse e capacidade para
manter conversação com outro tipo de pessoas. Não
percebe como é ser rico de outra forma, não conhece e
nunca conheceu esse mundo. Chega ao ponto de apontar
aos filhos os modos de vida daquelas pessoas como algo
admirável, em gritante contradição com a sua proverbial
avareza militante para com a sua descendência. Admira
noutros o que seriam as consequências óbvias daquilo que

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ele faz questão de lhes recusar. Mas, aparentemente, não
se apercebe do absurdo. É, e sempre foi, feliz, lá está…
Nunca entendeu que, desse modo, tem acicatado nos
seus o deslumbramento e vontade desmesurada de se
alcandorarem um dia, precisamente, àquela forma de estar
na vida. O caminho mais curto e, sobretudo, o mais
evidente, seguro e certo, seria, desde sempre, o de, um dia,
usufruírem do dinheiro e bens de seu pai, e da sua herança
futura. Entretanto, conseguirem casar-se com alguém
contemplado com progenitores com fortuna e menos avaros
do que o seu, também poderia ser uma boa contribuição
para esse desiderato. Os seus dois petizes - sim, o termo
petizes é apropriado, mesmo quando chegados à meia-
idade - foram, deste modo, educados a confundir amor e
desejo passional com deslumbramento e material cobiça…
Precisando, porque foi sempre o exemplo que tiveram em
casa e nos casais das relações de seus pais,
verdadeiramente nunca observaram em outros o verdadeiro
amor, e a verdadeira paixão avassaladora, telúrica. Apenas
aprenderam o que presenciaram: a valorizar em absoluto as
riquezas materiais e o que elas permitem aparentar, e,
instintivamente, a oferecer a sua desmesurada
consideração e estima às pessoas que as possuem e,
sobretudo, lá está, que as exibem sem qualquer pejo; E a
humilhar-se, se preciso for, para conquistar e preservar
essas relações.
António, que há muito que descreve só para si esta forma
de vida com a figurativa frase, de autoria de outro mas, no
seu entendimento, muito bem aplicada, “Dar o cú por uma
semana no Algarve”, diverte-se para dentro imaginando, por
força da formatação continuada, simplória, rígida e radical
que sofreram durante a infância e adolescência, que os dois
descendentes de José têm os seus cérebros ligados entre si
e, sobretudo, diretamente ao do progenitor por meio de um
qualquer artefacto eletrónico de modo a que o par quase

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funcione em uníssono, como um só, sob a direção do de
José, sem qualquer autonomia e liberdade, e também a
qualquer distância que seja necessária. Sob outro ponto de
vista, tamanha aberração poderá ser encarada como o
resultado de violência doméstica, reincidente durante
décadas, porque de uma enorme indignidade se trata. Sim,
aqueles petizes nunca chegaram, de verdade, a libertar-se
daquele jugo e a entrar na idade adulta.
Um outro aspeto desta educação artificiosa, forçada, é o
da imposição por José da proibição da manifestação de
qualquer tipo de sofrimento. José baniu do seu círculo a
lamentação e as manifestações de tristeza e frustração.
Habituou os seus a negar a existência deste tipo de
emoções. Para José sempre só existiu a alegria e o “tudo é
possível”. Tornou-se exímio na exibição de um exuberante
sorriso postiço em todas as circunstâncias públicas, para as
fotografias em especial (os seus petizes também). Tão
omnipresente é, esse sorriso postiço, que não se lhe
conhece outro. E força-se a exibi-lo, especialmente aquando
de circunstâncias de aflição ou pesar para alguém próximo.
Diz – acreditará? – que desse modo contagia os outros.
Pensará que esse seu sorriso e aparente boa disposição
têm poderes curativos? De certa forma, este seu
comportamento típico também o ajuda a distanciar-se dos
problemas dos outros, de modo não se ver envolvido neles.
Para António, isto é simples e primário egoísmo, é total
falta de empatia disfarçada do contrário. Veremos mais à
frente como para José é importante manter o
distanciamento nessas circunstâncias. Mas, quando os
problemas lhe dizem respeito diretamente, e quando não
está à vista de outros fora do círculo familiar mais restrito, é
capaz de se manter quase em silêncio absoluto durante
dias, de rosto duro, e mal conseguindo conciliar o sono à
noite. E quase sempre por motivos de lana-caprina.

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Por vezes, poucas, muito poucas, os petizes saem dos
limites delineados pela formatação rígida a que se viram
sujeitos desde a primeira hora. Normalmente, por pouco
tempo e em insignificâncias. Mas a natureza humana é a
natureza humana e, quando se dão as imprevisíveis
circunstâncias propícias, emerge inapelavelmente e
sobrepõe-se a tudo o resto, e de forma durável e descarada
– escandalosa, até. Um deles, um dos petizes, a petiza, já
bem depois dos vinte anos, quase nos trinta, acabou por
ceder – por soçobrar, podemos dizê-lo - perante o
verdadeiro amor e, principalmente, tomada pela verdadeira
e carnal paixão, que a possuiu quando menos esperava,
acabando por casar fora daquele círculo de aparências,
futilidades e hipocrisias, o que, embora só passados alguns
meses – mais à frente ficaremos a saber porquê -, passou a
provocar profunda insatisfação em José sem que ele próprio
conseguisse perceber e, muito menos, explicar-se porquê.
Aquela união passou a ser sempre para ele um foco de
conflito interior já que o genro vivia e vive do seu trabalho, o
que ele sempre disse valorizar sobremaneira na sua estória
de vida em particular, mas não era, nem é, rico, não ostenta
nada que a José costuma deslumbrar e é próprio dos inúteis
do seu círculo. Para além disto, sempre houve também o
seu pânico de que algum dos seus petizes fosse vítima do
típico, e quase tão antigo como a Humanidade, golpe do
baú. Aquele genro não tinha herança, enquanto que sua
filha viria a tê-la, embora quanto mais tarde melhor. No
entanto, já sabemos, José sempre teve tendência a dar-se
com muitas pessoas que, claramente, se casaram pelo
dinheiro do cônjuge, ou que conseguiram um tão desejado
matrimónio, por falta de quaisquer outros encantos,
somente porque, por assim dizer, possuíam dote para
oferecer.
Em rigor, porque não dizê-lo, José trocaria de bom grado
aquele casamento de sua petiza por um outro que lhe desse

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acesso regular ao postiço glamour que tanto o fascina,
mesmo que para isso a piquena se remetesse a uma
existência de simples biblot e pudesse vir a ser encornada
vezes sem conta – “as mulheres não podem, está errado,
mas os homens sim, não tem mal”, afirmou algumas vezes
com absoluta convicção, embora sob outros pretextos e a
propósito de outras pessoas, em contradição frontal, sem se
aperceber, com a religião que sempre disse professar. Esse
seu ideal e hipotético genro teria a sua autorização implícita,
e explícita, se necessário fosse, para a total devassidão,
sem que isso lhe viesse a causar, e a José também,
qualquer rebate de consciência. Aliás, tal como ele se
comportou toda a vida em relação à sua Maria. Esse genro
só teria que pagar o devido e justo preço com a partilha das
ansiadas ostentações e prebendas, de preferência bem
públicas e vistosas. A José nunca lhe passou pela cabeça
que isto não seria mais do que uma forma de prostituir a sua
petiza e em que ele, José, seria, mais ou menos, o
proxeneta que receberia a sua quota-parte.
Como forte indício desta sua predisposição de fundo
basta recordar um seu comportamento em relação a um
detalhe, por ocasião da preparação do referido casamento.
Iludido no início, porque o seu futuro genro, que era
profissional muito bem-sucedido, lhe pareceu pessoa de
posses, empenhou-se pessoalmente para que tudo corresse
muito bem, embora, claro, o seu contributo financeiro viesse
a ser bem diminuto. Pois, para espanto dos poucos que
vieram a sabê-lo, e a maior parte já estavam bem
familiarizados com as suas aberrações, instigou diretamente
Maria, mais uma outra mulher da família e a própria petiza,
para escolherem, para esta, roupa interior bem provocante,
a ser usada na noite de núpcias. E fez questão de
inspecionar a dita lingerie e de dar a sua aprovação após a
compra. Antecipadamente, recomendou vivamente que
fosse preta e de renda. Mas isto, este entusiasta empenho

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pessoal naquela relação, já o demos a entender, foi antes
da sua posterior desilusão, quando ficou a perceber que a
riqueza do seu jovem genro provinha apenas do trabalho…

Visão esta de José, sobre o casamento e o papel da


mulher no mesmo, incluindo o de sua própria filha, que não
surpreende ninguém que o conheça minimamente uma vez
que ele, é sabido e já o dissemos, foi infiel a Maria vezes
sem conta. Maria, de proveniência humilde e de muito baixa
instrução, sabe e sempre soube, mas José foi a via a que ela
recorreu para aceder a algum conforto e segurança. Muitas
vezes, comparando-se com outras mulheres, e também com
a petiza sua filha, afirmou despudoradamente algo parecido
com isto, deixando claro, embora de forma implícita, que na
sua escolha tinha sido essencial a questão do dinheiro: “Eu é
que escolhi bem!”, com orgulho, em tom triunfante. Bem mais
nova do que ele, conheceram-se quando José já havia
acumulado notório pecúlio. Claro que, e outra coisa não seria
de esperar de uma relação prolongada e diária com José,
Maria nunca teve uma mínima palavra a dizer que fosse
sobre qualquer assunto relevante da vida em comum e da
dos petizes. Deu-se, sem grande esforço, diga-se, em total
submissão e irrelevância. As decisões importantes foram
sempre tomadas pelo marido. Com José, só poderia ser
desta forma. Portanto, uma família, desde a sua fundação,
alicerçada em estranhas formas de existir… E os petizes
acabaram por reproduzir este modo de estar de sua mãe nos
seus matrimónios. Ainda mais ele do que ela, ao arrepio,
claro, das convenções dominantes sobre o papel masculino
na sociedade e na família. Creio que o leitor não entreveria
outra coisa, pelo que sabe até agora. E o que ler daqui em
diante, penso, reforçará essa sua convicção.
Todos os próximos sempre souberam daquela faceta de
vida de José e toleraram, e toleram, aquilo que seria, para
muitos, algo inaceitável noutros homens. Talvez, também,

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porque Maria inspira pouca consideração e não parece
importar-se. E José, vá-se lá saber por que retorcidos
percursos mentais, é extremamente condescendente para
com essa sua vida passada. Parece acreditar que o seu
Deus lhe concedeu um qualquer estatuto de exceção, do
mesmo modo que se veria, se fosse capaz e propenso e tais
análises, como uma exceção quanto à questão da solidão
com que, se se recorda, caro leitor, começámos esta
narrativa. Aliás, vem a propósito, José foi ouvido afirmar
diversas vezes enormidades como: “Vivi intensamente todos
os momentos da minha vida e não tenho saudades de
nenhum, não voltaria atrás”; “Não me arrependo de nada do
que fiz, teria feito exatamente o mesmo se voltasse ao
passado”; “Sou feliz, sou tudo o que quero, tenho tudo e fiz
tudo o que queria”.
Perante estas certezas só acessíveis a seres sobrenaturais
omniscientes, António não consegue evitar pensamentos
seus sobre quase sociopatia, que só não o é, por inteiro,
devido a conjunção com, simplesmente, menoridade mental.
Acredita, não fora o aspeto grosseiro de José que o torna
impossível, que este exibiria quase sempre uma postura e
expressão facial de beatífica candura, mesmo aquando das
suas bárbaras afirmações. José bem se esforça quase
sempre por isso, mas não o consegue suficientemente de
modo a disfarçar os seus traços faciais rudes, os seus gestos
deselegantes e a sua compleição física atarracada, em altura
diminuta e excessiva em largura. Ou seja, configuração
corporal que, ao invés, lhe acentua a boçalidade de seus
dizeres e atitudes. E nem o seu hábito, desde jovem adulto,
de se vestir sempre aprimoradamente - mas sempre! -
consegue compor-lhe a imagem. Talvez, porventura por
efeito de contraste gritante, ao invés, lhe acentue a
deselegância, deveras frustrando a sua permanente tentativa
de a encobrir. Ou, porventura ainda, a sua apetência pelo
uso em volta do pescoço de fios de ouro com medalhas

José, por Pôncio Arrupe 17


pendentes e de, nos dedos, um ou outro anel com pedras
preciosas, o traiam e contribuam sobremaneira para o
grotesco do todo.
Quanto ao outro petiz, que se tenha notado, não terá
alguma vez experimentado tais sentimentos e emoções, os
do amor e da paixão, como sua irmã, nem se antevê que
alguma vez os venha a experimentar; só mesmo o
encantamento alvar, herdado sabemos de quem, e a atração
irresistível pelo que muito luz. E, na sua perspetiva ignorante
e tacanha, acabou por conseguir o que expressamente
sempre desejou numa mulher só porque ele próprio
encerrava em si mesmo a promessa implícita para a sua
noiva de uma herança futura considerável. Até hoje não se
apercebeu da vida de permanente ridículo, e desconhecida
infelicidade, lá está, em que caiu.
Escusado será dizer que, uma vez saciada a sua líbido e,
sobretudo, inteiramente satisfeito o seu instinto maternal,
que na esmagadora maioria das mulheres parece ser
incontornável, dando à luz três rebentos de rajada, na
mente e coração da nossa petiza, assim que as grilhetas da
telúrica mãe natureza se aliviaram, começou, gradualmente,
a ser tomada e controlada pela inescapável formatação
mental a que tinha sido sujeita na infância e adolescência.
As comparações gritantes entre a sua vida modesta,
dependente essencialmente do fruto do trabalho do pai dos
seus filhos, e as vidas das pessoas do círculo de relações
de seu pai, começaram a produzir efeitos corrosivos e a
ânsia pelo que luz e a frustração voltaram a tomar conta da
sua indigente alminha. Como consequência, o desencanto
foi-se avolumando e a aura do genro pouco adorado de seu
pai, pai de seus filhos, seu marido e grande amor e paixão
de outrora, começou a fenecer lentamente. Como diria o
nosso jovem desbocado e irreverente, começou a grelhar
em lume brando.

José, por Pôncio Arrupe 18


Compreensivelmente, pela sua ação continuada e
inflexível, José gerou em ambos os seus petizes pura
subserviência instrumental, bem disfarçada sobretudo pela
distância e não conversação sobre o que quer que seja de
importante, principalmente sobre os ativos materiais e
financeiros – assunto tabu -, e por algumas muito
esporádicas e de conveniência manifestações de afeto e,
ainda menos, de reverência, e, menos ainda, de respeito. É
que, muito de vez em quando, alguma esmola cai que é
importante não enjeitar… Em tese… É que nunca sabem
quando virá… De alguma forma, José sempre pressentiu
que só manteria o seu controlo e proximidade deles indo
dando a conta gotas, em momentos e de forma e em
montantes imprevisíveis. Tal como alguns donos de cães
educam os pobres animais a obedecer sempre, e a exibirem
as mais diversas e inúteis habilidades ao mínimo comando,
dando pequenas recompensas só esporádica e
aleatoriamente. Desse modo, os petizes, habituaram-se a,
quase sempre, nada receberem e a conformar-se, mas
nunca perdendo a esperança de, um dia, quem sabe,
alguma recompensa cair. Tal como o cãozito que sempre,
mas sempre, abana expectante a cauda após executar
prontamente e na perfeição, e pela enésima vez, a sua
habilidadezinha, embora só muito de vez em quando receba
a recompensa desejada. Isto implica que nunca pode
arriscar as consequências de não demonstrar efusivamente
o seu desejo e de não realizar alegremente a cabriola
solicitada. Perderia a graça e poderia gerar no seu dono
desinteresse que, por sua vez, se refletiria em ainda menos
solicitações e correspondentes recompensas efetivas.
Está bem de ver, caro leitor, foi tortura chinesa, foi
prolongadíssima lavagem ao cérebro com consequências
irreversíveis. José, verdadeiramente, nunca quis dar, e
pouco ou nada deu em proporção ao que tem e tinha, mas
sempre tudo fez para manter nos seus petizes a esperança

José, por Pôncio Arrupe 19


de que, a qualquer momento, à semelhança de outros pais,
daria. Sempre os manteve, assim, sob o seu quase total
controlo e comando. Em seus netos também se começou a
desenvolver esta forma de estar para com o avô, ainda que
em menores proporções, em grau de ubiquidade menor.

E, muitas vezes, quando é generoso, é-o apenas na


aparência porque visa sobretudo obter alguma vantagem ou
agrado pessoal. Assim foi por ocasião do casamento de
Manuel e Manuela, familiares algo afastados, que estava
para ocorrer no interior do país, na zona da terra natal de
José. Uma semana antes deu-se, à mesa de almoço e na
presença de todos os interessados, a seguinte conversa
entre ele e o seu pouco adorado e já nosso conhecido
genro, que, já agora, se chamava Miguel.
- Uma vez que vamos todos ao casamento, eu proponho
irmos todos na véspera, o mais cedo possível, e dormimos
lá de sábado para domingo num hotel. Eu pago tudo, a
estadia e as refeições. Assim, no sábado, poderemos visitar
família e amigos para que vos fiquem a conhecer.
Miguel, de imediato, percebeu que José queria, mais uma
vez, exibir-se, desta vez junto dos seus humildes e pouco
instruídos familiares e conhecidos de infância, passeando-
se na sua terrinha e arredores na companhia dos seus
filhos, genros e netos, que eram pessoas da cidade,
instruídos, bem-educados e de nível, com bom aspeto como
as que se veem na tv, e, embora ainda jovens, já com bons
carros e dinheiro para comprar roupas caras, de marca. Por
isso, logo inventou ali um pretexto para, intencionalmente,
estragar os planos a seu sogro, roubando-lhe o prazer que
se lhe anunciava. Para além disso, e principalmente, Miguel
desde cedo que sempre aproveitou todas as oportunidades
para demonstrar por atos uma clara indiferença - desprezo,
até -, pelas esmolas e falsas esmolas de José. E evita

José, por Pôncio Arrupe 20


transparecer esse desprezo por palavras, para não afligir a
nossa já conhecida petiza de seu pai.
- Obrigado, mas eu já tinha a intenção de aproveitar a
viagem, já que tem que ser feita, para ir visitar uns amigos
que vivem em Castelo Branco. Iremos sexta à noite para lá.
E, para não deixar qualquer hipótese de arranjo para o
fim-de-semana que envolvesse José e seus planos, Miguel
ainda rematou:
- Ficaremos duas noites num hotel em Castelo Branco e,
no domingo, partiremos cedo para o casamento. Lá nos
encontraremos.
Miguel sabia bem que, agindo deste modo, transmitia a
mensagem a José da forma mais veemente e contundente,
que calava fundo, que o frustrava e assaz magoava e
irritava, evitando em simultâneo perturbar a petiza de seu
pai. Mais um motivo para José se sentir, podemos dizê-lo,
defraudado com aquele casamento, ainda que não
assumidamente.
E o pano de fundo no relacionamento de José com os
seus filhos qual acabou por ser?: uma muito profunda
frustração, um sentimento arraigado de impotência, e
revolta surda dos petizes constantemente disfarçada e
refundida, quase desconhecida para eles próprios.
Refundida em somatizações evidentes – úlceras, ataques
de pânico com palpitações, friagens e paragens digestivas,
cefaleias agudas e prolongadas, doenças de diagnóstico
indeterminado, hipersensibilidade ao desagrado de outros,
complexos de inferioridade muitas vezes incapacitantes,
para além de níveis de ansiedade e de insegurança bem
acima do normal – e, claro, evidente formatação mental
forçada que resultou em deformação de carácter. De facto,
se nos abstrairmos das diferenças cosméticas geracionais e
de diferentes épocas, assemelham-se em tudo a José no
que a atitudes, princípios, valorizações, expectativas sobre
a vida, prioridades, interesses, desejos, deslumbramentos,

José, por Pôncio Arrupe 21


etc., diz respeito. E dessa absoluta formatação os petizes
pouco ou nada se apercebem, a ponto de da qual nem
desejar libertar-se alguma vez poderão.

- Não me foi dado, fui eu que o ganhei! -, disse José alto e


bom som, algumas vezes ao longo dos anos, para justificar
não se comportar generosamente, tal como outros pais se
comportam, para com os seus filhos.
Numa dessas ocasiões, em que José proferiu tal
afirmação, ou algo parecido, estavam sentados à mesa de
jantar e o nosso já conhecido jovem familiar com tendência
para a impertinência e indecoro rebelde resolveu provocar,
mas fazendo de conta de que não intervinha precisamente
na sequência e em relação com o que José havia acabado
de dizer. Sorrindo para dentro e dirigindo-se a António, que
estava sentado na sua frente e com quem sentia especial
cumplicidade, dissertou de modo a que todos o ouvissem:
- Tenho pensado neste assunto das fortunas e cheguei à
conclusão de que, na minha opinião, só há mérito em
enriquecer se se verificarem duas condições. Uma, claro, é
se o enriquecimento foi conseguido honestamente. A outra
é – e aqui o jovem provocador e irreverente elevou um
pouco mais o volume – se foi conseguido com pouco
esforço…
Fez uma pausa e olhou em volta para se se certificar de
que todos tinham ficado suspensos na sua afirmação
surpreendente, contrassenso comum, e se estavam a ouvi-
lo e em condições de assim continuarem, incluindo José.
Prosseguiu então:
- Bem, sem esforço, quer dizer… com pouco trabalho, ou
mesmo com muito mas com pouco esforço, sem sacrifício,
sem sofrimento… Enfim, sem se dar por isso, com prazer…
A audiência mantinha-se em silêncio. José não tirava os
olhos do prato. António sorria para si, embora algo
intranquilo, prevendo já o desfecho que aí vinha. E o jovem

José, por Pôncio Arrupe 22


familiar resolveu, então, dar a estocada final, subindo
ligeiramente o volume e articulando mais lentamente as
palavras:
- Ou seja, não respeito quem enriqueceu
desonestamente, ou, mesmo que honestamente, quem o
conseguiu à custa de sacrifício. E quanto mais sacrifício,
menos esse enriquecimento me inspira respeito e
consideração. Aliás, tenho verificado que as pessoas que
muito se sacrificaram para ganhar dinheiro desenvolveram
problemas de carácter… Quase sempre… Ou já os
tinham…
E, ainda escarafunchando com indisfarçável prazer na
ferida aberta, finalizou:
- Costumo preferir os que enriqueceram por sorte. Por
herança, por exemplo… Desde que não sejam uns tontos,
claro. Não há muitos, é certo…
O jovem saboreou particularmente estas últimas frases
que proferiu. António, que sempre se divertia interiormente
com aquelas tiradas daquele seu familiar, sabia que aquela
atrevida intervenção havia calado bem fundo em José. Este
manteve os olhos no prato e ruboresceu. Estava bem ciente
de que o seu enriquecimento não cumpria nenhum dos
critérios exigidos pelo jovem contundente, embora
acreditasse que, quanto à desonestidade, ninguém o
acusaria de tal, mesmo que em surdina, porque se sentia
seguro de ter conseguido ocultá-la de todos toda a vida.
Portanto, o que mais lhe custou constatar foi a total
manifestação de desrespeito e, até, de desprezo, por parte
do jovem em relação a toda a sua vida de muitíssimo
trabalho, cheia de abdicação, agruras e dor. É que essa
vertente era bastamente conhecida uma vez que José muito
se orgulhava dela publicamente, fazendo com frequência
alarde da mesma através do relato de episódios com algum
detalhe, e a utilizava como forma de se diferenciar dos, lá
está, outros pais mais mãos largas para com filhos e netos.

José, por Pôncio Arrupe 23


Fazia uso, precisamente, desse facto como argumento
moral para se comportar diferentemente para com os seus
dependentes. Em suma, gostava de transmitir a ideia, está
bem de se ver, de que não tinha tido uma vida fácil como os
outros.
Naturalmente, dando pouco e tornando imprevisíveis as
ocasiões das suas raras dádivas, acrescido da expectativa
por parte dos seus descendentes de um dia haver uma
herança, José, sem o saber, manteve-os junto de si,
precisamente, pelos motivos que sempre tanto receou, mas
que não descortina nas suas relações familiares, embora os
aponte e critique em outras famílias. Ou seja, juntou à sua
volta incompreensão e revolta, disfarçadas de falsas
manifestações de afeto, por pura hipocrisia calculista.
Rodeou-se de pessoas que nunca lhe expõem o que
realmente pensam, que só lhe dizem o que adivinham que
ele quer ouvir, assegurando-se assim das, ao menos,
parcas recompensas: um jantar ou almoço, uma notita pelo
natal ou aniversário, uma pequena contribuição para uma
despesa mais avultada, desde que por ele aprovada, um
convite para uma festa de aniversário em restaurante
apetecível, uma pequena viagem de recreio...

E como José, já o sabemos, é de pouca dotação


intelectual e extremamente ignorante, sempre foi fácil saber
em antecipação o que dizer para lhe agradar. Ou seja, sem
o saber, José cedo na vida atingiu o estádio de solidão
suprema: rodeado de gente interessada sobretudo em tirar
vantagem dele, numa perspetiva de relacionamento pouco
mais do que de conveniência. E, de facto, já vimos, era e é
fácil seduzi-lo: basta fingir achar que toda a sua vida é digna
de ser apontada como exemplo aos outros. Precisamente o
contrário do que o jovem insurgente familiar gosta de fazer.
Mas este vive e viveu sempre bem com as consequências,

José, por Pôncio Arrupe 24


embora, talvez, nunca tenha tido a perfeita noção de todas
elas.
Como exemplo ilustrativo, António nunca mais esqueceu
um diálogo que presenciou, em silêncio, entre José e uma
sua sobrinha por afinidade que, precisamente, aprendeu a
dizer só o que a ele caía bem. A propósito de uma notícia
que estava a passar na tv sobre as mais recentes
estatísticas relativas a emprego e desemprego, José
comentou:
- Não percebo…, se há empresas que se queixam de que
não conseguem arranjar os trabalhadores de que precisam,
como é que há desemprego?!
A que a sobrinha respondeu:
- Só pode ser porque não querem trabalhar...
E José assentiu de imediato. Os raciocínios com princípio,
meio e fim de que é capaz foram sempre só deste calibre,
totalmente falaciosos, de verdades aparentemente
evidentes e irrefutáveis. E sente-se sempre muito gratificado
quando alguém, seja quem for, concorda expressamente
consigo, ou verbaliza os superficiais lugares comuns com os
quais tem predisposição para sentir afinidade. Se alguém
surge e avança uma perspetiva sobre o assunto em causa
que lhe introduz as devidas complexidades e incertezas,
José mal ouve e, quase sempre, fica calado.
Mas aquele era um momento em que José e aquela
sobrinha estavam de bem um com o outro. Outra época
houve, posteriormente, em que a indigência e futilidade dela
foram motivo de reprovação indignada da parte dele que, o
leitor já pode prever, não se eximia a revelar a conhecidos e
quase desconhecidos, sem pretexto algum. Acusou-a ele de
que ela só pensava em festas e em jantares em
restaurantes caros, obrigando o marido, chegado sobrinho
de sangue de José, a gastar muito dinheiro. Para além
disso, ela exibia excessivamente o corpo com as roupas
indecorosas que gostava de usar em público. E, ainda, dizia

José, por Pôncio Arrupe 25


em tom despeitado que ele, o sobrinho, era infeliz com ela e
que devia procurar outras mulheres e encetar relações
extraconjugais. Claro que, o leitor também já prevê, esta
atitude extremamente virulenta de José tinha, como sempre
em casos idênticos, um motivo mesquinho: a sobrinha em
causa havia dado uma festa de aniversário para a qual não
convidou José e Maria. O pretexto dado foi o de que era
uma festa tardia, pela madrugada adentro, só para gente
mais jovem. Mas, os mais próximos sabem-no bem, o
verdadeiro motivo foi a vergonha. Sim, e era de
concordância geral, as figuras grotescas de Maria e José,
particularmente a deste, descompunham qualquer cenário
que se quisesse de requinte e nível. E pior ainda seria se
José resolvesse abrir a boca para intervir em alguma
conversa. Mais à frente o leitor irá perceber vivamente como
José pode ser embaraçoso para os seus quando a tal se
atreve. De qualquer forma, com o passar do tempo, a
relação de José com aquela sua sobrinha voltou a passar
por fases boas e menos boas. Tal como com todas as
pessoas do círculo familiar mais restrito.
Retornando ao pequeno diálogo sobre desemprego,
escusado será dizer que a tontinha - é como António a
designa em conversas jocosas privadas, nomeadamente
com Miguel e o nosso já conhecido jovem rebelde
impertinente e impenitente - nunca jamais se sustentou,
nem à sua profusa prole, por um segundo que fosse, com
proveitos do seu trabalho, ou do seu cônjuge. Nem é, de
todo, previsível que alguma vez o venha a fazer. Aliás, nem
de longe conhece o mundo do trabalho, a não ser o das
suas empregadas domésticas. Portanto, a António ouvir tal
pessoa proferir tamanha bárbara e grotesca imbecilidade
sobre os desempregados em geral, revelando total
desconhecimento e, sobretudo, insensibilidade perante a
desgraça de outros menos afortunados, causou-lhe
profunda indignação, que chegou a doer.

José, por Pôncio Arrupe 26


E também a Miguel, que sustenta a petiza e sua prole só
com o seu trabalho e que, obviamente, não pode ter a
certeza de que virá sempre a conseguir fazê-lo. Aliás, não
tem dúvidas, se um dia se abater sobre ele o desemprego, a
falta de trabalho, o sentimento predominante que isso
gerará em José, e também na petiza, será a vergonha,
seguido da culpabilização, tão só; E as insinuações e maus
tratos velados, a guerra surda, que daí decorreriam, tal
como sempre fez com os petizes e Maria. Nunca a
compreensão e o apoio emocional, apesar de uma vida de
trabalho intenso e esgotante a ganhar muito bom dinheiro e
a proporcionar-lhes um nível de vida bem acima da média,
gastando-o generosamente. Miguel sabe que, nessas
circunstâncias, não lhe pagariam na mesma moeda. Pairaria
sobre a sua pessoa o espectro acusatório do golpe do baú.
Não dúvida. Para José, e a petiza facilmente seria
contaminada, sublinhamo-lo de novo, a prova mais evidente
dessa intenção, a de pretender dar o dito golpe, seria, tão
só, o facto de Miguel deixar de conseguir pagar as contas.
Simples. Para José, já vimos, uma simples suspeita é já
tratada como culpa, até prova em contrário.
Mas sempre foi com aquele tipo de gente desocupada,
gente de quem verdadeiramente nada de importante nem
ninguém jamais dependeu, que José consegue trocar
pequenos comentários. Só com pessoas desse calibre,
precisamente do modo de vida que ele sempre afirmou
tanto desprezar e em que desde sempre pareceu recear
que os seus petizes se viessem a transformar. Já sabemos,
a sua vida foi inteiramente feita de contradições, o que diz
valorizar ou detestar nunca passou a consequentes e
coerentes opiniões e comportamentos concretos
duradouros.
Portanto, a sua atuação constante ao longo dos anos
gerou e chamou ao seu redor gente muito tonta e ignorante
ou, pior, gente de carácter deformado, hipócrita e

José, por Pôncio Arrupe 27


interesseira, eternamente esperançada em alguma
recompensa, e afastou qualquer pessoa de verdadeiro bom
coração e de elevação de espírito. Sobretudo, a maior parte
dos mais próximos aprendeu a nunca o indispor porque,
caso contrário, sabiam que isso faria retardar, mais ainda, a
chegada de uma qualquer, ainda que incerta, recompensa.
Isto implica, inclusive, mesmo nos assuntos mais inócuos,
evitar expressar opiniões diferentes das de José. Quanto
mais não seja, pelo risco de o humilhar. Mas este nunca o
percebeu. Melhor, nunca o reconheceu porque isso
significaria exercer uma enorme violência sobre si próprio. E
nunca lhe foi difícil, já que, em boa verdade, raramente
chegou perto de gente de bom carácter. Quando isso
aconteceu, as pessoas, numa questão de, no máximo,
meses, optaram por se afastarem do convívio frequente.
Durante a maior parte da sua vida nunca chegou,
verdadeiramente, a experimentar o que seria relacionar-se
regularmente ao longo de anos com pessoas impassíveis –
imunes - perante a sua estratégia de vida implícita. Só muito
tarde, com uma ou, no máximo, duas pessoas, e por força
de circunstâncias que lhe fugiram ao controlo.

Como já vimos, José chegou ao ridículo extremo, algumas


vezes, de considerar seu amigo um qualquer desconhecido
vendedor que afirmasse, com total desfaçatez, já se vê, que
lhe estava a fazer um desconto especial, único. Aquele tipo
de profissionais utiliza para isso afirmações vácuas e
hipócritas como: “Porque gostei de si especialmente”;
“Porque não é um cliente como os outros”; “Porque o tenho
em especial consideração”; “Porque quero o melhor para si”;
“Porque acho que vamos ser bons amigos”; “Em nome da
nossa amizade”; “Porque gosto de si, abdico da minha
comissão”; Etc. E José sempre acredita porque … quer
sempre acreditar. Por isso, frequentemente recebe também
como um especial favor e consideração os conselhos que

José, por Pôncio Arrupe 28


aqueles profissionais inúmeras vezes lhe dão e que
implicam, quase sempre, incorrer em despesas adicionais.
Não aconteceu só quando comprou o seu Mercedes
ultrapassado, com leitor de cassetes. José sempre se
deslumbrou com as suas estratégias sedutoras e oferece-se
aos seus encantos, invariavelmente, parecendo nada ter
aprendido com a experiência de uma longa vida. A sua
absoluta credulidade reincidente, intocada, quase virgem, é
ainda hoje desconcertante e exaspera quem quer que se
proponha defendê-lo de ser enganado. Inclusive, muitos
outros sofreram o mesmo tipo de tratamento infligido por ele
ao seu amigo entendido em automóveis aquando da compra
do mencionado Mercedes. É que José, sem se aperceber,
talvez…, troca de bom grado um pouco do seu dinheiro pela
rápida ilusão de que o outro lhe vota respeito e especial
consideração; Amizade, até, carente como sempre foi,
também sem o saber. E tende a menosprezar – a maltratar -
as velhas amizades em troca da perspetiva de novas…
Observando José nestas circunstâncias, não restam
dúvidas, é possível confirmar que os meandros misteriosos
da sabedoria humana são, em grande parte, insondáveis.
De alguma forma, a maioria daqueles vendedores, ou de
outras pessoas que tenham a intenção imediata de
conseguir algo dele, ficam instantânea e
subconscientemente a saber que o melhor caminho para
alcançarem os seus intentos será o de começar por um
rasgado e alargado elogio a José, preferencialmente bem à
vista de outros. Quase todos encontram um pretexto, mais,
ou menos, patético, que sirva. António quer acreditar,
espera que assim seja, que, para muitos de nós, aquela
forma de atuar seria pura e básica charlatanice, motivo
gerador de desconfiança imediata. Mas em José toca fundo
e amacia-o, fá-lo baixar as defesas da sua proverbial e
mesquinha avareza intestina.

José, por Pôncio Arrupe 29


Tal como também ensinou aos seus filhos em atitude e
comportamentos efetivos, José nunca conheceu, portanto,
outras formas de relacionamento senão a de trocas de
favores, ou de supostas trocas de favores. Desenvolveu
também o hábito de considerar amigos quem quer que lhe
pagasse um jantar num restaurante de luxo, ou uma
semana de férias numa estância que fosse muito
requisitada. São sempre daquelas pessoas endinheiradas
acima referidas a quem tem prestado toda a vida pequenos
serviços de conveniência, dos quais só completos
analfabetos têm necessidade, ou então por se encontrar
perto, e eles não, do local onde é necessário tratar de
qualquer assunto. E inúmeras vezes, ao longo dos anos,
sofreu ao constatar que essas mesmas pessoas se
afastaram, para ele incompreensivelmente, mas, de
verdade, porque, devido a novas circunstâncias, lhes deixou
de ser de préstimo. Digamos que José tem sucesso
temporário junto delas porque consegue aparentar possuir,
sobretudo de início, alguma sabedoria útil, o que lhe é
particularmente aprazível. Mas, muitas vezes, são esses
seus amigos que fingem dar crédito a algumas das suas
opiniões ou recomendações, de modo a utilizar isso como
pretexto para lhe pedirem que se encarregue de alguma
tarefa.
Por vezes, aqueles que melhor o conhecem e dele já têm
conquistada a confiança, a abordagem que lhe fazem,
embora dissimulada, vai bem direta ao que realmente
pretendem: entram a pedir alguma informação ou,
sobretudo, conselho, encantando-o, predispondo-o desse
modo para assentir quanto ao pedido de favor que lhe
pretendem fazer e que é, realmente, ao que vêm. Muitas
vezes não chega a ser necessário explicitar o pedido porque
José se adianta, oferecendo-se de iniciativa própria.
Aquelas oferendas de que beneficia, que são pagas de
favores, por vezes dispendiosas, e que José gosta de

José, por Pôncio Arrupe 30


considerar que são manifestações de apreço e amizade por
ele, são do tipo em que ele, por mesquinhez e avareza,
jamais incorreria com ele próprio ou com os seus familiares.
No entanto, não perde o ensejo de fazer estes usufruir
também delas, sempre que essa oportunidade surge,
conseguindo desse modo providenciar mais algumas das
tais recompensas esporádicas e aleatórios, desta vez a
expensas de outros. Ouro sobre azul! Considera desse
modo que fica cumprida alguma sua obrigação,
dispensando-se, no curto prazo, de desembolsar seja o que
for. Mas, quase sempre, só consegue cair no ridículo porque
as suas intenções revelam-se evidentes. Por outro lado,
obrigação aquela que ele presume, e bem, que existe no
juízo de outros. Mas não no seu, afirma-o terminantemente!
Deste modo, entende que melhora a sua imagem junto dos
mais críticos. É que José sempre intuiu que muita gente não
aprova o seu modo de vida. Sim, de facto, trata-se de um
modo de vida na verdadeira aceção da expressão.
Portanto, seus descendentes próximos e sob a sua
influência direta aprenderam, também, a olhar as relações
nesta perspetiva. E também a aproximar-se dos incautos ou
desvalidos afortunados para, na primeira oportunidade, lhes
sacar os últimos recursos. Terá sido assim que José
conseguiu um impulso significativo no incremento da sua
pequena fortuna e que foi posteriormente aumentada
consideravelmente com alguns golpes de sorte do tipo estar
no lugar certo na altura certa em que toda a gente ganhou
dinheiro, e não só ele. As más línguas dizem que cuidou da
viúva rica que viveu em sua casa nos seus derradeiros anos
de vida, sem herdeiros, a troco de lhe ficar com a
considerável maquia que lhe restasse depois da morte.
Estava, numa ocasião, José a gabar-se em detalhe do
luxo com que tinham sido agraciados, ele e Maria, numa
viagem paga por um casal que os convidou a acompanhá-

José, por Pôncio Arrupe 31


los, quando Miguel, algo impulsivamente, ao contrário do
que lhe era habitual, o interpelou:
- Sabe que esse dinheiro com que lhe pagam essas
mordomias provém do crime? Em grande parte, podemos
dizê-lo, foi roubado, obtido indevidamente, é de negócios
ilegais, de fuga a impostos....
- Não sei bem, mas não fui eu que o roubei… E não havia
lá nenhum mordomo, também que exagero!
Alguns dos presentes, os que perceberam o equívoco de
José, incluindo Miguel, sorriram, contendo-se para não rir
francamente. Mas Miguel, passando por cima daquela
segunda observação risível de José, logo se focou no
assunto inicial, adotando um tom francamente irónico:
- Então, assim é fácil viver segundo os preceitos da santa
madre igreja… Combino com outro que…, talvez, quem
sabe, não sei, vamos os dois roubar, mas, claro, não o
confessamos um ao outro, e, depois, usufruímos só do
dinheiro que foi roubado só pelo outro. Nós até suspeitamos
mas não temos provas, ele não nos disse nada, e até pode
ser dinheiro da parte que não foi roubada, de uma
herança… Ou, digamos que ambos roubamos mas,
verdadeiramente, qual Robin dos Bosques, não é para nós,
é para o outro… Uma mão não sabe o que a outra faz. A
que gasta não conhece a que recebe… Tristeza!
António, e mais um ou outro dos convivas, olharam Miguel
espantados, estupefactos, até, algo receosos pela possível
reação do visado, pelo inusitado das suas cruas palavras,
pelo seu desbragado atrevimento. Claro está que José não
entendeu nada. “E ainda bem!”, disse António para si
mesmo. A maior parte dos presentes também não. António,
passados uns segundos, sorriu para dentro e disse de novo
para si: “Felizmente que, na maior parte dos casos, mal
entende o que lhe dizem…”.

José, por Pôncio Arrupe 32


Assim, José, viveu quase sempre no dilema permanente
entre o pânico de se tornar evidente, para si e para todos,
de poder ficar só – só, já o sabemos, no sentido de
desacompanhado de forma humilhantemente visível para os
outros - e o pânico de que os outros se aproveitem desse
mesmo pânico, acentuado pela sua estupidez, e ignorância
que ele próprio, só para si, reconhece. Por isso a sua vida
foi sempre uma sucessão de avenças e desavenças com
pessoas que o bajularam e que, na primeira oportunidade, o
enganaram, capitalizando na sua enorme e desconcertante
credulidade. Quando o engano se descobre mas, no seu
entendimento, é pequeno, faz de conta de que nada é com
ele, de modo a preservar a relação. Quando considera que
o prejuízo ultrapassou os limites do aceitável, e isso
depende também da importância que dá ao faltoso, corta
definitivamente relações, não sem antes se entregar a
cenas de grande alarido, mas inconsequentes e nas quais
mistura realidade com ficção, perdendo credibilidade. E isto
independentemente de, de facto, ter sido enganado, ou de
mais tarde vir a perceber que não o foi. O mesmo orgulho
que o conduz a estes cortes radicais, repentinos e cegos,
impede-o de reconhecer perante os outros, quando se
justificaria, que se precipitou e se equivocou no seu
julgamento e, na maior parte das vezes, de o reconhecer
para si mesmo. José é senhor de uma indefetível e infantil
capacidade de amuar. Só nestas ocasiões, qual criança
rabuja e birrenta, parece revelar alguma, embora apenas
por cegueira visceral, indiferença aos olhares críticos e
censuradores dos outros.
Estranhamente, ou talvez não, José deixa-se afetar em
especial quando alguém faz uso do mesmo tipo de
comportamento para lhe mostrar desagrado relativo a algo
que ele tenha dito ou feito. Particularmente quando se trata
de alguém que em nada dele depende e que tem alguma
influência sobre aqueles que a ele estão submetidos: em

José, por Pôncio Arrupe 33


especial petizes. Nessas circunstâncias, qual criança
manipuladora, tenta recuperar as pessoas com conversas
sedutoras que envolvam elogios e concordâncias com o que
quer que seja que esteja em cima da mesa. Chega ao ponto
de se forçar a não gostar, e a manifestá-lo com clareza, de
quem essas pessoas que pretende reconquistar não
gostam. Claro que, o leitor já o pode prever, em momento
posterior poderá vir a fazer o mesmo, se as circunstâncias o
pedirem, mas fazendo os alvos do seu amor e ódio trocar de
papéis diametralmente opostos. Para José, o jogo das
relações também é uma imatura dança de ora se gosto de
sicrano tenho que odiar beltrano, e vice-versa.
Alguns mais inteligentes e perversos descobriram,
encontrado o pretexto de circunstância certo, e se usarem
da devida subtileza de modo a que mais ninguém se
aperceba, evitando assim colocar José na iminência de
perder a face, que se lhe transmitirem a ideia de que a sua
relação poderá perigar, conseguem alguma benesse.
Benesse esta sempre disfarçada de modo a não o parecer,
claro. Um almoço em restaurante digno sob pretexto de
apoiar José em trabalho com outras pessoas, uma pequena
viagem de recreio sob pretensa intenção de analisar
hipóteses de investimento, e outras justificações que visam,
principalmente, preservar as aparências perante outros não
intervenientes. E, claro, como já vimos, o ganho, ainda que
normalmente apenas temporário, poderá ser também o de
indispor José contra alguém.
E já que é de birras que falamos, as de José
caracterizam-se, desde sempre, pelo refúgio num mutismo
absoluto quando na presença da pessoa de seu desagrado
do momento. O leitor poderá pensar, pelo que até agora leu,
que as relações entre os quatro membros do núcleo familiar
foram sempre, na aparência, anódinas e, só por isso,
sempre irrepreensíveis no que a civilidade diz respeito. Mas
não. De vez em quando José adota a descrita solução da

José, por Pôncio Arrupe 34


birra quando algum dos petizes, ou Maria, não se
comportam de acordo com a sua vontade. Já sabemos, o
leitor imaginará, que os motivos serão sempre de
importância menor, uma vez que é inconcebível pensar que
assim não seja, que alguma vez eles se atrevam a mais.
E o petiz, desde pequeno, também aprendeu a ganhar
ascendente sobre a petiza e Maria utilizando o mesmo
método. Elas, coitadas, ficam em polvorosa quando
qualquer um dos dois adota esse registo comportamental
para com elas. Entram em ansiedade, choram e imploram
perdão, de modo e tom desproporcionados ao assunto em
causa, e sem que lhes seja imputável qualquer culpa por
qualquer pessoa mentalmente sã. Cenas lamentáveis,
confrangedoras, que colocam em sobressalto quem por
perto esteja e que causam indignação a António e raiva
contida a Miguel. E José e o petiz, à medida que este tem
avançado na idade adulta, assumem cada vez com mais
frequência este registo entre eles. Naturalmente, não há
choro e ranger de dentes, e nunca há pedidos de perdão de
parte a parte. Apenas se mantém o mutismo entre os dois
durante algumas semanas, e que acaba por esmorecer em
rigor, até desaparecer completamente. Digamos que
resolvem as suas dissensões por via da troca de pesados e
significativos silêncios e ignorância ostensiva um do outro
que o tempo ameniza.
Um telefonema cirúrgico para a petiza, com as acusações
certeiras, de qualquer um dos dois, depois desta se casar e
passar a estar mais tempo com Miguel, era garantia de
infernizar a existência deste por uns dias por via do
alvoroço, recriminações e ataques de pânico induzidos na
piquena. Com a enorme vantagem de não terem que
presenciar nada nem de enfrentar o genro e cunhado.
Inconscientemente, cedo ambos aprenderam a agredir
indiretamente Miguel deste modo, indiferentes ao sofrimento
provocado na petiza. Esta, até hoje, não se libertou deste

José, por Pôncio Arrupe 35


jugo exercido sobretudo à distância, nem o reconhece. As
consequências seriam pesadas se o fizesse.

O pânico de ser mal visto e de perder "amizades" foi


sempre tal que, quando alguém ligado a si causa evidente
mal a um seu amigo, o que não é raro dado o tipo de gente
em causa, faz de conta de que não é nada com ele. Tenta,
desse modo, ao arrepio de qualquer decência, preservar
ambas as relações.
- Não tenho nada a ver com isso, não fiz mal a ninguém,
nem me fizeram mal a mim!
Respondeu José deste modo a uma crítica indireta de um
seu familiar pelo facto de continuar a agir como se nada
tivesse sucedido quando tinha ficado evidente um
comportamento desonesto de um seu amigo para com
outro. Referia-se aquele familiar ao comportamento de um
deles, que por José foi apresentado ao outro e
recomendado para prestar determinado serviço profissional.
Para isso, por intermédio de José, sem contactarem
diretamente entre si, o primeiro solicitou ao segundo um
adiantamento do pagamento futuramente devido, para fazer
face a despesas necessárias. Veio-se mais tarde a verificar
que essas despesas nunca chegaram a ser realizadas,
porque nada chegou a ser feito, e o interessado, o
mandante, não foi informado em tempo útil, e, no entanto, o
dinheiro previamente adiantado jamais foi devolvido. No
entanto, para António e para mais umas poucas pessoas,
esta forma de estar de José há muito que tinha deixado de
ser surpreendente. António cedo percebeu que, para José,
no mundo dos negócios é aceitável enganar, desde que se
não se seja descoberto pelo enganado. E isto, claro, em
evidente contradição com os valores em que se banha
todos os domingos na missa a que, com fervor
supersticioso, atende impreterivelmente. Mas não perde

José, por Pôncio Arrupe 36


pela demora, caro leitor, a este assunto retornaremos mais
adiante…
Em diversas ocasiões, António sabe-o seguramente, José
optou por ficar mudo e quedo perante o desfecho previsível
de negócios entre amigos em que um se preparava para,
inequivocamente, enganar o outro. E esse outro pode, até,
ser um familiar seu. Sempre entende, lá está, que não é
nada com ele e que, sendo assim, não está obrigado a
alertar a vítima da manifesta falta de lealdade e ética. E nem
se exime a receber alguma comissão ou outra vantagem, se
for o caso, desde que isso fique no segredo dos deuses,
quando serve de intermediário para a realização do negócio.
A sua forma de atuação pode passar por, inclusive, em
concertação secreta com alguns amigos e conhecidos
ofertantes, sem que revele ao potencial vendedor a
existência dessas ligações entre esses diferentes supostos
interessados, fazer baixar o valor das ofertas de compra por
um bem, de um apartamento, por exemplo, de um outro
amigo, ou, mesmo, familiar próximo, o tal vendedor. Tenta,
desta forma, enganá-lo, tirando partido do facto dele nele ter
confiado e o ter assumido como conselheiro e aliado, uma
vez que, supostamente, são amigos ou parentes. Nestas
circunstâncias, e com esta forma de atuar, fica fácil a José
transmitir-lhe a ideia de preço justo mais conveniente para
si, mas que, de facto, está a níveis claramente abaixo do
mercado, abaixo do que o vendedor conseguiria se
estivesse fora da teia urdida por José. As vítimas – sim, é o
que são - quase nunca se apercebem porque, por um lado,
partem do princípio de que José atua zelando genuinamente
pelos seus interesses, e, por outro, porque se consideram
leigos no assunto, ao contrário de José, nas mãos do qual,
também por isso, se entregam de boa fé. Claro está, este
acha que não está a fazer mal nenhum.
Esta sua estratégia funciona tanto melhor quanto mais
necessitado está o amigo ou familiar vendedor de realizar o

José, por Pôncio Arrupe 37


negócio; Quanto maior a sua urgência, que não poucas
vezes é desespero. José sempre teve um especial faro para
se encontrar com este tipo de necessitados. Chega a sair-se
da situação como o amigo ou parente benemérito,
comprando o bem pelo preço mais alto de entre todas as
ofertas feitas, quase todas elas fictícias e, artificiosamente,
extremamente baixas, claro. Pode utilizar frases como:
“Bem, não sei bem se vale, mas eu compro, para ajudar, por
esse preço…”. Normalmente, aceita os eventuais
agradecimentos com perfeita cara de pau. Por vezes chega,
inclusive, a comover-se. Até de joias de famílias em
desespero, supostamente amigas ou aparentadas, se
apropriou por valores irrisórios. Algumas chegaram a, na
sua presença, chorar de dor e raiva pensando ele que era
de alívio, de agradecimento.
António suspeita que José acredita, muitas vezes, que
naquelas circunstâncias, o seu papel foi o recomendável do
ponto de vista da ética e da caridade cristã e, até, que crê
no que diz à sua vítima do momento. António pensa que a
José não lhe passa pela cabeça que, nas circunstâncias
descritas, o seu dever verdadeiramente cristão, de amigo ou
familiar, seria o de ajudar a vender pelo preço mais alto
possível, e não tirar vantagem pessoal das circunstâncias
desfavoráveis ao vendedor.
Em coerência, José sempre entendeu que no mundo dos
negócios é legítimo recorrer à vingança por meios pouco
éticos, para compensar prejuízos resultantes de enganos do
passado. Esta é uma das justificações que dá a si próprio
para não interferir nos tais negócios entre amigos ou
familiares. Outra justificação, que ele reconheceu junto de
apenas alguns, muito poucos, nomeadamente perante
António, é de que foi muitas vezes enganado. António bem
sabe, porque conheceu inúmeros desses episódios, que
esses enganos foram quase todos possíveis devido às
proverbiais estupidez e ignorância de José, que resultam

José, por Pôncio Arrupe 38


em credulidade a níveis inconcebíveis. Sem se aperceber, é
como se toda a humanidade estivesse em dívida para com
quem tenha sido enganado – no caso, ele -, ainda que fosse
apenas por um só dos seus exemplares. E quanto maior o
número de enganos e mais vultosos os prejuízos, maior a
dívida, a ponto de poder ser impagável durante uma só vida,
mesmo que fosse a humanidade inteira que ele
enganasse…
Por isso, entende também que pode transferir para outros,
sem que eles se apercebam e, até, dando-se ares de quem
lhes está a fazer um favor, os incómodos e inconveniências
que lhe caem no colo por via do tipo de gente com quem se
dá.
- Enfim, eu continuaria a deixar o Pedro lá ficar mais umas
semanas, uma vez que é filho de um grande amigo meu,
mas preciso mesmo de iniciar as obras quanto antes. Por
isso, já não me posso responsabilizar por ele. Se quiseres,
eu já lhe falei nessa hipótese e ele aceitou, ele vai para o
teu apartamento enquanto está vazio e não encontras
inquilinos mais definitivos. Sempre tiras algum rendimento,
entretanto, porque ele concordou em pagar o mesmo que
acordou comigo, mais as despesas de água, gás e
eletricidade. É só uma questão de combinares com ele uma
data para sair.
José, durante uma parte significativa da sua vida, investiu
na compra de apartamentos para os alugar. Falava deste
modo com um dos seus amigos que também se dedicava à
mesma atividade, referindo-se a Pedro que estava a viver
num seu apartamento. Inicialmente, não teve coragem de
lhe recusar o favor de o deixar lá pernoitar enquanto ele não
encontrava uma morada definitiva na mesma zona, onde
procurava trabalho. Mas como Pedro lhe disse que seria só
por duas semanas, e também porque José não tinha a
intenção de alugar de imediato o apartamento, porque nele
pretendia fazer obras, aceitou fazer o favor, embora

José, por Pôncio Arrupe 39


relutante, desde que Pedro pagasse todas as despesas de
eletricidade, água e gás. Entretanto, passaram as duas
semanas, e mais duas ainda, e Pedro, apercebendo-se do
constrangimento que estava a provocar, propôs começar a
pagar também uma renda, mas que não seria mais do que
por mais duas semanas porque já tinha uma alternativa de
morada em vista. E disse também que pagaria uma renda
respeitante às duas semanas decorridas em excesso
relativamente ao que havia sido combinado inicialmente.
Mas, entretanto, no momento daquele diálogo de José com
o seu amigo, dois meses já haviam passado e, pior ainda,
José não havia ainda recebido de Pedro qualquer valor a
título de rendas e, mais, ainda não tinha sido ressarcido das
contas que já havia pago respeitantes aos consumos de
água, eletricidade e gás. Mas nada disto contou ao seu
amigo. Como vimos, apenas lhe referiu o inocente motivo de
que precisava de iniciar obras quanto antes no apartamento.
Só isso. Pedro acabou por mudar para o apartamento do
amigo de José e este logo se desligou completamente do
assunto, aliviando-se de qualquer responsabilidade e
protegendo-se de qualquer incómodo com o subterfúgio, por
si armado e profusamente divulgado, de que estava de
relações cortadas com Pedro. Daí em diante, sob essa
justificação, recusou-se a voltar a falar sobre ele, inclusive
com o seu amigo, que bem arrependido ficou de ter deixado
Pedro ir para o seu apartamento. E José, que nem pingo de
rebate de consciência aparentou, lavou daí as suas mãos.
Mas, naturalmente, ao contrário do que aconteceu neste
caso com Pedro, José prefere sempre recusar os favores
que lhe pedem, mesmo àqueles que apelida de grandes
amigos. Só não o faz naquelas circunstâncias em que não
consegue encontrar uma boa justificação que lhe permita
dizer que não airosamente, deixando intocada a relação.
Quando consegue encontra uma saída, utiliza muitas vezes
o estratagema de implicar terceiros ausentes no motivo da

José, por Pôncio Arrupe 40


recusa. E, muitas vezes, não se importa de manchar a
imagem destes, desde que isso lhe permita apresentar um
motivo de recusa que fique fora da possibilidade de
verificação de quem fez o pedido. Uma vez, perante uma
solicitação idêntica à de Pedro, mas posterior – estava
escaldado com a má experiência -, conseguiu recusá-la da
seguinte forma:
- Eu teria todo o gosto em deixar-te ficar no apartamento
por alguns dias, mas acabei de o recusar a uma outra
pessoa, não porque não pudesse, mas porque não quis,
porque não confio lá muito nessa pessoa. Por isso, não
posso agora emprestar-te o apartamento porque isso ficaria
a saber-se e eu não quero ter que dar explicações para não
me chatear.
António não pára de se admirar com os estratagemas que
José desenvolveu ao longo dos anos para dizer não sem,
verdadeiramente, o dizer. Mas, ainda assim, muitas vezes,
na falta de algo mais definitivo, ele limita-se a dizer que vai
pensar no assunto e deixa o tempo passar indefinidamente,
sem nunca mais ter a iniciativa de o retomar, desejando que
do outro lado o mesmo se passe.
Algumas pessoas diriam que José é cínico, que esconde
o que pensa só para não se chatear. Mas, na opinião de
António, na verdade, José sempre foi incapaz de assumir
qualquer posição de oposição ou confronto de modo claro e
inequívoco, mesmo quando imperativos de ética mais
elementares e universais o recomendariam. É cobarde e
hipócrita, e não cínico, muito menos irónico – nunca foi
capaz de tais subtilezas -, e desleal por sistema e intriguista
para poder navegar entre as inúmeras contradições do seu
comportamento e atitudes. E é tudo isto, quase sempre, por
motivos e interesses pessoais mesquinhos. Quando
alguém, que se sente vítima da sua falta de lealdade e da
sua intriga, o confronta com factos que o comprovam, José
opta invariavelmente por deixar entender que foram

José, por Pôncio Arrupe 41


terceiros ausentes que o induziram em, suposto, claro está,
erro de julgamento por lhe terem passado informação falsa.
Consegue, deste modo, prolongar, embora por tempo muito
variável, relações que perigam.

E, claro, é também bem de se ver, nunca suportou quem


lhe pudesse dizer as coisas na cara, de modo direto e claro,
nunca o enganando. Jamais tolerou quem, simplesmente,
demonstrasse desinteresse em ser aliciado com alguma
vantagem ou em entabular uma relação de permuta de
favores. Como Miguel, por exemplo. Com essas pessoas
nunca houve base para qualquer comunhão. E, uma vez
que tendem a ser mais inteligentes e cultas do que José,
nunca houve condições para qualquer conversa com
sentido. É que José consegue ser exasperante nas suas
alocuções porque, para além destas normalmente serem
sentenciosas, muito breves e inicialmente metidas a talhe
de foice, só para se fazer entrosado nos debates, nelas é
insistente já que é raro que se aperceba, pela sua total falta
de entendimento, do ridículo constante em que cai.
José, das raríssimas vezes que é convidado para, por
exemplo, festas de aniversário, normalmente por alguém de
conhecimento recente, sente-se desmesuradamente
honrado. Quer, por isso, estar ao nível, procurando fazer
boa figura aos olhos do aniversariante e de quem o rodeará
no evento.
- Ele é colecionador de moedas antigas. Faço questão de
lhe oferecer uma. Onde poderei comprar? Tem que ser bem
antiga, bem gasta, para valer muito.
Interpelou deste modo António que, para ele, era culto,
sabia de muita coisa. António logo tentou que ele desistisse
da ideia:
- Na minha opinião, particularmente quando somos leigos
na questão, não se deve oferecer a ninguém algo que é da
sua especialidade, do seu conhecimento profundo. Oferecer

José, por Pôncio Arrupe 42


uma moeda antiga a um numismata é um risco e um
atrevimento. Ele pode já ter, pode não valorizar e, quem
compra, não sendo especialista, não sabe exatamente o
que está a comprar e não consegue perceber bem o seu
valor.
- Então, mas é só encontrar uma moeda bem gasta, bem
velhinha. Há tantas! Com certeza que não iria logo ter o
azar de lhe oferecer uma repetida… E se for, troca-se!
António sabia, há muito, que não valia a pena insistir no
mesmo argumento que já havia sido rejeitado por José.
Este, ou por não conseguir compreender, ou por orgulho,
jamais volta atrás. Resolveu, por isso, tentar outra via para o
dissuadir:
- As moedas, quanto mais gastas, menos valem…
- Como assim?!!! A prova de que são bem velhas, bem
antigas, é de que estão gastas. Se estiverem novinhas, não
valem nada! - respondeu José, triunfante e algo jocoso.
António tentou, então, a via da redução ao absurdo:
- Quer dizer, então, que se eu apanhar uma moeda muito
antiga, mas em excelente estado de conservação, como se
estivesse nova, ela ficará a valer mais se eu a esfregar em
qualquer sítio para que fique gasta?!!! Se a puser na lama,
dentro de água para ganhar ferrugem, se passar com um
carro por cima para a espalmar, etc.?!!!
E António continuou, entrando francamente no sarcasmo,
ainda que indireto, o que quase nunca fez com José porque
sabia que este era dado a fáceis suscetibilidades:
- E até posso fazer tudo isto logo ali à frente de quem ma
vendeu… E o burro do vendedor a ver a sua moedinha a
valorizar ali à sua frente, logo a seguir a tê-la vendido, por
efeito dos maltratos que eu lhe infligisse ali mesmo…
Vendedor estúpido!
José ficou em silêncio, cabisbaixo. António prosseguiu,
levando ao extremo a demonstração pela redução ao

José, por Pôncio Arrupe 43


absurdo, mas, sob o efeito do emudecimento de José,
abandonou o tom sarcástico:
- Então seria quase impossível arranjar moedas antigas
em bom estado de conservação porque quem as apanhasse
ou as tivesse pôr-se-ia logo a desgastá-las… E se o
desgaste provocar o desaparecimento do valor facial da
moeda? Como se sabe que moeda é?
- Sabe-se pelo tamanho e pelos desenhos… - retorquiu
José, já um pouco receoso.
- E se a data desaparecer? Sabe que moedas do mesmo
valor facial, mas de anos diferentes, têm valores para
colecionador muitíssimo diferentes… Umas datas são muito
mais raras do que outras… Se não tiver data, como se
avalia a moeda?
José, como lhe era proverbial neste tipo de desfecho de
conversa, estava já a ruborescer. Resolveu, então, encerrar
o assunto tentando, também como lhe era costume, uma
saída airosa, sem apelo nem agravo para o interlocutor:
- Bem, não sei, não deve ser bem assim, teria que falar
com alguém que entenda do assunto… Mas a festa é já
amanhã, já não tenho tempo para isso e para ir comprar…
Tenho que pensar noutro presente.
E assim termina abruptamente José as conversas, deste
modo infantil, sem dar o braço a torcer, sempre que se vê
encurralado, sem capacidade de argumentação. Dá a
entender, quase sempre indiretamente, que o interlocutor,
mesmo quando na sequência de um pedido de ajuda de
José, inclusive quando lhe apresenta justificações razoáveis
que não requerem grande grau de especialização para
serem entendidas e aceites, não está adequadamente
qualificado para emitir opiniões sobre o assunto em liça.
Isto, a um só tempo, é manifestação, da parte de José, por
um lado, de despeito pelo interlocutor que está a humilha-lo,
e, por outro, do seu proverbial deslumbramento pela
suposta sabedoria única de diplomados e outros

José, por Pôncio Arrupe 44


especialistas, que não concebe como poderá estar ao
alcance de leigos.
Portanto, e realçaremos isso mais à frente, José tem
sérias dificuldades em compreender como é possível que
não especialistas em um qualquer assunto em causa
possam ter informações e opiniões válidas sobre o mesmo.
Postura própria, lá está, de ignaro deslumbrado pelo saber
em geral que lhe escapa à mínima compreensão. Esta sua
atitude é comparável à de assombro dos físicos teóricos e
astrofísicos perante a singularidade, perante a ideia de
buraco-negro, por exemplo: é quase certo que ali está, não
se veem os seus contornos, está sujeito a leis, em princípio,
inesprecutáveis, não se percebe bem para que serve e, no
entanto, ali está e, de alguma forma funciona e é
incontornável. Um mistério! Um mistério é para José a
existência de saberes que ele próprio não domina, nem de
longe.
Em outra ocasião exasperou uma pequena audiência de
quase desconhecidos, e envergonhou alguns dos seus
familiares que estavam por perto, com intervenções a
propósito de um tema quente à época: o terrorismo islâmico
e as migrações para a Europa de muçulmanos fugidos da
guerra na Síria. Afirmou, em síntese, numa pequena
sucessão de intervenções, que se deveria proibir a entrada
de emigrantes muçulmanos, e não dos outros. Confrontado
com como conciliaria isso com o princípio constitucional da
liberdade religiosa e da não descriminação com base na
religião professada, com o qual veementemente concordou,
monstrou a todos os presentes que não percebeu nada de
inconciliável na sua posição. Para José, tratava-se,
simplesmente, de impedir a entrada de muçulmanos e de
deixar entrar quem professasse outras religiões.
Naturalmente, de nada serviram argumentos de que os
islâmicos radicais são uma minoria, de que a esmagadora
maioria dos atentados terroristas acontecem em países de

José, por Pôncio Arrupe 45


maioria islâmica e são perpetrados contra muçulmanos
(José pôs isto em dúvida, o que não foi mais do que um
exemplo da estratégia que utiliza com frequência quando
lhe apresentam factos que, embora elementares, ele
desconhece e que contrariam as suas convicções. É
absolutamente patético nestas suas negações do óbvio, do
factualmente estabelecido.). Só se refreou quando lhe
apresentaram argumentos mais operativos do género: E o
que se faria com os muçulmanos que já cá vivem?; E com
aqueles que já têm nacionalidade?; E como seriam
inequivocamente identificados e escolhidos, se é proibido
registar a filiação religiosa em documentos oficiais?; E como
se ficaria a saber se os candidatos a entrarem no pais, ao
declararem a sua religião, não estariam a mentir só para o
conseguirem?
Uma outra vez, para lhe apresentar apenas mais um
exemplo, caro leitor, em que José, de novo caiu no ridículo
em público, sem vislumbrar minimamente porquê, afirmou
que os presos não deveriam ter direito a muito do que
usufruem nas prisões. Deveriam viver como os mais pobres
dos mais pobres. Portanto, sem camas, sem banho, sem
refeições certas a horas certas, sem aquecimento no
inverno. Deveriam, inclusive, viver apenas das esmolas que
arranjassem, concordou ele quando um dos presentes lho
perguntou em desafio jocoso de que ele não se apercebeu.
Acrescentou ainda, a propósito, que deviam ser obrigados a
trabalhar para pagarem as suas despesas. E manteve esta
sua posição mesmo perante a pergunta, do mesmo
brincalhão, de como conciliar isso com a proibição legal de
trabalho forçado, mesmo que remunerado? E de como se
faria a distinção desse regime de vida, que José
recomendava para os presos em geral, de tão só e
simplesmente maus tratos? E qual seria a bitola? Qual seria
o termo de comparação do grau de pobreza adequado para

José, por Pôncio Arrupe 46


os presos? Nesta altura já José estava completamente
perdido, mudo e ruborescente.
Para se ficar com uma ideia ainda mais precisa do que é
isto de se conversar com José ou de se presenciar as suas
conversas, vale a pena ter em conta a ideia que se impôs a
António diversas vezes sobre ele: até o conhecer não
imaginava que fosse possível uma mesma pessoa conjugar
tanta estupidez e tanta ignorância a ponto de nenhuma
consciência ter dessa sua condição. José, de facto, não se
apercebe que causa nos outros incredulidade,
consternação, indignação, constrangimento, sensação de
aviltamento, e um enorme e muito desagradável exaspero,
um sentimento de total impotência quanto a conseguirem
com ele uma conversa com pés e cabeça, com alguma
sustentação, e intelectualmente honesta. Sofre apenas por
via dos efeitos claramente observáveis: essas pessoas,
depois de o conhecerem, evitam aproximar-se dele de novo
porque qualquer conversa minimamente interessante e
informada é impossível. Isto para além do risco de serem
vítimas da falta de urbanidade e civismo de José.

Mas, já vimos, não descortina porquê e, por isso, vinga-se


alinhando sem pestanejar na propagação de intriga sem
qualquer fundamento. Sempre foi uma das suas ocupações
favoritas e fá-lo com ligeireza e sem grande esforço. Na sua
mente infantilmente perversa sempre se justificou, sem
lugar a qualquer dúvida, a seguinte norma: se não gostas de
mim, eu também não gosto de ti e isso dá-me o direito a
fazer-te mal. E para isso basta que o ignorem, ou perto
disso. Para José, como para as crianças ainda bem
pequenas, não gostar dele é fazer-lhe uma maldade, logo,
maldade que merece castigo. Quase toda a gente de que
dele não precisa para nada vem a ser vítima desta sua
propensão, sentindo-se, no mínimo defraudada, acabando
por esfriar a relação ou, mesmo, cortá-la radicalmente.

José, por Pôncio Arrupe 47


Nesse sentido, José é daquelas pessoas a quem se aplica
por inteiro o cliché normativo de que “se, junto de ti, faz
intriga sobre outras pessoas, junto dessas, e de outras
pessoas, fará intriga sobre ti”.
Muitas vezes utiliza, e utilizou, um método simples que
frequentemente resulta para os seus intentos. Em
conversas a dois, privadas, refere-se a alguém ausente,
levantando apenas o véu, em termos pouco abonatórios,
mas genéricos. Então, aguarda que o interlocutor do
momento concorde com ele e, eventualmente, que
acrescente algo mais à maledicência, algo de mais
concreto. Posteriormente, munido destas novas armas,
assim que tem oportunidade, numa conversa subsequente,
desta vez com a vítima visada naquela inicial conversa,
conta-lhe o que o seu interlocutor desta lhe disse sobre ela.
E, se munições também recolher nesta segunda conversa,
irá fazer o mesmo numa conversa posterior com o seu
interlocutor da conversa original, revelando-lhe o que o
segundo lhe disse sobre ele. E esta cadeia poderá durar
para sempre, se nenhuma das vítimas a interromper
afastando-se. Assim, tenta criar e prolongar relações,
agradando a gregos e troianos, agindo, por assim dizer,
como agente duplo.
E José insiste neste modo de atuar como forma de tentar
manter as pessoas próximas de si, ilusoriamente, já que a
maior parte de nós, tão somente, não resiste a ficar a
conhecer, mesmo que incrédulos e em dúvida, alguns
suculentos íntimos podres e escabrosos de outros. É isto o
que José tem para oferecer a troco de alguma atenção
daquelas pessoas que ele gosta de considerar amigos e,
sobretudo, que lhe permitem mostrar-se em público rodeado
de alguém. É a forma que tem de aplacar o pânico de ficar
só. Outros argumentos não possui com a generalidade das
pessoas que dele não dependam nem pretenderam alguma
vez retirar dele qualquer vantagem, ou que já desistiram de

José, por Pôncio Arrupe 48


tal intento. Quase invariavelmente, essas relações terminam
a curto e médio prazo. E compreende-se que assim tenha
sido quase sempre… Daí uma parte significativa das
presenças nas suas festas de aniversário de que tanto se
orgulha, ao longo dos anos, terem acontecido não mais do
que duas ou três vezes seguidas, quatro já será muito, e
depois se terem obliterado totalmente e para sempre do seu
círculo relacional.
Uma outra forma de interessar outros em relacionar-se
consigo, quando se encontra em posição propícia, consiste
em dar a entender que é o interprete legítimo e fidedigno
das intenções e desejos de pessoas ausentes, e mesmo de
que tem mandato para por elas decidir. Esta estratégia
funciona particularmente bem quando os ausentes lhe
pediram, embora apenas isso, que recolhesse alguma
informação junto de outros sobre assuntos de seus
interesses, ou que tratasse de burocracias sem impacto no
essencial. No entanto, por vezes, nem nada lhe pediram...
E, embora só algumas vezes, quando os acontecimentos
tomam um curso por si imprevisto e quando pressionado
para isso pelos interlocutores do momento, e para que não
fique a descoberto que, efetivamente, não tem real poder de
representação, toma decisões que não lhe competem.
Alguns equívocos, e alguns problemas graves relacionais
por via de expectativas aparentemente legítimas criadas e
não satisfeitas, tiveram que ser desfeitos. Mas José, sempre
que se chega a esse ponto, retira-se de campo e enjeita
qualquer responsabilidade, afirmando que fez o que lhe
parecia ser o melhor para quem, supostamente,
representava. Autonomeia-se, a posteriori, como intérprete
e mandatário dos anseios de outros.

Claro está que José não sente qualquer desconforto


quando alguém, e pode ser um perfeito desconhecido,
entabula conversação consigo denegrindo, caluniando,

José, por Pôncio Arrupe 49


levantando as mais graves suspeições sobre qualquer
amigo seu e, até, familiar próximo, incluindo os seus petizes
e a sua Maria. Pelo contrário, alimenta a conversa e
encanta-se de modo a agradar ao interlocutor e tentar
cimentar ou renovar uma antiga amizade ou construir uma
nova. E, claro, fica, em particular, muito satisfeito quando a
conversa versa sobre pessoas em relação às quais já
estava à partida de pé atrás. Já percebeu, caro leitor não é
preciso muito para se cair neste saco.
Por vezes, embora não sejam as circunstâncias preferidas
de José porque acaba por se retrair e não interpelar, isto
acontece no seio de um pequeno grupo. António não
consegue evitar uma sensação de repulsa sempre que na
sua mente surge a imagem de José em postura de sôfrega
audição de alguém falando de um qualquer ausente. Ele
senta-se hirto, absolutamente imóvel de corpo e rosto,
expressão de cara de pau, olhos fixos em quem fala. Quase
que apenas se nota abaixo das maçãs do rosto, na
continuação dos cantos da boca, um ligeiríssimo tremor
provocado pelo profuso salivar. Apenas isso. E também se
percebe, pelo distender desalentado do corpo, o
desapontamento de José quando nenhuma revelação
suculenta foi feita.
E propaga o que ouve, aos quatro ventos, em todas as
ocasiões propícias com que se depara.
- Mas não cortou com a conversa, não se sentiu mal, não
sentiu desconforto?!!! - perguntou-lhe um dia António depois
de José lhe ter relatado circunstanciadamente uma dessas
suas conversas a dois supostamente muito reveladoras.
José não reagiu, nem percebeu verdadeiramente a
sustentação da pergunta. Apenas retorquiu:
- É sempre bom ouvir o que as outras pessoas têm a
contar sobre os nossos conhecidos…
E António contra-argumentou:

José, por Pôncio Arrupe 50


- Mas sabe que tudo isso não é verdade, não sabe? Não
esclareceu isso?!
A que José respondeu:
- Não. Não era sobre mim… O acusado que se defenda…
- Então, mas se ainda por cima sabe que não é
verdade…-
Tentou António chamá-lo à razão.
- Sim, algumas coisas não são verdade, mas outras não
sei, não estou em situação de ter a certeza de que não são
verdade.
Para José o “não estar em situação de ter a certeza de
que não são verdade”, não conseguir provar que não são
verdade, era, e é, mais ao menos, o mesmo do que
suspeitar seriamente de que são verdade até prova em
contrário. José prefere, a qualquer pretexto, assumir
suspeitas como quase certas, para que em circunstância
alguma seja apanhado de surpresa fora de pé, mesmo que
isso signifique enganar-se muitas vezes e cometer
injustiças, algumas visivelmente bem graves e prejudiciais.
Atitude esta hiperdefensiva que, pensa António, resulta da
sua estupidez e ignorância e de uma história de vida em
que foi mutas vezes enganado.
António ainda tentou fazê-lo ver, usando do máximo de
urbanidade que conseguiu, que não estava certo propagar
maledicência, muito mais aquela de cuja veracidade nem
tínhamos a certeza; Que podíamos, procedendo desse
modo, causar graves danos; Que até prova irrefutável,
qualquer suspeito tem direito à presunção da inocência…;
Que não é o réu, por assim dizer, que tem o ónus da prova.
E não é só no sistema judicial. Para não falar de que quem
propaga uma intriga pode estar a fazê-lo deliberadamente
para prejudicar o alvo dessa intriga e, até, pode estar a
mentir deliberadamente.
“Ónus da prova”, “presunção de inocência”, “sistema
judicial”, quando António proferiu estas expressões logo

José, por Pôncio Arrupe 51


hesitou e refletiu sobre se não as deveria explicar a José.
Mas pouco se importou e não o fez. Já sabia e estava
habituado a que ele não conhecesse o significado de muitas
palavras e expressões e, também, que não o desse a
entender, continuando a agir como se estivesse a
compreender tudo. Poderia, inclusive, ter recorrido à célebre
e venerável expressão in dubio pro reo que José nem
acusaria o toque da sua absoluta incompreensão. Embora,
também estava certo, teria atribuído, por causa desse
simples uso, mais importância e credibilidade ao que
António lhe havia dito.
Mas, para além do que sobre o tema foi descrito atrás,
para José a simples suspeição, tenha que origem tiver e
seja qual for o seu criador ou propagador, já é razão
suficiente para castigo. De alguma forma, considera, sem
verdadeiramente o saber, que a condição de suspeito já é
de uma indignidade cujo ónus é justamente assacável ao
próprio. Essa condição é já um delito em si, uma falha com
culpa. E é, também, como se fosse já um castigo merecido
por antecipação de algo que ainda não se sabe bem e na
totalidade. A simples suspeição, o dar-se à suspeição, e
quanto mais badalada ainda mais, é já prova indelével de
algo defeituoso na pessoa e, por isso, é já censurável. Em
suma, José, sem o saber, é cega, selvática e
indiscriminadamente adepto da versão mais radical e
fundamentalista do aforismo “Não há fumo sem fogo”.
No entanto, na perspetiva de António, aquela conversa
relatada atrás teve um efeito benéfico. José nunca mais
voltou a fazer dele seu confidente de intrigas. A relação
esfriou, é certo e ainda bem, mas, por imperativos de
natureza familiar, manteve-se assídua e civilizada apenas
quanto o necessário para assegurar o fluir do dia-a-dia
corrente.
Algumas pessoas sabem deliberadamente utilizar esta
tendência de José para propagar maledicência com o intuito

José, por Pôncio Arrupe 52


de causar mal aos seus familiares, amigos e, até, a apenas
conhecidos. José, porque não se autocensura
minimamente, é das vias mais rápidos ao dispor para se
conseguir propagar boatos e fazê-los chegar rapidamente a
quem se quiser para, desse modo, inquinar relações. Basta
plantar qualquer suspeita na mente sôfrega e acrítica de
José, mesmo que muito indefinida e com pouco
fundamento, para que este desempenhe o papel de idiota
útil de modo diligente e eficaz. Muitas relações se
estragaram, algumas para sempre, outras por muito tempo,
graças ao seu amoral e abjeto contributo. Contudo, José
entende que está a prestar um bom serviço àqueles a quem
faz as suas supostas revelações. António e Miguel
costumam concordar sobre que José é uma porta
escancarada – a melhor porta! - para quem queira causar
dano a qualquer pessoa que com ele se dê, incluindo aos
familiares e amigos mais próximos, e também mesmo
quando essa relação seja quase inexistente.
Sim, José também propaga sem freio os murmúrios que
se refiram a gente que apenas conhece de vista. Uma das
suas frases típicas é: “Eu não sei mas estou a vender como
me venderam a mim… “. Perante esta pérola da sonsice,
António considera que está tudo dito e há, apenas, que
conter o vómito. Miguel acrescenta que há que conter e
guardá-lo para mais tarde, para a casa-de-banho, a bem da
saúde puramente corporal. O que causa repulsa às vísceras
precisa de ser expulso.

Mas José não se limita a transmitir boatos e suspeições


pouco fundamentadas. Por vezes, também os cria. E quase
sempre por confusões suas e motivos vários absolutamente
desconcertantes para quem ainda não o conhece bem. Por
exemplo, como homem de algumas posses e quase
analfabeto, e não integrando jamais ideais elevados e
inocentes na sua visão do mundo, odeia os comunistas que,

José, por Pôncio Arrupe 53


na sua conceção simplória e finita, são somente e apenas
um bando de ladrões organizados que não querem
trabalhar; Só querem roubar o que não é deles para
exclusivo proveito privado. Numa ocasião, tendo-se
apercebido que o amigo de um dos petizes estava a ler um
livro sobre a História do Comunismo - um dos raros amigos
que tinha por hábito ler -, logo lançou sobre ele o anátema
de que seria um perigoso revolucionário de esquerda a
evitar. E de seguida difundiu também a suspeita de que
tinha sido ele que havia roubado uma pequena peça de
porcelana dada como desaparecida de casa após uma
pequena festa para a qual tinha sido convidado. De nada
serviu dizerem-lhe que o amigo da família em causa não
era, de todo, comunista, antes pelo contrário, mas que
apenas se interessava por História em geral. Ficou
irredutível. Desafiava os defensores do acusado a
responderem satisfatoriamente à pergunta: “Mas porque
raio está ele a ler um livro sobre Comunismo se não é
comunista?!!!”. E ainda rematou: “E a porcelana continua
desaparecida! Hão de lhe perguntar por ela…”
Na mesma linha de processo mental, José acusou um
conviva um dia, em termos absolutamente impróprios, de
gostar da guerra somente pelo simples facto dessa pessoa,
conhecido como apreciador de cinema por toda a gente da
família, ter manifestado publicamente a sua admiração por
um filme, lá está, cujo enredo se passava, integralmente,
em contexto de guerra. Tratava-se de uma obra aclamada
pelas pessoas em geral e pela crítica profissional, e
profusamente premiada. E não ouve maneira de demover
José da sua convicção. Para ele, os filmes eram bons ou
maus consoante o enredo era, ou não, agradável e
recomendável. Os finais, sobretudo os finais, tinham que ser
belos e edificantes. Para ele, uma estória só era boa se
reproduzia o bem, o belo, a felicidade e a alegria, e o que
está certo. Para José, retratar a maldade era como ser-se

José, por Pôncio Arrupe 54


mau, retratar o horrível que o mundo tem era como ser-se
horrível. E apreciar esses retratos, de alguma forma,
significava o mesmo.
Por isso, José consumia quase só cinema na tv de
sábado e domingo à tarde, principalmente nas épocas do
Natal e da Páscoa. Só merda glicodoce, como diria António,
só para si. Posteriormente, António veio a compreender
melhor esta postura tão radical e infantil de José, e a
encará-la com mais benevolência, por comentários que lhe
ouviu sobre alguns filmes e, sobretudo, novelas. Percebeu
que, tal como as crianças, ele tem dificuldade em distinguir
uma obra de ficção da realidade propriamente dita a que ela
eventualmente se reporta. Sendo assim, tal como as
crianças até certa idade, por esse facto, em grande parte
por essa incapacidade em fazer essa distinção, José revela-
se extremamente impressionável quando vê ficção na tv de
pendor realista.
Mas, justiça seja feita, a José tanto se lhe dá para tais
juízos delirantes inconcebíveis quer seja para o mal, quer
seja para o bem. Na mesma linha, entendeu um dia que um
outro conhecido seria um profundo e bom devoto de Deus,
uma boa pessoa, porque se interessava pela História das
Religiões, já que andava a ver uma série documental na tv
sobre o assunto. Também de nada serviu dizerem-lhe que a
pessoa em causa era um ateu convicto. Aliás, para José, o
epíteto de ateu, a par do de comunista e do de socialista,
era do pior que se poderia dizer sobre o carácter de alguém,
logo certamente de todo desadequado a quem piamente, no
seu entendimento só poderia ser desse modo, se
interessasse por religiões. No entanto, é e sempre foi
incapaz de explicar com um mínimo de rigor o que são as
ideologias comunista e socialista, assim como, por exemplo,
de distinguir um ateu de um agnóstico.
As associações de ideias que se dão na mente de José
são, e sempre foram, imprevisíveis para qualquer mente sã,

José, por Pôncio Arrupe 55


assim como as convicções que, para ele, delas emergem
inapelavelmente. Mesmo depois de muitos anos de
convívio, ainda que moderado, António nunca deixou de se
surpreender de quando em vez, embora gradualmente fosse
diminuindo a sua incredulidade e espanto, com aquelas
produções mentais de José. Digamos que para ele, o
absurdo, no que a José diz respeito, foi-se paradoxalmente
instalando como a norma. Ao longo dos anos, embora a
espaços, José é protagonista de surtos episódicos em que
despeja as suas inconcebíveis associações na cara do
visado, em acessos públicos descontrolados de ira
acusatória infame, retirando-se logo de seguida,
cobardemente, não dando hipóteses de defesa à vítima
vilipendiada. No entanto, convicto, considera que este seu
proverbial, ainda que raro, comportamento é prova de que
não é hipócrita nem cobarde. António, Miguel e o jovem já
nosso conhecido, entre si, a propósito, divertem-se a pôr-lhe
rótulos. O último, sugerido por Miguel, foi: “O cascavel -
quando nada o faz prever, José executa uma rápida
aproximação e como que lança uma cuspidela na cara de
sua vítima seguida de fuga para local fora do alcance visual
desta, ou protegido no meio de outros convivas”. Por vezes,
estes acessos têm tão só por ignição um simples sopro de
orelha de alguém sobre algo que o visado da investida
possa ter dito na ausência de José. Às vezes nem isso, por
vezes apenas uma insinuação. No entanto, José age como
se fosse absolutamente certo e comprovado o que lhe foi
dito. Sem sequer interpelar a vítima, lança-lhe a sua ira
acusatória com tal veemência que quem assista, e ainda o
conheça mal, tenderá a olhar o acusado como alguém que
tenha cometido falta grave. Da fama este não se livrará
facilmente.

Às vezes José, tão só por falta de pudor, por manifesta


insensibilidade e incompreensão do que é do âmbito

José, por Pôncio Arrupe 56


estritamente familiar, comenta com estranhos à família
assuntos pessoais privados de membros da mesma.
Assuntos que estes jamais ventilariam com aqueles
estranhos. E aqui se incluem os do foro mais íntimo.
- Ele teve, coitado, um tumor na ponta do coiso… - José,
utilizando o seu polegar esquerdo a fazer de coiso,
procurava dar uma ideia da localização do mal no dito coiso
– e teve de ser operado. Coitado, parece que não ficou a
funcionar muito bem e já não fazem há algum tempo…
Parece que ela sente falta, não se queixa, mas, já sabemos
como é…
António, que já ouvia em total silêncio, mais mudo ficou
de estarrecido que estava por tão bárbara inconfidência,
que nem vinha nada a propósito, que não era necessária na
conversa que estava a decorrer, e que se referia a um casal
com quem tinha pouca intimidade. Optou, daquela vez, por
não comentar ou dar seguimento ao assunto.
António costuma dizer para si próprio que José, uma vez
de posse de uma qualquer informação, seja ela qual for e
respeitante a quem for, entende que é seu dono e senhor e
que, por isso, lhe pode dar o uso que bem entender. Assim
se compreende que José não entenda o alarido que hoje
em dia se faz a propósito da necessidade de leis adequadas
de proteção de dados. Mais um tema em voga a propósito
do qual tem também caído no ridículo sem se aperceber
disso. Na mesma linha, entende que quando obtém uma
informação que diga respeito a outra pessoa, que seja do
interesse desta, é livre de decidir se lha faculta, ou não.
Arvora-se em decisor, sem que o interessado o saiba e
possa ter uma palavra a dizer, como seria de seu direito,
daquilo que será para seu bem ou mal.
- Eu não lhe disse o que me contaram sobre a
possibilidade e facilidade em conseguir, para o Francisco,
uma bolsa de estudo para Inglaterra porque o Francisco tem

José, por Pôncio Arrupe 57


é que ficar cá a estudar. As nossas universidades são muito
boas e de graça. Não é preciso bolsa para nada!
E assim José se arvorou em decisor sobre um aspeto
importante da vida de um seu neto, o que já de si foi uma
abusiva e aviltante intromissão na esfera de decisão dos
pais dele, sobre um assunto do qual nada entendia e sobre
o qual tinha convicções elementares, preconceituosas e
erradas, pelo menos no que ao neto em concreto dizia
respeito. José tem por hábito atuar deste modo: sempre que
tem esse poder, toma e impõe decisões que não lhe
competem. Quase sempre pela calada, claro está. Por
vezes com efeitos irreversíveis, às vezes gravosos.
Afortunadamente para Francisco, ainda foi possível pedir a
bolsa a tempo por um feliz acaso.

Também acontece José manchar a reputação de alguém


por pura precipitação, sob pretextos insignificantes, por
motivos pueris. Muitas vezes levanta facilmente suspeitas
graves por simplesmente se apressar nos seus julgamentos,
ou por exagerar quanto ao que pensa que são as intenções
da pessoa em causa, para depois vir a verificar que se
enganou. Mas o mal fica feito porque do seu desengano
muito menos gente fica a saber. Não é tão lesto e profícuo a
desfazer suspeições como é a criá-las e a difundi-las. Lá
está, a suspeição, para si, já deve, pelo menos
parcialmente, a índole culposa do suspeito e, por isso, já
justifica o seu afã divulgador.
António lembra-se bem como José criou um boato, que
perdura há anos, sobre um familiar que lhe pediu uma
pequena quantia de dinheiro emprestado apenas por uma
semana. Precisava de fazer um pagamento dentro do prazo,
para não ser multado e para que não lhe fossem cobrados
juros, mas só teria o dinheiro necessário disponível uma
semana depois desse prazo. Infelizmente, por questões
burocráticas relacionadas com transferências bancárias

José, por Pôncio Arrupe 58


transnacionais, só conseguiu pagar a sua dívida a José
duas semanas depois, não uma. Pois, na semana que
mediou entre o fim do prazo acordado e o efetivo
pagamento, para muita gente com quem José se encontrou,
aquele seu familiar passou a ser conhecido como o maior
caloteiro. José, quase sempre a despropósito, deixava
transparecer, enquanto a dívida não lhe foi paga, que
estava a ser enganado, que o motivo apresentado para o
pedido do empréstimo não era real, que receava nunca
mais vir a receber o seu dinheiro. Isto apesar de José, em
devido tempo, ter tido acesso a informação documentada,
fornecida pelo devedor, que provava que, de facto, tinham
havido os tais problemas não previstos que tiveram como
consequência o atraso na disponibilização da verba.
Mas José tem fraca capacidade de compreensão e, talvez
também por isso, desconfia de tudo e todos ao mínimo
pretexto e não o esconde. Algo idêntico aconteceu com uma
outra pessoa com quem José acordou comprar-lhe um
apartamento. Foi marcada uma data para a realização da
escritura de compra e venda e para a efetivação do
correspondente pagamento por parte de José. Mas, dois ou
três dias antes dessa data, o vendedor telefonou-lhe para
lhe dizer que tudo teria que ser adiado quinze dias porque,
diferentemente do previsto, a inspeção dos bombeiros ainda
não se tinha realizado, não estando, por isso, ainda a
licença de habitação pronta. Pois, apesar da compra se ter
vindo a realizar efetivamente, sem quaisquer incidentes
adicionais, na segunda data aprazada, no espaço de tempo
desse adiamento meio mundo ficou a saber que “Já não
confio naquela pessoa, não sei já se quero fazer o negócio,
tenho medo”, “Os bombeiros devem ter encontrado qualquer
problema e eu não sei, não querem que eu saiba”, “Estão a
enganar-me”, “Deve, mas é, haver qualquer defeito grave
com o projeto, com a construção, com qualquer licença na
Câmara…”. Escusado será dizer que a maior parte das

José, por Pôncio Arrupe 59


pessoas a quem José manifestou estas suas infundadas
suspeitas não chegaram a ficar a saber do desfecho do
negócio que decorreu dentro da normalidade, a contento
dele e do vendedor. Ou seja, este da fama nunca mais se
livrou!
Das muito poucas vezes que alguém o censurou
abertamente por estar a manchar a reputação de uma
pessoa com base, apenas, em suspeitas que não podia
provar nem podia, ele próprio, verificar, José defendeu-se
enfaticamente afirmando que era livre de ter e expressar as
suas opiniões como bem entendesse. José,
desgraçadamente para as suas vítimas e outros que o
ouvem, nunca distingue o que é uma opinião sobre ideias,
sobre formas de resolver problemas, sobre decisões a
tomar, sobre escolhas a fazer, etc., do levantamento de
hipóteses sobre factos, atitudes e comportamentos
supostamente efetivos de outros. José sente-se livre de
pressupor, sem provas, o que bem entender sobre quem
quiser. Até prova em contrário, lá está, já sabemos. Para
ele, tudo se enquadra no princípio da liberdade de opinião e
de expressão. Aliás, sobre qualquer assunto, sente-se livre
de opinar quando, quase sempre, desconhece os factos
essenciais relevantes. José ignora a simples possibilidade
de não ter opinião, ou de precisar de informar-se para a ter.
Para ele, tudo se pode enquadrar no campo das opiniões e,
por isso, sente-se sempre livre de se expressar e propagar
o que quer que seja que lhe assome à mente. António, há
muito tempo, é certo, chegou a exasperar uma vez ou outra
ao tentar explicar-lhe a diferença entre suposições e
opiniões, mais simples ainda, entre adivinhar e constatar,
entre supor e verificar. No fundo, tentou, sem sucesso, fazê-
lo perceber o que pode ser considerado calúnia, mesmo que
em círculos restritos. Mas para José isso da calúnia é coisa
que só se aplica a personalidades públicas, políticos, …, em
jornais, televisões…

José, por Pôncio Arrupe 60


Ninguém está livre de, inadvertidamente, acender o
rastilho altamente inflamável que é José. Mesmo das
conversas mais inocentes e, até, bem-intencionadas, ele
entrevê motivos para propagação do boatos e rumores.
Como a sua postura é a de permanente intriga e
desconfiança e de difusão velada, e não tão velada, de
maledicência, presume que todos os outros também assim
são. E, diga-se que em grande parte por seus equívocos de
estulto, municia-se ao mínimo pretexto. Referindo-se à
petiza, comentou um dia na presença de Maria e de
António:
- Vejam lá que o Miguel se queixa que ela anda com
muito mau hálito… Imagino que está muito insatisfeito, que
já não gosta muito de estar com ela na… Enfim, parece que
já não lhe agrada tanto como antes, que lhe mete um
bocado de nojo…
António, já bastamente prevenido, não comentou e
resolveu averiguar. Para além da evidente falta de pudor no
que a um assunto privado do casal em causa diz respeito,
José, mais uma vez, adquiriu uma convicção absolutamente
falsa e, até, como lhe é hábito, adornou-a com alguns
detalhes que, no mínimo, são indecorosos. E qual foi a
suposta fonte de informação de José? Foi uma simples
conversa entre Miguel e o petiz, que lhe foi relatada por
este, em que aquele revelou a sua preocupação já que
receava que aquela alteração no hálito da petiza, que era
um facto, pudesse indiciar alguma doença grave. E mais,
Miguel, até então, tinha optado por não falar do assunto à
mãe de seus filhos porque queria evitar, o que não era fácil,
que ela entrasse em pânico e, nomeadamente, afligisse as
crianças. Mas o que acabou por acontecer, porque José lhe
contou a ela a sua tendenciosa versão, transmitindo-lhe a
ideia de que não lhe restavam quaisquer dúvidas, foi a
petiza adquirir o convencimento íntimo e angustiante, mas

José, por Pôncio Arrupe 61


que rapidamente se transformou em infantil despeito e,
depois, em desdenhar forçado, de que Miguel pretendia
deixá-la. E José nada fez para a dissuadir ou fazer moderar
tal convicção. Depois disto tudo, António ficou ainda a
perceber que a intenção de Miguel na conversa com o petiz
tinha sido, tão só, a de buscar aconselhamento sobre como
levar a petiza a uma consulta médica sem a apoquentar em
demasia.
Seguiu-se um largo período em que Miguel foi alvo de
atenções especiais de toda a família e amigos próximos,
não fosse ele estar interessado em uma qualquer outra
mulher. Naturalmente, todas as mulheres que, entretanto,
passaram perto de Miguel foram consideradas, entre o
vulgo, sérias e quase certas candidatas a destronar a
petiza. Sim, rapidamente, José, Maria e o petiz, este
facilmente convertido à interpretação de seu pai sobre os
eventos, difundiram a sua convicta suspeição sobre Miguel.
Equipas de batedores espontâneos, constituídas por gente
desocupada, se mobilizaram para vigiar Miguel. Para
tranquilidade deste, e não obstante a propensão para
facilmente se desenvolverem falsas crenças naquelas
mentes, não foram encontradas provas que pudessem ser
consideradas irrefutáveis, mesmo em face de critérios muito
pouco rigorosos. Miguel levava uma vida impoluta e
assoberbada de trabalho. No entanto, como o leitor pode
antever, a suspeição manteve-se para sempre, umas vezes
adormecida, outras vezes nem por isso, sempre pronta a
ser avivada ao mais ínfimo pretexto.
Por exemplo, basta Miguel levantar-se da mesa e afastar-
se antes de atender o telemóvel, como mandam as mais
elementares regras de educação. Para José e outros,
sobretudo aqueles que lhe querem agradar, este
comportamento, ainda por cima frequente, é prova
inequívoca de infidelidade efetiva ou, no mínimo, iminente.
A tal suspeição que, para José, já é em si reprovável e

José, por Pôncio Arrupe 62


merecedora de opróbrio. Para Miguel, são apenas
telefonemas inoportunos que recebe por motivos
profissionais, os quais muito desejaria poder rejeitar. Mas
sempre a leste ficou de todo este enredo criado na
sequência da sua ingénua conversa com o petiz sobre o
bafum da petiza. Para sua tranquilidade, também.

Em algumas raras ocasiões as relações com José


esfriam, e ou terminam, por outros motivos mais invulgares
e ainda mais abjetos, que não somente a intriga e
maledicência pouco fundamentada. Quando familiares e
outros próximos enfrentam problemas graves e complicados
de resolver, põe-se à distância, “foge”, e mantém-se em
silêncio (apenas tudo ouve atenta e sofregamente) para não
correr o risco de ser chamado a contribuir com esforço ou
dinheiro, e para não se comprometer com qualquer opinião
sua que possa, eventualmente, vir a verificar-se ser
disparatada. (Daí, por exemplo, a previsão de Miguel, a que
aludimos atrás, sobre o que aconteceria se, um dia,
deixasse de conseguir pagar as contas da petiza e sua
prole.). Mas, como acontece na vida em geral, na maior
parte das vezes tudo acaba por ser resolvido, a maior ou
menor contento dos interessados, e José continua a manter-
se distante e em silêncio. Se, eventualmente, o problema se
agrava, parecendo não ter resolução, na primeira
oportunidade, sem o mínimo de pudor e de caridade, aponta
culpados e debita sentenças sobre o que não foi feito e
devia ter sido. Naturalmente, isto numa altura em que já não
é possível comprovar o acerto das suas críticas e
recomendações.
Para José, o facto de não aconteceram os resultados
desejados é consequência direta, sempre, de decisões
erradas. Já sabemos, para ele, a vida é simples, não há
ligações complexas entre fatores, as relações diretas de
causa-efeito estão aí para serem apanhadas (de acordo

José, por Pôncio Arrupe 63


com as suas conveniências, mas isso ele não sabe). Mas
vai mais longe, ainda que também não tenha consciência
disso: não acontecerem os resultados desejados é prova
irrefutável de que as medidas alternativas por ele
preconizadas – sempre à posteriori, já sabemos – são as
corretas. Em cada caso concreto, incorre na falácia de que
a medida alternativa que, em particular, lhe ocorre daria,
certamente, não só melhores resultados, como os melhores
possíveis. Aliás, a que lhe ocorre é, na sua perspetiva, a
única correta porque se lhe apresenta como diametralmente
oposta àquela que resultou em algo indesejável. Outras
possibilidades de atuação, eventualmente melhores, não
existem, nem existiram. José vive, lá está, num mundo
simplificado de contrários, unidimensional, e não no das
múltiplas diferenças e opções, conhecidas e desconhecidas,
cujos efeitos são difíceis de prever e de controlar. Por isso,
também, e falácia esta ainda mais difícil de desmontar, é a
crença de José de quando a opção por ele recomendada
ou, mais frequentemente, por si adotada no passado em
situação que julga semelhante à vertente, é implementada e
dá resultados desejáveis. Nestas circunstâncias, José não
tem dúvidas de que seria a única a adotar, de que não havia
melhor e, até, outra possível.
E adota também este padrão comportamental de
distanciamento e não comprometimento, e explicativo, até
perante problemas de saúde de seus familiares e outros
dependentes, particularmente em relação àqueles para cuja
resolução ele se encontra em posição privilegiada para
contribuir, e com esforço pessoal muito menos pesado e
gravoso do que outros e do próprio. Mesmo quando, para
qualquer mortal sensível e bem formado, se impõe a
necessidade, e o impulso, de, ao menos, dar conforto
emocional, José preserva o seu distanciamento, não vá ser
apanhado nas malhas de eventuais escrúpulos de
consciência e de alguma réstia de empatia ou dó. Sempre

José, por Pôncio Arrupe 64


incorreu no incumprimento dos mais elementares deveres
de paternidade e de cônjuge, para não falar dos da simples
caridade, particularmente se visto em proporção às suas
possibilidades e à natureza da sua relação com quem se
encontre necessitado. Como que fecha os olhos, tapa os
ouvidos e se vira de costas. E se entrevê que alguém por
perto está capaz e poderá, eventualmente, fazer face a
despesas inevitáveis e a prestar outros cuidados, ainda
mais desobrigado se sente. E isto sempre sob justificação
de que o seu pecúlio vale mais porque, supostamente, lhe
custou mais a acumular. O que, no mínimo, nem sempre é
verdade.
Nestas ocasiões, a sua ignorância sempre lhe facilitou a
vida – sempre o ajudou a encontrar boas justificações para
se eximir às obrigações que a maior parte dos seres
humanos em circunstâncias idênticas adotaria
espontaneamente como suas. Sempre em busca do mais
barato, chegou a correr riscos com a saúde dos seus filhos
que, tendo em conta a sua situação financeira, eram
perfeitamente evitáveis. A sua existência foi sempre
simples, sem complicações: o mais barato, se possível, o
gratuito, é sempre, mas sempre, a melhor opção. Com esse
princípio subjacente, cometeu barbaridades sobre outros, e
prejudicou-se financeiramente por, nomeadamente, se
deixar enganar por vendedores da banha da cobra de baixo
preço. Mas raramente se apercebeu disso e, muito menos,
o reconheceu perante si e perante outros.
Com frequência, perante casos concretos, argumentou
que não contribuía para despesas, que eram bem
necessárias, porque entendia que a solução escolhida era
cara. Tão só, sem se preocupar em fundamentar
minimamente e ignorando demonstrações óbvias do
contrário, muitas vezes, qual criança mal-educada,
recusando-se a ouvir. Iliba-se assim de qualquer
responsabilidade sobre a decisão do que é, realmente, mais

José, por Pôncio Arrupe 65


importante. E, pior, sente-se desobrigado daí em diante de
intervir. Posicionando-se em relação às questões deste
modo, substituindo a necessidade de decidir sobre o
assunto principal pela decisão pela negativa quanto ao
assunto secundário de se é caro ou barato, disfarçou
inúmeras vezes que fugia a responder à interpelação que
verdadeiramente o incomodava: se ia ou não ajudar; se ia,
ou não, gastar algum dinheiro. No limite, chega a utilizar
uma versão modificada do mesmo argumento, reportando-
se à época em que foi criança, adolescente e jovem adulto
com poucos recursos, dizendo algo do género: “Quando
isso me aconteceu, não tive essa possibilidade.”; “No meu
tempo não era assim.”; “Eu tive que me contentar com…”.
Ainda hoje não se apercebe que, para se eximir à prática do
bem, utiliza o argumento falacioso de que consigo ninguém
o praticou. Esquece, ou oculta, também, que no seu caso,
isso aconteceu quase sempre por manifesta
impossibilidade, e não por falta de vontade de quem dele
cuidou. E, desde sempre, a inveja sobrevém quando
alguém, mesmo que familiar próximo ou amigo, recebe os
tais cuidados de saúde de que ele, supostamente, não foi
alvo. A propósito, com indisfarçável despeito, diz que foi
caro, que se arranjava mais barato, confundindo muitas
vezes, para exaspero dos envolvidos, procedimentos de
naturezas radicalmente diferentes, que implicam diferenças
abissais nos custos.
- Esse problema deve ter a ver com o Miguel… Na minha
família nunca houve problemas com os bebés… A Josefa –
José referia-se aqui à sua petiza – sempre foi cheia de
saúde! E sempre achei que aquele casamento sem ser pela
Igreja ia dar problemas…
Foi este o único comentário, e o seu único sinal de
tomada de conhecimento do problema, que proferiu quando
lhe disseram que o segundo filho da sua petiza havia
nascido prematuro e muito pequeno, e que precisaria de

José, por Pôncio Arrupe 66


cuidados médicos especiais nas primeiras semanas ou
meses. A partir desse momento, apenas ouviu em silêncio
os comentários sobre o assunto que ia apanhando no ar. E
António bem se apercebeu que ele esteve sempre repleto
de sentenças a propósito, que sempre esteve na iminência
de regurgitar frases que ouviu a especialistas diplomados e
a supostos especialistas, que informalmente consultou por
sua conta, que verdadeiramente não compreendia. Mas
conteve-se! E conteve-se até que tudo entrou na
normalidade e, por isso, não houve lugar a que fosse
pertinente debitar a sua suposta sabedoria alternativa.
Mas este episódio evoca em António uma outra faceta da
figura central deste pequeno texto. Naquele preciso
momento, António, ao ouvir o comentário de José, ficou
siderado, em particular pela insinuação de que os
problemas com o recém-nascido poderiam estar
relacionados com o casamento não religioso dos pais.
Miguel e a petiza casaram só pelo Registo – ele já tinha sido
casado pela Igreja -, embora em cerimónia pública, com
todos os convidados a assistir atrás, dispostos de forma
idêntica à de uma capela, por baixo de umas arcadas de um
belo e antigo edifício onde se realizou o copo de água.
Talvez pelo cenário, José só alguns anos depois é que
realmente percebeu que o casamento não tinha sido pela
Igreja quando alguém lhe explicou que o senhor de fato
cinzento escuro que oficiou à cerimónia não era padre.
Inicialmente recusou-se a aceitar aquilo que, para si, era
absoluta surpresa – e bem desagradável! -, mas acabou por
o fazer após corroboração de várias pessoas. Mais à frente,
caro leitor, será possível entender melhor como é possível
José viver tanto tempo em tal equívoco quando nos
referirmos ao seu proverbial sincretismo religioso cristão
com pinceladas de paganismo quase mágico.

José, por Pôncio Arrupe 67


Como já vimos, José sempre atribui aos titulares de
diplomas académicos competências e capacidades de
desmesurado valor e que aceita que vão muito para além da
sua compreensão. Lida com eles quase como se fossem
oráculos detentores de sabedoria oculta, logo, dispensados
de fundamentarem com racionalidade os seus diagnósticos,
as suas recomendações e previsões. No que diz respeito a
José, basta-lhes serem convictos e razoavelmente
articulados de palavras. E tanto mais é assim se ostentarem
sinais exteriores de sucesso, mais próprios de charlatões
que pretendem, precisamente, veicular essa imagem falsa,
mas que José não identifica. Tende, portanto, a confiar
quase cegamente nos seus conselhos e orientações. Por
isso, em algumas ocasiões, procurou aconselhamento que
seguiu sem verdadeiramente compreender e deu-se mal.
Porque valoriza muito mais tudo e que lhe dizem ou lê se
adornado, de preferência com fluência e ênfase, de palavras
e expressões que não compreende. Isto é,
verdadeiramente, sem o saber, o que sempre esperou e
espera dos diplomados em geral. Por isso, algumas
pessoas fazem uso deliberado de uma estratégia de
grandiloquência hermética para se valorizarem junto dele.
Sobretudo aqueles que têm a intenção de lhe oferecer os
seus serviços profissionais em troca de remuneração.
Incluindo médicos, já vimos. E quando quer dar a entender
que está dentro de um assunto, a que atribui alguma
complexidade, gosta de usar palavras que designam coisas
que, verdadeiramente, não percebe.
Portanto, por absurdo que pareça, José tende a atribuir
tanta mais competência aos diferentes especialistas quanto
mais eles utilizem um discurso incompreensível para si.
Logo, poderíamos dizer, seria a vítima perfeita para
qualquer charlatão. Mas não. Paradoxalmente, para
infelicidade da generalidade deles, José interrompe,
também sem conseguir explicar porquê, qualquer tentativa

José, por Pôncio Arrupe 68


de o aliciarem a contratar serviços profissionais no momento
em que procuram compromete-lo com despesas e
honorários. E fá-lo, indistintamente, tanto com os mal, como
com os bem intencionados (embora poucos destes andem
por perto). Para ele, como acontece com frequência entre
as pessoas ignorantes e de baixa instrução, sempre só teve
valor em dinheiro aquilo que ocupa espaço, ou os serviços
cuja execução demora um tempo determinado, de
preferência verificável in loco, de modo a que José constate
que algo de concreto e visível está a ser feito, com
resultados palpáveis: barbeiros, manicuras, massagistas,
enfermeiros, taxistas, empregadas de limpeza, dentistas,
mecânicos, etc. Mas, constantemente, procura, desde que
seja gratuito, os conselhos dos tais profissionais de
préstimos mais intangíveis, e, com frequência, papagueia e
segue as suas orientações, sem, já vimos, verdadeiramente
as compreender. Os vendedores em geral, também já
sabemos, beneficiam igualmente deste estatuto, ainda que
mais moderadamente.
Mas José, num padrão recorrente na generalidade das
suas relações, como já pudemos observar, por exemplo, no
que aos seus filhos e outros descendentes e dependentes
diz respeito, costuma dar pequenas recompensas
esporádicas e aleatórias àqueles profissionais que mais
tempo se aguentam perto de si. Falamos aqui, sobretudo, de
juristas, contabilistas, mediadores imobiliários, etc. Mantém-
nos, assim, na esperança de um dia virem a alcançar
condições remuneratórias melhores para os seus serviços.
Isso nunca chega a acontecer. António acredita que José
sempre sentiu, e ainda sente, um prazer mesquinho, algo
mórbido, até, em ter na dependência de si, em suspenso e
em situação de desespero e humilhação, de subalternidade
algo mendicante, podemos dizer, gente com instrução
superior à dele, titular dos tais diplomas que ele tanto
idolatra, mas em situação financeira bem pior do que a sua.

José, por Pôncio Arrupe 69


Claro que, compreensivelmente, os profissionais que se
prestam a este tipo de vida não costumam ser de grande
reputação e, normalmente, encontram-se em situação
financeira tal de nem sequer as incertas, parcas e indignas
recompensas de José poderem enjeitar. Aliás, sempre que
um deles consegue encontrar alguma via alternativa que lhe
dê, um pouco que seja, de alívio financeiro, de imediato, sem
contemplações e demais explicações, deixa de frequentar o
círculo de relações de José. De outro modo não poderia ser
uma vez que ele só consegue manter em seu redor gente em
dependência forçada. José fica magoado, já sabemos e,
também já sabemos, usa a intriga para retaliar, desfazendo
reputações. Felizmente para os visados, o alcance de José é
muito limitado porque tem pouco acolhimento fora do seu
restrito, desqualificado e ridicularizado mundo.

Mas gosta muito de dar a entender, sempre que possível,


que está bem por dentro da vida de outras pessoas
afastadas de si que, visivelmente, estão financeiramente
desafogadas, mesmo que, de facto, perceba mal o que elas
fazem. Para José, quase que só existem diplomados
médicos - os que mais considera -, e farmacêuticos,
advogados, engenheiros e arquitetos, e contabilistas. Todos
os outros, não compreende para que servem. Aliás, já
vimos, não concebe como é que alguém titular de um
diploma não tenha sempre acesso a uma determinada e
mesma profissão e, obrigatoriamente, muito bem
remunerada. Não obstante, sempre que se depara com
alguém que não se enquadra naquele grupo restrito, mas
que parece ganhar muito por via do desempenho
profissional, faz questão de dar a entender que sabe muito
bem ao que essa pessoa se dedica. Por exemplo, um seu
familiar afastado, que estava a atravessar uma fase
financeiramente muito boa, e que andava quase sempre de
fato e gravata e viajava muito de carro era, para ele, logo

José, por Pôncio Arrupe 70


para toda a gente com quem conversava sobre o assunto e
que lhe pediam esclarecimentos, vendedor. Já sabemos
que José nutre também uma admiração especial por este
grupo profissional. Talvez, em grande parte, porque tendem
a andar mais cuidadosamente vestidos e arranjados do que
a maioria dos outros profissionais. E, talvez também, porque
são pessoas que, por imperativo profissional, costumam
tratá-lo com muita deferência porque se apercebem que é
de posses e esperam, por isso, que se torne um bom
cliente.
Faz isto com tanta gente que muitos dos visados abdicam
de desfazer as confusões de José, quando têm
conhecimento delas, e os mal-entendidos daqueles a quem
ele prestou os seus supostos esclarecimentos. Por vezes,
basta ele dizer uns disparates quaisquer e as pessoas
indevidamente enaltecidas, tendo conhecimento no
momento, ou posteriormente, limitam-se a não corrigir ou
desmentir, deixando o boato circular e retirando o possível
usufruto do prestigioso disparate.
“A minha sobrinha inventou este medicamento!”, dizia
José numa ocasião, ufano, a um pequeno grupo de
companheiros de clube, onde costuma ir fazer algum
exercício, explicando de seguida que a tal sobrinha era
farmacêutica e que trabalhava no país, mas na empresa
multinacional de origem suíça responsável pelo
medicamento cuja caixa exibia. Para ele, isso era prova
evidente e irrefutável daquela sua afirmação. Para José, um
farmacêutico diplomado estava, de mote próprio e por si
mesmo, capaz de inventar medicamentos, e era isso que a
maioria faria. Afinal, que andam todos os farmacêuticos a
estudar durante tantos anos se não for para descobrir
remédios? Considera isto possível do mesmo modo que, na
sua imensa credulidade, acredita em todas as mesinhas que
lhe apresentam, sobretudo as que lhe chegam publicitadas
profusamente através da net, não sendo capaz de entender

José, por Pôncio Arrupe 71


a diferença essencial para os medicamentos reconhecidos
legalmente como tal. Aliás, tem dificuldades em perceber
porque há distinção entre uma farmácia e uma ervanária.
Também por esta via se entende a facilidade com que, no
que a questões médicas e de saúde diz respeito, José opta
quase sempre pelas alternativas mais baratas.
Na mesma linha crédula e ignorante, considerou que um
conhecido seu, de bem mais de quarente anos e que
praticava a exigente modalidade de triatlo nos tempos livres,
representava uma seleção nacional porque, uma vez, um
conhecido comum publicou no Facebook uma fotografia
dele a cortar a meta numa prova enquanto agitava no ar a
bandeira de seu país.
Aquelas pessoas que acabam por conhecer melhor José
sabem que é muito fácil convencê-lo de qualquer coisa
mirabolante. António, nos primeiros tempos da relação,
procurava sempre desfazer os equívocos de que tinha
conhecimento. Mas, porque quase sempre não tinha
sucesso, com o passar do tempo foi-o tentando com cada
vez menos convicção e cada vez menos vezes. Também
porque foi sendo cada vez menos tolerante para com as
manifestações de incredulidade obtusa de José. E para com
a desconfiança com que José o foi olhando cada vez mais
já que António sistematicamente acabava por toldar, e às
vezes arruinar, a imagem das pessoas que José tanto
enaltecia por ignorância e credulidade. Este chegou a
insinuar se não seria a inveja a principal motivação de
António. Perante isto, António percebeu que não valia a
pena tentar. Pior, que tentar daria, precisamente, no efeito
contrário e no seu achincalhamento. Assim, a pouco e
pouco, foi-se também juntando ao grupo de pessoas que, a
bem da sua tranquilidade, haviam abdicado de dizer a José
o que realmente pensam. Gradualmente, foi deixando
Miguel e o jovem irreverente a sós em campo.

José, por Pôncio Arrupe 72


- É tal o valor que lhe dão que, em poucos anos, já esteve
a trabalhar em cinco países diferentes e agora vive numa
casa, paga pela nova empresa, que custou seiscentos mil
euros!
José referia-se a um sobrinho seu, com cujos pais havia
conversado recentemente, orgulhoso e em jeito de desafio,
de repto provocador, mostrando de forma velada, por
contraste implícito, a pouca consideração que tinha pelos
feitos profissionais dos jovens adultos diplomados
presentes, particularmente seus filhos e genro. Este não
esteve com meias medidas e resolveu, então, pegar no seu
smartphone e fazer umas consultas na net:
- Deixe-me cá ver qual é o valor das casas na cidade
onde ele está…
E enquanto dedilhava com o indicador direito no écran do
aparelho com destreza e determinação, ia explicando para
todos ouvirem:
- Mas, já agora, eu sei bem como funciona a empresa em
que ele trabalhou até recentemente. É uma multinacional
muito importante que tem como política de recursos
humanos fazer circular os seus jovens quadros de todo o
lado, obrigatoriamente, por todo o mundo, nos primeiros,
mais ou menos, dez anos de carreira. Aliás, aqueles que
não quiserem acabam por sair cedo da empresa. Mas são
prevenidos quando os recrutam.
E, continuando a olhar e a passar com o dedo indicador
no écran do seu aparelho, rematou:
- No final desse período, a multinacional fica com uns, os
que mais lhe interessam, e os outros, como esse vosso
primo – olhou para os petizes, e não para José - são
incentivados e ajudados a arranjar emprego noutras
empresas…
Miguel fez, então, um silêncio suspensivo, continuando a
dedilhar e a olhar para o pequeno écran. Não pôde
constatar que José já ruborescia de humilhação, mas,

José, por Pôncio Arrupe 73


regozijante para dentro, suspeitou disso. Ao fim de, apenas,
mais alguns segundos, disse, mal disfarçando o tom de
triunfo:
- Cá está! Já vi em, pelo menos, três sites de empresas
imobiliárias lá da cidade. É uma das cidades do mundo
onde a habitação é mais cara. É impressionante! Um
apartamento de seiscentos mil euros, mais ou menos
setecentos mil dólares, tem, em média, apenas mil pés – só
noventa e três metros quadrados, mais coisa, menos coisa,
menos quarenta do que o meu -, e isto é numa zona de
classe média… Enfim, talvez um pouquinho acima… As
multinacionais do mundo civilizado não põem o seu pessoal
que está no terceiro mundo numa zona qualquer. É
compreensível…
E assim, à frente de toda a gente, Miguel arrumou com o
encantamento de José pelo seu sobrinho bem diplomado e,
profissionalmente, muito viajado, que supostamente levava
uma via de opulência paga pelos seus empregadores.
A veneração que sempre votou aos diplomas académicos
está subjacente ao modo interiormente conflituoso como
encara a sua instrução e a dos seus filhos. Apenas com a
instrução primária, malfeita, enaltece frequentemente o facto
de ter começado a trabalhar aos doze anos e de ter
enriquecido relativamente cedo. No entanto, exigiu que os
seus petizes se licenciassem e que, só depois,
começassem a trabalhar. Este foi um outro dilema sob o
qual sempre viveu: obrigar os seus filhos a adotar um
percurso de vida bem diferenciado do seu, que ele tanto
valoriza em comparação com o de outros com mais
instrução. Oscilou toda a vida, por isso, entre a atitude
crítica velada ao facto dos seus dois filhos terem começado
a trabalhar tarde para que, embora em grande parte por sua
insistência, tivessem estudos superiores e, em simultâneo,
não terem tido um sucesso profissional estrondoso e não
terem enriquecido por si sós após esses estudos, como

José, por Pôncio Arrupe 74


entendia que era obrigação deles por força dos diplomas
obtidos. Já vimos, também porque a sua curta experiência
escolar foi traumática, José ainda hoje pressupõe que
qualquer curso superior será de tal forma imensamente
trabalhoso que tem que dar acesso a uma qualquer
profissão forçosamente bem remunerada.
Este é o seu paradigma de base que sustenta a sua
posição crítica implícita em relação aos filhos: presos por ter
e por não ter cão; por não enriquecerem trabalhando desde
cedo e por não enriqueceram por si sós apesar de
diplomados, apesar das oportunidades e ferramentas que
lhes proporcionou. José não o sabe, mas este é, no fundo,
um castigo anunciado desde há décadas que lhes esteve
destinado, desde mesmo antes de nascerem: em troca de
um estatuto e respeito social que escapou sempre a seu pai
– o proporcionado por uma formação superior -, obtiveram o
não enriquecimento por mérito próprio, algo que ele
conquistou sem precisar dos tais diplomas e seu prestígio,
como entende que ficou demonstrado. Assim se
desculpabiliza José de sempre ter sido medíocre na escola
e de a ter abandonado cedo. Uma vitória a posteriori! É
também esta a atitude subjacente aos seus
comportamentos para com os diferentes profissionais e
especialistas a que acima nos referimos, como já vimos.

Pelo que foi descrito até agora sobre José, podemos


compreender melhor a resposta de António a uma pergunta
que algumas vezes se fez a si próprio: Se tivesse que o
caracterizar com um só atributo, numa só palavra, que
termo escolheria? António responde, cada vez com menos
hesitação, mesquinhez. Mesquinho no sentido de limitado a
sentimentos vis, desprezíveis. E também no sentido de
avaro. Avaro não só com bens materiais mas, sobretudo, no
sentido de incapacidade de dádiva de si próprio, do seu real
e genuíno empenho, da sua preocupação, seu esforço e

José, por Pôncio Arrupe 75


seu tempo sem esperar receber mais em troca; No sentido
da total, absoluta e radical incapacidade de empatia e de
conceder ao outro o direito e liberdade para agir tendo em
conta, em primeiro lugar, as suas convicções, os seus
interesses e prioridades, e não os de José. Mesquinho no
sentido de total ausência de elevação. Por razão nenhuma
verdadeiramente transcendente, importante, para além do
crescimento do seu pecúlio, traiu constantemente os valores
e princípios que sempre disse professar, e as pessoas em
geral. Isso é que é o mais odioso. E, last but not least,
mesquinho porque profundamente ressabiado por não ter
conquistado a respeitabilidade e prestígio social idênticos
aos de outros com idênticas posses, bem acima da média.
Se José não fosse feliz – e aqui, de novo, o leitor já sabe
em que sentido usamos o termo felicidade – provaria o
amargo sabor do aforismo “Dinheiro não compra felicidade”.
Para António, um detalhe especialmente revoltante no
comportamento de José, no que diz respeito à sua relação
com os tais profissionais, e com os seus familiares,
particularmente aqueles que bem podem estar a necessitar
de apoio, é o da falta de pudor com que exibe perante eles o
desperdício; A facilidade, e indiferença, com que desperdiça
bens alimentares em casa, com que perde dinheiro na rua e
noutros locais – gosta de andar com a carteira bem recheada
porque desconfia dos meios de pagamento eletrónicos -, com
que entra em despesas avultadas perfeitamente evitáveis,
nomeadamente se tivesse dado ouvidos a alguns daqueles
profissionais e a familiares e amigos melhor informados do
que ele, com que encara a perda de joias valiosíssimas por
Maria, com que gasta dinheiro em, por exemplo,
eletrodomésticos, computadores, etc., para depois não os
utilizar, de todo, sendo que dariam muito jeito a outras
pessoas, nomeadamente da família. Para ele, o desperdício,
o dinheiro malgasto, trata-se de uma prerrogativa de quem
pode, um privilégio, embora verbalize o contrário, embora

José, por Pôncio Arrupe 76


tenha dito inúmeras vezes que jamais se deve desperdiçar e
gastar dinheiro sem se ter a certeza de que é necessário.
Um dia, há muito tempo, mas já bem depois dos sessenta,
tomou contacto pela primeira vez com o conceito de música
clássica, sobretudo a de orquestra, por intermédio de um
novo vizinho, que era do meio, de quem tentou fazer-se
amigo, lisonjeado pelas atenções que ele lhe dispensava,
aliás normalíssimas e expectáveis em quem se havia há
pouco estabelecido numa nova vizinhança. Para isso, sob
conselho dele, e forçando-se a mostrar gosto por aquele tipo
de música, meteu-se a comprar uma bela aparelhagem
modular de alta fidelidade e discos da tal música de
orquestra (ainda era o tempo do vinil). Foi sol de pouca dura
porque o seu vizinho, uma vez que não tinha necessidade
dele para nada, foi-se afastando até à separação definitiva.
Não tinham nada em comum. A aparelhagem lá está, usada
apenas uma dezena de vezes numa dezena de anos. Um
grande desperdício na altura, uma dor de alma para alguns
verdadeiros melómanos menos abonados.
E com os seus cães – teve alguns – sempre procurou
também projetar uma imagem de grande nível. Fazia questão
de que fossem de raça pura, de linhagem principesca
comprovada documentalmente. Mas, de novo por avareza, lá
está, mais uma vez, fundamentada em pura ignorância
casmurra, não lhes prestava todos os devidos cuidados
sanitários, veterinários e alimentícios - nesta última área
tendia a aplicar-lhes cegamente as normas da alimentação
para humanos. Todos morreram excessivamente cedo e de
doenças prolongadas perfeitamente evitáveis, de causas
bem identificadas e conhecidas.

E, caro leitor, podemos afirmar que tudo o que até agora


aqui foi exposto é um retrato fiel de José apesar de ele
sempre se afirmar publicamente como religioso praticante e
muito crente na fé da Igreja Católica. Mas, realmente, nunca

José, por Pôncio Arrupe 77


soube bem o que é aquilo em que diz acreditar, o que é a
religião que de modo veemente e, até, triunfante, afirma
professar… Gosta, sobretudo, de se sentir parte do grupo
maioritário no seu meio. José jamais se acolheria em
minorias, jamais defenderia causas nascentes, de aceitação
reduzida e futuro incerto (Aliás, o leitor já está em condições
de adivinhar, José jamais defenderia causas nobres que
fossem para além dos seus particulares caprichos.). José,
tão só, atribui-se pertença ao grupo dos que,
aparentemente, pelos sinais exteriores, comungam da sua
fé e parecem ser piedosos. E não saberia explicar, nem tem
verdadeira consciência das diferenças de fundo, porque
professa a fé católica e não uma outra qualquer religião
cristã.
Na sua mente, de modo inconsciente, existe uma absoluta
indistinção entre catolicismo e qualquer outra religião
inspirada em Jesus Cristo. Durante muitos anos ostentou no
vidro traseiro do seu Mercedes um grande autocolante, de
lado a lado, que gritava “Deus é grande, Jesus Cristo é o
meu Senhor”. Até perceber que causava profunda
estranheza na generalidade das pessoas próximas e
vizinhança. E nunca chegou verdadeiramente a perceber
porquê. Apenas constatou, na sua perspetiva, não obstante
viver num meio predominantemente de fé em Cristo, que as
pessoas sorriam, troçavam, envergonhavam-se, torciam o
nariz, e, no entanto, para seu espanto, comungavam
também, parecia-lhe, da sua crença. Não percebeu que era,
precisamente, por ser uma zona católica, e ainda por cima
de classe média alta, ainda menos dada a manifestações
exteriores populares de religiosidade. É que José vivia, e
ainda vive, desarvoradamente a sua fé, que sempre
vivenciou através de um livre sincretismo cristão, em direto
conflito com a doutrina de Igreja de Roma. A sua vivência
religiosa sempre foi uma manta de retalhos de puras
superstições e crendices, rezas e gestos ritualistas, quase

José, por Pôncio Arrupe 78


magias, por vezes a roçar a bruxaria, e quase sempre por
motivos pueris. Enfim, tudo muito à la carte.
Como para José tudo na vida é instrumento, também a
religião sempre o foi. Também a religião é uma via para a
obtenção de estatuto social, de pertença a grupos
recomendáveis e, sobretudo, para conseguir favores de
deus e, em última instância, a sua salvação.
Sim, a sua salvação na eternidade. Diariamente José
entrega-se a rezas e mesinhas para, acredita António, por
problemas profundos de consciência, prolongar ao máximo
a sua vida e ganhar tempo para se redimir dos seus
pecados. Quanto mais tempo de vida, no conforto material
conquistado sabe-se lá bem como, mais tempo para rezar,
para compensar e evitar o inferno. Para ele, o inferno é uma
realidade indesmentível que, verdadeiramente, teme.
- Porque raio deus há de favorecer quem lhe reza e pede
favores?! - perguntou o nosso jovem impenitente para a
geral, antes do jantar festivo, enquanto viam as imagens de
uma cerimónia religiosa na tv, no decurso de um programa
noticioso.
Ninguém respondeu ou comentou, todos mantiveram
silêncio, que logo se tornou pesado. António calculou que
José não tivesse percebido minimamente o alcance da
pergunta. Mas o jovem resolveu insistir:
- E se uma pessoa boa não rezar e uma má rezar? A
pessoa má será beneficiada por deus?
António acredita que, em um primeiro tempo, José terá
respondido no seu íntimo que sim. Afinal, para que rezava
ele todos os dias?! E, em um segundo tempo, que as
pessoas más não rezam e as boas, todas elas, sim, rezam.
E sorriu para si.
Mas o jovem resolveu insistir:
- Então compensa pecar, cometer malvadezas e
beneficiar disso e, depois, rezar, pedir perdão… Sai
beneficiado o crente pecador que reze, em comparação

José, por Pôncio Arrupe 79


com o impoluto, não crente, que nunca reza, que não
acredita em deus, mas que nunca fez mal a ninguém, nunca
se aproveitou de ninguém, nunca infringiu a lei. Enfim, vale
mais cair em tentação e, depois, arrepender-se – e aqui fez
sinal de aspas com as duas mãos no ar.
António não tem dúvida de que José espera bem que
assim seja.
- Mas o que mais me faz confusão – continuou o jovem - é
por que razão deus, ainda por cima havendo tanta gente
mais necessitada, em maior sofrimento do que muitos dos
que rezam e lhe pedem coisas, há de conceder mais
favores a quem lhe reza do que a quem não… Parece-me
um deus bem mesquinho, que favorece quem lhe presta
vassalagem, um deus muito humanozinho, que faz escolhas
por motivos interesseiros, egocêntricos, que não me
parecem ser bons motivos… Deveria agir de acordo com as
necessidades das pessoas, e não de acordo com rezas…
Muito pouco deus…
Nesta altura António apercebeu-se que José já ruborescia.
Mas o jovem ainda não havia concluído:
- Por exemplo, por que raio há pessoas que acham que
foram salvas pelo próprio deus, após uma catástrofe natural
ou um ataque terrorista, quando se encontram rodeadas de
cadáveres e feridos, envoltas em mortandade e carnificina?
Porquê eles e não qualquer um dos outros? Porque foram
eles os escolhidos de deus… Pode haver maior presunção
do que isto?!
Entretanto, o programa que dava na tv passou a uma
notícia sobre alguns políticos suspeitos e acusados de
corrupção e outros crimes. O jovem, dando deliberadamente
seguimento aos seus comentários anteriores, logo disse:
- Estes malandros, muito deles, vão todos os domingos à
missinha! Eu sei… Estão lá caídos todos os domingos, não
perdoam! E, no entanto, são uns aldrabões, uns
grandessíssimos gatunos… Há aí paróquias de certas

José, por Pôncio Arrupe 80


vizinhanças em que aos domingos se apanham lá quase
todos à saída da igreja. São muito mais os que vão do que os
que não. Ao menos os que não vão não são hipócritas. Os
outros, os que vão, a maior parte, vão pecando durante a
semana e, depois, ao domingo, vão lá obter a remissão dos
seus pecados… E comungam! Será que acreditam nisso?!
Vergonha!
José, não só ruborescia mais intensamente, como agora,
embora recostado, também se agitava na sua poltrona de
patriarca da família, colocada mesmo em frente à tv. E o
jovem resolveu encerrar o assunto:
- Se queremos apanhá-los todos juntos, em grande
quantidade, como em mais nenhum sítio, é ir a certas igrejas
aos domingos…
Nesse momento José não se conteve mais e falou algo
exaltado:
- Isso não é verdade! Esses comunistas e socialistas que
não acreditam em Deus é que são uns criminosos! E esses
não vão à missa. E eu tenho conhecido só gente boa na
missa, gente que reza e dá esmolas. Gente muito bem-
educada, gente que me cumprimenta com uma grande
consideração! E eu não me dou com criminosos…
O jovem, algo intimidado, mais pelo repentismo inusitado
da reação, optou por não retorquir e um silêncio pesado se
instalou de novo.
Para além da evidente imprecisão da afirmação de José,
António apercebeu-se também que ele havia entendido que o
jovem pretendia afirmar que quem frequentava a missa era,
forçosamente, desonesto. Ou que, pelo menos, tinha forte
probabilidades de o ser. Tal era a sua incapacidade para ler
e desenvolver raciocínios que se ativessem às regras mais
elementares da lógica e racionalidade. Por isso recebeu tudo
aquilo como um intolerável e direto ataque pessoal. Uma
enorme ofensa. Uma inequívoca acusação. António, por isso,

José, por Pôncio Arrupe 81


resolveu, então, deitar água na fervura, assim que na tv
passaram a outro assunto:
- Bem, eu estou convencido, tal como acontece na maior
parte dos ajuntamentos de gente, que nas missas a maioria
das pessoas não são criminosas, corruptas, ladras…
Mas também ficou convencido de que a convicção
equivocada de José sobre o que o jovem teria pretendido
dizer não ficou minimamente beliscada. E assim deve ter sido
porque a relação entre os dois, a partir daquele momento,
ainda mais esfriou, como nunca, e aparentemente para
sempre. E já abemos como, com José, isto é fácil de
acontecer…

Mas retornando ao medo que José sempre teve da justiça


de deus, algum castigo acabou por acontecer? António
perguntaria de outra forma: algo lhe aconteceu que pudesse
ser visto por ele, e por outros, como um castigo do seu
Deus? Sim, algumas pessoas mais crentes e que se
considerem, em maior ou menor grau, suas vítimas,
poderiam dizer que sim, e ele próprio também. Castigo esse
que terá resultado diretamente de ter sido cobarde e
avarento perante, há décadas atrás, sintomas precoces dos
seus problemas de saúde que agora o assolam. Justiça seja
feita, embora não nos sirva de consolo, não o foi só com a
saúde de seus dependentes. Acabou por provar do seu
próprio veneno, diriam alguns mais maldosos e vingativos.
António entende que isto não desculpa as falhas de José no
passado neste departamento da assistência na doença aos
seus que se recusou a prestar na verdadeira medida das
suas possibilidades e obrigações. No entanto, acredita que
para José servirá para lhe amenizar um pouco alguma culpa
que o assole.
Agora, que já se nota que está a perder autonomia, que
está a ficar muito mais dependente dos outros, já se vêm
abutres de falinhas mansas a rondá-lo com muito mais

José, por Pôncio Arrupe 82


frequência do que anteriormente. Constata-se que está
cada vez menos vezes só, melhor, mais acompanhado, se o
leitor entende o que aqui se quer dizer. Nomeadamente, a já
nossa conhecida sobrinha tontinha, e outros de semelhante
índole, têm estado mais presentes e ainda mais glicodoces,
pacientes e submissos, dizendo-lhe ámen a tudo. António
diverte-se serenamente a observar estas movimentações, e
não se incomoda porque sabe que são fonte de algum
aconchego para José. Afinal, assim ele vá crendo que não
está só. E isso é melhor do que nada. Isto também já
abemos…
António está plenamente convencido de que José
entende que o agravamento do seu estado de saúde é,
verdadeiramente, pena enviada por Deus para sua
salvação. Embora ele, José, só o confesse a si mesmo e a
mais ninguém. A sua visão instrumentalista e finalista de
tudo há de enformar inteiramente os seus pensamentos e
emoções também nesta hora. Uma penitência, um castigo
de um deus menor, mesquinho, próprio de José, à sua
imagem e semelhança, pensa António, mas que também
agora bem satisfaz as suas ânsias; Que agora também lhe
serve, a seu gosto, a felicidade.
Por isso, está ainda – se isso for possível! - mais
cumpridor dos preceitos ritualistas da Igreja, embora, como
sempre, não entenda as suas origens, significados e
propósitos.
- Eu pensava que era por causa do sangue de Cristo
derramado na cruz, … Que é Deus e, por isso, está em toda
a parte, logo no sangue da toda a carne… Pensava que era
por causa do sangue de Jesus e da carne… Os peixes e o
marisco não têm sangue…
Este foi o comentário que o petiz fez, com a absoluta
concordância de seu pai, perante uma notícia informativa na
tv que explicava a origem da tradição da Igreja Católica
recomendar a abstinência de carne na Sexta-feira Santa e

José, por Pôncio Arrupe 83


na véspera do Natal. Os dois absolutamente ignorantes da
ideia de jejum e de penitência, preparando-se para almoçar
uma lauta cataplana de marisco naquela sexta-feira santa,
seguros do seu pleno cumprimento na forma - e seria
também em espírito, se conseguissem alcançar o
significado desse conceito - dos preceitos da Santa Madre
Igreja, da santidade daquela refeição, certamente
abençoada por Deus, porque rigorosamente depurada do
sangue de Jesus Cristo Nosso Senhor, que está em toda a
parte, em toda a carne...
António, que assistiu àqueles comentários, sentiu-se
tentado a explicar um pouco melhor que ideia era essa da
abstinência de comer carne, da penitência e jejum, mas
conteve-se porque seria em vão, correndo, ainda por cima,
o risco de causar indignação e, até, pio escândalo. E,
também, de ser, de novo, considerado comunista porque
agnóstico – aliás, melhor, um pouco recomendável ateu, na
perspetiva daqueles dois, já que as subtilezas do
agnosticismo lhes escapam ao entendimento. Aliás, por este
mesmo facto, qualquer simples explicação que pudesse dar
seria de imediato desvalorizada e descartada; Seria logo
considerada falsa, sem mais.
Mas, a este propósito e refletindo posteriormente sobre a
religiosidade de José e, também, do petiz, seu herdeiro
espiritual, António não pôde deixar de se colocar a questão:
E alguma ideação haverá que não seja instrumental,
finalista, que não sirva propósitos?; Resta-nos apenas
esperar que hajam uns propósitos melhores do que outros?;
Uns de mais elevação do que outros?; Teremos ao menos
isso?; E saberemos destrinçá-los?; E todos nós da mesma
forma?

José, por Pôncio Arrupe 84