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EXPLORAÇÕES PSICANALÍTICAS

D.W.WINNICOTT

CLAREWINNICOTI RAY SHEPHERD MADELEINE DAVIS Organizadores

Tradução:

JOSÉ ocrAVIO DE AGUIAR ABREU

Consutoria, Supervisão e Revisão Técnica da Tradução:

JOSÉ OTIONI OUTEIRAL ROBERTO BARBERENA GRANA ADRIANE KIPERMAN BERENICE PONTES NETIO

8IBLIOT.CA

DA ;ocEDADE BRASilEIRA DE PStCANAUSE

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Porto Alegre / 1994

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o Medo do Colapso (Breakdown)

Redigido em 1963 1

Enunciado Preliminar

Minhas experiências clínicas levaram-me recentemente a uma nova compreensão, segundo acredito, do significado de um medo de colapso. E meu intuito, aqui, enunciar de modo tão simples quanto possível esta com- preensão, nova para mim e, talvez, nova para outros que trabalham com psicoterapia.

Naturalmente, se o que digo tem em si verdade, esta já terá sido tratada pelos poetas do mundo, mas os clarões de illsigllt, que surgem na poesia, o podem absolver-nos de proceder à pe!,osa tarefa de afastar-nos passo a passo da ignorância, em direção ao

nosso objetivo. E opinião minha que um reenunciado de diversos outros problemas

estudo desta área limitada

conduz a um

que nos intrigam quando fracassamos em

nos sair tão bem clinicamente quanto quereríamos fazê-Ia e, ao final, indicarei quais

as extensões da teoria que proponho para exame.

Variações Individuais

o medo do colapso é um aspecto de importância em alguns de nossos pacientes, mas não em outros. Desta observação, se for correta, pode-se tirar a conclusão de que esse medo acha-se relacionado às experiências passadas do indivíduo e aos caprichos arnbientais. Ao mesmo tempo, tem-se de esperar um denominador comum do mesmo medo, a indicar a existência de fenômenos universais, já que estes, em verdade,

  • 1. Este trabalho foi publicado

na llllcnwliolla/

Rcoicio of PsycJlO-/lIIa/ysis (1974). A data de sua

composição é incerta. Existem algumas evidências de que foi redigido como uma palestra a ser

proferida perante a Clínica Davidson, em Edimburgo, em ] 963, mas que, em vez dele, outro

artigo foi apresentado;

foi por volta desta época que Winnicott utilizou o mesmo material no

pós-escrito a seu artigo Classificação (1964), em O /unoicn!« e os Processos de

Maluração (London,

Hogarth Press; New York, lnternational

Universities Press, 1965; Porto Alegre, Artes Médicas,

1963). No artigo A Psicologia da Loucura (1965), Capítulo 2] deste volume, Winnicott volta-se mais para uma dificuldade que encontrou na idéia existente por trás de "O Medo do Colapso", a saber, se é ou não possível que um colapso completo das defesas seja cxpericucindo. [N. dos Orgs.]

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tornam possível a todos saber empaticamente o que se sente quando um de nossos pacientes apresenta este medo em grande escala (O mesmo se pode dizer, em verda-

de, de todos os detalhes da insanidade da pessoa insana

..Todos

nós a conhecemos,

embora esse detalhe específico possa não estar nos incomodando).

Surgimento do Sintoma

Nem todos

os nossos pacientes que têm este medo queixam-se dele ao início de um

tratamento. Alguns o fazem, mas outros têm suas defesas tão bem organizadas que

somente após o tratamento haver efetuado considerável

progresso é que o medo do

colapso vem para o primeiro plano como fator dominante. Exemplificando: um paciente pode ter diversas fobias e uma organização com- plexa para lidar com elas, de maneira que essa dependência não surge rapidamente

na transferência. Finalmente, a dependência se torna um aspecto principal e, então, os

equívocos e fracassos do analista se tornam causas diretas de

assim, do desencadeamento do medo

do colapso.

fobias localizadas e,

Significado de "Colapso"

Utilizei intencionalmente a expressão "colapso" por

ser bastante vaga e por poder

significar diversas coisas. Em geral, neste contexto, a palavra pode ser

tomada como

significando o fracasso de uma organização de defesa. Mas perguntamos de imediato:

uma

defesa contra o quê?

E isto nos conduz ao significado mais profundo do termo,

uma

vez que precisamos utilizar a palavra "colapso" para descrever o irnpensável

estado de coisas subjacente à organização defensiva. Notar-se-a que embora haja valor em pensar que, na área das psiconeuroses, é a ansiedade de castração que jaz por trás das defesas, nos fenômenos mais psicóticos que estamos examinando é um colapso do estabelecimento do sclf unitário. O ego organiza defesas contra o colapso da organização do ego e é esta organização a

ameaçada. Mas o ego não pode se organizar contra o fracasso ambienta I, na em que a dependência é um fato da vida.

medida

Em outras palavras, estarnos examinando uma inversão do processo de amadu- recimento do indivíduo, e isto torna necessário reformular sucintamente os estágios iniciais do crescimento emocional.

Crescimento Emocional. Estágios Iniciais

O indivíduo herda um processo de amadurecimento, que o faz progredir

na medida

em que exista um meio ambiente facilitador e somente na medida em que este exista.

O meio

ambiente facilitador é, ele próprio, um fenômeno complexo e necessita de um

estudo especial por seu próprio direito: o aspecto essencial é que ele possui uma espécie de crescimento seu, próprio, estando adaptado às necessidades mutantes do indivíduo em crescimento. O indivíduo progride da dependência absoluta para a independência relativa e no sentido da independência. Na saúde, o desenvolvimento se dá em um ritmo que não sobrepuja o desenvolvimento da complexidade nos mecanismos mentais, achan- do-se isto ligado ao desenvolvimento neurofisiológico.

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o meio ambiente facilitador pode ser descrito como susicntação [holding], evo-

luindo para o manejo [handling], ao qual se acrescenta a apresentaçõo de objeto [object-pre- senting].

Em um meio ambiente facilitador desse tipo, o indivíduo passa por um desen- volvimento que pode ser classificado como integrador, ao qual se acrescentam a pcrso-

nalizaçãc [indwcllingl (ou couluio psicossolllático) e, depois, o rclacionuntcnto objctal [obiect- relating].

Esta é uma supersimplificação grosseira, mas deve bastar neste contexto. Observar-se-a que, em uma descrição desse tipo, o movimento para a frente no desenvolvimento corresponde estreitamente à ameaça de um movimento retrógrado (e defesas contra esta ameaça) na doença esquizofrênica.

Dependência Absoluta

À época da dependência absoluta, com a mãe suprindo uma função de ego auxiliar,

tem-se de lembrar que o bebê ainda não separa separadamente do estabelecimento do eu.

o não-eu do eu: isto não pode acontecer

Agonias Primitivas

É possível listar as agonias primitivas ianeiedade, aqui, não é uma palavra suficiente- mente forte), entre as quais apresentamos as seguintes:

  • 1. Retorno a um estado não-integrado (Defesa: desintegração).

  • 2. Cair para sempre (Defesa: sustentar-se/sclj-lzolding).

  • 3. psicossomático, fracasso da despersonalização (Defesa:

Perda do conluio despersonalização).

  • 4. do senso do real (Defesa: exploração do narcisismo primário, etc.).

Perda

  • 5. Perda da capacidade de relacionar-se com objetos (Defesa: estados autistas, relacionados apenas a fenômenos do sclj).

E assim por diante.

A Enfermidade Psicótica Como Defesa

É minha intenção mostrar aqui que o que vemos clinicamente é sempre uma organi- zação de defesa, até mesmo no autismo da esquizofrenia infantil. A agonia subjacente é impensável.

É errado pensar na enfermidade psicótica como um colapso; ela é uma organi- zação defensiva relacionada a uma agonia primitiva, e é geralmente bem-sucedida (exceto quando o meio ambiente facilitador não foi deficiente, mas sim atormentador, que é talvez a pior coisa que pode acontecer a um bebê humano).

Enunciado do Tema Principal

Posso agora enunciar a minha afirmação principal, e ela se revela muito simples.

Afirmo que o medo clínico do colapso é o medo de 11//1 colapso que já foi experienciado,

Ele é um medo da agonia original que provocou a organização de defesa que o paciente apresenta como síndrome de doença.

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Esta idéia pode

ou não se mostrar imediatamente útil para o clínico. Não pode-

mos apressar nossos pacientes, mas apesar disso, podemos deter seu progresso por genuíno desconhecimento; assim, qualquer pequeno conhecimento nosso pode ajudar a nos manter emparelhados com as necessidades do paciente. Segundo minha experiência, existem momentos em que se precisa dizer a um

paciente que o colapso, do qual o medo destrói-lhe a vida,

aconteceu. Trata-se de um

fato que se carrega consigo, escondido no inconsciente. Este último aqui, não é exata-

mente o inconsciente

reprimido da psiconeurose, nem, tampouco, o inconsciente da

formulação freudiana da parte da psique que se acha muito próxima do funcionamen-

to neurofisiológico. Tampouco se trata do inconsciente de Jung, que eu diria ser todas aquelas coisas que se passam em cavernas subterrâneas, ou (em outras palavras) a mitologia do mundo, nas quais há um conluio entre o indivíduo e as realidades

psíquicas internas maternas. Neste contexto especial, o inconsciente quer integração do ego não é capaz de abranger algo. O ego é imaturo demais

dizer que a para reunir

todos os fenômenos dentro da área da onipotência pessoal. Tem-se de perguntar aqui: por que o paciente continua a preocupar-se com isto que pertence ao passado? A resposta tem de ser que a experiência original da agonia

primitiva não pode cair no passado a menos que o ego possa primeiro reuni-Ia

dentro

de sua própria e atual experiência temporal e do controle onipotente agora (presumin- do a função de apoio de ego auxiliar da mãe, ou analista). Em outras palavras, o paciente tem de continuar procurando o detalhe passado que ainda niio foi cxpencnciado, e esta busca assume a forma de uma procura deste

detalhe no futuro. A menos que o terapeuta possa ter êxito em trabalhar com base em que esse

detalhe já é um fato, o paciente tem de continuar a temer encontrar o que está sendo compulsivamente procurado no futuro. Por outro lado, se o paciente estiver preparado para algum tipo de aceitação deste tipo esquisito de verdade, de que o que ainda não foi experienciado apesar disso

aconteceu no passado, irá se abrir o caminho para transferência, na reação às falhas e equívocos do

que a agonia seja experienciada na

analista. Em doses que

não sejam

excessivas, o paciente pode lidar com estas últimas, e explicar cada falha técnica do analista como contratransferência. Em outras palavras, o paciente gradualmente reúne o fracasso original do meio ambiente facilitador dentro da área de sua onipotência e da experiência de onipotência que pertence ao estado de dependência (fato transferencial). Tudo isto é muito difícil, consome tempo e é penoso, mas pelo menos, não é fútil. Fútil é a alternativa, e é esta que deve ser agora examinada.

Futilidade na Análise

Tenho de tomar por certa a compreensão e a aceitação da análise da psiconeurose. Baseado nesta presunção, digo que, nos casos que estou examinando, a análise começa

bem e progride com ímpeto; o que está acontecendo, contudo, é que o analista e o

paciente estão-se divertindo em conluio em uma análise psiconeurótica,

quando, na

realidade, a enfermidade é psicótica. Repetidas vezes o par analítico está satisfeito com o que fizeram juntos. Foi válido, foi arguto, foi cômodo - por causa do conluio. Entretanto, cada um dos chamados progressos termina em destruição. O paciente o rompe e pergunta - E daí? Na realidade, o avanço não foi um avanço, mas sim um novo exemplo de o analista

jogar o jogo que o paciente faz de postergar a questão principal. E quem pode culpar quer o paciente, quer o analista (a menos, naturalmente, que possa haver um analista

que desempenhe o papel de peixe psicótico em uma linha psiconcurótica

muito longa

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e espere,

por esse meio, evitar ser finalmente apanhado por algum golpe do destino,

Exploraçõi

tal como a morte de um ou outro dos participantes do par, ou uma falta de respaldo

financeiro )? Temos de presumir que tanto paciente quanto analista realmente desejam termi-

nar a análise, mas infelizmente, não há

fim, a menos que o fundo do cocho tenha sido

alcançado, a menos que a coisa temida teuh« sido cxpericncicda. E, em verdade, uma

saída para o paciente é ter um colapso (físico ou mental), e isto pode funcionar muito bem. A solução, contudo, não é suficientemente boa se não incluir compreensão e

insiglzt analíticos por parte do paciente, e, em verdade, muitos estou referindo são pessoas de valor, que não podem dar-se

dos pacientes a que me ao luxo de um colapso

no sentido de serem mandadas para um hospital psiquiátrico. O intuito deste artigo é chamar a atenção para a possibilidade de que o colapso já tenha acontecido, próximo do início da vida do indivíduo. O paciente precisa

"lembrar" isto, mas não é possível

lembrar algo que ainda não aconteceu, e esta coisa

Vazio

do passado não aconteceu ainda, porque o paciente não estava lá para que ela lhe acontecesse. A única maneira de "lembrar", neste caso, é o paciente experienciar esta coisa passada pela primeira vez no presente, ou seja, na transferência. Esta coisa

passada e futura torna-se então uma

questão do aqui e do

agora, e é experienciada

pelo paciente pela primeira vez. É este o equivalente do lembrar, e tal desfecho constitui o equivalente do levantamento da repressão que ocorre na análise do pacien- te psiconeurótico (análise freudiana clássica).

Outras Aplicações Desta Teoria

Medo da morte

Exempl

É necessário pouca alteração para transferir a tese geral do medo do colapso para um

medo específico da morte. Este é talvez um temor mais comum, um medo que é

absorvido nos ensinarnentos religiosos a respeito de uma vida alérn-túmulo, negar o fato da morte.

como a

vida

Quando o medo da morte constitui um sintoma significativo, a promessa de uma futura fracassa em proporcionar alívio e a razão para isso é que o paciente possui

uma compulsão a procurar a morte. Novamente, é a morte que aconteceu, mas que não foi experienciada, que é a buscada.

Quando Keats se achava "meio enamorado da de acordo com a idéia que estou apresentando aqui,

morte agradável", ele se achava, ansiando pelo conforto que viria

se ele pudesse "lembrar" ter morrido, mas para lembrar, tem-se de experienciar a

morte agora.

A maioria

de minhas idéias é inspirada por pacientes, com quem reconheço meu

débito. É a um deles que devo a expressão "morte fenomenal". O que aconteceu no

passado foi a morte como um fenômeno, mas não como o tipo de fato que observa-

mos. Muitos homens e mulheres passam suas

vidas pensando se encontrariam solu-

ção no suidio, isto é, no envio do corpo a uma morte que já aconteceu na psique. O

suicídio, contudo, não é uma resposta, mas sim um gesto de desespero. Entendo agora, pela primeira vez, o que minha paciente esquizofrênica (que se matou) queria

dizer quando falou: "Tudo o que lhe peço é que me ajude a cometer suicídio pela

razão

certa e não pela razão errada". Não consegui fazê-lo e ela se matou no desespe-

ro de encontrar a solução. Seu objetivo (como agora percebemos) era obter de mim a declaração de que já morrera na primeiríssima infância. Com base nisto, acho que ela e eu

e

c

o

d

o

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poderíamos tê-Ia ajudado a postergar a morte corporal até que a velhice lhe cobrasse seus direitos. A morte, encarada desta maneira, como algo que aconteceu ao paciente que não era suficientemente maduro para experienciar, tem o significado de aniquilamento. E

como se se desenvolvesse um padrão no qual a continuidade do ser fosse interrompi-

da pelas reações infantis

do paciente às intrusões [illlpillgCIIlClltSJ, com estas sendo

fatores ambientais que se permitiu invadirem por falhas do meio ambiente facilitador. (No caso da paciente citada, os problemas começaram muito cedo, pois houve uma percepção prematura despertada antes do nascimento por causa de um pânico mater- no; em adição a isso, o parto foi complicado por uma placenta prévia não-diagnosticada.)

Vazio

Mais uma vez, meus pacientes mostram-me que o conceito de vazio pode ser encara- do através deste mesmo par de óculos. Em alguns pacientes, o vazio precisa ser experienciado, e este vazio pertence ao passado, ao tempo que precedeu o grau de maturidade que tornaria possível ao vazio ser experienciado. Para entender isto, é necessário pensar não em traumas, mas em nada acontecen- do quando algo poderia proveitosamente ter acontecido.

E mais fácil para um paciente lembrar um trauma

do que nada acontecendo

quando poderia ter acontecido. Na ocasião, ele não sabia o que

poderia ter acontecido

e, assim, não poderia experienciar nada, exceto notar que algo poderia

ter sido.

Exemplo

Uma fase do tratamento de uma paciente ilustra isto. Esta jovem mulher deitava-se

inutilmente no divã e tudo o que podia fazer era dizer: "Nada está acontecendo nesta análise!" No estágio que estou descrevendo, a paciente havia fornecido material de um tipo indireto, de maneira que eu podia saber que ela estava provavelmente sentindo algo. Eu era capaz de dizer que ela estivera sentindo sentimentos e os experienciado

a atenuarem-se gradualmente, de acordo causava desespero. Os sentimentos eram

com o padrão dela, um

padrão que lhe

sexuais e femininos. Não se mostravam

clinicamente. Aqui na transferência estava eu (quase) sendo a causa agora de malograr-se sua sexualidade feminina: quando isto foi corretamente enunciado, tivemos um exemplo, no presente, do que lhe havia acontecido inumeráveis vezes. No caso dela (para simplificar a bem da descrição) havia um pai que, a princípio, dificilmente se achava

presente e que, quando retomava à casa, quando ela era uma meninazinha, não queria o sclf feminino da filha e nada tinha a dar a título de estímulo masculino.

Agora, o vazio é um pré-requisito

para

o desejo de receber algo dentro de si. O

vazio primário significa simplesmente: antes de começar a se encher. Uma considerá-

vel maturidade é necessária para que este estágio possa ter significado.

O vazio que ocorre num tratamento

é um estado que o paciente está tentando

expericnciar, um estado passado que não pode ser lembrado, exceto por ser experien- ciado pela primeira vez agora. Na prática, a dificuldade é que o paciente teme o horror do vazio e, como defesa, organizará um vazio controlado, não comendo ou não aprendendo, ou então, impie- dosarnente o encherá por uma voracidade que é compulsiva e parece louca. Quando o paciente pode chegar ao próprio vazio e tolerar esse estado por causa da dependên-

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cia no ego auxiliar do analista,

então receber em si pode começar a ser uma função

prazerosa; pode aqui iniciar-se um comer que n50 é uma função dissociada (ou ex- cindida)* como parte da personalidade; é também desta maneira que alguns de nossos pacientes que n50 conseguem aprender, podem começar a aprender com prazer. A base de toda aprendizagem (assim como do comer) é o vazio. Mas se o vazio não é experienciado como tal, desde o começo, ele aparece então como um estado que é temido, mas contudo, compulsivamente buscado.

Não-existência

A busca da não-existência pessoal pode ser examinada da mesma maneira. Descobrir- se-á que a não-existência aqui faz parte de uma defesa. A existência pessoal é repre- sentada pelos elementos de projeção e a pessoa está fazendo uma tentativa de projetar tudo o que possa ser pessoal. Esta pode ser uma defesa relativamente refinada e o objetivo dela é evitar responsabilidade (na posição depressiva) ou perseguição (no que eu chamaria de estado de auto-asserção, isto é, o estágio do Eu sou, com a implicação

inerente de que Eu repudio tudo o que mio scia eu). É conveniente aqui utilizar como

ilustração o brinquedo infantil de "Eu sou o Rei do Castelo;

você é o Patife Sujo".

Nas religiões, esta idéia pode aparecer no conceito de unicidade com Deus ou

com o Universo. É possível ver-se esta defesa sendo negada nos textos e ensinamentos

existencialistas, nos quais o existir é transformado em culto, numa

tralizar a tendência pessoal no sentido defesa organizada. Pode haver um elemento positivo uma defesa. Pode-se dizer que somente

de uma não-existência

que

tentativa de neu- faz parte de uma

em tudo isso, ou seja, um elemento que n50 é

a partir da não-existência é que a existência pode

começar. E surpreendente quão cedo (até mesmo antes do nascimento e certamente

durante

o processo de nascimento) a percepção de um ego prematuro pode ser

mobilizada. Mas o indivíduo n50 pode desenvolver-se a partir de uma raiz de ego se

esta estiver divorciada da experiência psicossomática

e do nascisismo primário. É

somente aqui que começa a intelectualização das funções do ego, e pode-se observar aqui que tudo isto se acha a uma longa distância, no tempo antes do estabelecimento de qualquer coisa que possa ser utilmente chamada de self.

Resumo

Tentei demonstrar que o medo do colapso pode ser um medo de um acontecimento

passado que ainda n50 foi experienciado. A necessidade de experienciá-lo

é equiva-

lente à necessidade de lembrar nos termos da análise dos psiconeuróticos.

Esta idéia medo da morte e a busca do vazio.

pode ser aplicada a outros medos afins, e dentre eles mencionei o

* No original, splitt-of[ sem correspondência literal em português; remete ao significado presente

em

expelido - cindido. (N. do T. e N. dos R.)