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DISPENSACIONALISMO:

UMA BREVE INTRODUÇÃO E DEFESA


por
Mark A. Swedberg

Introdução

Ao falar sobre uma chave hermenêutica, não se deve imaginar um segredo, conhecido
apenas por uma elite, que o hermeneuta traz ao texto e que abre todos os mistérios deste. As
chaves hermenêuticas sob consideração são sistemas de teologia cujos adeptos afirmam vir
das próprias Escrituras, Embora a Bíblia não seja um livro de teologia sistemática, o teólogo
não erra ao procurar por um sistema teológico nas suas páginas. Já que Deus inspirou as Es-
crituras, elas não contêm erros. Se elas não têm erros, não pode haver contradições nelas.
Logo, todas as suas partes devem poder se encaixar num sistema coeso de crenças.
As diversas chaves hermenêuticas, então, são tentativas de extrair um sistema das Es-
crituras que melhor explica todas as suas partes. Essa tarefa não é fácil e todos os sistemas
têm seus pontos de dificuldades. Eu sou dispensacionalista, não porque acho que dá para for-
çar o sistema sobre as Escrituras, mas porque é, ao meu ver, a melhor explicação de todos os
dados que temos nas Escrituras.
Os adeptos do dispensacionalismo não concordam em todos os pormenores do siste-
ma. Há variações dentro do dispensacionalismo, tanto historicamente quanto na atualidade.
Há, porém, certos elementos essenciais, ou sine qua non, que todo dispensacionalista teria
que aceitar para reivindicar corretamente este rótulo. O presente autor não tem a pretensão de
falar pelo movimento. Ele fala apenas como um que afirma as doutrinas essenciais do dispen-
sacionalismo.

O Dispensacionalismo Contrastado

Antes de examinar o dispensacionalismo, é proveitoso entender um pouco alguns ou-


tros sistemas de teologia que evangélicos seguem. Não é o intuito do autor ser exaustivo, mas
apenas resumir a essência desses outros sistemas. Alguns desses sistemas serão abordados de
forma mais exaustiva por outros professores.

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Teologia da Baliza
A teologia da baliza é um sistema de teologia adotado apenas por batistas que, em in-
glês são denominados Landmark Baptists (batistas abalizados). Eles crêem na noiva de Cristo
batista (Baptist Bride), e seu sistema é explanado no livreto O Rasto de Sangue.
Essa teologia é caracterizada por quatro crenças centrais:
 A igreja universal não existe. Existem apenas igrejas locais e visíveis.
 A instituição da igreja iniciou com João Batista.
 Desde João Batista até o presente existe uma sucessão ininterrupta de igrejas ver-
dadeiras.
 Para um batismo ser válido, é necessário que seja administrado por um adminis-
trador qualificado.
Historicamente é difícil demonstrar que houve uma sucessão ininterrupta de igrejas
verdadeiras desde João Batista. Além disso, há várias razões para crer na existência de uma
igreja universal.1 Finalmente, o NT deixa abundantemente claro que a igreja começou em
Atos 2, não com João Batista.

A Teologia do Pacto
“Teologia do Pacto” traduz do inglês a frase Covenant Theology. Covenant pode ser
traduzido “pacto”, “concerto” ou “aliança”. A teologia do pacto é comum entre os adeptos da
fé reformada ou calvinística, tanto batistas quanto presbiterianos. Esse sistema crê que a his-
tória da redenção gira em torno de três (ou, às vezes, dois) pactos.
O pacto da redenção foi firmado entre as três pessoas da trindade. Nesse pacto, feito
antes da criação do mundo, a trindade divina tratou de providenciar a redenção. A base bíbli-
ca deles para essa aliança é Hebreus 13:20–21. Homer Kent, Jr. dá uma interpretação dispen-
sacionalista dessa passagem: “Essa aliança, é claro, é a nova aliança discutida em 8:6–13 e
9:15—10:18. É eterna no sentido que assegura a vida eterna para os seus beneficiários e nun-
ca será invalidada ou substituída” [Hebrews, p. 293].
O pacto das obras foi firmado entre Deus e Adão como representante legal da raça
humana. Nesse pacto, feito no Jardim do Éden antes da queda do homem, a vida eterna foi

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Algumas são: (1) 1 Tessalonicenses 5:13–18 usa a frase “os mortos em Cristo”. Essa frase claramente fala de um
conjunto de pessoas crentes em Jesus Cristo, que morreram. Essa frase também exclui aqueles que creram antes da
morte e ressurreição de Cristo e foram batizados por João Batista. (2) Efésios 1:19–23 afirma que a igreja é o corpo
de Cristo e que é a plenitude daquele que enche tudo em todas as coisas. É possível afirmar que a igreja local é o
corpo de Cristo, mas dizer que é a plenitude daquele que enche tudo em todas as coisas é abrangente demais para
apenas a igreja local. (3) Efésios 2:11—3:13 faz uma distinção entre Israel e a igreja, que inclui tanto judeus quanto
gentios. Esta igreja é singular e está sendo edificada por Cristo. (4) Efésios 4:11 diz que Jesus deu alguns dons à
igreja. Estes dons são pessoas: apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres. Mas, apóstolos e profetas não
foram dados a igrejas locais. Foram dados a toda a igreja, isto é, à igreja universal.

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prometida ao homem se ele obedecesse a Deus. Adão, é claro, falhou, mas Jesus Cristo poste-
riormente cumpriu a aliança. A base bíblica para essa aliança é Gênesis 1 — 2.
O pacto da graça é, às vezes, juntado com o pacto da redenção. Esse pacto foi firmado
entre Deus e Adão servindo como representante legal dos eleitos. Esse pacto, firmado no Jar-
dim do Éden depois da queda, afirma que todos os salvos são o povo de Deus. É um pacto
incondicional.
Há pelo menos cinco problemas com esse sistema. Primeiro, nesse sistema Israel e a
Igreja são a mesma coisa. A Igreja começa com Adão. Segundo, o crente é colocado debaixo
da lei — não da condenação da lei, mas das obrigações da lei. A lei é vista como um dos
meios de santificação. Terceiro, esse sistema não aceita uma restauração futura de Israel co-
mo nação. Quarto, esse sistema muitas vezes leva ao batismo de bebês. Como a circuncisão
era o sinal do pacto na Antiga Aliança, o batismo o é na Nova. Já que a circuncisão era admi-
nistrada a bebês na Antiga Aliança, o batismo é administrado a bebês na Nova. Cinco, a teo-
logia do pacto, através do pacto das obras, ensina a salvação pelas obras. Embora ensine que
ninguém é capaz de cumprir a lei, ensina também que, se conseguisse, seria salvo.

Heilsgeschichte
Heilsgeschichte é uma palavra alemã que significa “história da salvação” e é, na ver-
dade, uma teoria de história cristã. Essa designação saiu dentre o ambiente de liberalismo e
neo-ortodoxismo alemão e foi popularizado por Oscar Culmann. George Ladd, um evangéli-
co, gostou do conceito e adaptou-o à teologia evangélica. A doutrina central de heilsgeschich-
te é que “a revelação [divina] ocorreu nos atos redentores de Deus na ‘sagrada história’ regis-
trada na Bíblia, os quais culminaram na totalidade da pessoa, palavras e obras de Jesus Cristo,
incluindo Sua morte e ressurreição” [George E. Ladd, “The Search for Perspective”, Interpre-
tation, 25 (Janeiro, 1971), p. 42].
O problema central com esse sistema é a mescla, ou mistura, de Israel com a igreja.
Isso fica evidente na seguinte colocação de Ladd na sua Teologia do Novo Testamento:
O significado de Cristo é a inauguração de uma nova era de salvação. Na morte e res-
surreição de Cristo, as promessas da salvação messiânica do Velho Testamento se
cumpriram, mas dentro da era antiga. O novo veio dentro do alicerce do antigo, mas o
novo também está destinado a transformar o antigo. Portanto, a mensagem de Paulo é
tanto de uma escatologia realizada como futurística. [George E. Ladd, Teologia do
Novo Testamento, Exodus Editora, 1997, p. 352.]
O resultado disto é que não há uma distinção clara e consistente entre a economia divina para
Israel e a para a igreja.

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Dispensacionalismo Progressivo
O dispensacionalismo progressivo é fruto de um grupo de estudo de dispensacionalis-
tas em conexão com a reunião da Evangelical Theological Society [Sociedade Teológica E-
vangélica] de 1986. O nome surgiu em 1991 e descreve a crença dos seus aderentes que cada
dispensação é construída em cima das anteriores e constitui uma progressão interligada. O
dispensacionalismo clássico nasceu numa era de separação eclesiástica. O dispensacionalis-
mo progressivo nasceu numa era em que o separatismo eclesiástico tinha saído de moda e
existia uma grande ênfase sobre a união. O dispensacionalismo progressivo parece ser uma
tentativa de aproximação à teologia da aliança.
Uma das suas doutrinas centrais foi resumida por Blaising e Bock num livro escrito
por diversos autores:
Ware, Bock, Hoch, Saucy e Burns todos falam de um novo estado das coisas em que
os gentios são incluídos em pé de igualdade com a remanescente de Israel. Ambos re-
cebem bênçãos oriundas da inaugurada nova aliança — bênçãos que são enfatizadas
como novas na teologia bíblica, sendo destacadas como um progresso sobre a antiga
aliança. Porém, como Hoch, Saucy, Glenny, Barker e Ware destacam, essas bênçãos
vêm como cumprimento das promessas sobre Israel e os gentios feitas durante a dis-
pensação anterior, a dispensação da aliança mosaica. Conseqüentemente, há uma con-
tinuidade entre as promessas sobre Israel e os gentios feitas debaixo da antiga aliança
e o cumprimento dessas promessas sobre Israel e os gentios na nova aliança. É uma
continuidade mediante progresso [“Dispensationalism, Israel and the Church: As-
sessment and Dialogue” em Dispensationalism, Israel, and the Church (Zondervan,
1992), pgs. 380–381].
Para chegar a esta posição, muitos dispensacionalistas progressivos defendem a hermenêutica
denominada sensus plenior. Praticantes dessa hermenêutica crêem que certas passagens no
Antigo Testamento têm duas interpretações: a interpretação normal, ou literal e a interpreta-
ção mais ampla ou plena. Isso se aplica especialmente a passagens proféticas e, mais especi-
ficamente ainda, a passagens do AT citadas no NT.
Os problemas com esse sistema, então, são a sua hermenêutica às vezes não literal,
sua mescla de Israel e a igreja na economia atual e sua crença numa escatologia tanto realiza-
da quanto futurística. O fato é, que é difícil achar grandes diferenças entre o dispensaciona-
lismo progressivo e o pré-milenismo não dispensacionalista, como o do Ladd [veja Walter
Elwell, “Dispensationalists of the Third Kind” em Christianity Today, (22 de setembro de
1994), p. 28].

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O Dispensacionalismo Explicado

O Myron Houghton resume muito bem a história e o propósito do dispensacionalis-


mo:
Do perspectivo histórico, o dispensacionalismo é aquele sistema teológico encontrado
na Bíblia Scofield e ensinado no Moody Bible Institute e Dallas Theological Semi-
nary. Em diversos aspectos a idéia proposta por John Nelson Darby que a igreja é uma
entidade Neo-Testamentária foi bem aceita no pensamento de muitos presbiterianos e
batistas defensores da Bíblia do começo ao meio do século 20, quando estes lutavam
contra as forças do liberalismo nas suas respectivas denominações nos estados do nor-
te dos EUA. Da perspectiva religiosa, o dispensacionalismo andou de mãos dadas
com a crença e a prática da separação eclesiástica. Do ponto de vista da interpretação
bíblica, o dispensacionalismo era mais do que uma maneira conveniente de dividir a
história bíblica. Visava, através dessas divisões, demonstrar maneiras distintas e dife-
rentes nas quais Deus lidava com a humanidade em geral ou com um segmento espe-
cífico da humanidade. O livro Dispensationalism Today (Dispensacionalismo Hoje)
por Dr. Charles Caldwell Ryrie ajuda resolver muitos dos desentendimentos sobre a
natureza verdadeira do dispensacionalismo. [“O Estado do Dispensacionalismo Hoje”,
p. 1]

Dispensacionalismo Definido
A palavra “dispensação” é uma tradução da palavra grega oikonomia, que significa
uma mordomia ou uma administração econômica. Um despenseiro (1Co 4:2) é um mordomo,
alguém que administra os bens de outro. Embora no NT a palavra não seja usada exatamente
no sentido em que o dispensacionalismo a emprega, ela é usada para falar sobre períodos de
tempo (Ef 1:10; cp Ef 3:2).
A definição clássica de uma dispensação é a de Scofield, na Bíblia Scofield: “Uma
dispensação é um período de tempo o qual o homem é testado na sua obediência a alguma
revelação específica da vontade de Deus”. Myron Houghton acrescentaria a frase: “no que diz
respeito à disposição da sua vida e não à sua salvação”. Charles Ryrie faz uma distinção entre
uma dispensação e uma era, ou seja, um período de tempo [Dispensationalism (Moody Press,
1996), p. 24]. Renald E. Showers define uma dispensação assim: “uma maneira particular em
que Deus administra Seu governo sobre o mundo ao passo que Ele progressivamente desen-
volve o Seu propósito para a história do mundo” [There Really is a Difference!: A Compari-
son of Covenant and Dispensational Theology (The Friends of Israel Gospel Ministry, Inc.,
1990), p. 30.]
Charles Ryrie define uma dispensação como “uma economia distinguível no desen-
volvimento do propósito divino” [Dispensationalism, p. 28]. Mais adiante ele explica: “Uma

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dispensação é, do ponto de vista de Deus, uma economia, do ponto de vista do homem, uma
responsabilidade e em relação à revelação progressiva, um estágio nela” [Ibid., p. 30].
Resumindo, uma dispensação é uma economia divina na qual o homem é testado na
sua obediência a alguma revelação específica da vontade de Deus no tocante à disposição da
sua vida e não à sua salvação.

Os Elementos Essenciais do Dispensacionalismo


Charles Ryrie é respeitado como uma voz normativa do dispensacionalismo clássico.
No seu livro Dispensationalism2 [Charles Ryrie, Dispensationalism (Moody Press, 1995)] ele
propõe três elementos essenciais ou sine qua non do dispensacionalismo (pgs. 38–41):
1. Um dispensacionalista faz uma distinção entre Israel e a Igreja.
2. Um dispensacionalista sempre usa o método literal de interpretação no seu sistema
de hermenêutica bíblica.
3. Um dispensacionalista entende que a glória de Deus é o propósito fundamental de
toda a história.
Antes de analisar mais profundamente esses sine qua non, é interessante notar o que
não é essencial ao dispensacionalismo. Primeiro, não é o uso da palavra dispensação que faz
de um teólogo um dispensacionalista. Charles Hodge, por exemplo, cria em quatro dispensa-
ções, mas era um teólogo do pacto [Charles Hodge, Teologia Sistemática]. Segundo, ser pré-
milenista não é ser dispensacionalista. George E. Ladd, entre outros é pré-milenista, mas não
é dispensacionalista. Terceiro, o número de dispensações que uma pessoa reconhece não é
um elemento essencial ao dispensacionalismo. Embora o número mais comum seja sete, esse
número não é sagrado e alguns dispensacionalistas não aceitam as sete. Essencial é reconhe-
cer a distinção entre Israel e a Igreja, ou seja, entre a dispensação da lei e da graça.
Como se deve pensar sobre esses elementos essenciais? O terceiro sine qua non, que a
glória de Deus é o propósito fundamental de toda a história, foi desenvolvido em contraste
com a ênfase da teologia do pacto sobre a redenção. Ryrie diz: “O teólogo do pacto, na práti-
ca, crê que esse propósito é a salvação..., e o dispensacionalista diz que o propósito é mais
amplo do que este; a saber, a glória de Deus” [Dispensationalism, p. 40]. O problema com
isto é que nenhum teólogo conservador rejeitaria a glória de Deus como sendo o tema princi-
pal das Escrituras. Então, esse sine qua non é um distintivo que não distingue.
O segundo sine qua non é mais distintivo, mas precisa ser elaborado e explicado. Pri-
meiro, isso não significa que só os dispensacionalistas praticam uma hermenêutica gramático-

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Dispensationalism é uma revisão e ampliação do seu livro definitivo Dispensationalism Today, originalmente pu-
blicado em 1966.

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histórica. Porém, só o dispensacionalista faz questão de ser consistente na sua prática desta
hermenêutica. O teólogo do pacto, por exemplo, que é a-milenista e não crê que haverá um
futuro para a nação de Israel, tende a espiritualizar aquelas passagens no AT que falam de
uma futura restauração de Israel (por exemplo, Ez 37:1–14) e substituir a igreja no lugar de
Israel. O dispensacionalista progressivo pratica uma hermenêutica complementar que é, às
vezes, denominada sensus plenior (sentido mais pleno). Blaising e Bock explicam:
O Novo Testamento introduz mudanças e avanços; não apenas repete a revelação do
Antigo Testamento. Ao fazer adições complementares, porém, não descarta as antigas
promessas. A melhoria não vem às custas da promessa original.
A promessa do Antigo Testamento não foi substituída; foi aberta, esclarecida, e adap-
tado a um período no progresso da reflexão apostólica sobre os ensinamentos e ações
de Jesus. [Craig A. Blaising e Darrell L. Bock, eds., Dispensationalism, Israel, and the
Church (Zondervan, 1992), pgs. 392–393, 59.]
O dispensacionalista tradicional rejeitaria essa hermenêutica complementar.
Thomas Ice resume bem a questão da interpretação literal:
Embora a hermenêutica gramático-histórica seja usada por todos os evangélicos, mui-
tos acreditam que somente os dispensacionalistas tentam aplicá-la consistentemente
de Gênesis a Apocalipse. Evangélicos não dispensacionalistas tendem a usar uma
hermenêutica gramático-histórico-teológica (uma forma branda de espiritualização, já
que substituem Israel do AT com a igreja baseados no que acreditam ser uma base te-
ológica do NT). A essa altura, dispensacionalistas simplesmente crêem que a interpre-
tação gramático-histórica precisa ser consistentemente aplicada. [Thomas D. Ice,
“Dispensational Hermeneutics” em Issues in Dispensationalism, ed. Wesley R. Willis
e John R. Master (Moody, 1994), p. 45.]
Segundo, esse distintivo do dispensacionalismo não significa que o dispensacionalista
não reconhece a existência de figuras de linguagem. Ele as reconhece. Quando ele diz “inter-
pretação literal” está referindo à interpretação normal.
Terceiro, esse distintivo não significa que a interpretação de cada passagem bíblica é
direta e simples. O dispensacionalista reconhece dois problemas de grande porte com o seu
sistema: (1) o relacionamento da igreja com a Nova Aliança (Hb 10:15s) e (2) o uso de algu-
mas passagens do AT no NT quando se referem no seu contexto original a um Israel futuro,
mas que o NT afirma serem cumpridas na presente igreja (e.g., Jl 2 e At 2:16s). Esses pro-
blemas são difíceis, mas há soluções exegeticamente aceitáveis que partem de uma herme-
nêutica gramático-histórica.
O que é, então, a essência do dispensacionalismo? Myron Houghton responde: “A es-
sência do dispensacionalismo é que Israel e a Igreja, assim como o programa divino para cada
um desses, são clara e consistentemente distinguidas. A revelação concernente ao programa
divino para cada um não trata de meios de salvação, mas de meios de administrar a vida”

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[Myron Hougton, “Progressive Dispensationalism: A Traditional Dispensational Critique”,


Faith Pulpit (Janeiro de 1995), p. 1.] A Bíblia enfatiza a continuidade da salvação. Ela é, e
sempre foi, somente pela graça por meio da fé (2Tm 3:15). Na mente de Deus ela sempre se
baseou na morte sacrificial de Jesus Cristo (1Pe 1:19–20). Ao mesmo tempo, a Bíblia enfatiza
a descontinuidade entre maneiras diferentes de ordenar a vida (Jo 1:17).

As Dispensações
Antes de examinar as dispensações, é importante notar quais são e quais não são as
características principais de uma dispensação. Ryrie destaca três:
(1) uma mudança no relacionamento governamental de Deus com o homem (embora
uma dispensação não precise ser composta somente de característicos novos); (2) uma
mudança daí resultante na responsabilidade do homem; e (3) revelação corresponden-
te necessária para efetuar a mudança (a qual é nova e um estágio no progresso da re-
velação por toda a Bíblia). [Ryrie, Dispensationalism, p. 34.]
Ele relega ao segundo plano as características normalmente dadas: um teste, um fracasso e
um julgamento [Ibid.].
Embora não haja unanimidade, muitos dispensacionalistas crêem que há sete dispen-
sações. A seguinte tabela, tirada de Ryrie [Ryrie, Dispensationalism, p. 54.] é típico:

Nome Escritura Responsabilidades Julgamento(s)


Inocência Gênesis 1:3–3:6 Cuidar do Jardim Maldições e morte física e espiritual
Não comer o fruto de uma árvore
Encher, dominar a terra
Comunhão com Deus
Consciência Gênesis 3:7–8:14 Fazer o bem Dilúvio
Governo Gênesis 8:15–11:9 Encher a terra Dispersão forçada através da confu-
Civil Pena de morte são de línguas
Governo Gênesis 11:10– Ficar na Terra Prometida Escravidão no Egito e peregrinação
Patriarcal Êxodo 18:27 Crer em e obedecer a Deus no deserto
Lei Mosaica Êxodo 19:1– Guardar a lei Cativeiros
João 14:30 Andar com Deus
Graça Atos 2:1– Crer em Cristo Morte
Apocalipse 19:21 Andar com Cristo Perda de recompensas
Milênio Apocalipse 20:1–15 Crer em e obedecer Cristo e o go- Morte
verno Dele Tribunal do Grande Trono Branco

Ao examinar o esquema acima, é preciso lembrar que há lugar para divergências den-
tro do dispensacionalismo tanto no número de dispensações, quanto nos detalhes das dispen-
sações [veja Ryrie, Dispensationalism, p. 71.]. Por exemplo, não nos parece que Jacó pecou
ao mudar-se para o Egito, ou que a escravidão no Egito foi um julgamento de Deus sobre os
filhos de Israel (Gn 46:2–4). Porém, parece que houve, de fato, um período da promessa (Gl
3:15–29; Hb 6:15; 11:9). O que é essencial para o sistema dispensacionalista é fazer uma

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divisão forte entre a dispensação da lei e a dispensação da graça e crer num futuro para a na-
ção de Israel no milênio.

O Dispensacionalismo Defendido

O dispensacionalismo é fruto de uma reflexão profunda sobre vários trechos das Es-
crituras. Infelizmente um trabalho como esse só nos permite uma análise de um número limi-
tado desses. Uma tentativa será feita para explicar e defender os elementos básicos do siste-
ma.

A Aliança Abraâmica
A primeira base do dispensacionalismo é a crença que Deus fez uma aliança incondi-
cional com Abraão que ainda não foi cumprida completamente. Com base nesta aliança, o
dispensacionalista crê que haverá um futuro para a nação de Israel distinto do futuro da igre-
ja. Esse futuro se cumprirá no reino milenar de Jesus Cristo sobre a terra.
O esboço dessa aliança se encontra em Gênesis 12:1–3. Nestes versículos Deus fez
uma promessa condicional a Abraão: se ele saísse da terra dele e fosse à terra que Deus iria
mostrar, este lhe faria certas coisas. Versículo 4 mostra que Abraão cumpriu a condição. Lo-
go, Deus está obrigado a cumprir a promessa. A promessa contem três elementos:
 A promessa de uma terra: “Vai para a terra que te mostrarei”.
 A promessa de uma descendência: “De ti farei uma grande nação e te abençoarei,
e te engrandecerei o nome”.
 A promessa de bênçãos espirituais: “Abençoarei os que te abençoarem, e amaldi-
çoarei os que te amaldiçoarem; em ti serão benditas todas as famílias da terra”.
Mais tarde Deus transformou a promessa em aliança. Em Gênesis 15:7–21 Deus e A-
braão fizeram uma aliança solene na qual Deus se obrigou unilateralmente a dar uma terra
específica aos descendentes de Abraão (cp. Jr 34:18). Não há nenhuma condição imposta. Em
Gênesis 17:9–14 a circuncisão foi dada como o sinal externo da aliança. Quem não recebesse
o sinal, não faria parte da aliança. Todavia, a promessa em si nunca dependeu da circuncisão.
A aliança foi confirmada de diversas maneiras. Ela foi confirmada pelo nascimento de
Isaque e Jacó, que também receberam as promessas da aliança na sua forma original (Gn
17:19; 26:2–5; 28:13–15). Por todo o AT existem passagens que referem à aliança que Deus
fez com Abraão e enfatizam que era uma aliança em perpetuidade (e.g., 1Cr 16:15–20).
A Aliança Abraâmica foi desenvolvida e expandida através de mais três alianças in-
condicionais: (1) a Aliança Palestina (Dt 29—30); (2) a Aliança Davídica (2Sm 7); e (3) a
Nova Aliança (Ez 36:22–38; Jr 31:31–37). Cada uma dessas alianças expande e amplia um

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dos elementos da promessa originalmente dada a Abraão. A Aliança Palestina desenvolve a


promessa de uma terra.3 A Aliança Davídica desenvolve a idéia de um semente. A Nova Ali-
ança desenvolve a promessa de bênçãos espirituais. Todas essas alianças e muitas outras pas-
sagens exigem uma restauração futura da nação de Israel e um reinado terrestre de Deus (Is
11; Am 9:11–15; Rm 11:25–29).

A Aliança Mosaica ou Sinaítica


Em Êxodo 20 — 24, Deus fez uma aliança condicional com a nação de Israel. Nessa
aliança Deus prometeu que, se eles diligentemente ouvissem a voz dele e guardassem a alian-
ça dele, eles seriam propriedade exclusiva de Deus dentre todos os povos: um reino de sacer-
dotes e nação santa (Êx 19:5–6). Essa aliança consistia dos dez mandamentos e outros mais
coletivamente denominados “o livro da aliança” (Êx 24:7). Deus estabeleceu essa aliança
com a nação de Israel através de um ritual solene em Êxodo 24.
Essa aliança foi uma aliança condicional porque dependia da obediência do povo. O
povo não conseguiu cumprir sua parte, então o próprio AT já previa que ela seria substituída
por uma Nova Aliança que não dependesse do cumprimento do povo (Jr. 31:31–37). Isso foi
confirmado no NT (2Co 3:1–11; Hb 8:6–13).

O Dispensacionalismo nos Evangelhos


Os evangelhos apóiam e desenvolvem os ensinamentos do dispensacionalismo de di-
versas maneiras. Primeiro, a maioria dos dispensacionalistas crê que, quando João Batista e
Jesus proclamaram que “o reino de Deus está próximo” (Mc 1:15), eles não estavam falando
do reino espiritual de Deus no céu, mas estavam oferecendo o reino físico prometido a Abra-
ão e ao povo de Israel no AT. Charles Ryrie, comentando sobre Marcos 1:15, explica:
O reino de Deus está próximo. O reino do Messias sobre a Terra, prometido no Anti-
go Testamento e ansiosamente desejado pelo povo judeu, estava próximo, pois o Mes-
sias já viera. O povo, entretanto, O rejeitou ao invés de aceitá-lO, e o cumprimento
das promessas do reino teve de ser adiado até que o propósito divino de salvar judeus
e gentios e formar Sua Igreja fosse completado. Então Cristo voltará e estabelecerá o
reino de Deus sobre a Terra (At 15:14–16; Ap 19:15). [Charles Ryrie, Bíblia Anotada
(Mundo Cristão, 1991), nota sobre Mc 1:15.]4

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Muitos exegetas não acham que a Aliança Palestina de Dt 29—30 é uma aliança distinta da Aliança Mosaica do
Monte Sinai. Eles acham que trata de uma renovação da Aliança Mosaica antes que o povo de Israel tomasse posse
da terra de Israel. Porém, Dt 29:1 diz que é uma nova aliança “além da aliança que fizera com eles em Horebe [Si-
nai]” e em Dt 30:1–10 Deus faz promessas incondicionais que serão cumpridas quando “todas estas coisas vierem
sobre ti, a bênção e a maldição que pus diante de ti”. Para uma defesa e explicação mais ampla dessa aliança, veja
Showers, There Really is a Difference!, pgs. 77–83.
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Alva J. McLain, no seu livro The Greatness of the Kingdom (Zondervan, 1959), pgs 274–303, dá sete razões por
que o reino oferecido por Jesus a Israel era o mesmo reino profetizado no AT. Essas razões são alistadas e ligeira-
mente alteradas por Myron Houghton na sua apostila “Um Panorama de Mateus”.

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Segundo, João 1:17 ensina que Jesus inaugurou uma nova administração divina sobre
o homem porque “a lei foi dada por intermédio de Moisés; a graça e a verdade vieram por
meio de Jesus Cristo”. Ele não está falando de meios de salvação, pois Romanos 4 deixa mui-
to claro que a lei nunca salvou ninguém e que a salvação sempre foi pela graça, por meio da
fé.

Efésios 2:11 — 3:13


A passagem que faz a distinção mais explícita entre Israel e a igreja é Efésios 2:11 —
3:13.5 Essa passagem explica várias coisas. Primeiro, antes da vinda de Cristo havia uma se-
paração entre judeus e gentios e os gentios estavam sem Cristo e eram estranhos às alianças
da promessa (2:11–12). Segundo, através da morte de Cristo, os gentios que estavam longe
foram aproximados pelo sangue de Cristo (2:13). Terceiro, quando Jesus morreu na cruz, Ele
destruiu a parede que fazia separação e causava inimizade entre judeu e gentio: a lei (2:14–
16). Note que Paulo não está falando apenas da condenação da lei ou da lei civil e cerimonial,
mas da “lei dos mandamentos, na forma de ordenanças”. Lincoln explica:
Nos vs. 14–16, pode agora ser dito de Cristo que dos judeus e gentios Ele fez um me-
diante a demolição da parede da separação que era a fonte de toda a hostilidade entre
eles, i.e., mediante a abolição da lei e todos os seus regulamentos, e Ele fez isto atra-
vés da Sua morte...
Muitos comentaristas recuam desta asseveração tão direta. Alguns dão a glosa dogmá-
tica que foi apenas a lei cerimonial e não a moral que foi abolida. Outros sugerem que
foi apenas o uso legalista e casuístico da lei que foi abolido. [Marcus] Barth acha que
é apenas um aspecto da lei — a lei no seu caráter de provocador de dissensões, mas
não a lei em si — que foi anulado. Mas esses esforços para absolver o escritor de um
alegado antinomismo ... não dão certo como uma interpretação de ... “tendo abolido a
lei que consistia de mandamentos que eram expressos em regulamentos”. Essa colo-
cação comprida é característica do estilo de Efésios e, ao mesmo tempo, comunica um
sentido do caráter opressivo de todos os mandamentos da lei, mas é claramente a pró-
pria lei e todos os seus regulamentos, não apenas alguns deles, que estão em vista.
[Lincoln, “The Church and Israel”, pgs. 611–12.].
Quarto, quando Cristo aboliu a parede da separação entre judeus e gentios, ele fez
“um novo homem”, ou seja, uma nova entidade: a igreja (2:14–16). Muitos estudiosos acham
que a igreja substituiu Israel. Outros, como Marcus Barth, acham que a igreja foi incorporada
no remanescente de Israel [Ibid., p. 605.] Lincoln demonstra que nenhuma dessas interpreta-
ções é possível:
A morte de Cristo não só terminou a antiga ordem dominada pela lei, mas também in-
troduziu no lugar dessa uma nova criação, uma nova humanidade incorporada (“uma

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A análise mais definitiva de Efésios 2:11–22 foi feita por Andrew T. Lincoln, um estudioso bíblico não dispensa-
cionalista [“The Church and Israel in Ephesians 2”, The Catholic Biblical Quarterly (Nº 49, 1987): 605–24].

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nova pessoa”) a qual é compreendida na pessoa de Cristo. É preciso salientar que a


natureza da proeza de Cristo é descrita como uma criação e o seu produto como algo
novo. Na sua novidade, não é apenas um amálgama do velho no qual os gentios foram
fundidos com o melhor do judaísmo. Os dois elementos que foram usados na criação
foram transformados durante o processo. Essa é “a terceira raça”, que é diferente tanto
dos judeus quanto dos gentios. [Ibid., p. 612.]
Quinto, os “santos” do v. 19 se refere a cristãos em geral por causa do seu uso no livro
de Efésios (1:1, 15, 18; 3:8; 4:12; 5:3; 6:18) [Ibid., p. 614.]. Sexto, a igreja é edificada sobre o
fundamento dos apóstolos e profetas do NT (2:20), isto é, sobre as epístolas do NT que são o
fruto do trabalho destes. Isto é a interpretação correta porque, sétimo, a igreja era um mistério
oculto no AT (3:1–5) que, oitavo, “agora, foi revelado aos seus santos apóstolos e profetas,
no Espírito” (3:5).

O Dispensacionalismo Aplicado

O dispensacionalismo afeta diversas doutrinas. Esta seção visa salientar alguns dos re-
sultados do dispensacionalismo. É necessário frisar, porém, que nem todos os dispensaciona-
listas aplicam sua teologia da mesma forma. O que segue reflete o pensamento do autor.

A Bíblia
O dispensacionalismo afeta a bibliologia de diversas formas. Ele entende que toda a
Escritura é inspirada por Deus, está isenta de erros e é útil para o crente hoje (2Tm 3:16–17).
Porém, a Bíblia não é um livro plano, como um livro de teologia. Há um progresso de revela-
ção. A mensagem da Bíblia é muito mais desenvolvida nas epístolas do NT, do que no AT.
Por exemplo, Gênesis 3:15 contem a primeira promessa do evangelho, mas ela se torna explí-
cita e bem desenvolvida só no NT (Jo 3:14–15).
O dispensacionalista crê que toda a Escritura é útil para o crente e nenhuma parte dela
pode ser ignorada. Porém ele entende que cada trecho precisa ser entendido, primeiro, dentro
do seu contexto histórico. Isto significa, por exemplo, que as promessas feitas para Israel não
podem ser adotadas pela igreja como se fossem feitas a ela.
O dispensacionalista crê o NT, especialmente as epístolas, foi escrito para a igreja e
formam a base principal da sua fé e prática.
Que uso, então, o crente do NT pode fazer do AT? Primeiro, o AT forma a base histó-
rica do NT. Por exemplo, não se pode entender as palavras de João Batista: “Eis o Cordeiro
de Deus, que tira o pecado do mundo!” (Jo 1:29) sem conhecer o sistema sacrificial do AT.
Nem tampouco se pode entender o livro de Hebreus. Segundo, as Escrituras do VT são Cris-
to-cêntricas (Lc 24:25–27, 44, 45). Terceiro, as histórias do AT servem como exemplo para a

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vida do crente na atualidade (1Co 10:1–11). Finalmente, há ensinamentos no AT que trans-


cendem todas épocas (Rm 15:1–5). Este ensinamento, porém, precisa ser filtrado pelo NT
(e.g., Ef 6:1–3).

Salvação
O dispensacionalismo insiste que a salvação sempre foi pela graça, por meio da fé e,
na mente de Deus, baseada na morte e ressurreição de Jesus. Myron Houghton expressa bem
essa convicção:
Salvação, na mente de Deus, sempre se baseia na morte sacrificial de Jesus Cristo. Ele
foi o Cordeiro de Deus morto antes da fundação do mundo (1 Pedro 1:20). Salvação
sempre foi desmerecida, como claramente ilustram os sacrifícios de animais do AT. E
salvação sempre foi pela fé na provisão de Deus, embora o conteúdo da fé de um
crente fosse determinado pelo grau em que o evangelho tinha sido revelado, como
demonstram Romanos 4:1–2 e Gênesis 15:5–6. [Houghton, “Progressive
Dispensationalism”.]

Vida Cristã
O dispensacionalismo ensina que os princípios de vida na presente época são diferen-
tes do que os princípios de vida de outras épocas. O NT ensina que o crente de hoje “não está
debaixo da lei, e, sim, da graça” (Rm 6:14). Isto não significa apenas que ele não está debaixo
da condenação da lei, mas também que não está debaixo dos mandamentos da lei. Esse é o
motivo por que o crente, entre outras coisas, não guarda o sábado (Cl 2:14–17) ou se circun-
cida (Gl 5:1–12).
Isto não significa que o crente tem liberdade para fazer o que bem querer. Significa
apenas que mudou de economia: da lei para a graça. Tito 2:11–12 nos ensina que “A graça de
Deus se manifestou salvadora a todos os homens, educando-nos para que, renegadas a impie-
dade e as paixões mundanas, vivamos, no presente século, sensata, justa e piedosamente.”
Esses versículos demonstram que a mesma graça que salva é a que educa o crente. Ela ensina
o crente a deixar certas coisas de lado e começar a viver de outra forma.
Myron Houghton acrescenta mais um meio em que o dispensacionalismo afeta a vida
cristã:
A teologia dispensacionalista afirma que a morte de Cristo fez possível o dizermos
“não” ao pecado em nossas vidas (Romanos 6:12–13). Ela também ensina que o Espí-
rito Santo de Deus habita permanentemente em todo crente verdadeiro, nos dando a
habilidade de dizer “sim” a Deus e obedecer a sua vontade. Isto não significa alcançar
a perfeição sem pecado, mas isto significa que vitória sobre manifestações específicas
de pecado em nossas vidas é possível. O Espírito Santo não habitava nos santos do
Antigo Testamento (João 14:16–17). [Myron Houghton, “Teologia
Dispensacionalista”, Faith Pulpit.]

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Outras Doutrinas
Em resumo, o dispensacionalismo também afeta as seguintes doutrinas:
Pneumatologia. A partir do Dia de Pentecostes, o Espírito começou a habitar nos
crentes. Isto é diferente do que fazia no AT (Jo 7:37–39; 14:16–17; Atos 2).
Eclesiologia. A igreja só começou no Dia de Pentecostes (At 2) quando o ES desceu
sobre os crentes e começou a habitar neles (1Co 12:13). Ela será completada até o Arrebata-
mento. A palavra “igreja” pode referir tanto à igreja universal (Ef 1:22–23), quanto a mani-
festações locais (1Ts 1:1). A igreja não é a mesma coisa que Israel. Os dois povos de Deus
são distintos.
Escatologia. O dispensacionalismo enxerga um futuro para a nação de Israel em
cumprimento às promessas feitas a Abraão e pelos profetas. Logo, o dispensacionalismo é
pré-milenista e, normalmente, pré-tribulacionalista.

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Bibliografia Anotada
Fisher, Edward. “A Diferença entre a Lei e o Evangelho.” A Medula da Teologia Moderna.
Traduzido por Mark A. Swedberg.

Essa apostila é o apêndice de A Medula da Teologia Moderna, um livro escrito no sé-


culo XVII. Foi escrito por um dos pioneiros da Teologia da Aliança, mas mostra cla-
ramente por que e como se deve distinguir entre a lei e o evangelho.

Houghton, Myron J. “Distinguishing Law and Grace”. Faith Pulpit. Junho/Julho, 1998.

Esse e todos os artigos do Faith Pulpit são artigos breves de duas páginas. Myron
Houghton tem a habilidade de colocar e defender grandes idéias teológicas de manei-
ras bem sucintas. Tudo que ele escreve é de grande auxílio. Ele representa o dispensa-
cionalismo clássico.

________. “O Estado do Dispensacionalismo Hoje”. Traduzido por Mark A. Swedberg. A-


postila.

________. “A Igreja e a Nova Aliança: Posições Teológicas”. Traduzido por Mark A. Swed-
berg. Apostila.

________. “A Igreja é Relacionada à Nova Aliança? Passagens do NT que Tratam da Nova


Aliança”. Traduzido por Mark A. Swedberg. Apostila.

________. “Law and Gospel in the Dispensational Tradition”. Apostila.

________. “Um Panorama de Mateus”. Traduzido por Mark A. Swedberg. Apostila.

________. “Progressive Dispensationalism: A Traditional Dispensational Critique”. Faith


Pulpit. Janeiro, 1995.

Essa apostila é uma das mais extensas que o Dr. Houghton escreveu. Contem as mes-
mas idéias de “Distinguishing Law and Grace”, mas é mais detalhado e extenso.

________. “Teologia Dispensacionalista”. Traduzido por Mark A. Swedberg. Faith Pulpit.


Março, 1988.

Lincoln, Andrew T. “The Church and Israel in Ephesians 2”. Em The Catholic Biblical Quar-
terly. Nº 49, 1987:605–24.

Andrew Lincoln não é dispensacionalista. Porém, ele interpreta Efésios 2 como inter-
pretam os dispensacionalistas. É uma exegese definitiva deste capítulo.

McLain, Alva J. Lei e Graça. Traduzido por Mark A. Swedberg.

Alva McLain foi o fundador e primeiro presidente do Grace Theological Seminary.


Ele escreve muito bem e distingue bem entre a lei e a graça. Ele demonstra que a lei é

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uma unidade que não pode ser dividida em lei moral, cerimonial e cívica. Ele também
demonstra os usos bíblicos da lei.

________. The Greatness of the Kingdom. Grand Rapids: Zondervan, 1959.

É uma escatologia dispensacionalista e pré-milenista. É uma obra definitiva que dis-


tingue entre os diversos do reino de Deus nas Escrituras.

Westerholm, Stephen. Israel’s Law and the Church’s Faith. Grand Rapids: Eerdmans.

Westerholm é um luterano que lida com a questão de lei e graça. Na primeira parte ele
trata da erudição atual sobre o assunto. Na segunda parte ele examina passagens cha-
ves em Romanos e Gálatas e confirma a distinção defendida por Lutero entre a lei e a
graça. O último capítulo, “The Law and Christian Behavior”, é especialmente útil.

Willis, Wesley. R. e John R. Master, editores. Issues in Dispensationalism. Chicago: Moody,


1994.

Esse livro é composto de ensaios sobre dispensacionalismo e pré-milenismo, muitos


escritos para combater e criticar o dispensacionalismo progressivo. Variam em quali-
dade, mas em geral são muito bons. Os títulos dos ensaios são: Update on
Dispensationalism, Dispensational Hermeneutics, Biblical Meaning of Fulfillment,
Biblical Kingdoms Compared and Contrasted, The New Covenant, Israel and the
Church, Prophetic Postponement in Daniel 9 and Other Texts, A Dispensational Un-
derstanding of Acts 2, Prophetic Fulfillment: The Already and Not Yet, An Exegesis
of Rapture Passages, Dispensational Theology and the Rapture, e The Imminent Re-
turn of the Lord.

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