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Cultura Religiosa

Vermelho

Ensino a Distância
MANTENEDORA
Comunidade Evangélica Luterana São Paulo - CELSP
Rua Fioravante Milanez, 206
CEP 92010-240 – Canoas/RS
SUMÁRIO
Telefone: 51 3472.5613 - Fax: 51 3477.1313 A EXPERIÊNCIA RELIGIOSA .............................................................3
DIREÇÃO
Presidente HINDUÍSMO ..................................................................................7
Delmar Stahnke
BUDISMO ....................................................................................14
UNIVERSIDADE LUTERANA DO BRASIL
Av. Farroupilha, 8001 - Bairro São José
CEP 92425-900 - Canoas/RS ISLAMISMO ................................................................................. 21
Telefone: 51 3477.4000 - Fax: 51 3477.1313
REITORIA JUDAÍSMO...................................................................................28
Reitor
Marcos Fernando Ziemer CONFUCIONISMO ........................................................................35
Vice-Reitor
Valter Kuchenbecker
Pró-Reitor de Administração XINTOÍSMO .................................................................................40
Ricardo Müller
Pró-Reitor de Graduação TAOÍSMO ..................................................................................... 41
Ricardo Prates Macedo
Pró-Reitor Adjunto de Graduação CRISTIANISMO ............................................................................44
Pedro Antonio Gonzalez Hernandez
Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação
A MENSAGEM CRISTÃ NAS PARÁBOLAS DE JESUS .........................55
Erwin Francisco Tochtrop Júnior
Pró-Reitor de Extensão e Assuntos Comunitários
Ricardo Willy Rieth LUTERO E A REFORMA ..................................................................60
Capelão geral
Gerhard Grasel IGREJA LUTERANA E EDUCAÇÃO ...................................................70
Diretor de Ensino do EAD
Joelci Clécio de Almeida AS RELIGIÕES DO BRASIL .............................................................79
Orientação e revisão da escrita
Dóris Cristina Gedrat
CULPA E PERDÃO: UMA QUESTÃO EXISTENCIAL ...................................... 90
Design/Infografia/Programação
José Renato dos Santos Pereira
Luiz Carlos Specht Filho A RELAÇÃO ENTRE .......................................................................97
Sabrina Marques Maciel
FÉ E SAÚDE ................................................................................. 97
DICAS PARA UTILIZAR O PDF
ÉTICA ........................................................................................103
COMO PESQUISAR NO TEXTO
Clique em editar => Localizar ou clique Ctrl + F. ÉTICA SOCIAL CRISTÃ APLICADA................................................. 110
Na barra de ferramentas, digite sua pesquisa na caixa de texto localizar.
REFERÊNCIAS............................................................................ 117

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Cultura Religiosa

Imagem 1: Wikipedia
A EXPERIÊNCIA
RELIGIOSA
Você já deve ter passado por alguma experiência Religiosa. Se não passou,
alguém ao seu lado já deve ter contado algo que o levou a refletir sobre o assun-
to. Neste capítulo vamos ver que a experiência religiosa é mais rica do que se
imagina e é universal.

Por Prof. Douglas Moacir Flor*

A
religião tem estado presente no cotidia- cam ajuda divina como alternativa para a cura?
no através de diferentes manifestações.
No esporte estamos acostumados, marcada-
Pode-se, sem entrar em detalhes por
mente no futebol, com a cena de uma oração con-
ora, mencionar algumas áreas, alguns eventos e
junta antes da entrada no campo. Numa decisão
algumas práticas pessoais e sociais marcadas por
por pênalti, por exemplo, é comum a imagem de
idéias, ritos e símbolos consagrados ao campo
jogadores ajoelhados, rezando ou beijando sua
religioso.
santinha.
Vamos utilizar aqui alguns pontos trabalha-
No campo musical não são raras as menções
dos pelo colega Ronaldo Steffen, estudioso do
que se faz a personagens religiosos e até mesmo
assunto, professor de Cultura Religiosa, publica-
a sentimentos de ordem religiosa; no campo das
do no site da Universidade.
artes somos conduzidos a milhares de imagens
A Experiência Religiosa

De uma forma bem simples, podemos repor- notadamente carregadas de simbolismo religioso
tar o leitor a algumas práticas familiares ligadas dos mais diversos matizes. A literatura não tem
à tradição religiosa como o casamento, batismo, deixado por menos e tem sido o mercado que
morte e velamento. São cerimônias religiosas mais cresce em termos de editoria nos últimos
tão tradicionais, que muitas pessoas, sem que se anos. O cinema tem sido pródigo nas temáticas
dêem conta, se envolvem. O que dizer de pessoas de ordem religiosa. As novelas, fenômeno bra-
doentes ou com problemas mais sérios que bus- sileiro que ganha o mundo, jamais têm deixado

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Cultura Religiosa

de lado alguma alusão, personagem e até mesmo


a temática central ligados a fatos eminentemente
Conhecimento Religioso
religiosos.
Ainda tentando responder o que é religião,
A nossa alimentação está em grande parte podemos dizer que religião é um batismo numa
determinada por elementos de ordem religiosa; igreja cristã. É um ritual sagrado nas águas do
o modo de expressar nossas idéias através da lin- Rio Ganges. É a adoração num templo budista.
guagem é, igualmente, em grande parte determi- Pode ser um muçulmano ajoelhado e orando para
nada por formas religiosas. O turismo religioso o Alá. Ou os mesmos devotos do Islã peregrinan-
é hoje um grande filão na arrecadação de divi- do a Meca. Pode ser um Judeu diante do Muro
sas para um município. A educação é fortemente das lamentações em Jerusalém. São tantas as
marcada pelos valores que ela prega, quase sem- menções que seria impossível citar todas.
pre idênticos aos valores de ordem religiosa. A
O que pretendemos fazer é ligar os fatos. As
área da saúde, o trato com a dor, a vida e a morte
ciências da religião procuram responder o que
foi e ainda é construída com suporte religioso.
as atividades citadas acima têm em comum. Nós
Nosso calendário, suas datas festivas e grandes
procuramos, como pesquisadores, investigar os
eventos, têm sua origem no meio eclesiástico. As
rituais de uma perspectiva externa. Buscamos
diversas áreas do conhecimento humano, duma
semelhanças e diferenças. Queremos entender
ou de outra maneira, têm-se ocupado com a te-
como se dá o processo historicamente e o que
mática religiosa, como a Filosofia, a Psicologia,
isso representa para sociedade hoje.
a Sociologia, a Antropologia, a História, a Medi-
cina, a Física, a Arqueologia, a Geografia e assim
Imagem 2: Arquivo ULBRAEAD

por diante.

A palavra Religião
Afinal, o que é religião? No texto a
seguir temos uma definição que pode-
rá ajudá-lo a entender o sentido.

Etimologicamente, o termo Religião surge


na história da humanidade através dos autores
clássicos, como Cícero, Lactânio e Agostinho,
respectivamente, nas palavras re-legere, que sig-
nifica reler, re-ligare, que significa religar, e re-
eligere, que significa reeleger. Todos os conceitos
nos dão a idéia de voltar a uma situação anterior,
ou seja, ligar novamente a criatura com o criador.
É exatamente esta tentativa de religar com o Ser
Superior, através de um conjunto de crenças, nor-
mas, ritos ou costumes, que dá origem às diver-
A Experiência Religiosa

sas religiões o fenômeno religioso propriamente


dito. (KUCHENBECKER, 2000, 0.) 1 - Batismo;

Apesar de seguidamente ouvir-se que reli- 2 - Um monge budista;


gião é coisa do passado, as menções acima indi- 3 - Peregrinos no Rio Ganges, na Índia;
cam uma direção contrária. Estão apontando para
o fato de que o ser humano preocupa-se com o di- 4 - Muçulmanos orando;
vino, aqui entendido no sentido daquilo que ocu- 5 - O muro das lamentações em Jerusalém
pa lugar de destaque ou o primeiro lugar na vida.
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Por que estudar as Tolerância religiosa


religiões? Este é um dos pontos mais importantes na
nossa caminhada. Tolerância é o respeito pelas
Dependendo da experiência de cada um, as pessoas que possuem diferentes pontos de vista
respostas serão diferentes. Talvez você seja um em relação à religião. Não significa que precisa-
religioso e não precise de tantas explicações. mos concordar com tudo o que as outras religiões
Mas, com certeza, muitas pessoas não se ligaram praticam e seguir os mesmos rituais. Cada um
para a importância do assunto. tem o direito de seguir aquilo que é melhor para
Jostein Gaarder, escrevendo O Livro das Re- si, pode ter uma fé sólida. Mas a tolerância não
ligiões, nos ajuda a responder a pergunta acima: é compatível com atitudes como zombar das opi-
niões alheias ou se utilizar da força e de ameaças.
Um rápido olhar para o mundo ao A Tolerância não limita o direito de fazer propa-
redor mostra que a religião desempenha ganda, mas exige que esta seja feita com respeito
um papel bastante significativo na vida so- pela opinião dos outros (GAARDER).
cial e política de todas as partes do globo.
Ouvimos falar de católicos e protestantes O respeito pela vida religiosa dos outros,
em conflito na Irlanda do Norte, cristão pelas suas opiniões e pontos de vista, é um pré-
contra muçulmanos nos Balcãs, atrito requisito para a nossa aula de Cultura Religiosa.
entre muçulmanos e hinduístas na Índia, Sem isso, é impossível começar, pois:
guerra entre hinduístas e budistas no Sri Com freqüência, a intolerância é resultado
Lanka. Nos Estados Unidos e no Japão há do conhecimento insuficiente de um assunto.
seitas religiosas extremistas que já prati- Quem vê de fora uma religião, enxerga apenas as
caram atos de terrorismo. Ao mesmo tem- suas manifestações, e não o que elas significam
po, representantes de diversas religiões para o indivíduo que a professa (GAARDER).
promovem ajuda humanitária aos pobres
O respeito pela vida religiosa dos outros,
e destituídos do terceiro mundo. É difícil
pelas suas opiniões e pontos de vista, é um pré-
adquirir uma compreensão adequada da
requisito para a nossa aula de Cultura Religiosa.
política internacional sem que se esteja
Sem isso, é impossível começar, pois:
consciente do fator religião. (GAARDER)
Com freqüência, a intolerância é re-
Além disso, explica Gaarder, um conheci-
sultado do conhecimento insuficiente de
mento religioso também pode ser útil num mun-
um assunto. Quem vê de fora uma religião,
do que se torna cada vez mais multicultural. Ain-
enxerga apenas as suas manifestações, e
da mais quando falamos em globalização, apesar
não o que elas significam para o indivíduo
de que o termo deva ser usado com cuidado.
que a professa (GAARDER).
Muitos de nós viajamos pelo Brasil ou mesmo
Imagem 3: Wikipedia

ao exterior, entrando em contato com as diver- O Alcorão, livro sagrado


sas culturas religiosas. Estes povos têm costumes dos muçulmanos, de-
diferentes que devem ser respeitados pelos seus termina que as mulheres
visitantes. Se uma mulher estiver num país mu- devem se vestir de forma
çulmano, por exemplo, terá que observar o tipo a não atrair a atenção
de roupa que usará nas ruas. É claro que não pre- dos homens, para isso é
A Experiência Religiosa

preciso esconder todo o


cisará andar com uma Burca, mas terá que cobrir corpo, utilizando trajes
seu corpo com roupas decentes. como o Xador ou a Burca.
Finalmente, acreditamos que o estudo das Trata-se de uma veste fe-
minina que cobre todo o
religiões pode ser importante para o desenvolvi- corpo. No caso da Burca,
mento pessoal do indivíduo. As religiões podem até o rosto e os olhos são
responder várias das perguntas existenciais que cobertos. É usada pelas
fazemos como: de onde viemos, o que somos e mulheres do Afeganistão.
para onde iremos.
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Sincretismo Religioso variável. E eu! Bofe! Detesto! O


que sou? – o que faço, que quero,
No Brasil é muito interessante falar sobre muito curial. E em cara de todos
religião. Isto porque temos aqui uma pluralidade faço, executado. Eu? – não tres-
religiosa bem interessante. Além disso, encontra- malho!
mos o que chamamos de Sincretismo Religioso. Olhe: tem uma preta, Maria
Isso acontece quando misturamos elementos de Leôncia, longe daqui não mora,
várias religiões numa só. Sincretismo é o ter- as rezas dela afamam muita vir-
mo que os historiadores denominam de fusão tude de poder. Pois a ela pago,
ou interpenetrações de religiões, ritos, crenças e todo mês – encomenda de rezar
personagens cultuais. Os cultos afro-brasileiros por mim um terço, todo santo
são um exemplo comprovado de sincretismo re- dia, e, nos domingos, um rosário.
ligioso. Queremos mostrar como isso acontece Vale, se vale. Minha mulher não
através da fala de um pesonagem sertanejo do vê mal nisso. E estou, já mandei
passado: Riobaldo Tatarana do Grande Sertão: recado para uma outra, do Vau-
Veredas: Vau, uma Izina Calanga, para vir
aqui, ouvi de que reza também
com grandes meremerências, vou
“Hem? Hem? O que mais efetuar com ela trato igual. Que-
penso, texto e explico: todo-o- ro punhado dessas, me defendo
mundo é louco. O senhor, eu, em Deus, reunidas de mim em
as pessoas todas. Por isso é que volta... Chagas de Cristo!
se carece principalmente de re- JOÃO GUIMARÃES ROSA
ligião: para se desendoidecer,
desdoidar. Reza é que sara da
loucura. No geral. Isso é que é a Quem sabe você conhece alguém que se
salvação-da-alma... Muita reli- identifica com este personagem. É comum a
gião, seu moço! Eu cá, não perco gente encontrar situações como esta. Nas aulas
ocasião de religião. Aproveito de de Cultura Religiosa, quando perguntamos
todas. Bebo água de todo rio... se nossos alunos têm alguma religião, muitos
Uma só, para mim é pouca, talvez respondem: Sou Católico Apostólico Romano,
não me chegue. Rezo cristão, ca- não praticante. Isto significa que eles são
tólico, embrenho a certo; aceito Católicos por tradição, mas não vão à igreja
as preces de compadre meu Que- aos domingos. Muitos são católicos, mas não
lemém, doutrina dele, de Car- deixam de ir ao terreiro ou ao Centro Espírita.
déque. Mas, quando posso, vou
no Mindubim, onde um Matias é
crente, metodista: a gente se acu- Conclusão
sa de pecador, lê alto a Bíblia, e
A Experiência Religiosa

ora, cantando hinos belos deles. É importante ressaltar aqui a questão da to-
Tudo me quieta, me suspende. lerância. Religião sem o devido respeito perde o
Qualquer sombrinha me refres- sentido. Não é possível pregar algo e praticar ou-
ca. Mas é só muito provisório. Eu tra coisa. Por outro lado, a experiência religiosa
queria rezar – o tempo todo. Mui- é importante na vida de todo o ser humano. Se
ta gente não me aprova, acham você ainda não passou por isso, busque entender
que lei de Deus é privilégios, in- um pouco mais do assunto. Leia, reflita sempre.

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HINDUÍSMO
Cerca de 13% da população mundial segue o Hinduísmo, tornando-a uma
das religiões com mais seguidores no mundo.

Por Prof. Ronaldo Steffen

Arquivo ULBRAEAD
OHM: é símbolo universal do Hinduísmo e seu
som impede sentimentos ruins e transmuta os
pensamentos negativos em positivos.

História escritos em forma de diálogos entre o mestre e


o discípulo. É nesse período que é introduzida

É
a noção de Brahman, a força espiritual essencial
difícil identificar uma data para regis-
sobre a qual se baseia todo o universo. É por essa
trar o início do hinduísmo. Costuma-se
razão que se diz que todos nascem do Brahman,
atribuir a alguma data entre 1500 a.C.
vivem no Brahman e retornam ao Brahman por
e 200 a.C. Nesse período, um grupo de nobres
ocasião da morte.
(denominados de arianos) dominou o vale do rio
Indo. Os nobres trouxeram suas crenças, forte-
mente influenciadas por concepções religiosas
Os “Upanishads” introduzem a
indo-européias (grega, romana e germânica). idéia de “Brahman”. Todos nas-
Esse período é denominado de período védico cem dele, vivem nele e na morte
do hinduísmo em razão dos hinos recitados pelos retornam a ele.
sacerdotes. Esses hinos eram chamados de vedas
e significam “conhecimento”.
O sacrifício era importante para o culto aria-
Hoje
no. Faziam-se oferendas aos deuses a fim de se O hinduísmo, embora originário da Índia,
conquistarem seus favores e se manterem sob possui adeptos espalhados por todos os países a
controle as forças do caos. sua volta, em especial Nepal, Bangladesh e Sri
Achados arqueológicos no vale do rio Indo Lanka.
indicam que houve uma civilização avançada na Apenas em 1947 é que a Índia deixa de ser
Índia, anterior à chegada dos indo-europeus, e um Estado religioso e passa a garantir direito de
é certo que essa civilização também contribuiu expressão religiosa a todas as denominações re-
Hinduísmo

para o hinduísmo moderno. ligiosas.


Num período posterior, provavelmente entre Nesse mesmo ano, a tensão entre hinduís-
1000 a.C. e 500 a.C., surgiram os Upanishads, tas e muçulmanos em razão da independência

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da Índia resultou na criação do Paquistão como ses é evidente pelas imagens que a mostram piso-
um Estado muçulmano separado, dividido em teando o corpo de Shiva.
duas partes distintas, o Paquistão do Leste e o
A importância das deusas na religião india-
Paquistão do Oeste. Depois da guerra de 1971
na é visível pela escolha da Mãe Índia (Bhárata
entre a Índia e o Paquistão, o Paquistão do Leste
Mata ou Bharthamata) como a divindade nacio-
se tornou um Estado independente com o nome
nal do moderno Estado da Índia. Na cidade de
de Bangladesh.
Varanasi há um templo especial que lhe é dedica-
do. Ali, em vez de uma representação da deusa,
Ensinamentos está exposto um mapa da Índia.

Deuses Divindades menores


A multiplicidade do hinduísmo também se A maioria das aldeias tem seu templo dedi-
manifesta em seu conceito de transcendente. Há cado a Vishnu ou a Shiva. Esses deuses se con-
duas formas de compreender o tema: uma filosó- centram nas questões maiores, universais e, em
fica (Brahman é o princípio e a realidade última; geral, são homenageados nos grandes festivais.
o universo em sua totalidade é um só com a di- Num nível mais doméstico, as pessoas costumam
vindade; Brahman toma a forma de três divinda- visitar pequenos templos dedicados a divindades
des: Brahma, Vishnu e Shiva, respectivamente o menos importantes.
Criador, o Mantenedor da criação e o Destruidor) Embora não sejam tão poderosas como
e outra popular, ou menos acadêmica (acredita- Vishnu ou Shiva, é mais fácil se aproximar delas
se num grande número de divindades a tal ponto para assuntos de menor importância, tais como
que quase todas as aldeias elegem sua divindade os problemas pessoais.
local).
Há deuses para as questões
Deusas universais e deuses para as
questões pessoais.
O hinduísmo tem uma série de deusas. Al-
guns adotam a teoria de que essa abundância de
deusas não passa da expressão de uma grande e Os deuses menores por vezes exercem in-
fluência em áreas específicas, como, por exem-
poderosa divindade feminina, a Rainha do Uni-
plo, em certos tipos de doença. Muitos deles têm
verso ou Deusa-Mãe. Sua manifestação mais
origem humana: podem ser heróis que morreram
conhecida é Kali, a deusa negra, adorada, sobre-
em batalha ou esposas que se ofereceram para
tudo, no Leste da Índia e a quem se sacrificam serem queimadas na pira funerária do marido.
animais. O alto status de Kali no mundo dos deu- Alguns deuses são espíritos malignos que foram

Conheça alguns deuses do hinduísmo


Imagem 4: Umysl/Astrolog

Imagem 5: Yogacasaverde

Imagem 6: Wikipedia

Hinduísmo

Vishnu reencarnado também Shiva, senhor da criação Bharata Mata, divindade


como Krishna e destruição nacional da Índia

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deixados para trás por homens maus. Ao cultivar classificações tiveram ampliação à medida que a
esses espíritos como deuses, é possível controlar organização se fazia necessária, de modo que se
e neutralizar sua maldade. chegou a uma estratificação com quatro classes
sociais: videntes, administradores, produtores e
Ser humano seguidores.
Na prática popular, hoje, a casta é entendi-
A concepção que o hinduísmo desenvolve da como as possibilidades que alguém tem de
a respeito do ser humano está intimamente vin- se relacionar com coisas mais puras ou impuras.
culada a uma compreensão ampla que privilegia Essas possibilidades são determinadas pelas re-
os entendimentos sobre carma, reencarnação e o gras que conduzem cada casta: castas elevadas
sistema de castas. buscam cada vez mais distanciamento das coi-
sas materiais; castas mais baixas se permitem a
Carma e reencarnação aproximação com as coisas da matéria. Duma ou
doutra forma, se alguém quebrar alguma das re-
O ser humano tem uma alma imortal que gras de sua casta, restam-lhe os rituais de purifi-
não lhe pertence. Depois da morte, a alma volta a cação, sendo o mais conhecido o banho num dos
aparecer pelo renascimento, não necessariamen- muitos rios sagrados.
te em forma humana, podendo, também, vir a re- Os efeitos do sistema de castas e suas regras
nascer num animal. específicas influenciam di-
retamente a base da divisão
O conceito que expli- Reigiosa- de trabalho na comunidade.
ca esse eterno vai-e-vem
da alma é o carma (“ato”
mente, as cas
cas- Certas atividades e certos
ou “ação”) do ser humano, tas indicam o trabalhos são tão impuros
referindo-se tanto às ações grau de pureza que somente determinadas
como aos pensamentos, às ou impureza de castas podem realizá-los.
palavras e aos sentimentos. uma pessoa. Essas castas têm o dever de
ajudar os outros a manterem
Desse modo, entende-se que
o carma é determinante para sua pureza. Por outro lado,
o que irá ocorrer numa pró- apenas as castas que pre-
xima existência. Muito embora se possa concluir encham os requisitos de pureza podem se apro-
que o carma é uma punição ou uma recompensa ximar dos deuses mais elevados. Para que isso
das ações humanas, não é esse o modo de com- ocorra com mais facilidade, outras pessoas de-
preender sua extensão. É como se ele fosse ape- vem ser impuras. Entretanto, todos se beneficiam
nas uma lei natural da existência. Colhe-se aquilo da limpeza dos puros, pois todos os hinduístas
que se planta, e é justamente isso que explica as tiram proveito dos ritos que são praticados.
diferenças entre as pessoas. O ser humano é res- O sistema de castas deu um novo contexto à
ponsável por si mesmo e de posse do livre-arbí- vida do indiano moderno. Assim, ser expulso de
trio está apto a produzir as mudanças necessárias sua casta é o pior castigo imaginável e, por isso,
com vistas a uma melhor existência posterior, só utilizado para crimes muito sérios. O nível
quando renascer. mais baixo no sistema de castas é o dos intocá-
veis ou sem-casta (também chamados de párias):
O sistema de castas criminosos, lixeiros e curtidores de couro de ani-
mais, por exemplo.
O surgimento do conceito de casta é confu- As complexas regras que controlam o con-
so. O fato a ressaltar é a chegada dos arianos à trato social entre as castas eram muito rígidas. A
Índia, com língua, cultura e traços fisionômicos
Hinduísmo

Constituição da Índia, de 1947, introduziu, no en-


(altos, pele clara, olhos azuis e cabelos lisos) di-
tanto, medidas com a finalidade de banir a discri-
ferentes. A diferença propiciou um sistema de
minação por casta. Como não basta mudar a le-
identificação pela cor (varna, em sânscrito). As
gislação para acabar com antigas divisões sociais
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e religiosas, o sistema de castas continua tendo A via da compreensão ou do conheci-


um papel importante, em especial nas aldeias. mento

Vida e Morte A compreensão ou o conhecimento é apenas


uma das formas de libertar-se do ciclo de renas-
Durante o período védico, as doutrinas do cimentos, pois se enfatiza que é a ignorância que
aprisiona o ser humano a esse ciclo.
carma e dos renascimentos eram vistas como
algo positivo. Por meio dos sacrifícios e das boas Compreender a verdadeira natureza da exis-
ações, o ser humano podia garantir que viveria tência, o oposto da ignorância, é, portanto, um
várias vidas. Mais tarde, o hinduísmo passou a caminho para a libertação. É apenas quando o ser
considerar esse ciclo como algo negativo, como humano adquire o reto conhecimento que ele é
um círculo vicioso a ser quebrado. É possível, as- redimido da implacável roda da transmigração.
sim, distinguir três caminhos para a libertação: as O reto conhecimento mencionado nada mais é do
vias do sacrifício, do conhecimento e da devoção. que a compreensão de que a alma humana (atmã:
é o reflexo da alma universal e encontra-se nos
seres humanos, nas plantas e nos animais) e o
A via do sacrifício mundo espiritual (Brahman) são uma e a mesma
coisa.
Como vimos, a palavra indiana para ”ato” é
carma. Hoje ela é usada para denotar todos os
A via da devoção
atos humanos e até mesmo a coletividade desses
atos. No período védico, o termo se referia basi-
Uma terceira rota para a salvação é a via da
camente a atos religiosos ou rituais, em especial devoção, que é a dedicação que o ser humano de-
aos atos sacrificiais. Estes eram necessários para vota a um deus e o seu agir desinteressado para
incrementar a fertilidade e manter a ordem uni- com o seu semelhante. Essa proposta começou a
versal, além de propiciar a possibilidade de liber- difundir-se no Sul da Índia, por volta de 600 a.C.
tação do constante nascer-renascer, integrando- e logo se espalhou por toda a região da Índia. Já
se de modo definitivo com Brahman. no século III a.C. esse caminho para a libertação
encontrara sua expressão no Bhagavad Gita, um
Imagem 7: Evilkittens

Hinduísmo

As possibilidades de ciclo da vida. Tudo é determinado pelas ações do presente

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poema catequético. Essa terceira tendência do rância se entrelaçam em proporções quase iguais.
hinduísmo é a que predomina na Índia moderna, Não faz parte dos propósitos do universo ser um
e o livro Bhagavad Gita é o texto sagrado que paraíso, mas o espaço onde o espírito do ser hu-
ocupa o lugar supremo na consciência do indiano mano pode viabilizar seu aprendizado de integra-
médio. ção ao Transcendente. É como se o universo per-
ceptível servisse apenas para poder perceber-se
Mundo que há outra realidade além dele.

É plural É maya
O mundo não é uno, mas plural. Há diver- O mundo e suas galáxias são maya. A palavra
sos mundos interconectados pela mesma razão. maya possui a mesma raiz que mágica. Na mági-
É como se fossem infinitas galáxias, e cada uma ca, o que vemos nem sempre é o que pensamos
com o seu ponto de referência, como a Terra. ver. Assim é o universo. Enquanto em processo
Para dar uma dimensão superlativa ao conceito de constantes renascimentos, o ser humano pode
de infinitas galáxias, o hinduísmo entende que cair no ardil de que a materialidade e a multipli-
entre esse ponto de referência e o restante da ga- cidade são realidades independentes, quando, em
láxia há diversos outros mundos mais sutis, aci- realidade, são Brahman, o todo inclusivo de tudo
ma, e mais grosseiros, abaixo. Os mundos sutis e o que é e de tudo o que não é.
grosseiros são os espaços ocupados pelas almas
O mundo e suas galáxias podem ser a pri-
e que por eles transitam conforme os méritos ad-
são do ciclo de constantes e infindáveis renasci-
quiridos ou não.
mentos do ser humano. O universo aí está para
Cada mundo e galáxia têm ciclos diferentes poder perceber-se sua unidade, que é Brahman.
de tempo. Há tempo que se expande e tempo que Mesmo que o ser humano não o perceba ou o
se recolhe, eterna e incontavelmente no mesmo perceba apenas parcialmente, ele continua sendo
movimento, estabelecendo os ciclos cósmicos. Brahman.

É meio É lila
O mundo e suas galáxias têm uma razão. É O mundo e suas galáxias são o espaço lila
o espaço onde as almas individuais cumprem a (“dança”) do Transcendente. É onde ele dança,
inexorável lei do carma até sua libertação. Ine- numa espécie de jogo, de forma incansável, in-
rente ao conceito de carma está que toda decisão finda, irresistível, mas absolutamente benéfica. É
do ser humano terá determinadas conseqüências. o jogo que o Transcendente criou a fim de que o
Não há fatalismos no universo. finito seja superado e destruído pelo infinito.
Nos mundos mais grosseiros há uma percep-
ção maior dos elementos sensoriais. Em razão
dos prazeres proporcionados, geralmente assen-
Principais tendências
tados no eu individual, o ser humano deve buscar
a libertação para mundos cada vez mais sensí-
Escolas do pensamento hindu
veis, em direção ao EU absoluto, o Transcenden-
Entre os séculos II a.C. e IV d.C., surgiram
te, até sua integração completa.
seis escolas ortodoxas da filosofia clássica hindu,
descritas a seguir. Não eram grupos organizados,
É moderado mas sistemas de pensamento que apresentavam
Hinduísmo

perspectivas diversas, porém complementares,


O mundo e suas galáxias são o espaço onde de métodos devocionais, interpretação das escri-
bem e mal, prazer e dor, conhecimento e igno- turas e cosmologia.

11
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Cultura Religiosa

As 6 escolas ortodoxas da filosofia clássica hindu


• Vaiseshika – Defende que a libertação do ser humano se dá pela compreensão
das leis da natureza.
• Nyaya – A libertação do ser humano se dá pelo conhecimento por meio do
raciocínio lógico.
• Sakhya – A libertação do ser humano ocorre quando se alcança a união da
alma individual com o Transcendente (moksha) por meio da consciência que
se desvencilha das preocupações mundanas e ma-
teriais. Ela acreditava numa libertação ascética
que acontece através de meditação e no domínio
das paixões
• Mimamsa – A libertação do ser humano dar-
se-á à medida que os escritos sagrados forem
adequadamente interpretados e, em decor-
rência, produzirem o justo agir (darma).
• Vedanta – A libertação do ser humano
é decorrência da correta compreensão
do Transcendente e dos conhecimentos
espirituais, possibilitada pela igualda-
de entre a alma individual e o Trans-
cendente. Isto é atingido por técnicas
transcendentes de controle de corpo
e mente.
• Bhakti – A libertação do ser huma-
no é possível em razão das atitu-
des devocionais que permitem a
união entre a alma individual e
o Transcendente, embora sejam
Imagem 8: Wikipedia

diferentes.

Templo hindu em Mysore - Índia

O pensamento hindu no tas aspectos biológicos. Esse interesse, que atin-


giu seu ponto culminante nas décadas de 1960 e
ocidente 1970, concentrou-se no budismo e no hinduísmo,
com destaque para a ioga. Surgiram inúmeros
movimentos que apresentaram o modo hinduísta
Em meados do século XX, surgiu na Europa
de responder às questões da vida. Eram, em re-
e nos Estados Unidos um grande interesse pela
gra, movimentos centrados na personalidade de
espiritualidade oriental. Dentre as muitas razões
Hinduísmo

algum mestre (guru) carismático, venerado como


para isso, podemos afirmar que o Ocidente ma-
se fosse um avatar. Dos movimentos que perma-
terialista, espiritualmente estéril, percebeu que a
neceram na ativa após a morte de seus fundado-
vida e o viver iam muito além dos reducionis-
res, destacamos:
12
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Alguns movimentos que permaneceram na ativa após a morte


de seus fundadores
• Meher Baba (1894-1969) – Foi o primeiro guru moderno de importância a con-
quistar adeptos no Ocidente. Nascido na Índia, elaborou uma doutrina que sin-
tetizava várias tradições religiosas, inclusive os conceitos de carma e samsara
(“renascimento cíclico”). Ensinava que o estado de iluminação que liberta só se
alcança por meio do amor puro, desinteressado.
• Sociedade Internacional da Consciência de Krishna – Foi fundada em mea-
dos da década de 1960 no Ocidente por A. C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada
(1896-1977). Seus discípulos de túnica amarela procuram a iluminação por meio
do estudo das escrituras védicas, em especial o Bhagavad Gita, e do canto de um
mantra em louvor a Krishna e Rama (graças ao qual o movimento é popularmen-
te conhecido como Hare Krishna). Praticam um ascetismo rigoroso, que inclui o
celibato, a não ser com finalidade de procriação e dentro do casamento.
• Meditação transcendental – Ensina um método simples de meditação que se
baseia em um mantra pessoal (palavra ou frase) que, constantemente repetido,
produz o efeito de reduzir o estresse e de promover a integração pessoal e, por
conseqüência, a iluminação que liberta. Foi trazido para o Ocidente por Maha-
rishi Mahesh Yogi, nascido em 1911, em fins da década de 1950 e alcançou po-
pularidade quando os Beatles se tornaram seus adeptos.
• Missão da Luz Divina – Fundado na Índia em 1960 e no Ocidente em 1971,
proclamou um menino guru, Maharah Ji, nascido em 1958, o mais recente avatar
do Transcendente. Ensina quatro técnicas de meditação que capacitam os devo-
tos a se voltarem para dentro de si mesmos a fim de experimentarem o estado
de iluminação: a Luz Divina, a Harmonia Divina, o Néctar Divino e a Palavra
Divina.
• Bhagwan Shri Rajneesh (1931-1990) – Também conhecido como Osho. Mi-
nistra a doutrina do amor livre, da sexualidade desinibida e dos atos impulsivos,
juntamente com uma forma de meditação dinâmica que visa liberar a energia
da Terra. Uma das técnicas de liberação das energias reprimidas é o riso. Possui
centros de meditação em todo o mundo. Só no Brasil são oito centros, além de
um jornal de circulação nacional.

Perfil do Hinduísmo
Fundador: não há fundador.
Ano de fundação: as raízes do hinduísmo remontam a um período entre
1500 a.C. e 200 a.C.
Textos sagrados: Livro dos Vedas, que consiste numa coletânea de qua-
tro obras, das quais certas partes datam de 1500 a.C.
Estatística: hoje, cerca de 80% da população da Índia é hinduísta. O
Hinduísmo

restante divide-se entre muçulmanos (10%), cristãos (4%) e outros gru-


pos (6%). Em todo o mundo, os hinduístas perfazem cerca de 13% da
população mundial.

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BUDISMO
Uma religião e filosofia baseada nos ensinamentos deixados por Siddhartha
Gautama, objetivando o fim do ciclo de sofrimento.

Por Prof. Ronaldo Steffen

História
A Índia antes do budismo

O
mundo à época do nascimento de Siddartha era de mudanças. Por volta de 1500 a.C., a Índia
passou a ser influenciada pela religião védica, trazida pelos guerreiros arianos. Possivelmente
o processo sincrético ocorrido entre os arianos e os não-arianos tenha originado o hinduísmo
após séculos de evolução. Essas mudanças teriam ocorrido entre os anos 1000 a.C. e 200 a.C. Além
das revoltas filosóficas contra o vedismo e o bramanismo, duas religiões surgiram na Índia: o jainismo
e o budismo. Acresce que nesse tempo surgiram duas grandes escolas
filosóficas: a Ajivakas, ou nihilistas, e a Lokayatas, ou materialis-
tas. Posteriormente, essas duas escolas opuseram-se ao hindu-
ísmo. Popular também à época do nascimento de Siddartha
era um movimento denominado Sâmara, uma espécie de
contracultura dos mendicantes religiosos, que optaram
pela renúncia ao mundo. Todos esses movimentos surgi-
ram no exato momento em que o ambiente da Índia era
um campo fértil para novas idéias.
Num período posterior, provavelmente entre 1000
a.C. e 500 a.C., surgiram os Upanishads, escritos em for-
ma de diálogos entre o mestre e o discípulo. É nesse perío-
do que é introduzida a noção de Brahman, a força espiritual
essencial sobre a qual se baseia todo o universo. É por
essa razão que se diz que todos nascem do
Brahman, vivem no Brahman e retornam
ao Brahman por ocasião da morte.

Estátua monumental de Buda


em Kamakura - Japão
Budismo
Imagem 9: Zastavki

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O nascimento e vida de

Imagem 11: Travels Talash


Siddartha
O príncipe Siddartha cresceu em meio à for- A Árvore da Ilumi-
nação, venerada
tuna e ao luxo. Seu pai ouvira uma profecia de
por monges bu-
que seu filho ou seria um poderoso governan- distas, tem sido
te, ou abandonaria por completo o mundo. Esta por séculos um lo-
última opção ocorreria caso o príncipe testemu- cal de constante
nhasse as mazelas e o sofrimento das pessoas. peregrinação.
Para evitar essa situação, tentou proteger seu fi- “caminho do meio”, a meditação. Após seis anos
lho, mantendo-o recluso aos limites do palácio e de meditação ascética, aos 35 anos, chega à ilu-
cercado de delícias e diversões. Casou-se jovem minação (bodhi), à margem de um afluente do
com uma prima e mantinha um harém de dan- rio Ganges. Agora era um buda, um iluminado.
çarinas. Alcançara a percepção de que todo o sofrimento
Aos 29 anos, Siddartha experimenta uma do mundo é causado pelo desejo. É apenas su-
situação que mudaria por completo sua vida primindo o desejo que o homem pode escapar de
palaciana. Embora proibido pelo pai, arriscou- outras encarnações e atingir a realidade última: o
se a sair do palácio e viu, pela primeira vez, um nirvana. Encontrara para si uma saída para a su-
velho, um homem doente e um cadáver em de- peração do sofrimento. Passo seguinte, Siddartha
composição. A contradição se interpôs quando, decide compartilhar sua percepção.
a seguir, viu um asceta com uma expressão de À época, Benares era um grande centro re-
radiante alegria. Percebeu que a vida de riqueza ligioso. É para lá que se dirige. Faz sua primeira
e prazer não traduz uma existência plena e com pregação e desencadeia o que se denomina de
sentido. Questionou-se sobre a possibilidade de rodas de instrução. Monges mendigos tornam-se
haver algo que ultrapassasse a velhice, a doença seus discípulos e por aproximadamente 40 anos o
e a morte. Percebeu-se tocado por um profundo seguem pelo Nordeste da Índia. Seus seguidores,
sentimento de compaixão pelas pessoas e por um desde o princípio, dividem-se em dois grupos: os
chamado a fim de libertá-las do sofrimento. Ato leigos e os monges.
contínuo, renuncia à vida prazerosa do palácio,
a sua esposa e filho e parte para uma vida de Por volta dos 80 anos, adoece e despede-se
andarilho. de seus discípulos. Daí para frente eles poderiam
contar somente com o darma (“instrução”) que
Da vida de abundância passa aos extremos Siddartha lhes havia dado nos anos anteriores.
dos exercícios ascéticos. Come cada vez me-
nos; chega a alimentar-se apenas com um grão Uma vez que o budismo surge dentro do
de arroz por dia. O que esperava conseguir era o contexto hinduísta como um caminho individu-
domínio do sofrimento. Sem resultado, adota o al para a libertação dos renascimentos, é natural
que muitos de seus ensinamentos estejam marca-
Imagem 10: Cláudia Pastorius

Dukkha é mais dos por esse pensamento. Destacam-se, de modo


que sofrimento: especial, os pensamentos referentes às doutrinas
refere-se à ausên- do renascimento, do carma e da libertação (ou
cia de perfeição
salvação).
universal

Deuses
Buda não negou a existência dos deuses. To-
Budismo

davia, acreditava que esta era transitória, assim


como a existência humana. Embora eles vives-

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sem mais tempo que os seres humanos, também físicos que alteram o ser humano de momento a
estavam atrelados ao ciclo de renascimentos e em momento. Tudo é transitório.
nada podiam ajudar os seres humanos a se redi-
mirem de tal ciclo.
Outro aspecto a ressaltar diz respeito à ado-
Vida e morte
ração de demônios, espíritos e outras divindades.
Todos são seres vivos e, se cultuados de modo A lei do carma
correto, podem trazer vantagens para a vida neste
mundo. Para Siddartha, o Buda, o ser humano é es-
cravizado por uma série de renascimentos. Como
todas as ações têm conseqüências, o princípio
Ser humano propulsor que está por detrás do ciclo nascimen-
to-morte-renascimento são os pensamentos dos
seres humanos, suas palavras e seus atos (carma).
“Aquilo que você planta é o A idéia básica consiste em que tudo o que fi-
que colhe.” O ser humano é zemos em determinada vida, ainda que passada,
dono de seu destino: o que repercute e alcança-nos no presente. As ações de
uma vida estendem-se a outra. O ser humano irá
pensa e faz é determinante
colher no presente aquilo que plantou no passa-
de seu futuro cósmico. do. Não há “destino cego” nem “divina providên-
cia”. Daí a impossibilidade de escapar do carma.
Enquanto houver um carma, o ser humano está
Para o hinduísmo, originalmente, todo ser fadado a renascer e manter-se preso à existência
humano, bem como todo o universo, possui uma humana, não transcendendo. Em razão disso, tor-
única alma (atmã), que sobrevive de uma existên- na-se imperiosa a busca por uma saída que seja
cia a outra e é idêntica, total ou parcialmente, ao capaz de produzir a libertação humana.
Transcendente universal (Brahman).
Buda rompe essa lógica. Nega que o ser As quatro nobres verdades
humano tenha alma e rejeita a existência de um
espírito universal. A alma é fugaz e fruto da ig- sobre o sofrimento
norância humana, que promove o desejo, funda-
O denominado Sermão de Benares, que
mental para a criação do carma individual.
apresentou as quatro verdades sobre o sofrimento
Nessa dimensão, o budismo entende a vida humano, ocorreu depois que Siddartha obteve o
humana como uma série de processos mentais e estado de iluminação.

As quatro nobres verdades sobre o sofrimento


1 Tudo é sofrimento
2 A causa do sofrimento é o desejo
3 O sofrimento cessa quando o desejo cessa
4 O desejo cessa seguindo-se o caminho das 8 vias:
1 Entendimento justo 5 Sustento de vida justa
Budismo

2 Resolução justa 6 Esforço justo


3 Palavra justa 7 Pensamento justo
4 Conduta justa 8 Meditação justa

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1 Tudo é sofrimento – Para o budismo,


o sofrimento implica algo mais do que
aqui e agora e, por isso, nirvana não é um
estado futuro. Simplesmente é o estado
mero desconforto físico e psicológico. em que o desejo cessa completamente.
Toda a existência é manchada pelo so-
frimento, pois tudo é passageiro. Quem
não percebe isso é cego. Isso, no entanto,
4 O desejo cessa seguindo-se o caminho
das oito vias – São elas:
não significa que o budismo negue toda a 1 Entendimento (ou percepção/vi-
felicidade material e mental. A felicidade são) justo: para conhecer a natureza
pode ser encontrada em muitos setores e a origem do sofrimento, a cessação
da vida, como na família, e em muitas do sofrimento e o caminho que con-
coisas que estão à volta do ser humano. duz para a cessação do sofrimento.
Porém, nada disso vai durar para sempre. 2 Resolução justa: renunciar à mate-
rialidade presente no mundo e não
2 A causa do sofrimento é o desejo – O
desejo é o mesmo que ânsia. Há três tipos prejudicar ou odiar o semelhante.
de desejos: desejo pela sensualidade, de- 3 Palavra justa: abster-se da mentira
sejo por ser/existir e desejo por não ser/ ou da calúnia, da injúria e dos me-
não existir. Resumida e metaforicamente, xericos.
significa prender-se a algo no curso da Conduta justa: abster-se de tirar a
4
existência como se ele fosse absoluta- vida, roubar e praticar a luxúria.
mente substancial para o ato de existir. É
o desejo que produz a existência conti- 5 Sustento de vida justo: abster-se de
nuada e a necessidade do renascimento. pegar ou comercializar armas, con-
Não é a transitoriedade da felicidade que sumir álcool e tóxicos e de qualquer
causa o sofrimento, mas a atitude frente a outra atividade que possa trazer pre-
ela, como o apego e a ignorância. juízo a outros.
6 Esforço justo: é a vontade necessá-
3 O sofrimento cessa quando o desejo
cessa – A experiência de interrupção do ria para estancar as más qualidades
que afloram à mente, eliminar todas
sofrimento é tão real quanto a própria ex-
as que ali ainda estão e desenvolver
periência do sofrimento. À interrupção bons estados mentais.
do sofrimento dá-se o nome de nirvana.
O nirvana é a cessação de mudança. O 7 Pensamento justo: ter consciência
nirvana pode apenas ser experimentado, do seu próprio corpo, dos sentimen-
mas não descrito. Resumidamente pode tos e das atividades da mente.
ser definido como a cessação dos apegos 8 Meditação justa: é quando, priva-
ou dos desejos e certamente não é iden- do de luxúria e disposições erradas,
tificado com o céu. O nirvana não é um a serenidade interna é desenvolvida
lugar real ou metafórico. Em vez disso, o por meio da prática de meditação.
pressuposto é que a dor e a cessação da Esta é a atividade que, em última
dor são duas experiências reais realizadas análise, conduz ao nirvana.

Analise os oito caminhos


como uma proposta de
conduta ética e tire suas
próprias conclusões.
Para pesquisar e confrontar:
Como o cristianismo explica o
Budismo

sofrimento?
Nirvana e céu são a mesma coisa?

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Ética

Imagem 12: Neatorama Cachefly


Com a decisão de Buda, depois de alcançar
a iluminação, de tornar-se guia do ser humano,
passam a ser fundamentais para o budismo o
amor e a compaixão. Não só as ações, mas tam-
bém os sentimentos e os afetos são importantes.
A caridade realizada não apenas afeta aos outros,
mas contribui para enobrecer o próprio caráter de
quem a pratica.
Nessa dimensão, o budismo tem cinco re-
gras de conduta:
O Caminho ao Nirvana: é como se os desejos fossem
As 5 regras de conduta do Budismo sendo apagados

• Com relação às criaturas vivas: evitar


toda maldade. Principais tendências
• Evitar o roubo. Os pensamentos de Buda foram transmiti-
dos oralmente. O resultado foi o surgimento de,
• Não ser sexualmente promíscuo. pelo menos, 18 escolas diferentes. As escolas re-
• Falar apenas a verdade. lacionadas a seguir representam apenas as mais
importantes ramificações do budismo no mundo
• Evitar o uso de álcool e drogas. moderno.
Budismo Theravada – É a mais antiga es-

Mundo
cola da tradição budista. Defende que cada ser
humano é responsável sozinho pela sua própria
iluminação. Apenas poucos alcançam esse esta-
No mundo tudo é transitório. Nada é defi- do. A sabedoria e a disciplina são virtudes valio-
nitivo e, por isso, essa transitoriedade deve ser sas. Os rituais não são fundamentais, e sim a de-
abandonada para evitar-se todo e qualquer de- voção. Está presente no Sri Lanka, na Tailândia,
sejo. Notemos, no entanto, que, quando se fala em Mianmar, em Laos e no Camboja.
em abandonar a transitoriedade da materialida-
Budismo Mahayana – É o budismo das
de constante no mundo, o que se tem em mente
pessoas comuns. Enfatiza que qualquer pessoa
é o apegar-se a essa materialidade como se ela
pode alcançar o estado de iluminação que liberta.
fosse capaz de resolver os problemas da natureza
A compaixão e o amor pelos menos afortunados
humana. A única saída para a transitoriedade do
são mais importantes que a sabedoria.
mundo é o nirvana.
Budismo Zen – É um amálgama da escola
Uma vez que o nirvana é o oposto direto do
Mahayana com o taoísmo. Zen é o caminho da
ciclo de renascimentos, e uma vez que ele não
iluminação por meio da meditação e da vida sim-
pode ser comparado a nada neste mundo, só é
ples, evitando as teorias abstratas e favorecendo a
possível dizer que o nirvana não é. Alcançá-lo só
experiência direta de um espírito “vazio” e aber-
é possível por meio do estado de iluminação e de
to. Há duas grandes escolas: a Rinzai Zen, que
nada adiantam, por si sós, as boas obras.
dá ênfase à iluminação espontânea, e a Soto, que
Embora o mundo não tenha autonomia, seja enfatiza a concentração espiritual e corporal dis-
transitório e pleno de sofrimento, este é o espaço ciplinada na meditação. As escolas Zen também
dado e no qual o ser humano pode chegar à liber-
Budismo

enfatizam a pintura, a caligrafia e até a cerimô-


tação plena dos renascimentos. nia do chá como expressões de um vínculo não
interpretado com a natureza. Tornou-se popular

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de um bodhisattva, e cada dalai-lama sucessivo


no Ocidente a partir da década de 1950, com o é a reencarnação do anterior. A partir do século
surgimento dos movimentos holísticos. XVII, o Dalai-Lama passou a ser também o lí-
Budismo da Terra Pura – É o culto de um der secular do Tibete, até o país ser ocupado pela
buda ou bodhisattva que vive numa terra pura, China, em 1959, quando o Dalai-Lama passou a
celestial. Seus devotos procuram renascer na Ter- viver em exílio.
ra Pura, onde alcançarão a iluminação libertado- No Brasil, como podemos ver a seguir, po-
ra. dem ser identificadas três grandes escolas bu-
Budismo Nichiren – Também conhecido distas. Devemos levar em conta que cada escola
como Seita do Lótus, ensina que o budista verda- pode estar subdividida em vários grupos.
deiro é o que segue os ensinamentos contidos no
Sutra do Lótus, escritura do século I d.C. A ênfa-
se é que Buda é eterno e cósmico, manifestando-
As três tradições fundamentais
se incessantemente em budas terrenos. O maior
As diversas escolas budistas existentes po-
grupo dessa tendência é o Nichiren Shoshu.
dem ser agrupadas em três tradições fundamen-
Budismo tibetano – Também conhecido tais. Ainda na Índia, desenvolveram-se diferentes
como lamaísmo, adota a doutrina do bodhisattva correntes com interpretações específicas dos en-
e o caminho gradual rumo ao estado de ilumina- sinamentos de Buda. Desse budismo primitivo,
ção por meio de rígidas disciplinas monásticas. sobrevive até hoje a tradição Theravada. Simul-
O grupo mais importante nessa tendência é de taneamente, a doutrina de Buda correu a Ásia e
Gelugpa, fundado em fins do século XIV d.C. foi adaptada a diferentes culturas. O resultado é
Seu líder espiritual é o Dalai-Lama (“guru ocea- a diversidade.
no”), cuja sabedoria é profunda e ampla como o
mar. O Dalai-Lama é considerado a encarnação

As 3 grandes escolas budistas


Região de *Grupos Membros Alguns líderes
Início Filosofia
Consolidação no Brasil no Brasil no Brasil

Theravada Séc IV a.C. Sul da Ásia (Sri A figura do “vaículo pequeno” resume o espírito da 5 Menos de Pushwelle
(Hinayana) Lanka, Tailân- tradição Theravada, também chamada de Hinayana. Cada 1 mil Vipasse
dia, Mianmar, um é responsável por guiar o próprio barco. Sozinho,
Laos, Camboja) o praticante busca a auto-iluminação por meio da
meditação e de uma conduta condizente com a doutrina
de Buda.

Mahayana Séc. I a.C. Norte da Ásia A tradição Mahayana pode ser simbolizada pela figura do 85 Cerca de Monja Sinceri-
(China, Coréia, “veículo grande”. O fiel não apenas busca a própria ilumi- 220 mil dade e Monja
Japão) nação como pode contribuir para que todos a sua volta Coen
evoluam espiritualmente. O bodhisattva (ser iluminado) é
o timoneiro em um barco com muitos passageiros

Vajarayana Séc. VII Tibete Os primeiros missionários a visitar o Tibete tiveram de 45 Cerca de Lama Michel e
d.C. incorporar algumas práticas xamânicas da população na- 3 mil Segyu Rinpoche
tiva. A tradição Vajrayana, ou “veículo diamante” combina
a ética Mahayana com doutrinas esotéricas do Tantrismo
Budismo

*Números aproximados
Consultoria: Prof. Frank Usarski, programa de pós-graduação em Ciências da Religião da PUC de São Paulo.
Fonte: Revista Isto É, 2003.

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Perfil do Budismo
Fundador: Siddartha Gautama, identificado por seus seguidores como Sakyamuni
(pertencente ao clã dos Sakya), Buddha (“o iluminado”) ou Bhagavat (“senhor”). É
tido como o quarto dos cinco budas encarnados. Não há certezas, as biografias men-
cionam datas desde 624 a.C. até 410 a.C.

Data de nascimento: Livro dos Vedas, que consiste numa coletânea de quatro obras,
das quais certas partes datam de 1500 a.C.

Local de nascimento: reino dos Sakyas, na cidade de Kapilavastu, próxima à fronteira


atual entre a Índia e o Nepal.

Ano de fundação: estima-se que Siddartha tenha atingido o estado de iluminação por
volta de seus 35 anos de idade.

Textos sagrados e reverenciados: os ensinamentos de Buddha não foram original-


mente escritos por ele, mas transmitidos oralmente por seus seguidores. Ao surgi-
rem os primeiros escritos, duas formas podem ser identificadas: o cânone sulista
de Pali, da tradição Theravada (escrito no Sri Lanka por volta do século I a.C.), e o
cânone nortista sânscrito, da tradição Mahayana. O cânone de Pali é composto por
três obras (pitaka):

a) Sutra: os discursos de Buddha;

b) Vinaya: as origens das regras da disciplina monástica;

c) Abdhidharma: tratados escolásticos sobre a psicologia e a filosofia budis-


tas. Já o cânone de tradição Mahayana crê que as doutrinas primeiras são
incompletas e necessitam ser aperfeiçoadas com os tratados interpreta-
tivos.

Estatística: atualmente é um dos quatro maiores grupos de tradição religiosa. Os nú-


meros correspondentes a essa afirmação são difíceis de serem comprovados em vis-
ta das diversas escolas budistas. Hoje é muito difundido no Sri Lanka e no Sudoeste
da Ásia, embora esteja também presente na China, na Coréia e no Japão. Excluindo a
China, estima-se que cerca de 200 milhões de pessoas professam a fé budista.
Budismo

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ISLAMISMO
Enquanto religião, o islã abrange todas as áreas da vida humana, pessoal e
social.

Por Prof. Ronaldo Steffen

Imagem 13: Wikipedia


A peregrinação (Hajj) a Meca é um dos
“cinco pilares do islã”

História Maomé

C
om origem na Arábia, o islã está pro- Nasceu em Meca, na Arábia, por volta de
fundamente relacionado com a cultura 570 d.C. Nascido numa das principais famílias
árabe. Ressaltemos, no entanto, que hoje da cidade, ficou órfão ainda criança. Criado por
apenas uma minoria de seus seguidores são ára- um tio, Abu Talib, foi trabalhar como condutor
bes. O islã está difundido por regiões da África de camelos para Khadidja, viúva de um rico mer-
e da Ásia, em especial, e é seguido por cerca de cador. Quinze anos mais velha que Maomé, veio
15% da população mundial. a ser sua esposa e exerceu grande influência no
desenvolvimento religioso de seu esposo.
A palavra árabe islam significa “submissão”.
Arquivo ULBRAEAD

É pertinente ao seu conteúdo que o ser humano


deve entregar-se a Deus e submeter-se a Sua von-
tade em todas as áreas da vida. Esse entendimen-
to sugere que, enquanto religião, o islã abrange
todas as áreas da vida humana, pessoal e social.
É a terceira e última das religiões originadas
com Abraão, após o judaísmo e o cristianismo.
Fruto de um “segundo casamento” de Abraão,
agora com Hagar, Ismael dá origem aos muçul-
manos.
Islamismo

De importância capital para a compreensão


do islã é a figura de Muhammad, ou Mohammed,
ou, ainda, Maomé. A Arábia Saudita hoje.

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A formação religiosa de Ma- A recitação de Maomé


omé resulta no Alcorão.
Meca era um importante centro comercial
e religioso da Arábia. Tribos nômades já adora- Deus revela-se a Maomé
vam, bem antes de Maomé, a pedra preta, objeto
de muitas peregrinações de beduínos. Era prática Era costume de Maomé retirar-se todos os
comum na região, também, cultuar muitos deu- anos para uma caverna aos arredores de Meca
ses e seres sobrenaturais, quase sempre ligados com o fim de meditar. Esse hábito também era
a práticas animistas. Em geral, os cultos eram prática corrente dos eremitas cristãos, que, di-
tribais. Aliás, a tribo e a família eram estruturas ferentemente de Maomé, fundamentavam sua
centrais para o modo de vida dos nômades. Todo meditação em algum texto sagrado, em geral os
o sistema legal estava vinculado à tribo, originada Evangelhos da tradição cristã.
e mantida pelos laços de sangue. Era recorrente
Aos 40 anos, Maomé teve uma revelação.
o exercício da lei do “olho por olho”, quando um
Apareceu-lhe o arcanjo Gabriel com um perga-
dos membros de uma tribo era assassinado por
minho ordenando-lhe que o lesse. Maomé não
um membro de outra. Um cenário de constantes
sabia ler e, em vista disso, o arcanjo incitou-lhe a
e sangrentas rixas fixou-se como prática comum.
recitar o que ouvia.
Maomé foi fortemente
Imagem 14: Wikipedia

influenciado pelos ideais


judaicos e cristãos, espe-
cialmente o monoteísmo.

Já à época de Maomé, apresentava-se um


quadro de transição. A sociedade beduína nôma-
de começava a dar lugar a uma sociedade urba-
na mais fixa. Com isso, a religião e as práticas
tradicionais passaram a ser revistas. Nesse hiato
aumentou em muito a influência do judaísmo e
do cristianismo. Com toda a certeza, Maomé foi
fortemente influenciado pelo monoteísmo e pela
noção de fim de mundo acompanhado de juízo
final.
O judaísmo havia se estabelecido em toda a
Arábia depois da queda de Jerusalém em 70 d.C.
Aos poucos, os judeus incorporaram a língua e o
estilo de vida dos árabes, mantendo, porém, sua
própria crença e seu culto mosaico.
O cristianismo, por sua vez, também havia
avançado por muitas regiões do Oriente Médio.
Sura (capítulo) do alcorão
Estados como a Abissínia (atual Etiópia) e mui-
tas tribos beduínas tornaram-se cristãos. Com
certeza o grupo que mais influenciou Maomé As recitações transmitidas por Maomé fo-
em sua formação religiosa foram monges e ere- ram reunidas num livro, o Qu´ran, o Corão, ape-
Islamismo

mitas cristãos, que viviam isolados nos desertos nas após a sua morte. Assim como no judaísmo e
da Arábia. Devotos e generosos eram pródigos na no cristianismo, o islamismo também passa a ter
ajuda aos viajantes. seu livro sagrado.

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De Meca a Medina Surgem os Xiitas e os Sunitas


Após a revelação, Maomé começa sua pre- O Cisma no mundo islâmico começa na
gação em Meca. Proclama-se profeta e mensa- época de Ali. Sua liderança foi repleta de contro-
geiro de Deus. As famílias abastadas entende- vérsias, e ele acabou sendo assassinado por seus
ram essa pregação como manobra para usurpar adversários. Os seguidores de Ali defendiam e
o poder político da cidade. Também as famílias acreditavam que, por ser o parente mais próximo
assentadas no tradicionalismo religioso se lhe de Maomé, ele era o seu sucessor natural. Esses
opuseram por entenderem que, se abandonassem seguidores eram identificados como os Shiat Ali
suas antigas crenças, estariam reconhecendo que (o partido de Ali), ou xiitas, que formam a base
seus antepassados foram pagãos. da religião oficial do Irã de hoje.
A crise estava instalada. A situação de Ma- Os xiitas entendiam que a liderança do mo-
omé piora após a morte de seu tio e esposa. Al- vimento deveria ser concedida a um descendente
guns de seus seguidores, residentes em Medina, direto de Maomé, enquanto o grupo divergente,
mostraram-se dispostos a aceitá-lo na cidade. facção bem maior que os xiitas, identificados
Assim, em 622 d.C. Maomé sai de Meca e vai como sunitas, julgava que a liderança cabia ao
para Medina. indivíduo que de fato controlava o poder.
Esse episódio é conhecido como hégira, que Após a morte de Ali, o califado teve sede em
significa “rompimento” ou “partida”, mas jamais Damasco por algum tempo e, a seguir, instalou-
“fuga”. se em Bagdá, onde permaneceu por 500 anos.
Depois disso, a liderança passou para o sultão
Líder religioso e político turco de Istambul. O último sultão foi derrubado
em 1924 e, desde então, o mundo islâmico dei-
xou de ter um califa como líder.
Em Medina, Maomé torna-se um líder reli-
gioso e político. Sem perder de vista seu futuro
retorno a Meca, procura se estabelecer financei- Sunitas Xiitas

84 16
ramente por meio de assaltos a caravanas perten-
centes às famílias ricas de Meca. O conjunto das
atividades desenvolvidas por Maomé com vistas
ao retorno a Meca é conhecido como jihad, hoje % %
empregado para designar a guerra santa.
Na década seguinte, Maomé toma a cida-
de de Meca por meios militares e diplomáticos. Os dois grupos reúnem a maioria dos adeptos do islamismo.
Ocupou, a seguir, grande parte da Arábia. Em
632 d.C., pouco antes de morrer, havia realizado
o feito de unir o país e torná-lo um só domínio, Ensinamentos
no qual a religião tinha mais representatividade
que os antigos laços familiares e tribais. Deus
O Cisma no islã após Maomé Não há Deus, senão Alá, e Maomé é seu pro-
feta. Este é o resumo da fé islâmica: o monoteís-
mo e a revelação dada a Maomé.
Após a morte de Maomé, a liderança do
movimento foi assumida pelos califas, ou suces-
sores. Os três primeiros califas eram parentes de Monoteísmo
Maomé. O quarto califa, Ali, genro de Maomé,
Islamismo

casado com sua filha Fátima, era filho de seu tio, Alá não constitui um nome pessoal, mas,
Abu Talib, que o havia criado. sim, a palavra árabe que significa “Deus”. Eti-

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mologicamente, a palavra alah se relaciona com também, designou-se a sexta-feira como dia sa-
a palavra hebraica el, que é utilizada na Bíblia grado da semana.
para nomear o Deus dos hebreus.

Imagem 15: Bhatkal


O termo “alah”, ára-
be, e o termo “el”,
hebraico, referem-se
a “Deus”

O politeísmo é atacado com veemência, res-


A Kaaba hoje em dia de peregrinação
saltando-se a crença num só Deus, que é criador
e juiz. Ele criou o mundo e tudo o que há nele.
Em relação ao cristianismo, a diferença
No último dia irá trazer todos os mortos de volta
acentuou-se na questão da Trindade. Além disso,
à vida para julgá-los.
houve divergência quanto ao papel de Jesus, que,
Há uma forte ênfase no amor e na compai- para o cristianismo, é o Verbo (Palavra) revelado,
xão divinos. Embora Deus seja aquele a quem to- enquanto, para o islamismo, a revelação é o pró-
dos devem submeter-se, também é o que perdoa prio Qu´ran (Corão).
e auxilia o ser humano. Este não merece nada de
Deus nem pode invocar direitos sobre nada. A
salvação e a fé brotam somente da graça de Deus
Ser humano
e são coisas que os seres humanos podem apenas
ter esperança de conseguir. O ser humano possui um estatuto especial
e uma posição privilegiada no universo. A vida
é dádiva divina. O ser humano é criatura divi-
Revelação na perfeita e possuidor de uma alma que perdura
após a morte.
Deus falou ao ser humano por intermédio
A bondade lhe é inata por graça divina e
de seu profeta Maomé. Ele é o último dos pro-
não se perde por qualquer meio ou motivo. Não
fetas enviados por Deus à humanidade. Embora,
há a noção de um pecado herdado. O ser huma-
de início, Maomé estivesse próximo às tradições
no é sempre bom. Quando muito, ele se esque-
judaico-cristãs, delas se distancia em razão de
ce de sua origem divina e da bondade que lhe é
controvérsias tidas com os judeus sobre narrati-
inerente. Para que isso não ocorra, o ser humano
vas do Antigo Testamento.
necessita constantemente reavivar suas origens e
O fundo histórico do movimento desencade- qualidades divinas.
ado por Maomé é encontrado em Abraão e seu
O fato de ter sido escolhido por Deus para
filho, Ismael, antepassado dos árabes. Maomé
que Ele se revele ao mundo, dá a dimensão exata
ensinou que Abraão e Ismael tinham reconstru-
dos grandes valores e qualidades humanas.
ído a sagrada Kaaba, que fora erigida por Adão
e destruída pelo dilúvio. Para Maomé, tanto os
judeus como os cristãos distanciaram-se do mo- Vida e morte
noteísmo de Abraão.
Quando em Medina, Maomé ensinara que, Os cinco pilares
ao orar, o rosto deveria estar voltado para Jeru- A vida de um seguidor do islamismo está
salém. Depois de rompidas as relações com os marcada por cinco passos bem definidos, deno-
Islamismo

judeus, a orientação mudou: o fiel, agora, deve minados de Os cinco pilares, descritos a seguir.
estar de frente para Meca ao orar. Por essa época

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frute a vida na terra, mas lembra que se deve ter


Os cinco pilares do Islamismo: sempre em mente o fato de que esta não passa de
uma preparação para a vida que começará depois
• Credo
do julgamento divino.
• Oração Jejum – O Corão proíbe comer porco e be-
• Caridade ber álcool. De resto, nada se proíbe. A exceção é
o jejum durante o Ramadan, mês em que Maomé
• Jejum teve sua primeira revelação. Nesse período, entre
• Peregrinação à Meca o nascer do sol e o pôr-do-sol, é proibido comer,
beber, fumar ou ter relações sexuais. Os viajan-
tes, os doentes, as crianças e as mulheres grávi-
das ou que estão amamentando são exortados a
Credo – “Não há outro Deus senão Alá, e
cumprir o jejum numa data posterior.
Maomé é seu Profeta.” É a primeira coisa que
se deve sussurrar ao ouvido da criança recém- Peregrinação a Meca – Todo muçulmano
nascida e a última a ser sussurrada no ouvido do adulto que dispõe de meios financeiros deve rea-
moribundo. lizar, pelo menos uma vez na vida, uma peregri-
nação a Meca. Os peregrinos que para lá se diri-
Oração – Deve ser feita cinco vezes ao dia;
gem, passam a usar vestes brancas e caminham
o pressuposto é estar ritualmente limpo das im-
em torno da Kaaba por sete vezes. Outro mo-
purezas, causadas pelas funções corporais, o que
mento importante é quando os peregrinos vão ao
é obtido pelo banho em água corrente.
monte Arafat e lá ficam, sem cobrir a cabeça, do
Imagem 16: Temple University

meio-dia até o pôr-do-sol. Foi no monte Arafat


que Adão e Eva se encontraram de novo, depois
que foram expulsos do jardim do Éden. O ponto
alto das festividades é o sacrifício de algum ani-
mal (carneiro, bode, camelo, boi etc.). A finali-
dade é relembrar que Abraão foi tão obediente a
Deus que se dispôs a sacrificar seu próprio filho,
Ismael. Deus foi misericordioso com Abraão e
enviou-lhe um animal para que ele o sacrificasse
em lugar do filho.
Imagem 17: BBC de Londres

Mesmo em terras distantes mantém-se a obrigação


das orações diárias

Caridade – É uma espécie de taxa sobre a


riqueza e a propriedade, fixada em cerca de 2,5%
sobre o montante; ela é destinada a usos sociais,
Islamismo

objetivando diminuir as desigualdades entre ri-


cos e pobres, sem interferir no princípio da pro- Peregrinação a Meca
priedade privada. O islã não proíbe que se des-

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Imagem 18: Najah Team


Relações humanas - Ética e O divórcio é possível, mas
apenas quando iniciado pelo
Política marido, que é o responsável
pelo lado financeiro do ca--
Quando as instruções do Livro não forem samento. O marido também
suficientes, recorre-se a dois princípios: tem o direito de punir fisi-
camente a mulher se ela for
• Princípio da similaridade ou analogia: busca-se desobediente.
no Corão um exemplo semelhante e capaz de
A excisão do clitóris
sugerir uma decisão;
(mutilação genital femini-
• Princípio do consenso: uma decisão de na) não é obrigatória, mas
consenso pode ser vista como lei a ser mesmo assim é praticada
observada. com freqüência no Norte
da África. Não há no Co-
• Já os xiitas adotam um terceiro princípio: o da
rão menção a essa prática,
revelação.
bem como à tradição de
usar o xador, o véu.
Não há no islã distinção entre religião e po-
lítica, tampouco entre a fé e a moral. O Corão O Xador (véu) usado
é suficiente para resolver todas as questões que pelas mulheres da
envolvem os relacionamentos humanos. religião islamica

Os xiitas acreditam que a revelação não está


concluída e que seus líderes são os instrumentos
divinos para as novas interpretações. Essa posi- A morte
ção contraria a dos sunitas, que afirmam que a re-
velação veio apenas uma vez, em sua forma final. Após a morte, a alma do fiel muçulmano
vai a um paraíso desfrutar dos seus deleites e
contemplar o rosto de Alá. A alma do infiel, por
As mulheres no islã seu turno, vai ao inferno. Aguardar-se-á o dia do
juízo, quando as ações dos seres humanos serão
Há profundos contrastes no tratamento con- definitivamente julgadas e receberão a devida
cedido a homens e mulheres na vida social e nas paga. As almas dos mártires e dos profetas não
leis relativas ao casamento. Devemos, no entan- passarão pelo juízo final, pois já estão no paraí-
to, ressaltar que o Corão, em relação às mulhe- so. O ato final será a proclamação do islã como
res, determina tanto obrigações (“os homens têm religião mundial, liderada por Jesus.
autoridade sobre as mulheres”) quanto direitos (o
A crença num julgamento final após a morte
dote pago pelo marido, por ocasião do casamen-
é necessária, segundo muitos muçulmanos, para
to, é propriedade da mulher e não pode ser usado
que o ser humano assuma a responsabilidade so-
sem o consentimento dela).
bre seus atos. A idéia de um julgamento cria um
A mulher só pode ter um marido. Já o ho- senso moral de dever que é relevante para a co-
mem pode ter até quatro esposas, desde que as munidade.
possa sustentar. A poligamia é proibida na Tur-
quia e na Tunísia. Outra particularidade com
relação ao casamento e que é pouco conhecida, Mundo
embora bastante difundida, é o casamento por
contrato com tempo determinado. É utilizado, O mundo foi criado por um ato deliberativo
de Alá. Em decorrência, dois aspectos emergem:
Islamismo

em especial, quando o marido fica por muito


tempo fora de casa e tem por fim preservar a sus- o mundo da matéria é real e importante, e, por ser
tentabilidade da mulher. obra de Alá, que é perfeito em bondade e poder, o
mundo material também o é.

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Principais tendências dos mais elevados de consciência e iluminação.


O termo sufi designa “o que se veste com lã”,
Sunitas – Defendem que a unidade da co- numa referência possível às vestes dos primeiros
munidade islâmica é muito mais importante que sufis.
a genealogia de seu líder. Acreditam que o pro- Fundamentalismo islâmico – Defendem
feta morreu sem indicar um sucessor e que os lí- que a shari´ah (conjunto de regras islâmicas ex-
deres que o sucederam, os califas, representam traídas do Corão e dos ensinamentos de Maomé)
a sucessão legítima. Distinguem-se, ainda, pela tem validade eterna e deve ser seguida à risca.
ênfase dada à inescrutabilidade racional de Alá O movimento surgiu por volta do século XVIII
e à extensão limitada do livre-arbítrio humano. como uma reação ao avanço ocidental e ao con-
Xiitas – Defendem que a unidade da comu- seqüente relaxamento dos princípios da shari´ah.
nidade islâmica só é possível reconhecendo-se Imaginam que será por meio de uma inserção
que os descendentes do profeta são os líderes cada vez maior na política que poderão ser res-
(imã) ou modelos naturais escolhidos por Alá. É tabelecidos os princípios islâmicos. Defendem
particularmente importante para esse grupo não uma estrutura familiar patriarcal e entendem que
perder de vista que o terceiro líder, assassinado os postos militares e políticos só devem ser entre-
em 680 d.C. ao recusar-se jurar fidelidade ao ca- gues a muçulmanos comprometidos com a comu-
lifa regente, optou pelo martírio como forma de nidade islâmica e que aos empregados deve ser
obediência às revelações dadas ao profeta. Essa dado tempo para as orações diárias. Acreditam
lembrança manifesta-se no sentimento de luto ainda que se deve solidariedade aos muçulmanos
que toma conta dos xiitas por ocasião da morte, no mundo todo e opõem-se ao homossexualismo
quando em luta, de um de seus adeptos. Possuem e ao aborto.
um clero hierárquico organizado, no qual a as-
censão se dá segundo o grau de cultura, sendo o SÍMBOLO DO ISLAMISMO:
mais alto nível o de aiatolá. Enquanto a estrela indica
o caminho a seguir, a lua
Sufismo – É o grupo islâmico com tendên- o ilumina. O símbolo é
cia mística e cuja característica mais marcante é utilizado para significar
a renúncia ao eu por meio de hábitos devocionais como o Islamismo guia
e pela convicção de que Alá é a verdade suprema e ilumina o caminho dos
da existência humana e o caminho para os esta- seus seguidores.

Perfil do Islamismo
Fundador: o profeta Muhammad (Maomé).
Data de nascimento: 570 d.C.
Local de nascimento: Meca, atual Arábia Saudita.
Ano de fundação: 622 d.C., em Meca.
Textos sagrados e reverenciados: Qu´ran (Corão), coleção das escrituras divinas
como reveladas ao profeta Maomé pelo arcanjo Gabriel, e Hadith, coleção de ditos
de Maomé e seus seguidores e que se perpetuaram com o decorrer do tempo.
Estatística: estima-se hoje em cerca de 1 bilhão e 300 milhões de adeptos distribuí-
dos por várias localidades: Turquia, Oeste da África, Sul da Ásia, Filipinas, Indonésia,
Índia, Oriente Médio, Europa e as três Américas. No Brasil, fala-se em 1 milhão de
Islamismo

adeptos.

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Arquivo ULBRAEAD
Uma religião inteiramente ligada à história:

JUDAÍSMO
Por Prof. Ronaldo Steffen

História calizada no atual Sul do Iraque, por volta de 1700


AEC. Seguindo orientação divina, Abraão saiu

O
de sua terra e foi em direção à terra indicada por
judaísmo é uma religião inteiramente
Elohim, a fim de formar um grande povo. Esse
ligada à história. As narrativas bíblicas
povo ganhou um nome após uma dramática luta
começam com Adão e Eva e os relatos
entre Jacó, neto de Abraão, e um anjo de Elohim.
que apontam as conseqüências do pecado, mani-
O anjo lhe dá o nome de Israel (o que venceu a
festadas no desejo humano de rebelar-se contra
Elohim). Os filhos de Jacó, mais tarde, vieram a
Elohim (Deus). Segue-se a expulsão do paraíso.
ser identificados como as doze tribos de Israel.
Mais tarde, o mundo inteiro é destruído pelo di-
lúvio, salvando-se apenas Noé e sua família, jun- Com José, um dos filhos de Jacó, as narra-
tamente com todos os animais da Terra. Sodoma tivas bíblicas mostram como os israelitas foram
e Gomorra, cidades sem Elohim, são aniquiladas, parar no Egito. Após serem escravizados, foram
e a torre de Babel é derrubada por representar a retirados do Egito com a ajuda de Moisés, numa
tentativa humana de chegar até o céu*. jornada de 40 anos pelo deserto antes de chega-
rem à Canaã, a terra prometida.

De Abraão a Moisés Fato marcante da travessia acontece no mon-


te Sinai, quando Elohim dá a Moisés as duas tá-
A fase histórica seguinte tem seu ponto de buas da Lei com os Dez Mandamentos.
partida com Abraão, ao sair da cidade de Ur, lo- Por volta de 1200 AEC, os israelitas con-

Arquivo ULBRAEAD
A jornada de Abraão

Judaísmo

*Confira esses relatos no “Livro de Êxodo”, disponível em: http://www.sbb.org.br.


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quistaram parte de Canaã, convivendo com povos Amós, que viveu por volta de 750 AEC e ataca-
não israelitas. Foi a época dos juízes que cuida- va os males sociais, como a opressão dos pobres
vam para que o povo respeitasse as leis dadas por pelos ricos.
Elohim. A luta com os filisteus, nesse período,
foi o episódio determinante da necessidade da
criação de um poder político centralizado.
O exílio na Babilônia
Advertidos pelos profetas do juízo e da pu-

Arquivo ULBRAEAD
Divisão das 12 Tribos de Israel nição divinos em razão do descumprimento das
leis divinas, os israelitas, sem retroceder, viram
o seu reino dividido em dois: o reino do Norte
(Israel) e o do Sul (Judá). Em 722 AEC os as-
sírios invadiram e devastaram o reino do Norte,
que deixa de ter importância política e religiosa.
O reino do Sul foi conquistado em 587 AEC
pelos babilônios, que deixaram como marca da
ocupação a destruição do Templo de Jerusalém.
Os habitantes do reino do Sul tiveram permissão
para voltarem a sua terra em 539 AEC e daí em
diante se tornaram conhecidos como judeus. O
Templo de Jerusalém foi reerguido em 516 AEC.
Imagem 19: Escola Dominical

O Templo de Jerusalém hoje

Ocupação estrangeira
O reino de Israel Seguidas vezes, após o retorno da Babilônia,
os judeus caíram sob o domínio político estran-
O ano 1000 AEC marca a introdução da mo-
geiro. Foi assim que, em 70 EC (Era Comum),
narquia por meio de Saul. Davi e Salomão são os
uma revolta contra os romanos levou ao saque
expoentes desse período. Com Davi, nascido em
de Jerusalém. O Templo, que recentemente ha-
Belém, dá-se a unificação das tribos de Israel.
via sido ampliado pelo rei Herodes, foi outra vez
Com Salomão, dá-se a construção do Templo de
arrasado. Dessa época em diante se estabelece
Jerusalém no século X AEC.
um novo formato do judaísmo, desvinculado do
A prática de sacrifícios no templo, espécie Templo e centrado na sinagoga. Muitos judeus
Judaísmo

de oferenda, passou a ser uma forma mecânica estavam agora dispersos pelas terras do Mar Me-
de adoração. Surgem daí os profetas. Destaca-se diterrâneo.

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História mais recente fim do século XIX. Muitos judeus pensaram na


possibilidade de voltar para sua antiga pátria e,
A dispersão dos judeus provocada pelas di- assim, fugir das constantes perseguições de que
versas ocupações permitiu que eles, em muitas eram alvo. Essa idéia foi chamada de sionismo.
ocasiões e em diferentes lugares, assumissem pa- A princípio, muitos sionistas desejavam criar um
pel de grande importância e destaque, tanto nas estado laico, secular, mas os judeus ortodoxos
letras como na economia (a religião lhes permitia conseguiram realizar o seu desejo de que o país
ganhar juros emprestando dinheiro). fosse fundado com base na religião judaica.

No entanto, o que mais tem marcado a dis- Esse novo Estado tem vivido em contínuo
persão dos judeus é a constante campanha que conflito com o mundo árabe, também por causa
diferentes países e culturas têm desencadeado dos milhares de palestinos que foram deslocados
com o fim de afastar os judeus de seus limites de suas propriedades na época da fundação de
geográficos, em especial a partir da Baixa Idade Israel.
Média. Por muito tempo o cristianismo encabe- Hoje as terras israelenses abrigam apenas
çou a perseguição aos judeus sob a alegação de cinco dos onze milhões de judeus
terem sido os judeus os culpados pela morte de
Jesus. Da França e da Inglaterra os judeus foram
deportados nos séculos XIII e XIV; na Espanha Ensinamentos
a perseguição dá-se no século XV, e os judeus
são expulsos desse país em 1492; em 1687, fo- Deus
ram proibidos de entrar no território da Noruega.
Culmina o cenário de perseguição, na história O judaísmo é uma religião monoteísta. Elo-
recente, com o avanço nazista na Europa, entre him, o Deus único, é o criador do mundo e o se-
1933 e 1945. nhor da história. Toda vida depende dele, e tudo
Mesmo em épocas em que as perseguições o que é bom flui dele. É pessoal e tem preocupa-
explícitas não ocorriam, os judeus continuaram ção com as coisas que criou.
a sofrer restrições: tratados como párias sociais; Quem é Elohim é algo que não pode ser
obrigados a adotar nomes de fácil identificação expresso em palavras. O nome de Deus é repre-
e a residir em lugares específicos; proibidos de sentado pelas letras IHVH, um acrônimo que em
possuir terras e assim por diante. hebraico significa “eu sou o que sou”. Esse acrô-
Apenas em 1948 veio o reconhecimento nimo costuma ser lido como Jeová ou Javé, po-
mundial com um ato da ONU, que criou o Estado rém o nome real é tão sagrado que sempre se usa
de Israel. Os primeiros passos foram dados no algum sinônimo, como “o Senhor” ou “o nome”.

Atual localização de Israel


Arquivo ULBRAEAD

Judaísmo

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Jeová é o criador e o sustentador do mundo. A lógicos. Por isso, faz parte da missão divina no
idéia de que Elohim possa não existir é alheia a cosmo, realizando a mediação entre o Criador e a
um judeu. criatura. A tarefa mais importante do ser humano
é cumprir todos os seus deveres para com Elohim
Particularmente específica na concepção
e para com seus semelhantes.
de Elohim é a expectativa nutrida pela vinda de
um messias (“o ungido”) que virá criar um rei-
no de paz na terra. Historicamente, a expectati- Vida e morte
va remonta à época do rei Davi, quando os reis
eram ungidos ao subir ao trono. Desde o exílio A vida e a morte de um judeu têm seus cami-
babilônico, os judeus alimentam a expectativa nhos e atalhos traçados nas Escrituras Sagradas.
da chegada de um messias, saído da linhagem de
Davi. Esse rei ideal restabeleceria Israel como Os Escritos Sagrados
uma grande potência, e seu povo desfrutaria de
eterna felicidade. O chamado cânone judaico foi fixado por
Até hoje essa expectativa continua viva. um concílio em Jabne por volta de 100 EC. São
Nem todos os judeus, entretanto, identificam o 24 livros divididos em três grupos:
Messias como uma pessoa; alguns falam numa • Torá (a Lei): os cinco livros de Moisés.
“era messiânica” – um estado de paz na Terra,
com destaque especial para Israel. Há alguns • Nevim (os Profetas): os livros históricos
judeus que identificam a criação do Estado de e proféticos.
Israel, em 1948, como o cumprimento dessa ex- • Ketuvim (os Escritos): os demais livros.
pectativa.
Além da Torá, os judeus obedeciam às regras
O Messias para os Judeus: transmitidas oralmente. Conforme a tradição, no
monte Sinai, Moisés teria recebido a Lei Escrita
• Alguns esperam a vinda de uma pessoa; e a Lei Falada. A Lei Falada era proibida de ser
• Outros esperam uma era messiânica; escrita, pois deveria adaptar-se às condições re-
ais da vida em diferentes lugares e épocas. Após
• Outros identificam que essa era chegou a dispersão dos judeus, sob pena de perder-se a
com a criação do Estado de Israel tradição oral, decidiu-se registrar as orientações.
legítima. Esse material se chama Talmude. Não é em si
um livro de ensinamentos, e sim um texto usado
pelos rabinos em seus ensinamentos, para orien-
Ser humano tação dos fiéis em situações concretas.

A sinagoga e o sábado
O ser humano, embora biológi-
co, faz parte da essência divina Desde o exílio, a sinagoga tem desempenha-
e deve cumprir a missão de do papel primordial na preservação das práticas
Elohim aqui na Terra. religiosas dos judeus. É nesse espaço que se en-
contra a Arca, uma espécie de armário colocado
sistematicamente na direção de Jerusalém e onde
O fato de que Elohim é um, e apenas um, são guardados os rolos da Torá. Nas manhãs dos
reflete-se na existência humana. Toda a vida do sábados (shabat), das segundas e das quintas-
ser humano deve ser consagrada. Não há linha feiras, os rolos são lidos de tal forma que todo
divisória que separe o sagrado do profano. o livro é lido no decurso de um ano. A sinagoga
Enquanto ser biológico, o ser humano faz pode abrir suas portas para os serviços religiosos
Judaísmo

parte do cosmo. No entanto, de tudo o que há no três vezes por dia, desde que dez homens estejam
cosmo, o ser humano foi escolhido como parte presentes. As mulheres não desempenham parte
da essência divina, ultrapassando os limites bio- ativa no serviço religioso, pelo menos nos grupos

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ortodoxos. No entanto, encontram seu espaço nos gue seja extraído. Além disso, é proibido comer
rituais do Shabat. derivados de carne juntamente com derivados de
leite. As frutas, as verduras, as bebidas alcoólicas

Imagem 20: Tiferet


e não alcoólicas são permitidas.

A ética

O religioso e o ético se fundem na vida de


um judeu. Tudo pertence à Lei de Elohim. Além
das 248 ordens afirmativas e das 365 proibições,
a vida do judeu ainda deve respeitar os costumes
e as práticas que se consolidaram ao longo de sua
história.
Dentre as qualidades éticas recomendadas
estão a generosidade, a hospitalidade, a boa von-
tade para ajudar, a honestidade e o respeito pelos
pais.
A Arca numa Sinagoga.
O dízimo (10%) faz parte do comportamen-
O Shabat dura desde o pôr-do-sol de sexta- to de muitos judeus. Com relação aos pobres e
feira até o pôr-do-sol de sábado. É uma relem- necessitados, é curioso notar que o ato de dar es-
brança do ato criador de Jeová que descansa no molas não é considerado caridade, mas justiça. O
sétimo dia. O sábado se tornou uma festa sema- dever de combater a pobreza é preceito bíblico a
nal de renovação que ocorre em família. A espo- fim de cumprir-se a palavra de que jamais haverá
sa abençoa as velas do Shabat na mesa já posta, pobre no povo escolhido. A mesma concepção é
e o marido abençoa o vinho e o pão. É mais um mantida em relação às viúvas, aos órfãos e aos
grande momento para a união familiar judaica. estrangeiros.
Quando em determinada situação não hou-
Quem olha hoje pelos cuidados ver clareza sobre o que fazer ou se a atitude gerar
da alimentação na família? conflito, prevalece a vida humana.

Dar esmola não é caridade,


As regras alimentares mas ato de justiça.

É responsabilidade da mulher zelar pela ali- As fases da vida


mentação da família. Há, para tanto, que respei-
tar as regras definidas nos livros sagrados. Nascimento, juventude, casamento e morte
A carne só pode provir de animais que rumi- são fases da vida, marcadas por costumes antigos
nam e têm o casco partido, o que exclui o porco, e ainda mantidos.
o camelo, a lebre, o coelho e outros. Das aves • Circuncisão – Oito dias após o nascimen-
pode-se comer as não-predatórias. Dos peixes to, os meninos são circuncidados e recebem
pode-se comer os que possuem escamas e bar- formalmente seu nome. A menina também
batanas, excluindo-se polvos, lagostas, mariscos, recebe seu nome na sinagoga uma semana
caranguejos, camarões etc. após o nascimento.
Toda comida feita de sangue também é proi- • Bar Mitsvá e Bat Mitsvá – No primeiro
bida, já que a vida está no sangue. Os animais com
Judaísmo

sábado após completar treze anos, o meni-


sangue e permitidos para alimentação devem ser no é recebido como “filho do mandamento”
abatidos de forma que o máximo possível de san- (bar mitsvá). No ano precedente, ele é ins-

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truído nas leis e nos costumes judaicos, bem Os festivais


como aprende a ler o trecho da leitura da
Torá que fará no sábado de sua recepção. Já As festas judaicas marcam não apenas mo-
a menina torna-se “filha do mandamento” mentos de alegria. Elas trazem consigo uma for-
(bat mitsvá) automaticamente ao completar te conotação histórica e religiosa e servem para
doze anos. Por volta dos quinze anos, ela marcar eventos que ressaltam a intervenção di-
aprende o principal da história e dos costu- vina na vida do povo judaico, tanto no passado
mes judaicos e, particularmente, empenha- como no presente.
se em aprender as regras alimentares, que é
• Rosh há-shaná (Ano Novo) – Celebrado
sua responsabilidade doméstica.
em setembro ou outubro, rememora Jeová
como criador e rei, conduzindo as pessoas

Imagem 21: Google Picasa Web


a se concentrarem na auto-análise e no ar-
rependimento.
• Iom Kippur (Dia do Perdão) – É o fim
do período de dez dias de arrependimento,
iniciado no Ano Novo.
• Sukot (Festa dos Tabernáculos) –
Ocorre alguns dias após o Dia do Perdão e
procura relembrar o período em que os ju-
Cerimônia do Bar Mitsvá
deus, durante sua peregrinação pelo deser-
• Casamento – A família tem papel primor- to, residiam em tendas.
dial na manutenção da cultura e da educa- • Chanuká (Festa da Inauguração) – Re-
ção judaicas. O casamento é o modo de vida alizada em novembro ou dezembro, por oito
ideal e o único tipo de coabitação permiti- dias, comemora a reinauguração do Templo
do. Por princípio, judeu deve casar com ju- de Jerusalém, ocorrida em 165 AEC.
deu. O divórcio é permitido, mas, para que
• Pessach (Páscoa) – Celebrada em mar-
seja legítimo, deve ser sancionado por um
ço ou abril, relembra a passagem do anjo
tribunal rabínico e selado pelo marido, que
do Senhor “por cima” (pessach) das casas
dá à esposa a carta de divórcio.
dos israelitas, quando no Egito, por ocasião
da décima praga, matou os primogênitos
Imagem 22: Tharwa Community

egípcios. Tem a duração de oito dias e só se


come pão sem fermento.
• Shavuot (Festa das Semanas) – Ocorre
em maio ou junho e comemora a ocasião
em que a Torá foi dada ao povo no monte
Sinai.

Mundo
Cerimônia de casamento
Reza o texto sagrado, registrado em Gênesis,
• Enterro – O enterro deve ocorrer o mais capítulo 1, que Elohim criou o “céu e a terra” (o
rápido possível depois da morte. A cre- universo), o ser humano inclusive. Tendo conclu-
mação não é permitida. No cerimonial de ído sua obra criadora, emanada exclusivamente
de sua inexplicável vontade, constata que o uni-
sepultamento, não se usam flores nem mú-
verso é bom. A força da qual flui o ato criador é
Judaísmo

sica. O cemitério é sempre muito bem cui-


sua ordem, a partir do nada e concretizada por
dado em razão de ser o lugar onde os mor- suas palavras. A soberania divina está realçada.
tos descansam até a ressurreição. Ele é o criador.

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lei bíblica quanto a lei oral são de inspiração di-


vina, e obedece aos costumes e aos rituais tradi-
“A força da qual flui o ato cria-
cionais, com a rígida observância do Shabat e das
dor é sua ordem, a partir do leis de alimentação.
nada e concretizada por suas
palavras.” Judaísmo reformista – Surgiu no período
do Iluminismo e, menosprezando a autoridade
talmúdica, realiza cultos simplificados no verná-
Uma vez criado, o universo continua a exis- culo, dando maior importância aos padrões éti-
tir por vontade divina e não por moto próprio. A cos do que às leis rituais, grande parte das quais
força vem de fora, não de forma impessoal, mas considera irrelevantes no mundo moderno.
pessoal e, ainda que o universo possua caracte-
Judaísmo conservador – Situa-se entre a
rísticas materiais evolutivas, percebe-se nesse
aceitação da autoridade das Escrituras e a per-
processo a vontade divina presente no ato criador
missão de adaptação às mudanças dos tempos e
que lhe deu essa característica.
das situações.

Tendências No século XX, outras tendências se acentua-


ram, como a corrente liberal da Reforma Judaica
e o Movimento Reconstrucionista, fundado por
O judaísmo é tanto uma identidade heredi-
Mordecai Kaplan, que entende o judaísmo como
tária e um modo de vida quanto um sistema re-
uma “civilização religiosa”.
ligioso. Essa colocação faz perceber a existência
de uma diversidade de entendimentos. A ESTRELA DE DAVI: Dois
triângulos entrelaçados. Um
A partir do século XIX, três comunidades
aponta para o alto e relembra
religiosas distintas, descritas a seguir, desenvol- tudo o que é sagrado. Outro
veram-se com opiniões divergentes acerca da im- aponta para baixo e relembra
portância da tradição e da teologia judaica. tudo o que é secular. Juntos
representam a união indis-
Judaísmo ortodoxo – Mantém as crenças solúvel entre o sagrado e o
tradicionais, inclusive a doutrina de que tanto a secular.

Perfil do Judaísmo
Fundador: Abraão e seus descendentes Isaque e Jacó.
Data de nascimento: por volta de 1700 AEC (antes da Era Comum; é assim
que os judeus preferem identificar a cronologia antes de Cristo).
Local de nascimento: provavelmente em Ur, na Caldéia.
Ano de fundação: 1700 AEC.
Textos sagrados e reverenciados: a Torah, que descreve a criação do mun-
do e a fundação do reino de Israel, além de contar as leis divinas; o Tal-
mude, um conjunto de escritos jurídicos, éticos e litúrgicos, bem como de
histórias e lendas judaicas.
Estatística: fala-se em 15 milhões de adeptos, dos quais seis milhões es-
tão fora de Israel. No Brasil, estima-se em 130 mil adeptos.
Judaísmo

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CONFUCIONISMO
Estas religiões orientais ou sapienciais buscam o caminho através da sabe-
doria e do conhecimento.

Por Prof. Moacir Douglas Flor

As religiões orientais Religião dos pobres era a adoração dos espíritos,


particularmente dos antepassados, religiosidade

N
carregada de magia e traços de outras religiões.
este e nos próximos dois capítulos, (GAARDER, 2000, P.77)
apresentaremos três Grandes Religiões
(Confucionismo, Xintoísmo e Taoís-

Imagem 23: Wikipedia


mo). Apesar de não serem populares no Brasil,
consideramos interessante uma leitura e análi-
se para nos darmos conta de como pensam ou-
tros povos e a diversidade religiosa encontrada
no mundo. É bom observar que o pensamento
oriental é diferente do ocidental.

Confucionismo
Vocês devem estar observando hoje que a
China está despontando em todo o mundo pelo
seu crescimento econômico e aos poucos vem
sendo reconhecida como uma grande potência
mundial. Talvez o que você não saiba é que até
1911 a China foi uma potência imperial, onde o
imperador reinava acima de tudo. O Imperador
era considerado o representante do país diante do
supremo deus Céu.
O que havia por traz de tudo isso era uma
ideologia confucionista. O conjunto de pensa-
mentos, regras e rituais sociais, foram desenvol-
vidos pelo filósofo K’ung-Fu-Tzu. No Brasil o
conhecemos como Confúcio. Além disso, Con- Confúcio
fúcio formulou normas para a vida religiosa, para ensinando, re-
tratado por Wu
os sacrifícios e os rituais. ,
Daozi, Dinastia
O confucionismo era, na verdade, uma re- Tang

Quem foi Confúcio


ligião estatal praticada pela elite e pelas classes
dominantes, a qual, no entanto, nunca se disse-
minou muito entre as massas, as camadas mais
Confucionismo

amplas da população. Da mesma forma que o Confúcio nasceu em 551. a.C., filho de pes-
imperador, em seu palácio em Pequim, ficava re- soas pobres, que desde cedo demonstrou um
motamente afastado das pessoas comuns, o Céu grande interesse que se referia à vida. Diz a his-
era remoto e impessoal para a grande massa dos tória que após iniciar sua carreira pública como
chineses pobres, trabalhadores e camponeses. A um oficial de segunda classe no estado de Lu, aos

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18 anos, tornou-se professor e começou a ensinar namento ideal na vida pública e privada”. “O
história, filosofia, ética, música, poesia e boas Chinês mais moderno entende por “li” uma or-
maneiras. A idéia era mostrar aos seus alunos o dem social ideal, com tudo em seu devido lugar
princípio que ele sentiu necessários naquele mo- e com todas as pessoas prestando respeito e re-
mento de decadência da ordem feudal chinesa. verência aos outros na hierarquia social” (STE-
FFEN, 2000, p. 48).
Embora suas lembranças da infância con-
tenham referências nostálgicas à caça, à pesca De uma certa forma, a idéia era estabelecer
e ao arco, sugerindo com isso que ele foi tudo a ordem e acabar com a queda do respeito desen-
menos uma traça de livro, Confúcio dedicou-se cadeada pela ordem feudal. Confúcio acreditava
cedo aos estudos e se saiu bem. “Chegando aos que, se cada um soubesse o seu lugar, poderia
quinze anos de idade, forcei a minha mente ao haver um comportamento de reciprocidade como
aprendizado.” Com vinte e poucos anos, depois um guia de vida. É aqui que vai surgir o dito “não
de ter ocupado vários cargos públicos insigni- faças aos outros o que não queres que te façam.
ficantes, depois de ter feito um casamento não
muito bem sucedido, ele se estabeleceu como Há quatro coisas no Caminho da pessoa pro-
professor particular. Essa era obviamente a sua funda, nenhuma das quais fui capaz de fazer.
vocação. A reputação de suas qualidades pesso- Servir ao meu pai, como esperaria que um filho
ais e sabedoria prática espalhou-se com rapidez, me servisse. Servir ao meu governante, como
esperaria que meus ministros me servissem.
atraindo um circulo de discípulos entusiasmados.
Servir ao meu irmão mais velho, como esperaria
(SMITH, 1991, p. 156) que meus irmãos mais novos os servissem. Ser o
A carreira de Confúcio não foi um sucesso. primeiro a tratar os amigos como esperaria que
Sua ambição era bem maior. Alguns biógrafos eles me tratassem. Essas coisas não fui capaz
de fazer.
chegaram a criar a lenda de que, por volta dos 50
anos, Confúcio realizou uma brilhante adminis-
tração durante cinco anos, avançando rapidamen- Político fracassado, Confúcio foi, sem dúvi-
te de ministro de Obras Públicas para ministro da, um dos maiores professores do mundo. Pre-
da Justiça e primeiro-ministro, e fazendo de Lu parado para ensinar história, poesia, governança,
uma província modelo. “A verdade é que os go- propriedade, matemática, música, adivinhação
vernantes da época tinham medo da franqueza e e esportes, ele foi, à moda de Sócrates, um ho-
integridade de Confúcio, tanto medo que nunca mem Universidade. Seu método de ensino tam-
o designariam para qualquer posição de poder.” bém era socrático. Sempre informal, ele não fazia
(SMITH, 1991, p. 156) preleções; preferia conversa sobre os problemas
apresentados por seus alunos, citando leitura e
fazendo perguntas. Ele se apresentava aos alunos
Suas obras como um companheiro de viagem, comprometi-
do com a tarefa de se tornar plenamente humano,
O que marca a obra de um líder é a seu lega- mas modesto. Quanto ao ponto a que chegou no
do escrito. Confúcio deixou várias obras escritas cumprimento dessa tarefa, ele mesmo cita:
sobre sua filosofia de vida: O Shih Ching ( Li-
vro de poesias), Li Chi (Livro dos ritos), I Ching
(Livro das transformações), Shu Ching (Livro de Homem simples e humilde
história) e Ch’um Ch’íu (os anais da primavera e
do outono). Não havia nada de sobrenatural nele. Con-
fúcio gostava de estar com as pessoas, de jantar
fora, de cantar em coro uma bela canção e de
A filosofia de Confúcio
Confucionismo

beber, mas não em excesso. Seus discípulos re-


lataram que, nas horas de folga, o Mestre tinha
A questão central na filosofia de Con- um comportamento informal e alegre. Ele era
fúcio está na palavra “li”. Significa “cortesia”, afável, mas firme, digno, mas agradável. Estava
“reverência”, “ritos e cerimônias” e o “posicio- sempre pronto para defender a causa das pessoas

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comuns contra a nobreza opressiva de sua época;


nas suas relações pessoais, ele rompia escanda-
losamente as linhas de classe impostas pela so-
Alguns provérbios
ciedade e nunca menosprezava os alunos mais
pobres, mesmo quando não podiam pagar as au- • Verdadeiro filósofo não será aquele que,
las. Era gentil, mas capaz de sarcasmos quando mesmo sendo reconhecido, jamais guarda
achava merecido. Falando daquele que começava ressentimento?
a criticar suas companhias, Confúcio observou:
“É evidente que Tzu Kung tornou-se perfeito. Ele • Não faças aos outros o que não queres que
tem tempo para esse tipo de coisa. Eu não tenho te façam.
tempo livre”.
Confúcio nunca lamentou a escolha que fez. • Não me entristece que os outros não me
Com alimento ordinário para comer, água para conheçam. Entristece-me não conhecer os
beber e o braço dobrado como travesseiro, ainda outros.
tenho alegria em meio a isso e a tudo. As rique-
zas e honrarias adquiridas por meios iníquos não • Não esperes resultados rápidos nem pro-
significam para mim mais do que as nuvens flu- cures pequenas vantagens. Se buscares
tuantes, diz ele. resultados rápidos, não alcançarás a meta
A glorificação veio após a sua morte. Entre final. Se te deixares desviar por pequenas
seus discípulos, o gesto foi imediato. Disse Tzu vantagens, nunca realizarás grandes feitos.
Kung: “Ele é o sol, a luz, aos quais não há meios
de se subir. A impossibilidade de igualarmos • As pessoas mais nobres primeiro praticam
nosso Mestre é como a impossibilidade de alcan- o que pregam e depois pregam de acordo
çarmos o céu subindo por uma escada”. Em pou- com a sua prática. Se quando olhas dentro
cas gerações, Confúcio era visto em toda a China do teu coração não vês nada de errado, por
como o “mentor e modelo de dez mil gerações. O que te preocupas? O que há para temeres?
que mais lhe teria agradado foi a atenção dada às
suas idéias. Durante dois mil anos – até o século • Quando conheces uma coisa, reconhecer
XX – toda criança chinesa chegou à sala de aula, que tu a conheces; e quando não a conhe-
toda manhã, e lavantou as mãozinhas postas na ces, saber que tu não sabes – isso é conhe-
direção de uma mesa que tinha uma placa com o
cimento.
nome de Confúcio. Praticamente, todo estudante
chinês estudou cuidadosamente os provérbios de
• Ir longe demais é tão mau quanto ficar
Confúcio, durante horas à fio; o resultado é que
aquém.
eles se tornaram parte da mente chinesa, chegan-
do até os analfabetos na forma de provérbios. O
governo chinês também foi influenciado por es- • Quando vês um homem digno, pensa quan-
sas idéias, mais profundamente do que qualquer do poderás emulá-lo.
outra pessoa.
• Quando vês um homem desprezível, exami-
na o teu próprio caráter.
Pano de Fundo
• Riqueza e posição, eis o que as pessoas
É claro que os provérbios, por si só, não ex- desejam; mas se não as conseguirem da
plicam o sucesso de Confúcio. maneira correta, nunca as possuirão.
Confucionismo

A Antiga China não era nem mais nem me-


nos turbulenta do que as outras terras. Do oitavo • Sê bondoso com todos, mas íntimo apenas
ao terceiro século a.C., porém, a China testemu- dos virtuosos.
nhou o colapso da dinastia Chou, que foi um go-

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verno de paz e ordem. Baronatos rivais ficaram Confúcio insistia que o amor ocupa um lu-
em liberdade para fazer o que bem entendiam, gar importante na vida; mas também que o amor
criando uma situação idêntica à da Palestina no deve ser apoiado por estruturas sociais e por um
período dos juízes: “Naqueles dias não havia rei etos coletivo. Bater exclusivamente na tecla do
em Israel; cada homem fazia o que parecia certo amor é o mesmo que pregar os fins sem os meios.
a seus próprios olhos”. Quando perguntaram à Confúcio certa vez, “de-
vemos amar nossos inimigos, aqueles que nos
É necessário compreender o causam mal?”. Ele respondeu: “De modo algum.
que havia de errado na socie- Respondei ao ódio com a justiça e ao amor com a
benevolência. Caso contrário, estaríeis desperdi-
dade em que ele vivia. çando vossa benevolência.”

A Guerra quase contínua desse período


começou dentro dos padrões do cavalheirismo.
Respeito às tradições
O carro de guerra era sua arma, a cortesia era O que chama a atenção nas religiões orien-
o seu código e os atos de generosidade confe- tais é o respeito que todos cultivam pelos mais
riam honra. Diante da invasão, o barão arrogante velhos. A idade não é um peso, mas uma benção.
enviaria um comboio de provisões ao exército A experiência é importante para os mais novos,
invasor. Ou, para provar que seus homens esta- que a buscam nas pessoas de maior vivência. As-
vam além do medo e da intimidação, ele envia- sim também são conservadas as tradições, trans-
ria, como mensageiro, soldados que cortariam a mitidas pelos mais velhos. Sobre a socialização,
própria garganta diante do invasor. Tal como na o próprio Confúcio ensinou:
era de Homero, guerreiros de exércitos inimigos
se reconheciam, trocavam desdenhosos cumpri- Deve ser transmitida dos velhos para os jovens,
mentos do alto de seus carros de guerra, bebiam enquanto os hábitos e as idéias devem ser con-
juntos e à vezes trocavam armas antes de entrar servados como uma teia ininterrupta de memó-
em combate. ria entre os portadores da tradição, geração
após geração. (...) Quando a continuidade das
Na época de Confúcio, porém, a guerra in- tradições de civilidade se rompe, a comunida-
terminável degenerava; de cavalheiresca, tornara- de é ameaçada. A menos que essa ruptura seja
se o terror desenfreado do Período dos Estados consertada, a comunidade se esfacelará em
Combatentes. O horror chegou ao auge no século (...) guerras de facções. Isso porque, quando a
seguinte à morte de confúcio. Os combatentes continuidade é interrompida, a herança cultural
não está sendo transmitida. A nova geração se
entre carros de guerra deram lugar à cavalaria,
defronta com a tarefa de redescobrir, reinventar
com seus ataques de surpresa e reides súbitos. e reaprender, por tentativa e erro, a maior parte
Em vez do ato nobre de manter os prisioneiros daquilo que precisa saber. (...) Essa não é tarefa
até receber o resgate, os conquistadores promo- para uma única geração.
viam execuções em massa. Populações inteiras,
capturadas nos azares da guerra, eram decapita-
das, incluindo velhos, mulheres e crianças. Le- Tradição deliberada
mos descrições de chacinas de 60.000, 80.000 e
até de 400.000 pessoas. Há relatos de vencidos A tradição deliberada segue, no esquema de
atirados em caldeirões de água fervente e seus Confúcio, cinco termos chaves:
familiares forçados a beber aquela sopa humana.
JEN: Etimológicamente uma combinação
A pergunta, nessa época, era: Por que conti- dos caracteres correspondentes a “ser humano” e
Confucionismo

nuamos nos destruindo? Talvez aí esteja a respos- “dois”, designa o relacionamento ideal que deve
ta para compreendermos o poder do Confucionis- existir entre as pessoas. Traduzido das mais va-
mo. Confúcio viveu numa época em que a coesão riadas formas (bondade, fraternidade, benevolên-
social havia deteriorado até o ponto crítico. cia e amor), talvez a melhor maneira de transmi-

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tir a idéia seja pela expressão “Sensibilidade do mava de “Retificação dos nomes”. A retificação
coração humano”. Jen envolve simultaneamente dos nomes, na Doutrina do meio, nas Relações
um sentimento de compaixão pelos outros e de Constantes, no Respeito pela Idade e pela Famí-
respeito por si mesmo, um sentimento indivisível lia, esboçamos importantes aspectos específicos
da dignidade da vida humana, onde quer que ela de li no seu primeiro significado: propriedade ou
apareça. o que é certo.
CHUN TZU: Se Jen é o relacionamento O outro significado da palavra é ritual, que
ideal entre seres humanos, chu tzu refere-se ao transforma o certo – no sentido daquilo que é cor-
termo ideal nesses relacionamentos. Esse concei- retor fazer – em rito. Quando o comportamento
to tem sido traduzido como Homem Superior e O correto é detalhado em minúcias confucionistas,
Melhor da Humanidade. Talvez Pessoa Amadu- a vida inteira do indivíduo se estiliza numa dança
recida seja uma tradução tão fiel quanto qualquer sagrada. A vida social foi coreografada.
outra. É o oposto de pessoa estreita, da pessoa
TE: O quarto conceito axial que Confúcio
mesquinha, da pessoa de espírito pequeno. So-
procurou elaborar para seus conterrâneos foi Te.
mente quando aqueles que formam a sociedade
Significa Poder. Especificamente, o poder por
se transformarem em chun tzus é que o mundo
meio do qual os homens são governados. Ele es-
poderá caminhar na direção da paz.
tava convencido de que nenhum governante con-
• Se houver honra no coração, haverá beleza no segue reprimir todos os seus cidadãos o tempo
caráter. todo, nem mesmo grande parte deles na maior
• Se houver beleza no caráter, haverá harmonia parte do tempo. O governo precisa contar com
no lar. uma aceitação da sua vontade, uma confiança
• Se houver harmonia no lar, haverá ordem no apreciável naquilo que está fazendo. Confúcio
país. acrescentou que a confiança popular era de longe
• Se houver ordem no país, haverá paz no mundo. a mais importante, pois “se o povo não tiver con-
fiança em seu governo, este não se sustentará”.
LI: O terceiro conceito, li, tem dois signifi- Para ele, somente são dignos de governar aqueles
cados. Seu primeiro significado é propriedade, a que prefeririam não Ter de governar.
maneira pela qual as coisas devem ser feitas. As
pessoas precisavam de modelos, e Confúcio que- “Governar é manter-se reto. Se tu, senhor, dirigi-
ria direcionar a atenção delas para os melhores res teu povo em linha reta, qual de teus súditos
modelos oferecidos pela sua história social Pro- se arriscará a sair dessa linha?
priedade é um conceito com amplo alcance, mas
podemos perceber o âmago do interesse quando Quando o Barão de Lu lhe perguntou como gover-
ele diz: nar, Confúcio respondeu:
WEN: O conceito final na estrutura confucionista
“Se as palavras não forem corretas”: é wen. Refere-se às “artes da paz”, enquanto diferencia-
... a linguagem não estará de acordo com a ver- das das “artes da guerra”, à música, à arte, à poesia, à
dade das coisas. Se a linguagem não estiver de soma da cultura no seu modo estético e espiritual. Con-
acordo com a verdade das coisas, os negócios
fúcio considerava apenas semi-humanas as pessoas que
não poderão ser concluídos com sucesso. (...)
Portanto, um homem superior considera neces- eram indiferentes à arte. Mas o que atraía seu interesse
sário que os nomes por ele utilizados sejam fala- não era a arte pela arte. Era o poder da arte de trans-
dos apropriadamente, e também que aquilo que formar a natureza humana na direção da virtude que o
ele fala possa ser transmitido apropriadamente. impressionava – seu poder de facilitar o interesse pelos
O que o homem superior requer é que em suas outros.
palavras nada haja de encontro.
Confucionismo

Pela poesia, a mente é despertada; pela música,


Todo o pensamento humano avança por meio recebe-se o acabamento. As odes estimulam a mente.
de palavras; logo, se as palavras forem oblíquas, Elas induzem à autocontemplação. Ensinam a arte da
o pensamento não conseguirá avançar em linha sensibilidade. Ajudam a evitar o ressentimento. Fazem-
reta. Aí é importante aquilo que Confúcio cha- no acreditar no dever de servir ao país e ao príncipe.

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XINTOÍSMO

Imagem 24: Gillesh Wordpress


Quando falamos do Xintoísmo normalmente nos
reportamos aos Japoneses, ricos pela sua forma de
pensar, por sua cultura e também pelos seus valores
religiosos.

Por Prof. Moacir Douglas Flor Torii (monumento xintoísta) de hiroshima, Japão

O caminho dos deuses plicidade de deuses japoneses pode ser atribuída


a condições civis primitivas, quando a nação era

A
habitada por um grande número de clãs indepen-
penas para cultura geral vamos tecer
dentes, cada um com seus próprios deuses e prá-
algumas considerações sobre o Xintoís-
ticas religiosas.
mo, que tem grande influência sobre a
cultura japonesa. A partir desta religião podere- As cerimônias religiosas ajudam a evitar
mos entender a força de um povo, sua seriedade, acidentes, promovem a cooperação e o contato
seus compromissos e sua devoção. com os Kamis, e geram o contentamento e a paz
para o indivíduo e a sociedade. As cerimônias
Primitivamente, a religião Xintoísta era cha-
são feitas tanto no próprio lar, como nas grandes
mada de Kami-no-michi, que é traduzido por
festas anuais do templo – Morada dos Kamis.
“o caminho dos deuses”. Em chinês, a mesma
expressão é shen-tao, de onde procede a palavra Os preceitos do Shinto
shinto ( em português, xinto).O Xintoísmo é uma
religião peculiar por sua expressão de amor japo- O Shinto, “o caminho dos deuses”, pode ser des-
nês pelo seu país e suas instituições. Este aspecto crito como um modo ideal de comportamento. O
da história sagrada está descrito no Kojiki, data- seu sistema ético inclui os seguintes preceitos:
do do século VIII. (STEFFEN, 2000, p.50) • Lealdade ao imperador
• Gratidão
O Kojiki diz que as ilhas japonesas foram
• Coragem diante da morte
criadas por Izanami e Izanagi, que também ha-
• O serviço aos outros acima dos inte-
bitaram a terra como numerosas divindades, das
resses próprios
quais os japoneses são descendentes . A família
• Verdade
real é descendente de Jimmu Tenno ( cerca de
• Polidez até mesmo com os inimigos
660 a.C.), o primeiro imperador humano, neto de
• Controle das manifestações de sen-
Ni-ni-go, neto de Amaterasu, a divindade femi-
timentos e honra, que significa o ato
nina Sol. No Shinto, Amaterasu é reconhecida de preferir a morte do que a desgraça.
como a primeira no panteão das divindades, mas Os acontecimentos da Segunda Guerra Mundial
não é a única. É apenas uma entre muitos. O Xin- nos mostram um pouco desses conceitos quando
toísmo primitivo via o Japão como a terra dos os pilotos japoneses corajosamente jogaram seus
deuses, o que explica o caráter nacionalista da próprios aviões para atingir o alvo e acabar com o
religião. Acreditam que todos os japoneses têm inimigo.
origem divina, mas em especial o imperador, que
é descendente da própria deusa do sol. Quatro elementos estão sempre
presentes nestas cerimônias:
Principais ideias • Purificação
Xintoísmo

• Sacrifício
O mito da origem japonesa parece ser uma • Oração
resposta animista primitiva à natureza. A multi- • Refeição Sagrada
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TAOÍSMO

Arquivo ULBRAEAD
Se as idéias de Confúcio são estimulantes para governan-
tes sérios, o Taoísmo apresenta uma visão transcendente das
preocupações com a vida.

Por Prof. Moacir Douglas Flor

Lao Tsé apanhadas em redes; as que nadam, em armadi-


lhas de vime; as que voam, atingidas por flechas.

O
Mas o dragão está além do meu conhecimento;
s problemas éticos, sociais e políti- ele sobe ao céu nas nuvens e no vento. Hoje vi
cos estão no centro das discussões da Lao-tsé, e ele é como o dragão”.
maioria das religiões orientais. É a op-
ção pelo ser e não pelo ter. Apresenta uma visão
diferente da vida. É uma cultura oposta ao que
estamos acostumados a viver no ocidente. Se-
O Livro Sagrado
rão recomendadas leituras complementares para Uma boa idéia do início do Taoísmo, como
quem tiver interesse maior em conhecer melhor conta a tradição, é o que lemos no texto de Hus-
as idéias de Lao-tsé – o grande e velho mestre. ton Smith, que assim coloca:
A origem do Taoísmo é apresentada com o A história tradicional conta que Lao-tsé,
nome de um homem chamado Lao-tsé. Suposta- entristecido com o seu povo pela relutância
mente nascido por volta de 604 a.C. As histórias em cultivar a bondade natural que ele prega-
sobre a vida deste homem são muito variadas. va e buscando maior solidão para os seus úl-
Alguns historiadores não têm nem certeza se ele timos anos de vida, montou nas costas de um
realmente existiu. Algumas lendas são fantásti- búfalo e galopou para o oeste, na direção do
cas, como aquela que diz “ter sido ele concebido atual Tibete. No passo de Hankao, uma senti-
por uma estrela cadente, permaneceu no ventre nela, percebendo o caráter incomum daquele
materno por 82 anos e já nasceu velho, sábio e viajante, tentou convencê-lo a retornar. Não
com os cabelos brancos”. (SMITH, 1991, P.193) obtendo êxito, pediu ao velho que, ao menos,
Lao-tsé se traduz como “o velho”, “o ve- deixasse um registro de suas crenças para a
lho amigo”, ou “o grande e velho mestre”. Era civilização que estava abandonada. Lao-tsé,
contemporâneo de Confúcio. Um historiado concordando com o pedido, recolheu-se du-
Chinês relata que Confúcio ficou intrigado com rante três dias e retornou com um magro vo-
o que ouvira a respeito de Lao-tsé e, certa vez, o lume de 5.000 caracteres intitulado Tao Te
visitou. Sua descrição sugere que aquele estra- King, ou O Caminho e o seu Poder. O livro
nho homem o desconcertou, enchendo-o porém pode ser lido em meia hora ou durante toda
de respeito. “Eu sei que um pássaro pode voar; a vida, e continua a ser, até os dias de hoje,
sei que um peixe pode nadar, sei que os animais o texto básico do pensamento Taoísta. Um li-
podem correr. Criaturas que correm podem ser vrinho de apenas 25 páginas e 81 capítulos.
(SMITH, 1991, P.194)
Imagem 25: MSN Encarta

O Tao Te King tem sido traduzido como O


Caminho e seu Poder.
O Taoísmo Filosófico tem como objetivo ali-
Taoísmo

nhar a vida cotidiana da pessoa ao Tao. O cami-


Templo Taoísta nas Filipinas nho básico para fazê-lo é aperfeiçoar uma vida de

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wu wei. Wu Wei Significa pura eficácia e quie- se tornar uma dança na qual não há febres nem
tude criativa. O conceito mais tradicional signi- desequilíbrios. Wu wei é a vida vivida acima da
fica não-ação ou inação. Mas devemos cuidar tensão:
para não entender como atitude vazia, ócio. O
Encha a tigela até a borda
Taoísmo, na concepção de muitos, implica passi- E ela vai derramar
vidade e não atividade. Para um sábio taoísta, a Fique sempre afiando a faca
ação mais importante é a “não ação”. Enquanto E ela vai cegar ( Cap.9)
Confúcio desejava educar o homem por meio do
conhecimento, Lao-Tse preferia que as pessoas Wu wei é a materialização da maleabilidade,
permanecessem ingênuas e simples, como crian- da simplicidade, da liberdade – uma espécie de
ças. Enquanto Confúcio ansiava por regras e sis- pura eficácia na qual não se desperdiçam movi-
temas fixos na política, Lao-Tsé acreditava que mentos em discussões ou exibições externas.
o homem deveria interferir o mínimo possível
A pessoa pode caminhar tão bem que
no desdobramento natural dos fatos. Confúcio
nunca deixa pegadas
queria uma administração bem-ordenada, mas
Falar tão bem que a língua nunca come-
Lao-Tsé acreditava que qualquer administração é te deslizes,
má. “Quanto mais leis e mandamentos existirem, Calcular tão bem que não precisa de
mais bandidos e ladrões haverá”, diz o Tao Te ábaco. ( cap.27)
King.
Uma eficácia dessa ordem obviamente exi-
Para Lao-Tse o estado ideal era a pequena
ge uma capacidade extraordinária, o que é trans-
comunidade ( a aldeia ou a cidade pequena) que,
mitido pela lenda Taoísta do pescador: com um
segundo ele, já existia nos tempos antigos. Ali as
simples fio, ele conseguia puxar para a terra pei-
pessoas viviam em paz e contentes, sem interesse
em guerrear contra seus vizinhos, como fizeram xes enormes, porque o fio havia sido fabricado
mais tarde as províncias chinesas. O líder devia com tanta perfeição que não tinha um “ponto
ser um filósofo, e sua única tarefa era que sua fraco”. A capacidade taoísta raramente é notada,
passividade e seu distanciamento servissem de porque vista de fora, wu wei – nunca forçando,
exemplo para os outros. nunca sob tensão – parece não exigir praticamen-
te nenhum esforço. O Segredo está na maneira
Os significados do Tao pela qual ele busca os espaços vazios na vida e
na natureza, e se move através deles.
No Taoísmo tudo gira em torno do Tao, que literal-
mente significa caminho. Este caminho pode ser A água era o paralelo mais próximo ao Tao
entendido de três maneiras: do mundo natural. Era também o protótipo do wu
wei. Os chineses observavam a maneira pela qual
1 O Tao é o caminho da realidade última. É de-
masiado vasto para que a realidade humana a água se adapta ao ambiente e procura os lugares
possa sondá-lo. De todas as coisas, o Tao cer- mais baixos. Por isso:
tamente é o maior.
O bem supremo é como a água,
2 O Tao é o caminho do universo, a norma, o rit- Que alimenta todas as coisas sem esforço.
mo, o poder propulsor de toda a natureza, o Ela se contenta com os lugares baixos,
princípio ordenador por trás de toda a vida. que as pessoas desdenham.
Por isso, ela é como o Tao. ( cap. 8)
3 O Tao se refere ao caminho da vida humana,
quando ela se harmoniza com o Tao do univer- Mas a água, apesar de se acomodar, tem um
so.
poder que não é conhecido pelas coisas duras e
quebradiças. A água abre caminho além das fron-
Lendo o Tao Te Kin teiras e por baixo dos muros divisórios. Seu flu-
Taoísmo

xo suave acaba dissolvendo as rochas e levando


A pessoa precisa deixar o Tao fluir para den- embora as orgulhosas montanhas que pensamos
tro e para fora de si mesma, até toda a sua vida eternas.
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na escalada do Everest, por exemplo, nós ociden-


Nada no mundo
tais dizemos que o Everest foi conquistado. Os
É tão suave e maleável como a água
orientais diriam que este ato foi o de fazer amiza-
No entando, para dissolver o duro e inflexível
Nada a suplanta. de com o Everest.
O suave supera o duro; Aqueles que querem dominar o mundo
O gentil supera o rígido. E moldá-lo à sua vontade
Todos sabem que isso é verdade, Nunca, percebo, terão sucesso.
Mas poucos o põem em prática. O mundo é como um vaso, tão sagrado
Que, à mera aproximação do profano,
A pessoa que incorpora estas virtudes, diz
Se danifica,
o Tao Te King, “Trabalha sem trabalhar”. Ela E quando estendem a mão para pegá-lo,
age sem tensão, persuade sem argumentação, é ele se perdeu ( cap. 29)
eloqüente sem floreios e alcança resultados sem
violência, coersão ou pressão. Enquanto o agen-
te mal seja percebido, sua influência é de fato Yin Yang
decisiva.
Outra característica do Taoísmo é a sua no-
Quando o bom líder governa, ção da relatividade de todos os valores e, como
O povo mal percebe que ele existe. idéia correlata, a identidade dos opostos. Nesse
O bom líder não fala, age. aspecto, o taoísmo está ligado ao tradicional sím-
Quando ele termina o trabalho, bolo chinês do yin/yang:
O povo diz: “fomos nós que fizemos so-
zinhos.”( cap. 17) Essa polaridade resume to-
das as oposições básicas
Uma última característica da água, que torna
da vida: bem/mal, ativo/
apropriada sua analogia com o wu wei, é a clare-
passivo, positivo/negativo,
za que ela alcança ficando parada. “Água lodosa
claro/escuro, verão/inver-
deixada parada”, diz o Tao Te King, “ficará lim-
no, masculino/feminino.
pida.”
Mas as metades, embora estejam em tensão,
não são francamente opostas; elas se contem-
Valores taoístas plam e se equilibram uma à outra. Cada uma
invade o hemisfério da outra e faz sua morada
no recesso mais profundo do domínio de sua
O Taoísta rejeita todas as formas de auto-
parceira. E, no fim, ambas se resolvem no cír-
afirmação e competição. O mundo está cheio
culo que os cerca, o Tao em sua totalidade. A
de pessoas determinadas a ser alguém ou causar
vida não se dobra sobre si mesma, e chega,
problemas; pessoas que querem avançar, se des-
completando o círculo, à percepção de que
tacar. O Taoísmo não vê utilidade nessa ambição.
tudo é um e tudo está bem. (SMITH, 1991, p.
“O machado abate primeiro a árvore mais alta”.
210)
Aquele que se põem na ponta dos pés O Taoísmo segue seu princípio da relativida-
Não tem firmeza.
de até seu limite lógico, colocando a vida e a mor-
Aquele que se apressa
te como ciclos complementares no ritmo do Tao.
Não vai longe.
Aquele que tenta brilhar Há o globo,
Tolda sua própria luz. ( cap. 24) O alicerce de minha existência física
Ele me gasta com trabalho e deveres,
As pessoas deveriam evitar a estridência e a Dá-me repouso na velhice,
agressividade não só em relação aos outros, mas E me dá paz na morte.
também em relação à natureza. No taoísmo exis- Pois quem me deu o que necessitei na vida
te um naturalismo profundo e um respeito muito Também me dará o que necessito na mor-
Taoísmo

grande pela natureza. Tanto que quando falamos te. ( Chuang Tzu )

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CRISTIANISMO
Baseada na vida e nos ensinamentos
de Jesus de Nazaré, o cristianismo é hoje a
maior religião mundial.

Por Prof. Ronaldo Steffen

CRISTO REDENTOR: Monumento

Imagem 26: Stock XCHNG


brasileiro construido na cidade
do Rio de Janeiro em 1931, sim-
bolizando a fé cristã nacional

História O desejo de um rei judeu ungido


O contexto da Palestina era alimentado:
• pela dissolução das tribos de Israel;
Depois da época dos reis Davi e Salomão,
Israel entrou em decadência. Das doze tribos ori- • pela diáspora;
ginais só restavam duas (Judá e Benjamim). As
• pelo rei Herodes.
outras haviam sido extintas desde 722 a.C. As
duas tribos restantes, por sua vez, foram subme-
tidas, sucessivamente, aos impérios babilônico,
persa, grego e, em 63 a.C., reduzidas a provín-
Jesus
cias romanas. No decorrer desses fatos, os judeus
continuaram a ter esperança de que um novo rei, Jesus de Nazaré
ou messias, da linhagem de Davi, haveria de vir.
Os Evangelhos dizem pouca coisa sobre a
Acrescenta-se ao quadro da época uma con- vida que Jesus levou durante 30 anos em Nazaré
dição econômica desfavorável. A saída era bus- com seus pais, José e Maria. Somente dois Evan-
car fora da Palestina os mecanismos necessários gelhos narram fatos relativos ao seu nascimento.
para a sobrevivência. Era a diáspora, que perdu- Em contrapartida, os quatro têm a preocupação
rava desde o cativeiro babilônico (587 a.C. a 539 de apresentar os três anos de sua vida pública,
a.C.). O desejo, com certeza, de estarem nova- centrando-se na proclamação da mensagem sal-
mente juntos na mesma terra não tinha desapare- vadora.
cido entre os judeus.
Jesus nasceu em Belém antes da morte de
Desfavorável, ainda, era a presença de He- Herodes, o Grande (ano romano de 749), prova-
rodes como rei. Embora semita, era visto como velmente no ano romano de 754, correspondente
uma extensão do poder imperial romano, que ao ano 6 a.C. Em sua juventude, o reino judaico
governava com mão-de-ferro. Imperdoável para estava sob o controle direto de um oficial do im-
o judeu foi a destruição do templo que Herodes
Cristianismo

pério romano. Aos 30 anos, início de sua prega-


promoveu na conquista de Jerusalém. Um rei ju- ção pública, suas idéias baseadas nas escrituras
deu, ungido a exemplo de Davi e Salomão, era judaicas despertaram interesse em alguns e pro-
uma esperança latente. vocaram rejeição em outros.

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constitui algo totalmente fora da experiência das


Jesus, como Cristo, assenta pessoas. A ressurreição de Jesus quebra, assim, a
seus discursos bem distantes seqüência natural dos fatos existenciais. Inaugura
das idéias nacionalistas-revo- um novo ciclo no existir do ser humano, pois a
sua ressurreição é a garantia da nova vida pronta
lucionárias de seu contexto
e consagrada ao mundo amado por Deus.

Aos 33 anos, foi acusado de blasfêmia por


A ressurreição do Cristo ga-
um tribunal religioso judaico. Sentenciado à rante nova vida ao mundo
morte por um funcionário romano, Pôncio Pila- amado por Deus.
tos, foi crucificado publicamente nos arredores
de Jerusalém.
Imagem 27: Hyeros Cristianismo

Cristo, de Guido Reni, Jesus, a Ascensão


obra impregnada de
idealismo classicista,
da mesma forma que
Uma vez ressuscitado, Jesus subiu ao céu e
a pintura de temática está à direita do Pai. A expressão subiu ao céu
mitológica do mesmo não significa estar num lugar geograficamente
autor. (Museu de São definido. Igualmente, estar à direita do Pai é ape-
Telmo, San Sebastián, nas expressão da posição de honra que é dada a
Espanha) Jesus, que, antes, fora humilhado até à morte.
Jesus está em toda parte e em qualquer lugar
com sua divindade e humanidade completas, en-
chendo os céus e a terra.
Jesus, o Messias
Imagem 28: Arte e História

A palavra messias significa “o ungido”,


numa referência à maneira como o rei de Israel
era ungido com óleos ao subir ao trono. Traduzi-
da para o grego, messias é christos. Dessa forma,
Jesus Cristo é o nome que reconhece em Jesus o
esperado Messias.
Desde o princípio, sua mensagem esteve
centrada no reino de Deus, no conceito de um
Pai amoroso, no seu próprio sacrifício expiatório,
no arrependimento e na fé. Embora se anunciasse
como o Cristo, evitou que as pessoas o soubes-
sem, porque temia que o termo fosse colocado
em associação com as aspirações nacionalistas-
revolucionárias latentes. Só quando a hora da
morte se aproximou é que assumiu sua messiani-
dade, pois via nessa morte sacrificial a sua glória
suprema, enquanto o Cristo de Deus.

Jesus, o Ressuscitado
Cristianismo

Tela Pentescostes – El Greco d.C. 1600 – Museo del


O nascer e o morrer integram o ciclo nor- Prado, Espanha
mal da existência humana. Ressuscitar, porém,

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Origens e primórdios Internamente, os primeiros cristãos, de tra-


dição judaica, julgavam que, antes de serem ba-
tizados, os novos convertidos deveriam ser cir-
Em Jerusalém cuncidados. A questão foi resolvida no Concílio
de Jerusalém, com a presença dos apóstolos,
O advento do Espírito Santo sobre os após- aceitando-se o batismo cristão sem a imposição
tolos no dia do Pentecostes judaico, isto é, 50 da circuncisão.
dias depois da Páscoa, marcou o início histórico
do cristianismo. Duas situações externas criaram embaraços
ao avanço do cristianismo:
O Pentecostes tornou-se para o cristianismo
a renovação da aliança, semelhante à ocorrida • identificação do cristianismo, por parte da
no Monte Sinai quando Javé apareceu a Moisés. liderança judaica da época, como mais uma
Os apóstolos foram tomados pelo Espírito San- seita que deveria ser desestimulada e banida;
to, passando a pregar o que Jesus fizera e o que • os impedimentos levantados pelo império ro-
lhes ensinara. Dirigiram-se primeiramente aos mano, entre os quais se destaca a ênfase dada
judeus, vindos de toda a parte, reunidos em Jeru- pelo cristianismo à igualdade entre todos, in-
salém para a festa e primeiros destinatários dessa clusive em relação aos escravos.
nova aliança, considerada a consolidação da an-
tiga. Esses primeiros cristãos eram todos judeus, Impedimentos à expansão cristã:
praticavam a Lei e acrescentaram observâncias • a exigência da circuncisão aos convertidos;
inéditas, como o batismo e a repartição do pão.
• a compreensão de que seria apenas mais uma seita;

Em Antioquia e por toda parte • o entendimento cristão da igualdade de todos os se-


res humanos.
Logo surgiram obstáculos. Podem ser enu- A conseqüência imediata foi a saída dos
merados três, pelo menos, sendo um de ordem cristãos de Jerusalém. Espalham-se por toda a
interna e dois de caráter externo. Palestina e Síria e fazem de Antioquia o novo

Arquivo ULBRAEAD
As viagens missionárias de Paulo faz do cristianismo uma religião mundial:

Cristianismo

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Os Escritos do Novo Testamento:


À tradição oral dos ensinamentos de Cristo acrescentaram-se os escritos identificados como Novo
Testamento, consolidados até o ano 100 d.C. O conjunto da obra é formado por:

• QUATRO EVANGELHOS: Mateus, Marcos, Lucas e João;

• ATOS dos Apóstolos;

• 21 CARTAS: Romanos, Coríntios (1 e 2), Gálatas, Efésios, Filipenses, Colossenses,


Tessalonicenses (1 e 2), Timóteo (1 e 2), Tito, Filemon, Hebreus, Tiago, Pedro (1 e 2), João
(1, 2 e 3) e Judas;

• UM TEXTO APOCALÍPTICO: Apocalipse.

centro expansionista do cristianismo. Jerusalém comunidades que iam surgindo. À frente de cada
conservaria uma comunidade judaico-cristã até o comunidade (igreja) estava o bispo, uma espécie
ano de 66 d.C. de vigilante, que também era o pastor e o mestre.
Seus auxiliares eram os diáconos e os presbíte-
As primeiras comunidades cristãs se desen-
ros. De início todos os bispos eram denominados
volveriam em torno da bacia do Mediterrâneo,
de papa, e só a partir do século IV o termo é atri-
durante o período apostólico. Éfeso, Filipos, Tes-
buído exclusivamente ao bispo de Roma.
salônica, Corinto, Roma e Alexandria foram os
primeiros grandes centros do cristianismo, reco-
nhecidos como núcleos apostólicos. No início todos os bispos eram
Papel importante na expansão do cristianis-
chamados de “papa”.
mo deve-se a Paulo, convertido por volta de 32
d.C. Ele não apenas divulgou o cristianismo pelo
mundo greco-romano, como também é responsá- As perseguições
vel pelos fundamentos da teologia cristã.
Ainda que mal compreendido, o cristianis-
Pedro teria sido martirizado em Roma, em
mo era tolerado, como o eram todas as religiões
65 d.C., depois do incêndio da cidade sob Nero;
no império romano. As perseguições eram espo-
Paulo em 66 d.C., também em Roma; João em
rádicas, em especial na Ásia.
Éfeso, por volta do ano 100 d.C., e Marcos teria
se instalado em Alexandria depois da morte de O culto ao imperador impunha os limites e
Pedro. os determinantes das perseguições. Prestar culto
ao imperador, o que um cristão não fazia, era con-
siderado gesto de civismo. A recusa representava
A evolução até Constantino uma ameaça ao equilíbrio religioso, rompendo as
relações entre os deuses e o império.
A organização
Causa das perseguições: os
Do século II ao século IV, o cristianismo se cristãos não cultuavam o
estendeu a todas as cidades da costa do Medi- imperador. Isso punha em
Cristianismo

terrâneo e inseriu-se no interior dos continentes.


risco as relações entre os
Implantou-se, assim, tanto no Oriente como no
Ocidente. Os grandes centros cristãos do sécu- deuses e o império.
lo I tornaram-se modelos para a organização das

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De forma sistemática, as perseguições ocor- parte mais cristianizada do império. O laço im-
reram por volta de 249 d.C., com Décio e depois perial com o Ocidente era a figura do bispo de
com Galiano e Valeriano. As ações se faziam Roma, ao redor do qual gravitava a vida.
principalmente contra os bispos e os cristãos de

Imagem 29: Revista Gallileu


alta posição, a fim de privar o cristianismo de
Em 381 d.C., o cris-
seus dirigentes. A última perseguição geral foi
ordenada em 303 d.C. por Diocleciano em nome
tianismo é declara-
da união imperial, temendo, possivelmente, que do religião oficial
a organização cristã se tornasse um outro estado do império.
dentro do império. Em 311 d.C., um edito de to-
lerância, liderado por Constantino, concedia uma Com Constantino, O Grande
(275-337 DC), uma só lei, um
trégua ao cristianismo sob a condição de que
só imperador e por que não
nada se fizesse aos cristãos que fossem contrá- uma só religião a fim de uni-
rios à disciplina. ficar o império?
Por fim, em 313 d.C., ainda sob o coman-
do de Constantino, o Edito de Milão concedia a Após a morte de Constantino em 337 d.C.,
liberdade religiosa aos cristãos e punha fim às o processo de aproximação entre Igreja e Estado
perseguições. foi se consolidando e tomou sua forma final com
Teodósio, em 381 d.C., com a declaração do cris-
tianismo como a religião oficial do império.
Em 313 d.C, sob Constantino,
chegam ao fim as perseguições
aos cristãos. De Constantino ao
Grande Cisma
O império cristão
Embora unificado, o cristianismo tinha suas
Desde 305 d.C., Constantino já era senhor diferenças regionais. Uma das mais marcantes
da Gália, da Espanha e da Bretanha e, em 312 foi entre o Oriente (sede em Constantinopla) e o
d.C., tornou-se imperador. Sua aproximação aos Ocidente (sede em Roma). Várias razões podem
cristãos remonta a seu pai, que, em período de ser alinhadas para o afastamento progressivo en-
perseguição sob Diocleciano, protegeu e salvou tre as duas sedes cristãs.
muitas pessoas. Os dois editos, o de 311 d.C. e o
de 313 d.C., tinham um ingrediente político bas-
tante forte, além de proteger os cristãos. O fato é
A língua
que, livre das perseguições, o cristianismo cairia
sob o controle do imperador.
A tentativa de implantar uma
Constantino vislumbrava na aproximação única língua no império, o
com o cristianismo a culminância do processo de
latim, fracassa.
unificação do império. Havia uma só lei, um só
imperador e uma só cidadania. Por que não tam-
bém uma só religião? Protegida por Constantino, Até o século III, o espaço geográfico forma-
a Igreja Cristã cresceu rapidamente: isentou o do pela bacia do Mediterrâneo conhecia o grego.
clero dos encargos públicos, concedeu à Igreja o O avanço do latim no Ocidente teve como conse-
direito de receber legados, proibiu o trabalho aos qüência inevitável o recuo do grego. Ao fundar
domingos nas cidades e o sacrifício pagão em ca- sua nova capital, Bizâncio (depois Nova Roma e,
Cristianismo

sas particulares, erigiram-se grandes templos em mais tarde, Constantinopla), o imperador Cons-
Roma, Jerusalém e Belém. Além disso, transfe- tantino queria fazer dela uma nova Roma, com
riu a sede do império para Bizâncio (depois Nova uma administração que utilizasse o latim. Não
Roma e, por fim, Constantinopla), no Oriente, a deu certo: o Oriente não se latinizou. Sem língua

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comum, os problemas emergiram, e os acertos Tentativas de reunificação


esbarravam nas questões lingüísticas, em espe-
cial os acertos teológicos. Após o Cisma, os contatos prosseguiram. Os
imperadores do Oriente (ou bizantinos) solicita-
Os concílios ram ajuda ao Ocidente para lutar contra o avanço
do islamismo. O apelo às cruzadas, lançado pelo
A partir do Concílio de Nicéia (325 d.C.), papa Urbano II, em 1095, foi motivado, em parte,
as discussões tornaram-se constantes. Os Concí- para atender às solicitações orientais.
lios de Éfeso (431 d.C.), Calcedônia (451 d.C.)

Imagem 30: Cultura Brasil


e Constantinopla (553 d.C.) foram ocasiões de
confronto em detrimento da conciliação.

As discussões religiosas distan-


ciam o Oriente do Ocidente.

As discussões religiosas eram agravadas em


razão da primazia da sede de Roma, que Cons-
tantinopla queria compartilhar. Podem ser acres-
centadas as questões referentes às imagens, nor-
mais no Ocidente, mas rejeitadas por parte dos
cristãos orientais, e ao celibato, obrigatório no
Ocidente, porém exigido no Oriente apenas para
os bispos Cruzadas: Guerreiros cristãos contra muçulmanos

As primeiras cruzadas foram organizadas


A política fiscal com a ajuda oriental. No entanto, logo se perce-
beu que os orientais ora apoiavam o Ocidente,
O imperador Justiniano (482 d.C.-565 d.C.) ora os muçulmanos. Uma tentativa de corrigir
contribuiu muito para o agravamento das divi- essa distorção ocorreu em 1204, durante a Quarta
sões religiosas. Nas províncias ocidentais re- Cruzada, quando o Ocidente saqueou Constanti-
conquistadas aos bárbaros, ele impôs o fisco e a nopla e estabeleceu um passageiro império lati-
administração detalhista do Oriente. O Ocidente no. À medida que o avanço islâmico se concre-
não rejeitou apenas essa prática, mas também o tizava, fortalecia-se a esperança de um retorno à
poder imperial. As populações passaram a adotar unidade religiosa do cristianismo. As esperanças,
como prática comum tratar diretamente com os no entanto, dissiparam-se em 1453, quando a ca-
bárbaros, rejeitando todas as orientações e obri- pital do Oriente caiu nas mãos dos otomanos. Era
gações impostas por Constantinopla. o fim da Igreja Cristã Bizantina, que se divide, a
partir daí, em Igrejas nacionais independentes. .
O Cisma
Finalmente, em 1054, ocorre o episódio fi-
Do Cisma ao século XVI
nal da separação em decorrência de uma recusa
O Cisma deu origem, com sede em Roma, à
de reconhecimento mútuo entre os legados do
Igreja Católica Apostólica Romana e, com sede
papa e do patriarca Miguel Cerulário. Essa recu-
em Constantinopla, às Santas Igrejas Católicas
Cristianismo

sa provocou uma excomunhão mútua, e cada uma


Ortodoxas Orientais.
das partes do cristianismo passou a construir sua
própria tradição. A unidade ocidental, por sua vez, não era

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concisa, e não tardou o surgimento de vozes dis- dois papas sem poderes.
cordantes aqui e acolá, especialmente no que to-
A crise chegaria ao fim em 1417. Os Estados
cava à detenção do poder: a Igreja ou o Estado?
conseguiram se entender, convocando o Concílio
Vislumbrava-se a necessidade de reformar a Igre-
de Constança, sob a presidência do imperador da
ja cristã ocidental. A Inquisição nesse cenário foi
Alemanha. Houve concordância em restabelecer
uma tentativa religiosa que, por fim, serviu como
a unidade da Igreja, depondo os papas em exercí-
instrumento de pressão e eliminação das vozes
cio e propondo um único papa para a cristandade
discordantes.
ocidental.

Imagem 31: Site da Universidade Estácio de Sá


No Ocidente continuam as vo-
zes discordantes, e a Inquisição
serviu apenas como forma de
reprimir os dissidentes.

O desejo de reforma cedeu lugar à indispen-


sabilidade desse processo, especialmente após a
Guerra dos Cem Anos (1337-1453) e a abertura
da sociedade às novas técnicas: redescoberta da INQUISIÇÃO: Tela de Goya (pintor espanhol 1746-1828)
Antigüidade, exploração do mundo, renascimen- Ainda assim, a reforma necessária era cons-
to do grande comércio, aparecimento da impren- tantemente adiada.
sa. A esse clima de efervescência contrapunham-
se a pouca instrução dos ministros religiosos, a No início do século XVI, os papas deixa-
ausência constante dos bispos de suas dioceses e ram-se levar, a exemplo de outros príncipes, pe-
o Cisma, já mencionado, provocando um enfra- las lutas políticas e pela renovação arquitetônica
quecimento cada vez mais acentuado do cristia- em Roma.
nismo ocidental.
O projeto de reforma da antiga basílica im-
punha despesas consideráveis. Para suprir as ne-
Arquivo ULBRAEAD

cessidades, o papa Leão X (1513-1521) recorreu


ao sistema de indulgências, criado no ano 1000.
De forma reducionista, os fiéis, com o pagamen-
to de uma quantia em dinheiro, podiam substituir
as penas impostas pelo confessor aos pecados co-
metidos após o batismo, como o jejum, as rezas,
as peregrinações e assim por diante. Não tardou
que os excessos na venda das indulgências apa-
recessem. Em 1476, outro decreto papal determi-
nava que a indulgência também tinha o poder de
A divisão geográfica do Império Romano em 1054 d.C. remir as almas do purgatório.

Não bastasse isso, durante todo o século Explodiam por toda a Europa movimentos
XIV, os monarcas europeus se enfrentaram e que exigiam um retorno às Escrituras. Assim foi
tomaram como refém a hierarquia da Igreja. De na Grã-Bretanha, com John Wyclif, e na Boêmia,
1309 a 1327, os papas se instalaram em Avignon, com João Hus. Nos Países Baixos, Erasmo dedi-
Cristianismo

sob influência francesa. A volta do papa a Roma, cou-se à revisão da Bíblia, partindo do texto gre-
em 1378, provocou uma eleição pontificial dissi- go. O momento era de reforma, e nesse cenário
dente em Avignon. Os Estados da Europa, e com surge a Reforma do século XVI, destacando-se a
eles a cristandade, dividiram-se em torno desses figura de Lutero.

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Ensinamentos Percebem-se, de modo geral, dois grupos discor-


dantes: externamente ao cristianismo, judaísmo
e islamismo divergem do cristianismo; interna-
Atualmente, há três grandes matrizes do
mente, há grupos nascidos no pensamento cris-
cristianismo: catolicismo romano, catolicismo
tão, mas que afirmam a existência de apenas duas
ortodoxo e protestantismo. Internamente, cada
pessoas: o Pai, que deve ser adorado, e o Filho,
uma dessas três matrizes se desdobra em inúme-
sem nenhum direito à adoração.
ras outras correntes. Essa é uma dificuldade em
afirmar um único pensamento cristão.
Apesar das divergências, há, em linhas ge- Jesus
rais, algumas concepções que permeiam os gru-
pos cristãos: a figura de Jesus, a Trindade (Pai, Esse é um tema candente. O monoteísmo
Filho e Espírito Santo iguais em natureza e dig- cristão difere dos demais por ser o único que
nidade), a criação divina do mundo a partir do defende e proclama a realidade de um homem-
nada, a vinda do reino de Deus no fim dos tem- Deus, Jesus Cristo, possuidor de duas naturezas
pos e o amor a Deus sobre todas as coisas, entre iguais entre si: a divina e a humana.
outras. Fazem parte das crenças no Cristo Jesus a
Em razão dos limites desta obra, optamos importância de Sua mensagem de amor ao Pai e
por mencionar apenas alguns dos temas citados. ao próximo e Sua encarnação, que vem libertar
os seres humanos de seus pecados por meio de
Sua morte expiatória na cruz e oferecer a vida
Deus eterna por meio de Sua ressurreição.

Com seus fundamentos no judaísmo, o cris-


tianismo preservou a crença num único Deus, Ser humano
criador do universo e de tudo o que nele há, po-
É único
dendo intervir conforme a Sua vontade.
Ainda herança do judaísmo, o cristianismo O pastor e professor Leopoldo Heimann as-
manteve muitos dos atributos divinos, como a sim se expressa: “o ser humano, como animal ra-
onipotência, a onipresença e a onisciência. Me- cional, não é produto do acaso, mas é uma criação
rece, no entanto, um destaque um outro atributo divina, criado segundo a imagem de Deus. Para
divino: o do amor de Deus, que se estende sobre conceder a vida eterna a este ser humano, Jesus
todas as pessoas, estabelecendo uma relação pes- Cristo foi crucificado no Calvário e ressuscitou
soal entre o Criador e a criatura. ao terceiro dia.”
O diferencial do ser humano, nesse contex-
A relação de Deus com suas to, é que é a única criatura divina que recebeu a
criaturas é pessoal, por imagem e semelhança de Deus. Há, no entanto,
meio do amor. grupos dentro do cristianismo que colocam o ser
humano, a natureza e Deus em nível de igualda-
de.
A trindade
Criado à imagem e semelhan-
A partir do Concílio de Nicéia (325 d.C.), ça de Deus, o ser humano
a doutrina da Trindade passa a fazer parte do recebeu a alma vivente.
pensamento cristão. Um só Deus em três pessoas
Cristianismo

distintas e inseparavelmente unidas: Pai, Filho e


É mordomo da criação
Espírito Santo, assim como confessado no Credo
Apostólico.
Ao ser humano, criado à imagem divina, foi
Não há concordância com relação ao tema. dada a tarefa de cuidar da criação divina. Gêne-

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sis 2.15 assim descreve: “Tomou o Senhor Deus Vida e morte


ao homem e o colocou no jardim do Éden para
cultivá-lo e guardá-lo”. Faz parte da essência hu- A vida do seguidor de Jesus, o Cristo, é pau-
mana o cuidado com o universo. Ele não é dono, tada pela sua resposta ao amor de Deus, que lhe
mas apenas responsável pela conservação e pela aceita em razão da expiação e da morte de Jesus.
manutenção adequada do mundo. Nessa dimen-
são, é tarefa do ser humano zelar pelo adequado Em retribuição à bondade e à gratuidade de
manejo dos recursos naturais, e de forma susten- sua aceitação, salvação, por Deus, o cristão pon-
tável, bem como pela preservação de todos os tua sua existência pelos parâmetros encontrados
seres vivos. nos preceitos de conduta do Novo Testamento,
uma extensão dos Dez Mandamentos encontra-
dos no Antigo Testamento. A diferença é que
Cuidar, proteger e cultivar agora não mais por obrigação e, sim, por agra-
toda a criação divina é tarefa decimento à salvação concedida sem nenhum
do ser humano. O que você merecimento. A moralidade cristã encontra sua
tem feito em relação a isso? fundamentação na ética do amor e merecerá todo
um capítulo à parte, mais adiante.

É livre
As festas
Deus correu o risco, por assim dizer, de criar
Há no cristianismo, como em outras tradi-
um ser passível de rebelar-se e recusar a existên-
ções, festivais que promovem a relembrança dos
cia que lhe foi dada. Ainda assim, dotou o ser
feitos divinos em favor dos seres humanos. Muito
humano de livre-arbítrio, tornando-o completa-
embora haja divergência sobre esse tema em al-
mente livre e responsável pela sua liberdade.
gumas tradições cristãs, o que percebemos é que
o cristianismo é festivo. De uma forma geral e
Incentivo: pesquise e discu- ressalvadas as interpretações divergentes, pode-
ta com os colegas o tema do mos considerar como as principais festas cristãs
livre-arbítrio. as apontadas a seguir.
Advento – Ocorre nas quatro semanas que
Pode transcender precedem o Natal e dá início ao chamado Ano
Litúrgico, preparando os cristãos para o nasci-
As promessas de Deus conduzem o ser mento de Jesus, o Cristo.
humano à certeza de que pode ir além de suas
Natal – Fixado sempre aos 25 de dezembro,
naturais limitações físicas. É com base nessas
relembra o nascimento de Jesus como o Messias
promessas que o cristianismo pode propor novos
prometido.
objetivos, sentidos e conquistas ao ser humano,
como a da ressurreição e o da posse de um assen- Epifania – Festa fixada em 6 de janeiro,
to no reino de Deus que está por vir. portanto 12 dias após o Natal, celebra a adoração
de Jesus Cristo pelos Reis Magos e, para os cris-
A morte não é mais o fim; é apenas ponte,
tãos ortodoxos, o seu batismo.
passagem, para a vida eterna.
Sexta-Feira Santa – Data variável, ocor-
A dimensão de pertencer a rendo na sexta-feira imediatamente anterior ao
domingo de Páscoa, relembra o sofrimento e a
uma realidade que ultrapassa
morte de Jesus.
a materialidade conhecida
Cristianismo

faz dessa vida uma passagem Domingo de Páscoa – O dia da Páscoa,


por definição, é o primeiro domingo após a Lua
obrigatória na direção da
cheia, que ocorre após o equinócio vernal e pode
vida eterna. cair entre 22 de março e 25 de abril. Celebra a

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ressurreição de Jesus e a Sua vitória sobre a mor- cristãos entre si em razão das perseguições. Pei-
te. xe, em grego Ichthys, traduz o acrônimo de Iesus
Christus Theou Yicus Soter – Jesus Cristo Filho
Ascensão de Jesus ao céu – Data variável e
de Deus Salvador.
determinada por ocorrer 40 dias após o domingo
de Páscoa, celebra a presença de Cristo junto ao

Imagem 33: BBC News


Mosaico com dois
Pai como intercessor.
peixes em achado
Pentecostes – Data variável, ocorrendo 50 arqueológico do Vale
dias após a Páscoa, celebra o aparecimento do do Megido (anterior
ao séc. 3)
Espírito Santo sobre os discípulos, conforme
Atos 2.

Alfa e Ômega – A primeira letra do alfabeto


Os símbolos grego é o alfa e a última é o ômega. O símbolo dá
a dimensão de que Jesus, o Cristo, é o princípio e
A simbologia cristã é muito rica e procura o fim de todas as coisas.
remeter o fiel à lembrança das promessas divinas
A vida depois da morte
e conduzi-lo à fé nessas promessas de salvação e
cuidado. Neste espaço restrito, no entanto, fare- Não é possível fugir dos temas do céu e do
mos apenas algumas menções. inferno quando se menciona a questão da vida
após a morte.
O Bom Pastor – Seguidamente Jesus é
identificado como o bom pastor que cuida de Os católicos consideram que, após a morte,
suas ovelhas e que se dispõe a buscar, com o há ainda uma outra realidade: a do purgatório,
mesmo amor, aqueles que se desviam dos Seus local onde as almas que morreram em estado de
caminhos. graça, mas cometeram pecados, podem ser puri-
ficadas.
Imagem 32: Icons Explained

O cristianismo defende que a vida plena,


sem pecado e permeada pela santidade, dar-se-á
no Juízo Final, quando Cristo voltará para julgar
os vivos e os mortos e dar a vida eterna a todos
os que creram nas Suas promessas.
Imagem 34: Wikipedia

O Bom Pastor, Catacumbas de Roma, séc. 3

A Cruz – Há muitas variedades de cruz en-


quanto símbolos do cristianismo. Entre nós, no
Brasil, há duas formas mais comuns: os católicos
utilizam o crucifixo, enfatizando a morte e o so-
frimento do Cristo, e os protestantes utilizam a
Cristianismo

cruz vazia, enfatizando a vitória da vida sobre a


morte por meio da ressurreição do Cristo.
O Peixe – Nos primórdios do cristianismo, Juízo Final - Afresco de Michelangelo pintado no
a figura do peixe era utilizada para identificar os teto da Capela Sistina – Roma - 1541

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Como algumas tradições religiosas pensam sobre a figura de Jesus


Quem é Jesus? Por que ele veio? Como morreu? Que papel terá?
é um avatar, alguém para estabelecer terminada sua os hindus acre-
enviado por Deus um darma (a missão na Palesti- ditam que Jesus
Hinduísmo

para descer ao mun- paz e a justiça) na, Jesus foi para voltará, como
do material e agir e introduzir o a Índia, onde mor
mor-- prometeu, como
em um determinado batismo com reu vários anos um avatar, para
tempo e lugar. água. depois. mais uma vez es-
tabelecer a ordem
no mundo.
é um judeu comum os judeus não foi crucificado não atribui papel
Judaísmo

que, como outros na crêem que Jesus pelos romanos por futuro a Jesus.
História, se procla- seja um profeta. afrontar o poder
mava o Messias. do império ao
declarar-se rei dos
judeus.
é um entre muitos sua missão foi foi condenado à voltará no final
profetas, como Moi- trazer a men- cruz, mas outro dos tempos para
Islamismo

sés ou Maomé, e sagem de Deus acabou crucificado dirigir a humani-


não o filho de Deus. para o povo da em seu lugar por dade no caminho
Palestina. intervenção divi- da salvação.
na. Ele então subiu
aos Céus para
encontrar Deus.

um espírito, como para oferecer os depois do suplí- sua volta não se


os demais homens, padrões éticos e cio, não retornou dará num corpo,
Espiritismo

mas com tal grau morais necessá- em seu corpo. A mas em forma es-
de evolução moral rios à evolução ressurreição é uma piritual, restabele-
que é visto como espiritual. materialização de cendo a ordem.
modelo e guia para a seu espírito – o
humanidade. chamado corpo
espiritual.

Perfil do Cristianismo
Fundador: Jesus Cristo.
Data de nascimento: ano 1 da era cristã. Há estudos que apon-
tam o ano 6 a.C. como a data de nascimento (esse ano corres-
ponderia ao ano romano de 754).
Local de nascimento: Palestina.
Textos sagrados e reverenciados: Bíblia, formada, conforme o
entendimento da Sociedade Bíblica do Brasil, pelo Antigo Tes-
tamento (39 livros escritos por diversos autores) e pelo Novo
Testamento (27 livros, também escritos por diversos autores).
Cristianismo

Estatística: o conjunto dos cristãos, hoje espalhados por todo


o mundo, é estimado em torno de 2 bilhões e 100 milhões de
adeptos (dados de 2001).

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Imagem 35: Stock XCHNG


A MENSAGEM CRISTÃ
NAS PARÁBOLAS DE JESUS
Como os cristãos colocam em prática a sua fé e onde está o fundamento
dessa fé? A idéia não é catequizar, mas mostrar idéias contextualizadas a partir
das parábolas de Jesus.

Por Prof. Ronaldo Steffen

A Bíblia, o livro sagrado cebeu a promessa de vir a formar-se uma grande


nação, de onde viria o Messias, o Redentor de

do cristianismo todos os homens. Também lembra a libertação


da escravidão do Egito por meio do sangue do
cordeiro. Quanto ao NT, é lembrado o cumpri-

A
palavra Bíblia significa “conjunto de li- mento da promessa, a saber, que o Messias veio
vros”. É isso o que ela, na verdade, é, na pessoa de Jesus, que Ele salva os homens da
sendo que se divide em dois grandes morte eterna com o derramar do Seu sangue, o
blocos, o Antigo e o Novo Testamentos (AT e sangue da nova aliança, e envia Seus mensagei-
NT). A palavra testamento lembra aliança ou ros ao mundo para pregar Seu evangelho. Para
acordo, estabelecido entre Deus e os seres huma- facilitar a leitura, a Bíblia foi dividida em capítu-
nos. No caso do AT, refere-se a Abraão, que re- los e versículos.

Antigo Testamento Novo Testamento


• Formado por 39 livros, escrito em hebraico e ara- • Formado por 27 livros, escrito em grego pelos
maico pelos profetas aproximadamente entre evangelistas e apóstolos entre 50 d.C. e 100 d.C.
1260 a.C. e 400 a.C.;
• Livros da Lei (Pentateuco);
Em relação ao conteúdo do NT, destacamos:
• Quatro Evangelhos que narram vida, ensinamen-
• Históricos – Josué até Éster;
A Mensagem Cristã nas Parábolas de Jesus

tos, milagres, sofrimento, morte, ressurreição e


• Poéticos – Jó até Cantares de Salomão; ascensão de Jesus;
• Profetas Maiores – Isaías até Daniel; • Atos dos Apóstolos: iniciando pela ascensão, nar-
ra o Pentecostes, a formação da Igreja Cristã, seu
• Profetas Menores – Oséias até Malaquias.
desenvolvimento, suas atividades e perseguições
que sofreu;
Em relação ao conteúdo do AT, destacamos:
• Cartas: Paulo (13), Pedro, Judas, Tiago; Hebreus
• criação do mundo em seis dias; (não se sabe o autor); João;
• queda em pecado pelos primeiros homens; • Profecia: Livro do Apocalipse – Revelação.
• promessa do Messias, o Redentor;
• formação e história do povo de Israel;
• profecias sobre Jesus (Gn. 3.15; Gn. 12.2; Is. 7.14;
Mq. 5.2; Is. 53.4-11; S.l 16.10).

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Lei Evangelho
• Ensina o que nós devemos fazer ou deixar de fazer. • O que Deus fez e ainda faz pela nossa salvação.
• Manifesta o nosso pecado e a ira de Deus. • Manifesta o nosso Salvador e a graça de Deus.
• Exige, ameaça e condena eternamente quem não • Promete, dá e sela o perdão, a vida e a salvação
cumpre os mandamentos. ao que crê em Jesus.
• Provoca a ira no homem e afasta-o de Deus. • Chama e atrai para Cristo, opera a fé.
• Deve ser pregada aos impenitentes. • Anuncia-se aos atemorizados.
• Serve como freio (impedindo que o mal tome conta • É a boa nova da graça, do amor de Deus em Cristo
do mundo), espelho (revelando os erros humanos) Jesus (João 3.16) e motiva o cristão à prática das
e norma (mostrando ao ser humano como agir). ações que agradam.

As parábolas que o pai adquirir). Ressaltemos: o pai não tinha


a obrigação de satisfazer a vontade do filho, mas
atende ao pedido.
A divindade de Jesus é percebida pelos cris-
tãos por meio de Suas mensagens, transmitidas O jovem sai de casa e gasta tudo o que re-
oralmente e, posteriormente, consagradas nos cebeu de forma dissoluta, extravagante e imoral.
quatro Evangelhos. Entre as mensagens de Je- Quando o dinheiro acaba, o jovem se dá conta
sus, o Cristo, sempre se dá um especial destaque de que está em meio a uma grande crise: a re-
às parábolas. Foram usadas por Ele para dar um gião está assolada pela fome. Procura empregos
sentido às perguntas dos discípulos e dos demais e o que lhe sobra é tornar-se cuidador de porcos.
seguidores, utilizando-se de uma contextualiza- Aceita o emprego por imaginar que ali pudesse
ção capaz de ser compreendida pelos Seus inter- alimentar-se das vagens gigantes que eram dadas
locutores. aos porcos. Ninguém, no entanto, lhe dá coisa
alguma.
A título de exemplificação, apresentaremos
três parábolas que resumem alguns ensinamentos Caindo em si, lembra-se da casa de seu pai,
de Jesus, em idéias desenvolvidas pelo professor onde a vida dos escravos era bem melhor que a
Egon Seibert. sua. Toma uma decisão: voltar, pedir desculpas e
suplicar que o pai o aceite de volta como um de
seus escravos.
O filho pródigo
Imagem 36: ABC Gallery

Sobre o amor devido àquele


A Mensagem Cristã nas Parábolas de Jesus

que retorna arrependido –


Lucas 15.11-32

Esta parábola nos apresenta três persona-


gens: o filho mais moço, o pai e o irmão mais
velho.

O filho mais moço

Pede ao pai sua parte na herança que lhe se-


ria devida (conforme os costumes da época, ele
tem direito a um terço dos bens paternos, porém, Bartolomé Esteban Murillo. O Filho Pródigo Comendo com
os Porcos. 1660s. Galeria Nacional da Irlanda – Dublin
após o recebimento, abdica do direito dos bens

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O pai sido as suas ações do ponto de vista humano, se-


rão por Ele recebidos.
Chama a atenção um registro na parábola: o Ele, porém, aponta para as atitudes, por ve-
pai estava aguardando a volta de seu filho. Tanto zes hipócritas, de quem se julga de sua família e
é que, ao vê-lo vindo pela estrada, não apenas o que se dá o direito de discriminar quem errou e
reconhece, mas vai ao seu encontro. Expressa sua que, arrependido, deseja voltar a esse convívio.
compaixão abraçando-o e beijando-o. Diante da Ao invés de lamentar e até estranhar que o ar-
expressão de tanta bondade paterna, o filho reco- rependido é aceito por Deus em sua família, os
nhece sua situação – sem nenhum direito a exigir cristãos devem alegrar-se, pois o que Ele mais
–, mas faz apenas uma súplica: “Aceita-me como deseja é que todos se arrependam dos seus peca-
um de seus escravos.” dos e vivam.
A surpresa: o pai reintegra o filho à família

Imagem 37: Art Gallery


e expressa essa aceitação providenciando as me-
lhores roupas, colocando um anel em seu dedo,
dando-lhe sandálias para seus pés, promoven-
do uma recepção com festa, comida e dança. A
razão? O próprio pai explica: “Este meu filho
estava morto e reviveu, estava perdido e foi
achado.”

O irmão mais velho

Estava no campo trabalhando. Ao retornar


para casa, ouve o som da música e gritos de ale-
O Retorno do Filho Pródigo – Rembrandt.
gria. Intrigado, pergunta o que estava acontecen-
do. Ao tomar ciência de que se tratava de uma
festa para o irmão que retornara, recusa-se, indig- Sobre o perdão ao próximo -
nado, a participar da festa. Não bastasse isso, ain-
da repreende seu pai e aponta uma razão lógica: Mateus 18.21-35
“Estou há tanto tempo contigo e nem um cabrito
preparas para festejar comigo. Mas este teu filho, Esta parábola é conhecida como O credor
que foi embora e gastou tudo, volta e é recebi- incompassivo.
do com festas? Até um novilho cevado é abatido Jesus é colocado diante de uma questão in-
para festejar?” O pai justifica sua atitude: “Tudo trigante: quantas vezes alguém deve perdoar ao
isso aqui é teu. Nada perdeste; a herança continua seu próximo? Alguns argumentaram que até 7
A Mensagem Cristã nas Parábolas de Jesus

sendo tua. Mas era preciso que nos alegrássemos, vezes e espantaram-se com a dimensão dada por
pois este teu irmão estava morto e reviveu, estava Jesus: 70 vezes 7, ou seja, sempre. É nesse con-
perdido e foi achado.” texto que Jesus conta a parábola para ensinar a
Sua vontade a respeito do perdão.
Deus aguarda sempre e de Um rei ajusta suas contas com seus servos.
braços abertos o retorno de Um lhe deve 10 mil talentos (cerca de 1 bilhão
Seus filhos dispersos. e 800 milhões). Como o devedor não tem como
lhe pagar, o rei ordena que todos os seus bens
sejam vendidos, bem como sua família e ele
O ensino desta parábola: mesmo. Desesperado, lança-se aos pés do rei e
suplica-lhe clemência. Não é que o rei o atende?!
Jesus narra de forma clara que Deus é o pai Tocado por tamanha generosidade, sai aliviado
que recebe o pecador que o busca em arrependi- da presença do rei. No caminho de sua casa, en-
mento. Os que retornam, por piores que tenham contra um conservo seu, uma espécie de presta-

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dor de serviço, que lhe devia 100 denários (cerca Sobre o amor ao próximo -
de 100 dólares) e, intransigentemente, insiste no
recebimento da dívida. Como não a recebe, vai Lucas 10.25-37
às últimas conseqüências e conduz seu conservo
à prisão. Esta parábola é mais conhecida como O
bom samaritano.
Amigos desse pobre infeliz se dirigem ao rei
e delatam a situação. Irado, o rei chama o servo Um intérprete da Lei perguntou certo dia a
devedor a sua presença, manda prendê-lo e entre- Jesus o que deveria fazer para herdar a vida eter-
ga sua vida às mãos dos carrascos. na. Jesus lhe disse: “O que está escrito na Lei?”
Ele respondeu: “Ama a Deus de todo o coração,

Imagem 38: Bible Picture Gallery


alma e entendimento e ama ao próximo como a
ti mesmo.” Jesus, por sua vez, falou: “Faze isto e
viverás.” Como que se desculpando, o intérpre-
te da Lei perguntou: “Quem é o meu próximo?”
Foi aí que Jesus lhe contou a parábola do bom
samaritano.
Um homem foi assaltado e deixado semi-
morto na estrada que ligava Jerusalém a Jeri-
có. Por ele passam um sacerdote e um levita.
Nenhum dos dois o assiste. Passa também pelo
assaltado um samaritano, grupo inimigo dos
israelitas, etnia do assaltado. Este, contrário ao
senso do contexto, cuida do ferido e ainda o con-
duz a uma pousada, paga as despesas iniciais e
Harold Copping: O Credor Incompassivo compromete-se com despesas posteriores do tra-
tamento, se houver.
O ensino desta parábola: A pergunta de Jesus é retórica: “Quem foi o
próximo do homem assaltado?” O intérprete da
A nossa vida sobrecarregada de dívidas (er- Lei, contrariado, precisa reconhecer que fora o
ros, pecados) não pode ser paga diante de Deus. que usara de misericórdia em favor do assaltado.
Muitos ainda tentam efetuar o pagamento. Im- Diante disso, Jesus finaliza: “Vai e procede tu de
possível! O valor é alto demais. A bondade, a ge- igual modo.”
nerosidade e o amor de Deus, no entanto, vêm ao
encontro de nossas necessidades e perdoa nossas
O ensino desta parábola:
dívidas. Estamos livres!
A Mensagem Cristã nas Parábolas de Jesus

Assim, contudo, como somos perdoados, O amor ao próximo foi sempre uma das ca-
Deus espera que também perdoemos a todos que racterísticas dos primeiros cristãos. Havia entre
têm dívidas a nos pagar, sejam elas de quaisquer eles, especialmente em Jerusalém, muitos po-
naturezas. É fácil? Com certeza, não! Mas, assim bres. A comunidade cristã, por meio de ofertas
como somos perdoados, espera-se que perdoe- voluntárias, sustentava seus pobres, especial-
mos aos que nos ofendem. mente os órfãos e as viúvas.
A certa altura surge um problema. As viúvas
Assim como alguém é per- de origem grega sentem-se prejudicadas na medi-
doado em suas muitas faltas, da em que começam a receber auxílio menor que
também pode perdoar as o oferecido às de origem judaica. Reclamam. Pe-
faltas daqueles que lhe são dro, líder da comunidade cristã, convoca as lide-
próximos. ranças e ordena que sejam eleitos sete diáconos,
homens fiéis para que cuidem da distribuição do

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alimento entre os necessitados, enquanto ele e os saltos, estupros, homicídios), guerra, catástrofes
demais apóstolos iriam dedicar-se ao ofício da naturais, fome, vícios, insensibilidade, solidão e
oração e da pregação do evangelho. morte.
Hoje denominamos esse serviço de diaconia.
É o serviço amoroso que o cristão presta ao seu A idéia de próximo é ampla:
próximo em resposta ao amor de Deus. Ela lida
amar não só os amigos, mas
com as conseqüências e as causas do pecado: do-
enças, sofrimentos, pobreza, miséria, ganância, também os inimigos.
preguiça, exploração, luto, solidão, violência (as-

Sugestões de como é possível demonstrar amor


ao próximo:
• visitar doentes em seus lares e hospitais (câncer, Aids, lepra);
• visitar idosos (nossos avós ou pais) para conversar, passear (asilos, casas-lares, cre-
ches, orfanatos);
• visitar os que sofrem (enlutados, órfãos);
• visitar os presos;
• auxiliar os pobres (alimentos, roupas, remédio, estudo, emprego);
• encaminhar dependentes de drogas ou de álcool às instituições especializadas;
• olhar pelos portadores de deficiências físicas (hospitais), mentais (Apae), visuais
(doação de córneas), auditivas etc.;
• lutar contra a poluição, preservando a natureza (lixo, inseticida, biodegradáveis),
rios, ar, florestas, solo;
• lutar pela justiça social e contra qualquer tipo de discriminação (igualdade no trato
com a lei);
A Mensagem Cristã nas Parábolas de Jesus

• lutar pelo direito à vida (contra o aborto);


• apoiar o pacifismo (não à violência, à guerra);
• lutar contra a corrupção – não sendo corruptor nem corrupto;
• ajudar e orientar migrantes e desempregados;
• organizar palestras sobre higiene, saúde, drogas em associações de bairros;
• participar da vida política do País.

Um desafio incentivador: em razão do amor motivante, mobilize seu grupo de estudo, olhe ao
seu redor e descubra formas e meios de poder exercitar o amor ao próximo.

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Imagem 39: ELCA


LUTERO E A REFORMA
Em 31 de outubro de 1517, Lutero torna público as 95 Teses contra as Indul-
gências e inicia a Reforma Protestante.

Por Prof. Ronaldo Steffen

O meio familiar e a educação Da universidade para o


mosteiro
M
artinho Lutero nasceu em 10 de no-
vembro de 1483, em Eisleben, Alema-
nha. Sua família não era abastada, e A continuação dos estudos em Direito nem
a educação familiar era pautada por padrões de se deu. Foi interrompida em julho de 1505. Em
severidade, próprios da época. razão de um raio que quase o atingira, e apavora-
do com a proximidade com que esteve da morte,
Os primeiros anos escolares (1488-1497) fo-
promete abandonar tudo e tornar-se monge. Há
ram marcados pelo aprendizado do latim, do can-
outras duas versões para sua decisão. Uma con-
to e dos princípios básicos da fé cristã. O método
ta que, pouco antes de quase ser fulminado pelo
empregado para o ensino era caracterizado pela
raio, um amigo teria sido acometido de um mal
memorização e, não raro, por castigos físicos.
súbito e morrera, deixando Lutero profundamen-
À fase escolar seguinte, até 1501, conheci- te assustado com a possibilidade da morte. Outra
da como escola do trívio (estudo da gramática, versão, ainda, relata que Lutero teria sido ferido
da retórica e da dialética), seguiu-se o quadrívio nos meses precedentes por um golpe de espada.
(estudo da geometria, da aritmética, da música e
O que transparece, em qualquer dos três
da astronomia). Assim, Lutero estava pronto para
relatos, é a forte presença de um sentimento de
ingressar na faculdade de Direito.
medo pelo castigo associado à culpa. Essa per-
Lutero e a Reforma

cepção, aliás, não era exclusividade de Lutero. O


Compare as ênfases dadas à edu- forte sentimento de pecaminosidade era a tônica
cação da época com as de hoje. de todo um movimento de reavivamento religio-
Compartilhe suas conclusões. so na Alemanha da época. É assim que ainda em
julho de 1505 ingressa no convento dos agosti-
nianos.

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Os estudos em teologia e

Imagem 40: ELCA


a paz interior
Em sua busca de paz, resolve estudar teolo-
gia (1507-1512). Muda-se para Wittenberg e ob-
tém o título de doutor. Passa a lecionar na facul-
dade de Teologia sem, contudo, abandonar sua
busca por um Deus que lhe desse a paz desejada.
Na universidade foi auxiliado por um de seus
professores, o qual lhe pondera que a verdadeira
penitência começa com o amor a Deus e não com
o temor pela punição. O estudo de Agostinho o
fascina, em especial o significado da vida e da
morte de Cristo para a salvação. Ao proferir suas
conferências sobre os Salmos (1513-1515), Lute-
ro se convence de que a salvação é uma nova re-
lação com Deus, fundamentada na absoluta con-
fiança nas promessas divinas. Em final de 1516,
ao preparar sua preleção sobre Romanos, detém-
se na palavra de que “o justo viverá por fé”. Era a
Tormentos e penitências marcaram sua passagem
pelo mosteiro
chave que lhe faltava. A salvação é dádiva divina,
é amor. A justiça, que poderia significar o direito
e o merecimento de quem age de modo correto, e
Reflita: Qual seu parecer por isso está apto a ser chamado de justo, é perce-
bida por Lutero isenta de direito e merecimento,
sobre movimentos religiosos ainda que tenha agido de modo correto. O ser hu-
que oprimem as consciên- mano não merece a identificação como justo. Ela
cias com o pavor da conde- lhe é atribuída em razão das promessas divinas
nação eterna? e só pode ser recebida por fé, pelo simples fato
de já terem sido dadas. Era o achado da salvação
pela fé, independente das obras.
Sacerdote e monge
Na universidade, após estu-
Seguindo a tradição dos monges agostinia- dos em Salmos e Romanos,
nos, Lutero tornou-se um sacerdote e em 1507 Lutero “descobre” que a
reza sua primeira missa. Durante uma das ora-
ções, é tomado por enorme angústia, provocada,
vida eterna é dada pela
ao que parece, pelo temor de aproximar-se de fé.Salvação é amor divino e
Deus. A forte certeza de ser pecador, aliada à an- não merecimento humano.
gustiante sensação de culpa, faz Lutero perceber-
se diante de um Deus severo, esboçado essencial-
mente como juiz. As 95 Teses e o conflito
Lutero e a Reforma

A entrada na vida monástica não foi o su-


ficiente para acalmar Lutero nem lhe trazer a
com a Igreja
desejada paz interior. As penitências constantes
Lutero não era contra a idéia das indulgên-
e precedidas de confissões diárias não foram o
cias, muito embora suas 95 Teses (1517) tenham
suficiente para lhe afastar a imagem de um Deus
tido como alvo exatamente as indulgências. Teo-
que pune.

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ricamente, estas constituíam um perdão relativo diocese vaga, Alberto recorre aos Fugger, uma
às penas impostas pela própria Igreja. família de banqueiros. Resolvido o pagamento ao
papa, Alberto tinha uma enorme dívida com os
Com os abusos, muitos passaram a entender
Fugger. A solução? Utilizar as somas recolhidas
que o perdão podia ser estendido à diminuição
com as indulgências, incrementando sua venda
das penas do purgatório.
quase à banalização, além de inflacionar os va-
A indulgência contra a qual Lutero se rebe- lores (1 florim para artesão e 25 para o clero e a
lava havia sido promulgada em 1506 e renovada nobreza; observemos que 1 florim era o neces-
em 1517. As somas recolhidas estavam destinadas sário para uma semana de subsistência de uma
a financiar a construção da basílica de São Pedro, pessoa). Apenas a metade dos recursos era repas-
em Roma. Soma-se a esse episódio especial a fi- sada a Roma. A outra metade ia diretamente para
gura de Alberto de Brandemburgo, decisivo no a instituição bancária dos Fugger.
desenlace dos fatos que se sucederam.
O documento de Lutero dado a público em
Alberto era nobre e já bispo alemão, quando 31 de outubro de 1517 não tinha como alvo as
ficou vago o arcebispado de Mainz (Mogúncia), negociatas de Alberto, das quais, segundo alguns
desejado por Alberto. A importância dessa dioce- historiadores, Lutero nem tinha conhecimento,
se estava no fato de ser uma das que tinham direi- mas, sim, as questões doutrinais e religiosas.
to a voto na eleição para imperador (três bispos e Propunha uma reforma nos costumes na Igreja e
quatro príncipes do Sacro Império Romano-Ger- um retorno às Sagradas Escrituras, em especial
mânico, após a morte do imperador, reuniam-se no que respeitava à salvação. A reação foi tão
para eleger o novo). Ao solicitá-la ao papa, este imediata que em pouco tempo já circulava por
estipulou uma alta soma. O problema agrava-se boa parte da Europa e, ainda que não imaginas-
porque Alberto já era supervisor de duas outras se tanto, já que Lutero pretendia uma discussão
dioceses, o que era proibido pelo direito canô- acadêmica, historicamente estava marcada a de-
nico. Sem recursos suficientes para “comprar” a flagração do conflito que marcaria toda a história
do mundo ocidental.
Imagem 41: Reformation Portal

O abuso das indulgências: ver-


bas para construção de basíli-
ca e compra de diocese.

A reação da Igreja
As afirmações de Lutero encontraram ter-
reno fértil para se ampliarem. Uns não apenas o
defendiam, mas também se admiravam de que
alguém desconhecido tivesse ousadia para en-
frentar a Igreja. Outros o condenavam e, ainda,
irritavam-se com sua pretensão de sugerir mu-
danças na Igreja.
Um dos primeiros a responder a Lutero foi
Lutero e a Reforma

Tetzel, o responsável nomeado por Alberto de


Brandemburgo para a venda das indulgências.
Logo a seguir outro oponente, João Eck, também
se manifesta por meio de um texto. Lutero repli-
ca com um sermão. Corria o início de 1518, e a
Divulgação das 95 Teses
situação estava assim colocada, e sem solução.

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É quando entra em cena mais uma vez Al- direitos civis e políticos. Para tratar o assunto, foi
berto de Brandemburgo, que se associa aos do- convocada a Dieta de Worms, na Alemanha, no
minicanos, ordem à qual Tetzel pertencia. Enca- mesmo ano. Sem acerto, Carlos V, recém-eleito
minham a Roma denúncias contra Lutero, e daí imperador, confirma a excomunhão em maio de
para frente os acontecimentos se precipitam. Inti- 1521. Lutero era agora um criminoso.
mado pelo papa Leão X a comparecer em Roma,
Lutero é protegido pelo príncipe-eleitor Frederi-
co, o Sábio, que consegue trazer a audiência para O exílio
a Alemanha, em Augsburgo.
Temerosos pela vida de Lutero, alguns de

Imagem 42: ELCA


seus amigos o “seqüestraram” e o conduziram ao
castelo de Wartburgo, sob a proteção de Frederi-
co. Nos dez meses de reclusão, produziu como
nunca: traduziu o Novo Testamento do grego para
o alemão e produziu diversas obras teológicas.
Considerado como desaparecido, a ausência
de Lutero desencadeou muita confusão. Radi-
cais e fanáticos mostravam muita imprudência
na condução das reformas. A volta se impunha
como necessária e foi a própria Câmara Munici-
Lutero na dieta de worms. Sem retratação, Lutero é pal de Wittenberg que fez a solicitação. O episó-
excomungado e perde seus direitos religiosos. Confir-
dio marcou a volta de Lutero em março de 1522.
mada a excomunhão pelo império, perde os direitos
civis e é, agora, um criminoso. Embora a interdição contra Lutero nunca te-
nha sido suspensa, ela também não se cumpriu.
Instado a retratar-se, Lutero apela a instân- A razão maior encontra-se na ausência de um
cias superiores. Outros encontros se sucedem, e poder central forte, o que permitiu a Lutero con-
as discussões tornam claro que as posições são duzir as reformas religiosas por ele pretendidas.
cada vez mais contraditórias. Por fim, é solicita-

Imagem 43: ELCA


da a Roma uma bula condenatória contra Lutero,
publicada em junho de 1520, concedendo-lhe 60
dias para a retratação.
Nesse mesmo ano, e em meio às discussões
que continuavam, Lutero produziu o escrito À
nobreza cristã da nação alemã, sugerindo que o
poder temporal deve assumir suas responsabi-
lidades sociais e políticas. Ainda nesse mesmo
ano, publicaria mais duas obras que provocariam
um aprofundamento nas diferenças: Cativeiro ba-
bilônico da Igreja, em que ataca ensinamentos da
Igreja, e Sobre a liberdade cristã, enfatizando que
o cristão é o mais livre de todos, não estando su-
jeito a ninguém, e é o mais devoto servo de todos,
estando a todos sujeito.
Lutero e a Reforma

Sem Lutero o movimento torna-se caótico e incontrolável.


Sem a retratação, em janeiro de 1521, é pu-
blicada a decretação da excomunhão de Lutero.
Estava posto fora da Igreja Católica Apostólica
Romana, perdendo todos os seus direitos religio- Sem Lutero o movimento tor-
sos, inclusive os sacerdotais. O império preci- na-se caótico e incontrolável.
sava confirmar a excomunhão, cassando-lhe os

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O andamento das Humanismo, espiritualismo e


reformas radicalismo social impunham
reformas em outros rumos.
Até 1524 as reformas prosseguiram sem
maiores desassossegos. É a partir dessa data que
principiam as divisões. Os humanistas, liderados
por Erasmo, separam-se de Lutero. Radicais es-
A Dieta de Augsburgo
piritualistas pregavam a necessidade da experi-
ência religiosa. Outros radicais, os sociais, dese-
(1530)
javam reformas mais rápidas e desencadearam a
Convocada originalmente por Carlos V para
Guerra dos Camponeses, considerada por Lutero
como rebelião contra Deus, fortalecendo o poder estabelecer os parâmetros de defesa do império
temporal dos príncipes e, por conseqüência, per- contra a invasão dos turcos otomanos, liderados
dendo prestígio popular. por Solimão, os príncipes “protestantes” aprovei-
taram-se para entregar uma declaração de fé em
A reação aos avanços das reformas e de pos-
defesa de Lutero e seus seguidores, conhecida
teriores divisões fez com que os opositores de
Lutero mais uma vez, em 1524, se organizassem como Confissão de Augsburgo.
na tentativa de cumprirem o interdito imperial. Em vista da necessidade de ter a seu lado
Em meio a tudo, Lutero, aos 42 anos, surpre- todas as forças militares disponíveis, inclusive as
ende ao casar-se, em junho de 1525, com Catari- dos príncipes protestantes, Carlos V firmou a Paz
na, uma ex-freira com 26 anos. de Nüremberg, assegurando a liberdade religiosa
aos príncipes e às suas cidades que haviam as-
Até 1526, todas as tentativas de aplicação
da interdição de Lutero fracassaram. Nesse ano, sinado o documento, mas impedindo que outros
uma abertura maior nas discussões introduziu príncipes adotassem a Reforma em seus territó-
um adendo ao texto original da Dieta de Worms rios. Era 25 de junho de 1530.
que dava aos príncipes a responsabilidade pela Somente em 1555 a controvérsia sobre a
escolha da religião a ser seguida em sua área ad- liberdade religiosa chega ao fim por meio da
ministrativa. Em 1529, novo encontro restringe
conhecida Paz de Augsburgo, ainda sob Carlos
essa resolução e quer fazer a situação voltar ao
V, concedendo direitos iguais tanto a católicos
que antes era. Os príncipes luteranos reagiram
quanto a protestantes, mas enfatizando que a res-
por meio de um documento, no qual começa-
vam as suas afirmações sempre com a palavra ponsabilidade da escolha religiosa era prerroga-
protestamos, dando origem à identificação como tiva dos príncipes. Ao súdito que não concordas-
protestantes a todos os que se opunham à Igreja se com seu príncipe restava apenas a emigração
Católica Apostólica Romana. para outro principado.
Imagem 45: Wikipedia
Imagem 44: ELCA

Lutero e a Reforma

Lutero (42 anos) e Catarina (26 anos): cena do casamento Dieta de Augsburgo (1530)

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seguidores foram identificados como reformados


A “Paz de Augsburgo” (1555) daí por diante.
concede direitos iguais a cató- A Igreja Anglicana teve seu início em 1530,
licos e protestantes. com Henrique VIII, denominado pelo papa
Leão X de Defensor da Fé por ter se posiciona-
do contra Lutero em 1521. Casado com Catarina
A morte de Lutero de Aragão, viúva de seu irmão, teve seis filhos,
sobrevivendo apenas uma filha, Maria. Uma vez
Aos 62 anos, em fevereiro de 1546, Lutero que o casamento tivera sido apenas nominal e
falece em Eisleben, onde nascera. impossibilitado de ter outros filhos com Catari-
na, Henrique VIII aliou a esses dois fatores seu
desejo de ter um filho homem para ser seu her-
Reflita: No Oriente, o plura- deiro e alegou à Igreja de tradição católica roma-
lismo religioso, embora regio-
nalizado, já era prática cor- na escrúpulos religiosos sobre a validade de seu
rente; no Ocidente, a Reforma casamento para solicitar sua anulação.
propiciou a mesma prática.
Enamorara-se de Ana Bolena, uma dama de
Posicione-se: A liberda- sua corte. Com a demora da decisão de seu di-
de de culto contribui ou não
para o exercício pleno da hu- vórcio, insurge-se contra Roma, contando com o
manidade do ser humano? apoio popular contra as autoridades estrangeiras.
O Parlamento inglês aprova um Ato de Supre-
macia, declarando o rei como chefe da Igreja na
Inglaterra.
Igrejas cristãs de Seu sucessor, Eduardo VI, conduz a Igreja

tradição reformada mais para o lado calvinista, e sua sucessora, Isa-


bel I, procurou integrar na Igreja todos os seus
súditos (católicos, luteranos e calvinistas), dan-
As principais denominações protestantes do origem à Igreja Anglicana, uma igreja para
que surgiram da Reforma foram a Igreja de tra- os anglos.
dição luterana e a Igreja de tradição reformada.
Já mencionamos os alicerces que deram origem Nos Estados Unidos, após a independência
à tradição cristã luterana. Aqui queremos men- em 1776, os seguidores da Igreja Anglicana pas-
cionar os principais grupos de tradição cristã re- sam a ser identificados como seguidores da Igre-
formada. ja Episcopal Protestante.
No Brasil, os primeiros cultos anglicanos
Angelicana datam de 1810, no Rio de Janeiro.

Presbiteriana
Imagem 46: Ressurreicao POA

Paralelamente ao movimen-
to da Reforma na Alema-
nha, ocorria fato semelhante
Imagem 47: Igrj. Presb. da Gávea

O ano de 1560 marca


na Suíça (1522), com Ulrico a introdução do calvi-
Zwinglio. Em 1529, Lutero nismo na Escócia, por
e Zwinglio tentaram a apro- meio de John Knox,
ximação de seus movimen-
Lutero e a Reforma

discípulo de Calvino.
tos, impedida pela discordância com relação à Nessa data, o Parla-
Eucaristia (Santa Ceia). mento escocês aboliu a
Após a morte de Zwinglio, seu sucessor, jurisdição papal e proibiu a celebração da missa
João Calvino (1509-1564), liderou o movimento na Escócia. É preciso enfatizar, no entanto, que
e emprestou-lhe o nome até 1561, quando os seus os fatos não se sucederam de forma pacífica.

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Houve oposição.
Outras tradições
As situações se complicam com a implanta-
ção, na Grã-Bretanha, por Isabel I de uma igreja religiosas
única para os anglos. Outros dissidentes – os que
se opunham à intervenção do Estado nas questões A Paz de Augsburgo (1555) foi um avanço
religiosas – surgiram. Estes defendiam, confor- na época, porém ainda manteve nas mãos dos
me Calvino, que o governo da Igreja deveria ser príncipes o direito de escolha da religião a ser
exercido pelo presbitério (o conjunto dos mais seguida por seus súditos. Somente em 1648, com
velhos/experientes). Os ingleses mais próximos a Paz de Westphalia, documento que poria fim
do calvinismo recebem então a identificação de à Guerra dos Trinta Anos, é que se chegou à li-
presbiterianos. Porém, foi apenas em 1876 que berdade religiosa individual. Caberia a cada in-
se organizaram como instituição, a Igreja Pres- divíduo escolher livremente sua fé religiosa. A
biteriana da Inglaterra, livre e não estatal, muito data marca, ainda, o fim do período histórico da
embora seja atribuída a data de 1572 como ano Reforma na Europa.
de fundação do movimento.
A partir dessa liberdade surgem, em diversos
O primeiro missionário com assento presbi- lugares, e com diferentes interpretações bíblicas,
teriano chega ao Brasil em 1859. bem como costumes e práticas, líderes religiosos,
pastores e profetas, dando origem a novas tradi-
Batista ções religiosas cristãs.

Há duas teorias Metodista


Imagem 48: Conv. Batista Brasileira

que explicam o sur-


gimento dos batistas. O movimento

Imagem 49: Instituto Metodista Bennett


Uma reporta-se ao ba- surgiu na Universi-
tismo de Jesus no rio dade de Oxford, na
Jordão. Outra identifi- Inglaterra, por volta
ca nos anabatistas, sé- de 1739. Não tinha
culo XVI, sua origem. a pretensão de criar
Os anabatistas rejeita- uma nova tradição
vam a validade do batismo de crianças e exigiam religiosa, mas tão-
um novo batismo. Daí o termo anabatistas, “os somente reavivar a
que batizam de novo”. espiritualidade, marcada pela frieza e lassidão
Com forte entonação calvinista, o movimen- dos costumes da época, vigentes na Igreja An-
glicana.
to batista é uma dissidência da Igreja Anglica-
na. As primeiras comunidades religiosas estru- Um grupo de estudantes, liderados pelos ir-
turadas tiveram lugar na Inglaterra, em 1611, e mãos John e Charles Wesley, passou a reunir-se
logo depois na Holanda. Defendem a separação para, em conjunto, orar e estudar a Bíblia. O gru-
entre Igreja e Estado e um governo eclesiástico po foi denominado de Clube Santo e visto pelos
descentralizado, razão pela qual as congregações de fora do movimento como metodistas em razão
têm autonomia. Fazem parte, ainda, da tradição de sua aplicação metódica na prática devocional.
batista os seguintes princípios: batismo apenas A primeira sociedade metodista organizada
de adultos e por imersão; concepção de que ba- estabeleceu-se em Bristol, em 1739. Em 1818,
Lutero e a Reforma

tismo e santa ceia são apenas ordenanças; não- ocorre a ruptura com a Igreja Anglicana.
admissão do uso de imagens; forte atividade mis-
sionária e obra educacional. Adventista do Sétimo dia
No Brasil, o trabalho permanente dos batis-
tas teve seu início em Salvador, Bahia, em 1882. O pastor batista americano Guilherme Miller

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Imagem 50: Portal Adventistas (1782-1849) é quem cendo-se a purificação da terra); não-crença no
dá início a essa tra- inferno.
dição. Tudo teria
começado em 1818,
quando Guilherme,
Mórmons
ao estudar a Bíblia,
Em 1830, nos Estados Unidos, Joseph Smith
acreditou ter desco-
inicia o movimento conhecido como Igreja dos
berto o dia da volta
Mórmons, embora o nome oficial seja Igreja de
de Jesus Cristo (advento). A data estava próxima:
Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.
22 de outubro de 1844.
Segundo os relatos de Joseph Smith, ele foi
A notícia espalhou-se rapidamente. O movi-
atendido em sua busca pela verdadeira Igreja de
mento teve o seu número de adeptos aumentado,
Cristo em 1820, por meio de uma revelação que
os quais aguardavam ansiosos o dia em que en-
lhe recomendara não entrar em nenhuma das
trariam na glória celestial. A data chegou e nada
igrejas existentes. Em 1823, o anjo Moroni lhe
aconteceu.
apareceu e falou de certas placas douradas enter-
Em decorrência, ocorreu uma fragmentação radas no chão. Quatro anos após, Smith desenter-
do movimento em três grupos: um continuou a rou essas placas, encontrando ainda duas pedras
marcar novas datas; outro se tornou incrédulo e, especiais em recipientes de prata. Com a ajuda
ainda, um terceiro continuou a estudar a Bíblia, das pedras, após algum tempo, Smith conseguiu
concluindo que Miller estava certo quanto à data, decifrar as placas, que foram então levadas de
mas que havia errado na interpretação da profe- volta pelo anjo Moroni. A tradução das placas foi
cia, pois o santuário a ser purificado naquela data publicada em livro em 1830, com o título O Li-
seria o céu e não a terra. Cristo passaria do lugar vro de Mórmon.
santo para o local santíssimo no céu, onde estaria
Imagem 51: Wikipedia

intercedendo e julgando o caso de todos os seres


humanos. É desse último grupo que surgem per-
sonagens como Ellen G. White, a quem muitos
atribuem a origem do movimento, organizado em
1861, nos Estados Unidos, com a identificação de
Igreja Adventista do Sétimo Dia.
O assento da identificação em sétimo dia
deu-se em razão de o movimento enfatizar o dia
de sábado, o sétimo dia, como o dia de descanso
para os cultos e a adoração.
No Brasil, suas atividades iniciaram-se em
1916, e a central da Igreja está em Santo André
(São Paulo).
Além da guarda do sábado, os adventistas do
sétimo dia observam os seguintes princípios: ba-
tismo por imersão a partir dos 12 anos de idade;
realização do ritual da Ceia com suco de uva e
pão, precedido pelo lava-pés; dízimo como regra
Lutero e a Reforma

das ofertas; defesa do milênio (reinado de Cristo


no céu entre sua primeira e segunda vinda, fican-
do a terra sujeita apenas a Satanás e seus anjos;
por ocasião da segunda vinda de Cristo, junto
com seus santos, os ímpios mortos serão ressus-
O Templo de Salt Lake City (USA)
citados e destruídos junto com Satanás, estabele-

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O livro fala dos povos indígenas da Améri- para o Exército da Salvação nas horas vagas.
ca e afirma que, depois de ressuscitar, Cristo se Ocasionalmente os mais experientes são empre-
revelou a uma raça, mais tarde exterminada, que gados em tempo integral, recebendo a patente de
vivia na América. sargento ou oficial local. As mulheres têm plena
emancipação em todos os níveis, e um soldado
Após sofrer muitos contratempos e até per-
do grupo não precisa renunciar a sua própria co-
seguições, o movimento estabeleceu-se no atu-
munidade religiosa.
al estado de Utah. Ali construíram uma cidade
e fundaram uma comunidade estatal teocrática Além disso, o trabalho social é parte de sua
que se expandiu rapidamente. Manter um Estado atividade evangélica. O movimento conta com
mórmon puro ficou impossível, sendo que, quan- um grande número de instituições diversas para
do Utah se uniu à federação na condição de es- órfãos, alcoólatras e mães solteiras. Acrescente-
tado membro dos Estados Unidos, a comunidade mos que as reuniões religiosas são marcadas por
precisou abrir mão de alguns de seus costumes, muita música e canto.
entre eles a poligamia.
Dentre os seus pensamentos, podemos desta- Testemunhas de Jeová
car: os seus escritos sagrados englobam O Livro
de Mórmon, bem como outros textos com o mes- O grupo teve sua

Imagem 53: Wikipedia


mo valor; Deus tem um corpo exatamente como origem em 1872. Um
o humano; Jesus é o Salvador que voltará à terra americano de família
para estabelecer um reino de paz; o casamento presbiteriana, conver-
realizado no templo é eterno; o batismo pode ser tido ao movimento
indireto, isto é, um mórmon vivo pode ser rebati- adventista, chamado
zado em nome de um parente já falecido. Charles Taze Russel, desgostoso com as religiões
existentes, formou um pequeno grupo de amigos
a fim de estudar a Bíblia.

Exército da Salvação Em 1878, abandonou o movimento adventis-


ta e, em 1879, lançou o primeiro número da re-
vista Torre de Vigia (hoje, A Sentinela), na qual
Após a Revo-
Imagem 52: Site Exército da Salvação

afirmava que o fim do mundo seria no outono de


lução Industrial,
1914.
Londres ficou
muito abalada. A maioria dos adeptos do movimento cos-
Surgiram muitos tuma participar na difusão de sua fé de porta em
mendigos, vicia- porta, fazendo circular a Bíblia e suas revistas A
dos e prostitutas. Sentinela e Despertai.
Tomados de com-
Não possuem nenhum credo, baseando-
paixão por essas
se exclusivamente na Bíblia. Não acreditam na
pessoas, o casal
Trindade e afirmam que apenas Jeová é Deus. O
William e Catherine Booth, em 1865, fundou a
filho unigênito de Deus, sua primeira criação ce-
missão cristã com o intuito de ajudar as pessoas
lestial, tornou-se Jesus Cristo, e o Espírito Santo
em suas necessidades básicas e, com isso, evitar
é a força invisível de Deus. Assim, rejeitam a di-
que o mal tomasse conta das pessoas.
vindade de Jesus.
O Exército da Salvação se estrutura rigida-
Lutero e a Reforma

O ponto central das convicções do movi-


mente dentro da orientação militar, com oficiais
mento consiste na idéia de que a única esperança
e soldados. A obediência aos superiores é uma
do ser humano é o reino de Deus, um governo
regra essencial. Os oficiais têm emprego perma-
celestial que compreende Cristo e 144 mil indi-
nente e podem se casar, com a condição de que a
víduos escolhidos, os quais serão elevados a uma
esposa também seja oficial. Os soldados são pes-
nova vida no céu. Todos os outros crentes terão
soas que possuem outros empregos e trabalham
uma existência eterna na terra como súditos do

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reino celestial. gelho Quadrangular. O

Imagem 55: Site da QB


nome do movimento
Adotam um comportamento que promove a
deve-se ao modo como
honestidade, a higiene, a temperança e a solida-
Jesus Cristo é apresenta-
riedade. Não se envolvem em questões políticas
do pelos quatro evange-
e sociais e reservam a si o direito de não partici-
listas: em Mateus, como Rei; em Lucas, como
parem do serviço militar.
Médico; em Marcos, como Salvador e, em João,
como Batizador. Além disso, cada função de Je-
Assembléia de Deus sus descrita nos Evangelhos é simbolizada por
meio de cores: respectivamente, vermelho, ama-

Imagem 54: CGIADB


Os movimentos re- relo, roxo e azul.
ligiosos de reaviva-
O movimento está ligado ao tronco pente-
mento espiritual que
costal e, por isso, é enfatizado o dom de línguas,
marcaram o final do
curas e milagres, e especial valor é dado à con-
século XIX deram ori-
versão pessoal e individual.
gem à Assembléia de
Deus. Corria o ano de 1892 nos Estados Unidos, No Brasil, o Evangelho Quadrangular surgiu
quando dois pregadores pertencentes à Igreja por volta de 1940, com um missionário metodista
Batista deram início ao movimento. Por volta de e só foi oficializado em 1951, na cidade de São
1914 já havia um considerável grupo que, reuni- Paulo. Cabe destacar que, a partir desse movi-
do, deu início à Igreja da Fé Apostólica, nome mento, ocorreram separações que deram origem
alterado em 1918 para Assembléia de Deus. a dois grandes movimentos pentecostais brasi-
leiros: em 1955, fundada pelo pastor Manoel de
As idéias e o comportamento do movimento
Melo, a Igreja Pentecostal do Brasil para Cristo
são pautados pelo relato do dia de Pentecostes
e, em 1962, fundada pelo pastor Davi Miranda, a
no Novo Testamento. Nessa data, Deus Espírito
Igreja Evangélica Pentecostal Deus é Amor.
Santo desceu sobre os apóstolos, permitindo-lhes
falar em outras línguas, curar enfermos e realizar
milagres. Foi o primeiro impulso de conversão Igreja Universal do Reino de Deus
que ocorreu na Igreja cristã primitiva, expandin-
do-se daí para frente. Com fundamentos na As-
sembléia de Deus, e por

Imagem 56: IURD


Fundamentados em especial nessa passa-
isso pentecostal, em 1977,
gem, os devotos pregam o dom de línguas, curas
o bispo Edir Macedo, no
e milagres. Para que isso ocorra, é preciso que o
Rio de Janeiro, funda sua
homem esteja cheio do Espírito Santo, por ve-
primeira sede com o fim de
zes identificado como batismo do Espírito Santo.
acabar com dogmas e regras impostas pela Igreja
Defendem, ainda, a Santíssima Trindade, o batis-
que, segundo ele, só afastam as pessoas de Deus.
mo por imersão e o dízimo como única regra de
oferta; os pastores, além de estudarem teologia, Os fiéis defendem que todo o mal que ocorre
devem ser chamados por Deus e pelo batismo nas na vida do ser humano é fruto da obra de espíri-
águas. tos malignos e demônios que precisam ser afas-
tados por meio de sessões de exorcismo (“descar-
No Brasil, a Assembléia de Deus começou a
rego”). O bem-estar na vida terrena, inclusive o
atuar em 1910, em Belém do Pará, quando ainda
econômico-financeiro, é sinal visível da presença
estava ligada à Igreja Batista.
Lutero e a Reforma

divina na vida da pessoa e de sua família. Seus lí-


deres devem ter como pré-requisito a visibilidade
Evangelho Quadrangular do Espírito Santo e vivem, exclusivamente, das
ofertas de seus fiéis, desafiados a contribuírem
A viúva de Aimée Semple McPherson, em 1922, com o dízimo e ofertas especiais como forma de
nos Estados Unidos, funda o movimento do Evan- demonstrarem sua dependência de Deus.

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Cultura Religiosa
Imagem antiga do Seminário Concór-
dia (IELB): igreja e escola juntos

Imagem 57: IELB


IGREJA LUTERANA
E EDUCAÇÃO
Discorrer sobre o vínculo existente entre a Igreja Luterana e a educação re-
quer, inicialmente, uma volta ao passado – buscar as raízes, compreender o pre-
sente e vislumbrar a caminhada futura.

Por Prof. Ronaldo Steffen

O passado da que as discussões ocorriam. Inevitável, veio à


tona o debate sobre o poder do papa e dos bispos

E
sobre o sacramento da penitência. Acirraram-se
m 1517, acontecimento já visto em tópi-
as divergências.
co anterior, os fatos não se sucederam ao
acaso, e isso por duas razões. Uma, e fun- Para Lutero, a situação teológica definiu-se
damental, é a compreensão de que no universo, com a compreensão de que o justo é salvo pela fé
como na vida, as coisas não acontecem ao acaso. nas promessas e nas realizações divinas já garan-
Deus, o criador e o mantenedor, é quem conduz tidas. A justiça é ato divino e sem nenhum me-
a bom fim todas as coisas. Outra, decorrente des- recimento por parte do ser humano. Se assim é,
ta, é que os acontecimentos que cercaram aquela como ficam as boas obras?
Igreja Luterana e Educação

data prepararam o evento atualmente denomina-


do Reforma. Boas obras não obtêm a sal-
Lutero, hoje o reformador, com a publicação vação. Elas são agradecimen-
de suas 95 Teses, desejava à época sustentar que to pela salvação já dada na
a libertação das almas do purgatório dava-se por promessa divina.
obra e graça divina, em Cristo Jesus, e que ne-
nhum valor em dinheiro era capaz de fazer isso. Num escrito de 1520, Sobre as boas obras,
Os fatos foram sendo desencadeados à medi- Lutero define o novo rumo do agir humano. A

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Cultura Religiosa

fé é certeza de que a promessa divina de salva-


ção será cumprida, e Deus faz isso como favor Reflita:Diante de Deus, auto-
aos seres humanos. Receber um presente dessa ridades religiosas e civis têm a
natureza, ser considerado justo e salvo sem me-
mesma direção: agir por agra-
recer, provoca uma reação de agradecimento, a
única possível: amar a quem nos presenteou e aos
decimento. Quando uma falha,
outros presenteados, também tornados justos por a outra deve intervir. Qual sua
puro favor. Não é preciso mandar agradecer. É opinião?
espontâneo, a partir do amor que Deus teve com
a humanidade. Para agradar, o beneficiado não se Entre as reformas necessárias, insere-se a
eximirá de esforços agradecidos. das universidades e escolas. Lutero sugere que a
Sagrada Escritura constitua a matriz do currícu-
Numa sociedade fortemente regulada pelas lo. Nas séries iniciais, meninos e meninas estuda-
orientações emanadas das autoridades religio- riam o Evangelho, em latim ou alemão. Continu-
sas, e por vezes cumpridas ou à força, ou contra ariam os estudos superiores aqueles alunos que
a vontade, as implicações sociais e políticas de- se destacassem nesse período, escolhidos pelos
correntes da idéia de que as boas obras não são príncipes e conselhos das cidades. Nas escolas
definidoras nem da justiça, nem da salvação logo intermediárias, deveriam ser realizados estudos
se evidenciam. que remetessem à reflexão e à observação da na-
Em outro escrito, também de 1520, À no- tureza, além do estudo das línguas (latim, grego,
breza cristã da nação alemã sobre a reforma da hebraico), da matemática e da história. Em rela-
Cristandade, Lutero propõe reformas no corpo ção aos cursos superiores de Direito, seria neces-
cristão composto por todos os cristãos, indepen- sário dar ênfase ao direito civil e, quanto aos de
dente dos papéis que desempenham. Príncipes, Teologia, as Escrituras deveriam ser enfatizadas
senhores, artesãos, camponeses, clérigos, todos, como objeto principal dos estudos.
pelo batismo, fazem parte do corpo de Cristo, A dimensão política do amor seria amplia-
nele integrados pelo mesmo favor divino. da em outro escrito, de 1523, Sobre a autoridade
secular. Lutero torna mais transparente que exis-
Todos, religiosos ou clérigos, tem dois reinos ou regimes, o de Deus e o do
receberam a graça da salvação mundo. O reino de Deus é integrado por todos
e podem agir, também na vida aqueles que, agradecidos pelo favor recebido, já
da cidade, por agradecimento. atuam movidos por amor. Em tese, não preci-
sam do regime secular, mas submetem-se a ele
e preservam-no a fim de que seu próximo seja
Todos estão no mesmo barco e na mesma di-
beneficiado. O reino do mundo é integrado por
reção: agem por agradecimento. As autoridades
todos aqueles que também receberam o favor,
religiosas, cuja competência é veicular a Palavra
muito embora alguns ainda ajam movidos pelo
de Deus e aplicar os sacramentos, agem com
egoísmo e precisem ser controlados para que no
amor por terem sido amadas primeiro. As auto-
corpo cristão haja dignidade.
ridades seculares, cuja competência é manter em
boa ordem o corpo cristão, agem igualmente com
Em tese, o cristão não precisa
amor por terem sido amadas primeiro. Quando
Igreja Luterana e Educação

uma parte falha, é preciso que a outra intervenha. das regras do mundo secular,
Naquele momento, Lutero entendia que as auto- mas a elas se submete devi-
ridades religiosas estavam falhando e as autori- do aos não-cristãos, a fim de
dades seculares deveriam intervir, empreenden- manter a boa ordem do mundo.
do as necessárias reformas, movidos por amor ao Analise essa afirmação tendo
corpo de Cristo. em vista a questão do aborto.

Cabe à educação, nos diferentes níveis, um

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Cultura Religiosa

papel relevante. Orientar as consciências para da, aos pais fazerem a sua enviando seus filhos
que as pessoas saibam como se conduzirem é à escola. Em 1530, numa pregação conhecida
tarefa que cabe não somente aos religiosos, mas como Sermão sobre o dever de mandar os filhos
também às autoridades e aos pais. à escola, Lutero faz um alerta aos pais que pre-
feriam colocar seus filhos no trabalho ao invés
À medida que se aprofundam as diferenças
de enviá-los às escolas criadas pelas autoridades
entre Lutero e seus seguidores e a Igreja Católica
civis. Ele entende que há proveito ou prejuízo em
Apostólica Romana, também seus escritos com
educar ou deixar de educar os filhos. Em ambos
referência à educação vão se tornando mais espe-
os casos, os pais estão beneficiando ou prejudi-
cíficos. É assim na carta aberta Aos prefeitos das
cando o próprio Deus, que rege o mundo, o qual
cidades alemãs, escrita em 1524.
precisa de pessoas que se apliquem ao estudo e
A Reforma provocara um desestímulo à ao ensino das Escrituras, bem como de pessoas
entrada nos mosteiros, justamente onde se en- que se apliquem ao estudo a fim de assegurarem
contravam as escolas. Sozinhos, os pais não a sobrevivência e a harmonia da sociedade tanto
conseguiriam educar seus filhos. Lutero apela com relação às leis como com relação à medicina
às autoridades civis cristãs para que tomem a e às artes liberais.
si a responsabilidade da educação, movidas por
Este é o entendimento teocêntrico da edu-
amor. Zelar pelo bem-estar da cidade inclui a
cação: é meio e instrumento de Deus. Mais uma
formação de cidadãos instruídos, hábeis e sábios,
vez é a ética do amor decorrente da fé que funda-
que tenham condições de adquirir e aumentar
menta a responsabilidade dos pais pela educação
terras e propriedades. Daí que investir em edu-
cristã das novas gerações, a fim de realizarem
cação e na formação de cidadãos é concretizar a
Deus em dois seguimentos: um buscando a sal-
ética do amor.
vação de todos os homens e outro construindo a
No que se refere ao reino do mundo, Lutero paz no mundo.
entende que o estudo das artes e das línguas é
que proporciona a formação de homens capazes A educação, dever dos pais e
de reger domínios e mulheres habilitadas para do Estado, e o progresso dela
governar filhos e empregados. No tocante ao rei-
decorrente devem assegurar a
no de Deus, entende que, igualmente, é preciso
estudar as artes e as línguas a fim de melhor en- sobrevivência e a harmonia da
tender as Escrituras e saber conduzir os negócios sociedade. A compreensão está
seculares. na direção do bem-estar coletivo.

Educação por amor, na vida O que impele Lutero a escrever sobre educa-
secular, habilita homens e mu- ção? Esta foi a indagação que motivou as refle-
lheres ao governo das cidades xões que seguem, desenvolvidas pelo Dr. Martin
e das famílias. Educação por N. Dreher no 1º Fórum de Lutero, na Ulbra – Ca-
amor, na vida religiosa, habilita noas, sob o título Lutero, Teólogo para a Univer-
a uma melhor compreensão das sidade.
Escrituras. O desencadeamento do movimento re-
Igreja Luterana e Educação

formatório tornara evidente a necessida-


de de uma reforma educacional. O sistema
Lutero recomenda, ainda, que, ao criarem
educacional medieval estava em crise em
escolas, os conselhos municipais deveriam ter o
virtude das transformações pelas quais pas-
cuidado de formar boas bibliotecas em torno das sava a sociedade, em especial o surgimento
Escrituras, das línguas e das artes. do mercantilismo. Estava surgindo um novo
A preocupação de Lutero com a educação tipo de sociedade, na qual o comércio come-
não se limita às autoridades civis. Ele defende çava a ter uma importância muito grande.
que, se estas realizarem a sua parte, resta, ain- As escolas, nas quais se estudava Filosofia
e Teologia em altíssimo nível, eram escolas

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Cultura Religiosa

educação dos sacerdotes. Agora, não havia

Imagem 58: Portal Luteranos


mais recursos para manter a educação. A
educação fora privilégio de minorias religio-
sas. Lutero, em contraposição, vai anunciar
a necessidade de um sistema educacional
que esteja ao alcance de toda a população.
Daí vem seu apelo para que as cidades criem
e mantenham escolas. Se antes se gastava di-
nheiro com a salvação, é necessário que ago-
ra se use o dinheiro para a educação, consi-
derada por ele a atividade mais importante.
Fundamentalmente, para ele, a educação é
de responsabilidade da autoridade civil e
não da autoridade eclesiástica.
As 95 Teses deflagram a pregação da salvação pela fé A argumentação de Lutero vai mais lon-
ge. Centro da Reforma é a redescoberta do
monásticas. A educação superior era toda Evangelho. Essa redescoberta não deveria
ela eclesiástica. Mas o novo tipo de socie- ser deixada de lado na reforma educacional.
dade que surgia estava a exigir novo tipo de Aliás, assim pensa Lutero, se não acontecer
educação. uma reforma educacional que dê acesso ao
ensino para toda a população, a redescober-
Necessário se fazia que houvesse forma- ta do Evangelho estará sendo posta em peri-
ção para as áreas do comércio, para a dire- go! Caso a população não puder se educar,
ção dos negócios do Estado, pois também um ter acesso à leitura do Evangelho, em pouco
novo tipo de Estado, mais centralizado, esta- tempo o Evangelho estará encoberto nova-
va surgindo. Era necessário que se formas- mente.
sem conselheiros, administradores e juristas.
O crescimento do comércio, principalmente, Interessante é a fundamentação de Lu-
requeria economistas. tero. A educação é, para ele, uma ordem de
Deus. Deus quer que existam e sejam criadas
Havia, porém, outro motivo que reque- escolas, pois é nelas que poderão ser apre-
ria a reforma do ensino. Até agora, o ensino endidas as profissões e Lutero entende que é
fora religioso; seu alvo era o céu. Pais que através da profissão que Deus chama as pes-
optassem pelo “estudo” para seus filhos soas para o Sacerdócio Universal de Todos
faziam-no no sentido de garantir e alcançar os Crentes. Essa é a base para a educação
méritos para si e para seus filhos. O filho ia universal. (...)
“estudar” para se tornar sacerdote e, assim,
garantir sua própria salvação e a salvação Resta a pergunta: Quem será o sujeito
dos pais. A salvação do mundo pouco ou da reforma educacional? Segundo Lutero,
nada importava. Quando Lutero descobriu a é dever dos pais enviar os filhos à escola.
salvação gratuita, a justificação por graça e As pessoas com recursos nas cidades são
fé, esse tipo de educação não tinha mais fun- por ele convocadas a financiar e a manter
damento e ruiu. O alvo da ética não era mais escolas. Mas não só elas. A educação deve
o céu, mas a terra, a preservação das coisas ser tarefa política. Quem deve, então, criar
criadas por Deus. A descoberta da justifica- e manter escolas? Poder-se-ia pensar nos
Igreja Luterana e Educação

ção por graça colocaria, além disso, a ênfase príncipes. No governador, para usar uma pa-
do estudo teológico na pregação e no estudo lavra de nossos dias. Lutero não pensa neles.
da Bíblia, e não mais no aspecto sacerdotal. Ele propõe que os conselheiros das cidades,
Outros, pois, deveriam ser os conteúdos pre- os vereadores, assumam essa tarefa. Educa-
paratórios para o ensino superior. ção é tarefa do Estado. Segundo Lutero, sem-
pre que for investido um florim em gastos mi-
Os príncipes haviam aproveitado o mo- litares, devem ser investidos cem florins em
vimento reformatório para se apossarem dos educação. Os conselhos municipais devem
bens eclesiásticos. Ora, das rendas dos bens obrigar os pais a enviarem os filhos à escola.
eclesiásticos havia sido mantida até então a Aqui a exigência da obrigatoriedade escolar,

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mas também a orientação precisa quanto às fundamental de todo cristão. Finalmente, é


prioridades da política. Para Lutero está cla- importante ver que Lutero propõe um novo
ro que governar é criar escolas e mantê-las. tipo de pedagogia: aprender brincando.
(...) Lutero considera que a atividade do(a)
Fica a pergunta: quem é que se bene-
professor(a) é, ao lado do ministério da pre-
ficia com a educação, segundo Lutero? A
gação, a atividade “mais útil, maior e me-
resposta é simples: a Igreja e o Estado. A
lhor” que existe. O mundo é dádiva de Deus,
Igreja se beneficia em sua tarefa de prega-
mas, para que haja paz e ordem na terra, é
ção. É necessário que se formem pregadores
necessário que existam muitos professores e
que anunciem o Evangelho. Os pais devem
cientistas crentes e sérios. Esta necessidade
enviar os filhos à escola para que sejam pas-
é para ele uma das razões de se enviar filhos
tores ou professores. Ambos dedicar-se-ão à
à escola. Ao mencionar esta razão, está fa-
tarefa mais nobre: a de pregar o Evangelho.
lando dos professores destas escolas que são
Lutero pensa, em seu tempo, que se deve en-
pessoas crentes e sérias a exercer a maior
sinar as línguas bíblicas, para que todos te-
função que existe. São eles que levam seres
nham acesso à Bíblia no original. A Bíblia é,
humanos a Cristo. Educar é levar a Cristo.
aliás, o livro escolar mais importante. Além
Por isso, educação é dádiva de Deus, ofereci-
das línguas deve-se estudar a história, pois
da através dos professores, nas escolas.
se aprende das experiências, dos êxitos e dos
erros do passado. Estudando história, evita- É verdade que Lutero falava em tempos
se a repetição dos erros do passado. de regime de cristandade. É, também, verda-
de que seus ideais eram humanísticos. Não
O outro beneficiário da educação é o
vivemos mais em regime de cristandade; os
Estado. Vai ter cidadãos preparados para
ideais humanísticos também foram abando-
assumir as tarefas na sociedade. O Estado
nados. A tarefa do educador cristão, porém,
necessita de funcionários (homens e mu-
continua: preparar pessoas para a salvação
lheres). É verdade que Lutero ainda limita
do mundo; preparar cidadãos capazes de re-
a função pública da mulher ao magistério.
mar contra a correnteza, bons políticos, bons
As professoras ensinarão nas escolas de me-
administradores, pessoas capazes de tornar
ninas. Mas ele cria espaços para os estudos
o mundo mais humano.
da mulher. O Estado, pensa Lutero, precisa,
ainda, de juristas e médicos. Fonte: DREHER, 2004.
Como deve ser a educação? Lutero nega
a educação repressiva (surras, pressão...).
A educação deve ser lúdica, isso é, deve-se Compare:
aprender, jogando, cantando e dançando. O percentual do Produto Interno Bruto (PIB) que os países
Mas a escola também deve estar vinculada desenvolvidos investem em educação em relação ao que se
ao trabalho. Ao lado das matérias comuns a aplica na mesma área no Brasil.
todos os alunos, deveria haver aprendizado
artesanal. Nas escolas devem existir boas bi- Profissão é sacerdócio!
bliotecas que deveriam ter a Bíblia e outras A afirmação enquadra-se na idéia do sacerdócio universal de
todos os crentes. Proveitosa é a leitura de “A ética protestante
obras básicas. Finalmente, Lutero propõe e o espírito do capitalismo”, de Max Weber.
uma escola cristã, gratuita e obrigatória. Os
professores não são apenas funcionários pú- Confira:
blicos, mas também pessoas que exercem um A educação não garante a vida eterna. A educação garante
Igreja Luterana e Educação

ofício espiritual. Quais os valores da propos- a preservação das coisas criadas por Deus. A finalidade da
ta de Lutero? Fundamental na proposta de educação se cumpre no cuidado com o mundo e com tudo o
Lutero é que com a educação se mantenha que nele há.

a liberdade evangélica. Através da educa-


ção se tem acesso à verdade do Evangelho Discuta:
e a liberdade dele decorrente. É a liberda- Escola cristã, gratuita e obrigatória.

de evangélica que possibilita a participação


crítica na sociedade. Depois, Lutero advoga- Reflita e discuta:
Qual o valor que se atribui ao magistério hoje?
va a popularização da educação. Ela não é
questão de elite leiga ou religiosa. É direito

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Cultura Religiosa

O presente adequada aos professores, organizaram-se livros


didáticos e implantou-se a inspeção escolar.
Quase 500 anos nos separam de Lutero. Em- No início do século XIX, novos avanços.
bora o mundo tenha mudado, a Igreja Luterana Implantaram-se escolas normais para melhor
ainda mantém sua perspectiva histórica sobre a formação dos professores, e um novo pressupos-
educação e dela não se tem descuidado. O pre- to tomava conta da educação: reforma social e
sente da educação luterana pode reportar-se ao política só é possível pela educação.
início do luteranismo no Brasil. Essa cultura os alemães trouxeram para o
Quando chegaram ao País em 1824, os imi- Brasil. É assim que podemos entender o empe-
grantes alemães trouxeram tanto a marca do nho dos imigrantes em implantar uma escola ao
clima cultural que se respirava na Europa como lado da igreja. A escola seria um mecanismo
uma história de ensino dentro da própria Igreja tanto para a melhor formação religiosa de seus
em que cresceram. filhos quanto para despertá-los para a vivência
da cidadania.

Tradição escolar entre imi- Ao lado da igreja, uma escola:


grantes alemães formação cristã e de cidadania.

Por ocasião dos 170 anos da imigração ale- Para termos uma idéia do valor atribuído à
mã no Rio Grande do Sul (1994), o Dr. Lúcio educação pelos alemães, basta recordar que nas
Kreutz publicou o artigo Escolas da imigração décadas de 1920/30 já havia, só no Rio Grande
alemã no Rio Grande do Sul: perspectiva histó- do Sul, uma rede de 1.041 escolas comunitárias
rica, em livro editado pela Ulbra (Os alemães no (evangélicas e católicas) com 1.200 professores.
Sul do Brasil) e do qual extraímos boa parte do
É essa cultura de educação que vai pautar o
texto deste tópico.
fazer religioso da Igreja Evangélica Luterana do
Até meados do século XVIII, predominou na Brasil, criada em 1900 com a vinda de um mis-
Alemanha o motivo religioso na educação. A es- sionário americano ao Sul do Brasil.
cola era concebida como uma instância de apoio
à formação religiosa. É nela que ocorriam os pri-
meiros passos para a formação do cristão. A es- A Igreja Evangélica Luterana
cola e o professor eram paroquiais. Ao professor do Brasil (IELB)
atribuía-se importante ação pastoral, pois, além
do magistério, deveria exercer ampla liderança A Ielb tem sua origem, no Brasil, em 1900
social e religiosa. O ensino religioso ocupava lu- e a partir do trabalho desenvolvido pela The Lu-
gar central em todo o processo educacional. theran Church – Missouri Synod. Esse grupo foi
fundado em 1847, em terras norte-americanas, a
O professor era responsável partir da iniciativa de um pastor que sai da Ale-
pela transmissão do conheci- manha por razões de consciência religiosa. Ocor-
mento e pela formação religiosa rera que em 1817 o rei da Prússia, Frederico Gui-
e moral. lherme III, decretara em seus domínios a união
Igreja Luterana e Educação

da Igreja Luterana com a Igreja Reformada em


razão de disputas religiosas. A decretada união
Na segunda metade do século XVIII, houve
resultara na Igreja Evangélica Unida. Evangéli-
um avanço na compreensão da educação, realçan-
cos luteranos, inconformados com a ingerência
do-se a responsabilidade do Estado na educação.
do Estado nas questões da Igreja, além de pro-
Entendia-se que a prosperidade e a estabilidade
testarem contra o racionalismo que invadira a
nacionais dependiam da educação geral do povo.
teologia, emigraram para os Estados Unidos na
Assim, a partir de 1763, a freqüência à escola
esperança de desfrutarem liberdade de culto sem
tornou-se obrigatória, estipulou-se remuneração
a interferência do Estado. É desse grupo que re-

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Cultura Religiosa

sulta o Missouri Synod e a Igreja Evangélica Lu- blemas decorrentes de duas guerras mundiais em
terana do Brasil. que a Alemanha esteve envolvida, ocasionando
reflexos nos imigrantes aqui residentes e em suas
Oficialmente a fundação ocorreu apenas em
instituições, quer religiosas, quer educacionais.
1904, muito embora já desde 1900 houvesse con-
gregações organizadas no interior do Rio Grande É dentro desse quadro geral que se encon-
do Sul. tram as origens da Universidade Luterana do
Brasil (Ulbra).
A herança religiosa e escolar que se trans-
ferira da Alemanha para os Estados Unidos se
manteve. Escolas eram criadas e mantidas junto A Universidade Luterana do
com as congregações religiosas. No Brasil não
foi diferente. Acabou se consagrando o ditado Brasil (ULBRA)
“ao lado de cada congregação, uma escola”. Essa
era uma estratégia empregada entre os imigrantes A chegada da Igre-
alemães a fim de fixá-los nos locais que ocupa- ja Luterana – Sínodo de
ram e não apenas expandir a mensagem religiosa, Missouri em Canoas dá-
mas também dar-lhes o conhecimento e a educa- se em 1905, com o atendi-
ção necessários a fim de progredirem. mento religioso feito pelo
pastor de São Leopoldo
À medida que avançava o trabalho religioso, (RS), recebendo a deno-
ampliava-se, na mesma medida, a fundação de minação de Comunidade
escolas. Assim, em 1907 já havia 13 escolas e, Evangélica Luterana São
em 1924, 68 com mais de 2.000 alunos. Na dé- Paulo. Com a expansão do
cada de 1970, o número de escolas chegou a 130. trabalho religioso duas medidas se faziam neces-
Problemas é que não faltaram. Em 1922, sárias: uma capela para as atividades religiosas e
uma corrente política pretendia eliminar as es- uma escola para ensinar os filhos dos seus con-
colas particulares. Em 1938, o Brasil foi toma- gregados.
do por uma onda de nacionalismo, motivando a A primeira capela e, ao mesmo tempo, a pri-
proibição do uso de línguas estrangeiras nas es- meira escola foram inauguradas em 1911. Após
colas primárias. Isso sem levar em conta os pro-

Imagem 59: Aldrin Bottega

Igreja Luterana e Educação

Vista aérea do Campus ULBRA Canoas

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a Primeira Guerra, passadas as hostilidades con- realidade o ensino profissionalizante de segundo


tra os alemães, a comunidade religiosa sentiu a grau. A cerimônia oficial de inauguração de fun-
necessidade de ampliar a capela e a escola. A cionamento do Colégio Cristo Redentor ocorre
inauguração dá-se em 1925 e, no mesmo ano, é em 7 de maio de 1969.
oficialmente criada a Escola Evangélica Lutera-
Implantado o projeto de ensino profissio-
na São Paulo.
nalizante no segundo grau, tornou-se inevitável
A Segunda Guerra sobrevém e com ela uma pensar em nova expansão, desta vez em direção
série de efeitos desastrosos para as colônias ale- ao terceiro grau. Já desde 1970 se pensava nessa
mãs, como perseguições e entraves burocráticos. direção. Encaminhadas as questões burocráti-
A Comunidade Evangélica Luterana São Paulo cas, em janeiro de 1972, foi aprovado o funcio-
também foi afetada nesse período. Seu pastor foi namento da Faculdade Canoense de Ciências
aprisionado em 1942, e o professor responsável Administrativas, com aulas iniciadas em março
pela escola teve de fugir a fim de não ter o mes- do mesmo ano. Logo a seguir, vieram os cursos
mo fim. A escola, que até então ministrava suas de Arquitetura, Ciências Contábeis e Educação
aulas em alemão, passou a fazê-lo em português. Física, todos funcionando nas dependências do
Imagem 60: ACS ULBRA
Colégio Cristo Redentor. Em 1976, novos cursos
eram pensados. O projeto para uma universidade
estava em andamento e, para tanto, adquiriu-se
em 1978 a área onde hoje se encontra o campus
central da Universidade.
A caminhada foi premiada, em janeiro de
1988, com a autorização da criação da Univer-
sidade Luterana do Brasil (Ulbra). Os cursos fo-
ram ampliados, a pós-graduação foi implantada,
os espaços físicos aumentaram, e novas unidades
foram abertas em todo o País, fazendo da Ulbra
Alunos da ULBRA
uma referência nacional.

No pós-guerra, as atividades gradativamente


foram sendo retomadas. A Comunidade São Pau- ULBRA - Comprometimento
lo ampliou-se, e a terceira capela foi inaugura-
da em 1965. Em 1966, a Comunidade tornara-se
com sua confissão
independente e recebeu seu primeiro pastor re-
O jeito de ser da Ulbra é reflexo do jeito de
sidente, o reverendo Ruben Eugen Becker, que,
ser de sua mantenedora, a Comunidade Evangé-
além das obrigações religiosas, deveria dedicar
lica Luterana São Paulo. A Ulbra confessa, a par-
um turno de suas atividades à escola da comu-
tir de sua mantenedora, que o mundo é obra de
nidade. A situação financeira da escola era um
Deus e por Ele regido, e não fruto do acaso ou do
grande problema, a ponto de pensar-se em fechá-
arbítrio. Confessa, igualmente, que Jesus Cristo
la.
se entregou à morte como sacrifício pela culpa
Elaborou-se, para continuarem abertas as humana e ressuscitou para reger as criaturas, bem
portas da escola, um projeto de reformulação
Igreja Luterana e Educação

como os corações dos crentes, pelo seu Espírito.


com vistas a expandir a escola, aproveitando-se
Entende a Ulbra, como parte da Igreja, que
o momento histórico de forte empenho governa-
esta se apresenta como assembléia de todos os
mental na educação. O projeto visava à criação
fiéis que o Senhor congregou pelo evangelho,
de um ginásio orientado ao trabalho, um giná-
para o fim específico de proclamar a salvação a
sio profissionalizante. Daí para diante não parou
todos os homens. A vocação própria da Igreja é,
mais o avanço da escola.
pois, anunciar o evangelho e exercer a caridade à
Em 1968, lança-se a pedra angular que daria imagem de Jesus Cristo, construindo o reino de
origem ao Colégio Cristo Redentor, e tornava-se Deus. No entanto, ainda vive no reino do mun-

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Cultura Religiosa

Imagem 61: Elisangela Fagundes


fundamentadas nos preceitos teológicos que as
regem e motivam. Para isso, zela e cultiva a práti-
ca de virtudes espirituais e rejeita todos os valores
negativos da natureza humana. Com isso, o que
pretende é formar profissionais capazes, honra-
dos, honestos, sábios e humanos, que respeitam
os valores morais e éticos, ainda que numa socie-
dade marcada pela competitividade. Dos egres-
sos da Universidade espera-se o comportamento
de guias e líderes humanos e altruístas.
Para chegar a esse resultado, a Universidade
está ciente de que seus alunos precisam de mo-
delos. As pessoas que ocupam qualquer cargo e
Incentivo às práticas religiosas na Universidade função na Universidade precisam conhecer, com-
preender e defender a qualidade acadêmica e a
do em expectativa pelo reino divino e, por isso, personalidade confessional da instituição. Em es-
não pode a Igreja nem seus seguidores se man- pecial, a Ulbra rejeita o comportamento dos ba-
ter indiferentes às necessidades dos homens e de juladores, dos confidentes, dos fofoqueiros e dos
todas as criaturas. O mesmo amor que salva é o interessados – que se apresentam como pessoas
que constrange a Igreja a assistir todo ser huma- amigas e de confiança, mas que no íntimo apenas
no, minorando sofrimentos, suprindo carências, usam a instituição para benefício e proveito pró-
abrindo novas perspectivas de vida. prio e egoísta.

Embora confessional, a Ulbra


respeita a liberdade religiosa e
O futuro
rejeita todo e qualquer tipo de Teologicamente, educação não é uma opção,
preconceito. mas um imperativo. Como imperativo, é impen-
sável deixar de fazê-la, não apenas no âmbito re-
Essa é uma tarefa a ser construída historica- ligioso, apontando diretamente para o reino de
mente, e a educação é um desses meios históricos Deus, mas também no âmbito secular, apontando
disponíveis para chamar o ser humano à comu- para o reino do mundo.
nhão com Deus e habilitá-lo à busca de uma so-
O cristianismo e a Igreja Evangélica Lu-
ciedade melhor. Assim a Ulbra confessa.
terana do Brasil têm ainda muito a oferecer na
É em razão de sua visão de Deus, do mundo construção de uma sociedade mais justa, espe-
e do ser humano que a Ulbra, embora transparen- cialmente de uma sociedade, como a brasileira,
temente luterana, respeita a liberdade religiosa e marcada por tantas e profundas diferenças e desi-
rejeita preconceitos de qualquer natureza. Ciente gualdades de toda ordem.
de que não é Igreja, a Universidade vê na educa-
Enfatizamos, no tópico anterior, a Ulbra
ção um instrumento para promover a formação
como o lugar onde estamos cumprindo a vontade
integral do ser humano com intuito de construir
Igreja Luterana e Educação

divina. No entanto, a educação na Ielb não é feita


uma sociedade mais justa e menos carente, sem
apenas pela Ulbra. Seguindo sua historicidade, a
perder de vista, contudo, que a perfeição e a ide-
Ielb continua a enfatizar a necessidade de escolas
alidade serão obtidas por obra e graça de Deus,
cristãs, hoje espalhadas por todo o Brasil, com
quando um novo céu e uma nova terra serão pre-
o mesmo propósito de formar religiosos que se
senteados.
apliquem ao serviço da construção do reino de
A Ulbra não apenas confessa, mas também Deus, educar e preparar bons cristãos para a Igre-
estimula a vivência diária e constante nas rela- ja e o exercício da cidadania, bem como educar e
ções decorrentes das atividades educacionais preparar cidadãos livres e altruístas.

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Cultura Religiosa

Imagem 62: Novo Milênio


AS RELIGIÕES
DO BRASIL
Assim como a diversidade racial da
população, a pluralidade religiosa é pre-
sente em nosso país.

Por Prof. Ronaldo Steffen

Catolicismo

D
esde sua deescoberta em 1500, passan-
do pela conquista, pela colonização e
estendendo-se até a Proclamação da Re-
pública, são quase quatro séculos em que o Brasil
é reconhecido como oficialmente católico.
A presença católica no Brasil deve-se a um
fato ocorrido décadas antes do descobrimento e
denominado de o direito de padroado sobre as
igrejas instaladas nas terras conquistadas por
Portugal, concedido pelo papa. A descoberta de
novas terras e sua colonização eram acompanha-
das de conversão compulsória de suas popula-
ções, nem sempre pacífica. Junto com a ocupa-
ção vinha a religião.

Direito de padroado
Você sabe o que é isso?
Pesquise outras fontes e aprenda um pouco mais so-
bre a formação religiosa e moral do povo brasileiro.

Como surgiu essa prática? Era uma recom-


pensa dada ao Estado português pelo seu empe-
nho na conversão de “infiéis”. Cabia ao rei de
Portugal conquistar novas almas junto com a
As Religiões do Brasil

conquista de novas terras. Era da responsabilida-


de do Estado construir os templos e os mosteiros,
“Primeira missa”, tela de Vitor Mei- dotá-los de padres e religiosos e, ainda, nomear
relles, na Escola Nacional de Belas
Artes
os bispos. Dessa forma, o clero católico aqui pre-
sente fazia parte do funcionalismo público, re-
Reprodução do livro Grandes Perso-
munerado pelo Estado.
nagens da Nossa História, volume
1, 1969, Editora Abril Cultural, São A Igreja submetida ao Estado tornou-se
Paulo/SP
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Cultura Religiosa

mais visível no período colonial brasileiro. Toda

Imagem 63: Wikipedia


e qualquer orientação oriunda do Vaticano para
os seus religiosos aqui presentes era repassada
pela administração portuguesa, que podia revisar
os documentos e considerar se era ou não viável
publicá-los, conforme o interesse.
Com o estabelecimento do Império, o padro-
ado passou a ser direito do imperador D. Pedro I,
em 1827. O catolicismo torna-se a religião oficial
do Estado brasileiro, e a ingerência deste sobre a Basílica de São Pedro, Vaticano
Igreja torna-se maior. Eram os funcionários pú-
blicos das províncias que regulamentavam o fun- Ao “abrir-se” e adequar-se às necessidades
cionamento da Igreja em nível local. do seu povo, a Igreja Católica permitiu a emer-
A Proclamação da República em 1889 é que gência interna de diversas tendências, entre as
vai abolir o caráter de religião oficial do cato- quais se destacam a Teologia da Libertação, que
licismo no Brasil, tornando o Estado brasileiro foi buscar no materialismo histórico marxis-
religiosamente neutro e abrindo os caminhos ta possibilidades de nova práxis religiosa, e os
para outras tradições religiosas se organizarem e movimentos carismáticos, que buscam, por meio
expressarem com liberdade seus ritos e crenças. dos dons carismáticos, uma confirmação do sta-
tus de maior proximidade com Deus e do Seu po-
A partir de então, o Vaticano passa a ter a der de ação sobre Seus filhos.
responsabilidade de manutenção e sustento da
Igreja Católica em território brasileiro. É verdade É mais que evidente que esses avanços não
que perder o caráter de religião oficial não foi um obtiveram a concordância de todos. Muitos re-
processo fácil e muito menos rápido. As autori- ligiosos se opuseram às novas tendências e de-
dades eclesiásticas, duma ou doutra forma, uns flagraram movimentos que visavam a um retorno
mais e outros menos, ainda insistiam em manter aos princípios anteriores ao Concílio. Uma des-
aproximação com as autoridades civis e exercer sas vozes fortes foi Dom Lefebvre, que, em 21 de
influência religiosa sobre elas, determinando, novembro de 1974, assim declara:
por vezes, apoio religioso a atos políticos com
o fim de não perder a ascendência que até então Aderimos com todo coração, com
tivera sobre a população. O efeito imediato foi toda nossa alma, à Roma católica, guardiã
um distanciamento das realidades e das necessi- da fé católica e das tradições necessárias
dades do cotidiano religioso e espiritual do povo à manutenção dessa mesma fé, à Roma
católico. eterna, mestra de sabedoria e de verdade.
Por outro lado, recusamos, e temos sempre
A reaproximação ampla com os seguidores recusado, a Roma de tendência neomo-
do catolicismo ocorre na década de 1960, com a dernista e neoprotestante que se manifes-
realização do Concílio Vaticano II. Sob a escolha tou claramente no Concílio Vaticano II e,
pelos pobres se dá uma série de conformações depois do Concílio, em todas as reformas
e acomodações que visavam estar mais perto da que saíram dele.
população e atendê-la mais adequadamente com
o fim de evitar a evasão de seus fiéis para outras
As Religiões do Brasil

tradições religiosas emergentes.


Protestantismo de
Aprofunde sua compreensão sobre
a Teologia da Libertação e os movi- imigração
mentos carismáticos na Igreja Ca-
O protestantismo chegou ao Brasil de forma
tólica Romana conversando com o
massificada e efetiva com a chegada dos imi-
sacerdote de sua localidade

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Cultura Religiosa

grantes, que, junto de suas tradições e costumes, de origem inglesa e norte-americana. Aliada à
traziam as práticas religiosas oriundas de seus Sociedade Bíblica, os metodistas, que aqui che-
países. garam em 1835, distribuíram milhares de Bíblias
entre os brasileiros nos anos 1850-1860.
Isso ocorreu a partir de 1824 com a chegada
dos imigrantes alemães ao Rio Grande do Sul e A partir daí proliferaram os movimentos
a Santa Catarina, dando origem à presença lute- missionários, todos de procedência norte-ameri-
rana no Brasil. Os primeiros que aqui se fixaram, cana: em 1858, dá-se a criação da Igreja Congre-
entre 1824 e 1864, tinham atendimento religioso gacional; em 1859, chega a primeira missão pres-
desempenhado por leigos. Só a partir de 1886 é biteriana; em 1868, outra missão presbiteriana,
que as igrejas alemãs passaram a enviar pastores desta vez do Sul dos Estados Unidos. A missão
para atenderem às colonizações germânicas. Era metodista aporta em terras brasileiras em 1870,
a Igreja Evangélica Alemã no Brasil. Em 1904, os batistas em 1881, e os episcopais em 1889.
uma missão luterana vinda dos Estados Unidos
No final do século XIX, já apareciam im-
daria origem à Igreja Evangélica Luterana do
plantados no Brasil os movimentos protestantes
Brasil. Após a Segunda Guerra Mundial, os gru-
de tradição luterana, anglicana ou episcopal, me-
pos que constituíam a Igreja Evangélica Alemã
todista, presbiteriana, congregacional e batista.
no Brasil formam a Igreja Evangélica de Confis-
são Luterana no Brasil.
Por volta de 1850, havia nos EUA
Os anglicanos e uma parte dos metodistas
a idéia corrente de unicidade do
também começam seu enraizamento no Brasil a
partir dos imigrantes americanos confederados
continente americano. Embutiu-
que se estabelecem no interior de São Paulo. Os se nessa concepção a de também
primeiros anglicanos chegam ao País por volta haver uma só religião. Será que
de 1810, tendo como característica não apenas a isso favoreceu o avanço no Brasil
continuação de sua tradição religiosa, mas tam- das religiões ligadas ao protes-
bém a preservação da língua materna, as tradi- tantismo de conversão? Leia mais
ções e os vínculos de dependência política e fi-
sobre o assunto.
nanceira com as Igrejas de origem.

Protestantismo de Pentecostalismo
conversão O movimento pentecostal chega ao Brasil
nas primeiras décadas do século XX. A primei-
Outros grupos protestantes também foram se ra Igreja formalmente criada foi a Congregação
instalando no Brasil, mas com a característica de Cristã do Brasil, em 1910, no Paraná e em São
que para cá vinham não para atender a imigran- Paulo. No ano seguinte, no Pará, é criada a As-
tes, mas a fim de converter os brasileiros. sembléia de Deus.
Diferentemente do protestantismo de imi- O crescimento das Igrejas Pentecostais efe-
gração, esses grupos procuravam rapidamente tivamente ocorre a partir dos anos de 1950: em
adequar-se ao jeito brasileiro, pois disso depen- 1953, surge em cena a Igreja do Evangelho Qua-
dia o crescimento do número de convertidos. En- drangular; em 1955, a Igreja Pentecostal O Brasil
As Religiões do Brasil

quadram-se nessa perspectiva os presbiterianos, para Cristo; em 1962, a Deus é Amor, e, em 1964,
os metodistas, os batistas e os episcopais vindos a Casa da Bênção.
dos Estados Unidos.
A partir dessas Igrejas, o movimento pente-
O movimento missionário protestante tem costal dá origem a outros grupos, denominados
seu início na metade do século XIX, e boa parte de neopentecostais, entre as quais se destacam:
de sua rápida expansão deveu-se ao trabalho de Igreja da Nova Vida (1960), Comunidade Evan-
propaganda desenvolvido pela sociedade bíblica

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Cultura Religiosa

Algumas características Algumas características


pentecostais: neopentecostais:
• crença nos milagres exatamente como ocorridos • ênfase no exorcismo;
em Pentecoste;
• os dons espirituais ainda ocorrem como em Pen-
• inexistência de grande apreço pela organização tecostes;
hierárquica e sacerdotal (pastor é quem possui
• a cura é divina;
dons, e não estudo);
• biderança carismática;
• negação do batismo infantil (o benefício do batis-
mo é recebido de forma consciente); • discurso e ações voltados ao bem-estar
• culto baseado na Bíblia e com interpretação livre • material, físico e emocional;
conduzida pelo Espírito Santo;
• pobreza, problemas sentimentais e pessoais são
• ausência de imagens e proibição de seu uso e ado- ações do diabo, que deve ser expulso.
ração;
• atribuição de grande importância à inspiração in-
terior e liberdade para expressá-la.

gélica Sara Nossa Terra (1976), Igreja Universal grandes mudanças provocadas pelos seus estudos
do Reino de Deus (1977), Igreja Internacional ao asseverar que o universo dos seres vivos está
da Graça de Deus (1980) e Renascer em Cristo absolutamente colocado dentro dos domínios ex-
(1986). clusivos da lei natural. Essa forma de enxergar a
vida que já vinha sendo construída em séculos
anteriores passa, agora, a influenciar muitos co-
Religiões não cristãs nhecimentos e pensamentos nos séculos seguin-
tes, inclusive no campo religioso.
Entre os grupos fora do cristianismo, os mais
O espiritismo parece encaixar-se nesse qua-
representativos e que merecem ser mencionados,
dro. Até então, de uma forma generalizada, acei-
são o judaísmo, o islã, o budismo, o Hare Krish-
tava-se, teológica e religiosamente, que o corpo
na, o xintoísmo, a Seicho-No-Ie, a Soka Gakkai e
humano, embora criado por Deus, era matéria
a Igreja Messiânica.
física passível de análise pelas ciências naturais.
Há ainda outro grupo, denominado por uns Já a alma, ou espírito, embora também criada por
de neocristão e por outros de paracristão (gru- Deus, não era matéria física e, portanto, ficava
pos que partem de fundamentos cristãos, porém distante do alcance das ciências naturais. Essa
afastam-se gradativamente dos mesmos), que perspectiva é alterada pelo espiritismo, com ori-
também tem representação no Brasil, como os gem na França.
mórmons, as testemunhas de Jeová, a ciência
Definido por Leon Hippolyte Denizard Ri-
cristã e o racionalismo cristão.
vail (1804-1869) – mais conhecido como Allan
Kardec – como um movimento científico, filo-
Espiritismo sófico e religioso, o espiritismo contesta a exis-
tência de apenas um mundo material, afirmando
não só a existência, mas a própria materialidade
Os meados do século XIX foram particular-
As Religiões do Brasil

de um mundo sobrenatural. A dicotomia corpo/


mente revolucionários para o campo da biologia.
alma deixa de existir para afirmar-se uma unida-
Em 1859, foi publicada a primeira edição do livro
de inseparável, sendo que a alma, como o corpo,
Origem das espécies, de Charles Darwin, obra
pode ser percebida e estudada em sua materiali-
em que o autor defende a evolução das espécies
dade.
pelo processo de seleção natural. Não é nosso
propósito aqui discutir os méritos das colocações A essa análise Allan Kardec acrescenta em
de Darwin, mas, sim, constatar que ocorreram sua sistematização os milenares conhecimentos

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evolucionistas (reencarnação e carma) e os de nas sessões espíritas; é como se fosse um envol-


pluralidade de mundo (a existência de vários pla- tório do espírito, necessário para a união das di-
nos habitados, já que a Terra não é o único mundo mensões do corpo e do espírito, e, por isso, não
habitado, mas apenas um dos planetas habitados é só material nem só espiritual. O espírito é de
e distante da perfeição), ambos já encontrados no criação divina e é o princípio inteligível respon-
hinduísmo antigo (vedismo e bramanismo). Essa sável pelo pensamento, pela vontade e pelo senso
é uma dentre as muitas causas que estabelecem moral; portador do livre-arbítrio, o espírito une-
o distanciamento entre o espiritismo e o cristia- se ao corpo a partir da concepção, iniciando a
nismo. possibilidade de decidir por atos que permitirão
ou não a evolução da dimensão espiritual.
A partir da reinterpretação de
O ser humano segundo o espiritismo
conceitos já existentes, como
“Deus”, “mundo”, “ser huma- • Espírito: princípio inteligente.
no” e “evolução espiritual”, o • Perispírito: envoltório semimaterial.
espiritismo busca oferecer expli-
cações racionais para os questio- • Corpo: ser material; alma encarnada.
namentos humanos.
Mundo
Ainda no decorrer da segunda metade do
século XIX, logo após sua criação, o espiritis- O mundo é concebido em dois grandes pla-
mo chega ao Brasil, hoje o país que tem o maior nos: o material (não se restringe à Terra, pois
número de adeptos. As primeiras organizações nesse plano há diversos níveis de materialidade,
espíritas surgiram por volta de 1870, na Bahia e determinados pela pureza ou pelo grau de desen-
no Rio de Janeiro. No início, o traço distinto do volvimento moral a que se conseguir chegar) e
espiritismo no Brasil, assim como na França, era o espiritual (também marcado por graus de mo-
sua proposta de terapia mediúnica por meio de ralidade e perfeição, é o plano em que habitam
“passes” para combater todos os tipos de enfer- os espíritos desencarnados – aqueles cujo peris-
midade e desconforto. De lá para cá, ocorreu uma pírito, já gasto e não realizando mais suas fun-
mudança de direção, de forma que o espiritismo ções de unir o corpo ao espírito, deixa o espírito
hoje no Brasil realça mais o seu lado religioso de separar-se do corpo, provocando o que se chama
moralização da conduta. de morte).
De modo genérico, e a título de exemplifica- A comunicação entre os dois planos é possí-
ção, seguem-se alguns dos principais conceitos vel graças ao médium, cuja função é intermediar
espíritas. e interpretar os espíritos por meio de diferentes
aptidões, que o tornam capaz de captar e trans-
mitir as mensagens recebidas. Entre as aptidões,
Ser humano podem ser destacadas as percepções de: efeitos
físicos, como batidas, levitação ou transporte de
A visão que o espiritismo possui de ser hu- objetos; auditivos, como sons; artísticos, como
mano é denominada de tridimensional. São três pintura, desenho, poesia ou romance; musicais e
dimensões do mesmo elemento: o corpo, o peris- psicográficos – a captação da escrita desenvolvi-
As Religiões do Brasil

pírito e o espírito. da por um espírito desencarnado.


O corpo é sem valor em si mesmo e a parte
menos nobre do ser humano, valorizada apenas
na medida em que possibilita ao espírito uma re-
Passe
lação com o planeta Terra. O perispírito é a con-
É uma espécie de exorcismo leve, dado in-
densação de um fluído universal normalmente
dividualmente por um dirigente ou pelo médium
invisível, que possibilita e explica as aparições
em transe durante a sessão espírita, com o obje-

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Cultura Religiosa

tivo de afastar as influências negativas, as más vir de modelo e guia a toda a humanidade. Ele
vibrações, os “encostos” e as “demandas”, além veio para oferecer à humanidade os padrões
de transmitir energia espiritual positiva. A ener- éticos e morais necessários à evolução espi-
gia positiva é sempre pensada como sendo “luz”. ritual. Conforme a Federação Espírita Brasi-
leira (FEB), Cristo não é uma figura mágica.
Deus É um educador. O que importa, portanto, são
seus ensinamentos – e não sua morte física ou
É exaltado como Ser e Fim Supremo, meta seus milagres. Jesus é o médium de Deus.
de perfeição de todo o processo evolutivo dos O Espiritismo, partindo das próprias pa-
espíritos. É inacessível ao ser humano. O mais lavras de Cristo, como este partiu de Moisés,
perto que o ser humano pode chegar é dos es- é conseqüência direta de sua doutrina – escre-
píritos desencarnados, para os quais o espiritis- veu Kardec.
mo disponibiliza o principal meio de expiar suas A importância de Jesus assume tal dimen-
obrigações cármicas – a caridade. Ajudar a hu- são que um dos textos básicos da doutrina é O
manidade é um meio eficaz de expiar as faltas Evangelho Segundo o Espiritismo – obra que
passadas e, assim, progredir rumo à perfeição. consiste de explicações e comentários sobre
as narrativas dos evangelhos. Os espíritas não
Evolução dos espíritos valorizam os milagres de Jesus. A FEB susten-
ta que todos eles são explicáveis pela ciência,
Os seres humanos encontram-se num ex- e não fruto de qualquer poder mágico. Se ain-
tenso processo de evolução, que não se limita ao da não foram explicados, é porque nossa atual
tempo curto de uma encarnação, mas prossegue condição intelectual e moral não dá acesso ao
por reencarnações sucessivas, indefinidamente. conhecimento que Jesus possuía.
As vidas passadas explicam a atual situação e O espiritismo defende também que, como
condição aqui na Terra dos seres humanos a par- espírito puro, Jesus era desprendido da maté-
tir da lei do carma, que determina a casualidade ria. Vivia mais da vida espiri tual do que da
moral – toda ação, boa ou má, recebe a devida corporal, a cujas fraquezas não estava sujeito.
retribuição. Diz a FEB que sua alma provavelmente se en-
No longo percurso da evolução, os espíritos contrava presa ao corpo apenas “pelos laços
passam por diversos mundos habitados, os quais estritamente indispensáveis”. Por isso, se des-
se localizam em diferentes planos, escalonados prendia constantemente.
de acordo com os princípios evolutivos, distribu- Além disso, como os espíritas entendem
ídos numa escala que vai dos planos mais próxi- que é impossível um espírito retornar a um
mos à matéria, os andares inferiores, até o plano corpo depois que este morre, não aceitam que
mais elevado, o da suprema perfeição espiritual, Jesus ressuscitou no corpo que teve. Para eles,
atingível, acima de tudo, pela prática constante a ressurreição se explica pela materialização
da caridade e pelas orações dos espíritos de luz do espírito – uma espécie de corpo espiritual
já desencarnados. que nada tem a ver com o corpo físico.
Uma transcrição esclarecedora do Jornal
Zero Hora (RS), publicada em 11/04/2004, pági-
Processo de comunicação entre o
Arquivo ULBRAEAD

na 4, por Itamar Melo:


médium e o espírito
As Religiões do Brasil

No espiritismo, doutrina religiosa fun-


dada no século 19 pelo francês Allan Kardec,
acredita-se que a alma é independente do cor- Pensamento
po e retorna à Terra em várias reencarnações,
até atingir a perfeição. Perispírito Perispírito
Jesus não é Deus, mas um espírito do mais
alto nível enviado por Deus à Terra para ser- Medium - corpo Comunicante

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Cultura Religiosa

Cultos afro-brasileiros mente se dá por meio do transe. Com essa di-


mensão, é potencialmente impossível estabelecer
regras, normas, pensamentos e comportamentos
São assim chamados em razão das práticas
absolutamente iguais. A experiência vivida vai
religiosas realizadas pelos negros que vieram tra-
ser diferente de pessoa para pessoa e de grupo
zidos para o Brasil como escravos e que aqui, re-
para grupo.
primidas, buscaram adaptação às religiosidades
já existentes.
As crenças e os rituais de origem
De início, as práticas religiosas dos negros africana possuem características
serviam mais como elemento de coesão da raça comuns:
e preservação de suas tradições culturais. Não
houve um movimento organizado. Os fatos fo- • a religião não é para ser entendida, mas
ram acontecendo. Inicialmente, ainda eram tradi- vivida;
ções religiosas praticadas exclusivamente pelos
negros. • sincretismo;
• ausência de uma estrutura religiosa
Consulte o site http://www.fgv.br/ única;
cps/ e descubra em “Retrato das • ausência da concepção de essências
religiões do Brasil” qual o lugar imutáveis;
do País onde os cultos de origem
• a concepção de certo e errado é variável
afro são mais praticados, propor- de pessoa para pessoa e de divindade
cionalmente à população. para divindade.
Você sabe o que é sincretismo?
A organização das religiões negras no Brasil Pesquise.
é recente. Deu-se, em especial, ao final do século
XIX, quando as grandes levas de negros trafica-
dos eram assentadas nas cidades. A aproximação Candomblé
uns dos outros e a relativa liberdade de movimen-
tos no espaço urbano sem dúvida favoreceram a O candomblé, enquanto religião, é um pro-
sobrevivência não apenas dos costumes culturais cesso sincrético intertribal africano, formado ba-
mais amplos, mas também das práticas religio- sicamente por quatro grandes nações africanas,
sas. Começavam a surgir os primeiros grupos nomeadamente Kêtu, Fan, Jejê e Angola. Geo-
organizados de culto. Ainda assim, essa organi- graficamente, essas nações podem ser situadas
zação ocorria de forma localizada, o que veio a no atual Sudão, na Nigéria e na cidade de Dao-
favorecer a formação de grupos com diferentes mé. As três primeiras nações são de origem suda-
formas rituais e até diferentes formas de interpre- nesa, os nagôs. A quarta nação, a angolana, são
tação das forças transcendentes que conduzem o os bantos e caracteriza-se por um espírito menos
universo e a vida. tolerante frente ao sincretismo desenvolvido por
outras nações africanas no Brasil.
Uma nota de observação se faz necessária.
Em regra, os fenômenos religiosos são estudados O termo candomblé designava a dança, o
a partir de suas estruturas de pensamento. Com instrumento e a música utilizados pelas quatro
As Religiões do Brasil

relação aos cultos afro-brasileiros, notamos a nações em seus rituais. Só mais tarde é que o sen-
impossibilidade de perceber uma estrutura única tido ampliou-se para indicar a própria vivência
e universal. Falta-lhes a concepção de essências religiosa. Ainda assim, não existe unanimidade
imutáveis, bem como a idéia de um ser que se quanto ao uso do termo. Na Bahia, o termo se
possa captar intelectualmente. A força vital ou mantém, bem como em São Paulo e no Rio de Ja-
primeira dos fenômenos religiosos não é para ser neiro. Em Pernambuco e Alagoas, é denominado
pensada, mas vivida e manipulada, o que geral- de xangô. No Maranhão e no Pará, é conhecido

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Cultura Religiosa

como tambor de mina e, no Rio Grande do Sul, rança religiosa é incorporar o seu próprio orixá e
como batuque. Por muito tempo, no Rio de Janei- dar licença aos seus seguidores para que possam
ro, foi conhecido como macumba. levar adiante os pedidos e os desejos aos seus ori-
xás pessoais.
Perfil do Candomblé Os orixás são, ainda, desprovidos de morali-
Criador: Olorum. dade e, por isso, não há uma ênfase nas questões
éticas e morais. Não há exigência ou recompensa
Auxiliares: orixás (determinam o destino para quem faz o bem nem condenação ou castigo
da pessoa). para quem faz o mal. A religiosidade centra-se
Chefe dos orixás: Oxalá (recebe os pedidos nas questões rituais e mágicas, como o uso de
e as homenagens dos seres humanos). roupas adequadas e próprias a cada orixá, ali-
mentação e bebidas específicas, sons, perfumes,
As crenças do candomblé repousam na exis- flores, cores e assim por diante.
tência de uma pluralidade de deuses, denomina- Além das propriedades e das funções des-
dos de orixás, com diferentes poderes e funções critas com relação ao orixá, acredita-se que cada
na vida humana, além de diferentes exigências pessoa possui, ainda, um segundo orixá, chama-
aos seus adeptos. Os orixás são elementos da do de juntó, que complementa o primeiro, de-
natureza divinizados, percebidos sensorialmente terminando que a pessoa seja considerada, por
e manifestados por meio de imagens, em geral exemplo, filho de Iemanjá e Oxalá. Esta segunda
figuras humanas, adaptadas sincreticamente aos divindade, além de possibilitar ao seguidor inú-
santos aceitos pela Igreja Católica Romana. meras combinações de comportamento, permite
Conforme as tradições religiosas do candom- que ele possa identificar a presença em sua vida
blé, o mundo foi criado por Olorum, que, após a de um pai e de uma mãe. Em regra, se o “santo de
criação, recolhe-se e deixa que seus auxiliares, cabeça” for masculino, o segundo será feminino
os orixás, tratem das questões relacionadas aos e vice-versa.
seres humanos. Oxalá, o chefe de todos os ori-
xás, é quem recebe todos os pedidos e as home- Não há preocupação com ques-
nagens dos seres humanos. A função dos orixás tões éticas e morais.
é governar o mundo, intervir em favor dos seres
humanos e puni-los quando necessário. Cada
Há nos rituais do candomblé constantes re-
pessoa, já antes de nascer, recebe um orixá, que
ferências ao Exu. Não é propriamente um orixá,
lhe é dado, e não escolhido. A partir da geração
embora assim seja designado, mas um interme-
comandará toda a existência da pessoa (tristeza,
diário entre o orixá e o ser humano. Assim, para
dor, sofrimento, alegria, prazer etc.). Considera-
se conseguir algo de algum orixá, é o Exu que
se que, de uma forma geral, o ser humano cos-
lhe deve ser enviado (despachado) com o pedido,
tuma apresentar traços de caráter de seu orixá,
quer seja bom, quer seja mau.
que, por isso, é chamado de orixá de cabeça. Essa
identificação determina que tudo o que a pessoa Para o pedido chegar logo, as pessoas devem
tem a fazer é acomodar sua vida aos gostos e aos oferecer ao Exu coisas de que ele gosta. É uma
desejos de seu orixá para que possa ser bem- forma de agrado; esquecer tal princípio faz com
sucedida. Não compete ao indivíduo discutir ou que sejam desencadeadas todas as forças negati-
duvidar das preferências de seu orixá. Tudo o que vas contra a pessoa esquecida. O reinado de Exu
As Religiões do Brasil

tem a fazer é vivenciar as preferências, indepen- está presente nas ruas, nas encruzilhadas e nos
dentemente dos conceitos de bem e mal. lugares considerados perigosos.
A identificação do orixá é feita por meio do
jogo de búzios, em atendimento individualizado Não há a percepção de pecado. Os
e conduzido pelo sacerdote, denominado de ba- limites são estabelecidos pelo orixá,
balorixá ou pai-de-santo, se homem, e ialorixá variando de pessoa para pessoa.
ou mãe-de-santo, se mulher. A função da lide-

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Para o candomblé, o pecado não existe. A sariamente proibido para outro.


distinção entre bem e mal depende basicamente
A seguir apresentamos uma lista com os
da relação entre cada seguidor e seu orixá. É nes-
principais orixás com algumas de suas caracte-
sa relação que irá ser estabelecido o que se pode
rizações, muito embora possa haver divergências
e o que não se pode fazer, mas sempre de forma
quanto a esse aspecto, uma vez que as diferentes
individualizada. Isso determina que o orixá tem
percepções e interpretações são profundamente
a possibilidade de estabelecer alguns tipos de li-
influenciadas pela cultura da região em que se
mites a um seguidor e de não impô-los a outro
encontram.
seguidor. O que é proibido para um não é neces-

Orixás do Candomblé
Exu: orixá mensageiro; guardião das encruzilhadas e da entrada das casas. É considerado masculino,
e suas cores são o vermelho e o preto. No sincretismo, está associado ao diabo.
Ogum: orixá da metalurgia e da tecnologia e ligado à guerra. É masculino, e suas cores são o azul-
escuro, o verde e o branco. No sincretismo, está associado a São Jorge e Santo Antonio.
Oxossi: orixá da caça e ligado à fauna. É masculino, e suas cores são o azul-turquesa e o verde. No
sincretismo, está associado a São Sebastião e São Jorge.
Ossaim: orixá da vegetação e ligado às folhas. É masculino, e suas cores são o verde e o branco. No
sincretismo, está associado a Santo Onofre.
Oxumarê: orixá do arco-íris. É andrógino, e suas cores são o amarelo, o verde e o preto. Está
associado, no sincretismo, a São Bartolomeu.
Obulaiê: orixá da varíola, da peste, das pragas e doenças e da cura. É masculino, e suas cores são
o vermelho, o branco e o preto, além de ser identificado pelo capuz de palha. Está associado, no
sincretismo, a São Lázaro e São Roque.
Xangô: orixá do trovão e ligado à justiça. É masculino, e suas cores são o vermelho, o marrom e o
branco. Está associado, no sincretismo, a São Jerônimo e São João Batista.
Iansã: orixá dos relâmpagos e ligado aos espíritos dos mortos. É feminino, e suas cores são o
marrom, o vermelho-escuro e o branco. Está associado, no sincretismo, a Santa Bárbara.
Oba: orixá da água e do poder da mulher, ligado ao trabalho doméstico. É feminino, e suas cores são
o vermelho e o dourado. Está associado, no sincretismo, a Santa Joana d’Arc.
Oxum: orixá das águas doces e do ouro, ligado ao amor e à fertilidade. É feminino, e suas cores são o
amarelo e o dourado. No sincretismo, está associado a Nossa Senhora da Conceição e Nossa Senhora
Aparecida.
Logum Edé: orixá dos rios dentro das florestas. É alternadamente masculino e feminino, e suas
cores são o dourado e o azul-turquesa. Está associado, no sincretismo, a São Miguel Arcanjo.
Iemanjá: orixá das grandes águas, mares e oceanos, e ligado à maternidade. É feminino, e suas
cores são o azul-claro, o branco e o verde-claro. Está associado, no sincretismo, a Nossa Senhora das
Candeias (ou Navegantes) e Nossa Senhora da Conceição.
As Religiões do Brasil

Nana: orixá da lama do fundo das águas. É feminino, e suas cores são o lilás, o azul e o branco. Está
associado, no sincretismo, a Santa Ana.
Oxaguiã: orixá da criação da cultura material e ligado à sobrevivência. É masculino, e suas cores são
o branco com um mínimo de azul real. No sincretismo, está associado ao Menino Jesus.
Oxalufã: orixá da criação da humanidade. É andrógino, e sua cor é o branco. Está associado, no
sincretismo, ao Jesus Crucificado e ao Senhor do Bonfim.

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Umbanda A divindade maior é Zambi (Nzambi), tido


como perfeito, não concebido nem criado e de
A umbanda é um comportamento religioso quem emanam os orixás que formam as sete li-
próprio do Brasil. Entre as muitas histórias sobre nhas. Uma linha de orixá equivale a um grande
a sua origem, conta-se a de Zélio Fernandinho número de espíritos que devem obediência ao
de Moraes, um espírita que recebeu orientação orixá que dá seu nome à linha, distribuídos em
mediúnica para criar a nova religião no Rio de sete legiões, cada uma com um chefe específico.
Janeiro, em 1908. Cada legião, por sua vez, divide-se em sete
Algumas considerações merecem ser feitas grandes falanges, cada uma com seu chefe espe-
com relação à natureza das práticas e das idéias cífico, que se dividem cada uma em outras sete
da umbanda. Uma delas é que, apesar de suas falanges menores, também com seus respectivos
origens remontarem aos ritos africanos, não há chefes, e assim por diante.
a preocupação de preservar essas raízes. Outra é A título de exemplificação, apresentamos a
a sua rápida expansão nos centros urbanizados, seguir uma descrição de cada uma das sete linhas
onde se apresenta como religião aberta a qualquer com suas sete legiões e seus chefes.
pessoa, independentemente das questões étnicas,
Essa complexa hierarquia tem como alvo o
enfatizando sua brasilidade. Para tanto, aboliu o
ser humano, que, assim como os orixás, as le-
uso de idiomas africanos, evitou os sacrifícios
giões, as falanges maiores, as falanges menores
de sangue e os processos iniciáticos, próprios
e os guias, possui um espírito que não morre e
do candomblé. Ainda outra questão relevante é
tem possibilidade de infinito aperfeiçoamento.
a que diz respeito à origem da composição dos
Esse espírito possui individualidade própria e
conceitos que determinam as crenças umbandis-
livre-arbítrio, o que lhe possibilita buscar o aper-
tas, pois resulta do encontro de diversas crenças
feiçoamento, alcançado pela sintonia e pela har-
e tradições africanas com as formas populares do
catolicismo romano, mais o sincretismo hindu-
cristão próprio do espiritismo kardecista. A par-
Hierarquia das divindades da
tir dessa constatação, é possível perceber que a umbanda
umbanda possui uma diversidade de elementos
que a compõe e que se refletirá nas experiências
religiosas por ela desenvolvidas, de tal forma que Zambi
tudo o que se disser sobre as observações em de-
terminada experiência poderá ser contrariado em
outra observação da vivência umbandista. 
Compreender as divindades que compõem
as práticas umbandistas, bem como sua forma
Orixás
de atuação é, sem dúvida, tarefa nada fácil, até
porque compreender não é o elemento primordial
dos rituais, mas, sim, a vivência. Viver é mais

importante do que compreender. De alguma for- Legião
ma, no entanto, é possível aproximar-se de algum
entendimento, embora não definitivo.

As Religiões do Brasil

Composição dos conceitos


Falange maior
• tradições africanas;
• formas populares do catolicismo romano; 
• espiritismo.
Falange menor

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monização com Zambi. O livre-arbítrio é que de- cas da umbanda. É uma espécie de guerreiro que
termina se as ações e as intenções vão na direção quer impedir o acesso das entidades guerreiras,
da harmonização ou não. Duma ou doutra forma, os kimbas, às zonas espirituais mais elevadas.
o espírito reencarnará e sofrerá a lei do carma, Faz parte de sua função ser justo (nem bom, nem
segundo a qual o estado atual do ser humano é mau), castigando e protegendo segundo a lei cár-
decorrente de atos passados e determinante da mica.
vida posterior, à semelhança do hinduísmo e do
Por fim, é interessante fazer um breve co-
kardecismo. No decorrer de uma encarnação, o
mentário sobre a função sacerdotal na umbanda,
ser humano tem, de um lado, entidades que o
exercida pelo pai-de-santo e pela mãe-de-santo.
querem ajudar e, de outro, entidades que o que-
Eles fazem parte da chamada hierarquia espiri-
rem prejudicar. As entidades que o querem ajudar
tual (há também a hierarquia administrativa, que
são denominadas de orixás, e as que o querem
cuida da sustentação do templo), que tem por
prejudicar são conhecidas como kimbas, extre-
função incorporar o espírito protetor, identificar
mamente violentas, vingativas e cruéis.
os espíritos que baixam, riscar o ponto, explicar
É oportuno, a esta altura, comentar rapida- a doutrina, dar os passes, curar as doenças e adi-
mente sobre o Exu, uma da figuras mais polêmi- vinhar pelos búzios.

Orixás do Candomblé
Linha de Oxalá: sincretizado por Jesus Cristo. Esta linha é constituída de espíritos de pessoas
que na Terra tiveram grande sentimento religioso. A missão das suas falanges é catequizar os maus
espíritos que atuam a partir das forças negativas do universo e arrastá-los para o bem.

Linha de Iemanjá: sincretizada pela Virgem Maria. As falanges de suas legiões têm por missão
proteger as criaturas do sexo feminino e desmanchar os trabalhos de magia preta feitos no mar e nos
rios.

Linha do Oriente: sincretizado por São João Batista. As falanges de suas legiões estão incumbidas
de ensinar os habitantes da Terra tudo o que lhes for desconhecido. São os grandes mestres do
ocultismo.

Linha de Oxossi: sincretizado por São Sebastião. As falanges de suas legiões praticam a caridade,
doutrinam os sofredores, fazem curas e aplicam a medicina à base de ervas.

Linha de Xangô: sincretizado por São Jerônimo. As falanges de suas legiões formam o povo da
justiça, amparam os humildes e os humilhados.

Obulaiê: orixá da varíola, da peste, das pragas e doenças e da cura. É masculino, e suas cores são
o vermelho, o branco e o preto, além de ser identificado pelo capuz de palha. Está associado, no
sincretismo, a São Lázaro e São Roque.

Linha de Ogum: sincretizado por São Jorge. As falanges de suas legiões são responsáveis pelas
As Religiões do Brasil

grandes demandas e são os defensores de todos os adeptos da umbanda, se estiverem no caminho da


caridade.

Linha de Iofá: sincretizado por São Cipriano (pretos velhos). As falanges de suas legiões conhecem
todos os segredos da magia da umbanda e empregam todos os rituais na prática da caridade em
benefício daqueles que buscam auxílio.

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Arquivo ULBRAEAD
CULPA E PERDÃO:
UMA QUESTÃO EXISTENCIAL
Você já se sentiu culpado? Como é viver sob o peso da culpa?
Qual o efeito do perdão sobre as nossas vidas e relações?.

Por Prof. Thomas Heimann

U
ma das primeiras questões que introdu- tar responder a esse questionamento de muitas
zem a nossa discussão diz respeito ao maneiras, mas duas delas já são suficientes para
porquê de abordar a temática da culpa fundamentar nossa posição de concordância. A
na disciplina de Cultura Religiosa. O texto base primeira delas remete a uma reportagem da Re-
que nos conduz nesta discussão encontra-se na vista Veja2 , cujo título de capa foi: “Culpa – por
obra do psiquiatra suíço Paul Tournier, cujo su- que esse sentimento se tornou um dos tormentos
gestivo título é Culpa e graça: uma análise do da vida moderna”. Nessa reportagem, a revista
sentimento de culpa e o ensino do evangelho1. procura apontar para “as culpas cotidianas de
cada um”, que parecem não ser mais uma ques-
Vamos tentar mostrar que a culpa é um dos
tão de escolha pessoal, mas sim de imposição
fatores fundantes e estruturantes de muitas religi-
aos indivíduos que vivem na sociedade moder-
ões, o que não invalida uma análise mais criterio-
na: competição no emprego, filhos ou carreira,
sa desse elemento, que aponte para as interfaces
desempenho sexual, comer demais, insucesso fi-
da culpa com aspectos psicológicos, sociológi-
nanceiro são apenas algumas das culpas listadas.
cos, antropológicos e existenciais do ser huma-
no. É essa visão interdisciplinar que propomos Uma segunda forma de fundamentar a uni-
observar. versalidade da culpa é fazer um exercício de
auto-análise. Cada um pode olhar para seu pas-
A culpa é uma questão existen- sado, recente ou remoto, e tentar listar todos os
momentos, as vivências e as situações em que se
cial. Ela acompanha o ser huma-
sentiu culpado, seja na última semana ou mês,
no desde o início da civilização.
Culpa e Perdão: Uma Questão Existencial

seja no último ano. Poderíamos perguntar se é


É formada a partir das normati- possível um sujeito saudável psiquicamente olhar
zações sociais e de sua própria para o seu passado e dizer que nunca sentiu al-
consciência. Pode se tornar um gum tipo de culpa. Uma resposta adequada preci-
peso insustentável na vida do ser saria ser negativa, pois a culpa parece fazer parte
humano. da dimensão humana, sendo uma questão inclu-
sive civilizatória.
Não queremos aqui dimensionar a culpa ou
A universalidade da culpa medir a sua intensidade, pois sabemos que as cul-
pas são diferentes para cada uma das pessoas: o
Alguns poderiam perguntar: será que é re- que para um pode ser motivo de culpa para ou-
levante abordar a questão do sentimento de cul- tro pode ser motivo de riso. A culpa é um senti-
pa? Será que a culpa diz respeito a minha vida mento muito pessoal, particular e subjetivo. Isso
ou faz parte do meu cotidiano? Poderíamos ten- não quer dizer, porém, que as culpas também não

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possam ser questões de caráter cultural, religioso norma é violada. O transgressor é culpado peran-
e familiar, ou seja, o que para determinada socie- te essa lei (pela transgressão dela), mesmo que
dade, grupo ou cultura pode ser taxado de culpa talvez não se sinta culpado. Já a culpa subjetiva é
(ou ato culposo) para outra pode ser um costume o sentimento pouco confortável de pesar, remor-
normal ou natural. so, vergonha e autocondenação que surge com
freqüência quando fazemos e pensamos algo que
O que podemos afirmar, catego- sentimos estar errado ou quando deixamos de fa-
zer algo que julgamos que deveria ter sido feito3.
ricamente, é que a culpa é um
sentimento humano universal, A culpa subjetiva, portanto, está intimamen-
existencial, que precisaria estar te associada aos sentimentos humanos e remete-
nos à segunda fonte da culpa: a nossa própria
presente em todos os seres huma-
consciência. É possível afirmar que o ser huma-
nos ditos saudáveis, isto é, a falta no é dotado de uma capacidade inata, uma voz
de qualquer sentimento de culpa interior, que lhe dá uma intuição íntima e pessoal
é uma das marcas da psicopatia, do que é certo ou errado. Vamos exemplificar:
de uma mente não saudável. você pode ter feito algo que todas as pessoas ao
seu redor julgam como correto, mas mesmo as-
sim brota no seu coração o sentimento de culpa.
Origem da culpa Dois exemplos concretos: uma mãe que precisa
aplicar um castigo ao filho por um erro que este
De onde, afinal, surge a culpa humana? É um cometeu ou um gerente que precisa despedir um
fator externo ou interno ao ser humano? Ela brota mau funcionário que, entrementes, está com difi-
de dentro para fora, sendo um aspecto humano culdades de saúde na família. Tanto a mãe quanto
inato, ou é incutida de fora para dentro, como um o gerente fazem o que é socialmente esperado,
produto do meio social? Observamos que as duas agindo corretamente; porém, mesmo assim, po-
visões não se excluem mutuamente, pelo contrá- dem sentir-se culpados pela decisão que toma-
rio, são complementares. Há, portanto, um duplo ram. Isso confirma que a culpa subjetiva pode
caminho na formação da culpa humana: interno brotar no indivíduo mesmo quando não há uma
e externo. culpa objetiva ou exterior imposta a ele.
Que a culpa é incutida exteriormente é pos-
sível provar a partir de uma rápida análise do Culpa: um sentimento nega-
meio em que se vive. Quanto mais regras, leis
e mandamentos uma sociedade tiver, tanto mais
tivo ou positivo?
culpa gerará nos indivíduos que dela fazem parte.
Um dos grandes questionamentos na análi-
Mesmo que os indivíduos não se sintam culpados
se do sentimento de culpa é se ele é um aspecto
Culpa e Perdão: Uma Questão Existencial

em transgredir determinadas regras sociais, a


negativo ou positivo na vida de um indivíduo e
culpa existe e é reputada a eles. Há inúmeros ti-
da própria sociedade. A resposta dependerá de
pos de regras ou leis que regem a convivência em
alguns critérios, como freqüência, quantidade,
sociedade: civis, religiosas, sociais, profissionais
intensidade e duração da culpa ou, ainda, do uso
e pessoais. Todas elas são praticamente “impos-
e do abuso que alguns indivíduos fazem dela.
tas” aos indivíduos que desejam viver e conviver
em coletividade. Numa primeira análise, podemos dizer que
os aspectos negativos da culpa prevalecem, sen-
Nesse sentido, precisamos fazer aqui uma
do vista como produtora de neuroses, geradora de
diferenciação entre dois tipos de culpa: culpa ob-
angústias e até promotora de doenças de cunho
jetiva e culpa subjetiva, conforme descreve Gary
psicossomático. Aprofundaremos tais questões
Collins.
mais adiante.
A culpa objetiva existe em separado de nos-
Vamos olhar, contudo, para os aspectos po-
sos sentimentos. Ela ocorre quando uma lei ou
sitivos da culpa. Ela pode, sim, cumprir funções

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positivas e construtivas, tanto para o indivíduo parte de nosso repertório comportamental. É um


quanto para a sociedade. São elas: filho que diz que a mãe não gosta dele, caso não
lhe pague uma viagem; é um pai que simula ao
Os aspectos benéficos da culpa: filho choro, caso ele não lhe dê um abraço; é o
rapaz que se faz de vítima diante do término do
• prevenção namoro, dizendo que vai se matar etc. Aqui cabe
• reflexão um alerta: precisamos tomar cuidado para não
pautarmos os nossos relacionamentos sobre o
• reparação sentimento de culpa, pois ele leva a sentimentos
• retificação de vida não construtivos, como pena, comiseração, ran-
cor, indiferença, gerando um ambiente não sau-
dável e de sofrimento aos envolvidos.
Prevenção – Antes de cometer um ato ilíci-
to, a culpa já pode surgir, evitando que o indiví-
duo cometa o ato que está pensando. Ou seja, a
culpa antecipatória age prevenindo um possível
Culpa e pagamento
erro moral ou legal, podendo evitar um eventual
prejuízo de terceiros. Segundo Paul Tournier, toda
Reflexão – Após cometer uma ação que a
culpa implica em um pagamen-
sua consciência apontou como errada ou má, a to. Nas relações interpessoais é
culpa surge e leva o indivíduo a refletir sobre esta comum pagarmos nossas faltas e
sua ação. A culpa leva, portanto, a uma auto-aná- culpas com agrados ou presentes,
lise crítica das próprias ações. na busca de obter o perdão de
Reparação – Quando a culpa brota no indi- quem magoamos.
víduo, pode levá-lo a reparar o seu erro, seja no
pedido de perdão e desculpas, seja na restituição Na obra do psiquiatra Paul Tournier, que ci-
concreta do que lesou ao outro. tamos na introdução, o autor afirma que a culpa
traz como conseqüência quase inevitável uma
Retificação de vida – Como última função
idéia de pagamento: “tudo deve ser pago”, diz
positiva, a culpa pode levar o indivíduo a não
o autor. “Parece-me que isto surge, pelo menos
mais cometer um ato que sua consciência julgou
em grande medida, de uma atitude psicológica
como ilícito, isto é, a culpa faz com que o sujeito
que eu agora quero enfatizar, a saber, a idéia,
não reincida no erro, gerando uma mudança po-
profundamente enraizada no coração de todos os
sitiva de comportamento.
homens, de que tudo deve ser pago”4.
Olhando para as funções positivas mencio-
Esse sentimento de dívida constante, mesmo
nadas, podemos afirmar que um indivíduo que
que tenha sido valorizado na perspectiva judai-
Culpa e Perdão: Uma Questão Existencial

não sinta nenhuma culpa diante de algumas ati-


co-cristã, não fica circunscrito ao mundo cristão
tudes e decisões pessoais pode se tornar uma
tradicional. Como diz Tournier, basta lembrar as
ameaça para si e para a própria sociedade. A au-
multidões inumeráveis de fiéis hindus que mer-
sência da culpa, que parece indicar a inoperância
gulham nas águas do rio Ganges a fim de serem
da consciência moral, faz com que o indivíduo
lavados de suas culpas e até as ofertas votivas e o
perca a noção dos limites e da liberdade do outro,
ouro que cobrem as estátuas de Buda. Igualmen-
tornando-o um indivíduo “perigoso”.
te, são inúmeros os penitentes e os peregrinos de
Um outro aspecto negativo da culpa é o uso todas as religiões que impõem a si mesmos sa-
nocivo que alguns indivíduos fazem dela, no crifícios, práticas ascéticas (privar-se de qualquer
sentido de manipular as pessoas, situação que é forma de prazer) ou duras jornadas como formas
comumente chamada de chantagem emocional. de pagamento, seja por culpas cometidas, seja até
Normalmente, quando fazemos as pessoas se por graças alcançadas. Tais pessoas parecem ter
sentirem culpadas, passamos a ter certo contro- uma necessidade interna de pagar, de expiar as
le sobre elas. Essas pequenas chantagens fazem suas culpas5.

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Aqui podemos perguntar: será que a culpa mo e continua repetindo indefinidamente como
e o seu respectivo pagamento são produtos ex- uma espécie de fatalidade inexorável6. Um exem-
clusivos da religião? Será que Freud está certo plo hipotético de como isso pode acontecer: uma
em afirmar que, libertando-se o homem do sen- mãe, muito irritada com seu filho de oito anos,
timento de culpa, a religião perde a sua finali- acaba dizendo a ele que o seu nascimento a impe-
dade ou necessidade? Pensamos que essa é uma diu de concluir o curso de Medicina, levando-a a
afirmação muito radical. Afinal, a relação entre abdicar de sua realização pessoal e profissional,
culpa-pagamento-perdão existe também fora do e que hoje se vê frustrada por ter feito tal escolha.
contexto religioso ou espiritual. Esse filho pode internalizar essa crítica e, por um
sentimento de culpa reprimido, não conseguir
Basta observarmos as relações humanas
concluir nenhum curso superior como forma de
cotidianas para comprovar tal assertiva. Muitos
pagar a culpa pela frustração profissional da mãe.
exemplos podem ser dados. Uma falha leve com
a namorada (deixar de acompanhá-la à liquida- A culpa, portanto, sempre cobra algum pre-
ção no shopping para ir ao jogo com os amigos) ço, muitas vezes um preço altíssimo, que pode
pode ser pago com um buquê de flores e um con- incapacitar o indivíduo de ser uma pessoa reali-
vite para jantar. Já uma falha mais grave (uma zada e feliz. Essa é uma crítica também reputada
traição) certamente exigirá um pagamento mais às religiões, como veremos a seguir.
“caro”, para a conquista de um eventual perdão.
A típica frase “Essa ele me paga!”, muitas
vezes repetida por nós em inúmeras e variadas
Culpa e religião
situações e contextos, expressa o que estamos
A culpa é um dos aspectos fundantes ou es-
afirmando neste texto. Todas as faltas, erros, de-
truturantes de muitas religiões. Por mais ácida
litos e pecados exigem um pagamento, que nor-
que seja essa afirmação, ela não é de todo injusta,
malmente implica uma proporcionalidade, isto é,
pois, após analisarmos grande parte das religiões
o tamanho (preço) do pagamento é proporcional
existentes, veremos que a culpa foi, e ainda é, uti-
ao tamanho do erro. Exemplo: no direito, um cri-
lizada como um dos mais eficazes instrumentos
me leve normalmente demanda uma pena leve, já
de domínio das Igrejas sobre os fiéis. Porém, ao
um crime grave demanda uma pena mais longa e
final desta análise, queremos apontar para uma
severa. Também na prática da confissão católica,
proposta religiosa que vai num caminho contrá-
normalmente, a penitência é dada ao fiel de acor-
rio, ensinando a total erradicação da culpa por
do com a gravidade do seu pecado.
intermédio de Jesus Cristo.
Indo além nesta abordagem psicológica,
O próprio Sigmund Freud, fundador da psi-
muitos dos problemas e neuroses trazidos pelos
canálise e um dos maiores críticos da religião,
pacientes nos consultórios estão ligados direta-
afirma que o sentimento de culpa é que deu ori-
mente ao sentimento de culpa, como já foi dito
gem às religiões, quando faz referência ao tote-
Culpa e Perdão: Uma Questão Existencial

anteriormente. Algumas vezes essa culpa é cla-


mismo, que se configura como uma das mais an-
ramente identificável e manifesta, estando no
tigas e primitivas formas de religiosidade. Na sua
plano consciente. Outras vezes, porém, as culpas
obra Totem e tabu, Freud faz referência ao mito
surgem como um sentimento vago e indefinido,
do parricídio, em que os filhos se unem e matam
ligado a uma esfera semiconsciente, cujo prejuí-
o pai, chefe do clã, que era invejado e temido por
zo na saúde psíquica pode ser até mais grave do
eles. Após o assassinato, os filhos devoram seu
que quando se trata de culpa consciente.
cadáver (antropofagia) e, identificando-se com o
A própria psicanálise afirma que muitas pai, apropriam-se de sua força. Após o parricí-
doenças nervosas e físicas, e até mesmo aciden- dio, a culpa dos filhos se estabelece em virtude
tes, bem como frustrações na vida profissional dos sentimentos ambivalentes: ódio ao pai, que
podem ser tentativas de expiação da culpa que representava um impedimento de alcançar o po-
é totalmente inconsciente. Essa seria uma forma der e satisfazer os desejos sexuais, em contrapo-
de punição que o sofredor administra a si mes- sição ao amor e à admiração pelo que ele repre-

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sentava. Essa afeição, antes recalcada, surge em pelas culpas e pelos pecados cometidos. Na Ida-
forma de remorso. A partir daí, os filhos criam de Média, era comum a venda das indulgências,
uma representação totêmica do pai morto, que se que representavam a compra do perdão e da sal-
torna ainda mais forte do que quando estava vivo. vação, além da veneração de relíquias sagradas,
Esta, portanto, seria para Freud a base estrutu- das encomendas de missas pagas, da realização
rante das religiões: a culpa que deu origem aos de votos e promessas e das práticas de autoflage-
rituais religiosos totêmicos. lo, tudo como forma de expiar as suas culpas, pa-
gar as dívidas com Deus e ganhar algum mérito
Nota: O mito é contado aqui de forma pessoal diante Dele.
muito resumida. Para uma melhor compre-
ensão, devido à complexidade do tema, A colunista Martha Medeiros, numa de suas
sugere-se a leitura do texto de Freud na crônicas publicadas no Zero Hora8, intitulada
sua íntegra. Prometa não sofrer, ressalta que algumas religi-
ões cristãs têm na culpa o seu maior alicerce, e
Saindo dessa abordagem antropológica, po- o rito das promessas seria a maior prova de que,
demos apontar diversas religiões que fazem uso aos olhos de Deus, o ser humano não é merecedor
cotidiano da culpa na sua relação com os fiéis. da felicidade, ao menos não de uma felicidade
Como diz Tournier, para apagar o passado de cul- gratuita. A autora faz referência a ritos penosos,
pas e pecados, uma expiação (pagamento) deve como subir 300 degraus de uma igreja, caminhar
ser feita, sendo esse o sentido de quase todos os vários quilômetros para pagar uma graça alcança-
ritos e sacrifícios praticados nas diferentes religi- da, dar uma soma polpuda para a caixa de coleta
ões. Atos de culto não deixam de ser uma forma etc. “Como sofrem esses fiéis”, diz Martha Me-
de pagamento, ao menos do ponto de vista psico- deiros, afirmando que eles se sentem devedores
lógico. Espera-se que eles garantam a libertação da própria fé, impingindo a si próprios inúmeros
da culpa descartando o débito que deu origem a sofrimentos e privações para pagar o que julgam
ela7. Vamos traduzir isso em exemplos práticos. dever a Deus. Ao almejar a felicidade, finaliza
Em tribos primitivas, quando aconteciam a autora, torna-se implícito que se pagará muito
tragédias, derrotas ou cataclismas (furacões, ter- caro por ela, se não financeiramente, ao menos
remotos, temporais etc.), normalmente se acre- com bolhas nas mãos e calos nos pés.
ditava que alguém da tribo havia cometido um Não é essa proposta, porém, que o cristianis-
grave pecado. Quando se achava o culpado, este mo, comprometido com os evangelhos bíblicos
era punido e sacrificado aos deuses. Portanto, e com a obra de Jesus Cristo, oferece aos seres
aplacar a ira dos deuses por meio de oferendas, humanos. A Igreja cristã tem o compromisso de
rituais e sacrifícios era prática comum em inú- proclamar a salvação, a graça e o perdão de Deus
meros povos, tribos e culturas da Antigüidade. à humanidade oprimida pela culpa: a salvação
Na realidade brasileira, temos a doutrina es- conquistada em Cristo, por Cristo e por intermé-
dio de Cristo. Essa salvação não tem preço, não
Culpa e Perdão: Uma Questão Existencial

pírita, que se aproxima muito da expressão, utili-


zada por Tournier, de que “tudo deve ser pago”. pode ser comprada por ninguém, até porque, para
Mesmo que o conceito pagamento não seja no- o cristianismo, sacrifícios expiatórios ou esfor-
meado, sendo substituído por palavras como ço moral não são suficientes para pagar a dívida
resgate, missão ou aprendizado, está implícito com Deus. Na realidade, o cristão não precisa
na doutrina espírita que cada indivíduo é respon- pagar nada, pois Cristo já pagou em seu lugar.
sável pelo seu aprimoramento e pelo “resgate” Como lembra Tournier,
de suas culpas passadas. Muitas doenças, pro- é Deus mesmo quem paga, Deus mesmo pa-
blemas, dificuldades e tragédias que surgem na gou o preço de uma vez por todas, o preço mais
vida das pessoas são interpretados pelos espíritas caro que ele poderia pagar: a sua própria morte,
como uma forma de “pagamento” de um carma em Jesus Cristo, na cruz. A obliteração (destrui-
anterior. Sem esse resgate, não há evolução. ção/eliminação) de nossa culpa é livre para nós
O cristianismo, por um longo tempo, tam- porque Deus pagou o preço. Jesus Cristo veio
bém se estruturou sobre a prática do pagamento ‘para salvar o que estava perdido’ (Mt 18:11).9

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Imagem 64: Revista Agulha


Conforme está escrito na Escritura Sagrada,
“O sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de
todo pecado” (1 João 1:7); “no qual temos a re-
denção pelo seu sangue, a remissão dos pecados”
(Efésios 1:7); “Pois também Cristo morreu, uma
única vez, pelos pecados, o justo pelos injustos”
(1 Pedro 3:18).
Em síntese, a libertação total da culpa, a sal-
vação, não é mais uma idéia remota de perfeição,
para sempre inacessível, mas é uma pessoa: Jesus
Cristo, que veio a nós, veio para ficar conosco,
em nossas casas, em nossos corações. O remorso
é silenciado pela sua absolvição. Jesus substitui
o remorso com uma simples pergunta, aquela que
fez ao apóstolo Pedro, que o tinha negado por três
vezes: “Tu me amas?” (João 21:15). Precisamos
responder a essa questão e achar em nossa liga-
ção pessoal com Jesus Cristo paz para as nossas
almas.
Todos os homens podem se beneficiar dessa
expiação única; todos os homens, de fato, “todo o
mundo”, como João afirmou (1 João 2:2). Jesus
Cristo morreu por todos, sem qualquer distinção,
para homens de todas as idades e regiões, para
hindus, para budistas, para muçulmanos, para pa-
Nesta obra de Rembrandt, “O Filho Pródigo”, temos o re-
gãos e para ateus; basta que nele creiam. trato de um pai amoroso que recebe o seu filho de volta,
perdoando seu pecado. Trata-se de uma parábola bíblica
que fala do amor incondicional de Deus por seus filhos e
Culpa e perdão do perdão oferecido por ele a todos que se arrependem.

O grande ápice de nosso texto é a palavra toa que se diz que “errar é humano e perdoar é
perdão. De nada adianta falar de culpas se não divino”.
abrimos a possibilidade de refletir sobre o per-
Hoje já há estudos que comprovam ter a prá-
dão. Numa dimensão humana, a das relações in-
tica do perdão um efeito benéfico sobre a saúde
terpessoais, poderíamos afirmar que o perdão é
humana. O psicólogo americano Frederic Luskin
uma das mais importantes ferramentas terapêuti-
Culpa e Perdão: Uma Questão Existencial

cas existentes nesta vida. O perdão pode ser visto faz uma relação entre o bem-estar trazido pelo
sob três aspectos: o perdão divino, o perdoar a si perdão e a saúde do ser humano. Luskin afirma
próprio e o perdoar aos outros. Poderíamos per- que guardar ressentimentos, culpar os outros ou
guntar: o que é mais difícil, perdoar aos outros, apegar-se às mágoas estimula o organismo a libe-
pedir perdão aos outros ou ainda se apoderar do rar na corrente sangüínea as mesmas substâncias
perdão divino? Obviamente que a resposta a essa químicas associadas ao estresse, que prejudicam
questão está ligada a uma série de variáveis. o corpo. Um outro estudo de Luskin indicou que
as pessoas mais inclinadas ao perdão sofriam
Para um indivíduo orgulhoso, assumir o erro menos enfermidades e tinham menos doenças
e pedir perdão é quase uma impossibilidade. Para crônicas diagnosticadas10.
um indivíduo com pouca confiança em Deus,
Portanto, perdoar e pedir perdão são ações
aceitar o perdão de Cristo também é difícil. Ago-
promotoras da saúde na dimensão emocional, fí-
ra, perdoar realmente aos que nos fizeram algum
sica e espiritual. São ações que precisamos apri-
mal parece ser a mais árdua das tarefas. Não é à

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morar em nossa vida. O primeiro passo para isso as obras do cristão acompanham a verdadeira
é aceitar que as nossas culpas, os nossos erros já fé, mas obras feitas como símbolo de gratidão,
estão perdoados por Deus. como conseqüência natural da morada de Cristo
em nossos corações e mentes, e não como forma
Acabamos de ver que esse perdão divino é
de pagar alguma culpa ou ganhar mérito diante
concedido a nós gratuitamente, sem qualquer
de Deus. Finalmente, libertar-se da culpa impli-
barganha com Deus. Ele nos oferece o perdão
ca também uma disposição interna constante em
a todas as nossas culpas. Diante dessa verdade
perdoar aos outros, num compartilhamento mú-
bíblica, vem-nos à mente um ditado popular:
tuo e recíproco do perdão que nos é oferecido por
“Quando a esmola é muita, o santo desconfia”.
Deus em Cristo Jesus.
O ser humano parece ter uma grande di-
Culpa e perdão – uma questão existencial que
ficuldade de se apoderar do perdão oferecido
permanecerá atuando e ressoando nos corações
pelo evangelho bíblico. Mesmo participando de
humanos enquanto o indivíduo viver, mas cuja
rituais como a Comunhão (Santa Ceia), a Con-
resolução está mais próxima do nosso alcance do
fissão e a Absolvição nas missas e nos cultos, o
que podemos imaginar: na pessoa que se tornou a
ser humano não consegue libertar-se de suas cul-
encarnação viva do amor, da paz, do consolo e do
pas, presas a ele como sanguessugas a retirar sua
perdão, chamada Jesus Cristo. Crer nesse perdão
alegria, bem-estar, auto-estima e paz de espírito.
e apoderar-se dele é a ferramenta terapêutica por
Como diz Tournier:
excelência, fonte de vida e alegria, da qual todos,
Parecia-lhe impossível (ao ser humano) que sem exceção, podem fazer uso.
Deus pudesse remover a sua culpa sem que ele
tivesse de pagar alguma coisa. Pois a noção de Pela fé em Jesus Cristo as culpas
que tudo tem que ser pago está profundamente do ser humano são apagadas e o
arraigada e atuante em nós, tão universal quan-
perdão nos é concedida de graça.
to inabalável por qualquer argumento lógico.
Portanto, as pessoas que anseiam ardentemente É a grande e libertadora mensa-
pela graça são as que têm maior dificuldade em gem do Cristianismo.
aceitá-la. Seria uma solução muito simples, e
uma espécie de intuição se lhe opõe.12
Notas deste capítulo
Precisamos crer e confiar que Deus nos per-
doa. O grande privilégio que temos como cris-
1
Paul Tournier. Culpa e graça: uma análise do senti-
mento de culpa e o ensino do evangelho. São Paulo:
tãos é saber que somos perdoados e que o perdão ABU, 1985.
nos alcança por meio de Jesus Cristo. Foi para 2
Revista Veja, 31 de julho de 2002, edição 1762.
pregar a transformação radical, o despertar da
consciência de culpa e a erradicação desta culpa:
3
Collins, Gary R. Aconselhamento cristão. São Pau-
lo: Vida Nova, 1995, p.100-101.
Culpa e Perdão: Uma Questão Existencial

a humilhação do orgulhoso e a restauração dos


angustiados. Não que a salvação tenha que ser
4
Tournier, Paul. Culpa e graça: uma análise do senti-
mento de culpa..., p.200.
conseguida. Ela já foi de uma vez assegurada a
nós e a todos os que crêem. Tudo já foi consuma- 5
Ibidem, p.200-1
do em Jesus Cristo12. 6
Ibidem, p 201
Vale uma reflexão final para o tema em ques- 7
TOURNIER, Paul. Op.cit., p.202
tão: o processo que leva a uma verdadeira liber- 8
Jornal Zero Hora, Caderno Donna, 12 de setembro
tação da culpa, que parte da confiança no perdão de 1999.
divino oferecido a nós, implica três momentos. 9
TOURNIER, Paul. Op.cit., p.212-3
Primeiro, o reconhecimento dos nossos erros que
leve a um verdadeiro e sincero arrependimento.
10
Mônica TARANTINO. Perdoar é humano. Revista
Isto É, 08 de janeiro de 2003, edição n. 1736.
Segundo, o firme desejo de corrigir a nossa vida,
transformando-nos positivamente como pessoas
11
TOURNIER, Paul. Op.cit., p.200
e como cristãos. Como diz a Bíblia, os frutos e 12
Ibidem, p.215

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Arquivo ULBRAEAD
A RELAÇÃO ENTRE
FÉ E SAÚDE
Um dos temas mais instigantes e polêmicos da atualidade é a relação (ou
talvez tensão) entre fé e saúde, religião e ciência, medicina e espiritualidade.

Por Prof. Thomas Heimann

M
esmo que essa relação seja muita anti- integral constitui um aspecto que aponta para uma
ga – em inúmeras culturas a doença e valorização dessa área, tratando-se de um marco
a cura eram experiências que ficavam decisivo na aproximação e no entrelaçamento da
ao encargo dos sacerdotes, dos pajés e dos xamãs ciência com a religião ou, mais amplamente di-
–, nos dias de hoje, tem-se discutido muito quais zendo, com a espiritualidade humana.
são os limites de cada uma das duas áreas. Ape-
Dois trabalhos de cunho científico, entre
sar de haver inúmeras correntes que vêem aí opo-
tantos outros que poderiam ser citados, indicam
sição total, tensão constante ou diálogo crítico,
essa aproximação. O primeiro deles é a tese da
uma outra corrente procura caminhar no sentido
psicóloga gaúcha Luciana F. Marques, realizada
de propor uma perspectiva convergente ou inte-
pela PUCRS, em que ela procura comprovar que
gralista de ambas as áreas, sem desrespeitar as
a religiosidade e o bem-estar existencial são fa-
especificidades de cada uma delas.
tores importantes para os indivíduos terem uma
No artigo de Horta et al. cujo título é Psi- melhor saúde física e mental. Em sua pesquisa,
quiatria na prática médica: a religiosidade e suas as pessoas que afirmaram não ter religião, em ge-
interfaces com a medicina, a psicologia e a edu- ral, foram as que demonstraram menor bem-estar
cação, os autores afirmam: existencial.2
O segundo trabalho é oriundo da Univer-
A partir de Einstein, reduziram-se, um sidade do Texas e aponta para o fato de que a
a um, os impedimentos de cercania para ci- espiritualidade tem a ver com disposição física
ência e religião, a ponto de João Paulo II e mental. As pessoas que praticam uma religião
afirmar que religião sem ciência não é boa apresentam melhores condições de saúde. Os
religião, bem como ciência sem religião não maiores ganhos são de fundo psicológico, visto
é boa ciência. Uma posição convergente que os religiosos têm auto-estima maior e um
com a do sumo pontífice foi, recentemente, círculo de amizades com o qual têm afinidades,
tomada pela Organização Mundial da Saúde prevenindo doenças de fundo emocional.3
A Relação Entre Fé e Saúde

(1998), ao ter acrescentado a dimensão de


bem-estar espiritual ao seu conhecido con- Num mesmo caminho, as faculdades de Me-
ceito multidisciplinar de saúde, que, como dicina dos Estados Unidos já têm dado espaço à
se sabe, só entendia uma condição de saúde relação entre a espiritualidade e a saúde na forma-
se existisse a presença de bem-estar nas di- ção acadêmica de seus alunos. Vários simpósios,
mensões físicas, psíquicas e sociais.1 congressos, palestras e cursos na área da saúde
também vêm enfocando essa questão nos últimos
anos, o que demonstra o aumento de interesse e
É possível afirmar que o acréscimo da di-
preocupação dos profissionais no sentido de, ao
mensão espiritual/religiosa à concepção de saúde

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menos, refletir sobre a temática. tação, sessões de descarrego ou então de pessoas


que afirmaram estar “com um encosto” ou nas
Há algum tempo, trabalhos e afirmações
quais “baixou o santo”? Transe religioso, mundo
que aproximassem a espiritualidade da ciência
dos espíritos ou apenas transtornos mentais?
pareceriam idéias sentidas como completamente
ilegítimas e estranhas aos preceitos religiosos e Todos esses exemplos apontam para um fe-
científicos, tal como explicam Horta et al.: nômeno que vamos chamar aqui, genericamente,
de possessão. Importa afirmar, desde o princípio
Ciência e religião eram campos histori- dessa discussão, que esse é um tema controverso,
camente opostos, pelo menos, na cultura do e que estamos cientes de que há diversas formas
ocidente. O apego da cultura ocidental por de nominar e significar o fenômeno, dependendo
um pensamento linear (causalista e simpli- do viés religioso ou científico de cada grupo, que
ficador) e seu encantamento pelos avanços constrói a sua própria nomenclatura e interpreta-
tecnológicos e sua crença numa filosofia ção do fato.
empirista – em síntese, a adição ocidental Desde o início da história humana, há indí-
ao positivismo estrito – configuram um con- cios de que sofrimento e doença eram considera-
junto de condições que, provavelmente, pro- dos fruto de uma força externa maligna, que atu-
porcionaram o isolamento e estimularam os ava negativamente sobre os corpos e as mentes
conflitos entre religiosidade e pensamento das pessoas. As curas eram ministradas por meio
científico.4 da expulsão dessa força maligna do corpo do
indivíduo, em práticas que denominaríamos hoje
Para os autores supracitados, defender o de exorcismos, realizadas por inúmeras tribos ao
pensamento de que a religiosidade de uma pessoa longo da história.
influencia não apenas seu espírito, mas também
Portanto, a idéia do mal, de espíritos ruins
seu corpo, sua mente e sua interação com os ou-
ou de “pouca luz”, de demônios que atuam no
tros já causa bem menos estranheza nos dias de
plano físico e atormentam os seres humanos não
hoje, mesmo que tal concepção ainda permaneça
é privilégio do mundo cristão, embora a socieda-
gerando desconfiança e inquietação em muitos
de ocidental seja muito influenciada pelo cristia-
meios acadêmicos.
nismo e sua idéia do mal.
Vamos passar agora a analisar um dos tantos
De um modo geral, o que se entende por
fenômenos religiosos que podem ser interpre-
possessão? Para o cristianismo, demônios são es-
tados de uma forma interdisciplinar, apontando
píritos ou poderes espirituais contrários a Deus
justamente para os diversos tipos de relações
e cujas fileiras são compostas pelos chamados
existentes entre religião e ciência, medicina e es-
anjos caídos, que acompanharam Lúcifer na re-
piritualidade.
belião contra Deus.
Caracterizando de modo geral uma posses-
Análise de um fenômeno são, um ser humano que está “possuído” por uma
dessas entidades espirituais maléficas acaba fi-
religioso: doença mental cando sob o controle total dela. O indivíduo per-

ou possessão?
Imagem 65: Movie Mark

A Relação Entre Fé e Saúde

O cinema retratou o tema


das possessões em filmes
como “O Exorcista” e “O
Uma interpretação de práticas de liberta- Exorcismo de Emily Rose”,
este baseado numa história
ção espiritual e exorcismo numa ótica multi- verídica, ocorrida na Alema-
disciplinar. nha com Annelise Michel,
uma jovem católica que jul-
Quem de nós já não ouviu falar de filmes gou-se ter sido possuída por
demônios e que foi subme-
como O exorcista (1973) ou, mais recentemente, tida a uma série de sessões
O exorcismo de Emily Rose (2005)? Ou, ainda, de exorcismo. O caso acabou
quem de nós já não ouviu falar de cultos de liber- tendo implicações jurídicas.

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de sua identidade pessoal, bem como sua liberda- to séculos atrás). São eles6:
de de pensamento e até de ação, ficando alienado
de si mesmo. Normalmente, uma possessão de- • O possesso deve falar diversas palavras
moníaca é acompanhada de um comportamento de um língua estranha ou entender o que
violento e destrutivo contra os outros e contra o alguém diz numa língua desconhecida.
ambiente, assim como contra o próprio indivíduo
“possuído”. • Deve ser capaz de relatar fatos secretos
Para que se levante a possibilidade de um ou acontecidos em lugares distantes.
diagnóstico positivo de possessão, é necessário
que um indivíduo apresente, de forma clara e
• Deve demonstrar forças que excedam a
significativa, uma série de sintomas, indicados sua idade e transcendam a possibilidade
na tabela a seguir, levando-se também em conta de que a natureza humana dispõe.
nesse diagnóstico a freqüência, a duração e a in-
tensidade dos sintomas. O filme Stigmata (1999), Diante desse tema, que desperta inúmeras
mesmo que não trate da questão da possessão, dúvidas sobre a sua etiologia, isto é, de onde sur-
traz cenas que praticamente sintetizam todos os gem e por que se manifestam as possessões nos
sintomas descritos neste texto, dando uma visão indivíduos, segue uma série de possíveis inter-
concreta (um pouco exagerada) do que aqui esta- pretações para o fenômeno, que transversalizam
mos tratando. a medicina e a religião.
É prudente afirmar, porém, que a ciência
já consegue provar que muitos desses sintomas
podem ser explicados à luz da fisiologia huma-
Doença, espíritos ou
na, como, por exemplo, em momentos de muita
tensão, extrema força e insensibilidade à dor em
apenas fraude? Diferentes
função de descargas de adrenalina. interpretações da possessão
Wegner, ao abordar essa temática, faz refe-
rência aos critérios que a Igreja Católica Apos- Interpretação bíblico-cristã – As Igrejas
tólica Romana levanta para indicar uma possível cristãs têm como fonte de suas doutrinas as Sa-
possessão, descritos no Rituale Romanum (escri- gradas Escrituras (Bíblia), de modo mais especial

Sintomas relacionados à possessão demoníaca5


Sintomas Físicos Sintomas Psicológicos Sintomas Espirituais
Força sobre-humana Clarividência Caráter (profanidade, nudez e lin-
guajar obsceno...)

Expressão facial alterada Telepatia Ameaça verbal ou física a tudo que


representa Cristo / Cristianismo

Mudança na voz (aspereza, Habilidade para prever o fu- Entra em estado de transe quando
zombaria, ronquidão...) turo alguém ora
A Relação Entre Fé e Saúde

Convulsões, prostração Habilidade para falar línguas incapacidade de confessar Jesus


estrangeiras desconhecidas de forma reverente
da pessoa possuída
Insensibilidade à dor Estado de transe Fenômenos poltergeist (p. ex.: ruí-
dos inexplicáveis, telecinésia, odo-
res desagradáveis
Mt 8.28; At 19.16; Lc 4.33; Mc At 16.16-18; Mc 1.21-24, At 13.4-11; Mc 5.1-5; Lc 9.41s; 1 Jo
O que diz a Bíblia 9.18-22; 5.1-5 34; Lc 4.33; 1 Sm 18.10; Mc 4.1-6; 1 Co 12.3; 1 Sm 18.10
9.18-22

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o Novo Testamento. A partir desse pressuposto, Interpretações sociológicas – As posses-


as religiões cristãs admitem a existência e a ação sões são vistas como comportamentos de protes-
de seres espirituais maléficos, chamados de de- to por parte de pessoas oprimidas, que não têm
mônios. Há muitos textos bíblicos que mostram condições de buscar ajuda de cunho profissional,
Jesus Cristo e também os seus discípulos expul- como médicos psiquiatras, psicólogos e outros
sando demônios. Há, porém, diferenças entre as terapeutas. Tais indivíduos encontram em igrejas
Igrejas cristãs tradicionais (Católica, Luterana, um lugar de livre expressão de sua condição de
Batista, Metodista, Presbiteriana etc.) e as pen- opressão e que serve também de espaço terapêu-
tecostais/neopentecostais (Deus é Amor, Univer- tico para elas.
sal do Reino de Deus etc.) no que tange à prática
Fenômenos catárticos – Uma outra inter-
de rituais exorcistas e à própria interpretação do
pretação, ligada à anterior, afirma que os fenô-
que pode ser considerado possessão demoníaca.
menos observáveis numa possessão nada mais
Logo a seguir trataremos desse aspecto.
são do que uma descarga externa de muita opres-
Interpretação desmitologizante – Baseia- são, violência e repressão, cuja expressão livre é
se na parapsicologia, que procura diferenciar favorecida pelo ambiente sugestivo do culto. São
fenômenos verdadeiros daqueles que não o são, os “demônios internos” de um indivíduo, o con-
desmascarando e desmistificando fraudes e tru- junto de muitas frustrações reprimidas, que são
ques. Os fenômenos verídicos podem ser produ- colocadas para fora, numa catarse individual e/
tos de uma mente perturbada, fruto de uma psi- ou coletiva.
corragia, isto é, uma energia mental que foge ao
Fraude – Uma das interpretações aponta o
controle voluntário humano, gerando fenômenos
fato de que algumas igrejas podem fazer uso de
paranormais que se fazem presentes no indivíduo
estratégias teatrais para gerar espanto e admira-
e no ambiente em que ele se encontra, tais como
ção do público, treinando indivíduos para se fa-
tiptologia, telecinesia, xenoglosia, glossolalia,
zerem passar por endemoniados. Pressupõe má-
clarividência etc. Essa linha de interpretação tem
fé e falta de ética de religiosos.
como representante conhecido no Brasil o padre
Oscar Quevedo. Não é possível, a priori, dizer qual das in-
terpretações é a mais acertada, até porque cada
Interpretações psicológico-psiquiátricas –
situação deverá ser analisada individualmente,
As possessões são interpretadas como casos de
podendo ser qualquer uma das propostas aqui.
transtornos mentais. A psiquiatria, ao descrever
as psicoses e as esquizofrenias, elenca uma série
de sintomas que se aproximam dos relatados nas
possessões espirituais, como delírios, alucina-
Visões religiosas
ções visuais, auditivas, táteis, entre outras. Pode-
mos ainda citar crises histéricas, dissociações de
diferentes da possessão
personalidade e até mesmo crises de epilepsia e Vamos examinar como as diversas religiões
convulsões, que, muitas vezes, foram e ainda são tratam do fenômeno, que, mesmo não sendo o
confundidas e interpretadas por alguns religiosos mesmo em cada uma delas, estruturalmente se
como possessões. O psiquiatra Rogério Zimpel mostra muito semelhante.
afirma que os transtornos dissociativos talvez se-
Religiões afro-brasileiras – Afirmam que
A Relação Entre Fé e Saúde

jam o grupo de perturbações mentais que mais se


confundam com os fenômenos espirituais, englo- os eguns, espíritos zombeteiros de pessoas fale-
bando o transtorno de personalidade múltipla (ou cidas, podem importunar ou atormentar os vivos.
dissociativo de identidade) e ainda o transtorno Nos cultos afro, diversas entidades também in-
de despersonalização. É importante afirmar que corporam (“ocupam”, “baixam”) nos indivíduos
ainda existe pouca literatura psiquiátrica e psico- (médiuns), porém essas entidades não são vistas
lógica que trabalhe simultaneamente com os dois como espíritos malignos.
paradigmas, a saber, o psíquico/científico e o es- Doutrina espírita (Allan Kardec) – Não
piritual/religioso.7 crê em demônios, mas em espíritos obsessores

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de “pouca luz”. Andrade_ define obsessão como


a ação persistente que um espírito mau exerce so-
A prática do exorcismo
bre um indivíduo, cujas características podem ir
desde uma simples influência moral, sem sinais
nos dias de hoje
exteriores perceptíveis, até a perturbação comple-
Há dois tipos básicos de exorcismo pratica-
ta do organismo e das faculdades mentais.8 Essa
dos nos dias atuais: o público e o privado.
obsessão pode ser de três tipos ou graus: a)obses-
são simples: o sujeito é perseguido tenazmente Privado – A pessoa atormentada é levada
pela ação mental de um espírito; b)fascinação: para um local reservado. Não há público ou pla-
mais grave, pois o espírito passa a controlar os téia. Os exorcistas (padres ou pastores) realizam
pensamentos e o raciocínio do obsedado, como o rito de exorcismo, que implica uma “guerra”
um processo parasitário; c)subjugação: há um entre o exorcista e o possuído, o que pode ser
domínio quase total do espírito sobre a pessoa, traduzido como uma batalha entre o próprio
moral e corporalmente. As formas de combater Deus (na pessoa de Jesus) e o demônio. São os
a obsessão são a prece, a fluidoterapia (passes e exorcismos praticados pelas Igrejas tradicionais
água magnetizada), a participação em reuniões (como a Católica), sempre após acurada investi-
mediúnicas de desobsessão e exercício constante gação psiquiátrica. A Igreja Católica, a partir do
do bem.9 Concílio Vaticano II (década de 1960), decretou
que apenas alguns sacerdotes poderiam expulsar
Religiões cristãs históricas/tradicionais –
demônios. Já no ano 2000 foi lançado pela Igreja
Admitem a possessão, mas após acurada inves-
Católica um manual oficial de exorcismo, bus-
tigação do caso, o que implica levantar todas as
cando-se regulamentar a prática desses rituais.
possíveis causas racionais para os fenômenos,
incluindo diagnósticos médicos e psicológicos. Público – Está presente em alguns cultos
Essas igrejas também diferenciam os conceitos evangélicos de cunho pentecostal (ou neopen-
de tentação, influência e possessão demoníaca. tecostal). São os chamados cultos de libertação
ou sessões de descarrego. Nesses cultos normal-
Religiões pentecostais e neopentecostais –
mente os demônios manifestam-se em várias
Afirmam que os demônios atuam intensamen-
pessoas, que são publicamente exorcizadas. Pode
te, sendo que todos os males físicos e mentais
ser observada nessas sessões a utilização de vá-
podem ser sinais de possessão demoníaca. Em
rios recursos como:
movimentos carismáticos, a possessão e o exor-
cismo são práticas “comuns”, fazendo parte do Trilha sonora: ouvem-se melodias leves na
cotidiano religioso. hora das bênçãos e acordes pesados quando se
mencionam demônios e espíritos malignos.
Islamismo – Também acredita em demô-
nios. Considera que Satanás e seus filhos, os Iluminação: na penumbra os fiéis ficam
anjos caídos, chamados de gênios, demônios e mais sugestionáveis. Pode-se pedir para fechar os
duendes, podem desobedecer a Deus e possuir o olhos.
corpo das pessoas. Tais espíritos maus precisam Figuração: o burburinho de pessoas rezan-
ser expulsos por meio do ritual em que se lê o do e gritando rebaixa os níveis de consciência de
Alcorão e se fazem súplicas pela libertação do fiéis suscetíveis (influência do meio).
possesso.
A Relação Entre Fé e Saúde

Roteiro: para evocar demônios, os pastores


Judaísmo – Acredita que espíritos de pesso- fazem orações repetitivas. Ditas em tom de au-
as que já faleceram (os dibbuks) podem atormen- toridade e num ambiente emocional, soam reais.
tar os vivos.
Coreografia: aperta-se e balança-se a cabe-
Hinduísmo – Desde os Vedas, textos an- ça/corpo do fiel em movimentos circulares. Ton-
tigos e sagrados dos hindus, já há menção dos tura e falta de apoio podem induzir ao transe.
chamados exorcismos medicinais, nos quais se
usavam mantras e frases objetivando conjurar e Sonoplastia: podem ser introduzidos grava-
expulsar os demônios. ções e sons que lembram assombração. Tais ruí-

101
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dos estimulam o inconsciente das pessoas10. pelos diferentes grupos, científicos e/ou religio-
sos.
Um aspecto que chama a atenção dos estu-
diosos das religiões é o fato de que a manifesta- Não queremos aqui emitir juízos de valor
ção dos demônios é quase inexistente nos cultos ou desconsiderar algumas das interpretações, até
e nas missas tradicionais (não pentecostais ou porque a verdade religiosa é uma questão subje-
carismáticos). Ao compararmos tais eventos com tiva, que implica fé e que transcende uma análise
as sessões de descarrego ou libertação, em que lógica e racional dos fatos.
prolifera a manifestação dos casos de possessão,
Muitas ainda poderiam ser as questões a
fica em aberto uma grande pergunta: por que há
serem discutidas dentro dessa temática, como,
essa grande diferença?
por exemplo, as possíveis conseqüências para
Entre as possíveis respostas poderíamos ci- os indivíduos que se submetem aos rituais do
tar: o clima sugestivo dos cultos de libertação, a exorcismo, bem como o efeito terapêutico ou
quase conjuração à manifestação das possessões neurotizante de tais rituais. Mas isso implicaria
nesses cultos e o estado psicoemocional do fiel um outro estudo, que não é o objetivo desta breve
que vai a uma sessão de descarrego. análise do fenômeno possessão.
Uma fala de um pastor batista no programa
Notas deste capítulo
Documento Especial, da extinta Rede Manchete,
no ano de 1989, talvez seja um bom pensamento 1
Psiquiatria na prática médica: A religiosidade e suas
interfaces com a medicina, a psicologia e a educação
final. Mesmo admitindo a possibilidade e a ação (Paulo LR Sousa, Ieda A Tillmann, Cristina L Horta e
dos demônios, ele afirma: “Eu acho que muitas Flávio M de Oliveira - Universidade Católica de Pelo-
igrejas estão se preocupando demais com os de- tas, RS, Brasil In: http://www.unifesp.br/dpsiq/pol-
br/ppm/especial07.htm.
mônios e se esquecendo do principal, que é Jesus
Cristo”.
2
Jornal Zero Hora, Caderno Vida, 16/12/2000.

É o anúncio do amor, do consolo, da pro-


3
Revista Veja, 08/12/1999.
teção em Deus que precisa ocupar o centro da 4
Psiquiatria na prática médica: A religiosidade e suas
mensagem cristã, e não insistentemente o medo interfaces com a medicina, a psicologia e a educação
(Paulo LR Sousa, Ieda A Tillmann, Cristina L Horta e
ao demônio. Como diz a Escritura Sagrada, Flávio M de Oliveira - Universidade Católica de Pelo-
tas, RS, Brasil In: http://www.unifesp.br/dpsiq/pol-
Se Deus está do nosso lado, quem nos ven- br/ppm/especial07.htm.
cerá?... Em tudo isso temos a vitória por meio 5
Cf. B. J. OROPEZ, 99 perguntas sobre anjos, demô-
daquele que nos amou. Pois eu tenho a certeza de nios e batalha espiritual. São Paulo: Mundo Cristão,
que nada nos pode separar do amor de Deus: nem 2000, p.131.
a morte, nem a vida; nem os anjos, nem outras 6
Apud WEGNER, Uwe. Demônios, maus espíritos e a
autoridades ou poderes celestiais; nem o presen- prática exorcista de Jesus segundo os evangelhos. In:
te, nem o futuro; nem o mundo lá de cima, nem Espiritualismo/espiritismo: desafios para a igreja na
América Latina. Org. Ingo Wulfhorst – São Leopoldo,
o mundo lá de baixo. Em todo o universo não há RS: Sinodal; Genebra, CH: Federação Luterana Mun-
nada que nos possa separar do amor de Deus, que dial, 2004, p. 126.7 TOURNIER, Paul. Op.cit., p.202.
é nosso por meio de Cristo Jesus, nosso Senhor. 7
ZIMPEL, Rogério. Fenômenos espirituais: a visão da
(Romanos 8.31, 37-39) psiquiatria. In: Espiritualismo/espiritismo: desafios
para a igreja na América Latina. Org. Ingo Wulfhorst –
São Leopoldo, RS: Sinodal; Genebra, CH: Federação
A Relação Entre Fé e Saúde

Luterana Mundial, 2004, p.79ss.


Conclusão deste 8
Presidente da Federação Espírita do Rio Grande do

capítulo
Sul entre 1998-2001.
9
ANDRADE, Nilton Stamm de. Espíritos e obsessão
conforme a doutrina espírita codificada por Allan
Voltamos a afirmar que tratar desse tema Kardec., p. 55-58. In: Espiritualismo/espiritismo:
desafios para a igreja na América Latina. Org. Ingo
exige prudência, sem abrir mão de um olhar crí- Wulfhorst – São Leopoldo, RS: Sinodal; Genebra, CH:
tico e interdisciplinar, respeitando-se sempre os Federação Luterana Mundial, 2004, p.55.
diversos pontos de vista e interpretações trazidos 10
Ibidem, p.56-7

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Cultura Religiosa

Arquivo ULBRAEAD
ÉTICA
Cada visão religiosa tem princípios que orientam a maneira de
pensar dos seus seguidores e, muitas vezes, isso influencia no julga-
mento do que é moral e ético.

Por Prof. Ronaldo Steffen

A
té aqui passamos por várias visões reli- Todo ser humano tem uma moral em razão
giosas e suas respectivas respostas para de que pratica ações que podem ser eticamente
as questões religiosas e existenciais. examinadas. Contudo, nem todos levam em con-
Cada uma, a sua maneira, segue o que denomi- ta quais são os princípios éticos que determinam
namos de filosofia de vida, os princípios ideais suas ações e, por isso, é fundamental avançar na
que normatizam o seu modo específico de pensar compreensão da ética.
Por vezes, no entanto, é difícil conciliar ide- Para refletir:
al e realidade. No campo religioso o problema
assume proporções ainda maiores, pois somos Tenho claro qual é o princípio ético que
inclinados a pensar que tanto o movimento reli- determina minhas ações?
gioso como seus seguidores são perfeitos e não
se desviam nunca de sua pregação. Não raro,
para indicar nossa indignação, usamos expres- Ética descritiva e ética
sões como “isso é uma imoralidade” ou, ainda,
“isso é antiético” normativa
De forma sintética, podem ser identificados,
Ética e moral com relação à ética, dois modos de percepção de-
nominados de ética descritiva e ética normativa.
As palavras ética e moral, embora usadas in- A ética descritiva retrata as noções éticas
diferentemente, possuem significados distintos. predominantes nas diversas culturas. Ao conside-
A moral se relaciona às ações, isto é, à conduta rar essas noções, não julga o que é certo e errado;
real. A ética diz respeito aos princípios ou juí- apenas descreve o que as pessoas pensam e como
zos que originam essas ações. Nessa dimensão, se comportam, sem emitir juízos de valor. Nor-
a ética e a moral são como a teoria e a prática. A malmente a ética descritiva pode ser observada
partir dessa constatação, é possível afirmar que a nas pesquisas de opinião que são feitas com as
Ética

ética é a teoria ou filosofia moral. pessoas no intuito de identificar seus pontos de

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É possível também pensar que alguns valo-


A ética normativa tem como res são apenas meios para se alcançarem outros
pressupostos alguns valores e, a valores mais desejados. Consideremos como
partir deles, fornece normas para exemplo o dinheiro: ele não tem valor intrínseco,
em si mesmo e por si mesmo, mas pode ser usado
as nossas ações.
para se obter algum outro valor só atingível com
o dinheiro.
vista sobre assuntos como sexualidade, aborto,
impostos, roubos, violência e outros. Um alerta Dois fatos podem, ainda, ser ressaltados. Um
se faz necessário: a ética descritiva pode gerar é o que aponta para o fato de que,ao tomarem de-
uma “moralidade estatística”, ou seja, a noção de cisões cotidianamente, os indivíduos priorizam
que aquilo que a maioria faz, deve estar certo. valores, mesmo sem terem consciência deles.
Outro é que, ao priorizarem valores, é comum
A ética normativa, por outro lado, procura que os interesses de uns contrariem os de outros.
mostrar quais ações são certas e quais são etica- Aquilo que é bom para um pode ser o infortúnio
mente inaceitáveis. Ela tem como pressupostos de outro. Quando isso acontece, ocorre o que de-
determinados valores e, a partir deles, fornece nominamos de egoísmo ético.
normas para as ações. Sua busca não é pelo que é
certo ou errado, mas pela idealidade do que deve Algumas tentativas de determinar o que tem
ser. Nesse sentido, os Dez Mandamentos, por valor e a justificativa adotada para validá-lo têm
exemplo, são ações de idealidade motivadas por sido feitas. A seguir, examinaremos algumas al-
uma ética normativa. ternativas teóricas (natureza dos valores).

Pensadores gregos e a ética


Valores SÓCRATES: ao buscar o desen-
Imagem 66: Wikipedia

volvimento do ser humano abre


Na Antiguidade, valor é o que deve ser obje- caminho para a reflexão sobre a
ética.
to de preferência ou de escolha.
Contemporaneamente, identificam-se três
aspectos no conceito de valor. Em primeiro lu-
Imagem 67: Wikipedia

ARISTÓTELES: entendia a Ética


gar, valor não é somente a preferência ou o objeto como uma ciência prática; esbo-
da preferência, mas é o preferível, o desejável, a çou reflexões sobre as virtudes
partir de uma expectativa normativa. Um segun- éticas.
do aspecto aponta que valor não é simples ide-
al que pode ser posto de lado pelas preferências
ou escolhas efetivas, mas é guia ou norma das
escolhas, sendo, por isso, o critério para um ju- Teoria emotiva
ízo. O terceiro aspecto remete à idéia de que va-
lor é a possibilidade das escolhas, privilegiando Os valores são determinados pelos sentimentos de
umas em detrimento de outras, repetindo sempre cada um.
a mesma escolha quando as condições determi-
nadas para a escolha ocorrerem e concedendo a Os defensores da teoria emotiva, identifi-
essas escolhas o caráter de autênticas e certas, cados como subjetivistas, entendem que todos
com pretensão à universalidade. os valores são relativos e individuais. O que de-
termina o que tem ou não algum valor repousa
Para refletir: simplesmente no fato de o indivíduo gostar ou
aprovar alguma coisa. A única justificação para
Quais valores mais e melhor preenchem um julgamento valorativo assenta-se em como
nossas preferências: dinheiro, carro, um indivíduo sente ou o quanto ele se envolve
lazer, saúde, liberdade, amizade, amor? com uma determinada situação. Dessa forma,
Ética

diferentes pessoas valorizam diferentes coisas, e

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todas com direito à sua opinião. Nessa categoria moral dos Dez Mandamentos, cujos valores re-
se enquadram tanto os existencialistas quanto os pousam sobre a autoridade de Deus, sendo por
lingüistas, pois defendem a relatividade dos va- isso universais, pode estar vinculada a essa pers-
lores individuais. pectiva.

Teoria do relativismo cultural Teoria do relativismo objetivo


Os valores são determinados pela cultura em que vive Os valores são determinados pelo amor, entendido
o indivíduo. como a melhor conseqüência e satisfação humana.

Conforme essa Essa teoria entende

Imagem 69: Wikipedia


Imagem 68: Wikipedia
perspectiva, o que é que o amor é o mais alto
certo ou errado está valor e, por isso, que-
determinado pela brar uma promessa por
cultura particular na razões egoístas é consi-
qual o fato ou a cir- derado errado. O amor
cunstância ocorre. O é tido como o mais alto
relativismo cultural valor não por ser uma
justifica os julgamen- regra moral absoluta,
tos valorativos ape- mas pelo fato de estar
lando à autoridade em jogo a produção das
social de uma cultura FREUD (1856-1939): melhores conseqüên- Carl Rogers (1902-
em particular. O certo suas teorias podem ser cias e da satisfação hu- 1987): sua teoria cen-
e o errado são sancio- enquadradas na Teoria mana a serem obtidas trada na pessoa reflete
do Relativismo Cultural. o espírito da Teoria do
nados pela sociedade. com uma determinada
Relativismo Objetivo
Enquadra-se nessa teoria a perspectiva adotada atitude.
por Freud, na qual o certo e o errado são idéias A denominação de relativa refere-se à noção
introjetadas a partir da sociedade e de nossos de que essa teoria defende que todos os valores
pais. A psicologia comportamentalista ou beha- dependem da satisfação humana. Ao mesmo tem-
viorista também pode ser incluída nessa teoria, po, é considerada objetiva por insistir no teste da
pois condiciona o comportamento dos indivíduos conseqüência a ser obtida, qual seja, a produção
aos valores sociais. do máximo de satisfação.
Estão enquadrados nessa teoria o utilitaris-
Teoria absolutista mo, o pragmatismo e as correntes psicológicas
defendidas por Erich Fromm, Abraham Maslow
Os valores são determinados por leis morais universais e Carl Rogers.
e eternamente verdadeiras.

Conforme essa visão, Teoria da escolha racional


Imagem 70: Wikipedia

identificada como objeti-


vista, o que tem valor inde- Os valores são determinados após uma escolha racio-
pende do que o indivíduo nal.
gosta ou pensa, bem como
do que uma sociedade san- A teoria da escolha racional nega a tese do
ciona. É uma teoria que se relativismo cultural sustentando que um determi-
opõe ao relativismo asseve- nado modo de vida é claramente melhor que ou-
rando que as leis morais são tro, se a escolha for determinada por um proces-
Na pintura de Rem-
universais e eternamente brandt: Moisés com so racional de escolha. É verdade que, em última
análise, é o indivíduo quem faz a escolha do que
Ética

verdadeiras, independen- as Tábuas da Lei - Os


te de qualquer coisa. A lei Dez Mandamentos é certo ou errado a partir do que sente ou prefere.

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No entanto, o mesmo indivíduo, por ser racional, pena de morte, da eutanásia, do pagamento de
deve reconhecer que os sentimentos são fidedig- impostos (como o de renda), do trabalho de me-
nos somente se forem livres, imparciais e frutos nores, da compra de produtos contrabandeados e
da informação. assim por diante. Há, ainda, o caso de profissio-
nais que se recusam a cumprir determinada fun-
ção em razão de sua consciência.
Consciência É possível relembrar muitos exemplos, mas
há um especial ocorrido em 2002. É o caso de
A consciência desempenha um papel impor-
um tratorista baiano e empregado de uma em-
tante no sentido de coibir ou incentivar a tomada
presa contratada para cumprir mandato judicial
de determinada decisão a partir de algum valor.
que determinava a derrubada de casas erguidas
Relativizando o conceito, consciência é a capaci-
numa área invadida. Diante de uma casa a ser de-
dade que temos de reagir ao certo ou ao errado a
molida, com a máquina ligada, o tratorista viu-se
partir daquilo que é o nosso mais alto valor.
tomado de dor pela senhora com seus filhos que
Algo que constantemente tem emergido e se postavam na frente da casa numa tentativa de
tornou-se ditado popular é que podemos fugir de impedir a demolição. Acabou por não executar
tudo, menos de nossa consciência. Aliada a essa a ação que lhe fora determinada e foi preso em
percepção, uma problemática se apresenta: de flagrante por desobediência à ordem judicial.
onde vem a consciência?
Tecnicamente, denomina-se desobediência
Há, pelo menos, três respostas a essa ques- civil o ato de uma pessoa ou grupo desafiar e in-
tão: uma que afirma ser a consciência inata ao fringir o direito positivo (o sistema jurídico acor-
ser humano; outra que diz ser ela imposta pelo dado) de maneira plenamente intencional (senso
ambiente externo, sendo o ser humano moldado de justiça).
pelas condições culturais externas, como pensam
a psicologia e as ciências sociais; uma última,
ainda, considera ser a consciência inata ao ser Responsabilidade
humano, apesar de receber informações externas,
agindo a partir destas, ou seja, ela pune as pesso- A questão da ética centra-se, também, no
as quando rompem as normas, mas não determi- senso de responsabilidade. A pergunta que cabe
na absolutamente essas normas. para discussão é a referente a por quem e pelo
que as pessoas se sentem responsáveis. A título
Uma questão em aberto ainda deve ser aqui
de reflexão, podemos falar em duas possibilida-
lançada : todos têm a mesma consciência?
des, que se completam, com relação à respon-
sabilidade: uma individual, em que o sujeito é
Direito positivo e senso responsável por si e pelo que o rodeia, e outra
coletiva, em que a sociedade é responsável pelas
de justiça ações que o sujeito não consegue fazer por si só.
O perigo que corremos é o de chegarmos
Essa é uma questão problemática, especial- a algumas circunstâncias em que nem o indiví-
mente em países marcados por desigualdades de duo, nem a sociedade assumem a responsabili-
toda ordem. É verdade que toda sociedade se ba- dade pelo que está acontecendo. Chama-se a esse
seia num determinado código originado por uma comportamento de diluição de responsabilidade.
ética que enfatiza a igualdade de todos. Violar
A alternativa mais viável quanto a esse tema
as leis do código implica a quebra da harmonia
é denominada de trabalho pela solidariedade,
social.
quando indivíduo e sociedade assumem suas res-
Podemos observar, no entanto, que nem sem- ponsabilidades.
pre o que cada um pensa sobre o certo e o errado
Descubra o porquê do surgimento das
corresponde às leis sociais. A título de exempli-
Ética

ficação, basta relembrar a questão do aborto, da


chamadas “ações solidárias”.

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Livre-arbítrio vida em sociedade.


Logo a seguir o quadro A procura comparar
O livre-arbítrio é o pressuposto segundo o sinteticamente os princípios, os meios e os fins
qual as pessoas possuem alternativas entre as da ética social e religiosa, apontando para as suas
quais podem escolher livremente o que é certo diferenças.
ou errado, bom ou ruim e assim por diante.
Há duas correntes que conduzem a discussão
do tema: uma é o determinismo, que defende que
Ética religiosa cristã
nossas escolhas são determinadas pelos elemen-
Como todos os pensamentos religiosos, o
tos externos, herdados dos pais ou do ambiente
cristianismo também possui sua perspectiva éti-
no qual vivemos. Nesse caso, o livre-arbítrio é
ca. É bem verdade que a diversidade do pensa-
apenas uma sensação. Outra corrente, a do inde-
mento cristão faz-nos entender que não há um
terminismo, argumenta que nossas escolhas são
único modo cristão de entender o tema.
fruto de vontade individual e nos tornamos o que
escolhemos ser. Respeitadas as diferenças, de uma forma ge-
ral, a abordagem religiosa cristã da ética não pode
Para refletir: fugir de sua centralidade: o Cristo, retratado no
Para acabar com a violência, é preciso Novo Testamento. Assim, a ética religiosa cristã
mudar as condições econômico-sociais pode ser sintetizada em dois fundamentos: um
que ressalta a centralidade cristocêntrica, enfati-
da nossa sociedade, pois elas é que
zando Jesus Cristo e sua ação de salvação como
determinam a escolha pela violência.
fonte de orientação ética e de poder de transfor-
mação, e outro que enfatiza a Bíblia, o Antigo e
Ética religiosa e social o Novo Testamento, como fonte e norma tanto do
ensino como das práticas cristãs.
Até aqui o texto privilegiou o tema da éti-
ca, contextualizando-o a partir de seus principais
conceitos. Na seqüência, o tema será estreitado,
Crítica externa
concentrando-se mais na perspectiva religiosa e
Em razão dessa postura, o cristianismo tem
cristã, oferecida como alternativa concreta para a
elaborado algumas críticas a sistemas éticos que

Quadro A - A Ética religiosa e social


Ética social Ética religiosa
Extraídos da convivência humana a partir das idéias Extraídos das doutrinas que fundamentam
filosóficas que traduzem os anseios e as expectativas a religião. São perenalistas por serem mais
Princípios

da sociedade. São situacionistas por serem flexíveis e rígidos e dificilmente admitirem mudanças
se adaptarem às mudanças históricas. Resultam do históricas. Resultam do amor.
anseio pela liberdade.
Partem do próprio sistema cultural sobre o qual A lei moral que busca determinar o que é
atuam as diversas instituições sociais (família, melhor para o ser humano.
Meios

escola, igreja, empresas, meios de comunicação,


partidos políticos etc.).
Atingir o bem comum. Por isso, é imanente, ou seja, Atingir o bem superior. Por isso, é transcendente,
restrita aos limites humanos, temporais e sociais. ou seja, projeta o ser humano para além deste
Fins

mundo material, buscando um sentido eterno


Ética

para sua vida.

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Quadro B: Crítica do cristianismo a sistemas éticos externos


Princípio Critíca Cristã
Hedonismo: o prazer é o critério maior. O bem É princípio que não leva em consideração os outros
é o que dá prazer e o mal é o que causa dor. A na sua versão individualista. Já na universalista, quem
linha individualista busca o prazer individual, e julgar sua ação digna de um be m maior para um
a linha universalista o bem maior para o maior maior número de pessoas encontra justificativa para
número de pessoas. sua ação.

Naturalismo: a Natureza é o princípio Como ficam os doentes, os fracos e os inválidos? O


válido para todos e em todos os tempos. A que vale é “o maior come o menor”?
sobrevivência é o bem maior a ser buscado, e
o que a dificulta deve ser eliminado.

Relativismo: cada situação é única. Não há A defesa da inexistência de verdades absolutas é uma
princípio experimental que defina o que é bom verdade absoluta.
e mau.

Esteticismo: o que entra em consideração não O princípio é imediatista, defendendo o aqui e agora,
é o ato em si, mas o resultado dele obtido. gerando a necessidade de auto-realização pessoal
Os sentidos e as emoções são utilizados ou grupal sem medir o ato em si e enfatizando uma
para dar significado à vida e transformar a existência limitada à historicidade humana.
insignificância em beleza.

Idealismo: é a busca de um ideal fora do A questão que pode ser contraposta à linha intuitiva é:
ser humano e da natureza. A linha intuitiva se o senso moral está na consciência, onde está ela?
reconhece que todos têm um conhecimento Para a linha racionalista, pode ser questionado: se o
intuitivo do que é certo e errado. A linha senso de dever se sobrepõe por meio do raciocínio,
racionalista enfatiza que o certo e o errado apenas os mais capazes é que estabelecem os
dependem do uso adequado do raciocínio. melhores deveres.

se baseiam em outros pressupostos. Confira o mana dentro de princípios movidos pelo amor e
quadro B. pelo desejo de proteger o ser humano dos perigos
morais. Pressupõe a livre aceitação dos princí-
Crítica interna pios cristãos, sem coerção.

Assim como faz com os princípios que lhe O amor como princípio
são alheios, o cristianismo também produz uma
auto-análise e identifica, com relação à ética, Destaca-se na linha pedagógica da ética re-
duas posturas comumente praticadas no seu inte- ligiosa o amor como elemento motivacional da
rior. Uma mais negativa, a legalista, e outra mais conduta humana.
positiva, a pedagógica.
Os significados que o amor apresenta na
Na linha legalista, a lei de Deus é vista de linguagem comum são múltiplos e quase sempre
forma inflexível, devendo ser cumprida em sua malcompreendidos em razão de pouco ou qua-
plenitude. Caso a pessoa não a cumpra, o infrator se nada se pensar sobre ele. Em geral, acredita-
só é redimido do erro mediante punição e peni- se que amor é um sentimento e como tal não se
tência. É prática coercitiva e baseada no medo. explica. A História da Filosofia, no entanto, tem
Na linha pedagógica, a lei de Deus é um mé- demonstrado diferente: o amor pode e deve ser
Ética

todo educativo que visa orientar a conduta hu- pensado. O fato hoje é que se desacostumou de

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pensá-lo. A idéia desenvolvida a seguir é a cons- indicado a seguir.


trução de um modo de pensar o amor a partir dos

Ética social cristã


pressupostos cristãos a fim de podermos compre-
ender por que ele é o fundamento maior da ética
cristã.
Os cristãos estão cientes de que hoje a maio-
Para definir o amor como fundamento éti-
ria dos cidadãos, dentro de suas liberdades indi-
co, o cristianismo costuma pensar o tema a partir
viduais, não fazem parte do cristianismo. Ainda
de três palavras gregas: eros, filia e ágape, cujos
assim, os cristãos entendem que seu modo de
significados gravitam em torno da palavra por-
perceber o universo e o ser humano pode contri-
tuguesa amor. Confira o quadro que segue para
buir para a instauração de relações sociais mais
entender qual o significado que o cristianismo
harmônicas e igualitárias.
atribui ao amor.
A base cristã para essa percepção encontra-
se no fato de todos os seres humanos serem filhos
Moral religiosa cristã criados e amados por Deus, em Cristo Jesus, e
que podem viver vida digna e harmoniosa, com
Para os cristãos, os Dez Mandamentos, mais justiça, paz, solidariedade e perdão, dentro de or-
do que serem um manual de comportamento hu- dens adequadas ao grupo de convivência.
mano e social, apontam uma sugestão de cumpri-
mento de papéis ou funções para o bom exercício Emergem dessa intenção dois modos, con-
do amor (ágape), enquanto aceitação que com- vergentes, de aplicar-se a ética social cristã. Um
preende e perdoa. incentiva o indivíduo a amar o próximo como a
si mesmo. Embora nem sempre se viva de acordo
Costuma-se dividir os Dez Mandamentos
com essa regra, há uma concordância generaliza-
em dois grupos: os mandamentos que se dirigem
da de que fazê-lo é um dever. Outro modo regra
a Deus (amar a Deus) e os que se dirigem ao pró-
as relações sociais e aponta para o princípio da
ximo (amar o próximo). Respeitados os grupos
que possuem uma divisão diferente, a tradição reciprocidade, incentivando o indivíduo a tratar
cristã luterana identifica os mandamentos como os outros como gostaria de ser tratado.

É toda e qualquer relação humana resultante da funcionalidade das sensações (sentidos físicos). Desse
modo, entende-se amor como força unificadora e harmonizadora, tanto sexual como política, resultante das
percepções dos sentidos físicos. Quando os sentidos funcionam em sua normalidade biológica, é possível falar
em sensualidade. Quando a normalidade biológica é quebrada, ficando fora de controle, fala-se em paixão.
Eros

Normalmente, identifica-se esse modo de amor com a sexualidade, tendo em vista que, ao sermos despertados
para alguém, nossa sensualidade descontrola-se e, se correspondida, somos conduzidos à paixão, que culmina
no completo descontrole dos sentidos, a sexualidade.
Amor nessa dimensão não se identifica com a base cristã para a ética.

É toda e qualquer relação humana resultante de atitudes concordantes e afetos positivos (solicitude, cuidado,
piedade etc.). O termo se assemelha às noções de afeição e amizade.
Filia

Nesse sentido, é possível afirmar que a dimensão do amor se dá 1) por escolha (é seletivo) e 2) por concordância
ou, se preferir, por concórdia, o que implica abrir mão de juízos valorativos condenatórios.
Amor nessa dimensão não se identifica com a base cristã para a ética.

É toda e qualquer relação humana resultante da ação de Deus e que se estende a todo “próximo”. Ágape se
caracteriza pela aceitação mútua. Nesse sentido, é possível falar que ágape é a disposição à igualdade verificada
Ágape

quando Deus, na criação, tornou o ser humano igual a Ele e quando, na redenção, Ele mesmo torna-se, em
Cristo, ser humano a fim de resgatar nossa dignidade pela compreensão e pelo perdão. Essa é a ação de Deus
Ética

em nós e que se estende, por nós, a todo “próximo”. Nós amamos porque Ele nos amou primeiro.
Amor nessa dimensão é a base cristã para a ética.

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Imagem 71: Wikipedia


ÉTICA SOCIAL
CRISTÃ
APLICADA
o cristão, aquele que age eticamente,
não apenas manifesta sua preocupação
com as pessoas e o universo, como tam-
bém não faz um ar de arrogante superiori-
dade como se o resto, além dele, não exis-
tisse.

Por Prof. Ronaldo Steffen

E
ssa preocupação que alimenta faz com
que busque na ética social cristã formas
de poder equilibrar as relações sociais de
modo que o seu próximo não perca a alegria de
viver nem cause dano à existência dos outros.
O compromisso da ética cristã é com a vida,
em sua plenitude. A seguir, apresentamos alguns
apontamentos que, de forma resumida e fugin-
do das informações exaustivamente tratadas pela
mídia, escrita, falada e televisiva, por teses e li-
vros, procuram apontar a ação desejada pela éti-
ca social cristã. “O BOM SAMARITANO”, a parábola de Jesus ilustrada
pelo pintor inglês George Frederic Watts (1904).

Amor-próprio As razões que não podem mover o amor-pró-


prio do cristão são: um amor-próprio por causa
Em tempos de grande valorização da auto- de si mesmo, pois é egoísmo; um amor-próprio
estima, auto-imagem, marketing pessoal, cuida- por causa dos outros, pois é negação de si mes-
do com o corpo e assim por diante, é prudente mo.
Ética Social Cristã Aplicada

tocar nesse tema, ainda que resumidamente. Com isso, coloca-se o problema do amor-
Pode um cristão ter amor-próprio? Como ser próprio não no amor, mas na razão que o produz.
criado e salvo por Deus, ele foi feito nova criatura
e recebeu, de graça, o favor de Deus. O ser hu- O amor próprio...
mano é visto por Deus como santo, bom. O cris-
• não por causa de si;
tão sabe disso. Sabe que recebeu o amor de Deus
para amar o próximo. Nesse sentido, o cristão • não por causa dos outros;
tem amor-próprio. É dele que emana o amor ao
• por causa de Deus, sim.
outro e a todas as criaturas divinamente criadas.

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A Profundidade da Nossa Separação


O homem está dividido dentro de si. o nosso instinto de auto-preservação. Na
A vida volta-se contra si própria através da nossa tendência para maltratar e destruir
agressão, do ódio e do desespero. Estamos os outros existe uma tendência, visível ou
habituados a condenar o amor-próprio; oculta, para nos maltratarmos e nos des-
mas aquilo que pretendemos realmente truirmos.
condenar é o oposto do amor-próprio. É
A crueldade para com os outros é
aquela mistura de egoísmo e aversão por
sempre também crueldade para com nós
nós próprios que permanentemente nos
próprios. Deste modo, o estado de toda a
persegue, que nos impede de amar os ou-
nossa vida é o distanciamento dos outros
tros e que nos proíbe de nos perdermos no
e de nós próprios, porque estamos distan-
amor com que somos eternamente ama-
ciados da Razão do nosso ser, porque es-
dos. Aquele que é capaz de se amar a si
tamos distanciados da origem e do objeti-
próprio é capaz de amar os outros; aquele
vo da nossa vida. E não sabemos de onde
que aprendeu a superar o desprezo por si
viemos nem para onde vamos. Estamos
próprio superou o seu desprezo pelos ou-
separados do mistério, da profundidade e
tros.
da grandeza da nossa existência. Ouvimos
Mas a profundidade da nossa sepa- a voz dessa profundidade, mas os nossos
ração reside, justamente, no fato de não ouvidos estão fechados. Sentimos que algo
sermos capazes de um grande amor, cle- radical, total e incondicional nos é exigi-
mente e divino, por nós próprios. Pelo do; mas rebelamo-nos contra isso, tenta-
contrário, existe em cada um de nós um mos fugir à sua urgência e não aceitamos
instinto de auto-destruição, tão forte como a sua promessa.
Imagem 72: Citador

O texto acima foi escrito in “És Aceite”, por Paul Johannes Oskar Tillich (1886–1965) foi
um teólogo alemão-estadounidense, um filósofo cristão. Tillich foi contemporâneo de
Karl Barth, um dos mais influentes teólogos protestantes do século XX. Fonte:Wikipedia

Responsabilidade social A ética cristã prescreve que, por amor, o


cristão deve cuidar:
• De si mesmo – prover as necessidades bá-
Cuidar do próximo não pode sicas para sua própria existência e de forma
perder a dimensão nem do físico, moderada;
nem do espiritual. • De sua família – prover o necessário para
a existência de crianças, idosos, dependen-
tes e órfãos que vivem na sua própria famí-
Ética Social Cristã Aplicada

A ética cristã estabelece que todo ser huma- lia ou nas famílias próximas;
no deve ser respeitado como pessoa (não se trata • De seus irmãos crentes – é histórico que
de coisa) e que toda pessoa, amiga ou inimiga, é o cuidado material que um cristão tem com
nosso próximo. Amar o próximo inclui necessa- o outro é revelador do quanto eles se amam;
riamente o cuidado com ele. Isso significa não
apenas proteger os inocentes, mas agir de modo
• Dos pobres – cuidar de seres humanos,
criados à imagem e semelhança de Deus,
proativo, com vistas ao bem-estar de todos. Cui-
desprovidos de recursos para uma vida mi-
dar do próximo aqui também não significa ape-
nimamente digna é abusar da própria di-
nas zelar pela sua espiritualidade, mas, sim e in-
vindade e de Sua natureza de amor;
clusive, pelas suas necessidades materiais.
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• Dos escravos e dos oprimidos – promo- • A manipulação de seres humanos –


ver e participar de movimentos que buscam O uso do princípio de manipulação gené-
erradicar toda e qualquer forma de escravi- tica poderá também ser utilizado em seres
dão e opressão é tarefa cristã nobre e divi- humanos com vistas ao aperfeiçoamento
na, assim como o sacerdócio; genético. Os riscos são imprevisíveis, e as
informações nesse campo são contraditó-
• Dos governantes – por entender que os
rias e quase nunca esclarecedoras.
governantes são, por assim dizer, o braço
direito de Deus que estabelece a ordem e a
paz no mundo, compete ao cristão prestar o
devido respeito a toda autoridade e não fu-
Casamento
gir de sua responsabilidade de pagar os im-
A ética cristã entende que o objetivo básico
postos adequadamente, pois é com eles que
do casamento é criar as condições para vivermos
os governantes podem oferecer vida digna
a plenitude da vida e ajudarmos uns aos outros.
a todos os cidadãos por meio de saúde,
Em vista disso, a família é considerada o centro
educação e segurança, entre outros fatores.
da vida, escola de aprendizado das virtudes cris-
tãs e espaço de construção de um ser humano que
Bioética dignifica Seu criador.
Alguns atributos importantes do casamento
Sim às pesquisas, desde que pro- são: é indissolúvel e vitalício (exceção se faz no
caso de adultério), além de monogâmico. A fi-
movam a vida e o bem-estar hu- delidade mútua é preceito que os casais cristãos
mano em todas as suas dimensões buscam cumprir por amor.
O amor no casamento revela-se de muitas
Como qualquer outra classe profissional, a formas: proteção, cuidado, compreensão, perdão,
classe médica também tem como compromisso respeito ao outro e a sua história, atividade sexu-
primordial a vida. Para isso, mais do que nun- al, afetividade, amizade, companheirismo, con-
ca há um aprimoramento nas pesquisas médicas, fiança, entre outras. Acrescentemos uma obser-
concentrando-se em especial na área da genéti- vação: no casamento não há espaço para o ciúme.
ca. O cristianismo não se opõe de forma alguma Ele não apenas inibe, mas destrói o amor.
às pesquisas que respeitam a vida humana e que
desenvolvem práticas de defesa da vida e estu- Aqui, como em outros casos, é preciso com-
dos que visam evitar a evolução de doenças, bem preensão por parte do cristão com todos os que,
como propiciar melhorias físicas e mentais aos por diversas razões, não conseguem desenvolver
seres humanos. as virtudes cristãs do casamento nem conseguem
até mesmo manter seu casamento e se separam,
buscando em uma segunda união a possibilidade
Duas situações complexas: de uma vida melhor.

• A manipulação genética de plantas e Para refletir:


animais – Parece-nos que isso já é feito
Imagem 73: Wikipedia

O ciúme inibe e
Ética Social Cristã Aplicada

numa escala muito maior do que possamos


imaginar. A alegação da melhora das espé- destrói o amor.
cies tem tido como fundamento, de forma Machado de Assis (foto
geral, razões de ordem econômica. É ver- de 1890) Em 1899
dade que os resultados dessas manipula- publica Dom Casmurro,
ções ainda não são exatamente conhecidos história entre Bentinho
e Capitú. Afinal houve
pela população como um todo, embora se
adultério de Capitú ou
fale em melhora das espécies genetica- apenas cenas de ciúme
mente modificadas. de Bentinho?

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Na temática do casamento, há uma contro-


vérsia candente: a da união de homossexuais. O IBGE: TAXA DE NATALIDADE NO
cristianismo entende que a família formada pelo BRASIL CONTINUA CAINDO
casamento é entre um homem e uma mulher. Os resultados da Pesquisa Nacional por Amostra
Aqui, também é preciso buscar a compreensão de Domicílios (Pnad) mostra que o país está enve-
de que nem todos são cristãos e as pessoas agem lhecendo. A taxa de fecundidade da população em
2006, de dois nascimentos por mulher, é a menor
movidas por razões diferentes. Ao Estado com-
já registrada pelo IBGE, caindo ao nível do limite
pete regular essas relações na medida em que da reposição. Assim como o número de filhos e a
percebe que é preciso tirar da ilegalidade tais re- parcela mais jovem da população apresentaram
lações e dar-lhes o caráter de legalidade. queda, a faixa de pessoas com 60 anos ou mais
cresceu em todas as regiões.

Controle da natalidade CADA VEZ MENOS FILHOS: Segun-


do IBGE, a taxa de fecundidade
Para cristãos casados: controle baixa a cada ano.
da natalidade. Para cristãos sol- 1940 6,2 nascimentos/mulher
teiros: castidade. 1950 6,2 nascimentos/mulher
1960 6,3 nascimentos/mulher
A fim de não causar nenhum mal-estar, é 1970 5,8 nascimentos/mulher
preciso fazer um registro: o tema do controle da 1980 4,4 nascimentos/mulher
natalidade dirige-se aos casados, uma vez que
1991 2,9 nascimentos/mulher
aos solteiros, ainda que em tempos de liberali-
dade sexual, a ética cristã prescreve a castidade. 2000 2,3 nascimentos/mulher

Os casados possuem plena liberdade de es- 2006 2,0 nascimentos/mulher


colha do método que irão utilizar para o controle PNDA 2006
da natalidade: controle dos dias férteis da mu-
lher, uso de preservativo, diafragma, espermicida
vaginal, pílula anticoncepcional a conselho mé- Inseminação
dico, vasectomia, laqueadura. Para o cristão, não
se admite como forma de controle da natalidade
O cristão evitará inseminação
a abstinência sexual. Uma advertência se faz com
heteróloga e o uso de mãe-de-
relação ao dispositivo intra-uterino (DIU): ele
age contraceptivamente, ou seja, quando já ocor-
aluguel.
reu a concepção.
Como nossa sociedade é plural e parte dela Não há muito o que discutirmos em relação
a esse tema se considerarmos a inseminação in
não segue os princípios cristãos, é necessário ha-
vitro e a fecundação obtida com óvulo e esperma
ver regulamentações para se evitarem os exces-
Ética Social Cristã Aplicada

do casal (inseminação homóloga). As dificul-


sos. Assim, entendemos que as pessoas precisam
dades no tema se acentuam, no entanto, quando
não apenas de informações capazes de as orien- levamos em conta a inseminação heteróloga, ou
tar, mas também de mecanismos capazes de lhes seja, que é realizada com óvulos ou espermas de
permitir uma vida minimamente sadia, física e pessoas que não são parceiros.
mental. Para as pessoas, solteiras ou casadas, que
No mesmo patamar de discussão está a ma-
mantêm relações sexuais casuais ou com cons-
nipulação de óvulo fecundado para ser recebido
tante troca de parceiros é recomendável o uso de
por uma mãe-de-aluguel, aquela que se prontifi-
mecanismos de controle da natalidade. ca a abrigar em seu útero o feto de outros pais.

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Arquivo ULBRAEAD
Como é feita a inseminação artificial:

É uma das alternativas médicas para realizar a


fecundação. Ela é adotada somente nos casos
em que há dificuldade para engravidar natural-
mente. Há dois tipos de inseminação: de esper-
matozóides e de embrião.

A inseminação de espermatozóide ocorre da


seguinte forma: no laboratório, o esperma é re-
tirado e logo após há uma seleção dos melho-
res espermatozóides, esses serão injetados no
útero da mulher no período da ovulação. Essa
forma de inseminação é utilizada nos casos em
que o homem não possui uma produção satis-
fatória de espermatozóides ou quando estes
não têm uma boa capacidade de locomoção.
Também pode ser usado quando o muco cer-
vical da mulher não permite a locomoção dos
espermatozóides na entrada do útero.

Já a inseminação de embrião ocorre da seguin-


te maneira: o óvulo da mãe é colhido, fecunda-
do fora do corpo (in vitro) com sêmen paterno
e recolocado no útero, gerando assim o bebê
de proveta. Essa técnica é utilizada quando a
mulher faz ligamento de trompas e depois se
arrepende ou quando tem endometriose.
Fonte: www.forum.brasilescola.com
Infográfico: Arquivo ULBRAEAD

Aborto outras perspectivas em que se aceita o aborto,


alegando a vergonha social de ser mãe solteira
O tema tem, recorrentemente, voltado à dis- e vítima de estupro, ameaça ao equilíbrio econô-
cussão. Para o cristão, está claro que o aborto é mico da família, possibilidade de o feto ter ano-
homicídio e por uma única razão: a vida começa malias ou razões semelhantes. Para essas pesso-
na concepção. Há, porém, outros que assumem as, pensamos que devam existir leis que regulem
Ética Social Cristã Aplicada
Imagem 74: Silent Scream

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Alguns países já tratam legalmente do tema.


o restabelecimento de ações sociais equilibradas,
Na Holanda, a legislação aderiu à eutanásia por
especialmente em razão da prática de aborto
solicitação de um paciente. Na Inglaterra, a justi-
clandestino.
ça já permitiu o pedido de eutanásia de uma pes-
soa tetraplégica. Nos Estados Unidos, o chamado
Mesmo não concordando com o “Dr. Morte” (auxiliava os doentes, por meio de
aborto, o cristão irá esmerar-se no uma máquina, a auto-administrarem uma dose le-
cuidado daqueles que o praticam. tal) cumpriu pena de prisão pelo uso da máquina
da morte. No Brasil, a discussão existe, mas não
há lei que regule o assunto.
Na relação com aqueles que são favoráveis A ética cristã é contra a eutanásia pela sim-
ao aborto, é importante registrar que o cristão ples razão de que a vida pertence ao seu criador,
deve respeitar a decisão pessoal do outro e ajudá- Deus.
lo a viver da melhor forma possível. O tema, no entanto, é complexo. Estaria en-
quadrada como eutanásia a suspensão de medi-

Eutanásia camentos, de alimentação ou de aparelhos para


sustentar de forma artificial uma vida aparente-
mente sem meios de voltar à normalidade? Pro-
O termo significa “boa morte”, “morte sere- longar artificialmente uma vida não seria impe-
na”, isto é, abreviar serenamente a vida de quem dir que o curso dado por Deus àquela pessoa siga
sofre doença incurável. seu termo?

Recomendação de leitura: Aqui, mais uma vez, cabe ao cristão evitar


o juízo condenatório, mesmo não concordando
com a prática da eutanásia.
Arquivo ULBRAEAD

Para refletir:
Tão importante quanto viver bem é
morrer bem!

Pena de morte
O espírito de vingança (“olho por
olho e dente por dente”) não cabe
nos princípios da ética cristã.

Embora já adotada em outros países, a pena


de morte é tema que volta sempre à tona entre
nós, especialmente em tempos de extrema vio-
Ética Social Cristã Aplicada

Bioética e eutanásia lência. Há dois grupos que discutem o tema: os


chamados legalistas, que exigem a pena de mor-
Autor: Gonzalo Miranda
te, e os pacifistas, que defendem outros mecanis-
A idéia de que alguém que deseja morrer pode ser mos como forma de penalizar criminosos.
auxiliado para que tal ato se concretize, é uma
posição que supõe ser o homem o padrão absoluto Tanto um grupo quanto o outro se esmeram
de sua própria vida. Mas esta atitude é eticamente em buscar razões capazes de justificar suas op-
aceitável? Este é o ponto central discutido neste ções. Quanto ao cristão, entretanto, que se aplica
livro. ao exercício da ética cristã, sua posição é con-

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Arquivo ULBRAEAD Mapa da pena de morte no mundo:

Fonte: Wikipedia

trária por entender que Deus é o Senhor da vida divina e compete ao filho de Deus conservá-lo.
e da morte, que mesmo criminosos são alvos do Buscar a preservação do universo é manifestação
amor de Deus e merecem ser vistos como “o nos- do amor, como princípio ético. A conservação
so próximo” e, ainda, que por eles devemos zelar. só será possível com mudanças de rumo do ser
humano. Deixar de lado a cobiça e o egoísmo é

Ecologia imprescindível.
O cristão concentra sua luta ecológica no
controle da maldade humana: o grande destrui-
Usar a natureza, sim!Abusar dor da harmonia cósmica. A ética cristã não leva
da natureza, não! o cristão a ser contra o uso da natureza, e sim
contra o abuso que a maldade humana promove
O reino de Deus inclui todas as suas cria- contra a natureza e, por conseqüência, contra toda
turas, inclusive o cosmos. O universo é criatura a humanidade e o universo, criaturas divinas.

Mapa da intervenção do homem na natureza:


Arquivo ULBRAEAD

Ética Social Cristã Aplicada

Fonte: Portal Caiu a Ficha

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