Você está na página 1de 17

http://quintaessentia.com.

br/category/artigo/

DIFERENÇAS ENTRE FLAUTAS DE


RESINA E FLAUTAS DE MADEIRA

“A diferença é que uma é de resina e a outra é de madeira!”


Esta não é a única diferença, pois se fosse apenas pelo material,
não haveria uma diferença tão gritante na qualidade entre elas,
afinal a flauta é um instrumento de sopro com tubo de paredes
largas. Mas o que faz com que as flautas de resina sejam tão
inferiores?

Principais diferenças:
1 – Material
Vamos começar pelo material, o que é a diferença mais
óbvia: as flautas de madeira possuem o bloco de madeira,
enquanto as flautas de resina possuem bloco de resina (ou
algumas delas nem possuem bloco, pois a cabeça é feita em
uma única parte). O bloco da flauta é construído em uma
madeira muito porosa e macia, geralmente cedro rosa, e é
responsável pela absorção das gotículas de água que se formam
com o contato do ar quente quando tocamos, evitando assim,
que a flauta fique entupida. Em uma flauta de resina o bloco não
absorve água, e por isso a flauta entope com muito mais
frequência.
Há outra característica da resina ou plástico que é muito
importante de mencionar: a sua estabilidade com o tempo.
Geralmente pensamos que o plástico é um material inerte e
estável, que não sofre alterações com o tempo. Este
pensamento é falso. Os instrumentos de plástico sofrem
alterações em sua geometria com o tempo por duas razões:
envelhecimento e ataque químico. O envelhecimento pode ser
constatado em qualquer objeto de plástico mais antigo, em cerca
de 4 ou 5 anos o plástico começa a perder sua elasticidade e
suas qualidades mecânicas, quebra com facilidade e se
deforma. O ataque químico é mais difícil de constatar, porém um
amigo engenheiro percebeu uma alteração no som de uma flauta
de resina e removeu o bloco para uma avaliação, foi quando
percebeu grande deformidade em sua superfície, causado pelo
ataque químico da saliva, depois de alguns anos, sobre o
plástico do bloco.
Sendo assim, uma flauta de plástico ou resina deve durar
alguns anos, mas após este período, iremos notar uma grande
degradação na qualidade sonora. Já uma flauta de madeira, se
bem cuidada, dura muito mais que 30 anos – existem algumas
flautas em museus com mais de 400 anos e muitos artistas as
preferem quando comparadas aos instrumentos novos de
excelentes luthiers.
2 – Método de construção
As flautas de resina são construídas por injeção da resina
em um molde, enquanto a madeira não pode ser “injetada”, e por
isso é torneada e moldada pelas mãos de um artesão com, ou
sem, ajuda de máquinas automáticas. Para que possam ser
construídas por injeção, as flautas de resina precisam ter a sua
geometria alterada, o que altera as suas características sonoras.
Quando a flauta sai do molde, ela não tem as mesmas
dimensões do molde pois o plástico se “retrai” no processo de
esfriamento, desta forma nenhum instrumento de plástico ou
resina tem as medidas internas que deveriam ter para uma boa
qualidade sonora. Obviamente o fabricante sabe disso e
compensa as medidas do molde, mas estas alterações não são
uniformes. O ideal seria fazer o molde maior do que o desejado,
e um artesão dar o acabamento uma a uma, mas isso
simplesmente não é feito pois a prioridade é o custo e não a
qualidade, para que você compre um instrumento bem barato.
Também percebemos que as flauta de madeira podem ter
qualidade superior ou inferior do que as flautas de plástico,
dependendo do artesão e do processo automático no corte da
madeira, que influencia diretamente na precisão das medidas,
no acabamento, na sonoridade e na afinação.
O “undercut” é o furo que é mais cavado
dentro do tubo que fora do tubo. A imagem mostra as diferenças entre o furo reto e com
undercut.

3 – Detalhes construtivos
Boas flautas doces possuem alguns detalhes construtivos
importantes para a boa projeção sonora. São eles: a) canal
curvado, b) lábio curvado, c) “undercut” nos furos, d) bloco de
cedro, e) tubo interno ou “bore” afunilado (não é cônico perfeito),
f) bloco cavado (a sua superfície não é uma reta), g) outros
detalhes como o chanfro do bloco, chanfro do teto do canal,
formato do lábio, etc. De todas estas características, apenas a
primeira – canal curvado – é oferecida em alguns modelos de
flautas doces de resina (devo citar que a única flauta de resina
que conheço disponível no Brasil com canal curvado é a série
300 da Yamaha), e todas as outras características que são muito
importantes em uma flauta de boa qualidade simplesmente não
existem em flautas de resina de fabricação em massa, feitas em
fábricas (como Yamaha, Aulos e Zen-on),
Diferentes padrões de tubo interno para diferentes modelos de flautas doces

pois não é possível manter estas características em uma linha


de produção de flautas feitas em moldes de injeção. Além disso,
mesmo as flautas de madeira de baixo custo também não
oferecem parte destas características, e por isso volto a frisar
que nem todas as flautas de madeira são boas o suficiente,
sendo algumas delas até mesmo piores (e quase sempre mais
caras) do que as melhores flautas de resina.
4 – Outras diferenças
Como já mencionei, a condensação no canal é resultado
de 4 parâmetros do “voicing” da flauta: a aerodinâmica, a textura
da superfície, a tensão superficial e a temperatura. Três destes
fatores estão relacionados à construção do instrumento, e
apenas a temperatura é relacionada ao flautista, e as flautas de
resina geralmente não possuem os três primeiros parâmetros
adequados para evitar a condensação.

Conclusão / Dicas
 Flautas de resina são voltadas aos estudantes, pois têm a
sua construção simplificada para obter baixos custos de
produção, porém isso degrada a sonoridade;
 Em instrumentos de sopro de parede grossa (como a flauta
doce), o material do instrumento influencia menos no som
do que a sua construção;
 Nem todas flautas de madeira são melhores que boas
flautas de resina;
 Bons instrumentos custam mais caro pois são muito mais
complexos de se produzir;
 Algumas características necessárias em um bom
instrumento não podem ser feitas por máquinas
automatizadas. Somente um artesão ou luthier poderá
produzir instrumentos de primeira qualidade;
 Se você busca uma flauta de baixo custo, não compre nada
menos que a yamaha barroca da série 300, pois esta é a
única que possui canal curvado;
 Se você busca uma flauta de madeira, não compre flautas
voltadas para estudantes, pois estes instrumentos podem
ser piores que uma flauta de resina. Procure flautas ‘cópias’
de modelos históricos (Denner, Stanesby, Bressan,
Steenbergen, Hotteterre, Ripert, Terton, Ganassi,
Bassano, etc), ou então, os modelos profissionais ou semi-
profissionais de cada fabricante;
 Em flautas de madeira de fábrica, dê preferência para as
madeiras mais nobres (Boxwood Europeu, Grenadilla,
Oliva), pois como estas são mais densas, mais duras e
mais caras, os fabricantes têm um controle de qualidade
muito melhor nestes instrumentos.
A FLAUTA GERMÂNICA

Muita gente pergunta qual flauta doce é “melhor” ou mais


adequada: a barroca ou germânica. Quero esclarecer com este
artigo as razões para não utilizar a flauta germânica, nem com

Barroco Germânico

A nota fá tem dedilhado de forquilha A nota fá tem dedilhado simplificado

Notas como Fá # e Sol # tem Estas notas tem dedilhado mais complexo,
dedilhado mais simples e geralmente são desafinadas

A flauta possui sonoridade mais Sonoridade desequlibrada, e


equilibrada, e timbre mais aveludado afinação ruim

crianças, nem com adultos. Primeiro vamos às diferenças:


Podemos perceber logo de início que aquilo que pode
parecer uma vantagem na flauta germânica (o dedilhado da nota
fá “facilitado”) traz consequências sérias na sonoridade de todo
o instrumento, tanto no que concerne à afinação, quanto
ao timbre, quando comparados à flauta barroca que é muito
melhor.
E para quem trabalha com crianças, a flauta germânica
pode inclusive prejudicar o seu desenvolvimento musical.
Quando analisamos a facilidade com que as crianças aprendem
nuances sonoras sutis, como por exemplo o sotaque de sua
língua materna, podemos imaginar o quanto seu
desenvolvimento musical pode ser prejudicado quando esta
criança usa um instrumento sabidamente desafinado. Ao usar
este instrumento ruim, ela aprende que o desafinado é afinado
e, assim, deixará de perceber os intervalos corretamente.
Um pouco de história
Em meados de 1920 – 1930, quando a flauta doce estava
começando a ser pesquisada depois de um longo período
esquecida, um alemão que tocava flauta transversal teve contato
com uma flauta doce histórica, produzida no séc. XVIII, ou seja,
uma flauta barroca. Ao tentar tocar esta flauta, percebeu que a
nota fá não era “afinada” como ele esperava, mas ele não se deu
conta que o dedilhado desta nota na flauta doce era diferente do
dedilhado que ele já estava acostumado na flauta transversal.
Como ele sabia construir instrumentos, alterou o diâmetro dos
furos para que o fá pudesse ser tocado conforme ele já estava
acostumado. Desta forma nasceu o dedilhado germânico (ou
alemão).
Algumas pessoas argumentam que ele sabia exatamente
o que estava fazendo, pois tinha interesse em facilitar o estudo
do instrumento para crianças que estudavam flauta doce e que
assim pudessem mudar de instrumento e tocar flauta
transversal, clarineta ou oboé no futuro, porém este argumento
é muito fraco pois, embora sejam parecidos, cada um destes
instrumentos têm dedilhados diferentes.
A mudança no diâmetro dos furos trouxe uma mudança
acústica nas novas flautas [germânicas], que quando
comparadas com as flautas barrocas, têm o timbre mais claro e
áspero além de geralmente desafinadas, enquanto as barrocas
costumam ter som mais homogêneo e escuro, e mais afinadas.
Podemos também dizer que isso afetou a estabilidade das
notas, que é bastante ruim nas flautas germânicas e muito
melhor nas barrocas, isto é, as germânicas “guincham” com
muito mais facilidade que as barrocas.
Além das mudanças no som, isto trouxe outras
complicações: ao alterar os furos para facilitar a nota fá, o
dedilhado de outras notas também mudou. Tanto o fá # como o
sol # tiveram seu dedilhado alterado para algo mais complicado.
Como distinguir uma flauta germânica da
barroca?

Encontrei a imagem acima no site da Yamaha, mostrando


como distinguir uma flauta barroca (à direita) de uma germânica
(à esquerda). Uma mudança aparentemente pequena no
instrumento, mas que causa uma grande mudança na qualidade
sonora.
“Ainda bem que o dedilhado germânico nunca foi largamente
utilizado fora da Alemanha, Áustria e Suíça. Mesmo nestes
países, as flautas germânicas tem sido deixadas de lado nos
últimos 50 anos devido ao aumento da percepção das falhas
acústicas destes instrumentos. Relativamente, são
pouquíssimos professores que continuam a usar estes
instrumentos. Alguns fabricantes europeus, que no passado
faziam flautas com ambos os dedilhados, nos últimos anos
reduziram a produção dos instrumentos germânicos, e apenas
disponibilizam flautas germânicas em um ou dois modelos mais
baratos e voltados apenas para estudantes iniciantes”.
Trecho retirado do artigo
“Sistemas de dedilhados na flauta doce – o bom, o mau e o
feioso”
fonte:
http://www.aswltd.com/finger.htm
Tradução: Gustavo de Francisco
Até agora, falamos apenas de argumentos técnicos e
musicais, mas e o preço das flautas? Pois bem, eu pesquisei em
lojas virtuais, e não existe diferença de preço entre as flautas
barrocas e germânicas. Se o preço é o mesmo, não há razão
para comprar flautas germânicas, pois estas são piores em
todos os sentidos.

Resumo
A flauta germânica tem a nota fá “simplificada”, mas para
isso tem seu som piorado e outras notas mais complicadas
quando comparada com a barroca. Se pretendemos fazer
música boa aos nossos ouvidos, precisamos procurar o melhor
som possível, por isso devemos deixar de lado qualquer
instrumento que não seja adequado a este objetivo. Se a flauta
barroca tem som melhor e mais afinado que a
germânica, devemos escolher a barroca, sempre.

Outras curiosidades
Além do dedilhado barroco (inglês) e o dedilhado germânico
(alemão), existem flautas doces com outros padrões de
dedilhados. O que chamamos hoje de dedilhado barroco, é o
dedilhado mais próximo do que era usado nas flautas doces
barrocas, ou seja, as flautas produzidas nos séc. XVII e XVIII,
porém estas flautas históricas geralmente tinham os furos
menores, de forma que algumas notas tinham dedilhados
diferentes dos padronizados hoje em dia.
Podemos separar então os dedilhados em 4 grandes categorias,
sendo as duas primeiras as mais comuns encontradas nas
flautas de fábrica, mas é importante saber que existem flautas,
geralmente feitas por luthiers, que usam outros tipos de
dedilhado:

 Germânico (ou alemão) – adaptação moderna alemã do


dedilhado barroco histórico.
 Barroco (ou inglês) – adaptação moderna inglesa do
dedilhado barroco histórico. É aceito como padrão mundial
hoje em dia.
 Barroco histórico – encontrado nas flautas históricas
barrocas ou cópias destes instrumentos (Hotteterre,
Denner, Bressan, Rotemburgh, etc). O dedilhado varia
ligeiramente de instrumento para instrumento.
 Renascentista – encontrado nas flautas históricas
anteriores a 1650, modelos praetorius, bassano, kynseker,
etc. O dedilhado pode variar de instrumento para
instrumento.

É possível consultar o dedilhado de vários modelos de flauta


doce no site www.recorder-fingerings.com.

FLAUTA DOCE NAS ESCOLAS

Sempre que vejo boas performances usando a flauta


doce, me questiono sobre a minha prática e sobre o que posso
fazer ainda melhor. Muitos irão dizer que as coisas são
diferentes nos países orientais, mas eu respondo com outras
perguntas: O que é diferente? Será que as crianças são
diferentes? Será que os professores são diferentes? Ou será
que a postura dos professores é diferente?
O trabalho de flauta doce em escolas regulares pode ser
feito com qualidade, basta que o professor tenha objetivos
claros, e saiba usar as ferramentas didáticas corretamente.
Esta é a orquestra de flauta doce da escola primária de
Taichung, em Taiwan. Estes não são alunos de escolas de
música, mas de uma escola regular com aulas de música.
O que podemos fazer para mudar a situação no Brasil, e
alcançar resultados como os apresentados no vídeo?

As dificuldades nas escolas


Todos nós, amantes ou professores de música, sabemos
das dificuldades enfrentadas nas escolas em todo o território
nacional. São mais de 30 alunos por sala, em algumas escolas
chegam a 40 ou 45 alunos, muitas vezes o crime permeia todo
o ambiente escolar e também o ambiente familiar dos alunos. A
falta de recursos para compra dos ítens mais básicos como um
caderno, livros e a própria flauta usada nas aulas, e também a
falta dos recursos éticos, morais e sociais, como o apoio dos
diretores das escolas, e da classe política para que possamos
fazer o nosso trabalho bem feito.
Muitos irão falar das dificuldades para ensinar flauta doce
numa cidade do sertão nordestino, ou mesmo nas periferias das
grandes cidades Brasil afora. Conversando com alguns
professores a respeito disso, já ouvi muitas histórias de alunos
que tiveram os pais assassinados pelo tráfico de drogas, outros
alunos que trabalham para o tráfico e que não desejam e nem
têm a possibilidade de sair disso, pois seriam assassinados
também. Pois bem, teria uma infinidade de histórias para contar,
que iria comover o mais duro dos homens mas não traria solução
alguma ao problema apresentado: a (falta de) qualidade do
ensino de música, especialmente de flauta doce, nas nossas
escolas.

A observação
Muito podemos aprender, apenas observando o que
acontece ao nosso redor, e pesquisando o que acontece em
outros lugares procurando conexões entre realidades diferentes.
Pensemos no que aconteceu no Japão. O que era o Japão
em 1945 logo após vários bombardeios, duas bombas atômicas
e o flagelo da guerra? O país estava completamente destruído.
E o que é o Japão hoje, 70 anos após a guerra? Podemos fazer
a mesma pergunta sobre a Alemanha, que também estava
destruída em 1945. Quais foram os valores da sociedade que
foram decisivos nesta mudança? Quem de fato promoveu esta
mudança? Em ambos os países, foi a educação que promoveu
as maiores mudanças na sociedade.
Voltemos nossos olhos agora para o Brasil. A nossa
realidade é dura, a pobreza e a desigualdade é parte de nosso
dia a dia, o crime e as drogas estão por todo lado. Quando olho
para o passado, não posso afirmar que esta situação é nova,
pois desde criança vejo pessoas pobres nas ruas em todas as
regiões do Brasil, e o crime sempre existiu.
Se compararmos as duas situações, entre uma situação de
pós-guerra, e uma situação de desigualdade extrema com altos
índices de criminalidade, eu sou incapaz de dizer qual situação
é pior, mas posso afirmar que ambas são terríveis. E também
posso afirmar que tanto o Japão quanto a Alemanha
conseguiram resolver seus problemas, e que podemos aprender
com isso, mudando nossa atitude no nosso dia a dia, perante
nossos colegas de trabalho, pais, alunos e na comunidade em
que nos inserimos.
Observemos, e busquemos no vídeo o que os alunos estão
fazendo:
– Todos os alunos estão tocando com boa/excelente postura
corporal;
– Todos estão articulando todas as notas corretamente;
– Todos aprenderam a controlar o ar
– Som bonito e afinado é prioridade, não adianta apenas fazer
os dedilhados e assoprar de qualquer maneira;
– Há uma hierarquia entre professor/aluno (os alunos olham
para o maestro ao tocar);
– Todos estão usando flautas barrocas;
E quando observamos as aulas e apresentações de flauta doce
em escolas no Brasil, eu geralmente percebo em maior ou menor
grau:
– Má postura corporal e muitas vezes mãos trocadas (mão
direita em cima e mão esquerda embaixo);
– Alunos não sabem articular as notas;
– O dedilhado é mais importante do que o som;
– Como o som não é importante, os alunos assopram de
qualquer maneira;
– São usadas flautas germânicas, e muitas vezes, de
brinquedo;
Claro que podemos encontrar inúmeras diferenças além dessas.
Foquei aqui nos princípios básicos para começarmos a
desenvolver um bom trabalho no Brasil, procurando minimizar a
dependência entre o trabalho do professor e a atuação do
Estado e do governo.
Os valores, o respeito com o professor e a
flauta doce
Problemas existem, e não se resolvem de uma hora para
outra. Mas quais seriam as soluções? E quais dessas soluções
estão ao alcance de cada um de nós, professores?
Com a observação, temos uma idéia do que deve ser
trabalhado desde a primeira aula. Ensinar articulação, controle
do ar, boa postura e buscar um som bonito são as coisas mais
básicas possíveis para quem deseja usar a flauta doce como
instrumento musicalizador. A respeito da hierarquia, eu costumo
dizer que respeito eu dou, e exijo; é inaceitável que um aluno
desrespeite o professor, e isso deve partir da postura de cada
professor.
Há que se comentar que devemos sempre usar a flauta
barroca para obter um som bonito e afinado. Isso é
impossível em uma flauta germânica (Ler artigo “A flauta
germânica”). Sempre recomendo aos alunos a flauta barroca
da série 300 da yamaha, dentre as flautas mais baratas esta é a
que tem a qualidade mínima para conseguir um bom resultado
sonoro, qualquer coisa mais barata será apenas um brinquedo
com formato de flauta doce.
Vejo tantos professores que se orgulham de mostrar os
próprios alunos tocando com as mãos trocadas, sem fazer
articulação, sem postura, em suma, sem o menor respeito pelo
próprio trabalho, e nem percebem que tudo isso se volta contra
eles. Fazem mais mal que bem, pois os alunos percebem que
as aulas são dadas de qualquer maneira, e com o tempo, todos
estes alunos passam a ver a música e a flauta doce como algo
de pouca importância, que ser músico não é uma profissão
digna, e nem mesmo a percepção musical e musicalização são
feitas a contento. E como faltam boas referências, até mesmo os
trabalhos mais incipientes algumas vezes são tratados como
exemplares. Uma pena.
Como não temos como mudar as prioridades do governo,
temos que aprender a melhorar nossas aulas, e ensinar à classe
política que o conhecimento e a educação podem mudar o país,
apesar deles.
Apenas a este respeito, poderemos ensinar e exigir dos
alunos uma boa postura, a correta posição do instrumento, o
controle da respiração, a articulação, a afinação, e nunca use a
flauta germânica!. Isso é o mínimo!
Aceitar que seus alunos toquem com má postura, posição
errada das mãos e outras coisas que vimos tão
corriqueiramente, só mostra que o problema não está nas
instalações da escola, no salário ou na quantidade de aulas por
semana, mas apenas naquilo que o professor elege como
prioridade. Respeite os seus alunos, entregando a melhor
qualidade de ensino possível a eles, os alunos são o legado que
o professor deixa ao mundo! Se deixar que eles aprendam
errado, isso causará um mal por toda a vida, e perderá a chance
de ensinar RESPEITO, MUSICALIDADE e SENSIBILIDADE
através dos detalhes.
Justificar o mal desempenho dos alunos com os problemas
encontrados não vai fazer ninguém melhorar. Professor deve
oferecer soluções, por mais difícil que isso seja.

Quinta Essentia e seu trabalho nas escolas


Comecemos por buscar formação. Isso só cabe a nós,
professores. Nenhum governo dará isso de graça. O segundo
passo é ter respeito pela própria profissão e pelo
instrumento, flauta doce não é brinquedo didático, é um
instrumento musical. Para fazer de qualquer jeito, o professor
não é necessário. Fazendo isso, o pior prejudicado é o próprio
professor.
A música como uma linguagem
Ao enfrentar uma dificuldade no ensino de música, lembre
que a música é uma linguagem, e como tal, deve comunicar
algo.
Quando aprendemos a falar a nossa língua mãe, nossos
pais repetiam inúmeras vezes cada palavra, sempre respeitando
nosso tempo de aprendizado, e sempre acreditando que em
algum momento iríamos falar. Nenhum pai duvida da
capacidade de seu próprio filho para falar. Além disso, primeiro
aprendemos a falar e, somente após estarmos completamente
fluentes na fala, começamos a aprender a ler e a escrever.
Nenhum pai ao ensinar o filho a falar ensina palavras erradas
para depois corrigir o filho.
Comparando ao ensino de música, geralmente fazemos
tudo errado. Ensinamos primeiro a ler e escrever música, para
apenas depois aprender a tocar. E ao tocar, damos prioridade
pela contagem de tempos e por dedilhados corretos do que ao
som produzido. Se compararmos com a fala, seria o mesmo que
ensinar bebês a escrever antes de falar, e ao falar, pedir a eles
a contar o número de sílabas e pronunciar cada palavra como
um robô, sem nenhum sentimento ou intonação que facilite a
comunicação. O pior é quando trocamos os nomes de notas por
números, símbolos ou cores, que é o mesmo que ensinar errado
para corrigir depois. Não há razão para fazer o trabalho duas
vezes.
Desta forma, fica claro a razão por resultados tão pobres
em nossas escolas.
Assim como uma língua, a música também possui suas
“regras gramaticais”, isto é, a técnica envolvida na performance,
que nunca pode ser desprezada. Mesmo antes de aprendermos
gramática na escola, já sabemos falar corretamente, conjugar
verbos, colocar as preposições nos lugares corretos, formar
frases complexas, brincar com o material. Só brinca com o
material quem o conhece bem. Nunca desprezemos a técnica
no ensino de música, mas devemos fazer conforme a
necessidade, tendo o resultado sonoro como objetivo principal.
Shinichi Suzuki ensinando

Um grande educador musical, que foi inclusive amigo de


Albert Einstein chegou a esta conclusão de que a música é uma
linguagem, e que pode ser ensinada desta maneira com
excelentes resultados. O nome dele é Shinichi Suzuki, e com
isso, ele criou o Método da Educação do Talento, ou Método da
Língua Materna, ou mais conhecido aqui no ocidente como
Método Suzuki.

Conclusão
Depois de assistir o vídeo acima com outros professores,
ao invés de justificativas a respeito do trabalho no Brasil, eu
adoraria ouvir dos professores: Se ele pode, eu também posso!
Vou pesquisar e ver o que este professor faz para ter tantos
alunos que toquem bem. Afinal, ele não tem apenas um ou dois
bons alunos, são muitos! E se entrarem em seu perfil no
youtube, virão muitos vídeos como este, com diversos grupos
diferentes!

Quinta Essentia nas escolas


Toda criança é capaz, basta acreditar nisso! Nunca
subestime as capacidades de um ser pequenino, pois ele
também é um ser humano que merece todo o respeito, e
devemos sempre ensiná-lo a respeitar os seus colegas e
também os mais velhos.
Se alguém já superou um problema que passamos, temos
que buscar como o outro superou este problema, ao invés de
reclamar e esperar a solução cair do céu. A responsabilidade é
nossa.
Se não sabemos tocar flauta doce, não precisamos usá-
la. Ninguém é obrigado a ensinar o que não sabe, mas
precisamos fazer o melhor naquilo que nos propomos a fazer.
Assim, se usamos a flauta doce temos a obrigação de fazer um
bom trabalho com este instrumento. Se não sabe tocar, ou
busque formação na área ou use outro material que você
domina. A responsabilidade do professor é muito alta, pois o
ensino, em qualquer área, muda os valores de uma nação
inteira.