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País: Portugal Cores: Cor

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ID: 32060851 28-09-2010 | Conferências Âmbito: Economia, Negócios e. Corte: 1 de 3

E N T R E V I S TA LUÍS FILIPE MENEZES, PRESIDENTE DA CÂMARA MUNICIPAL DE GAIA

“Gaia capta investimento


porque é proactiva”
Para o autarca de Vila Nova de Gaia, a cidade que gere há quatro mandatos é hoje
“tão diferente que nem a reconheço”.
ELISABETE FELISMINO
elisabete.felismino@economico.pt

L “
uís Filipe Menezes, dos milhares de postos de trabalho. a acontecer em Portugal e julgo que
presidente da Câmara Só que aqui há uma injustiça ex- na Península Ibérica, não sei se na
de Gaia, está no seu O passivo total traordinária. Herdei uma cidade Europa: Vila de Este. A construção
último mandato. Diz dormitório, que começa agora a de 12 centros escolares, o primeiro
da Câmara anda
que Gaia é hoje uma deixar de ser. E as pessoas que per- que está a ser finalizado e que tem
cidade diferente, e perto dos 250 deram o emprego em Paços de Fer- piscina, sala de ‘ballet’, pavilhões
quer que a costa seja a linha Estoril milhões de euros. reira, Vila do Conde, no Porto, e desportivos, salas de ATL... são 600
da área metropolitana do Porto. O que era vêem dormir em Gaia, registam-se alunos de cada uma... Tenho que
no centro de emprego de Gaia. E so- acabar estes projectos.
importante era a
Gaia é hoje uma cidade diferente do bre isso eu não posso fazer nada. Qual é que o endividamento da Câ-
que era quando chegou à Câmara? dívida per capita, Há algum grande investimento para mara de Gaia?
É tão diferente que nem a reconhe- e aí Gaia está em Gaia para os próximos tempos? O passivo total da Câmara de Gaia,
ço. Não sou nada modesto nesta 79º lugar. A lei Estão muitos a rolar, aquele número em números grandes andará muito
matéria, isto foi um completo mila- mítico dos mil milhões de euros, perto dos 250 milhões de euros. O
das finanças
gre, Gaia era um patinho feio que penso que peca por defeito. Tivemos importante não é o envididamento
parecia condenado ao desastre. As locais é imbecil.” alguma sorte de conseguir balan- das autarquias, porque como todos
pessoas consideravam que Gaia era cear alguns desses projectos antes sabemos o pais com maior divida é os
uma avenida para chegar ao Porto. A da crise. Há dois ou três que para- EUA. Quando falam nas dívidas das
primeira questão que se colocou foi ram e alguns que atrasaram. O Hotel autarquias, primeiro Lisboa, depois
a de recuperar o município em meia CS atrasou, mas vai estar pronto em dependendo dos anos Gaia ou Porto,
dúzia de anos. Gaia tinha atrasos es- Dezembro. A costa de mar conti- e depois Sintra... mas isto nunca vai
truturais gritantes. Hoje temos a nuou o seu ritmo. A costa de Gaia ser diferente. O que era importante
melhor rede de saneamento da Eu- tem que ser a linha do Estoril da área era ver a dívida per capita, e em dívi-
ropa. Fizemos 4.200 casas de habi- metropolitana do Porto, o que si- da per capita Gaia é o 79º. Além disso
tação, temos quatro mil quilómetros gnifica primeira habitação, zona de há outras questões que têm que ser
de estradas, rasgámos de fio a pavio turismo urbano de proximidade. analisadas. Se eu não tivesse feito sa-
e privatizámos a recolha de lixo. Ti- Depois tomam-se as medidas ne- neamento ou habitação social, tinha
vemos o cuidado de dividir o terri- cessárias do ponto de vista urbano dívida zero. Se não tivesse feito isto
tório em quatro partes, cada uma como a limpeza, as acessibilidades, não captava investimentos e a receita
com uma especificidade: centro a recuperação da costa. Temos ainda não aumentava. A lei das finanças lo-
histórico, costa de rio, costa de mar um terceiro patamar que é o de ex- cais que existe é imbecil e não há co-
e zona urbana. E para cada uma de- celência da vida das pessoas. Dois ragem de enfrentar essa realidade. As
las escolheu-se um modelo de des- exemplos: na área ambiental o de grandes cidades são deficitárias nos
envolvimento. Dou-lhe o exemplo espaços verdes. meus cálculos na ordem dos 30%.
do centro histórico: Tinha de haver Para estes dois anos e meio que fal- Aqui em Gaia fizemos investimentos
lazer qualificado, restauração, cul- tam para acabar o seu último manda- à volta de 1,8 mil milhões de euros
tura, escolas de artes, juventude e to, o que lhe falta fazer? em 12 anos, e eu pergunto qual é a
‘ateliers’ de artistas. Uma vez feito o No centro histórico é a abertura de empresa que investe este valor e tem
plano, começámos a semear, mas grandes hotéis, tenho-os como um passivo de 250 milhões de euros?
não nos substituímos ao mercado... meus, porque me bati muito por Depois temos o exemplo do Estado,
E surgem então os investimentos... eles. Contra a burocracia do Estado, que no final do ano tem um défice de
Foi assim que nasceram os hotéis a Marina que estará pronta daqui a 9% da riqueza e, como o Governo
cinco estrelas que estão em constru- um ano, o teleférico, toda a reabili- tem que pagar os seus compromis-
ção. Foi assim que nasceu a Marina, a tação dos espaços exteriores do cen- sos, emite dívida pública. Mas a crise
maior da costa ocidental de Portugal, tro histórico, uma rede pública de 10 económica que faz baixar as receitas
numa zona onde passam 40 mil bar- parques de estacionamento e que são e leva o Estado a um défice brutal
cos de recreio por ano. Foi assim que importantes não só pela regulariza- também não afectou as autarquias?
nasceu o teleférico do centro históri- ção do trânsito, mas porque fiz con- O que é que propunha?
co, que não vai ser só turístico, mas cursos de concessão em que acumu- Que houvesse, como em tudo o res-
também um meio de transporte de lei reabilitação urbana como con- to do País, seriedade na governação.
ligação do metro à cota baixa. trapartida. A reabilitação urbana Esta lei das finanças locais é com-
Qual é o segredo para captar tanto in- pressupõe acessibilidades, cantinas pletamente estúpida. Precisamos de
vestimento? sociais geridas por privados nas três uma lei de finanças locais que esteja “A lei das finanças locais
Muita proactividade. Se me permi- grandes zonas industriais que temos mais ligada à efectiva criação de ri- que existe é imbecil”, afirma
te, há aqui uma ideia sobre a qual no concelho. A construção de mais queza no território, que indexe in- Luís Filipe Menezes, ao dar
gostaria de falar: Gaia tem muitos dois pólos industriais, mas já mais vestimento privado e emprego cria- o exemplo: “Se eu não
desempregados, é o centro de em- vocacionados para novas tecnologias do. Ou seja, que tivesse uma inde- tivesse feito saneamento
prego com mais desempregados. e que já estão em construção, um xação ao trabalho produzido e aos ou habitação social, a dívida
Mas pergunto como estaria Gaia se junto a Espinho e outro junto à Feira. serviços criados. ■ seria zero”.
não tivéssemos potenciado a criação A maior reablitação urbana que está
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Bruno Barbosa
Menezes defende gestão
integrada de Porto,
Gaia e Matosinhos
O presidente de Gaia diz que “o Porto tem um
inequívoco potencial”.

O facto de Gaia estar tão próxima de uma gran-


de cidade como o Porto, prejudica ou ajuda? Quem vem
Sem qualquer leitura subjacente, costumo di- e atravessa o rio
zer aos investidores que estão aqui a investir e Luís Filipe Menezes nasceu
a correr muitos riscos, que o mais importante em Ovar, em 1953.
Licenciou-se em Medicina e
para eles já não é Gaia, o futuro deles passa
ingressa na política pela
pelo Porto, pela Câmara do Porto, pela presi- mão da Juventude Social
dência do Porto. Porque quem vai ocupar estes Democrate, sendo inclusivé
hotéis são os visitantes do Porto, quem vai pôr um dos seus fundadores. Já
os barcos naquela Marina são os viajantes do com idade adulta ingressa
no Governo de Cavaco como
Porto, quem vai querer comprar no El Corte
secretário de Estado. No fim
Inglês ou ir aos hospitais privados que estão do cavaquismo, disputa a
aqui em construção são as pessoas do Porto. liderança do PSD e é sua a
Só a lógica de um ‘take over’ de integração de célebre frase:”sou suilsta,
uma cidade recuperada no Porto é que vai ser elitista e liberal”, mas perde
a liderança que havia de
factor de dinamização do progresso de Gaia. O
alcançar em Julho de 2007,
futuro e o sucesso do impulso que está a ser de onde se demite nove
aqui semeado vai decorrer, a partir de agora, meses depois. Pelo meio
do sucesso de crescerem [Porto e Gaia] em tinha alcançado a
conjunto. presidência da Câmara de
Vila Nova de Gaia onde se
Como é que podem crescer em conjunto?
mantém há 4 mandatos.
Não me pergunte isso porque isso seria um Agora há quem o veja a
programa eleitoral... atravessar o rio...um cenário
Um programa eleitoral para o Porto? que não descarta.
Manifestamente para o Porto...
Já está a trabalhar nele?
Não, estou só a teorizar. Mas é o Porto que tem
que puxar por Gaia.
O Porto neste momento tem essa pujança?
O Porto tem potencial, o Porto tem um ine-
quívoco potencial. O Porto e o Norte em geral.
O Norte está deprimidissimo do ponto de vista
económico, mas também não nos podemos
queixar só do centralismo de Lisboa. É evi-
dente que há um centralismo sufocante, mas a
região Norte teve muitas oportunidades.
Quando se deram as nacionalizações, foram
nacionalizados os grandes grupos económicos
quase todos situados em Lisboa. As pequenas
e médias empresas do Norte dos sectores que
na altura pujantes na nossa economia, como o
têxtil, por exemplo, ficaram independentes.
Tivemos a possibilidade de estruturar nacos
do sistema financeira e do sistema segurador,
tivemos 15 anos de avanço em relação a todos
os outros, e não se aproveitaram. Logo, a culpa
também é do tecido empresarial e dos líderes
políticos que aqui tiveram responsabilidades e
que não souberam contrariar essa lógica.
E os autarcas do Porto e Gaia têm-se juntado
para discutir esse potencial?
Há 12 anos lancei o tema da cidade única, ti-
nha muitas vantagens. Mas o mais importante
é a gestão única. Uma gestão integrada do
Porto, Gaia e Matosinhos é absolutamente ful-
cral para dinamizar todo o funcionamento da
área metropolitana do Porto.
Tem falado com o presidente da Câmara de Ma-
tosinhos e do Porto nesse sentido?
Já conversei em tempos com Rui Rio, logo no
primeiro mandato dele, e converso muitas ve-
zes com o presidente da Câmara de Matosinhos.
Há momentos para essas coisas acontecerem.
Ainda não é agora?
Acho que esse momento ainda não che-
gou. ■ E.F.
Tiragem: 19403 Pág: I

País: Portugal Cores: Cor

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ID: 32060851 28-09-2010 | Conferências Âmbito: Economia, Negócios e. Corte: 3 de 3

◗ Luís Filipe Menezes:


“Gaia está tão diferente que
nem a reconheço”