Você está na página 1de 160

EFEITOS TERAPÊUTICOS RÁPIDOS

EM PSICANÁLISE
Conversação dínica com jacques-Alain Miller em Barcelona

~Escola Brasileira
"'~ de Psicanálise
editores
Sérgio de castro
Oscar Reymundo

capa, projeto gráfico e diagramaçao


Fernanda Moraes

imagem da capa
O raio (2006) - Cássio Giovanni

revisão
Luciana Lobato

produção
Silvano Moreira

MlLLER, Jaoques-Alain.
Efeitos terapêuticos rápidos em Psicanálise :
~ clínica oom Jaoques-Alain Mtler em Battelona. -
Belo Horizoote: Escola Brasieíra de Psicanálise
- Scriptum Uvros, 2008.
160p.

I. Psicanálise I. irtulo

ISBN: 973-85-89044-22-6

COO: 150.195
CDU: 159.964.2

Uvrarla e Editora Scriptum


Rua Femandes Tourinho, 99
Savassi I Belo Horizonte I MG
13113223-1789
E-mail: scriptum@scliptum.com.bl'
SUMÁRIO

Prefácio - Miquel Bassols 07

Prefácio à Edição Francesa - Judith Miller 11

Minoa
Abertura - Horacio Casté, Elvira Guilaiía 15
O fio da vida - Araceli Fuentes 18
Conversação: O real é sem lei 25

Marta
Um tratamento em três sessões - Antorú Vicens 47
Conversação: O casamento triangular 51

Andrea
Em direção às Belas Artes - Carmen Garrido 67
Conversação: A teoria dos ciclos 73

Pedro
Terapias breves verms efeitos terapêuticos rápidos
- Lucía D'Angelo 87
Conversação: A abertura de um novo ciclo 96

Pepe
Uma pequena invenção psicótica - Félix Rueda 107
Conversação: A ausência de uma fobia 116

Alonso
O cavaleiro errante da armadura enferrujada - Amanda Goya 125
Conversação: O homem psicótico 137

Nota à edição brasileira - Sérgio de Castro 159


Prefácio

A Conversação Clínica do Campo Freudiano reúne,


todos os anos, em Barcelona, docentes e participantes das
atividades do Instituto em toda a Espanha. Nós avaliamos o
alcance de nossa prática e deduzimos daí o modo de levar adi-
ante uma política do sintoma conseqüente com os princípios
da orientação lacaniana.
Ano após ano, esse encontro que Jacques-Alain
Miller, diretor do Instituto, sustenta com a constância de sua
presença e participação, transforma-se em um grande mo-
mento de investigação clínica. Nós procedemos à exposição e
ao comentário de cada caso, seguidos da crítica aos prindpios
de nossa prática e da conversação sobre a particularidade de
cada tratamento. Os ~feitos se fazem sentir na Espanha e, cada
vez mais, além de suas fron~ciras.
A Conversação Clínica de 12 e 13 de fevereiro de
2005 foi inicialmen te marcada pela qúalidade e pertinência de
cada apresentação, como também pela precisão e envergadu-
ra dos comentários. Mas uma segunda razão acentua também
o caráter particular dessa conversação: a conjuntura em que se
encontra a psicanálise.
Ela se encontra, com efeito, confrontada às ava-
liações do mundo psi, que visam à sua prática e a seu discur-
so, a seus efeitos terapêuticos e aos resultados de sua expe-
riência. Tal conjuntura é especialmente sensível na França,
onde se pretende fazer passar por científico o uso grosseiro de
cifras e de estatísticas com fins puramente ideológicos de
controle autoritário, tanto do saber quanto do mal-estar do

07
Conversaçao c l 1nica com J acqu es-A lain Hi lle r em Barc e lona

sujeito1• Mas se trata de uma conjuntura que se esfende por


toda a Europa: o utilitarismo e o pragmatismo mais ferozes do
Evidence Based Medidne, que inspiram uma grande parte das
políticas de saúde, sob influência dos anglo-saxões e dos
canadenses francófll.os.
Esta Conversação de Barcelona se realizou entre
dois "Fóruns Psi", organizados por Jacques-Alain Miller em
Paris, para levar adiante a batalha contra as práticas de modifi-
cação comportamental que se proclamam falaciosamente "tera-
pias". A 5 de fevereiro, uma semana antes da Conversação,
aconteceu o Fórum em que o ministro francês da Saúde,
Philippe Douste-Blazy, evocou uma outra política de saúde, ao
afirmar: "O sofrimento psíquico não é nem avaliável nem
mensurável" . Um pouco depois, em 19 de março, o Fórum
sobre "O ato político" demonstrou a necessidade do retorno
do sujeito, jamais anônimo, do desejo e da palavra na ação
política. Entre esses dois eventos, no dia 27 de fevereiro, a
criação da Associação pela Fundação Lacan foi anunciada por
Jacques-Ala.in Miller, que deu, assim, uma tradução institu-
cional da crucial articulação entre clínica e política.
Nesse contexto, a Conversação de Barcelona, funda-
da no caso a caso do método psicanalítico, restabelece para
nós, analistas, a articulação das dimensões clínica e política do
sintoma, tais como podemos deduzi-las da orientação laca-
niana.
O leitor poderá verificar como uma política do sin-
toma se deduz do traço mais particular do caso clínico. E é a1
que se afirma o valor terapêutico da psicanálise. Aqui, nada de
falsos protocolos elaborados a partir de questionários anôni-
mos, nem de gestão do mal-estar do sujeito, reduzindo-o a uma
variável numérica do mercado de saúde. E muito menos a pre-

' Certamente podemos situar na mesma tendência as tentativas do Estado


brasileiro de regulamentar a prática da psicanálise (N. do E .).

08
Efeitos te ra pé uticos r ~pi d o s em psicaná l i se

tensão de equivaler o sofrimento do sujeito a uma conduta ou


a uma resposta inadaptadas. Este volume objeta radicalmente
esse tipo de formulação. Ele enfatiza o mais particular do sin-
toma do sujeito, que só será analisável a partir do detalhe clíni-
co e jamais quantificável: apenas uma bússola própria a orien-
tar o tratamento, segundo uma ética e com eficácia.
Finalmente, esta Conversação teve o privilégio de
trazer à luz uma primeira reflexão relativa às instituições cria-
das pelas Escolas de orientação lacaniana: O Cmtro Psicanalítico de
Consultas e Tratamento (CPC1) de Barcelona, homólogo ao
CPCT de Paris; mas também às outras instituições que se re-
ferem ao ensino de Lacan e que trouxeram sua experiência e
seu saber (a clínica do Campo Freudiano de La Corufia, ou a
Rede de Assistência de Madrid recentemente criada e que leva
o mesmo nome da primogênita de Buenos Aires).
A criação da RIPA (Rede Internacional de Psicanálise
Aplicada) coordenará e dinamizará as experiências desse tipo
no mundo inteiro, a partir da orientação lacaniana. A amplifi-
cação de uma experiência fecunda como essa do RI permitirá
talvez de criar outros lugares como o Lc Courtil, na Bélgica,
onde se formam praticantes de diversos países.
Em cada uma dessas experiências, trata-se de privile-
giar a particularidade do caso para as novas aplicações da psi-
canálise.

Miquel Bassols

09
Prefácio à edição francesa

É por esse termo que me foi proposto me manifes-


tar na abertura deste volume e na condição de primeira leito-
ra. Eu aceitei, sob os auspícios do "nariz" de Cyrano, ultrapas-
sar o efeito de encantamento que esta conversação me pro-
duziu. Ao privilégio de ser a primeira leitora respondo então
com o primeiro esforço para sair do mutismo que tal encanta-
mento e admiração produzem.
Como não ficar fascinada pelos seis casos aqui apre-
sentados, um a um, e pela série que eles fundam? Retomando
um termo de Jacques AJain-Miller, a primeira tríade é paradig-
mática. Os três primeiros casos são exemplares em três senti-
dos: ÚJÚcos, pois não parecem com nenhum outro; modelos,
pois esclarecem todos os outros; elementos de uma série, cada
um responde como os outros as exigências da mesma função.
Os outros três casos são convocados a se tornarem clássicos,
o que quer dizer a serem tomados como objeto de estudo para
que fundem suas classes. E sabe-se que um psicanalista não
seria mais um se ele parasse de fazer as suas.
Todavia, leitores e leitoras, guardemos a fascinação
que cega e coloquemos-nos a trabalho, tomando estes casos
como, sem exceção, fazem os participantes desta Conversação.
Sigamos seus passos: esta Conversação, ela também é paradig-
mática e clássica.
Paradigmática porque não há nenhuma outra pareci-
da. Ela resulta, como todas as Conversações, da disciplina e
dos desejos de cada um. Disciplina: envio e recepção de um
material escolhido; reflexão pessoal aprofundada sobre esse

11
Conversaçao clfnlca =om Jacq oes - Ala i n Ml l ler em Barce lona

material, suas conseqüências, suas implicações, suas questões;


divisão, troca, confronto das cogitações de cada um; aparecem
no momento de concluir de um novo paradigma. Pois é bem
isso o que nós compartilhamos em ·nossa leitura: a elaboração
de um novo conceito, segundo a respiração do tempo lógico.
Eu deixo os leitores descobrirem e aprimorarem por
conta própria tanto nesta como nas outras Conversações essa
invenção surpreendente. É para mim uma alegria que seja uma
elaboração vinda mais-além dos Pirineus que venha acender as
luzes do lado de çá. Eu vejo aí a constatação de que nossa apli-
cação da psicanálise não se sustenta através de meios bons ou
ruins, mas em uma ética. E u vejo a prova da existência da
existência .da Europa do Campo freudiano. Os mesmos para-
digmas, conceito tão diferente da noção de standard, operam
aí e as mesmas classes aí são percorridas (sem standard, pre-
cisamente) pelos os que decidem tomar o caminho aberto
pelo "te é permitido saber11 de Lacan. É por esse 11te é permi-
tido" que é necessário nosso combate hoje.
Esta Conversação nos dá um suplemento de decisão:
ela nos ensina que nós temos, sem que o soubéssemos, mais
armas que do que nós pensávamos. Sem standard, mas não
sem princípios, isto é o que inventa a prática de orientação
lacarúana no combate onde ela está engajada.

]11dith Miller
10 de Abril de 2005.

12
1. Minna

Abertura

Horado Casti, Elvira Guilana

Horacio Castl: Novamente, está aqui conosco


Jacques-Alain Miller para comentar os casos reunidos nesta
Reunião do Instituto do Campo Freudiano, em Barcelona.
Também contamos, nesta ocasião, com a companhia do pre-
sidente da EEP, Pierre-Gilles Guéguen, que, como vocês
sabem, esteve esta manhã na VII Reunião da ELP e a quem
agradecemos pela presença. Temos três casos para começar a
trabalhar esta tarde e mais três que discutiremos amanhã, pela
manhã. São casos atendidos em instituições vinculadas à
Escola ou ao Instituto do Campo Freudiano, em diferentes
localidades da Espanha.
Por suas diversas peculiaridades, pensamos que eles
formam um conjunto suficientemente interei)-.:.nte para ser
tomado como eixo a partir do qual pensar como tratar o tema
dos efeitos terapêuticos rápidos da psicanálise aplicada em
instituições vinculadas à prática lacaniana. Creio que é um
ponto de particular interesse, neste momento, na nossa comu-
rúdade.
A Elvira, que coordenará a conversação desta tarde,
dou a palavra.

15
Coover ~aç a o c11 oica c om Jacq ues- Ala i o Hil ler em Ba rce l ona

Elvira Guilaiia: O caso apresentado por Araceli


Fuentes foi atendido na Rede Assistencial da ELP, em Madri.
Esse é um dispositivo que se criou em decorrência dos fatos
de 11 de março, com a finalidade de atender aos afetados
pelos atentados. O tratamento ofertado foi gratuito e com
uma limitação de tempo de seis meses. O caso apresentado
por Antoni Vicens foi atendido no Centre Psicoanalítico de
Consultes i Tractament (CPCI), da ELP, em Barcelona. Esse
CPCf foi inaugurado em outubro de 2004, como vocês
sabem, e se inscreveu no caminho aberto pelo CPCT de Paris,
criado em abril de 2003. Portanto, as coordenadas são de gra-
tuidade e limite de tempo de quatro meses, podendo ser esten-
dido até oito meses. O caso apresentado por Carmen Garrido
~ que trabalharemos em último lugar - foi atendido na
Clínica do Campo Freudiano de La Corufia, fundada em 1997.
Vemos que cada um desses casos foi.atendido a partir de um
dispositivo com uma série de parâme tros. Os da Rede Assis-
tencial, como disse, são a gratuidade e o tempo limitado. O do
CPCT também, mas, no caso da Clínica de La Coruiia, os
parâmetros são: tarifa determinada e tempo ilimitado.
Através de cada caso escolhido para esta conver-
sação, transmite-se, em particular, àqueles que pertencem à
nossa comunidade analítica este novo momento que estamos
vivendo, na tentativa também de buscar as maneiras de trans-
miti-lo ao Outro social. É o que podemos denominar, a partir
de um texto de 1998, de Jacques-Allain Miller: "Indicações e
contra-indicações ao tratamento analítico", texto que abriu
um campo de trabalho, "uma clínica de encontros". O encon-
tro com um analista produz efeitos. E esses efeitos - me
parece que isso é o importante - podem ser transmitidos.
Podem ser medidos de alguma maneira para poder ser trans-
mitidos não apenas para nossa comunidade, mas também para
fora dela. Nos casos de hoje, os dispositivos se orientam no
sentido de facilitar o encontro com um analista, que. sem tais

16
Efeitos terape uticos r ápidos em psicanáli se

dispositivos, não seria possível neste momento, ou seria muito


difícil. Ao mesmo tempo, vemos que, nos seis casos que
vamos trabalhar, há uma particularidade que o analista deve
perceber para isolá-la. Então, temos uma clínica de encontros
e vemos que nos seis casos podemos cifrar os efeitos terapêu-
ticos rápidos. Mas, para falar de efeitos terapêuticos rápidos,
precisamos falar também, de alguma maneira, do número de
sessões. É uma colocação que podemos fazer. Um caso com
20 seções, outro caso, como o do CPCT, com três seções, e
outro caso cujas sessões vão de outubro à primavera.
Iniciaremos então com o caso apresentado por
Araceli Fuentes. Trata-se de uma mulher que foi atendida na
Rede Assistencial para a qual o apris coup do traumatismo dá
lugar ao abatimento e ao sentimento de culpa. Araceli apre-
senta uma hipótese que poderia se levar em conta para abrir o
debate. Ela propõe que a restituição da trama de sentido e a
inscrição do trauma na particularidade inconsciente do sujeito
é curativa.

Tradução: Oscar Reymundo


Revisão da tradução: Jorge Pimenta

17
Convers açao clínica com Ja cques-Ala in Mil ler em Ba rcelona

O fio da vida
Efeitos terapêuticos rápidos· em um caso atendido
na Rede Assistencial ELP- Madri

Araceli Fuentes

Minna, assim a chamarei, foi a primeira das pessoas


afetadas pelos atentados terroristas, ocorridos em 11 de
março, em Madri, que se dirigiu à Rede Assistencial. .Minna é
uma imigrante romena de 38 anos que está na Espanha há um
ano e meio. Em 11 de março, havia combinado com suas ami-
gas de tomar um café na estação de Atocha, antes de ir para o
trabalho. Por esse motivo, não estava em um dos trens em que
as bombas explodiram. A explosão a surpreendeu quando
estava na cafeteria com suas amigas. Escutaram a primeira
explosão na estação e em seguida a segunda. Ela pensou ime-
diatamente em uma bomba e, tomada de terror, saiu correodo
dali sem esperar por ninguém, fugindo apavorada entre os
feridos e os mortos. Em sua fuga, cruzou com o olhar de um
homem estirado no solo com o rosto ensangüentado, "como
um Cristo estirado". A imagem do "Cristo estirado'' continua
a olhá-la a cada noite nos pesadelos que se repetem desde
então.
Na primeira entrevista, ela está tomada pela angústia,
há dias que um estado de agitação não a deixa descansar.
Percorreu os serviços de urgência, recusando-se a tomar tran-
qüilizantes, manteve duas entrevistas com uma psicóloga da
Prefeitura e tentou reunir-se com outros romenos para colo-
car-se sob a proteção de sua Embaixada, mas nada disso Jhe
permitiu encontrar um lugar onde se deter.
Minna não fala bem o espanhol, entre lágrimas, tenta
fazer-se entender. Sente-se culpada por ter saído correndo da
estação, por não ter ficado e ajudado os feridos, por não estar
à altura do ideal transmitido por seu pai, um pai todo amor,

18
[feitos t e rapé ut1 cos rápi dos em ps ica nál1se

muito religioso, pertencente à Igreja dos Adventistas do


Sétimo Dia. Esse pai pobre, que era capaz de transfor mar um
pedaço de pão em um presente, havia-lhe ensinado que, frente
à agressão do outro, devia-se responder como Cristo, ofere-
cendo a outra face. Ela havia faltado ao dever de socorrer os
feridos, e o Cristo estirado a lembra disso a cada nohe em um
pesadelo que se repete.
Frente ao real do trauma, o recurso ao pai que seria
todo amor não obtém resposta. Conti~ua angustiada, sua ten-
tativa de suplência pela via do sentido religioso fracassa.
Eu a acolho sem desculpabilizá-la, fico em silêncio.
A culpa logo desliza e recai sobre o outro: a culpa é do outro
- ·"os marroquinos, os terroristas". A culpa deixa seu lugar
ao ódio, um ódio desconhecido por ela até então.
O acontecimento traumático levou-a a confrontar-se
subitamente com seu ódio. Deduzo disso a lógica de minha
posição, que é contrária a uma posição idealizante. Escutá-la
falar desse ódio e manter aberta a via par-a que um dia pudesse
subjetivar algo de seu ser, essa foi a orientação que segui
durante as 20 entrevistas de duração desse tratamento.
Minna começa a relatar sua lústória e a tranqüilizar-
se pouco a pouco. Filha de uma família tão pobre quanto reli-
giosa, cedo deixa os estudos e se casa. "Eu preferi o amor aos
estudos", dirá. Tem um único ftlho, de 19 anos, que ficou na
Romênia para ir à Uruversidade, o que parece responder mais
a um desejo dela do que do filho. Um filho ao qual sempre
mimou, para quem reservava um lugar especial na geladeira.
Seu marido também emigrou para a Espanha alguns meses
depois dela. Estão separados porque ele trabalha em outra
cidade, mas ele vem visitá-la nos fins de semana.
Um dia, chega novamente muito angustiada ao
.inteirar-se de que os terroristas t.inham tentado lançar pelos
ares a linha do trem, E/ Ave. Subitamente, o mundo de todos
os dias tinha-se tornado desconhecido, e ela se pergunta:

19
Conve rsaçao cl1n ica com Jacques-Alain ~ i ll er em Bar celona

"Que faço aqui?" Algumas de suas amigas decidiram voltar


para a Romênia, e ela fica com vontade de regressar também,
sente falta de seu filho. Ela veio para ttaballiar e ter uma vida
melhor, mas esse país, em que se sentiu muito bem acolhida,
do qual gostava tanto, agora lhe parece estranho.
A abertura do inconsciente se produz rapidamente.
Na entrevista seguinte, traz o dicionário que eu havia pedido
e um sonho de transferência:

Vou por um caminho macabro, sem vida, sem luz,


estranho. Vou com duas amigas., entramos em uma
estação abandonada, muito velha. D e repente,
entre minhas amigas c eu, cai o braço de uma enor-
me grua, com forma de garra, com tr.ês pontas. Eu
fiquei separada de minhas amigas, para poder che-
gar até elas teria de dar uma volta enorme. Ao meu
lado havia muita gente que me olhava tranqüila-
mente, uma mulher me fala e me diz que ficasse
com eles, pois que eram muitos.

O estabelecimento da transferência permite que ela


se detenha. A partir desse momento, abre-se a v\a do incons-
ciente, e uma série de sonhos irá surgindo em sucessivas entre-
vistas. Esses sonhos têm a particularidade de ser resolutivos.
A restituição da trama do sentido e a inscrição do trauma na
particularidade inconsciente do sujeito são curativas. Eu os
apresento de forma cronológica.

Os sonhos
O primeiro sonho é o pesadelo pós-traumattco,
pesadelo recorrente do homem-Crista estirado que a olha e
recorda-lhe a cada noite que ela faltou ao dever de socorrer os
feridos. Esse pesadelo desaparece em pouco tempo.
O segundo sonho é o sonho de transferência no qual
também está presente o olhar: "Havia muita gente que me

20
Efeito s terapêuticos rdpido~ em ps icanál ise

olhava tranqüilamente". Depois, uma mulher fala com ela e


convida-lhe a ficar.
Minna é uma mulher que sabe fazer-se acolher. Nas
casas onde trabalha foi muito bem tratada, até o ponto de sen-
tir que são sua família em Madd. Quando lhe pecgunto se não
preferiria mudar-se para a cidade onde vive seu marido, res-
ponde que não: "Isso seria como começar de novo". Não
obstante, nos fins de semana, quando o marido vem, ela se
sente mais tranqüila.
Terceiro sonho. Encontra uma saída e sai. "Estou
nos subterrâneos de Bucareste. Ali vive gente muito pobre,
crianças que se drogam com cola. Tenho que sair dali, há wna
mulher cigana atrás de mim. No fim do túnel, há uma luz, essa
luz é muito importante para mim. Ao sair não vejo a cigana".
É wn sonho no qual o sujeito consegue sair dos
esgotos de Bucareste, o nde se encontra gente mais pobre, as
crianças que se drogam com cola e uma cigana, metáfora dos
excluídos da sociedade, dos restos. Seguindo a luz, ela encon-
tra a saída. Esse sonho vem também desmentir as palavras de
sua mãe, ~ue dizia: "As ciganas dão má sorte": Outra frase da
mãe era: "Se você sonhar e ao despertar olhar para a luz, o
sonho é esquecido". Minna acrescenta: "No sonho a cigana
vinha atrás, mas eu saio sozinha, eu sou forte, ao despertar
olhei a luz que entrava pela janela e não esqueci o sonho".
Ao mesmo tempo, Minna sente falta de seu filho,
falou com ele por telefone. Ele contou-lhe que houve uma
pane no carro, e os avós não quiseram ajudá-lo por ser sába-
do, o dia de descanso prescrito pela religião deles. Durante
esse dia, não se pode faz er nada. Ela fica furiosa coro seus pais
por anteporem seus preceitos religiosos à ajuda pedida por seu
fJ.l.ho. "Eu não escolhi isso", dirá com raiva.
Minna passa todo dia pela estação de Atocha para ir
ao trabalho; às vezes detém-se a ler os nomes dos mortos. Diz:
"Leio os nomes dos mortos, mas não conheço ninguém".

21
Co nve r sa çao c l fnlca com J acqu es-Ala ln Mi l le r em Ba rcelona

Passaram-se quatro meses. Minna está bem melhor.


Conta que, no final de semana, irá visitar o monumentO aos
mortos da guerra civil espanhola ''A Cruz dos Caídos". Chama
minha atenção essa escolha, pelo retorno do significante Cn~~
que remete ao homem , "Cristo estirado",.que a olliava em
seus pesadelos.
Quarto sonho: "O fio da vida" . No final de uma
sessão, relata um sonho, sobre o qual, antes de começar a con-
tar, afirma que é uma bobagem: "Sonhei com um parafuso, eu
dava voltas com um fio ao redor do parafuso, fazia e desfazia.
Mais fazia que desfazia" . Pergunto: Como se diz paraji1so em
romeno? Ela pronuncia parafuso em romeno e acrescen ta:
"Soa muito parecido com serpente, a serpente que tenta Eva...
depois vem a expulsão do paraíso onde existia a felicidade
completa". E acrescenta, associando: "Em romeno existe a expres-
são ofio da vida... Em espanhol existe a mesma expressão?"
Quinto sonho. Relata um sonho que a faz rir: "Há
um crocodilo que morde todo mundo, menos a mim. Eu o
agarro pelo rabo e o sustento no ar com a boca para baixo".
Nesse sonho ela tem o falo e sabe o que fazer com ele.
Depois, vem um sexto sonho, ao qual me referirei
posteriormente.
Sétimo e último sonho: ''Acordava e aos pés da cama
havia um homem sem rosto. A sensação que sentia era de
tranqüilidade".
Entre o primeiro pesadelo, no qual o olhar supe-
regóico do "Cristo estirado" a ato rmentava ao ponto de des-
pertá-la, e esse último sonho, no qual um homem sem rosto
lhe passa a sensação de tranqüilidade, transcorreram vários
meses. Uma vez que a angústia cessou, pode rir e retomar o fio
da vida.
O efeito tranqüilizador que tem, nesse sonho, ser
despertada por um homeni sem rosto, remete à ausência do olhar
e da boca, que são tanto a da morte quanto a da recriminação.

22
Efeitos terapêuticos ráp idos em p~ican~líse

O quisto
Nas últimas entrevistas, Minna está contente: final-
mente seu filho decidiu deixar os estudos na Romênia e vir
viver e trabalhar na Espanha. Ele vai trabalhar com o pai. Ele
confessou a ela que sentia vergonha de ficar na Romênia estu-
dando enquanto os pais estavam aqui trabalhando. Agora ela
se ocupa em arranjar-lhe os papéis. Está bem e o limite de tem-
po de tratamento previsto na Rede, seis meses, se aproxima.
No entanto, em uma das últimas sessões, para minha
surpresa, conta-me que tem um quisto no útero, que sabe
disso há vários meses, mas não havia ido ao médico senão há
alguns dias atrás. Evidentemente, tratava-se de algo do qual ela
não quis nada saber durante todo esse tempo. A presença
dessa ameaça em seu corpo, da qual portanto demorou a falar,
é anterior às explosões do "11 de março", e, por fim, agora
decide se ocupar dessa questão. Espera por uma intervenção
cirúrgica para que o extirpem e analisem e, ainda que diga
estar menos angustiada do que com os atentados, conta que
sonhou com Carmina Ordóiie<{ - é o sexto sonho - uma
mulher jovem que acabava de falecer naquele momento, em
uma morte com ares de suicídio. Car-mina é ela mesma, é a
emergência da ameaça de sua própria morte que esse sonho
coloca em cena_
Por sorte, para ela, a operação se efetua pouco
depois, e o quisto era benigno.
Combinamos uma última entrevista e, apesar de
ainda lhe restar um pouco de tempo em relação ao limite esta-
belecido para o tratamento na Rede, ela se sente bem, conta o
sonho do homem sem rosto, e essa será a última sessão.
Despedimo-nos cordialmente.

l
Famosa, de família de toureiros, o uso de soníferos e seus freqüentes
casamentos lhe valeram manchetes de jornais. (N1)

23
l: <>uv .,r· ~ d ç ~ o c l l n í ç<l c om J ac Ques - Al al n Mi l l e r em Barcelo na

Os dois reais
Os efeitos terapêuticos obtidos durante essas 20
entrevistas são incontestáveis: desapareceu a sintomatologia
pós-traumática e o sujeito retomou o fio da vida.
Mas o maior efeito terapêutico obtido por esse
sujeito foi ocupar-se desse Outro real, desse quisto do qual
havia tentado não saber, que ameaçava seu corpo e sua vida e
podia levá-la a terminar como o Cristo estirado de seus
pesadelos.
Os efeitos terapêuticos, neste caso, devem-se a uma
desidealização que se produz rapidamente e à colocação em
marcha do inconsciente como um dispositivo que produz um
sentido libidinal. O s sonhos ocupam nele um lugar central. O
primeiro, o pesadelo com o homem Cristo estirado, e o penúl-
timo, o da morte de Carmina Ordóii~ têm um lugar especial.
Em ambos, o real d~ morte está presente como ameaça que
muda de lugar, passando da contingência do acontecimento
real traumático, que se impõe ao sujeito vindo de fora, à pre-
sença no corpo de um quisto que, durante meses, havia con-
sentido em deixar crescer. A emergência do primeiro real é a
oportunidade para poder tratar o segundo real .
A outra série de sonhos são soluções propostas pelo
inconsciente: encontra a saída, retoma o fio da vida, agarra o
crocodilo pelo rabo. Nessa série, o último sonho coloca um
ponto final: o homem sem rosto que está aos pés de sua cama lhe
restitui a tranqüilidade. É o próprio inconsciente que coloca
um ponto de basta nesse tratamento. Essa é sua particulari-
dade.

Tr2dução: Márcia Mezêncio


Revisio da tradução: Marcela Antdo

24
Efei tos terijpéut lco s r~pídos em ps icdn áli se

Conversação
O real é sem lei

Pie"e-Gilles Guéguen: Eu destacaria a rapidez na qual


se apresenta, nas entrevistas, a figura de um Cristo estendido
que olha a paciente em seus pesadelos traumáticos. Parece-me
que, neste caso, estamos imediatamente no plano da fantasia.
Em seguida, os sonhos vêm matizar ou velar, ou colocar outra
perspectiva sobre esse olhar que está como que desvelado a
principio. Passamos dessa figura do Cristo imóvel em sua
tumba com um olhar que atemoriza, que dá medo, finalmente
a uma figura pacificadora, a um homem sem o olhar, sem
rosto, sem uma expressão no rosto. Talvez você pudesse dizer-
nos algo mais sobre o que você entende por "restituição do
sentido" ou "o trauma se inscreve na particularidade do
sujeito". O fato de se tratar de uma mulher tem uma relevân-
cia na aparição da fantasia do homem sepultado? Seria uma
versão da fantasia do homem morto atrás do véu, de que
Lacan fala no texto "Diretrizes para um Congresso sobre a
sexualidade feminina'12?

A raceli Fuentes: Sim, quando me refiro à trama do


sentido, esse segundo aspecto que você comenta efetivamente
está aí, mas não houve oportunidade de tratá-lo. O que tem a
ver com sua posição feminina e tudo o que disse Lacan no
texto "Diretrizes para um Congresso sobre a sexualidade fe-
minina'' - o íncubd, a relação da mulher com o íncubo, o
gozo feminino - tudo isso, não houve oportunidade de tratá-

~ N. T.: J. Lacan. Esmios. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1998.


' N. T.: íncubo: lenda medieval na qual o demônio assumia a forma
masculina e mantinha relações sexuais com as mulheres, enquanto elas
dormiam.

25
Con versa çao c11 níca com Jacques-Aldin Mi l ler em Ba rce l ona

lo, ainda que parecesse estar aí também. Então, quando falo


do que foi curativo, refiro-me, por um lado, à colocação em
marcha do mecanismo inconsciente. Quando falo do sentido,
refiro-me ao sentido inconsciente e também à existência de
uma revitalização libidinal que se produz a partir desse ponto.
O que me chamou a atenção, neste caso, é o fato de que, quan-
do se abre o inconsciente, quando o mecanismo inconsciente
se abre, essa abertura pode durar muito tempo. De fato, as
análises são assim, não? Porque o inconsciente se abre e não
deixa de produzir. Talvez, neste caso, o mais característico seja
que os sonhos parecem permitir-lhe resolver bem as coisas.
São sonhos resolutivos, não são sonhos que abririam uma via
que duraria anos, mas se trata de como o inconsciente encon-
tra uma maneira de resolver certas questões atuais do sujeito.

Pierre-Gilles Gueguén: Vemos que é um sujeito, t,lffia


mullier, que está decidida, porque, quando outros psiquiatras,
ou não sei quem, lhe ·propõem tomar medicamento!':, ela não
quer.

Araceli Fumtes: Não, da não aceita os remédios.

Pierre-Gilks Gueguén: Ela não aceita tomá-los, e,


todavia, trata-se de alguém que não tinha vínculos anteriores
com a psicanálise.

Araceli F11entes: No entanto, quando ela começa a


contar os sonhos, eu lhe pergunto se conhece Freud, se ouviu
falar de Freud. Diz que sim, que alguma vez ouviu falar dele,
mas o que aparece, além disso, é que esses sonhos vêm
demonstrar como sua mãe estava equivocada com relação à
idéia de que, quando alguém desperta e olha a luz, depois de·
sonhar, se esquece do sonho. Ou quando a mãe dizia que so-
nhar com uma cigana traz azar. No entanto ela é wna imi-

26
Efeit os t era pêut icos r6 pido s em psicanál ise

grame romena de uma procedência muito pobre, histérica. Ela


foi a primeira paciente que nos chegou dos afetados•, algo
também surpreendente para alguém que está há tão pouco
tempo no país. Chegou através de um câmera de televisão que
é estudante no NUCEP, no Instituto.

Antoni Vicen.r. Há um detalhe que é impressionante,


a passagem do amor ao ódio e em seguida a recuperação do
amor. Há como três passos dialéticos. Em primeiro lugar, o
pai que seria todo amor, que é a definição de Deus, não
responde. R a isso o que se responde é a aparição dessa trans-
formação da culpa em ódio, aos marroquinos, aos terroristas,
coloquemos aos ciganos também, etc. Mas logo aparece no
texto o aJ:not aos estudos. Há uma frase muito interessante, no
inicio do caso, que ela diz: "Filha de uma familia tão pobre
quanto religiosa, eu preferi o amor aos estudos".

Araceli Fuente.r. Como?

Antoni Vicen.r. Sim, ao final da primeira página: «Filha


de uma família tão pobre quanto religiosa logo deixa os estu-
dos e se casa, 'eu preferi o amor aos estudos,.. Quer dizer que
deixou os estudos por amor.. Mas o amor ao saber está inscrito
ai, como uma demanda a partir dessa renúncia aos estudos.
Creio que isso é o CJUe permite chamar esses sonhos de "so-
nhos de transferência". Há uma mulher que lhe fala, lhe con-
vida a ficar, lhe convida a saber, de algum modo. Convida-lhe
a ficar no dispositivo de saber. Então, há três passos: primeiro,
o amor desse pai todo-amor que não responde. Segundo
passo, a aparição do ódio. Terceiro, a aparição de um novo
amor que é esse amor em relação ao saber.

4
N. T Refere-se às pessoas afetadas pelos atentados terroristas ocorridos
em Madrid.

27
Con ve r saça o clf nica com JacQues- Ala i n Hl l l er em Ba r celon a

Miq11el Bassols: Queria perguntar-lhe sobre um ele-


mento que vem depois dessa distinção entre amor e estudos,
é sobre o filho que tem essa mullier, filho que tem 19 anos e
que ficou na Romênia por desejo dela, precisamente para estu-
dar. Há uma frase que fica enigmática. para mim e cujo senti-
do quero compreender: "Um filho ao qual sempre mimou,
para quem reservava um lugar na geladeira" (ri.ro.r). Qual é esse
lugar e qual é a geladeira em questão?

Julio Gonzák<:(; Minha pergunta é sobre o destino do


ódio, na m edida em que se assinala que é algo novo que
aparece nela. O que aconteceu afmal com esse ódio?

Rosa Calvet. O que é seguro é que, para esse filho, a


terapia da mãe teve efeitos terapêuticos, porque algo mudou,
e o filho, que estava como refém em seu país, pôde deixar esse
lugar e vir para cá. Mas me perguntava pela relação que pode
haver entre esse "ftlho na geladeira" e os pesadelos.

Araceli Fuentes: Esse "ft.lho na geladeira" é um efeito


surpresa para mim mesma. Na realidade, essa mulher guarda-
va separadamente a comida do ftlho na geladeira. Ela tentava
preservar o filho da vida, de suas dificuldades, ela quer...

Horacio Caslé: ... guardá-lo na geladeira.

Araceli Fuentes: Exato. É assim que posso tirar par-


tido desse "lapso escriturai" porque, como assinalava Rosa
Calvet, o filho na Romênia é como tê-lo na geladeira. Eles
estão trabalhando para ele com todo o esforço na Espanha, e
com tudo o que aconteceu dos atentados, ela pretendia que
seu filho continuasse como se nada houvera, na Romênia. E,
por sorte, esse fúho se rebela contra isso, se apóia no pai, que
também está trabalhando na Espanha, e decide vir trabalhar.

28
Efeitos tera pêu ticos rápidos em psi canáli se

O "fJ.lho na geladeira" pode entender-se assim, ainda que eu


não tenha me dado conta ao escrevê-lo.
Com respeito ao comentário de Antoni, parece-me
que haveria que incluir na série do amor e do ódio a culpabi-
lidade que está em relação com esse pai-todo-amor que ela
apresenta. Esse pai era tão amoroso que, quando voltava para
casa, como não podia trazer presentes, trazia pão; era um pai
que não existe, capaz de transformar a necessidade em um
presente. Dava o que não tinha. Porém, o outro lado desse pai
são todos os mandatos religiosos que transmitiu a sua filha,
como o de dar a outra face para bater. Há uma tentativa nela
de dar sentido ao trauma pela via religiosa, tentativa que fra-
cassa. E é isso que tem a ver com a culpabilidade, também em
relação com o pesadelo que se repete no principio, desse
Cristo estendido em sua tumba que a olha e não a deixa des-
cansar nem de noite. Depois, a culpabilidade vai mudar para o
ódio.
Aproveito também para responder à pergunta de
Julio sobre o destino do ódio. É um movimento que passa da
culpa por não haver socorrido os feridos a outro, o de colocá-
la nos terroristas assassinos. Para ela, é uma surpresa sentir
ódio, parece que nunca havia sentido. Deixo que o diga,
porém não deixo que se consolide esse ódio como .racismo. O
que permite esse ódio é uma rápida desidealização que se verá
mais adiante, quando ela se irrita com os pais que pertencem
à Igreja dos "Adventistas do Sétimo Dia", aos quais é proibido
ter tarefas nos sábados, e por isso não socorrem o ftlho que
havia tido um problema com o carro. O ódio llie permite se
separar desses ideais religiosos dos pais e poder dizer: "Eu
não escolhi isso". Essa é a minha hipótese.

Rúard Arranz: Duas questões. Com respeito ao ódio,


o caso me fez recordar o "Homem dos Ratos", quando Freud
fala de um gozo desconhecido para ele mesmo, quando o

29
Conve r saçao c llnlca com J acques-Al a l n Ml l l er e• Ba r cel ona

sujeito fala do tormento dos ratos. O encontro dessa mulher


com o ódio pode ser visto como o encontro com um gozo
ignorado por ela mesma.
A segunda questão é sobre a demanda que você lhe
faz para que traga um dicionário. De que se trata? Sem dúvi-
da, não se trata do fato de que, quando alguém não fala a lín-
gua do analista, há que pedir um dicionário, mas muito mais
de um manejo da transferência.

Ma11uel Í'trt1á11dez-Bianco: Queria perguntar-lhe sobre os


pesadelos de repetição porque ilustram bastante o que é a clínica
do trauma. Essa mulher não sonha repetidamente com a bomba.
O que se repete é a imagem do Cristo estendido que não deixa
de olhá-la a cada noite. O àutenticamente .inassimilável pelàS
redes do significante, pelo trabalho do sonho, é isso. Há que
pensar que o que aparece aqui é um ponto de gozo êxtimo, auten-
. ricamente inassimilável para o sujeito. Talvez possa ter sua chave
em que, sob esse pai-todo-amor, do ideal do amor, o que apa-
rece é o gozo do pai do sacrificio do f.ilho. Porque o ideal do pai
é, como Cristo, dar a outl.'a face frente à agressão do Outro, quer
dizer, oferecer-se ao sacrificio. O q ue cruza todo .o caso é sacri-
ficar um filho, como fez o Pai com o Cristo ensangüentado.

Enric Beren!Jier: Na direção do que comentava agora


Manuel e também em relação com o que Araceli dizia da se-
paração, trata-se de um caso no qual se propõe a imigração
como uma separação falida. E, precisamente, é a partir da
experiência traumática que a verdadeira separação, que não se
consegue com a inúgraçâo, começa a ser elaborada. O Cristo
jacente a recrimina de entrada por ter-se separado desse tipo de
objeto que são os feridos e convoca-lhe a permanecer com eles.
Após, há um segundo sonho no qual uma mulher lhe convida a
permanecer. São dois sonhos em que ela é convidada a ficar. E
no terceiro sonho há urna mudança, porque ela se separa dos

30
Efeitos terapêuticos rápidos em p si can~ l ise

marginalizados, decide separar-se. Essa temática da separação


também aparece no quarto sonho com a idéia da expulsão do
paraíso. Parece que esse sujeito se interroga sobre seu ato de
imigração que não conseguiu separá-la do lugar ao qual a con-
vocava o desejo enigmático desse pai, com sua carga, aliás,
mortífera. Há duas operações. Primeiro, separar-se desse signi-
ficante ideal com um sentido superegóico, porém também, se-
parar-se desse objeto caído que são os "marginalizados".

Arace/i rllentes: Pareceram-me muito importantes as


contribuições.
Com respeito ao dicionário, não creio que seja uma
regra pedir ao sujeito que traga o dicionário. Eu queria saber se
era culpa ou vergonha o que sentia o sujeüo. Ela. não falava
tanto a língua para poder esclarecer quando se referia a uma coisa
ou a outra. De fato, o dicionário só se utilizou uma vez e ao
final o levou. Foi algo pontual para aclarar uma questão concreta.
Com respeito ao comentário de Manuel Fernández-
Blanco e sua hipótese de "sacrificar um filho", o pai levava
seus ideai~ religiosos com muito rigor. Por sua parte, ela deixa
seu filho na Romênia. No fim, nas últimas sessões, encontro-
me com a surpresa de que tinha um tumor vaginal do qual não
se havia ocupado durante meses, e esse tumor havia sido
descoberto antes dos atentados. De modo que esse tumor
estava se desenvolvendo havia muito tempo. Por isso, antes
que me contasse que já havia ido ver o médico, houve algo que
me chamou a atenção, e foi a excursão que realiza ao Valle de
los Caídos, onde volta a aparecer o significante "Cristo jacente".
Efetivamente, o maior efeito terapêutico para essa mulher não
foi somente o desaparecimento da síntomatologia do stre.u pós-
traumático, da angústia e da hiperatividade que não a deixava
manter-se quieta em nenhuma parte, mas também poder se
ocupar de seu próprio corpo, para não terminar efetivamente
como o Cristo estendido em sua tumba.

31
Conver saçao cl 1n i ca com Jacques- Ala i n Mi ller em B~ r ce lona

É uma mulher emigrante e se não fosse esse buraco


que se produziu pelo acontecimento traumático, talvez ela
jamais se interrogasse por isso. E tudo indica que .foi esse real
que lhe tornou possíveis as separações que ela não poderia
realizar...

X: Também há a separação do tumor...

Araceli Fuentes: Exato, também a separação do twnor,


que é algo fundamental, já que enquanto a melhora terapêuti-
ca ia in crescendo) cada dia se encontrava melhor, acontece que
esse tumor continuava aí e ela havia deixado que fosse cres-
cendo. Era um tumor que poderia ter acabado com ela.

Lucfa D'Angelu: Gostaria de abordar o caso por outra


vertente, a do lugar do analista na direção desse tratamento.
Chamou-me muito a atenção, e é algo que faz a particularidade
do caso, a proliferação de sonhos, de formações do jnconsciente.
E stou de acordo com Pierre-Gilles Guéguen em que a entrada
no dispositivo é uma entrada fantasmática e não pelo lado sin-
tomático. Creio que você trata muito bem quando emprega o
termo sonhos resolutivos, afluindo assim em uma tese de anos
de Jacques-Alain Miller, a do inconsciente intérprete, em que
sempre cabe a pergunta, frente ao engenho do inconsciente para
produzir sua interpretação, pelo lugar que resta então ao analista.
Eu pude notar que praticamente não houve interpretações do
lado do analista. E isso, acredito, se produz por essa formação
fantasmática. O que me faz pensar que, da mesma maneira que
o analista deve causar o sintoma para lhe dar sua forma analíti-
ca, ele deve também cumprir uma função que está aqui muito
bem descrita: causar o relançamento significante das formações
do inconsciente. Perguntava-me, então, se não há interpretações,
ou se as interpretações do inconsciente foram suficientes, que
lugar tem essa posiç.ão que você descreve no início do caso

32
Efe itos te r a pê uticos r á pidos e~ ps ica nálise

como a de "não desculpabilizar". Em segundo lugar, quero per-


guntar-llie se a saída do caso como efeito terapêutico, mais além
das questões descritas por você, é que essa paciente saiu com a
culpa inscrita subjetivamente, dado que a primeira passagem que
realiza é não socorrer, sair correndo e não atender à multiplici-
dade de "cristos mutilados" que h avia entre os feridos pelos
atentados. Pergunto-me se é por esse lado que você tomou a
direção da cura em relação com a culpabilidade.

Vicente Palomera: Há muitas coisas que já foram men-


cionadas, porém, lembraria dois aspectos. O primciro, tal como
assinalo u Araceli Fuentes, é que o paradoxo ou o mais carac-
terístico deste caso é o encontro dessa mulher com esse ódio
completamente desconhecido para ela. Pareceu-me muito rele-
vante o que mencio nou Ricard Arranz quando se lembro u do
Homem doi Ratos no encontro com seu gozo ignorado. É ver-
dade - e isso é paradigmático -que aqueles sujeitos q ue, ante
uma situação traumática, mais desconhecem as pulsões que os
habitam, o mais obscuro de suas pulsões, são os mais inclina-
dos, os mais lábeis ao afeto traumático, mais que os sujeitos que
têm um certo saber sobre esse gozo que os habita. De maneira
que isso mostra uma vez mais que essa mulher se encontra com
algo desconhecido para ela até esse momento. Sem dúvida, nós
temos que evocar o "fator deslocamento". Isto é, q ue na ima-
gem do Cristo há algo q ue retorna sob a forma alucinatória,
essa figura retoma sob a espécie não do deslocamento ou do
recalque, senão sob a forma do percebido, isso retorna sempre
no momento posterior ao trauma. É por isso que é necessário
um terceiro tempo, que é o dos sonhos. para elaborar essa
imagem que retoma como alucinação. Não sei se é da ordem da
fantasia, como assinalava Pierre-Gilles Guéguen, ou se será
enfim aquilo que Freud denomina o retorno do traumatismo
sob a forma de um pesadelo, tal e como ele propõe em seu
texto Além do principio do pra!?Jr.

33
Conver saça o cl fn i ca com J ~cou es -A i ai n Mi l l er em Barcel ona

Eu estou de acordo que se.trata de uma mulher cujo


problema já estava presente antes do atentado: ela não podia
se separar de um olhar>o olhar de seu fi..Lho. É assim que o
olhar desse Cristo vem ocupar esse lugar. O que me ensinou
esse caso é, sobretudo, que sempre, quando se trata da cünica
do traumatismo, há dois momentos claramente diferenciais. O
primeiro momento é o relato que o sujeito faz sobre o encon-
tro com o real do trauma. E o segundo momento é o fato de
que sempre há uma implicação subjetiva, ou uma internaliza-
ção do trauma. Ou seja, se não há uma participação subjetiva
não se produz ou não há incidência do acontecimento
traumático.
Neste caso, o elemento que faz a mediação, que faz
com que exista uma participação subjetiva com esse aconteci-
mento traumático, é justamente ·que, durante a fuga, ela se
encontra com alguém ferido que lhe recorda a imagem de uin
Cristo. Isso poderia ter-se produzido o u não, porém é verdade
que isso a leva a todo esse trabalho de elaboração que realiza,
não por meio das interpretações senão por meio dos sonhos
que são em si mesmos uma maneira de deslocar o percebido,
de metonimizá-lo, poderíamos dizer. de inscrevê-lo em outra
cadeia de representações distintas do acontecimento traumáti-
co. O que nos proporciona outro ensino: que, em certa medi-
da, o tratamento de um caso de traumatismo consistiria em se
deslocar o sem-sentido do traumático para outra cadeia que o
isole como sem-sentido. Isto é, o sem-sentido do trauma se deslo-
ca como sem-sentido em outra cadeia. Um dos méritos deste
caso é ter demonstrado como se produz esse deslocamento
pel a via de uma elaboração sucessiva de vários sonhos que lhe
permite isolar ou metabolizar um pouco esse encontro
traumático com o acontecido. A meu entender> nisso, este
caso é paradígmático da clínica do trauma.

34
Efe itos terapêutico & rápidos em p s ic an~li se

]uar1 Carks Tazedjian: Eu vou continuar na mesma via


aberta por Lucia D'Angelo, o sujeito da culpa. Se existe um
primeiro momento de implicação subjetiva via culpa, há tám-
bém um segundo em que se diz que é o ódio, mas também,
talvez, a vergonha. Seria preciso pensar qual é a diferença
entre os dois. Eu não consegui entender bem o que aconteceu
com essa culpa que era algo assim como o testemunho de sua
divisão subjetiva no momento da demanda_

Araceli ruenter. Com respeito à posição do analista,


junto com as observações que realiza Lucia D'Angelo, o que
posso dizer é que, durante todo o tempo, tratei de que o sen-
tido não viesse tamponar a produção, quer fosse o sentido
pelo lado religioso, quer fosse o sentido do lado do ódio. Todo
o tempo, tratei de que houvesse um lugar vazio. E aí acres-
centarei algo mais que não está escrito no caso e que talvez
aclare um pouco as <:oisas, já que penso que descreve qual foi
minha posição neste trabalho. Houve um momento em que
essa mulher, antes dos sonhos, teve um ato falho: em lugar de
dirigir-se para a Rede de atenção, toma um ônibus em direção
contrária. Ou seja, que em certo sentido faz o mesmo que fez
quando houve as explosões, sair correndo em sentido con-
trário ao lugar onde estouraram as bombas, posto que ela
tomou o primeiro ô nibus que enco ntrou sem ter nenhuma
idéia de para onde ia. E, em uma das primeiras entrevistas, em
vez de vir para a Rede de atenção, toma um ônibus por
equívoco, em sentido completamente oposto, e tem de me
chamar por telefone para me dizer que se equivocou, que se
confundiu de ônibus, e que foi para outro lado. Não incluí
esse ato falho no relato do caso, porém insisto em que eu sem-
pre tratei de que o sentido não viesse tamponar esse buraco
que se abriu na vida dessa mulher. E efetivamente não há ne-
nhuma interpretação, as interpretações que existem são pela
via do inconsciente. E como disse Vicente Palomera, há essa

35
Convers açao c lt ni ca com J acqu es - Al a ln Mil le r em Ba rc P.l ona

implicação subjetiva no trauma através da figura do Cristo muti-


lado, e, ftn.almente, o que há é - tal como o sublinha Pierre-
Gilles Guéguen - um velamemo, já que o homem do último
sonho- e sonho com o qual se conclLÜ o tratamento - é um
homem sem rosto, cujo efeito sobre ela é de tranqüilizá-la.

Frm;cisco &co: Queria fazer uma pergunta muito


concreta: o que sabia essa mulher da personagem de Caroúna
Ordofiez? Pergunto isso em referência ao sexto sonho que
aparece narrado no caso, fora de toda série dos sonhos e dire-
tamente vinculado ao fato de que ela se encarrega do seu
próprio corpo. Não sei se isso é uma mera anedota ou se o
sonho coincide com a morte dessa mulher, ou se, pelo con-
ttà.tio, essa mulher vem representar um ideal de mulher para
ela.

Arauli Fuentes: Com efeito, Carmina Ordófiez havia


morrido naqueles dias. É uma personagem das revistas do
coração, da imprensa rosa, uma mulher que deveria ter mais
ou menos a idade da minha paciente e cujo nome inclui o dela,
"Car-mina". Como todos sabem, essa mulher foi ftlha , esposa
e mãe de toureiros, esteve muitos anos em todas as revistas e
finalmente acabou mal, já que foi encontrada morta em uma
banheira e não se sabe se foi suicídio ou não, já que fazia, ao
que parece, consumo de dro~s. Esse comentário sobre
Carmina Ordóiiez, ela o traz no dia em que me conta do
tumor, do qual não se havia ocupado durante meses... E me
diz: "Que curioso que me tenh am afetado tanto os atentados
e isso que está acontecendo com meu próprio corpo não
chame a minha atenção...". Entretanto, um pouco depois, me
conta o sonho da morte de Carmina Ordófiez.

36
Efe i t os t e ra pêu t ic os rdp 1dos em ps l cao6l fs e

]acq11es-Aiain Miller: N ão quero ser demasiado cínico,


somente um pouquinho, porém agora que estamos um pouco
longe dos atentados de Madri, podemos dizer, entre aspas,
entre nós, que foi um espetáculo, um espetáculo mundial,
como assinala muito bem essa senhora, que é mai~ importante
que o pequeno quisto escondido em seu corpo; é mais impo r-
tante para ela a superprodução islâmica que se produziu em
Madri. Vinha lendo no avião um artigo sobre o senhor Boris
Groys, um professor alemão que vem dar uma conferência em
Barcelona sobre um livro que trata sobre o novo. Em seu
livro, que ainda não chegou às livrarias de Barcelona, vem pro-
por que finalmente Osama Bin Laden é um empresário, um
produtor de vídeo-espetáculo para o mundo. Começou em
Manhattan, continuou em Madri, énfim, esse professor
propõe tal conclusão cínica. Porém, há que dizer que a
paciente também vem dizer algo desse estilo. De tal maneira
que podemos aprender algo do que é o trauma através do
caso. Porque o interessante não é verificar o que já sabemos,
senão o que cada caso nos ensina como algo novo. Nunca
consideramos os casos a partir da rapidez dos efeitos terapêu-
ticos, nunca foi um interrogante nosso, provém de nosso trau-
matismo do ano passado, de nosso traumatismo francês de
encontrar-nos com o senhor Accoyer, e com um informe
supostamente científico do Instituto de Saúde da França, no
qual se avalia a eficácia dos tratamentos, e r(""·,Jta que a psi-
canálise é o pior aluno da classe, e que a terapia cognitivo-
comportamental - cujos profissionais são habitualmente
considerados como uns miseráveis - se alça com o prêmio e
as felicitações do júri. Isso proporcionou à psicanálise uma
inveja e um trauma terrível e explica que agora -. - que se
inverteu a questão, e ao final as coisas voltaram a ser colocadas
em seus lugares - nós primeiro e os outros...

Anue/i F11entes: ...os outros para a fila. ..

37
Conver saçao cl l nica com J acq ues- Alafn Hi l ler em Barce lo na

Jacques-Aiain Millet: ...Sim, bom, não terminou a .


história, porém nós estamos nos recuperando do trauma-
tismo. Pois ocorre que agora são os outros que estão trauma-
tizados, e por isso desde segunda-feira passada gritam cada dia
em todos os jornais franceses, é muito divertido. Então, por
causa desse traumatismo de que temos padecido, tratamos de
colocar a pergunta: quem cura melhor? O hipnotizador? O
neo-hipnotizador pavloviano modificado do século XXl?
Essa é wna velha personagem, a conhecemos bem, tinha uma
péssima reputação em meados do século XX - e há que ver
por que ela tinha tão má reputação antes e a tem melhor agora
-tinha má reputação e a tem melhor agora e tem sido sem-
pre como wna cruz do Leste e do Oeste. Pavlov era o úrúco
soviético que era apreciado nos Estados Urúdos porque era
fast, rápido, havia como um ponto de convergência entre o
comunismo e o capitalismo nesse tema de ir rápido. Stalin
dizia que para algumas coisas havia que unir. o melhor do
espírito norte-americano com o melhor do espírito eslavo. A
hipnose, o behavorismo, o pavloviarúsmo são da mesma
fanúlia. Todas essas terapias cornportamentais tratam pela
sugestão e se propõem a curar sugerindo ao paciente que
recupere a confiança em si mesmo. Esses professores de con-
fiança escrevem livros sobre o tema: "A felicidade, através da
confiança em si mesmo".
Há dois dias, o Le Monde publicou a opinião de alguém
que se apresenta como médico e que censura o ministro da
saúde francês por haver feito uma ofensa ao Instituto Francês
da Saúde e ao seu informe sobre as psicoterapias, dizendo que
nunca se viu um ministro, um poütico, censurar a ciência. E
quem é esse senhor? Uma busca rápida oo Google nos informou
que é um autor de livros de auto-ajuda, escreveu livros sobre
grandes depressões e pequenos males e tem um escritório de
conselhos para as empresas que se chama Stimulus. E, para com-
pletar, ele escreveu wn livro em companhia de dez univer-

38
Ef e itos terapêuti cos rá pi dos em psic an~l ise

sit:á.rios, e vocês sabem de qual país? Do Canadá, de Québec. É


assim que esse senhor se apresenta em um jornal francês, nes-
sas circunstâncias de inversão da relação de forças, e defende a
ciência contra a política. Devo dizer que esse "Senhor
Sti.mulus" é para nós um presente do céu. E ssa gente estava até
agora na sombra e, agora que sai, nós vamos ver o que fazer.
Bem, estas são terapias que pretendem curar com a
con.fiança em si mesmo. As afirmações que faze m são:
podemos curar, podemos curar rapidamente, podemos avaliar
quantas sessões são necessárias a partir de um sofrimento dado
para retirar o sujeito de seu mal. Sem dúvida, a psicanálise está
em déficit a respeito dessas terapias porque não é nosso estilo,
não somos vendedores de felicidade nem de confiança em si
mesmo. Pensamos o contrário, tuna análise necessita que o
sujeito perca sua confiança em si mesmo, e que não a recupere
demasiado rápido, de tal maneira que possa ficar aberto o bura-
co para que siga trabalhando. E, se há efeitos terapêuticos, são
indiretos. As terapias breves são bons exemplos de foror sanandi,
desse desejo de curar contra o qual F reud nos advertiu.
Evidentemente, a natureza do tratamento analítico
faz com que seja de longa duração. Uma análise é wn trata-
mento de longa duração, enquanto que as terapias cognitivo-
comportamentais se apresentam como breves. E são breves
porque o sujeito não poderia suportar o tipo de pressão que
lhe faz o terapeuta por longo tempo (risos). ~"hmete o paci-
ente a tal p ressão moral e. eventualmente, flsica, que a tortura
não se pode prolongar. É o que se vê muito bem no ft.lme
Laranja n;ecânica, que é realmente uma obra-prima inesquecível.
Nós sabemos que, em pouco tempo, logo após o iní-
cio da análise, e às vezes quase simultaneamente a esse início,
temos uma melhora do sujeito. É algo que pode durar até um
ano. Foi o que os norte-americanos chamaram a homymoon, a
lua-de-mel da psicanálise. Precisamos estudar mais precisa-
mente esse momento para responder à forte propaganda -

39
Co~versacao clin ica com J acques-Al a l n Hi l l er em Bar celona

forte porque .tem confiança em si mesma - dos senhores


StimJIItts (risos).
Por que não há ainda. uma elaboração sobre esse
ponto no CPCT de Paris, tampouco no CPCT de Barcelona,
mais jovem, é verdade? Sem dúvida que nós sabemos que a
cura analítica longa tem efeitos rápidos. Pergunta: Pode-se
definir em psicanálise uma cura rápida? Entenda-se a dife-
rença, não ~ o mesmo que a cura longa com efeitos rápidos.
O interessante de começar com o caso de Araceli
Fuentes é que, dos três primeiros casos, é o mais rápido: 20
sessões. Ah, não! Antoni Vincens é o vencedor, com três
sessões! Segunda Araceli Vincens, com 201... (risos). Vamos
fazer um concurso com isso; depois virá um com uma sessão,
é conhecido porque se fez o método de uma sessão. E o
cúmulo, é a cura de zero sessões (risos); alguém que, escutan-
do coisas em uma conferência, se sente curado.
No caso "O traumatismo de Minna", a paciente
sofreu um traumatismo, e isso passou com 20 sessões. Hoje
em dia, quando as pessoas têm um traumatismo por situações
de perigo ou de atentados, os terapeutas se precipitam para
oferecer seus serviços. Fazem-no os outros, e tratamos nós de
fazê-lo para ver o que acontece, para estar a par. Uma pergun-
ta é se é realmente necessário intervir; se não se curariam por
si mesmos, com zero sessões, como as fobias, como Lacan
dizia do pequeno Hans, fobias que mobilizam o pai, a mãe, a
Freud e a toda a comunidade analítica que lê o caso Hans. A
maioria das fobias infantis se cura naturalmente. Não há que
fazer toda uma história, é muito importante pelo que nos ensi-
na a fobia do pequeno Hans, porém, como fenômeno, há que
suportá-lo um tempo. Há que distinguir entre os ttauma-
tismos, porém eu proponho o método de zero sessões. Pode
estar nisso a contribuição específica da psicanálise, dizer que a
indicação para a cura é de zero sessões, The zero sessions treat-
tnent (risos), que é de uma grande economia, é o tratamento

40
Efei tos terapêut icos r4pi dos em psic an ~lls e

mais eficaz, mais rápido, mais barato, porém é muito difícil, há


que pagar ao analista que aconselha as zero sessões (risos) .
"O traumatismo de Minna"; não digo que cada trau-
matismo seja assim. Em todos os casos nos quais há trauma,
há que se perguntar o porquê. Nos atentados de Madri, houve
traumatizados e não traumatizados. Não são suficientes o
fogo, as mortes, os incêndios... É um espetáculo magnífico de
sangue e violência, além do mais, as pessoas vão vê-lo no cine-
ma por prazer. E o perigo em si mesmo não é trawnatizante.
As pessoas se põem em perigo por prazer, por exemplo, quan-
do fazem saltos de cima das pontes. Há muitos esportes que
são perigosos, eu considero todos os esportes como perigosos
(risos). Está-se mais seguro em sua mesa trabalhando Lacan
que fazendo esporte (ritot).
Por que, neste caso, houve um traumatismo? Este
caso me fez pensar em um princípio: que se produz um trnu-
matismo quando um fato entra em oposição com um dito,
com um dito essencial da vida do paciente, quando há uma
contradição entre o fato e o dito.
Neste caso, o dito é o famoso pai-todo-amor. Minna
viveu, desde pequena, em um mundo cuidado por um pai-
todo-amor, um mundo ordenado por um pelo todo-amor,
pelo Cristianismo verdadeiro, em que se deve oferecer a outra
face- se ainda a tem (risos). O que trnumatiza Minna é que
não há mais outra face a se oferecer. No mundo do pai todo-
amor, isso é um fato totalmente incompreensível. Se houvesse
sido criada em um mundo em que o pai dissesse que os
demais são uns bestas, que as pessoas se devem defender, que
sempre há que matar primeiro antes de ser morto, aí seria
outro relato. Em um mundo assim, os atentados viriam con-
firmar a lição do pai, porém, para ela, eles fazem desaparecer
um pilar de seu mundo.
Para fazer uma comparação, há que pensar na
famosa catástrofe de 1751 - se me lembro bem, digo-o de

41
Conv e rs açao c lin ic a com Ja cqu es - Al a in Hill er em Barce lona

memória - de Usboa, quando se produziu o tsunami de


U sboa. Era um tsunami, apesar de não o chamarem assim
naquela época, mas era o tsuna!1IÍ do século XVIII, quando o
pobre Leibniz explicava a todo o mundo que D eus calculava
que o mundo era o melhor dos mundos possíveis e que o mal
era um componente necessádo. Se se acreditava que, nesse
cáJculo de Deus, entrava esse tSimami que faz desaparecer em
três minutos uma das capitais da Europa, deveria haver então
algum transtorno no computado r divino. Voltaire debochou
de Leibniz, fazendo um famoso poema sobre o desastre de
Lisboa. Esse é um momento crucial da história das idéias
européias. Assim como houve o tsJmami de Lisboa e que colo-
cou a visão de Leibniz em questão, os atentados de Madri e os
atentados de Manhattan não são mais traumatizantes para
nossa concepção do mundo como no século XVIII. É inegá-
vel, porém, que os recentes atentados deram lugar a impor-
tantes interrogações intelectuais: O que são as civilizações? Há
civilizações não civilizadas sobre alguns pontos? Ou não é
bem assim?
Para essa mulher, o traumatismo me parece ser a
conseqüência de um hiato, de uma incompatibilidade entre
um mundo que tem wna lei, aquela do pai-todo-amor, e a
emergência do real sem lei. "O real é sem lei", é uma expres-
são enigmática de Lacan no Seminário O sinthoma, que vai ser
lançado em francês no próximo mês.
O mundo de Mínna é com lei, o todo-amor preside
o mundo. Há wna contradição entre esse mundo e a emergên-
cia de algo sem lei, ou a emergência do ódio que descobre em
si mesma também. Converte-se em wn mundo ilegível. Isso é
algo muito bonito neste caso: vemos que se engancha na
transferência e que finalmente consegue dormir de novo.
Havia visto a verdade horrível que é o real sem lei.
.É somente por utn. acaso que wn tmnami não vem do
mar até aqui e destrói nossos conceitos. Pode vir em qualquer

42
Efeltos terapêuti cos rápidos em ps i canáli se

momento, e não sei para que lado iríamos. O tsunami de


Barcelo na. Parece que foi há pouco quando houve um avião
da Air France, seqüesttado por rebeldes da Argélia, que queria
voar e fazer o mesmo, antes de Manhatun, com a Torre Eiffel.
Pode ser em qualquer lugar.
É muito bonito ver como, finalmente, através dos
sonhos, precisamente, o sujeito consegue recuperar o sonho
comum aos humanos. Heráclito dizia que, quando um homem
sonha, ele está só em seu mWldo e que, somente desperto; ele
compartilha o mesmo mundo com os outros. A verdade é que,
despertos, compartilhamos todos o mesmo sonho. E, para
essa senhora, o que chamamos traumatismo é sair do . sonho
comum, do sonho de que tudo vai terminar bem, ou mais ou
menos, que a vida continua. A cura, chamemos assim, é voltar
a dormir, voltar a recuperar o sonho comum. É o que Araceti
expressa muito bem, falando da restituição da trama do senti-
do. Se alguém quer um exemplo pat·a mostrar que o incons-
ciente é o discurso do Outro, há que tomar isso.
Poder-se-ia escrever uma obra de teatro a partir de
cada sonho. Por exemplo, a partir do pesadelo pós-traumáti-
co: o homem-Cristo sepultado e o olhar. Ele se lembra dela. É
o homem divino ferido, exemplo de um Deus que a abando-
nou, de um pai que a abandonou. Ela se encarna no corpo do
Cristo enterrado.
Outro ponto: quando então se inicia a transferência?
Em minha opinião, ela começa quando Aracd.i lhe demanda
um dicionário. De romeno, eu suponho?

Araceli l:'uentes: .Sim, sim.

Jacques-Alain Miller. Ela lhe demonstra um interesse


pelo pai, pelo pais de sua infância. E imediatamente ela vem
com um sonho de transferência. Isto é, desde que você lhe
pede a chave da lingua, as mensagens chegam. Araceli: "Peço-

43
Conversaçao clfnica com Jacq ues-A l ain Hi l l er eM Barcelona

lhe o código, - Minna: ''Eu te dou as mensagens". Pode-se


expressar bem a lógica perfeita disso. Em meio ao caos dos
atentados, dos pesadelos, da síntomatologia pós-traumática,
uma lógica impecável é aberta.
Depois, vem o segundo sonho: "Muita gente a olha-
va. Ela se sentia tranqüila. Uma mulher a convida a ficar.". É a
encarnação da situação analítica.
No terceiro sonho, ela está nos esgotos de Bucareste
com uma cigana e, bem, há a luz na saida do túnel. Enfim, é
um discurso constante: pode-se sair, está bem, estou bem com
essa mulher, pode-se sair, a cigana vai-me deixar ir. Vem assim
desmentir as palavras da mãe. E, ao mesmo tempo, já sente
que uma solução é desprender-se do dito religioso. Como se
lê ao final do comentário de Araceli sobre o terceiro sonho -
"Está furiosa com seus pais por preferirem seus preceitos reli-
giosos a ajudar seu fllh\)". O que se revela traumatizante está
ai, no dito.
Em seguida, vai ver a Cruz dos Caidos. Se me recor-
do bem, pois só a vi em fotos, é uma cruz enorme, é realmente
a simbolização do vivido no imaginário. Nós temos em segui-
da a emergência da palavra " parafuso", que é uma palavra
muito semelhante à serpente em romeno, e que realmente é a
encarnação das parcas. E diz: "Em seguida, vem a expulsão do
paraiso onde existia a felicidade completa" . O sonho repre-
senta o traumatismo. Ela vivia na felicidade do pai-todo-amor
e é o que se destruiu com os atentados. O que se feriu nos
atentados foi o pa.i-todo~or, e se desnuda, vamos dizer, o
fio da vida que estava recoberto pela fantasia do pai-todo-
amor.
Quinto sonho: " Há um crocodilo que morde a todo
mundo menos a mim". Aqui, é magnífico. Ela se escapa. Não
é: "Todo o mundo está bem menos eu, que sou a traumatiza-
da". É ao contrário: "m~nos a mim", "e o agarro pelo rabo e
o sustento no ar com a boca para baixo". Admirável. E o ·

44
Efe i tos t erapêut i cos r~p l dos em psican~lise

comentário impecável de Araceli sobre esse sonho: "Ela tem


o falo e sabe o que fazer com ele". Não há mais surpresas.
Passemos ao sexto sonho. Pelo que entendi,
Carmina Ordóõez, símbolo da imprensa do coração, é uma
mulher-todo-amor, todo-amores (riros). Uma mulher de todos-
amores que vai com o pai-todo-amor.
E o sétimo sonho: "Havia um homem sem rosto".
Quando Lacan comenta a obra de teatro de Wedekind, O des-
pertar da prirnavera, há um rei de duas cabeças, enfim, uma per-
sonagem com duas cabeças. E Lacan diz que talvez seja
porque h á uma personagem sem rosto. Encontramo-lo aqui,
encontramos a liberação, finalmente, que não há sujeito que
saiba, que o real é sem lei, vamos dizer o legal é sem m~ já não
há mais o .rei do mundo. E não é a castração, não é somente a
castração do homem de que se trata aqui. É o ponto em que
se torna possível para o sujeito desembaraçar-se de todas as
idealizações que produzem os trawnatismos. Se não há idea-
lização, não há traumatismo.
E sse era o ideal dos sábios antigos: não acreditar nos
deuses, não acreditar em sua benevolência, de tal maneira que
as coisas que ocorrem se;am tomadas como simples fatos sem
sentido.
Tudo faz pensar que a história de Minna foi perfeita.
Essa história, pelo menos como conta Araceli, tem a sua com-
pletude. Como se diz: ''Não poderia ser melh<'.:-1" Não se tem
o sentimento de que há wn além. Para esse sujeito, para o mal
de que sofreu, para a enfermidade que teve, essa história é
como perfeita. É um exemplo, me parece, de cura rápida analí-
tica. Podemos dizer: ''Nós sabemos fazer isso!" Nós sabemos
fazê-lo, quando o hipnotizador, o pavloviano, não sabem. Para
curar esse traumatismo, eles vão "contra-traumatizar'' a paci-
ente com sua terapia, ou seja, produzir um segundo trauma.
Eu estou por promover essa cura, não como um
ideal senão como um exemplo do que sabemos fazer com 20

45
Conversaça o cl lni ca com Ja cques - Alain Mil le r em Barcelona

sessões. Mas nós temos agora uma de três sessões para discu-
tir. O que mostra a rapidez com que avançamos (risos).

Traduçio: Vanessa Nahas e Marise Pinto


Revisão da tradução: Sérgio de Campos

46
2. Marta

Um tratamento em ttês sessões

Antoni Vians

Marta vem ao CPCf em busca de uma saída para um


ponto de angústia que a bloqueia. Tem 30 anos, é casada e tem
três filhas, de oito, seis e dois anos de idade. Ela, seu marido e
suas filhas vieram da Argentina e chegaram à Espanha quan-
do sua ftlha menor tinha acabado de nascer. Seu marido já
havia estado na Espanha há algum tempo, quando era solteiro,
regressou à AI:genrina e, dessa vez, voltava à Espanha com sua
família à procw-a de trabalho.
Ao terminar o Ensino Médio, Ma.rta começou a
fazer os estudos universitários, mas logo os deixou. Não tra-
balhava, foi-se envolvendo com drogas, e sua vida foi-se apro-
ximando de uma situação de marginalidade. ~vi então que
conheceu o seu atual marido; casou-se e, até uns meses atrás,
viveu em função dele, de suas fllhas e de uma personagem
inquietante: a mãe do marido. Partimos, então, destas três
escansões na vida de Marta: 1) momento do abandono dos
estudos e da entrada na dependência química; 2) casamento e
inicio da sua dependência em relação ao marido; e 3) uma
mudança de posição recente, que exige uma explicação.
Vou-me referir às três sessões que tive com ela.

47
Conver s aç ao clini ca com Ja cqu es -Al a in Hill et em Ba rc elona

Na primeira sessão, conta-me, angustiada e entre


lágrimas, a conjuntura na qual se encontra. Faz alguns meses,
"despertou" e se deu conta de que estava vivendo algo insu-
portável. O marido a maltrata sem parar, não fisicamente, mas
com palavras. Não pode continuar vivendo com um homem
que lhe recorda o tempo todo que a tirou da lama, que ela não
serve para nada, que é uma merda, etc. Quer separar-se, mas
se encont~ sozinha, pois não trabalha, e o marido lhe diz que
tudo está bem e que ela está louca por querer se separar.
Esse marido está dominado por sua mãe, uma mu-
lher que se faz onipresente. E la ,.;aja com freqüência da
Argentina para estar com eles durante meses. Ele não faz nada
sem antes consultar a sua mãe e sem que ela saiba de tudo; e
a mãe lhe diz tudo o que tem de fazer. Quando estão longe,
mãe e fllho se telefonam constantemente. O despertar do qual
fala Marta refere-se ao m omento em que lhe apareceu, de
maneira clara, o inaceitável da coação constante que essa pre-
sença exerce em relação ao seu desejo, e o intolerável papel de
terceiro que essa mulher desempenha para o casal.
Entretanto, nas entrelinhas deste relato, no qual o
marido é o torturador e ela é a vítima, corre um fio no senti-
do contrário: enquanto o marido não se tem ocupado em re-
gularizar sua situação legal na Espanha, ou seja, está sem a
documentação, Marta tem o processo de concessão de nacio-
nalidade bastante avançado. Ela demonstrou que é neta de
espanhóis, pelo lado materno e paterno. Desse modo, a res-
peito disso, é o marido quem aparece em falta.
A angústia se mostra muito pura, como um nó que
obstrui e que, ao mesmo tempo, assinala o caminho do desejo.
Para dar um eco a essa atualidade que bloqueia o dis-
curso, pergunto a Marta se alguma outra vez na sua vida já lhe
tinha ocorrido algo semelhante. Ela me conta, então, que,
quando tinha 21 anos, morreu sua avó materna, galegd, que a
tinha criado e que tinha sido sempre um pilar para ela. Nessa

48
Efei t os te r a pê ut icos r~p i dos em psícan4 1is e

ocasião, sentiu-se muito mal. Iniciou uma terapia, separou-se


de um companheiro, começou a usar cocaína, deixou os estu-
dos e foi então quando encontro u o seu atual marido.
Mostro-lhe a repetição: nessa ocasião, já alcançara
sua maioridade (na época, na Argentina, essa condição se
adquiria aos 21 anos) e era a sua vez de dar conta de si. A
assunção de sua m aioridade tinha ficado em suspenso com a
morte da avó e agora ressurge de algum modo nessa nova situ-
ação.
Também lhe assinalo q ue essa angústia da qual deu
testemunho é sua digrudade.
A segunda sessão, ela comparece vestida com uma
camiseta na qual se lê: No strm, e traz o relato de uma segôn-
da repetição. Na idade exata que Marta tem agora, aquela avó
galega - a chamaremos de Pilar - tinha ficado viúva e com
três fllhos. E Pilar tinha então, na Argentina, o mesmo que ela
tem agora na Espanha: a condição de ser uma imigrante.
E la me fala de suas três filhas. A primeira foi dese-
jada, a segunda e a terceira, não. E la me conta sobre seus
sentimentos de culpa pelo nascimento das duas filha s
menores, principalmente, da do meio. Os m édicos haviam
anunciado complicações no p acto. O marido estava em outro
lugar e, além disso, lhe era infiel. E Marta esperava esse
nascimento, pro blemático em vários sentidos, colocando-se
aos cuidados da mãe do marido. Seu sentimento de culpa
provém do fato de ter deixado que as coisas acontecessem
desse modo.
Ela sabe que deve tomar uma decisão, somente lhe
falta se sentir mais forte e também dar algum passo em
direção à independência econômica. Sabe também que essa
decisão implica a sua familia, pois as f.tl.has fazem perguntas, e
ela teme marcá-las com uma separação. E la se dá conta de que
I
Pessoa natu.r21 de GaUcia, região situada ao noroeste da Espanh~.

49
Conversaçao clinica com Jacques-Alain Miller em Barcelona

se encontra ante uma escolha forçada e que para as meninas


haveria algo pior do que a separação de seus pais.
Na terceira sessão, Marta me conta algo mais sobre
a avó Pilar: quando morreu, ela foi a única da família que
cuidou de seu túmulo. Faz alguns dias, quando contou a uma
amiga que esteve chorando, essa lhe replicou que, até então,
nunca a tinha visto chorar. Marta não se havia dado conta
disso; ela se lembra de que, com certeza, quando morreu sua
avó, não chorou e não voltou a fazê-lo nunca mais até esse
momento. Parece, pois, um luto não realizado, deixado em
suspenso durante todo esse período.
Também me disse que é possível que lhe ofereçam
um trabalho.
A última coisa que me contou foi uma pequena
histó ria que contém um enigma sobre o pai. No verão passa-
do, seus pais vieram à Espanha para estar com ela e, também,
para visitar seus lugares de origem. Primeiro, foram à Galicia
para conhecer a fam.ilia materna; viram o povoado, conhece-
ram a casa, reencontraram vários parentes - sem problemas.
Seguiram depois seu caminho em direção a um vilarejo
andaluz do qual o pai é oriundo. Mas, no caminho, pouco
antes de chegar, o pai teve um ataque, subitamente ficou
furioso e começou a insultar Marta. Ela nunca o tinha visto
assim, achou que ele tinha ficado louco. O resultado foi que a
viagem foi interrompida e tiveram que voltar sem ter chegado
ao povoado do qual o pai procede.
Antes da quarta sessão, Marta ligou para o Centro
para dizer que, de fato, llie tinham oferecido trabalho e que havia
aceitado e que, por isso, não poderia vir. Foi oferecida a ela a
possibilidade de voltar, e ela respondeu que daria um jeito de vir
outra vez. Disse que viria, mas até agora algo a tem impedido.

Tradução: Osçar Reymundo


Revisão da tradução: Jorge Pimenta

50
Efeitos terapeuticos r~pidos em psicandlise

Conversação
O casamento triangular

Elllira Gt1ilaiia: Vamos começar a segunda parte com


o caso que Antoni Vicens preparou; é o primeiro caso de um
CPCT jovem que iniciou sua experiência em outubro último.
Quando indagamos se podíamos apresentar alguma questão,
Antoni pensou que essas três sessões marcavam muito bem
um ponto que ele destaca como um dos efeitos terapêuticos,
e o consentimento subjetivo dessa mulher para aceitar um tra-
balho, considerando sua história pessoal, em tudo o que ela
pôde elaborar nessas três sessões. Antoní esclarece que se
trata de uma mulher de 30 anos, casada, com três filhas, e assi-
nala, nessas três sessões, uma primeira e uma segunda
repetição.

Pierre-Guilles Guéguen: Se tomamos para esse caso


breve o método before an actor, temos como ponto de partida
uma mulher que chega totalmente angustiada, vivendo mal seu
casamento, e que, depois de três sessões, consegue separar-se
de seu marido, ou, ao menos, consegue tomar algwna clistân-
cia, encontra um trabalho e poderá ocupar-se de suas filhas.

Elvit"O Guilaiia: Pôde aceitar o trabalho, esse é o


ponto.

Pierre-Gilles Guéguen: Pôde aceitar o trabalho, e o que


acontece nas três sessões? Antoni acolhe a angústia, autentifi-
cando-a, o que permite fixar um ponto de real no simbólico,
e daí a transferência vai-se desenvolver. Isso permite que a
paciente descubra duas coisas. A primeira é que seu mundo
mudou, como dizia Jacques-Alain a propósito do caso ante-
rior, a partir do traumatismo causado pela morte de sua avó
que era o pilar de sua vida, de sua família. A segunda é que ela

51
Conve r saçao cllnlca com J acques - Al aln Hi l l er e~ Ba rce l ona

pode analisar sua situação em relação ao marido e aos ho-


mens em geral e sua tendência em marginafuar-se e em se
fazer de vítima, como ela efetivamente fez, depois da mu-
dança de seu mundo. E, ao fun de três sessões, ela se dá conta
de qual era sua posição em relação ao seu pai, que a maltrata-
va. Parece-me que, ao fmal, ela encontra uma nova identifi-
cação, uma identificação ao pilar, à avó morta, e com isso
pode retomar sua vida, em outro âmbito, de outra maneira.

Elvira G11ilaiió: Podemos destacar também a pontu-


ação que marca Antoni Vicens em relação à angústia que assi-
nala o caminho ao desejo. E ele faz essa pontuação à paciente,
· dizendo-lhe que "essa angústia da qual ela dá testemunho é
sua dignidade". Parece-me que vale a pena destacar esse ponto
no caso, para abrir o debate.

Mario Iz&ovich: Eu me pergunto se essa mulher já fez


uma análise, e se é essa angústia o que a levou à consulta.

Antoni Vicens: Pierre-Gilles Guéguen resumiu sucin-


tamente os pontos de inflexão do caso. Um ponto essencial é
o da angústia, tomar a angústia, você dizia como o real no sim-
bólico, ou seja, o que ocupa no simbólico o lugar de das Ding.
É por isso que lhe fiz esta interpretação: nessa angústia está
sua dignidade. Não foi preciso nenhuma outra explicação, o
sujeito compreendeu perfeitamente do que se tratava, já que
era muito claro que a angústia apontava exatamente para o
caminho de seu desejo. Faltava talvez a palavra de outro que
lhe dissesse: "Sim, é aí".

]a&ques-Aiain Miller: O que a despertou?

Antoni Vicen.r. O que a despertou foi uma coincidên-


cia temporal.

52
Efei t os t erapêuti cos ráp i do s em psicaná l i se

]acqges-Aiain Miller. Você disse: "O despertar de que


fala Marta se refere ao momento em que lhe apareceu de
maneira clara o inaceitável da coação constante que esta pre-
sença - da mãe do marido - exerce com respeito ao seu
desejo". Houve algo de especial?

Atltoni Vicens: Há uma escansão temporal, agora não


sei se a mencionei, porém há uma escansão temporal que já se
percebe na primeira sessão.

]açq11es-Afait1 Miller. Algo ligado à nacionalidade? Eu


faço essa pergunta porque ela tem a nacionalidade espanhola,
e seu marido, não. Não se compreende muito bem de qual
acontecimento se trata quando você diz: "É o momento em
que ela me conta a conjuntura em que se encontrava há alguns
meses, que ela se desperta e se dá conta de que estava viven-
do algo insuportável". Minha pergunta é somente se um acon-
tecimento preciso a despertou.

Antoni Vicens: Há um, mas eu não me lembro exata-


mente qual

]atques-Aiain Miller. É a sua idade, alguma cifra?

Antoni Vicens: É relacionado com a morte de sua avó.

]acqus-Aiain Miller. Ela se aproxima da idade na qual


a avó morreu.

Antoni Vicem: Não, da idade em que a sua avó ficou


viúva. Eu indiquei: ''A paciente tem hoje a mesma idade que
tinha sua avó, quando a mesma ficou viúva e então se erigiu
em pilar''.

53
Conve r saçao c11 n ic~ com J acq ues-Al ai n Mi l ler em Barce lona

JacqJier-Aiain Miller. É translúcido.

Antoni Vicms: É transparente.

Jacques-Aiaifl Miller. Translúcido não se diz?

A11toni Vicms: T ranslúcido é um pouco opaco e um


pouco transparente, talvez sim, é melhor, é como uma tela na
qual se desenha.

Jacques-A iain Mil/er. Gosto mais disso.

Antoni Vicms: Como os copos das velhas gravuras a


ácido na entrada de Freud em Berggasse, onde se viam as ima-
gens daguerreotipadas, como a tela da fantasia. Esse é o acon-
tecimento que põe .em marcha, que desperta um luto que
havia começado, porém não se havia feito. O luto da morte da
avó. Perguntavam se havia feito algum tratamento anterior.
Sim, havia feito uma terapia nesse momento, quando morreu
a avó, seu mundo ficou descomposto, já que, como ela disse,
fo i essa avó quem lhe criou.

Jacques-Aiain Miller. E ntende-se que essa avó assuma


muitos papéis, um papel simbólico; um papel imaginário; e um
real. O curioso é que esse tratamento de três sessões parece
completo. Também, como o anterior. Para o problema que
surgiu do ponto de angústia, em um, d ois, três! E já está feito.

Antoni Vicens: O que aparece é uma divisão subjeti-


va. Aparece uma divisão subjetiva quando sua amiga lhe diz:
"Nunca a tinha visto chorar até agora". O que é uma surpre-
sa para a própria paciente. É uma interpretação que essa amiga
faz.

54
Efei tos t erapêuti cos r& pi dos ea psicaná li se

]acques-A/ain Miller. Sim, porém é resolutivo também,


como no caso anterior. Temos colocado a pergunta sobre os
efeitos terapêuticos rápidos, pergunta que nunca nos
havíamos feito assim, que nos temos feito pela pressão con-
juntural Aa~er, e que nos tem feito ver em nossa própria
prática coisas que não havíamos conceitualizado ainda. E é o
segundo tratamento que vemos, nesta tarde, que parece ser
completo, dessa vez em três sessões. Não quero dizer que não
poderia voltar e começar um novo ciclo mais longo, porém o
ciclo está completo em três sessões. Como conceitualizá-lo
dessa vez? O que chama a atenção é o que você diz ou retoma
do que dizia a paciente, que, num momento, entendeu que
tinha um papel terceiro, porque a mãe estava reahnente casa-
da com o filho, e que ela tinha o papel terceiro, quer dizer,
percebe o nó borromeano da situação. Percebe que há um nó
da situação entre o marido, sua mãe e ela como a esposa,
percebe que finalmente a vinculação essencial do marido é
com a mãe, que ela é o que se necessitava para ter filhos de-
vido à lei do incesto, porém é evidente a ligação incestuosa da
mãe e de seu filho, e que ela é somente a terceira: não é um
casal, é um trio. E, nesse momento, pode-se entender porque
essa pessoa desperta quando já teve três filhas, também três,
são as três parcas da outra história. Ela viveu com esse homem
muito tempo, e fKlde-se perguntar por que uma mulher aceita
seguir casada durante 10 ou 12 anos com um homem que está
casado coro sua mãe. Porque ela mesma está casada com sua
avó. Ou seja, se vê em três sessões a estrutura do falso casal
que havia, quando, na realidade, havia dois casais, o marido
com a mãe e ela com a avó morta. Esses eram os vínculos que
contavam e que davam uma aparência de casal entre ela e seu
marido. É uma maneira de expressá-lo. E tudo isso se desfaz
em três sessões. A primeira sessão finalmente expõe a situa-
ção, descreve-a, profere palavras sobre isso. Na segunda
sessão, ;á vem com a camiseta estampada com um no Ifress.

55
Con ver s açao c l fnica com Jacques-A ia in Miller em Ba r ce l ona

Um, dois, três, é muito bonito, já ocorreu algo, em inglês, em


inglês sempre...

Antoni Vicenr: Bom, o que você nos diz é que a etio-


logia de seu mal-estar não é o estresse, mas o três. É o que me
dizia a paciente: "Não vá acreclitar que a etiologia do que me
passa é o estressl'. Mesmo que esse termo seja utilizado por
aqui freqüentemente.

]acquer-Aiain Mi/ler. Eu entenderia: "não três"(no


slress).

Antoni Vicens: É claro.

Jacques-Aiaín Mi/Jer. Ela fala das três f.tlhas, aí vem


uma questão de três no não estruse. Na terceira sessão, aparece
como a única que cuidava do túmulo, a que levava flores à avó,
a que fazia a corte à avó materna, se se pode dizer assim. É
um caso muito puro e também wn caso de referência. Poder-
se-á dizer: " É como o caso Vicens das três sessões", como se
diz de um caso de Esthela Solano apresentado recentemente
em Paris.

Antoni Viten.r. Sim, seu caso era muito bonito.

]açq11es-Aiain Mil/er. São casos produzidos graças à


pressão politica que temos sofrido e que nos forçou a fazer
surgir de nossa prática toda uma dimensão que não perce-
bíamos até agora, da eficácia incrível da prática lacaniana. Sou
a favor de continuar, de buscar, de trabalhar, de explorar essa
dimensão de nossa prática e recopilar esses casos de tratamen-
tos breves, autênticos e completos à sua maneira. Lacan disse
que não é uma só vez que se faz o trajeto, disse-o na Proposi;ão
de 9 de outubro de 1967 para opsicanalista da Escola, e o disse tam-

56
Efeitos terapê uticos rá pi dos em ps fca n ~l i se

bém no Seminário XI . Sente-se, em uma análise, que há ciclos,


é o momento em que o sujeito eventualmente pensa em sair e
depois é enganchado outra vez no trajeto, eventualmente mais
longo. Aqui temos ciclos iniciais completos. Pode-se dizer que
não é análise, que a análise não começou etc. É que tendemos
a pensar a análise como um processo infinito, porém para
Lacan uma análise é perfeitamente terminável, e essa é a
prova, é como uma análise em redução. Porém para ter
condições de conduzir um tratamento assim é preciso ter feito
uma longa análise pessoal, erpbora isso já seja outra coisa.
Seria interessante ver em que daria esse caso com um trata-
m ento pavloviano, seria um terror.

Attloni Vitent: Não cheguei a saber qual tratamento


ela fez aos 20 anos, quando a avó morreu.

Jacques-Aiaitt Miller. Algo que tapou as coisas, uma


sutura forç3.da que...

Anloni Vicens: ...a deixou em uma posição de dejeto,


apta para logo ser tomada por um homem como a mulher
degradada.

Rosa Calvet. Nós não sabem os qual terapia ela fez,


mas sabemos que os efeitos foram desastrosos. Ela iniciou
uma terapia, separou-se do companheiro, começou a usar
coca1na, largou os estudos. Bom, não funcionou muito a outra
terapia.

]acqPes-Aiaitt Mi&r. Seria interessante saber que tipo


de terapia ela teve. Não pode voltar a encontrá-la para saber
se foi uma tetapia cognitivista-comportamental? (tisos)

Anloni Vicens: Se voltar a vê-la, perguntarei.

57
Coover saçao cl f nica com Jacques- Alain Miller em Barce lona

Eluira Gt~ilana: Talvez seja um dado a ser levado em


conta em outros casos.

Enric Bereng11er. Um ponto me chama a atenção nesse


ciclo completo: ele termina com um enigma. O termo "enig-
ma" está presente no caso... Eu gostaria de saber como esse
enigma não abre um novo ciclo e se ele não se torna uma per~
gunta para essa mulher.

Antoni Vicens: Ela mantém um certo véu a respeito


dos pais em relação a outra questão importante, que é o fato
de que, se foi a avó Pilar quem cuidou dela, o que faziam os
pais? Ela diz que eles passavam muito mal, que havia proble-
mas econômicos, era uma época ruim, e ela, digamos, que os
perdoa, em seu discurso, não quer saber mais disso, mantém
isso sob o véu. Era um momento de carência, e os pais pas-
savam muitas dificuldades. E aí se detêm as coisas. Por supos-
to, então, a história que conta já não é dessa ordem, da carên -
cia de cuidados, mas se trata do enigma do pai: que problema
teria o pai com sua família de origem? Enigma na m edida em
que ela diz que não entende nada, pensa por um momento
que o pai havia enlouquecido, porém não há mais história. As
férias arruinaram-se, eles não vão ao vilarejo do pai, eles retor-
nam, a pesquisa terminou. Se o ciclo de sua análise se relan-
çasse, é certo que isso seria importante.

Enric Berengtter. Chama-me a atenção justamente que


esse enigma do pai toque um ponto que está presente na
primeira entrevista, porque ela chega falando de um homem
que a insulta, seu marido, e acaba falando de um pai que a
insultou. É algo curioso.

Antoni V icens: E videntemente, é algo estrutural, sim,


sim.

58
Efe ito s terapêut icos r ~pi do s em ps ican~lise

]uan Carlos Tazetfjian: Jacques-Alain Miller diz que


nós não havíamos conceitualizado a questão dos efeitos tera-
pêuticos rápidos e que o fazemos graças· à pressão política.
Bem, em primeiro lugar, para mim, não estão conceitualizados
ainda, estamos dando-lhes atenção apenas. Freud deu um
nome a esses efeitos rápidos, "fuga para a saúde". Não estou
certo se Lacan disse algo a respeito. E, então, quando nos
encontrávamos com esses efeitos na metade de uma primeira
entrevista, quando o paciente pensava ter encontrado um
alívio, nós pensávamos até então se tratar de uma "fuga para
a saúde". Então, eu acredito que o que nos falta é conceitua-
lizá-lo, porque senão poderíamos pensar: como é que a pres-
são política nos produz um caminho epistêmico? Seria colo-
car os políticos em um rúvel muito alto, me parece.

Jacques-Aiain Mil/er. Não sei que vaidade ou orgulho


tem Tazedjian para não poder suportar que a pressão política
lhe faça algo. Eu lhe asseguro que ela torna a vida de todos
nós impossível na França desde alguns meses. Nós jamais
havíamos recompilado esses dados, embora os conheçamos
bem; estou. de acordo, vivemos dentro disso, e, para nós, uma
análise será sempre algo de duração, e esses fatos serão
secundários. A questão é saber se nós podemos considerar o
tratamento breve como uma entidade autônoma, ou se nós
devemos apenas falar de efeitos terapêuticos rápidos em um
tratamento de vocação longa.
Esses tratamentos me interessam, não os quero
criticar como se fossem somente um pequeno jogo, algo que
não tem importância. A análise, sendo aos ollios de Freud
interminável, por estrutura, o levará a falar de "fuga para a
saúde". Freud não pensa que os tratamentos termináveis
sejam anátise, mas Lacan tem a idéia de que as análises termi-
nam bem e belamente. E esses casos são preciosos porque
demonstram o caráter finito da experiência, mesmo que se

59
Conv ersaçao cl ioica com Jacques-Alain Mil ler em Barcelona

trate de um só ciclo. Pode-se sempre refazer o percurso, mas


cada ciclo da experiência tem sua completude. Essa será uma
nova tese: a análise é de tal forma terminável que ela termina
muitas vezes (risos), que ela ama terminar e termina repetidas
vezes. Essa é a experiência de perto. Há um fim final, e, como
a análise ama terminar, ela termina de novo. Isso quer dizer
que ela obriga um recomeço - para terminar. Eu improviso,
eu invento para responder a Tazedjian.

Antoni Vicens: Queria assinalar uma semelhança que


há entre esse caso e o anterior e que tem a ver com a idéia de
ciclo. Em ambos, há algo da ordem de uma inscrição. No caso
·que foi apresentado por Araceli, era esse olhar deslizando-se
sobre os muros dos nomes dos mortos, parecido com o muro
onde então os mortos da guerra da Coréia, da G uerra do
Viemam e também do 11 de setembro em Manhattan. Essa
pessoa desliza seu olhar de soslaio para verificar que ela não
está ali, e o elo tênue da vida é este não estar inscrito ali nesse
lugar. Nesse caso, por estar presente também um túmulo -
eu não pude saber o nome da avó - há alguma coisa de
semelhante: ela se inscreve fazendo valer o fato de que tanto
seu pai como sua mãe são de origem espanhola. E ela con-
segue a nacionalidade espanhola. Nesse ciclo, algo mudou,
algo se inscreveu de maneira fixa.

]acqJtes-Aiain Mil/er: Fica o mistério da fúria do pai ao


voltar ao lugar de origem. Subitamente, mostra-se furioso e co-
meça a insultar a sua filha. É bizarro: como fazer isso entrar no
caso? Por que de voltou à Espanha? Para ver o seu vilarejo?

Antoni Vicens: Bom, estamos em Andaluzia, pode-


mos inventar. Garcia Lorca o fez por nós e melhor: os ódios
inveterados, os rancores que ficam estruturando a vida de um
vilarejo como a de uma tribo.

60
Efeitos tera pêuti c os r~ pi d o s em p s i ca n ~l 1 se

Jacques-Aiain Milkr. E como se consideravam os emi-


grantes entre a gente andaluza? Os que iam embora eram mal
vis tos ou não?

Antoni Vicen.r. Eu não sei se foi o pai ou se foram os


avós paternos que imigraram. Porém esse tipo de ódio se
transmite de pai para filho.

Jacques-Aiain Miller. E a avó querida, era a mãe... ?

Antoni Vicens. ... da mãe, uma galega.

jacques-Aiai11 Miller. Eles conheceram o povoado de


o rigem na Galícia? Tudo ia bem desse lado da família?

Antoni Vicen.r. Sim, conheceram parentes, a história


clássica, parentes que não conheciam, os primos...

Jaçquer-Aiain Miller. Foram à Galic.ia antes de ir a


Andalu#a?

Antoni Vicen.r. Sim.

Jacques-Aiain Milkr. E foram bem acolhidos na


Galícia?

Antoni Vicens. Tão bem como sabem acolher os gale-


gos aos visitantes (risos).

Elvira Guila1ia: Com mariscadas.

Jacques-Aiain Miller. Podemos supor que o pai temia


não ser bem acolhido pelo povo andaluz? Estamos buscando.
É uma investigação.

61
Conve r saç a o c l fn í ca com J acques- Ala f n M\ l l er em Barce lona

A ntoni Vicens: Temos que voltar a chamar a


paciente... (risos).

jacques-Aiain Miller. Qual era a relação da avó com


sua filha, a mãe da paciente, segundo o que escutou?

A ntoni Vicens: Foram três sessões... (risos), você pede


muito.

Jacques-Aiain Miller: Não se trata de que faça um


romance. Minha hipótese é que a mãe era muito próxima de
sua própria mãe.

Antoni Vicen.r. É possível, é possível. Se a mãe de


minha paciente de algum modo cedeu sua filha, deixou que
sua filha fosse cuidada pela avó, quer dizer, por sua própria
mãe, provavelmente, deve haver algo dessa ordem.

Jacques-Aiain Milkr. Um vínculo muito forte.

A ntoni V icens: - Há mais um triângulq.

Jacques-Aiain Milfet~ Exatamente! É o que cu queria


dizer. Podemos supor que a estrutura do casamento da
paciente, em que ela estava casada com um homem que con-
tinuava ligado à sua mãe, repete a estrutura do casamento de
seus pais. Quer dizer, que sua própria mãe estava ligada à sua
mãe, a famosa avó, e que o pai sofria como ela mesma sofreu
em função do laço entre seu marido e sua sogra. Ao voltar à
Galícia, ao ver tudo isso, o pai não pôde suportar suas raízes
andaluzas e estar em falta diante da ftlha. E seria por essa
razão que a insultou.
É pura especulàção (risos). Eu quero somente pon-
tuar que esse "ataque de fúria", que parece irracional. deve ter

62
Efe itos terapêu t i cos r 6pi dos em psica ~ •l ts e

seus determinantes. Caso a paciente tivesse prosseguido o


tratamento, teria sido esse um ponto de partida. A hipótese
está baseada somente em alguns dados: há uma dessimetria
entre a viagem à Galicia e a Andaluzia e a desestabilização do
pai po r essa dessimetria. E se há uma dessimetria temos que
buscar uma simetria em algum lugar. Seria a simetria estrutu-
ral dos falsos casais, na realidade, trios.

Antoni Vicms: Sim, é uma hipótese que pode parecer


especuJativa, porém também o analista faz hipóteses para si
mesmo, que são as que definem seu lugar de escuta. N esse
caso, define-se, muito claramente, ou seja, em função do suce-
dido, que está muito estruturado edipicamente. Confiamos na
solidez dessa estrutura para, retroativamente, reconstruir
arqueologicamente essa história.

]acqNe.r-Aiain Mziler: E finalmente logrou cortar o nó


borro meano infernal em que estava tomada. E o que aconte-
ceu, o que aconteceu com o marido?

An~ni V icens: Perdoem-me, um momento, porém eu


sabia que alguém ia me cantar a habanera. A habanera é uma
canção de pescado res com um ritmo lento, um pouco como
uma barcarola. H á uma famosa que diz: "Diga-m e você o que
aconteceu. ..", e então o relato segue escandido por esta per-
gunta repetitiva: "D iga-me você o que aconteceu ..."

]acqNes-Aiain Miller. Não, é melhor assim , não sabê-lo,


fica como uma história perfeita. Ela percebe o enodamento, o
enodamento se desfaz, e isso libera os três personagens. Vocês ve-
rão em breve que há questões assim no Seminário O sínthotJJa.

Patricia Tasiarq. Eu me perguntava pela quarta sessão,


essa sessão sobre o pai que faz enigma, salvo para a paciente.

63
Conve rsaçao c11nica com Jacque s- Al ain Mill e r em Ba rcel ona

Parece que houve uma tentativa de uma quarta sessão, que não
aconteceu. Aqui estamos perguntando se ela vai tornar a
chamar ou não. Eu me perguntava se não seria justamente
uma abertura em direção a uma análise que essa questão do
pai poria e que daria também lugar a um trabalho sobre as
suas escolhas de parceiros.

Maria Seg11ra: É uma meia pergunta, meia resposta.


Parece-me muito claro que, nesses encontros rápidos, é pre-
ciso evitar a repetição. É wn ciclo que se fecha e não permite
que volte a se repetir. E, caso se abra um novo ciclo, ela tem
um lugar para onde se dirigir.

A/9"tmdro Velasquer, Eu me pergunto o que o desejo


do analista tem a ver com a obtenção de efeitos terapêuticos
rápidos na conjuntura em que se encontra a psicanálise. Talvez
não os tenhamos que encontrar ou buscar em todos os casos.
Talvez não se trate de chamar essa mulher. Ela foi embora e
isso é tudo.

Jacques-Aiain Milier. Antes se tratava s~mpre de chamar


as pessoas. Mas agora que somos favoráveis aos ciclos iniciais
completos, trata-se de não nos assustarmos com o fato de os
pacientes deixarem as análises (risos) .

CaT'1!1en G tnat. Finalmente, esse despertar do princí-


pio não terá a ver com os gritos desse pai ao final? Essa
viagem foi no verão, ela disse que, no verão anterior, aconte-
ceu a lústória do pai, e esse despertar ocorreu faz alguns
meses. Não sei se coincide finalmente.

Antoni Vicens: Não sei, é possível que venha a coin-


cidir, ou talvez tenha sido de um verão anterior. A questão é
que há ciclos, porém, em cada ciclo, aparece uma casinha vazia

64
Efeitos terapêuticos r~pidos e m pslcan•lise

nova. Nesse caso, a casinha vazia é isso que eu chamei enigma


do pai, que produz ou não enigma para a paciente, segundo a
decisão que ela tome.

Tradução: Cleudes Slongo


Revisão da tradução: lordan Gurgel

65
3.Andrea

Em direção às Belas Artes

Carmen Garrido

Andrea, de 40 anos, compareceu à Clínica do Campo


Freudiano em La Coruila por recomendação de uma amiga.
Faz dois anos que se separou do marido por decisão própria;
foi uma separação difícil. Agora está começando uma nova
relação e não quer repetir o que aconteceu anteriormente. Ela
se pergunta por que escolheu seu primeiro companheiro e por
que agüentou tanto.
Na primeira entrevista, relata a relação com seu ma-
rido, ~ostrando seu desconcerto por tê-lo suportado. Começou
a sair com o seu marido aos 18 anos. Aos 21, ele ia fazer uma
especialização em Pari§. (ele é médico), e decidiram se casar
para poder seguir juntos. Em Paris, ela estudou Belas Artes.
Ele bebe há muito tempo e anda com prostitutas.
Ainda recém-casada de a contagiou com herpes genital. No
começo, não sabiam o que lhe acontecia, quando descobriram
o problema, o mundo desabou para ela. Não sabia o que fazer,
mas sua mãe, que foi acompanhá-la durante a doença, de algu-
ma maneira lhe transmitiu que tinha que aceitar sua situação e
continuar com o seu marido. "Nunca me dei outra oportu-
nidade, era como se fosse minha responsabilidade". Dedicou-
se a cuidar da casa e das crianças, as quais ele nem olhava, e a

67
lonve r saçao clf nica com Jacques- Ai eln M11ler em Sa r celona

cuidar dele também. Vivia uma vida de aparência, ninguém


podia imaginar o que era realmente seu casamento. Quando as
crianças cresceram, ela foi mudando, foi-se tornando mais
independente. Ela diz: "Estava mais segura de mim mesma,
tinha a sensação de que agora era a minha vez de me dedicar
a mim mesma, já não sou a idiota, mas ainda me dá medo não
agradar o suficiente, como se eu fosse wna porcaria!''
Finalmente, deixou-o, porque ele estava se matando
com a bebida. Já não tinham uma vida marital, ela estava ali
somente para cuidar dele e encobri-lo frente a amigos e cole-
gas. Ele tinha chegado a um ponto de muita degradação e,
provavelmente, tinha um excesso de gozo que se tornou insu-
portável para ela.
Ao lhe perguntar o que lhe agradou desse rapaz, ela
diz: "Era o contrário de mim, muito para frente, era o rei das
festas. Eu era muito tímida e vivia através dele coisas que eu
não vivia." Pergunto-lhe se teve outras relações anteriores a
essa. Ela diz que aos 16 anos saiu com outro rapaz que tam-
bém era o centro das atenções, era dependente de drogas e foi
ele quem a deixou, momento em que ficou muito mal.
Indico-lhe que parece que ela quer ser a rainha con-
sorte das festas, que precisa do Outro para brilhar (quando
realmente ela tem seu próprio brilho, é atraente, agradável e
culta). Ela diz que sempre foi assim. Suas amigas eram mais
atrevidas que ela e eram as que decidiam.
Ela sabe que não casou enganada. Ele era de boa famí-
lia, muito bem aceito pela sua família também, mas suas amigas
llie advertiam que ele bebia muito e era wn mulherengo, e ela não
queria ver isso. Além do mais, '(ttansou" com ele antes de se casar:

Então já não poderia haver outro homem.


Imponho-me uma moral mwto rígida, mas isso
não me impediu de transar com ele e isso me
pasma, faço e logo o imponho como se fosse um

68
Efei to s ter a p~uticos ráp10o s em psi ca n ~lise

castigo, sempre o faço no cúvd sexual, agora isso


acontece com este rapaz, transo com ele, mas não
tenho um orgasmo. Por que eu faço isso? Quero
saber por que faço isso; quando era mais jovem
pensava que era algo ruim, mas agora não.

Sobre seu atual companheiro diz que é um homem nor-


mal, que não se parece com os anteriores. Está separado, é bom
e carinhoso. Ele gosta de crianças c não bebe mais que uma dose
de vez em quando. Ela acha que teve muita sorte de ter encontra-
do um homem que a aceite com um herpes vaginal e três filhos.
Ela mantém c:ssa relação em segredo. Aprovdta os
fins de semana, em que os ftlhos estão com o pai, para se
encontrar com ele, e, de vez em quando, ela vai até a cidade,
onde mora seu namorado, dizendo à sua mãe que vai à casa de
uma amiga. Ela pensa que seus pais, com uma morãl muito
rígida, não entenderiam. Além disso, ela depende economica-
mente deles, enquanto não vende sua casa, mora em um
apartamento que é de propriedade de seus pais.
Andrea não quer precipitar-se com esse homem, não
pensa que tenha que se casar com ele, e depois ve rá onde vai
dar a relação, quer manter sua independência econômica.
Pergunto-lhe sua história. Ela me diz que é a mais
velha de três irmãos. Teve uma infância feliz, apesar de bastante
afastada das pessoas. Sua mãe e sua tia iam todos os clias à casa
da avó com as crianças. Ali passava as tardes <.:l11il seus irmãos
e seus primos, pois até bem crescidos eram muito protegidos.
Sua mãe era uma mulher de pouca personalidade,
complacente. Pensa que se parece com ela. Em casa, quem
mandava era o pai, um homem autoritário, mas lhe parecia
normal, pois era o que tinha que ser um pai.
Era um casal convencional, seu pai trabalhava e sua
mãe se ocupava da casa e da fanu1ia. Da relação deles antes do
casamento, ela não sabe nada. Diz: "D e sexo e dinheiro não se

69
Conversa ça o clinica com Ja cques-Al ain Mi ll er em Barcelona

falava, pois era isso considerado má educação". Ao lhe indicar


isso, ela diz: "Sim, são os dois temas que me faltam". E por
isso vem à Clínica: para saber por que agüentou tanto seu
marido e para seguir em frente economicamente de modo
independente.
Ela acredita que estudou Belas Artes

porque é justamente algo do que é dificil de se


viver, não busco ganhar dinheiro. Eu fecho todas
as portas para ter que viver de vender os meus
quadros. Sei que é diffcil, mas posso conseguir. Nós
[ela dos irmão~] estudamos Belas Artes e é curioso
que nós três vivamos de ar. Preocupa-me essa falta
de independência econô mica.

Ela agora poderia viver de renda, da pensão de seu


ex-marido, ou voltar para casa dos seus pais, onde seria bem
recebida com seus filhos.
Seus pais, principalmente sua mãe, acabaram aceitan-
do sua separação, mas pensam que agora sua vida como mu-
lher acabou e que ela deve dedicar-se aos fLihos. No entanto,
ela se empenha em mudar de vida.
Continuando com o relato de sua história, ela diz
que sua avó era uma mulher independente, autoritária e muito
culta para a época, e pintava. '~té o final geniosa e elegante.
Não me pareço com ela na forma de ser, mas ela foi um re-
ferente para mim. Estudei Belas Artes por causa dela." A avó
pintou até que se casou e depois se dedicou ao marido e à
família. Morreu como queria viver, rodeada da família, muito
serena, sabia que iria morrer.
Sua tia se parecia com a avó. Enquanto a avó viveu
manteve a compostura, mas quando morreu sua mãe se sepa-
rou de seu marido, foi morar com um homem e começou a
viver de seu trabalho como pintora. Na sua casa, ficaram
muito tempo sem lhe falar por causa disso. A paciente admira

70
Efe i tos t era pê uticos r6p l dos em psica n4 lise

essa tia, que foi capaz de deixar tudo e enfrentar a família para
segujr o seu desejo.
Ao falar disso, ela se dá conta de que há uma identifi-
cação com sua mãe como mulher submissa e complacente, mas
que tem um ideal de mulher independente como sua tia e sua avó,
apesar dessa independência se quebrar quando há um marido
ao lado. Ela, com seu marido, colocou-se mais do lado da mãe, e
agora quer colocar-se mais do lado da tia (da mulher), do desejo.
Também se dá conta de que, apesar de seus irmãos e
ela terem recebido a mesma educação rígida e moralista, eles
são diferentes. Seu irmão mora com uma mulher alemã e leva
uma vida que os pais consideram desordenada, no entanto, os
dois são bem aceitos na família. Sua irmã leva a vida sem dar ex-
plicações e diz a ela que faça o mesmo. Mas ela nunca se pôde
perrrütir fazer algo que sua mãe não visse com bon s olhos e,
se alguma vez fazia algo às escondidas, pagava com a culpa.
Começa a levar o namorado para sua casa e o apre-
senta a seus ftlhos. Ao se sentir julgada pelo mais velho, deixa
bem claro para ele que é seu companheiro, que está muito
bem com ele e que eles continuam tendo o seu pai. Não quer
sentir com seu ftlho o mesmo que sentiu com sua mãe.
Também conta a seus pais. Sua mãe lhe diz que
tenha cuidado e ela entende que seu pai consente em silêncio.
Sente-se apoiada por ele na sua idéia de começar uma vida
nova, ele a ajuda a procurar um local para mor.:~ r uma acade-
mia de pintura e lhe paga os primeiros gastos. Quando vai ver
seu namorado não dá mais explicações.
Já nas últimas sessões, revela-se a razão de seu gozo.
Lembra-se de que, na sua adolescência, visitava com sua tia os
bairros marginais da cidade, fazendo um trabalho social e de
caridade e que, depois de ver aquilo, pensava que ela não
merecia viver tão bem, sentia-se culpada da sua situação
econômica e de ser feliz. I ndico-lhe que vive seu bem-estar
como uma falta. Ela assente com estranheza e pensa que com

71
Conv er sa çao cl fo ica co• Jac ques-Ala l n Mi l ler em Bar ce lona

seu marido estava fazendo o mesmo que fazia com as pessoas


marginalizadas.
Fazer de sua ria o ideal como mulher independente e
do desejo leva implícita a outra face, a do gozo que se realiza
no olhar dirigido aos marginalizados e seus cuidados.
A paciente escolhe, obedecendo a seu gozo, homens
da marginalização e da degradação: seu primeiro namorado era
dependente de drogas c seu ex-marido, alcoolista e mulherengo,
e ela mantém com eles wna relação sob o ideal dos cuidados e
do gozo do objeto resto. Ela mesma chega a se aproximar de
certa marginalidade, deixando-se cont:anllnar com o herpes geni-
tal ou ao não se permitir viver com certa comodidade, depen-
dendo de um trabalho que lhe faz passar apuros econômicos.
D eve-se levar em conta que, apesar de seu último
companheiro não parecer apresentar os mesmos traços de
marginalidade, ela se encontra muito bem com ele, mas não
desfruta sexualmente.
A partir da interpretação da analista, "vive seu bem-
estar como uma falta", ela pôde intuir algo desse gozo que
estava em jogo na sua relação com o ex-marido e pôde mudar
de posição frente à vida.
Sua estranheza m ostra, uma vez mais, como o vivido
como o mais distante de si é, via de regra, o mais íntimo do
sujeito.
Essa mulher compareceu à Clínica do Campo
Freucliano em outubro e na primavera inaugura wna expo-
sição de seus quadros com sucesso, vende sua casa e abre sua
academia já com alguns alunos. No verão, depois de realizar
20 sessões, desaparece. Ao cabo de uns meses fala com a
secretária da Clínica e se desculpa por não vir, nem telefonar.
Ela diz que se encontra muito bem.

Tradução: Oscar Reymundo


Revisão da tradução: Jorge Pimenta

72
(feitos terapéut1cos r~p i dos em ps icaná l ise

Conversação
A teoria dos ciclos

Elvira Guilariá: Passemos, então, ao terceiro caso, o


último desta tarde. Carmen Garrido apresenta um caso aten~
dido na Clínica do Campo Freudiano de La Corufia: trata~se
de uma mulher de 40 anos que chega com uma primeira
demanda: está começando agora uma relação e não quer repe-
tir o que se passou com a anterior. E chega, também, com
uma pergunta: por que escolheu seu primeiro parceiro e por
que agüentou tanto? Duas intervenções da analista se desta-
cam no texto: ·~ocê é a rainha consorte que o outro precisa
para brilhar em festas" e "Viver seu bem-estar como uma
falta". Essas duas pontuações vão permitir ao sujeito, em seis
o u sete meses, siruar os pontos de repetição em sua escolha de
parceiro e algo de sua posição com relação ao desejo e ao
gozo.

Pierre-Gilles Guéguen: Temos, novamente aqui, um


caso rápido que também começa com uma mudança no
mundo do paciente, quando os filhos se vão, ou, pelo menos,
ficam mais velhos, e a mulher decide que agora p ode mudar e
deixar de estar vinculada a seu marido pela palavra de sua mãe,
que queria que ela ficasse com o marido a todo custo - por
ser mãe - marido que não a tratava bem. É assim que, nesse
momento, pode buscar ajuda para se separar. É um problema
de separação de seu marido. D escobre, no curso de sua
análise, outra identificação, com sua tia, e, como no caso de
André Gide, há a mãe do desejo e a mãe-mãe (riJor). Dá-se
conta do que pode acontecer, seguindo seu dese;o e tomando
o caminho da tia. Pois este é bastante complicado, porque, ali-
ado ao caminho do dese;o, coloca-a em circunstâncias de fre-
qüentar marginais, identificando-se com eles. Quer dizer, ela
mesma era como uma marginal em sua própria relação.

73
Conversaçao cl1 nica com Jacques - Aia i n Mi ll er em Ba rcelona

Inclusive, já antes, porque estudava Belas Artes, dedicando-se


para sempre a não ganhar a vida. Finalmente, com essas duas
interpretações que assinalou E lvira, pode encontrar um
homem novo, outro tipo de escolha amorosa. Fica pendente o
problema sexual, que não está resolvido ao final, mas encontra
uma maneira de ser economicamente independente e de fazer
ser aceito esse novo homem, esse desejo novo, por seus pais
e, especialmente, por sua mãe, o que antes não se atrevia a fazer.
Assim o vejo. Fica a frigidez. Assim, neste caso, talvez tenhamos
encontrado uma. mudança de sintoma porque, com seu mari-
do, não se sabe muito bem, mas, pelo menos, tinha filhos...

Car111en Garrido: Não se queixava, o marido não se


queixava.

Piemt-Gil/es Gt1éguetr. À diferença dos outros casos,


não é certo que o ciclo tenha terminado ou talvez ela esteja já
em outro ciclo.

Cartnetl Garrido: Essa mulher vem quando já está se-


parada, seu problema não é separar-se de seu marido, senão
que vem para que não aconteça o mesmo com esse outro
homem, e para saber por que escolheu o marido. O problema
da frigidez com seu parceiro menciona-o assim, meio de pas-
sagem, não parece que seja algo que a preocupe. Simples-
mente, chama-lhe a atenção, um pouco, porque se sente cul-
pada por ter relações com ele, quer ter prazer com ele, mas,
como que para pagar a culpa, não o tem. Eu creio que a saída
com esse homem, que penso que é diferente dos outros, está,
antes, do lado do amor, que do gozo.

Pie"e-Gilks GNégttell: Pode me contar algo da tia do


desejo? Qual foi o destino da ria do desejo?

74
Efeitos terapêuticos rdpidos em psicanálise

Carmen Garrido: O que sei da tia é que vivia com seu


marido, com seus filhos, em casa, e visitava, todas as tardes, a
casa da avó. Aparentemente, era uma vida normal. Quando
falece a avó é que ela se perm..ite separar-se de seu marido. A
tia sai de sua casa com outro homem e, então, dedica-se a pin-
tar. ] á pintava antes, mas agora se dedica a isso como profis-
são. Isso é muito mal visto pela família da paciente e ficam
muitos anos sem se falar. Ou seja, parece que, enquanto a avó
está viva... É uma pergunta que eu me faço também: o que
acontece com essa avó que parece muito importante nessa
história? O que era essa avó, antes de se casar? Os maridos
parecem ser obstáculos ao desejo. Parecia-me que, aqui, o
obstáculo ao desejo seriam os maridos. Quando eles não
estão, elas podem se ligar a homens que não...

Pierre-Gilles Guégum:. Encontrou-se com um novo


marido, que não é exatamente seu marido...

Jacques-Aiain Miller. Tenho dúvidas em dizer "a


paciente" porque se foi paciente, no momento, já possuía
idéias bastante decididas, quer dizer, já se havia separado do
homem da primeira escolha. É o que diz Freud, que o melhor
casamemo é o segundo, que o primeiro é o casamento sin-
tomático. E vejam que Freud se casou uma só vez... (risos).
Essa senhora havia-se separado do parceiro-sintoma que era,
realmente, um parceiro-devastação e já havia feito todo um
cam..inho e está com um novo homem. Mas você diz que, com
esse homem, não se quer precipitar, não pensa que tenha que
se casar com ele, pois, antes, quer ver para onde vai a relação.
Não. é o amor paixão c quer manter sua independência
econômica. Veio com essa decisão, de não se entregar total-
mente a um homem, quase independentemente da experiên-
cia com você, parece.

75
Conversa çao c l f ni ca com Jacq ues- Al ai n Mi l l e r em Ba rce lona

Carmen GarriJq: Sim, isso está posto de entrada. O


que ela quer saber é o que se passou, para não repetir, com
esse homem, o que ocorreu anteriormente com o ex-marido.

JacqNes-Aiain Míller. Mas essas idéias não eram já as da


falsa rainha, ocupada pela fantasia de ser a amada ou de estar
ao lado do rei das festas? E star ao lado de um rei, ser uma falsa
rainha e pagar o preço por essa falsa posição de supor tar o que
faz um rei das festas, o _que não é uma vida muito regular...
Não é o rei dos estudos eruditos, é o rei das festas. E parece
que tudo isso se cumpriu, independentemente da pergunta
que se colocava, que era como conseguir suportar essa nova
escolha, e como fazer para que a aposta pela independência
tivesse êxito. E isso é o que pediu a você. Acho a construção
que ela elabora muito esclarecedora, muito atraente: passar do
modelo maternal ao modelo da tia. Na primeira parte de sua
vida, trata de ser como a mãe e, na segunda, trata de ser como
outra personagem. É interessante essa idéia de substituição de
identificação e se realiza com um êxito extraordinário. E se
pensou que isso era o resultado do tratamento: entra sem tra-
balho, sem ter trabalhado, como uma dona de casa sem casa
porque está sem marido e termina à frente de uma academia
de pintura. Antes do tratamento, nada; depois do tratamento
lacaniano, tudo. Mas é uma aparência porque, p
afinal, era a
escolha do sujeito que se serve da relação com você para
transformar essa escolha em um êxito. Vejo-o assim, a partir
do que você conta. Uma pergunta seria sobre o papel do
irmão que p arece ter a1go de similar ao rei das festas, ponto
em que se encontra algo dessa vinculação incestuosa com o
irmão. Gosto muito de sua interpretação: ''Vtve seu bem-es.tar
como uma falta". Creio que, com essa frase, você pode intro-
duzir a paciente em outro mundo, onde poderia viver seu
bem-estar como um bem-estar, coisa que é bastante dificil de
assumir. Talvez, até o ponto de viver seu mal-estar como um

76
Efeitos terapêu t i cos r6pi dos em psic a n~lls e

bem-estar. Quer dizer, a questão do orgasmo não parece solu-


cionada; além disso, a tia parece um modelo bastante masculi-
no de êxito e parece que da não quer colocar-se a pergunta
sobre poder viver sem orgasmo feminino. Afinal, a maioria
dos homens vive sem orgasmo feminino (risos), quer dizer,
parece algo natural, mas é uma prova de que um ser vivo pode
viver sem ... Há outras coisas na vida. É uma coisa que não foi
abordada por ela, assinalou-o em uma frase que diz: cc••• deito-
me com de, mas não tenho um orgasmo..." Implica algo, em
sua vida sexual, n ão ter orgasmo? Não lhe falou sobre isto?

Carmen Garrido: Não. Foi algo que ela disse assim:


"Tenho que pagar pela relação e, então, não poderia ter pra-
zer com esse homem". Algo como: "Sempre tenho que
pagar". Por exemplo, casou-se com o namorado porque tinha
dormido com ele e, en~o, teve que pagar, casando-se e agüen-
tando todos esses anos. E agora está com esse homem, de
quem gosta, que é carinhoso, mas tem que pagar por isso, sem
gozar sexualmente. Ela o sente como um pagamento. Mas foi
a única vez que falou disso e não voltou a tocar nesse assun-
to. Não parece que isso a preocupasse, depois de tudo que ela
solucionou.

]acqges-A!aitl Miller. Supõe-se que obtém um bem-


estar. Um bem-estar é independente das circl!!"~cincias, é um
estado de ânimo. Pode-se obter um bem-estar em circunstân-
cias desfavoráveis. Quando estive em Viena, há muitos anos,
contaram-me que Freud ia a um café e, em uma noite, estava
tão bem que disse que "aquilo não era o mal-estar na civiliza-
ção, que aquilo era o bem-estar na Unklllfllr'.

Carmen Garrido: Eu assinalo, ao final, que, mesmo


que esteja bem com esse homem, que é diferente dos outros,
não tem prazer com ele. E u o assinalei porque ela chega a um

77
Conversac3o clfnica com J acqv es-Alaln Miller em Bar ce lona

fim, em relação ao que ela $e colocara e, bem, há um efeito te-


rapêutico> mas não está solucio nado. E la poderia prosseguir,
mas escolhe ir embora.

Jacques-AiaiiJ Mi//er. N ão o vejo assim. Transformou-


o em "sinthoma", não em sintoma, mas no "sinthoma" de
Lacan, produz obras de arte, o que é talvez m ais interessante.
Sua identificação como artista talvez tenha mais valor que
continuar em análise durante vários ciclos, tornar-se analista
etc. Eu creio que, agora, ela vai ser uma dessas terríveis...
Vemos mulheres que chegam deplorando a falta, com um
sonho de domínio e de mestria de sua vida e que, quando
saem, há que se ir com cuidado, porque são forças no mundo.

Horácio Casté: É algo com o qual vamos ter que nos


acostumar, essa maneira de pensar, não essas mulheres que
saem ao mundo, mas essa maneira de pensar sobre fechar ci-
clos. Porque, quando li o caso, pensei que essa era uma análise
frustrada, uma análise que poderia continuar, porque essa
mulher interrompe a análise. Tende-se a pensar isso.

Jacques-Aiaitr Mi/ler. Essa mulher utiliza a relação com


a analista para realizar uma fase de transição de uma identifi-
cação a outra, de uma parte de sua vida a outta, depois ela a
deixa de lado. Ela não faz da análise um destino, nem o lugar
de uma verdade fu ndamental porque o C)Ue lhe interessa não é
a verdade, mas a ação, fazer, produzir.

X: Como um objeto transicional ...

Horácio Casté: Não sei se se pode dizer assim. Foi útil


para consegtúr um pt·opósito e acabou, um instrumento e
pronto.

78
Efeit os t er apêutic os rápid os em psica n4 ll se

Jacques-Alain Miller. O ser do analista é isto: um


instrumento, nada mais que isso, é algo que alguém toma e se
analisa com esse instrumenw. E nossa arte é saber nos
prestarmos a isso, sem demasiadas idéias de grandeza. Somos
instrumentos humildes, às vezes sonhando que a civilização
gira ao nosso redor e isso nos sobe à cabeça. Mas isso é a
demonstração de que o segredo da história humana é que foi
feita para alimentar os gatos, para o benefício dos gatos...

Miq11el Ba.uol.r. Essa idéia hoje, a jdéia dos ciclos, me


parece mwto fecunda. Se certas passagens são como ciclos, a
análise não deve ser pensada como um processo evolutivo,
nem como um desenvolvimento que nos faz entender a
análise como algo evolutivo. H á momentos em que os ciclos
se abrem e em que podem produzir para o sujeito pontos de
não retorno no sujeito.
Diria, então, seguindo essa idéia, que, neste caso, à
diferença do que apresentou.Amoni Vicens e no qual ele assis-
tiu a um ciclo completo em três sessões, o ciclo já estava dado
de entrada. Ou seja, o sujeito já vem com uma escolha feita.
Quase dínamos que as três sessões de Antoru já se deram
antes, neste caso, antes de vir, quer djzer, ela já havia feito um
certo movimento, com uma escolha, e o que vem pedir ao
analista é a possibilidade de consentir com essa escolha, sem
repetir o que havia ocorrido em escolhas ar.~~!iores. É um
ciclo distinto do que nos apresentava Antooi, que era, antes, o
de poder completar algo de uma escolha que não se sabia
como poderia se realizar, enquanto que, aqui, é algo que já
havia sucedido, e o sujeito vem para consentir com essa esco-
lha e ver como pode operar com ela, sem repetir o que ocor-
reu em sua vida. Botão, parece-me interessante considerar
assim a jdéia de brevidade, idéia que, na realidade, é muito
subjetiva. Se a vincularmos ao tempo cronológico, pode ser
mais ou menos breve, segundo o que consideremos breve

79
Conversaç ao c llni ca com J acques - Alain Hille r em Ba rcelona

num ciclo, termo que me parece muito operativo para a clíni-


ca que fazemos no CPCf ou em outros lugares, aos guais vêm
sujeitos não pensando numa análise como algo que se vai
estender por muito tempo. No CPCf, nós propomos um ciclo
de quatro meses.

ja.cq11es-Aiaitz Miller. Sim, isso é o que eu queria mo-


dificar em Paris. Creio que não fui escutado nesse ponto; eu
disse, de maneira discreta, que o que não me parecia conve-
niente era o caráter aberto da experiência no CPCf de Paris,
e sua tendência a se infinitizar. Eu era a favor de colocar limi-
tes para ver o que ocorria, por exemplo, 12 sessões. As três
primeiras com um objetivo, as três seguintes com outro etc.
Não seria análise, certamente, seria uma relação escandida. De
certa maneira, é isso o que fazem aparecer essas experiências
que vimos aqui. Vê-se freqüentemente a experiência analitica
como internúnável, mas essa não é a nossa concepção: para
nós uma análise se termina, como se termina uma sessão. Nós
não operamos com sessões sem fim. Nós somos freqüente-
mente contaminados pela idéia de uma abertura indefinida,
que nos vem da fenomenologia. A fenomenologia abre sem-
pre as questões e não as fecha mais. Não é assim que proce-
dem os estruturalistas. Os elementos discretos que se repetem,
permutam, se combinam, isso não é nem o indefinido nem a
abertura.

Hebe Tizio: Queria dizer que estou muito surpresa. O


que aprendi disso é que, verdadeiramente, esses ciclos podem-
se contar como tais, na medida em que temos um aparato
muito potente que nos permite realmente dar a definição do
que seja um ciclo. As três sessões, ou o número que for, nos
permitem contar um ciclo porque o contamos mais além do
Édipo, porque o contamos com o último Lacan. Sem ter esse
aparato, é impossível contar um ciclo.

80
Efe i tos terapêuti c os ráp ido s em psic a ná li se

Jacqt~es-Aiain Miller. Vamos ver o que encontramos


aqui. Não tinha pensado antes e, através dos casos, da dis-
cussão, do que vocês dizem, vamos avançar na t,e oria dos ci-
clos na experiência analítica. Há referências em Lacan, poucas,
sobre isso, e é algo que não desenvolvemos no Campo
Freudiano até agora. É Tazedjián quem disse que Freud havia
falado de fuga à saúde, e que Lacan não havia falado nada
sobre isso. Há, no entanto, algo, em minha opinião, que diz
Lacan em "A direção do tratamento...", sobre :a retificação
subjetiva, o primeiro momento da cura, quand o o sujeito,
Dora, n o caso, pode perceber que ele mesmo é o agente da
situação da qual pensava ser somente a vítima ou na qual se
apresentava como vítima. Encontra-se também na obrà de
Henry Miller a descrição de wna retificação subjetiva devida à
leitura e contemplação de um retrato da senhora Blavatsky,
que era wna médium, uma teósofa que Joyce apreciava. Não
o encontrei em Henry Miller, encontrei-o nos escritos tcosó-
ficos. Parece que Henry Miller havia sentido, lendo isso, em
certo momento, uma liberação e que, antes disso, queixava-se
de sua esposa, de sua vida etc. E, a partir daí, havia descober-
to que ele era o motivo, a causa de tudo o que lhe ocorria na
vida, das coisas que pareciam acidentais. E que isso lhe pro-
du:t.iu certa calma. É muito lindo porque é uma descrição de
retificação subjetiva, graças à senhora Blavatsky. Pode-se
entender por que: a senhora Blavatsky explicava que cada pes-
soa vive num ciclo, precisamente de aparecimento e desa-
parecimento do mundo; que esse ciclo é algo que dura quatro
bilhões d e anos e que, depois, a noite é de quatro bilhões de
anos e torna a começar e continua durante anos. Então, a mi-
séria de ontem não parece já tão importante num dia de qua-
tro bilhões de anos, e a gente já não pode se dizer "vou fazer
amanhã" porque amanhã está muito longe. São versões de
teorias do hinduismo, revisadas pela senhora russa, de origem
alemã, que tem uma vida inacreditável, admirável. O mais

81
Conversaç3o cl1níca com Jacques-Alain Miller em Barcelona

divertido é que parece que Gandhi não havia lido nada do que
é tradicional da Índia e começou a ler através da senhora
Blavatsky. Essa senhora, de origem alemã, russa, que, depois,
se mudou para os Estados Unidos e foi cidadã norte-ameri-
cana, e apenas se fez cidadã norte-americana, foi-se para a
Índia. Gandhí diz que ela foi o mais essencial do hinduísmo,
através dessa mestiçagem... Enfim, encantou-me descobrir
essa história.
Há um ciclo. É muito importante a idéia do ciclo do
Brahma em tudo isso. A idéia de ciclo produz um certo dis-
tanciamento porque é ·como a idéia de Nietzsche, do eterno
retorno, idéia que não se entende muito bem. Os mundos
dclicos são muito apaziguadores. A idéia de que há uma só
linha breve e que, depois, vem a duração eterna e o paraíso é
uma idéia para angustiar todo mundo. E se a tem utilizado
assim, a partir de Lutero. É o mundo do qual veio a psicaná-
lise, da angústia produzida por essa idéia. Na Índia, na Ásia,
onde a concepção básica é cidica, o que é algo muito mais
tranqüilizador, a psicanálise não fincou raizes. Estamos angus-
tiados pela tradição judaico-cristã que, realmente, trabalha a
massa psíquica humana há sete mil anos, que não são nada em
comparação com os ciclos da senhora Blavatsky ou de Brahma.
Nós somos angustiados peJa tradução judaico-cristã,
que trabalhou a massa psíquica humana com um Deus
furioso; descrevem-se homens furiosos com isso - o pai
furioso da paciente de Antoni Vicens, o rei da festa - e, na
tradição judaico-cristã, Deus é também o rei das festas. Há
festas no Antigo Testamento e há o rei das festas - é um rito
essencial, a festa - e ele se põe furioso, "lhe dá um ataque de
fúria", deixa cair seu filho na cruz, o que não é uma maneira
confuciana de tratar um fl..lho. Então, angustia. É um pai que
ama, um pai "todo amor" e seu filho está na cruz, torturado.
Todas essas histórias são realmente para angustiar, para
traumatizar. Faz-se toda uma história com Osama Bín Laden,
Efeitos terapêuticos rápidos em psicanálise

mas a Bíblia é uma coisa... Por sua vez, desenvolve uma sensi-
bilidade nos seres... Nossa sensibilidade sai disso, de histórias
de amor, de sofrimento horrível sem razões, de salvação, de
conquista, de esmagamentos. Resultado: a psicanálise. Mas
devemos tentar recuperar algo do asiático com os ciclos, os
ciclos de Freud, não os ciclos do Brahma. Lembro-me muito
bem, quando comecei a analisar, que me chamava a atenção o
momento em que a pessoa pensava em partir mas ficava. Eu
o via como uma espiral: seja quando se permanece na mesma
dimensão e se parte, seja quando se produz um deslocamento
e a espira se desdobra.

Monstermt Puig. Parece-me muito interessante pensar


em termos de ciclos porque se desidealizam as conclusões e,
sobretudo, porque as diversificam. Vimos hoje uma variedade
nos casos, em que essa variedade supunha também um certo
consentimento do analista quanto ao uso que fazia o paciente
do dispositivo. Isso significa que a conclusão desse ciclo era
dada peJas condições de entrada. Quer dizer que isso leva,
realmente, a tentar - creio que é o interessante na questão
dos tratamentos breves - fazer um certo cálculo na entrada
desse ciclo. Até que ponto podemos fazer um cálculo na
entrada desse ciclo e até que ponto há uma dialética, uma
articulação entre fechar e deixar aberto à indefinição para que
possa se desenvolver alguma coisa que nós ignoramos mas
que exige um certo cálculo.

jacques-Aiain Miller. Acho que, já nessas instituições


que se abriram em Paris, em Barcelona e em outros lugares,
podemos pensar que nossa missão seja levar o sujeito até o
fechamento de seu primeiro ciclo, que pode ser breve. A
questão a trabalhar é como definir o primeiro ciclo.
Se fizermos isso de maneira axiomática, vamos dizer
que há um primeiro axioma: "Há sempre um primeiro ciclo".

83
Conversaçao clfnica com Jacques-Alain Miller em Barcelona

Escólio do axioma, como diz Spinoza - escólio quer dizer


comentário do axioma: "O primeiro ciclo pode ser breve". É
wn comentário do primeiro axioma. A questão sobre se o
ciclo é calculável, diremos que é calculável apres coup) tal como
vemos com os casos apresentados aqui. Segundo escólio,
então: "É perfeitamente calculável". E um terceiro escólio:
"Mas apenas apris coup". É mais seguro fazer profecias sempre
apres coup. É difícil também, mas dá uma certa segurança para
o exercício intelectual
Uma observação sobre o título escolhldo para seu
caso: "As Belas Artes'~. Tal título põe o acento sobre a subli-
mação) afinal esse caso é a hlstória de um pintor) não é a
hlstória de um analisante. A passagem pela relação com o
analista é para aquele sujeito a questão de ser pintor e está
muito bem quando é assim. Quando a análise é somente o
meio para alguém se tornar analista, não se pode ver nada
porque se fica em análise muito tempo; alguém se torna ana-
lista, mas com a condição de que permaneça como analisante
em relação ao sujeito suposto sab er. Então se apaga tudo. N ão
são vidas apaixonantes. Mas a vida de um pintor que passa por
um episódio de loucura, depois por um episódio de análise
que pode ser um pouco parecido e, fmalmente, alcança a sua
meta, a sua conclusão, que é a produção, a atividade. Então,
justifica-se o título. Mas) há outro que teria sido divertido, é
uma expressão que você emprega quando assinala que parece
que ela quer ser "a rainha consorte" das festas. Esse seria,
também, um título. Não sei se é o termo exato porque, por sua
vez, é a companheira do rei das festas. "Rainha consorte" quer
dizer que está ao lado do rei, quando ela, realmente, não está
ali; é, antes) a esposa morganática) como Madame De
Maintenon, ou como Camila Parker, que vai ter esse papel de
esposa morganática do principe, rei eventual. Rei eventual
porque a rainha Elizabeth está em perfeita saúde e declarou
que nunca vai renunciar.

84
Efeitos terapêuticos r~pidos em psican~lise

. Horácio Casté: Vamos dar por terminada a conver-


sação de hoje. Agora, haverá um coquetel e se fará a cele-
bração de um ciclo que se fecha, é o ciclo dos primeiros 20
anos do Seminário do Campo Freudiano em Barcelona.

Jacques-Aiain Miller. Seria interessante ver quem


estará presente nos próximos 20 anos...

Tradução: Liege Goulart


Revisão da tradução: Sérgio de Castro

85
4. Pedro

Terapias breves versus efeitos terapêuticos rápidos

Lucia D'Angelo

As terapias breves
Partamos para nosso exame de algumas conside-
rações gerais sobre as quais se apóia a prática terapêutica das
terapias breves. O esquema de referência - a teoria da técnica
- que define esse tipo de prática terapêutica, parece ter-se
sustentado, em seu cerne, sem muitas transformações, ao
longo de·mais de trinta anos! Se algumas modificações se pro-
duziram, as transformações se devem mais às técnicas de
abordagem terapêutica que à teoria, e menos ainda à clínica.
Nessas práticas, o conceito de foco é um eixo central. Com fre-
qüência, esse eixo está deternúnado pelo motivo da consulta:
sintomas, situações de crise, descompensações que alarmam o
paciente. Intimamente ligado ao motivo da consulta e subja-
cente ao mesmo, localiza-se certo cot!flito nuclear exacerbado.
Assim, em cada um desses focos, o eixo está determinado pelo
motivo da consulta e o conflito nuclear subjacente que se
insere em uma situação específica. O conceito de situação, para

1
FIORINI, Héctor J. Teoria e técnica de psicoterapias. Trad. Carlos Sussekind.
Rio de Janeiro: F. Alves, 1982.

87
Conv ersa çao c l!n i ca com J acques-A l ai n Mll l er em Barc e l on~

o qual convergem as perspectivas existenciais do paciente,


pode fornecer, segundo os autores que seguem essa corrente
terapêutica, um modelo adequado, capaz de produzir wna
aproximação da abordagem terapêutica.
D essa forma, na sessão, o terapeuta deve deduzir o
foco a partir do desenvolvimento inicial que traz o paciente. Ao
longo do processo terapêutico, o foco pode ir modificando-se.
Mas, na psicoterapia breve, é provável que todo o processo
gire em torno de uma siJuação focal, e o avanço do processo
consista somente nos subsídios ao modelo estrutural que se
vai construindo da situação. O terapeuta deve exercer um
papel ativo, isto é, tem que fazer uso de todo recurso facilita-
dor do processo de investigação e compreensão da problemática
do paciente. Seus reCIIrsos técnicos são múltiplos; mencionemos
alguns deles. O terapeuta oferece evidências, não ambíguas, de .
que compreende o P.aciente. Evidencia também seu acolhi-
mento caloroso, ou seja, em seus gestos e tons de voz de-
monstra que a pessoa de que está tratando não lhe é indife-
rente. D eve ser epontâneo, pa.ra criar um clima de liberdade,
criatividade e permissividade. Deve tomar a iniciativa para
desempenhar um papel ativo, a fun de esrimuJar a tarefa te-
rapêutica. D eve assumir um papel docente que demarque a tare-
fa definida pedagogicamente da relação de trabalho terapêutico.
Deve motivar e esclarecer os objetivos terapêuticos etc.
D efinitivamente, para os autores, a estratégia terapêutica
implícita da demanda é a de rcpelir-dijenflctimdo para deixar de
repetir. O terapeuta deve responder à necessidade de adequar-
se à dialética dessa estratégia que requer o vítrCII!o lmrpê11tico e
que consiste na flexibilidade técnica do terapeuta. Mais ainda,
requer a inclt~são sektiva de tra;os pessoais do terapeuta, porq ue é
parte da técnica.
Nesse contexto, e mais além das diferentes correntes
de opinião que se somam no fundamental a essa concepção
das psicoterapias breves, cabe perguntar-se quais são as dife-

88
Efe itos terapêu t i cos rélp l dos em pslc an dlise

renças em relação à psicanálise, definida de entrada, nesse


amplo espectro como uma psicoterapia a mais, e não como uma
terapia qtte não é COIIIO as outras, segundo Lacan. A diferença é,
nada mais nada menos, que os conceitos de tran.iferrncia e inter-
prelação. Obviamente, o ato analítico nem se menciona. Mas, sj-
gamos o desenvolvimento desses autores. Foram os que pro-
porcionaram múltiplos ensinamentos ~ Lacan para uma reno-
vação clínica e ética da psicanálise, segundo a qual nos dei-
xamos orientar em nossa prática.
A sil11ação terapêutica analítica específica tem como
componente essencial, para os autores, a afllbigiiidade letnporal e
espacia4 diferentemente da psicoterapia breve. Quer dizer, o
longo prazo da duração do tratamento - e não a brevidade
do mesmo. O emprego do cüvã - não o jre?tfe a frente. O
manejo dos silêncios - e não a implicação dialogante do tera-
peuta. Por outro lado, o analista tende a mover-se com certa
margem de indeft..nição pessoal - e não com a implicação
pessoal do terapeuta. Todos esses são aspectos contemplados
no marco preliminar do tratamento, isto é, no chamado
mquadre. Porque o instrumento terapêutico específico e essen-
cia~ no marco da psican álise, e não compartilhado com a te-
rapia breve, é a particularidade estratégica da interpretação da
trmuferência. Interpretação da transferência, que é atribuida à
técnica, que tende a criar uma relação terapêutica complemen-
tar complexa, capaz de mobilizar uma intensa ambivalência no
paciente. Para os autores, a compreensão da transferência, no
aqui e agora, cumpre uma função diagnóstica e prognóstica,
insubstituivel, além de ser o indicador para entender a história
pessoal do paciente. Essa distinção alerta os praticantes contra
a extrapolação de modelos etiopatogênicos explitntitJO.r - as
terapias breves - a modelos terapêuticos operativos - a psi-
canálise. Essa extrapolação é assinalada como fator freqüente
no campo das psicoterapias e da utilização incoerente dos
cüversos reC~~rsos técnicos. As5Í?1, na psicanálise, a análise da

89
Co nver s açao c l1oi c a com Ja cque s - Alain Mill er em Barcelona

transferência constitui o eixo da estratégia terapêutica, en-


quanto nas terapias breves é somente um recurso tático den-
tto de outra estratégia que justamente não consiste em pro-
duzir mudanças, por intermédio da regressão e da elaboração
do vinatlo transferencial Dessa fo rma, o recurso da transferên-
cia, nas terapias breves, deve conservar seu caráter de recurso
técnico-tático, destinado a ser progressivamente restringido,
na medida em que a evolução do paciente, no sentido da ate-
nuação dos sintomas, permita a utilização das outras inter-
venções terapêuticas. Então, qual é a diferença entte as psi-
coterapias breves e as múltiplas intervenções terapêuticas e os
efeitos terapêuticos rápidos que em nossa orientação da práti-
ca tentamos formalizar?

Os efeitos terapêuticos rápidos


Dados os limites que este trabalho nos impõe, longe
de pretender explicitar e dar respostas às concepções da cura
de outtos autores antes mencionados, os quais, segundo
Lacan, contribuíram para o estrago produzido por esses desvios
da prática freudiana no movimento analitico. Quero trazer um
exemplo clinico que se baseia no marco estrito da psicanálise
lacaniana aplicada à terapêutica. Sublinhar em que reside a
diferença entre uma terapia breve, que promove a modificação
ou, eventualmente, o desaparecimento do sintoma, do que é
um ifeito terapêutico rápido que reduz o gozo, implicado no sin-
toma do sujeito, e relança wn novo ciclo na direção do trata-
mento.
Partamos de uma declaração de princípios da psi-
canálise: não existe para Lacan uma teoria da técnica. A trans-
ferência não é um recurso técnico, mas o que funda propria-
mente não só a direção do tratamento, mas a psicanálise
mesma. Não cedamos ante a tentação de aplicar a concepção
sobre as terapias breves, apesar das ressonâncias que, como
veremos, podemos encontrar no caso que vamos examinar.

90
Efe ito s terapéut1 cos r~pidos em p s 1ca n ~11 s e

Isolaremos dois momentos clínicos- entre os qua.is ocorreu


uma interrupção de um ano - e nos qua.is se produzem dois
efeitos terapêuticos rápidos, isto é, em um breve período, e
que, no entanto, não respondem à mesma estrutura.
Pedro, um jovem de uns 30 anos, me consulta ·a
primeira vez porque está muito angustiado. Deve resolver, em
um tempo breve, um problema que é muito difidl para ele.
Trata-se de um verdadeiro problema, dado que é alguém que
niio costuma ter um desejo decidido com relação a nenhum de
seus assuntos. Salvo no que diz respeito a seu trabalho, que
tem relação com uma atividade artística escolhida desde a
infância e na qual se formou para ser na atualidade alguém
com muito êxito. O problema que apresenta é mais ou menos
clássico no marco de uma neurose obsessiva. Tem que esco-
lher entre duas mulheres: a que supõe que ama e não deseja, e
a que deseja, e não sabe se ama. A mulher que ama é a que
colocaria ordem em sua vida, mas ameaça seriamente a comodi-
dade solitária e desordenada que alcança com o mais de gozo
que lhe outorga sua atividade artística, e o m or tifica. A que
deseja, de outro modo, o i11spira e o vivifica, mas o desorgani-
za, demasiadamente, porque o confronta com os avatar.es do
desejo, e o desestabiliza igualmente no gozo de seu sintoma.
No curso de várias entrevistas, que se estendem em
torno de quatro meses, desenvolvem-se as c.oordenadas de sua
fantasia. As intervenções do analista apontam a legitimar e
recompor a escancarada dimensão fantasmática de seus sin-
toma·s... pelo lado da ~~~~a. Se não há clínica sem ética é
porque se trata justamente da transferência, e a dimensão fan-
tasística do sintoma inclui a transferência ao analista. Tanto o
sintoma de sua atividade artística como o sintoma das mu-
lheres - desejo decidido vemJI indecisão do desejo -
nutrem-se da mesma estrutura da fantasia e lhe confirmam~
duplicidade de sua posição. O desejo decidido e um sintoma
que quer preservar, e a indecisão do desejo ante a escolha de

91
Conver saçao cl !nica com Jacques- Al ai n Mil l er em Barcelona

uma das mulheres. É assim que, com uma precisão quase


cirúrgica, o sujeito separa os dois sintomas e consente em
tomar partido pelo sinioiiià das mulheres: Consente em veri-
ficar a posição que ocupa a mulher. na fantasia do casal e em
correr o d sco de sua cscollia. A mulher que ama e não deseja
se erige na figura que encarna o desejo mortificado do pai,
verdadeira figura do super:eu, que permite nomeá-la como um
verdadeiro Nome-do-Pai, como nos indica Lacan. A recom-
posição da atualiza~ão da fantasia que mostrara uma centelha
do real faz ceder à angústia. Elege, assim, a mulher que vivifi-
ca o desejo e interrompe o tratamento por suas viagens de tra-
balho. Convido-o a que retome a análise quando retornar de
sua viagem, que duraria alguns meses. O certo é que não
retornou até um ano depois. O primeiro efeito terapêutico
que conseguiu, nesse primeiro encontro, foi o alívio de sua
angústia e o embarcar na vida seguindo o caminho do desejo.
A interdependência dos sintomas com a fantasia nos
revela que é suficiente tocar o osso da fantasia para que o sin-
toma da indecisão com as mulheres perca o benefício que lhe
outorgava. Ao mesmo tempo, o sintoma. que decididamente
tentava preservar ficou intacto. Ou, melhor dizendo, o trata-
mento havia tocado como convinha, com um grande tato, a
modalidade particular de seu gozo, seu sintoma fundamental,
profissional.
Ao cabo de um ano, consulta-me novamente, dessa
vez, mais angustiado que na anterior. Agora, sua queixa, deses-
perada e temerosa, era por .um sintoma diagnosticado pela
medicina. Tal sintoma comprometia muito seriamente seu
corpo em uma parte que era fundamental para desenvolver
sua atividade artística. O diagnóstico médico era que padecia
de uma distonia focal O tratamento que lhe estava indicado era
abandonar, ao menos por um ano, suas atividades. O médico
não deixou de inclui-lo, com certeza, nos múltiplos disposi-
tivos disponíveis para a medicalização dos "usuários" de um

92
f.f e rto s t e rapéiJticos ráprao s em psi canalise

tal diagnóstico, cujos portadores, os "distônicos focais", são,


como o sujeito, artistas e desportistas. Uma verdadeira
máquina de morte que encarna para o sujeito o O utro da mor~
tificação e da destruição de todas as suas aspirações. O ana-
lista - advertido de que a clínica psicanalítica, que se apóia no
princípio freudiano, distingue a terapêutica médica da terapêu-
tica anaUtica - toma nota do significante distonia focal e inter-
vém para perguntar-lhe: "E por que agora, neste momento de
sua vida, você faz esse sintoma?"
O analisante se desconcerta com a pergunta, parecia
não compreender a gravidade de sua situação. Mas se esforça
para responder à pergunta. Consente em relatar a multiplici-
dade de elementos que convergiam na contingência e a opor-
tunidade dessa brutal desarrumação do _gozo de seu sintoma.
Sintoma que, n~ primeira consulta, queria preservar e do qual
não desejava "curar-se", no início. Vedfico, então, que se havia
separado da mulher do desejo, que a relação durou o que
durou nos melhores termos até que se tornou como as demais e
lhe colocou ante a pior das escolhas: ou sua atividade artística
ou ela. Além clisso, e de maneira muito inoportuna, o havia
confrontado com a possibilidade da paternidad~ para a qual
não estava ainda preparado. Frente à semelhante alternativa,
ficava visível qual havia sido sua escolha. Podemos deduzir
como se dedicou desenfreada e exclusivamente a cultivar suas
coisas, e a não se encarregar das demandas da mulher até
chegar ao momento atual. Estava finalmente a ponto de
alcançar a meta que esperara toda sua vida: a consecução de
sua obra artística. Nesse momento, precisamente nesse
momento, apareceu a dístonia focal que lhe impedia terminar os
detalhes de sua obra, e a intervenção do médico que pretendia
afastá-lo por um ano de tudo. A pergunta dirigida ao analista
não tardou: "Você acredita que devo abandonar minha ativi-
dade e afastar-me de tudo neste momento?". "De nenhuma
maneira - respondeu o analista. Você tem que se ocupar ati-

93
Conversa çao c l 1n ica com Jacques- Al ai n Hil le r em Barcelona

vamente disso em análise". Depois de poucas sessões, o sin-


toma havia cedido e podemos falar, com razão, que se tratou
de um efeito terapêutico rápido e que lhe permitiu aceder ao
lugar que tanto desejava.
Todavia, esse efeito terapêutico, mais rápido, se é
possível dizer, que o anterior, não participa da mesma estrutu-
ra. Com feito, a aparência do sintoma - seu trabalho - que
parecia isolado de outro sintoma e que o analisante havia ten-
tado separar cirurgicai!Jenfe, na realidade, nos mostra que, nessa
ocasião, está implicada, sem a mediação de-uma mulher, uma
identificação fundamental do sujeito com seu Pai. Esse pai, ele
mesmo mortificado e temeroso, era um pai imaginariamente
morto para o sujeito. O sujeito levava sua marca desde seu
próprio nascimento. Esse pai temeu1 efetivamente, que seu
fJ..lho não estivesse vivo quando chegasse ao mundo. Nesse
sentido, esse novo efç.ito, sobre o sujeito, tem outra estrutura,
porque o efeito terapêutico é correlativo da interpretação, mas
toca a verdade do de~ejq, O que confirma, se o comparamos
com o efeito terapêutico, do início, que não é suficiente a
relação de transferência e a interpretação que tocou a fantasia ..
Porque, velada a tela imaginária que implicava a fantasia e,
para constituir o sintoma anaütico sobre o próprio desejo, o_
slfieita. se a.musitJa a si mesmo sobre o fundo de destruição do
Outro, que toma o lugar no desejo do sujeito2 • Dessa forma;
admitindo a crença do neurótico de que é o Outro quem quer
sua castração, agora sim, se produz a entrada efetiva em
análise que se orienta mais além dos. efeitos terapêuticos lat-
erais, alcançados nos primórdios do tratamento. Análíse que já
se prolonga por cinco anos, e cujo dispositivo -pelas razões
das viagens do sujeito - se interrompe a cada três ou quatro

COTIET, Serge. Lateralité de l'effet thérapeutique en psycha~~alyse.


2

I .4ftrt Mensuelle, Paris, E CF - ACF, p. 33.

94
[feitos tera pêut icos rápidos em ps icaná lise

meses e é retornada quando o mesmo volta à cidade. Em cada


encontro, o sujeito consente com a construção laboriosa de
sua fan~sia. A modalidade particular desse tratamento analíti-
co permite, com razão, que apliquemos o termo "dclico".
Termo cunhado ontem por Jacques-Alaín Miller e que pre-
tendemos aplicar ao caso em próximas elucidações.
Terapia breve versus efeitos terapêuticos rápidos,
porque a transferência e a interpretação não são recursos
teóricos em nenhum caso, mas a condiç.ã.o. de possibilidade da
formali'?ajão do ;intoma, da focalizafão do sintoma na direção laca-
niana do tratamento analítico.

Tradução: Vanessa Nahas Riaviz


Revisão da traduç~ : Elizabete Siqueira

95
Conversaçao cll nica com Jacques-A l ain Hil l er em Ba rce lona

Conversação
A abertura de um novo ciclo

Horáa·o Cotlé: Ontem, tivemos a jntroduç~o de novos


conceitos e de novas idéias que, de certa forma) alteram o que
vínhamos pensando e o que tinham na cabeça os autores dos
textos sobre os casos que vamos comentar esta ta.rde. Com essa
idéia dos ciclos que introduziu ontem, Jacques-Alain Miller,
inclusive- brincando- sugeriu a " terapia de zero sessões'), e
então nos perguntamos pela especificidade da terapêutica da
psicanálise aplicada nessas intervenções breves, porque esses
efeitos rápidos, pode produzi-los qualquer tipo de intervenção
psico terapêutica, ou sequer psicoterapêutica. Um encontro de
qualquer ordem pode produzir esse efeito de alívio, se é disso
que se trata, para tomar uma decisão, para desbloquear algum mo-
mento sintomático. Então, creio que hoje é a ocasião, através do
. eixo que abordam esses casos, para pensacmos uma resposta à
questão da especificidade da psicanálise nesse tipo de tratamento.
Duas questões centrais são abordadas: o uso da transferência e
da interpretação, não como mais um elemento técnico ou psi-
coterapêutico do arsenal das psicoterapias, senãq como o que
dá fundamento à ação psicanalítica. No caso apresentado por
Luda D' Angelo, dois momentos do tratamento) separados por
um ano, ilustram o manejo do laço transferencial e mostram
como, graças à interpretação, esse paciente pode entrar em
análise. E é o que lhe permite tomar uma decisão e resolver um
sintoma de inibição que produzia uma incapacidade funcional.
Poderia ter acabado aí o tratamento, mas, nesse caso, serviu
para que entrasse em um novo ciclo, como dizia ontem Jacques-
Alain Miller. Vou dar a palavra a Luda para, se quiser) comen-
tar algo mais sobre seu caso e, logo, iniciarmos a discussão.

Lstda D 'Angelo: Gostaria, em primeiro lugar, de dizer


por que julguei de bom tom, em algumas páginas, distinguir as

96
Ef ei t os te ra pêut icos r áp idos em p sic~náltse

terapias breves dos efeitos terapêuticos rápidos, em um


esforço por formalizar, pelo menos, a diferença. O caso rne
pareceu muito oportuno para ilustrar isso, e acabei por me
apaixonar tanto em tratar de formalizar essa diferença que
talvez falte um pouco de carne imaginária ao meu relato, visto
que tratei de fazer um esqueleto da questão.
Gostaria de esclarecer também, por que, nesse caso,
o segundo sintoma que apresenta o sujeito- a distonia focal,
chamada pelos médicos "enfermidade dos tenistas" - impli-
cou uma intervenção tão contundente de minha parte, ao
dizer "de nenhuma maneira". Por que, ao término de uma
semana, esse paciente esteve submetido a todos os gad1,ets da
medicalização desse sintoma, até o ponto em que foi chama-
do, por telefone, para lhe dizerem: "Você é o número tal de
nossa especialidade sobre distonia focal e o convidamos a for-
mar parte da associação de distôrucos focais para tratar isso".
O paciente ficou surpreso, eu mais ainda. Não sei se consigo
transmitir a contundência com a qual disse: "de nenhuma
maneira", de modo que o paciente pôde pôr um pouco à dis-
tância essa questão, mas devo dizer que tive que intervir.
A segunda questão que gostaria de esclarecer é que
sou muito ruim para dar título aos meus casos, mas, com o que
aprendemos ontem, se hoje tivesse que dar um novo título ao
caso, diria "Uma análise cíclica", porque o caso termina com
elementos anteriores ao tratamento, produzindo uma entrada
em análise. Porém devo assinalar a particularidade do cüspositi-
vo analítico, tal como o exige a relação com o paciente, porque
é um paciente que não vive sempre em Barcelona, senão
durante períodos de três ou quatro meses, e que depois viaja
pela Europa. Tendo em conta essa modalidade de atendimento,
o primeiro sintoma se resolve um ano depois. O efeito rápido
sobre o segundo sintoma é extraordinário porque em seis
sessões este desapareceu. De sorte que, realmente, é um
paciente que mantém seu laço com a análise, mas uma análise

97
Conver saçao cl l nica com J acques-Alai n Mi ller em Barcelona

que se produz por ciclos. E, muitas vezes, me perguntei como


pode ser; é uma aplicação do dispositivo, porque tenho a
impressão de que o paciente vem com temas sucessivos, como
monografias: o da escollia da mulher; o da distonia focal; o ter-
ceiro, nesses três meses em que o atendo para que depois se
ausente pelo resto do ano, foi o da paternidade, etc. E sempre
me perguntei por esse dispositivo particular, para esse paciente,
pois, de alguma maneira, ele entendeu muito bem que me traz
as monografias sintomáticas e que, ao mesmo tempo, há uma
continuidade na ánálise, em que se vão construindo os pisos da
fantasia. Queria esclarecer essas questões porque não sei se
entende-ram o caso, com o pouco que coloquei. Não vou re-
velar a profissão artística do paciente por razões de ética, não
pertence a nosso meio, obviamente, e é um artista de muito
sucesso e muito reconhecido mundialmente.

]acques-Aiaín Mi/ler. Aos 25 anos?

Lucía D 'Angelo; É a criança precoce, o jovem que,


precocemente, se iniciou nisso. Agora, todos esses ciclos de
análise já duram cinco anos, com o que já tem 30. Não vive
em seu país de origem, e isso permitiu uma separação de seus
pais. Não tenho dúvidas sobre o diagnóstico: é uma neurose
obsessiva, com todos os avatares clássicos da neurose obses-
siva. Mais que fazer o morto, esse pai está morto e tem uma
profissão muito particular, é escrivão, na Argentina se chama
escrivão. É um tipo absolutamente melancolizado, fóbico,
com idéias de morte permanentemente e, nos momentos
livres, vive em uma espécie de autismo refugiado na casa
familiar, mas onde tem seu lugar separado na casa, com sua
esposa, cuidando de pássaros.

Piem-Gillu Guégtun: Eu também havia pensado que


tínhamos aqui dois ciclos de uma análise, mas o que queria

98
Efe i t os t erapêuticos r ápi dos em ps i c a ná l i s e

colocar concerne ao que me parece ser a tese que se apresen-


ta ao final do caso para constituir o sintoma analítico. É sobre
o próprio desejo e que o sujeito assassina a si mesmo, diz
você, sobre o fundo de. destruição do Outro que toma o lugar
no desejo do sujeito, admitindo, dessa forma, a crença do
neurótico de que é o Outro quem quer sua castração. Bom,
queria saber se você pode explicitar um pouco a tese, reto-
mando os elementos dos dois pontos cruciais, porque me
parece que você faz uma diferença entre o primeiro ciclo e o
segundo e a maneira como interveio.

útda D 'Angelo: No segundo sintoma, é absoluta-


mente clar-o. A medicina se encarrega de encarnar esse Outro
que pede sua morte. Há que ver a posição do sujeito absolu-
tamente mortificado, aterrorizado por isso que lhe vem do
Outro.

Pie"e-Gilles Guéguen: E, além disso, toca o sintoma


que o preservava do real, e que é sua sublimação também.

Lncía D'Angefq; Exatamente. Com isso, o que me


parecia interessante é que, no primeiro ciclo, para dizê-lo
assim, ele sabe precisamente onde não se dará sua castração.
E sabe qual é o sintoma do qual não quer se curar, sua criação
artística. E que preserva muito bem, mesmo quando, na esco-
lha da mulher, ele poderia ficar em questão.
No primeiro ciclo, a interpretação surpreendente
para o sujeito foi distinguir esses dois lugares para a mulher,
algo que não lhe havia ocorrido antes e que lhe abre, real-
mente, uma espécie de tela em que ele pode muito bem ver
qual é sua escolha. A escolha suposta é pelo desejo, pela mu-
lher que deseja. Mas tendo em conta que, se escolhe a mulher
que deseja, essa não vai tocar o sintoma que ele tenta preser-
var, que é o de sua criação. É interessante, porque a mulher

99
Convers aç ao c11 nic a coe Ja cque s-Al ai n Hil ler e~ Barcelona

que ama é advogada, com o que, na relação mesma, tenta pôr


ordem à sua desordem absolutamente disciplinada com seu
mais de gozar, com sua arte. Inicialmente, esse homem vivia
sozinho, atualmente vive só novamente, e viu que tudo isso
retornará. Quando lhe digo: "Há a mulher que você ama e não
deseja", produz-se um efeito certo: ele escolhe o desejo. A
mulher do amor portava um traço de mortificação pela simi-
laridade entre sua profissão e a do pai.
A personagem e a profissão de tabelião sempre me
fascinaram. Um tabelião não faz nada mais que atestar que o
Outro diz a verdade. Ele passa sua vida fa.z endo com que se
assinem e se autentiquem contratos sem ter que conhecer
nada da lei.
Em contrapartida, a mulher que deseja e o inspitou
com um olhar é artista também, não de sua mesma profissão,
mas é uma mulher artista. Tudo isso durou o que durou. E,
quando digo "durou o que durou", é porque, se bem essa mu-
lher lhe permitia seguir e conservar o desregramento, di-
gamos, que tinha a ver com sua profissão, começa a reclamar
algo mais, mais tempo, mais... E, finalmente, ela o confronta,
de uma maneira brutal, a algo com o que teria que ir com
muito cuidado, sendo uma mulher: como obter o ftlho do
homem que, nesse momento, já estava parindo e produzindo
tantos filhos sublimatórios?
E, então, no segundo caso, a surpresa é a interpre-
tação "de maneira nenhuma". Se tivesse falado mais, teria dito:
"Você está vivo, eu estou viva, aqui estamos todos vivos, e o
Outro da medicina não vai nos condenar".
Gostaria de acrescentar uma coisa, uma espécie de
brincadeira que eu fazia comigo mesma. O significante da "dis-
tonia focal" me fez recordar, imediatamente, o foco das terapias
breves, nas quais fui formada. Os colegas de 30 anos atrás se
devem recordar de nosso colega da IPA, Héctor Fiorini, que
implementou essas terapias breves justamente para aplicá-las à

100
Ef eitos tera pêut icos rá pi dos em psica ná li se

rede assistencial, para fazer tratamentos mais curtos, mais


baratos e poder liberar um volume maior de pacientes.

Pierre-Gilles G11éguen: E focalizados, coisa que tam-


bém ocorre aqui, mas por parte do paciente, porque ele
mesmo focaliza a análise sobre seu própdo interesse, enquan-
to que os outros decidem qual vai ser a focalização.

Luda D'Angelo: Exatamente. Parece-me extra-


ordinário o inconsciente que funciona assim, nesse homem, e
que me traz o tema servido de bandeja. Quando me convi-
daram a apresentar um caso, eu disse: "Tenho um caso mono-
gráfico". Não tive tempo para respeitar o número de páginas
que tinha que escrever, mas disse: "Posso aplicar tudo o que
disse Fiorini e..." Tentei ver se estavam atualizadas essas refe-
rências porque são de 30 anos atrás, mas foi um boom na
Argentina e, segundo éomentaram ontem, a questão das te-
rapias focais foi transladada, na Espanha, também para a
prática psiquiátrica e hospitalar. Fui ao volume de Etchegoyen
para ver se encontrava uma atualização. Claro, o volume é tão
grande e, com esse título, não encontrei nada e confiei, abso-
lutamente, tanto em Jacques-Alain Miller, como em Pierre-
Gilles Guéguen, que têm mais atualizadas - não leio inglês
- as questões da IPA. Mas, definitivamente, creio que segue
funcionando assim, que se segue tomando a transferência e a
interpretação como recursos técnicos. Então, divertia-me
muito, aplicando a terapia breve ao caso e daí saíram a trans-
ferência e a interpretação como algo que era diferente para
mim. É interessante o livro de Fiorini porque há muitos casos,
há muita casuística. D isse a mim mesma que esse caso podia
ser incluído no volume de Fiorini. Devo dizer que a primeira
trama durou quatro meses, e o extraordinário é o segundo sin-
toma: seis sessões! Algo surpreendente! Esses efeitos espeta-
culares que recebe o analista!

101
Conve rsaç ao c11nica com J acques-Ala in Mi lle r e• Barce lo na

Horácio Casté: Estive vendo que as terapias focais se


usam na Clínica Tavistock. Não sei se Tavistock surgiu antes
de Fiorini.

U1da D'Angelo: Não, FiorirU cita toda a E~cola inglesa.

Horácio Casté: Mas, na Tavistock, também se utilizam


as terapias focais, chamam-nas assim também.

Pie"e-Gilles Guég~n: Fiz, há 10 anos, wna con-


tribuição em um livro de psiquiatria de Jean-Pierre Oliél e
vários outros, sobre a depressão, em que cada um apresentava
seu método. Há uma parte para a psicanálise e, dentro da psi-
canálise da IPA, dedicam uma parte muito ampla falando de
todas essas terapias focais que, enfim, não sei se se aplicam
realmente, mas parece que é uma referência muito importante
para nossos colegas da IPA, especialmente em instituições.

Jacques-Aiain Miller. É wna formalização mínima,


uma bússola simplificada para captar rapidamente a situação.
Em si mesma, não tem nada de rechaçável, mas vem acompa-
nhada do tecnk:ismo de tudo o que se faz. A questão deixa ver que
o tipo de formalização de Lacan não permite tudo isso porque
não permite nenhum automatismo na prática. É complexa, e
a complexidade é um fator que impede a mecanização.

Pie"e-GiUes Gttégue!l: Sim, é como muito bem coloca


Lucia. Todo o âmbito das terapias focais se desenvolve dentro
da cena fenomenológica, trata-se do hic et mmc, trata-se da situ-
ação, trata-se de compreensão, trata-se de enfocar o sintoma

J • •
OUE, Jean-Pierre; POIRIER, Marie-France; LOO, Henri e col. Lu
ma/adies tkpressi~~ts. Paris: Flammario n, 1995.

102
Efeitos t er ap ~ uticos r ápidos e m psicanál ise

para que não se desenvolva o significante de uma maneira sel-


vagem, porque pensam que o significante vai-se desenvolver
de uma maneira selvagem. Enquanto nós verificamos que não,
que a associação livre se focaliza ao redor do gozo, do gozo
insuportável para o sujeito.

]acques-Aiain Miller. O foco é o objeto a minúsculo.


E les parecem se manter no nível da demanda e tratam de
conectar diretamente a demanda, como demanda de curar-se,
ao sintoma. E pensam que devem pôr entre parênteses tudo o
que há entre os dois pontos. Mas me parece um erro.

Este/a Pa.tkMn: Com a maior quantidade de dados


que traz Luda, parece-me que o caso fica muito mais claro, e
gostaria de fazer uma pergunta vinculada, justame~te, ao
marco da fantasia. Cai muito bem isso de "o focal", porque a
terapia focal breve está dirigida, tal como se faz em um incên-
dio, a apagar o foco, justamente para que isso não se estenda.
Uma das questões que sempre se coloca, nas chamadas te-
rapias breves, é dirigir-se ao foco, mas tratando de não tocar o
enquadramento ou o marco da fantasia. Evidentemente, algo
se desestabilizou para que se produza isso, o que nos coloca,
também, a pergunta acerca de até quando se manterão os
efeitos terapêuticos, se não se toca no marco ou enquadra-
mento da fantasia. É uma questão que é importante para nós
tratarmos de discutir. Esse homem se apresenta, realmente,
com uma angústia muito forte, ante wna decisão que deve
tomar. Você diz que, nesse primeiro ciclo, as intervenções do
analista visam a legitimar a dimensão fantasística de seu sin-
toma. Q ueria perguntar-lhe quais foram essas intervenções
porque, inclusive, legitimar é precisamente o trabalho do
escrivão. E também me parece que é muito importante -
agora que você fala do enquadramento fantasmático desse
homem, muito obsessivo, na mortificação do Outro - como

103
Conve r saçao cl! n ica com J acque s-Alain Mlll er em Bar ce l ona

ele t:r.az, a cada vez, um focus a apagar. Mas tenta também man-
ter, de alguma maneira, o Outro como morto. A sua segunda
intervenção rompe essa estratégia do obsessivo. Queria per-
guntar, então, pela fantasia e pelas intervenções.

Lllda D'Angelo: Há um lugar difícil na fantasia. É o


filho que nasceu morto para o pai, quer dizer, que há uma
marca. O pai, durante a gravidez de sua mulher, tinha a con-
vicção de que esse fl.lho pocüa nascer morto. Assim, esse
sujeito está brigando, desde que nasceu, contra essa mortifi-
cação do Outro...

jacques-Aiaz'n Miller. ... no desejo paterno.

Lucía D'Angelo: Exatamente, quer d.izer que não tem


demasiado lugar no desejo paterno. É curioso que, por outro
lado, frente a esse atropelamento paterno, não haja um refú-
gio na mãe. O sujeito pode pôr à cüstância uma mãe que ten-
tou protegê-lo disso. Quando dizia "legitimar a posição fan-
tasística" é porque, nesses exemplos, como também víamos
ontem, o sujeito se apresenta pelo lado da fantasia, há uma
irrupção de algo que desestabilizou a fantasia, não se apresen-
ta com um sintoma. Então, o fato de lhe mostrar o cenário de
sua fantasia, que lugar ocupava a mulher, para ele, como obje-
to na fantasia do casal, se era pelo lado do desejo ou pelo lado
do amor, permitiu nos movermos na fantasia, mas sabendo
que a escolha era a vida ou a morte. Ou o desejo, ou o pior
que lhe poderia passar: que escolhesse essa mulher que lhe
vinha ordenar a vida e que carregava, ela mesma, esse traço
mortificado. É complicada a identificação porque a presença
do pai morto é muito, muito flagrante nesse sujeito. Até pode
encarná-la uma mulher, para dizê-lo de alguma maneira.
Como diz Lacan, a mulher, no casal, pode ocupar o lugar do
supereu do homem e, realmente, teria sido tremendo, por

104
Efeitos te r apê uticos r ápidos em psicanáli se

mais que o outro se saisse mal. Mas quando ele disse: "Agora
ela se torna como as outras, começa a reclamar, então fora ...",
há que dizer que é um homem muito desejado pelas mulheres,
ele não faz mais que consentir, não é ele quem toma a inicia-
tiva. Portanto, é realmente um sobrevivente.

Jacques-Aiain Miller. Esse era o ponto que eu havia


observado. Nesse caso se vê, realmente, a mulher, a mulher
advogada, a mulher que ordena, como uma versão do pai. O
pai escrivão renasce sob a forma da mulher advogada. Ilustra
o tema de Lacan de A mulher como um nome do pai.
Creio que o diálogo de Estela e Lucyé um ensina-
mento notável. Trata-se de restabelecer, rapidamente, o sujeito
como vivo. É urna ação de conservação, ou de restauração,
quando o que fazemos na perspectiva de um tratamento
analítico é explorar a catástrofe, aguçar o terremoto. Faz-me
pensar que estamos como Condolez7.a Rice. Recordem o que
ela disse, em público, ante a comissão do senado, sobre algo
que lhe foi questionado a propósito de sua política, porque o
senado americano deve dar sua aprovação à escolha, feita pelo
presidente, da pessoa que vai ser a encarregada da política
externa dos Estados Unidos. Ela disse, em público, ante todas
as televisões do mundo, que o tsunami havia sido uma magrú-
fica ocasião para o governo norte-americano mostrar sua
benevolência, a wondeiful opportunity. Para nós, quando há uma
catástrofe sintomática para um sujeito, é uma wondeiful opportu-
nity para a very good análise. Finalmente, a posição de restaurar
parece mais humana.
Não sei se devo dizê-lo porque vai distrair o inte-
resse do que estamos fazendo esta manhã, mas... Ontem, não
havia lido ainda esses três casos. Para ter frescos os dados, pre-
firo ler os três primeiros e, à noite, ler os outros. Já ontem,
disse que se tratava de três casos paradigmáticos. Pode-se dis-
cutir o último - o caso de Carmen Garrido, o caso da rainha

105
Conversaçao c l 1n ica com Jacques-Alaln Kil ler em Ba rcelona

morganática que segue sua vida com a acaderrúa de belas artes,


mas com um herpes vaginal - se é uma conclusão válida.
Segundo meu ponto de vista, sim. Não vejo por que um her-
pes vaginal seja algo que se deva dominar; é uma solução, uma
via de saída que existia em sua história, através da figura da tia.
Há uma lógica e não vejo por que devamos impor valores do
tipo "melhor não te.r um herpes vaginal que tê-lo". Devo dizer
que algo sucede aqui porque acho o caso de Lucy, o caso de
Félix Rueda e o caso de Amanda, também casos paradigmáti-
cos, casos que se.vão converter em casos clássicos do lacanis-
mo. D e certo modo, estou assombrado, e o digo tranqüila-
mente, com esta sessão da Conversação de Barcelona. Não
creio que seja porque esteja contente com os acontecimentos
políticos gerais e pelas perspectivas. Ontem, vimos três casos
paradigmáticos, hoje, três casos que já me parecem clássicos,
q ue se vão converter em clássicos. Não pode ser po r acaso.
Primeira hipótese: D eus. Talvez, mas se há essa con-
vergência de paradigmas e de clássicos, é realmente po rque
entramos em um novo ciclo do lacanismo. Agora posso
comentar, posso acrescentar algo: realmente estou aprenden-
do, estou adnúrando o trabalho, a conceitualização. Já me
ocorreu, várias vezes, mas, agora, há como que uma densidade
nisso. No ano passado, vimos, no Campo Freudiano, o fim de
um certo ciclo e agora percebo, de Paris e de Barcelona,
ontem e hoje, a abertura de um novo ciclo, do qual devemos
pensar bem seu desenvolvimento e nossas responsabilidades.
Há muito trabalho por fazer, mas aqui estamos, ao pé da mon-
tanha.

Tradução: Liege Goulart


Revisão da tradução: Sérgio de Castro

106
5. Pepe

Uma pequena invenção psicótica

Félix &Ieda

Uma localização de g~zo, efeito da interpretação,


possibilita a entrada em análise de uma criança psicóúca. Essa
localização se verifica rapidamente, em um primeiro momen-
to, pela perda de gozo que acarreta e pelos efeitos terapêuti-
cos que produz; e, em um segundo momento, pela criação de
diversos circuitos que sustentam a construção de uma reali-
~ade para o sujeito. Circuitos que giram em torno da localiza-
ção de gozo inicial produzida pela interpretação.

"A única diferença é a fralda"


O colégio, em maio de 2001, recomendou à família
de quem chamarei Pepe comparecer ao serviço de consultas
da instituição, na qual desempenho uma parte de meu traba-
lho, para o tratamento de autistas e psicóticos.
Pepe tinha então quatro anos e suas avaliações esco-
lares diagnosticavam atraso adaptativo, enurese e encoprese
diurnas. Além do mais, davam conta: da ausência para ele de
laço social ("Está ;unto com as crianças, porém não está com
elas. Não brinca''), de sua errância ("Faz o que lhe dá na
cabeça, na aula, agita-se''), de transtornos de linguagem

107
Conve rsacao cl1n 1ca com Jacques-Ala 1n Hil ler em Ba rce lo na

("Dificuldade de construir frases, faz perguntas repetitivas,


quando lhe perguntam não responde ou responde outra coisa,
repete o que lhe foi dito''), assim como de outras dificuldades
("Há ocasiões em que evita o olhar, e em outras coloca obje-
tos na frente dos olhos, se olha no espelho e tapa os ouvidos.
N ão faz xixi nem coco na privada, só quando lhe colocam
fralda. De repente se sente mal, quer sair porque quer fazer
xixi, e pede: 'fralda' e não entra no banheiro até ver que a
trouxeram'').
Nas primeiras entrevistas, a mãe conta que seu
primeiro marido, de quem ela tem dois fllhos já adolescentes,
morreu. Pepe é o fllho de seu casamento atual. Era, diz, um
bebê nervoso que não a deixava dormir. Chorava e berrava
durante as noites, para seu desespero. Diz que tentava niná-lo
nos braços... etc, mas não havia jeito, até que, aos ttês anos,
com o início do colégio, isso parou.
Inicialmente, ainda que os pais não tivessem claro
que algo acontecia com Pepe, cada um formula uma interpre-
tação sobre o que pensa. Segundo o pai, talvez fosse um pro-
blema de comunicação: é possível que quisesse dizer algo e
não soubesse como expressar-se. Para a mãe, "a única dife-
rença com relação aos outros irmãos é a fralda". E então me
contam como Pepe não quer fazer coco no vaso do banheiro.
Quando o sentam no vaso, permanece· ali, em pânico, pálido,
petrificado, com rigidez corporal, ocorrendo-lhe o mesmo no
colégio. Chegou a acontecer, em certa ocasião, saindo a pas-
seio, de pedir ao pai para retornar a casa para colocar a fralda
e poder fazer coco com ela, que é como habitualmente faz.
Ele está no consultório enquanto me contam jsso.

Primeiras entrevistas
Pepe se senta pintando sobre o papel, mostrando-se
sensível e atento aos diversos ruídos do consultório. Porém se
interessa especialmente pelas portas de uma casa de brinque-

108
Efe itos t erapêuticos rap f~os em psic an~lise

do. Diz: ''Porta... feche", e assim, de maneira insistente, tenta


fechar as portas, dizendo: "Porta, não pode". Nessa primeira
ocasião, aparece o sigrüficante fechar sozinho, não há fort-da.
Aparece também, durante essas primeiras entrevis-
tas, a solução que até agora havia ensaiado: uma ecolaü~ ma-
nifestação da regressão tópica ao estádio do espelho. Pepe se
põe totalmente especular, imitando-me, repetindo tudo o que
digo, sem nenhuma dimensão da provocação. Se lhe propo-
nho "te escuto", de também diz te escuto; se o animo "sim", ele
diz sim; se faço "mmm'', ele imita mmm; digo-lhe "não enten-
do", e de repete não entendo. Apesar dessa posição especular,
diz algumas coisas: " bonito", traz uns óculos novos e diz
"óculos" ... "O ônibus branco acabou a luz e não funciona ...
Não há sola" (escola).
Na segunda entrevista, aparece o primeíro esboço de
transferência, quando cli~ "O ônibus... rodas furadas" (ruedas
em espanhol). E prossegue, dizendo "A porta fechada, a porta
fechada, a chave da porta, da mãe dos Sirnpson. A chave no
bolso, a porta se abre". Eu faço uma escansão, nessa primeira
emergência da porta aberta. Temos então o par significante
porta aberta-porta fechada, que dá conta da possibilidade de
uma pulsação.

Interpretação e entrada no dispositivo


Na entrevista seguinte, ele tira os 1Jf.'1quedos que
estão dentro da casa e diz "aberta", começando, nesse mo-
mento, a angustiar-se. Falo-lhe, na terceira pessoa, e lhe cligo
que algo está aberto: o buraco, semelhante ao do banheiro, e
que de se angustia muito. Diz: "Sim".
Na sessão seguinte, não quer passar pelo umbral da
porta, que lhe dá medo, e, para atravessá-lo, se faz acompa-
nhar do pai. O medo do buraco se transferiu para o clispositi-
vo. Aceita ficar sozinho, se bem que esteja em uma posição
totalmente especular: se faço qualquer gesto, d e o imita.

109
Con versaça o cl l nica com Ja cques- Alai n Mil l er em Bar ce lona

Torna a abrir a porta, a fechar a porca c diz " Não tenho


mamãe Simpson. Tenho quatro anos", e indica a mão, dizen-
do: "Tenho dodói". Digo-lhe que talvez no próximo dia possa
me explicar, e responde: "Mas o que você diz"! "O que diz
este ai"! "O que você está dizendo"?
A impossibilidade de separar-se das fezes indica que
não há corte entre o Outro e a, entre o corpo e as fezes. Não
há corpo ou, se há, é este corpo petrificado, tratando-se então
de obturar o vazio que pode puxá-lo, função que realiza a fral-
da: de tampão do buraco do corpo. Não há esfincter, o inte-
rior e o exterior são a mesma coisa, o buraco da privada e o
do corpo é o lugar por onde Pepe pode desaparecer.
A ausência de defesa frente ao buraco faz com que
surja o pânico, a palidez e a rigidez corporal. Podemos pensar
que seu único recurso para velar o buraco é situar-se frente ao
interlocutor de maneira especular. Depois da aparição da
dupJa significante fechar-abrir a porta, aparece o buraco e,
com ele, a angústia. As diversas pontuações e a localização do
buraco fazem com que esta se transfira para o dispositivo,
aparecendo a primeira menção ao corpo: "Tenho dodói".
Tudo isso ocorre em seis entrevistas, realizadas em um mês e
meio, depois das quais chegaram as férias de verão.

Emergência da voz: série de ruídos


Na volta das férias, em setembro, ao ouvir um tele-
fone que toca fora do consultório, Pepe exclama "O que é
isto"? "Que susto!", e diz: "As campainhas fazem tolon". A
partir daqui, locamaremos uma série de ruídos de caráter
alucinatório que o assusta: o ruído dos sinos, dos foguetes,
do metrô, o ruido do gu.indaste. Esse trabaJho prosseguirá ao
longo de todo o tratamento, porém, nesse momento inicial,
se situa a emergência da voz depois da localização do bu-·
raco.

110
[feitos te ra pê uticos rá pi dos em psic análise

Comento com os pais a possibilidade de prosseguir


com essas entrevistas e transformá-las em um tratamento,
com o que eles concordam. A mãe me diz então que o pro-
blema da privada desapareceu e que Pepe faz xixi e se senta no
vaso sanitário do banheiro para fazer coco.

Efeito terapêutico
Um efeito terapêutico rápido: o desaparecimento da
encoprese e da enurese se produz como um efeito da perda de
gozo nesse primeiro momento de entrada.
Interessa-me prosseguir o relato do caso porque per-
mite entender como essa perda de gozo e o suporte da trans-
ferência (sob a qual prosseguiu o trabalho de isolar os fenô-
menos alucinatórios: vo!' e olhar) são o pivô dos esforços
desse sujeito para construir um órgão novo que constitua uma
nova borda, sua "pequena invenção"1•

Invenções
A primeira invenção de Pepe foi o uso que ele fez do
Plqy Station. Durante um longo tempo, falou-me de maneira
confusa, misturando personagens, ruídos que ele fazia (por
exemplo, modulando a voz e dizendo em voz baixa:
"Gambazinhos... seu tempo está acabando''), números etc.,
até que pude reconhecer que, de certo modo, em vez de produzir.
um relato, mostrava uma cena de um jogo de P'-:J' Jtation. O que
me permitiu perguntar se lhe interessavam os ruídos do videogame,
ao que respondeu "sim". O videogame era uma tentativa de cons-
truir um objeto condensador de gozo fora do corpo. Como
objeto amarra: moldura, imagens, e inclui ruídos e vozes.l

1
MILLER, Jacques-Alain: L'invention psychotique. Quarlo, 80/ 81.
2
MILLER, Jacques-: Mostración en Premontré. In: Matemm I. Buenos
Aires: Manancial, 1987.

111
Conve rsaçao c 11n1 ca com J acq ues-Ala1n Hi lle r em Ba rc e l ona

A segunda das invenções é wn circuito de érens que


ele faz ajudando seu pai. Circuito articulado com a transferên-
cia, já que, cada vez que vêm à consulta, o pai lhe compra uma
peça para completar o circuito do trem. Por outro lado, Pepe,
em seus passeios próximos às vias férreas, se inter~ssa e inda-
ga acerca destas, das pontes, túneis, buracos, encanamentos
etc. Há, nos circuitos, wn esforço para delimitar o gozo inonú-
nável. E, assim, o objeto voz aparecerá no circuito sob a forma
de fantasmas que sobem nos trens e cujo canto o assusta.
Também lhe atemoriza o som do trem, que tem "rodas" - sobre-
nome do analista - ou a água que cai pelos buracos nos túneis...

Os objetos voz e olhar.


Medo dos fenômenos "naturais"
Outra série se desdobra. Assim, nas noites, lhe dá
medo "o guindaste na janela". ''Tenho medo do vento, ele
movimenta o guindaste, que cai e faz ruido... trovões, apaga a
luz, as lâmpadas e fica escuro. N a janela - diz - tem uns
olhos". Para ele, esses olhos lhe dão medo à noite, quando está
na cama. Em seu uso particular da linguagem, referindo-se a
como ele olha o guindaste pela janela, diz: "Olhava pela janela,
havia vento, que jogou o guindaste ... a casa quebra". Também,
mais adiante, fala de "A voz na cama". Digo-lhe que assim
como havia uns olhos que assustavam Pepe, talvez haja uma
voz que o assuste, e ele diz que sim, a de M(J11stros SA
Produz-se um ligeiro deslocamento: o ruido deixa de
ser o do guin daste para ser o do vento que movimenta o guin-
daste e faz ruído. E Pepe começa a dizer coisas como: ''Havia
vento que fazia correr as nuvens, também o rio. Quando tinha
quatro anos, a tempestade fazia shhh, estava escuro e eu tinha
medo". O sintoma do m edo amarra o Simbólico: tempestade,
o Real: ruido, e o Imaginário: o eu. A família comenta comigo
que ele tem medo dos fenômenos "naturais". Assim, com a
ajuda da família, o desdobramento dos fenôm enos elemen-

112
Efei t os terapêu ti cos r apídos em psi candl í se

tares (que contêm em si o delírio em seu conjunto) adquire


esse sentido de medo desses fenômenos.
Deslocamento no nível da linguagem, que deixa de
estar fragmentado - só surgiam palavras isoladas que não
produziam significações - para a construção de frases;
aparece o uso da primeira pessoa, do eu, e também ditos de
figuras da família que antes não existiam. Em algumas
ocasiões, esse falar se produz de um modo metoním.ico,
homofônico. "Um exemplo de tal deslizamento é: "Fiat uno,
Fiat tipo, Fiat regata, Fiat regata nos canais"3•

"0 que está mais além da borda eu não posso ir"


Na atualidade, Pepe se interessa·por um circuito não
exatamente cartográfico, já que não é escrito, salvo em sua
repetição sob transferência. Esse circuito que bordeja, em
suas duas margens, os canais de Bilbao, é wn circuito de trens
(em uma das margens); estradas, túneis, pontes, que chegam
em ambos os lados ao mar, e Pepe se esforça por integrar
neles o gozo irredutível que não se deixa apanhar. Assim, em
tal povoado, está a igreja com os sinos, no metrô, a voz de
uma moça que vai dizendo as estações, que ele escuta e que
vão sendo incluidas nessa cartografia. Creio que esse circuito
é um esforço de unificação, já que reúne em si o circuito dos
trens e a série dos medos dos fenômenos "naturais".
Incluo alguns dos ditos de Pepe: "Dá-me muito medo
a ponte pênsil, atravessarei o canal de barco, ou peJa estrada. De
Santurce• se vê o mar. As ondas eram grandes..." E diz: "Saem
sangue, eram ondas maiores que as da praia de Oriiion."

' Nos canais de Bilbao, são clássicas as regatas de traineiras.


• Portugalete, Erandio, Pefiota, Las Arenas, Sanrurce são nomes de
povoados, ribeirinhos dos canais, e alguns, como Las Arenas, Sanrurce,
Pefiota, estão na beira do mar. Oriiíon e Sornorrostro são nomes de praias.

113
Conversaçao cl l nl ca com Jacques-Alain Hi ll er em Bar celona

"Na terça-feira fui a Santurce, vi a saída do túneL Eu


estava ouvindo algo, como um barco que está apitando. O que
está mais além da borda eu não posso ir''. É a constituição
mesma da borda frente ao abismo oceânico. "Havia muitos cami-
nhos de bici. Eu estava ouvindo uma moça no trem, para ver
que povoado era, quando o trem chega a esse povoado, a voz
da moça diz: PorrugaJete, quando passa o túnel, diz 'Pefiota, e, ao
final, diz Santurce". É a voz do vagão de trem que avisa a estação.
''A lua já está cheia. Fica vermelha pelas manhãs
porque pega sol. Há algumas nuvens que se escondem por aí.
Ouvi pelas manhãs o vento. O rio vai fazendo ondas. O rio de
Portugalete como a praia do mar, faz ondas, porém pequenas".
"É maior Las Arenas do que Portugalete porque há
praia. É maior porque tem a igreja, a praia e tem justamente o
mar. O mar é muito grande, e o farol para que os barcos dêem
voltas. É muito maior porque vi em um cartaz, são letras. Entre
a praia e o mar há a bandeira vermelha para que não se entre".
Da sua casa se vê a fábrica, a estrada leva :tté a rótu-
la e por ali se vai aos canais. "Nos canais havia um redemoi-
nho, como no banheiro. Pensava coisas... que a água saia... ia
para o rio. Havia um torvelinho que se ouvia e o assustava".

Conclusões
O redemoinho dos canais, o buraco do banheiro, no
qual se localiza a voz, são os pontos ao redor dos quais gira
esse circuito, que gera uma borda: ''Mais além eu não posso ir,
a bandeira vermelha para não entrar no mar" (mar- e canais
-que são o próprio buraco).
É a pequena invenção de Pepe, seu saber fazer com
seu troumatism~, que aparece de entrada na relação do sujeito
5
Jacques-Alain Miller afirma: "Se o termo invenção se impõe é porque está
profundamente ligado à noção do Outro que não existe... é a noção de que o
suieiro tem de saber fazer com seu traumatismo", ''J:invention psycotique",
Qlll1rlo 80I 81.

114
[fei tos t er apêuticos rá pidos em ps icanàl ise

com o buraco e a deposição das fezes. Os circuitos são uma


busca de estabilização de um gozo que ameaçaria com a
regressão tópica e a desaparição corpo ral Um modo de cons-
tituir um campo de realidade.6 Não pela extração do objeto,
senão aparelhando o gozo. Este buraco e o circuito que o bor-
deja permitem diferenciar exterior e interior. Umwelt que
Lacan na "Conferência em Genebra" corpo-reifica: "Seu
mundo, se é que a palavra tivesse algum sentido, seu Umwelt, o
que o rodeia, de (o homem) o corpo-reifica, o faz coisa à
imagem de seu corpo". 7 Como o escutamos em espanhol na
homofonia: "As ondas eram grandes, sai sangue" , que dá
conta da solidariedade entre esta construção da realidade e o
fazer-se um corpo.
Assim, esta intervenção nos permite verificar o
efeito terapêutico da entrada não do lado de um efeito suges-
tivo, mas da perda de gozo.

Tradução: Marise Pinto


Revisão: Sôrúa Vicente

6
LACAN, Jacques: De uma questão prelíminar... In: . Escritos.
Nota 16. Local: Editora, ano. p.SS9.' LACAN, Jacques: Conferência em
Genebra. lntervendormy textos. Buenos Aires: Manantial, ano. p.1 18.
7
LACAN, Jacques: Conferência em Genebra. lntmJendones y textos.
Buenos Aires: Manancial, ano. p.11 8.

115
Conve rsaça o c lfnica com Jacqu es-Alain Mi ll er em Ba rcelona

Conversação
A ausência de uma fobia

Horácio Casté: Vamos continuar com o caso de Félix


Rueda. Os eixos são a interpretação, a transferência e o efeito
rápido. Nesse caso, o cenário é diferente porque se trata de um
m enino psicótico muito grave, também com um efeito tera-
pêutico espetacular em um curto prazo.

Félix & eda: Não atendo esse caso em meu con-


sultório; trata-se de uma associação de pais de autistas e
p sicóticos que tem um departamento clinico associado ao
Serviço Basco de Saúde.

Horácio Casté: O notável é que consultam pelo sin-


toma de encoprese quando é um menino que parece que não
pode articular duas palavras seguidas e, a partir da solução
desse sintoma, começa a subjetivar-se, começa a entrar no laço
social, sustentado pela transferência com o analista. É uma
transferência com uma caracteristica peculiar porque está
intermediada pelo pai. Não sei se você quer esclarecer mais
alguma coisa.

Félix Rneda: É certo que o efeito terapêutico se produz


depois das seis primeiras entrevistas, porém o trabalho que rela-
to é um trabalho que prossegue na atualidade. Interessava-me
situar o efeito terapêutico, como uma entrada a partir de algo
que o menino diz agora, é urna frase que coloco no final do
relato do caso: ''Tem um redemoinho nos canais de Bilbao,
como a privada, que produzia um ruido que lhe dava medo."
Parece-me que isso se amarrava com o início, talvez um ciclo. A
partir daí queria me interrogar sobre esse efeito e essa entrada.
Parecia-me muito clara a perda de gozo que havia. Ele pode
fazer xixi e defecar normalmente. Interessava-me também

116
Efe i t os t e ra pêu t i cos r~ pidos em p sican~)i se

porque . na prática. encontro-me com casos nos quais se


começam a fa2er circuitos e me interessava entendê-los.
Na direção do tratamento, parece-me que, além
dessa questão da entrada, havia um esforço em ir localizando
os fenômenos elementares. Sempre me lembro de um texto de
Éric Laurent no qual ele colocava dois pontos: uma infuútiza-
ção significante nas séries, e fenômenos de separação, que ele
situava em relação ao ato de cagar de Schreber, como momen-
tos de extração. Tratava-se, então, de ir situando esses fenô-
menos que iam aparecendo: os olhos na janela, os ruídos de
caráter alucinatório. Mas o que o sujeito ia fazendo eram cir-
cuitos. Essa perspectiva parecia-me que tinha a ver com o sig-
nificante que mata a coisa, dissecando o gozo. Porém eu não
conseguia entender esses circuitos que o menino ia fazendo.
Parece-me um aparato que o inclui e que tem a ver com um
significante que veicula um gozo. Apesar do efeito terapêuti-
co, ele começou a falar de uma maneira muito desordenada,
com frases estranhas e desconexas, e eu não entendia do que
se tratava. Finalmente me dei conta de que era um jogo do
Pltg Stalion. Vi que lhe .interessavam os ruídos, o objeto como
condensador. A partir daí, vão aparecendo os medos dos rui-
dos: o sino, o vento... Mais tarde, soube pela fanúlia que um
ano depois do início do tratamento, quando tinha cinco anos,
começou a ordenar a sua vida em termos de horários -
dorme cedo para estar bem acordado de manhã - porém tem
uma coisa que ele não perde: os telejomais, especialmente o
programa do tempo. Ele conhece todos os símbolos meteo-
rológicos. Nos circuitos que constró~ aparecem os sinos, os
trens e até a voz mesma. Toda a dimensão alucinatória tem seu
centro no que ele diz do cuido no redemoinho, que era o do
vaso sanitário e que aparece agora no que concerne aos canais.
O que me parece muito interessante é que, apoiado nos fenô -
menos elementares, ele foi constrwndo esses circuitos e
depois os unificando.

117
Con ve r s açao cl ln i ca com Jacqu es- Alal n Mi ller em Bar ce l ona

Pierre-Gilles G11égtm1: Pensava que poderíamos usar as


palavras que ontem dizia Araceli Fuentes, ''restituição da
trama do sentido". Nesse caso, trata-se da invenção da trama
do sentido e da inscrição do trauma na particularidade do
sujcito. Interessa-me muito a questão dos circuitos, que nos
evocam o caso do pequeno Hans e também aquilo que os
psiquiatras chamam de "viagens psicóticas'', tratando de fazer
uma cartografia para combater os efeitos de desmoronamen-
to do mundo. Nesse caso, observa-se que é uma etapa para
construir algo.

Jacques-.Alain Miller: E depois do caso dos atentados


de Madrid, que tiveram a ver com os trens, felizmente vemos
um outro uso dos trens nesse caso. Eu pensava em uma pági-
na de Charles Dickens sobre a maravilha dos trens que se
cruzam, é uma págin~ que François Regnault comentou. Nós
a buscaremos.

Pierre-Gifles Guég11en: Outra idéia que o caso me vinha


sugerindo é que ele demonstra que um tratamento não pode
ser um assunto de Localização cerebral, mas dc.Localização do
objeto a dentro dos circuitos imaginários, simbólicos c reais.
Esse caso o mostra de urna maneira evidente.

]acques-Aiain Miller. O sintoma não está na cabeça.


Vamos tomá-lo como axioma. É o que dizia Lacan quando
falava do discurso do Outro. E tampouco no social correlati-
vo ao mental. É outra articulação de dimensões.

l'e/ix Rxeda: D urante a escrita do caso, eu me dava


conta de que era como pensar a nota de pé de página do ano
1966 de "De urna questão preliminar a todo tratamento pos-
sível da psicose", em que se coloca a questão do objeto. O que
essa criança faz é uma rede cada vez mais densa, incluindo

118
Efeitos ter a p ~u tíc os rápidos em psic análise

diversos elementos, e que está feita de coisas comuns: os trens,


os presentes do pai, as coisas que vê no telejornaJ. É uma
bricolagem muito comum, e, nesse sentido, é o esforço por
criar essa tela que lhe permita uma realidade, e, ao mesmo
tempo, produzem-se os enodamentos dos temores que lhe
permitem dizer "eu".

Pierrc-Gille.r Guéguen: É a construção de uma fobia. É


uma sintomatização.

Félix Ruedtr. Sim, ele se localiza nessa questão da cons-


trução de uma borda do buraco, e, nessa borda, aparece a voz
através da idéia do ruído que produzia o ...

]acque.r-Aiain Miller. Ma.ís que de uma fobia, parecia


que padecia da ausência de uma fobia. Se ele tivesse uma
fobia, ele teria, como você assinala, uma defesa contra o bura-
co, contra o vento. Teria a borda. Ele padecia por não ter
podido construir uma fobia, da qual ele tinha, no entanto, os
elemento~. Lacan dizia que a angústia é uma plataforma
giratória. Com isso estamos aba.íxo da plataforma giratória.
Penso que, no futuro, aprenderemos coisas da psicanálise a
partir desse caso, será uma referência, não pela excepcionali-
dade do caso senão pelo relato, pela maneira de ordená-lo.
Muito claro, muito simples, e, ao mesmo tempo, muito firme.
É o novo lacanismo. Devemos fazer um esforço para publicar
esses trabaJhos do Encontro de Barcelona, que, por outro
lado, é o único Encontro que mantenho depois de haver
suprimido praticamente todas as minhas viagens para poder
estar em Paris nestes momentos tão importantes. Não é por
acaso que mantenho este encontro.

Paloma Lzrefl(r. Queria perguntar a Félix sobre o


outro tempo, que é o tempo cronológico.

119
Con vers acao clfn i ca com Jacques -A l ain Hil le r em Bar celon a

Félix &Ieda: Ele tinha quatro anos quando chegou,


agora tem oito. Coloco isso no caso porque dá um índice da
subjetivação e, também, de como apareciam no primeiro
momento todos os significantes soltos em wna dimensão alu-
cinatória. E agora pode dizer "quando eu tinha quatro anos
tinha medo disso, daquilo", agora consegue um manejo do
simbólico que lhe permite uma ordem. No momento em que
se abriu o buraco no dispositivo, o que apareceu foi o pânico,
do qual os pais me haviam falado, quando tinha que defecar.
Ele pode dizer que, em outros momentos, teve medos, agora
também os tem, mas de outra forma.

Ivan Ruí~ Aprendi e desfrutei muito ao ler o caso,


sobretudo pela articulação tão clara. Queria falar sobre o
manejo da transferência e da angústia. Existem dois momen-
tos no caso. O primeiro são as seis primeiras sessões, quando
Félix fixa o binário "aberto-fechado" e, na sessão seguinte, na
qual se produz uma transferência da angústia ao dispositivo
que faz aparecer o corpo do menino. Queria destacar esse
manejo da angústia através do dispositivo. Queria-lhe pergun-
tar sobre o estatuto do pai desse menino, porque aparece em
duas ocasiões nessa primeira etapa, primeiro no franqueamen-
to da porta na con sulta e depois na questão do defecar, porque
é com o pai que ele pode fazê-lo ao voltar para casa.

Félix Rneda: Com relação à transferência, parece-me


que, se, já na primeira entrevista, apresentava-se essa questão
de fechar, que parecia como um empuxe a fechar, na segunda,
aparece o abrir. Porém é somente na terceira, quando ele diz
"abre" e entra em pânico. O que aparece curiosamente depois
é a questão do "estou do dói", e eu lhe digo que terá que
explicar do que se trata, e ele diz: "Mas o que você diz, o que
diz este aí, o que você está dizendo?" Parecia-me que ali teria
que fazer uma operação por aquilo que a própria interpretação

120
Efei t os lerapêuticos rápidos em p$i canál lse

havia gerado, que era um Outro do saber, o qual teria que


demarcar. Então, tentei situar-me do lado do não-saber para
perguntar a partir dali sobre as questões que iam aparecendo.
Esse foi o primeiro momento com relação à transferência, e
logo apareceu também toda essa questão do lado mais espe-
cular. Com relação ao pai, creio que é um companheiro de
jogos; eles têm uma pista de trens para eles, ainda que a ele
que pedisse a fralda, creio que acima de tudo é um compa-
nheiro de jogos.

jacques-A/ain Miller: Acho deliciosa, no caso, a marca


da transferência no uso de seu nome próprio, as "rodas"
(ruedas) furadas que voltam depois. . Muito bem escrito,
porque a primeira vez você cita a frase e diz "é a prova da
transferência" e não fica imediatamente claro para o leitor. A
segunda vez você o aponta. É notável como no discurso caóti-
co desse pequeno psicótico aparece retomado o nome do
analista. Trata-se da abertura de uma complexidade verdadeira
nesses casos e ele merece ficar na memória como o famoso
"Le loup, le loupl" do caso de Rosine Lefort do Seminário I.
Para mim é da mesma ordem, paradigmático.

LNcia D'AngekJ: Tenho a impressão de que esses


encontros - tal como você cli:úa - de vez em quando com
o simbólico não são encontros com o pai, mas com o analista.
Da mesma forma que lhe permitem certa invenção do espaço
no percurso desses encontros, também há um encontro tem-
poral, na medida em que ele pode colocar-se em certas datas,
em certos horários do telejornal. E o que me pareceu precioso
é que ele se lembra de você como aquele que escuta esses
encontros com o simbólico: a que horas ele os encontrou etc.
E estão nos dois níveis, não :só no nível espacial, como vimos
com os trens, mas também no nível temporal, essas referên-
cias que ele vai pondo no tempo.

121
Conve rs açao c l fníca com J acques-Al ain Míller em Barce lona

Rosa Calvet: Pensando n os casos clássicos que vão


passar à lústória, é verdade que ~se caso de "distonia fecal"
demonstra que é a construção da borda o que permite que
exista um ser falante que se move nas dimensões do dito, que,
sem a construção de uma borda, não há possibilidades nem
disso. Precisa-se da borda para se ir construindo um corpo,
porque ele é a distonia fecal até recorrer ao analista. Queria
perguntar-lhe sobre esta intervenção: "Falo a ele na terceira
pessoa".

Félix Rueda: É um efeito dos colegas da Antenne, 111as


também porque o vi tão angustiado nesse momento, porque
toda a linguagem que aparecia era na terceira pessoa que me
pareceu melhor abordá-lo assim do que de uma maneira mais
direta em um momento de pânico. Foi esse o motivo. Quanto
à questão da borda, sim, antes eu tinha a idéia da extração do
objeto, porém essa criança segue sendo psicótica e parece-me
que do que se trata é de apoiar essa questão da borda, e que
cada volta desses circuitos ou ciclos ajuda na consolidação
dessa pseudoborda, que adernais ele situa quando diz: "Há
uma bandeira vermelha que separa a areia da praia e o mar".
Então, ele vai balizando essa borda, constrói com circtÚtos,
mas também vai encontrando o farol ou outros objetos.

Pie"e-Gilles Guéguen: Outra coisa que esse caso nos


ensina são os tipos de fenômenos que podem ocorrer quando
se desencadeia uma psicose, porque essa construção é tão ló-
gica que nos ensina as etapas que podem sobrevir quando o
nó se desfaz. Para mim foi muito chamativa e muito interes-
sante a idéia de pôr em série os ruídos com o conceito da voz
do exterior que vemos interiorizar-se progressivamente. Tinha
a idéia de que, em comparação com outros métodos, como as
terapias cognitivo-comportamentais, isso pode funcionar
porque há a presença corporal do analista e, apoiando-se nessa

122
Efei t os t e ra pêut icos r6p l dos em ps1canA l ise

presença corporal - que não poderia realizar~se pela Internet,


peJo programa que fosse - se produz a possibilidade de fazer
passar a série de ruídos a aJgo paradigmático também, e me
lembra muito a teoria da psicose generalizada, que dá muito o
que pensar na passagem de uma série a uma topologia.

Tradução: Marise Pinto


Revisão da tradução: Cristina Drununond

123
6.Alonso

O cavaleiro errante da armadura enferrujada

AmaJtda Goya

"O cavaleiro andante da armadura enferrujada" é uma


figura de ficção com a qual um sujeito, um homem de 32 anos,
designa o que chama de "o mito de si próprio". Pelas ressonâncias
quixotescas, o chamarei Alonso. Veio·me ver faz um ano e meio
porque padecia de "ciúme patológico". Esse sintoma já tinha
produzido o fim de um namoro, motivo pelo qual temia se repe-
tisse com a atual namorada, fato que aconteceu meses depois.
Esse homem, de inteligência aguda, estudou crimi-
nologia e é investigador particular.
Tal eleição profissional vai junto com urila especial
relação com a verdade que o distingue. A imagem de si
próprio que oferece aos outros e na qual não acredita total-
mente é a de um homem enérgico, valente, bom, gentil, ·capaz
de cortejar uma mulher até nos mais refinados detalhes, ainda
que, no foro íntimo, ele saiba que é egoísta e que busca con-
quistar os outros para afirmar seu ego. No fundo, se sente vul-
nerável e muito dependente do juízo que os outros possam
formar sobre sua pessoa.
Quando experimenta o "ciúme patológico", este
adquire um tom delirante. Então, ainda que não deixe de

125
Conversaça o cltnica com Ja cques-Alain Miller em Barce lo na

reconhecer o que há de "deformação profissional" nisso, se


d edica a inspecionar meticulosamente os objetos da namora-
da: bolsa, roupas e gavetas, na busca de algum signo que con-
firme suas suspeitas. Nessa pesquisa, procura provas que
delatem a presença de um gozo e não se conforma em acre-
ditar que a relação sexual possa existir com outro que não ele.
Há também a suposição de que esse gozo desconhecido deixa
marcas, que persegue obsessivamente.
Natural de um povoado de Castilla, é o segundo de
quatro irmãos- dois homens mais velhos e du.as mulheres
menores. Ele tem o nome do padrinho, irmão gêmeo do pai.
Seu pai morreu em um acidente de trânsito, quando Alonso
tinha 16 anos. Esse homem, que era docente e participava de
diversas ONGS, possuía uma grande vocação social, mas se
mostrava autoritário e controlador no seio da família, hos-
tilizando sua mulher com seu ciúme. Alonso diz que começou
a conhecer a sua mãe, que era enfermeira, depois da morte de
seu pai, pois antes ela ficava eclipsada pela dominante figura
paterna.
A pergunta sobre quando foi a primeira vez que se
lembra de ter experimentado ciúme, relata uma cena aconteci-
da aos oito anos. E nquanto sua mãe estava no hospital,
cuidando de uma de suas irmãs pequenas, que tinha sido ope-
rada., na casa familiar, uma empregada realizava tarefas domés-
ticas. Em uma ocasião, acreditou escutar uma luta no cômodo
ao lado, onde seu pai beijava a empregada. Sua intenção ime-
diata foi contar à sua mãe, mas seu irmão mais velho o con-
venceu do contrário. Sempre guardou esse segredo com ran-
cor pelo seu pai, manifestando uma clara identificação com a
mãe traída.
Acredita não ter experimentado ciúme dos seus
irmãos porque era o fllhc:> preferido do pai. A novela familiar
diz que Alonso era o preferido do seu pai por se parecer com
o pai de seu próprio pai, vale dizer, seu avô paterno. A figura
Efeitos tera péutlc~ s rápidos em psicanálise

do avô brilha com luz própria na constelação de seus prede-


cessores familiares. Seu avô era ftl.ho ilegítimo de um homem
mtÚto poderoso e uma empregada. Diante de uma escansão
feita por mim: seu avô também com uma empregada...?
Percebe a repetição e diz: "É a primeira vez que percebo essa
coincidência". Quando tinha 17 anos, seu pai, no leito de
morte, manda chamar seu avô para reconhecê-lo antes de
morrer, mas este se negou a comparecer. Era muito traba-
lhador e boêmio, escrevia poemas. A situação de ilegítimo, de
bastardo, fez com que o avô levasse o sobrenome da mãe, a
empregada. E que sua descendência levasse também apenas o
mesmo sobrenome materno.
A ex-namorada acusava Alonso de ser misógino, e
ele, por sua vez, reconhece padecer de wna grande contra-
dição, porque quer saber tudo sobre sua mulher e que ela lhe
seja inteiramente submissa, mas, ao mesmo tempo, gosta de
mulheres de caráter e que se façam respeitar. Não suporta
nenhuma desidealização de uma mulher. Caso aconteça algu-
ma, sente desejos de vingar-se e de mudar qe mulher. Julga
que as mulheres são mais fortes que os homens, mais flexíveis,
e considera que os homens são mais rígidos, por isso, se que-
bram com mais facilidade. Reconhece também ter uma idéia
muito tradicional da família: ••todos juntinhos, sem brigas,
família numerosa".
Mas quem lhe deixou uma marca indelével, aos 18
anos, foi sua primeira namorada, com quem experimentou
pela primeira vez o "ciúme patológico", porque ela não era
virgem, e ele sim. Alonso não podia admitir essa assimetria:
que ela tivesse dado a outro o que deveria ser só para ele. Isso
despertava nele um sentimento exacerbado de injustiça.
Na sexta entrevista, surge um material que raramente
se apresenta tão precocemente em um tratamento e que nos
interroga sobre o estatuto do recalque neste caso. Isso é
acompanhado de um sentimento de pudor por "ter que falar

127
Conv urs aç ao c11nica com J acque5- Ala in Mil l e r em Barc e lona

disso a uma mulher''. É uma fantasia sexual que se instalou no


seu teatro particular desde que teve a primeira namorada, uma
fantasia onanista, mas que do mesmo modo pode aparecer
quando faz amor com uma mulher a quem se sente escravizado
por não poder prescindir dela para obter algum gozo fálico.
D iante da confissão de sua dificuldade em falar
disso, lembro-lhe de que estamos em um espaço terapêutico,
o que o tranqüiliza imediatamente e lhe permite começar o
relato. Recebo, de ·minha parte, a confissão do pudor como
indício de que· algo deve ficar velado na transferência e, na
sessão seguinte, proponho-lhe que se dirija ao divã, o que é
aceito com docilidade.
Alonso inicia seu relato, afirmando a convicção de
que, no dia em que conseguir decifrar o que significa essa fan-
tasia, terá dado um grande passo. Trata-se de uma cena na qual
sua namorada se exibe quase nua para outro homem, mais
velho que ele, e acaba fazendo amor com esse homem, tudo
isso ante seu olhar, que parece dirigir a cena. A personagem
femin.irul da fantasia costumava ser sua primeira namorada.
Essa cena sexual ocorreu de fato entre aquela namorada e um
dos seus melhores amigos daquela época, ainda que não te-
nham chegado a consumar uma relação sexual.
"Eu sou o diretor da cena, ela se exibe e alguém
olha". É uma cena que adquire um estatuto de imagem
indelével, dando consistência ao cenário fantasístico sobre o
qual o sujeito sustenta seu desejo sexual por uma mulher,
desde uma posição de vqymr.
Essa cena o remete à infância, quando escutava os
pais fazendo amor no quarto ao lado do seu. "Nunca imaginei
que isso pudesse ter tanta influência sobre mim. Isso deve ser
o complexo de Édipo!,, exclama, surpreso. Quando, pouco
tempo depois da cena entre seu amigo e sua ex-namorada, se
separa dela, começa para ele um período de sua vida m arcado
pela aparição de inibições e rituais expiatórios. Foi uma época

128
Efeitos terapêuti cos rápidos em p s ican~ l íse

na qual quis se tornar responsáve~ deixar de ser vagabundo e


integrante de um conjunto musical para dedicar-se aos e(itu-
dos e ao trabalho. "Depois da morte de m eu pai, tive que me
tornar responsável", afirma. ·
D e sua mãe diz, com ênfase, em uma linguagem um
tanto obscena, que contrasta com sua forma habitual de falar:
"Desde que meu pai morreu, ela enterrou a buccta".
De sua família diz que é muito tradicional:

as mulheres em casa, mas, logo, logo, aquilo vira


um matriarcado. Eu parecia o mais independente
dos irmãos, m as, apesar de tudo, sou aquele que
mais ficou do lado do meu pai, o mais pareddo
com ele. Meu avô materno tinha um amigo aa poli-
cia que investigava as impressões digitaís; as mi-
nhas e a dos meus paili eram quase iguais. Quando
aprontava com os irmãos, meu pai sempre me
chamava primeiro e batia antes de pel'!,'lllltar qual-
quer coisa. Eu gostava dele, queria ser como ele,
mas também o odiava. Ele dizia: "Te vejo como me
vi, me vês como te verás".

Essa última frase é repetida com freqüência, o que


sirua a relação pai-filho no registro puramente imaginário.
Relata um sonho com o pai:

Ele vinha em um carro. Outra pessoa dirigia, ele no


banco de atrás, vestido impecavelmente, parecia
um diplomata. Tinha a mesma idade de quando o
conheci, uns 35 anos. O clima do sonho era de
mafiosos, como no Podero1o Chefão. Ele era o
"Don" da máfia, e o recebíamos muito sérios.
Entrava em casa e tirava uns papéis pequenos onde
dizia o que tinha feito de errado conosco. Ao lê-los,
se emocionava.

129
Conversaçao clf nica com Ja cq ues-Alain Mi ller em Ba rcel ona

O sentimento que teve pelo seu pai quando acordou


era de que ele não tinha culpa pelo que havia feito de errado
com os filhos, que era um produto da época, de uma menta-
lidade, inclusive de uma maneira de ver a si próprio. Era o
mais temperamental de uma família muito teimosa.

Todos os que levam esse sobrenome são muito


cabeça dura. Meu pai era muito aborrecido e vio-
lento, mas logo se arrependia. Eu engoli todas as
raivas porque lhe lembrava tudo o que não podia
agüentar de si mesmo. Via-me igual a ele, por isso
não me suportava. Vejo uma identificação quase
total com meu pai; éramos muito parecidos, com a
ressalva de que ele não conheceu a psicanálise.

Confessa experimentar com a namorada uma


enorme ambivalência; diz que a ama muito, mas, ao mesmo
tempo, por momentos, a enxerga "suja", porque esteve com
outros homens. Inquieta-se pelo desejo de maternidade que
ela manifesta. A namorada lhe faz lembrar muito a irmã que
vem depois dele: "não são mulheres de casa". Lembra que
gostava de exibir-se diante da irmã. Aos 13 anos, saía do ba-
nheiro com o roupão entreaberto.
Apesar de todas as dificuldades que encontra nos
namoros, Alonso gostaria de ser tudo para sua namorada e
que ela fosse tudo para ele. "Toda para você... ? Isso é possí-
vel?", perguntei. Ao que ele responde: "Isso é impossível, e,
além disso, não seria bom".
O efeito dessa interpretação não se fez esperar; pre-
cipitou uma decisão que vinha há tempos cogitando: a sepa-
ração de sua namorada, coisa que lhe proporcionou um enorme
alívio. Agora que se interessa pela série das mulheres e não
busca uma parceira com a qual formar uma família, o ciúme
praticamente desapareceu, ainda que continue refletindo
sobre ele. A queda de sua aspiração ao todo da mulher, germe e

130
Efe 1t os te rapê ut i cos r~p l dos em ps ica ná l ise

levedo de seus ciúmes patológicos, foi o maior efeito terapêu-


tico conquistado até o presente no tratamento desse sujeito.
Agora não vê claro seu projeto de formar uma
família porque isso suporia que tivesse que deixar um legado
e não acredita estar em condições de ser pai e legar algo, ainda
que saiba que desse modo frustra sua mãe, cujo desejo é que
seus frlhos formem uma faou1ia.
A suspeita sobre sua possível homossexualidade às
vezes ronda sua cabeça. Relata ter visto um fllm e, Uma terapia
perigosa, em que o mafioso diz a seu psicanalista que o mataria
se descobrisse que é homossexual. Pergunta-se se não terá
algum interesse pelo homem da sua fantasia, ou se, pelo fato
de ter sofrido tanto porque ela teve outras relações, agora se
compensa dessa exclusão com essa fantasia em que ele se
coloca como diretor da cena.
Aos 14 anos, lembra-se de ter tido um sonho homosse-
xual com um amigo, sonho que deixou certo rastro de inquietude,
ainda que não possa lembrar bem Somente sabe que acontecia
no quarto do seu amigo, um lugar em que ambos olhavam da
janela umas moças que nadavam na piscina de um vizinho.
Também se lembra de ter sonhado, em muitas ocasiões, que tinha
uma cobra ou um rato na cama e que logo se jogava no vazio.
A fantasia sexual como o avesso do ciúme foi a inter-
pretação que marcou esse período da análise, com o conse-
qüente deslocamento do sintoma. O sintoma se desloca do
ciúme à fantasia sexual, ou ·seja, se produz certa s intomatiza~
ção da fantasia, ao mesmo tempo em que se consolida sua
preferência pela série das mulheres. Nesse período, mantém
relações sem compromisso, substituindo, sem muito conffiro,
uma mulher por outra, ainda que evoque saudades da figura da
mulher-toda, aquela que seria sua parceira, se existisse.
Outra fantasia emerge nesse momento e responde à
estrutura do harém. Encontra uma fotografia dobrável na
revista ltJterviil, na qual aparecem 19 moças muito bonitas e

131
Conver saçao cll ni ca com J acqu es-Al aln Ml ller em Ba r ce lona

com pouca roupa. Pega a foto e, a cada moça, designa um


papel na sua história sentimental. Uma será sua mulher, outra
sua amante fixa, outras amantes esporádicas e antigas
namoradas, algumas velhas colegas de trabalho. Também há
duas empregadas que trabalharam na casa paterna, a mulhe_y
de um amigo, uma filha do amigo, etc. "Foi como construir
uma galeria de mulheres, do passado e também do futuro. Das
19 mulheres, descartei só duas, não me atraíram porque ti-
nham fdções duras. Aqui se vê minha infidelidade que eu
atrjbuo à outra pessoa".
Há, nessas palavras, uma interpretação sobre o sentido
do ciúme que nos recorda o segundo dos casos apresentados
por Freud no seu artigo de 1922, "Alguns mecanismos neuróti-
cos no ciúme, na paranóia, e na homossexualidade". Ai se lê:

O ciúme de segundo grau, o ciúme projetado,


nasce, tanto no homem como na mulher, das
próprias infidelidades do sujeito e do impulso a
cometê-las, relegadas pelo recalcamento ao incons-
ciente. [...] O ciúme que surge por tal projeção tem,
certamente, um caráter quase delirante, mas não
resiste ao trabalho analítico, que descobre nas fan-
tasias inconscientes subjacentes um conteúdo que
é a própria infidelidade.'

Mais além dessa projeção, contudo, sabe-se que o


ciúme do infiel é, em essência, uma interrogação sobre o dese-
jo do Outro. Há uma dimensão do ciúme que escapa a uma
projeção simétrica. "O que ela quer?" é a pergunta fundamen-
tal, e a incerteza sobre a resposta alimenta as suposições e os
tormentos do ciumento.

' FREUD, Sigrnund, Alguns mecanismos neuróticos no ciúme, na paranóia


c: no homossexualismo (1922). Rio de Janeiro: !mago, 1973. p272 (Edição
Standard Brasileira das obras completas de Sigmund Freud, 18).

132
Efeitos terap ~u tlc os 1"6pi dos em psican6 1 is e

Há, nesse momento, uma subjetivação do caráter


projetivo do ciúme de Alonso, enquanto parece afastar-se cada
vez mais do antigo propósito de ter uma parceira estável, fun-
dar uma família, etc. Mas essa subjetivação vai junto com o
aparecimento de pensamentos sobre sua própria morte, que
lhe produzem vertigem. A partir de um sonho em que ele se
identifica com James Stewart na personagem do filme
Vertigem, reflete sobre o fato de que a sensação de vertigem
tem a ver com o tipo de vida que leva agora. Tem a impressão
de que, se morresse agora, sua vida teria sido em vão, hedo-
nista, porque, se não cria alguma coisa, não forma uma família
e não deixa um legado.

Se não se produz nada, a vida perde o sentido, o


tempo parece acelerar cada vez mais, C<>mo um
redemoinho que nos aproxíma da morte. O proje-
to de ter uma família vejo cada vez mais impossí-
vel; agora penso que é melhor não fundar uma
familia do que insistir em fazê-lo, como fiz com
minhas namoradas. Ontem pensava que diria a
minha mãe que nunca vou me casa.

Transcreverei um sonho recente que o impressionou


pelo clima de dese;o que sintetiza. O paciente o qualifica
como "O sonho", porque "está tudo aí'".

Estou com uma moça fazendo amor e logo ela rem


que ir trabalhar em um restaurante-discoteca.
Vamos juntos, ela serve umas bebidas. Tenho uma
sensação agradável, uma grande placidez por escar
ali depois de ter feito amor com ela. Tinha dois
andares, um do restaurante e outro da discoteca.
Eu a via passar trabalhando enquanto bebia muito
tranqüilo na discoteca. Falava com muitas moças, e
inclusive fazia amor com uma delas. Tudo aí muito
bem, estava na minha praia, falando com todo

133
Conversaçao c l l nl ca com J acques- Ala in Mille r em Barce lona

mund•>· De repente quero sair e não lembro onde


deixei o carro. Busco o carro e vejo um grupo de
rapazes que estão batendo em outros dois rapazes
jogados no chão. Aproximo-me, intervenho e
impeço a surra. Logo os dois rapazes que s~ei me
convidam a beber oum bar gay. Os tipos eram
muito simpáticos e eu me sentia à vontade ali, sem
preconceitos contra eles, ainda que alguns me
olhassem se insinuando. Começo a passar mal e
quero sair daJi como aconteceu no outro lugar. Saio
e continuo procurando meu carro. De repente,
vejo um homem mais velho com aparência hindu,
se parece com Gandhi, usa uma bombacha. Nesse
momento, me diz que vai morrer, tira as calças e
me mostra suas partes íntimas, vejo que não tem
testículos e que, no lugar deles, há uma cicatriz.
Assinalando a cicatriz, cliz: Vou morrer por isso.
Vou embora dali e nesse momento acordo.

Ao acordar, em estado de sonolência, sonhou que


fazia amor, primeiro com a prima de sua primeira namorada,
a da fantasia, e logo com a ex-namorada de um amigo.
Nas associações do sonho, aparecem de novo ele-
mentos do chamado mito de si próprio. Sua aparência seduto-
ra, sua maneira de triunfar sobre as mulheres bonitas, sua
intervenção bem sucedida na briga de rua, em que salva da
surra os dois moços. Seu relativo bem-estar com os gays, con-
tra os quais diz não ter preconceitos, ainda que não se sinta
um deles. Isso finalmente o leva a pensar que suas dúvidas
sobre sua possível homossexualidade não têm fundamento.
Há um único fragmento do sonho que não produz
associações, aquele da figura paterna simbolizada pela perso-
nagem de Gandhi, passagem na qual se destaca a cicatriz no
lugar dos testículos ausentes.
Diz com o intuito de concluir:

134
Ef e itos tera pêut icos rá pi dos em psi caná lise

Meu mito é igual ao meu sonho. Ao final estou com


duas mulheres que não me pertencem e esse não é um
desejo admissível Meu sintoma do ciúme vem desse
desejo inadmissível que não é bem canalizado. Temia
que o que o sentido dessa fantasia sobre minha par-
cei..ta a quem vejo gozar com outro homem fosse
wn desejo homossexual; agom sei que projeto algo
inacl.missfvel; a infidelidade. Eu sou o infiel, desejo as
mulheres proibidas. Mas deposito essa infidelidade
na minha parceira; como esse desejo me parece
inadmissivel, o atribuo a ela. é ela que faz o ioacl.mis-
sivel. Definitivamente, o ciúme é a expressão de meu
desejo de estar com muitas muJheres.

A idéia de sair rapidamente dos bares, que aparece


duas vezes no sonho, associa com o que lhe acontece na vida
real Muitas vezes, sai rapidamente dos bares para não cair na
tentação, porque "nos bares se produzem os jogos de olhares,
e também o ciúme".
Intervenho nesse momento para lhe dizer: «Você inter-
pretou sua fantasia a partir desse sonho. É uma projeção sobre
sua parceira dos desejos que você considera inaceitáveis".
Ele responde: "É que entra em contradição com o
cavaleiro errante da armadura enferrujada. Que devo fazer? Dou
corda a esses desejos? Como posso viver com esses desejos?
Respondo "Como aceitá-los?"
Conta então duas situações que viveu essa semana
com duas moças das quais gostou e com as quais fantasiou um
encontro sexual: uma arrumadeira e uma funcionária de um
h otel. Interrompo a sessão, dizendo: "Um cavaleiro errante...
um pouco Dom Juan ...".
É um momento, na análise, de subjetivação da signi-
ficação inconsciente do ciúme. Na sessão seguinte, declara:

O sonho serviu pata reco nhecer cenas coisas que


não reconhecia. Não chegava a compreender a força

135
Conver sa ç ao c l tnica com Ja cqu es - Ala i n Mi l l er e m Barcelona

desse instinto. Até agora tinha centrad•) tudo, na mi-


nha história, na minha infância, e, de repente, explo-
diu algo (\UC me obriga a reconhecer a importância
desse instinto. No sonho, estou em completa liber-
dade para estar com quem queira. Isso resolve o que
significa a fantasia; a projeção desse d~jo de infide-
lidade na pessoa amada. Que fazer com esses desejos
quando foram reconhecidos? Eu falo em canalizar e
você me falava em aceitar na sessão passada. Terei que
canalizar esses desejos de forma aceitável?

Interrompo a sessão.
Na sessão seguinte, traz outro sonho, dessa vez muito
breve: "Sonhei que minha mãe tinha um namorado e eu sentia
ciúme". Acha muito óbvio que sua mãe arranje um namorado
e ele sinta ciúme. Respondo que não é tão óbvio que a mãe
arrume um namorado. Admite a seguir que gostaria que a mãe
encontrasse um namorado, " um homem bom, um cavalheiro,
não como seu pai. Assim ela poderá deixar de ser a referência
comum de meus irmãos, a que carrega todos". Nesse ponto de
sua análise, vê-se confrontado com a castração materna.
A pergunta que se depreeode do caso é sobre a
estrutura clínica desse sujeito. Neurose? Psicose ordinária?
Como ler a cicatriz que porta a figura paterna do sonho no
lugar dos testículos que faltam? Trata-se da cicatriz da cas-
tração, ou teríamos que localizar ai a foraclusão do falo?
Conclusão: o efeito terapêutico mais notável, nesse
caso, foi a queda do mandato materno de constituir uma
família, mandato ligado à figura da mulher-toda. Na medida
em que se esvanece a aspiração de fazer-um com a parceira, e
com a família, sobreveio um grande alívio, com a conseqüente
demonstração do saber em torno da legitimidade de seu
desejo sexual pelas mulheres.

Tradução: Silvia Emitia Espósíto e Maria Cristina Vignoli


Revisão da tradução: Sérgio de Castro

136
Efeit os ter apêuti cos rá pi dos em psicanál i se

Conversação
O homem psícótico

Horácio Casté: Passemos ao último caso, de Amanda


Goya, "O cavaleiro errante da armadura enferrujada". O sin-
toma que leva esse homem à consulta é o do ciúme patológi-
co, denominação que ele mesmo dá. N o entanto, ele se
nomeia dessa maneira com uma evocação, que eu creio ter seu
fundamento na impotência, que é algo que não surge no
desenvolvimento do caso. Contudo, sob o semblante de
impotência com o qual se apresenta, nas primeiras diretrizes,
diz que sabe que é egoísta e que o que busca é conquistar os
outros para afirmar o seu ego. Parece-me que isso é bastante
determinante na orientação do caso. Também vou ressaltar
algo que me chamou a atenção: há, neste caso, uma prolife-
ração do imaginário muito notável e que domina, pratica-
mente, toda a direção do tratamento, com a emergência de
certas pistas que ficam veladas por essa proliferação. Uma das
pistas é a frase que poderia ser, talvez, a da fantasia fundamen-
tal: que ele se vê como "o diretor da cena, ela se exibe e
alguém olha". Mais uma vez, as associações que essa frase
provoca vão na direção do imaginário, porém, a estrutura que
essa frase revela me dá a impressão que cai no decorrer do
tratamento. O mesmo ocorre neste comentário, a propósito
do ciúme, em que há duas vertentes: "Os ciúmes do infiel -
diz Amanda Goya- são em essência uma interrogação sobre
o desejo do Outro". No entanto, a vertente que se desenvolve
não é tanto a pergunta pelo desejo do Outro, mas a pergunta
pelo desejo do indivíduo, do sujeito em análise, um desejo
recalcado e projetado sobre a parceira. É sobre isso que vai se
centrar a segunda parte, o segundo ciclo da análise. Eu pensei,
quando o lia, que havia uma possível finalização de um ciclo
quando ele se separa da namorada. O tratamento aí poderia
ter sido interrompido; desaparece o sintoma do ciúme e ele

137
Conv ersaç ao cl fnica com Jacques-Alain Mil ler em Barcelona

resolve um problema. Entretanto, retoma sua interrogação.


Finalmente, Amanda Goya se pergunta pela estrutura clínica
desse sujeito, que é uma pergunta que fica em aberto e que
talvez possamos discutir ou esclarecer agora.

A mando Gf!Ya: Estou de acordo com você, sobretudo


em relação ao fato de que há uma proliferação imaginária no
paciente, que, de alguma maneira, gira em torno de uma
CJUestão egóica. Pergunta-se, muitas vezes, o qne é ser wna
pessoa: Ser como se é é ser como se CJUer ser? É ser como os
outros lhe vêem? Há toda uma interrogação de como ele fica
colocado em seu semblante egóico com relação aos demais.
Inclusive, em um dado momento, fala de seu narcisismo -
porque, em sua relação com a psicanálise, tem feito algumas
leituras; diz CJUe está. doente de narcisismo. Isso por um lado.
Em relação ao conteúdo daquela frase que você resga-
ta: uma mulher se exibe e ele é o diretor da cena, efetivamente, é
um enunciado-chave da fantasia que focaliza um modo de go7..o
sexual, que eu diria: é condição absoluta para ele até o ponto em
que diz, em um dado momento, que, em realidade, não pode
estar com as mulheres, que se sente impotente porque tem sem-
pre essa fantasia. É consciente de que a fantasia é como uma
tela imaginária necessária para ter acesso a uma mulher, e tem
uma fixação tal que, apesar de ter encontrado uma decifração
para essa fantasia, ela segue tendo a mesma potência e segue
cumprindo o requisito de ser condição .absoluta de gozo.
Outro ponto que você assinala é o do ciúme, sin-
toma que o leva à análise e que desaparece rapidamente a par-
tir, digamos> de uma interpretação. O certo é que descobriu,
poderíamos dizer, o mecanismo da projeção, e é como se esse
mecanismo lhe ilwninasse e fosse uma chave de leitura para
entender todas as coisas que lhe acontecem. Quer dizer que
entende que seus ciúmes são a projeção de seus desejos de
infidelidade. Porém, logo aplica esse mecanismo da projeção

138
Efeitos t e r apê uti cos r ápidos em psican~l ise

para ler outros tipos de fenômenos. Por exemplo, tem wn


chefe que lhe faz muito mal porque é autoritário e egocêQtri-
co, e ele diz: "provavelmente me produz tanto incômodo
porque lembra a mim mesmo, porque reflete algo de como eu
sou". Logo aparece a questão de que, mais além da projeção
imaginária, peq,runta pelo desejo do Outro, ponto fonte de
angústia ao qual não consegue conferir sentido. Você anota,
também, que poderíamos situar um primeiro ciclo, quando se
separa da namorada e cessa o sintoma do ciúme. É ai onde eu
assinalo que há urna sintomatização da fantasia, porque ela,
que sempre o acompanhou, passa a ser uma espécie de acom-
panhante incômodo, fazendo com que ele comece a sentir que
está encarcerado na fantasia. Começa a falar dessa fantasia que
é para ele quase como wn cárcere do qual não pode se livrar.
Depois, você aponta a estrutura clínica que, eviden-
temente, não está demarcada no eixo desta Conversação -
sobre os efeitos terapêuticos rápidos - mas sim, é uma per-
gunta que, para mim, se desprende do caso, e é uma pergunta
que acho que podemos nos fazer claramente, nesta época na
qual a clínica mudou para nós, a partir do último Lacan.
Acredito que, há alguns anos, esse caso não me haveria colo-
cado tal pergunta, porque creio que, fenomenologicamente,
não há nenhum indício de psicose. Temos que olhar com uma
lupa, com um critério muito sutil para poder colocar essa
questão. Nesse sentido, creio que o livro La psicofi.s ordinaria
aporta muitos elementos para se pensar esses casos raros. Há
um termo utilizado, nesse texto, "desmga11che de Outro", que me
parece que poderia aplicar-se a esse sujeito, porque creio que
el~, quando se separa de sua parceira feminina, se desengan-
cha do Outro, se recolhe, deixa sua vida social, de que, por
outro lado, ele gosta muito, e converte toda essa sociabilidade
em uma espécie de "autismo", no qual empreende projetos
solitários. O momento atual do tratamento é caracterizado por
isso. É um início de resposta à sua pontuação.

139
Conv er saçao c 11nic o com J acques- Alain Mi ll er em Barcel ona

Pie"e-Gilles GuégHen: Enquanto o outro caso tinha


para mim ressonâncias do caso do Pequeno Hans, este teria
ressonâncias do caso do Homem dos Lobos, que também foi
um inclassificável para Freud, que nunca conseguiu ter a
certeza da cena primária. Tudo indica, também, que, para o
dito sujeito, essa fantasia estava constnúda sobre a cena
primária de penetrar a mulher por trás, cena que era central
em sua problemática. Esse caso tem algo assim. O trauma
aparece, também, quando está confrontado à cena primária.
De um lado, no uso que faz da fantasia para encontrar mu-
lheres, surgem duas coisas desse trauma: primeiro, o três da
cena, ele olhando a cena entre dois; e, por outro lado, o Outro
traidor, a perda de confiança no Outro traidor. Não sei como
se pode interpretar. Pode-se interpretar o pai, que está traindo
a mãe, porém não sei se ele se fixa à mãe nesse lugar ou se
encontra um Outro mau, wna perda de confiança no Outro,
que seria como um momento de deixar cair. Percebe, quando
se aproxima de uma mulher, que tem, por um lado, uma defe-
sa na fantasia e, por outro, encontra um Outro traidor que está
presente e que é perseguidor.

Amanda Goya: Na cena infantil, o Outro traidor é o


pai, e ele se identifica com a mãe traída, porém, na relação
com a parceira feminina, a traidora é a mulher. A perseguição
que se desencadeia nos momentos cruciais do ciúme vem
dela. Ele revista todos os objetos femininos: a bolsa, as chaves,
a gaveta, etc., todos os objetos que ela tem de uso cotidiano,
na busca do signo, do fio de cabelo, que possa dar a prova de
que tenha havido uma infidelidade. Quer dizer que aí essa
posição é importante.

Pi~e~Gilks GuégHen: O que me parece fantástico, de


que gostei muito no caso, é a resolução que o sujeito encon-
trou com essa expressão: ''Eu sou o infiel". Faz-me lembrar

140
Efei tos ter apêuticos rap1 dos em p sic an~líse

de outros casos que vi e me parece que, para ele, é um ponto


de basta, mas é preciso saber se é um ponto de basta mais
egóico, quer dizer, que é imaginário, mas também simbólico,
ou se... bom, é preciso qualificá-lo. Para mim, é uma dificul-
dade qualificar bem como funciona esse ponto de basta, ao
colocar-se na posição do infiel que é exatamente a posição do
pai, e me pergunto se isso não lhe serve de Nome-do-Pai para
sustentar-se na vida.

A f!landa Gf!Ya: Está bem, serve-lhe de Nome-do-


Pai ... está muito apropriada essa precisão que você faz. Não o
havia pensado.

E.rtela Pa.rkvan: O suJeito vai à consulta por esse


ciúme que chama de patológico. Pareceria, inclusive foi men-
cionado pdo próprio paciente, que tem algumas leituras psi-
canalíticas, pelos termos que utiliza como '(ciúmes proje-
tivos", aludindo ao texto de Freud; e esse caso apareceria
como freudiano. Mas, tal como está apresentado, como o
sujeito realmente o apresenta, pelos avatares de sua vida,
parece-me totalmente lacaníano, no sentido de que sempre
que Lacan falou do ciúme fez referência à observação de
Santo Agostinho; em todo seu ensino, quase desde o itúcio até
o final. N esse caso, o que verdadeiramente chama a atenção é
que esse sujeito tem dois pais: seu próprio pa! ~ "eu tio, que é
seu padrinho. Além disso, os dois pais são gêmeos. E mais, o
sujeito leva o nome do tio, o nome e o sobrenome do tio.
Portanto, está em uma situação gemelar com relação ao pai, e
o pai o diz perfeitamente nesta frase: "Te vejo como tenho me
visto. Me vês como te verás". Na seqüência, diz que um amigo
do avô é investigador ou é próximo da policia, é especialista
em impressões digitais e lhe diz que ele tem quase as mesmas
impressões digitais do pai. Ele, também, se faz investigador, e
vai procurar as marcas. Parece-me totalmente lacaníano no

14 1
Conve rsa çao clfnlc ~ com J acques- Ala ln Mi l l e r em Barce lona

sentido de que essa cena a três da fantasia - ele, o outro e a


mãe - é tal qual o mesmo "três" da observação de Santo
Agostinho. Por outro Lado, sobre a função do olhar, no Mais
ainda, Lacan fala do jalolfissanu, do ódio ciumento, em que esse
três está reduzido ao Um e ao objeto, que é o qlhar. Nesse
sentido, parece-me excelente.

Amanda Goya: Agradeço por essa pontuação porque


você tomou em filigrana elementos que fazem aumentar a
possibilidade de que seja uma p sicose, quer dizer, a relação
com o pai é uma relação que parece se jogar, puramente, no
registro do imaginário. Essa relação gemelar que aparece na
fantasia também se joga, fundamentalmente, no registro ima-
ginário. Ou, pelo menos, se nos inclinarmos para essa idéia,
acredito que você tenha dado argumentos para isso.

E nric Be,.enguer. A partir do que falávamos ontem,


pergunto-me como podemos pensar os diferentes tipos de
efeitos terapêuticos. Por exemplo, ontem se falou dos efeitos
da passagem de uma identificação à outra. Quer dizer que o s
ciclos dos quais falamos ontem se definem por modjficações
que podemos loca]jzar. N esse caso, perguntava-me por essa
mudança de posição que está resumida nesta fórmula: "Eu
sou o infiel". Parece-me muito interessante porque, como
destaca Pierre-Gilles Guéguen, aí está uma identificação que
não é uma identificação qualquer. Por um lado, supostamente,
você destacou que aponta ao pai, mas também, é uma identi-
ficação que aponta para o gozo do sujeito. Parece-me que tem,
também, o efeito de retificação subjetiva, na medida em que
aparenta assumir um gozo, o gozo da infidelidade, gozar de
ser infiel, que atribui a esse outro feminino.
Acredito que isso é bastante importante porque,
muitas vezes, vemos que no sujeito psicótico há uma dificul-
dade para assumir algo de seu gozo. Pergunto-me até que

142
Efe i t os te rapêut icos r&p i dos em psi cand tis e

ponto podemos pensar em efeitos terapêuticos, rápidos ou


não, porque, às vezes, se dão também em tratamentos longos,
em um sujeho psicótico, quando conseguimos que haja certa
assunção de uma identificação na qual se assume algo do gozo
do sujeito. Por exemplo, no caso Schreber, há um tipo de
assunção, que é de muito mais longo alcance, pela qual ele
chegaria a assumir algo desse gozo que se apresentou na fan-
tasia: "Que maravilhoso seria ser uma mulher...". Aqui apare-
ceria como algo muito mais rápido e acredito que é uma indi-
cação sobre como conseguir esse tipo de efeito, como con-
seguir que o sujeito possa, de certo modo, encontrar um nome
para algo de seu próprio gozo, renunciando, em certa medida,
a essa localização mais persecutória no Outro.

Vicente PaloiiJera: Gostaria de trazer algo mais sobre o


detalhe do diagnóstico. Amanda Goya se refere no caso "à
nostalgia da figura da mulher toda". Eu gostaria, em primeiro
lugar, de dizer algo em relação a isso e talvez, depois, a própria
Amanda Goya pudesse explicar um pouco mais. O acento
mais delirante no ciúme está sempre nesse "todos a desejam",
"todos a querem". É assim que o ciumento inventa A Mulher,
a que falta aos homens. Pois bem, vemos também nesse caso
uma forma de fazer existir A Mulher: acumulando provas,
fabricando signos que são as provas de sua convicção: todas
acusam seu par. É por isso que não vejo o Jade ~~lirante tanto
no preconceito ou na reivindicação, mas sim na interpretação
por meio da acumulação de provas. É um detetive em busca
de pistas, que procura nelas os signos que são provas para a
acusação do outro. No ciúme chamado "normal", o ciumen-
to buscaria mais propriamente a confissão. Nesse caso de
ciúme, a fabricação de provas é central. Atesta-se um efeito de
"empuxo à A Mulher". Isso não é contraditório com a ino-
vação introduzida pela psicanálise, ao assinalar que o objeto
do ciumento não é a mulher, mas o homem, o interesse é pelo

143
Conve r saç ao clf nica com Jacques-Alai n Hil l e r em Barcelona

rival. Quanto mais provas se acumulem, mais se prefigura A


Mulher que seria objeto de atenção de todos. E la é elevada a
um estatuto superlativo, e por trás dela está o rival. É aí pre-
cisamente o ponto a partir do qual esse sujeito pode dar a vira-
da da interpretação à perseguição.

Amanda Gf!Ja: Sim, concordo que se possa pensar


dessa maneira. Evidentemente, ele realiza uma perseguição à
mulher quando entra nessa fase. Uma fase que conclui com a
separação, porque tem algo que se torna absolutamente insu-
portável para ele. Essa perseguição o põe no abismo de uma
angústia à qual ele não sabe que destino dar, e a única medida
defensiva que encontra é separar-se da mulher. Porém, logo
começa outro ciclo: ele se separa, fica recluso, até que conhece
uma outra mulher; começa o período do cavalheiro, do amor
cortês, do cavaleiro andante; tudo é maravilhoso até que,
novamente, aparece um terceiro, e, mais uma vez, surgem os
signos que fazem, efetivamente, com que essa figura feminina
se torne uma figura absoluta, da qual só resta desprender-se.
De forma que, talvez afinando a leitura, se pudesse pensar em
uma versão de um empuxo à mulher que não alcança a sua cul-
minância, posto que ele encontra uma solução, que é o corte.

L1da D'Angelo: Um pouco na linha da intervenção


de Vicente Palomera, que me pareceu sumamente interes-
sante, acredito que, mais além da estrutura clínica, está o extra-
ordinário uso que esse homem faz de seu sintoma. Faz do sin-
toma uma profissão. Queria perguntar-lhe: ele é eficiente
como detetive particular?

Afltanda Gqya: Creio que sim, pelos poucos dados


que ele mesmo me fornece, é muito qualificado profissional-
mente. Agora mudou de trabalho e está se preparando para
um concurso público, para ser investigador de Alfândega. É

144
Efeitos terapêvticos rápidos em psicanálise

alguém que, pelo que conta, parece que tem seu lugar na
profissão. Efetivamente, temos que pensar que este seria o
grampo que impediria um desencadeamento clínico da psi-
cose: o ter conseguido fazer uma sublimação com seu traba-
lho através do qual ele está constantemente perseguindo
infiéis, porque 90% dos detetives particulares se dedicam a
investigar situações de infidelidade entre os casais. Para isso
eles são contratados. Acredito que seja um sintoma absoluta-
mente exitoso. Além disso, porta uma certeza desde pequeno
de que queria estudar criminologia e dedicar-se a isso. Não
tem nenhuma dúvida a esse respeito. Sua escolha foi muito
precoce.

Lucia D'Angéló: Séú n6.

Amanda Gqya: Seu nó. Por isso dizia seu grampo.

Miriam Chorne: Parece-me interessante assinalar que


ele retira da mesma cena duas vertentes. A vertente do pai que
deixa cair e que figura além de tudo em três gerações, porque
é o bisavô que deixa cair o avô, a quem não lhe dá seu nome,
e o pai que, por sua vez, deixa cair a seu filho. Ele diz, nas
palavras que você recolhe: "Ele me via igual a ele, por isso não
me suportava". Dessa mesma cena me parece que toma a
questão do ciúme, como também essa coisa quase delirante de
que tem as mesmas impressões digitais, para conseguir ter, jus-
tamente, um Nome-do-Pai E ele mesmo reconhece que não
pode ser pai porque não pode legar nada. Parece-me que está
posto esse sentimento de que não houve um legado nas três
gerações anteriores e que por isso ele também não pode se
posicionar como pai.

Amanda Gqya: Sim, estou basicamente de acordo


com o que você disse. Não sei se diria exatamente que seu pai

145
Con versa ç ao clini ca c om Ja cqve s-Ala in Miller em Barcelona

o deixa cair. Seu pai o toma como a/ter ego, mais do que o deixa
cair. Tem uma relação um tanto agressiva com ele, na medida
em que, segundo ele, o lembra permanentemente- ele lem-
bra o pai, e assim se parecem mutuamente.
Concordo que, quando ele diz "não posso me casar
porque ser pai é deixar um legado", é uma coisa que apresen-
ta com muita mortificação, porque, de alguma maneira, sente
que trai o desejo da mãe. A mãe deseja que todos os fllhos se
casem e constituam uma fanúlia, porém, desde que renunciou
a esse projeto de casar-se e ter filhos, que era um imperativo
materno, e aceitou que isso lhe acarreta um sofrimento que
não pode suportar, está muito mais tranqüilo. Quer dizer,
aceitou essa pseudocastração, ou seja, que isso não é para ele,
e que tão pouco é para ele ter uma parceira estável. De fato,
trouxe recentemente um sonho de uma garota que o aborda-
va e ele a rejeitava, e, nas associações do sonho, disse que não
se sentia em condições: "não sei se estarei em algum momen-
to em condições, porém, agora não estou em condições de
levar adiante este projeto". Há como um reconhecimento de
que ele tem um limite e de que isso traz conseqüências em sua
vida.

Sh11/a E/dar. Queria justamente referir-me a esse


sonho com Gandhi, que você relata, em que há uma marca
nos testículos. Achei interessante por.que não é que figure um
homem absolutamente desprovido de atributos, senão que a
marca está colocada na parte do sexo que remete à procriação.
Talvez, efetivamente, através do que se acaba de dizer, esse é
o ponto em que o sujeito assume algo desse impossível da
paternidade.
Por outro lado, em relação ao que dizia .Miriam
Chorne, é certo que você descreve muito bem toda a linha das
distintas gerações, que me parece serem quatro, se não me
enganei na conta, e me pareceu interessante porque não se

146
Efeitos t erapêu t icos ráp idos em ps i can álise

trata, simplesmente, de que um pai não transmitiu, como um


legado, o nome a um filho. É mais interessante ainda, porque
seu avô rejeitou a possibilidade de receber o nome, no
momento em que, seu próprio pai, na cena do leito de morte,
o chama para reconhecê-lo. Parece-me que é importante, no
caso, assinalar qual é o mecanismo que dá lugar à origem de
toda essa diretriz, que poderíamos descrever como uma
impossibilidade de aceder à paternidade. Porque, além disso,
essa possibilidade só se apresenta pelo lado do imperativo
materno, e creio que é por esse lado que lhe é insuportável.
Não sei se é tanto devido a que ele veja a mulher-toda- ele diz
"a quero toda para mim" - não é o mesmo que ver a mulher-
toda, a não ser por força desse imperativo materno quando; em
todo o caso, há uma debilidade do N ome-do-Pai. N ão sei se
já decidiria que é estrutural, porém há uma debilidade do
Nome-do-Pai; com a qual a figura materna se converte para
ele em algo verdadeiramente insuportável.

Miquel Bassols: Enquanto lia o caso, lembrava-me, no


background, do excelente ftlme de Luis Bufiuel, É/, que Lacan
indicava em seu seminário como uma referência fundamental.
É um ftlme clinicamente fundamental para acompanhar os
passos do que é uma paranóia e um delírio de ciúme crônico,
e se vê que ali há uma certeza delirante que atravessa toda a
aparente normalidade da vida do sujeito. Enquanto lia, pensa-
va que não encontramos no caso essa certeza delirante, que
aparece inclusive na cena final do ftlme, em que, depois de
muitos anos de uma suposta reintegração à normalidade,
segue presente a certeza delirante do ciúme crônico. Porém, o
que me chamava a atenção no caso era, finalmente, o pará-
grafo em que ele conclui, e que você cita: "Meu mito é igual
ao meu sonho. N o final estou com duas mulheres, etc."
Parece, lido assim, quase como uma nota de rodapé do texto
de Freud. Realmente, é uma conclusão que surpreende por sua

147
Conver saçao c l fni ca com J acqu es-A l ain Mi ll er em Ba rcelona

clareza, por seu valor de axioma. Acredito que fosse a pergun-


ta que queria lhe fazer: que não seja tanto o resultado de uma
interpretação, mas que já tem o valor de axioma para esse
sujeito. E, então, poderíamos ler de outra forma esse "Eu sou
o infiel". Viria a ter o peso de uma frase equivalente ao "E u
sou a mulher de Deus", de Schreber. Quer dizer, é algo equi-
valente a uma identificação, ao estilo do que assinalava Pierre-
Gilles Guéguen, que vem cumprir a função de Nome, porém,
que vem no lugar do que chamaríamos, em te.r mos m ais clás-
sicos, o fracasso da metáfora paterna. Creio que se entende,
desde aí, que esse "Eu sou o infiel" tem uma relação funda-
mental com o que tem sido sua dedicação na vida, que é a de
procurar todos os infiéis da Terra. Poderia fazer uma espécie
de religião de infiéis generalizada na qual ele se converteria em
O Infiel, como o signHicante universal dessa busca dos infiéis.
E ntão, seguindo a lógica do que dizia Pierre-Gilles Guéguen,
me parece que, de fato, dá a chave da questão, se o enten-
demos não como uma identificação edipica ao estilo clássico,
mas, precisamente, como aquilo que vem no lugar de sua
impossibilidade de aceder à paternidade, o que muda total-
mente a perspectiva do caso. Se o lemos assim, podemos
começar a ler todas as duplicações imaginárias dos pais, das
mulheres - que estão presentes em todo o caso: é um caso
construido a partir de duplicídades imaginárias, de gemelari-
dades, de dois pais, de duas mulheres - como o efeito no
imaginário da impossibilidade de construir no simbólico essa
referência ao Nome.

jacqtm-Aiain Miller. Sim, Amanda alude a isso quan-


do lembra a frase do pai "Te vejo como tenho me visto, me
vês como te verás". E comenta Amanda: ''Essa frase, repeti-
da com freqüência, situa a relação pai-fllho no registro pura-
mente imaginário".

148
Efei tos te ra pêu ti cos r ápi dos em psic an~ l ise

Miquel Bauois: É o que realça toda a fenomenologia


do caso e dá conta do registro que Lacan chamava, já nos anos
1940, da identifiqação massiva no psicótico...

]acqJtes-Aiain Miller: E se colocamos o acento -


como você o faz em sua intervenção - sobre a inacessibili-
dade ao matrimônio e à paternidade, faz pensar em Kafka. Fiz
uma pequena nota que me pediram sobre Kafka, sem fazer
um diagnóstico para o público, mas só um diagnóstico implí-
cito para nós, em que digo que o caso Kafka, que foi sempre
lido em todo mundo como um caso de neurose, em realidade,
é um caso de inacessibilidade aos valores do matrimônio, da
paternidade. E que seu diário - citei duas ou três frases -
permite pensar que existiam fenômenos elementares; como
em Joyce, porém de outro tipo. E que a literatura, o valor
sagrado da literatura para Kafka, era seu Nome-do-Pai. Quase
o diz no diário.
Quer dizer, entre os gênios da literatura e da ciência,
amplia-se a lista dos psicóti.cos. O que permite recuperar total-
mente a psicose na humanidade. Da humanidade, sem psi-
cose, não sobra muito. Da humanidade, sem psicose, sem per-
versão, o que sobra?... Alguns psicanalistas, alguns megalo-
m aníacos políticos...

Alejando Velá~lle:(;
Uma pergunta sobre o título do
caso, "O cavaleiro errante da armadura enferrujada", porque
esse, também, é o título de um livro, e talvez se pudesse dizer
algo a respeito.

Amanda Gqya: Sim, é o título de um pequeno conto


- eu não o li - que foi best-seller na Argentina. Entendi, pelo
que ele me disse, que são as vicissitudes de uma espécie de
anti-herói A armadura enferrujada é uma metáfora da dificul-
dade, do quero-porém-não-posso. Ele mesmo trouxe essa

149
Con versaçao cl fnic a com J acques-Aia t n Miller em Barcelona

figura e fez um pequeno acréscimo, porque o título do conto


é E/ caballero de la am1ad11ra oxidada, e acrescentou o e"anle, que
é um pouco a referência ao Q11ixote. Por isso lhe ponho o
pseudônimo Alonso, porque considera que suas andanças
pelo mundo têm um ar bastante quixotesco. Reflete-se, por
exemplo, no sonho no qual salva dois garotos da surra que
estão levando; reflete-se também em sua disposição ao amor
cortês. No que ele chama o "mito de si mesmo" recolhe essa
posição de cavaleiro errante que vai "consertando as situa-
ções" por ai.

]acques-Aiain Milkr: E o que se considera da clínica


do mesmo Quixote, de Dom Qui'<ote, à parte do caso? Dom
Quixote: que tipo de diagnóstico fazemos? É urna pergunta...

Sh11/a E/dar. Pskose extraordinária.

]acques-Aiain Mil/er. Sim, seria para relê-lo assim, com


a dificuldade de fazer diagnósticos, claro, como também para
Hamlet. Difícil. Porém, como se explica que ao final perceba,
que parece que ao final perceba...?
(Hebe Tizio entrega, nesse momento, a Jacques-
Alain Miller, como presente de aniversário, um pacote que
contém uma edição de Don Qllfjoú de la Mancha.)

Jacques·Aiain Milkr. É a edição do Instituto CervantesZ,


sabia de sua existência. É admirável! Obrigado!
Ao contrário da edição do Seminário de Lacan, que
não possui notas nem nenhum comentário crítico, pelo que
me criticam há muitos anos, esta tem o maior comentário

z Miguel de Cervantes Saavedra: Do11 Q11jjot~ de La Mantha, Barcelona,


Galaxia Gutenberg, 2004.

150
Efeitos terapeuti cos ráp i dos em ps ica n6lise

cno.co que já vi, de maneira que também vou aprender.


Porém, poderão ver na eclição do O sinthoma, que irá aparecer
no próximo mês, que forma encontrei de satisfazer algo da
dem:Índa popular sem sacrificar os princípios que fundamen-
tam a ausência de comentários críticos. Obrigado.
Então, a questão cünica. Não me impedirão de per-
guntar sobre a clínica de Quixote... No final, recupera a razão
e tem que procurar. É somente um golpe na cabeça que o leva
a fazer isso? É a aproximação da morte? T emos que buscar
algo sobre a pista. Lacan falava da pista de Joyce. Busquemos
algo da pista de Cervantes. Ele não tinha nada de psicótico;
não acredito, pelo que li de sua vida. Porém, seria interessante
tratar de situar o que esvazia todo o detido quixotesco.
Permite pensar no caso Aimée, em que há um momento em
que algo do que enche o mundo se esvazia. E não é uma cura
da psicose, senão algo que permite ao sujeito andar e fazer
coisas... Bem, é discutível; há pessoas que têm informações
segundo as quais Aimée tivera o deürio diminuido, porém
continuava delirando...
Enfim, a abertura da clínica literária não é nossa
especialidade, não queremos fazê-la, porém um esboço seria
interessante.

Concha Lecbón: Q ueria perguntar sobre qual é a


função dos sonhos neste caso, concretamente aquele do qual
ele diz "Este é o sonho", que é justamente aquele no qual aJi
onde deveria haver uns testículos há uma cicatriz.

Amamla Gi!Jtr. Ele o traz como O Sonho, com maiús-


cula. Os outros não. É verdade, há, ao longo do tratamento,
bastante produção onirica. Acreclito que tenha a ver com sua
transferência, com sua relação com o inconsciente, com sua
relação com a verdade, que destacou no início. É um homem
em quem é patente sua relação com a verdade. A investigação,

151
Conversaçao clfnica com Jacques-Alai n Hi lle r em Barcelona

efetivamente. Ele está sempre atrás de alguma verdade escon-


dida. Então, O Sonho está qualificado por ele com maiúscula,
talvez porque estejam ali muitos dos elementos da estrutura.
Está posto às claras o que chama o mito de si mesmo, suas
façanhas, sua relação com as mulheres, o encontro com esse
pai que carece de testiculos e, finalmente, a interpretação que
faz do sonho, a interpretação de que o sonho vem a revelar ou
ativar a chave da fantasia.

Pierre-Gilles Guéguen: O que disse da mãe? Disse da


mãe que ela deixou de lado a bucetal, e depois sonha com o
pai sem colhões.

A111anda Gf!Ja: Sim. E depois, ao final, sonha também


que a mãe encontrou um outro homem, como se houvesse aí
certo consentimento à castração materna. É, ao final, quando
diz que queria que a mãe tivesse wn parceiro e que fosse um
cavalheiro, diferente do pai Esse sonho lhe traz certa pacifi-
cação. Acredito que os sonhos têm wna importância relevante
no caso.

Jacques-Aiain Miller. De Cervantes, o capítulo 74 da


segunda parte: "De como D om Quixote adoeceu, e do testa-
mento que fez, e sua morte". "Como as coisas humanas não
são eternas, indo sempre em decUnio desde o princípio até ao
seu último fun, especialmente as vidas dos homens..." Diz o
comentário: "As primeiras frases do capítulo recordam, muito
adequadamente..." É a aprovação, pela outra voz, de
Cervantes. Gostaria de fazer este tipo de notas: "Ah, é muito

1
Trecho do caso: "De sua mãe diz com ênfase, e em uma linguagem um
tanto obscena, que contrasta com sua habitual forma de falar: 'Desde que
meu pai morreu, ela enterrou a buceta'."

15Z
Efeitos tera pêuti cos rápi dos em p s ic an ~lise

adequado o que diz Lacan!" «E, além do mais, a maneira


como o redige!" (risos). '~s primeiras frases do capítulo
recordam, muito adequadamente, as fórmulas com que secos-
tumava começar os testamentos." Sim, e, além disso, lem-
brem-se de que é por testamento que fui encarregado por
Lacan... Perfeito. '~ssim , por exemplo, no de Garcilaso de la
Vega: 'Porque a morte é natural aos homens, e é coisa certa, e
a hora e o dia devem ser incertos', etc. ·
E o texto continua. " ...E como a [vida] de Dom
Quixote não tivesse privilégio do céu para deixar de seguir seu
termo e acabamento, quando ele menos o esperava, porque ou
fosse pela melancolia que lhe causara o ver-se vencido..."
E vejamos a nota: "A medicina contemporânea
acreditava que o maléfico humor melancólico era gerado pela
tristeza prolongada, ou vice-versa.'' (risos) Sim, ha, hal Bom, é
uma teoria a se levar em consideração. " ... ou pela disposição
do céu ..." Está bem: uma clínica interessante, a clínica teoló-
gica! [...] que assim o ordenava, veio-lhe uma febre, que o
manteve seis dias de cama, sendo visitado muitas vezes pelo
padre, o bacharel e o barbeiro, seus amigos, sem se lhe tirar da
cabeceira Sancho Pança, seu bom escudeiro.Várias vezes, pen-
sei em Lacan e em mim mesmo, ele como Dom Quixote eu e
como Sancho Pança. Ou ele como Samuel Johnson e eu como
James Boswell, pensando por que não escrevi a vida de Lacan,
como ele tinha escrito a vida de Johnson.
"Estes, julgando que o pesar de se ver vencido e des-
cumprido o seu desejo de liberdade e o do desencantamento
de Dulcinéia é que o tinham adoentado, de todos os modos
possíveis procuraram alegrá-lo, dizendo-lhe o bacharel que se
animasse e se levantasse para começar seu exercício pas-
toral..." Isso é a técnica comportamemal. [...) para o qual já
compusera uma écloga, que haveria de desbancar todas as que
Sannazaro (1458-1530) compusera... Nota: "Além das éclogas
incluídas em A Arcádia, sua obra mais conhecida e modelo

153
Conversaçao cl 1nic a com Jacques- Alain Hil ler e m Barcelona

constante para o romance pastoril, a Sannazaro se deve a uma


série de éclogas em latim, muito apreciadas entre os huma-
nistas." " ...que já comprara, com os seus próprios dinheiros,
dois famosos cães para guardar o gado: um chamado Barcino
e o outro Butrão, que lhe vendera wn pastor de Quintanar".
Nota sobre os dois nomes: Nomes usuais para os
cães: Barcino, "de pêlo cor canela e branco, misturadas";
Butrão, possivelmente "de cor aleonada, como um abutre".
Barcino e Butrão. É interessante. Pode ser como os dois,
Rosencrantz e Guildenstern, em Hamlet, dos quais Goethe diz
que são toda a humanidade, coisa que Lacan retoma. E, neste
caso, são dois cães, o que faz pensar no Colóquio dos cães.
"Quintanar da Ordem era também o povoado de Juan
Haldudo, o rico."

Mas não por isso deixava Dom Quixote a sua tris-


teza. Chamaram seus amigos, o médico, tomou-lhe
este o pulso e disse-lhe gue, pelo sim ou pelo não,
cuidasse da salvação de sua alma, porque a do
corpo corria perigo. Ouviu-o Dom Quixote com
ânimo sossegado, mas não o ouviram assim sua
ama, sua sobrinha e seu escudeiro, que começaram
a chorar ternamente, como se já estivesse morto. O
parecer do médico foi que as melancolias e os dis-
sabores acabavam com ele. Rogou Dom Quixote
que o deixassem só, porque queria dormir um
pouco. Assim o fizeram e dormiu de uma tacada
só, como dizem, mais de seis horas...

Nota: "A febre e o sono profundo eram considera-


dos sinais da recuperação da saúde mental". Não sei se se fala-
va nessa época de saúde mental. É, talvez, o tipo de anacro-
nismo dos melhores aparelhos criticas. Não sei, deve-se veri-
ficá-lo.
" ... tanto, que pensaram a ama e a sobrinha que ficaria
no sono. Despertou ao cabo do tempo já referido e, dando um

154
Efei tos tera pêuti cos rápi dos em p s ic an ~ l ise

grande brado, exclamou:..." Nota: "A expressão coincide com a


da Bíblia Vulgata ao se referir à morte de Jesus." Não tinha a menor
idéia de que, dando um grande brado, fala Dom Quixote, e
que isso vem da Bíblia; é uma imitação de Jesus Cristo.

- Bendito seja o poderoso Deus que tanto bem


me fez! Enfim, SU2S misericórdias não têm limite,
nem abreviam, nem impedem os pecados dos
homens. A sobrinha ouve atenta as palavras do tio
que lhe parecem mais coerentes do que costumava
dizer, pelo menos desde o irúcio de sua doença, e
lhe pergunta: - Que diz Vossa Mercê, senhor?
Temos algo de novo? De quais pecados, de quais
misericórdias o senhor fala?

Não vou ler tudo até o final, mas sim a resposta de


Dom Quixote.
" - As rrúsericórdias, sobrinha - respondeu Dom
Quixote - são as que neste momento Deus teve coaúgo, a
quem, como disse, não impedem meus pecados. Tenho o
juízo já livre e claro, sem as sombras caliginosas... - significa
'tenebrosas'- ... da ignorância... "
~ por que "caliginosas'? Conhecem a palavra? Deve-
mos ver no dicionário. Mas é interessante que vá com ignorância:
" ... as sombras caliginosas da ignorância produzidas
por minha amarga e continua leitura dos detestáveis livros de
cavalarias."
Assim, pois, a causa está clara. E, por exemplo,
alguns analistas que lêem o tempo inteiro os pós-freudianos e
sua própria literatura, convertem-se também em cont (bobos),
" ...minha amarga e conónua leitura dos detestáveis livros da
IPA, menos o de Etchegoyen...".
'1á conheço seus disparates e seus embustes, e só me
pesa ter chegado tão tarde esse desengano... - é uma palavra
no marco do que buscamos: desengano - ...que não me

155
Conve rs açao cllnlca com Jacq ues-Alain Mil ler e• Barce lona

desse tempo para me emendar... - significa "fazer uma


reparação" -lendo outros que sejam luz da alma..."
Não tem tempo de ler Lacan. " ... que sejam luz da
alma." E diz: Do gênero do qual Dom Quixote vê estampar a
imprensa barcelonesa. Ah!

Sinto-me, sobrinha, à hora da morte: quereria


passá-la de modo [significa "prepará-la"] que
mostrasse oão ter sido tão má a minha vida que
deixasse renome de louco; pois, apesar de tê-lo
sido, não quereria confirmar essa verdade ao expi·
rar. Chama-me, amiga, os meus bons amigos, o
padre, o bacharel Sansão Carrasco e o mestre
Nkolas, o barbeiro, que quero me confessar e fazer
meu testamento.

Nota: 'Weixo de Venegas recomenda, como prepa-


ração para uma boa morte, fazer o testamento e que os ami-
gos e não os familiares rodeiem o moribundo. Ele recomenda
também que se arrependa dos pecados para enfim receber a
extrema-unção e a comunhão." "Mas deste trabalho ficou livre
a sobrinha com a entrada dos três. Apenas os viu Dom
Quixote, e logo dísse: - Felicitem-me, bons senhores, que já
não sou Dom Quixote da Manchá, mas sim Alonso Quijano,
a quem meus costumes me deram o renome de 'Bom'."
Nota: "Por renome tanto se entendía 'apelido' como
'fama'; o cavalheiro, neste momento decisivo, enfrenta sua
personalidade literária e sua personalidade real. É essa a
primeira vez que se dá o nome de batismo de Dom Quixote
e, também, a primeira vez que seu sobrenome se apresenta na
forma Quijano." Assim, ele recuper~ seu nome, o Nome-do-
Pai, ao final. Sem análise. Bem.

Horacío Casté: Muito bem. Tivemos um momento


agradável nesta Conversa, aprendemos e temos novos temas

156
Efei tos t erapê uticos r~pl do s em psicanális e

sobre o.s quais pensar. Em breve, graças à insistência de


Jacques-Alain Miller, teremos tudo isso por escrito, que
começará a circular, a se mover. E daqui a não muito tempo
temos um novo encontro, PIPOL 2, em Paris. E o Fórum dos
Psy, em 19 de março.
Agradecemos, novamente, pela presença de Jacques-
Alaín Miller, que fazia tempo não viajava, sendo este seu
encontro internacional de cada ano. E a Pierre-Gilles
Guéguen, muito obrigado. Muito obrigado a todos os pre-
sentes. Ver-nos-eroos em breve.

Tradução: Laureei Nunes e Oscar Reymundo


Revisão da tradução: Sôrúa Vicente

157
Efeit os terapeutí cos ráp1 dos e• psicanálíse

Nota sobre a Edição Brasileira

O lançamento, no Brasil, de Eftitos terapêuticos rápidos


em pskanálise vem, fmalroente, preencher uma lacuna que há
muito se fazia sentir entre nós.
O debate que o livro veicula - originalmente uma
Conversação Clínica, realizada em fevereiro de 2005, na
cidade de Barcelona, no âmbito do Instituto do Campo
Freudiano e sob a direção de Jacques-Alain Miller - já se
tornou uma referência para todos aqueles engajados em
questões relativas ao que Lacan chamou de "psicanálise apli-
cada"\ urna vez que é a eficácia "terapêutica" dos atendimen-
tos o que se tenta isolar ali.
Depois de editado em espanhol é rapidamente
traduzido para o francês e o italiano.
Para a tradução brasileira, partimos do original
espanho~ não sem cotejá-lo, com o auxílio de Helenice Saldanha
de Castro, com a tradução francesa, que apresenta, muitas
vezes, um texto já estabelecido pelos autores.

Sérgio de Castro

' LACAN, Jacques. Ato d e fundação. In: Outro.r Emilos. ltio de Janeiro:
Jorge Zahar Editor.. 2003, p. 237.

159