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SECRETARIA DE ESTADO DA EDUCAÇÃO

SUPERINTENDÊNCIA DE EDUCAÇÃO
DIRETORIA DE TECNOLOGIA EDUCACIONAL
PORTAL DIA A DIA EDUCAÇÃO

Sequência de aulas - Arte

Autora: Professora Stella Maris Oliveira Ludwig – Curitiba/PR

1 Nível de ensino: Ensino Médio

2 Conteúdo Estruturante: Elementos formais; composição; movimentos e períodos.


2.1 Conteúdo Básico: Elementos formais (forma, superfície, cor, bidimensional,
figura e fundo, semelhanças, contrastes e estilização); composição (gênero
autorretrato); movimentos e períodos (Pop Arte)
2.2 Conteúdo Específico: Eu e a mídia – eu e o que consumo – influência da
mídia e produtos na formação da minha personalidade.

3 Objetivos

• Reconhecer o meio como influência na construção da personalidade.


• Dominar a técnica do recorte e colagem.
• Entender o que é apropriação.
• Entender e produzir uma composição.
• Conhecer o gênero autorretrato.
• Perceber a concepção de enunciado, signo e ideologia presente nas propagandas
midiáticas.

4. Número de aulas estimadas: 4 aulas

5. Justificativa
Segundo o historiador Luiz Carlos Ribeiro "o homem, ao subordinar-se às
imposições do mercado e não exercer a vontade própria, transforma-se em coisa, perde
sua humanidade".
Observa-se atualmente que a publicidade e a propaganda assumem papel
determinante no modelo global de mercado. Nesse contexto, a produção passa por
transformações que alteram a maneira como o sujeito se relaciona com os outros, consigo
mesmo e com a mercadoria.
É nesse sentido, que a leitura de imagens midiáticas, utilizando-se do recorte
(apropriação) e da colagem (manipulação e intervenção de imagens), possibilitam aos
alunos uma atividade tanto de leitura quanto de representação crítica do mundo da mídia.
Segundo as Diretrizes Curriculares de Arte (PARANÁ, 2008), o processo de ensino-
aprendizagem contextualizado permite ao aluno: ter consciência sobre seus modelos de
explicação e compreensão da realidade, reconhecendo-os como equivocados ou
limitados em certos contextos; e enfrentar questionamentos, colocando-os em cheque
num processo de desconstrução de conceitos e reconstrução/apropriação de outros.
Portanto, o exercício de desconstruir as imagens midiáticas a partir do recorte e
reconstruí-las de outra forma, propicia ao aluno o pensar crítico e reflexivo sobre as
imagens que o bombardeiam diariamente.

6. Encaminhamento

1ª Aula

Inicialmente propor uma atividade que servirá como “aquecimento”, para que o
aluno perceba como é visto e como ele se vê. O resultado da atividade será resgatado
posteriormente.
Entregue para cada aluno uma folha ofício branca, onde ele deverá escrever
apenas seu nome. A folha de cada aluno passará, então, pela sala inteira, seguindo a
ordem das filas de carteiras. A partir de um sinal do professor, cada aluno deve estar
apenas com uma folha em suas mãos e deverá escrever uma qualidade do colega cujo
nome está escrito na folha. Para cada pessoa que a folha passar, o aluno deverá escrever
uma qualidade, até que a sua folha chegue novamente em suas mãos com as anotações
de todos os colegas da sala. Propicie uns minutos para que o aluno leia as qualidades
registradas pelos colegas. Então, peça para que cada um complete a listagem com as
qualidades que ele acredita ter e que não apareceram na lista. No verso da folha, peça
para que responda à pergunta “Quem sou eu?”. O professor deve explicar que, como os
colegas o veem e como ele se vê é uma forma de leitura sobre o outro e sobre si mesmo.
Esta atividade deve ser guardada para consulta posterior.

2ª Aula

A partir da pergunta “Quem sou eu?”, apresentar o poema Eu Etiqueta, de Carlos


Drummond de Andrade, em forma de vídeo, disponível em:
<http://www.sociologia.seed.pr.gov.br/modules/video/showVideo.php?video=5229>

Após apresentar o vídeo, ressaltar acerca da trajetória artística do autor, levando


em consideração os dados biográficos, a época em que viveu e o caráter ideológico que
tanto demarcaram o estilo de Carlos Drummond de Andrade.
Na sequência, distribuir o poema impresso aos alunos (em anexo). Propor uma
intensa reflexão, com vistas a analisar minuciosamente cada verso e extrair deles a
essência, a mensagem implícita ou explícita.

Análise do poema:

A partir dos versos iniciais, é possível o professor alavancar a discussão,


enfatizando sobre a forma como as pessoas se deixam influenciar pelo modismo,
sobretudo demarcado pelos meios de comunicação. Exemplo:

Em minha calça está grudado um nome


que não é meu de batismo ou de cartório,
um nome... estranho.

Nos versos acima, o poeta fala sobre a questão do nome verdadeiro e do nome
“grudado na calça”, assunto indispensável para uma boa discussão: a crise de identidade
gerada por tais influências.
Já nos versos seguintes, pode ser trabalhado a questão do consumismo.

Meu blusão traz lembrete de bebida


que jamais pus na boca, nesta vida.

Outro aspecto, que representa a finalidade da proposta didática, faz referência à


linguagem publicitária de persuasão, o que nos remete, também, à ideia do consumismo.
Por exemplo:

Estou, estou na moda.


É doce estar na moda, ainda que a moda
seja negar minha identidade,
trocá-la por mil, açambarcando
todas as marcas registradas,
todos os logotipos do mercado.

Como forma de incrementar ainda mais a discussão e tornar mais profunda a


capacidade reflexiva dos alunos, nada melhor do que fazer uso dos últimos versos, os
quais revelam:

Por me ostentar assim, tão orgulhoso


de ser não eu, mas artigo industrial,
peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é coisa.
Eu sou a coisa, coisamente.

Levantar as seguintes questões após a análise do poema:

1. O poeta pede que retifiquem o quê? Como sabemos, retificar significa corrigir, rever
algo. Será, mesmo, que é preciso que o retifiquem? Caso sim, em que lugar estaria
escondido o verdadeiro “eu”?

2. Ao se utilizar da expressão “meu nome novo é coisa”, será possível que, enquanto
submetidos à classe “opressora”, digamos assim, somos realmente levados à condição de
pessoas coisificadas?

3. No último verso, no qual o poeta afirma que ele realmente é a coisa, ele chega à
conclusão de que se tornou refém de tal dominação. E você (no caso, os alunos) também
é refém do consumismo, da mídia? Fica aqui um questionamento que merece ser
debatido e explorado ao máximo, em todos os âmbitos.

Fonte da análise do poema: DUARTE, Vânia. O consumismo na voz de Carlos Drummond de


Andrade. Disponível em: <http://educador.brasilescola.com/estrategias-ensino/o-consumismo-na-
voz-carlos-drummond-andrade.htm> (Adaptado).
A partir da discussão das questões, reforce aos alunos que o poema de Carlos
Drummond de Andrade revela o consumismo, fato muitas vezes influenciado pelos meios
de comunicação.
O poema parece traduzir o cenário cotidiano atual. A realidade é que muitas
pessoas tentam sobreviver a uma intensa crise de identidade, pelo fato de não se
reconhecerem enquanto “eu”, tamanha é a influência da mídia.
De maneira poética, Carlos Drummond de Andrade traduziu nesse poema o não
reconhecimento do indivíduo como sujeito que produz, com sua força de trabalho, o que
consome. O poeta sintetiza uma crítica acerca das relações sociais. Explique que essas
características deverão aparecer na produção visual Autorretrato Pop.

Após a interpretação do poema, os alunos pesquisarão imagens em revistas.


Cada aluno deve escolher imagens de objetos e marcas que componham sua
personalidade, seus gostos, para compor seu Autorretrato Pop baseados no poema. É
interessante o professor ressaltar que as revistas costumam apresentar excelentes
imagens, pois trabalham com ótimos fotógrafos.
A qualidade da impressão, a riqueza de texturas, a quantidade de cores
enriquecem a proposta. Os objetos retirados das revistas devem ser selecionados
buscando diferentes cores, tamanhos, formas, posições e pontos de vista. Explique que
essa técnica envolve a apropriação de imagens, pois utilizamos recortes de imagens de
fotógrafos das revistas, e não imagens produzidas por nós. Nesse momento, o professor
deve esclarecer o que é “apropriação de imagens”:

Apropriação de imagens: O termo “apropriação” designa o ato ou efeito de tomar para


si, apoderar-se integralmente ou de partes de uma obra para construir uma outra obra. A
apropriação já existe na arte há séculos - embora o uso do termo seja recente - e foi
praticada por artistas como Poussin, Manet e Picasso. Também foi largamente utilizada
na Pop Art, movimento artístico que dá nome ao autorretrato.
O aluno deverá procurar imagens, recortar e colecioná-las, seguindo a orientação
do professor sobre o que é recorte:

Recorte: Percorrer o contorno das imagens com a tesoura cuidadosamente, como que
redesenhando a forma em todas as suas sutilezas. Trata-se, neste primeiro momento, de
retirar a figura de seu contexto original, separando-a do fundo.

Cada aluno deverá anotar as orientações acima para consulta posterior.


Obs.: Os alunos que não concluíram esta atividade em sala deverão terminar em
casa.

3ª Aula

Nessa aula, usando uma folha A3 sulfite ou canson, o professor deverá orientar
sobre como desenhar a estrutura básica de um rosto – de preferência com lápis 4B e
suavemente - para montagem do autorretrato, preparando a estrutura para posterior
colagem das imagens selecionadas e recortadas.
A seguir, uma sugestão de orientação de como desenhar a estrutura de um rosto
(ver também no anexo):

Como se trata de um autorretrato, cada aluno deverá dar suas características à


estrutura de seu rosto, percebendo e dando ao desenho o formato de seu rosto. (Imagem
maior em anexo).
Com a estrutura do rosto pronta, as imagens recortadas deverão ser compostas na
folha, próximas umas das outras, formando os autorretratos – olhos, boca, nariz, cabelo
etc. Explique aos alunos o que é composição.

Composição: É a possibilidade de mover figuras no espaço até encontrar-lhes o local


mais adequado. Para a realização da composição, não é suficiente apenas conhecer e
dominar suas principais regras (equilíbrio, harmonia, contraste, simetria e assimetria,
entre outros), mas reconhecer o conteúdo das figuras. Assim, conforme a disposição
destas na superfície, os conteúdos podem ser ora reforçados, ora enfraquecidos ou
mesmo anulados e, muitas vezes, ser inteiramente subvertidos em seus significados
primeiros.

Resgatar com os alunos, nesse momento, a primeira atividade e o poema Eu


Etiqueta de Carlos Drummond de Andrade, para que o autorretrato apresente as
características das anotações e da discussão do poema. Para isso, releia o poema com
os alunos e peça para que releiam as características registradas na primeira atividade,
para estimular que a imagem a ser criada retrate esses dois momentos.
Quando o aluno tiver certeza da escolha da composição do autorretrato, fará a
colagem das imagens. Para isso, os alunos, no ato de colar, deve buscar uma total
aderência da figura recortada ao suporte, de modo a dar impressão de que a figura está
ali, “quase que impressa”. O cuidado com o uso da cola é essencial nesse momento para
que a folha não enrugue ou descole depois de seca.
Peça para que os alunos registrem as explicações sobre composição e colagem para
utilização em outras aulas..

4ª Aula
Na quarta aula completamos os espaços vazios (no rosto, pescoço etc.). Esses
espaços devem ser preenchidos com lápis de cor, giz de cera ou outro material escolhido
pelo professor.
Com o autorretrato pronto, apresentar o movimento artístico Pop Arte, pedindo para que
os alunos relacionem as características de seu autorretrato com o movimento Pop Arte a
partir do estudo dos textos sobre o tema presentes no Livro Didático Público de Arte,
páginas 87 a 97 (PARANÁ, 2006).

Recursos complementares:

A seguir, alguns recursos que podem ser utilizados para complementar a aula.

• Filme Os delírios de consumo de Beck Bloom – Trechos do filme onde é possível


analisar as razões e o prazer no ato de comprar, o fetiche. Disponível em:
<http://www.educacao.video.pr.gov.br/?video=12524>;
<http://www.educacao.video.pr.gov.br/?video=12060>;
<http://www.educacao.video.pr.gov.br/?video=12063>

• Vídeo O Bom Consumidor – Realizar análise do vídeo e comparação com trecho


de filme apresentado anteriormente. Disponível em:
<www.educacao.video.pr.gov.br/?video=17604>

• Texto Publicidade e Propaganda no ambiente Sociologia. Disponível em:


<http://www.sociologia.seed.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?
conteudo=345>

7. Relações interdisciplinares
Ao tratar do assunto “consumismo e imagem midiática” em Arte, busca-se, a partir
dos conteúdos Indústria cultural, Meios de comunicação de massa, Sociedade de
consumo, da disciplina de Sociologia, referenciais teóricos que possibilitem o
questionamento da publicidade e da propaganda manipuladoras e fetichistas.

8. Aprendizagem esperada
Segundo as Diretrizes Curriculares de Arte (PARANA, 2008), “no processo
educativo, a avaliação deve se fazer presente, tanto como meio de diagnóstico do
processo ensino-aprendizagem quanto como instrumento de investigação da prática
pedagógica, sempre com uma dimensão formadora, uma vez que, o fim desse processo é
a aprendizagem, ou a verificação dela, mas também permitir que haja uma reflexão sobre
a ação da prática pedagógica. ”
Ao final desta sequência de aulas espera-se que o aluno reconheça o meio como
influência na construção da personalidade; domine a técnica do recorte, colagem e
composição; conheça o gênero autorretrato e perceba a concepção de enunciado, signo e
ideologia presente nas propagandas midiáticas.

9. Referências

PARANÁ. Secretaria de Estado da Educação. LPD: Livro Didático Público de Arte. Curitiba:
SEED-PR, 2006.

PARANÁ. Secretaria de Estado da Educação do. Diretrizes Curriculares de Arte para a


Educação Básica. Departamento de Educação Básica. Curitiba, 2008.
ANEXO

Eu, Etiqueta

(Carlos Drummond de Andrade)

Em minha calça está grudado um nome


que não é meu de batismo ou de cartório,
um nome... estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
que jamais pus na boca, nesta vida.
Em minha camiseta, a marca de cigarro
que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produto
que nunca experimentei
mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
de alguma coisa não provada
por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
minha gravata e cinto e escova e pente,
meu copo, minha xícara,
minha toalha de banho e sabonete,
meu isso, meu aquilo,
desde a cabeça ao bico dos sapatos,
são mensagens,
letras falantes,
gritos visuais,
ordens de uso, abuso, reincidência,
costume, hábito, premência,
indispensabilidade,
e fazem de mim homem-anúncio itinerante,
escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É doce estar na moda, ainda que a moda
seja negar minha identidade,
trocá-la por mil, açambarcando
todas as marcas registradas,
todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser
eu que antes era e me sabia
tão diverso de outros, tão mim-mesmo,
ser pensante, sentinte e solidário
com outros seres diversos e conscientes
de sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio,
ora vulgar ora bizarro,
em língua nacional ou em qualquer língua
(qualquer, principalmente).
E nisto me comprazo, tiro glória
de minha anulação.
Não sou - vê lá - anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago
para anunciar, para vender
em bares festas praias pérgulas piscinas,
e bem à vista exibo esta etiqueta
global no corpo que desiste
de ser veste e sandália de uma essência
tão viva, independente,
que moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora
meu gosto e capacidade de escolher,
minhas idiossincrasias tão pessoais,
tão minhas que no rosto se espelhavam,
e cada gesto, cada olhar,
cada vinco da roupa
resumia uma estética?
Hoje sou costurado, sou tecido,
sou gravado de forma universal,
saio da estamparia, não de casa,
da vitrina me tiram, recolocam,
objeto pulsante mas objeto
que se oferece como signo de outros
objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
de ser não eu, mas artigo industrial,
peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é coisa.
Eu sou a coisa, coisamente.