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Antônio Borges Sampaio (à direita) com sua esposa Maria Cassimira de Araújo e filhos.

INTRODUÇÃO GERAL

NOTA PRÉVIA
(ARNALDO ROSA PRATA)

PALAVRAS DE APRESENTAÇÃO
(SANTINO GOMES DE MATOS)

TENENTE-CORONEL ANTôNIO BORGES SAMPAIO


(HILDEBRANDO DE ARAú.JO PONTES)

TENENTE-CORONEL SAMPAIO
(NOTA EDITORIAL DO ALMANAQUE UBERABENSE)

TENENTE-CORONEL ANTôNIO BORGES SAMPAIO


(ATANASIO SALT.liO)

BORGES SAMPAIO
(AZEVEDO JúNIOR)

BORGES SAMPAIO E A ELEVAÇÃO DE UBERABA


À CATEGORIA DE CIDADE
(JOSÉ MENDONÇA)
NOTA PRÉVIA

Arnaldo Rosa Prata


Prefeito Municipal.

Eis mais uma das grandes promoções da Academia de Letras


do Triângulo Mineiro que, além de suas múltiplas e benéficas in­
fluências, vem, agora, em nova fase, publicando a história da gente
e das coisas de Uberaba. Em muitos capítulos ela se confunde com
a própria história da imensa região que constitue o vasto Brasil
Central.
Uberaba, sobretudo, pelas suas casas de ensino e de cultura,
tornou-se, ainda no século passado, verdadeiro luzeiro a iluminar
o grande Sertão das Descobertas do Nôvo Sul, depois, Sertão da
Farinha Podre, e, finalmente, Sertão do Triângulo Mineiro.
Foram muitos os responsáveis por tão grande conceito e pro­
jeção. Assim, voltando às origens, a figura de Antônio Borges Sam­
paio, do Velho Sampaio, como era conhecido e estimado, se agi­
ganta destacando-se, sobremaneira, pela sua característica incon­
fundível de pesquisador fiel no registro dos acontecimentos.
Todos aquêles que tiveram a oportunidade de conhecer a vida
dêste português, notável, que fêz de Uberaba o seu verdadeiro tor­
rão natal perceberão o quanto de amor, de estudo e de tempo êle
dedicou à nossa terra.
Vivendo aqui, numa época onde as coisas da cultura não ocupa­
vam plano de destaque na vida da comunidade, Borges Sampaio
soube compreender a sua missão de historiador registrando na
Revista do Arquivo Público Mineiro, no Jornal do Comércio do Rio
de Janeiro - por sessenta anos, - no Instituto Histórico e Geo­
gráfico, nos jornais locais e em inúmeros manuscritos, a vida de
Uberaba e do Triângulo Mineiro.
A Prefeitura Municipal, compreendendo o alcance do trabalho
da nossa Academia de Letras instituiu, através da Lei 2.050, a
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Bôlsa de Publicações para edição de livros, monografias, ensaios,


antologias e coletâneas de artigos que versarem sôbre quaisquer
assuntos da cidade e da região.
Considero-me feliz por ter tido a oportunidade de registrar
aqui a participação e a presença do povo de Uberaba que compre­
ende e louva o empenho da Academia cm enriquecer o nosso fôro
cultural através a edição de obras de valor tão grande quanto esta.

Uberaba, março de 1971

..
PALAVRAS DE APRESENTAÇÃO

Santino Gomes de Matos

Um vago nome numa vaga rua, com afundamento melancólico na


indiferença popular, eis a injustiça que se deve corrigir em relação
a Antônio Borges Sampaio.

Os mais velhos hão de ter ouvido dos pais ou dos avós pnonun­
ciamen tos de respeito, senão de veneração, sôbre esta figura de
excecional relêvo na infância de nossa cidade. Deu-se, entretanto,
uma ruptura que é de mister emendar, para reacendimento de um
preito irrecusável, através das novas gerações, fixando na lem­
brança de todos a presença de Borges Sampaio na altitude que
conquistou.
A propósito, cabe aqui reivindicar a instituição de um Panteão
Municipal, para consagração viva e permanente dos valôres au­
tênticos, com influência decisiva no surto evolutivo das comunas
interioranas. Sem se projetarem no âmbito nacional, nem por
isso deixaram de exercer ação de desbravamento e de comando em
prol do Brasil plenamente integrado nos seus destinos maiores.

E não se concebe que mentalidades superiores em inteligência e


cultura, espíritos vanguardeiros de pronunciada ação pública, que
não faltam na hinterlândia, sejam apenas considerados no plano
igualitário de tantos que emprestam os nomes a ruas e praças,
por abusiva condescendência dos legisladores homenageantes.

Na verdade, a distinção que outrora era privilégio dos expoentes,


hoje banaliza-se ao alcance de qualquer pessoa. Chegamos mes­
mo, nesse particular, à especulação do comércio sentimental ou
eleiçoeiro, mais propriamente dito, da barganha rasteiramente
estabelecida entre Vereadores, com votos que no momento se ob­
têm em troca de votos que mais tarde se darão, a fim de que
parentes, amigos ou representantes de famílias numerosas com
pêso de sufrágios nos pleitos políticos, sejam placas nominativas
14 BORGES SAMPAIO

em logradouros
, .
públicos, dado o beneplácito de edilidades pouco
responsavers,
O Panteão Municipal, mantendo livro de registro dos verdadeíros
beneméritos, com inscrições feitas por comissão idônea, adstrita
a um critério de rigor inabalável, goria côbro à confusão de va­
lôres, num nivelamento por baixo que desorienta e intriga.
Ao turista interessado em conhecer a razão de ser da denominação
de certas ruas pela biografia das pessoas nelas memoradas, fre­
qüentemente não se pode dizer senão que os homenageados foram
bons chefes de família, ou boas donas de casa, ou proprietários,
ou negociantes, ou fazendeiros, ou profissionais disso e daquilo,
confundidos na irrelevância de centenas de outras pessoas apre­
sentando iguais qualidades, na craveira comum das virtudes do­
mésticas e sociais.
Se como queria Machado de Assis, noutras palavras mas com lím­
pida verdade, o culto dos cidadãos ilustres constitui virtude es­
sencial das coletividades, tal vocação de justiça por certo não se
há de cumprir com uma rasoura estupidamente democrática que
elimine os cimos em favor da planície.
Ainda mais: é o exemplo edificante das ascensões, mercê da ex­
pressão da alma coletiva na inteligência, na virtude e no trabalho
dos pró-homens, que logra pôr estremecimentos emulativos na
carapaça dos indiferentes, dos omissos, fechados em egoísmos sá­
f aros e calvos.
.
Essas considerações de ordem geral caem muito a propósito do
livro que aqui apresento. Trata êle da nomenclatura das ruas, tra­
vessas e becos de Uberaba, em recuados tempos da nossa história.
Vereador à Câmara Municipal, Antônio Borges Sampaio propôs
que fôsse revista a denominação das artérias da cidade. E incum­
bido da tarefa pelos seus pares, desempenhou-a com escrupuloso
senso de julgamento, ao apontar à memória dos pósteros, no ba­
tismo das ruas, figuras a todos os títulos dignas e beneméritas.
· E êle próprio quem nos dá conta do critério sisudo a que se cingiu.
Ouçâmo-lo : "Em todos os tempos se há honrado a história dos
homens e dos fatos notáveis, anotando-os na denominação das ruas
das cidades e vilas.
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Memorando, pois, na denominação das suas ruas alguns nomes e


fatos da história desta povoação, ao mesmo tempo que é justa
homenagem tributada aos passados, ;recomenda aos vindouros a
veneração e respeito que aquêles mereceram aos presentes".
Na justificação de motivos aduzida por Borges Sampaio a respeito
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das personalidades que buscou perpetuar na memória de Uberaba,


através da denominação dos logradouros públicos, não ficamos ape­
nas diante de palavras encomiásticas, mas de uma resenha de fatos
irrecusáveis no levantamento das benemerências de cada qual
Objetividade idêntica informa o depoimento que cabe oferecer no
tocante às credenciais de homem público de Borges Sampaio.
Foi o nosso primeiro historiador. E dos seus excecionais atributos
como tal, fala com inquestionável eloqüência o fato de ter per­
tencido ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Valeu-lhe
a honrosíssima eleição o ''Breve Histórico'' contido neste volume,
que foi no tempo e continua a ser, através de citações sucessivas,
o mais valioso assentamento de datas e documentos sôbre a evo­
lução da terra de Major Eustáquio, de povoado a cidade. E para
que o pequenino burgo da Farinha Podre chegas-se aos foros cita­
dinos, Borges Sampaio, sempre atento às iniciativas do progresso
local, empreendeu em ''comissão voluntária'' com Manuel Garcia
da Rosa Terra, o primeiro censo demográfico que aqui se fêz.
Estamos em 1971, e o recenseamento realizado no ano findo acusou
em Uberaba população superior a cem mil habitantes. O vilarejo
de 1855 guindado a cidade, graças aos índices populacionais reve­
lados por Borges Sampaio, em trabalho de espontânea dedicação,
para atestado lá fora dos nossos créditos e possibilidades de pro­
gresso, nos dias de hoje se Inscreve entre os maiores e mais admi­
ráveis centros civilizados do interior do Brasil. E não é crível que
"'
um dos batedores de enérgica e decisiva atuação para desempecer
os ínvios caminhos do passado, com responsabilidade pioneira, por­
tanto, nas avenidas de progresso que ora perlustramos, seja ape­
nas um vago nome numa vaga rua, como está dito no comêço
dês te prefácio.
Dentre tantos homenageados da espécie, que se sepultam na vala
comum da indiferença popular, é preciso que se resgate a memória
de Borges Sampaio, pela configuração da sua personalidade nas
.ínvulgares virtudes públicas que teve e lhe garantem direito a
gratidão imperecível.
Possa êste livro, em boa hora tirado a lume pela Academia de Le­
tras do Triângulo Mineiro, servir de restabelecer o preito especial
que Uberaba deve a Borges Sampaio, numa corrente contínua e
viva de sentimentos entre as antigas e as novas gerações.
Querendo tão somente fazer história, com relatos preciosos, de
inestimável interêsse, Borges Sampaio, nas páginas que se vão ler,
também convence do subido amor e dedicação à terra que elegeu
por sua. Enalteceu-a pela inteligência e pela cultura, levando aos
g;randes centros, através dos seus escritos, a representação condig­
• na do nosso idealismo e aprimoramento espiritual. E fermentando
o meio de promoções, em todos os andamentos de progresso, re­
presentou entre nós, em dado momento histórico, a legenda do
desinterêsse e da aspiração por Uberaba, com lugar conquistado,
-defínitívamente, na galeria dos Varões de Plutarco de nossa terra.
TENENTE-CORONEL ANTôNIO BORGES SAMPAIO

Hildebrando de Araújo Pontes

Perpetuar aos nossos sucessores os heróicos feitos a que tenha


jus qualquer mortal é dever de todos nós. A imitação dêsses feitos
constitui um passo a mais avançado na senda laboriosa da vida.
A história legando-nos a ciência do que há sido a humanidade
desde os seus primeiros passos não é mais que, como a união -
agregado de fôrças - o conjunto da narração de fatos que nor­
mal ou anormalmente se repetem na vida diária dos indivíduos.
Na multiplicidade dos acontecimentos êsses fatos são de natureza
dupla - bons ou maus.
Espelhando-se na prática daqueles a sociedade caminhará im­
pàvidamente para a sua perfeita regeneração, adquirindo foros de
civilizada. E nesse trajetar nos são indicados aquêles a que isso
têm direito pelos seus méritos reais.
Dêsse número destacamos o nome venerando de um ilustre
filho dalém mar para traçarmos o seu perfil biográfico. ~sse a
que com justo título assim tanto merece é o Tenente-Coronel An­
tônio Borges Sampaio que desde às 4 horas e 15 minutos da manhã
de 26 de abril do corrente ano deixou de fazer parte do número
dos vivos.
Com o seu desaparecimento para sempre do cenário do mun­
do, Uberaba perde o maior dos seus benfeitores.
A história de sua vida, como muito bem disse um dos perió­
dicos locais, confunde-se com a de Uberaba, porque a cada passo
vemos impressos vestígios da sua benfazeja passagem.
A morte do Coronel Sampaio não deixou de causar profun­
díssimo abalo no coração de cada um dos filhos desta terra ao se­
rem espalhados os primeiros boatos que pela manhã já bem longe
· corriam com celeridade. É que o pranteado extinto gozava em
nosso meio da mais elevada estima e veneração que são dadas a
merecer qualquer mortal.
O Coronel Sampaio terminou a sua peregrinação neste mundo
· deixando um nome imaculado e exemplos os mais sobejos da ho-
18 BORGES SAMPAIO

nestidade e independência de caráter. Soube, sem imposição, gran­


jear a estima de todos os que o conheceram.
Uberaba deve-lhe imenso tributo de gratidão. Os benefícios a
ela prestados pelo saudoso morto aí estão de pé, e mais alto do que
nós poderão falar.
Com a pureza de um justo vencido pela idade no Iongo pere­
grinar de mais de 80 anos, o Coronel Sampaio deve ter levado nara
o mundo dalém-túmulo a certeza de que só viveu para distribuir,
a mancheias, o bem entre os seus conterrâneos.
Estas linhas em homenagem a êsse ilustre cidadão, ente, para
nós, tão querido, são as mesmas que, com pequena alteração es­
crevemos para o hebdomadário local Correio Católico e que aqui . I
1•

reproduzimos em obediência aos desejos do distinto e operoso edi­


tor dêste Almanaque. Cumprindo essa grata incumbência sentimo­
nos duplamente satisfeitos.
Nasceu· o Tenente-Coronel Antônio Borges Sampaio, a 2 de
janeiro de 1827, na Quinta do Pego, situada à margem esquerda
do Rio Douro, Freguesia de São Gonçalo de Valença do Douro,
Bispado de Lamêgo, Província da Beira Alta, em Portugal e foi
batizado em Valença do Douro, sendo padrinhos José Roberto e
sua mulher D. Maria Matilde da Piedade, por procuração de An­
tônio Pereira da Silva Cardoso e sua mulher D. Maria Benedita
Pereira da Silva, moradores na Freguesia de Passos, Província de
Trás-os-Montes.
Foram seus pais Joaquim Borges Pereira e D. Joana da Silva
Gouvêa; aquêle filho legitimo de Manuel Borges Pereira e de D.
Anastácia Maria de Sampaio, natural de Gouvães do Douro, Co­
marca de Vila Real, Arcebispado de Braga, Província de Trás-os­
Montes, onde faleceu de cólera-morbo a 24 de setembro de 1833 e
jaz sepultado; e esta, filha legítima de Manuel da Silva Gouvêa'
e D. Maria Rodrigues, natural de Adorigo, Bispado de Lamêzo,
Província da Beira Alta e falecida em janeiro de 1833, na Quinta
do Pego, do mesmo incômodo de seu marido, jazendo sepultada
em Valença do Douro.
O casamento de seus pais realizou-se no dia 17 de julho de
1820, na Freguesia de São Gonçalo de Valença do Douro, sendo
celebrante o Vigário Manuel Bernardo de Sampaio e Vasconcelos.
órfão de pai e mãe aos 6 anos de idade, o pequeno Sampaio·
quando mais necessitava dos carinhos e afagos paternais, foi a
sua criacão confiada a única irmã de seu inditoso pai D. Maria
Borges, ~asada com Manuel da Rocha. Êste casal era possuidor
de duas filhas : - Maria e Emerenciana, mais velhas que o indi­
toso órfão. A partir dali, dispensaram-lhe todo o afago como se
fora a um seu filho ou irmão.
Família honesta e desprovida dos bafejes da fortuna, tirava a
sua honorada substância no rude trabalho do campo, onde bem
cedo o nosso biografado teve de tomar parte, apesar de muito
criança

ainda, nos intervalos que lhe sobravam do estudo. A es-
UBERABA: HISTóRIA, FATOS E HOMENS 19

cola que frequentou, por pouco tempo, foi uma pública de pri­
meiras letras, cujo ensino era rudimentaríssimo.
A natureza negando-lhe a longa convivência com os seus pro­
genitores, privou-o, igualmente, de possuir um irmão. Em com­
pensação teve tudo isso no seio da honrada família que se encar­
regou de guiar-lhe os passos na sua infância. Junto aos seus ben­
feitores viveu dez anos e meio até que decidiu a deixá-los, bem
contragôsto, para vir para o Brasil onde esperava que a vida lhe
fôsse mais fácil e uma vez recolhidas as suas economias pudesse de
nôvo regressar ao seu torrão natal e, rodeado dos seus segundos
pais, viver uma vida feliz, desdenhando da crueldade da sorte que
. .
• lhe fôra tão adversa, nos seus primeiros dias.
Puro engano! O destino caprichoso parecia tê-lo talhado para
contrariá-lo sempre.

A 11 de agôsto de 1844, encetou a sua viagem para o Brasil e


a 24 do mesmo tomava o veleiro na cidade do Pôrto com destino,
ao Rio de Janeiro onde chegou a 2 de novembro, seguindo, depois
de curta permanência, para a cidade de Santos.
A sua excelente conduta e bondade de caráter, fizeram-no logo
ser admitido nessa cidade como empregado (caixeiro} na casa co­
mercial de Francisco Ferreira Zimbres, negociante de sal em grosso.
Desempenhando o emprêgo a contento do patrão, êste logo
comissionou-o a vir a Uberaba em 1847, época em que lá era flores­
cente e animado o comércio em todos os seus ramos. Fêz êle com
seu patrão, a cavalo, o trajeto de Santos a Uberaba aqui chegando
a 15 de setembro daquêle ano, às 3 e meia horas da tarde, pas­
sando pelo Pôrto de Ponte Alta, ponto de convergência de estradas
do Rio de Janeiro, Santos, São Paulo, Franca, etc. Êste pôrto fôra
aberto em 1825 pelo Vigário Antônio José da Silva e Major Antônio
Eustáquio da Silva e Oliveira, para encurtamento da distância
entre esta então freguesia e a da Franca.
Aqui fundara Zimbres uma casa de comércio de sal e logo
depois se retirando para Santos deixou na gerência do seu estabe­
lecimento o jovem Antônio Borges Sampaio que somente a ocupou
• até agôsto de 1848, regressando em seguida para Santos onde fôra
prestar contas ao seu patrão e ao mesmo tempo exonerar-se do
seu emprêgo. Não foi se não com grande mágoa que Zimbres,
instado, deferiu o seu pedido. Incontinente fêz-lhe entrega de suas
economias e a quem emprestou mais um conto de réis com os
quais regressou novamente ao Pôrto da Ponte Alta; aí se estabe­
leceu com uma casa comercial em sociedade com o Alferes Antônio
Elói Cassimiro de Araújo, - posteriormente Barão de Ponte Alta,
sob a firma Elói & Sampaio, da qual foi o gerente até 1852, quan­
do amigàvelmente dissolveram a sociedade retirando-se Elói pago
e satisfeito, passando Sampaio a negociar na sua firma individual,
em gêneros e artigos estrangeiros. - No ano anterior aqui fundara
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êle uma farmácia. É de imaginar-se a série de díficuldades a que·


se expôs para a montagem dêsse estabelecimento, em um sertão·
onde as vias de comunicação rápida ainda não existíam no país
e as conduções se faziam em pesados carros de bois e no dorso de
muares desde os nossos portos marítimos até esta cidade.
Já era muita abnegação.
Para legalmente exercer a profissão de farmacêutico obteve do
Govêrno Imperial, em data de 26 de julho de 1860, um título vi­
talício.
Em suma, duplo fim o levara a êsse destino : o primeiro de­
bem servir aos novos conterrâneos com aquilo que sempre para
êle constituia uma necessidade e o segundo de recolher para sua
subsistência honorada as economias que lhe dessem margem de
ganho pela troca dêsses favores.
Até aqui a vida do eminente vulto vem constituindo a série
de seus interêsses próprios.
É, pois, chegado o momento em que se entrega ao afã glorioso
de tornar patente a todos a inquebrantabilidade do seu belo ca­
ráter na prática do bem, prestando com abnegação favores que
nunca os filhos da terra de Tristão de Castro o poderão pagar. As
suas grandes obras· aí estão de pé e hão de atestar aos nossos su-'
cessores a sua magnitude. O desenvolvimento material de Ubera­
ba, a sua instrução, a conservação das suas tradições htstôricas;
etc., se devem tôdas ao Tenente-Coronel Sampaio que foi o braço
de ferro nessa campanha de progresso. Embora, às vêzes perse­
guido pelos seus adversários políticos nunca desanimou, dando por
cumprida a sua missão. Não. Sempre fiel dos ditames da sua
máscula energia enveredou de encontro a êsses tropeços saindo
afinal em tôda a linha, triunfante dos seus atos.
A pequena convivência do Coronel Sampaio com o Alferes An­
tónio Elói foi demasiadamente suficiente para que êste e tôda a
sua família lhe granjeassem as simpatias oferecendo-lhe em casa­
mento uma de suas irmãs, a jovem Maria Cassimira de Araújo.
Êste auspicioso acontecimento teve lugar no arraial do Desembo­
que aos 24 de junho de 1849, perante grande número de amigos
e admiradores da família da noiva. Dias depois regressava a Ube­
raba.
Nascendo-lhe o seu primeiro filho - 1-lermógenes - em 23 de
novembro de 1850, resolveu naturalizar-se cidadão brasileiro e o
ato imperial que lhe deu êsse direito é datado de 6 de setembro de
1851. No ano seguinte aos 24 de março, passou a residir no prédio
onde findaram os seus dias.
Merece aqui especial destaque essa casa por ter sido a pri­
meira construída em Uberaba. Fê-Ia o Major Antônio Eustáquio
da Silva e Oliveira, em 1808, quando residia em sua chácara "Boa
Vista" (Instituto Zootécnico) para servir de retiro, onde mantinha
a sua criação de suínos.
UBERABA: HISTÓRIA, FATOS E HOMENS 21

Mais tarde quando o povoado das nascentes do Lajeado foi sen­


do transferido para a margem esquerda do Córrego da Laje e que
as construções se foram aumentando no alinhamento da primeira
casa para formar as atuais Praça da Matriz e Ruas Municipal e
Vigário Silva, o proprietário ali fundou a primeira oficina de fer­
reiro, hàbilmente dirigida pelo seu escravo Manuel Ferreiro. Por
esta razão, até 1832, quando morreu o Major Eustáquio, aquela
casa era conhecida pelo nome de Tenda. Construída de excelentes
madeiras tiradas do capão de mato que existiu em os fundos do·
quintal, até hoje tem resistido a ação destruidora do tempo. Con­
tribuiu ainda para isso uma série de reformas porque tem até hoje
passado. Depois do falecimento do Major Eustáquio, nela residiu
por longo tempo, o seu genro Capitão José Tomás de Miranda
Pôrto, até 1842, em seguida também o Alferes Silvestre da Silva e
Oliveira.
Algum tempo depois nela se instalou o Cap. José Maria de
Alvarenga.
Adquirindo-a mais tarde o Comendador Elói e enviuvando-se
logo, em inventário a casa saiu a cinco de seus filhos, dos quais,
à medida que se habilitavam, foi o Tenente-Coronel Sampaio ad­
quirindo por compras as partes, até que a última se realizou em
1884. Em 1874 fêz o sobrado bem como o puxado da Rua do Co­
mércio e outros dependências tais como se encontram hoje.
Nessa casa nasceram todos os seus filhos e netos.
Apenas naturalizado cidadão brasileiro passou a exercer o
cargo de curador geral de órfãos do Têrmo de Uberaba, cargo êsse
que até a sua morte desempenhou com justiça. Antes, em 1850 já
o exercia interinamente, porém o título de 20 de abril de 1854 o
nomeou vitaliciamente. Apesar de desempenhá-lo com todo o
critério e hombridade, não escapou de ser vítima das iras políticas
em 1861, quando em viagem de recreio no Rio de Janeiro, ao che­
gar em Niterói foi detido em virtude de um mandato de prisão
expedido desta cidade, acusando-o de haver exorbitado das atri­
buições regulamentares e exigido maior soma que a taxada para
pagamento de custas, e como concessor. - A Relação no Rio, para
quem êle logo recorreu, julgou sem bases a pronúncia e anulou
todo o processado.
A sua nomeação para o cargo de curador geral de órgãos obri­
gou-o a estudar sempre questões de Direito e com êsse hábito foi
adquirindo livros que sempre manuseava e lia até que conseguiu
tomar-se advogado de reconhecido mérito, valendo-lhe por isso a
concessão de um título de advogado provisionado em tôda a an­
tiga Província, hoje Estado de Mínas, por uma provisão datada
de 6 de fevereiro de 1856.
O título de 20 de outubro de 1S60 o nomeou advogado no fôro
eclesiástico da diocese goiana.
A 28 de março de 1863 foi nomeado comissário vacinador do
Município de Uberaba e por 25 anos desempenhou êsse cargo.
22 BORGES SAMPAIO

A sua tenacidade e dedicação ao estudo foram tais, que, tendo


apenas recebido ligeira instrução na escola pública de sua terra
natal, chegou pela leitura constante a fazer-se homem de letras,
advogado, jornalista, historiógrafo, etc. Os seus cabedais cientí­
ficos foram adquiridos nas horas vagas do seu trabalho diário.
Desde que abandonou a escola sempre reservou uma hora para ser
consagrada à leitura : lia de tudo. - Em Uberaba deixou êle a
maior biblioteca que se conhece.
Firme e criterioso nos seus pareceres, foi por isso vencedor em
questões de Direito. Inúmeros dos seus pareceres correram im­
pressos nas revistas forenses. - O Forum publicou e adotou alguns
de seus pareceres como doutrina e outros como jurisprudência.
Ainda como homem da Justiça são inúmeros os seus serviços.
Durante três anos exerceu o cargo de promotor de capelas e re­
síduos; cujo ato do Govêrno nomeando-o
'
para isso é datado de 22
de dezembro de 1854. Anteriormente já êsse cargo havia ocupado
por espaço de 18 meses.
Foi promotor público adjunto e promotor público efetivo des­
ta comarca; o primeiro ato desta nomeação é datado de 14 de
fevereiro de 1873 e o último de 28 de julho de 1879. Durante seis
anos desempenhou o último sem interrupção.
Os atos do Govêrno, datados de 31 de outubro de 1870, 4 de
maio de 1871 e 9 de abril de 1872, o nomearam contador e dis­
tribuidor interino neste têrmo.
Eis, em suma os seus serviços prestados na ordem judiciária.
Os seus atos sempre foram pautados pela mais severa justiça,
contribuindo êsse seu _ modo de ação para em mais elevado grau
lhe firmar os foros de hábil advogado. As causas que julgava per­
didas, não as aceitava porque lhe doía na consciência de homem
probo, honesto, o sacrificar as partes em proveito de sua bôlsa :
expunha-as e mandava em paz o cliente.
Como braço protetor da instrução, os serviços a ela prestados
pelo Coronel Sampaio são de natureza· relevantes. Visando sim­
plesmente tornar a sua segunda pátria um centro de luzes é assim
que o vimos à frente de importantes cargos de nomeação do Go­
vêrno, os quais desempenhou na altura de seu caráter de modo
brilhante e eficaz. A portaria de 15 de julho de 1852 o nomeou
visitador das aulas públicas desta então Paróquia de Uberaba.
Mais tarde o ensino sendo reformado, nôvo ato do Govêrno de Mi­
nas, datado de 16 de julho de 1854, o nomeou para o mesmo cargo.
O 139 círculo literário, que compreendia esta circunscrição,
teve-o como seu diretor suplente desde 21 de fevereiro de 57 até
19 de janeiro de 1859, quando passou a exercer o de diretor efe­
tivo.
Sofrendo nova reforma a instrução pública passou a exercer
o cargo de fiscal da 1 a agência parcial do 109 distrito literário.
O zêlo no desempenho dêsses importantes cargos foi sempre
inexcedível e a prova é que mereceu da parte do Govêrno enco-
UBERABA: HISTÓRIA, FATOS E HOMENS 23

miásticos elogios como atestado da sua dedicação e amor ao tra­


balho.
Não param aqui os serviços que ainda prestou à instrução
pública em Uberaba o Coronel Sampaio. Foi inspetor suplente
municipal quando nova regulamentação foi introduzida na ins­
trução em Minas. O ato do Govêrno nomeando-o para o exercício
dêste cargo é datado de 1 de maio de 1861.
A febre de reformas da instrução em Minas continuando, deu
lugar a que mais uma vez sofresse alteração o ensino. Em conse­
quência disso passou o Coronel Sampaio a exercer o cargo de
delegado da diretoria geral da instrução do Distrito de Uberaba,
por ato datado de 27 de julho de 1867.
Foi nomeado inspetor do 13<> círculo literário da Comarca do
Paraná, cuja sede era Uberaba, por ato do Govêmo, datado de
31 de outubro de 1867.
No ano seguinte o velho servidor da pátria viu-se, de mod.b
brusco, despojado dêsse cargo em virtude de se haver elevado o
partido que na política lhe era adversário. As iras dos conserva­
dores se descarregaram sôbre os liberais e na sua passagem, não
perdoaram a demissão do nosso pranteado extinto. Intransigente,
intemerato e paciente, aguardou a ordem dos acontecimentos,
não tardando que o Partido Liberal, aquêle mesmo que na política
com tanto ardor defendia, de nôvo se elevasse sendo então rein­
tegrado no cargo de inspetor desta paróquia por ato de 16 de junho
de 1881. Nêsse pôsto se conservou até 12 de abril de 1883 quando
foi nomeado inspetor municipal da instrução em Uberaba, cargo
êsse que exerceu simultâneamente com o de Diretor da Escola Nor­
mal da mesma cidade, por espaço de dois anos no fim dos quais
exonerou-se a pedido.
De 26 de junho de 1889 a 24 de outubro de 1890 voltou a ocu­
par a Diretoria da Escola Normal. Antes, em 12 de setembro de
1890, não aceitou a sua reintegração ao cargo de inspetor muni-
cipal para o qual novamente havia sido nomeado. -
Tudo isso f êz o Coronel Sampaio em prol da instrução em
Uberaba, e não obstante, houve quem levasse ao recinto da Câ­
mara Mineira dos Deputados uma infame calúnia tentando ma­
cular-lhe o brilho. Como em todos os terrenos a mentira deve ser
espezinhada, teve êle na pessoa de Cândido Cerqueira, deputado, o
defensor, desta injusta acusação.
Isso ainda mais serviu para elevar o Coronel Sampaio no con­
ceito popular, aumentando-lhe o número de amigos e admiradores.
Enfim foi mais um ponto brilhante da vida do ilustre lusi­
tano, a luzir eternamente, escarnecendo das misérias das almas
pequeninas.

Destacando por categorias os serviços que prestou o Tenente­


-Coronel Antônio Borges Sampaio a Uberaba, falaremos agora da
24 BORGES SAMPAIO

sua ação como órgão superior da garantia pública, isto é, - o


homem militar e da polícia.
Neste honroso pôsto exerceu, em virtude do ato de 29 de ja­
neiro de 1853, o cargo de suplente do sub-delegado de polícia desta
então vila, até 13 de fevereiro de 1854.
Por espaço de quase dois anos exerceu o cargo de 59 suplente
do delegado de polícia, em virtude do ato de 4 de junho de 1864
e mais tarde, desde 8 de fevereiro de 66 até 15 de setembro de
1868, exerceu o de 4<> suplente do mesmo.
Quando investido dessas nomeações nunca aproveitou da oca­
sião para exercer tanto vinganças particulares como políticas. Se
algumas tivesse a cobrar, deixava que naturalmente isso se desse,
em virtude do conhecido prolóquio : quem com ferro fere . . . e
contentava-se em dizer que tudo tem o seu tempo.
Tal foi a sua divisa e modo de conduta.

Por ato de 1 de junho de 1859 foi nomeado tenente-cirurgião


do 32<> batalhão do serviço ativo do Município de Uberaba, cujo
comandante superior era o Comendador João Quintino Teixeira.
O decreto ·de 7 de junho de 1865 nomeou-o tenente-coronel
chefe do estado maior do comando superior da Guarda Nacional
de Uberaba e Prata.
Havendo-se declarado a guerra entre o Brasil e o Paraguai,
foi o Tenente-Coronel Sampaio autorizado por uma portaria da­
tada de 17 de junho do mesmo ano, a entrar em exercício, antes,
de receber a patente, por assim o exigirem as circunstâncias, na
reunião de fôrças para o Mato Grosso.
Nesta tormentosa crise por que passava a Nação Brasileira,
ainda mais se acentuou o seu patriotismo, na organização de con­
tingentes em demanda àqueles campos de batalhas e onde a "in­
dômita coragem do soldado brasileiro" foi posta em evidência, ape­
sar do insucesso da expedição da Laguna.
A lei de 1874 reduzindo o quadro dos oficiais nos comandos
superiores agregou o Tenente-Coronel Sampaio.
Até aqui o homem empenhado na garantia da boa ordem;
vejamo-lo agora como homem de letras. Neste nobre e invejável
tentâmen encarregou-se de perpetuar pela pena tôdas as pulsa­
ções de sua segunda pátria: - Uberaba, que, como filha adotiva
lhe seguiu o desenvolvimento, registrando em diversos periódicos
do Rio de Janeiro, sem falarmos nos locais, apreciadas crônicas
talhadas
, .
em estilo belo, conciso e destituídas de banalidades lite-
rarras.
Dentre os periódicos em que colaborou figura, em primeiro
lugar, o Correio Mercantil, do Rio de Janeiro, diário redigido pelo
Conselheiro Francisco Otaviano de Almeida Rosa, em 1850. Du-
UBERABA: HISTôRIA, FATOS E HOMENS 25

rante alguns anos nêle colaborou com assiduidade até que cessasse
a sua publicação.
Mais tarde, entre os anos de 1857 a 1860, colaborou nos pe­
riódicos semanários - A Nação e O Fluminense, editados em Nite­
rói, sob a direção e redação do Dr. Carlos Bernardino de Moura.
Nestes últimos jornais publicou interessantes artigos relativos à
fundação, comêço e desenvolvimento da Bagagem cuja mineração
então se ostentava no seu mais brilhante período de atividade.
Entre os anos de 1861 a 63 escreveu artigos sôbre a política
local nos semanários fhrminenses - A Atualidade e A Reforma,
dirigidos pelo Dr. Flávio Farnesi e outros.
Foi em março ou abril de 1861 que o Tenente-Coronel Sampaio
enviou a sua primeira correspondência ao Jornal do Comércio, do
Rio de Janeiro, sendo então redator Eduardo Cussem. - Com má­
xima pontualidade exerceu êsse cargo até cair no leito da dor.
Nêsses 47 anos de trabalhos incessantes registrou minuciosamente
todos os acontecimentos desta terra, de modo que a nossa história
local existe nas coleções do decano da imprensa brasileira e po­
derá ser a todo momento compulsada.
Distribuindo bem o seu tempo consagrava as diversas horas
do dia a tôda sorte de trabalhos, sobrando-lhe ainda espaço para
descanso.
No decorrer de tão útil existência, temos visto todos os seus
dias ocupados no desempenho dos diversos cargos apontados. Para
tanto amor e abnegação ao trabalho, é mister que mais uma vez
o digamos, nenhum outro até hoje nesta cidade, desde os seus
primeiros dias, tanto fêz.
Anterior ao Coronel Sampaio uberabense algum tratou de fa­
zer esta terra conhecida. É bem verdade que em 1819, Uberaba,
segundo o testemunho insuspeito de Auguste de Saint-Hilaire, já
gozava de fama nas Comarcas de Sabará e Rio das Mortes, mas é
natural isso porque era ponto forçado de viajantes, e onde se
achava concentrado o núcleo do comércio estabelecido entre s,.
Paulo, Santos e Rio, com a Capitania de Goiás.
No entanto, nem uma simples correspondência os seus pri­
meiros habitantes se dignaram enviar a qualquer órgão da im­
prensa, onde fora houvesse, para que assim iluminasse ao histo­
riador que mais tarde fôsse ocupar de nossa terra. Não fôsse curta
ainda a vida da cidade de Tristão de Castro e, certamente, a parte
mais interessante da sua história seria ignorada.
Essa glória, bem como outras que ainda veremos, cabem tô­
das ao posso biografado, em virtude da sua incessante colaboração
nos diferentes órgãos acima indicados.
Como jornalista ainda não dissemos tudo o que foi o Tenente­
Coronel Sampaio.
Com a mesma isenção de ânimo com que sempre foi dotado,
auxiliou de modo eficaz a criação da imprensa no Sertão da Fari­
nha Podre.
26 BORGES SAMPAIO

O Dr. Henrique Raimundo des Genettes, introdutor da subli­


me invenção de Guttenberg nesta nesga de Minas, teve na pessoa
do ilustre e benemérito cidadão, o seu braço forte. Superando tô­
das as dificuldades nascidas em um meio despido de recursos de
comunicação rápida, como vimos, montaram os dois timoneiros
do progresso, uma singela tipografia, na qual imprimiram o pri­
meiro jornal semanal editado nestes sertões, em 1 de outubro de
1874, intitulado O Paranaíba.
Tendo assim o Coronel Sampaio cooperado para a fundação
da imprensa na Farinha Podre, ainda abrilhantou as suas páginas
com belos artigos vasados pela sua hábil pena.
Ao O Paranaíba, que só publicou 3 números, com êste nome,
saindo os demais com o de Eco do Sertão, redigidos pelos redatores
Dr. des Genettes e José Alexandre de Paiva Teixeira, sucederam
outros periódicos, como sejam: O Uberabense, dos Srs. Paiva Tei­
xeira, Antônio Hermógenes da Silva Ribeiro e Antônio Augusto
Pereira de Magalhães; O Progresso, do mesmo Paiva Teixeira;
Monitor Uberabense, de Joaquim Antônio Gomes da Silva e Paiva
Teixeira, etc., etc.
Em todos êstes jornais colaborou o Coronel Sampaio, tanto
em assunto político como de interêsses locais, gerais, ou ainda
sôbre conhecimentos diversos.
Durante 26 anos seguidos ocupou na Câmara de Uberaba o
lugar de vereador, isto é, desde 3 de março de 1853 até 13 de agôs­
to de 1879, quando resignou o lugar, em virtude da sua nomeação
para o cargo de promotor público de Uberaba. A corporação mu­
nicipal teve-o inúmeras vêzes como seu presidente.
Ajudado pelo professor da cadeira de Instrução Pública do 29
grau, Manuel Garcia da Rosa Terra, levantou em setembro de 1855,
o Censo da vila de Uberaba e o ofereceu à corporação municipal.
Trabalho de alto valor, serviu êle para fundamentar a Câmara no
seu pedido ao Govêrno para que a vila fôsse elevada à categoria de
cidade - o que efetivamente se realizou em 2 de maio seguinte,
Essa elevada posição que contribuiu para conquistar à odalisca
da Farinha Podre os foros de cidade, é devida quase que in totum,
ao benemérito cidadão.
A história da nossa Câmara Municipal atesta a enorme soma
de trabalhos do Coronel Sampaio na sua organização e Iegislação,
É uma das fases mais brilhantes da su~ existência, no percurso
de 1853 a 1879.
No ano seguinte foi encarregado pela Câmara Municipal de
organizar o projeto da - Nomenclatura das ruas, praças, travessas,
becos, colinas, templos, edifícios públicos, etc., da cidade de Ube­
raba, precedida do histórico do comêço, situação, dimensão e hi"'
drografia da mesma.
1tsse trabalho de reconhecido mérito, encerrando uma descri­
ção completa da então organização de Uberaba, destacando os no­
mes de todos seus benfeitores e cooperadores, gravando-os nas
UBERABA : HISTÓRIA, FATOS E HOMENS 27

placas das nossas ruas, foi aprovado em 20 de outubro de 1880.


Foi em virtude dêsse trabalho que o seu autor mereceu as hon­
ras de ser unânimemente aceito para sócio-correspondente do Ins­
tituto Histórico Geográfico do Rio de Janeiro.
A Revista do Arquivo Público Mineiro possui o original cuja
denominação é : - Nomenclatura das Ruas e Praças de Uberaba
- que reproduziu no fascículo 29 de abril a junho de 1896, página
289 e seguintes, ano 19; igualmente possui uma cópia dêsse ori­
ginal o Instituto Histórico do Rio.
A partir de então, (1880), como sócio-correspondente do Ins­
tituto, começou a colecionar documentos históricos de Uberaba e
Triângulo Mineiro e fazer remessa àquele Arquivo.
A êle se deve a importante série de publicações históricas des­
ta cidade, tôdas documentadas, algumas das quais no futuro hão
de servir para a reivindicação de direitos que se não f ôsse o seu
zêlo, estariam perdidos. Dentre elas se contam:
A Matriz de Uberaba, precedida do histórico da fundação des­
ta localidade, esclarecendo os meios de reivindicar os direitos da
Igreja, relativamente ao seu patrimônio, cuja conservação de li­
mites foi descurada por aquêles a quem cabia zelá-la.
Fundação da Santa Casa de Misericórdia, um bem elaborado
fascículo de 40 páginas, precedido do discurso que proferiu na inau­
guração do m"esmo hospital, em 14 de julho de 1898, seguido de
documentos referentes a história, com citação dos nomes de tôdas
as pessoas que concorreram para o têrmo do grande empreendi­
mento.
Estradas Primevas no Sertão da Farinha Podre. Discurso pro­
nunciado em 23 de abril de 89, por ocasião da inauguração da Es­
trada de Ferro Mojiana em Uberaba, fazendo o confronto das con­
dições dêste sertão naqueles tempos e no atual.
A Música em Uberaba. - Ligeiro golpe de vistas à cêrca da
música e corporações que Uberaba tem tido.
Nomenclatura das Ruas, Praças, etc. da Cidade de Uberaba,
de que já falamos.
Rio Paranaíba ou Parnaíba? Notícia Histórica Sôbre a Ver­
dadeira Denomtnação do Rio que Separa os Estados de Minas Ge-
rais e Goiás.
o Sertão da Farinha Podre - Triângulo Mineiro. Breve apa­
nhado histórico do 'I'riângulo Mineiro e seu desenvolvimento até
1907, constando de uma brochura de 18 páginas cheias.
Discurso recitado ao inaugurar-se o Clube Literário Uberabense,
em comemoração ao terceiro centenário de Camões, na noite de
10 de junho de 1881.
Biografias :
Do Cônego Hermógenes Cassimiro de Araújo Bruonswíck, Vi­
gário do Desemboque, precedida da história do comêço e fundação
desta localidade.
28 BORGES SAMPAIO

Do Capitão Joaquim Antônio Rosa.


Do Tenente-Coronel Francisco Rodrigues de Barcelos.
Do Capitão João Batista Machado.
Do Dr. Tomás Pimentel de Ulhoa. (Ligeiras notas biográficas).
De Frei Eugênio Maria de Gênova, fundador da Santa Casa
de Misericórdia de Uberaba.
Do Barão da Ponte Alta (Antônio Elói Cassimiro de Araújo).
Do Major Joaquim José de Oliveira Pena.
Do Comendador José Bento do Vale.
E outras de notáveis uberabenses.
Ainda do Tenente-Coronel Sampaio existem interessantes tra­
balhos que correm impressos, tais como:
Discurso Pronuncíado por ucasião da Inauguração da Luz
Elétrica em Uberaba e uma grande série de publicações avulsas,
pelos jornais.
Foi pouco dado às Musas; dêle só conhecemos uma poesia em
sete quadrinhas, intitulada "As Loterias", publicada à página 145
do Almanaque Uberabense de 1903.
Durante 30 anos se dedicou ao estudo da climatologia desta
cidade, conseguindo afinal estabelecê-la de modo a ser aceita por
sábios como Draenert e Cruls.
Publicou o Coronel Sampaio em resumo das suas observações
meteorológicas, interessante Quadro Demonstrativo das Máximas,
Mínimas, Médias e Oscilações Meteorológicas Feitas em Uberaba,
Durante o Quinqüênio de 1892 e 1896, Seguido de Algumas Pon­
derações, que facilitam por um simples golpe de vista a compre­
ensão da nossa climatologia. Esta publicação consta de duas edi­
ções, sendo a última a mais exata.
Não foi senão com enormes dificuldades que conseguiu êle
munir-se de todos os aparelhos meteorológicos, indispensáveis às
suas observações porque muitos dêles, trazidos nos costados de
muares, aqui chegavam inutilizados.
Em 20 de março de 1889, vindo a esta cidade o Conde d'Eu,
uma das poucas casas particulares que visitou foi a do ilustre Co­
ronel Sampaio. Sabendo o conde que ali existia um observatório
meteorológico desejou vê-lo. Objetou o coronel que os aparelhos
estavam em um alpendre elevado no pátio da casa e que era di­
fícil o seu acesso. A isso, respondeu o real hóspede - não, lhe ser
difícil lá ir visto como já tinha sido marinheiro.
O Hospital de Misericórdia, obra do benemérito franciscano
Frei Eugênio, foi conservado e a sua posse conquistada - dispu­
tada mesmo - pelo Coronel Sampaio, para o objetivo a que havia
sido criado pelo religioso franciscano. Morto êste instou até obter
do então Ministro da Fazenda Zacarias de Góis e Vasconcelos,
uma ordem, autorizando-lhe a entrega do prédio e valores arreca . .
dados, à mesa administrativa da qual fazia parte, no exercício do
cargo de secretário desde 14 de julho de 1871 e continuou depois
até 3 de maio de 1896.
UBERABA: HISTóRIA, FATOS E HOMENS 29

Por iniciativa do Tenente-Coronel Sampaio foi que em 23 de


janeiro de 73 se reuniu nesta cidade a comissão encarregada de
contratar com o relojoeiro Florêncio Forneri o assentamento, em
uma das tôrres da Igreja Matriz, de um regulador público cuja
inauguração teve lugar a 20 de janeiro do ano seguinte.
A comissão compunha-se dos senhores Coronel Antônio Bor­
ges Sampaio; Revdo. Vigário Carlos José dos Santos; Comendador
Antônio Elói Cassimiro de Araújo; Major Francisco Rodrigues de
Barcelos; Major Joaquim José de Oliveira Pena; Capitão José Ben­
to do Vale; Luís Soares Pinheiro e Capitão Manuel Rodrigues da
Cunha.
A direção oficiosa dêsse regulador esteve desde o dia de sua
inauguração até 7 de janeiro de 1888 a cargo do Coronel Sampaio,
que dêle zelava cuidadosamente, trazendo-o armilado díàriamente
pela hora local. A partir da sua saída da direção do relógio pú­
blico, nunca mais se teve a hora certa. Atualmente hora em Ube­
raba é regulada pela de S. Paulo, ou seja 12 minutos antes da
nossa.
Por ato de 9 de dezembro de 1875 foi nomeado comissário pa­
roquial.
Foi nomeado agente do correio de Uberaba por ato de 2 de
julho de 1852. Ocupou êsse cargo até fevereiro de 1857.
Como eleitor e jurado serviu desde 1852 até 1889.
O decreto de 25 de abril de 1868, emanado do Govêrno Im­
perial condecorou o Coronel Sampaio com a nomeação de Cava­
lheiro da Ordem de Cristo.
Em abono aos seus reais méritos, ei-lo fazendo parte de im­
portantes associações literárias, beneficentes, propagandistas, etc.;
como sócio remido da Associação Auxiliadora da Indústria Nacio­
nal, ao lado de Nicolau Moreira, desde 1861; membro do Clube
Abolicionista do Prata: membro da Sociedade Auxiliadora do Prata;
sócio fundador do antigo e extinto Clube Literário Uberabense, que
lhe valeu merecer da Associação Industrial do Rio de Janeiro, um
diploma em 1881, corno expositor dos nossos produtos, conferido
como digna mensão honrosa; sócio efetivo eleito por unanimidade
de votos do Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro;
sócio efetivo do Instituto Histórico de São Paulo, em 1899; cor­
respondente oficial da Revista do Arquivo Público Mineiro; sócio
correspondente por unanimidade do Centro de Ciências, Letras e
Artes, da cidade de Campinas, desde 1902; sócio efetivo por una­
nimidade de votos do Grêmio Literário Bernardo Guimarães, desta
cidade, desde 1904; etc.
Como homem político o Coronel Sampaio foi um franco luta­
dor, mas lutador sincero. Nos elevados postos que sempre ocupou,
nunca dêles se valeu para tirar desforços dos seus adversários. Não
obstante isso, foi sempre perseguido. Os seus contra-partidários
nêle reconheciam o homem de rija têmpera, capaz de tudo su­
portar. Por vêzes, nada menos de três, viu a sua vida seriamente
30 BORGES SAMPAIO

ameaçada pelo braço inimigo. Mas o Onipotente sempre se lhe


manteve ao lado, salvaguardando-o de todos êsses tremendos em­
bates, prolongando-lhe a preciosa vida para exemplo do homem a
quem a Justiça nunca desampara.
Na política, como dissemos, sempre militou ao lado dos libe­
rais. Em 1872, considerável número de políticos liberais organi­
zou um diretório, que assim ficou composto : Barão da Ponte Alta,
Comendador José Bento do Vale e Major Joaquim José Umbelino
Souto. Êste diretório funcionou regular e ininterruptamente até
15 de novembro de 89 e o Tenente-Coronel Sampaio prestou ao mes­
mo, como membro, assinalados serviços.
A partir dêste dia deixou o Coronel Sampaio a política, re­
colhendo-se à vida privada, para somente viver com a sua família
e amigos particulares.
Comparecia pontual e corretamente aos atos solenes em que
era convidado a tomar parte. Modesto, porém, no trajar.
Deixou há anos de frequentar espetáculos noturnos, por ter
presenciado um lamentável incidente havido no decurso dos tra­
balhos ginásticos.
Não era homem afadigado nos seus atos, o que certamente
contribuiu para a sua longevidade.
De seu matrimônio com a Exma. Sra. D. Maria Cassimira de
Araújo, nasceram três filhos:
Frei Hermógenes de Araújo Sampaio, nascido em 1850, pro­
fesso da Ordem de São Bento, e falecido nesta cidade em 14 de
julho de 1888;
Joaquim, falecido em pequeno e
Zeferino Sampaio, nascido nesta cidade em 1853, casado com
a Exma. Sra. D. Rufina Maria de Sampaio, filha do saudoso Co­
ronel Raimundo Soares de Azevedo, falecida nesta cidade em 18
de janeiro de 1906. Dêste matrimônio nasceram quatro filhos .que
são os jovens : Hermózenes e Antônio Sampaio, que atualmente
são auxiliares na redacão do Jornal do Comércio, do Rio; José Ma-
:,

ria Sampaio, conceituado empregado de Uberaba e a senhorita


. Maria da Conceição Sampaio.

Eis nestas ligeiras linhas o que foi o velhinho querido que


para sempre desapareceu das nossas vistas.
Não desapareceram e nem entretanto desaparecerão de nosso
espírito a sua saudosa memória e o legado de suas lições de moral,
civismo e independência.
Se mais provas quiséssemos ter do valor e da consideração
de que em nosso meio gozava o Coronel Sampaio, bastava que so­
mente lembrássemos que o grito de dor saído da primeira bôca,
após o seu passamento, foi repetido incessantemente em todos
os santos desta cidade e à sua residência que em dentro em pouco
UBERABA : HISTÓRIA, FATOS E HOMENS 31

deixaria, começou um constante afluir de gentes de tôdas as clas­


ses da nossa sociedade, como que querendo se certificar se era
ou não verdade.
A morte dêsse gigante no trabalho, tipo do homem honesto,
foi mais abreviada ainda pela irreparável perda da sua idolatra­
da espôsa, companheira inseparável de 58 anos, aos 10 de setem­
bro p. passado.
A partir dêsse dia o carinhoso coração do pranteado morto
cobriu-se de luto, o almo sorriso deixava transparecer no íntimo
profundo desgosto e mui raras vêzes o vimos percorrer, como era
velho costume seu, as ruas desta cidade, que quase viu nascer e
prosperar, chegando ao que hoje é.
O seu saimento, acompanhado por mais de 800 pessoas de
tôdas as classes sociais de Uberaba, as duas bandas de música,
etc., foi o mais concorrido que até então aqui se havia presenciado
e teve lugar às 5 horas da tarde daquêle mesmo dia.
Sôbre o féretro pendiam numerosas coroas da família, ami­
gos e admiradores. O seu corpo depois de solenemente encomen­
dado na Matriz e Igreja do Sagrado Coração, seguiu em carro
fúnebre ao Cemitério do Brejinho, em cujo necrotério permaneceu
exposto até a manhã do dia seguinte, por haver ali chegado com
a noite fechada.

Resta-nos, a nós que por estreitos laços de parentesco e ami­


zade fomos ligados ao ilustre morto, depor, como tributo de eterna
gratidão sôbre o túmulo que encerra tão preciosas cinzas, a nossa
modesta coroa de saudades umedecida pelas lágrimas do coração.

Uberaba 1908.

(i11 Almanaque Uberabense para o Ano de 1909.


Uberaba, Livraria Século XX - Editôra, págs.
VII/XXXI)
TENENTE-CORONEL SAMPAIO

nota editorial do Almanaque Uberabense

Continuando a publicação do Almanaque Uberabense, ocorreu­


nos a lembrança de ilustrá-lo cada ano com o retrato de algum
cavalheiro que tenha feito jus a esta distinção.
Neste propósito, começamos pelo do Tenente-Coronel Antônio
Borges Sampaio, porque nenhum encontramos mais digno de abrir
a nossa galeria.
Vivendo desde a infância nesta cidade, sua segunda pátria,
onde constituiu família, mais do que ninguém êle tem contribuído
com o seu talento, esforços e atividade para a prosperidade de Ube­
raba, que desde bebé tem crescido à sua vista até assumir as pro­
porções que hoje vemos.
O Tenente-Coronel Sampaio velou a infância de Uberaba,
acompanhou o seu crescimento, tratou-a nos incômodos da denti­
ção, registrou, por assim dizer, as pulsações de sua artéria e ar­
quivou até os mais insignificantes acontecimentos locais.
A cidade cresceu, avultou, galgou vales e outeiros, tornou-se
a donairosa odalisca do Triângulo Mineiro, e êle, o filho adotivo,
já meio vencido pela idade e por insanos labores intelectuais, aí
está, alma aberta a tôdas as expansões do bem, protótipo da ho­
nestidade, exemplo de virtudes cívicas, ídolo da população, que
em determinadas épocas vai levar-lhe merecidas provas de afei­
ção, que êle recebe comovido ao som das filarmônicas da terra e
debaixo de chuva de flôres atiradas por álacre batalhão infantil.
A estreiteza do prazo para prontificação de autógrafos con­
trariou o desejo que tinham os empresários do Almanaque de dar
minuciosa biografia do Tenente-Coronel Sampaio, a quem pedimos
desculpa pela deficiência dêste sintético apanhado.

(Almanaque Uberabense para o ano de 1903. Ube­


raba, Livraria Século XX - Editôra, pág. 71)"
TENENTE-CORONEL ANTóNIO BORGES SAMPAIO

Atanásio Saltão

Nasceu em Valença do Douro (Portugal) lá pelo ano de 1826.


Ficando órfão de pai e mãe, em mui tenra idade, aos seis anos,
encarregou-se de lhe guiar os primeiros passos na vida um seu tio
por afinidade, que lhe dedicava muita afeição.
Bastante rudimentar foi a instrução que recebeu em Gouvães
do Douro, onde residia o seu protetor, pois o professor régio que
havia no lugar era um tanto semelhante a muitos professôres pú­
blicos que ainda hoje temos cá por êste sertão de Minas.
Aos dezesseis e meio anos de idade resolveu-se a vir para o
Brasil, onde contava obter boa colocação; e embora o tio se mos-,
trasse contrariado com a sua resolução, e lhe desse conselhos para
que não pensasse em tal viagem, o menino persistiu fiel ao seu
intento.
E partiu.
Chegado a Santos, logo se lançou no labirinto do comércio,
sem outras recomendações mais do que a sua probidade e o seu;
forte amor do trabalho.
Ali caixeirou em uma importante casa de sal, durante três
anos, sempre estimado do seu patrão que o tinha em muita conta,
pois o rapaz, além de ser um empregado muito ativo, a todos
cativava pelo seu trato delicado.
No fim daquele tempo, isto é, em 1847, veio até esta cidade,
então vila, e aqui ficou à frente ~e uma casa de comércio de sal,
estabelecida por seu mesmo patrao que com êle também viera de
Santos.
Resolvido, porém, a negociar aqui por sua própria conta, par­
tiu para Santos no fim daquele ano. O negociante de sal, ao saber
da resolução do seu excelente empregado, sentiu bastante, mas
não teve remédio senão embolsá-lo do saldo que tinha na casa.
Quando de lá voltou foi, com efeito, estabelecer-se na Ponte·
Alta, onde negociou algum tempo, vindo, pouco mais tarde, fixar
residência nesta cidade onde se acha há 58 anos.
36 BORGES SAMPAIO

Em 1851 fundou aqui uma farmácia, que não há muitos anos


ainda existia sob administração do seu ilustre filho, o Sr. Zeferino
Sampaio, a quem êle a passou, por ocasião de obter a sua profissão
de advogado, em 1856, continuando, porém, sob a sua fiscalização
imediata até mais tarde.
Como dissemos acima, a bagagem literária de nosso bíogra­
f ado, quando se retirou de sua pátria, era muito escassa. Entre­
tanto, tal era o desejo que, tinha de aprender, tal a sua fôrça de
vontade, que nas horas que lhe sobravam do trabalho se dedicava
aferradamente ao estudo, conseguindo tornar-se um perito advo­
gado, cujos méritos foram sempre reconhecidos por bacharéis de
alta competência jurídica.
E não é 3Ó como advogado que êle tem sobressaído.
Também na imprensa se tem salientado. .
As suas cartas para o Jornal do Comércio, do qual é corres­
pondente efetivo desde 1861, são bastante conhecidas. Nelas tem
relatado e analisado com muita proficiência fatos desta cidade, e
não poucas vêzes temos visto muitas delas transcritas em outros
• •
Jornais.
Essas cartas reunidas, por si sós bastariam para formar em
grande parte a História de Uberaba.
Bom é que digamos de passagem que a redação do grande ór­
gão fluminense, tem feito honrosas referências do seu correspon­
dente a quem muito considera.
No Arquivo Público Mineiro, bem como nas páginas da Re­
vista do mesmo Arquivo e nas da Revista do Instituto Histórico e
Geográfico do Rio de Janeiro, do qual é membro, se acham muitos
e interessantes trabalhos da sua lavra. Entre outros vamos citar
alguns que nos vêm agora à lembrança : - Fundação da Santa
Casa de Misericórdia de Uberaba; - A Matriz de Uberaba; - Es­
tradas Primevas no Sertão da Farinha Podre; - A Música em
Uberaba; - Nomenclatura das Ruas, Praças etc. da Cidade de
Uberaba; - Rio Paranaíba ou Parnaíba ? Notícia Histórica Sôbre
a Verdadeira Denominação do Rio que Separa os Estados de Mi­
nas e Goiás; - Biografias do Cônego Hermógenes Cassimiro de
Araúj? Bruonswick, Vigário do Desemboque, do Tenente-Coronel
Francisco Rodrigues de Barcelos; do Capitão Joaquim Antônio
Rosa, e de outros homens notáveis dêste lugar .
.Dedicad? a estudos climatológicos, pôde chegar a estabelecer
a climatologia desta cidade. E as suas observações meteorológicas
· têm sido aceitas por sábios da altura de Cruls e Draenert.
Cumpre-nos falar também aqui sôbre a sua ação pela justiça.
!rovido vi~liciamente no cargo de curador geral dos órfãos
do !ermo de Ubera~~' em 1854, até hoje ainda exerce êsse emprêgo
cheio de responsabilidades, sem que jamais se tenha reclamado
contra os seus pareceres, muitos dos quais se acham estampados
na notável revista jurídica - o Forum.
UBERABA: HISTôRIA, FATOS E HOMENS 37

No referido ano foi nomeado, por três anos, promotor de ca­


pelas e resíduos.
Em 1873 mereceu a nomeação de promotor público adjunto,
e mais tarde, em 1879, a de promotor público efetivo desta comar­
ca, tendo exercido ininterruptamente êsse cargo por mais de seis
anos, havendo-o já exercido interinamente por diversas vêzes, sem­
pre com muito brilho e correção.
· Nomeado tenente-cirurgião do 32Q batalhão do serviço ativo
no Município de Uberaba, em junho de 1859, ocupou êsse pôsto até
1865, ano em que foi elevado ao de tenente-coronel chefe do es­
tado maior do comando superior de Uberaba e Prata.
Foi nesse tempo que muitos serviços prestou à causa pública
a que se dedicou de todo o coraçâo, Foi nessa época de tão tristes
recordações para a nação que se achava empenhada na terrível
guerra com o Paraguai, que o Tenente-Coronel Sampaio se re­
velou verdadeiro amigo do Brasil, de que havia feito sua segunda
pátria, pois foi êle quem muito concorreu também pelo seu patrio­
tismo, para animar a sempre lembrada expedição à Laguna onde
os nossos soldados se mostraram de uma bravura inexcedível.
Na política também militou com honra, sendo no antigo re­
gímen filiado ao Partido Liberal. E por causa dela bastantes dis­
sabores sofreu, sendo pelo partido adver:so, que nêle via um Iu-.
tador terrível, muitas vêzes acusado injustamente, e não só acusa­
do mas perseguido, tendo até uma vez escapado milagrosamente
à morte.
Entretanto êste homem, que era um adversário leal, nunca
tentou se vingar dos seus inimigos políticos, recusando até oíere­
cimen to que lhe faziam seus amigos para exigirem por êle um
desfôrço das afrontas recebidas.
Proclamada a República, o Tenente-Coronel Sampaio aban­
donou completamente a política, não tendo, porém, deixado de se
.interessar por tudo que diz respeito ao progresso do Brasil que
ama estremecidamente, como estremecidamente ama esta cidade
a que tem prestado mui relevantes serviços.
Para não tocar noutros mencionaremos apenas aqui a Santa
Casa de Misericórdia que muito e muito lhe deve, pois foi êle quem
conseguiu conservar a obra do Frei Eugênio, seu fundador, tal qual
como foi planejada, e para os fins exclusivos a que êste a destinou.
Depois da morte do benemérito frade o Tenente-Coronel Sampaio
esforçou-se por obter e obteve do então Ministro de Estado Zaca­
rias de Góis e Vasconcelos, uma ordem que mandava entregar não
só os valores arrecadados, como o prédio, à mesa administrativa da
qual fazia parte o digno membro que ali exerceu o cargo de se­
cretário por espaço de vinte e cinco anos, isto é, de 1871 a 1896.
São dignos de nota os seus trabalhos de organização e legis­
lação da Câmara Municipal da qual foi vereador, ora suplente ora
efetívo, desde 1853 até 1879, data em que foi nomeado promotor
38 BORGES SAMPAIO

público, tendo muitas vêzes sido eleito presidente da mesma cor-


-
poraçao,
Em 1855, auxiliado pelo Professor Terra, levantou o censo da
vila de Uberaba. ~sse importante trabalho, que ofereceu à Câ-·
mara Municipal, serviu de base para o pedido de elevação da vila
à cidade, o que se efetuou no ano seguinte, 1856.
De modo que se pode dizer que essa elevação é devida, em
grande parte, ao Tenente-Coronel Sampaio.
Os seus grandes méritos lhe valeram muitas honras. Assim
é que o vemos sócio remido da Associação da Indústria Nacional;
membro honorário da Sociedade Auxiliadora da Prosperidade do
Prata; membro honorário do Clube Abolicionista do Prata; mem­
bro da Associação Industrial do Rio de Janeiro (1881); sócio fun­
dador do antigo e extinto Clube Literário Uberabense; sócio efe­
tivo, eleito por unanimidade, do Instituto Histórico e Geográfico
de S. Paulo ( 1899) ; sócio correspondente, também eleito por una­
nimidade, do Centro de Ciências, Letras e Artes da cidade de Cam­
pinas (1902).
O Govêrno Imperial também o condecorou com a nomeação
de Cavalheiro da Ordem de Cristo, galardeando assim, em 1868,
os serviços que patriótica e desinteressadamente já havia êle pres­
tado ao país.

Eis aí o homem público ...

Do homem particular, do patriarca de Uberaba só temos que


dizer que é um pai de família modêlo, (casou-se em Minas em 1849
em uma das mais distintas famílias); um coração puríssimo e um
caráter sem mácula. Ninguém. mais do que êle tem o direito de
se encher de orgulho muito justo.
. Vive, ~pesar da idade, para o trabalho; vive para a família que
idolatra; vive para Uberaba que ama estremecidamente, e que sabe
lhe pagar na mesma moeda, pois o adora com desentranhado afeto.

E aqui pomos um ponto.

Se algumn cois~ esquecemos de dizer a seu respeito, dissemos


e~tretant~ o necessarto para cumprir. o nosso tríplice dever de ad­
m1rad_?r s1ncer~, de amigo verdadeiro e de companheiro de cola­
boraçao da Revista de Uberaba que êle tem iluminado com os seus
belos escritos tão justamente apreciados.

(in Revista de Uberaba, nQ 12. Uberaba, março 1905)


BORGES SAMPAIO

Azevedo Júnior

O nome dêste uberabense pelo coração chegou até mim pela


tradição oral dos que o conheceram e pelo que êle escrevia.
Seus traços físicos, eu os vi num retrato, os cabelos de neve,
a barba curta e branca, olhos desferindo olhar enérgico, de quem
se acostumou
. ,.,,,, . . a lutar, na vida, conquistando, palmo a palmo, as
posiçoes socrais.
O que êle era no seu viver cá de fora e no seu viver íntimo, -
soube-o pelas conversas, as minhas longas e saudosas conversas
com Artur Lôbo, indagando eu de coisas e homens de Uberaba.
E para nós, os jornalistas mineiros, o extinto de algumas ho­
ras era simplesmente, cariciosamente, o "Sampaio", o decano da
classe, o infalível correspondente do jornal, do Rio, o antigo lida­
dor do liberalismo, o lusitano que, no fulgor dos lindos dias pri­
maveris, veio aportar a esta terra, em cujo seio adormeceu, em
pleno inverno, magoado os seus afetos pela perda de quem, por
tantos e tantos anos, fôra a solícita companheira.
Ninguém dos que em Minas redigem gazetas desconhecia o
nome de Borges Sampaio, em quem todos víamos o pertinaz pio­
neiro da Farinha Podre, o espírito vivace que se comprazia nos
estudos históricos, nas indagações do passado, e, na imprensa,
nenhum outro fêz tanto quanto êle por Uberaba e por esta exten-
, .
síssima zona.
Contava-me Artur Lôbo os _cuidados no arranjo de tudo que
o velho Sampaio tinha a fazer, as minúcias dos seus trabalhos,
.0 respeito cultural às tradições e às usanças, parecendo-nos, a nós
ambos, um dêsses homens imperturbáveis às transformações.
Era eu leitor de suas correspondências nas quais não se limi­
tava ao relato de fatos: oomentava-os, discutia-os sem paixões,
com a calma que vem a quantos pelejaram muito e acabam, afi­
nal compreendendo a humanidade ...
Os uberabenses sabem melhor do que eu haver sido Borges
Sampaio do número dos políticos do regime findo que serviram na
40 BORGES SAMPAIO

imprensa local à causa dos seus partidos, e os nomes dêsses batalha­


dores vivem agora na legenda que lhes memora os feitos.
O liberalismo do velho Sampaio jamais se extremou, creio, até
as idéias adiantadas, que não punham dúvida em trocar a coroa
pelo barrete frígio.
Se à pátria adotiva servia com dedicação, larga parte era pe­
lo Rei, consoante a frase vetusta, e o 15 de novembro não encon­
trou nêle senão um vencido, mas não um convencido.
Mérito - tinha-o êle, a ponto de, vivendo na província, para
onde de ordinário não volvem olhares as gentes do Rio, pertence
a várias associações científicas, inclusive do Instituto Histórico,
honra de que grandemente se desvanecia, disse-me Artur Lôbo.
A biografia dêsse homem, que era como que uma relíquia de
Uberaba, um veterano _diante do qual a juventude assume posição
respeitosa, e lhe aprende na longa vida - os mais significativos
exemplos de tenacidade, de coragem e de disposição para dominar
dificuldades, - é um preciosíssimo acêrvo de trabalho e de hones­
tidade.
Teve a rara fortuna de se ver homenageado na sua senectude,
e, no fundo golpe, com que a sorte o alanceou, não faz muito,
sentiu que os seus conterrâneos, porque o amassem, prodigaliza­
ram-lhe carícias para lhe consolarem a viuvez, a que não podia
resistir longamente esta alma anciã, com pouco tomando o rumo
do Além em que ela cria com a fé inabalável do verdadeiro cristão.
Do velho Sampaio fica, seja de Uberaba, seja na imprensa,
a tradição que o decorrer dos tempos mais não há de fazer que
tornar mais vivida e mais saudosa. Pertenceu a uma geração que
se batia por ideais, apaixonando-se não raro, sacrificando-se mui­
tas vêzes, e dessa geração foi êle o comentador.
Ao lidador destas justas, em que se nos vai, dia a dia, um
pouco de alento da vida, - corria-me o dever de preitear ainda
que com singeleza de palavras.
Deixa de sua pessoa imperecível memória, porque foi um tra­
b~l~ador sabendo querer bem à terra que lhe guarda os despojos,
e nao lhes negará o monumento a que tem direito.

(in Gazeta de Uberaba, Uberaba, 3/maio/1908),


BORGES SAMPAIO E A ELEVAÇÃO DE UBERABA A CATEGORIA
DE CIDADE

José Mendonça

Antônio Borges Sampaio contribuiu, decisivamente, para a


elevação da vila de Uberaba à categoria de cidade.
Vila, naquela época, era o município, com sua autonomia ad­
ministrativa, sua Câmara Municipal.
"Cidade" era um título honorífico, que se dava a uma vila de
maior desenvolvimento.
O município (vila de Uberaba) foi criado pela Lei N9 28,
de 22 de fevereiro de 1836.
E a Câmara Municipal instalou-se no dia 7 de janeiro de 1837.

Em 1855, Antônio Borges Sampaio, auxiliado por Manuel Gar­


cía da Rosa Terra, levantou o "censo" da vila de Uberaba e ofe­
receu-o à Câmara Municipal, para que esta solicitasse ao Govêrno
a elevação da vila à categoria de cidade, que se verificou pela Lei
NQ 759, de 2 de maio de 1856.
Trata-se, portanto, de uma iniciativa, de um esfôrço, de um
trabalho de Sampaio.
Que o grande e infatigável servidor de nossa terra não seja
esquecido, nas cerimônias que se projetam, para a comemoração
do centenário da cidade.

Antônio Borges Sampaio é um dos maiores benfeitores de Ube­


raba.
O nosso povo lhe deve perene gratidão, pelos extraordinários
serviços que lhe prestou.
Nesta cidade, foi farmacêutico, advogado provisionado, cura­
dor geral de órfãos, literato, jornalista, historiador:
Foi promotor de justiça e Presidente da Câmara Municipal.
42 BORGES SAMPAIO

Fêz parte de numerosas associações de letras, sociais e de elas-


ses.
Foi jornalista brilhante, tendo colaborado em quase todos os
jornais uberabenses de seu tempo, foi companheiro do Dr. Des Ge­
nettes, nas lutas da primeira fase da imprensa do Triângulo.
Trabalhou muito pelo Brasil, por ocasião da Guerra do Para-
guai.•
Desempenhou, ainda, os cargos de sub-delegado, de cirurgião
do 32<J batalhão da Guarda Nacional, de tenente-coronel da mes­
ma Guarda, de visitador das aulas públicas de Uberaba, de dele­
gado do 109 círculo literário da Comarca do Paraná, com sede nesta
cidade.
Amir,o íntimo de Frei Eugênio Maria de Gênova, prestou gran­
des serviços à Santa Casa, antes e depois da morte do seu preclaro
fundador.
Por iniciativa sua, foi colocado, em 1874, o relógio (regulador
público), numa das tôrres da Matriz.
Durante sessenta (60) anos, foi correspondente do Jornal do
Comércio, do Rio de Janeiro, nesta cidade.
Através da correspondência de Sampaio, todo o Brasil conhe­
eía a vida e os problemas de Uberaba.
Manteve, aqui, um pequeno observatório meteorológico, e es­
creveu, longamente, sôbre as condições do clima em Uberaba.
Escreveu numerosos e valiosíssimos trabalhos sôbre a História
de Uberaba.

Penso que a atual Praça Rui Barbosa deve passar a denomi­


nar-se, "Major Eustáquio"; - a Rua Artur Machado deve ter o
nome de ''Borges Sampaio"; e a atual Major Eustáquio o de "Ar­
tur Machado'' .
. Assim, !1º ~entro da cidade ficarão perpetuados os nomes de
Major E~sta.qu10 (o fundador), de Vigário Silva (o primeiro vigá­
r~o, o pruneiro Presidente da Câmara, o primeiro historiador da
cidade) e o de Borges Sampaio (o grande servidor) .

Nestas linhas, quero, apenas, prestar uma singela homenagem


a quem tanto lutou pela grandeza de minha terra.

(in Lavoura e Comércio, Uberaba, 24 maio 1956)


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NOMENCLATURA

das ruas, travessas, becos, colinas, templos e edifícios públicos da


cidade de Uberaba, Província de Minas Gerais; precedida de um
breve histórico do comêço, situação, dimensões e hidrologia
desta povoação; razões que justificam a nomenclatura agora
adotada, e outras anotações, com as deliberações da Câmara
Municipal que autorizaram a presente organização.

PELO VEREADOR

ANTôNIO BORGES SAMPAIO (*)

1880

BREVE IDSTóRICO

No fim do século passado, alguns habitantes da Província de


Minas Gerais, estabeleceram-se em diversos sítios do Julgado do
Desemboque, então despovoados, e edificaram uma capela dedicada
a Santo Antônio e S. Sebastião, que ficou sendo filial do referido
julgado.
Esta capela era situada nas cabeceiras do Córrego Lajeado, ao
lado direito dêle, cêrca de quinze quilômetros da atual cidade de
Uberaba. Dela, como das primitivas edificações, quase não se vêem
hoje vestígios.

(•) - Esta memória até agora inédita, serviu de título para a admis­
são de seu digno autor no grêmío do Instituto Histórico e Geográfico Bra­
sileiro, ao qual tem prestado excelentes serviços, como presentemente presta
ao Arquivo Público Mineiro. - (Nota da redação da Revista do Arquivo
Público Mineiro).
46 BORGES SAMPAIO

Denomínava-se, naquele tempo, de Farinha Podre o vasto e


ubérrimo território compreendido entre o ribeirão, ainda hoje co­
nhecido por - Farinha Podre -; o Rio das Velhas até a sua foz
no Paranaíba; o Rio Grande, desde a foz do Farinha Podre até a
confluência com o Paranaíba.
Ainda depois de ter sido êste povoado elevado a distrito, o
território - Farinha Podre - pertenceu à Província de Goiás; mas
a Provisão Régia de 1816 o anexou à Província de Minas Gerais.
Os poucos moradores da Capela do Lajeado transportaram-se
para a beira do Córrego da Laje, onde edificaram uma Igreja Matriz
com a mesma evocação; isto antes do povoado ter sido elevado a
distrito, fato que posteriormente teve lugar por ato do Govêrno
Geral de 13 de fevereiro de 1811.
O Decreto Real de 2 de março de 1820 elevou êste distrito à
categoria de paróquia.
A Lei Mineira N<> 28 de 22 de fevereiro de 1836 conferiu-lhe as
prerrogativas de vila.
Pela Lei Provincial N<> 759 de 2 de maio de 1856 foram-lhe con­
feridos os foras de cidade.
Na graduação das liberdades que foi recebendo, a povoação
de Uberaba conservou sempre o mesmo nome.
A primeira sessão da sua Câmara Municipal teve lugar em 7
de janeiro de 1837.
Em 1812 Tristão de Castro Guimarães doou à Igreja Matriz,
para seu patrimônio, .uma légua de terra em quadro.
Importa muito o conhecer-se no futuro:
a) ---... que a medição e demarcação dêste patrímônio foi jul­
gada em 17 de junho de 1843.
b) - que esta medição e demarcação foi retificada por sen­
tença de 19 de outubro de 1870 ;
c) - que ambas estas diligências foram executadas por deli­
beração da Câmara Municipal, representada por seu procurador,
para o efeito de fixar-se os limites dentro dos quais era devido o
impôsto de licença para edificar em terreno desocupado, na exe­
cução da Lei Mineira W 206 de 2 de abril de 1841; limites que ainda
prevalecem ;
?) - que esta medição e retificação não tiveram por ponto de
parti?ª a atual Igreja (Matriz Nova); mas sim a primeira Igreja
Matriz (Matriz Velha), demolida em 1856 para construir-se o ce­
mitério público ;
e) - que, se no futuro houver necessidade de retificar-se ou­
tra vez ~ medição e demarcação da légua de terras de patrimônio
da Matriz doada em 1812 por Tristão de Castro a Santo Antônio e
S; ~eba?ti~o, deverá co1:11eç~r-se essa diligência do Portão do Cerni­
tério Publ1~0, .por ter sido ~ste o ponto em que justamente existia
a porta príncípal da Matriz Velha, donde já partiu a medição de
1843 e a remedição de 1870;
UBERABA: HISTÓRIA, FATOS E HOMENS 47
'

f) - que isto deverá por conseguinte observar-se, quer a re­


medição ou aviventação da demarcação tenha por fim a execução
da Resolução Mineira N9 206 de 1841; isto é, o exercício de direitos
municipais; - quer seja a Fábrica quem pretenda usar dos direitos
civis que a doação lhe confere para fruir, por aforamentos ou ar­
rendamentos, os terrenos que para a sustentação do culto, foram
doados à Matriz.

SITUAÇÃO

A povoação de Uberaba foi começada e desenvolveu-se numa


depressão do terreno de forma aluviana, entre seis colinas com der
clives suaves, derivados de uma planura que a rodeia em arco quase
perfeito rompido somente a N N O, para dar passagem às águas
do Córrego - Laje -, de que fala Milliet de Saint-Hilaire no seu
Dicionário Geográfico Brasileiro (Paris, 1845).
De entre estas colinas saem as nascentes d'água que, pouco
e pouco, formam os regatos - abastecedores da povoação.
Todos êles, uns após outros, fazem junção dentro da cidade,
em modo que, quando suas águas passam na Ponte do Matadouro,
vão reunidas, formando uma só correnteza.
Os primeiros habitantes não prevendo, talvez, o grande de­
senvolvimento que o povoado - Uberaba - em breve tempo havia
de atingir e o importante papel que mais tarde representaria no
país, não seguiram, desde o princípio, um plano retangular de ar­
ruamento para as edificações dos prédios urbanos.
Antes, desprezando êsse alinhamento regular, que tanto con­
vém e agrada nos grandes, como nos pequenos povoados, foram
edificando casas, formando os quintais e chácaras, acompanhando
as ondulações do terreno e serpenteamento dos pequenos regatos,
quiçá porque assim se lhes oferecia melhor comodidade para o uso
das águas, utilizando-se mais da fertilidade do solo.
Daqui veio que a rua principal, a primitiva, a maior e mais
importante, aquela que por muito tempo se chamou - Direita
-, é das menos retas; ocasionando, ela mesma, a irregularidade
que hoje se lamenta, quanto ao arruamento da cidade de Uberaba,
arruamento que tão má impressão faz ao forasteiro, que, pela pri­
meira vez, percorre o povoado na parte mais central.

COLINAS

A planura que rodeia a cidade desde a estrada que vem da


ponte conhecida por - Ponte de Uberaba - ao lado direito do
Córrego Laje, até a estrada que vem da ponte conhecida por -
48 BORGES SAMPAIO

Ponte do Vau - ao lado esquerdo do mesmo córrego, desliza-se


suave e concêntricamente sôbre a cidade, dando nascimento aos
cinco regatos que a abastecem d'água, ocasionando a seu turno, a
for1nação das seis colinas, de acesso também suavíssimo, pela sua
pouca elevação e brando declive.
Estas colinas, que já estão sendo invadidas por novas cons­
truções e ruas, começando-se pelo lado direito do Córrego Laje,
são atualmente conhecidas por denominações que conviria se con­
servassem invariàvelmente nos atos municipais, oficiais e particu­
lares.
Eis a descrição de cada uma :
Colina Boa Vista

Aquela que dá entrada na cidade a quem vier da Ponte de


Uberaba por onde, atualmente, há o rancho denominado - do
Fabrício -. É separada, à direita, pelo Córrego Laje, da Colina
Cuiabá; à esquerda, da Colina Estados Unidos pelo regato que
nasce na chácara Padre Zeferino.
Colina Estados Unidos

Aquela que dá entrada na cidade a quem vier dos lados do


Lajeado pelo capão _conhecido - do Chico Prata. - É separada,
à esquerda, da Colina Misericórdia pelo regato que nasce na chá­
cara Joaquim dos Anjos.
Colina Misericórdia

Aquela que dá entrada na cidade a quem vier do lado do Pôr­


to da Ponte Alta pelo lado da Misericórdia. É separada, à direita,
da Co~ina Estados Unidos, pelo regato que nasce na chácara
Joaquim dos Anjos; à esquerda, da Colina - Barro Prêto -, pelo
regato que nasce no capão conhecido por - Capão do Barro Prê­
to -, no Frasquinho.
Colina da Matriz

" Aquela q.ue dá entrada na cidade a quem vier dos lados do


P?r~o da Espir:iha pelo lado do cemitério e Matriz. É separada, à
direita,. da Colina do Barro Prêto, pelo regato que nasce no capão
conhecido por Capão da ,Igreja; à esquerda, da Colina Cuiabá, pelo
regato que nasce na chacara - do Alferes Silvestre.
Colina Cuia bá
Aquela que dá entrada na cidade a quem vier dos lados do
C~çu pela Ponte do Vau. É separada, à direita, da Colina da Ma­
triz, pelo regato que nasce na chácara - do Alferes Silvestre· à
esquerda, da Colina Boa Vista, pelo Córrego Laje. '
UBERABA: HISTÓRIA, FATOS E HOMENS

Colina Barro Prêto

Aquela que é mais culminante e central: deriva-se do Alto


das Toldas. É separada, à direita, da Colina da Misericórdia, pelo
regato que tem a nascente nos fundos do quintal da chácara co­
nhecida por - Chácara do Frasquinho; - à esquerda, da Colina
da Matriz, pelo regato que tem a nascente no Capão da Igreja.

REGATOS-CóRREGOS

Conquanto ao tratar da situação das colinas se tenha falado


nas nascentes d'água que abastecem a povoação, todavia será con­
veniente descrever estas com mais detalhe, pela importância que
caracterizará no futuro a planta topográfica da cidade de Ube­
raba, visto o seu aumento crescente.
Tôdas as nascentes estão atualmente fora dos limites do po­
voado.
Os dois principais regatos têm seu comêço quase que em igual
altitude. Todavia, em razão da longitude, pode dar-se preferência
ao do Barro Prêto.
Atualmente êstes regatos são melhor diferençados pelas se-
guintes denominações :
Regato Barro Prêto

O primeiro regato tem a nascente na chácara vulgarmente


chamada - do Frasquinho, - faz junção com o que nasce no
Capão da Igreja e no fundo dêste mesmo capão, entre as Ruas
Barro Prêto e Brasileira. É atravessado pela Rua Barro Prêto sem
ponte. itste regato separa a Coli?a da Mi~eric!>rdia, que lhe fica
à direita da Colina do Barro Preto, que fica a esquerda.
'
Regato Capão da Igreja

o segundo regato tem a nascente no Capão da Igreja, ao lado


esquerdo do Regato do Barro Prêto, com o qual faz junção no fun­
do do dito Capão da Igreja, entre as Ruas Barro Prêto e Brasileira.
É atravessado pelas Ruas Brasileira, Constituição, João Alferes, s.
Miguel e Ladeira. Nas três primeiras ruas não há pontes; na de
s. Miguel existe uma de atrasada construção; porém na da La­
deira há uma, boa e sólida, mandada construir pela atual Câmara
Municipal.
Regato da Ponte de Santa Rita

O terceiro regato tem a nascente ao lado direito, na chácara


de Joaquim dos Anjos, e faz junção com o precedente abaixo da
Igreja de Santa Rita, entre as Ruas Ladeira e Comércio. Tem de
50 BORGES SAMPAIO

ser atravessado pela Rua Farinha Podre. Passa no fundo do Largo


de Santa Rita, onde há uma ponte de construção antiga. :tste
regato separa a Colina Estados Unidos, que lhe fica à direita, da
Colina Misericórdia, que lhe fica à esquerda.
Regato do Comércio
O quarto regato tem a nascente, ao lado direito, na chácara
Padre Zeferino, e faz junção no Córrego Laje, entre as Ruas do
Comércio e de Gutemberg. É atravessado pelas Ruas Padre Zefe­
rino, Rosário e Imperador. Em tôdas estas ruas, há pontes de
fraca construção, e duas delas bem pequenas.
Regato da Chácara do Marinho
O quinto regato tem a nascente, ao lado esquerdo, na chácara
do Alferes Silvestre, e faz junção no Córrego Laje, entre as Ruas
Gutemberg e Matadouro. É atravessado pelas Ruas S. Sebastião e
Tiradentes em fracas pontes. :tste regato separa a Colina da Ma­
triz, que lhe fica à direita, da Colina de Cuiabá, que lhe fica à
esquerda.
Córrego Laje

Desde que os dois primeiros regatos acima descritos reunem


suas águas no fundo do Capão da Igreja, conservam êste nome
até se lhes reunir as 'do Regato da Ponte de Santa Rita.
Desde êste ponto, até à foz no Rio Uberaba, o córrego toma a
denominação de Córrego da Laje; derivado, talvez, de correr daí
em diante, sôbre leito pedregoso.
tste córrego é atravessado pelas Ruas do Comércio, Gutemberg
e Matadouro. Nestas três ruas há pontes; merecendo menção a
da Rua do Comércio pela sua boa e sólida construção, mandada
fazer pela atual Câmara Municipal.
Por fim, êste córrego vai lançar suas águas no Rio Uberaba, a
cêrca de quatro quilômetros da cidade.

CHACARAS
E~ d_iscus~ões judiciárias, relações oficiais, registros públicos,
atos ~1sca1s e ~1tulos particulares, como na descrição que agora se
faz sobre a cidade de Uberaba, caracterizam-se os prédios e os
luga~es c3m referência a localidades de chácaras de diferentes de­
nommaçoes.
M3:is ~e uma yez o mesmo ponto local, na mesma época, ou
em v~nas ep?cas, e denominado diversamente em atos públicos e
relaçoes particulares. '
Convém registrar aqui essas chácaras, a que também as ruas
UBERABA: HISTÓRIA, FATOS E HOMENS 51

da cidade tem referência: com as denominações porque são e f o­


ram conhecidas; tanto quanto a tradição o permitir, começando
pelo lado direito.
Chácara de João Mateus

Situada ao lado direito do Córrego Laje, na Colina Boa Vista.


Pertenceu primeiramente seu terreno a Francisco Soares Ferreira;
depois, João Mateus dos Reis construiu a atual moradia, residindo
nela sua viúva, D. Ana Soares Ferreira. Não é raro, pois, o dar-se
a esta chácara o nome de - João Mateus; de Ana Soares.
Chá cara do Padre Zeferino

Situada no fim da Rua do Comércio em frente à Matriz, entre


as Colinas Boa Vista e Estados Unidos. Nasce nela o Regato da
Rua do Comércio. Foi estabelecida pelo Padre Zeferino Batista
Carmo; em seguida pertenceu a Francisco José da Silva Prata,
Camilo Antônio de Meneses, residindo nela atualmente a viúva
de ambos, D. Ana Eufrozina dos Santos. É por isso que se tem
denominado chácara do Padre Zeferino; do Chico Prata; do Ca­
milo Antônio; ou de D. Ana dos Santos.
Chácara de Joaquim dos Anjos

Situada entre duas estradas que dão entrada na cidade a quem


vier da vila do Sacramento; fica entre as Colinas dos Estados Uni­
dos e Misericórdia. Nasce dela o Regato da Ponte de Santa Rita.
Foi fundada por Joaquim dos Anjos Batista; em seguida pertenceu
a Felício da Costa Camargos, Francisco Mateus de Sousa Camar­
gos, Felicíssimo da Mota Cardoso; atualmente pertence a Fortu­
nato Ribeiro Guimarães: nela habitou algum tempo Frei Eugênio
Maria de Gênova. Daqui vem que a esta chácara se há dado a
denominação de - Joaquim dos Anjos; do Felício; do Chico Ma­
teus; de Frei Eugênio; do Felicíssimo; e se está dando também a
de Fortunato.
Chácara do Frasquinho

Situada à entrada da cidade na estrada que vem do Pôrto da


Ponte Alta, ao lado esquerdo da Colina Misericórdia. Aí nasce o
Regato Barro Prêto. É de época recente, fundada por Francisco
Antônio Irineu, mais conhecido por - Frasquinho -, donde vem
o ser conhecida por êste nome.
Chácara do Alferes Silvestre

Situada entre as Colinas da Matriz e Cuiabá. Foi fundada pelo


Alferes Silvestre da Silva e Oliveira; pertenceu depois a José Ma­
rinho de Oliveira Ramos e reside nela atualmente a sua viúva Do-
52 BORGES SA1'víPAIO

celina da Silva e Oliveira, mais conhecida pelo abreviativo de -


Doce.
Nasce nesta chácara o regato denominado da - chácara do
Marinho -; vindo daí o conhecer-se-a pela denominação de -
Alferes Silvestre; do Marinho; ou da Doce.

Chácara do Alferes Soares

Situada ao lado esquerdo do Córrego Laje, na Colina Cuiabá.


Pertenceu primitivamente ao Major Antônio Eustáquio de Olivei­
ra; depois ao Alferes Francisco Soares Ferreira, Antônio Lopes da
Silva, à viúva dêste Rita Soares Ferreira: hoje pertence ao Tenente
Fidelis Gonçalves dos Reis: resultando que se a tem denominado
chácara - do Major Eustáquio; do Alferes Soares; de D. Rita;
sendo ultimamente já conhecida - do Fidelis.

Chácara dos Pinheiros

Situada entre o regato que nasce na chácara de Joaquim dos


Anjos (à direita)', e o regato que nasce no Capão da Igreja (à es­
querda). Dá alinhamento, pelo lado direito, à Rua do Carmo; e
pelo esquerdo à Rua da Ladeira. Foi fundada por José Francisco
de Azevedo: pertenceu sucessivamente aos dois cunhados conhe­
cidos por Cláudios, ou Telheiros, que ali tiveram uma olaria de
telha; foi em seguida de José Lucas Ribeiro; do Tenente-Coronel
Manuel José dos Santos; de Frei Arcângelo; de Moisés; hoje per­
tence ao Capitão Antônio Tomás de Miranda. Denominou-se -
chácara dos Pinheiros - por haverem ali algumas destas árvores
da espécie Araucaria Brasileira. Por estas razões tem sido conhe­
cida por - chácara - de José Francisco - dos Cláudios - dcs
Telheiros - da Olaria - de José Lucas - dos Pinheiros - de
Manue~ ~osé - de Frei Arcanjo - do Moisés -, e já se diz -
de António Tomás.

Nota
A vários outros prédios se tem dado, e ainda se dá presente­
~ente, a denominação de - chácara -, mas êsses prédios não
influem tanto _na nomenclatura das ruas da cidade, como os pre­
cedentes; motivo porque não se lhes deu situação própria.

COMPRIMENTO - LARGURA

A maior extensão da cidade atualmente é a que, tomando-se


UBERABA: HISTóRIA, FATOS E HOMENS 53

dos Olhos d'Agua pela Rua S. Joaquim e Ladeira até a Rua Vigário
Silva, no canto da casa onde reside o Professor Manuel Garcia da
Rosa Terra, continua pela Rua Vigário Silva, Largo da Matriz,
Ruas Municipal, Tiradentes e Mercês, até a porteira da chácara
de Fidelis Gonçalves dos Reis (antiga chácara do Soares).
Nesta extensão, tomada por partes, sem levar-se em conta os
declives, há 2.820 metros, segundo a planta oficial levantada em
1865 pela comissão de engenheiros anexa às fôrças militares ex­
pedicionárias à Província de Mato Grosso, sob a direção do chefe
da mesma comissão, Juvêncio Manuel Cabral de Meneses.
Se levar-se à conta os declives, visto que as medidas foram
tomadas topográfica e horizontalmente sôbre a dita planta da co­
missão, excederá a maior extensão a três quilômetros.
Uma reta tomada entre os dois pontos extremos do arco, mede
1.360 metros.
A parte mais larga é a que, partindo do extremo da Rua do
Comércio (na chácara do Padre Zeferino), pela dita Rua do Comér­
cio passe no Largo da Matriz e Rua de Tristão de Castro até à casa
de José Raimundo.
Nesta extensão, sem levar-se em conta os declives, pelas razões
expostas, há 1.570 metros.
Se os declives forem levados à conta, excederá a maior lar­
gura da cidade a 1.620 metros.
Tomada a linha reta, atingirá apenas 1.560 metros entre os
dois pontos terminais do arco.
NOMENCLATURA LEGAL

Até dezembro de 1879 nenhuma deliberação tinha tomado a


Câmara Municipal para dar às ruas da povoação de Uberaba a
nomenclatura legal, que devesse regular seus habitantes nos atos
públicos e relações particulares; guiar ela mesma na concessão de
licenças para edificação de prédios, percepção de impostos ou exe­
cução de obras.
Apenas a Resolução Mineira N9 852 de 22 de julho de 1857
art. 29 denominou os Largos de Santa Rita, Matriz e Cemitério -
Praças da cidade -, sem marcar-lhes limites nem situação.

NOMENCLATURA DE 1855

Nos últimos quatro dias de dezembro de 1855, os cidadãos


Antônio Borges Sampaio e Manuel Garcia da Rosa Terra, em co­
missão voluntária percorreram a povoação de Uberaba, então vila
e levantaram o recenseamento da população.
Ofereceram êsse trabalho à Câmara Municipal, e ela, com êste
documento, pediu à Assembléia Legislativa Provincial os foros de
cidade; graça que obteve em maio de 1856.
54 BORGES SAMPAIO

Eis a nomenclatura
, .
que nessa época era mais conhecida :
Rua do Comercio.
Rua dos Inglêses.
Rua do Mamede.
Rua dos Bois.
Rua Direita ou Grande.
Rua de Santo Antônio.
Rua da Alegria.
Rua de Ana Constança.
Rua do Colégio.
Rua do Padre Antônio.
Rua do Pedro.
Rua de Manuel Antônio.
Rua de Santa Rita.
Rua do Rancho.
Rua de Joaquim dos Anjos.
Rua do Presiganga.
Rua da Constança.
Largo da Matriz Nova.

PROCESSO
Das deliberações tomadas ultimamente pela Câmara Municipal,
sôbre a denominação das ruas e numeração das casas da cidade.
Na sessão da Câmara Municipal de 18 de dezembro de 1879
foi lido e mandado à comissão geral da mesma Câmara, para exa­
minar, o seguinte requerimento do vereador, Alferes Joaquim Ro­
drigues de Barcelos :
"Requeiro que a Câmara providencie de modo que o mais
breve possível se mande denominar tôdas as ruas da ci­
dade e numerar as casas respectivas. Considerando que esta
é uma necessidade palpitante, posta em prática em tôdas
as cidades nas condições de Uberaba, espero que se atenda
a êste meu pedido. Uberaba 18 de dezembro de 1879. -
BARCELOS".
Na sessão do dia seguinte (19) foi lido e aprovado unânime­
mente o seguinte parecer da comissão geral, composta dos verea­
dores Capitão José Bento do Vale e Quirino Rodrigues de Miranda:
"A comissão geral, tendo examinado o requerimento do Sr.
Barcelos, em que pede se providencie de modo que o mais breve
possível se denominem tôdas as ruas da cidade e se numere as
casas respectivas;
"t de parecer:
Que seja aprovado o requerimento.
Pondera. a comissão que êsse serviço deve desde já ser publi­
cado por edital, chamando concorrentes, que apresentarão suas
propostas em cartas fechadas para serem abertas ao mesmo tem-
UBERABA: HISTóRIA, FATOS E HOMENS 55

po em um dia para êsse fim destinado; devendo constar do refe­


rido edital que os nomes das ruas serão postos em cada esquina
dos quarteirões em fundo prêto e letras brancas, e o mesmo re­
lativo à numeração.
Pondera ainda a comissão que, quanto à denominação das
ruas, deverá a mesa reunida deliberar, não impedindo êste fato
de se chamar desde já os proponentes para êsse mister.
"Sala das comissões, 19 de dezembro de 1879. - JOSÉ BENTO
DO VALE. - MIRANDA".
Na sessão de 24 de fevereiro de 1880, a comissão geral, com­
posta dos vereadores. Tenentes Ananias Ferreira de Andrade e Ca­
pitão João Batista Machado, propôs, e a Câmara aprovou unâni­
memente, que se nomeasse uma comissão composta do Alferes
Joaquim Rodrigues de Barcelos, Capitão José Bento do Va1,e e Qui­
rino Rodrigues de Miranda, para assentar-se sôbre as respectivas
denominações das ruas.
Esta comissão, na sessão de 26, leu o seguinte parecer, cuja
deliberação foi adiada na sessão de 27 :
"A comissão incumbida da denominação das ruas da cidade
apresenta os títulos de tôdas as ruas e becos pelo modo seguinte:

Antiga Rua do Boi, Rua das Mercês.


" " Grande " de Tiraden tes.
" '
" do Comércio, " do Comércio.
" " do Mauriti, •
" de S. Sebastião.
" " da esquina do Ma-
tadouro até a casa I
última adiante da
Igreja de Santa Ri-
ta, ; Rua de Santa Rita.
De Santa Rita até o Barro Prêto; ; Rua General Osório.
Entre Frei Paulino e Misericór- 1
dia, 1 Rua da Misericórdia.
Rua da Casa do Professor Terra i
até os Olhos d' Agua, 1
Rua S. Joaquim.
Do Cemitério até o Professor I
'
Terra, Rua da Ladeira.
Cemitério até o Largo da Miseri-
córdia, Rua do Carmo.
Antiga Rua do Azagaia, I Rua
de S. Miguel.
Bêco entre a casa do Vigário, Bêco da Liberdade.
Bêco entre a casa de Chico Gor-
do, Bêco de Gutemberg.
Rua do Quinca Vaz para cima, Rua General Câmara.
Antiga Rua de José da Silva Di-

mz, Rua do Major Eustáquio .
Rua do Justino, Rua Frei Eugênio.
Antiga Rua das Flôres, Rua do Mercado.
Rua do Capitão José Bento, Rua Alegre.
56 BORGES SAMPAIO

Rua do Fabrício, atravessando o


Rosário, Rua do Rosário.
Antiga Rua da Pinga, Rua das Flôres.
Uberaba, 26 de fevereiro de 1880. - JOSÉ BENTO DO VALE.
- BARCELOS. - MIRANDA".
Na sessão do dia seguinte (27) foi lido o seguinte ofício :
"Ilmos. Srs. - Tenho notícia que a ilustre municipalidade to­
mou em consideração a denominação das ruas da cidade e nume­
ração das casas.
Alguma prática que tenho adquirido na gerência de negócios
públicos tinha-me convencido desta necessidade, a que V. S~s so­
lícitos se dispõem a atender. Mas essa mesma prática me há con­
vencido do quanto convirá que o trabalho, por ser o primeiro neste
mister, seja o mais completo possível, atendendo-se a que vai êle
servir de base à estabilidade da propriedade real, localizando-a.
Alguma coisa tinha eu procurado fazer nêste sentido quando
me assentava entre meus honrados colegas da vereança; mas a
incompatibilidade que me sobreveio paralisou o trabalho, em que
tanto me prezava de colaborar com V. s~s.
Tenho a planta da cidade exatamente levantada pela comis­
são de engenheiros aqui estacionada em 1865; tenho também bons
modelos dêstes trabalhos tomados da cidade do Rio de Janeiro,
que tudo pode ser aproveitado no plano por V. s~s concebido.
Se tudo estivesse acabado, eu o ofereceria, desde já, à consi­
deração de V. S~s.; mas não o está.
Todavia animo-me a vir solicitar de V. s~s a graça de adiarem
a resolução definitiva dêste negócio até que eu organize um plano
em tal assunto e o ofereça à consideração dos meus respeitáveis
colegas. Não só prometo fazê-lo no prazo mais breve que permitir
um trabalho desta ordem, como me comprometo entender-me com
a ilustrada comissão incumbida por V. s~s de estudar êste negócio.
Se assim o julgarem, peço se dignem comunicar-mo para meu
g?vêrno; pedindo também desculpa se assim concorro para oca­
sionar alguma demora, visto que o meu pensamento é o do bem­
estar público, que V. S~s igualmente desejam.
Deus guarde a V. s~s. Uberaba, 27 de fevereiro de 1880. -
Ilmos. Srs. Presidente e Vereadores da Câmara Municipal de Ube­
raba. - ANTôNIO BORGES SAMPAIO".
A Câmara, na mesma sessão aceitou o concurso no seguinte
ofício : '
~·9 35. - .Ilmo Sr. - A Câmara Municipal de Uberaba, em
reumao de hoje, deliberou unânimemente aceitar o seu valioso
c?ncurso como_ me:11bro da comissão encarregada de dar parecer
s?bre a denomínaçgn das ruas da cidade e numeração das respec­
tívas casas.
A Câ~ra, pois, ac~itan~o êsse concurso, agradece, ainda uma
vez, a V. S · o ardente interesse que sempre manifesta quando se
trata de qualquer melhoramento municipal.
Deus Guarde a V. S1}.. Uberaba, 28 de fevereiro de 1880 - Ilmo.
56 BORGES SAMPAIO

Rua do Fabrício, atravessando o


Rosário, Rua do Rosário.
Antiga Rua da Pinga, Rua das Flôres.
Uberaba, 26 de fevereiro de 1880. - JOSÉ BENTO DO VALE.
---- BARCELOS. - MIRANDA".
Na sessão do dia seguinte (27) foi lido o seguinte ofício :
"!Imos. Srs. - Tenho notícia que a ilustre municipalidade to­
mou em consideração a denominação das ruas da cidade e nume­
ração das casas.
Alguma prática que tenho adquirido na gerência de negócios
públicos tinha-me convencido desta necessidade, a que V. S~s so­
lícitos se dispõem a atender. Mas essa mesma prática me há con­
vencido do quanto convirá que o trabalho, por ser o primeiro neste
mister, seja o mais completo possível, atendendo-se a que vai êle
servir de base à estabilidade da propriedade real, localizando-a.
Alguma coisa tinha eu procurado fazer nêste sentido quando
me assentava entre meus honrados colegas da vereança; mas a
incompatibilidade que me sobreveio paralisou o trabalho, em que
tanto me prezava de colaborar com V. S~s.
Tenho a planta da cidade exatamente levantada pela comis­
são de engenheiros aqui estacionada em 1865; tenho também bons
modelos dêstes trabalhos tomados da cidade do Rio de Janeiro,
que tudo pode ser aproveitado no plano por V. S~s concebido.
Se tudo estivesse acabado, eu o ofereceria, desde já, à consi­
deração de V. S~s.; mas não o está.
Todavia animo-me a vir solicitar de V. S~s a graça de adiarem
a resolução definitiva dêste negócio até que eu organize um plano
em tal assunto e o ofereça à consideração dos meus respeitáveis
colegas. Não só prometo fazê-lo no prazo mais breve que permitir
um trabalho desta ordem, como me comprometo entender-me com
a ilustrada comissão incumbida por V. s~s de estudar êste negócio.
Se assim o julgarem, peço se dignem comunicar-mo para meu
govêrno; pedindo também desculpa se assim concorro para oca­
sionar alguma demora, visto que o meu pensamento é o do bem­
estar público, que V. S~s igualmente desejam.
Deus guarde a V. s~s. Uberaba, 27 de fevereiro de 1880. -
Ilmos. Srs. Presidente e Vereadores da Câmara Municipal de Ube­
raba. - ANTôNIO BORGES SAMPAIO".
A Câmara, na mesma sessão, aceitou o concurso no seguinte
ofício :
N.9 35. - Ilmo Sr. - A Câmara Municipal de Uberaba, em
reunião de hoje, deliberou unânimemente aceitar o seu valioso
concurso como membro da comissão encarregada de dar parecer
sôbre a denominação das ruas da cidade e numeração das respec­
tivas casas.
A Câmara, pois, aceitando êsse concurso, agradece, ainda uma
vez, a V. S~ o ardente interêsse que sempre manifesta quando se
trata de qualquer melhoramento municipal.
· Deus Guarde a V. S~. Uberaba, 28 de fevereiro de 1880 - Ilmo.
UBERABA: HISTôRIA, FATOS E HOMENS 57

Sr. Tenente-Coronel Antônio Borges Sampaio. - Joaquim José de


Oliveira Pena - João Borges de Araújo. - Quirino Rodrigues de
Miranda. - João Batista Machado. - Joaquim Rodrigues de Bar­
celos. - José Bento do Vale".

RAZÕES
Que justificam a preferência dada, agora, na denominação de
algumas ruas
Em todos os tempos se há honrado a história de homens e
fatos notáveis, anotando-os na denominação das ruas das cidades
e vilas; prática esta recebida por todos os países civilizados.
Não deveria a Câmara da cidade de Uberaba afastar-se dês te
nobre proceder, desde que, pela primeira vez, vai pôr em obra um
trabalho idêntico.
Memorando, pois, na denominação das suas ruas alguns ho­
mens e fatos da história desta povoação, ao mesmo tempo que é
justa homenagem tributada aos passados, recomenda aos vindou­
ros a veneração e respeito que aquêles mereceram aos presentes.
Tanto mais útil isto será, quando é certo o ir desaparecendo a
tradição de alguns da memória de muitos dos nossos contemporâ­
neos.
Sob o domínio dêste pensamento, algumas ruas, como adiante
se verá, tiveram nomes cujo atributo interessa a todos os brasi­
leiros; outros que lhe são naturais; outros que simbolizam fatos
ou atos relativamente locais; outros, enfim, de pessoas que na
História de Uberaba ocuparam sempre e devem ocupar com justiça
menção distinta.
A não ser dois fatos especiais de contemporaneidade, só foram
tomados os nomes, tanto quanto possível, de homens cuja vida em
Uberaba estêve ligada a atos de interêsse público mais transcen­
dente. Fazendo-se nesta ocasião uma breve resenha dêles, não só
mostra-se-lhes gratidão, como se os aponta ao historiador futuro
que tiver de completar a obra.
Assim, pois :
O paço da municipalidade, além de estar situado no Largo da
Matriz fazendo canto à rua principal, é um bom edifício. É tam­
bém o lugar das sessões da Câmara, do Júri e outras; bem como das
audiências de todo os juízos. A rua onde está tem bons edifícios
particulares. Caberá melhor do que à outra, que, desde o largo
até o primeiro canto, descendo, a encontrar o que é mais conhecido
de L~ís Soares Pinheiro, onde atravessa a Rua Gutemberg, se de­
nomine
Rua Municipal

A Igreja Matriz tem por oragos Santo Antônio e s. Sebastião.


A antiga Rua Mauriti atravessa o adro desta Igreja pela frente da
porta principal. Esta rua é interceptada pelo próprio adro. Era
58 BORGES SAMPAIO

uma rua extensíssima, e por isso fácil de dividir-se pelo próprío


alinhamento.
É bem acertado e natural que a rua situada à direita, desde
o adro até o Largo da Independência, se denomine
Rua de Santo Antônio.
E a que fica à esquerda, desde o adro até a Colina Cuíabá,
que é reta e unida, a esquerda, se denomine
Rua de S. Sebastião.
A rua que do Largo de Santa Rita, em frente a esta Igreja,
vai até o Largo da Misericórdia pela atual ponte, deverá natural­
mente tomar a denominação de
Rua de Santa Rita.
Pela mesma razão, a rua que do Largo do Rosário, em frente
a esta Igreja, vai ao Largo da Boa Vista, deverá denominar-se
Rua do Rosário.
Tristão de Castro Guimarães foi um distinto benemérito desta
povoação. No seguinte ano ao em que o Govêrno Geral a elevou à
categoria de distrito (1811), Tristão de Castro fêz doação à Igreja
de Santo Antônio e S. Sebastião, para seu patrimônio (1812), de
uma légua de terra em quadro, no centro da qual está situada a
atual cidade de Uberaba. É justo que o nome do doador seja per­
petuado na denominação das ruas. O território pertencia então
à fazenda das Toldas; a rua que mais quadra a esta memória é a
que até aqui se tem chamado - Rua do Azagaia, por ser a que
primeiro encontra quem vem das Toldas, a qual deverá passar a
chamar-se
..
Rua Tristão de Castro .
O Major Antônio Eustáquio de Oliveira foi um dos primeiros
homens na História da povoação de Uberaba. Comandante de dis­
trito no antigo regime policial e governador dos índios, ocupou
posição distinta e preponderante nos negócios públicos, como o
atestou ainda, há poucos anos, no Brasil Histórico uma pena
conscienciosa da Província de S. Paulo. Sem dúvida deve caber a
êste cidadão a perpetuação do seu nome, dando-se-o a uma das
ruas do povoado que êle foi dos primeiros a habitar, policiando-o.
De preferência se deverá destinar para isso a rua onde reside atu­
almente D. Sebastiana Maria do Espírito Santo, sua filha, senhora
respeitável e tronco de uma grande família. É justo que esta rua
se denomine
UBERABA: HISTóRIA, FATOS E HOMENS 59

Rua do Major Eustáquio.

O Vigário Antônio José da Silva, depois cônego da Capela


Imperial, foi o primeiro vigário colado desta povoação após a sua
elevação à categoria de paróquia em 1820,onde residiu por muitos
anos, procurando sempre engrandecê-la. Preponderou vigorosa­
mente nos negócios públicos dela até 1855; e Uberaba por sua vez
concorreu ininterrompidamente para que êle a representasse pe­
rante os poderes legislativo geral e provincial e o administrativo.
Foi por conseguinte um homem distinto desta povoação, cuja me­
mória está no caso de conservar-se lembrado nela para a posteri­
dade. Sua residência era na Rua Grande em frente à Matriz. É
justo que a rua se denomine
Rua do Vigário Silva.

O ajudante Pedro Gonçalves da Silva foi um dos primeiros


entrantes desta zona - Farinha Podre. - Fêz parte da primeira
excursão mineira (Bandeira) entrada neste sertão, prestando-lhe
bom serviço por sua reconhecida coragem. Foi o primeiro que,
autorizado pelo Govêrno, abriu uma picada para fazer-se caminho
mais curto desta povoação para a capital da Província de Goiás.
Perpetuar-se sua memória, dando-se o seu nome a uma das ruas
desta cidade em que faleceu na avançada idade de 114 anos, é ato
de justiça : a que mais convirá é a que do Largo da Boa Vista vai
à chácara de João Mateus apenas começada, que se chamará
Rua do Pedro Gonçalves.

O Capitão Domingos da Silva e Oliveira foi o primeiro que


exerceu neste têrmo o cargo de juiz municipal, em 1837. Sob sua
administração gratuita e diligência pessoal no agenciamento de
donativos, construiu-se o atual edifício do paço da Câmara Muni­
cipal desta povoação, onde até agora se celebram as sessões da
mesma Câmara, as do Júri, Colégios Eleitorais e outras; nêle dão
as audiências tôdas as autoridades judiciárias. Além disso, foi
mais tarde presidente da Câmara e exerceu outros cargos públicos,
com preponderância constante nos negócios comuns desta povoa­
ção, até o seu passamento em 1852. É justo que seu nome seja
contemplado na denominação das ruas, especialmente na que lhe
dava entrada vindo da sua fazenda da Conquista, onde era sua
residência mais ativa; e esta é a que do Largo da Misericórdia vai
para o Barro Prêto, que se denominará
Rua do Capitão Domingos.

Joaquim dos Anjos Batista foi um dos primeiros moradores


desta povoação. Foi o primeiro procurador da Câmara, e nessa
qualidade o que requereu a medição da légua do patrimônio doado
60 BORGES SA.MPAIO

por Tristão de Castro. O lugar onde se estabeleceu nunca deixou


de ter o seu nome. Deverá pois continuar a chamar-se essa rua
Rua de Joaquim dos Anjos.
A antiga Câmara Municipal deverá ser simbolizada na deno­
minação das ruas da cidade. Dois camaristas, que quase o foram
sucessivamente nas eleições de tão nobre corporação, podem re­
cordar aos vindouros a antiga vereança; e são, o Maj'or Francisco
Rodrigues de Barcelos e Capitão Joaquim Antônio Rosa; dois ve­
readores patriarcas desta povoação, onde se têm ainda distinguido
por outros atos de beneficência. As duas ruas da bela Rua Alegre
que na Colina Estados Unidos a ligam ao Largo da Piedade, com
boa razão devem receber seus nomes. Uma, pois, se chamará
Rua do Major Barcelos.
Outra tomará a denominação de
Rua do Capitão Rosa.
O Reverendo Padre Zeferino Batista Carmo foi o proprietário
da chácara que fecha a Rua do Comércio e o seu fundador. Foi o
juiz que presidiu e julgou a primeira medição dos limites da po­
voação em execução da Resolução Provincial Mineira N9 206 de 2
de abril de 1841, fazendo certa desde então a légua quadrada do
patrimônio da Matriz. Foi também o primeiro que fabricou vinho
nesta povoação de colheita sua nessa mesma chácara. É justo que
seu nome se memore nessa rua, que se chamará
Rua do Padre Zeferino.
O Reverendo Frei Eugênio Maria de Gênova, missionário capu­
chinho da Ordem de S. Francisco de Assis, foi um benemérito desta
povoação. Em 1856 fêz edificar e concluir, pelo povo, o sólido e
vasto cemitério público atual· fêz aumentar a Matriz de um con­
sistório; fêz-lhe construir o adro. Por fim, fundou em 1858 e adi­
antou a constru~ão da Santa Casa de Misericórdia, legando-lhe
recursos para adiantar a obra. É justo que seu nome se memore
em uma rua, e de preferência na que fica entre o hospital que
fundou e a casa em que residiu, chamando-se-lhe
Rua do Frei Eugênio.
. A_ r:ia .<lue do Largo da Independência segue para a Colina da
M1senc~rd1a, em. atenção . a que foi aberta por esforços de João
Alves Vilela, mais conhecido por João Alferes, se deverá chamar
Rua de João Alferes.
Joaquim Inácio de Sousa Lima é um agricultor que nesta po-
UBERABA: HISTóRIA, FATOS E HOMENS 81

voação dedicou-se à indústria vinhateira, a única neste gênero, na


propriedade em que reside à Rua do Major Eustáquio. Atualmente
tem mais de sete mil pés de parreiras, colhendo delas cêrca de
quatro mil litros de vinho. Tão especial indústria merece ser me­
morada, dando-se à travessa que lhe fica em frente à morada, a
denominação
Travessa de Joaquim Inácio.

NOVA NOMENCLATURA
Das ruas, travessas, becos e largos da cidade de Uberaba
Como corolário do que fica exposto, segue a descrição de cada
uma das ruas, travessas, becos e largos, indicada para a atual
cidade de Uberaba.
Pôsto que não se observe nesta nomenclatura a forma de di­
cionário, acha-se todavia a alfabética; o que foi considerado sufi­
ciente para facilitar a consulta, visto como ainda são poucos os
títulos a inscrever. Todavia esta ordem não pôde deixar de alterar­
se por equívoco, na letra - F - com a descrição da Rua das Flôres,
a qual é, por essa razão, encontrada no fim da nomenclatura das
ruas.
Em seguida à descrição de cada uma rua, beco, travessa ou
largo, e sob o sinal - B -, adicionaram-se explicações que con­
correm a dar mais pronto conhecimento das situações, denomina­
ções por que passaram e foram encontradas, não só pelos recen­
seadores de 1855, como pela comissão neste ano.

RUAS
Rua Alegre

Principia na Rua do Mercado; finda no Largo de Santa Rita


( no lado de trás desta Igreja) , começa nela, à esquerda, a Ru~
Capitão Rosa. Pertence à Colina Estados Unidos.
N. B. É a rua que vai do Joãozinho Inácio até Santa Rita, da
qual foi primeiro morador o Capitão José Bento do Vale.
É nova, mas está em bom adiantamento; depois de aca­
bada será muito aprazível e higiênica. A comissão lhe
tinha dado êste nome, e a tinha achado com o de -
Rua do Capitão José Bento.
Rua Boa Vista.

Principia no Largo da Boa Vista; finda na Rua Padre Zeferino.


Pertence à Colina Boa Vista.
62 BORGES SAMPAIO

N. B. É a rua que sobe do rancho do Fabrício e se prolonga


em frente à Rua do Comércio. Deve ser aprazível e higiê­
nica quando fôr acabada, porque está apenas come­
çada. A comissão não mencionou esta rua.
Rua Barro Prêto

Principia na Rua Capitão Domingos; finda no campo para o


lado das Toldas. É atravessada pelo Regato Barro Prêto, pertence
à Colina da Misericórdia em parte, e em outra à Colina Barro Prêto.
N. B. Foi nesta rua que, além do regato, em uma chácara,
residiu Ananias Ferreira Lopes, mais conhecido por Ana­
nias carpinteiro. Está ainda em comêço, mas tende a
continuar-se em ambas as extremidades. A comissão
não mencionou esta rua.
Rua do Bispo
Principia na Rua S. Joaquim; finda na Rua Joaquim dos Anjos.
Pertence à Colina da Misericórdia.
N. B. Forma-se esta rua seguindo o alinhamento do muro do
terreno que foi de Chico Madeira e hoje pertence a Lú­
cio Lopes dos Santos: tem o alinhamento perpendicular
ao regato que nasce na chácara Joaquim dos Anjos.
Está apenas começada. A comissão não mencionou
esta rua.
Rua Brasileira

Principia na Rua da Princesa; finda na Rua Capitão Domingos.


Acabam nela as Ruas S. José e Carmo. Começa na Colina da Matriz
e acaba na Colina Misericórdia. Atravessa o regato que tem a
nascente no Capão da Igreja.
N. B. Distingue-se mais esta rua, ainda em comêço, por des­
cer adiante da casa de D. Ana Rodrigues Gondim, e su­
bir do outro lado, perto da casa de Augusto Teodoro de
Oliveira. É a última dêste regato para o lado de cima.
.. Não tem ponte. A comissão não mencionou esta rua .
Rua do Cruzeiro
Principia no Alto do Cuiabá; finda na Rua das Mercês. Per­
tence à Colina Cuiabá.
N. B. Na sessão da Câmara de 24 de abril de 1880 foi delibe­
rada a abertura desta rua; mas está em simples pro­
jeto, pois que ainda não foi alinhada, e por isso a co­
missão não a mencionou.
Rua do Carmo
Principia no Largo de Santa Rita; finda na Rua Brasileira. É
UBERABA: HISTóRIA, FATOS E HOMENS 63

atravessada pelas Ruas da Ladeira, S. Miguel, João Alferes, e Cons­


tituição. Pertence à Colina da Misericórdia.
N. B. Esta rua toma alinhamento, pela direita, na casa de
Manuel Rodrigues de Barcelos perto da Igreja de Santa
Rita; segue entre a chácara dos Pinheiros e terreno de
Clemente; passa na casa do Tenente Ananias Ferreira
de Andrade; na de José da Silva Diniz, até topar o mu­
ro do quintal do finado José Bravo, onde passa a Rua
Brasileira, que lhe detém a continuação. A comissão
achou esta rua com o nome de antiga Rua de José da
Silva Diniz, - e tinha-lhe dado o de - Major Eustá­
quio. - Em 1855, _tinha o nome de - Rua do Pedro.
Rua do Comércio
Principia no fundo do Largo da Matriz (em frente à porta
principal desta Igreja); finda na Rua Padre Zeferino. Nela come­
cam do lado direito, as Ruas da Imperatriz, e a do Presidente; e
J , ,

do lado esquerdo as do Imperador e do Rosario. Passa em frente


à Igreja do Rosário no largo dêste nome. Atravessa o Córrego Laje
em boa ponte. Tem comêço na Colina da Matriz, mas quase tôda
pertence à Colina Estados Unidos.
N. B. Esta rua é a mais extensa e retilínea da cidade. A co­
missão a achou com êste nome, que sempre teve, mes­
mo antes de 1855.
Rua Capitão Rosa

Principia na Rua Alegre, indo no Largo da Piedade. Pertence


à Colina Estados Unidos.
N. B. Esta rua fica em frente à casa do Capitão José Bento
do Vale. Está ainda em comêço; mas será muito apra­
zível e higiênica depois de acabada. A comissão não
mencionou esta rua.
Rua Capitão Domingos
Principia no Largo da Misericórdia; finda na Rua Barro Prêto.
Terminam nela as Ruas João Alferes, Constituição, e Brasileira.
Pertence à Colina da Misericórdia.
N. B. Esta rua é a que segue de Eduardo Formiga em direção
à casa de João Ferreira, no Barro Prêto. A comissão
considerou esta rua começando em Santa Rita e fin­
dando no Barro Prêto, e a denominou - General Osório.

Rua Constituição

Principia na Rua da Princesa; finda na Rua Capitão Domin­


gos. Atravessa as Ruas de S. José, e Rua do Carmo. Começa na
64 BORGES SAMPAIO

Colina da Matriz, e acaba na Colina da Misericórdia. É atravessada


pelo regato que nasce no Capão da Igreja: - não tem ponte.
N. B. Esta rua, saindo das proximidades da casa de D. Ana
Rodrigues Gondim atravessa o córrego, subindo no ali­
nhamento das casas do falecido Ricardo, e de Francisco
das Chagas. A comissão não contemplou esta rua.
Rua do Cemitério

Principia no lado direito lateral do cemitério público; finda


no Largo da Independência. Pertence à Colina da Matriz.
N. B. Esta rua fica nos fundos da casa do finado Ezequiel
Tôrres, onde atualmente reside o Padre Ângelo. Está
apenas começada. A comissão não contemplou esta rua.
L

Rua Frei Eugênio


Principia no Largo de Misericórdia; finda no campo (em· dire­
ção à chácara do Frasquinho) . Pertence à Colina da Misericórdia.
N. B. Esta rua sobe entre a casa em que morou Frei Eugênio
e o edifício no Hospital da Santa Casa: segue sempre
para os lados do Barro Prêto, passando na frente do
Cemitério de S. Francisco, que lhe fica à esquerda. Está
em comêço. Será aprazível quando fôr povoada. A co­
missão localizou esta rua como situada entre - Frei
Paulino e Misericórdia, e a tinha denominado - Rua
da Míserícórdía,

Rua Farinha Podre

Principia no Largo da Misericórdia; finda na Rua S. Francisco.


É atravessada pela Rua Joaquim dos Anjos. Atravessa o regato
que tem a nascente na chácara Joaquim dos Anjos, e não tem
ponte. Começa na Colina da Misericórdia e acaba na Colina Es­
tados Unidos.
N. B. Esta rua toma sua direção perto e adiante de Antônio
.. Caixa : mas, ao atravessar a de Joaquim dos Anjos, on­
de reside Jerônimo Bueno, fica interrompida por ter­
reno dêste. Do lado oposto do regato, o alinhamento
está feito, podendo mesmo a rua prolongar-se na dire­
ção do muro dos terrenos da Misericórdia, que lhe dão
bom alinhamento. Esta rua não foi contemplada pela
comissão.
Rua Gutemberg

Principia na Rua S. Sebastião; finda no Largo da Boa Vista.


Passa no ponto onde acaba a Rua Municipal (à direita) e começa
a Rua Tiradentes (à esquerda). É atravessada pela Rua Imperador.
UBERABA: HISTóRIA, FATOS E HOMENS 65

Atravessa o Córrego Laje em ponte de fraca construção. Começa


na Colina da Matriz e acaba na Colina Boa Vista.
N. B. Esta rua, do canto da casa onde Luís Soares Pinheiro
teve negócio, para cima, foi conhecida pelo Beco do Pe­
reira, e ultimamente - Beco do Chico Gordo. Do lado
oposto do córrego é muito íngreme, mas em pequena
distância. A comissão encontrou esta rua com o no­
me de - Beco - entre a casa de Chico Gordo -, e lhe
deu o nome de - Beco de Gutemberg.
Rua da Imperatriz
Princípía na Rua do Comércio (à direita); finda no Largo de
Santa Rita. Começa nela (à esquerda) a Rua do Mercado. Per­
tence à Colina Estados Unidos.
N. B. Foi antigamente conhecida esta rua por Manuel An­
tônio -, e assim o era em 1855; também se chamou -
de Sobradinho e de Santa Rita. A comissão contem­
plou como sendo uma só rua todo o alinhamento com­
preendido, desde a Rua do Matadouro ( chácara de João
Mateus), até o muro do pasto da Misericórdia adiante
de Santa Rita, e lhe tinha dado o nome de Rua de San­
ta Rita. No presente plano, essa rua foi dividida em
três, sendo esta a segunda parte da comissão.
Rua do Imperador

Principia na Rua do Comércio (à esquerda); finda na Rua do


Matadouro. É atravessada pela Rua Gutemberg. Começa nela (à
direita) a Travessa Alegria. Atravessa o regato que nasce na chá­
cara Padre Zeferino em pequena ponte. Quase tôda pertence à
Colina Boa Vista, porque apenas começa na Colina Estados Unidos.
N. B. Esta rua, desde muito tempo, foi conhecida com a de­
nominação de - Rua da Palha, e antes desta, e em
1855, pelo do - Mamede -; também se conheceu pela
Rua do - Pedro Panga; antes da passagem do regato,
foi conhecida por - Beco de João Alves. - A comissão
contemplou como sendo uma só rua todo o alinhamen­
to compreendido desde a Rua do Matadouro (chácara
de João Mateus), até o muro do pasto da Misericórdia,
adiante de Santa Rita. No presente plano, essa rua foi
dividida em três, sendo esta a primeira da comissão.
Rua Joaquim dos Anjos
Principia na Rua Santa Rita; finda quando encontra os ter­
renos fechados da Misericórdia. Tem de ser atravessada pela Rua
Farinha Podre. Fica-lhe no ponto terminal a Rua do Bispo. Per­
tence à Colina da Misericórdia.
66 BORGES SAMPAIO

N. B. Esta rua é a em que mora Justino José de Carvalho e


sempre foi conhecida - Joaquim dos Anjos (assim o
era em 1855), por ser êste o que primeiro ali morou.
A comissão contemplou esta rua como - Rua do Jus­
tino -, e lhe deu o nome de - Rua de Frei Eugênio.
Rua João Alferes
Principia no fundo do Largo da Independência; finda na Rua
Capitão Domingos. É atravessada pela Rua do Carmo. Atravessa
o regato que tem a nascente no Capão da Igreja, mas não tem
ponte. Começa na Colina da Matriz, mas quase tôda pertence à
Colina da Misericórdia.
N. B. Esta rua sai do canto conhecido do Jacob, em beco, até
a Rua do Carmo; aí alarga-se até encontrar a do Capi­
tão Domingos. Conta-se que em breve estará tôda alar­
gada. A comissão não contemplou esta rua.
Rua da Ladeira
Principia no Largo da Matriz (ao lado direito da cancela do
cercado do cemitério público) ; finda no Largo da Misericórdia. ~
atravessada pelas Ruas Santo Antônio, Vigário Silva e Carmo. Co­
meça nela (à esquerda) o Beco Liberdade. Atravessa o regato que
nasce no Capão· da Igreja em boa ponte. Começa na Colina da Ma­
triz; acaba na Colina da Misericórdia.
N. B. Esta rua é a que desce entre Balduíno de Resende e
Frasquínho: passa no canto da casa do Professor Ter­
ra; na do Tenente Ananias de Andrade, saindo na ex­
tinta Presiganga. Desde a Rua Vigário Silva até o Largo
da Misericórdia tinha, em 1855, o nome de - Rua da
Presiganga -. A comissão contemplou esta rua dando­
lhe acabamento no canto da casa do Professor Terra,
e o nome de - Rua da Ladeira.
Rua Leste

Principia no Largo da Boa Vista; finda na Rua do Imperador.


Pertence à Colina Boa Vista.
N. B. Começou-se a alinhar esta rua com a casa de Martinho
Pena que faz canto na Rua Pedro Gonçalves. Está ape­
nas começada. A comissão não contemplou esta rua.
Rua Municipal

Principia no Largo da Matriz; finda na Rua Gutemberg. Co­


meça nela (à esquerda) a Rua Major Eustáquio. Pertence à Colina
da Matriz.
N. B. Por muito tempo se chamou - Rua Direita -,
UBERABA: HISTóRIA, FATOS E HOMENS 67

Rua Grande - da qual fazia parte. É a mais impor­


tante da cidade. É a segunda parte da rua que a co­
missão contemplou sob a denominação de - Rua Gran­
de - a qual tinha dado a de - Tiradentes.
Rua das Mercês

· Principia na Rua S. Sebastião; finda na porteira da chácara


de Fidélis dos Reis. É atravessada pelas Ruas Tiradentes e Mata­
douro. Deve acabar nela ( à esquerda) a Rua Cruzeiro. Pertence à
Colina Cuiabá.
N. B. Esta rua sobe em frente à chácara de Bento José de
Sousa; passa na casa do escrivão de órfãos Luís da Sil­
va e Oliveira; nas de Antônio Mateus e Delfino Gomes;
prolonga-se no alinhamento dos terrenos de Ana Soa­
res, até topar a porteira de Fidélis Gonçalves dos Reis,
antigamente do Major Antônio Eustáquio de Oliveira
e Alferes Francisco Soares. Foi conhecida com o nome
de ~ Rua do Boi - ou - dos Bois ( 1855). O seu ali­
nhamento é o de um arco. A comissão a contemplou
com o nome de - Rua do Boi -, e lhe deu o das -
Mercês.
Rua Major Eustáquio

Principia na Rua Municipal; finda no campo para os lados da


chácara do Capitão Joaquim Antônio Rosa. ·É atravessada pela Rua
S. Sebastião, e pela Travessa da Fonte. Acabam nela as Travessas
Joaquim Inácio e do Felipe (ambas à esquerda). Pertence à Colina
da Matriz.
N. B. Esta rua, próximo à de S. Sebastião, tem um pedaço
muito mal alinhado. Já foi conhecida com os nomes de
- Rua do Padre Antônio (1855) - Rua de D. Sebas­
tiana - Rua do Desemboque. A comissão contemplou
na designação de - Rua do Quinca Vaz para cima -
e lhe tinha dado o nome de - General Câmara.
Rua Major Barcelos
Principia no Largo de Santa Rita, finda no Largo da Piedade.
Pertence à Colina Estados Unidos.
N. B. Pertence à Colina Estados Unidos como se disse. Parte
do canto (direito) atrás da Igreja de Santa Rita, for­
mando canto do outro lado a casa de Paixão : Está em
comêço. Depois de acabada de povoar será aprazível e
higiênica. A comissão não mencionou esta rua.
Rua do Mercado
Principia na Rua Imperatriz; finda na Rua Padre Zeferino. Fi-
68 BORGES SAMPAIO

ca-lhe à direita o Largo da Piedade, à esquerda o mercado público


e o Largo do Rosário. Começa nela (à direita) a Rua Alegre; à es­
querda a Rua Presidente. Pertence à Colina Estados Unidos.
N. B. Esta rua está sendo bem povoada, será aprazível e hi­
giênica. A comissão tinha achado esta rua com o no­
me - Antiga Rua das Flôres, e lhe deu o do - Mercado.
Rua do Matadouro

Principia na Rua das Mercês; finda na Rua do Imperador. A­


travessa o Córrego Laje em ponte de fraca construção. Fica-lhe, à
esquerda, o matadouro público. Pertence quase que em partes
iguais à Colina Cuiabá e Colina Boa Vista.
N. B. Ambas as extremidades desta rua tendem a prolongar­
se; então será ela atravessada pelas Ruas das Mercês e
do Imperador. A ponte que a comunica tem sido co­
nhecida por - Ponte de João Mateus. A comissão não
contemplou esta rua.
Rua da Princesa

Principia no Largo da Independência; finda no campo para o


lado do Capão da Igreja. Começam nela (à esquerda) as Ruas
Constituição e Brasileira. Pertence à Colina da Matriz.
N·. B. É a rua que se acha no alinhamento da casa da falecida
Ana Rodrigues Gondim. Presentemente só tem prédios
do lado esquerdo (debaixo) . A comissão não contemplou
esta rua.
Rua do Presidente

Principia na do Mercado ( à esquerda) ; finda na Rua do Co­


mércio. Pertence à Colina Estados Unidos.
N. B. Está em comêço no alto, e em projeto do lado da Rua
do Comércio. Tem de sair onde habitou o Damaso. A
comissão não contemplou essa rua.
Rua do Pedro Gonçalves

Principia no Largo da Boa Vista; finda no campo para o lado


da chácara de João Mateus. Pertence à Colina Boa Vista.
N. B. Esta rua está apenas alinhada pela casa de Pedro Lu­
cas. É situada em aprazível e higiênico local. Terá de
ser atravessada pela Rua do Matadouro. A comissão não
contemplou esta rua.
Rua Padre Zeferino

Príncípía no campo, na Colina Estados Unidos; finda também


UBERABA: HISTóRIA, FATOS E HOMENS 69

no campo, na Colina Boa Vista. Nela acabam as Ruas do Comércio,


Flôres e Mercado; não tardará a ser atravessada pela Rua do Mer­
cado. Atravessa o regato que nasce na chácara Padre Zeferino em
ponte de atrasada construção. Pertence, quase que em partes
iguais, às Colinas Estados Unidos e Boa Vista.
N. B. Quando as extremidades desta rua se prolongarem, será
ela cortada pelas Ruas do Mercado e Boa Vista. A co­
missão não contemplou esta rua.
Rua Ponte Alta

Principia no Largo da Misericórdia; finda no campo, para os


lados do Barro Prêto. Pertence à Colina da Misericórdia.
N. B. Esta rua, ainda em comêço, acompanha o alinhamento
do edifício da Santa Casa pelo lado de cima, ficando­
lhe esta e o Cemitério de S. Francisco, à direita, e não
tem outras edificações. A comissão não contemplou esta
rua.
Rua do Rosário

Principia na Rua do Comércio; finda no Largo da Boa Vista.


É atravessada pela Rua das Flôres. Atravessa, em pequena ponte,
o regato que nasce na chácara Padre Zeferino. Quase tôda per­
tence à Colina Boa Vista; só uma pequena parte é da Colina Estados
Unidos.
N. B. Esta rua fica fronteira à Igreja do Rosário. Também foi
conhecida pela Rua de Magalhães, da Maçonaria, do
Fabrício. A comissão mencionou esta rua - Rua do
Fabrício atravessando o Rosário -, e deu-lhe o nome
de - Rua do Rosário.
Rua de Santo Antônio
Principia no Largo da Matriz (à direita); e finda no Largo da
Independência. É atravessada pelo Beco Liberdade, nas Ruas La­
deira e S. Miguel. Pertence à Colina da Matriz.
N. B. Esta rua passa na casa do Cônego Santos, na do Fras­
quinho, na do falecido João Inácio, e na do finado José
Fernandes da Silva. Esta rua tinha o nome de - Rua
de Ana Constança em 1855. A comissão tinha conside­
rado nesta rua todo o alinhamento desde o Cuiabá até
o Largo da Independência sob o nome de - Rua de' -
Mauriti, e lhe deu o nome de - Rua de S. Sebastião :
esta é a segunda parte dessa rua.
Rua de S. Sebastião
Principia no Largo da Matriz (à esquerda); finda no campo,
no Alto do Cuiabá. É atravessada pela Rua Major Eustáquio. Co-
70 BORGES SAMPAIO

meçam nela (à direita) as Ruas Gutemberg e Mercês. Atravessa o


regato que tem a nascente da chácara do Alferes Silvestre. Per­
tence em parte à Colina da Matriz e em parte à Colina do Cuiabá.
N. B. Esta rua tem o nome de Mauriti, Santo Antônio e do
Colégio (1855). A ponte que a liga às duas colinas é de
má construção. A comissão tinha considerado nesta rua
todo o alinhamento, desde o Cuiabá, até o Largo da In­
dependência, sob o nome de - Rua do Mauriti -, e
lhe deu o nome de - Rua de S. Sebastião; esta é a pri­
meira parte dessa rua.
Rua de S. Joaquim
Principia no Largo da Misericórdia, finda nos Olhos d'Agua.
Começa nela a Rua do Bispo. Pertence à Colina da Misericórdia.
N. B. Esta rua toma o alinhamento no prédio de Antônio Cai­
xa, passa na casa edificada pelo tabelião Fonseca, segue
entre as casas e chácara do Alferes Joaquim Rodrigues
de Barcelos, antiga de Zizica. A comissão tinha con­
templado esta rua; principiando-a no canto da casa do
Professor Terra, dizendo-a: - Rua da Casa do Professor
Terra aos Olhos d'Agua -, dando-lhe o nome de -
.Rua de S. Joaquim-, que se conservou, mas começan­
do-a no Largo da Misericórdia.
Rua de S. Miguel

Principia no lado lateral direito do cemitério público; finda


no Largo da Misericórdia. É atravessada pelas Ruas de S. Antônio,
Vigário Silva e Carmo. Atravessa o regato que nasce no Capão da
Igreja em ponte de fraca construção. Pertence em parte à Colina
da Matriz e em parte à Colina Misericórdia.
N. B. Esta rua já se chamou - da Alegria (1855), do José
Fernandes, do Ezequiel. É a que desce pela casa de Chi­
co Elias e sobe do lado oposto nas casas de José da Silva
Diniz e Natinho. A comissão tinha contemplado o ali­
nhamento do - cemitério público até o Largo da Mi­
sericórdia -, dando-lhe o nome de Rua do Carmo.
Rua de Santa Rita
Principia no Largo de Santa Rita, finda no Largo da Misericór­
dia. Começa nela (à esquerda) a Rua Joaquim dos Anjos. Atraves­
sa o regato que tem a nascente na chácara de Joaquim dos Anjos
em ponte de sofrível construção. Pertence à Colina da Misericórdia.
N. B. Esta rua fica em frente à Igreja de Santa Rita e sai no
Largo da Misericórdia no lugar onde houve o edifício
conhecido por - Presiganga -. A comissão tinha de­
nominado de - Rua do General Osório - todo o ali-
UBERABA: HISTÓRIA, FATOS E HOMENS 71

nhamento - de Santa Rita até o Barro Prêto -. Neste


plano do Largo da Misericórdia em diante tomou o no­
me de - Rua do Capitão Domingos.
Rua de S. Francisco

Principia no Largo de Santa Rita; finda ao encontrar o muro


dos terrenos da Misericórdia, onde passa a Rua Farinha Podre. Per­
tence à Colina Estados Unidos.
N. B. É a rua onde mora a cega Miquelina. Ela será fechada
pela RUJ1 Farinha Podre. A comissão incluiu esta rua
naquela que ia da esquina do Matadouro ao muro dos
terrenos da Misericórdia a que tinha dado o nome de
- Santa Rita-. Agora é a terceira parte dessa rua.
Rua do Sacramento
Principia no Largo da Misericórdia; finda no campo para os
lados dos Olhos d' Agua. Pertence à Colina da Misericórdia.
N. B. Principiada apenas esta rua, distingue-se por começar
entre a estalagem e rancho do finado Antônio José Bar­
bosa e tomar. a direção da estrada de Sacramento, para
o lado dos Olhos d'Agua. A comissão não a nomeou.
Rua de S. José
Principia no Largo da Independência; finda na Rua Brasileira.
É atravessada pela Rua Constituição. Pertence à Colina da Matriz.
N. B. É a rua que da casa de Jacob acompanha o regato no
alinhamento dos pastos de João da Silva e Oliveira e
Joaquim Antônio de Resende. A comissão tinha com­
preendido êste pedaço de rua na - Antiga Rua Gran­
de - dando-lhe também o nome de Tiradentes -. Nes­
te plano, esta rua é a quarta e última parte daquela.
Em 1855 foi incluída como fazendo parte da - Rua Di­
reita ou Grande.
Rua Tristão de Castro
Principia no Largo da Matriz (canto da Travessa Joaquim Iná­
cio) ; finda no campo para o lado da casa de José Raimundo. Co­
meça nela a Travessa Felipe. Pertence à Colina da Matriz.
N. B. Esta rua tem sido denominada de - Azagaia -. Ela
acompanha a estrada do Capão Limpo. A comissão ti­
nha contemplado esta rua - Antiga Rua de Azagaia -
dando-lhe o nome de - Rua de S. Miguel.
Rua Tiradentes
Principia na Rua Gutemberg (no ponto onde termina a Rua
72 BORGES SAMPAIO

Municipal); fínda no Alto do Cuiabá. t atravessada pela Rua das


Mercês. Atravessa o regato que tem nascente na chácara do Al­
feres Silvestre em pequena ponte. Pertence em parte à Colina da
Matriz, e em parte à Colina Cuiabá.
N. B. É a rua que, começando no canto da casa onde foi o
estabelecimento comercial de Luís Soares Pinheiro, pas­
sa na ponte denominada - da Monteira -; passa o
rêgo na frente da casa do escrivão de órfãos Luís da
Silva e Oliveira, e sobe o alto na casa da finada Maria
Fernandes, a alcançar o Alto do Cuiabá, onde houve o
Colégio de Vaz de Melo, demolido depois. A comissão
tinha compreendido esta rua, como um pedaço da An­
tiga Rua Grande -, a que tinha dado o nome - Tira­
dentes -. Neste plano, é esta a primeira parte da an­
tiga Rua Grande, que também foi achada em 1855. Foi
muito conhecida pelo nome de - Rua da Monteira -,
e - do Felicio.
Rua Vigário Silva ·

Principia no Largo da Matriz; finda no Largo da Independên-
cia. É atravessada pelas Ruas Ladeira e S. Miguel. Acaba nela o
Beco Liberdade. Pertence à Colina da· Matriz.
N. B. Esta rua foi sempre conhecida por - Direita ou Gran­
de -. · É uma das mais importantes da cidade, mas de
alinhamento em arco. A comissão a tinha compreendi­
do na - Antiga Rua Grande - êste pedaço, a que tinha
dado o nome - Tiradentes -. Neste plano, é esta. a
terceira parte da antiga Rua - Grande - ou Direita.
Rua das Flôres

Principia na Travessa Alegria; finda na Rua Padre Zeferino.


É atravessada pela Rua do Rosário. Pertence à Colina Boa Vista.
N. B. Esta rua é a em que residiram os falecidos Lemos, Viei­
ra e Firmino. Também foi conhecida pela Rua dos -
Inglêses -, e em 1855 era assim conhecida. ultima­
mente distinguia-se pela denominação de - Rua da
Pinga -. A comissão contemplou esta rua com o no­
me de - Antiga Rua da Pinga -, e deu-lhe o de -
Rua das Flôres - que neste plano é conservado.

TRAVESSAS

Travessa Alegria

Principia na Rua do Imperador; finda no Largo da Boa Vista.


UBERABA: HISTóRIA, FATOS E HOMENS 73

Começa nela (à direita) a Rua das Flôres. Pertence à Colina Boa


Vista.
N. B. Nesta travessa não há casas, mas na sua meia distância
à esquerda há duas moradas para dentro do alinha­
mento. Pode ser mais conhecida pelo grande trânsito
de carros que aí passam vindos do Alto do Fabrício pa­
ra a nova casa Fabrício Borges, e vice-versa. A comis­
são não contemplou esta travessa.
Travessa do Felipe

Principia na Rua Major Eustáquio; finda no campo para o


lado do cemitério e por detrás dêste. É atravessada pela Rua Tris-
tão de Castro. Pertence à Colina da Matriz. ·
N. B. Esta travessa, quando fôr continuada, passará atrás da
Capela de S. Miguel. A comissão não contemplou esta
travessa.
Travessa Joaquim Inácio

Principia no Largo da Matriz; finda na Rua Major Eustáquio.


Pertence à Colina da Matriz.
N. B. Não tem casas esta travessa. No canto dela acaba o
Largo da Matriz. A comissão não contemplou esta tra­
vessa.

BECOS
Beco da Fonte

Principia na Rua Tristão de Castro; finda na fonte pública. É


atravessado pela Rua Major Eustáquio. Pertence à Colina da Matriz.
N. B. Não há saída dêste beco da fonte em diante, a qual fica
ao lado direito da Rua Major Eustáquio. A comissão
não contemplou êste beco.
Beco Liberdade
Principia na Rua da Ladeira; finda na Rua Vigário Silva. É a­
travessado pelu Rua Santo Antônio. Pertence à Colina da Matriz.
N. B. A Rua de Santo Antônio atravessa êste beco próximo à
casa do Cônego Carlos José dos Santos. A comissão ti­
nha-o contemplado - Beco entre a casa do Vigário -
dando-lhe o nome que agora recebe. Também foi co­
nhecido por - Beco de Padre Francisco.

LARGOS
74 BORGES SAMPAIO

Largo da Boa Vista

Situado na entrada da cidade pela estrada que vem da ponte


de cima no Rio Uberaba. Principiam nêle (à direita) as Ruas Pedro
Gonçalves e Leste; a Rua Boa Vista ( à esquerda) ; findam nêle a
Rua do Rosário e Travessa Alegria. Pertence à Colina Boa Vista.
N. B. Esta localidade tem sido conhecida pelo - Alto do Fa­
brício. É aprazível e higiênica. Os dois vértices do qua­
drado que devem limitar êste largo para o lado do Ca­
ximbo ainda não estão marcados. A comissão não com­
preendeu êste largo com situação própria.
Largo do Cemitério

Situado atrás da Igreja Matriz, em frente ao cemitério pú­


blico. Pertence à Colina da Matriz.
N. B. Todo êste largo está fechado por uma cêrca de rachas
de aroeiras. No portão dêste cemitério é o ponto cen­
tral da légua quadrada do patrimônío da Matriz. As
posturas de 1857 lhe dão êste mesmo nome. A comis­
são não lhe deu situação própria.
Largo da Independência

Situado no fim da Rua Vigário Silva. Principiam neste largo,


à direita, as Ruas Princesa, S. José e João Alferes: findam 'nêle, à
esquerda, as Ruas Vigário Silva e Santo Antônio. Pertence à Colina
da Matriz.
N. B. Foi conhecido êste largo, pelo - Largo do Jacob -, e
por último conhecia-se pelo Largo de João Bento Gar­
cia. A ,comissão
~ . não contemplou êste largo com situa-
çao propna.

Largo da Matriz

Situado no centro da cidade. Principiam neste largo, à direita,


as Ruas Ladeira, Santo Antônio, e Vigário Silva; na frente a Rua
do Comércio; à esquerda as Ruas Municipal e S. Sebastião, e a Tra­
vessa Joaquim Inácio. Pertence à Colina da Matriz.
N. B. Pelo lado de trás da Matriz fica o cemitério público.
Entre êste e a Igreja há uma casa isolada pertencente
ao Major Francisco Rodrigues de Barcelos. No fundo
do largo, à esquerda, está o Paço Municipal; à direita,
o Teatro S. Luís. A comissão não contemplou êste largo
com situação própria. Já em 1855 se o conhecia pela
denominação - Largo da Matriz Nova -. As posturas
de 1857 o denominam - Praça.
UBERABA: HISTóRIA, FATOS E HOMENS 75

Largo da Misericórdia

Situado na entrada da cidade para quem vem da Província de


S. Paulo pela estrada do Pôrto da Ponte Alta. Principiam nêle, à
direita, as Ruas Ponte Alta, Sacramento, S. Joaquim, e Farinha Po­
dre; à esquerda, as Ruas Capitão Domingos e Frei Eugênio: fin­
dam nêle, à esquerda, as ruas Santa Rita, Ladeira e S. Miguel.
Pertence à Colina da Misericórdia.
N. B. tste largo é o mais espaçoso dos de tôda a povoação;
nêle existe o grande edifício da Santa Casa de Miseri­
córdia fundada por Frei Eugênio, fazendo alinhamento
com o cemitério público, também fundado pelo mesmo
sacerdote. A comissão não contemplou êste largo com
situação própria. Em 1855 era denominado - Largo
do Rancho.
Largo das Mercês

Dêste largo falou-se na Câmara Municipal quando, na sessão


de 24 de abril de 1880, fai deliberada a abertura da Rua do Cru­
zeiro. Não há para êle demarcação alguma pelo enquanto; mas
se fôr demarcado , ficará situado no Alto do Cuiabá, do lado por
onde se entra na cidade vindo da Ponte do Vau, onde existe um
Cruzeiro. Neste largo começará a Rua do Cruzeiro; findarão nêle
as Ruas s. Sebastião e Tiradentes. Pertence à Colina Cuiabá.
N. B. Desde muito tempo se projeta edificar nesta localidade
uma capela sob a invocação de Nossa Senhora das
Mercês. Há mais de vinte anos também se pretendeu
construir ali uma capelinha, tendo Santa Bárbara por
orago. Nesta localidade funcionou por alguns anos o
Colégio de Vaz de Melo em edifício já demolido, e na­
quela época conhecido por - Cuiabá.
Largo da Piedade

Situado em frente à Matriz. Começa neste largo, à esquerda,


a Rua Major Barcelos; findam nêle, à direita, a Rua Presidente; na
frente, a Rua Capitão Rosa. Pertence à Colina Estados Unidos.
N. B. Projeta-se edificar no centro dêste largo uma igreji­
nha, com a invocação de Nossa Senhora da Piedade. o
terreno dêste largo está apenas demarcado. Ficar-lhe-á
a Igreja do Rosário à direita, e a de Santa Rita à es­
querda. Será um ponto sumamente aprazível. Esta lo­
calidade também tem sido conhecida por - Alto das
Cavalhadas -, Alto do Rosário -, Morro Plano -. A
comissão não compreendeu êste largo com situação
própria.
76 BORGES SAMPAIO

Largo do Rosário

Situado entre a Rua do Comércio (à direita) e a Rua do Mer­


cado (à esquerda). Principia, em frente à Igreja, a Rua do Rosário;
passa-lhe pela frente a Rua do Comércio, e pelo lado oposto a Rua
do Mercado. Pertence à Colina Estados Unidos.
N. B. No centro dêste largo está edificada a Igreja do Rosá­
rio; lateralmente, na colina, à esquerda, fica-lhe a Igreja
de Santa Rita. A comissão não compreendeu êste largo
com situação própria.
Largo de Santa Rita

Situado em frente ao edifício da Santa Casa de Misericórdia.


Principiam neste largo, na frente, as Ruas Carmo e Santa Rita; à
esquerda a Rua S. Francisco; findam nêle, à direita, as Ruas Major
Barcelos, Alegre, e Imperatriz. Pertence à Colina Estados Unidos.
N. B. No centro dêste largo está edificada a Igreja da invo­
cação de Santa Rita de Cássia. Do lado oposto da co­
lina, à direita, fica-lhe a Igreja do Rosário. A comissão
não contemplou êste largo com situação própria. As
posturas de 1857 o denominam - Praça de Santa Rita.
ANOTAÇÕES
Que podem servir para melhor conhecer-se a direção e posição,
direita ou esquerda,. das ruas, largos, colinas, regatos e córregos;
bem como a colocação dos números nos prédios.

Convirá que o lado direito ou esquerdo nos Largos da Matriz,


Santa Rita e Rosário, se determine, supondo-se a pessoa colocada
na porta principal de qualquer destas Igrejas - em ação de sair.
Nos Largos do Cemitério e Misericórdia, colocando-se a pessoa
também na ação de sair, no portão ou porta principal dêstes edi­
fícios.
No Largo da Independência, olhando-se para a Colina da Mise­
ricórdia que lhe fica fronteira.
No Largo da Piedade, olhando-se para a Matriz. O mesmo
quanto aos Largos Boa Vista e Cuiabá.
Com relação às colinas, regatos e córregos, postando-se a pes­
soa com a frente para foz do Córrego Laje.
Convirá igualmente que a numeração se comece nos largos
pelo lado direito.
Convirá ainda que o lado direito ou esquerdo, como pontos
de partida para a numeração dos prédios seja determinado par­
tindo-se dos largos; dando-se preferência ao da Matriz para as
ruas que dêle saírem e forem dar em outros largos.
Nas ruas que tiverem princípios em outros, se determinem a
UBERABA: HISTóRIA, FATOS E HOMENS 77

colocação da numeração partindo, o mais próximo possível, do


centro da cidade.
Convirá também que a numeração de cada um prédio seja
colocada na soleira da porta da entrada; cada um dêles recebe uma
só numeração; ainda que aí habite mais de um indivíduo, ou fa­
mília, de economia separada.
Se o prédio a numerar-se fôr situado em um canto de duas
ruas, não receba mais de um número; e êste mesmo do lado da
rua mais importante; ou então daquela que o proprietário preferir.
Se a algum prédio houver anexo dependências com entrada
pela frente da rua, cada uma dessas dependências, se fôr distin­
tas embora pertença ao proprietário do prédio principal, deverá
receber a numeração como se fôsse prédio habitado, ou distinto.
Os portões, portas, ou cancelas, que da rua derem entrada
para pátios ou quintais de prédio principal, convém que sejam ex­
cluídos da numeração. Mas os que derem ingresso a prédios habi­
tados, sejam numerados.
A prática hoje adotada nas cidades mais adiantadas é a de
escrever-se a numeração alternadamente, ficando à direita os nú­
meros pares, e à esquerda os ímpares. E quando posteriormente
se edifica nôvo prédio entre os já numerados, repetir-se nêle a nu­
meração acrescentando-se-lhe somente uma letra na ordem alfa­
bética.
Algumas das ruas da cidade de Uberaba prestam-se mal a
esta forma de numerar os prédios pela disseminação dêles: não
obstante tem sido a mais praticável em lugares de iguais condições.
Não é de prática o pôr-se numeração nos templos e edifícios
públicos; ou que tenham sido construídos para fim especial de
caráter público.

TEMPLOS - EDIFiCIOS POBLICOS

Ainda que, como já ficou dito, os templos e os edifícios pú­


blicos, bem como os que assim são caracterizados, por terem sido
oonstruídos com destino à concorrência pública, como sejam os
teatros, não seja de prática numerarem-se, - esta mesma cir­
cunstância concorre para que se descreva a situação dêles: visto
como, por mais de uma vez têm sido referidos, e continu~rão a
sê-lo, em atos públicos, judiciais e administrativos, e nas relações
particulares, caracterizando outros prédios.
É isto tanto mais importante quanto é certo que os Poderes
do Estado es_tud~m a conve~iência de fundar-se no Império o
cadastro territorial, para obrigar os atos, que lhe são inerentes,
ao registro público: quando a medida já é aconselhada pelo atual
Registro Geral das Hipotecas, Transmissão de Imóveis e ônus Reais.
Não foi seguida a ordem alfabética enquanto a estas edifica-
-
çoes.
78 BORGES SAMPAIO

TEMPLOS

Igreja Matriz

Está edificada no centro do Largo da Matriz, sob a invocação


de Santo Antônio e S. Sebastião. Fica no lado esquerdo do Córrego
Laje na Colina da Matriz.
Igreja de Santa Rita

Está edificada na encosta esquerda da Colina Estados Unidos,


sob a invocação de Santa Rita de Cássia. Fica ao lado direito do
Córrego Laje na Colina Estados Unidos.
Igreja do Rosário

Está edificada na encosta direita da Colina dos Estados Unidos,


sob a invocação de Nossa Senhora do Rosário. Fica ao lado direito
do Córrego Laje.
Igreja de S. Miguel

Está edificada na Colina da Igreja da Matriz dentro dos mu­


ros do cemitério público, sob a invocação de S. Miguel. Fica ao
lado esquerdo do Córrego Laje.
Igreja de S. Francisco

Está edificada no Hospital de Santa Casa de Misericórdia, sob


a invocação de S. Francisco de Assis e Nossa Senhora das Dores.
Acha-se em reconstrução. Fica ao lado direito do Córrego Laje na
Colina da Misericórdia.

EDIFtCIOS PCBLICOS

Paço Municipal
.. Situado no Largo da Matriz (à esquerda) canto da Rua Muni­
cipal. Foi construído a expensas dos habitantes de Uberaba em
1837, sob a administração do Capitão Domingos da Silva e Oliveira.
Serve para as sessões da Câmara Municipal, do Júri, Juntas Mu­
nicipais, de Qualificação e outras de caráter público. Reunem-se no
seu salão os Colégios Eleitorais. Tôdas as autoridades judiciárias
dão nêle suas audiências. Anexos ficam-lhe os compartimentos que
servem de prisão aos criminosos e detentos, aos quais se tem dado
o nome de - Cadeia -. É da Colina da Matriz.
Cadeia
Chama-se cadeia nesta cidade a um acrescentamento contí-
UBERABA: HISTóRIA, FATOS E HOMENS 79

guo ao Paço Municipal, e que por conseguinte é dependência dêste


edifício. Ao compartimento da rés de chão chama-se enxovia, ten­
do somente grades para a Rua Municipal e a entrada pelo Largo
da Matriz. Por cima da enxovia fica a sala livre, servindo também
de estação ao carcereiro. Debaixo do salão do Paço Municipal há
mais dois pequenos quartos que servem de prisão - xadrez: tam­
bém aí é o lugar onde estaciona a guarda dos presos, que se de­
nomina; - corpo da guarda; tudo com a entrada pelo Largo da
Matriz. Pode dizer-se, pois que a cidade de Uberaba não tem ca­
deia propriamente dita. É da Colina da Matriz.
Mercado Público

Situado na encosta da Colina Estados Unidos, entre as Ruas


do Comércio (à direita) e a do Mercado (à esquerda). Foi cons­
truído pela Câmara Municipal em 1880. Ainda não está concluído.
Matadouro Público
Situado à margem esquerda do Córrego Laje e lado esquerdo
da Rua Matadouro, entre a Rua das Mercês (ao lado direito) e
Imperador ( ao lado esquerdo), próximo à ponte - João Mateus.
Foi mandado construir pela Câmara Municipal em 1875.
Cemitério Público
Situado atrás da Igreja Matriz. Foi construído pelos habitan­
tes de Uberaba em 1856, sob a direção do missionário capuchinho
Frei Eugênio Maria de Gênova. Tem dentro dos muros a Igreja
de S. Miguel. No portão da entrada dêste cemitério é o ponto
central da medição e demarcação da légua quadrada que doou
Tristão de Castro Guimarães em 1812 para o patrimônio da Ma­
triz, medida em 1843 e retificada em 1870. É da Colina da Matriz.
Santa Casa de Misericórdia

Situada no Largo da Misericórdia. Foi fundada pelo missioná­


rio capuchinho Frei Eugênio Maria de Gênova, em 1858. É da
Colina da Misericórdia. Está ainda em construção.
Cemitério de S. Francisco
Situado nas dependências da Santa Casa de Misericórdia ao
lado esquerdo da Rua Frei Eugênio. Foi começado em 1870, d~sti­
nado aos irmãos de S. Francisco. Não está concluído. É da Colina
da Misericórdia.
Teatro S. Luís
Situado no Largo da Matriz (à direita). Foi mandado construir
por uma associação particular em 1863.
80 BORGES SAMPAIO

Escola Pública

A segunda escola pública de instrução primária do sexo mas­


culino regida pelo professor normalista vitalício, Manuel Garcia
da Rosa Terra, funciona desde 1876 em edifício apropriado, cons­
truído a expensas do referido professor em 1875. É situado na Rua
Vigário Silva, à esquerda entre as Ruas da Ladeira e S. Miguel.
Nota

As outras escolas funcionam em casas que não foram, como


esta, construídas para êsse fim.
O mesmo cabe dizer-se dos prédios onde os funcionários pú­
blicos exercem seus cargos.

EMPR~SAS

Pôsto que a descrição das emprêsas fôsse mais cabível num


almanaque noticioso, por participarem mais de elemento indus­
trial, todavia, sendo as que se fundaram e existem atualmente den­
tro da cidade de natureza mais ou menos mista, não é fora de pro­
pósito consigná-las neste escrito, em razão da sua importância his­
tórica no futuro.
Atualmente possui a cidade de Uberaba quatro estabelecimen­
tos que se podem considerar nas condições supra. São êles :
Tipografia da "Gazeta de Uberaba"

Estabelecida no Largo da Matriz, canto da Rua S. Sebastiãc.


Emprêsa particular fundada em 1879 pelos proprietários Ludovice
· & Companhia, sob a administração de José Augusto de Paiva Tei­
xeira e redação de diversos. Esta tipografia, a primeira estabele­
cida nesta cidade, em 1874, pertenceu primitivamente ao Doutor
Henrique Raimundo des Genettes, que nela publicou o Paranaíba
depois o Eco do Sertão. Em 1875 foram seus proprietários H. R.
.. des Genettes e Paiva Teixeira. Em 1876 passou a ser propriedade
de P. Teixeira, Ribeiro & Magalhães, sob a redação de Antônio Bor­
ges Sampaio, gerência de Antônio Augusto Pereira de Magalhães,
edição de José Augusto de Paiva Teixeira. Atualmente são proprie­
tários desta emprêsa João Caetano & Rosa, sob a redação do ba­
charel João Caetano de Oliveira e Sousa.

Tipografia do ''Correio Uberabense''


.
Estabelecída na Rua S. Sebastião, à esquerda, em frente à Rua
Gutemberg. Emprêsa particular de propriedade de Oliveira Pena
& Teixeira, sob a redação de J. A. G. Silva Júnior e Gaspar da Silva,
fundada em 1880. Imprimiu-se também nesta tipografia O Recreio,
UBERABA: HISTóRIA, FATOS E HOMENS 81

de propriedade de F. Bastos, periódico que ultimamente passou a


chamar-se O Raio, sob a mesma direção.
Fábrica de Chapéus

Da qual é proprietário Quirino Rodrigues de Miranda, e por


êle estabelecida em 1880, em prédio adquirido, sôbre o Córrego
Laje, na Rua do Comércio, à direita, entre o Largo da Matriz e o
ponto onde começam as Ruas da Imperatriz (à direita), e do Im­
perador (à esquerda). É o primeiro estabelecimento desta natu­
reza fundado nesta cidade com base e método; porquanto, embora
em 1850 Luís Soares Pinheiro fundasse uma fábrica de chapéus
em Uberaba, mandando vir da Europa oficiais carneiros vivos, esta
indústria não prosperou, por limitar-se, talvez, à obra de lã, sem
as máquinas da atual.
Colégio Piedade

Fundado em 1878 pelo Alferes Joaquim Antônio Gomes da Sil­


va Júnior, do qual é proprietário e diretor. Funciona atualmente
em prédio construído adequadamente para o extinto Liceu Ube­
rabense, na Rua do Imperador (à esquerda), entre as Ruas Gutem­
berg e Matadouro, e frente da Rua Leste.

CONCLUSÃO

Aí fica traçado um projeto sem erudição, que ao menos po­


derá servir a fatôres mais robustos que se proponham, no futuro,
a melhorar o importante serviço da nomenclatura das ruas da ci­
dade de Uberaba.
Outubro de 1880.

NOTfCIA SôBRE A APROVAÇÃO QUE A CÂMARA MUNICIPAL


DE UBERABA DEU AO PROJETO DE 1880, ORGANIZANDO A
NOMENCLATURA DAS RUAS DA CIDADE

O autor do projeto da - DENOMINAÇÃO DAS RUAS DA CI­


DADE DE UBERABA apresentou-o à comissão especial, que a
Câmara Municipal tinha nomeado para organizá-lo com o seguin-
te ofício : '
"Ilmos. Srs. - Desempenho-me hoje do compromisso que me
im~us em ofício de 27 ~e fevereiro. ~o. corrente ano e meus colegas
aceitaram no que se" dignaram dírígír-me no dia seguinte, apre­
sentando o projeto sobre a nomenclatura das ruas desta cidade,
conforme o plano que eu tinha concebido.
Não há nêle erudição, mas sim simples e original singeleza.
82 BORGES SAMPAIO

Se o considerarem digno de apresentação à Ilustrada Câmara,


e esta, por sua vez, me honrar com a adoção dêle, dar-me-ei por
compensado das minhas fadigas em organizá-lo; fadigas que não
só provieram de ser o primeiro trabalho desta natureza, com re­
lação à nossa povoação, como da curteza de minhas habilitações
intelectuais.
Em compensação dos limitados conhecimentos para dizer com
elegância, procurei, o mais possível, registrar com exatidão; re­
cordando aos vindouros que quiserem dedicar-se a rever êste ten­
tame
, .
a tradição dos fatos relativos à História dêste ponto do Im-
peno.
Se não pude organizar êste projeto como talvez melhor con­
viesse, sobrou-me para isso muita vontade.
Deus guarde a V. S~s. Uberaba, 11 de outubro de 1880. -
Ilmos. Srs. Capitão José Bento do Vale, Quirino Rodrigues de Mi­
randa e Capitão Joaquim Rodrigues de Barcelos, DD. membros da
comissão especial encarregada de assentar-se sôbre a denominação
das ruas da cidade de Uberaba - Antônio Borges Sampaio".

A comissão, depois de ter estudado o projeto, apresentou-o,


por sua vez, à Câmara em sessão, com parecer seu, sem alterar-lhe
coisa alguma. .
O que se lê na ata da sessão da Câmara, de 19 de outubro,
prova que o trabalho do autor foi recebido e aprovado com agrado,
por deliberação unânime dos vereadores presentes - Major Joa­
quim José de Oliveira Pena, João Borges de Araújo, Tenente Ana­
nias Ferreira de Andrade, Capitão Joaquim Rodrigues de Barce­
los, Capitão José Bento do Vale e Professor Antônio Carlos de Araú­
jo.
Diz a ata dêsse dia, na parte em que se refere ao assunto:
"A comissão especial encarregada por esta Câmara de assen­
tar-se sôbre a denominação das ruas da cidade e numeração das
casas, tendo examinado o projeto organizado para êsse fim pelo
Sr. Tenente-Coronel Antônio Borges Sampaio, é de parecer que seja
aprovado. Uberaba, 15 de outubro de 1880. - Barcelos. - Miran­
da. - Vale".
"Pôsto em discussão, o Sr. Tenente-Coronel Antônio Borges
Sampaio, que se achava presente, pediu licença para êle mesmo
proceder à leitura dêsse trabalho, porque dêsse modo iria dando
as explicações necessárias.
Concluída a leitura, o Sr. Sampaio pediu desculpa por ter
ocupado por longo tempo a atenção da Câmara.
Pôsto em discussão o parecer, foi unânimemente aprovado,
mandando convidar o proponente para proceder ao trabalho da
denominação e numeração das ruas.
O Sr. Barcelos, pedindo a palavra, apresentou o requerimento
concebido nos seguintes têrmos :
UBERABA : HISTóRIA, FATOS E HOMENS 83

''O Tenente-Coronel Antônio Borges Sampaio acaba de prestar


à Câmara Municipal um relevantíssimo serviço, no importante
trabalho da nomenclatura das ruas desta cidade.
:tste prestigioso cidadão, tomando a si a árdua tarefa de con­
feccionar um registro histórico desta povoação, desde os seus pri­
mitivos tempos até hoje, desempenhou-a de modo muito satisfa­
tório.
A denominação das ruas, do modo porque foi organizada, é
um trabalho muito importante, muito consciencioso e útil.
Requeremos, pois, que na respectiva ata seja lançado um voto
de louvor e gratidão a êsse digno cidadão, que por mais de uma
vez tem prestado relevantes serviços à Câmara Municipal desta
cidade. - Uberaba, 19 de outubro de 1880. - Barcelos. - Vale.
- Pena. - Andrade. - Araújo. - A. Carlos."
Pôsto em discussão, foi unânimemente aprovado".
Em virtude desta decisão, expediu a Câmara o seguinte ofício:
"N9 69 A. - limo. Sr. - A Câmara Municipal desta cidade,
em sessão de hoje, resolveu, unânimemente, lançar em sua ata um
voto de gratidão e louvor, pelo relevantíssimo serviço que V. s~
acaba de prestar-lhe, auxiliando a comissão encarregada da no­
menclatura das ruas, praças e largos desta povoação.
O registro histórico de Uberaba, desde os seus primitivos tem­
pos até hoje, foi por V. s~ confeccionado com muita proficiência.
A denominação das ruas, do modo por que se acha organizada,
é um trabalho muito importante, mui consciencioso e útil.
A Câmara, pois, reconhecendo que V. S~ por mais de uma vez
tem-lhe auxiliado em seus mais espinhosos trabalhos, não podia
deixar de, nesta ocasião, apresentar a V. S~ o testemunho de sua
gratidão.
Deus guarde a V. s;;i - Paço da Câmara Municipal de Ubera­
ba, 20 de outubro de 1880. - Ilmo Sr. Tenente-Coronel Antôriio
Borges Sampaio. - Joaquim José de Oliveira Pena. - João Bor­
ges de Araújo. - Ananias Ferreira de Andrade. - Joaquim Ro­
drigues de Barcelos. - José Bento do Vale. - Antônio Carlos de
Araújo".

Da comissão especial, também o autor do projeto recebeu O


seguinte ofício :
"limo. Sr. - A comissão encarregada da denominacão e nu­
meração das ruas, praças e largos desta cidade, apresentou O im­
portante trabalho, que V. s~ confeccionou, à Câmara Municipal
que o adotou unânimemente, fazendo lançar em sua ata um vot~
de louvor e gratidão a V. s~.
A comissão não pode, também, e nem deve deixar de vir apre­
sentar a V. s~ os seus protestos de reconhecimento.
Queira, pois, V. s~ aceitar as seguranças de nosso cordial agra­
decimento, e sincera estima.
Deus guarde a V. s~ - Uberaba, 22 de outubro de 1880.-
84 BORGES SAMPAIO

Ilmo. Sr. Tenente-Coronel Antônio Borges Sampaio. - A Comis­


são - José Bento do Vale. - Joaquim Rodrigues de Barcelos. -
- Quirino Rodrigues de Miranda".

A redação do Correio Uberabense, dando notícia dêste pro­


jeto em o n9 22 de 24 de outubro de 1880, publicou as seguintes
linhas:
"TRABALHO NOTÁVEL. - Na sessão da Câmara do dia 19
foi lido um importante e minucioso trabalho do nosso respeitável
amigo, Tenente-Coronel Antônio Borges Sampaio, sôbre a fundação
e desenvolvimento dêste lugar e sôbre as denominações que devem
dar-se às ruas.
"A Câmara aceitou as indicações de S. S' e lavrou na ata um
voto de louvor e agradecimento a tão inteligente quão dedicado
auxiliar.
O trabalho do Tenente-Coronel Sampaio revela muita paciên­
cia, muitos conhecimentos da história e topografia de Uberaba, e
muita observação".

Na sessão de 22 do mesmo mês e ano, a Câmara, entre outros


assuntos sôbre que deliberou, regístrou o seguinte, que se lê na
ata dêsse dia:
''Em seguida, estando presente Belmiro Antônio Vilarouco,
proponente aceito pela Câmara para fazer a denominação das ruas
e numeração das casas da cidade, lavrou-se o contrato, com as
bases estabelecidas .no edital publicado" .

Em junho de 1881, tôdas as ruas da cidade de Uberaba já


tinham sua denominação própria, por meio de tabuletas, fixadas
nos cantos, de conformidade com o projeto aprovado, sendo a ins­
crição em letras brancas sôbre fundo prêto.
Como as edificações eram de madeira, dando espaços acanha­
dos e irregulares, sómente as tabuletas se prestavam à nomencla­
tura.
Enquanto à numeração dos prédios, foi feita, colocando-se-á
nos edifícios em chapas metálicas pintadas de prêto com letras
brancas, na entrada principal dêles.
Também nesta parte foram observadas as indicações do ca­
pítulo 12, do projeto.
A Câmara prestou assim um grande serviço à povoação, faci­
litando os característicos da propriedade em diversas transações.
Uberaba, 20 de junho de 1896.
(in Revista do Arquivo Público Mineiro, ano I, fascículo 2Q. Ouro
Prêto, Imprensa Oficial de Minas Gerais, abril/junho 1896,
págs. 289/338)
IGREJA MATRIZ DE UBERABA

A atual Igreja Matriz de Uberaba, não é a primeira edificada


para o exercício do culto de seus fiéis, por isso que, com a mesma
invocação de Santo Antônio e São Sebastião lhe antecederam dois
templos, hoje demolidos, dos quais não resta vestígio algum.
Conheci, por alguns anos a segunda (desde ~847, até 1856);
- da primeira tenho apenas a tradição e dela ainda se poderia
ter visto vestígios até os anos de 1872 - 75.

O viajante, que da estação férrea de Jaguara, se dirigir à atual


cidade de Uberaba pela linha Mojiana e depois de ter deixado a
estação de Paineiras, passado que tenha o pontilhão do Lajeado,
prestando atenção quando tiver alcançado a Chapada e antes de
frontear o Capão Alto, se olhar à direita ver-se-á fronteado a uma
elevação saliente do terreno oposto, a cêrca de quatro quilôme­
tros de si.
Entre a via férrea e a dita elevação há o córrego, que também
se chama - do Lajeado - mas que nada tem de comum com o
que foi atravessado pela estrada Mojiana.
Para o córrego Lajeado, que é o divisor do patrimônio da Ma­
triz de Uberaba, formou a natureza duas vertentes, que foram
denominadas - Cabeceiras do Lajeado. - Neste ponto se loca­
lizou a primeira sesmaria destas paragens, concedida pelo Govêr­
no de Goiás a José Gonçalves Pimenta, localização que teve lugar
em 25 de janeiro de 1803, antes de denominar-se - Uberaba -
êste território, visto como se fêz a demarcação " ... na paragem
chamada Santo Antônio da Laje, vertentes do Rio Grande, Fre­
guesia do Julgado do Desemboque ... ", diz o respectivo auto da
medição localizadora, o mais antigo que se conhece, de sesmarias
medidas na dita paragem.
Em uma das sobreditas vertentes, que ainda conheci flores­
tais para machado, e na que era mais afastada da elevação do
terreno a que aludi, por conseguinte a mais próxima da linha Mo­
[íana, fundou-se a primeira povoação - UBERABA. Ali se edifi-
86 BORGES SAMPAIO

cou logo uma Capela, tendo por oragos - Santo Antônio e S.


Sebastião.
~ste pequeno núcleo, composto de pessoal emigrado do então
opulento julgado do Nossa Senhora do Destêirro do Desemboque,
não excedeu de uma dezena de cabanas, construídas de paus ro­
liços sôbre esteios forquilhados, presos por cipós, sendo todo o
mais material de fôlhas da palmeira baguaçu, quer aos lados,
quer no teto, e as entradas fechadas com varas, pelo modo que
então se chamava - de rodízio.
Do mesmo material e modo de construção era também, nessa
época, a Capela de Santo Antônio e São Sebastião de Uberaba.
Não conheço precisamente a data da fundação dêsse núcleo,
nem a da edificação de sua Capela; penso todavia não andar mui­
to arredio, considerando a edificação e fundação datar do fim
do ano de 1807, sob os auspícios do notável sertanejo José Fran­
cisco de Azevedo, para quem se demarcou a sesmaria - das Cabe­
ceiras do Lajeado - que lhe· fôra cedida pelo concessionário pri­
mitivo, José Gonçalves Pimenta.
As florestas de ambas as referidas vertentes desapareceram,
devido ao implacável machado e ao fogo, destruidores de nossas
belíssimas matas e capões; mas, quem quisesse, ainda hoje co­
nhecer a do primeiro povoado acharia, na sua embocadura ao cór­
rego do Lajeado, do lado oposto, isto é, à margem esquerda do
mesmo córrego, a habitação do conhecido Rafael Dias da Silva;
um velho respeitável de noventa e dois anos de Idade, que ali mora
há muitos anos, o qual dá notícia dos últimos vestígios dêsse pri­
mitivo povoado e dos da sua Capela.

Pelos anos de 1809 a 1811, esteve naquela paragem o Sargen­


to-Mor Antônio Eustáquio da Silva Oliveira, homem observador,
o qual, reconhecendo não oferecer a localidade boas proporções
para o desenvolvimento de um povoado no Sertão da Farinha
Podre, visto ter contra si, especialmente, a exiguidade de águas,
avançou-se adiante cêrca de duas léguas e meia, onde se lhe de­
.. parou o córrego - LAJE - de numerosas vertentes em suas ca­
beceiras; por conseguinte, com abundante abastecimento de águas
puras e ilhotes florestais de prodigiosa vegetação, circulados por
campos viçosos.
Nesta localidade, na margem esquerda fundou uma situação
(chácara), que ainda conheci com a primitiva construção; isto é,
casa baixa, tendo entrada por uma varanda aberta, pela qual era
feita a servidão da casa, como era costume em muitas fazendas
antigas de Minas Gerais.
Nessa Chácara residiu o Major Antônio Eustáquio até o seu
falecimento, fato que teve lugar a 6 de fevereiro de 1832. (Veja-se
a nota 1) . Reconstruída a casa de morada na dita chácara pelo
UBERABA: HISTóRIA, FATOS E HOMENS 87

Tenente Fidélis Gonçalves dos Reis, depois pelo Govêrno Estadual,


ali funcionou o Instituto Zootécnico mineiro.
O Major Eustáquio retirou-se para Santo Antônio de Casa
Branca, donde era natural, em 1811, e, sendo homem preponde­
rante nos negócios públicos, conseguiu que o Govêrno do Rio de
Janeiro elevasse o primitivo povoado UBERABA, à categoria de
Distrito, por ato de 13 de fevereiro de 1811.
Regressou o Major Eustáquio ao s·ertão da Farinha Podre,
investido dos cargos de Comandante do Distrito e Curador dos
índios. Sem abandonar a sua primitiva morada a Chácara -,
veio edificar uma casa a cêrca de dois quilômetros daquela; casa
que habita o obscuro escritor desta narrativa desde 24 de março
de 1850, a qual, pôsto tenha recebido muitos melhoramentos, to­
davia ainda nela se conhece a edificação primitiva.
O gênio bondoso e caritativo do Major Eustáquio, seu caráter
oficial e posição social, foi atraindo a população do primitivo po­
voado, que se foi transferindo para a localidade da atual povoação
de UBERABA.
As chocas
., das cabeceiras do Lajeado foram abandonadas, e
por conseguinte a primitiva Capela.
Crescendo o nôvo povoado nas margens do córrego LAJE,
cuidou-se logo de edificar nova Capela, com a mesma invocação
de Santo Antônio e São Sebastião. O lugar eleito foi no campo,
à meio quilômetro da casa do Major Eustáquio, onde atualmente
existe o Cemitério construído em 1856 pelo benemérito missioná­
rio franciscano, Frei Eugênio Maria de Gênova.
Era essa segunda Capela de dimensões muito limitadas e de
paredes de paus a pique e barro, atijolada e coberta de telha vã,
sem fôrro, quando em 1847 a conheci. Nela continuou o culto
religioso até sua demolição em 1856, para o seu terreno, já sagra­
do, ficar dentro dos muros do dito Cemitério, como ficou; o qual
tem a entrada justamente no lugar onde era a porta principal
da Capela. Dentro dos muros do referido Cemitério ficou também
um outro Cemitério, o primitivo, de limitadíssimas dimensões, o
qual conheci desde 1847 até 1856, tapado de muro rústico feito
de pedra tapiocanga em parte e em parte de achas de aroeira ah
qual dava entrada uma pequena cancela. '
Era a tal Capela o segundo templo dedicado a Santo Antônio
e São Sebastião de Uberaba, constituído em primeira Matriz pela
elevação do povoado à categoria de paróquia em 1820. '
Com efeito, em 1818, o Padre Hermógenes Cassimiro de Araú­
jo Bruonswik requereu, que nesta nova Capela fôssem continuados
os socorros do culto religioso (nota 2), graças que lhe foi conce­
dida por Provisão de 20 de julho (nota 3) e alvará de 3 de agôsto
de 1818 (nota 4), como filial da paróquia de Nossa Senhora do
Destêrro do Desemboque, sendo a bênção e a posse da mesma Ca­
pela efetuadas em 1 <? de dezembro daquêle mesmo ano (nota 5) ,
88 BORGES SAMPAIO

fazendo-se em seguida o inventário de seus ornamentos e alfaias


(nota 6).
O Decreto de 2 de março de 1820, elevou esta Oapela à cate­
goria de paróquia independente, ficando assim constituída sua
Matriz - a primeira MATRIZ.
Para regê-la, nomeou-se-lhe vigário encomendado o Padr·e An­
tônio José da Silva, sendo afinal calado vigário efetivo o mesmo
padre em 1830, ocupando-ã até 1855,' quando transferiu sua resi­
dência para o Rio de Janeiro, onde faleceu como Cura da Fregue­
sia do Sacramento.

Em 1847 encontrei a Igreja Matriz atual tendo apenas o te­


lhado sôbre esteios e baldrames de aroeira engradados, mas sem
paredes nem assoalho.
Foi em 1848 que o Capitão Joaquim Antônio Rosa, homem de
reconhecida probidade e muito prestígio, instado pelo povo, tomou
a seu cargo a continuação das obras da - Matriz Nova. Consti­
tuiu-se Procurador para receber os donativos e aplicá-los às obras,
conseguindo assim levá-las quase a têrmo. A Capela-mor tinha
então sido construída de taipa; foi abatida e edificada outra com
os mesmos materiais do corpo da igreja - paus a pique, ripas,
barro e reboque; acrescentou-lhe as coxias laterais.
Em 1857 o missionário franciscano, Frei Eugênio Maria de Gê­
nova, fêz-lhe construir vasta sacristia atrás da Capela-mor e am­
plo adro, dotando-a com paramentos e alfaias.
Em 1859, uma comissão de cidadãos beneméritos contratou
com Joaquim Francisco de Ananías o aumentá-la para a frente e
construir-lhe o Altar-mor, o Arco Cruzeiro, duas Tôrres e o Côro
no aumento. As obras adiantaram-se, mas ficaram estacionadas
por mais de três anos : em 1865, quando aqui se demoraram as
f ôrças que marcharam para Mato Grosso ao mando do Coronel
Drago, ainda estavam as tôrres em esqueleto.
Todavia, o Capitão Joaquim Antônio Rosa continuou a adi­
antar-lhe os serviços internos, até seu falecimento em Poços de
Caldas no ano de 1886.
Devido ainda a êste prestimoso cidadão, pelos anos de 1867-68,
foi o esqueleto das tôrres revestido de tijolos, argamassa e óleo,
colocando-se nelas dois sinos de cêrca cfe trinta e cinco arrôbas
cada um, que a Matriz ainda possui, sendo o destinado ao serviço
do culto fundido em Uberaba por José Carlos Onofre, com os se­
guintes dizeres em caracteres também fundidos: - Fundido na
cidade de Uberaba por José Carlos Onofre, em 1880. Por cima des­
ta inscrição se vê nêle, obtidas pela fundição, as imagens de San­
to Antônio e a de São Sebastião.

Esta nova Matriz - "Está edificada no centro do Largo da


UBERABA: HISTôRIA, FATOS E HOMENS 89

Matriz, sob a invocação de Santo Antônio e São Sebastião. Fica


ao lado esquerdo do córrego Laje, na Colina da Matriz''. Foi assim
que dei notícia dêste terceiro templo paroquial, quando em 1880
apresentei à Câmara Municipal o meu p.rojeto sôbre a - Deno­
minação das Ruas da Cidade de Uberaba.

Em 1896 passou esta Matriz por uma reconstrução, sob a di­


reção do Vigário de 'então, o Cônego Aurélio Elias de Sousa, que a
igualou lateralmente, constituindo-a um só corpo até a sacristia
que foi conservada, removendo-lhe ainda o arco cruzeiro.
Sob o prestígio do mesmo Cônego Vigário, foi-lhe assentado o
Altar-mor e Sacrário, tudo de mármore, que agora tem.
Ultimamente, 1899, foram demolidas as duas tôrres construí­
das por Joaquim Francisco de Ananias, e edificada uma única,
elegante, com o frontispício também elegante, devido aos dese­
nhos do engenheiro Doutor Ataliba Vale, executadas pelo cons­
trutor Manuel Barcala Bergeiro, que empresara as obras por
42:000$000 rs., mas que custaram 49:8005000 rs., em virtude de
modificações adicionadas ao plano primitivo.
A comissão que se encarregou de obter os recursos para o
custo destas últimas obras, era composta dos cidadãos: Cônego
Inácio Xavier da Silva, presidente: Doutor João Caetano de Oli­
veira 'e Sousa, secretário; Major Manuel Alves Caldeira, Major
João Batista Machado, Capitão Lanes José Bernardes, Tenente­
Coronel Antônio Moreira de Carvalho, Capitão José Bernardino
da Costa.
A inauguração dêstes trabalhos teve lugar a 10 de setembro
de 1899 e dela lavrou-se ata (nota 7). Na pedra fundamental destas
obras foram depositados alguns periódicos da localidade, cartões e
moedas. Eu ali deixei por memória, um exemplar do Jornal do Co­
mércio do Rio de Janeiro, edição de 24 de agôsto de 1899 (nota 8)
e algumas moedas brasileiras.

Em 1873, formou-se uma comissão com os cidadãos - Vigário


Carlos José dos Santos, Comendador Antônio Elói Cassimiro de
Araújo, Major Francisco Rodrigues de Barcelos, Major Joaquim
José de Oliveira Pena, Capitão José Bento do Vale, negociante Luís
Soares Pinheiro, Capitão Manuel Rodrigues da Cunha, Tenente­
Coronel Antônio Borges Sampaio, e contratou com o relojoeiro
Florêncio Forneri a colocação de um regulador público em uma
das tôrres da Matriz. tste regulador foi inaugurado em 20 de ja­
neiro de 1874, sendo as despesas do contrato e obras do assenta­
mento pagas, com o produto subscrito por diversos cidadãos.
Quem estas linhas escreve foi o zelador do dito rdlógto du-
90 BORGES SAMPAIO

rante quatorze anos. O sino para êle foi doado em 1874 pelo Ca­
pitão Manuel Rodrigues da Cunha. Foi fundido no Rio de Ja­
neiro, mas o doador pagou as despesas do transporte até Santos;
dali à Uberaba foram pagar pela comissão, pagando eu as da su­
bida para a tôrre e colocação. tsse sino tem, fundidos, os seguin­
tes dizeres :

OFERECIDO PELO BENEMÉRITO


CAPITÃO MANUEL RODRIGUES DA CUNHA
PARA O RELóGIO DESTA MATRIZ
EM 20 DE JANEIRO DE 1874

O contrato feito entre a comissão de 1873 e Florêncio Forneri,


vai transcrito em a nota 9.
O regulador de 1874 funcionou até 1899; isto é, até serem de­
molidas as duas tôrres, sendo substituído na atual por um outro,
obtido à custa de donativos de comerciantes do Rio de Janeiro e
São Paulo e mandado fabricar na Suíça, assentando-o o mesmo
artista Florêncio Forneri, que tinha fornecido as indicações para
a fabricação; tudo por diligências da comissão das obras. O as­
sentamento dêste nôvo regulador, obra delicada, perfeita e bem
acabada, efetuou-se em 1900 e bate as horas repetidas e meias
horas como o primeiro no mesmo sino doado pelo Capitão Manuel
Rodrigues da Cunha, do pêso de trinta e cinco arrôbas.
As igrejas, primeira e segunda Matriz de Uberaba, tiveram
apenas dois Vigários colados. O primeiro, Cônego Antônio José
da Silva, serviu nela, nessa qualidade, desde 1830 até 1855. Antes
de 1830 e enquanto -foi Capela Curada do Desemboque, serviu o
mesmo de vigário encomendado e de pároco simplesmente.
O segundo Vigário colado, Cônego Carlos José dos Santos, ocu­
pou êsse cargo desde 1857 até o falecimento, a 23 de julho de 1891.
Durante êsse tempo e nos intervalos, serviram como coadjutores
ou interinos, diversos sacerdotes. Após a última Constituição bra­
sileira, há sido servida por párocos, nomeados unicamente pelo
Diocesano, ocupando êsse encargo, atualmente, Monsenhor Inácio
Xavier da Silva.
A primitiva Capela (a que também se denominou - Ermi­
da -) , erigida nas Cabeceiras do Lajeado, e da qual já tratei, foi
paroquiada pelo Padre Antônio José Tavares, que paroquiava ao
mesmo tempo a igreja de Nassa Senhora do Destêrro do Desem­
boque desde 22 de outubro de 1809, até 19 de dezembro de 1812.
Foi êste sacerdote que requereu fôsse ereta a Ermida nas Cabe­
ceiras do Lajeado, tendo por oragos Santo Antônio e São Sebas­
tião. Não pude, porém, obter a Provisão, nem ao menos a data
dela.

Na Matriz atual descansam os restos mortais dos Padres -


...

UBERABA: HISTóRIA, FATOS E HOMENS 91

Antônio Rodrigues Moreira, Francisco Nogueira Lôbo e Manuel


Camelo Pinto. Outros sacerdotes aqui falecidos depois de cons­
truído por Frei Eugênio o Cemitério na Colina da Matriz, estão
sepultados dentro da Capela de São Miguel, dentro do mesmo Ce­
mitério; outros, falecidos antes dessa construção, ficaram no ter­
reno ocupado pela segunda Matriz, a demolida, por terem sido
sepultados dentro dela.

Do exposto resulta, que foram três os templos erigidos para


o culto religioso, tendo por oragos os atuais - Santo Antônib e
S. Sebastião -, sendo primeiramente como Capela interina, ou
Ermida, da primitiva fundação nas Cabeceiras do Lajeado; a se­
gunda, a que foi inaugurada na atual povoação em 1818, como
filial da de Nossa Senhora do Destêrro do Desemboque, demolida
quando ali se fêz o Cemitério, tendo servido de MaJtriz depois de
ter sido criada a paróquia em 2 de março de 1820; a terceira a
atual. Mas, nem de uma nem de outras há qualquer ato que ates­
te a data em que foram começadas a construir, nem que se inau­
guraram. Enquanto à atual, suponho que começou a exercer-se nela
o culto religioso em um dos anos de 1853 - 54.

Elevada que foi a Ermida, ou Capela, de Santo Antônio e São


Sebastião de Uberaba à categoria de Distrito pelo Decreto de 13
de fevereiro de 1811, Tristão de Castro Guimarães e sua mulher
Frutuosa Rodrigues, constituiram-lhe patrimônio, dando uma lé­
gua de terras, por título de 28 de dezembro de 1812 (nota 10).
É para lastimar-se que os encarregados representantes dos in­
terêsses da Ermida, - Capela, como os das matrizes entrassem
no gôzo dêle; por isso que, nem os Capelães, nem os Vigários co­
lados, nem os paroquiadores interinos, encomendados ou os pro­
visórios, nem os Fabriqueiros ou Procuradores, se interessaram efi­
cazmente dêsse importante assunto.
Porque seria, ninguém me o ousou afirmar.
Poderia atenuar-se a falta dêsse gôzo, quando os terrenos
urbanos eram baratos; mas atualmente, que se hão vendido áreas
de oitenta metros quadrados por quatro contos de réis, devido à
valorização que o tempo lhes trouxe, essa mesma atenuante devia.
ter desaparecido.
Entretanto passaram os anos, quase noventa, continuando o
patrimônio da Matriz de Santo Antônio e São Sebastião de Ube­
raba, em abandono por parte da pessoa civil, que o deve jurldica­
mente representar e ocupado por considerável número de possui­
dores, que se têm considerado proprietários do solo, quando ape­
nas o podem ser das construções e mais benfeitorias.
Para assim acontecer, é-lhes suficiente requerer-se uma LI-
92 BORGES SAMPAIO

CENÇA à Câmara Municipal - para edificar - em terreno devo­


luto; a Câmara, autorizada por uma Resolução Provincial, conce­
dê-la, para que o impetrante se considere - dono - proprietário
- senhor - do solo, alodialmente.
Por êste modo se dizem dominicais os ocupantes, sem terem
título de transmissão primitivo, sendo apenas portadores dos Al­
varás concessionários da licença para a edificação, ficando a Ma­
triz privada do gôzo, e sem poder aforá-los ou arrendá-los.
Não me tenho esquecido dêste grave assunto, e freqüente­
mente faço sôbre êle ponderações, a quem compete providenciar.
Quando em 1880 apresentei à Câmara Municipal o projeto
sôbre a Denominação das Ruas da Cidade de Uberaba, fiz, nesse
escrito, ponderações a respeito (nota 11), às quais dei maior de­
senvolvimento no apêndice que ao mesmo escrito juntei e serviu
para minha admissão no Instituto Histórico e Geográfico do Rio
de Janeiro, como Sócio Correspondente (nota 12).
Em dezembro de 1892, ocupando o Cônego Cândido Marinho
de Oliveira o lugar de Vigário da Paróquia, pretendeu arrendar
ou aforar os terrenos do Patrimônio. Nesse intuito requereu pre­
liminarmente ao Juiz Municipal, Doutor João Caetano de Olivei­
ra e Sousa, uma Justificação, que foi distribuída ao cartório do
segundo ofício (nota 13).
Nessa justificação fui inquirido como testemunha. Com de­
talhes expus tudo de quanto tinha conhecimento. Entretanto, co­
mo êsse processo fôsse entregue ao requerente, e não é encontrado
no arquivo da igreja, tendo o referido vigário deixado a vigararia,
continuou o negócio do Patrimônio como antes estava.
Há cêrca de três anos, o Cônego, hoje Monsenhor Inácio Xa­
vier da Silva, manifestando vontade de liquidar os limites patri­
moniais da Paróquia, obteve do ilustrado jurisconsulto Lafaiate
Rodrigues Pereira, por intervenção do Major Gustavo Ribeiro, um
parecer luminoso e favorável (nota 14); mas não pôs mãos à obra
e a indecisão dos limites, pôsto que em distância limitada, con­
tinua, concorrendo para que falte base, certa e segura, para a
ação reivindicatória, e exigir dos ocupantes os respectivos contra­
tos de renda ou aforamento. Sendo certo que se f ôssem consegui­
dos tais contratos, haveria recursos abundantes para a constru­
ção de um templo magnífico e o custeio brilhante do culto, aten­
dendo-se ao prodigioso desenvolvimento que há tomado a cidade
de Uberaba.
Devo aqui consignar, honrando a conduta constante e reta,
da Câmara Municipal neste assunto, porque esta não se arrogou
em tempo algum, nem atribuiu a si qualquer domínio, absoluto
ou útil, nos terrenos do Patrimônio da Matriz. Apenas tem se
limitado a conceder licenças para edificações, dentro de um ano,
em terrenos desocupados, quer sejam do Patrimônio quer não
(nota 15), como já deixei notado, e pelas quais apenas percebe
UBERABA: HISTÓRIA, FATOS E HOMENS 93

um impôsto de renda módico, à guisa de postura municipal (no­


ta 16).
Comprova êste procedimento leal da distinta Corporação, o
fato de ter ela, em cumprimento da Resolução Provincial n9 206
de 2 de abril de 1841, firmado os limites para as ditas concessões,
demarcando-lhes o perímetro em medição judiciária por ela re­
querida ao Juiz Municipal e julgada em 17 de junho de 1843;
retificada, também a requerimento seu, no mesmo juízo, por sen­
tença de 1 Q de outubro de 1870.
Tais limites ainda prevalecem.
Devo consignar o estar hoje quase averiguado, que a dita
medição, bem como a retificação abrangeram - do lado do Poente,
grande área de terreno que não pertence ao Patrimônio da Ma­
triz; entretanto que do lado do Nascente foram cortadas terras
patrimoniais; resultando que a Câmara, nessas diligências, não
cogitou do Patrimônio, mas sim e unicamente, do cumprimento
da Resolução nQ 206 de 1841, para cujo fim foi tomado o ponto
de partida dos respectivos rumos, na porta principal da Igreja
Matriz que foi demolida em 1856. Há hoje, pois, um quase con­
vencimento, ao menos forte presunção, de que a parte da cidade,
do lado do Poente, esteja situada fora das terras patrimoniais da
Matriz; por exemplo: o bairro do Alto das Mercês, antigo Largo
Cuiabá.
Não é sem motivo prever-se o desaparecimento do ponto de
partida dessa medição e remedição; porquanto, tendo a Câmara
Municipal feito construir outro Cemitério a dois quilômetros dis­
tante da cidade e proibido enterramentos no que foi construído
por Frei Eugênio na Colina da Matriz, estando por isso êste amea­
çado de destruição; tendo sido do portão dêste Cemitério que em
1870 partiu a retificação - desaparecido êle, deixará de ser co­
nhecido o dito ponto, e nova confusão será lançada na execução
da Resolução nQ 206 de 1841, porque nem sempre se cogita de
esclarecer o futuro.
Antes de concluir.
No dia 10 de agôsto de 1896, Uberaba esteve em festas.
Concurso imenso de povo de tôdas as classes, homens e mu-
lheres, assomou à Colina Cuiabá, atualmente denominada Alto das
Mercês, onde existe o Seminário Episcopal, esperando a chegada
do Excelentíssimo Senhor Dom Eduardo Duarte Silva, Bispo da
Diocese de Goiás, que daquela metrópole transferia para Uberaba
sua residência temporária, acompanhando-o ilustrados sacerdo­
tes - entre os quais Monsenhor Inácio Xavier da Silva, Vigário
Geral do Bispado e seu Governador por diversas vêzes, e atualmen­
te Vigário da Paróquia de Uberaba, como tive ocasião de dizer -
semínarístas e amigos do Ilustre Prelado.
A grande distância na estrada fôra êle esperado por muitos
cavalheiros distintos; as ruas do trajeto, desde o Seminário até
94 BORGES SAMPAIO

a Matriz, tinham sido ornadas com arcos, flôres e bandeiras; coros


de meninas e senhoras formaram o séquito ao Il.ustre Prelado, que
vinha sob o Pálio. A banda de música União Uberabense tocava
peças do seu escolhido repertório e acompanhava os cânticos sa­
grados.
Em diversos pontos se entoaram os hinos compostos por Artur
Lôbo e Manuel Felipe (nota 17).
Desde êste dia auspicioso, a Igreja Matriz da cidade de Ube­
raba, do Bispado goiano no Estado de Minas Gerais, tem servido
para nela exercer o venerando Prelado, os atos inerentes ao seu
elevado ministério, e nela já foram ordenados sacerdotes - Au­
gusto César de Morais Lamego, natural do Rio de Janeiro; Fran­
cisco da Cunha Peixoto Leal, de Uberaba; Osório Ferreira de Sou­
sa, de Uberaba; Augusto da Rocha Maia, de Natividade, Estado de
Goiás, três augustinianos recoletes : Gregório Iniguês, Pio An­
tonanzas, André Aguiwe.

Tinha dado por findo êste minguado trabalho, quando me veio


às mãos o Lavoura e Comércio, periódico que nesta cidade pu­
blica os atos da Câmara Municipal.
Na edição de 23 de janeiro dêste ano vejo publicada a Lei Mu­
nicipal n? 128 de 22 de janeiro de 1902, considerando, constituindo,
ou nomeando, no artigo 1 Q, o perímetro demarcado judicialmente
em 31 de agôsto de 1870, para patrimônio da cidade. (nota 18).
Deixei largamente demonstrado, no texto e nas notas, que a
demarcação judiciária retificada na época indicada na dita lei, ti­
vera por fim, único, aviventar, assinalar e confirmar, os limites
de 1843, dentro dos quais fôra a Câmara autorizada a conceder
licença - para edificar - em terreno devoluto, mediante o im­
pôsto de 40 réis por palmo de frente, criado pela Resolução n? 206
de 2 de abril de 1841; posteriormente elevado a 500 rs.
Demonstrei igualmente, que a medição de 1843 e remedição
de 1870, não se arrogavam a considerar a área - patrimônio da
cidade.
A recente Lei Municipal, por conseguinte, vai de encontro aos
cuidadosos e louváveis precedentes da municipalidade, que disso
não cogitou em tempo algum; vai de encontro às minhas ponde­
rações e título original da doação.
O texto da referida lei poderá, mais tarde, ter interpretação
desfavorável à Matriz e ser invocado, como precedente, em pre­
juízo dos seus direitos.
Em todo o caso, registro aqui o meu protesto.
(nota 19 - Suplementar).

Uberaba, 2 de fevereiro de 1902.


UBERABA: HISTÓRIA, FATOS E HOMENS 95

CAMARA MUNICIPAL DE UBERABA

O presidente da Câmara Municipal de Uberaba, na


forma da Lei, etc.

Pelo presente alvará, indo por mim assinado, concedo licença


ao Sr. . . para edificar uma morada de casa em terreno desocupa­
do com ... palmos de frente e duzentos de fundo ... visto ter o
mesmo Sr. pago os direitos municipais como demonstrou pela exi­
bição do conhecimento nQ ... ficando obrigado a edificar sua casa
dentro do prazo de um ano, guardar e cumprir o que, a êste res­
peito, determinam as Posturas Municipais em vigor.
Paço da Câmara Municipal de Uberaba ... de ... de 189 ...
Eu ... Secretário o escrevi. O Presidente ... O Secretário ...

Alvará . 1$000
Registro . 1$000

Ri. . . 2$000

Notas Referentes à Notícia Sôbre a Igreja Matriz de Uberaba

NOTA - 1

Têrmo de abertura do testamento com que faleceu o Major


Antônio Eustáquio da Silva e Oliveira :
"Aos seis dias do mês de fevereiro de mil oitocentos e trinta
e dois anos, nesta Chácara dos subúrbios do Arraial de Santo An­
tônío e São Sebastião do Uberaba, têrmo do Julgado de Nossa Se­
nhora do Destêrro do Desemboque, Comarca da Vila do Paracatu
do Príncipe, em casas de morada do finado Sargento-Mor Antônio
Eustáquio da Silva e Oliveira, onde se achava o Meritíssimo Juiz
de órfãos, Pródigos e Mentecaptos, Sandeus, Desassísados e Au­
sentes, o Capitão Domingos da Silva e Oliveira, comigo escrivão
de seu cargo ao diante nomeado, e sendo aí logo que faleceu o
dito Sargento-Mor, pela viúva Dona Antônia foi apresentado êste
testamento, cozido e lacrado ao dito Ministro, para o abrir, a fim
de se poder cumprir as disposições do Testador, e logo pelo dito
Ministro foi aberto o presente testamento, e pela dita viúva foi
apresentado o Livro de razão, de que faz menção o Testamento
retro. Do que para constar mandou o dito Ministro fazer êste têr­
mo de Abertura, em que se assina. Eu, Manuel Lopes de Araújo,
Escrivão de órfãos e Ausentes, que o escrevi. - Oliveira."
"Cumpra-se e registre-se, salvo o direito a qualquer interes­
sado. Uberaba, 8 de fevereiro de 1832. - Oliveira."
BORGES SAMPAIO

NOTA - 2

Requerimento do Padre Hermógenes Cassimiro de Araújo


Bruonswik: ao prelado de Goiás, pedindo a continuação de socor­
ros ao culto religioso na Capela de Santo Antônio e São Sebastião
da Berava:
"limo. e Revmo. Senhor. - Diz Hermógenes Cassimiro Araú­
jo Bruonswik, Vigário encomendado na Paroquial Igreja de N.
Sra. do Destêrro do Desemboque, desta Prelazia de Goiás, que
fazendo-se numerosa a população das Campanhas da Farinha Po­
dre, Rio da Prata, Tijuca e suas anexas do distrito daquela Matriz,
se erigiu à margem do Ribeirão Berava, pelo falecido antecessor
do Suplicante, uma Ermida, ou Capela, com o Orago de Santo
Antônio e São Sebastião, para nela mais cômodamente se admi­
nistrarem Sacramentos aos paroquianos daquela Matriz, situados
nas ditas Campanhas, como de fato se tem assim praticado, não
só pelo dito falecido antecessor, como pelo Suplicante, e seus coad­
jutores; e porque sem embargo da faculdade concedida pelos Exmos.
e Revmos. senhores bispos do Rio de Janeiro aos párocos daquela
Matriz, quer o Suplicante agora mais seguramente cotinuar a
socorrer as almas daqueles seus paroquianos na dita Capela. Su­
plica portanto a V. s~ se digne retificar aquela ereção feita pelo
dito antecessor, concedendo nova licença para nela se continuar
a celebração dos Ofícios Divinos e Pastorais, com filiação àquela
Matriz, enquanto se não erigir, nova Capela, para cuja licença já
recorreu o Suplicante a S. Majestade. - P. a V. S. seja servido
conceder a licença pedida. E. R. M."

NOTA - 3

Provisão da Prelazia de Goiás, concedendo licença para se


celebrar missa na Capela de Santo Antônio e São Sebastião da
Berava, filial da Matriz de Nossa Senhora do Destêrro do Desem­
boque:
''José Vicente de Azevedo Noronha e Câmara, Presbítero Se­
cular, Cavaleiro da Ordem de Cristo, Cônego Honorário, Governa­
.. dor da Prelazia de Goiás e nela Provisor, Vigário Geral, Visitador,
Juiz Apostólico das Justificações e Inquirições de Genere, Casa­
mentos, Dispensas de impedimentos de Matrimônios, Capelas e
Resíduos pelo Exmo. e Revmo. Senhor Dom Antônio Rodrigues de
Aguiar, Bispo de Azoto, Prelado da mesma, etc. Aos que a pre­
sente minha Provisão virem, saúde e paz em o Senhor. - Faço
saber que atendendo Eu ao Requerimento retro do Revmo. Hermó­
genes Cassimiro de Araújo Bruonswik, Vigário encomendado da
Igreja do Desemboque: Hei por bem conceder licença, como pela
presente Provisão concedo, para poderem celebrar missa na Ca­
pela de Santo Antônio e São Sebastião da Verava, filial à Matriz
da dita Freguesia do Desemboque, tendo esta os paramentos ne-
UBERABA: HISTóRIA, FATOS E HOMENS 97

cessários com tôda a decência e havendo patrimônio suficiente,


· a qual será visitada pelo Revdo. Vigário da Vara respectiva, na
forma dos Sagrados Cânones, estando já benta segundo o ritual
romano. Dada nesta Câmara Eclesiástica de Vila Boa de Goiás,
sob Meu Sinal, e sêlo de S. Exa. Revdma., aos 20 de julho de 1818.
O Padre João Pereira Cardoso, Escrivão ajudante da Câmara Ecle­
siástica a escreveu. José Vicente de Azevedo Noronha e Câmara.
(Lugar do sêlo) . Câmara. Chancelaria 1: 200; assinatura 1: 400 gra­
tis. Feitio e Registro 2:400 - soma - 5:000. Provisão pela qual
V. S. há por bem conceder licença para se celebrar missa na Ca­
pela de San to An tônio e São Sebastião da Bera va, filial da Ma­
triz de N. Sra. do Destêrro do Desemboque, como nela se declara.
P. V. S. ver. - Registrada ap. Matos. Registrada nesta Câmara.
Cardoso. - Cumpra-se e R. - H. Cassímíro."
NOTA - 4

Alvará pelo qual D. João concedeu faculdade ao Padre Her­


mógenes Cassimiro de Araújo Bruonswik, para erigir a Capela de
Santo Antônio da Berava:
"Dom João Por Graça de Deus Rei do Reino Unido de Por­
tugal e do Brasil e Algarves d'aquém, e d'além Mar, em Africa Se­
nhor de Guiné, e da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia,
Arábia, Pérsia e da índia, etc.
"Como Governador, e perpétuo Administrador que Sou do
Mestrado, Cavalaria e Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo. Faço
Saber ao Reverendo Ordinário da Prelazia de Goiás, que reque­
rendo-Me o padre Hermógenes Cassimiro de Araújo Bruonswík
faculdade para erigir uma capela com Orago de Santo Antônio,
e São Sebastião da Berava no distrito da Freguesia de Nossa Se­
nhora do Destêrro do Desemboque dessa Prelazia. O que visto :
Hei por bem Fazer Mercê ao Suplicante de lhe conceder licença
para erigir a sobredita capela; ficando porém os direitos, e os da
Fábrica da Igreja Matriz salvos em todo o caso. Esta se cumprirá
sendo passada pela Chancelaria das Ordens. El Rei Nosso Senhor
o Mandou pelos Ministros abaixo assinados do seu Conselho, e
Deputados da Mesa da Consciência e Ordens. João Gaspar da
Silva Lisboa a fêz. Rio de Janeiro três de agôsto de mil oitocen­
tos e dezoito. Desta mil seiscentos réis, e de assinaturas mil e
duzentos réis. Joaquim José de Magalhães Coutinho a subscre­
veu. Berd.? Je. da c.~ Gusã.<.> e Vasc.vs - Ant.? Felipe Soares d'And.
de Brederode. - Por Desp, da Mesa da Consciência e Ordens de
17 de julho de 1818. - Registrada a f. 76 L9 39 - Reg. 800 rs.
- N. 386, 1 600. Pg. mil e seiscentos réis de sêlo. Rio 29 de agôsto
de 1818. Medeiros. - Mons. Almeida. - Pg. quinhentos e qua­
renta réis, e aos ofs. mil e oitocentos e vinte. Rio, 31 de agôsto
de 1818. Francisco José do Couto e Castro Mascarenhas - Regd.
nesta Nra. das Ords. a f 76 vs. do L<.> 1 Q de Semelhantes. Rio, 31
98 BORGES SAMPAIO

de agôsto de 1818.- Pg. 800 rs. Couto. N. 21. - Cumpra-se, e


Registre-se. Vila Boa 21 de janeiro de 1819. Sousa. - Registrada
no L9 1 <> desta Câmara a f. 52. Vila Boa 21 de janeiro de 1819. O
Escrivão João Pereira Cardoso. P. g. 1 :200. - Cumpra-se e Re­
gistre-se. Desemboque, 15 de março de 1819. H. Cassimiro. -
Registrada a f., Matos."

NOTA - 5
Bênção e posse da Capela de Santo Antônio e São Sebastião
da Berava, como filial da Matriz do Desemboque:
"Auto de visita e bênção da Capela de Santo Antônio e São
Sebastião da Berava filial da Matriz de N. Sra. do Destêrro do
Desemboque, Prelazia de Goiás, na forma da Provisão, e como ao
diante se declara.
Ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil oito­
centos, e dezoito, ao primeiro de dezembro do dito ano, nesta Ca­
pela de Santo Antônio e São Sebastião da Berava, filial da Igreja
Matriz de Nossa Senhora do Destêrro do Desemboque Prelazia de
Goiás e sobredita Comarca Eclesiástica, sendo aí em virtude da
Provisão passada pelo Il ustríssímo e Reverendíssimo Senhor Cô­
nego Governador da Prelazia, o Reverendo Hermógenes Cassimiro
de Araújo Bruonswik, Vigário da Vara nesta mesma comarca, ne­
la e seu têrmo, Juiz das Justificações, Casamentos, Capelas e Re­
síduos, comigo escrivão de seu cargo ao diante nomeado, proce­
deu em visita da sobredita capela na forma dos sagrados câno­
nes, e achando-a paramentada decentemente com os paramentos
e alfaias expressos e transcritos no inventário ao diante junto,
com patrimônio suficiente de terras doadas por Tristão de Castro
Guimarães, a benzeu, segundo o ritual romano, em conseqüência
da delegação, e faculdade que lhe está conferida pelo Alvará de
Faculdades, concedido pelo Ilustríssimo e Reverendíssimo Senhor
Cônego Governador. E porquanto assim se procedeu, pelo dito re­
verendo Ministro, para a todo o tempo constar mandou êle fazer
êste auto e dito inventário em os quais se assina. E eu, o Padre
Zeferino Batista Carmo, escrivão do Juízo Eclesiástico, que sirvo
nos impedimentos do atual, o escrevi: - H. Cassimiro."

NOTA - 6
Inventário dos paramentos e alfaias da Capela de Santo An­
tônio e São Sebastião da Berava, na ocasião da posse e bênção:
"Inventário dos ornamentos e alfaias desta Capela de Sta.
Antônio, e S. Sebastião da Berava, filial da Matriz de N. Sra. do
Destêrro do Desemboque, que se achavam pertencentes à dita ca­
pela, na visita que nela procedeu o Reverendo Hermógenes Cas­
simiro de Araújo Bruonswik, Vigário da Vara desta Comarca, na
UBERABA: HISTORIA, FATOS E HOMENS 99

forma do auto retro e em virtude da Provisão do Ilmo. e Revmo.


Sr. Cônego Governador da Prelazia.
Achou o Reverendo Hermógenes Cassimiro de Araújo Bruon­
swís, Vigário da Vara Eclesiástica do Desemboque, nela e seu têr­
mo, Juiz das Justificações, Casamentos, Capelas, e Resíduos, na vi­
sita que procedeu nesta Capela de Santo Antônio e São Sebastião
da Berava, em conseqüência da Provisão, e na forma do auto re­
tro, pertencer à dita capela, estar esta paramentada e ornada,
com os paramentos e alfaias seguintes:
Uma casula de côres branca e vermelha, com seus respectivos
manípulo e estola.
Uma dita de côres roxa, e verde, com seus respectivos maní-
pulo e estola.
Uma alva de linho fino, com seu cordão e amito.
Um cálix com sua pátena, todos de prata.
Uma pedra de Ara, e um missal em bom uso.
Um frontal de côres branca e vermelha.
Uma toalha grande de altar, de linho fino.
Três sangüíneos.
Três véus de côres branca, verde e roxa.
Um par de corporais.
Uma bôlsa.
Três palas de côres branca, roxa e verde.
Uma toalha pequena de paninho.
Uma dita de cassa.
Dois purificatórios.
E de como achou o dito Ministro os referidos ornamentos e
alfaias, que são pertencentes à referida capela, mandou fazer o
presente inventário que assina, deixando-os recentemente reco­
lhidos ao caixão que se acha pôsto no Consístórío da sobredíta
capela, e para uso dos ofícios, e cultos divi:dos, que atualmente
exercita nela o Revdo. Pe. Fortunato José de Miranda, e para a
administração dos Sacramentos que fizer aos aplicados à mesma
o revdo. coadjutor, ou capelão, que nela fôr empregado, ficando
entretanto as chaves da mesma capela entregues ao dito revdo.
pe. E eu, o Padre Zeferino Batista Carmo, escrivão do Juízo Ecle­
siástico, que o escrevi. - H. Cassimiro."
NOTA - 7
Ata da bênção da primeira pedra lançada, para os alicerces
do frontispício da Igreja Matriz de Uberaba, em 1899:
"Aos dez dias do mês de setembro do ano do nascimento de
Nosso Senhor Jesus Cristo de mil oitocentos e noventa e nove, nes­
ta cidade de Uberaba e lugar onde existia o antigo frontispício da
Igreja Matriz, às onze horas da manhã e depois de celebrada a
missa conventual pelo Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor Cô­
nego Inácio Xavier da Silva, vigário desta paróquia e geral da
100 BORGES SAMPAIO

diocese, acolitado pelos Reverendos Senhores Padres, Doutor Ger­


cindo de Sant' Ana e Oliveira e Pedro Ribeiro da Silva; presentes
os cidadãos: - Cônego Inácío Xavier da Silva, Doutor João Cae­
tano de Oliveira e Sousa, Major Manuel Alves Caldeira, Major João
Batista Machado, Capitão Lanes José Bernardes, Tenente-Coro­
nel Antônio Moreira de Carvalho, e Capitão José Bernardino da
Costa, todos membros da comissão construtora da dita Igreja Ma­
triz, procedeu-se à eleição de seu presidente e secretário ad-hoc,
e foram elei tos por maioria de votos, o Cônego Inácio Xavier da
Silva, presidente, e o Doutor João Caetano de Oliveira e Sousa, se­
cretário. Em seguida compareceram as Excelentíssimas Senhoras
- Dona Francisca Angélica Teixeira Junqueira, Dona Maria José
de Macedo, Dona Maria Zeferina de Almeida Barcelos, Dona Ma­
ria Eulália de Alvarenga, Dona Francisca Gontijo de Carvalho e
Dona Ana de Freitas; Doutores Epaminondas Bandeira de Melo e
João Teixeira Alvares, Major Gustavo Teófilo Ribeiro, Coronel An­
tônío Borges Sampaio, Coronel Lucas Machado Veloso Caldas, e
Major Antero Ferreira da Rocha, todos nomeados pela comissão
construtora, paraninfos no ato da bênção da primeira pedra lan­
çada para os alicerces do frontispício da Igreja Matriz desta ci­
dade. Perante grande concurso de povo, entre o qual se via re­
presentada a elite da sociedade uberabense, procedeu-se, com tô­
das as solenidades rituais, à cerimônia da bênção, oficiando o Re­
verendíssimo Senhor Cônego Xavier, acompanhado dos acólitos
mencionados. Pela comissão construtora foi determinado, que se
lavrasse a presente ata neste livro, aberto, encerrado e rubricado
em tôdas as suas fôlhas, pelo Excelentíssimo e Reverendíssimo Se­
nhor Cônego Inácio Xavier da Silva, vigário geral desta diocese,
em 8 do corrente mês, e que servirá de livro de tombo da Matriz
de S. Sebastião e Santo Antônio de Uberaba; e mais, que dela se
extraísse cópia para ser encerrada em uma caixinha de madeira
e esta posta dentro de um reservatório de pedra, fornecido, fe­
chado e enterrado no lugar onde tem de ser levantados os alicer­
ces do frontispício da dita Igreja Matriz, sendo êste último traba­
lho feito pelo empreiteiro construtor, Manuel Barcala Bergeiro.
E para constar lavro a presente ata, que será assinada pelo senhor
presidente e mais membros da comissão construtora, paraninfos
e empreiteiro construtor. Eu João Caetano de Oliveira e Sousa,
secretário ad-hoc, a escrevi e assino. Cônego Inácio Xavier da Sil­
va. - João Caetano de Oliveira e Sousa. - Manuel Alves Caldeira.
- João Batista Machado. - Lanes José Bernardes. - Antônio
Moreira de Carvalho. - Francisca Angélica Teixeira Junqueira.
- José Bernardino da Costa. - Maria J. Macedo. - Maria Zefe­
rína de Almeida Barcelos. - Maria Eulália de ~varenga. - Fran­
cisca Gontijo de Carvalho. - Ana de Freitas. - Epaminondas Ban­
deira de Melo. - Gustavo Ribeiro. - Doutor João Teixeira Alva­
res. - Antero Ferreira da Rocha. - Lucas M. Veloso Caldas. -
Manuel Barcala Bergeiro. - Antônio Borges Sampaio".
UBERABA: HISTÓRIA, FATOS E HOMENS 101

NOTA-8
Notícia que deu o Jornal do Comércio do Rio de Janeiro, do
lançamento da primeira pedra, nos alicerces da edificação do fron­
tispício da Matriz de Uberaba, na edição de 22 de setembro de 1899,
nona coluna da primeira página :
"Mais um fato para registrar nos anais de Uberaba - a ben­
ção da primeira pedra lançada para os alicerces do frontispício da
Igreja Matriz; isto é, a terceira que se tem edificado desde a primi­
tiva povoação. As onze horas da manhã do dia 10, hora anteceden­
temente marcada, depois de celebrada a missa conventual, pelo
venerando Cônego Inácio Xavier da Silva, vigário paroquiano e go­
vernador do bispado, acolitado pelos venerandos Padres Gercindo
de Sant'Ana e Oliveira e Pedro Ribeiro da Silva, presidindo o ato
da benção o referido cônego, achando-se presentes também o Ma­
jor Manuel Alves Caldeira, Dr. João Caetano de Oliveira e Sousa,
Major João Batista Machado, Capitão Lanes José Bernardes, Te­
nente-Coronel Antônio Moreira de Carvalho e Capitão José Bernar­
dino da Costa, membros da comissão construtora do fron tispício
da dita igreja; achando-se também seis senhoras e outros tantos
cavalheiros, convidados para servirem de paraninfos, grande con­
curso de povo, teve lugar a benção da pedra e caixinha de cedro,
onde foram depositados muitos objetos, cartões, jornais das últi­
mas edições locais, moedas, etc. Lá também depositei o meu car­
tão, a coleção das nossas três moedas de cobre antigas e prensa­
das, das três de bronze atuais, uma de prata de duzentos réis, a
notícia da inauguração do nosso Hospital de Misericórdia, final­
mente, um exemplar do Jornal do Comércio do Rio de Janeiro, de
24 de agôsto dêste ano.
Foi lavrada uma ata, e dela ficou no cofrezinho uma cópia. o
frontispício em construção foi desenhado e orçado pelo Dr. Ataliba
Vale e as obras adjudicadas ao construtor Manuel Barcala Bergei­
ro, sob a direção do Major Caldeira. Os alicerces vão em adianta­
mento." (Da minha correspondência àquele jornal, datada de 17
de setembro de 1899).
NOTA-9

Contrato feito por uma comissão em 1873, com o relojoeiro


Florêncio Forneri, para o assentamento do relógio, na Igreja Ma­
triz de Uberaba :
. "Entre a ~omissão composta dos senhores - Reverendo Vigá­
rio Carlos Jose dos Santos; Comendador Antônio Elói Cassimiro
de Araújo; Major Francisco Rodrigues de Barcelos; Major Joaquim
José de Oliveira Pena; Capitão José Bento do Vale; Luís Soares Pi­
nheiro, negociante; Capitão Manuel Rodrigues da Cunha; e Te­
nente-Coronel Antônio Borges Sampaio, de um lado, e Florêncio
Forneri, relojoeiro, de outro lado, fica contratado o seguinte :
102 BORGES SAMPAIO

1<? - O relojoeiro Florêncio Forneri assentará na Igreja Ma­


triz desta cidade, um relógio público, por êle construído, que terá
oito dias de corda e dois mostradores de sete a oito palmos de diâ­
metro.
2<? - O mesmo há de ter a fôrça para bater sôbre um sino de
vinte a trinta arrôbas; dará horas, meias horas e repetição das
horas.
3<? - O relojoeiro contratante afiança o dito relógio por cinco
anos.
49 - O mesmo obriga-se a dar o dito relógio pronto e assen­
tado na tôrre da Matriz, no espaço de seis meses, a contar-se de 20
de fevereiro do presente ano.
59 - O prêço do dito relógio, com as condições supra, é de três
contos e duzentos mil réis (3:200$000) e o pagamento será feito
do modo seguinte:
a) metade do prêço, que é um conto e seiscentos mil réis ....
(1:600$000) até 20 de fevereiro do presente ano, dando o mesmo
relojoeiro um fiador ídôneo da mesma quantia;
b) a outra metade dentro de seis meses, contados desde o dia
em que o relógio fôr recebido pela comissão.
69 - A condução ou transporte do mesmo relógio, será feita
por conta do mesmo relojoeiro.
7<? - Tôda e qualquer despesa de carpinteiro, ferreiro, pe­
dreiro, etc., será· feita pela mesma comissão.
Uberaba, 23 de janeiro de 1873. - Florêncio Forneri.
Os abaixo assinados, da sua parte, obrigam-se a cumprir as
condições acima estipuladas e assinadas pelo Sr. Florêncio Forneri,
e assinam dois de igual teor.
Uberaba, 23 de ianeíro de 1873. - O Vigário Carlos José dos
Santos. - Antônio Elói Cassimiro de Araújo. - José Bento do Va­
le. - Antônio Borges Sampaio. - Joaquim José de Oliveira Pena.
- Luís Soares Pinheiro. Por meu sogro, José Bento Ferreira da
Rocha.
Dr. Nicolau Bruno, abonador e principal pagador dêste con­
trato."
NOTA-10
Título da doação do patrimônio da Matriz de Uberaba, feita
em 1812 por Tristão de Castro Guimarães e sua mulher, precedido
da petição e despacho, em virtude dos quais foi mandado extrair
dos autos de fôrça nova, em que era autor Francisco Mateus de
Sousa Camargos, e réu Antônío Rabelo Brito, por certidão, autos
que depois desapareceram; seguido de um têrmo de arrematação
de uma parte do mesmo patrimônio.
"Petição. - Ilmo. Sr. Juiz Municipal. Francisco Mateus de
Sousa Camargos, a bem de seu direito, requer a V. s~ se digne man­
dar que o Escr. Ricardo, lhe passe por certidão dos autos de fôrça
nova, em que o Sup. foi a. e r. Antônio Rabelo de Brito, a doação
UBERABA: HISTôRIA, FATOS E HOMENS 103

feita por Tristão de Castro Guimarães a Santo Antônio e S. Se­


bastião desta cidade, que se acha a f. 37 dos autos em certidão; .e
bem assim a arrematação feita por Joaquim dos Anjos Batista a
f. 39 dos mencionados autos; pelo que P. a V. S~ se digne mandar
passar a certidão na forma requerida. - E. R. M. -
"Despacho. - P. Uberaba, 25 de novembro de 1862. Rocha.
''Certidão. - Ricardo Ferreira da Rocha Primeiro Tabelião
Público do Judicial e Notas, Capelas e Resíduos, nesta cidade de
Santo Antônio do Uberaba e seu têrmo, por Carta Vitalícia do Exmo.
Presidente da Província de Minas Gerais na forma da Lei. Etc. -
Certifico que revendo os autos cíveis que se acham debaixo do meu
poder e guarda, entre êles achei os autos cíveis de fôrça nova, em
que são autores Francisco Mateus de Sousa Camargos e sua mu­
lher e réus Antônio Rabelo de Brito e sua mulher; e nêles a fôlhas
' e sete, achei por certidão a doação feita por Tristão de Cas-
trinta
tro Guimarães do teor seguinte:
"Doação, - Digo eu Tristão de Castro Guimarães e minha mu­
lher Frutuosa Rodrigues, que somos senhores de uma posse de ter­
ras com matos e campos na paragem entre o sítio das Toldas, es­
trada de São Paulo e o sítio do Lajeado que compreenderá a dita
posse uma légua de terras em quadro pouco mais ou menos, e pela
parte do norte contesta pelo veio do Córrego do dito Lajeado abaixo
até fazer barra no Ribeirão do Uberaba e por êste abaixo veio da
água até onde chegarem as terras dos índios, declaramos que dêste
terreno se reservam três capões de matos que pertencem a José
Gonçalves Pereira, e pela parte do leste contesta com a sesmaria
já medida a José Francisco de Azevedo, e pela parte do sul contesta
com terras de José Dias servindo de divisa o espigão que divide
águas vertentes ao Rio Grande e a dita Uberaba, e para o este con­
testa com terras dos índios, de cuja posse de terras muito de nos­
sas livres vontades por êste papel fazemos doação ao Senhor Santo
Antônio e a São Sebastião para patrimônio de sua igreja e ao pro­
curador que houver dos referidos santos. aos quais cedemos e tras­
passamos todo o domínio que até aqui tínhamos nas mencionadas
terras, por bem da referida posse que nelas tínhamos. E por fir­
meza de tudo aqui fica expressado, e por eu não saber ler nem es­
crever sómente me assino com uma cruz sinal de que uso e pela
dita minha mulher assina a seu rôgo Inácio Rodrigues da Silva na
presença das testemunhas José Francisco de Azevedo e José Gon­
çalves Heleno. Rio das Velhas vinte e oito de dezembro de mil oi­
tocentos e doze. Tristão de Castro Guimarães (assinado com uma
cruz). Assino a rôgo de Frutuosa Rodrigues - Inácio Rodrigues
da Silva. Como testemunha José Francisco de Azevedo. Como tes­
temunha que esta doação retro vi fazer e assinar José Goncalves
Heleno. Como testemunha que esta doação escrevi a rôgo do autor
José Pedroso da Silva.
''Certifico mais que dos mesmos autos a fôlhas trinta e nove e
104 BORGES SAMPAIO

quarenta acha-se o têrmo de arrematação feita por Joaquim dos


Anjos Batista do teor seguinte :
"Arrematação. - Ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus
Cristo de mil oitocentos e quarenta e cinco, vigésimo quarto da
Independência e do Império do Brasil aos quatro dias do mês de de­
zembro do dito ano nesta vila de Santo Antônio do Uberaba Co­
marca do Paraná Província de Minas Gerais, em casa de residência
do Meritíssimo Juiz Municipal o Padre Francisco Ferreira da Rocha
comigo tabelião do seu cargo ao diante nomeado aí pelo porteiro
Manuel Lemes da Silva trazendo em praça pública de venda e arre­
matação as terras de cultura em campos de criar doadas por Tris­
tão de Castro Guimarães e sua mulher Dona Frutuosa a Santo An­
tônio e São Sebastião desta mesma vila e trazendo o mesmo por­
teiro os três dias do estilo em praça as mesmas terras por ter se­
guido os mais dias da Lei e trazendo em alta voz e inteligível as
terras mencionadas em quatrocentos e trinta e dois mil réis e sô­
bre a avaliação Joaquim dos Anjos Batista cobriu com um mil réis
e não havendo quem mais lançasse mandou êle dito juiz a entre­
gar o ramo ao arrematante Joaquim dos Anjos Batista.
E para constar mandou êle dito juiz lavrar o presente auto de
arrematação em que se assina com o mesmo arrematante. Eu José
Elias de Sousa Primeiro Tabelião Público do Judicial e Notas Ca­
pelas e Resíduos que escrevi. - Rocha. - Joaquim dos Anjos Ba­
tista. - Renda geral. Número dez. Olinto. Pagou Joaquim dos
Anjos Batista pelo impôsto de sisa do ano financeiro de mil oito­
centos e quarenta e cinco a quarenta e seis a quantia de réis qua­
renta e três mil e trezentos proveniente de uma arrematação de
umas terras de culturas e campos de criar nos subúrbios desta vila
doada por Tristão de Castro Guimarães e sua mulher Dona Fru­
tuosa a Santo Antônio e São Sebastião desta freguesia arremata­
do por Joaquim dos Anjos Batista pela quantia de quatrocentos
e trinta e três mil réis. Coletoria do Uberaba quatro de dezembro
de mil oitocentos e quarenta e cinco. O coletor Antônio José da
Silva Fernandes. O escrivão Luciano Mendes Ribeiro.
É o que se continha nas ditas certidões que se acham em ditos
autos as quais me reporto e vai na verdade sem levar coisa alguma
que dúvida faça pelo ler conferir concertar e assinar nesta cidade
de Santo Antônio do Uberaba Comarca do Paraná Província de
Minas Gerais aos vinte e cinco dias do mês de novembro do ano do
Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil oitocentos e ses­
senta e dois. Eu Ricardo Ferreira da Rocha Primeiro Tabelião que
o escrevi conferi e assino. Ricardo Ferreira da Rocha. Conferida
Rocha. - Paga sêlo de quatro fôlhas de certidão 800. Escrivão Ro­
cha. - Feitio 2580. Guia 200. Busca 600. Soma 3$380."
NOTA-11
O manuscrito a que me referi no texto, foi publicado na Re-
UBERABA: HISTôRIA, FATOS E HOMENS 105

vista do Arquivo Público Mineiro, ano I, fascículo 2<?, abril e ju­


nho de 1896, páginas 289 a 338. Dessa publicação é que transcrevo
as ponderações que então fiz, sôbre o Patrimônio da Matriz de Ube­
raba:
"Em 1812 Tristão de Castro Guimarães doou à Igreja Matriz
para seu patrimônio, uma légua de terras em quadro.
Importa muito conhecer-se no futuro:
a) - que a medição e demarcação dêste patrimônio foi julga­
da em 17 de junho de 1843;
b) - que esta medição e demarcação foi retificada por sen­
tença de 1 de outubro de 1870;
c) - que ambas estas medições (diligências) foram execu­
tadas por deliberação da Câmara Municipal, representada por seu
procurador, para o efeito de fixar-se os limites dentro dos quais era
devido o impôsto de licença para edificar em terreno desocupado,
na execução da Lei Mineira N9 206 de 2 de abril de 1841; limites que
ainda prevalecem;
d) - que esta medição e retificação não tiveram por ponto
de partida a atual Igreja Matriz (Matriz nova); mas sim a primei­
ra Igreja Matriz (Matriz velha), demolida em 1856, para construir­
se o Cerni tério Público;
e) - que se no futuro houver necessidade de retificar-se ou­
tra vez a medição e demarcação da légua de terras do patrimônio
da Matriz doada em 1812 por Tristão de Castro a Santo Antônio e
São Sebastião, deverá começar-se essa diligência do Portão do Ce­
mitério Público, por ter sido êsse o ponto principal da Matriz Ve­
lha, donde já partiu a medição de 1843 e a remedição de 1870;
f) - que isto deverá por conseguinte observar-se, quer a re­
medição ou aviventação da demarcação tenha por fim a execução
da Resolução Mineira N9 206 de 1841, isto é o exercício de direitos
municipais, - 011er seja a Fábrica quem pretenda usar dos direitos
civis que a doação lhe confere para fruir, por aforamentos ou ar­
rendamentos, os terrenos que, para a sustentação do culto, foram
doados à Matriz".
No texto da notícia modifiquei agora o que havia ponderado
em 1880, sôbre a fixação dos limites do patrimônio, por estar hoje
quase evidenciado, que a medição e remedição feitas pela Câmara
Municipal em 1843 e 1870, para execução da Resolução Provincial
n.Q 206 de 1841, abrangerão terrenos - do lado do poente, que não
pertencem ao patrimônio; entretanto que - do lado do nascente
os cortou. Bem entendido : nas fôrças da referida resolução.
NOTA- 12
Em segundo aditamento que fiz ao manuscrito que enviei ao
Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro em 1884 fiz vá-
'
rias advertências, com relação ao patrimônio da Matriz de Uberaba
de a~~rdo com os conhecimentos que então tinha obtido do objeto,
que Jª naquele tempo me preocupava. Dessas advertências vou
106 BORGES SAMPAIO

passar para esta nota algumas considerações, dando mais desenvol­


vimento às duas antecedentes.
Enquanto ao título da doação feita por Tristão de Castro, re­
pito : - ''Esta doação não foi insinuada, por não estar, naquele
tempo, compreendida no preceito da Ordenação L. 49, Tit. 62 e Lei
de 25 de janeiro de 1775. Não lhe foi expressado o valor; mas na­
quela época, uma légua de terras adquiridas por posse (no Sertão
da Farinha Podre) não valia vinte mil réis. Quem estas linhas es­
creve e ouviu, por mais de uma vez, de Pedro Gonçalves da Silva,
um dos primeiros entrantes, que vendera algumas léguas de terras
aposseadas por êle, a trôco de um casal de leitões ! ... "
Não é fácil achar atualmente nos cartórios desta cidade êste
precioso documento (o título da doação). A Igreja descurou abso­
lutamente o seu patrimônio. Somente eu o possuo, na certidão ti­
rada dos autos cíveis de fôrça nova, em que eram partes - auto­
res Francisco Mateus de Sousa Camargos e sua mulher - réus
Antônio Rabelo de Brito e sua mulher, processado no cartório do
primeiro ofício desta cidade, do qual era então serventuário Ricar­
do Ferreira da Rocha, muito frouxo na guarda dos processos, e por
isso da sua guarda desapareceram, possuindo eu a dita certidão
por um acaso providencial e obséquio da falecida Dona Silvéria
Maria de Jesus, viúva daquele Francisco Mateus de Sousa Camar­
gos. Tôdas as partes da referida ação e o próprio serventuário Ri­
cardo, são falecidos desde muitos anos.
Em outra advertência disse eu no manuscrito que mandei ao
Instituto : - "Parece incrível que a Fábrica, legítima represen­
tante da Igreja, desde cêrca de setenta anos deixasse de firmar
seus direitos no terreno que lhe foi doado para patrimônio. O au­
mento consideràvelmente progressivo da povoação, devia ter-lhe
aconselhado e aos poderes públicos, especialmente - a Fábrica -
a arrendar, aforar ou enfiteusar tais terrenos, hoje de valor con­
siderável".
O primitivo descuido da parte da Fábrica concorreu para que,
no grande período decorrido desde a doação em 1812, até a medi­
ção em 1843, grande número de indivíduos se tornassem pronrie­
tários gratuitos, no território doado. Daí veio que a dita medição
encontrou no perímetro grandes chácaras formadas. A Câmara
Municipal foi a única que teve o bom senso de formar neste terre­
no uma fonte de renda, cobrando quarenta réis (Resolução n.? 206
de 2 de abril de 1841) por palmo de frente com duzentos de fundo,
a título de licença para edificar em terreno desocupado; impôsto
que posteriormente (Resolução Provincial de 29 de novembro de
1875) foi elevado a quinhentos réis por palmo de frente, com os
mesmos duzentos de fundo. Já lembrei em nota antecedente; que
o indivíduo que estiver munido de uma tal licença, considera-se,
desde logo, com pleno domínio sôbre o terreno licenciado, e o trans­
fere como se o primeiro diminicalmen te.
- Devo registrar aqui um fato ocorrido em 1845 relativamente
UBERABA: HISTóRIA, FATOS E HOMENS 107

ao patrimônio da Matriz:. arrematação de uma parte dêle, e da


qual já fiz considerações no manuscrito que enviei ao Instituto
em 1884. ~sse têrmo se acha já transcrito em a nota 10, em segui­
da a do título da doação.
Quem, desprevenidamente, ler êsse têrmo ou auto de arrema­
tação, pode entender que, por êle, foi arrematada tôda a légua
quadrada doada por Tristão de Castro; entretanto isso não é.
Joaquim dos Anjos Batista, depois de feita a medição de 1843
por determinação da Câmara Municipal, da qual era procurador,
requereu ao juiz municipal que levasse a hasta pública terras do
patrimônio suficientes para pagamento das despesas dessa medi­
ção. Era isso um absurdo, por isso que, a medição sómente apro­
veitava aos interêsses da Câmara; porque por ela fixava-se o pe­
rímetro, dentro do qual podia exigir quarenta réis por palmo para
edificar; além de que, vigorando então o princípio de Mão Morta,
a venda só poderia efetuar-se, precedendo licença do Govêrno Im­
perial, e não tinha sido impetrada.
Não obstante tudo isso, a arrematação se efetuou, não de todo
o patrimônio, mas do terreno que depois foi conhecido por -
chácara de Joaquim dos Anjos -; pois foi Joaquim dos Anjos Ba­
tista que arrematou essa parte do patrimônio.
Dos três empregados do juízo, que funcionaram nessa arre­
matação, havia um digno da maior consideração e muito respeito,
pelo modo honesto e consciencioso porque desempenhava os de­
veres de seu cargo. Era o Oficial de Justiça Manuel Lemes da Sil­
va, que na arrematação serviu de porteiro, e eu ainda conheci.
~ste não assinou o auto.
Não assinou, deve supor-se, porque a parte do terreno do pa­
trimônio, arrematado, limitava-se ao que Joaquim dos Anjos, já
a êsse tempo, tinha cercado.
O próprio arrematante assim o pensou sempre, sem pretender
qualquer domínio ou posse nos demais terrenos da légua quadra­
da doada: limitou-se a manter - domínio e posse - na parte já
cercada, única que considerou legítímamen te arrematada.
Sua viúva, do mesmo modo, empossada dessa parte de terre­
no arrematado, a vendeu a Felício da Costa Camargos, ao qual
sucedeu seu pai Francisco Mateus de Sousa Camargos, a viúva dês­
te Dona Silvéria Maria de Jesus, seu filho Felicíssimo da Mota Car­
doso, os filhos dêste, que afinal venderam a Fortunato Ribeiro
Guimarães e êste ao atual possuidor Delfina Gomes da Silva sem­
pre com os mesmos Iimítes com que a possuiu Joaquim dos 'Anjos
Batista: - tudo pode ser verificado por sucessivos atos de escri­
turas e inventários.
A redação, pois, do auto de arrematação como está, é conse­
qüência da pouca atenção que, geralmente, mereciam os atos pú­
blicos, por maior que fôssem a transcendência dêles, ao juiz e
escrivão interino, que assistiram à praça, sem que, de tais descui­
dos, se possa ou deva deduzir que assim obravam com má fé.
108 BORGES SAMPAIO

A Igreja, por conseguinte, continuou no direito, como ainda


continua, a reivindicar a parte do patrimônio não arrematada, e
que não tinha sido ressalvada no título da doação, sem atenção
aos têrmos do auto da arrematação de 1845, limitando êste aos
terrenos tapados constitutivos da chácara - Joaquim dos Anjos.
Disse acima - que não tinham sido ressalvados no título da
doação - porque nesse título, já os doadores reservaram três ca­
pões de mato, que pertenciam a. José Gonçalves Pereira, e sempre
foram respeitados a seus sucessores; isto é, aos sucessores de José
Gonçalves Pereira.
- Não devo encerrar esta nota, sem expor o conhecimento que
adquiri, relativamente ao patrimônio da Matriz de Uberaba, na
parte em que deve confrontar com as
TERRAS DOS íNDIOS
No título da doação disseram os doadores que as divisas des­
ceriam pelo Ribeirão do Uberaba abaixo - ATÉ ONDE CHEGAREM
AS TERRAS DOS ÍNDIOS-; mais adiante acrescentaram: " ... E
PARA ESTE CONTESTA COM TERRAS DOS tNDIOS". Neces­
sário é, pois, que se saiba o que, naquela época, no Sertão da Fa­
rinha Podre, se considerava - TERRAS DE fNDIOS -. É o que
vou ver se consigo explicar, aproveitando-me das tradições um es­
crito antigo, que possuo.
A estrada primitiva, que comunicava a Província de São Pau­
lo com a de Goiás (Vila Boa de), passando pelo território da Fa­
rinha Podre, atravessava: - o Rio Grande no ponto chamado
Pôrto da Espinha; o Rio Uberaba, no lugar denominado Vau; o Rio
das Velhas, no Registro; seguia para a Aldeia de Sant'Ana do Rio
das Velhas ou dos índios e se prolongava até Vila Boa de Goiás
depois de passar o Rio Paranaíba no Pôrto Real, aquém de Catalão.
No século 199, o Govêrno de Goiás, a cuja província pertencia
então o território Farinha Podre, determinou que fôsse respeitado,
como posse plena, aos índios em ambas as margens da referida
estrada, desde o Rio Grande até o Rio Paranaíba, meia légua de
terreno a cada lado.
Alguns índios tiveram mantida esta posse, e, não há muitos
anos que viviam no Lanhoso alguns dêles - como em terras suas.
Atualmente quase não se fala mais em terras de índios aquém
do Rio das Velhas.
Os invasores, que sempre se supõem com melhor direito, as­
senhoreavam-se delas dando-lhes sucessivos proprietários.
A estrada que vinha do Pôrto da Espinha para o Vau no Ri­
beirão do Uberaba, passava nas Toldas, por conseguinte, à vista
da nova povoação Uberaba, situada às margens do Córrego Laje,
Deve, portanto, estar fundado Uberaba atual, ao menos em
parte, em - terras de índios -, partilhando as confrontações
dadas no título da doação, de parte da cidade, do lado do poente.
UBERABA: HIST6RIA, FATOS E HOMENS 109

Com estas considerações e a transcrição que vou fazer de um


manuscrito antigo, que me foi ministrado há quarenta anos por
um d?s entrante~ :primitivos,, ?onhecedor. desta zona, o Cônego
Hermogenes Cassimíro de Araújo Bruonswík ~ntão Vigário Colado
aa Freguesia do Desemboque, persuado-me que fornecerei escla
recimentes sôbre o que foram - terras de índios - no Sertão
Farinha Podre.
Eis o escrito :
"As terras sitas ao longo da antiga estrada de Goiás, que de
tempo imemorial foram reconhecidas da propriedade de algumas
hordas d'índíos que debaixo da administração do falecido Coronel
Antônio Pires se mandaram pelo Govêrno de Goiás estabelecer ali
no século 18 em socorro dos comboios de negociantes que na mes­
ma estrada eram invadidos pelo sáfaro caiapó se contêm desde
o Rio Grande até o Rio Paranaíba estendendo-se para cada lado da
mesma estrada légua e meia. Nas mesmas terras se acham erigi­
das a antiga Paróquia da Missão de Sta. Ana dos mesmos índios
longe do Rio das Velhas uma légua e entre êste e o Rio Paranaíba :
e a de s. Antônio e S. Sebastião do Uberaba criada em 1820 entre
o Rio das Velhas e o Rio Grande.
Como essas hordas de índios se fôssem diminuindo em nú­
mero, e o S. M. Antônio Eustáquio da S~ e Oliveira fôsse encarre­
gado por P. do Exmo. Marquês de Palma então Governador da
Província de Goiás de explorar e acomodar os novos colonos que
para os sertões de Tijuco Rio da Prata e suas anexas mudassem os
seus estabelecimentos propôs o d? S. M. ao Govêrno de Minas que
a cuja província ficaram pertencendo por alvará de 4 de abril de
1816 que depois foi declarado pela Reg. P. do Erário de 8 de fe­
vereiro de 1817 os dois Julgados de N. Sra. do Destêrro do Desem­
boque e de s. Domvs do Araxá cujos territórios são atravessados
pela dita estrada e terrenos, pertencendo ao Des? tôda a sua dis­
tância desde o Rio Grande até o Rio das Velhas, e ao Araxá desde
o Rio das Velhas até o do Paranaíba, propôs digo que algumas
dessas hordas de índios, que ainda existiam entre o Rio das Ve­
lhas e o Rio Grande território do Julgado do Desemboque fôssem
mudados para o território do Araxá que fica entre o Rio das Ve­
lhas e o Rio Paranaíba : anuio a esta representação o Govêrno
de Minas , sendo então o Governador da Província D. Manuel de
Portugal e Castro e por seu despacho mandou que a Reg~ dos
mesmos índios fizesse mudar essas hordas de índios para o indi­
cado território que de fato se mudaram (pode-se ver o R9 da dita
ordem nos livros da regência e administração dos dvs índios na
Aldeia de Sant'Ana) : E.xaqui como ficando recolhido ao Patrimó­
nio Nacional aquêle território evacuado das ditas hordas de ín­
dios também ficou sendo de livre concessão e aquisição e por isso
muitos _proprietários nêle existentes uns aleavam tt<>s de sesma­
rias e as fizeram medir, e outros lançaram posses e levantaram
nêle seus estabelecimentos que estão possuindo."
110 BORGES SAMPAIO

• • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • •

Não tem assinatura nem data êste manuscrito, mas uma car­
ta original datada de Goiás em 4 de janeiro de 1830, pelo Secre­
tário da Prelazia, Padre Luís Antônio da Silva e Sousa, que tive
ocasião de ler, dava notícia de terem dali seguido para a Côrte em
dezembro de 1829, uns papéis, referentes a uma questão suscitada
pela Câmara Constitucional da Vila do Paracatu, a qual pretendia
um Rocio em terras antes ocupadas pelos índios, à margem da
estrada a que se refere o manuscrito, que, aliás, parece ter os ca­
racterísticos de um artigo destinado à imprensa, do qual a auto­
ria se atribui ao referido padre.
Relativamente ao manuscrito que acabo de transcrever devo
notar, dizer-se nêle que - as terras dos índios ladeavam a estra­
da légua e meia para cada lado.
Presumo ter havido engano no autor do manuscrito, enquanto
a largura do ladeamento. As terras indianas deviam ser de meia
légua apenas, de cada lado da estrada, igual a uma légua atra­
vessando-a. É esta a tradição que tenho, por informações de pri­
mitivos entrantes, tais como o Vigário de Desemboque Padre Her­
mógenes Cassimiro de Araújo Bruonswik, o Tenente-Coronel Ma­
nuel José dos Santos (o magro), o Capitão Manuel Rodrigues da
Cunha Matos, o Ajudante Pedro Gonçalves da Silva. Se o ladea­
mento não fôsse de meia légua sàmente e o fôsse de légua e meia,
a légua de terras doada por Tristão de Castro estaria - tôda -
em terras de índios, segundo as confrontações estabelecidas pelo
doador para os lados do norte, sul e nascente, tôdas naturais.
Convenço-me, que as terras dos índios ladeavam a estrada
sàmente meia légua de cada lado.
- Não desconheço que um dos obstáculos, que os fabriquei­
ros hão encontrado para os aforamentos, é a confusão notada no
título da doação, quando disseram os doadores que, do lado do po­
ente, o patrimônio confinava - onde encontrasse as terras dos
índios -; confinação que ainda não fôra demarcada.
:í!:sse obstáculo não me parece invencível; para demonstrá-lo
confeccionei um esbôço topográfico que ao diante vai, fazendo par­
te desta nota.
:í!:sse esbôço, mesmo tôsco como é, poderá todavia servir para
mostrar o meio prático de poder-se estabelecer, ao nascente da
estrada, a confrontação do patrimônio da Matriz pelo lado do po­
ente do mesmo patrimônio ao tempo da doação, indicando-lhe os
limites; se não por modo científico, ao menos exemplificativamen­
te, das terras dos índios à margem da estrada, que do Pôrto da
Espinha se dirigia ao Registro, uma légua aquém da Aldeia de
Sant'Ana do Rio das Velhas, ou dos índios, tendo passado no pôsto
de guarda chamado - Quartel das Toldas -, o Vau no Rio Ube­
raba, e o Lanhoso, deixando a povoação de Uberaba à direita, isto
é, ao nascente.
UBERABA: HISTÓRIA, FATOS E HOMENS 111

Ponto do Ouartel nas Tol~~.


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112 BORGES SAMPAIO

Poderá ser considerada, por exemplo, a linha azul e suas tor­


tuosidades, como o centro, o eixo, da via primitiva, e as vermelhas
como indicadoras de trilhos, ou desvios, que comumente ladeiam
as estradas velhas de muito trânsito, especialmente nos campos.
Os raios de meia légua partidos do centro, isto é, da linha azul,
terminariam onde começasse o patrimônio.
Assim, pois, um vaqueano do sertão, estabeleceria o centro em
tôdas as retas, como nas curvas ou ângulos, e o agrimensor que
acompanhasse o explorador vaqueano, faria dêsse centro partir
os raios da meia légua terminal, tanto nas retas, como nas curvas
ou ângulos, e o pantógrafo completaria o trabalho.
Isto se conseguiria indo primeiro uma exploração particular
ao local, fazer um exame de reconhecimento; esta levantaria uma
planta ítíneráría, víal, provisória, com o respectivo relatório.
A distância a percorrer entre o Vau e o Quartel das Toldas
seria pequena e num dia, penso-o, seria feito o percurso e feito o
registramento na caderneta de campo; mas, se isso ocupasse dois
ou mais dias, nem por isso o tempo seria perdido, atendendo-se à
importância do assunto.
Com êste trabalho provisório, particularmente feito, ficaria o
fabriqueiro da Matriz habilitado, ao menos orientado, para reque­
rer a demarcação e conseqüente reivindicação do patrimônio, ale­
gando limites certos ao poder judiciário, visto como, para intentar
tal ação, a de reivindicação, é essencial fixar limites, fazendo cer­
tas as confinações. Estas seriam, com certeza, confirmadas em
vistoria judicial, oportunamente; o que, no estado atual não se po­
deria conseguir.
Quando Saínt-Hílaíre, em seu regresso da Vila Boa de Goiás,
ao ano de 1819, visitou Uberaba, que então tinha uma trintena de
casas, disse o ilustre sábio, foi permanecer por cinco dias no -
Quartel das Toldas -, em tratamento da febre palustre, de que
vinha infetado.

NOTA 13

A justificação que indiquei no texto, teve a seguinte distri­


buição:
"D. ao 2.<.> Ofício. Uberaba, 17 de dezembro de 1892. - O Cô­
nego Cândido Marinho de Oliveira precisa provar que Tristão de
Castro Guimarães e sua mulher doaram de seus terrenos uma lé­
gua em quadro para patrimônio da Matriz de Santo Antônio e São
Sebastião, hoje cidade de Uberaba - J. Abbadia."
A justificação se fêz perante o Juiz Municipal, o Dr. João Cae­
tano de Oliveira e Sousa, e nela fui inquirido como testemunha.
Compreende-se entretanto, que a justificação, meio de que tanto
se abusa, não era aquêle de que se devia usar, quer para demarcar
os limites do patrlmônio, quer para reivindicá-lo.
UBERABA: HISTóRIA, FATOS E HOMENS 113

NOTA 14

O parecer do insigne jurisconsulto, Conselheiro Lafaiete foi


publicado no Correio Católico, periódico que se publica em Úbe­
raba, sob a epígrafe - "O Patrimônio", edição de 30 de janeiro de
1898, precedido de algumas considerações, e do histórico, que ser­
viu de exposição à consulta. Como estou tratando do mesmo as­
sunto, transcreverei as considerações, o histórico e as respostas à
consulta, embora sejam extensas; talvez possa a transcrição servir
de esclarecimento aos fabriqueiros de outras matrizes, que se acha­
rem em circunstâncias idênticas.
"O PATRIMôNIO.
Aprouve a S. Excia. Revdma. o Sr. Bispo Diocesano, consultar,
a respeito dos direitos da nossa Igreja Paroquial sôbre o patrimô­
nio, o eminente jurisconsulto, mestre do direito entre nós e fora de
nós, o sábio Conselheiro, o Exmo. Sr. Dr. Lafaiete Rodrigues Pe­
reira, que se dignou, com o maior cavalheirismo, a dar a S. Excía.
Revdma. pronta resposta.
Convindo, para orientação do público desinteressado, tornar
bem conhecida tão abalizada opinião, cujo parecer tem fôrça de
sentença, tal a competência de quem a formulou, apressamo-nos a
dar à estampa o aludido parecer, para o qual chamamos a atenção
dos nossos leitores. Ei-lo :
Histórico. - Tristão de Castro, um dos fundadores de Uberaba,
em 1812, conjuntamente com sua mulher, doaram a S. Antônio e
S. Sebastião uma determinada quantidade de terras, que possuíam,
na forma da escritura abaixo:
(Deixo de transcrever o título da doação, por ser o mesmo
que transcrevi em a nota - 10.)
Por êsse tempo, mais ou menos, começou sua existência a ci­
dade de Uberaba, da qual, em 1819, Saint-Hilaire, em sua passagem
por ela, de volta de sua viagem a Goiás, assim se exprime : - ''Fa­
rinha Podre (Uberaba) est situé, au milieu des campos, dans un
largue vallon qu'arrose un trés petit ruisseau. Ce village se com­
pose d'une trentaine de maisons éparses ça et lá des deux côtés du
ruisseau; toutes sans exception, sont nouvellement bâties (1819) :
quelques-unes mêmes lors de mon coyage, n'etaient pas encore
achevées; plusieurs sont grandes pour le pays et construites avec
soin." (Voyage a S. Francisco et Goiás, vol. 2<>, pág. 302).
Relativamente ao local onde encontrou a cidade edificada,
diz o mesmo autor, na obra citada, à pág. 303 : - "Farinha Podre
est sítuê, disent les habitants, à plus d'une demilieue portugaise
de la véritable route de Goiás à S. Paul, et, par consequant, hors
des limites du territoire des indiens; mais depuis la fondation de
ce village, l'ancien chemin a été tout à fait abandonné par les ca­
ravanes, et actuellement elles passent parle village même, ou elles
trouvent plus de f acilité pour renouveler leurs provisions."
114 BORGES SAMPAIO

Por êsses dois trechos de um testemunho insuspeito, como o


de S. Hilaire, evidencia-se que a cidade de Uberaba começou logo
após a doação de Tristão de Castro, dentro dos limites traçados
na escritura aludida, sem invasão do território dos índios, o que
até hoje é tradição respeitada e aceita nesta cidade.
Estabelecido e criado o patrimônio da Igreja sob a invocação
de S. Antônio e S. Sebastião de Uberaba nas terras dadas por Tris­
tão de Castro, teve êle, o patrimônio, a administração que êsses
bens, de ordinário, tiveram durante o regímen do padroado, no
qual, nem sempre e por tôda a parte, a ação das fábricas se fizesse
sentir, as mais das vêzes, entregues aos párocos das respectivas
freguesias, que nem tinham o zêlo necessário para defendê-los, nem
a competência jurídica para ressalvá-los de qualquer indébita in­
vasão.
Nesse estado tem permanecido o patrimônio de Uberaba, que,
a não ser em seus primórdios, teve administradores dessa época
em diante sem administração alguma por pessoa competente de
nomeação do poder igualmente competente.
É certo que a Câmara Municipal de Uberaba, em tempo al­
gum, por ato direto ou indireto, deixasse de reconhecer êsse direito
da Igreja Paroquial; antes, pelo contrário, sempre o proclamou e,
em seus atos administrativos, limitou-se ao que diz respeito à saúde
pública, construções, desempachamentos, aberturas de ruas, ali­
nhamentos, etc., etc., sem jamais pretender usurpar os direitos da
Igreja, ainda muito recentemente por ato explícito, entregando ao
vigário o patrimônio para, de vez, remover qualquer dúvida, ou
pela idéia a respeito dos direitos paroquiais.
Nesse estado de coisas, porém, em virtude de licenças conce­
didas pela Câmara Municipal, sem audiência do fabriqueiro, que
não existia de tempo quase imemorial, sem pagamento de laudê­
mios e foros, foram êsses terrenos sendo ocupados, edificados,
criados, transmitidos, sucedidos, inventariados, em grande parte
de sua área, pouco restando desocupados, ou livres de qualquer
ônus ou possuídos na forma dos demais.
A cêrca de 6 anos pretendeu aforá-los regularmente quem en­
tão era vigário desta cidade, já durante o regímen político atual,
tentativa essa que abortou pela oposição violentíssima que sofreu
essa tentativa, fundada, todavia, no exagêro do preço, e não na
improcedência do direito, em nome do qual agia o referido vigário.
Passados êsses anos, restabelecida a calma, estudada a ques­
tão melhormente, os ânimos já orientados, à luz do direito, da jus­
tiça e da boa razão, pretende-se de novamente o aforamento, se­
gundo as nossas leis e costumes e de acôrdo com os títulos de do­
mínio que a Igreja possa exibir.
Eis porque pergunta-se, para o fim de tornar efetivo o afora­
mento segundo as nossas leis :
l.~ - Em face do histórico feito assiste à Igreja Paroquial de
Uberaba o direito de aforar os terrenos constantes da escritura de
UBERABA: HISTóRIA, FATOS E HOMENS 115

doação de Tristão de Castro Guimarães e de sua mulher, feita aos


28 de dezembro de 1812 ?
2.~ - Não sendo possível exibir em juízo a escritura original
a certidão que existe é bastante para todos os efeitos legais e exi~
gidos em direito ?
3.~ - Pode ser alegada a favor dos terrenos - ocupados -
com licença da Câmara Municipal, possuídos, sucedidos e inven~
tariados por mais de 30 avisos, sem, todavia, ser ouvido o fabriquei­
ro, a prescrição aquisitiva?
4. a - A prescrição aquisitiva pode dar-se e correr, a favor de
terceiros, em bens de mão morta, quando essas não tinham admi­
nistradores ou fabriqueiros regularmente constituídos ?
5. ~ - Pode-se considerar abandonado o terreno de um patri­
mônio, suscetível de ser ocupado por terceiro, pelo fato de não ser
por longo tempo, administrado pela Igreja respectiva?
6.~ - Quanto aos terrenos não ocupados do patrimônio podem
a Câmara Municipal ou particulares alegar alguma coisa contra
o direito da Igreja?
7. a - Pode-se considerar como justo titulo e boa fé, o fato de
um terceiro possuir um terreno, reconhecido como do patrimônio,
por que, durante longo tempo, a Igreja, pelos seus representantes,
não impugnasse essa posse ?
8.~ - Essa posse é válida e em direito produz efeito contra as
alegações posteriores da Igreja, regularmente produzidas em
juízo?
9.~ - Como conciliar-se as disposições do nosso direito pátrio,
com as disposições do Decreto Provisório n? 119 A, de 7 de janeiro
de 1890, principalmente com relação aos artigos 4.<> e 5.<> do citado
decreto?
Uberaba, 5 de janeiro de 1898.
Resposta. - Ao 1.9 - A doação feita por Tristão de Castro
Guimarães e sua mulher à Igreja de S. Antônio e S. Sebastião, hoje
Igreja Paroquial de Uberaba, em 28 de dezembro de 1812, era em
princípio nula, porque não foi reduzida a escritura pública, nem
insinuada. E ainda quando houvessem sido observadas as aludi­
das formalidades, uma tal doação não podia induzir transferência
de domínio, visto como não tinha sido impetrada dispensa das leis
de amortização. Hoje, porém, o domínio sôbre o terreno doado, re­
puta-se legalmente adquirido pela Igreja por bem da prescrição
longissimi temporis, pois que concorrem os requisitos da lei - pos­
se por mais de trinta anos e boa fé.
Certamente não era permitida a prescrição aquisitiva contra
a proibição das leis da amortização; essas leis porém deixaram de
vigorar em presença do conteúdo do § 3.<> do art. 72 da Constituí­
ção da República, segundo o qual a Igreja e corporações religiosas,
podem adquirir bens observadas as disposições do direito comum,
isto é, de conformid~de com o direito que regula em geral a aqui­
sição de bens, e portanto, excluídas as leis de amortização que
116 BORGES SAMPAIO

constituiram um direito singular. Tendo em consequência cessado


a proibição das leis de amortização, desapareceu o embaraço legal
para a conservação da prescrição aquisitiva em favor da Igreja.
Ao 2.Q - A certidão extraída dos autos tem, segundo direito,
fé pública. O escrito da doação passada por Tristão de Castro e
sua mulher só serve para provar, como documento histórico, os li­
mites do terreno doado.
Ao 3.9 - A posse de terceiros de partes do terreno da Igreja,
por quarenta ou mais anos, é suficiente para fundamentar a pres­
crição aquisitiva em favor dêles.
Mas a lei exige ainda a boa fé; e no caso vertente é para du­
vidar-se da boa fé dos ocupantes, visto como no lugar tem sido
sempre público e notório que o terreno pertencia à Igreja. E o pos­
suidor que sabe que o terreno que ocupa, pertence a terceiro, pre­
sume-se em direito estar em má fé.
Ao 4.9 - No nosso direito a prescrição, sobretudo a de longi
et longimini temporis, corre ainda entre os ausentes e entre o im­
pedido (non valentem agere), salvo algumas exceções, entre as
quais não está incluído o caso ocorrente. (Direito das Coisas, § 77,
nota 1). Assim pois a ausência de administradores ou fabriqueiros
não suspenderia a prescrição contra a Igreja, se tal prescrição reu­
ne os requisitos legais.
Ao 59 - O abandono só se reputa jurldicamente existir, quan­
do há posse por parte de terceiros por tanto tempo quanto baste
para conservar-se a prescrição. O fato pois, de não ter tido a Igre­
ja o imóvel sob administração sua, por si só não induz abandono.
Ao 69 - Negativamente, salvo prescrição de quarenta anos,
concorrendo o requisito da boa fé.
Ao 7<> - A abstenção do proprietário de reivindicar o terreno
não dá a conclusão de que o competente tenha justo título e que
esteja de boa fé, salvo passado o tempo que a lei exige para a
prescrição - quarenta anos contra a Igreja.
Ao 8<> - A prescrição aquisitiva interrompe-se pela citação
inicial do possuidor para a reivindicação do terreno, a requeri­
mento do proprietário, e pelo protesto inicial feito perante o juízo
competente contra o possuidor ausente. Portanto, em caso ver­
tente, a prescrição se entenderá interrompida, se parte da Igreja
antes de completados os quarenta de posse, houver emprêgo de
um dos ditos modos - citação ou protesto.
Ao 99 - As disposições do direito pátrio, que são incompa­
tíveis com as do Decreto n9 119, de janeiro de 1890, reputam-se em
direito revogadas, por virtude do conhecido princípio - que a lei
posterior revoga a anterior.
Rio, 11 de janeiro de 1898. - Lafaiete Rodrigues Pereira.

NOTA - 15

Dou nesta nota a cópia de um dos alvarás de licença que a


UBERABA: HISTóRIA, FATOS E HOMENS 117

Câmara Municipal expede concedendo licença para edificar em


terreno desocupado; fórmula quase a mesma desde 1851 em que
comecei a tomar parte .nas deliberações daquela distinta corpora­
ção, até agora.
Do próprio exemplar se vê, que a Câmara não se tem arro-
gado domínio nos terrenos do patrimônio da Matriz.
Eis o modêlo :
''NQ . . . . . . Câmara Municipal de Uberaba.
O Presidente da Câmara Municipal de Uberaba, na forma da
Lei, etc.
Pelo presente alvará, indo por mim assinado, concedo licença
ao Sr para edificar uma morada de casa em terreno de-
socupado com. . . . . . palmos de frente e duzentos de fundo, na
rua visto ter o mesmo sr. pago os direitos municipais, como
demonstrou pela exibição do conhecimento n? , ficando obri-
gado a edificar sua casa dentro do prazo de um ano, guardar e
cumprir o que, a êste respeito, determinam as posturas munici­
pais em vigor.
Paço da Câmara Municipal de Uberaba,. . . . . . de. . . . . . de
189 Eu Secretário o escrevi. - O Presidente o
Secretário .
Alvará 1$000. Registro 1$000. Réis 2$000."

NOTA - 16

"Resolução n9 206. - O Marechal Sebastião Barreto Pereira


Pinto, Presidente da Província de Minas Gerais. Faço saber a to­
dos os seus habitantes, que a Assembléia Legislativa Provincial
decretou a resolução seguinte :
Art. 19 - Na vila de Uberaba ninguém poderá edificar den­
tro de uma légua quadrada, em terreno devoluto, sendo o centro,
de que deve partir a medição, a Matriz Velha, sem licença da
Câmara Municipal da mesma vila.
Art. 29 - A Câmara é autorizada a cobrar quarenta réis por
cada palmo de frente com duzentos de fundo, quando conceder a
licença. ·
Art. 39 - Todos os que, havendo obtido a licença antes da
data da presente lei para edificar, o não tiverem feito, ficam su­
jei tos às disposições do art. 2Q.
Art. 4<> - Ficam revogadas as disposições em contrário.
Mando portanto a tôdas as autoridades, à quem o conheci­
mento, e execução da referida resolução pertencer, que a cum­
pram, e façam cumprir tão inteiramente como nela se contém.
O Secretário desta Província a faça imprimir, publicar e correr.
Dada no Palácio do Govêrno na Imperial cidade de Ouro Prêto,
aos dois dias do mês de abril do Ano do Nascimento de Nosso Se­
nhor Jesus Cristo de mil oitocentos e quarenta e um, vigésimo da
118 BORGES SAMPAIO

Independência e do Império. (L. S.). - Sebastião Barreto Pereira


Pinto.
Resolução, que determina que na vila de Uberaba ninguém
possa edificar em terreno devoluto sem licença da Câmara Mu­
nicipal, e autoriza a esta para cobrar uma imposição por tais li­
cenças, como acima se declara. - O Padre Antônio de Sousa Bra­
ga a fêz. - Selada na Secretaria do Govêmo da Província em 5
de maio de 1841. Honório Pereira de Azeredo Coutinho. - Re­
gistrada a f. 15 do Livro I do Registro de Leis e Resoluções da
Assembléia Legislativa Provincial. Ouro Prêto, Secretaria do Go­
vêrno em 5 de maio de 1841 - Manuel Berardo Acursio Nunan.
Nesta Secretaria do Govêrno foi publicada a presente resolução,
aos três dias do mês de agôsto de 1841. - Honório Pereira de Aze­
redo Coutinho."
NOTA - 17

Os dois hinos que se seguem, enunciados no texto, foram can­


tados por gentis meninas no dia 10 de agôsto de 1896, na Rua
Municipal, por ocasião da chegada nesta cidade do Excelentíssimo
e Reverendíssimo Dom Eduardo Duarte Silva, Bispo da Diocese
Goiana, em seguimento para a Matriz.

LETRAS DE ARTUR LôBO

Caro Príncipe da Igreja


imaculado Pastor :
chovam-vos bênçãos do povo,
sêde bem-vindo, Senhor.

Que êste céu claro e riden te


se expanda em novos fUlgores ·.
que seja vosso caminho
atapetado de flôres.

Que vos saúdem mil bôcas,


que vos aclamem também
como aclamaram a Cristo,
entrando em Jerusalém.

Que vos acolha em delírio,


em uma expansão verdadeira,
cheia de amor e de crença
esta cidade mineira .

UBERABA: HISTORIA, FATOS E HOMENS 119

LETRAS DE MANUEL FELIPE

Salve! distinto Prelado!


Salve! do clero ornamento,
Uberaba vos destina
O mais franco acolhimento.

Côro - Permiti que um povo grato,


Neste momento feliz,
Seus arroubos vos transmita
Nestas vozes infantis.
A cidade que escolhestes
Para a vossa habitação
Vos entrega entre festejos,
As jóias do coração.
Côro - Permiti, etc.
Sêde, portanto, bem-vindo !
E que Deus Nosso Senhor
Conserve sempre entre nós
Tão ilustrado Pastor.
Côro - Permiti, etc.
Vossas ovelhas queridas
Vem, na mais grata expansão,
Erguer a vossas virtudes
t::ste singelo padrão.
Côro - Permiti, etc.
Descei, ó anjos, do céu,
Vinde conosco cantar
Nesta festa de alegria
Que hoje vamos celebrar.

Côro - Permiti que um povo grato,


Neste momento feliz,
Seus arroubos vos transmita
Nestas vozes infantis.

NOTA - 18

"Lei n? 128, de 22 de janeiro de 1902, que constitui o perí­


metro urbano da cidade de Uberaba.
O povo do Município de Uberaba, por seus vereadores, votou,
e eu, em seu nome, promulgo e mando executar a seguinte lei:
Art. 1 Q - O perímetro urbano da cidade de Uberaba, para to­
dos os efeitos legais, fica constituído pelo perímetro demarcado
120 BORGES SAMPAIO

judicialmente em 31 de agôsto de 1870 para patrimônio da cidade.


Art. 2Q - Revogam-se tôdas as disposições em contrário.
Paço da Câmara Municipal de Uberaba, em 22 de janeiro de
1902. .
O Agente Executivo Municipal, Manuel Terra.
Publicada nesta Secretaria, aos 22 dias do mês de janeiro de
1902.
O Diretor da Secretaria, Alexandre José dos Santos.
NOTA - 19 (Suplementar)
Tendo terminado a notícia, foi ela lida pelo distinto médico
Dr. João Teixeira Alvares, por Monsenhor Inácio Xavier da Silva,
ilustrado Vigário Geral do Bispado e Vigário da Paróquia de Ube­
raba, bem como por sua Excelência o Senhor Dom Eduardo Duarte
Silva, ilustre Bispo da Diocese de Goiás. A todos pedi se dignassem
fornecer-me notas do que entendessem dever ser suprimido, mu­
dado, ou acrescentado.
Todos me disseram nada dever alterar-se. Monsenhor Xavier
dignou-se, todavia, fornecer-me cópia de um ofício que lhe tinha
dirigido a Câmara Municipal, relativo ao patrimônio, em 1897; o
qual transcrevo, por confirmar o que expus sôbre licenças para
edificações; provando êsse importante documento que a Lei n?
128, acima transcrita (nota 18), merecia ter sido vetada.
Sua Excelência o Sr. Bispo agradeceu-me verbalmente com
efusão, o confeccionamento do meu modesto trabalho.
Eis o ofício :
"Paço da Câmara Municipal de Uberaba, 12 de maio de 1897.
Revmo. Sr. _Cônego Inácio Xavier da Silva, vigário desta fre-

guesia.
Tenho a honra de comunicar-vos que a Câmara Municipal des­
ta cidade teve presente em sessão de hoje o vosso ofício datado
de 10 do corrente mês, relativo às licenças concedidas pata as
edificações no perímetro desta cidade, mamdou declarar-vos que
essas licenças não importam transmissão de propriedade dos mes­
mos terrenos, os quais, como sabeis, pertencem ao patrimônio da
Matriz e não à Câmara, e portanto esta não tem direito algum de
vender tais terrenos, como não tem vendido.
A Câmara, pois, concedendo as aludidas licenças, não faz, por
isso, venda alguma.
Enganam-se, pois, os que tendo alvará de licença para edi­
ficar, se julgam proprietários das terras compreendidas no mesmo
alvará.
É o que, em nome da Câmara, me cumpre levar ao vosso co­
nhecimento.
Saúde e fraternidade. - O Presidente da Câmara e Agente
Executivo, Wenceslau Pereira de Oliveira.
(in Revista do Arquivo Público Mineiro
ano VII, 1902, págs. 653/690)
SERTÃO DA FARINHA PODRE
AT.UAL TRIANGULO l\11NEIRO *

Esbôço Histórico

Ao Leitor

Há dois anos organizei para a Revista de Uberaba um esbôço


abreviado, dando noticia do Sertão da Farinha Podre, em desco­
brimento e transformação em Triângulo Mineiro.
Os poucos exemplares dessa edição, tirados em avulso, esgo­
taram-se; por isso escrevi esta concertada e aumentada, com adi­
ção de algumas notas.
Só o desejo de fazer conhecida, no futuro, esta zona abençoada
e suas belas tradições, zona que habito há mais de cinqüenta e
oito anos, é que me moveu a tentar, quando já octogenário, o que
cabia a pessoas mais hábeis, de espíritos esclarecidos. Dessa ou­
sadia e quiçá caduquice, espero ser desculpado.
Aos distintos Srs. Drs. Ugolino Ugolini e Alexandre de Sousa
Barbosa, agradeço a colaboração graciosa do mapa topográfico do
Triângulo que me forneceram, para ilustrar o meu insignificante
trabalho, que respeitoso ofereço ao Arquivo Público Mineiro.
Uberaba, 2 de janeiro de 1906.

Antônio Borges Sampaio.

Com limites na Serra da Canastra desde o Ribeirão Grande,


na margem direita do Rio Grande e Mata da Corda, até a mar­
gem esquerda do Rio Paranaíba, tendo se passado por São João
Batista do Retiro e São Francisco das Chagas de Campo Grande,
fica o vasto território, atualmente denominado Triângulo Mineiro,

* Edição melhorada, acrescentada, com algumas notas fora do texto,


acompanhada de um mapa topográfico do Triângulo Mineiro. Uberaba.
1906. - O mapa foi guardado no competente lugar dêste Arquivo. (Nota da
Revista do Arquivo Público Mineiro).

122 BORGES SAMPAIO

do Estado de Minas Gerais, mas que, até poucos anos era conhe­
cido por - Sertão da Farinha Podre.
Esta grande área de cêrca de 93 .300 quilômetros quadrados,
em tempos idos pertenceu à Comarca de Paracatu do Príncipe, da
antiga Província e Bispado de Goiás; foi dela desmembrada por
alvará de 4 de abril de 1816 e anexada à Província de Minas Ge­
rais, somente na parte civil e administrativa; porque na parte
eclesiástica continuou e ainda continua, sob jurisdição episcopal
goiana, que desde então era nela exercida.
Os lugares compreendidos nessa imensa zona, na maior parte
incultos e desertos até 1807, conheciam entretanto a estrada que,
na Espinha, atravessava o Rio Grande, de São Paulo para Goiás
(veja-se a Nota A), e nela residiam alguns índios saídos da aldeia
de Sant'Ana do Rio das Velhas, os quais nunca tiveram ânimo de
alongar-se para alguns dos lados da mesma estrada, nem ao me­
nos meia légua, como depois se conheceu pelas culturas sempre
vizinhas de suas habitações. (Veja-se a Nota B).
Por êsse tempo prosperava a povoação do Desemboque, a qual
teve por nome primitivo, o de - Descoberto das Cabeceiras do
Rio das Velhas -, fundada à margem esquerda do rio dêste no­
me, por aventureiros catadores de ouro; remontando a edificação
de sua matriz, tôda de boa pedra, ao ano de 1743; povoação que
foi elevada à categoria de julgado em 1766, à de vila, em 1850;
suprimida .em 1862.
Foi dêste povoado que, em 1807, partiram Januário Luís da
Silva, Pedro Gonçalves da Silva, José Gonçalves Eleno, Manuel
Francisco, Manuel Bernardes Ferreira, e outros e penetraram no
sertão.
Tendo descoberto lindas campinas e ótimas matas, apossaram
algumas fazendas, regressando, tanto por falta de mantimentos,
como pelo terror que lhes inspirava o gentio caiapó, do qual en­
contraram vestígios em diversos lugares.
Nesta excursão a caravana percorreu, cortando a margem do
Rio Grande, poucas léguas distantes dêste, em procura da estrada
que atravessava na Espinha o dito rio.
Era costume dêstes entrantes, denominados ''bandeirantes",
quando iam penetrar em lugares incultos, fazerem depósito de al­
guns dos víveres que conduziam, em pontos que assinalavam : re­
gularmente eram as grandes árvores que lhes serviam de "des­
pensa".
No grande ribeirão então desconhecido, mas hoje atraves­
sado pela via férrea Mojiana nas proximidades da Estação En­
genheiro Lisboa, Município do Sacramento, deixavam os "entran­
tes" alguma provisão de víveres, que lhes devia servir de confôrto
no regresso para o Desemboque. Encontraram, porém, ao volta­
rem, alguns dêles avariados, entre os quais a "farinha de milho"
apodrecida.
UBERABA : HISTóRIA, FATOS E HOMENS 123

Por êsse fato, reza a tradição, o ribeirão ficou sendo denomi­


nado - Da Farinha Podre -, nome que conservou, dando-o tam­
bém ao vasto território compreendido entre os dois rios - Grande
e Paranaíba. (V. Nota C).
O Marquês de São João da Palma, Governador da Província
de Goiás, por portaria de 27 de outubro de 1809, nomeou o Sar­
gento-Mor Antônio Eustáquio da Silva e Oliveira - Regente dos
Sertões da Farinha Podre -, o qual, associando-se aos que pri­
meiro haviam entrado e alguns outros geralistas, formando todos
uma "bandeira" de trinta homens, entraram pelo dito sertão a
dentro até o Ribeirão da Prata, tendo atravessado a estrada da
Espinha, percorrendo mais de trinta léguas, encontrando a cada
passo diversos embaraços de rios, grandes ribeirões, pântanos, ma­
tas virgens, macegais e brejos; sempre temerosos do gentio, cuja
existência se conhecia pelas queimadas de campos que tinham
feito e ranchos encontrados aqui e ali.
tstes empreendedores achavam-se ainda expostos aos ataques
dos animais silvestres e ferozes: contou o Padre Antônio José da
Silva, em uma breve notícia que escreveu em 1824 sôbre o Farinha
Podre, que "Antônio Rodrigues da Costa, um dos da caravana,
fôra acometido cara a cara por uma onça pintada, que avançara
furiosamente ao cavalo em que ia montado, segurando-o com
unhas e dentes, podendo, com a destreza, depois de faltar-lhe o
recurso da espingarda, na qual jamais encontrava o gatilho, de­
fender-se com a espada que trazia ao lado, dando no animal
algumas estocadas, com as quais largou o cavalo e fugiu perse­
guida pelos cães, até ser morta a chumbo em um capão víz'nho, e
que, por êste acontecimento, se ficou chamando o Capão da Onça".
Depois do Sargento-Mor Eustáquio e os da sua comitiva te­
rem assinalado posse, na decorrência de dois meses, e feito algu­
mas pequenas roças, tendo reconhecido a transcendêncía dos cam­
pos e dos matos, regressaram ao Desemboque.
O Sargento-Mor Eustáquio seguiu para Casa Branca, de Mi­
nas, donde pouco tempo depois voltou ao Sertão da Farinha Po­
dre e foi estabelecer residência na chácara, onde por algum tem­
po funcionou o Instituto Zootécnico, em Uberaba. Nessa chácara
faleceu em 1832.
Em 1812, quando a povoação já contava alguns moradores,
quando já, nas cabeceiras do Lajeado, onde primitivamente José
Francisco de Azeredo tinha, em 1807, edificado uma capela sob a
invocação de Santo Antônio e São Sebastião, o Sargento-Mor Eus­
táquio, que além de ser comandante Regente dos Sertões da Fa­
rinha Podre, tinha também sido nomeado "curador dos índios",
fêz nova entrada nos lugares desertos, levando outra "bandeira"
formada de muitas pessoas de nôvo convidadas, da qual fêz parte
o Vigário do Desemboque, Padre Hermógenes Cassimiro de Araújo
Bruonswik, de quem tive ocasião de ouvir narrar o seguinte epi­
sódio ocorrido nessa aventurosa viagem: Dormiam juntos uma
124 BORGES SAMPAIO

noite o Padre Hermógenes e Eustáquio, quando uma grande co­


bra j araracuçu passou por cima de ambos e, sendo percebida, a
expeliram com a colcha, matando-a em seguida depois de ter mor­
dido um cão, que morreu imediatamente, e teriam igual sorte os
dois, se a fortuna não os bafejasse. (V. Nota D).
Depois desta excursão que era a terceira ''bandeira" que en­
trara nos Sertões da Farinha Podre, as notícias otimistas se fo­
ram espalhando entre os geralistas, após as quais, os convites,
as informações e persuasões de uns e outros dos "bandeírístas",
atraíram em breve muitas pessoas para formarem estabelecimen­
tos nas posses tomadas, não obstante o mêdo do gentio que se lhes
antolhava; tendo algumas dessas posses sido vendidas a trôco de
um casal de leitões, como me disse ter feito o Ajudante Pedro Gon­
çalves da Silva, aqui falecido com 114 anos de idade e um dos
apasseadores.
Muitas cartas de sesmarias foram depois sendo concedidas no
território da Farinha Podre pelo Governador da Província de Goiás,
enquanto não foi anexado à Província de Minas Gerais em 1816;
continuando o Govêrno desta última a concedê-las depois da ane-
-
xaçao.
O povoado primitivo de Uberaba foi-se transferindo das cabe­
ceiras do Lajeado para a margem esquerda do Córrego Laje, onde
o Sargento-Mor Eustáquio tinha construído um "Retiro", desen­
volvendo-se aí em bastante aumento, chegando a adquirir o tí­
tulo de - "Pôrto do Sertão" - e ultimamente o de - Princesa
do Sertão.
No dia 25 de janeiro de 1808 instalou-se a medição da sesma­
ria concedida pelo Govêrno de Goiás a José Gonçalves Pimenta,
a requerimento de José Francisco de Azeredo, que a tinha adqui­
rido por cessão, do dito Pimenta.
A instalação teve lugar "na paragem chamada Santo Antô­
nio da Laje", onde se fundou a primitiva povoação, sendo essa
sesmaria a mais antiga atualmente conhecida no Sertão da Fa­
rinha Podre. Refiro-me à de Uberaba.
Com o tempo, o povoado da ''paragem de Santo Antônio da
Laje"; que ainda não tinha recebido a denominação de "Ubera­
ba", foi tomando incremento, sendo elevado à categoria de dis­
trito em 13 de fevereiro de 1811, à de paróquia em 1820, à de vila
em 1836 e à de cidade em 1856.
Quando o território da Farinha Podre foi desmembrado da
Comarca de Paracatu do Príncipe para constituir comarca dis­
tinta, esta se desmembrou - do Paraná -, compreendendo os
Municípios de Uberaba e Araxá: êste último tinha sido criado em
13 de outubro de 1831, tendo [á as prerrogativas de "julgado",
quando foi separado do de Paracatu.
Em ambos os municípios havia diversos núcleos de habitan­
tes, quando se deu a separação comarcana. O de Uberaba teve
UBERABA: HISTóRIA, FATOS E HOMENS 125

então o território que se comnreendia entre o Rio das Velhas e o


Rio Grande; ao do Araxá coube o restante.
Entretanto, em 1891 foram criadas treze comarcas em tôda
a área dos dois municípios, e mais o da vila Platina, sem fôro;
mas recentemente, em 1903 foi êsse número reduzido a cinco.
O arraial de Uberaba, que em 1819 teria trinta casas, segundo
o testemunho de Saint-Hilaire, distava do Araxá 22 léguas, do
Desemboque 18, da aldeia de Sant'Ana 15, da vila da Franca 18,
de Paracatu 60, de São Paulo 90.
Foi no Sertão da Farinha Podre que funcionou por muitos
anos o Colégio de Nossa Senhora Mãe dos Homens de Campo Belo,
próximo à junção dos Rios Grande e Paranaíba, pertencente à
congregação religiosa de São Vicente de Paulo, com sua época pa­
ternal e de glória, onde muitos moços, pobres e sem recursos, re­
'
ceberam educação distinta, ministrada por professôres ilustrados.
Seu patrimônio era constituído em três preciosas fazendas deno­
minadas "Campo Belo", "Fortaleza" e "Paraíso", doadas por João
Batista de Siqueira e sua mulher Bárbara Bue110 da Silva, então
estimadas apenas em 562$000; doação essa feita por escritura pú­
blica de 29 de outubro de 1830, e sentença julgadora da doação
(da insinuação) de 8 de novembro do mesmo ano, a que precedeu
a Provisão Imperial de 5 de julho de 1827, concedendo a respec­
tiva licença, sendo a congregação representada em todos os atos
jurídicos pelo Padre Jerônimo Gonçalves de Macedo que, por mui­
tos anos, continuou a administrar o pio estabelecimento, com mui­
to louvor da congregação e do público, que o venerava. (V. No­
ta E.)
Sôbre a preciosidade do território da Farinha Podre, infor­
mou o Padre Leandro Rabelo Peixoto e Castro em 2 de outubro
de 1827, quando regressou de Campo Belo a Matosinhos, ao Dou­
tor José Teixeira de Vasconcelos, que então era Presidente da Pro­
víncia de Minas :
"No dia 14 de agôsto cheguei à Imperial Casa de Nossa Se­
nhora Mãe dos Homens de volta do sertão e logo encontrei a no­
tícia de ter Sua Majestade Imperial mandado que a minha con­
gregação fôsse fundar um colégio em Matosinhos. Por comum
acôrdo dos meus padres vim eu para me empregar nesta obra'
onde me esmerarei por mostrar os meus desejos de ser útil à Re~
ligião e ao Estado.
Não posso deixar de dizer que na minha viagem ao Sertão do
Nôvo Sul da Farinha Podre, vi talvez o mais fértil terreno da
América: um campo de mais de noventa léguas, povoado todo de
geralistas, e das melhores famílias, que não compreende gente
ocio~a, ou .d~ pouco por~e, pois quase tod~s são fazendeiros; a pro­
duçao ordinária de mais de duzentos e cínqüenta por um, e che­
ga a trezentos e mais; um país o mais saudável, o mais abundante
de águas,. o mais próprio para as criações, por causa dos singu­
lares capms sempre verdes e pelos bebedouros salitrosos, assim
126 BORGES SAMFAIO

como pelos apartadouros naturais e muito peixe, que se encontra


em todos os rios e córregos : em uma palavra, a abundância de
tôdas as frutas que ali produzem, me faz crer o que acima disse,
o que verá da "Narração" junta, se tenho ou não razão".
"A Narração". - "A Farinha Podre, ou Sertão do Nôvo Sul,
está na mesma latitude que as Gerais.
Principia na Serra da Canastra, porque subindo-se esta serra
principia o chapadão, que continua por todo o sertão até o Par­
naíba. (?)
Todo êste sertão é campo raso; tem mato e muita caça.
Tem muitos rios : nem jamais vi país mais abundante d'águas,
para o que contribui ser a terra assentada em um lajedo, que creio
terá a mesma configuração da superfície ( êste laj edo se descobre
em todos os rios e córregos); por conseguinte as chuvas estão de­
positadas
- , abaixo da. superfície,
. .
çao, ai mesmo pnncipia um correge.
,
e logo que a terra faz sua inclina-

O Rio de São Francisco principia das águas que se despenham


no alto da Serra da Canastra.
Os rios principais são : primeiro, o São Francisco (porque dê­
le nasce); segundo, o Rio Uberaba; terceiro, o Piumi; quarto o
Verde; quinto o Prata; sexto o Parnaíba(?) (onde termina a Pro­
víncia de Minas) .
O Rio Grande banha todo êste sertão e recebe todos êstes que
acima numerei .
A água, que como disse acima, anda depositada junto da su­
perfície, é a causa de que êste solo esteja sempre fresco e coberto
de capins famosos.
A formiga morre logo que profunda.
Vi fumo com f ôlhas de cinco palmos.
Vi mandioca de cinco ou seis meses, que tinha maiores raízes,
do que a de seis anos nas Gerais.
Vi bananeiras que de seis meses davam cachos, que cada um
tinha (eu contei) cento sessenta e tantas bananas, de uma admi­
rável grandeza.
Vi pé de algodão que um homem (à minha vista) subiu por
êle acima até a altura de quatorze palmos, e me disseram que
esperavam colhêr meia arrôba da primeira apanha, e da segunda
mais de oito libras. (V. Nota F).
Vi ananases de mais de palmo e meio de extensão, e me dis­
seram que os há maiores.
Vi melancias nascidas à toa pelo campo, de sementes que ali
caíram e produziram grandes frutos.
O milho e todos os frutos, de um modo o mais vantajoso, pro­
duzem.
As madeiras são as melhores: a aroeira, o bálsamo, a peroba,
etc., etc., são ali muito freqüentes.
O país é o mais lavado dos ares, e por isso muito fresco.
Mates em que os capins são manjericão.
UBERABA: HISTÓRIA, FATOS E HOMENS 127

Os bebedouros são salitrosos, os pastos fechados, como tam­


bém a abundância de capins, são outras tantas vantagens, que na
tática das descrições, têm um incomparável merecimento.
Não há hervas, nem coisa que mate o gado, o qual por todo o
ano está nascendo.
O que, porém, mais engrandece êste sertão, é o poder ser na­
vegado, importar e exportar o que quiser.
O Rio Tietê, que nasce ou passa por São Paulo, depois de che­
gar ao dito rio (o Grande), pode continuar por qualquer rio, co­
mo o Parnaíba, Rio Verde, etc. (A navegação do Tietê e Rio Par­
do já estão em prática); por conseguinte, todos os efeitos são aqui
muito em conta ! ! "
Era um nôvo Éden o território da Farinha Podre, no conceito
do Padre Leandro, como se vê.
(O leitor terá observado que o Padre Leandro, sempre que
em sua "Narração" se refere ao Rio Paranaíba, o denomina - Par­
naíba -. Em nota, transcreverei a comunicação que fiz em 1 de
agôsto de 1888 ao Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Ja­
neiro e foi publicada em sua ''Revista", relativamente ao equí­
voco do ilustrado padre, e de outros, denominando êsse rio - de
Parnaíba). (Veja Nota G).
A mineralogia era pouco conhecida e menos explorada no pri­
meiro meio século, no Sertão da Farinha Podre; a não ser a aurí­
fera no Julgado do Desemboque, onde se extraíram, mesmo pelos
processos ordinários, rudimentares, muitas arrôbas de ouro. De
1850 em diante, a mineração dos diamantes na Bagagem e Água
Suja, bem como em Uberaba, Conceição das Alagoas e Sacramento,
tomou grande incremento, principalmente na Bagagem, onde apa­
receu o célebre diamante Estrêla do Sul, fazendo-se dali expor­
tação considerável dessas pedras preciosas.
Existia o calcário, que agora é explorado, abundantemente,
em tôda a Serra da Tabatinga, rumo da Serra da Canastra; exce­
lente argila para louça, encanamentos e construções. De ferro há
jazidas no Município do Sacramento e outros diversos lugares,
ainda não exploradas. O carvão de pedra será oportunamente ex­
traído, eu suponho, ao menos em Araguari. Há excelente turfa
já examinada e classificada como tal, no Laboratório de Análises
do Rio de Janeiro. Relativamente ao manganês existente na fa­
zenda da "Irara", Município de Uberaba, disse o Dr. Timóteo da Cos­
ta, Lente Catedrático de Exploração de Minas da Escola Politéc­
nica em 1899. - "Estudados no local os depósitos naturais, onde
foi recolhida a amostra, é possível vir a conhecer-se da existência
de uma jazida ou mina de manganês, visto ser pirolícito o seu
mineral mais importante". Da prata e do chumbo há indícios con­
vencedores de existirem no Município de Araxá.
No Sertão da Farinha Podre abundavam os animais e aves
geralmente conhecidos no Brasil - ferozes, venenosos, inocentes
e úteis, e muitos peixes; residindo em Uberaba há mais de cinqüen-
128 BORGES SAMPAIO

ta e oito anos, tive ocasião de conviver com alguns dos primeiros


"entrantes",' que me transmitiram informações valiosas, de que
já me tenho utilizado em outros escritos, constituindo tradições
seguras no assunto; muitas baseadas em documentos autênticos,
que tenho possuído. ·
Entre as águas minerais, de que deu notícia o Padre Leandro
haver na Farinha Podre, merecem especial menção as medicinais
sulfurosas no Araxá, examinadas, classificadas e usadas por gran­
de número de enfermos, muito aconselhadas por químicos, popu­
larizadas em jornais e livros de medicina e terapêutica, no Brasil
e no estrangeiro. (V. Nota H).
Em 1840 já existiam no território da Farinha Podre as Pa­
róquias de Uberaba, Carmo de Morrinhas e Dores do Campo For­
moso; os Curatos de Monte Alegre, Tijuco e Patrocínio; Araxá e
Desemboque são anteriores a 1807.
É de acreditar-se que os terrenos da Farinha Podre fôssem
formados por aluvião em tempos remotos. A configuração, alguns
fósseis e outros vestígios observados em lugares mais ou menos
elevados, assim o comprovam.
São salubres os terrenos e os povoados; na verdade não há
nêles enfermidades endêmicas, salvo algumas febres palustres
originadas por vasantes após as chuvas : ainda não foram invadi­
dos por epidemias algumas. Se uma ou outra vez, raramente, tive­
ram a varíola importada, o mal extinguiu-se por si mesmo e há
quarenta anos desapareceu. Coisa notável e digna de observação,
talvez, há sido o de.não dar resultado a vacinação de braço a bra­
ço, desde o segundo enxêrto; fui vacinador oficial muitos anos e
tenho a experiência.
Disse o Padre Leandro : "O país é o mais lavado dos ares e
por isso muito fresco". Com efeito, as observações meteorológicas
que cuidadosamente registrei, deram a temperatura média de 21,3
graus centígrados em cinco anos ( 1892-1896) em aparelhos cor­
rigidos com os do Observatório Astronômico do Rio de Janeiro, pe­
lo Dr. João de Oliveira Lacaille e Dr. Antônio Martins de Azevedo
Pimentel, membros da comissão que em Perinópolis demarcou a
área para a fundação da nova Capital Federal; observações que o
Diário Oficial do Rio de Janeiro e a Revista do Arquivo Público
Mineiro publicaram em 1897, e atestaram os seguintes dados cli­
matológicos em Uberaba, no dito período quinquenal, com uma
observação diária, mais cuidadosa :
Barômetro de mercúrio reduzido a zero : máxima 716,30; mí­
nima 696,10; média 703,42.
Temperatura centígrada : máxima 38,0; mínima 0,0; média
21,3.
Tensão do vapor: máxima 23,37; mínima 5,69; média 13,97.
Evaporação : máxima 7,2; mínima 0,1; média 2,6.
Umidade relativa: máxima 98,0; mínima, 25,0; média 71,7.
Higrômetro de cabelo: máxima 99,0; mínima 34,0; média 81,1.
UBERAB.~: HISTôRIA, FATOS E HOMENS 129

Ozone : máximo 10,0; mínimo 0,0; médio 5,3.


Al~ura da chuva no ano em milímetros : máxima 2.204,7; mí­
nima 1.532,9; média 1.972,5. Total no quinquênio 9.512,2.
Extensão da nebulosidade : máxima 10,0; mínima 0,0; mé­
dia 5,5.
Fôrça do vento : máxima 4,0; mínima 0,0; média 1,6.
Regularmente os ventos predominantes em Uberaba durante
o ano são os do quadrante Este-Norte; ventos secos e quentes,
seguindo-se os do quadrante Sul-Oeste; ventos úmidos e frios.
Número total dos dias, em que choveu nos cinco anos 649.
Número dos dias em que o céu esteve limpo, nos cinco anos 603.
Número dos dias, em que o vento estava calmo, e no mesmo
período 551.
No ano de 1893 houve três dias de chuva forte com vento; qua­
tro que mal se poderiam qualificar de tempestuosos. No ano de
1894 houve um dia nas mesmas condições.
Houve seis dias de geada fraca em 1892, três em 1893, um em
1894; em 1895 e 1896 não geou. As geadas em Uberaba não re­
sistiram depois das oito ou nove horas da manhã. Todavia, em
anos anteriores notaram-se algumas geadas bem intensas (1872,
1873 e 1875), prejudicadoras da vegetação, e que abrangeram qua­
se tôda a zona.
Assim também, em anos anteriores, notavam-se algumas chu­
vas de pedras (saraivas), que de algum modo prejudicaram os
milharais, principalmente nas margens do Rio Grande e suas ver·
tentes; não se as poderiam, porém, classificar de devastadoras.
De mais de meio século para cá não tenho notícias de algu­
mas inundações: apenas de enchentes mais ou menos elevadas.
Desde 1847, quando para aqui vim residir (isto há uns trinta
e seis anos atrás), presenciei freqüentes descargas elétricas da
atmosfera, causando estragos e mortes, fenômeno que quase tem
desaparecido, sendo raro um ou outro caso.
Segundo as observações feitas em Uberaba pelo próprio Dr.
Luís Cruls, Diretor do Observatório do Rio de Janeiro, e seus au­
xiliares, em 1892-1895, as coordenadas locais são :
Latitude, 199 ,45'20" (Sul).
Longitude, 49 ,45'10" (Oeste Rio).
Altitude, 760 metros.
Hora local - 8 horas e 50 minutos da manhã.
Em 1827 já o Padre Leandro dizia, com referência ao Sertão
da Farinha Podre de então:
"O que, porém, mais engrandece êste sertão, é o poder ser na­
vegado, importar e exportar o que quiser. A navegação do Tietê
e Rio Pardo já estão em prática; por conseguinte todos os efeitos
são aqui muito em conta".
Para melhor ser compreendida esta passagem do ilustrado sa­
cerdote, observador inteligente, devo consignar o ter êle feito suas
130 BORGES SAMPAIO

ativas observações, quando o comêço da população no país que ad­


mirava datava apenas a uma ou duas dezenas de anos.
Nesse tempo duas únicas estradas punham o Sertão da Fa­
rinha Podre em comunicação com o litoral - a de Goiás pelo Pôr­
to da Espinha, no Rio Grande com Santos por São Paulo; a do
Araxá por Patrocínio para Catalão e Goiás, a quem viesse do Rio
de Janeiro por São João d'El-Rei. Por esta última é que também
se fêz o trânsito do Rio de Janeiro para Cuiabá, até abrir-se o Pôr­
to da Ponte Alta, que encurtou a distância para Santos.
Daí veio a idéia animadora a muitos aventureiros, de esta­
belecerem meios de transporte entre o Sertão da Farinha Podre,
por via de navegação fluvial, com diversos pontos da Província de
São Paulo.
Desciam os intrépidos aventureiros no Pôrto da Espinha, ar­
riscando perigos de saúde, vida e valores, até alcançarem a foz
do Rio Pardo; por êste subiam até Moji-Guaçu, ou pontos inter­
mediários.
Citarei dêsses ousados navegantes entre brenhas, que os co­
nheci: João Mateus dos Reis, Misael Batista Machado Fragoso,
Prudente José Mariano, José Cravo, Fernando Vaz de Melo, José
Severino Soares, além de outros.
Fernando. Vaz de Melo escreveu e publicou em São Paulo mi­
nuciosa Memória sôbre a sua viagem fluvial no Rio Pardo e Pi­
raçununga, rica de notícias sôbre a topografia, natureza dos rios,
suas margens, episódios da viagem, etc.; obra que deve existir no
Instituto Histórico. do Rio de Janeiro, ou no de São Paulo e na Se­
cretaria do Govêrno paulista,
Era assim que se abastecia com mais economia o Sertão da
Farinha Podre naquela época, e continuou a abastecer-se por mui­
tos anos, mesmo até em meus dias.
Ainda em 1884 formou-se uma sociedade anônima em Ube­
raba, com o capital de 120:000$000 para o comércio do sal, que
funcionou alguns anos, dissolvendo-se após a aproximação da Es­
trada de Ferro Mojiana. Fêz suas compras em Santos e 'onde lhe
conveio, transportando a mercadoria pelas Companhias Inglêsa
e Paulista até a Cachoeira de S. Bartolomeu, no Rio Pardo; daí
para o Pôrto da Espinha em barcas e canoas, em cujos pontos te­
ve armazéns de depósito.
Igual emprêsa fluvial executaram depois Antônio Martins
dos Santos e Belmiro dos Santos Castro, com embarcações de-
nominadas pirogas - em 1883-1884.

Hoje, a vasta zona da Farinha Podre denomina-se - TRIAN­


GULO MINEIRO.
. Resultou a transmutação da semelhança geográfica que, apro­
ximadamente, apresenta a figura geométrica, - o triângulo.
UBERABA: IIISTóRIA, FATOS E HOMENS 131

Ainda em 1874, quando o ilustrado Dr. Henrique Raimundo


des Genetes e o inteligente trabalhador Major José Augusto de
Paiva Teixeira, fundaram a primeira imprensa em Uberaba -
que também era a primeira no Sertão da Farinha Podre -, não
se pensava 'que viesse a chamar-se Triângulo Mineiro. Tanto isto
era assim, que o primeiro jornal publicado por aquêles lutadores
pelo progresso, teve por título O Paranaíba, que foi substituído pe­
lo Eco do Sertão; mais tarde também substituído pelo Uberabense,
sem que, em algum dêles, se cuidasse da mudança de nome do ter­
ritório.
Em 1884, porém, publicando-se na cidade do Sacramento o
O Jaguara, que não tardou a estabelecer polêmica com os jornais
de Uberaba relativamente à diretriz da Estrada de Ferro Mojiana,
nela foi aparecendo de vez em quando a denominação de Triân­
gulo Mineiro, substituindo a de Farinha Podre.
Seguiu-se, três anos depois, em 1887, a publicação de outro
jornal na dita cidade, com o título de - Triângulo Mineiro, -
que foi substituído pelo O Povo em 1889.
No correr dêsses anos, também José Augusto de Paiva Teixei­
ra, fundando em Uberaba nova tipografia para imprimir um jor­
nal de grande formato, o intitulou - Triângulo Mineiro.
Esta foi a origem da nova denominação : da geraçao presente
poucos fazem referência à antiga; só dela se lembra ainda um ou
outro habitante que, como eu, aprecie recordações antiquadas.
Em todo o caso, o Triângulo Mineiro vê a Farinha Podre trans­
formada por continuado progresso. Não é mais "sertão".
A Estrada de Ferro Mojiana, a cargo de uma emprêsa labo­
riosa e honrada, o atravessa desde o Jaguara no Rio Grande, até
Araguari, (antigo Brejo Alegre), com o percurso de 266 quilô­
metros, e 14 estações; brevemente, ela ou outra, transporá o Rio
Paranaíba para Catalão ou Goiás. Diversas de rodagem e muitas
pontes dão trânsito ativo entre seus diversos povoados, bem como
para importação e exportação, comutando suas coisas com os mu­
nicípios e estados vizinhos.
A linha telegráfica o atravessa desde a margem direita do
Rio Grande, à margem esquerda do Paranaíba, em distância de
cêrca de 400 quilômetros, pondo-o em relação imediata com Goiás
e Cuiabá, no centro, e com todo o mundo civilizado pelo litoral :
além do serviço que presta ao público o telégrafo da Companhia
Mojiana. (Vej. Nota I).
Possui tôda a zona muitos templos para a celebração do cul­
to religioso do catolicismo; o de São Domingos, obra monumental
dos religiosos dominicanos congregados, erigido em Uberaba nes­
ta zona será admirado, como único, por todos. (Vej. Nota J).
Há também em Uberaba um Hospital de Misericórdia· edifí­
cio vasto e sólido, fundado em 1858 pelo benemérito Frei Eugênio
Maria de Gênova. Inaugurados os serviços das enfermarias em
132 BORGES SAMPAIO

1896, tem prestado assinalados serviços à humanidade sofredora.


Possui bom patrimônio em imóveis.
É avultado o número de paróquias e distritos no Triângulo
Mineiro, podendo estimar-se em 300.000 o número de habitantes
em tôda a zona.
A nossa Sub-Administração dos Correios são subordinadas 65
" .
agencias.
Possui diversos colégios de instrução para alunas, e também
diversos para alunos em muitas partes. Grande número de es­
colas primárias estaduais e municipais para ambos os sexos. Uma
escola normal com o ensino suspenso; um seminário. Um colégio
regido por Irmãs Dominicanas para instrução de meninas, ao qual
o Govêrno Estadual concedeu a faculdade de escola normal, fre­
quentada por cêrca de 300 alunas, grande número das quais rece­
bem ensino gratuito. Um colégio para educação de meninos que
se destinarem à matrícula em cursos superiores, regido pela Con­
gregação de Irmãos Maristas, ao qual o Govêmo Federal concedeu
ser equiparado ao Ginásio Nacional. Teve até há pouco tempo
um Instituto Zootécnico, no qual oito estudantes concluiram o
curso regulamentar, e receberam o diploma de engenheiro-agrô­
nomo.
Há presentemente cinco sedes de juiz de direito, onze tribu­
nais do júri, outras tantas câmaras municipais e mais um muni­
cípio sem fôro judiciário; mas até o ano de 1893 eram treze as
comarcas, como já ficou dito.
Por muitos anos teve Uberaba, como sede, com residência,
um batalhão da brigada militar da polícia mineira.
Em 1856 reuniu-se em Uberaba o corpo eleitoral de todo o
Triângulo Mineiro, para eleger um deputado à Assembléia Geral
e um suplente. Continuaram a ser feitas as eleições nas paróquias
para eleitores, que formavam depois colégios eleitorais nas sedes
dos municípios. Atualmente se fazem as eleições com eleitores
diretos em secções, nos distritos de paz, alistados, porém, pelos
juízes de direito das comarcas,
Em 1865, o Triângulo Mineiro prestou relevantes serviços ao
país, enviando para o teatro da guerra com o Paraguai contin­
gentes de soldados patriotas que reuniu em Uberaba, e outros
misteres.
A imprensa tem feito progressos adiantados em tôda a zona,
publicando-se jornais em Sacramento, Araxá, Patrocínio, Monte
Alegre, Prata, Frutal, Araguari, Bagagem, Uberabinha, principal­
mente em Uberaba, onde, além de muitos que cessaram a publi­
cação, se distribui atualmente, com grandes tiragens - um jor­
nal diário (Gazeta de Uberaba), dois bi-semanários (Lavoura e
Comércio, O Município), um quinzenal (O Lírio), um mensal (O
Século XX). Os congregados dominicanos publicam também, des­
de dez anos, um semanário, denominado Correio Católico, de gran-
UBERABA: HISTORIA, FATOS E HOMENS 133'

de formato e larga distribuição, sob os auspícios do Bispo Dioce­


sano, mais dedicado a assuntos da religião católica, apostólica, ro­
mana. Na Livraria Século XX executam-se trabalhos apreciáveis
e se publica anualmente o Almanaque Uberabense, e um ano com­
pleto da Revista de Uberaba.
Os valores de importação e exportação no comércio, elevam­
se anualmente a cifra muit~ avultada, salientado-se, em geral, a
lealdade dos homens de negocio.
O mercado de gado bovino e suíno entra como primeiro fator
de todo o movimento comercial, industrial e agrícola, secundan­
do o café, açúcar, aguardente, fumo, manteiga, queijo, etc., com
poucos imóveis onerados por hipotecas.
Muitos estabelecimentos com aparelhos modernos existem em
tôda a zona para o fabrico do açúcar, aguardente, manteiga; be­
neficiamento do café, arroz, fumo, etc.; muitos engenhos de ser­
rar madeiras; excelentes fazendas de criação e colheita de ce­
reais, salientando-se dêstes o milho, feijão, achando-se tais imó­
veis quase todos divididos e demarcados.
Há muitas oficinas que fabricam e exportam produtos bem
acabados, mas que seria longo enumerar nesta breve notícia. No
Caçu, distrito da cidade de Uberaba, funcionou em alguns anos,
e continua agora a trabalhar, uma boa fábrica de tecidos de algo­
dão.
A Revolução Mineira de 1842 fêz sentir seus efeitos conster­
nadores no Triângulo Mineiro, quando ainda era Farinha Podre.
Se no Município de Uberaba limitou-se o movimento a medidas
de simples prevenção, o mesmo não sucedeu no Município do Ara­
xá, onde, em razão do tempo que demorou e a dureza das conse­
qüências, ocasionou bastante sacrifícios de vidas e de interêsses.
Em 1852 houve na Bagagem um conflito grave entre pessoas
de povo, as autoridades constituídas e a fôrça pública, sendo ne­
cessário intervir a ação do Govêrno da Província para acalmar
a desordem entre os garimpeiros, o que fàcilmente conseguiu, mas
depois de terem resultado algumas mortes e a debandada dos fun­
cionários públicos.
Em 1888 formou-se uma sedição em Uberaba contra prin­
cipais funcionários públicos - o juiz de direito, juiz municipal e
curador geral dos órfãos -, a qual deu lugar a que o Govêrno
Geral e o da Província de Minas tomassem medidas repressoras
enviando primeiramente um delegado de polícia especial para t~
ma~ ?onhecimento d~s fatos e em seguida o dr. chefe de polícia,
auxiliado de um contingente de praças do Exército para a manu­
tenção da ordem. Felizmente o Triângulo Mineiro não teve então
desgraças a lamentar, limitando-se as providências à pronúncia e
livramento pelo dr. chefe de polícia, e julgamento pelo júri do
Sacramento, de quatro cabeças do atentado sedicioso.
A não serem estas três mais notáveis perturbações da ordem
134 BORGES SAMPAIO

pública, alguns outros fatos ocorridos no Triângulo não merecem


o característico de atentatórios às instituições, e não seria justo
classificá-los como tais : é tradicionalmente conhecida a índole
natural, laboriosa e hospitaleira, mais que ordeira do povo do Tri­
ângulo Mineiro, oriundo de geralistas. :tle recebeu sem objeção
alguma o grande ato da emancipação servil de 13 de Maio, como
tinha recebido os de 28 de setembro sôbre os nascituros e os sexa­
genários, e aceitou inalterável a mudança das instituições a 15 de
novembro de 1889 e o casamento civil.
Uberaba acaba de ser dotada com importante melhoramento
- a iluminação pública e particular, por meio da eletricidade, da
qual tem sua usina geradora na Cachoeira do Monj olo do Rio Ube­
raba, distante da cidade 30 quilômetros. Foi inaugurada a ilumi­
nação no dia 30 de dezembro de 1905, com grande concurso de
admiradores, na estação das máquinas de distribuição situada atrás
da Matriz. (Veja Nota K).
Antes de encerrar êste breve esbôço deixarei consignado, como
fato importante, que o Triângulo Mineiro já teve a dita de ter
atracados no Rio Grande alguns vasos fluviais movidos a vapor,
executando o tráfego por meio de lanchas rebocadas, serviço êsse
estabelecido pela operosa Companhia Mojiana de Estradas de Fer­
ro a Navegação, que o suspendeu, mas do qual ainda não desistiu.
Sôbre êste assunto transcrevo os apontamentos que se serviu
fornecer-me o Dr. Cândido Gomide, ilustrado engenheiro que nes­
sa época dirigia os trabalhos da companhia na Ponte do Jaguara
e atualmente é o chefe do seu escritório central. Diz êle :
"O primeiro vapor que navegou o Rio Grande foi o "Jagua­
ra", de rodas laterais, de fôrça de 12 cavalos, importado pela Com­
panhia Mojiana, para explorar o rio.
A exploração foi feita e levantada a planta desde o Jaguara
até a barra do Sapucaí-Mirim, na extensão de 167 quilômetros.
O serviço de tráfego da navegação não se estendeu além da
Ponte Alta.
Havia uma estação intermediária em Bôca Grande.
A linha telegráfica funcionou até Ponte Alta.
O serviço de tráfego foi mantido de 1888 a 1889.
Além do "Jaguara", a Companhia Mojiana manteve dois ou­
tros vapores : o "Sapucaí-Mirim" a hélice, de fôrça de 50 cavalos,
e o "Santa Rita" de roda à pôpa, de fôrça de 80 cavalos."
É animadora esta tentativa prática de navegação a vapor no
Rio Grande; é o prenúncio de muito progresso que proporciona a
poderosa Companhia Mojiana ao Triângulo Mineiro, como já lho
proporciona com a estrada de ferro; fato aliás previsto em 1827
pelo inteligente observador, Padre Leandro Rabelo Peixoto de Vas­
concelos, no Sertao da Farinha Podre.

***
UBERABA: HISTóRIA, FATOS E HOMENS 135

O povo do Triângulo Mineiro é católico, apostólico, romano na


sua gener8:1idade, dotad"o de leal patriotismo, laborioso, hospitalei­
ro e beneficente; em toda a zona se lhe pode antever brilhante
futuro.

Deus o proteja !

Uberaba, 2 de janeiro de 1906.

NOTAS INDICADAS NO TEXTO

Nota A

Que a primeira "bandeira" atravessadora do triângulo for­


mado pelos Rios Grande e Paranaíba, com destino a Goiás, era
paulista, tendo isso lugar em 1722, parece-me fato averiguado.
"P. X.", pseudônimo ilustrado e um dos escavadores mais de­
dicados atualmente a conhecer as eras remotas goianas, escreveu
na Revista de Uberaba, ano primeiro, página 206, que em 1722,
Bartolomeu Bueno da Silva, depois de três anos de vida errante
no sertão, vira vestígios de antigos roçados e uma camba de freio
enferrujada, encontrada sôbre uma pedreira; indícios de que não
se estava longe de "goiá". Era uma caravana numerosa essa de
Bartolomeu Bueno, e os vestígios atestavam ter conseguido en­
contrar as paragens que em companhia de seu pai, o Anhangue­
ra, visitara quarenta anos antes com Antônio Pires de Campos
(o velho) em procura de ouro.
Logo deve supor-se evidente que o Sertão da Farinha Podre
tinha sido atravessado por êsses audazes aventureiros em 1628;
porque outro caminho não houve, por muitos anos, de São Paulo
para Goiás, senão o que atravessava o Rio Grande no Pôrto da Espi­
nha, o Rio das Velhas no Pôrto do Registro da aldeia de Sant'Ana,
o Paranaíba no Pôrto Velho, para unir-se em Catalão ao que pro­
cedia do Chapadão do Zagaia e Araxá.
O Sr. Calógeras no seu precioso livro As Minas do Brasil disse
que a Carta Régia de 14 de fevereiro de 1821 provera a Bueno (o
segundo Anhanguera) e a João Leite, sesmarias de seis léguas em
quadro em cada um dos rios, cuja passagem dependesse de canoas,
pertencendo-lhes as passagens por três vidas. Os rios da conces­
são eram - o Atibaia, o Jaguari, o Rio Pardo, "o Rio Grande, o
Rio das Velhas, o Rio Paranaíba", o Rio Guacurumbá, o Rio Meia
Ponte, e o Rio Parmados.
Um Anuário de São Paulo deu também esta notícia, com re­
lação à Uberaba : - "A freguesia da cidade começou a ser po­
voada em 1804, mas antes (1722), um bandeirante paulista de
136 BORGES SAMPAIO

nome João Leite da Silva Brites, "tinha atravessado êste territó­


rio" e aberta uma estrada ou picada, conhecida por muitos anos
com o nome de Ooíás.
Depois (não se pode determinar a época), um desertor dos
regimentos de São Paulo, estabeleceu-se ali, no lugar que poste­
riormente, por corrupção do seu nome, se denominou Pôrto da
Espinha. Daí o comêço da povoação, que tomou maior incre­
mento com a vinda do Capitão Eustáquio e muitos outros seus
companheiros, que se apossaram de terras no sertão, então deno­
minado Farinha Podre."
Há pouca segurança no enunciado transcrito, em quanto à
versão do soldado desertor ter dado comêço a algum povoado no
Pôrto da Espinha, que aliás nunca ali houve, e é distante cinco
léguas de Uberaba, que se deu "continuado" por Eustáquio.
Nota B

Um manuscrito antigo que possuo, pôsto que sem data e as­


sinatura, mas que me foi fornecido há quarenta e quatro anos
pelo falecido Cônego Hermógenes Cassimiro de Araújo Bruonswik,
vigário da antiga vila do Desemboque (falecido em 1861), muito
conhecedor desta zona e fêz parte da terceira caravana "bandei­
rante", como disse no texto, diz o seguinte com relação a terras de
índios no Sertão da Farinha Podre :
"As terras sitas ao longo da antiga estrada de Goiás, que de
tempo imemorial foram reconhecidas da propriedade de algumas
hord'índios que debaixo da administração do falecido Coronel
An tônio Pires se mandaram pelo Govêrno de Goiás estabelecer
ali no século 18 em socorro dos comboios de negociantes que na
mesma estrada eram invadidos pelo sáfaro caiapó se contêm des­
de o Rio Grande até o Rio Paranaíba estendendo-se para cada
lado da mesma estrada légua e meia. Nas mesmas terras se acham
erigidas a antiga Paróquia da Missão de Sant'Ana dos mesmos
índios longe do Rio das Velhas uma légua e entre êste e o Rio
Paranaíba : e a de Sto. Antônio e S. Sebastião do Uberaba criada
em 1820 entre o Rio das Velhas e o Rio Grande.
Como essas hordas de índios se fôssem diminuindo em número,
e o S. M. Antônio Eustâquio da S. e Oliveira fôsse encarregado por
P. do Exmo. Marquês de Palma então Governador da Província de
Goiás de explorar e acomodar os novos colonos que para os sertões
do Tijuco Rio da Prata e suas anexas mudassem os seus estabeleci­
mentos propôs o dito S. M. ao Govêrno de Minas que a cuja Pro­
víncia ficaram pertencendo por alvará de 4 de abril de 1816 que
depois foi declarada pela Reg. P. do Erário de 8 de fevereiro de 1817
os dois julgados de N. S. do Destêrro do Desemboque e de S. Do­
mingos do Araxá cujos territórios são atravessados pela dita es­
trada e terrenos, pertencendo ao Desemboque tôda a sua distância
desde o Rio Grande até o Rio das Velhas, e ao Araxá desde o Rio
UBERABA: HISTóRIA, FATOS E HOMENS 137

das Velhas até o do Paranaíba, propôs, digo que algumas dessa


horda de índios que ainda existiam entre o Rio das Velhas e O
Rio Grande território do Julgado do Desemboque fôssem mudadas
para o território do Araxá que fica entre Rio das Velhas e O Rio
Paranaíba: anexo a esta representação o Govêrno de Minas sen­
do então o Governador da Província D. Manuel de Portugal ~ Cas­
tro e por seu despacho mandou que a Reg. dos mesmos índios fi­
zesse mudar essas hordas de índios para o indicado território que
de fato se mudaram (pode-se ver o r. da dita ordem nos livros
da regência e administração dos d9s índios na aldeia de Sant'Ana):
Exaqui como ficando recolhido ao Patrimônio Nacional aquêle
território evacuado das ditas hordas de índios também ficou sen­
do de livre concessão e aquisição e por isso muitos proprietários
nêle existentes lançaram posses e levantaram nêle seus estabe­
lecimentos que estão possuído."
Não tem data nem assinatura o aludido manuscrito, mas uma
carta original datada de Goiás em 4 de janeiro de 1830, pelo Se­
cretário da Prelazia, Padre Luís Antônio da Silva e Sousa, que
tive ocasião de ler, dava notícia de terem seguido dali para a
Côrte em dezembro de 1829, uns papéis, referentes a uma questão
suscitada pela Câmara Constitucional da vila Paracatu, a qual
pretendia um Rocio à margem da estrada a que se refere o ma­
nuscrito, que, aliás, parece ter os característicos de uma infor­
mação ou artigo destinado à imprensa, de que a autoria se atribui
ao referido padre.
Nota C

Na primeira representação dada por amadores no Teatro São


Luís, de Uberaba, em 1863, a pintura do pano da frente do ce­
nário (pano da bôca), representava a margem de uma corrente
d'água e alguns viandantes sob grande árvore, da qual uns des­
ciam com farnéis que outros abriam. Um dêstes tomava um pu­
nhado de farinha de um dos farnéis e a levava à bôca, a rejeitava
fazendo "carantonhas", por achá-la apodrecida. Era uma alego­
ria à origem do nome do ribeirão - "Farinha Podre" - que ainda
conserva e é atravessado em pontilhão, pela Estrada de Ferro Mo­
jiana, entre a estação da Conquista e a Engenheiro Lisboa, no qui­
lômetro 561, um pouco aquém dêste.
Dirigia então essas diversões teatrais o Coronel Carlos José
da Silva que, se não tinha sido dos primeiros habitantes de Ube­
raba, fôra um dos imediatos. Tive ocasião de ouvir-lhe dizer que
o nome de Farinha Podre fôra dado a êste vasto território pelos
primeiros "bandeirantes" que, tendo partido do antigo Desem­
boque, tinham penetrado nestes então desertos, até encontrarem
a estrada de Bartolomeu Bueno da Silva, denominada - de Goiás
-, vinda do Pôrto da Espinha no Rio Grande. Haviam êles dei­
xado algumas provisões de bôca sôbre uma árvore no referido
138 BORGES SAMPAIO

ribeirão, até então de denominação ignorada, para o regresso;


entre as quais estava a farinha apodrecida. Daí se originara o
nome de - Farinha Podre - dado ao ribeirão e a denominação
de todo o território, até a junção dos Rios Grande e Paranaíba.
O Coronel Carlos era dotado de inteligência, ocupava posição
distinta e cargos importantes em Uberaba; o pintor do pano fôra
Luís Beltrão de Sousa, homem de alguma instrução, devia ter
auxiliado o pensamento alegórico. O velho Capitão Manuel Ro­
drigues da Cunha Matos, o Vigário Antônio José da Silva, o Aju­
dante Pedro Gonçalves da Silva, o Cônego Hermógenes Bruonswik
e outros homens antigos que conheci e ouvi a respeito, não destoa­
vam desta versão, que por minha vez aceito, como melhor, mes­
mo porque outra não encontrei.
Nota D

O Padre Hermógenes Cassimiro de Araújo Bruonswik, um dos


terceiros entrantes nas brenhas do Sertão da Farinha Podre, go­
zou nesta zona de muito elevada posição. Paroquiou a Freguesia
de Nossa Senhora do Destêrro do Desemboque pelo largo tempo
de quarenta anos, foi o único vigário ali colado. Era visitador vi­
gário geral, provisor e juiz dos resíduos, conforme a legislação da­
quele tempo que vigorava na Comarca Eclesiástica do Nôvo Sul,
Bispado de Goiás. Foi eleito deputado às Côrtes de Lisboa, não
chegando a ocupar a cadeira por ter-se declarado a Independên­
cia do Brasil. Por diversas legislaturas foi deputado provincial, e
em 1856 foi eleito deputado geral. Era condecorado com as Or­
dens da Rosa e de Cristo e Cônego da Capela Imperial, quando
faleceu em 26 de setembro de 1861.
Nota E

A escritura da doação das fazendas de Campo Belo na Fari­


nha Podre a Nossa Senhora Mãe dos Homens foi lavrada no arraial
de Uberaba em 29 de outubro de 1830, pelo tabelião do Julgado
.. do Desemboque Mariano José do Pilar, assinando-a o doador João
Batista de Siqueira e o Padre Zeferino Batista Carmo a rôgo da
doadora D. Bárbara Bueno da Silva, sendo testemunhas Antônio
Eustáquio da Silva e Oliveira e Antônio Francisco Lopes. No pro­
cesso da insinuação, julgado no Desemboque em 28 de novembro
de 1830, foi o Juiz Antônio Joaquim de Castro, assessorado por
Camilo de Almeida Leite, servindo de procurador da coroa Joa­
quim Fernandes Maciel e escrivão Mariano José do Pilar.

Nota F

Registrarei nesta nota o seguinte fato anedótico ocorrido en­


tre o Padre Leandro e o Capitão Manuel Rodrigues da Cunha Ma-
UBERABA: HISTóRIA, FATOS E HOMENS 139

tos,. homem de cr!tica fin~ e traql:ejo social, quando nas gerais


muito se falava sobre as inforrnaçôes que o dito padre comuni­
cava sôbre a Farinha Podre : ouvi-o do próprio Cunha muitas vêzes,
Encontraram-se os dois; Cunha disse ao padre :
- Senhor padre, Vossa Reverendíssíma "sapecou" na sua
"Narração", querendo "impingir-nos" ter visto um homem subir à
altura de quatorze palmos em um pé de algodoeiro. Pois é lá
possível isso ?
"Sapecar" equivalia dizer-se que o padre tinha faltado à ver­
dade.
- Respondera-lhe o Padre Leandro :
Não sapequei, filho. Eu era um sacerdote; não me ficava bem
escrever que fôra eu a pessoa que subira; mas fui eu mesmo. Pode
acreditar no que escrevi e vá sem receio para a Farinha Podre,
que não se há de arrepender. Aquilo é um Paraíso.
Fui amigo de intimidade por muitos anos do Capitão Manuel
Rodrigues da Cunha e sempre lhe ouvi dizer, terem sido as in­
formações do Padre Leandro, que tinham dado consigo neste ser­
tão, do que aliás não se arrependêra.

NotaG

O Padre Leandro não foi o único que se equivocou, denomi­


nando de Parnaíba ao belo rio que, na Farinha Podre ou Triân­
gulo Mineiro, separa os Estados de Minas Gerais e Goiás, e que
se chama Paranaíba; assim o ponderei no abreviado exame, que
a respeito do nome dêste rio, mandei ao Instituto Histórico do Rio
de Janeiro em 1888, publicado por êste em sua Revista. Transcre­
verei essa breve comunicação nesta nota.
"Rio - "Paranaíba" - ou - "Parnaíba"?
Quando em 1855 a Assembléia Provincial Mineira preparava
para ser sancionada a Lei N9 719 de 16 de maio daquele ano, oca­
sionalmente me achei no Desemboque e vi que o Cônego Hermó­
genes Cassimiro de Araújo Bruonswik, vigário colado da fregue­
sia dêste nome, lamentava e mesmo fazia censura aos deputados
mineiros de então, pela pouca atenção que prestavam à geografia
territorial da província, por denominarem - Comarca do Par­
naíba - a que era constituída com os Municípios de Araxá, e Pa­
trocínio. (Pode ver-se a citada Lei Mine_ira N9 716, de 16 de maio
de 1855, artigo 1 Q § 89).
O Cônego Hermógenes era vigário naquela povoação do De­
semboque desde que foi elevada a freguesia em 1818; era advogado
de nomeada; fôra deputado provincial em diversos biênios; depu­
tado geral em 1856; tinha sido eleito deputado às Côrtes de Lis­
boa ao tempo da Constituinte; por conseguinte, sua elevada po­
sição social e residência nas proximidades do Araxá; ter sido um
dos primeiros entrantes no Sertão da Farinha Podre; o conheci­
mento de que dispunha com relação às coisas desta zona e a sua
l40 BORGES SAMPAIO

vasta instrução, devia tudo concorrer para bem poder julgar o


êrro que cometiam os deputados mineiros, autores da sobredita lei;
bem como o do próprio Presidente da Província, sancionando-a com
aquela denominação, quando devia denominar-se-á - do "Pa­
ranaíba" -; visto como a circunscrição judiciária tomava aquêle
nome, somente porque o território estendia-se das margens do -
"Paranaíba" - (isto é, do rio que, servindo de divisão à Província
de Minas e à de Goiás desde o Jacaré, faria junção com o Rio Gran­
de, pouco abaixo de Sant'Ana do Paranaíba, Província de Mato
Grosso), até a Serra da Canastra vertentes do Rio Grande.
O Cônego Hermógenes dizia que a comarca devia denominar­
se do - "Paranaíba" - e não "Parnaíba", como ficara escrito na
lei porque podia dar lugar a interpretações erradas, pela denomi­
nação não ficar de harmonia com a origem : e mesmo ocasionar
prejuízos. Opinião que sustentou até seu falecimento em 1861.
Não obstante as razões que deixo expendidas e eu consideras­
se mais acertado o que dizia o Cônego Hermógenes, de acôrdo com
a opinião de Mendes de Almeida no seu Atlas do Império do Brasil
- 1868, e o que disse Gerber, Noções Sôbre a Província de Minas
Gerais a páginas 27, 28, 63 e 71 todavia consultei a respeito o Cô­
nego Francisco de Sales Sousa Fleuri, homem ilustrado, Vigário
da Freguesia de Sant'Ana do Faranaíba e habitante daquelas pa­
ragens desde 1838. Eis o que informou-me em carta de 15 de
novembro de 1883 :
"Acuso o recebimento da sua prezadíssima carta de 29 de
outubro passado, com o quesito seguinte : Se o rio, a cuja mar­
gem se acha situada esta freguesia, que habito desde 1838, se cha­
ma - "PARANAfBA - ou - "PARNAfBA - ? Ao que respondo,
que se chama - "PARANAfBA -; cuja derivação vem de - PA­
RÁ-, rio, na língua dos aborígenes, - NA - "Grande", - IBA
-, claro; isto é, rio grande de água clara, distinto do Rio Grande
- PARANÁ -, seu confluente, cujas águas são turvas e não cla-
ras. Quanto ao - PARNAfBA -, é êste um rio afluente do Tietê,
nas imediações de Pirapora, na Província de São Paulo. Ciente de
que o vocábulo - IBA - significa "claro", ignoro todavia a eti­
mologia de - PARNA -."
Comunicando isto ao Instituto Histórico, do que talvez não
precisasse, outro fim não tenho senão o dar-lhe conhecimento da
opinião de dois homens ilustrados e vizinhos da comarca em ques­
tão, sôbre a verdadeira denominação do Rio Paranaíba, ao qual
um ato legislativo denominou de Parnaíba. Uberaba, Minas, 1 Q
de agôsto de 1888. - Antônio Borges Sampaio, Sócio Correspon­
dente."

Nota H

O Dr. Chernovir mencionou as águas minerais do Araxá em


seu Formulário e Guia Médico, 16S:l edição, dizendo à página 1203,
UBERABA: HISTORIA,. FATOS E HOMENS 141

serem frias, de gôsto salobro, salinas e purgativas, empregadas na


anemia, Ieucorréia, convalescença das molestestias e em tôdas as
caracterizadas por languidez. O Dr. Caminhoá as considerou de
prodigioso efeito na tuberculose, mencionando nomes de enfermos
curados.
As águas minerais do Araxá brotam em oito manancias e são
de qualidade especial, muito úteis, só esperando do tempo a reu­
nião de capitais e vias de fácil comunicação para tornarem-se O
empório de uma emprêsa industrial, a fim de serem conveniente­
mente aproveitadas. Conheço-as há 58 anos.
Há ali fontes frias, tépidas e quentes, variando a termalidade
entre 17Q e 31 <.> centígrados, afirmado pelo Dr. Melo Brandão; fato
que também o Dr. Caminhoâ teve ocasião de verificar e registrar
no opúsculo que publicou em 1890, sôbre o estudo dessas águas.
Da análise feita no Laboratório de Higiene da Faculdade de
Medicina do Rio de Janeiro pelo Dr. Borges da Costa reconheceu­
se conterem
gramas
Acido carbôníco . 1,9272
Acido sulfúrico . 0,2848
Acido fosfórico . 0,0035
AClid O ílí .
SI ICICO • • • • • . • • . . • • · • · · • • • • • • • • • • • • • • • • 0,0760
Cloro · · .· · · · ··· ···· · · 0,0030
Enxôfre · · ·· · · · ··· ···· · · 0,0082
Potassa ······ · ·· · · · ··· ···· · · 0,1757
Soda ··· · ·· · · · ··· ···· · · 2,0742
Magnésia · ·· . · · ··· ···· · · 0,0032
óxido férrico · · .. ··· . 0,0010
M atéena
. organ1ca
" . . 0,2410

Azotados e alumina, vestígios.

Totalidade • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • 4,8207

e pela análise interpretativa verificou-se conterem:


gramas

Bicarbonato e potássio . 0,3397


Bicarbonato de sódio . 1,4799
Bicarbonato de cálcio . 0,0106
Bicarbonato de magnésio . 0,0103
Bicarbonato de ferro . 0,0020
Carbonato neutro de sódio . 2,1209
Sulfato de sódio ················ 0,5056
Fosfato de sódio ················ 0,0065
Clorureto de sódio . . . . . . . . . . . . . . . · · · · · · · · · · · · 0,0050
142 BORGES SAMPAIO

Sulfureto de sódio • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • 0,0199


Sílica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 0,0760
M a téerra
. organ1ca
,. . . 0,2400

Azotados e alumina, vestígios.

Totalidade • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • 4,8164

São límpidas e mesmo potáveis quando frias, segundo o Dr.


Melo Brandão observou no lugar; e, pôsto que a princípio não se­
ja o seu sabor agradável, contudo, depois de algum tempo usadas,
são fàcilmente suportáveis; se forem misturadas com leite, são
até agradáveis ao paladar.
A densidade é de 1 0004 no 27Q de temperatura centígrada, e
o resíduo sêco apenas de 4 gramas, 065 por litro.
O Dr. Melo Brandão afirma categóricamente que as águas
minerais do Araxá no Triângulo Mineiro são, das nossas fontes
conhecidas, as mais ricamente mineralizadas; "serem as mais
ricamente mineralizadas entre tôdas as que tinha analisado no
Brasil", asseverou também o Dr. Borges da Costa após o exame.
A análise que fêz das águas do Araxá a Casa da Moeda, deu
a totalidade de 4 gramas, 6020; a que fêz o Dr. Sousa Fernandes,
deu 4,6968; vê-se o quanto é limitadíssima a diferença, asseguran­
do-lhe a realidade: limitadíssimas são também as diferenças nas
partes componentes.
Grande, e· talvez que em não remoto futuro, se pode augurar
às águas minerais de S. Domingos do Araxá. Colocadas cêrca de
1000 metros acima do nível do mar, com fartos rios e ribeiros,
formando centro entre o norte e o oeste de S. Paulo e o leste de
Goiás; perto da célebre Mata da Corda; de excelente clima e ter­
renos apropriados à agricultura, - será próspera a emprêsa que,
dispondo de capitais, funde ali estabelecimento explorador con­
digno, que as faça conhecidas.

Nota I

No dia 27 de janeiro de 1889 chegou a Uberaba o contingente


do batalhão de engenheiros, sob o comando do Coronel Cunha
Matos, e iniciou os trabalhos da linha telegráfica para Mato Gros­
so. Era composto de 118 praças e 16 oficiais.

Nota J

A 16 de janeiro de 1889 assentou-se a primeira pedra da monu­


mental Igreja de São Domingos, solenemente inaugurada a 2 de
outubro de 1904, com a presença de quatro bispos, pregando ao
evangelho na missa, o ilustrado sacerdote Padre João Gualberto.
UBERABA: HISTóRIA, FATOS E HOMENS 143

Nota K

A cerimônia da bênção das máquinas e edifício da estação


distribuidora foi feita pelo Reverendíssimo Prelado Diocesano D.
Eduardo Duarte Silva, assistido de oito sacerdotes. Abrilhanta­
ram-na as três bandas de música - "União Uberabense" e "San­
ta Cecília", de Uberaba; a "Filarmônica Tristão", da Franca. Es­
tiveram presentes a ela a Câmara Municipal de Uberaba, funcio­
nários públicos, representantes da imprensa, dos municípios vizi­
nhos, municipalidade da Franca e P.OVO imenso.
A emprêsa, que se denomina - Fôrça e Luz - foi consti­
tuída pelos três capitalistas Dr. José de Oliveira Ferreira, Major
Manuel Alves Caldeira, Guinle & Comp., com o capital de .
350:000$000 réis e o privilégio de vinte e cinco anos, concedido pela
Câmara Municipal.
Encarregou-se da instalação a casa Guinle & Comp., do Rio
de Janeiro, sendo os trabalhos dirigidos pelo engenheiro A. M. da
Silva Ferreira, auxiliado pelo engenheiro Dr. Silvério José Bernar­
des.
As chaves da distribuição inauguradora foram fechadas, -
a primeira pelo Coronel João Quintino Teixeira, representando o
Presidente do Estado; a segunda pelo Coronel Manuel Terra, re­
presentando o Município de Uberaba; a terceira pelo Dr. Tomás
Pimentel de Ulhoa, representando o povo de Uberaba; a quarta
pelo Dr. Egídio de Assis Andrade, representando o Poder Judiciá­
rio, na ausência do Dr. Juiz de Direito, Epaminondas Bandeira de
Melo, por estar em serviço do Júri na cidade do Sacramento; a
quinta pelo Tenente-Coronel Antônio Borges Sampaio, represen­
tando a história e tradições de Uberaba; a sexta por Gomes de
Castro, representando a casa Guinle & Comp.
(in Revista do Arquivo Público Mineiro,
ano XIV, 1909, págs. 261/287)
O HOSPITAL DE MISERICÓRDIA DE UBERABA E O SEU
FUNDADOR FR.EI EUGtNIO MARIA DE GÊNOVA *

Ao Leitor

Escrevendo algumas notas sôbre o Hospital de Misericórdia de


Uberaba e Frei Eugênio, tenho por fim, único, concorrer para que,
futuramente, haja recordação do dia em que êsse estabelecimento
de caridade foi inaugurado e do seu fundador, persuadido de que
esta cidade continuará a crescer de importância; a das palavras
que as precedem serviu-me apenas de ensejo para indicar as mes­
mas notas. Tomei voluntàriamente a tarefa, temerária para as
minhas fôrças, na persuasão de que o historiador. disposto a fazer
escavações sôbre isso encontrará alguma coisa de interêsse nos
apontamentos que reuni e agora redijo; não me constando que
outrem se ocupasse em fazer aquisição de semelhantes; nem mes­
mo que se guardasse tradições seguras, relativamente a Frei Eu·
gênio e à Santa Casa, que não sejam as do livro de suas atas; -
dois assuntos intimamente ligados, que motivaram a inauguração.
Ao mesmo tempo tenho oportunidade para manifestar-me gra­
to à memória do distinto sacerdote, que admirei com acatamento.
Setuagenário, enf êrmo e cansado, pela vida laboriosa e cheia de
obstáculos, que tenho atravessado neste lugar central por mais
de meio século; carecido de todos os elementos a bem da instru­
ção intelectual, - ressente-se o meu tôsco escrito da falta de eru­
dição e coordenação. O leitor, porém, que fôr benigno comigo e
puser de lado os defeitos, será compensado com o ter a verdade
nos fatos narrados e a fidelidade nas transcrições.

Uberaba, 24 de junho de 1898.

Antônio Borges Sampaio.

* Discurso proferido na inauguração, em 14 de junho de 1898, pelo


ex-secretário da mesa administrativa António Borges Sampaio. - Com
Várias notas relativas. <Nota da redação da Revista do Arquivo Público
Mineiro).
146 BORGES SAMPAIO

Em boa hora, e isto se passava em 1856, ofereceu-se à Câ­


mara Municipal o distinto cidadão, Major Joaquim Teixeira Al­
ves, para ir a outro município convidar e acompanhar o reverendo
missionário capuchinho, Frei Eugênio Maria de Gênova, da Or­
dem de S. Francisco de Assis, transportando-o à cidade de Ube­
raba, a fim de fazer prédicas, e, pelo seu prestígio, já ao longe co­
nhecido, construir um cemitério. (A)
Êsse notável franciscano chegou aqui no mesmo ano; abriu
logo a missão e a manteve quarenta dias; construiu um cemitério
em cêrca de um ano, auxiliando-se para isto de fiéis de tôdas as
classes e sexos com idade válida; porque todos, sem exceção, acu­
diram ao trabalho, sob a voz paternal dêsse virtuoso sacerdote.
Fêz depois acréscimos à Matriz, lhe forneceu imagens, alfaias e
ornamentos como até então não tinha possuído. Abriu ruas, cons­
truiu pontes. (B)
O cemitério, obra grande e sólida, aí está ainda, atestando que
igual não há, em extensão e construção bem acabada, no Estado
de Minas; talvez que em nenhum outro Estado do Brasil, ao me­
nos em povoados de fora das capitais, e com a área que o nosso
tem. E essa obra se deve ao operoso Padre-Mestre, Frei Eugênio.
(C)
Mas o seu 'gênio empreendedor não se limitou à caridade pa­
ra com os mortos : olhou de relance para esta povoação, que seu
espírito prático sentia progredir e progrediria sempre pela posição
e elementos naturais : que com êsse progresso iria em aumento a
sua população. Alargou seu pensamento filantrópico por sôbre os
arredores, e anteviu a pobreza enfêrma, de lá, como a de cá, a
precisar de abrigo : conhecia que no meio da opulência, existe a
mendicidade e a miséria.
Ei-lo a empreender outra obra mais grandiosa, mais monu­
mental, do que o cemitério, do que a Matriz - ainda mais útil -
lançando os alicerces fundamentais dêste Hospital de Misericór­
dia. Isto sucedeu em 1858. (D)
Em alguns anos de trabalhos ingentes; lutando com várias
contrariedades (E) sua própria enfermidade e a idade avançada;
vivendo como pobre, não vexando o povo na concorrência dos au­
xílios - fêz surgir e elevar-se esta Casa da Santa Caridade; obra
grandiosa, vasta, sólida, e atendida em seus detalhes. (F)
Ao terminar-se êste labor, e quando êle sentia aproximar-se
o dia de abrirem-se as portas dês te Tabernáculo consolador, onde
a miséria enfêrma brevemente viria achar o lenitivo às dores, e a
indigência agasalho, não só a desta povoação como a dos povos
vizinhos, mesmo a de longes terras, porque a Caridade acolhe a
todos sob o seu manto beneficente - eis que a morte, injusta e
cruel, veio arrebatar e levar à eternidade - o justo, o amigo de­
dicado e sincero de Uberaba; o imoto pai da pobreza, o grande
benfeitor da humanidade, o frade a quem, debaixo do grosseiro
UBERABA: HISTóRIA, FATOS E HOMENS 147

burel que trajava, batia um coração terno, cheio de amor santo,


de muita bondade e caritativo.
Sim. Caritativo para com os vivos, como o fôra para com os
mortos.
Expirou às onze horas da noite de 14 de junho de 1871, com
59 anos de idade. Vinte e sete anos por conseguinte se comple­
tam hoje, que teve lugar o seu passamento. Lamentável foi êsse
sucesso, que privou Uberaba de tão notável benfeitor e incansável
trabalhador; a Religião do Calvário de um apóstolo exemplar; en­
chendo de pesar os que pessoalmente conheciam suas virtudes;
êsse primoroso Evangelista de Cristo, o devoto missionário, que se
chamava Frei Eugênio Maria de Gênova, e o povo geralmente co­
nhecia por Padre-Mestre - a quem a Providência parecia ter apa­
relhado de singular entendimento, sem receio de ser assombrado
pelo majestoso do objeto - o fim a que destinava êste vasto e
sólido edifício, e o meio de consegui-lo. A perda foi incalculável.
Era o tipo da honestidade, da probidade e da castidade. Seus res­
tos mortais repousam sob uma lápida (G) na Capela de S. Miguel,
que fêz construir dentro do grande cemitério, para onde foram
levados pela população consternada, desta cidade e a da vizinhan­
ça, que conseguiu chegar a tempo para acompanhar o féretro; sen­
do o préstito imenso, como ainda aqui não se vira. Tempo há de
vir, eu o creio, que tão preciosas relíquias serão transportadas para
êste santuário da caridade que êle edificou por amor ao próximo;
honrando assim a memória daquele que desinteressadamente se
esforçou em vida, e em vida de sofrimentos (H), para o construir;
por causa do qual enfermou e sucumbiu, sem o ver funcionar com
regulamento.
Dado o doloroso acontecimento, era forçoso que houvesse uma
providência, que amparasse os esforços de Frei Eugênio, acaute­
lando os interêsses do hospital, que êle, com labor assombroso,
conseguira edificar.
Ne~se intuito, em um dos dias imediatos ao do sentidíssimo
passamento do admirável sacerdote, reuniu-se a patriótica Câ­
mara Municipal, e, em virtude de uma lei nrovincial mineira, que
ainda vigora, convidou subscritores em número legal. Por êstes
foi eleita uma mesa administrativa e lhe deu posse. Ficou assim
constituída, desde logo - a pessoa jurídica -, que devia repre­
sentar os interêsses da Santa Casa de Misericórdia de Uberaba
perante os poderes públicos e em tôdas as mais relações sociais.
(I) Aconteceu que, por parte da Fazenda Pública Geral contes­
tou-se à mesa o direito de arrecadar e possuir os valores que Frei
Eugênio tinha obtido do povo, para o hospital, inclusive êste pró­
prio prédio; pretendeu-se ao mesmo tempo tirar-lhe a autonomia ju­
rídica e desviá-lo do fim para o qual o benemérito fundador o des­
tinara. Alegava o representante do fisco o princípio que - en­
tão - regia as corporações de mão morta no Brasil; mas um
acórdão tornado em sessão da Junta do Tribunal do Tesouro Pú-
148 BORGES SAMPAIO

blico Nacional, presidida pelo ilustrado Ministro e Secretário dos


Negócios da Fazenda de então, decidiu a questão em favor do nos­
so hospital, mantendo à mesa administrativa a posse dos imóveis,
móveis, direitos e ações que estavam em poder do caritativo fra­
de, Frei Eugênio. (J)
Isto se passou um ano depois do falecimento de Frei Eugênio,
isto é, depois que a mesa se tinha constituído, fazia um ano. A
mesa eleita em 1871 era formada, como a atual, de um provedor,
um secretário, um tesoureiro e dois procuradores. (K) Perdurou
até 1896, tendo sido o seu principal desvêlo o manter ao hospital
a sua autonomia, como pessoa jurídica em tôdas as relações so­
ciais; e a manteve com efeito, até que, sendo eleita a atual, rece­
beu inteiramente intactos, êsses direitos autonômicos, que con­
tinua a conservar. (L) Não tinha a mesa antiga conseguido regu­
lamentar e inaugurar os serviços hospitaleiros: para isso tinham
concorrido diversos fatôres, um dos quais era a carência de ren­
das, bem como o não ter encontrado pessoal, para executar os
misteres da administração interna. (M) Dificuldades estas, com
as quais também teve de arcar a mesa atual, por isso que, apesar
dos esforços que empregou, dos quais posso dar testemunho, so­
mente hoje conseguiu a inauguração felizmente com pessoal abo­
nado para a gerência, em seu caráter probo e conhecimentos prá­
ticos. A Divina Providência proteja os novos mesários e os que
lhes tiverem de suceder. Por ela sejam acompanhados nos atos
exerciciários da Caridade a que Frei Eugênio destinou o Hospital
de Misericórdia de Uberaba. Pois se acha esta mesa constituída
por cidadãos probos, caracteres de critério, inteligentes, muito dis­
tintos e prestigiosos: tendo ela conseguido inaugurar o funciona­
mento dos serviços, que lhe são inerentes, conseguirá também
continuá-los, para honra de Deus, glória do fundador, louvor dela
como administradora, e benefício do próximo.
Assim o desejo.

Rendo graças ao Todo Poderoso, por ter-me prolongado a exis­


tência, assaz penosa, cansada, inválida mesmo pelo declínio adi­
antado dela, para ter o consôlo de assistir hoje convosco a êste
a~o sol.ene, de ~lev~da utilidade; o primeiro na terra que habito
ha mais de meio século, e o único para mim durante ela; preva­
lecendo-me desta ocasião para pedir ao Grande Deus, se digne
co~ceder às ~l.mas C8;_ritativas, do nosso povo em geral, vontade e
meio de auxiliarem este pio estabelecimento enviando-lhe dona­
~ivos de qua191::r sorte,. em vida, e legando-lh,os causa mortis; por
isso que a religião a mais sublime para todos os corações humanos,
em todos os tempos, entre todos os povos foi, e será a da - Cari­
dade.
UBERABA: HISTóRIA, FATOS E HOMENS 149

Senhores. Asseverou-se-me algures, que em nenhuma época


remontando-se mesmo aos tempos da antigüidade, ou lançando­
se as vistas ao estado atual do mundo, as sociedades não têm sido
isentas das tristes condições da desigualdade, da fraqueza e da
miséria, de que partilha grande número de seus membros; se há
interrogado : quais as causas, no ponto de vista religioso, social e
econômico, dêste estado de coisas ?
Como seria possível prevenir ou atenuar, por uma partilha
mais igual das riquezas, organização do trabalho, para a supres­
são completa da mendicidade, a reunião de meios adequados ?
Procurou-se conseguir isso com ardor, e escritores de dife­
rentes escolas fizeram estudos atentos, no assunto; mas pareceu
impossível obter-se a igualdade social, visto que há, como sempre
houve, pobres e ricos : se alguns daqueles conseguiram adquirir
e conservar fortuna, também, dos ricos, muitos se viram reduzidos
à mendicidade, oscilando constantemente essa balança social.
Apesar dos progressos atuais das ciências, supôs-se não se
poder esperar o equilíbrio dessa balança, por precisar o capitalista
do pobre, dizia-se, e o pobre do capitalista, expondo a condiçãb
dêste às necessidades que arrastavam muitas vêzes à miséria; em­
bora que a tal contingência não estivesse o rico tão sujeito. Daí
o vacilar-se sôbre o ser ou não possível a almejada igualdade so­
cial. Estou de acôrdo nos argumentos, mas não em absoluto. Aí
estão os hospitais e outros estabelecimentos de beneficência para
nos atestarem, que o mísero enfêrmo pode encontrar um fator hu­
ma1:itário compensador, para o alívio de seus sofrimentos, na
Caridade, e um meio para esta ser posta em ação, mesmo sem o
c~nho de obrigatoriedade, legal ou oficial. ~sse meio, fácil quão
s1m~les será - o rico dispensar de seus haveres uma parte e en­
tre~a-1~ ao Hospital de Misericórdia, incumbido, por sua missão
caritativa~ de a empregar no tratamento dos enfermos, confiados
ª seus cuidados. Então embora não se haja conseguido a igual­
dad~ de~ejada obrigatóriamente, haverá alguma compensação fa­
vorave~ a humanidade sofredora, pela voluntariedade.
Nao devemos perder de vista que os hospitais são geralmente
sustenta_dos entre nós pelos esforços individuais, e que algumas
subve:1çoes, ~elativamente escassas, advindas dos poderes públi­
cos, sao considerados auxílios eventuais.
. O hospital, para conseguir seus fins humanitários deve ter
vida propría,
' · ser autônomo contar com renda certa e 'sua· acei-
tando agra d ecído
· ' dos poderes públicos ' como ' renda
os auxílios
extraord1nar1a. '
t C~mo b?a fonte de recursos, a beneficente instituição deve
er ~ a caridade; porque a caridade não é só uma virtude cristã,
q1;1e impel~ c~da um de nós a vir em socorro do próximo; ela tam­
be°: constítuí um voto, uma devoção uma necessidade uma obri-
g açao de dar
gentes de acô-se a l'1v10
· aos nossos semelhantes
' '
enfermos e indi-
, d '
or o e na proporção das posses de cada um. Isto é o
150 BORGES SAMPAIO

que deve preocupar as beneméritas admínístrações; é o que deve


atuar no espírito cristão de todos para auxiliá-las. Tenho lido, que
a necessidade moral e social da caridade, e da beneficência, nasce
do quadro que diàriamen te se oferece à nossa vista, a tôdas as
horas da vida. Tudo o que nos rodeia reproduz a imagem da de­
sigualdade, natural e acidental, dos homens : o espírito e a inte­
ligência brilham com todo o esplendor, mas podem instantânea­
mente sombrearem-se : se assim não fôsse, o homem seria rebai­
xado à bestialidade. Mesmo entre os que se consideram mais fa­
vorecidos pela Providência, ou pelo curso dos acontecimentos,
quantas quedas e reveses ! A nudez sucede à opulência, a enfer­
midade à fôrça e à saúde; com o pêso dos anos e as enfermidades
a inteligência e o espírito se obscurecem, o estado físico se abate
e se extingue. O que concluir-se de tudo isto, se não fôsse preciso
haver o concurso da caridade, para assistência mútua? Mas a
lembrança do - Bem - não é suficiente, para que êste seja efi­
caz; é necessário que se o pratique sem o que o pobre não terá
apoio, nem o indigente o socorro, que lhe terá de ser fornecido no
hospital. No hospital se pratica o - Bem -, mas é preciso que
preceda a - Caridade -, fornecendo-lhe os meios.
É ao espírito religioso, inspirado pelo cristianismo que histo­
ricamente se atribui a origem dos estabelecimentos, onde os po­
bres enfermos· recebem uma assistência gratuita. O Evangelho
dissera :
"Os pobres e os doentes são associados de Jesus Cristo".
Também segundo as testemunhas as mais incontestáveis, os
primeiros hospitais· foram estabelecidos em Jerusalém e Belém,
servidos por pessoas piedosas, que viviam em comunidade. Daí
para cá, foram êles sempre considerados úteis e necessários e sob
tal objetivo protegidos e recomendados; merecendo muito da es­
tima pública as pessoas que os dirigiam, e aquêles que, como ben­
feitores, os protegiam. A Caridade, porém, é cosmopolita; medra
em tôda a parte; não escolhe seitas; em tôdas as camadas sociais
e religiões é a consoladora dos desgraçados e mutuamente os so­
corre. Essa foi a doutrina que Jesus Cristo nos ensinou.
Que se eleve, pois, a importância do nosso hospital, é o que
devemos fazer por conseguir, tendo na mente que, de um a outro
momento, podemos precisar que nos preste socorros. Mas isto se
obterá pelo concurso beneficente dos corações bem formados, e
eu presumo poder afirmar que, entre nós, o espírito caritativo é
fervoroso, distinguido-se louvàvelmente, pelo sentimento vivo da
prática dos atos de piedade, de santo amor e muita caridade. Avan­
te, pois, senhoras e senhores : os maridos, mulheres, pais, filhos,
irmãos, parentes; amigos e indiferentes; nacionais ou estrangei­
ros, cristãos ou hereges, não se devem considerar isentos de pre­
cisarem, de um momento a outro, serem socorridos por esta no­
bilíssima e quase divina instituição. Caminhe cada um fervoroso
para esta Santa Casa de Misericórdia, que hoje conseguiu abrir as
UBERABA: HISTÓRIA, FATOS E HOMENS 151

portas à indigência, visitando-a frequentemente. Sejam-lhe for­


necidos os meios de cuidar dos miseráveis enfermos, que se aco­
lherem ao santuário do seu teto misericordioso. Esteja sempre
presente em nosso pensamento, o habitar aqui a miséria. Sejamos
continuadores do venerando sacerdote que a fêz nascer e dessa
forma, para que possa prestar os serviços humanitários, a que o
pranteado franciscano a destinava. Venha em auxílio de todos o
patrocínio de São Francisco de Assis, padroeiro do pio estabele-
cimento, venerado naquele Altar. -

Agradeço-vos a complacência que tivestes, em ouvir as mi­


nhas desconcertadas frases. Ficai certos, porém, que estimaria
fôssem sonoras e eloqüentes, para ecoarem com santo amor no
coração de todos. Desejaria mesmo possuir um porta-voz de fôrça
tal, que embora toscas, como são, pudesse levá-las a todos os ha­
bitantes da terra, civilizados e silvícolas. Não porque sejam per­
suasivas como deviam sê-lo; mas pela vontade de, bem alto e ao
longe, poder proclamar as grandes e raras virtudes do missionário,
trabalhador e caritativo, fundador desta obra pia - do sacerdote
que se chamava na terra Frei Eugênio Maria de Gênova e no céu
se chamará o - justo; do qual vemos a imagem serena e majes­
tosa, na tela que ali está, e hoje fica colocada neste santo Asilo de
Misericórdia, pela mesa atual, para abençoá-la, abençoar esta obra
e a todos nós; dando animação aos ilustres cavalheiros que diri­
gem os destinos do nosso Hospital de Caridade. (N)
A todos peço, com respeito, aceitem a minha saudação fra­
ternal por êste piedoso acontecimento.

APtNDICE

Notas com Documentos, Relativos à História da Santa Casa de


Misericórdia de Uberaba e seu Fundador Frei Eugênio.

Nota A

Foi o Major Joaquim Teixeira Alves, quem, primeiramente, se


interessou pela vinda de Frei Eugênio à Uberaba.
Ofereceu-se à Câmara Municipal para ir pessoalmente o con­
vidar. Foi com efeito, e, a expensas próprias, o fêz transportar
com a bagagem desde Pitangui, cidade mineira, onde então se acha­
va; vindo também pessoal para a construção do cemitério. Chegou
a Uberaba no dia 12 de agôsto de 1856 : Uberaba era então vila,
mas nesse mesmo ano foi elevada a cidade. Posteriormente, ainda
o Major Joaquim Teixeira concorreu com auxílios valiosos para o
cemitério e hospital.
152 BORGES SAMPAIO

Nota B

Frei Eugênio projetava a construção de uma ponte sôbre o Rio


Grande no Pôrto da Ponte Alta em direção ao Uberaba, no intuito
de ligar o litoral e a Província de S. Paulo, às de Minas, Goiás, e
Mato Grosso. "Façamos esta ponte, depois cuidaremos de outra
no Rio Paranaíba", dizia aquêle homem de notável gênio empre­
endedor. Em quanto a do Rio Grande, chegou a mandar fazer
estudos num dos últimos anos de sua existência, conservando sem­
pre a idéia de realizar a obra. Projetou igualmente canalizar as
águas do Rio Uberaba, para o abastecimento da cidade, - as mes­
mas de cujos estudos a Câmara Municipal acaba de incumbir o
engenheiro Dr. Ataliba Vale, chegando a ter nivelamento dêsse
tentâmen.
Construiu uma casa sólida destinada à administração da San­
ta Casa, na qual residia quando faleceu; começou a construção do
nôvo. cemitério,
, . próximo ao hospital; - adquiriu para êste diver-
sos imóveis.

Nota C

O grande cemitério, construído segundo a planta levantada


pelo falecido engenheiro Dr. Fernando Vaz de Melo, é um qua­
drilongo, medindo os lados 58x53,5 braças, igual a 3.103 braças
quadradas, ou 15.018,5 metros quadrados. Em uma informação '

oficial de Frei Eugênio ao Dr. Juiz de Direito da Comarca, logo


depois da obra concluída, dizia êle : "O cemitério tem 58 braças
de largo sôbre 53 1/2 de fundo. Os alicerces são de 6 palmos de
fundo e 6 de grossura. O muro é de 11 1/2 palmos de altura e
quatro de grossura. As pirâmides acima do muro têm 18 palmos
que com 11 1/2 fazem 29 1/2. O portão tem 16 palmos de pé di­
reito e 14 de largura, afora a volta; não faceia com o muro - é
entrado 12 palmos e une-se à frente por meio de uma parede em
forma de e, tendo de cada lado 16 palmos de pé direito. A capela
tem 45 palmos de comprimento e 30 de largura, afora as varan­
das. A calçada fora do muro é de 5 palmos e na frente prolonga­
se até a cêrca de aroeira, (com metros 60x12,5, ou 750 metros qua­
drados) . Tem no centro um grossíssimo cruzeiro baixo e liso."

Nota D

Pôsto que o auto da medição do terreno e posse, destinado a


fundação da Santa Casa de Misericórdia, seja datado de 23 de
fevereiro de 1859, já no último quartel de 1858 havia material con­
siderável no local, levantamento de esteios e alicerces. Eis êsses
importantes documentos primitivos, em cópia fiel : "Ilmo. Sr. Pre­
sidente da Câmara Municipal. - Diz o Ilmo. e Revmo. Padre-Mes­
tre Frei Eugênio Maria de Gênova, da Ordem dos Menores Fran ..
UBERABA: HISTóRIA, FATOS E HOMENS 153

ciscanos Capuchinhos e missionário apostólico enviado pela Sa­


grada Congregação de Propaganda Fide no Império do Brasil, que
tendo reconhecido, que cada vez se faz mais sentir a necessidade
urgente de criar-se um hospício de caridade nesta cidade, para
amparo dos doentes desvalidos, vem por êste meio pedir se lhe dê
licença para a construção do sobredito edifício concedendo-lhe pa­
ra êste fim trezentos e vinte palmos de frente, com o respectivo
fundo no terreno denominado Largo do Rancho.
E. R. M. - Frei Eugênio -, Missionário Apostólico.''
Despacho. "Concedo o terreno exigido pelo Revdo. Su-
plicante atento o fim a que destina-se, proceda-se pois a demar­
cação do mesmo pela forma requerida e com assistência dos em­
pregados que em tais coisas são chamados, lavrando-se de tudo
circunstanciado têrmo que será registrado. Uberaba 1 Q de feve­
reiro de 1859. - Rosa."
Demarcação e posse. - "Têrmo de demarcação de um ter­
reno, que se destina a construção de um hospício de caridade nes­
ta cidade de Uberaba, no lugar denominado Largo do Rancho,
contendo trezentos e vinte palmos de frente, e duzentos de fundo
como abaixo se declara. Ano do Nascimento de Nosso Senhor Je­
sus Cristo de mil oitocentos cinqüenta e nove, trigésimo oitavo da
Independência e do Império do Brasil, nesta cidade de Uberaba,
Comarca do Paraná, Província de Minas Gerais, aos vinte e três
dias do mês de fevereiro do dito ano, compareceram no largo de­
nominado, Largo do Rancho, desta sobredita cidade, o Padre-Mes­
tre Frei Eugênio Maria de Gênova, o fiscal do distrito, contínuo
da Câmara, e o arruador da municipalidade, Manuel Bento Gar­
cia, comigo secretário da mesma, e pelo primeiro me foi apresen­
tada uma sua petição dirigida ao Presidente da Câmara Municipal
desta mesma cidade, solicitando a concessão de trezentos e vinte
palmos de frente com o respectivo fundo no supra mencionado
lugar, Largo do Rancho, para nêle construir um hospício de ca­
ridade, para amparo dos doentes desvalidos, contendo o despacho
do mesmo presidente datado de 19 do já citado mês de fevereiro,
concedendo o terreno - exigido, e ordenando que se procedesse em
têrmos a demarcação do mesmo, em vista do que em seguida e
com assistência dos mesmos empregados acima mencionados f ôsse
a demarcação do terreno de que se trata, medindo-se trezentos e
vinte palmos de frente e duzentos de fundo, em cujas extremida­
des se estabeleceram marcos de madeira branca, e de como se de­
marcasse o mencionado terreno se lavra na f arma do despacho
que o concedeu, o presente têrmo, que vai assinado pelos empre­
gados da Câmara Municipal desta sobredita cidade que assistiram
o ato, e bem assim as testemunhas que também se achavam pre­
sentes, comigo - Silvério Fernandes Leão, Secretário da mesma
que escrevi : - Desidério Bernardes Ferreira, Fiscal; Manuel Pe­
reira Rodrigues, Contínuo; Manuel Bento Garcia, Arruador; Sil-
154 BORGES SAMPAIO

vério Fernandes Leão, Secretário. Testemunhas assistentes -


João Bento Garcia, Joaquim Lopes da Silva, José Fernandes da
Silva. Registrado no Livro 19 de terrenos que a Câmara dá conces­
sões de terrenos a f 22 v. e f 23. Uberaba 23 de fevereiro de 1859.
- Silvério Fernandes Leão, Secretário."

Nota E

O Correio Católico, jornal da localidade, fazendo a apologia


de Frei Eugênio na edição de 12 e 19 de junho dêste ano, disse :
" ... já começam para o homem de Deus as provas duríssimas,
que uma autoridade judiciária, com outros cidadãos de alta es­
fera, levantaram ao Padre-Mestre, instigando contra êle o Ministro
da Justiça, o Presidente de Minas, o Vigário Geral do Bispado, a
Cúria Episcopal, o Reverendíssimo Superior dos Capuchinhos do
Rio Frei Fabiano.
A linda coleção de documentos históricos, com que o nosso
venerando amigo Coronel Antônio Borges Sampaio, de dia para
dia enriquece nosso Correio Católico, prova que não exageramos.
A guerra movida ao Frei Eugênio foi atroz. Apontamos ape­
nas os documentos publicados nos números 44 e 51 desta fôlha.
São de data relativamente fresca e seguramente não têm pas­
sado desapercebidos aos nossos leitores. Nos dispensamos de re­
produzi-los." Assim foi; mas o criterioso Alceste, do Jornal do Co­
mércio, disse as seguintes verdades :
" ... onde houver atos meritórios há de haver sempre a ma­
ledicência a forcej ar deturpá-los. Ao lado de tôdas as virtudes
hão de, insidiosamente, agachar-se as ruins paixões." Estava visto,
pois, que o virtuoso e benemérito franciscano, não devia escapar
à ingrata prova, a que estão sujeitos os mortais. Portanto, apesar
dos grandes benefícios que Frei Eugênio tinha prestado, continua­
va a prestar e lhe granjeavam em Uberaba, de mais em mais, a
estima pública, geral popularidade e veneração dos homens são,
amantes do progresso, despertou-se a inveja de alguns que tra­
maram a sua retirada desta cidade; solicitando-se-á do Reverendo
Superior dos Capuchinhos no Rio de Janeiro e de outras digni­
dades; fato que, verificando-se, ocasionaria o abandono das obras
da Santa Casa e a ruína das que estivessem feitas.
Felizmente, pelas relações prestigiosas do Barão de Ponte Alta
(então Comendador Antônio Elói Cassimiro de Araújo), auxiliado
pela Câmara Municipal, com a valiosa intervenção do Cônego Her­
mógenes Cassimiro de Araújo Bruonswik, Vigário do Desemboque,
e do prestimoso Senador Manuel Teixeira de Sousa (Barão de Ca­
margos), intercedendo perante a Presidência da Província, Minis­
tério da Justiça, Superior dos Capuchinhos, e Govêrno Episcopal
- foi determinado que Frei Eugênio continuasse em Uberaba, até a
conclusão das obras da Santa Casa de Misericórdia. Posso dar
testemunho dêstes fatos pela intimidade que tinha com Frei Eu-
UBERABA: HISTóRIA, FATOS E HOMENS 155

gênio, e ter cooperado na colaboração dêle, em benefício do hos­


pital; sendo-me hoje agradável o declinar os nomes dêstes cida­
dãos beneméritos, visto como se não fôsse o concurso dêles, Frei
Eugênio teria sido retirado de Uberaba, como Frei Fabiano mani­
festou; as obras não continuariam e, como já disse, se arruinariam
as que estavam feitas com muito adiantamento. Transcrevendo
nesta nota os três documentos infra, de dois dos quais forneci a
cópia ao J ornai de Uberaba e êste publicou em os números 44 e
51, corroboro o que deixo exposto; recordando aos presentes e per­
petuando aos vindouros, o nome de alguns bons auxiliares de Frei
Eugênio, colaboradores, com êle, na grande obra do nosso Hos­
pital de Caridade.
Primeiro documento. "Ilmo. e Revmo. Senhor. Tendo a Câ­
mara da Cidade de Uberaba representado ao Exmo. Sr. Ministro da
Justiça, pedindo a conservação do missionário Frei Eugênio Ma­
ria de Gênova naquela cidade, em vista dos benefícios que colhêra
aquêle lugar, e que ainda espera colhêr com a presença daquele
missionário, foi servido o Sr. Ministro da Justiça atender à justa
representação daquela Câmara, expedindo aviso ao Presidente da
Província de Minas permitindo a conservação do dito missionário
naquela cidade.
Acontece, porém, que, em consequência de uma representa­
ção assinada pelo Doutor Juiz de Direito da Comarca do Paraná e
pelo Juiz Municipal do Têrmo de Uberaba, representação que fize­
ram chegar ao conhecimento do Exmo. Sr. Ministro da Justiça por
intermédio do Presidente de Minas, suspendeu êste por ora a par­
ticipação à Câmara Municipal de Uberaba, da concessão que lhe
fôra feita pelo Exmo. Sr. Ministro da Justiça, quanto à conserva­
ção do Missionário Frei Eugênio naquela cidade.
Convencido como estou dos grandes benefícios, que com a Iôr­
ça de sua palavra, e com a pureza de doutrina, tem feito àquele
lugar o dito missionário, conseguindo melhorar os costumes, jâ fa­
zendo realçar o esplendor da virtude, e desaparecer a torpeza do
vício com suas prédicas, já despertando os deveres religiosos, que
pareciam ter caído em esquecimento, promovendo não só tôdas as
solenidades relativas ao culto religioso, como a construcão
., de edi-
fícios de piedade, tais como um magnífico cemitério, o consistório
e átrio da Matriz, estando em comêço a construção de um hospi­
tal de caridade, convencido, digo, como estou dos grandes benefí­
cios que já tem experimentado o lugar, e que continuará a experi­
mentar novos, permanecendo ali por mais tempo o dito missioná­
rio, apresso-me a prevenir a V. S. a fim de levar ao conhecimento
do Exmo. Sr. Ministro da Justiça que muito longe de se fazer um
bem à cidade de Uberaba, fazendo retirar-se dali aquêle missioná­
rio, ao contrário fará um mal; porquanto, além dos bens que com
a sua prédica tem feito ao lugar, pelo que toca ao espiritual, não
menos tem feito_ na parte relativa ao temporal, pois por sua in­
fluência tem conseg·uido a contribuição dos povos para obras pias,
156 BORGES SAMPAIO

como já disse, sendo uma delas a de um hospital de caridade, que


por certo não se chegará a concluir, se dali fôr arredado aquêle
digno missionário.
Finalmente devo observar, Ilmo. Revmo. Sr., que talvez por
não agradar a pureza da doutrina dêste missionário àqueles que
pouco se importando com a moral e a religião, incorrendo nas cen­
suras feitas pelo missionário com tôda a prudência e critério, sem
aplicação a êstes ou àqueles indivíduos, e aplicadas por êles mes­
mos a si, talvez, digo, que seja esta a causa que motivou a repre­
sentação contra aquêle digno missionário, e por isso apresso-me a
dirigir-me a V. S. em defesa do mesmo, servindo o que tenho dito,
contra tal representação.
Deus guarde a V. S. como é de mister. Rio de Janeiro, 8 de
junho de 1859.
Ilmo. e Revmo. Sr. Padre-Mestre Fr. Fabiano, Digníssimo Pre­
feito dos Missionários Capuchinhos. - O Provisor e Vigário Geral,
Cônego Hermógenes Cassimiro de Araújo Bruonswik."
O Cônego Hermógenes achava-se então no Rio de Janeiro co­
mo deputado à Assembléia Geral Legislativa; não demorou pois a
receber a resposta seguinte :
Segundo documento - "Exmo e Revmo. Sr. - Tive a honra
de receber o ofício que V. Ex~ se dignou dirigir-me com data de 8 do
corrente - dignando-se comunicar-me que, em consequência de
uma representação assinada pelos Srs. Dr. Juiz de Direito do Pa­
raná, Juiz Municipal do Têrmo de Uberaba, e Vigário daquela fre­
guesia, o Sr. Presidente da Província de Minas Gerais deixara de
participar à Câmara Municipal de Uberaba, o despacho favorável
dado pelo dito Sr. Ministro à representação anterior da mesma
Câmara, em que pediu a conservação naquela localidade do mis­
sionário Fr. Eugênio Maria de Gênova; e como V. Ex~ julgue pre­
judicial à moral e mesmo ao bem temporal daqueles povos a remo­
ção do missionário, deseja que eu assim o faça constar ao Sr. Mi­
nistro.
Respondendo, cumpre-me em primeiro lugar agradecer a V.
Ex~ a deferência e bondade com que me trata, bem como o seu ho­
norífico e tão valioso testemunho a favor do missionário Frei
Eugênio.
Sinto a oposição feita ao missionário por suscetibilidades mal
entendidas, como V. Ex~ nota, contra o voto espontâneo da res­
peitável Corporação Municipal de Uberaba; mas não posso estra­
nhar semelhantes acontecimentos, tão fáceis de se reproduzirem
por idênticas ou semelhantes razões. Conquanto eu não deseje a
conservação de missionários onde haja oposição por parte das au­
toridades do lugar em vista dos males, e talvez escândalos que de
aí se podem originar não deixarei contudo de levar ao conhecimen­
to do Sr. Ministro da Justiça as razões ponderadas por V. Ex~ as­
sim que receber algum aviso da parte da respectiva secretaria; não
me parecendo conveniente que eu dê passo algum em prevenção,
UBERABA: HISTóRIA, FATOS E HOMENS 157

a fim de que se não creia ser coisa de interêsse meu, ou do missio­


nário, a sua permanência em Uberaba, quando não há de nossa
parte senão o desejo de servir a causa da Religião, e o bem daque­
les povos. Deus guarde a V. Ex~ M. A. a bem da Igreja. - Exmo.
e Revmo: Sr. Pr~visor Vig~rio Ger~l, Cônego Cassimiro de Araújo
Bruonswík. - Rio de Janeiro, 9 de Junho de 1859. - Frei Fabiano
Comissário Geral dos Missionários Capuchinhos." '
Não obstante ainda o Cônego Hermógenes pedia o concurso do
govêrno eclesiástico do bispado no seguinte:
Terceiro documento. - "Ilmo. Sr. Cônego Vigário Capitular.Li,
Respeitadíssimo Senhor. - A sua bondade e o zêlo com que v. s.
promove a felicidade espiritual dos súditos da Igreja goiacense,
que a Divina Providência colocou sob o regímen e direção de V. s.
me animam a endereçar-lhe esta, contendo a súplica de proteger
a estada de Frei Eugênio Maria de Gênova, Missionário Apostólico,
nesta Comarca Eclesiástica. :tste padre pertencente à Ordem dos
Missionários Barboneos, se ofereceu ao Govêrno para a catequese
em Mato Grosso; missionou em algumas paróquias do Bispado do
Rio, estando de viagem, e depois em outras do Bispado de Mariana,
e foi tanto o proveito que produziu o pão da palavra distribuída
por tão instruído como virtuoso sacerdote que, párocos, câmaras
municipais e povos levantaram a sua voz suplicando como um só
homem, pedindo a continuação da missão, e o Ministro da Justiça,
convencido da utilidade religiosa que tem conseguido êste virtuoso
sacerdote a favor das almas dos cristãos, permitiu que êle conti­
nuasse em tão santo exercício, ~m que se tem conservado há de­
zesseis· anos mais ou menos, primeiro no Bispado do Rio, segundo
no de Mariana e parte do de S. Paulo, até que a Câmara Municipal
de Uberaba, solícita em promover o bem de seus munícipes, oficiou
ao dito padre pedindo a sua vinda àquela cidade, ao que pronta­
mente anulo: . ' e sendo respeitador do poder e jurisdição eclesiásti-
ca, ao entrar neste Bispado, se muniu das necessárias faculdades
concedidas, tanto por mim, como pelo Reverendo Visitador Jerô­
nimo Gonçalves de Macedo. Assim autorizado deu princípio à mis­
são na cidade de Uberaba.
Permita-me V. S. licença para expor, que naquela cidade ha­
via muita imoralidade e falta de respeito ao culto religioso, etc. :
• • r • , • A

vigorosamente combateu o rmssionano o v1c10 e o escandalo, e co-


lheu tanto fruto, que se pode dizer que ali houve uma conversão
quase geral; os costumes se reformaram, o culto se restabeleceu, a
Matriz se enriqueceu de ornamentos e alfaias, não tendo até então
senão duas velhas casulas; fêz-se um consistório em derredor da
capela mor; colocada a Matriz no declive de um espigão, o padre
pôde conseguir que se levantassem paredões de pedras, e se ater­
rasse o átrio da mesma; construiu-se um espaçoso cemitério fora
do recinto da Igreja, que se pode chamar a cidade dos mortos, em
que se erigiu uma capela dedicada a S. Miguel, em que decente­
mente se celebram : endoenças, festividades, procissão de cinza e
158 BORGES SAMPAIO

outros atos religiosos que se tem ali praticado a instâncias do pa­


dre. E tudo isto se esquece, e trata-se de o caluniar perante V. S. ! !
esperando os caluniadores que V. S. obrigue o padre a retirar-se
dêste bispado, onde pode continuar a colhêr imensos benefícios a
favor dos súditos de V. S. Eu desejo que V. S. permita que fale
com mais alguma franqueza: tôda a intriga contra o padre parte
de uma autoridade judiciária, que se deu por ofendida depois que
o padre em uma missão, não personalizando, mas tratando em ge­
ral, mostrou as obrigações a que se achavam ligados os magistra­
dos, de administrarem justiça imparcial; e tanto que imprudente­
mente, essa autoridade tentou obrigar, por um despejo, a retirar­
se o missionário da cidade de Uberaba. Tenho falado com a fran­
queza com que se deve falar à Igreja, e conto merecer de V. S. que,
cerrando os ouvidos às intrigas, sugeridas por muito poucos habi­
tantes daquela cidade, se dignará proteger a estada do Padre Frei
Eugênio, não só nesta comarca eclesiástica, como em todo o Bis­
pado de Goiás; pelo que renderei graças à Divina Providência, e a
V. S. a confissão de um eterno agradecimento, com o firme pro­
testo de ser com o maior respeito e veneração de V. S., etc. - Her­
mógenes Cassimiro de Araújo Bruonswik, Provisor e Vigário Geral
da Comarca."
Eu disse no texto - ter Frei Eugênio 1utado com várias con­
trariedades. O conteúdo desta nota prova a verdade da minha as­
serção e, também evidencia que, se o espírito do frade inimitável
teve ocasiões de afligir-se pela ingratidão de alguns, que aliás de­
viam ser os primeiros a desejarem a sua permanência no lugar,
para a conclusão do hospital, o venerando sacerdote encontrou ci­
dadãos benemerentes, que o compreenderam e veneraram; e que,
quais paladinos da Caridade, esforçaram e conseguiram a sua con­
tinuação em Uberaba.
Coisa é para notar-se : dos cinco impiedosos grupados à fren­
te da cruzada contra o bondoso frade, nenhum conseguiu assistir
a inauguração do hospital ! ...

Nota F

Um dos sustentáculos mais poderosos que Frei Eugênio teve na


construção da San ta Casa de Misericórdia, foi o Tenente-Coronel
Francisco Rodrigues de Barcelos.
Concorreu êste estimável cidadão para a grande obra, com
avultados meios pecuniários, e pôs à disposição do operoso frade
suas matas para a tirada de madeiras, havendo por conseguinte
grande quantidade delas e de primeira qualidade na construção
dessa obra imensa. Além disso, êste respeitável ancião e sua cari­
dosa espôsa, D. Rufina Maria de Jesus, como centro da grande fa­
mília, tôda prestigiosa, concorreram para que seus parentes e ami­
gos lhe prestassem apoio e fornecessem meios para o desenvolvi­
mento das obras. O Barão de Ponte Alta com os membros de sua
UBERABA: HISTóRIA, FATOS E HOMENS 159

numerosa família, o honrado capitalista Luís Soares Pinheiro, sua


espôsa D. Carolina de Castro Pinheiro; o distinto negociante Capi­
tão João Batista Machado; o Capitão Joaquim Antônio Rosa, 0 Co­
mendador José Bento do Vale e sua veneranda mãe D. Luísa Al­
mênía da Silva; o Major Joaquim Teixeira Alves; o Desembarga-
dor José Antônio Alves de Brito; o Capitão José da Costa Rangel;
o Dr. Balbino de Morais Pinheiro; o Dr. Henrique Raimundo Des
Genettes; o Dr. Constantino José da Silva Braga; o Dr. Fernando
Vaz de Melo; o Major Antônio Francisco de Oliveira; o Tenente­
Coronel João Francisco Diniz Junqueira; o Capitão Rodrigo José
do Vale; José da Cunha Peixoto Leal; o Alferes José Fernandes da
Silva; o Major Salvador Ferraz de Almeida; João Mateus dos Reis·
Luís Bartolomeu Calcagno; o Professor Manuel Garcia da Rosa'
Terra; o Tenente Francisco Ferreira da Rocha; José Lourenço de
Araújo; o Alferes Antônio Carrilho de Castro; o Escrivão de órfãos
Capitão Luís da Silva e Oliveira; Antônio José da Silva Barbosa;
Francisco Mateus de Sousa Camargos; Alferes Zacarias José da
Silva; o Capitão Bento José de Sousa; o Tenente Salviano José
Mendes; D. Silvéria Maria de Jesus; Francisco Rodrigues de Sou­
sa; Capitão José Ferreira da Rocha; João Antônio de Oliveira; Ca­
pitão José Maria do Nascimento; Major Joaquim José de Oliveira
Pena; Joaquim Inácio de Sousa Lima; Major Venceslau Pereira
de Oliveira; Major Joaquim José Umbelino Souto. A importante
família dos Pólvoras, composta de numerosos e distintos membros,
que tinham por chefe o venerando ancião, Capitão Manuel Rodri­
gues da Cunha Matos, as consideradas famílias dos Gomes; dos
Caetanos; dos Marqueses, dos Ribeiros, dos Inácios, dos Mansos. A
não menos respeitável e numerosa família dos Pratas; a dos Boda­
jós, ambas compostas de numerosos e prestigiosos membros. E
diversos que hoje seria difícil nomear.

Uns com valores pecuniários, outros com materiais, serviços


pessoais, opiniões e prestígio, - foram auxiliares importantes de
Frei Eugênio, em benefício da Santa Casa de Misericórdia. Cida­
dãos paroquianos dos municípios circunvizinhos, concorreram tam­
bém, e grandemente, para esta obra meritória. Aquêles mesmos
que se esforçaram para que fôsse retirado de Uberaba o benemé­
rito missionário, os quais, por essa razão, deixei de nomear, tinham
antes auxiliado nas obras do cemitério, da Matriz, e no comêço da
fundação da San ta Casa.

Nota G

Essa lápida de mármore, tem gravada a seguinte inscrição :


160 BORGES SAMPAIO

SEPULTURA

DO

MISSIONARIO APOSTÓLICO

O Revmo. Pe. Me. Fr.

EUG:tNIO MARIA DE GtNOVA

Falecido a 15 de junho
de 1871

Nota H

Frei Eugênio sucumbiu a um acesso de esternalgia (angina do


peito), que de tempos a tempos se manifestava, cada vez mais as­
sustadora. Exalou o último suspiro no primeiro compartimento
que fica à esquerda, ao entrar-se na sala de espera, na casa que
habitava e ainda é conhecida por - casa de Frei Eugênio -, a­
chando-se apenas com êle o seu companheiro Frei Arcângelo, fra­
de leigo, e um prêto liberto de nome Manuel.
A Câmara Municipal como homenagem ao distinto sacerdote,
em 1880 denominou - Rua de Frei Eugênio -, a que fica entre
a casa de Frei Eugênio, e o Hospital da Misericórdia, seguindo do
largo dêste nome para o Barro Prêto.

Nota I

O texto dessa lei, promulgada antes de ser interpretado o Ato


Adicional pela lei de 12 de maio de 1840, de incalculável impor­
tância humanitária, e que tanto mereceu a atenção do legislador
mineiro, é do teor seguinte : "Lei N.9 148 de 6 de abril de 1839.
Bernardo Jacinto da Veiga, Presidente da Província de Minas
Gerais:
Faço saber a todos os seus habitantes, que, a Assembléia Le­
gislativa Provincial decretou e eu sanciono a lei seguinte :
Art. 1. É permitida a ereção de um Hospital de Caridade em
tôdas as cidades, e vilas que ainda estiverem privadas dêste bene­
fício.
Art. 2. tstes hospitais gozarão de todos os privilégios, direitos
e prerrogativas, que pelas leis existentes competem aos estabeleci­
mentos de idêntica natureza.
Art. 3. As câmaras promoverão subscrições pelos habitantes
de seus municípios para a construção ou compra dos edifícios in­
dispensáveis, e para o fundo das despesas dos mesmos hospitais,
e outrossim consíderá-los-ão para que se prestem à administra­
ção dos ditos hospitais, e a uma anuidade a favor de sua receita.
UBERABA: HISTóRIA, FATOS E HOMENS 181

Art. 4. tstes hospitais poderão adquirir, e possuir bens de raiz


até o valor de vinte contos de réis, quando tais bens lhe tenha~
sido doados, ou legados, com a expressa condição de os possuírem
e sob pena de perdimento dêles. '
Art. 5.. nas quantia~ q?e anua11;1ente se arrecadarem, depois
de estabelecidos os hospítaís, far-se-a uma dedução da décima
parte, para ser convertido o seu produto em apólices da dívida
pública, logo que a sua importância fôr para isso suficiente.
Art. 6. Tôdas as vêzes que o número de subscritores exceder
de quarenta, as câmaras os avisarão para que se reunam, e ele­
jam as mesas diretoras, bastando para êsse fim que concorram a
metade, e mais um dos ditos subscritores.
Art. 7. Eleitas as mesas, tomarão imediatamente posse, e pro­
cederão a arrecadação das quantias prometidas para a fundação
€ conservação dos hospitais; bem como das que lhe pertencerem
pela disposição do art. 2 desta lei.
Art. 8. Terão estas mesas por primeiro cuidado a construção
dos hospitais - com os necessários cômodos para o tratamento
dos enfermos; nomearão comissões, que nas paróquias, e curatos
promovam os interêsses dos mesmos hospitais, solicitando e ar­
recadando as esmolas, e quaisquer donativos, que lhes forem ofe­
recidos; e darão a tudo isto, assim como à receita, e - despesa dos
hospitais a maior publicidade.
Art. 9. O benefício concedido às casas de caridade da pro­
víncia pelo § 29 do art. 1 Q da Lei N9 61, fica extensivo aos hospi­
tais criados em virtude da presente lei.
Art. 10. :tstes hospitais regular-se-ão inteiramente pelos es­
tatutos do da cidade de S. João d'El-Rei, enquanto os não tiverem
próprios, e completamente aprovados. ·
Art. 11. Ficam revogadas as disposições em contrário.
Mando portanto a tôdas as autoridades, a quem o conheci­
mento, e - execução da referida lei pertencer, que a cumpram
e façam cumprir tão inteiramente como nela se contém. O secre­
tário desta província a faça imprimir, publicar e cumprir. Dada
no Palácio do Govêrno na Imperial Cidade de Ouro Prêto, aos 6
dias do mês de abril do ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus
Cristo de 1839, décimo oitavo da Independência e do Império. (L.
S.) - Bernardo Jacinto da Veiga. - Honório Pereira de Azeredo
Coutinho."
Justifica esta lei que os hospitais, em Minas, quando em vir­
tude dela criados eram independentes com atribuições próprias;
não estavam sujeitos ao Poder Judiciário das províncias, senão
quando solicitado; mesmo para as contas da administração; por
isso que regendo-se pelos estatutos do de S. João d'El-Rei, que
eram os da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, como
nesta, as contas compromissais eram prestadas às próprias asso­
ciações para deliberação dos subscritores. O art. 8.Q da lei de 12
162 BORGES SAMPAIO

de maio de 1840 manteve à Minas a prerrogativa das leis que esti­


vessem sancionadas; em cujo caso estava esta.

Nota J

Transcrevendo nesta nota o acórdão a que aludi no texto, e a


ordem expedida para sua execução, penso contribuir com esclare­
cimentos úteis a alguma outra instituição semelhante, ou congê­
nere, que, em Minas se veja em idênticas dificuldades.
"A Presidência de Minas Gerais se dá o conhecimento para a
devida execução, da Imperial Resolução de 26 do mês passado, exa­
rada na consulta, abaixo transcrita, relativamente à arrecadação
dos diversos valores destinados às obras da Casa da Misericórdia da
cidade de Uberaba, das quais estava encarregado pela respectiva
Câmara Municipal, o finado Frei Eugênio Maria de Gênova.
Cópia da consulta a que se refere o aviso supra. - Senhor. -
Houve Vossa Majestade Imperial, por bem que a secção de fazen­
da do Conselho do Estado consultasse com seu parecer sôbre a ma­
téria constante dos papéis inclusos.
Faleceu na cidade de Uberaba - Frei Eugênio Maria de Gêno­
va, que, por meio de donativos ou esmolas, havia recolhido diver­
sos valores destinados às obras de uma Casa de Misericórdia na­
quele lugar, de que êle estava encarregado. Por ocasião de seu fa­
lecimento o respectivo juízo tratou de arrecadar êsses valores.
A Câmara Municipal e o povo daquela cidade, como informa
o respectivo coletor, reclamaram contra a arrecadação dêles por
parte da Fazenda Nacional e conseguiram que fôssem depositados
em mão de um particular.
Em tais têrmos consulta o dito - coletor o que lhe cumpre
observar.
A diretoria geral do contencioso do Tesouro Nacional, que foi
ouvida a êste respeito, conclui em seu parecer de 11 de novembro
de 1871 nos seguintes têrmos :
Sou, pois, de parecer que se declare à tesouraria de Minas Ge­
rais, que tais bens devem continuar arrecadados até que a Câma­
ra Municipal de Uberaba lhes dê o destino que julgar conveniente.
A secção concorda que com efeito os valores de que se trata não
constituem herança do finado Frei Eugênio, não estão portanto no
caso de ser arrecadados nos têrmos das heranças jacentes. ~le
não era senão depositário dêsses donativos e esmolas, que se des­
tinavam às obras de uma casa de misericórdia. A municipalidade
que concorreu com êsses meios e para tal fim, tem sem dúvida o
direito de pedir que se cumpra sua intenção.
Parece, pois, que convirá oficiar-se ao respectivo juízo da pro­
vedoria para que êle, de acôrdo com a Câmara Municipal, ponha
em guarda os mesmos valores, e providencie sôbre sua aplicação,
criando uma administração ou irmandade, que trate de realizar se-
UBERABA: HISTóRIA, FATOS E HOMENS 163

melhante instituição, e que haja de prestar as devidas contas nos


têrmos da lei. tste é, Senhor, o parecer da secção. Vossa Majesta­
de Imperial, porém, mandará o que fôr mais acertado. Sala das
conferências, 18 de junho de 1872. - Visconde de S. Vicente -
Francisco de Sales Tôrres Homem - Carlos Carneiro de Campos.
Resolução. - Como parece. Paço, em 26 de junho de 1872.
(Com a rubrica de Sua Majestade o Imperador.) - Visconde do
Rio Branco.
Nota K

Constituição da primeira mesa administrativa. "Aos 2 dias do


mês de julho do ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo
de 1871, no Paço da Câmara Municipal, da cidade de Uberaba,
achando-se esta em sessão extraordinária, para o fim de eleger-se
a mesa administrativa da Santa Casa de Misericórdia desta mesma
cidade, procedeu-se a chamada dos setenta e três subscritores, que
deviam fazer a eleição, como determina o artigo 6 da Lei N<> 148
provincial mineira, de 6 de abril de 1839, e reconheceu-se acharem­
se presentes 46 subscritores, os quais a medida que foram chama­
dos e compareceram, lançaram em uma urna, cada um dêles uma
cédula, que a final foram tôdas contadas e achou-se o número de
46 na urna; cujas foram em seguida apuradas, e por elas se reco­
nheceu terem obtido votos para provedor Luís Soares Pinheiro 41;
Capitão João Batista Machado 2; Capitão Bento José de Sousa 2;
Major Joaquim José de Oliveira Pena 1. Obtiveram votos, para te­
soureiro: Alferes Joaquim Rodrigues de Barcelos 31; Capitão Joa­
quim Antônio Rosa 14; Major Francisco Rodrigues de Barcelos 1.
Obtiveram votos para secretário: Tenente-Coronel Antônio Borges
Sampaio 42; Maximiano José de Moura 2; Manuel Garcia da Rosa
Terra 1; Major Joaquim José de Oliveira Pena 1. Obtiveram votos
para os lugares de dois procuradores: Capitão José Bento do Vale
40; Alferes Alexandre Martins Marques 36; Capitão João Batista
Machado 10; Alferes Joaquim Rodrigues de Barcelos 2; Capitão
Joaquim Antônio Rosa 1; Dr. Henrique Raimundo Des Genettes 1;
Tenente Maximiano José de Moura 1; Capitão José Ferreira da
Rocha 1. Em consequência o Sr. Presidente da Câmara Alexandre
Martins Marques, que também presidia a reunião geral, declarou
em voz alta, terem sido eleitos por maioria de votos para membros
diretores da mesa administrativa da Santa Casa de Misericórdia
da cidade de Uberaba, a saber : para o cargo de provedor, o nego­
cian te matriculado Luís Soares Pinheiro; para o cargo de tesou­
reiro Alferes Joaquim Rodrigues de Barcelos; para o cargo de se­
cretário o Tenente-Coronel Antônio Borges Sampaio; para os car­
gos de dois procuradores, o Capitão José Bento do Vale e Alferes
Alexandre Martins Marques visto ter-se assentado antes, que fôs­
sem êstes os cargos que deviam ser ocupados na constituição da
mesa. Do que para constar-se lavrou a presente ata especial; que
164 BORGES SAMPAIO

vai assinada pelos subscritores presentes. Eu Antônio José da Fon­


seca, Secretário da Câmara, que a escrevi. Alexandre Martins Mar­
ques, Antônio Borges Sampaio, Bento José de Sousa, Joaquim Jo­
sé de Oliveira Pena, Joaquim Rodrigues de Barcelos, João Batista.
Machado, José Ferreira da Rocha, Antônio José da Fonseca, Henri­
que Raimundo Des Genettes, Ovídio Irineu de Miranda, Antero
Ferreira da Rocha, Diógenes José da Silva Brochado, Fabrício JÔsé
de Moura, Luís Soares Pinheiro, José Augusto Avelino, João Bernar­
des Ferreira, José Benedito e Silva, Francisco Elias de Oliveira,
João Rodrigues de Paula, José Fernandes da Silva, Francisco Pe­
reira de Oliveira, José Maria do Nascimento, Joaquim Antônio Pe­
droso, José Joaquim da Silva, Francisco Rodrigues das Chagas, Jo­
sé Alves de Sousa, Mateus Antônio de Faria, Francisco Antônio de
Faria, José de Magalhães Silva, Francisco Bernardes Ferreira, Ma­
nuel Francisco Palhares, Manuel Garcia da Rosa Terra, Antônio
Mateus de Faria, Antônío Francisco da Rocha, Maximiano José de
Moura, José da Silva Diniz, José Antônio de Moura, Manuel Pe­
reira Rodrigues, Antônio Vicente de Paula, Guida Eugênio Noguei­
ra, Francisco Ferreira da Silva Diniz, Joaquim Antônio Rosa, To­
bias Antônio Rosa, João Rodrigues da Cunha Sobrinho, José Bento
do Vale e Herculano José da Silva."
Nota L

Os distintos membros da mesa atual, a que coube a ventura.


de conseguir inaugurar os serviços da hospitalidade aos enfermos,
na Santa Casa de Misericórdia de Uberaba, são : o Tenente-Coronel
Luís Soares Pinheiro Júnior, Provedor; o Tenente-Coronel Antônio
Cesário da Silva e Oliveira, Secretário; o Capitão Artur Batista
Machado, Tesoureiro; o farmacêutico Francisco Sebastião da Cos­
ta e joalheiro Manuel Terra, Procuradores. Foram eleitos pela as­
sembléia dos subscritores em 3 de maio de 1896, convidados para
êsse fim pela primitiva mesa na seguinte circular :
"Os abaixo assinados, membros da mesa administrativa da
Santa Casa de Misericórdia:
Considerando ter o Colégio de Nossa Senhora das Dores trans­
ferido ~ residência para edifício próprio;
Considerando que assim torna-se preciso cuidar quanto antes
do hospital;
Considerando que as atuais circunstâncias não permitem fa­
zê-lo por si :
Deliberaram resignar nas mãos dos senhores subscritores os
seus cargos, pedindo se dignem comparecer no dia 3 de maio pró­
ximo futuro, ao meio dia, no salão da casa do Comendador José·
Bento do Vale, para elegerem nova mesa, na forma da Lei N.Q 148
de 6 de abril de 1839.
Como V. s.~ é um dos beneméritos subscritores, contam que
não faltará a êsse ato de caridade e amor ao próximo.
UBERABA: HISTóRIA, FATOS E HOMENS 165

Uberaba, 16 de abril de 1896. - A rôgo de meu pai - Luís Soa­


res Pinheiro, por não poder escrever, Luís Soares Pinheiro Júnior.
- José Bento do Vale. - Antônio Borges Sampaio. - Joaquim
Rodrigues de Barcelos."
Nota M

Como atesta o livro de suas atas, a mesa primitiva e quando


reeleita, fêz adiantar as obras no edifício e dependências, sem alte­
rar-lhes o plano interno no hospital, que lhes dera Frei Eugênio
suprimindo apenas o corpo da Igreja. '
A conservação dos imóveis, confiou-a pelo tempo de dez anos
em escritura pública de simples gôzo sem gerência, ao Colégio d~
Nossa Senhora das Dores, dirigido pelas Irmãs Dominicanas con­
gregadas, sob a responsabilidade do Exmo. Bispo Diocesano, D.
Cláudio José, desde 1886 até 1896. As congregadas, durante êste
tempo, ministraram muitos recursos aos pobres que, gratuitamen­
te, já habitavam os compartimentos exteriores do hospital, e neste
fizeram alguns serviços para comodidade própria, com os quais fi­
zeram despesas de alguma importância : tendo a tôrre sofrido ruí­
na em consequência de um raio, foi demolida por conta do colégio,
e com isso êle despendeu cêrca de 300: 000.
Antes das ditas irmãs estabelecerem o colégio das educandas
no edifício da Misericórdia, esteve ali o missionário franciscano Frei
Paulino, auxiliando a mesa na execução de obras, a êsse tempo em
andamento (desde 1876 a 1879).
Além disso, a mesa teve sumo cuidado em manter o domínio e
posse autonômicos da instituição do Hospital de Caridade - como
pessoa jurídica -, não anuindo aos reiterados pedidos dos ilustres
prelados diocesanos, que, desde o falecimento de Frei Eugênio, ins­
tavam para que lhes fôsse entregue o edifício - como próprio -
no intuito de ali estabelecerem seminário episcopal. Obstou cons­
tantemente o quanto pôde, as tendências do Poder Judiciário, que
sob pretexto do protetorado quase absoluto de alguns magistrados,
pretendiam intervir no govêmo interno do estabelecimento, ale­
gando como princípio os direitos de mão morta, que aliás a Lei Mi­
neira N.Q 148 não lhes conferia; não obstante a qual tentavam in­
vadir as atribuições da mesa. Também manteve a sua indepen­
dência perante a municipalidade, quando esta, algumas vêzes, en­
tendeu poder intervir nas deliberações da mesa. Isto porque, em­
bora a mesa estivesse convencida das boas intenções dos ilustres
prelados, e da conveniência que resultaria à instrução da mocida­
de, se nos edifícios fôsse instalado o seminário episcopal; embora
ela estivesse possuída de bons desejos para condescender com o
episcopado, apesar disso tudo conhecer, entendia dever recusar-se
- constrangidamente mesmo - a aceder às louváveis pretensões
diocesanas, não só porque são de encontro ao disposto na Lei Mi­
neira e a Imperial Resolução, mas também por desvirtuarem a in-
166 BORGES SAMPAIO

tenção do benemérito fundador que destinara tais edifícios exclu­


sivamente para Hospital de Misericórdia. E mais por faltar-lhe
competência para transmitir o domínio; por isso que quer a mesa,
quer a assembléia dos subscritores, apenas dispunham de direitos
administrativos, sem faculdade para alienar os dominicais mesmo
úteis a título de aforamento; achando não convir igualmente o ar­
rendamento para tal fim, pelas dificuldades que posteriormente
podia oferecer a desocupação. Aguardava que se conseguisse iniciar
os serviços de tratamento dos enfermos, único e real que se adap­
tava a instituição de caridade, para a qual fôra destinado. Enquan­
to aos outros poderes a mesa, com a necessária moderação para
evitar conflitos desagradáveis, judiciários ou oficiais, esquivou-se
sempre no intuito de conservar a autonomia da instituição, como
pessoa jurídica. O historiador no futuro que desejar melhor infor­
mar-se, achará no livro das atas das deliberações da mesa primi­
tiva e reeleita o assertivo do que aí fica narrado.
Mostraram-se, porém, de louvável retidão para com a Santa
Casa, os ilustres superiores dos capuchinhos, no Rio de Janeiro,
Frei Fabiano e Frei Caetano. O primeiro atendendo ao pedido do
Cônego Hermógenes, para a continuação de Frei Eugênio em Ube­
raba no ano de 1859; o segundo pela franqueza com que se houve,
declarando nada pretender do que tivesse sido achado por ocasião
do falecimento do mesmo Frei Eugênio. Enquanto ao último, repe­
tirei o que a 6 de novembro de 1871, escrevi a êsse venerando sacer­
dote em resposta a carta sua:
"Igualmente se hão mostrado reconhecidos a V. Revma., os
habitantes dêste lugar, pela certeza que lhes mandou dar por meu
intermédio, de que não só deseja contribuir para que se alcance a
conclusão da grande obra da Santa Casa de Misericórdia, começada
por Frei Eugênio, fazendo mesmo com que venha outro sacerdote
da ordem dar-lhe impulso, como por dar-lhes certeza de que todos
os bens ali encontrados, pertencem, sem exclusão alguma, à dita
San ta Casa."
A 14 de janeiro de 1872 ainda lhe escrevia :
"Com gratidão e reconhecimento levo a presença de V. Revma.,
que foi entregue a Santa Casa de Misericórdia, tudo o que foi acha­
do com Frei Eugênio quando faleceu; cuja resolução o juiz arre­
cadador tomou, em vista da carta que V. Revma. se dignou mandar
publicar no Jornal do Comércio de agôsto último. Estão pois cum­
pridos os desejos de V. Revma. e os meus; e os habitantes desta ci­
dade gratos a V. Revma. por mais êste ato de caridade praticado
por V. Revma." Assim teve a mesa posta de lado, a complicação
que lhe pudesse advir por parte daquela ordem; e de internacio­
nalidade, talvez. Seja-me lícito o registrar aqui cordial agradeci­
mento à memória do finado Frei Caetano e à do magistrado Dr.
Francisco Teotônio de Carvalho, por terem deliberado fôsse entre­
gue à mesa os haveres encontrados com Frei Eugênio, muito antes
UBERABA: HISTóRIA, FATOS E HOMENS 167

de ser conhecida a Resolução Imperial, e o Aviso do Ministro Pre-


sidente do Tesouro Nacional. '

Nota N

Por ocasião de inaugurar-se o hospital, inaugurou-se também


ali o retrato a óleo de Frei Eugênio, a meio corpo; obra bem exe­
cutada e moldurada no estabelecimento de Pratt Cochrane & c.
de Nova Iorque; copiado com ampliação, do único cartão de visit;
f?tográfi,co que se, possui, obtido a muitas instâncias, pelo fale­
cido fotografo Luís Bartolomeu Calcagno, sobrinho e particular
amigo de Frei Eugênio.
O Jornal do Comércio de· 25 de junho de 1898, deu a notícia
desta festa pela dupla inauguração na missiva do seu correspon­
dente em Uberaba, datada de 19, que transcrevo :
"Mais um fato notável há que deve ser registrado na história
de Uberaba, e que será utilizado pelo erudito Sr. José Pedro Xa­
vier da Veiga, quando aditar a sua monumental obra que acaba
de dai- à luz, as Efemérides Mineiras. Refiro-me a inauguração
do Hospital de Misericórdia fundado nesta cidade pelo benemérito
Frei Eugênio Maria de Gênova; auxiliado por outros, não menos
amantes da caridade. tsse ato solene e numerosamente testemu­
nhado, teve lugar no próprio edifício, no dia 14 do corrente. Dêle
vou detalhar a notícia, tanto quanto me o permitirem os estreitos
limites da missiva, visto que pelo telégrafo, já o Jornal do Comércio
teve logo a notícia resumida.
Como antes fôra anunciado em boletins e cartões, muitos ci­
dadãos distintos se reuniram às 10 1/2 horas na casa de negócio
de Batista Machado e Irmão, para ser conduzido o retrato a óleo
de Frei Eugênio para a Santa Casa de Misericórdia, a êsse fim
colocado em uma padiola artística. Nas argolas dessa padiola pe­
garam o Provedor Tenente-Coronel Luís Soares Pinheiro Júnior,
o Tesoureiro Capitão Artur Batista Machado, os Procuradores Far­
macêutico Francisco Sebastião da Costa e Tenente Manuel Terra;
as oito fitas pendentes foram distribuídas ao Coronel Militão José
de Sousa Ameno, Major Venceslau Pereira de Oliveira, Delfino
Gomes da Silva, José da Cunha Peixoto Leal, José da Silva e Oli­
veira, Isauro Loureiro, Antônio Ferreira da Costa e Antônio Bor­
ges Sampaio. Extensa procissão cívica, precedida da banda de
música "União Uberabense", indo arvorada a bandeira nacional,
a nacional italiana e o estandarte da sociedade italiana "União
Fraternal", acompanhou o retrato à Santa Casa de Misericórdia.
Seguiu-se a bênção religiosa do edifício pelo Reverendo Go­
vernador do Bispado, Cônego Inácio ~avier da Silva, deJ?Ois da
qual celebrou missa rezada na respectíva capela da qual e orago
S. Francisco Xavier, padroeiro do estabelecimento. Sua Reveren­
díssima nos atos religiosos foi acolitado pelo padre dominicano
Frei Raimundo, e dêles foram testemunhas por convite da mesa
168 BORGES SAMPAIO

as Sras. DD. : Maria Zeferina de Almeida Barcelos, Teodora Se­


veriana de Carvalho, Carolina Junqueira Machado, Aurea Gua­
ritá, Ana de Oliveira Machado, Cândida de Castro Terra, Maria
Carolina da Conceição Costa, Cândida de Castro Soares Pinheiro,
Elmira Caldeira Queirós, Maria Cassino do Nascimento, Maria Cru­
vinel Rato e Maria Ameno Ribeiro; e os cavalheiros: Desembar­
gador Manuel Paraíso Cavalcanti, Coronel João Quintino Teixeira,
Doutor João Caetano de Oliveira e Sousa, Manuel Alves Caldeira,
Dr. Gabriel Orlando Junqueira, Dr. Tomás Pimentel Ulhoa, Del­
fino Gomes da Silva, Tenente-Coronel Pedro Floro Gonçalves dos
Anjos, Capitão Antônio Moreira de Carvalho, Major Antônio Fer­
reira Rocha, José de Oliveira Ferreira e Antônio Borges Sampaio.
No grande salão do nascente se achava a mesa que devia ser ocu­
pada pelos mesários da Santa Casa, ao pé da qual fôra conveni­
entemente colocado, provisoriamente, o retrato de Frei Eugênio.
Imenso concurso de famílias e de cidadãos de tôdas as clas­
ses enchia o dito salão do nascente e o lateral da capela, geral­
mente avaliado o número em mais de 2.000 pessoas, entre as quais
estavam as mais eminentes da cidade como funcionários públicos
e de posições sociais.
Honrava esta reunião o Tenente-Coronel Lucas Caldas, co­
mandante do 29 corpo militar de polícia, com tôda a oficialidade
em grande gala, e à frente do edifício se achava formado o ba­
talhão, com a banda de música, a qual na instalação tocou varia­
das peças dentro do edifício, alternada com a civil. Tendo os
mesários tomado seus assentos sob a presidência do Provedor Te­
nente-Coronel Luís Soares Pinheiro Júnior, e ao lado o Secretário
Tenente-Coronel Antônio Cesário da Silva e Oliveira, o Tesou­
reiro Capitão Artur Batista Machado e os Procuradores Francisco
Sebastião da Costa e Capitão Manuel Terra, o presidente declarou
aberta a sessão, precedendo um breve discurso, no qual agradeceu
aos que compareceram, o terem vindo ali assistir a inauguração
do estabelecimento; à mesa precedente o que fizera para a con­
servação daquela obra; à Câmara Municipal o seu caridoso con­
curso a benefício do hospital, e aos três médicos, Drs. Tomás Pi­
mentel de Ulhoa, Manuel Raimundo de Melo Meneses e José de
Oliveira Ferreira, o oferecimento que tinham feito de seus ser­
viços profissionais aos enfermos. Seguiu-se com a palavra o ex­
secretário da mesa Antônio Borges Sampaio, que discorreu sôbre
Frei Eugênio e a Caridade; o Cônego Inácio Xavier da Silva, mos­
trando que a caridade é o sustentáculo da religião; o lente do
Instituto Zootécnico, Dr. Amândio Sobral, expondo como deverá
ser praticada a caridade; o Major Gustavo Ribeiro, fazendo ver o
quanto pode fazer urn frade trajando grosso burel, pedindo ao co­
ronel comandante do corpo policial, o perdão para os soldados
faltosos, em atenção àquele ato (no que foi atendido), concluiu
apresentando à assinatura dos cavalheiros presentes uma petição
dirigida a Sua Santidade Leão XIII, solicitando-lhe a remoção
UBERABA: HISTóRIA, FATOS E HOMENS 169

da sede do bispado, de Goiás para Uberaba. Orou também o Dr.


Gabriel Orlando Junqueira, Presidente da Câmara e Executivo
Municipal, salientando o que era Uberaba à chegada de Frei Eu­
gênio em 1856, e o seu valioso concurso para o seu desenvolvimen­
to; por último orou o lente da Escola Normal Antônio Mamede de
Oliveira Coutinho, recordando que ao lado de Frei Eugênio, es­
teve um atleta -notável, o Major Francisco Rodrigues de Barcelos,
pai caritativo da pobreza e fornecedor de copioso material - para
a Canta Casa. Concluído êste discurso foi levantada a sessão.
Todos os oradores foram aplaudidos.
Nesse dia, à porta do edifício, foi distribuída a cem pobres,
que se apresentaram com cartão previamente entregue, a quan­
tia de 500$000 à razão de 5$000 a cada um, por ordem do Capitão
Silvério Garcia Dias, residente em Sant' Ana do Paranaíba; fato
que mais realçou a festa.
Ao ato da instalação assistiram o respeitável Dr. Draenert,
diretor do Instituto Zootécnico e os representantes da imprensa.
Os benesses das testemunhas da bênção produziram para o
hospital, a quantia de 1 :060$ rs.
A mesa tinha antecedentemente rogado a diversas senhoras,
a prestação de roupas para camas (dois lençóis, um cobertor e
uma colcha). A concorrência não se tinha feito esperar; por isso
que, no ato da instalação, já o hospital tinha sessenta leitos pre­
parados, em circunstâncias de receber doentes a qualquer momen­
to. Os catres são de ferro, fortes, bom colchão, travesseiro e fronha,
fornecidos pelo hospital. Três enfermos havia em tratamento.
A despensa está abundantemente fornecida de louça branca
de granito. Cuida-se diligentemente no encanamento de água
potável captada de mananciais nas vertentes de Barro Prêto, e
muitos metros de canos de esgôto já estão assentados na Rua São
Miguel, na parte terminável da Colina da Mi~ericórdia.
A assistência médica, gratuitamente, esta a cargo dos Drs.
Tomás Pimentel de Ulhoa, Manuel Raimundo de Melo Meneses e
José de Oliveira Ferreira; êste último dirigirá a parte operatória.
Estão, pois, começados os serviços de piedade no Hospital ~e
Misericórdia de Uberaba e nêle inaugurado o retrato do beneme-
rito Frei Eugênio, seu fundador.
Uma coincidência: - havia quarenta e um anos que, nomes-
mo dia, no Hospício de Alienados do ~io de Janeiro, f?~ª inaugu­
rada a estátua de José Clemente Pereira, outro benemérito da hu-
manidade, notabilíssimo."
Nota O

Frei Eugênio

o benemérito fundador da Santa Casa de Misericórdia da


cidade de Uberaba, Frei Eugênio Maria de Gênova, nasceu na Itá-
170 BORGES SAMPAIO

Frei Eugênio Maria de Gênova

lia, Província de Gênova, cidade de Oneglia, a 4 de novembro de


1812, sendo batizado na colegiada de São João Batista, com o no­
me de João Batista José Maberino, recebendo o Sacramento da
Confirmação a 13 de maio de 1823 no Hospício dos Pobres, das
mãos do Bispo Alepio Franzoni.
·· Tomou as ordens sacras sábado 17 de dezembro de 1836, com
o nome de Frei Eugênio Maria.
A 8 de julho de 1841, sendo nomeado confessor, foi-lhe con­
ferida a faculdade de absolver casos reservados pelo arcebispo ge­
novense, o Cardeal Tadini.
Posteriormente foi nomeado pregador apostólico para o mun­
do inteiro, pelo mesmo Cardeal Tadini, em 16 de julho de 1842.
Despachado em Roma como missionário capuchinho por Sua
Santidade o Papa Gregório XVI, para vir missionar no Brasil, a
18 de abril de 1843, chegou ao Rio de Janeiro no paquête "Feliz",
a 19 de julho do mesmo ano.
No dia 27 de abril de 1845, foi no Rio de Janeiro reconhecido
no seu caráter de missionário, pelo Prefeito Apostólico Frei Fidélis
UBERABA: HISTôRI_A, FATOS E HOMENS 171

de Montezano, sendo-lhe recomendado, a 15 de maio do dito ano,


a pregar no Brasil, com tôdas as faculdades inerentes à missão.
Os serviços que Frei Eugênio daí por diante prestou, foram por
êle próprio, em fevereiro de 1859, narrados de Uberaba ao superior
da ordem, de modo que podem ser considerados - ótima fé de
ofício.
Disse êle:
"Cheguei ao Brasil enviado pelo S. S. Papa Gregório XVI, a
pedido do Govêrno referido, no ano de 1843. Estive dois anos no
Rio de Janeiro e mereci do Exmo. Bispo ser nomeado confessor
das freiras.
Fui Diretor da Casa dos Expostos até 1845.
Saí do Rio para a catequese de Cuiabá, e a instâncias do povo
preguei nas cidades, vilas, paróquias e aldeias, e tantas foram as
vantagens, que recebi cartas do Govêrno para não ir mais a Cuia­
bá, mas continuar a missionar os povos; são estas as expressões :
- "Informado o Govêrno Imperial do grande bem que está fa­
zendo, lhe manda dispensar sua viagem e continuar a sua missão
nos municípios, etc.".
Missionei com assiduidade e sem parar, nos Bispados do Rio,
S. Paulo e Minas e nunca entrei - apesar de ser missionário para
todo o Império - sem o consentimento dos respectivos prelados
diocesanos, e consentimento dos meus superiores.
Fui convidado para pregar em Uberaba, eu recusei. Instado,
perguntei a que bispado pertencia e me disseram que a Goiás. Fiz
entender que sem as licenças respectivas, não podia entrar; mas
êles as solicitaram do Revmo. Provedor Cônego Hermógenes, hoje
Deputado Geral, e do Visitador Ordinário, o Revmo. Padre Ma­
cedo, cujas estão em meu poder.
Em 1856, a 12 de agôsto entrei em Uberaba, e sempre em dia
com meus superiores.
Abri a Santa Missão, que produziu um efeito extraordinário,
como em outras partes. Vieram mais de quatro mil pessoas pedir
para não me retirar já, e como tinha principiado o cemitério, tra­
tei de o acabar. Fiz um grande e rico consistório e adro. Para­
mentei a Igreja com abundantes alfaias, pertenças e muitas coi­
sas mais, que longe iria para enumerar.
Tudo quanto eu fiz, sempre foi grátis : em parte alguma levei
dinheiro. O mundo inteiro é testemunha, porque mais de um mi­
lhão e meio de povo foi missionado; sempre de acôrdo, como era
necessário, com os bispos, Govêrno, Câmara Municipal, autorida­
des, etc.
Nunca administrei sacramentos paroquiais, sem as licenças
respectivas e sempre grátis; nunca dei um passo que não fôsse
legal. Sempre servi o Revmo. Vigário como um escravo, e, até ho­
je, apesar da minha barba branca, quando me procura, sempre
pontualmente é servido, e sempre grátis.
172 BORGES SAMPAIO

Estou nesta cidade há dois anos, acabei o cemitério e as obras


principais. Estive seis meses incomodadíssimo.
Estou em um contínuo trabalho. Prego todos os domingos e
dias santos. Todos os dias há uma enchente de confissões, que
vinham de 10, 14, 18, 34, 40, 60 e 76 léguas, só para se confessar
com o padre missionário.
Quando eu cheguei em Uberaba, estava a cidade em uma de­
cadência notável. Muitas famílias estavam de mudança, e não se
mudaram.
Vieram de fora mais de setecentas pessoas. Se fizeram muitas
casas; se abriram mais dezessete negócios; se ajuntaram mui tos
matrimônios divorciados; se converteram muitos protestantes, que
até o presente vivem bem. Se dissolveram mais de oitenta con­
cubinários; se fizeram muitas restituições; se reconciliaram ini­
migos. Se fizeram duas Semanas Santas. Tornei a pregar desde
Cinza até Páscoa.
Tudo grátis. Tudo se deve à missão. Agora pretendo levantar
um hospital, porque a necessidade é grande."
Os contemporâneos existentes poderam afirmar que - Frei
Eugênio não exagerou.
- Na época em que Frei Eugênio missionou nas povoações
do Mato do Rio, o elemento servil ainda não minava mui tensamen­
te, as idéias contrárias à emancipação, mas, cada vez mais se ia ocu­
pando a atenção dos estadistas, pela crescente posição melindrosa
em que se viam colocados, ao encarar a momentosa questão, em
face dos interêsses sociais: o que já então dera lugar às medidas
enérgicas empregadas por Eusébio de Queirós.
Pode-se, pois, avaliar a posição esquerda em que se achariam
as missões apostólicas no Brasil, vendo de um lado a tolerância
legal dos poderes públicos relativos à escravidão; do outro os pe­
sares que ela devia ocasionar a êsses apóstolos da caridade, sendo­
lhes implorada frequentemente a proteção pelos infelizes cativos.
Pois bem. Frei Eugênio compreendendo a situação social,
escrevia sôbre êsse delicado assunto ao respeitável ancião, o Bispo
da Diocese de Mariana em 1855:
"Hoje conto nove anos e vinte seis dias que saí do Rio de
Janeiro. Preguei com todo o espírito apostólico, e nunca preguei
a respeito da escravatura e isso o assevero a V. Ex~ com fé de sa­
cerdote e de sacerdote capuchinho. Nunca me ocupei com seme­
lhante matéria, para não parecer subversiva a minha doutrina.
Limitei-me a apadrinhar alguns escravos de corrente, pega, argola
e outros instrumentos de ferro.
Algumas vêzes preguei sôbre os pais que tinham seus filhos
em seu próprio cativeiro; e que os vendiam ou davam em dote;
mas com tanta cautela, que estando em uma ocasião quatro dou­
tores presentes, admiraram a delicadeza do modo de expor a mi­
nha doutrina, baseada aliás na lei do próprio Brasil, que diz: -
UBERABA: HISTóRIA, FATOS E HOMENS 173

"O filho da escrava do próprio pai, é fôrro pela lei;" como está no
Direito Brasileiro, Livro 3~>, página 126.
Mas eu também pregava, que quem tivesse furtado o escravo
alheio, o devia restituir a seu senhor.
Em quanto ao exercício da Santa Missão, não temos recebido
nestes 9 anos e 26 dias, um vintém, nem do Govêrno, nem de nin­
guém : algumas esmolas que, sem ser pedidas, nos venham ofe­
recidas sem demora se guardam na caixa dos pobres."
- Frei Eugênio sofreu um desastre, do qual escapou muito
maltratado. Eis como êle o expôs ao superior dos capuchinhos em
6 de agôsto de 1861 :
"Depois de aturados serviços no púlpito, no confessionário e
na administração de um bom cemitério de pedra, que ficou con­
cluído (sendo êste o quadragésimo nono, que consigo do povo fa­
zer erigir) e mais obras na Matriz, que eram necessárias, tudo
concluído, preparava-me nova lide, quando um boi índômíto ar­
remessou-se contra mim que, pouco ágil pela vida sedentária do
confessionário, não pude nem soube escapar à desgraça. Resul­
tou-me, além de ferimentos na cabeça, o descarnamento de am­
bas as tíbias por muito tempo. Todo o movimento foi-me vedado,
e a nova cutícula formou-se tão delicada, que ao mais pequeno
roçar, torna-se em ferida. Deus teve dó de mim, deixou-me em
vida que, com abnegação e penitência alcançasse algum jus a sua
misericórdia."
Estas ofensas ocasionavam, ao paciente resignado, frequentes
acessos de erisipela.
-- Por ser muito honrosa à memória do benemérito capuchi­
nho, transcrevo infra a seguinte carta que verti do original no
idioma francês :
"Meu caro tio. - Achando-pie no Rio de Janeiro a bordo de
uma fragata, tive ocasião de conhecer os capuchinhos da missão,
que também aí se achavam.
Mostraram-nos e a tôda a equipagem, um afeto verdadeira­
mente evangélico, e em particular o Padre Eugênio Maria, que
teve para conosco tôdas as atenções possíveis; sendo-me verdadei­
ramente útil. Aproveito esta ocasião para vos exprimir com se­
gurança, o meu profundo respeito e afeição, e ouso ao mesmo tem­
po recomendar o dito Padre Eugênio à vossa bondade naquilo
que êle possa precisar em Roma.
Concluindo meus exames ficarei livre de embaraços e me
apressarei a ir pedir vossas bênçãos. Subscrevo-me vosso devotado
sobrinho - Guillaume Acton. - Dezembro de 1844. - A Sua Emi­
nência o Príncipe da Igreja, Carlo Acton. Roma."
- Frei Eugênio era notàvelmente calmo, resignado, paciente,
sem humilhação; caritativo sem afetação; zeloso e pronto no cum­
prímento do seu ministério, mesmo sacrificando-se, reto na obser­
vância de seus tratos reduzidos a escrito ou não.
. .
174 BORGES SAMPAIO

Possuia educação polida: entre as classes ignorantes, como


nas sociedades ilustradas; nas casas nobres ou nas choupanas, na
Igreja, na rua, ou na própria casa, atencioso sempre, havia-se
com nobreza e cavalheirismo.
Mas vivia como pobre: se o não tivessem espontâneamente
provido de algum alimento melhor, passava necessidades.
Um dia assisti a sua refeição do almôço, achando-se êle só na
mesa com seu companheiro Frei Arcângelo, leigo da mesma or­
dem franciscana - era sexta-feira .. Na mesa havia apenas um
grande prato, com talhadas de abóboras cozidas, e uma tigela con­
tendo alguma água quente, em que aquelas abóboras se tinham
cozido. Nessa água pôs alguma farinha. Não tomou outra coisa
na refeição, além destas duas iguarias.
Aventurei-me a ponderar, ser-lhe impróprio semelhante ali-
mento, já em si falho de princípios nutrientes.
- Devia comer alguma carne, disse-lhe.
- É dia de preceito, respondeu-me.
- Para Vossa Reverendíssima não deve haver êsse preceito.
Sua saúde precária, idade avançada e os trabalhos afadigo­
sos, reclamam alimentos que lhe nutram, e êstes lhe debilitam.
Por princípio natural deve evitar o preceito da Igreja, porque os
pobres carecem de sua existência, que é preciosa, a fim de con­
cluir êste hospital.
- Que se há de fazer? sou sacerdote e missionário capu­
chinho.
- Não repliquei receiando molestá-lo; mas a última resposta
do venerando ancião contristou-me, saindo dali compungido, sen­
tindo-me pequenino ao pé de tão grande alma.
- Esforçou-se o venerando missionário por dotar o hospital
com estatutos compromissórios, e não o pôde conseguir. Para isso
muito concorreu a descrença que atuava no espírito dos seus mais
importantes auxiliares - de que êle não conseguiria terminar as
obras para abrir o hospital; ou que, terminadas, não se sustentas­
se o serviço da hospitalidade por falta de receita, que fizesse face
às despesas. Toquei-lhe um dia nesse assunto, fazendo-me eco de
meus amigos.
- Conceda-me Deus vida e saúde por mais algum tempo, e
as obras estarão terminadas; disse-me.
o
- Mas o custeio para tratamento dos doentes ?
- Não haja cuidado. Tudo deixarei prevenido. Nada fal-
tará, porque a Divina Providência não desampara estas institui­
ções de caridade. Convém muito é têrmos estatutos nossos.
Todavia, as exigências do Poder Judiciário, que lhe impunha
prestação de contas e outras minudências insignificantes, sob o
errado pretexto de usar do direito de mão morta, como tive oca­
sião de dizer em outra nota, entibiava aquêles que se poderiam
UBERABA: HISTóRIA, FATOS E HOMENS 175

incumbir de organizar estatutos para o hospital, falecendo o fun­


dador sem ver o estabelecimento regulado por lei propriamente sua.
- O respeitável frade nunca abandonou o primeiro hábito
de burel, com que professou na ordem franciscana. Era abun­
dantemente remendado, e nos dias das principais solenidades da
comunidade, era com êle que se paramentava.
- Devia ter adquirido boa instrução e variada : na sua es­
tante foram achados 102 volumes de obras diversas, sendo - 8 de
escritura sagrada; 12 de teologia; 3 de direito canônico; 2 de di­
reito civil; 4 de filosofia; 6 de liturgia; 21 de eloquência sagrada;
18 de literatura; 3 de ciências; 3 de medicina; 6 de história e geo­
grafia; 15 de livros de piedade.
No púlpito era o grande missionário verdadeiro Hércules :
muitas vêzes pregou quatro horas seguidas missionando. Alguns
de seus panegíricos podiam ter sido tomados como modelos de elo­
quência. Sua voz era sonora, cheia e as palavras compassadas, cla­
ras, proferidas sem hesitação. Era dotado de memória prodigiosa,
o que lhe facilitava na oração o emprêgo de vasta sinonímia.
Espírito observador e previdente, diàriamente, antes de dei­
tar-se - na cama pouco confortável que usava - escrevia num
canhenho o santuário do dia, o ofício rezado, a ladainha, a ora­
ção da missa, a prática evangélica, a salve rainha, o de profundis,
as confissões e comunhões; se tinha pregado, feito batizados, ca­
samentos, ou obituários; se vísítara enfermos, ou assistira a mo­
ribundos.
Dos fenômenos meteorológicos, anotava os extraordinários -
a chuva, o frio, as tempestades, o calor excessivo; mas tudo sem
graduação. Registrava também um ou outro fato mais notável
dos ocorridos na cidade, ou consigo.
No fim de cada mês fazia recapitulação progressiva : a 31 de
maio de 1871, verificava-se dêsse canhenho, que, desde o comêço
das missões no Rio de Janeiro até o dito dia, que tinha feito 8.205
missões; administrado 17.599 comunhões; distribuído 1.360 livros,
1.672 medalhas, 1.632 estampas, 215 rosários, 207 terços; ter con­
seguido 187 apadrinhamentos; fizera apreensão de 585 livros
obscenos, 220 estampas idem; ter conseguido 686 libertações de es­
cravos, assistido a 394 moribundos e dado 19.614 hospitalidades.
Suas últimas anotações foram feitas na noite de 13 de junho;
a morte o surpreendeu na de 14, antes de ter apontado os fatos
dêsse dia.
- Descansai na paz dos justos, venerando sacerdote. Servis­
tes por favor à humanidade, exercendo desinteressadamente o que
há de mais sublime no coração dos mortais - a Caridade, pedestal
da religião cristã. Servistes aos pobres sem vanglória, como Jesus
Cristo tinha ensinado. Adquiristes o direito a que, ao menos, se
proclamem vossas admiráveis virtudes. Deus permitiu, embora
com linguagem sertanej a e rústica, mas sincera, eu pudesse ainda
registrá-las, tão cordial, quanto verdadeira e singelamente.
176 BORGES SAMPAIO

Muitos admiradores vossos ficarão satisfeitos com êste meu


procedimento, honrando assim, saudosos, a vossa memória; por­
que jamais sereis esquecido pelo bom povo uberabense, ao qual
legastes imudável padrão de glória - o portentoso hospital - o
grandioso cemitério.

Ao terminar esta notícia do venerando frade capuchinho, cum­


pro um dever em mostrar-me reconhecido à memória de seu com­
panheiro leigo, Frei Arcângelo; bem como a de seu sobrinho e ami­
go Luís Calcagno, ambos falecidos, pelo auxilio que me prestaram
na obtenção de apontamentos, que só êles me podiam fornecer;
embora grande cópia dêles a deva ao próprio Frei Eugênio.

O Hospital

Está situada a Casa de Misericórdia de Uberaba na colina dês­


te nome; isto é -
"Aquela que dá entrada na cidade, a quem vier do lado do
Pôrto da Ponte Alta, pelo lado da Misericórdia. É separada, à
direita, da Colina Estados Unidos, pelo regato que nasce na chá­
cara Joaquim dos Anjos; à esquerda, da Colina Barro Prêto, pelo
regato que nasce no capão conhecido por - Capão do Barro Prê­
to, - no Frasquinho". (Sampaio. Denominação das Ruas de Ube­
raba. 1880.)
iste grande edifício com o quintal cercado de muros de pe­
dra bem construídos, forma um quadrilongo, ocupando todo o
quarteirão que fazendo frente para o Largo da Misericórdia na ex­
tensão de 73 metros, tem o alinhamento - à esquerda, na Rua
Frei Eugênio, no fundo, com a Rua do Cemitério de São Francis­
co; - à direita, com a Rua Ponte Alta.
Fica-lhe no fundo do quintal e fronteiro a êste, o Cemitério
de São Francisco de Assis, do qual a construção apenas consiste
nos alicerces.
A área ocupada pelo edifício e quintal é de 73 metros por 273,
produzindo 19.929 metros quadrados.
Entre a capela, enfermarias e outros compartimentos que se
encontram ao entrar, na frente à grande portaria, há, no centro,
o jardim, rodeado de largas sarjetas a cimento para esgotos plu­
viais. Os lados dêste jardim medem 35x20,5 metros quadrados =
1.127,5 metros quadrados.
Tôda a construção descansa em grossos e profundos alicerces
de pedra. Eleva-se o pavimento sustentado por fortes esteios de
madeira de aroeira, da qual também são os portais das janelas e
das portas•
do exterior.
UBERABA: HISTôRIA, FATOS E HOMENS 177

Os vãos das paredes de tijolo e argamassa.

Para que se possa, a todo o tempo, formar uma idéia apre­


ximada da vestidâo do edifício quando se inaugurou o serviço, dei­
xarei aqui o registro de suas dimensões em metros lineares, com
relação a cada um dos diversos compartimentos; serviço que devo
à graciosidade do engenheiro-agrônomo Otávio Augusto de Paiva
Teixeira e agradeço :
Sala da portaria . 18,8x4,4
Sala de visitas . 11,0x4,4
Sala de cirurgia . 20,5x8,2
Sala destinada às senhoras enfêrmas . 18,3x8,0
Corredor da saída para o pátio do cruzeiro . 22,6x3,0
Refeitório . 36,5x5,5
Cozinha .................................. 10,3x5,2
Quarto do porteiro . 4,4x3,1
Sala de consultas . 4,4x3,1
Sala das operações . 8,lx4,4
Corredor . 8,lxl,6
Dois quartos reservados tendo cada um dêles .. 4,6x3,8
Quarto para roupas . 4,6x3,1
Quarto para um empregado . 4,6x3,8
Uma sala pequena . 4,0x2,7
Corredor que dá passagem para a cozinha . 6,0xl,9
Despensa ······ . 5,5x5,3
Quarto para empregado . 5,3x5,3
Dito para despejo . 5,5x5,3
Dito para cozinheiro . 6,0x3.8
Dito para enfermeiro . 8,0x6,4
Dito para empregado . 3,9x2,8
Dito idem , . 3,8x3,8

Compartimento em que são tratados os enfermos militares

Enfermaria . 35,5x8,2
Sala contígua . 18,9x8,2
Sala de visita . 10,5x4,8
Sala de espera . 7,Ox4,8
Sala destinada ao tratamento dos militares pre-
SOS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 4,6x4,0
Quarto de banho . 4,6x4,0
Dois quartos reservados, cada um dêles . 4,6x4,0
Corredor de saída para o quintal . 4,0x2,0
Capela . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 18,0x13,6
Sacristia . 24,5x8,2
178 BORGES SAMPAIO

Quarto para o Capelão . 7,2x4,6


Corredor que dá passagem para a sacristia . 7,3x4,6

As paredes de todos êstes compartimentos medem de altura


5 metros e 15 centímetros, concorrendo para que, cada um dêles,
contenha a capacidade de muitos metros cúbicos. Por exemplo,
se tomarmos um dêles, do qual os lados sejam 4,6x4,0 e a altura
5,15, lhe acharemos a capacidade de 96 metros e 760 decímetros
cúbicos. Se tomarmos um de 33,5x8,2x5,15, se lhe achará a capa­
cidade de 1,414 metros e 705 decímetros cúbicos. Mas como o fôr­
ro das enfermarias e salas é pregado nas tesouras, a capacidade
cúbica eleva-se muito mais, em favor da salubridade.
As grandes enfermarias gozam de servidão de pátios e do jar­
dim, para distração dos convalescentes.
O corpo do edifício, além da ampla portaria, tem 18 vistosas
janelas envidraçadas na frente, que olham para o Largo da Mise­
ricórdia, - 7 na face da Rua Frei Eugênio, - 7 na da Rua Ponte
Alta; afora as que dão luz e ar da parte do jardim e pátios.
Já notei que a frente do edifício mede 73 metros lineares : em
cada uma das faces laterais mede 35 metros. Disto resulta que
o seu corpo, sem as dependências, ocupa um quadrilongo de 2.555
metros quadrados. As águas furtadas, latrinas e outras depen­
dências, ocupam ainda grande área.
No corpo do edifício há ainda, no canto da Rua Frei Eugênio
com o largo, uma espaçosa adega, com cinco portas e três janelas,
que o fundador destinava para a farmácia e o pessoal, que a devia

servir.
Nesse compartimento funcionou por muitos anos o exter­
nato do Colégio das Dominicanas, regularmente frequentado por
cêrca de oitenta alunas. Tão vasto êle é.
A mesa administrativa atual fêz remover algumas divisões
internas, das do plano primitivo sem todavia alterar a forma ex­
terna. A antiga mesa tinha também retirado o corpo da igreja,
cuja área é atualmente ocupada pelo jardim.
Também a mesa atual já dotou o estabelecimento com a aqui­
sição de abundantes mananciais d'água potável de sua exclusiva
propriedade, e a fêz conduzir ao hospital por meio de 1.300 me­
tros de canos de ferro galvanizado.
No pátio colocou um depósito, também de ferro galvanizado,
com a capacidade de 2.000 litros.
Estabeleceu o serviço de esgotos, com seu coletor geral.
Sob nota - D - transcrevi o têrmo de demarcação do ter­
reno onde se levantaram os primeiros esteios e se fizeram os ali­
cerces do hospital; por novas concessões conseguiu Frei Eugênio
aumentá-lo, até atingir a área dos 19.929 metros quadrados que
atualmente tem, inclusive o quintal, como disse.
UBERABA: HISTóRIA, FATOS E HOMENS 179

tste importante prédio, com seu aqueduto e esgotos, pode ser


atualmente estimado no valor de 500:000$000 de réis, atendendo­
se aos melhoramentos que a mesa novamente eleita lhe há intro­
duzido e a valorização pelo tempo decorrido. Quando faleceu Frei
Eugênio, podia ser estimado em 100:000$000.
O hospital possui mais, constituindo patrimônio seu, uma ca­
sa de sólida construção ao lado esquerdo, canto da Rua Frei Eu­
gênio, com grande quintal, podendo estimar-se em 14:000$000 réis:
possui no fundo do quintal desta mesma casa, - uma outra de
diminutas proporções e fraca construção que pode estimar-se em
1:000$000 réis; - um terreno cercado por dois dos lados com mu­
ros de pedra, inculto; tendo anexas pequenas edificações, que po­
de estimar-se em 4: 000$000 réis; - os alicerces e terreno do Ce­
mitério de S. Francisco de Assis, que podem valer 500$000 réis; -
o uso e gôzo de outra casa, sita no fundo do Largo da Misericór­
dia; - recebe da Câmara Municipal dez por cento, adicionais às
rendas que arrecada; - e o Congresso Mineiro decretou em seu
favor o auxílio anual de 2 :000$ de réis, que começará a ser-lhe
pago de 1899 em diante; - mais as quotas anuais dos subscritores.
A colocação do Hospital de Uberaba, sob o ponto de vista hi­
giênico, merece sincera aprovação; a mais severa crítica, não lhe
acharia algum defeito.
Todo o prédio, dependências e quintal, estão em terreno ar-
giloso, muito enxuto e br~ndamente i~clinado, tendo a frente pa~a
o extenso largo à que da o nome; virada a frente para o norte
um pouco a noroeste, donde, para nós, são mais frequentes os ven­
tos quentes e secos, e por isso os mais salubres, passando a mais
de sessenta metros da perpendicular acima dos dois córregos que,
a grande distância, ladeiam a colina. O astro solar banha com sua
luz a frente do edifício quase todo o dia e em tôdas as estações
do ano.
Enfim, pode-se o considerar imune de emanações impuras,
advindas do solo ou dos ares, bem como dos córregos.
Domina-se dali com a vista a maior parte da cidade e é dis­
tinguido do passageiro que, pela via férrea Mojiana, se vai apro­
ximando da estação da companhia.
A Rua Frei Eugênio que sai do Largo da Misericórdia para o
Barro Prêto, entre os dois prédios - hospital e casa de Frei Eu­
gênio - presta-se a uma aléia magnífica; pois tem a largura de
28 metros, podendo adquirir a de 400 ou mais em linha reta.
Em tudo isto se revela a proficiência do venerando fundador,
que aliás não ficou aí.

O Largo da Misericórdia, que dá grande elegância ao hospital,


mereceu do benemérito franciscano especial cuidado. O documen­
to que segue é disso uma prova :
180 BORGES SAMPAIO

"llmos. Srs. Presidente e Vereadores da Câmara Municipal.


Diz Fr. Eugênio Maria de Gênova, que achando-se bastante
adiantada a obra da Santa Casa de Misericórdia de que foi encar­
regado, para que possa ficar mais elegante, vem requerer a V.
Sas. se dignem ordenar ao fiscal e arruadores, que não consintam
o edificar-se no largo, em frente à mesma casa, sem que fiquem
êsses edifícios no alinhamento do quadrado, fazendo frente para o
mesmo largo, e sem que ofendam o alinhamento atualmente de­
lineado.
Outrossim, o Supe. representa a V. Sas., que tendo obtido
faculdade do atual proprietário do rancho que está colocado den­
tro do largo, para que o mudasse, e tendo de ser colocado no ali­
nhamento da estalagem, no canto do muro e na saída para o Sa­
cramento, porém em terreno que ainda pertence à propriedade da
estalagem, tendo mais êle de ficar fazendo canto na rua que for­
ma o alinhamento com a Santa Casa e a de Antônio José da Silva
Barbosa; requer o Supe. que a Câmara conceda no alinhamento
da saída para o Sacramento, ao lado de baixo, tantos palmos quan­
tos ocupar na atualidade o mesmo rancho, para ficar fazendo parte
e na posse do proprietário da estalagem, o que é de bastante jus­
tiça pelo benefício público, que traz a retirada dêsse rancho do
centro do melhor largo da cidade, e com êle o arrumamento dos
animais dos viajantes.
Recomendando-se ao fiscal e arruador que concedam mais o
terreno necessário para o rancho ficar fazendo frente às duas ruas,
da saída do Sacramento e da Santa Casa, para assim não ofender
o alinhamento e aformoseamento do mesmo largo.
O Supe. está mais na diligência de ver se alcança mudar-se
a casa e quintal, que é hoje de Jesuína de tal e conta mais breve
alcançar essa faculdade; mas precisa que V. Sas. lhe concedam
igual terreno que ela ocupa, em lugar devoluto, à escolha da pro­
prietária, para se efetuar a mudança. É um benefício público
muito palpável o que traz a mudança dessa casa, melhorando as­
sim êsse largo, já muito belo, fazendo com que o edifício da Santa
Casa pareça mais elegante.
P. a V. Sas. sejam servido assim o deferir. E. R. Mce. Frei Eu­
gênio de Gênova, Missionário Apostólico Capuchinho, da Con­
gregação da Fé, no Império do Brasil."
"N9 7 Rs. 400 quatrocentos réis Pg. 400. Uberaba, 14 de ju­
lho de 1860. Antióquia. Despacho. - Deferido. Uberaba, Paço da
Câmara Municipal, 18 de outubro de 1860. - Rosa. Sampaio. Ma­
chado. Sousa. Marinho. Alves de Oliveira. Rocha."
Antes de seu falecimento, tinha Frei Eugénio conseguido as
duas remoções, e fixado o quadrilongo, com os dois lados lineares
da largura, alguma coisa desiguais, pois medem um dêles 152 me­
tros, e o seu paralelo 172; os do comprimento 262, produzindo a
área o total de 42.444 metros quadrados.
UBERABA: HISTóRIA, FATOS E HOMENS 181

Quando _em !880 a Câmara ~unicipal aprovou o meu proje­


to - Denominação das Ruas da Cidade de Uberaba -, ficou êste
largo com a seguinte localização oficial : - Largo da Misericórdia.
Situado na entrada da cidade para quem vem da Província de s.
Paulo, pela estrada do Pôrto da Ponte Alta. Principiam nêle à
direita, as Ruas Ponte_ Alta, Sacramento, São Joaquim, e Farinha
Podre; à esquerda as Ruas Cap. Domingos e Frei Eugênio; fin­
dam nêle, à esquerda, as Ruas Santa Rita, Ladeira e São Miguel.
Pertence à Colina da Misericórdia.
Projeta-se arborizar êste belíssimo largo e colocar no centro
dêle a estátua de Frei Eugênio, em bronze. Oxalá êsse nobre pen­
samento, em homenagem à memória do benemérito sacerdote, se
realize.
A Câmara Municipal já o fêz cercar de f~os de arame farpado,
reservando-lhe ruas espaçosas em todo o circuito.

O hospital tem como padroeiro S. Francisco de Assis, à qual


ordem pertenceu o fundador. Eis a provisão que concedeu a licen­
ça para ereção de sua capela :
"Hermógenes Cassimiro de Araújo Bruonswik, Oficial da Im­
perial Ordem da Rosa e Cavaleiro da de Cristo, Cônego Honorário
da Capela Imperial, Provisor e Vigário Geral da Comarca Ecle­
siástica do Nôvo Sul do Bispado de Goiás.
Faço saber, que atendendo ao que por sua petição, que fica
autuada no arquivo dêste juízo, me enviou a dizer Francisco Ro­
drigues Barcelos, Presidente das Presídias das Ordens da Senhora
do Monte do Carmo e de S. Francisco de Assis, criadas na cidade de
Uberaba · e tendo em consideração o disposto na Lei Provê Minei-
' de 6 de abril de 1839, Hei por bem conceder licenca
ra N<> 148 .>

(como pela minha presente provisão concedo), para que possa eri-
gir uma capela com a invocação de Nossa Senhora do Monte do
Carmo, e de s. Francisco de Assis, anexa ao Hospital de Caridade,
que, em virtude da citada lei, a Câmara Municipal da dita cidade
se acha construindo, a qual será ereta separada e livre dos usos
domésticos do mesmo hospital; como também preparada de todo
o necessário, e dos ornamentos de que usa a Igreja e depois de
assim cumprido, recorrerá ao Ilmo. e Revmo. Senhor Vigário Ca­
pitular, a fim de que a mande benzer e visitar na forma do ritual
romano; e nela se poderá celebrar o Santo Sacrifício da Missa e
permitir o Tabernáculo, em que se conserve o Santíssimo Sacra­
mento, para socorro espiritual dos enfermos; e dos terceiros da
referida ordem, e de outros vJzinhos do referido hospital, e a êstes
com licença do reverendo paroco respectivo.
Dada e passada nesta vila do Desemboque, Comarca Eclesiás­
tica do Nôvo Sul, do Bispado de Goiás, sob meu sinal e sêlo que
182 BORGES SAMPAIO

é o de - Valha sem sêlo ex-causa, aos 25 de maio de 1860, 399 da


Independência e do Império. E eu Lino José da Fonseca, escrivão
a fiz e escrevi. Cônego Hermógenes Cassemiro de Araújo Bru­
onswik. V. S. S. ex. e - Bruonswik.
Provisão pela qual V. s~ há por bem conceder licença a Fran­
cisco Rodrigues Barcelos, Presidente das Presídias das Ordens de
Nossa Senhora do Monte do Carmo e S. Francisco de Assis, para
erigir uma capela anexa ao Hospital de Caridade na cidade de Ube­
raba, como acima se declara. - Para V. S~ ver e assinar. - N9
2 Rs. 160 P. g. cento e sessenta réis. Desemboque, 25 de maio de
1860. Fonseca. - Martins. - Registrada a fls. 278 v", usque 279,
v<>, do livro competente. Desemboque, 25 de maio de 1860. O es­
crivão Fonseca - th. 2$400.
A. e S. 1400. F. e R. 2400. S. e N. 160. T. N. e V. Direitos Pro­
vinciais 10$800. Soma 17$160."

(in Revista do Arquivo Público Mineiro,


ano III, 1898, págs. 695/734)

..
ESTRADAS PRIMEVAS
NO SERTÃO DA FARINHA PODRE*

Senhores.
Alguns aventureiros, muitos dos ~uais arredios da justiça,
assentaram morada na margem do Rio das Velhas, cercanias da
Serra da Canastra e lá erigiram uma capela a Nossa Senhora do
Destêrro.
Descobriram haver ali abundância de ouro e logo agregaram­
se-lhes muitos indivíduos de vida incerta, e mesmo alguns que
desejavam tentar fortuna.
Em 1768 [á o lugar se tinha opulentado, porque a mineração
foi atraindo novos concorrentes.
~sse território pertencia então à Capitania de Goiás.
Dêsses mineiros, ao findar-se o século passado, alguns, aven­
turando, penetraram no território compreendido entre os Rios
Grande e Paranaíba, onde, à medida que se adiantavam, abriram
picadas e balizaram campinas.
tsse território, desde então, ficou sendo conhecido por FA­
RINHA PODRE.
Esta foi a primeira estrada que, dêsse núcleo chamado -
Nossa Senhora do Destêrro do Desemboque -, atravessou o local
onde hoje é situada a cidade de Uberaba.
~sses valentes homens, que temeràriamente se expuseram a
inúmeros perigos, opostos pelo gentio caiapó, as feras, os pânta­
nos, as densas florestas, as desertas chapadas, entre outros, que os
acompanhavam sob a bandeira, chamavam-se José Manuel da Sil­
va e Oliveira, Padre Hermógenes Cassimiro de Araújo Bruonswik
e Pedro Gonçalves da Silva.
~sses heróis devassadores das brenhas, romeiros das campinas,
quando atravessaram o Ribeirão Uberaba-Falso, a três quilômetros

* Discurso proferido no jantar oferecido pelo comércio à Diretoria da


Companhia Mojlana, quando em Uberaba se inaugurou a Estrada de Ferro,
a 23 de abril de 1889. (Nota da redação da Revista de Uberaba).
184 BORGES SAMPAIO

daqui, depararam com o caminho que da Província de São Paulo,


passando o Rio Grande na Espinha, veredava o viajante à capital
de Goiás, cujo Govêrno já havia estabelecido um registro para
percepção de impostos na Aldeia de Sant'Ana do Rio das Velhas.
Não se adiantaram quase; voltaram à Capela do Destêrro do
Desemboque.
As informações, que deu esta bandeira exploradora sôbre a
uberdade do solo, espalharam-se de pronto por muitos lugares de
Minas Gerais e concorreram para que de Tamanduá, Paracatu e
Desemboque muitos imigrantes viessem fundar nas cabeceiras do
Lajeado a primitiva povoação - Uberaba -, sob a invocação
de Santo Antônio.
~sses imigrantes precisaram de um comandante de distrito e
o tiveram digno na pessoa do Major Antônio Eustáquio da Silva e
Oliveira, ao mesmo tempo curador dos índios caiapós, primitivos
povoadores da nossa zona.
O Major Eustáquio veio edificar a sua morada na margem
esquerda do Córrego Laje no edifício onde atualmente habita, há
quarenta anos, o obscuro indivíduo que neste momento ocupa a
vossa atenção.
Os primeiros moradores do Lajeado foram-se, entretanto, apro­
ximando do Major Eustáquio, até que abandonaram o povoado
e a capela para edificarem outra aqui, sob a invocação de Santo
Antônio e São Sebastião.
Já por êsse tempo o Chapadão do Zagaia tinha se constituído
estrada geral de Tamanduá para o Desemboque e dali para Ube-
raba. .
Mais tarde, reconheceu o povo que, atravessando o Rio Grande
na Ponte Alta, diminuía a distância entre Uberaba e Franca, po­
voação esta que também começava a formar-se na Província de
São Paulo.
Aquêle pôrto abriu-se, com efeito, pelo concurso e justa influ­
ência do Padre Antônio José da Silva, e o povo de Uberaba teve
caminho para comerciar com a Côrte pelo Pôrto de Santos.
O Padre Hermógenes, nos primeiros anos dêste século, solici­
tou do Govêrno da Capitania de Goiás a concessão de favores pa­
.. ra abrir estrada mais curta e segura entre Uberaba e aquela ca-:­
pital; semelhante estrada, porém, sómente foi aberta pelo Major
Eustáquio, auxiliado por Pedro Gonçalves, mediante certas fa­
culdades e o auxílio de um mil cruzados que lhe foi pago pelo Go­
vêrno da Metrópole.
Essa estrada. abriu-se com direção a Morrinhas; mas os vian­
dantes preferiram continuar a tomar à direita, ainda que mais
longe, onde achavam povoados para socorrê-los, quando a da es­
querda era deserta. Hoje é preferida esta, por acharem-se nela
os auxílios precisos, ser mais curta e transitável; é também por
ela que a expedição do Coronel Cunha Matos vai locando os pos­
tes que devem levar os fios telegráficos a Goiás.
UBERABA: HISTORIA, FATOS E HOMENS 185

Os imigrantes continuaram a afluir. Adiantaram-se mais


além. Formaram-se sítios, fazendas, arraiais, freguesias, vilas e
cidades. Uberaba precisou, pois, de multiplicar suas relações agrí­
colas e comerciais, especialmente a indústria do gado; daí o de­
senvolvimento que em tôda a zona tomou o cruzamento dos ca­
minhos vicinais, atuais.
Foram estas as primitivas estradas, no território Farinha Po­
dre, que deram origem a outras, e mais tarde a outras, para as
suas necessidades locais, mas, Uberaba conservou sempre a sua
comunicação com a Côrte pela Província de São Paulo, excetuan­
do o transporte do gado que continuou a ser feito pela Província
do Rio de Janeiro. Por isso mesmo apenas conservaram a deno­
minação de - estradas gerais-, a que de São Paulo se dirigia a
Goiás e a do Chapadão do Zagaia, ambas por intermédio de Ube­
raba.
Mas, que estradas eram essas?
De estradas tinham apenas o nome; por isso que eram sim­
ples veredas, sem alinhamento, nivelamento e leito cômodo; a pró­
pria que conduzia a Santos, até poucos anos atrás, conheci eriçada
de pedras sôltas e ziguezagues, onde não faltavam atoleiros; as­
sim a conheci desde quarenta e dois anos, que nela passei à pri­
meira vez e muitas mais depois.
Entretanto, senhores, estas coisas, que bem conheceis e me
fizeram demorar mais do que convinha nesta ocasião, me torna­
ram enfadonho. Relevai-me, porque o meu intento neste rústico
esbôço, foi o fazer realçar o benefício que a êstes sertões vem tra­
zer a Estrada de Ferro Mojiana, hoje inaugurada em Uberaba.
O assunto é elevado e eu lamento a carência de dotes inte­
lectuais, para nesta ocasião, em que me vejo contente por êste
fato grandioso que planta um marco indestrutível no progresso
desta zona, escrevendo ao mesmo tempo uma página de ouro na
História de Uberaba -, poder melhor comparar o passado rudi­
mentar com o lisonjeiro futuro que nos aguarda.
É em procura das riquezas que os homens, dia para dia, ten­
tam a descoberta, a exploração de novos campos de atividade co­
mercial. Pela reunião dos grandes centros, portanto, tentam êles
consegui-los; sendo por estradas mais curtas e mais seguras que
se esforçam por alcançá-las.
"O tráfego das eras priscas, disse recentemente Wilson, fazia­
se por terra; viajava-se em caravanas, com o intuito de proteção
mútua; parava-se nos lugares onde se encontravam alimentos e
água; nos pontos mais importantes dessas paradas, erguiam-se
povoados.
Depois, com a extensão do comércio, veio a necessidade de
transportar as mercadorias através de países e tribos independen­
tes que exigiam se abandonasse o trânsito. Fundaram-se pois, ci­
dades nos lugares em que se operava essa transmissão de merca-
186 BORGES SAMPAIO

darias, onde essa permuta de produtos de um país a outro, se pu­


desse fazer útílmente."
Pois bem. Êste esbôço transformador, traçado pelo sábio es­
critor, é o da transformação da - Farinha Podre-, no atual -
Triângulo Mineiro.
Se, genericamente, naquelas eras, o comércio se fazia por
camelos, entre nós o muar, o cavalo e o boi executaram o tráfego:
assim continuará a fazer-se, ainda, nas estradas primitivas, con­
vergentes àquela que hoje se inaugurou, e por cujo motivo nos
achamos hoje reunidos.
Entretanto, honra e louvor devemos aos heróis dêste sertão :
não só aos primitivos Bandeirantes, como aos que, sucedendo-lhes,
descobriram os recursos naturais do solo; os viram desenvolver e
progredir, dando-nos o ensejo de hoje coroarmos, com efusão de
júbilo, a grande obra por êsses beneméritos começada e conti­
nuada.
Saudemos, pois, a todos os que concorreram, direta ou indire­
tamente, para que, no dia de hoje, se inaugurasse a via férrea
Mojiana em Uberaba, proporcionando-nos o meio de, em três dias,

.··:;·.. .

Ponte do Jaguara sôbre o Rio Grande - E. Ferro Mojiana, em


foto publicada no princípio do século
UBERABA: HISTÓRIA, FATOS E HOMENS 187

acharmos-nos pessoalmente na. capital do Império, e, em quatro,


na capital da Província; bem como, em poucas horas, podermos
saber dos nossos interêsses pelo telégrafo, sem sairmos da nossa
casa; graças ao vapor e à eletricidade; graças à Companhia Mo­
jiana, aqui representada pela sua digna diretoria; graças à ilus­
trada Assembléia Legislativa Mineira; graças ao concurso do Go­
vêrno Provincial que assinou o contrato com a Companhia; gra­
ças aos ilustres deputados provinciais do distrito que obtiveram o
privilégio e regularam as condições dêle; graças ao pessoal téc­
nico e administrativo da engenharia que alinhou o traçado e o
chefe que lhe regulou as bases; graças a todos êsses trabalhadores
da pá e alvião que, sob direção vigilante, removeram os obstáculos,
opostos pela natureza ao nivelamento; graças a todos aquêles, e
outros, e muitos êles são, que concorreram para a grande obra que
hoje se inaugurou.
Em nome, pois, do Jornal do Comércio, que represento nesta
festa do progresso, peço o brinde para todos os que concorreram
para o engrandecimento de Uberaba.
Uberaba, 23 de abril de 1889.

(in Revista de Uberaba, n? 8. Uberaba, Ti­


pografia da Livraria Século XX, outubro
1904, págs. 186/189)
UBERABA - ORIGEM DESTA DENOMINAÇÃO

Quem escreve estas linhas procurou conhecer a origem da


palavra - Uberaba - por que é tão conhecida a cidade dêste no­
me.
Nos documentos e outros papéis antigos examinados neste
intuito, alguns dos quais foram transcritos entre os aditamentos
dêste livro * e outros correm impressos, encontra-se esta palavra
escrita por sete modos diferentes:
Verava
Berava
Beraba
Vberava
Oberava
Uberava
Uberaba.

A julgar-se pelos manuscritos coevos da fundação e desenvolvi­


mento do povoado, seu nome é - Berava -. Assim se vê escrito
nos atos originais: - provisão da licença eclesiástica para a exe­
cução da Capela de Santo Antônio e São Sebastião em 1818; pro­
visão do Govêrno Geral para o mesmo fim, no mesmo ano; auto
da bênção da capela no mesmo ano; auto do inventário, no mes-
mo ano; lotação;
Parece suficiente esta prova para ficar assentado que, -
Berava - foi o nome primitivo do povoado.
Entretanto, quer na proposta do Prelado de Goiás para a
apresentação do Padre Antônio José da Silva no lugar de vigário, o
primeiro colado na povoação - 1829; quer no decreto da apresen-

* o livro mencionado, cujos originais estão no Instituto Histórico e Geo­


gráfico Brasileiro, constitui-se de A Nomenclatura das Ruas de Uberaba,
ao qual Borges Sampaio acrescentou, na forma de aditamentos, uma série
de artigos, pequenos ensaios e documentos, na sua maioria incluídos, pos­
teriormente, em outros trabalhos do Autor. (Nota da Editôra).
190 BORGES SAMPAIO

tação - 1830; quer na Carta Imperial que o apresentou - 1830,


já se encontra o povoado com a denominação de - Uberava -.
Foi bastante um período de doze anos, para que, em documen­
tos oficiais, de natureza tão transcendente, com relação ao assunto,
o povoado conhecido por Berava em 1818, se passasse a chamar
Uberava em 1830, nos atos oficiais, civis e eclesiásticos, referentes
à sua fundação e desenvolvimento.
Do que proveio esta mudança?
O Padre Leandro Rebelo Peixoto de Lacerda, já nomeado,
O Padre Leandro Rebelo Peixoto de Lacerda, já nomeado, e
penetrou no Sertão do Nôvo Sul da Farinha Podre em 1826/27,
justamente no período em que se vê transformada de Berava
para Uberava, a denominação do povoado, que atualmente se
chama Uberaba.
:Êste padre de muita ilustração nas tradições dêste lugar,
escreveu a 2 de outubro daquele ano ao Dr. José Teixeira de Vas­
concelos: -
"Vi talvez o mais fértil terreno d'América; ... a produção ordi­
nária, de mais de duzentos e cinquenta por um e chega a trezentos
e mais. ... "
Era, pois, no dizer do Padre Leandro, um terreno - ubérri­
mo -; a uberdade era com efeito peculiar a tôda a zona de "mais
de noventa léguas, ... onde os campos são de manjericão", dizia êle,
e tinham feito a admiração do ilustrado sacerdote, que, sob o títu­
lo - "Narração" -, fêz do território uma descrição sucinta, mas
grandemente lisonjeira. ·
Deve naturalmente provir dêste fato a tradição ainda cor­
rente de que Uberaba quer dizer - terra ubérrima -, terra fértil.
A isto não se objetava razoàvelmente com as palavras -
Beraba - Verava - Vberava - que tenho encontrado em escritos
antigos, não oficiais, que possuo. Antes considero êrro de escrita,
ou, quiçá, de pronúncia, por fácil compreensão.
Pode todavia objetar-se com o encontrar-se a palavra - Ube­
raba - assim escrita na História Topográfica, do Padre Antônio
José da Silva, visto supô-la datada de 1825 ou 1826. Não deverá
.. porém isto obstar, desde que se conceba ter o Padre Leandro acha­
do a palavra transformada de Berava para Uberava, aproveitan­
do-a para melhor acentuar-se na origem e pronunciação, pela
uberdade do solo.
A objeção para mim mais séria é a que resulta de ter sido o
povoado fundado na proximidade da margem do Rio Berava; rio
que no Dicionário Histórico e Geográfico do Brasil, por Milliet
(1845), já se encontra transformado em Uberava - Falso.
Não é boa a informação que em tal assunto dá êste Dicionário,
sôbre os Rios Uberava - Falso e Uberava - Verdadeiro; sem con­
tudo entender que isto deva influir na denominação do povoado
Uberaba.
UBE.RABA: HISTÓRIA, FATOS E HOMENS 191

Não é neste lugar encontrada tradição alguma, nem a tenho


encontrado em escritos particulares ou atos oficiais, novos ou an­
tigos, que dê fundamento às definições de Uberava - Falso e Ube­
rava - Verdadeiro dadas por Milliet.
O Rio Uberaba - Falso, segundo a própria descrição do escri­
tor localizando-o, é o Rio Uberaba que corre a meia légua da po­
voação de Uberaba; o mesmo que recebe, nessa mesma distância de
meia légua, as águas do Regato Laje que atravessa a cidade. O Rio
Uberaba - Verdadeiro, é o Ribeirão Uberabinha que se lança no
Rio das Velhas, no ponto onde é situada a sede da Freguesia de São
Pedro de Uberabinha, em frente à antiga Aldeia de Santa Ana dos
índios, ou do Rio das Velhas.
A nenhum dêstes dois, rio e ribeirão, se dá, ou deu, por qual­
quer razão de mim conhecida, o epíteto de - Falso - ou -
Verdadeiro.
Entretanto, não obsta tais epítetos, que o rio, na proxi­
midade de cuja margem esquerda se fundou o povoado de Uberaba,
se tivesse antes chamado Berava, originando a atual denominação
ou a primitiva.
Mas, donde provém o vocábulo Berava por que primitivamente
se conheceu o rio, nas proximidades do qual fundou-se o povoado
Berava, que depois tomou a denominação Uberaba ?
Encontrei a tradição, com homens primitivos, de que Berava
era nome indígena, e significava Veado, de que abundava o terri­
tório; (Tenente-Coronel Manuel José dos Santos; Capitão Manuel
Rodrigues da Cunha Matos; Pedro Gonçalves da Silva; Pedro Pan­
ga, eram dêste pensar). Não disponho de glossários indígenas,
principalmente do dialeto caiapó que habitava esta zona; mas pelo
que pude observar no glossário do Dr. Martius (1863), não vejo na­
turalidade nesta significação.
Mesmo porque êste ilustrado escritor, a pág. 517 da citada
obra, faz derivar
Oberava, Uberaba, de oba, fôlha genuína de palmeira, yraba
amarga : ( cor palmera amarum) , referindo-se à lagoa que serve
de linha divisória entre o Brasil e a Bolívia.
É exato que o local, onde fundou-se a povoação, era um capão
(mata de pequena dimensão), em que abundava a preciosa pal­
meira Gariroba; assim também era esta palmeira abundante nas
margens do rio, próximo às quais se fundou o primitivo povoadb
Berava.
Inclino-me mais à opinião de Martius.
Entretanto, se não fôr a verdadeira, o historiador futuro des­
penda benevolência para o obscuro escritor destas linhas, que só de­
sejou esclarecê-lo, registrando.
(Original existente no Instituto Histórico e
Geográfico Brasileiro)
A M(JSICA EM UBERABA

Pela agremiação de algumas famílias num ponto afastado, for­


ma-se o povoado - arraial.
Pouco tempo depois, edifica-se a capela para o culto religioso e
chega o padre.
Construída esta, tendo padre ou não, o núcleo sente a neces­
sidade da música por duplo fim - religioso e profano.
Na maioria dos casos, é esta a primeira corporação que se for­
ma em o nôvo povoado, sendo o seu diretor o mestre-escola dos me­
ninos da nova aldeia.
Não sei se isto sucede assim em todos os países ou mesmo em
algumas zonas do Brasil; pelo menos, nos lugares que por aqui
conheço, há mais de meio século, assim aconteceu.
Talvez que por não se dar isso em tôda a parte, os historiado­
res que se hão ocupado em descrever o comêço de uma povoação,
raras vêzes determinam-se a tratar, localmente, dêsse útil e agra­
dável elemento de sociabilidade - a música.
Entretanto, a música, se não tiver visto nascer a povoação, tê­
la-á visto criar e desenvolver-se.
É que, a música, também por sua vez auxilia a agremiação,
deleitando e civilizando.
Quantas vêzes não tenho ouvido dizer, com ufania, aos habi­
tantes dêsses povoados em embrião: "já possuímos uma banda
de música !"
Verdade é que, nesses lugares, meia dúzia de músicos, mesmo
que sejam principiantes, formam a corporação e esta satisfaz as
necessidades da localidade, corno nas grandes cidades os melhores
arregimentados artistas bem instrumentados.
E nesses lugares aldeanos, com essas bandas de música, as fes­
tas são bem alegres ! ...
A MúSICA ! ...
Haverá necessidade de encarecer a música, essa arte tão ge­
ralmente espalhada, tão poderosa em seus efeitos, e que tanto con­
tribui, de maneira a mais poderosa e feliz, aos encantos da vida
civilizada, e mesmo da selvagem ?
Não há essa necessidade.
194 BORGES SAMPAIO

A música tem o privilégio de excitar as simpatias e as emo­


ções, atuando viva e profundamente sôbre a alma.
Dizia Cap, há mais de meio século, que a música é a arte des­
tinada a agradar e a comover.
Cap dizia a verdade, quer se aplique a asserção ao profano,
quer ao religioso; para os efeitos da vida, ou os lamentos da morte.
É que a música descansa em bases tão racionais, como as ou­
tras artes.
Mas, para bem o sentir e julgar, necessitamos, não só de or­
ganização especial, como também conhecer os seus efeitos sociais;
bem como o seu alcance sério e útil.
Refletíndo-se sôbre a necessidade, desde os tempos mais re­
motos até nós, os homens têm sentido o benefício da música - no
descanso e no combate; na mágoa e no prazer; seus efeitos nas ce­
rimônias religiosas; no abrilhantamento das festas da igreja, da
praça e do domicílio; como ela contribui ao deleite ou à vitória,
nos variados casos da nossa existência; o alívio que dá após as nos­
sas preocupações; o consôlo aos que sobrevivem; o emprêgo que
pode ter nas muitas horas que proporciona a nossa vida para o re­
pouso - concebe-se que, longe de ser frívola, esta arte é das mais
necessárias aos homens reunidos em sociedade; uma consolação;
um benefício; um meio poderoso sôbre o nosso espírito. Que, enfim,
suas aplicações popularizadas, contribuem poderosamente para o
bem estar social.
Tal deve também ter sido a razão porque, nas povoações nas­
centes, forma-se, em breve, a banda de música.

Pelo que respeita à povoação de Uberaba, na antiga Farinha


Podre sei, que a primeira corporação de música que nela se orga­
nizou, foi a dos Bernardes.
Compunha-se de irmãos e parentes de uma família numerosa
de poucos recursos, conhecida geralmente pela alcunha - dos Ber­
nardes - e mais de um ou outro membro, que se lhe agregava.
Conservou-se de 1815 até 1850.
Ainda conheci, desde cinquenta e quatro anos atrás, alguns
dos mais velhos dêstes músicos, quase todos rabequistas ou coris­
tas : entre êles, creio que o falecido por último, o de nome Joaquim
Bernardes Ferreira que cantava tiple na idade de mais de setenta
anos.
Os instrumentos então usados por aquela corporação musical
eram as antigas trompas circulares, às quais se adicionavam tubos,
também circulares, que o artista conduzia enfiados no braço es­
querdo, em número de quatro a seis, e lhe serviam para elevar ou
abaixar o tom do instrumento; rabeca, violoncelo, triângulo, clari­
neta, flauta, flautim e bombo.
UBERABA: HISTÓRIA, FATOS E HOMENS 195

. o primeiro instrumento com pistons (sistema francês) , ou


piston propriamente dito, que apareceu em Uberaba, foi trazido
da cidade de Oliveira, Minas, por Antônio Eduardo da Mota Ramos
em 1853, falecido há muitos anos.
A primeira violeta trouxe-a, no mesmo ano, o distinto ouro­
pretano Dr. Joaquim Caetano da Silva Guimarães, quando aqui
era juiz de direito; hoje falecido comq Ministro do Supremo Tri­
bunal de Justiça aposentado.
Daí em diante, os instrumentos modernos foram substituin­
do os antigos.
Tendo sido a povoação elevada à categoria de paróquia em
1820, não tardou que para ela viesse residir o Padre Zeferino Ba­
tista Carmo. :tste padre era apaixonadíssimo pela música, tanto
religiosa como profana : era ao mesmo tempo conhecedor e bom
executor do cantochão, e dispensou muita proteção à música dos
Bernardes.
Transferindo o Padre Zeferino Batista Carmo sua residência
para Santa Rita do Paraíso, onde faleceu em 1873, pouco e pouco
foi sendo a música dos Bernardes substituída por outra que se for­
mou, dirigida por Francisco José de Camargos, o qual conseguiu
mantê-la o melhor que pôde até 1854, quando transferiu sua resi­
dência para a nova vila do Prata como escrivão de órfãos, onde fa-
leceu octogenário muitos anos depois. ·
Francisco José de Camargos ensinava primeiras letras aos me­
ninos, e daí veio a ser mais conhecido por Mestre Camargos; ve­
rificando-se, pois, a respeito dêle, o que acima tive ocasião de dizer,
que - quase sempre o mestre-escola da nova povoação, é o diretor
da corporação musical da nova aldeia.
Muitos deveram e outros ainda devem ao bom velho Mestre
Camargos, como eu também devo, saudosa recordação.
Enquanto a mim, por ter tentado fazer-me conhecer os sinais
alfabéticos dessa arte de encantos na vida civilizada; de ação viva
e profunda sôbre a alma, mas na qual nada me adiantei, para bem
conhecer-lhe as delícias.
Entretanto, o Capitão José Maria do Nascimento, sobrinho do
Padre Zeferino Batista Carmo, sendo amante da arte e tendo
dêste bebido-lhe os rudimentos, desde 1852 foi congregando ele­
mentos para ela. Observando a caducidade dos Bernardes, a efe­
tiva retirada de seu tio Padre Zeferino e a que projetava o Mestre
Camargos, conseguiu - êle só - criar outra corporação, intei­
ramente nova, com pessoas da família e poucas estranhas, à qual
soube dar ordem regulamentar em circunstâncias tais que, apesar
de meio século decorrido, ainda existe, em progresso, com a deno­
minação de - União Uberabense.
Esta corporação começou a distinguir-se, distinguiu-se sempre
e se distingue ainda, pelo variado arquivo de que sempre dispôs,
principalmente em obras sacras do notável músico Francisco Ma-
196 BORGES SAMPAIO

nuel, que a tradição dá como insigne compositor de música nesse


gênero e no cantochão. Obras essas que tinham sido cedidas pelo
Padre Zeferino a seu sobrinho e ainda são escutadas com atenção,
quando se executam nos atos religiosos.
O Capitão José Maria do Nascimento foi agraciado em 1884
por sua Excelência Reverendíssima o Senhor D. Cláudio Ponce de
Leão, então Bispo da Diocese de Goiás, com o título de - Mestre
do Côro - na Matriz de Uberaba, sendo-lhe logo expedida a pro­
visão pela Câmara Eclesiástica.
Tendo o Coronel Antônio Cesário da Silva e Oliveira, genro do
Capitão Nascimento, regido por alguns anos esta corporação, ao
retirar-se dela para fixar residência na cidade do Prata, deixou
no arquivo composições suas, enviando-lhe de lá outras - obras
preciosas, que frequentemente são executadas e ouvidas com pra­
zer, quer na igreja, quer fora dela; aqui e fora daqui.
Falecendo o Capitão Nascimento em 29 de setembro de 1885,
tomou a direção desta corporação seu filho Augusto Camparini do
Nascimento, até falecer em 29 de maio de 1895, que a manteve
com luzimento.
Luís de Carvalho, fluminense que frequentara a Academia
das Belas Artes no Rio de Janeiro, tendo feito parte dela por algum
tempo antes de falecer o Capitão Nascimento e pouco depois, dei­
xou-lhe no arquivo algumas obras, ligeiras, mas de bom gôsto.
Desde 1863 até 1867, a União Uberabense foi a música do ba­
talhão n? 32 da Guarda Nacional do serviço ativo e prestou mais
relevantes serviços por ocasião de reunirem-se aqui os contingen­
tes de fôrças militares, que desta cidade sairam para a antiga Pro­
víncia de Mato Grosso, por motivo da Guerra do Paraguai, às
ordens do Coronel Manuel Pedro Drago em 4 de setembro de 1865;
apresentando-se sempre fardada para o serviço e reuniões popu­
lares a expensas suas e com instrumentos seus. Até o presente os
seus membros se apresentam em uniformes brilhantes nas pri­
meiras solenidades, não negando o seu concurso para elas com ou
sem retribuição.
A instrumentação atualmente, é do sistema moderno.
Em 1864 criou-se outra banda de música, tendo por chefe o
falecido Francisco Gonçalves Moreira, a qual foi contratada para
acompanhar as fôrças que marcharam daqui para Mato Grosso, e
debandou-se em campanha.
O fluminense Luís de Carvalho, que acima nomeei, organizou
outra corporação musical de 1887, que se denominou - Lira da
Mocidade -; mas também terminou em 1889, tendo sido pequeno
o seu desenvolvimento.
Em 1883 formou-se outra corporação, que tomou o nome de
Filarmônica, tendo por organizador o Major José Teixeira de San­
tana, que a regeu cêrca de um ano, substituindo-o nessa regência
o Professor da Escola Normal Ilídio Salatiel dos Santos até 1886,
197
UBERABA: HISTóRIA, FATOS E HOMENS

ao qual substituiu Joaquim Tomé dos Santos em 1887, deixando


então de existir.
Nos anos de 1896 a 1900 houve ainda em Uberaba duas ban-
das de música. Uma do segundo batalhão policial do Estado mi­
neiro, bem dirigida e instrumentada, mas suprimida pelo regula­
mento do Corpo. A outra pertencente ao Seminário Episcopal,
deixando de existir em breve tempo.
Nenhuma das corporações musicais em Uberaba, entretanto,
conseguiu possuir um arquivo de obras variadas, antigas e moder­
nas, sacras e profanas, igualando ou aproximando, ao que sempre
possuiu a União Uberabense, nem manter a firmeza e coesão desta
última : podendo afirmar-se que, qualquer das outras, não a igua­
lou na constância, nem a excedeu na instrumentação, execução e
brilho; pois que esta, com seu estandarte branco, legendário entre
seus membros, tem visto a formação e a dissolução de tôdas as
suas congêneres, sem se perturbar, desorganizar ou enfraquecer,
sendo a única existente na cidade de Uberaba atualmente, dirigida
pelo Tenente-Coronel Carlos Maria do Nascimento, outro filho do
primitivo fundador, o Capitão José Maria do Nascimento; a que
abrilhanta as festividades religiosas, os ofícios fúnebres, os bailes,
os espetáculos, os carnavais, as manifestações, as inaugurações, as
alvoradas, o Jardim Público e outras diversões; com remuneração
ou sem ela, como acima disse; sempre aplaudida pelo nosso pú­
blico, pelos hóspedes que visitam Uberaba, e nos diversos lugares
para onde tem sido chamada; sendo-lhe bem apropriado o título de
União Uberabense com o qual o fundador a criou, há meio século,
pois tem subsistido a corporação sempre - Unida.
Seu pessoal era 110 dia 1 <? de janeiro de 1889, o seguinte :
Augusto Camparini do Nascimento, diretor; Carlos Maria do
Nascimento, regente; Francisco Speridião Rodrigues; Manuel Gar­
cia Rosa; Antônio de Sales Cabeleira; Eugênio da Cruz Machado;
Frederico Gerson do Nascimento; José Luís do Nascimento: João
Guilherme dos Santos; Pedro Américo; Antônio Rodrigues Go­
mes Machado; Ubaldo Ribeiro do Nascimento; José Irênio de Re­
sende; Joaquim da Natividade; Valmor Camparini do Nascimento;
José Valeriano de Paula Neri; Antônio Dolácio Mendes, discípulo;
José Garcia Rosa, discípulo.
E no dia 13 de maio de 1902 :
Carlos Maria do rascimento, diretor; Elói Bernardes Ferreira,
regente; José Garcia Rosa; Ernâni de Martino; Osório Maia: Ab­
dias Ribeiro dos Santos; Augusto José Machado; Adolfo Muccioli;
Antônio de Martino; Rigoleto de Martino; Lino Luís do Nascimen­
to; Francisco Marcheti do Nascimento; José Inocêncio Gordo; Joa­
quim António de Oliveira; Manuel Marques dos Santos; Salustiano
da Cunha Barreto; Juventino Bertoldo dos Santos; Clarindo Mar­
ques dos Santos; Augusto Soares de Lima; Benedito Luís do Nas­
cimento; José Inácio Rouviz; Antônio de Sales Cabeleira; João Gre-
198 BORGES SAMPAIO

Banda de Música "União Uberabense" no início do século

gório do Nascimento; Henrique Rodrigues Vilaça; Fernando To­


mé da Fonseca; Elviro Luís do Nascimento.

Antes de concluir, seja-me permitido consignar a devoção que


a União Uberabense pratica, desde sua criação em 1852 até o pre­
sente.
Refiro-me à missa com ladainha de Nossa Senhora do Rosário,
na sua igreja à Rua do Comércio, em todos os sábados, e à festa
anual dos prêtos na mesma igreja.
Atos que abrilhanta com louvável constância, gratuitamente,
há meio século.

Oferecendo esta despretenciosa notícia ao Arquivo Público Mi­


neiro, além de cumprir um dever como seu correspondente oficial,
UBERABA: HISTóRIA, FATOS E HOMENS 199

presto um pequeno tributo de veneração ao fundador da União


Uberabense, como grato admirador dessa corporação modêlo.

Uberaba, 8 de junho de 1902.

(in Revista do Arquivo Público Mineiro,


ano VII, 1902, págs. 691/699. - Transcrito
no Almanaque Uberabense para o ano de
1904. Uberaba, Livraria Século XX -
Editôra, págs. 65/73)

OBSERVAÇõES METEOROLóGICAS El\1 UBERABA

Ilmo. Sr. Diretor do Arquivo Público Mineiro. - Enviando­


vos hoje o quadro das observações meteorológicas que registrei no
quinquênio de 1892 a 1896, entendi dever acompanhá-lo de algu­
mas razões, a êle relativas.
Não será científico o meu trabalho, mas é consciencioso : é o
resultado de constante e paciente atenção, por mim prestada aos
aparelhos indicadores do estado atmosférico nesse longo período,
muitas vêzes praticada com sacrifícios pelo estado de minha saúde
precária e idade avançada em que já me achava, tudo superando
para conseguir o clima climatológico de Uberaba; por isso que, no
período de cinco anos de observações não interrompidas, já pode
ter-se dêle uma idéia bastante aproximada.
o meu quadro resume os registros dos últimos cinco anos ape­
nas, embora os tivesse feito desde mais de quinze anos antes; é
que, neste quinquênio, as observações foram registradas com as
correções diàriamente, que em 1892 indicou-me o Dr. J. de Oli­
veira Lacaille, quando comparou os meus aparelhos com os do
Observatório do Rio de Janeiro, e eram conduzidos pela Comissão
do Planalto de Goiás, dirigida pelo Dr. Luís Cruls.
Se, pois, o período é apenas quinquenal, tenho ao menos cer­
teza da exatidão, para poder ser o quadro consultado com segu­
rança, secularmente.
Meus aparelhos funcionam bem; "a colocação é boa", assim
me o disse o Dr. Cruls, quando, no lugar, os examinou, tendo-me
dito o mesmo o Dr. Daenert.
Com efeito, não tenho poupado esforços para obtê-los exatos
e bem colocá-los, sob a ação direta da atmosfera, conservando-os
( os termômetros, psicrômetros, higrômetro, evaporômetro e azo­
nômetro) um metro acima de tabuleiro gramado sempre viçoso,
protegidos por duplo teto, sendo o superior metálico e o inferior
de telhas argilosas francesas.
Tentei registrar as irradiações da 1 uz solar.
Consegui obter o respectivo aparelho, mas um desastre me
privou de continuar a tomar-lhe as observações. Obtive segundo,
chegou-me inutilizado. Desisti de adquirir terceiro pelo seu preço
202 BORGES SAMPAIO

elevado e o risco do transporte; o que aliás muito sinto, em vista


do quanto são úteis tais observações. à agricultura.

Ao Dr. Luís Cruls, a quem devo muitos ensinamentos para a


direção dos registros, conhecimento do modo de funcionarem os
instrumentos, operações e indicações geográficas, mandei quadros
mensais, anuais e quinquenal das minhas observações. Receben­
do-os, honrou-me com as seguintes expressões, em carta de 7 do
corrente mês :
"Com sua carta de 31 do passado recebi os importantes qua­
dros das observações meteorológicas feitas em Uberaba pelo ami­
go, durante o quinquênio de 1892 a 1896, e agradeço penhorado a
lembrança de me remeter o primeiro exemplar de tão precioso tra­
balho. Êle constitui uma prova evidente do quanto pode a vontade
aliada à inteligência, qualidades de que deu evidentes provas, para
levàr avante seu programa.
É-me grato lembrar que até certo ponto coube-me a satis­
fação de dirigir-lhe palavras de animação, quando em 1892, por
ocasião da minha primeira estada em Uberaba, tive a fortuna de
estreitar convosco relações, já iniciadas desde muitos anos.
O seu trabalho chegou em boa ocasião, pois que ainda poderá
ser aproveitado para o Anuário do Observatório, que sairá à luz
antes do fim do corrente ano.
Dando-lhe parabéns por esta valiosa contribuição para a cli­
matologia brasileira, que constitui um exemplo digno de ser imi­
tado, aqui fica às suas ordens ó - sincero admirador e amigo -
L. Cruls."
O Dr. Draenert, Diretor do Instituto Zootécnico desta cidade,
tendo visitado o meu observatório, publicou no Jornal de Uberaba
nv 69, de 1 de agôsto dêste ano o seguinte artigo :
"O CLIMA DE UBERABA, SEGUNDO AS OBSERVAÇÕES DO
CORONEL A. B. SAMPAIO

A·o Coronel A. B. Sampaio devemos 5 anos de cuidadosas ob­


servações, belíssimo exemplo de iniciativa particular em bem da
ciência e da agricultura.
A temperatura média do ano em Uberaba é de 21ç; o janeiro
é o mês mais cálido com a média de 239 e o julho é o mais frio
com 189, têrmo médio.
A amplitude ânua da temperatura é de 389, sendo a máxima
absoluta 389 em janeiro e a única 09 em julho.
O tempo sêco compreende os meses de abril até agôsto, isto
é, os dois últimos meses do outono e o inverno inteiro. É o tempo
de empregar a irrigação nos campos e pastos, o que significa al-
UBERABA: HISTôRIA, FATOS E HOMENS 203

gum trabalho para conservação ou salvar riquezas avultadas, re­


presentadas pela perda de muitas reses e dano nas tentativas do
aperfeiçoamento das raças, que, em virtude da nutrição insufi­
ciente no pasto, se amesquinham cada vez mais.
O verão é a estação mais chuvosa. Uberaba pertence à região
das chuvas de primavera e verão. A máxima quantidade de chuva,
quase sempre de trovoadas, cai em janeiro - 307 min. - e a
mínima em junho .e julho - 13 a 14 min.
O anuviamento anual é 0,54, sendo máximo em fevereiro -
O, 72, e mínimo em agôsto - O ,27.
A máxima probabilidade de chuva em Uberaba é em janeiro
- 0,68 -, isto é, sôbre 10 dias se pode contar com 7 dias chu­
vosos, cada um, na média, com 14 min. de chuva, muito mais pro­
veitosa para a vegetação, do que as copiosas precipitações de no­
vembro com 30 min. em cada segundo dia (0,47). O caráter do
janeiro, neste sentido, possuem também o dezembro, fevereiro e
março. Maio, junho, julho e agôsto são os quatro meses de sêca
mais rigorosa. Nestes meses do inverno há 2 a 8 min. de chuva
de 10 em 10 dias, isto é, umas três vêzes por mês.
Quanto à evaporação, Uberaba com cinco anos de observações
apresenta a periodicidade teõrícamen te estabelecida.
Aí no inverno, o tempo de sêca, a evaporação é máxima, di­
minuindo, logo que tem lugar as precipitações aquosas, e à me­
dida que estas aumentam nos meses da primavera e verão, es­
tações chuvosas, e crescendo nos meses de outono e inverno.
A frequência das geadas nos meses de maio até setembro in­
teressa muito o agricultor, porque causam danos às vêzes bem
notáveis às culturas.
~ste fenômeno merece, pois, tôda a atenção dos observadores.
Consta que também nos arredores de Uberaba, especialmente
nos terrenos baixos, tem estragado as culturas, principalmente as
de canas, que, então, se tornam impróprias para fabricar açúcar,
mas servem para fabricar álcool.
A congelação das células repletas de sumo sacarina da cana
e a degelação posterior produzem a transformação da sacarose
em açúcar invertido fermentescível diretamente.
Chuva de pequenas pedras, saraiva, segundo nos consta, tam­
bém cai raras vêzes em Uberaba, sem causar prejuízo algum.
Os ventos reinantes nesta cidade e na circunvizinhança são os
meridionais e orientais frios, particularmente no inverno, e os se­
tentrionais e ocidentais, quentes, que determinam imediatamente
uma elevação da temperatura. - Dr. F. M. Draenert."
Além dêste artigo, tenho recebido do ilustrado meteorologista
algumas cartas relativas às minhas observações. Em 7 de fevereiro
dêste ano escreveu-me :
"N9 73. Instituto Zootécnico de Uberaba, em 7 de fevereiro de
1897. Gabinete do Diretor. - Exmo. Sr. Tenente-Coronel Antônio
204 BORGES SAMPAIO

Borges Sampaio. Uberaba. Amigo e Sr. - Com muito prazer li


hoje no Jornal de Uberaba as suas muito valiosas observações si­
multâneas (às 8 h. 49 m. am.). Seria muito favor, se quisesse infor­
mar-me como obtém os dados sob a rubrica "médias": se são as mé­
dias de tôdas as observações (às 7 da m., 2 p. m., e 9 h. p. m.)
durante o mês, ou daquelas feitas às 8 h., 49 m. da m. sómente.
Acabo de escrever uma carta-resposta a meu amigo Prof. Dr.
J. Hann em Viena d'Austria e falei das suas observações. Envio
ao mesmo os resultados publicados de suas observações e desejava
explicar-lhe o valor das médias, como fica explicado acima, o que
é muito importante.
Se lhe for possível enviar-me também os resultados das suas
observações de 5 anos, serão incluídos no Manual de Climatologia
do meu amigo Prof. Hann (2~ edição) com citação do seu nome,
como incansável meteorologista desta região central.
Amanhã pretendo enviar ao correio a dita carta.
Com alta estima - seu admirador amigo obrigado - Drae-
nert."
Escreveu-me em 19 de julho: ·
"Ilmo. Sr. e amigo, Coronel A. B. Sampaio. Uberaba.
Não seria possível emprestar-me vossas observações de 5 anos
por alguns dias, para utilizá-las para meus trabalhos sôbre o clima
do planalto mineiro?; tenhosó 2 anos de vossas observações - 1892
e 1893. - O resumo geral já foi para Viena d'Austría, para ser im­
presso no Meteorologisch Zeitschrift.
Ainda não podendo sair, teria muito prazer de ver-vos aqui, se
possível fôsse.
Sempre às suas ordens e com alta estima - vosso venerador
amigo, criado, obrigado - Draenert.''
Por carta de 31 de julho, o Dr. Draenert deu-me certeza de ter
recebido as observações do quinquênio, como acima disse.
O Dr. Augusto de Abreu Lacerda, quando era chefe da Comis­
são Geográfica de Minas Gerais, pediu-me que lhe enviasse as mi­
nhas observações metereológicas. Fiz-lhe a remessa mensalmente
enquanto ocupou êsse encargo, tendo recebido, entre outras, a se­
guinte carta :
"Barbacena, 25 de abril de 1892. - Ilmo. Sr. Borges Sampaio.
- Desta vez o correio foi exato; com muito prazer, tenho recebido
tudo o que me tem enviado. Os diagramas, que fêz-me a honra de
oferecer, são uma prova do interêsse que toma por um dos ramos
da ciência, tão descurada neste país; guardo-o como prova exube­
rante de que há ainda entre nós alguns homens esclarecidos, que
nas horas de descanso ainda procuram ser úteis ao torrão em que
nasceram.
Talvez, neste ano, não receba publicação alguma nossa; não
só porque procuro organizar notas colhidas em nossos trabalhos e
UBERABA: HISTóRIA, FATOS E HOMENS 205

observações, mas também ainda não obtive os meios necessários


para fazê-lo.
Não faz idéia o que de energia tenho gasto para poder colocar
em pé de estabilidade esta comissão !
Agradecendo a fineza da oferta, queira ver um amigo atencioso
e obrigado em o Augusto de Abreu Lacerda.''

Se mencionei estas minudências, é porque tive em vista notar


que o meu quadro meteorológico do último quinquênio tem por si'
o testemunho de competentes para poder ser consultado em todo e
qualquer tempo com a segurança de ser um serviço prático, fiel:
outro trabalho tão completo no assunto não há nesta cidade, nem
no Triângulo Mineiro, quer de iniciativa oficial, quer da particular.
A singeleza e uniformidade do programa, mais adequado às
observações simultâneas internacionais, é o melhor que me pare­
ceu dever adaptar-se à diária, única, na hora local: a experiência
de mais de quinze anos antecedentes trouxe-me essa convicção.
Por ela de pronto se podem conhecer os extremos absolutos, as mé­
dias e as oscilações de qualquer um dos aparelhos.

Por último afirmo, que para a formação dos registramentos


observei, com o máximo cuidado possível, as instruções do Dr. La­
cerda ( 1895) ; as de A. Augot. ( 1891); as de H. Monn ( edição fran­
cesa de 1884), e as que a minha prática me proporcionou.

Duvido de que minha saúde precária e a idade me permitam


a formação de outro quadro análogo, compreensivo dos anos de
1897 a 1901; não obstante, continuo a fazer os respectivos registros.

Saúde e fraternidade.
Antônio Borges Sampaio, Correspondente do Arquivo.
Uberaba, 16 de setembro de 1897.
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208 BORGES SAMPAIO

tro de cabelo, pelas tabelas do Anuário do Observatório do Rio de


Janeiro.
Para a evaporação empregou-se o evaporômetro de Negretti.
As provas do ozone são as do ozonômetro de Negretti e Zam­
bra, com exposição de 24 horas.
A direção e a fôrça do vento tomaram-se do catavento por
aproximação, entre os extremos de -0- e -5-; tinham-se tomado as
mensais pela soma dos dias de cada mês; por estas se formaram
as mensais, e depois as do quinquênio.
Assim se procedeu com relação aos diversos aparelhos obser­
vados.
Regularmente, os ventos predominantes durante o ano, em
Uberaba, são os do quadrante sul-oeste: ventos úmidos e frios.
As quantidades de chuva mencionadas na coluna máxima,
indicam o dia em que, nos meses notados, choveu mais; as quan­
tidades na coluna mínima, indicam o dia em que menos choveu
no mês apontado; porém as médias foram formadas, tendo por
base o total da chuva caída nesse mês; com elas se formaram as
médias anuais e quinquenais.
O udômetro empregado foi o da Sociedade de Meteorologia de
Nova Iorque, e a abertura verificada pelo Dr. Luís Cruls.
Nos dias de chuvas se computaram os de chuviscos; não foi
considerado dia de chuva aquêle em que apenas houve gôtas, sem
depósito apreciável.
A existência da nebulosidade foi calculada entre os extremos
de -0- e -1 O-; sendo as médias mensais tomadas da soma de cada
mês; assim se formaram as anuais, e por útimo a quinquenal.
No ano de 1893 houve três dias de chuva forte com vento, qua­
tro que mal se poderiam qualificar de tempestuosos; no ano de
1894 houve um dia nas mesmas condições.
Houve seis dias de geada fraca em 1892, três em 1893, um em
1894; em 1895 e 1896, não geou. As geadas em Uberaba não resis­
tiram depois das oito horas da manhã .. Todavia em anos anterio­
res notavam-se algumas geadas bem intensas (1872, 1873 e 1875),
prejudicadoras da vegetação, e que abrangeram larga zona.
Assim também, em anos anteriores, notaram-se algumas chu­
vas de pedra (saraiva), que de algum modo prejudicaram milhoais,
principalmente nas vertentes do Rio Grande; não se as poderia, po­
rém, chamar devastadoras.
De meio século para cá, não tenho notícia de alguma grande
inundação; apenas enchentes mais ou menos elevadas.
Até os trinta anos atrás, desde 1847, presenciei frequentes
descargas de eletricidade, causando estragos e mortes, fenômeno
que quase tem desaparecido, sendo raro um ou outro caso.

(in Revista do Arquivo Público Mineiro,


ano III, 1898, págs. 321 e seguintes)
A LUZ ELÉTRICA EM UBERABA

BREVE NOTICIA SôBRE A INAUGURAÇÃO DA LUZ ELÉTRICA


NA CIDADE DE UBERABA

No dia 30 de dezembro de 1905, inaugurou-se em Uberaba a


iluminação pública e particular por meio da eletricidade, produzida
por maquinismos colocados no Rio Uberaba, a cêrca de vinte e sete
·quilômetros da cidade, na fazenda do Capitão Eugênio Oscar Ro­
drigues da Cunha, fazendo-se aí, para isso, excelentes obras de
captação das águas que fazem mover a grande turbina.
Foi êsse um dia de festa esplêndida. A ela concorreu grande
número de pessoas de tôdas as classes sociais do município e dos
municípios vizinhos; o Excelentíssimo Bispo Diocesano, dom Eduar­
do Duarte Silva, com seu clero secular o regular; o Vigário Geral
do Bispado e da Paróquia, Monsenhor Inácio Xavier da Silva; o
Juiz de Direito da Comarca, Dr. Epaminondas Bandeira de Melo;
o Juiz Municipal, Dr. Egídio de Assis Andrade; o promotor da jus­
tiça; o curador geral dos órfãos; o delegado de polícia; o Presidente
da Câmara Municipal e agente executivo com seus camaristas e
funcionários municipais; as demais autoridades, empregados pú­
blicos e os do fôro.
Era avultadíssima a reunião na estação distribuidora da res­
pectiva energia, construída para êsse fim em terreno espaçoso
atrás da Igreja Matriz centro da cidade. Diversas Câmaras Muni­
cipais vizinhas aí se achavam representadas, por comissões ou de­
legados especiais.
Após a bênção religiosa, dada ao edifício da estação e apare­
lhos pelo excelentíssimo bispo, o engenheiro Gomes de Castro, de­
putado para o ato pela casa Guinle & Comp. do Rio de Janeiro,
encarregada pela emprêsa Fôrça e Luz de fazer assentamento
dos fios condutores e mais aparelhos sôbre os postes, proferiu bri­
lhante discurso, em que revelou profundos conhecimentos histó­
ricos sôbre a maravilhosa descoberta da eletricidade e daqueles
que constantemente, por trabalhos pacientes, conseguiram aplicá-la
210 BORGES SAMPAIO

às artes e às indústrias. Sucederam-lhe outros oradores distintos,.


todos calorosamente aplaudidos.
Coube-me a lisonjeira distinção de fechar a chave da corrente·
que iluminou instantâneamente' a Rua Municipal.
Todos êstes atos foram abrilhantados pelas três corporações.
de música "União Uberabense", "Santa Cecília" e "Banda do Grê­
mio" francano, ao estrondo de muitos bombões e pipocar de fo­
guetes.
Desde essa noite o maravilhoso fluido ilumina as ruas da ci­
dade com trinta e sete lâmpadas de arco voltaico de mil velas cada.
uma e duzentas e dezessete incandescentes da fôrça de quarenta
velas; mais cinco no Jardim Público.
O número de instalações particulares elevava-se, em 24 de ou­
tubro último, a duzentas e setenta e seis com mil e cinqüenta lâm­
padas incandescentes, de diversa fôrça iluminativa e mais oito de
arco voltaico; estas de seis amperes. Há mais seis motores em ofi­
cinas, que funcionam na distribuição de fôrça elétrica, sendo um,
de 1 HP; dois, de 2 HP; um, de 3 HP; um, de 20 HP. O preço do
alugue! de uma lâmpada incandescente de dez velas, custa aos.
particulares três mil réis por mês, equivalente a dez réis por vela
durante doze horas. Uma lâmpada de dezesseis velas custa por
mês quatro mil réis nas mesmas condições de tempo. As instala­
ções particulares são feitas pela emprêsa, mas à custa dos donos
dos prédios ou oficinas.

Praça da Matriz (atual Rui Barbosa) - inauguração da luz


elétrica, em dezembro de 1905
UBERABA: HISTóRIA, FATOS E HOMENS 211

De tão importante acontecimento histórico para os anais de


Uber~ba não se lavrou. uma ata, registrando-o como recordação
aos vindouros, que queiram conhecer o que então fôra ocorrido.
Para de alguma maneira atender a essa lacuna na história
uberabense, deliberei mandar ao Arquivo Público Mineiro para sua
Revista a presente notícia abreviada, acrescentando-lhe as poucas
palavras que nessa ocasião proferi; não pelo que valham no fundo
e na forma, mas como lembrança ou recordação aos vindouros que
desejarem conhecer o grande acontecimento, levado a efeito pela
patriótica emprêsa Ferreira, Caldeira & Comp. constituída pe-
1os cidadãos - Major Manuel Alves Caldeira, Dr. José de Oli­
veira Ferreira, Dr. Tomás Pimentel de Ulhoa, Capitão Artur Ba­
tista Machado, Capitão Getúlio Guaritá, Dr. Gabriel Orlando Tei­
xeira Junqueira, D. Carolina Junqueira Machado, negociante José
de Oliveira Ferreira, Tenente-Coronel Antônio Moreira de Carva­
lho, Coronel Geraldino Rodrigues da Cunha, Tenente-Coronel Pe­
dro Floro Gonçalves dos Anjos, Dr. Felipe Achê; e das firmas co­
merciais Caldeira, Queirós & Comp. e Cunha Campos & Comp.
que assim plantaram um marco civilizador e de progresso, no
lugar que habito há mais de sessenta anos.
Eis o meu pequeno discurso:
"Senhores !
Dizia em 1848 um insigne professor de física, tratando dos co­
nhecimentos úteis, que os primeiros fenômenos referentes à ele­
tricidade, mas observados por acaso, completamente inexplicáveis
e desprovidos, na aprência, de qualquer aplicação aos usos da vida,
tinham ficado sem interêsse muitos séculos, considerados unica­
mente como simples 'objeto de curiosidade. Os antigos sabiam ape­
nas que certas substâncias, sendo friccionadas, adquiriam a pro­
priedade de atrair parcelas de corpos leves, colocadas a pouca dis­
tância.
Na proximidade de nossos dias, Volta, o físico imortal, com a
maravilhosa pilha formada de discos de cobre e zinco, alternada­
mente umedecidos e circuito fechado por fios de cobre, persuadiu-se
de que a eletricidade podia ser utilizada nas indústrias.
Após êsse aparelho singular e singelo, outros foram cons­
truídos; cada um dêles mais engenhoso e mais poderoso, pelos
quais, pesquisadores pacientes, acompanhando os fenômenos, che­
garam a apreender a fôrça do potente fluido imponderável, a sub­
jugá-lo e a determinar-lhe os usos, à vontade.
Graças à perseverança do lavor, na aplicação desta parte das
ciências físicas, o homem, pela eletricidade, conseguiu facilitar ao
mundo - a palavra escrita, pelo telégrafo; a palavra falada, pelo
telefone; o veículo para o transporte às distâncias, o motor, que
nas oficinas industriais prepara os artefatos, para as várias ne­
cessidades da vida e gozos sociais; a terapêutica, reanimando o or­
ganismo e aliviando os padecimentos; a luz, sucedânea da solar,
que alumia.
212 BORGES SAMPAIO

Outras maravilhas estarão reservadas a aplicação da eletri­


cidade, porque a ciência progride e o choque produzido nas idéias
pela pilha voltaica, ainda não se desvaneceu; ao contrário vai re­
percutindo a maiores distâncias, cada vez mais forte; fazendo-se
sentir em todos os recantos do nosso planêta, onde o artista con­
tinua a tirar, do invisível fluido novas aplicações práticas e bené­
ficas, à vida comum da humanidade.
Não verei êsse progresso na minha vida acima de octogenária
e próxima a extinguir-se; assim também não assombrará o espírito
dos vindouros, pela cópia abundante dos prodígios, como a obser­
vação tocou-me na obscuridade do meu entendimento; por terem
adquirido o uso da razão já rodeados das maravilhas, que surpre­
enderam-me nos últimos três quartos do século findo em que vivi;
por isso consigno parabéns à posteridade.
Nada disto vos é desconhecido; mas, porque o fato de inau­
gurar-se a iluminação pública e particular nesta nossa "Princesa
do Sertão", é um acontecimento notável nos anais de sua histó­
ria, seja-me permitido, senhores, que minhas palavras tenham
apenas servido de pretexto para, por mim, como correspondente
do Jornal do Comércio do Rio de Janeiro e como representante da
Câmara Municipal da cidade do Prata, felicitar :
À ilustre Câmara Municipal de Uberaba e seu agente execu­
tivo, que em boa hora decretaram a lei e contrataram a concessão
do privilégio, para a instauração da luz elétrica em nossas ruas
e em nossas casas;
Os distintos concessionários, Senhores Ferreira, Caldeira, &
Companhia, pelo patriotismo que patentearam, aceitando o pri­
vilégio;
Os Senhores Guinle & Comp., por terem-se encarregado da
execução do contrato com êxito esplêndido e magnífico;
O Senhor Silva Ferreira, operoso engenheiro que, com tanto
conhecimento prático quanta sabedoria, dirigiu os trabalhos da
instalação;
À honrada comissão diretora dos festejos, pelo galhardo de­
sempenho do patriótico encargo, que lhe foi confiado;
À ilustrada imprensa, por ter com amor vigoroso, propugnado
e exalçado mais êste melhoramento local, com frases de anima­
ção aos obrantes;
Aos dedicados auxiliares da emprêsa, Senhor Dr. Silvério Ber­
nardes, e outros, que muitos são êles e bons;
Saudar com prazer os ilustres hóspedes, que honram o ato
com suas presenças, o abrilhantando;
O Excelentíssimo Prelado, respeitável Bispo de Goiás que, com
seu ilustrado clero, teve a nímia bondade de abençoar esta oficina
representante da ciência prática, do trabalho perseverante e do
progresso;
As distintas corporações de músicas que tanto realce dão à
festa;
UBERABA: HISTóRIA, FATOS E HOMENS 213

Ao povo hospitaleiro de Uberaba, a quem devo imorredoura


gratidão. - Antônio Borges Sampaio. - Uberaba, 30 de dezem­
bro de 1905."
Mais alguns detalhes que se deseje serem conhecidos, poderão
ser encontrados na missiva que mandei ao Jornal do Comércio do
Rio de Janeiro logo após a festa e êste publicou em um dos dias
da primeira quinzena de janeiro de 1906.
Todavia faço acompanhar esta abreviada notícia, de oito fo­
tografias. Na primeira vê-se o edifício da fôrça e luz na cidade,
os retratos do engenheiro Dr. Silvério Bernardes, que atualmente
dirige e fiscaliza a distribuição da luz e energia às oficinas indus­
triais, e o do Dr. Silva Ferreira que dirigiu pràticamente os traba­
lhos da fundação e os da instalação. As sete últimas são as obras
geradoras na usina elétrica do Rio Uberaba.
Relativamente aos aludidos festejos na inauguração, disse o
Presidente da Câmara e Agente Executivo Municipal Coronel Ma­
nuel Terra, no relatório de sua administração, no triênio de 1905
a 1907 :
"No prazo convencionado no respectivo contrato, a emprêsa
de luz e fôrça elétrica inaugurou o serviço da iluminação pública,
que continua regularmente a funcionar. A Lei NQ 188, de 8 de
novembro de 1905, autorizou-me a despender 3:000$000 com os fes­
tejos da inauguração dos serviços da emprêsa. Essas festas tive­
ram o brilho e a concorrência que tão prometedor cometimento
pôde justamente despertar no seio da população do município."
Uberaba, novembro de 1907.

(in Revista do Arquivo Público Mineiro,


ano XIV, 1909, págs. 301/308)
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• •
ANTóNIO BORGES SA1\1PAIO - NOTAS AUTOBIOGRAFICAS

Minhas notas biográficas, destinadas


ao complemento da matrícula como
membro do Instituto Histórico e Geo­
gráfico do Brasil, solicitadas nas cir­
culares de 10 de agôsto de 1889 e 16
de março de 1893.

" Sou filho legítimo, único, de Joaquim Borges e Joana de Gou­


vea, honrados agricultores.
Nasci a 2 de janeiro de 1827 na Quinta do Pego da Freguesia
de Valença do Douro, Têrmo de Taboaço, Província da Beira Alta,
Bispado de Lamêgo no Reino de Portugal e na dita freguesia fui
batizado.
Faleceram meus pais vitimados pelo cholera-morbus, ambos em
1833 e quando eu apenas t.nha seis anos de idade.
Transferido para a Freguesia de Goivães do Douro, Têrmo de
Provezende, Conselho da Vila Real, Província de Trás-os-Montes,
aí continuou a minha criação em companhia de Maria Borges, ir­
mã germana de meu pai, casada com Manuel da Rocha, também
agricultores honrados.
A êstes bons tios devo o ter aprendido rudimentarmente as
primeiras letras· única instrução que no pequeno povoado se po­
dia então obter 'de mestres particulares : eram pobres os bons ve­
lhos, não puderam dar-me outra.
A 11 de agôsto de 1844 saí da casa de meus tios, de acôrdo
com êles, para a cidade do Pôrto, com o destino de embarcar-me
para o Brasil, e cheguei ao Rio de Janeiro no dia 1 de novembro
do mesmo ano, tendo embarcado no Pôrto a 24 de agôsto.
Seis dias depois reembarquei para Santos, para onde tinha
sido despachado o meu passaporte.
Permaneci em Santos empregado no comércio de sal em gros­
so quase três anos, com o negociante Francisco Ferreira Zimbres,
que em 2 de setembro de 1847 incumbiu-me de administrar uma
comissão de seu gênero de negócio, fundada em Uberaba, Provín-
218 BORGES SAMPAIO

eia de Minas Gerais, onde tenho permanecido desde 16 de setem-


bro de 1847 até a presente data. ,1\
Casei-me em 24 de junho de 1~ com D. Maria Cassimira de
Araújo, que ainda vive.
Dêste consórcio houvemos três filhos, um dos quais faleceu
com setenta e cinco dias de idade: era o segundo nascido.
O primeiro, Hermógenes Sampaio, nascido em 1850, depois de
ter-se congregado monge beneditino no Mosteiro de São Bento do
Rio de Janeiro, foi para Roma, ali estudou e ordenou-se sacer­
dote a expensas do mosteiro; mas, voltando ao Brasil, vindo em
missão de seu ministério à Uberaba, faleceu em minha casa no dia
14 de julho de 1888.
O segundo, Zeferino Borges Sampaio, nascido em 1853, vive,
é casado, negociante matriculado e reside em minha companhia.
Fui naturalizado cidadão brasileiro por Carta Imperial de 6
de setembro de 1851.
Em Uberaba, depois de ter-me dispensado da comissão de San­
tos, continuei de conta própria com a profissão de comerciante.
Desde março de 1850 resido na primeira casa que se construiu
na povoação da Uberaba atual (a). Fôra edificada pelo Major An­
tônio Eustáquio da Silva e Oliveira, Comandante do Distrito e Cura­
dor dos índios. Já a achei acrescentada por José Maria de Alva­
renga, fazendo-lhe eu outros acréscimos.
Aqui fundei em 1851 ·a farmácia que hoje é custeada por meu
filho Zeferino, do exercício da qual, graças a Deus, ainda não hou­
ve um sucesso a lamentar-se.
Como acontece em lugares centrais, onde o pessoal é escasso,
fui sendo ocupado em funções· do serviço público, de diversos mis­
teres, tais como :
NA INSTRUCAO
~ PúBLICA

Por portaria de 15 de junho de 1852 fui nomeado visitador das


aulas públicas da Paróquia de Uberaba.
Reformado o ensino, com nova nomeação de 16 de junho de
..185~? permaneci no mesmo cargo.
Por ato de 21 de fevereiro de 1857, passei a servir o cargo de
diretor suplente do 139 círculo literário. .
Em 19 de janeiro de 1859 passei a ocupar o cargo de diretor
efetivo do mesmo círculo.
Em consequência de nova reforma da instrução, tive a nomea­
ção de fiscal da primeira agência parcial do 109 distrito literário.
Por ato de 1 de maio de 1861, em virtude de nova regulamen­
tação no dito serviço, fui nomeado inspetor suplente municipal.
Outro ato, por nova reforma, me nomeou delegado da Dire­
toria Geral da Instrução Pública do Distrito de Uberaba, em 27
de junho de 1867.
UBERABA: HISTóRIA, FATOS E HOMENS 219

Outra reforma conferiu-me a nomeação de inspetor do 139


círculo literário da Comarca do Paraná, com sede em Uberaba
em 31 de outubro de 1867. '
Servindo êste cargo fui dêle dispensado em 1868 por m·udan­
ça da política, até que, em 16 de fevereiro de 1881, fui novamente
nomeado delegado da instrução pública na Paróquia de Uberaba.
Por nôvo ato de 12 de abril de 1883, passei a exercer o cargo
de inspetor municipal da instrução pública de Uberaba.
Por ato da mesma data tive a nomeação de diretor da Escola
Normal de Uberaba, que ocupei por mais de dois anos, sendo-me
concedida a dispensa de continuar, a meu pedido.
Por ato de 26 de junho de 1889, fui novamente nomeado ins­
petor municipal e diretor da Escola Normal; aquêle o exerci até
24 de outubro de 1890, êste até 31 de outubro de 1889.
Reintegrado no cargo de inspetor por ato de 12 de setembro
de 1890, não aceitei.
Nos anos de 1879, 1880 e 1881, um dia de cada semana, fui
à escola de primeiras letras, regida pelo Professor Manuel Garcia
da Rosa Terra, prelecionar alguns fatos da História do Brasil,
que conhecia.
As escolas primárias distribuí gratuitamente objetos para prê­
mios, penas, papel, livros, etc. Quando se pôs em execução o sis­
tema métrico distribuí cêrca de quatrocentos exemplares da bro­
chura do Dr. de Lossio, pelo que tive diversos louvores da Dire­
toria Geral da Instrução. Com o expediente e reparos da Escola
Normal despendi do meu bôlso mais de quatrocentos mil réis, de
que não fui embolsado; além de trezentos mil réis que no dito edi­
fício empreguei e me pagou o Conselheiro Carlos Afonso de Assis
Figueiredo, para melhorar as condições da aula prática de me­
ninos.
NA JUSTIÇA

Por título de 20 de abril de 1854 fui provido vitallciamente no


emprêgo de curador geral dos órfãos do Têrmo de Uberaba, sendo
que já o exercia interinamente cêrca de três anos antes. Ainda
ocupo êste cargo.
Por ato de 22 de dezembro de 1854 obtive a provisão trienal
do emprêgo de promotor de capelas e resíduos, tendo antes o exer­
cido por cêrca de ano e meio.
Tive a nomeação de promotor adjunto em 14 de fevereiro de
1873, e a de promotor público efetivo da Comarca de Uberaba em
28 de julho de 1879, cargo que exerci sem interrupção por mais
de seis anos, além de, interinamente o ter exercido por diversas
"
vezes.
Por três vêzes fui nomeado interinamente contador e distri­
buidor. (Atos de 31 de outubro de 1870, 4 de maio de 1871, e 9
de abril de 1872). ~
220 BORGES SAMPAIO

Exerço a profissão de advogado dos auditórios, com faculdade


de poder exercê-la em todo o Estado de Minas, por provisão vita­
lícia
. de,
4. de fevereiro de 1856, e jamais me neguei à proteção dos
misera veis.
Sou também provisionado vítalícíamente advogado no fôro
eclesiástico da Diocese de Goiás, por título de 20 de outubro de
1869.
NA POLÍCIA

Por ato de 29 de janeiro de 1853 fui nomeado 2<> suplente do


subdelegado do Distrito de Uberaba, cargo que ocupei até 13 de
fevereiro de 1854, em que obtive a exoneração pedida.
A 4 de junho de 1864 fui nomeado 59 suplente do delegado de
polícia e transferido para o lugar de 49, a 8 de fevereiro de 1866,
ocupando êste até 4 de setembro de 1868.
NA GUARDA NACIONAL

Nomeado tenente-cirurgião do 329 batalhão do serviço ativo


da Guarda Nacional no Município de Uberaba, ocupei êste pôsto
desde 1 de junho de 1859, até que por decreto de 7 de junho de
1865, fui elevado ao de tenente-coronel chefe do estado maior do
comando superior de Uberaba e Prata, entrando em exercício an­
tes de receber a patente, em virtude da portaria do Govêrno ex­
pedida em 17 de julho, por urgência do serviço, quando nesse ano
se reuniam fôrças militares em Uberaba, a fim de marcharem pa­
ra Mato Grosso. Acho-me atualmente agregado, em virtude da lei
de 1874, que reduziu o quadro da oficialidade nos comandos su­
periores da Guarda Nacional.
Distribuí gratuitamente às secretarias dos corpos dezesseis
exemplares do formulário dos processos do conselho de disciplina,
do Dr. Haurier; dei aos corpos os livros-mestre, de grande formato,
e à secretaria do comando superior o do registro dos oficiais; além
de ter feito à minha custa a despesa do expediente em quanto ser­
vi no comando superior; serviços que o Govêrno me agradeceu por
vêzes, nomeadamente em ofícios de 6 de julho de 1866 e 22 de
julho de 1867.
Com o Tenente do Exército Amaro Francisco de Moura, quan­
do aqui esteve destacado, fiz parte de diversos conselhos de dis­
ciplina, gratuitamente (1879).
NA CAMARA MUNICIPAL

Desde 3 de março de 1853 ocupei constantemente a cadeira de


vereador, como suplente ou efetivo, até que a 13 de agôsto de 1879
tive de resignar o lugar, por ter sido nomeado promotor público
da Comarca de Uberaba que ocasionou incompatibilidade. Por di-
221
UBERABA: HISTóRIA, FATOS E HOMENS

versas vêzes fui o presidente da corporação, à qual cedi todos os


emolumentos que me competisse receber dela, na qualidade de
promotor público, em mais de seis anos.
Ainda assim, incumbido pela Câmara de organizar o trabalho
- Denominação das Ruas da Cidade de Uberaba -, desempenhei­
me dessa missão em 2 de outubro de 1880; trabalho êsse de que o
Instituto tem cópia.
NO CORREIO

Sendo nomeado agente do correio de Uberaba a 2 de julho de


1852, nesse cargo permaneci até !evereiro de 1857.
Muitos melhoramentos se não operado no serviço postal nes-
ta zona e no Estado de Goiás, para a criação de agências, trans­
porte de correspondência, itinerários, modos de expediente, divul­
gação de estatísticas - em virtude de diligências minhas.

• NA SANTA CASA DE MISERICóRDIA

Eleito secretário com voto deliberativo, pela assembléia de


subscritores, em 14 de junho de 1871, da mesa administrativa da
Santa Casa de Misericórdia de Uberaba, composta de cinco mem­
bros, só deixei de acupar êsse cargo, resignando-o na mão dos
subscritores com meus colegas, a 3 de maio de 1896.
Em todo êsse tempo de quase vinte e cinco anos, fiz por mi-
nha conta as despesas do expediente, e, digo em consciência, que
a meus esforces se deve o ter achado a nova mesa mantidos os
direitos civis 'e autônomos do grandioso estabelecimento, fundado
e construído pelo incomparável benemérito, o capuchinho Frei
Eugênio Maria de Gênova em 1858, mas infelizmente falecido a
12 de junho de 1871, sem ter concluído as obras internas, nem ter
regularizado os negócios inerentes a firmar o domínio e a posse
que deviam permanecer perante os poderes públicos, de acôrdo
com a Lei Mineira NQ 148 de 6 de abril de 1839. Durante êsse
percurso de anos tive de lutar e vencer dificuldades, empregando
meios suasórios, com firmeza e critério, para evitar que os pode­
res - judiciário, administrativo, fiscal, municipal e mesmo o ecle­
siástico (inclusive o franciscano do Rio de Janeiro, contra o qual
tive de defender a propriedade de um prédio em pleito judiciário),
se apoderassem de tão importante estabelecimento e suas depen­
dências; devendo consignar aqui um voto de agradecimento aos
meus companheiros membros da mesa, pela confiança plena que
sempre prestaram às minhas opiniões e diligências, quando s
tratava de garantir o estado civil e autónomo da administração
da Santa Casa, como pessoa civil, que, firmadamente, hoje goza
222 BORGES SAMPAIO

NO CENSO

Por ato de 9 de dezembro de 1851 fui nomeado comissário pa­


roquial do censo em Uberaba, executando-se o Decreto N9 797; mas,
depois dos trabalhos estarem adiantados, foram suspensos por
nôvo decreto.
Todavia, em dezembro de 1855, voluntàriamente, auxiliado pe­
lo Professor Manuel Garcia da Rosa Terra, levantei o censo urbano
da então vila de Uberaba, que foi bem aceito pela Câmara Muni­
cipal e serviu perante a Assembléia Legislativa Mineira, para ele­
var-se Uberaba à categoria de cidade em 1856.
Ocupando a cadeira da presidência da Câmara Municipal em
1868, a 7 de junho dêsse ano enviei ao Govêrno um mapa da po­
pulação livre, escrava, por sexos e nacionalidades do município,
que organizei, dos quatro distritos em que então se dividia o Têr­
mo de Uberaba.
NA POLÍTICA

Alistado cidadão votante em 1852, jamais deixei de o ser, e


eleitor - de número ou como suplente, de acôrdo com as alter­
nativas, que costumam oferecer os partidos políticos e segundo o
regímen eleitoral da lei de 1846. Como tal, constantemente fazia
parte das mesas de qualifícação e assembléias paroquiais. Ainda
sou eleitor pelo nôvo regímen que veio estabelecer a eleição direta.
NO JúRI

Qualificado jurado para o ano de 1852 não deixei de sê-lo, até
que, alegando a minha avançada idade, há quatro anos pedi ser,
e fui escusado da urna.
NA SAúDE PúBLICA

Em 1851 estabeleci em Uberab.i uma boa farmácia, continu­


ando-a com licencas
_, anuais da Câmara Municipal, até que, em 26
de junho de 1860 obtive do Govêrno Imperial um título vitalício
para o exercício dessa profissão, em que sou auxiliado eficazmente,
há dezoito anos, por meu filho Zeferino; podendo dizer, graças a
Deus, que nesse longo período de cêrca de quarenta e cinco anos,
ainda não houve um sucesso mau, ocasionado por êrro ou descuido,
como acima disse.
Por ato de 28 de marco.., de 1863 fui nomeado comissário vaci-
nador do Município de Uberaba, cargo que ocupei mais de quinze
anos.
A profissão de farmacêutíco, depois o pôsto de tenente-cirur-
gião da Guarda Nacional e a profissão de advogado, me obrigaram
a tomar alguma leitura da medicina legal, da fisiologia e da ana-
UBERABA: HISTÓRIA, FATOS E HOMENS 223

tomia, concorrendo para que a polícia e justiça me ocupassem


constantemente, à carência de facultativos, nos exames físicos;
assim fiz grande número de autos de corpo de delito, auxiliei em
muitos exames cadavéricos e ajudei em várias autópsias.

NO REGULADOR PÚBLICO

Em 23 de janeiro de 1873, uma comissão composta de oito ci­


dadãos, dos quais fui um dêles, contratou com Florêncio Forneri a
colocação de um relógio, em uma das tôrres da Matriz. O que efe­
tuou-se em 20 de janeiro de 1874. As obras do assentamento, exe­
cução do contrato, assistência e custeio durante quatorze anos
( até 7 de janeiro de 1888) estiveram a meu cargo, sem remunera-
ção alguma. Tendo eu instado com o falecido Capitão Manuel Ro­
drigues da Cunha para dar o sino, êle o fêz, de pêso de trinta e
quatro arrôbas, sendo feita a colocação à minha custa.

OBSERVAÇÕES METEOROLÓGICAS

Desde muitos anos ( como distração porque sou apenas ama­


dor), mantenho um observatório meteorológico, com aparelhos
corretos pelo do Rio de Janeiro, que os Senhores Conde d'Eu, Dr.
Lacaille e Dr. Azevedo Pimentel, viram; achando-os o Sr. Dr. Cruls
em boa colocação. Dêles registro diàriamente, na hora interna­
cional simultânea - a pressão atmosférica, em barômetro de mer­
cúrio; a temperatura máxima e mínima; a tensão do vapor; a eva­
poração; o estado higrométrico; a umidade relativa; o ozone; a ex­
tensão e densidade das nuvens; a fôrça e direção do vento; a al­
tura da chuva em milímetros e dias dela; outros íenômenos atmos­
féricos mais notáveis. (b) No fim de cada mês apuro os extremos
e médias dêstes registros, os quais têm sido publicados mensalmen­
te no Jornal do Comércio e os tenho fornecido a diversos. (c).

NA CADEIA

Em 1848, a Assembléia Provincial de Minas concedeu à Câ­


mara Municipal de Uberaba 600$000 rs., para acrescer-se 35x25
palmos no seu edifício uma enxovia, e uma sala livre, em segundo
pavimento.
Começada a obra em 1850, estacionou por mais de dois anos,
à falta de recursos pecuniários.
Em 1853, servindo eu na Câmara como vereador suplente, to­
mei a meu cargo a obra, dei-lhe impulso e melhor plano sob o pon­
to de vista higiênico e segurança, mediante algum dinheiro que
pôde ir suprindo o cofre municipal e adiantamentos meus, que só
pude receber, dois, três e mais anos depois.
224 BORGES SAMPAIO

A obra foi assim concluída e serviu por mais de trinta anos


sem alterar-se, demolindo-se em 1888, quando o Govêrno já tinha
feito construir cadeia nova.
NA GUERRA COM O PARAGUAI

Na organização de fôrças para Mato Grosso em 1865 em Ube­


raba, o Presidente da Província de Minas, Conselheiro Pedro d'Al­
cântara Cerqueira Leite, incumbiu-me de vários serviços, para a
reunião e sua marcha.
Comissões foram nomeadas para, de quinze em quinze quilô­
metros, haver suprimento de víveres até Sant'Ana do Paranaíba
(setenta e duas léguas). Estas fizeram os abastecimentos, dos
quais as fôrças não se puderam aproveitar, porque o Coronel Ma­
nuel Pedro Drago deliberou, à última hora, tomar à direita pelo
Rio dos Bois. A organização das aludidas comissões e a de um
itinerário da marcha, desde Sant'Ana até Cuiabá, estiveram a meu
cargo.
Também as fôrças não aproveitaram de duas barcas que man­
dei construir naquele ponto para transporem o rio; as quais fo­
ram feitas por operários aqui contratados por mim, com adianta­
mentos de dinheiros meus, que só muito tarde recebi.
A epidemia da varíola assolou então a cidade, que ficou de­
serta; penetrou .9 mal nas· prisões, quartéis, casas que serviam de
hospitais e nas dos particulares. Foi-me preciso prover como de­
legado de polícia, sôbre tratamento e enterramentos. Provi, sem
descanso, como era possível prover, sob a carência de recursos de
tôda a sorte, mas muito sacrífrcado,
Despendi com isso quantias avultadas com relação a meus
minguados recursos, das quais prometeu a tesouraria da Fazenda
embolsar-me, mas não fui embolsado.
: ~ meu cargo estiveram - a designação de guardas nacionais
raia marcharem; a substituição de alguns; o aquartelamento de
designadcs e de recrutas; o alistamento de voluntários.
O Conselheiro Joaquim Saldanha Marinho, substituindo o
Conselheiro Cerqueira Leite na presidência, ainda me encontrou
rio desempenho de muitas destas funções, incumbindo-me outras.
Neste labor, que perdurou cêrca de seis meses, e que hoje não
sei como pude vencê-lo, não deixei de auxiliar os mais serviços in­
cumbidos a outros cidadãos, que me procuravam para ajudá-los,
ou esclarecê-los.
Durante essa guerra que o Brasil sustentou no Paraguai con­
tra Solano Lopes, consegui mandar ao Ministro da Guerra alguns
pacotes de fios, aqui preparados por famílias a meu pedido, para
curativo dos feridos naquela renhida campanha; o que o Sr. Mi­
nistro me agradeceu por vêzes.
O Monarca, entendendo que tais serviços eu os desempenhara
UBERABA: HISTóRIA, FATOS E HOMENS 225

a bem da integridade do Brasil, sem solicitação minha (d), hon­


. rou-me com a nomeação de Cavaleiro da Ordem de Cristo, por de­
. ereto de 25 de abril de 1868.
NO ASSASSINATO DE ARAúJO ROSO ·

As dez horas da noite de 9 de agôsto de 1872, com muito escuro


e frio, entre a porta da minha casa e a cadeia, que era fronteira,
foi assassinado o negociante Manuel de Araújo Roso, homem ino­
fensivo e estimado.
Achou-se o cadáver na rua e foi transportado para a casa que
habitava, e era perto, pelos próprios dois agentes que o tinham
assassinado, oferecendo-se para isso à polícia e fizeram-lhe a guar­
da o resto da noite. Tendo o Vigário Carlos José dos Santos cor­
rido à casa da vítima, supondo poder prestar-lhe socorros espiri..
tuais, querendo regressar à sua, manifestou receios de "encon­
trar-me com os assassinos"; êstes que o ouviram, disseram-lhe :
_ "Não tenha mêdo; nós vamos acompanhá-lo". Foram e vol­
taram a fazer guarda ao cadáver !
Isto manifestou a medida da audaciosa malvadez, e o cinismo
dêsses dois homens !
tste acontecimento causou grande sensação, aqui e em Cam­
pinas, onde a vítima tinha família e. gozava estima.
No dia seguinte de manhã, o dr. juiz municipal, vendo a inér­
cia do delegado de polícia, conhecendo-se geralmente que êste na­
da providenciaria, tomou a si o encargo da averiguação do fato,
reconheceu serem êsses dois indivíduos os criminosos e os prendeu.
Verificou-se também que o crime fôra motivado pelo despeito
de uma amásia do delegado de polícia, e que êste cogitava dar es­
capula aos dois presos.
A única praça de polícia que havia então na cidade, fôra um
dos assassinos.
o juiz municipal viu-se sem recursos para a segurança dos
presos, de modo que ficasse garantida a guarda da cadeia, de si
mal segura, ao mesmo tempo que era preciso exercer vigilância
sôbre o delegado, para evitar que soltasse os criminosos.
Conheci as dificuldades em que se achava o juiz e as expus a
alguns amigos, convidando-os a nos oferecermos para fazer a
guarda da cadeia de noite.
A idéia foi bem aceita; quatro nos bastavam em cada noite.
Dirigi sôbre isto uma carta ao juiz municipal, que aceitou a
oferta agradecido, ficando combinado que, de dia, êle juiz man­
t:ria gua.r~a sua; a nossa se faria tôdas as noites, até chegar re­
forço policial de Ouro Prêto.
, . A notíci~ ecoo~ en_tre os home~s mais distintos, que volun­
tariamente vieram a minha casa assinarem a relação do detalhe,
para a noite que escolhiam em cada semana.
226 BORGES SAMPAIO

Por êste modo tivemos de seis a dezesseis pessoas em cada


guarda noturna, mantida constantemente por mais de dois me­
ses, deixando o serviço depois que chegou fôrça policial de Ouro
Prêto, para o fazer.
Assim conseguiu-se manter a segurança dos presos em cada
guarda noturna, êstes em breves dias foram pronunciados, e se
evitou que o delegado os soltasse; podendo serem julgados, conde­
nados e remetidos à cadeia da capital da província para o cumpri­
mento da pena de galés perpétuas, que o júri lhes impôs.
Neste tempo, o povo indignou-se cada vez mais contra o pro­
cedimento do delegado e duas vêzes reuniu-se para obrigá-lo a pas­
sar a jurisdição ao suplente, achando-se nisso empenhados homens
importantes.
Logo que soube, intervi e consegui que, em ambas as tentati­
vas, já formadas de fato, se desistisse da exigência, encaminhan­
do os negócios por meios suasóríos e prudentes, para obter-se que
êsse funcionário, depois da calma estabelecida, passasse a juris­
dição, como passou.
Dêstes fatos, sôbre tal assassinato, guardo em meu espírito
grata recordação aos uberabenses, e, só pelo motivo dêsse reco­
nhecimento o consigno aqui, conservando ainda a lista das assi­
naturas dessa distinta e honrada milícia cívica, que tão bom ser­
viço prestou ao dr. juiz municipal e à causa pública naquela oca­
sião excepcional, com constância, sem dependência de comandan­
tes, aquartelamento, sôldo, etapa, nem equipamento.
o dr. juiz municipal era então o Dr. João Caetano de Oliveira
e Sousa; do delegado de polícia, que ainda vive, não declinarei o
nome, por decôro.
EM OUTROS ASSUNTOS

Instituiu-se a 7 de fevereiro de 1864 em Uberaba uma associa­


ção de caridade para tratamento de enfermos desvalidos, a qual
durou dois anos e dela fui o secretário.
Em 6 de maio de 1865 formou-se na cidade do Prata uma as­
sociação, que se denoroinou - Sociedade Auxiliadora da Prospe­
ridade da Vila do Pra, -, a qual honrou-me com o diploma de
seu membro honorário:
Igual diploma me enviou a sociedade que ali se formou em
13 de maio de 1883, denominada - Clube Abolicionista.
Fiz parte do - Clube Literário Uberabense -, como sócio fun-
dador.
Quando o Sr. Dr. Benjamim Franklin Ramiz Galvão em 1880
abriu uma Exposição da História do Brasil, na Biblioteca Nacional,
convidou-me a concorrer. Mandei-lhe alguns livros, manuscritos,
fotografias, plantas e carimbos. Por êsse pequeno concurso, em
agradecimento escreveu-me S. Ex1;1. : - "Foi uma galharda con­
tribuição".
UBERABA: HISTóRIA, FATOS E HOMENS 227

A Associação Industrial do Rio de Janeiro, realizada em de­


zembro de 1881, pediu-me a concorrência. Pouco pude auxiliar
pela escassez do tempo, com pesar meu. Assim mesmo Uberaba
apareceu a primeira vez em uma exposição industrial. O respec­
tivo júri me galardou com o diploma de - "menção honrosa".
A antiga e patriótica - "Sociedade Auxiliadora da Indústria
Nacional" - do Rio de Janeiro, quando era seu presidente o Sr.
Conselheiro Marquês de Abrantes, conferiu-me o diploma de seu
sócio remido, em 7 de setembro de 1860.
NA IMPRENSA

Como noticiarista, - o Correio Mercantil - a - Atualidade


- a - Reforma - a - Nação (de Niterói) -, publicaram muitas
missivas minhas.
O - Jornal do Comércio - as publica há trinta e cinco anos
(desde 1861), através de sucessivas administrações.
Na imprensa local, fundada a primeira vez em 1874, fui cola­
borador, mais ou menos assíduo.
Do - Uberabense -, em 1878, fui o redator-chefe.
De tal concurso, em tempo algum auferi interêsse pecuniário;
antes me há sido oneroso.
llti.l-,,.,
L::Z ~~~ .

Até o presente não se apoderou de mim vício algum : devo êsse


favor à Divina Providência.
Aborreço a mentira, mesmo brincando; nestes princípios con­
segui criar os filhos e vou criando os netos.
Procuro ser, o mais que possa, pontual ao cumprimento dos
meus deveres, vivendo do trabalho honesto, sem pompa.
A religião que tenho professado é a Católica Apostólica Ro­
mana, e peço a Deus que nela me deixe morrer.
Não ambicionei o gôzo do fausto; naturalmente não o ambi­
cionarei de agora em diante, como setuagenário.
Se algum bem tenho conseguido fazer, foi na crença de que
devia fazê-lo, e com a maior reserva possível. ·
Tenho guardado o respeito às leis, às autoridades constituídas,
à moral e aos bons costumes.
Militando desde 1851 no partido da política liberal, abstive­
me de intervir nos negócios públicos, que dela dependessem, ou a
atingissem, desde a fundação da atual forma de govêrno, que aliás
acato como instituição do país; mas, em tempo algum, quer a po­
lítica, quer alguma das colocações sociais, me obscureceram o es­
pírito, para praticar, cientemente, injustiças aos meus semelhan­
tes.
Prezo a Sociedade, como amo a Família: jamais tive ódio a
alguém, mesmo aos adversários que me molestavam.
228 BORGF.S SAMPAIO

Inimigo de outrem por motivos políticos, particulares, ou pri­


vados - nunca fui.
No uso de comunicar os meus pensamentos pela imprensa,
jamais excedi os limites legais; assim como, naturalmente aca­
nhado, fui reservado verbalmente, e comedido.
Ainda assim tive desafeiçoados, que vibraram-me a injúria,
a calúnia, o doesto, o insulto, pela imprensa, de tal modo mane­
jados, que apenas pude achar testas de ferro assumindo a respon­
sabilidade legal. Por fim, chegou-se ao extremo de tentar-se duas
vêzes contra a minha existência, dentro da minha própria casa;
e a política ainda fôra o móvel de semelhantes atentados.
Joaquim Roberto nascido de escrava minha em março de 1871,
por conseguinte antes da Lei Rio Branco, foi por mim libertado.
Como livre o criei, sob os mesmos princípios em que tinha criado
meus filhos; mandei-o educar; entreguei-lhe o diploma e anel do
curso da Escola Normal, e logo lhe obtive o título da nomeação de
professor público normalista da cadeira de instrução primária, se­
gundo grau, na cidade de S. Pedro de Uberabinha, que ocupa há
quatro anos, gozando de estima entre pessoas distintas, com meios
de viver decentemente.

Na minha longa vida e variado exercício de cargos públicos,


naturalmente cheia de escolhos, pugnando sempre pela liberdade
e ordem, com honestidade e zêlo, nunca recebi censuras oficiais;
todavia, em 1861, por motivos de política, um adversário, promo­
tor ad hoc, formou contra mim uma acusação judiciária em pro­
cesso de responsabilidade na qualidade de curador geral dos órfãos,
à qual o Egrégio Tribunal da Relação, para o qual recorri da in­
justa pronúncia, pôs têrmo honrando-me na seguinte decisão:
"Acórdão em Relação, etc., que dão provimento ao recurso de
fôlhas quarenta e oito, para o fim de despronunciarem o recorren­
te, à vista dos fundamentos das razões de fôlhas duas e documen­
tos de fôlhas e fôlhas, pelos quais se prova claramente que não
havia base para a denúncia, nem para a sentença de fôlhas qua­
renta e oito. Despronunciando portanto o recorrente, mandam
que seja pôsto em liberdade e condenam a municipalidade nas cus­
tas. Rio, 28 de fevereiro de 1862. - Cerqueira, P. I. - A. Masca­
renhas. - Travassos. - Pereira Monteiro."

Da a!anosa e modesta existência que deixo apontada (a qual,


como já disse, é comum sobrecarregar-se aquêles que não se ne­
gam ao serviço do público nos lugares centrais, onde escasseia pes­
soal para sujeitar-se a êles), ative-me ao trabalho honesto, sem
auferir interêsses dos cofres públicos, a não ser os minguados ven-
UBERABA: HISTóRIA, FAT~ E HOMENS 229

cimentos do cargo de promotor público e os de agente do correio;


antes tive de superar os ônus dos impostos e emolumentos ineren­
tes aos títulos das nomeações, despesas de expediente no exer-..
cício dêles, adiantamentos de quantias, etc.
O que não obsta a que me curve respeitoso e sumamente agra­
decido a três fatos, que saliento na minha passagem por êste mun­
do, porque não são de origem política :
O primeiro dos aludidos fatos é a fineza que me fêz o Insti­
tuto Histórico, admitindo-me em seu grêmio: sem estudos esco­
lares, o fazer parte de tão ilustrada corporação, composta de ci­
dadãos distintos por posição social e sabedoria, é para mim um
consôlo; um lenitivo aos dissabores que os empregos públicos, os
encargos da família e a política, me fizeram tragar.
É o segundo fato, a aceitação que o Jornal do Comércio, abrin­
do exceção, tem concedido às minhas missivas noticiosas, que lhe
tenho mandado desde trinta e cinco anos, dignando-se publicá-las
na parte editorial da fôlha; bem assim o afetuoso acolhimento que
tive daquela criteriosa redação quando, pela primeira vez, ali fui
conhecido pessoalmente em 1888; continuado em 1891 pelo atual
chefe e reda tores da grande emprêsa.
O terceiro fato foi a visita de Sua Alteza o Sr. Conde D'Eu,
com que dignou-se espontâneamente honrar a minha casa no
dia 20 de março de 1889, quando esteve em Uberaba, e o modo
especialmente afetuoso por que distinguiu-me.
tstes três fatos são para mim outras tantas demonstrações
de que o meu caráter não ficou desconceituado no espírito reto
de tão bons homens, dos quais espero ter benévola faculdade para
registrar aqui um voto meu, de cordial agradecimento.
Farei por continuar a não desmerecer dêsse bom conceito, nos
poucos dias que a Divina Providência ainda me conceder viver.
(e).

Uberaba, 24 de junho de 1896.


NOTAS

a) No manuscrito que enviei ao Instituto : - Denominação


das Ruas da Cidade de Uberaba - referi, que a Uberaba primitiva
não atingira a uma dezena de casas, construídas de palhas de ba­
guaçu, bem como sua Igrejinha, nas cabeceiras do Lajeado, a cêr­
ca de quinze quilômetros da atual. Dessas easínhas e da Igreja,
havia então (1880) vestígios; hoje não os há.

b) Das observações meteorológicas registradas nos primeiros


seis meses de 1892, organizei diagramas, que o Sr. Lacaille e Dr.
Pimentel, e outros, viram. Pretendia continuá-los, mas conheci
230 BORGES SAMPAIO

ser trabalho superior, que as minhas ocupações diárias, meus in­


cômodos de saúde e canseira de vista, me impossibilitavam de le­
var a têrmo nesse ano. Interrompi, pois êsse labor, aliás interes­
sante - e bonito -, como disse o Sr. Dr. Lacaille.

e) Cabe fazer aqui a seguinte consideração. Deveria ter man­


dado ao Instituto o serviço meteorológico; mas não o tenho feito,
no intuito de cumprir êsse dever mais tarde; isto é, quando com­
pletar-se um período de cinco anos, pelo qual se poderá avaliar com
mais vantagem o clima de Uberaba. Se viver, mandarei então um
quadro mais completo.

d) "Sem solicitação minha", eu disse no texto dos aponta­


mentos, porque sempre entendi que dos serviços prestados ao país
por qualquer cidadão, não devia êste pedir remuneração honorí­
fica. Devia-os prestar no limite de suas fôrças, pelo dever de pres­
tá-los. De que foram em todo o tempo êstes os meus sentimentos,
podia declinar o nome de cidadãos distintos, ainda vivos, os quais,
pretendendo obter-me outras distinções, eu os prevenia de o não
fazerem, logo que tal intenção chegava ao meu conhecimento.

e) Tinha escrito minhas notas biográficas, quando recebi do


Diretor do Arquivo Público Mineiro, o decreto do Govêrno do Es­
tado de 8 de maio último, nomeando-me correspondente do mes­
mo Arquivo.
Pedi logo ser escusado, atendendo à idade, e saúde precária,
além de não desejar contrair obrigações oficiais; mas o diretor,
deixando de encaminhar ao Govêrno o meu pedido, escreveu-me
particularmente solicitando permissão de não o fazer, porque, dis­
se : - seria isso causar-lhe desgôsto : não teria eu obrigações :
taría o que quisesse e pudesse -.
N'âo obstante o dever da gratidão pela fineza, tenho de instar
pela escusa, visto como é pelo Instituto Histórico que devo tra­
balh~r. o quanto puder e em quanto puder. Salvo se conseguir usar
de copias para duplicar; o que nem sempre me será possível fazer.

(Original existente no Instituto Histórico


e Geográfico Brasileiro)

. : . ·, ..

CôNEGO HERMóGENES

BREVE NOTÍCIA SôBRE O CôNEGO HERMóGENES CASSIMIRO


DE ARAúJO BRUONSWIK, VIGARIO DO DESEMBOQUE

O viajante que da cidade de Piumi (bela localidade de Minas


Gerais, outrora indicada para fundação da capital do ex-império
brasileiro) , percorrendo o extenso Chapadão da Zagaia, dirigir­
se à cidade do ·Sacramento, de diversos pontos (dos Quatis, do ôlho
d' Agua, do Estreito e do Bugre), avistará além, à direita, cêrca
de doze quilômetros distantes, na margem esquerda do Rio das
Velhas, vertentes da Serra da Canastra, um ponto branco.
É a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Destêrro, onde, no
longo período de quarenta anos, foi vigário colado o Cônego Her­
mógenes Cassimiro de Araújo Bruonswik e jaz sepultado.
Aí é a povoação do velho Desemboque, que em outras eras
teve o primitivo nome de - Descoberto das Cabeceiras do Rio das
Velhas -; foi julgado, foi vila e atualmente é simples paróquia
para o serviço eclesiástico e distrito para os negócios civis e polí­
ticos eleitorais.
Quanto ao Desemboque - como vila - escreveu o Sr. Acúrcio
Nunan no seu Repertório das Leis Mineiras, em 1855, ter sido o seu
território, como julgado, desmembrado da Província de Goiás e in­
corporado à de Minas, fazendo parte da Comarca do Paracatu, pelo
alvará de 4 de abril de 1816; ter-lhe sido suprimido o título de jul­
gado e seu território, com exceção do Distrito do Sacramento (que
se reuniu ao Município de Uberaba), incorporado ao Município do
Araxá pela Lei N. 9 28 de 2 de fevereiro de 1836; ter sido elevado à
categoria de vila pela Lei N.9 472 de 31 de maio de 1850, determi­
nando , o artigo 4.9 da mesma lei que pertencesse à Comarca do
Parana.
Do Desemboque, como paróquia, disse o mesmo Sr. Nunan ser
sua divisa com a Paróquia de Uberaba o Ribeirão da Farinha Po­
dre naquela época (1855), segundo a Lei N.9 271 de 15 de abril de
1844; ter sido suprimido e seu território incorporado à de São Do­
mingos do Araxá pela Lei N9 249 de 19 de outubro de 1848; ter
232 BORGES SAMPAIO

Igreja Matriz de Nossa Senhora do Destêrro (Matriz do Desem­


boque), construída em 1743, em fotografia de 1967

sido restaurada pela N.9 452 de 20 de outubro de 1849 com seus an­
tigos limites e tendo sua sede na Capela do Sacramento; ter a Lei
N.9 472 de 31 de maio de 1850 revogado esta segunda parte, decla­
rando como sede da paróquia a Igreja Matriz de N. S. do Destêrro.

Não obstante, as divisas da Paróquia do Desemboque com a


Paróquia de Uberaba tinham anteriormente sido determinadas,
pelo Ribeirão da Ponte Alta em 20 de agôsto de 1824, entre os dois
vigários, por faculdade do ordinário de Goiás, como atesta o seguin­
te ato original :

"Em consequência de acharem-se combinados e concordados


os vigários de Uberaba e Desemboque, relativamente à divisa de
suas duas freguesias, indicam para as mesmas divisas, com apro­
vação de Sua Excelência Reverendíssima, o Ribeirão Ponte Alta
que verte ao Rio Grande e o Rio Claro que verte ao Rio das Velhas.
Araxá, 20 de agôsto de 1824. - Hermógenes Cassimiro de Araújo
- Antônio José da Silva."
UBERABA: HISTÓRIA, FATOS E HOMENS 233

Todavia, sem obstar tais desmembramentos, supressões e re­


vogações, o arquivo paroquial continuou sem interrupção no De­
semboque, onde iam os habitantes do Sacramento resolver suas
dependências relativas à filiação da capela, somente elevada à ca­
tegoria de paróquia em 1855.
Não tenho conhecimento do ato que elevou à categoria de pa­
róquia o povoado do Desemboque que deve ser de data muito re­
mota. Também não conheço o ato que tenha elevado esta povoa­
ção à categoria de distrito.
Sabe-se, entretanto, que a Matriz do Desemboque foi cons­
truída em 1743, ( como atestam documentos autênticos antigos, en­
contrados em livros velhos do seu arquivo, examinados pelo Tenen­
te-Coronel Antônio Augusto de Oliveira França), a expensas dos
mineradores de ouro que ali, superando sacrifícios de todo o gêne­
ro, trabalharam rudimentarmente no revolvimento de terras e cas­
calhas; do que ainda pode formar idéia o visitante ao pé chegado,
tendo-se exportado daquele local muitas dezenas de arrôbas do
precioso metal.
De uma Memória escrita pelo Coronel Manuel da Silva e Oli­
veira sôbre o princípio da povoação do Desemboque, datada de 11
de abril de 1804, sabe-se também ter sido ali criado o julgado em
1766.
Todavia, o Desemboque não saiu da regra geral da decadência
que sobrevem às povoações, tornadas opulentas pela mineração,
quando o minério falha : essa povoação de grande movimento nas
últimas décadas do século XVIII e nas primeiras do XIX, está
quase desabitada; ficou reduzida a poucos moradores, conservando
apenas, como disse, o fôro do distrito, o da paróquia, uma estação
postal e uma escola.
Tôda a construção da Matriz é de pedra e cal, e, ultimamente,
foi retocada; recebeu alguns dourados; teve novas alfaias pelo con­
curso de devotos paroquianos, o auxílio valioso do Comendador José
Bento do Vale e a cooperação do Coronel Francisco de Paula Oli­
veira França.
No adro, à entrada principal da Matriz do Desemboque, está
sepultado o homem mais notável do antigo Sertão da Farinha Po­
dre, pela recomendação que fizera a seus parentes nas proximida­
des da morte, para que, nesse lugar, seu corpo fôsse dado à terra.
~ss~ vulto na política e jurisprudência civil e eclesiástica cha­
mava-se Cônego Hermógenes Cassimiro de Araújo Bruonswik, na­
tural da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Mato Den­
tro do Sêrro do Frio, Bispado de Mariana, filho legítimo do Capi­
tão Manuel Ferreira de Araújo e Sousa e Dona Joaquina Rosa de
Sant'Ana, falecido a 26 de setembro de 1861, na idade de 76 anos.
Não foi êle, entretanto, o primeiro pároco dêsse povo aventu­
reiro - mineradores e especulistas - do Desemboque; muitos o
tinham precedido.
234 BORGES SAMPAIO

O primeiro, de que a tradição dá notícia pelos registros paro.


quiais de ter ali exercido o magistério sacerdotal, é o Padre Frei
José, religioso da Ordem de São Francisco, anteriormente ao ano
de 1768.
De 11 de outubro de 1768 até 1771, paroquiou o Padre Antônio
Pedro Xavier.
De 1771 até 1774, paroquiou o Padre José de Faria de Morato.
De 1774 até fevereiro de 1776, paroquiou o Padre José Pereira
do Couto.
De fevereiro de 1776 até abril do mesmo ano (dois meses), pa­
roquiou o Vigário da Aldeia de Sant'Ana do Rio das Velhas, Padre
Lourenço Gomes de Carvalho.
De abril até junho do mesmo ano (dois meses), paroquiou o
Padre João Batista Xavier.
De julho dêste mesmo ano até fevereiro de 1778, voltou a pa­
roquiar o Padre José Pereira do Couto.
De 1778 até 1788, paroquiou o Padre José Corrêia de Queirós.
De 1788 a 1796, paroquiou o Padre Antônio Alves Machado e
Silva.
De 15 de dezembro de 1796 até 13 de junho de 1797, paroquiou
o Padre Manuel Coelho dos Santos.
De 5 de agôsto de 1797 até 20 de janeiro de 1805, paroquiou o
Padre Antônio Martins Fagundes que, falecendo a 16 de fevereiro
do mesmo ano, foi encomendado pelo Vigário do Araxá, Padre An­
tônio Alves Machado e Silva.
De 4 de março de 1805, até o dia seguinte, paroquiou o Padre
Vicente Lopes Coelho (um dia).
De 17 de marco de 1805 até 5 de maio do mesmo ano, voltou a
J

paroquiar o Padre Vicente Lopes Coelho.


No dia 6 de maio paroquiou o Padre Cláudio José (um dia).
De 28 de junho de 1805 até 7 de fevereiro de 1808, paroquiou
o Padre Antônio José Tavares Coutinho de Sá.
De 30 de março de 1808 até 16 de outubro de 1809, paroquiou o
Padre João Joaquim Mendes.
De 22 de outubro de 1809 até 19 de dezembro de 1812, voltou
a paroquiar o Padre Antônio José Tavares Coutinho de Sá.
Em 12 de abril de 1814 até 26 de dezembro de 1861, dia do seu
falecimer:ito, paroquiou o Padre Hermógenes Cassimiro de Araújo
Bruonswík ( 47 anos, cinco meses e sete dias), a saber : desde 12 de
abril até 24 de junho de 1814, interinamente; desde êsse dia até 6
de agôsto de 1820, como vigário encomendado· daí em diante até
? dia do se~ falecimento, como vigário colado, tendo sido seu coad­
jutor, em diferentes épocas, o Padre Zeferino Batista Carmo.

Hermógenes Cassimiro de Araújo Bruonswik recebeu as or­


dens de presbítero em São Paulo, no dia 20 de setembro de 1809;
UBERABA: HISTóRIA, FATOS E HOMENS 235

foi apresentado para a colação por decreto de 19 de agôsto de 1819,


com a pensão de 25$000 anuais e a colação confirmada a 15 de maio
de 1820.
Todos os prelados e bispos de Goiás, a que pertencia e ainda
pertence a Paróquia do Desemboque, depositavam ilimitada con­
fiança no seu caráter e saber.
Criada a Comarca Eclesiástica do Nôvo Sul, no Bispado de
Goiás, foi para ela nomeado o Vigário Hermógenes - provisor, vi­
gário geral, visitador e juiz dos resíduos, e nesses encargos sempre
conservado com muitas faculdades prelatícias e episcopais.
Foi bom pregador.
No regímen da respectiva lei de 1832, ocupou o pôsto de te­
nente-coronel da Guarda Nacional, comandante do batalhão do
Desemboque.
Exerceu os cargos de vereador e curador geral dos órfãos, e a
profissão de advogado provisionado.

Outra Igreja do Desemboque, frequentada pelos pretos, em


fotografia de 1967
236 BORGES SAMPAIO

Constantemente foi eleitor.


Tendo sido eleito deputado às Côrtes que se reuniam em Lis­
boa, não chegou a ir tomar assento por ter-se declarado, logo após,
a Independência do Brasil.
Para muitas legislaturas foi eleito deputado às Assembléias
Provinciais Mineiras.
Em 1856, vigorando a lei política da conciliação com grandes
círculos que elegiam um deputado e um suplente, ocupou uma ca­
deira na Assembléia Geral Legislativa como deputado, por extra­
ordinária maioria de votos.
Ocupou o elevado cargo de diretor da instrução pública do cír­
culo literário.
Foi professor gratuito de muitos estudantes de latim, teologia
dogmática e de moral; muitos devem-lhe a educação que recebe­
ram e prepares que os habilitaram a passarem a vida menos de­
pendentes; entre êstes chegaram a ser sacerdotes, por sua inicia­
tiva e diligência, os Padres Joaquim Félix Rodrigues Fraga, Do­
mingos José de Almeida, Emigdio Antônio de Carvalho, José de
Oliveira e outros.
Era cavaleiro da Ordem de Cristo; cavaleiro da Ordem da Rosa,
oficial da mesma ordem e cônego honorário da Capela Imperial do
Rio de Janeiro.
Como jurisconsulto, no cível e no eclesiástico, era procurado
de longe por muitos para receberem dêle os conselhos, sempre
pautados pelo direito.
O seu caráter reto não transigia, onde e quando conhecesse a
verdade; rigorista na forma dos atos em que tinha intervenção, di­
zia, se era por tal interpeíado : .- "As fórmulas dos atos são a ga­
rantia das partes e não se devem omitir".
Franco, hospitaleiro e obsequiador, sua casa era procurada pe­
los viajantes e pelos que tinham dependências com êle, ou no lu­
gar, e dêle levavam sempre agradável impressão. Posso dar disto
testemunho, por tê-lo conhecido na intimidade, desde 1849 até o
seu falecimento.
Adepto intransigente das idéias conservadoras que dirigiam
êste partido, do qual era chefe prestigioso e considerado, todavia,
jamais foi perseguidor de adversários.
· Foi êle quem concorreu eficazmente, quando era deputado ge-
ral, para que sôbre o Rio Grande, no ponto do Jaguara, o Govêrno
Geral fizesse construir uma ponte de madeira, deixando lançadas
as bases para que depois fôsse construída, como o foi pelo Govêrno
de São Paulo, anteriormente à que construiu ali a Estrada de Fer­
ro Mojiana.
Foi êle quem empossou a Igreja Matriz de Uberaba em suas
prerrogativas de paroquiana, fazendo-lhe o inventário dos orna­
mentos e alfaias, servindo-lhe de secretário o Padre Zeferino Ba­
tista Carmo que depois foi vigário em Santa Rita do Paraíso, na
Província de São Paulo.
UBERABA: HISTÓRIA, FATOS E HOMENS 237

. Teve amigos distintos e dedicados, dentre os quais nomearei -


o .finado Mordomo da Casa Imperial, Paulo Barbosa da Silva no
~10 de Janeiro; o Senador Manuel Teixeira de Sousa, primeiro' Ba­
rao de Camargos, em Ouro Prêto; o Coronel José Manuel da Silva
e Oliveira Filho, em Desemboque; o Barão de Ponte Alta, em Ube­
raba, além de muitos outros que seria longo nomear. E, se no
longo tirocínio de sua vida pública e política teve ocasião de' ad­
quirir algum desafeto, pode asseverar-se não ter tido inimigos; ain­
da há contemporâneos que o poderiam atestar.
. Após a morte dêsse brasileiro notável, habitante do deserto,
veio a supressão da vila do Desemboque.

Ao terminar êstes apontamentos, sejam-me permitidas algu­


mas palavras sôbre o trato social do Cônego Hermógenes:
Moderado, paciente mesmo, quando os constituintes ou pre­
tendentes faziam objeções às suas opiniões, impacientava-se com
a repetição delas, principalmente se tais objeções eram precedidas
ou seguidas de 11m - mas ... -, ou - porém ... - "Vejo nisto,
disse-me um dia, que a parte é velhaca". Os que não conheciam
seu natural e por semelhante motivo o estranhavam, o alcunhavam
de - nervoso. Engano : obedecia ao impulso do seu bom coração.
Não pactuava com a insídia, onde desconfiasse havê-la. Passado
o momento, não se diria ser aquêle o homem que acabara de ficar
impacientado.
Era de gênio brincador, como se dizia em linguagem popular,
e amigo das crianças; foi sempre oposto à prática do malfeito ao
próximo; comprazia-se em ter hóspedes.

Finou-se o Cônego Hermógenes plàcidamente, depois de con­


fessado e ter recebido os sacramentos que a Religião Católica Apos­
tólica Romana destina aos enfermos e moribundos, administrados
pelo venerando Padre Joaquim Félix Rodrigues Fraga, seu coad­
jutor, que à cabeceira do leito acompanhou a agonia, compensan­
do, com as consolações da caridade evangélica do seu ministério,
a ordenação sacerdotal que lhe devia.
O seu cadáver esteve exposto até o quinto dia, assistido de
amigos e parentes, sendo levado à sepultura com imenso acompa­
nhamento, como jamais se tinha visto ali e nos povoados vizinhos,
tendo afluído de longe povo de tôdas as classes para o saimento.
A missa de corpo presente e ofícios mortuários foram celebra­
dos pelos Padres Mariano José Vidigal, Antônio José de Azevedo,
Fortunato José de Castro, Cônego Francisco de Assis Pinheiro de
Ulhoa Cintra e o coadjutor Joaquim Félix Rodrigues Fraga.
238 BORGES SAMPAIO

Sôbre a sepultura foi colocada uma laje, tirado do chão da


sua freguesia, que paroquiara por quase meio século, com a se­
guinte inscrição gravada :
HIC JACET CôNEGO HERMóGENES
CASSIMIRO DE ARAúJO BRUONSWIK,
FALECIDO A 26 DE SETEMBRO DE 1861.

Quando neste dia há sacerdote no lugar, celebra-se invariàvel­


mente uma missa pelo eterno descanso de sua alma, com a enco­
mendação do ritual, à que assistem os fiéis que então se acham
na povoaçao.-

Esta Memória foi por mim remetida ao Instituto Histórico e


Geográfico do Brasil, como seu sócio correspondente, acompanha­
da de 52 manuscritos relativos à ordenação, apresentação à vi­
gararia e colação, bem como sôbre o uso das ordens sacras; 6 ma­
nuscritos relativos à Guarda Nacional; 3 sôbre vereança; 4 rela­
tivos à eleição de deputado às Côrtes de Lisboa e deputado à As­
sembléia Geral, havendo nêles uma assinatura de seu punho; 6
manuscritos relativos às honras honoríficas; 13 relativos a eleitor,
havendo nêles sete assinaturas de seu punho; 5 relativos a diretor
do círculo literário, curador geral dos órfãos, advogado, irmão de
N. Sra. do Carmo, havendo nêles duas assinaturas de seu punho;
5 manuscritos e um impresso sôbre a antiga Ponte do Jaguara.

Uberaba, abril de 1904.

(in Revista de Uberaba, n<?s 2/3. Uberaba,


'I'ípografia da Livraria Século XX, abril/
maio 1904, págs. 31/32 e 58/62)

..
O PADRE ANTôNIO JOSÉ DA SILVA

PRIMEIRO VIGARIO DE UBERABA

ANTôNIO JOSÉ DA SILVA, Cura da


Freguesia do Sacramento no Rio de
Janeiro, Cônego Honorário da Cate­
dral do Rio de Janeiro, primeiro Vigá­
rio Colado na Freguesia de Santo An­
tônio e São Sebastião de Uberaba,
Província de Minas Gerais.

Sôbre êste notável mineiro, antigo habitante do vasto terri­


tório, que tinha por sede Uberaba e então se chamava - Farinha
Podre -, falecido no Rio de Janeiro, suponho que em 1858, sendo
e:1tão Cura da Freguesia do Sacramento; cidadão que na ex-Pro­
v1ncia de Minas foi proeminente, professando a política conserva­
dora e muito lhe deve esta zona; sôbre tão distinto personagem eu
disse o seguinte no manuscrito que mandei ao Instituto, relativo
a' - Denominação das Ruas da Cidade de Uberaba, 1880 - :
"O Vigário Antônio José da Silva, depois Cura da Freguesia do
Sacramento no Rio de Janeiro e cônego honorário da Capela Im­
perial, foi o primeiro vigário colado desta povoação, após. a sua
elevação à categoria de paróquia em 1820, onde residiu por muitos
anos, procurando sempre engrandecê-la. Preponderou vigorosa­
mente nos negócios públicos dela até 1855; e Uberaba, por sua
vez, concorreu ininterrompidamente para que êle a representasse
perante os Poderes Legislativo geral e provincial, e o administra­
tivo. Foi, por conseguinte um homem distinto nesta povoação,
cuja memória está no caso de conservar-se lembrado nela para a
posteridade. Sua residência era na Rua Grande em frente à Ma­
triz. É justo que a rua se denomine - Rua do Vigário Silva."
Com efeito, em outro capítulo, dando o característico às ruas,
tive ocasião de escrever : -
"Rua Vigário Silva-. Principia no Largo da Matriz; finda no
Largo da Independência. É atravessada pelas Ruas Ladeira e São
24·0 BORGES SAMPAIO

Miguel. Acaba nela o Beco Liberdade. Pertence à Colina da Ma­


triz.
N. B. Esta rua foi sempre conhecida por - Direita ou Gran­
de -. É uma das mais importantes da cidade, mas de alinha­
mento em arco. A comissão tinha compreendido na - antiga Rua
Grande - êste pedaço, a que tinha dado o nome - Tiradentes -.
Neste plano, é esta a terceira parte da antiga Rua - Grande -
ou - Direita-, nome que lhe acharam os recenseadores de 1855."
Assim se ficou denominando a rua, e continua a denominar-se.
De tão notável mineiro entretanto, não consegui obter docu­
mentos, além dos que se referem à sua apresentação de vigário co­
lado, dos quais .aqui junto a cópia.
Em outra ocasião já mandei ao Instituto uma - Memória sô­
bre a Farinha Podre -, sem data nem assinatura, mas que sabe-se
ter sido escrita pelo Padre Antônio José da Silva, em 1825 ou 1826.

Uberaba, 11 de setembro de 1897.


PROPOSTA, DECRETO E
CARTA DE APRESENTAÇÃO
PARA A COLAÇÃO DO PADRE ANTôNIO JOSÉ DA SILVA,
NA FREGUESIA DE SANTO ANTôNIO E SAM SEBASTIÃO DE UBERAVA.
1829 - 1830

"Número 60. Réis 800. Pagou o sêlo, oitocentos réis. Desem­


boque, 4 de janeiro de 18"50. Agente Oliveira. Escrivão Fonseca. -
Senhor - Diz o Vigário Hermógenes Cassimiro de Araújo Bru­
onswik, que êle suplicante para bem de seus direitos, precisa por
certidão o teor dos registros do decreto imperial de nomeação, e
carta de apresentação do Reverendo Antônio José da Silva, Vigá­
rio da Igreja Paroquial da Vila de Uberaba do Bispado de Goiás,
e bem assim o teor da proposta do reverendo ordinário do mes­
mo bispado, sob a qual se lhe conferiu a mercê da dita Igreja,
sendo a carta de apresentação de 8 de fevereiro de 1830, e pouco an-
. teriores o decreto e proposta. P. A. V. M. I. se digne mandar pas­
sar a certidão de nomeação, carta de apresentação do Reverendo
Antônio José da Silva, Vigário de Uberaba, Bispado de Goiás, e
a proposta do ordinário, pela qual se conferiu a mercê da Igreja.
E. R. M. Como procurador, Joaquim Custódio da Silva. - Nesta
Secretaria de Estado dos Negócios da Justiça, se acha competen­
temente arquivada a proposta de que faz menção a petição retro,
a qual é do teor seguinte. - Senhor. - Por provisão da mesa da
consciência e ordens, datada a oito de outubro de mil oitocentos e
vinte oito, que apresento a Vossa Majestade Imperial e que re­
cebi a vinte e quatro de dezembro do mesmo ano. Foi' Vossa Ma­
jestade servido mandar que eu pusesse a concurso a Freguesia
UBERABA: HISTóRIA, FATOS E HOMENS 241

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Padre Antônio José da Silva

de Santo Antônio e Sam Sebastião da Uberava, da Repartição do


Nôvo Sul dêste Bispado: o que prontamente executei, mandando
afixar os editais competentes, tanto na sobredita Freguesia, como
na Catedral desta cidade. Como porém diste aquela freguesia des­
ta cidade mais de cento e trinta léguas, não havendo para ali co­
municações, se não por alguns viajantes para São Paulo, e fôsse
tempo das águas, não se pôde verificar o concurso, se não no dia
onze do presente agôsto, não concorrendo algum outro sacerdote,
se não o atual vigário encomendado da mesma freguesia, Antônio
José da Silva, que saiu aprovado com vinte oito pontos, e a quem
proponho para vigário da sobredita freguesia, levando seu exame,
e mais documentos à Augusta Presença de Vossa Majestade Im­
p~rial. Julgo do meu dever apresentar a Vossa Majestade Impe­
rial o aviso de oito de março de mil oitocentos e vinte, expedido
pela Secretaria das Mercês, que não só criou aquela freguesia, .
242 BORGES SAMPAIO

desmembrando-a por inteiro da do Desemboque, como também me


determinou, que eu nomeasse para vigário encomendado da mes­
ma ao referido Padre Antônio José da Silva, o que prontamente
executei. E como o tal aviso não assinalasse linha divisória entre
as duas freguesias, estando eu de visita no Nôvo Sul, convoquei
os vigários, tanto o colado da Freguesia do Desemboque, Hermó­
genes Cassimiro de Araújo Bruonswik, como o encomendado da
Freguesia da Uberava Antônio José da Silva, a fim de que con­
cordassem entre si sôbre a divisa, que devia haver entre as duas
freguesias, em quanto Vossa Majestade Imperial a não mandasse
dividir por onde muito bem lhe parecesse; e concordando êles en­
tre si, indicaram por divisa o Ribeirão Ponte Alta, que verte ao
Rio Grande, e o Rio Claro, que verte ao Rio das Velhas, em cuja
inteligência os ditos vigários se têm conservado até o presente.
Deus guarde a Vossa. Majestade Imperial, como nos é mister.
Goiás vinte e dois de agôsto de mil oitocentos e vinte nove. Fran­
cisco, Bispo de Castoria, Prelado de Goiás.
No livro competente se acha registado o decreto pedido por
certidão, o qual é do teor seguinte: - Conformando-Me com a
proposta do Reverendo Bispo de Castoria, Prelado de Goiás, para
o provimento da Freguesia de Santo Antônio e Sam Sebastião da
Uberava, daquela diocese : Hei por bem apresentar na referida
freguesia o Padre Antônío José da Silva, único opositor a ela. O
Visconde de Alcântara do Meu Conselho, Ministro e Secretário ce
Estado dos Negócios da Justiça, assim o tenha entendido e faça
executar com os despachos necessários. Palácio do Rio de Ja­
neiro, em quatro de janeiro de mil oitocentos e trinta, nono da
Independência e do Império. Com a rubrica de Sua Majestade o
Imperador. Visconde de Alcântara. Cumpra-se, registe-se e se pas­
se carta. Rio de Janeiro em treze de janeiro de mil oitocentos e
trinta. Visconde de Alcântara. -
Igualmente se acha registada no livro competente, a carta
imperial, que por virtude do referido decreto obteve o Padre An­
tônio José da Silva, a qual é do teor seguinte: Dom Pedro, por
graça de Deus, e Unânime Aclamação dos Povos, Imperador Cons­
titucional, e Defensor Perpétuo do Brasil. Faço saber a vós Re­
verendo Bispo de Castoria, Prelado de Goiás, do Meu Conselho,
que conformando-Me com a vossa proposta para o provimento da
Freguesia de Santo Antônio e Sam Sebastião da Uberava, daquela
diocese, houve por bem pelo Meu decreto de quatro do mês pas­
sado, apresentar na referida Igreja o Padre Antônio José da Sil­
va, único opositor a ela, como com efeito o apresento, e Hei por
apresentado, com a pensão anual de dez mil réis para a minha
Imperial Capela, e com a cláusula, de que se poderá dividir esta
Igreja, quando se julgar necessário. E vos encomendo que nela o
confirmeis, e lhe passeis vossas letras de confirmação na forma
costumada, em que se fará expressa menção de como nela o con-
UBERABA: HISTóRIA, FATOS E HOMENS 243

firmastes por esta apresentação, e com a mesmo Igreja haverá o


mantimento, e mais emolumentos, próis e precalços, que legal­
mente lhe pertencerem. Esta se cumprirá, sendo passada pela
Chancelaria das Ordens. Dada no Palácio do Rio de Janeiro, aos
oito de fevereiro de mil oitocentos e trinta, nono da Independên­
cia e do Império. Imperador com Guarda. Visconde de Alcântara.
- Carta pela qual Vossa Majestade Imperial há por bem apre­
sentar o Padre Antônio José da Silva na Igreja Paroquial de Santo
Antônio e São Sebastião, do Bispado de Goiás, na forma acima de­
clarada. Para Vossa Majestade Imperial ver. Por decreto de Sua
Majestade o Imperador de quatro de janeiro de mil oitocentos e
trinta. Vicente Ferreira de Castro e Silva a fêz. -
Não continha mais coisa alguma na proposta mencionada,
bem como nos registos do decreto e carta de apresentação, donde
para constar fielmente se extraiu a presente certidão. Secretaria
de Estado dos Negócios da Justiça, em dezoito de outubro de mil
oitocentos quarenta e três. João Carneiro de Campos."

(Original existente no Instituto Histórico


e Geográfico Brasileiro)
A HISTóRIA TOPOGRAFICA DA FREGUESIA DE UBERABA, SEU AUTOR
E SUA DATA *

A melhor notícia escrita que há sôbre a Uberaba primitiva,


ou ao menos conhece quem isto escreve, é uma memória manus­
crita, anônima e sem data, tendo por título - História Topográfica
do Uberaba - Vulgo Farinha Podre. **
Quem a escreveu ?
Não resta dúvida ser autor dessa memória o então vigário co­
lado da freguesia, Padre Antônio José da Silva, depois Cônego
Honorário da Capela Imperial e Cura da Freguesia do Sacramento
no Rio de Janeiro· homem dedicado em extremo aos interêsses de
'
Uberaba.
Eis a prova.

* O presente artigo foi enviado por Borges Sampaio ao Instituto His­


tórico em outra oportunidade, mais precisamente em 1880, como adita­
mento à Nomenclatura das Ruas de Uberaba, obra a que deu, na ocasião.
o título geral de Notícia Descritiva da Comarca, Municipio, Paróquia e Dis­
trito de Uberaba. Publica-se-o aqui por evidente correlação de assunto.
<Nota da Editôra)

,ic * Essa História Topográfica foi editada, em 1970, pela Academia de


Letras do Triângulo Mineiro, constituindo o nQ 10 de seus "cadernos".
(Nota da Editôra)
24:4 BORGES SAMPAIO

O exemplar que possuímos é escrito por letra do seu punho,


com a qual éramos familiarizado; - disse-nos muitas vêzes tê-la
escrito; - prometeu-nos, mas não teve um exemplar para nos
dar; - obtivemos, o que possuímos, do seu colega Vigário do De­
semboque, Cônego Hermógenes Cassimiro de Araújo Bruonswik,
que a tinha obtido como presente.
Qual a sua da ta ?
Informou-nos um amigo que o Imperial Instituto Histórico do
Brasil possui uma memória sôbre Uberaba, escrita em mil e oito­
centos e trinta e tantos, ou mil e oitocentos e quarenta.
Será a mesma de que aqui se trata ?
Se fôr, é duvidoso que alcance 1830, pelas seguintes razões.
A data mais recente que cita é a em que foi ereta a Fregue-
sia de Dores; (1823).
Tratando a memória da pacificação dos índios, diz seu autor
que - João Batista de Siqueira, morando vizinho aos mesmos
índios, tinha com êles frequentes comunicações, e os supria mui­
tas vêzes com mantimentos do seu paiol.
Ora, em 1827, o Padre Leandro Rabelo Peixoto de Castro, es­
creveu ao Doutor José Teixeira de Vasconcelos ter chegado a Ma­
tosinhos, ido da Farinha Podre, onde - "deitei (diz êle) os ali­
cerces de uma nova fundação no dito sertão, junto ao Paranaí­
ba -".
Esta fundação era a do Seminário de Campo Belo, doado por
aquêle Siqueira e sua mulher a Nossa Senhora Mãe dos Homens,
para cuja aquisição, se expediu provisão de licença imperial em
5 de julho de 1827; doação que foi depois confirmada por escri­
tura de 1830.
João Batista de Siqueira, pois, já em 1827 não gozava das fa­
zendas doadas; porque, desde então, ficaram na posse do Padre
David e Padre Nunes, auxiliados por Antônio Adão; sendo êstes os
«ue . nessa época socorriam os índios, e não João Batista de Si-
queira.
Convindo notar-se que, sendo o Padre Antônio José da Silva o
Vigário de Uberaba desde 17 de setembro de 1820 e muito pre­
.. ponderante nos negócios da Farinha Podre, não se presume que
ignorasse o acharem-se as fazendas de Siqueira sob a adminis­
tr~ção dos que representavam a Congregação de Nossa Senhora
Mae dos Homens.
É mui provável, pois, que o Padre Antônio José da Silva es­
crevesse sua memória sôbre Uberaba, em 1825 ou 1826.

(Original existente no Instituto Histórico


e Geográfico Brasileiro)
'

O PADRE MANUEL JOAQUIM DA SILVA GUIMARÃES

Conheci o Padre Manuel Joaquim da Silva Guimarães, nas­


cido em Ouro Prêto, filho legítimo do Capitão João Joaquim da
Silva Guimarães, irmão do Ministro do Supremo Tribunal de Jus­
tiça aposentado, o Conselheiro Joaquim Caetano da Silva Guima­
res e do pranteado mineiro, Doutor Bernardo Guimarães.
Conheci-o pelos anos de 1852 a 1854, se a memória me não
falta, depois de ter-se ordenado sacerdote, devendo êle ter então
de 25 a 27 anos de idade.
Por várias vêzes o Padre Manuel Joaquim, na ausência ou im­
pedimentos de seu tio, o vigário Cônego Antônio José da Sil­
va, depois Cura da Freguesia do Sacramento na Côrte, paroquiou
na Matriz de Uberaba.
Era meu vizinho, por que residia nesta cidade, habitando a
casa do dito seu tio.
Acudia de pronto aos atos do seu ministério; era destituído
de interêsse pecuniário.
Declinava de si qualquer ostentação; era afável para com
todos.
Jamais se o via contrariado.
Não abandonava os hábitos talares.
O tempo que mais alegre passava, era aquêle em que se via
rodeado de meninos. Estes faziam dêle o que queriam. Estimu­
lava-os com emulações para os ver disputarem, no intuito de rir­
se como perdido. Ensinava-lhes o manejo militar; incitava-os à
ginástica; ensaiava-os nas farsas que êle mesmo escrevia, das
quais, com muito pesar, nenhuma possuo.
Entre essas farsas, talvez tivesse merecimento especial uma,
que intitulou - O Diamante Monstro -; crítica alusiva ao dia­
mante - "Estrêla do Sul", - achado por êsse tempo na Bagagem,
sendo vendido na Europa, depois de ocasionar intermináveis dis­
putas judiciárias, entre os muitos que desejavam. . . possuí-lo;
diamante que o Padre Manuel Joaquim simbolizava num formi­
dável calhau de cristal.
Um dia veio o Padre Manuel Joaquim à minha casa, trazen­
do na mão umas tiras de papel, e disse-me um tanto acanhado:
246 BORGES SAMPAIO

- Tenho aqui o Ipê, poemeto no qual, escrevendo uns versos ale­


xandrinos, dou notícia da frondosa árvore das nossas matas; leia­
os. Talvez o Correio Mercantil aceite isto para publicar.
Sabia êle que a ilustrada redação daquele jornal, publicado
então na Côrte, da qual fazia parte o Senador Francisco Otaviano
de Almeida Rosa, me honrava com a publicação em suas colunas,
das notícias que frequentemente eu lhe mandava de Uberaba, sen­
do esta a razão porque me procurou.
Pôsto não fôsse eu o competente para julgar do mérito dês se
trabalho, todavia li-o e agradou-me.
Procurei o autor para agradecer-lhe o autógrafo e pedir-lhe,
como pedi, que o assinasse.
Das minhas instâncias apenas pude conseguir que a poesia
levasse as quatro iniciais do seu nome - M. J. S. G.
O Correio Mercantil, não só prontamente publicou aquela
obra, que ocupou na fôlha uma coluna em tipo miúdo, como a res­
pectiva redação agradeceu-me, por uma carta, a remessa do escri­
to; solicitou ainda a minha intervenção perante o autor, para que
continuasse a fornecer-lhe outros escritos.
Nada mais, porém, pude então obter do autor do Ipê, que
pouco tempo depois passou-se a residir na vila do Araxá, para onde
fôra nomeado vigário encomendado da paróquia.
Sinto grande pesar em ter-me desaparecido o número da fôlha
em que foi impresso aquêle poemeto; se ainda deparar com êle, o
enviarei ao Instituto.

No Araxá, o Padre Manuel Joaquim escreveu uma sátira em


estrofes de seis versos, alusiva a um indivíduo atrabiliário e amigo
do alheio, o qual indicarei pela letra -C-, por ainda haver mem­
hros de sua família vivos, embora seja êle falecido há mais de trin­
ta anos.
Adiante copiarei essa obra, que aliás já serviu para satirizar a
dois indivíduos desta cidade - um na Nação de Niterói em 1859 e
tive ocasião de encontrar arquivado na Biblioteca Nacional; o ou­
tro em 1883 no Correio Uberabense; tendo os aplicadores da obra
feito algumas alterações na primitiva.
Pouco tempo o Padre Manuel Joaquim paroquiou a Igreja do
Araxá, por ter transferido a residência para o Rio de Janeiro.
Na memória de todos os dessa época deve estar ainda gravada
a terrível epidemia de cholera-morbus, que vitimou considerável
número de pessoas na população da capital do Império em 1855.
Monsenhor Antônio Pedro dos Reis, secundado por outros sa­
cerdotes e devotos, fêz cantar matinas e celebrar missa, em sufrá­
gio das almas que se haviam ido dêste mundo, em consequência
dêsse doloroso acontecimento, "orando pelos mortos o jovem e ta­
lentoso sacerdote, o Sr. Vigário de Araxá, Padre Manuel Joaquim
UBERABA: HISTôRIA, FATOS E HOMENS 247

da Silva Guimarães", na cerimônia religiosa, disse F. M. Rapôso


de Almeida, na introdução com que editou "o monumento modes­
to, mas significativo, dêsse ato".
Essa oração evangélica, de que a imprensa de então se ocupou
rendendo elogios ao orador sagrado, vai adiante, neste opúsculo;
obtive-a com custo para ofertá-la a meu filho Frei Hermógenes do
Coração de Maria Sampaio, congregado na Ordem Beneditina, que
infelizmente finou-se a 14 de julho dêste ano em Uberaba. Melhor
destino eu não acharia para essa oração de caridade, que não fôsse
o de mandá-la, com estas tôscas linhas, ao arquivo do Instituto
Histórico Brasileiro, que, aí a conservando, me obsequiará.

Depois do que acabo de referir, não soube mais do Padre Ma­


nuel Joaquim, a não ser que os jornais, dando notícias do nono
Exército no Rio da Prata durante a guerra contra o Paraguai,
mencionavam haver, entre as fôrças brasileiras, um capelão de
nome - Padre Manuel Joaquim da Silva Guimarães. Seria êste •
o ex-vigário das paróquias de Araxá e Uberaba?
Conhecia-lhe a abnegação de si próprio; não duvidei pois acre­
ditar que tivesse êle aceitado um lugar entre os bravos brasileiros,
que naquelas plagas sacrificavam-se pelo amor da pátria.
Constou posteriormente aqui, o ter êsse capelão falecido a
bordo de um navio de guerra, quando voltava para o Brasil.

Antes de concluir esta despretenciosa e breve notícia, peço


vênia para referir um episódio ocorrido em Uberaba, quando o Pa­
dre Manuel Joaquim habitava esta povoação.
Nesse tempo não havia aqui nenhum médico formado; por­
tanto, o tratamento e curativo dos enfermos eram confiados a
curandeiros.
No quadro dêstes havia-se voluntàriamente alistado Marcos
José de Azevedo, também conhecido por - Marcos Rojão; homem
completamente analfabeto.
Não obstante, Marcos era consultado e chamado para junto
da cabeceira dos enfermos, onde corria prontamente, de dia ou de
noite, qualquer que fôsse o tempo e a distância, servindo-lhes de
médico, boticário e enfermeiro; muito apologista de aplicar nos
seus doentes as sangrias, os vomitórios e os purgantes. Com isto
curava os que não tinham de morrer e os não matava.
Por êsse mesmo tempo havia aqui um pobre homem demente,
de nome Francisco Carrilho de Castro. Por brincadeira, meia dúzia
de rapazes conseguiu fazer persuadir ao infeliz maníaco que seria
- O Instrutor -. Efetivamente foi-lhe conferido o título fictício
e a posse do dito cargo, depois de se o vestir de arlequim, e assim
248 BORGES SAMPAIO

o terem feito percorrer as ruas da povoação acompanhado em


charola dos infalíveis moleques, que nestas patuscadas abando­
nam mesmo o respeito de infelizes enfermos, que antes deviam
inspirar compaixão e incitar à caridade, do que servirem de ga­
lhofa.
O Padre Manuel Joaquim aproveitou-se dêste episódio e es­
creveu, em verso, uma série de cartas e respostas, que figurou tro­
cadas entre Marcos Rojão e Carrilho; aliás ambos já falecidos há
mais de trinta anos.
Só há pouco tempo é que pude obter de Major José Elias de
Sousa, que foi íntimo amigo do Padre Manuel Joaquim, os autó­
grafos dessa brincadeira; o qual também os tinha obtido do padre,
a título de êste os ter perdido.
tsses originais estão muito estragados e foram escritos, ao
correr da pena, está visto, pois que até empregou sobrescritos de
cartas para escrevê-los.
Por esta razão, faço adiante a transcrição dêsses versos, que,
• na minha carência de habilitações para julgá-los no mérito, ofe­
reço-os ao Instituto Histórico, por serem a produção de um minei­
ro despretencioso mas patriota, e tê-los escrito neste vasto, então
muito despovoado, território da Farinha Podre.
Sendo minha principal intenção o lembrar que o Padre Ma­
nuel Joaquim da Silva Guimarães era dotado de gênio poético sa­
tírico, todavia não ignoro que poria óbices à minha ousadia, se sou­
besse prêvíamen te dela.

Uberaba, Minas, 1888:

O LADRÃO C

(Pelo Padre Manuel Joaquim da Silva Guimarães)

Consta q'em certo país


Foi criada uma cadeira,
Onde a fundo se ensinasse
Princípios de ladroeira;
Era mister para lente
Grande ladrão, de patente.

Indo a cadeira a concurso,


Muitos ladrões concorreram·
Os homens mais eminentes '
Em furtar apareceram :
Era custoso atinar
Qual melhor para ensinar.
UBERABA: HISTÓRIA, FATOS E HOMENS 249

Apertado em duro exame,


Cada ladrão parecia
I'ão senhor do que tratava,
Tão senhor em teoria,
Tão hábil no praticar,
Que f êz a todos pasmar.

Munidos de documentos
De roubos, que praticaram
Vilões abalizados
Todos êles se mostraram :
Mais perfeitos em roubar
Não se podia encontrar.

Com efeito ! . . . ( diz pasmado


O fino examinador),
São profundos na matéria;
Não sei dizer o melhor :
Cada qual se tem mostrado
Na ciência consumado.

Como agora hei de saber


Qual de vós mais caloteiro
Para a cadeira reger ?
Julgo serei justiceiro
Decidindo esta questão
Por uma sorteação.

Um velho e gordo ladrão


Ouvindo tal parecer,
Ficando mui furioso,
Não se podendo conter,
Soltando voz de trovão
Falou assim do balcão :

Inda que velho, doente,


Sou na arte adiantado;
Não vejo um concorrente
Mais ladrão e malcriado,
Pois vivo sempre insultando.
Iludindo, ou inventando.

Senhor examinador,
(Não falo por me gabar),
Nunc'achei quem me igualasse
Na ciência de furtar :
Eu me julgo neste mundo
Um ladrão, sem ter segundo.
250 BORGES SAMPAIO

Eu sou tal, q'além dos roubos,


Cuja conta nem eu sei,
Maldigo e descomponho
Aqueles de quem roubei
Sendo mestre no furtar
Não sou menos no insultar.
E quando acaso não posso
Algum coitado iludir,
Eu me vingo - me consolo
Em descompô-lo e mentir :
Nunca pude perdoar
A quem não pude roubar.

Senhor examinador,
Isto cheira a mangação !
Não quero saber de sorte ! ...
Não vejo aqui um ladrão
Que se possa comparar
Comigo no rapinar.
Aperte, pois, êsse exame,
Aperte ... não temerei;
Não me faltam documentos
Pelos quais eu provarei
Que, sem minha permissão,
Ninguém pode ser ladrão.

Provarei, que, neste ofício,


Longos anos pratiquei;
A maldade devotado,
Té parentes man teei.
Provarei que fui ladrão
Até mesmo da Nação.

Provarei, que ao comércio


As contas tenho negado
De queijo, manteiga, vinho,
( Mesmo com bilhete dado) ,
Sob juramento falso
Ind'apanhado descalço.
Não cursei escolas livres;
Em exames não menti;
Para ser aladroado
A ninguém eu iludi:
Não tive protetorado
Para ser bem malcriado.
UBERABA: HISTÓRIA, FATOS E HOMENS 251.

Provarei que fui ladrão


Dos cofres e do altar;
Aos juízes e administração
Consegui sempr'enganar;
Provarei que deixo pontas
Em tôdas as minhas contas.

Inda querendo abafar-se


As vozes da opinião,
Não se o conseguiria:
Sou o primeiro ladrão.
Dêste pôsto não sairei,
Que praticando ganhei.

Provarei ... porém calou-se.


Os mais ladrões lhe gritaram :
- Basta! basta! já venceu-nos!
E logo se retiraram .
Desanimados - corridos,
Confessando-se vencidos.

N'outro dia o grão-Magano,


Com cara de bandurrilha,
Riso cínico, malévolo,
Falava o tal bigorrilha,
Repimpado na cadeira
Ensinando a ladroeira.
CARTAS DO CARRILHO INSTRUTOR, AO MARCOS ROJÃO E
VICE-VERSA

(Pelo Padre Manuel Joaquim da Silva Guimarães)

DO INSTRUTOR

Vou fazer-lhe esta cartinha,


Amigo Marcos Rojão,
Para dar-lhe uma notícia
Com tôd'a satisfação.
Quem diria, senhor Marcos,
Q'êste seu venerador
Seria um dia escolhido,
Para aqui ser Instrutor ! ...
Por isso já lhe previno,
Que não pego mais a enxada;
Que procure outro sujeito
Para ser seu camarada.
252 BORGES SAMPAIO

Para viver não preciso


Ir seu quintal capinar;
Vou ganhar muito dinheiro,
Vestir farda e figurar.

Mas nem por isso receie


Perder a minha afeição;
Sempre hei de lembrar-me
Do meu amigo Rojão.

Para prova do afeto,


Que lhe tenho consagrado,
Vou-lhe conceder um pôsto;
Pois que sou autorizado.

Desde já vou nomeá-lo


Furriel do batalhão;
E já se pode assinar
- Furriel Marcos Rojão -.

Não posso ser mais extenso.


dou um seu venerador,
E no rol dos seus criados
Não esqueça o Instrutor.

DO ROJÃO

Amigo. Cá recebi
A carta que me mandou;
Eu por ela estou ciente,
Que o seu juízo virou.

Vacimocê me comunica
Que agora é nosso Instrutor;
O Diabo que o acredite.
São histórias, meu senhor .
..
Como é que um homem tão velho
Engoliu pêta tamanha ? !
Amigo, não creia nisso;
Amigo, tudo é patranha.

Porém o que mais me zanga,


É sua malcriação;
Pois meu nome de batismo
É Marcos, e não Rojão.
UBERABA: HISTORIA, FATOS E HOMENS 253

Por isso quando escrever-me


Mostre boa educação;
Porque aliás me azedando,
Posso dar-lhe um pescoção.

Eu lhe direi meu amigo,


Que venha pegar a enxada;
Pois essa história de empregos,
Não passa de caçoada.
Enfim, amigo Carrilho,
Não se deixe bobear;
Não acredite em patranhas,
E venha já capinar.

De resto, ainda lhe emprazo,


Que não me chame Rojão,
Porque isso é desaf ôro
E falta de educação.
O emprêgo que me dá
Não lhe posso agradecer.
Tenho mais em que cuidar.
Tenho muito que fazer.

DO INSTRUTOR

Não inveje, amigo Marcos,


A minha nomeação;
Posso dar-lhe melhor pôsto
Na grande Repartição.

Não matará mais doentes,


Com lanceta e vomitórios;
Ganhará muito dinheiro
No quartel - em palanfrórios.

Não duvide do meu pôsto ...


Bem viu que n'outro dia,
Com Ricardo e Cazuca,
Já andei na romaria,

De Anjo, bem enfeitado


Com saiote e bom calção,
Laço de fita vermelha ...
Ia eu na procissão.
BORGES SAMPAIO ~.. - .' -
Vomecê diz que cura gente,
Com a sua antopatia;
Deixe-se já dêsse ofício.
Seja cá da Companhia.

O Dimas e Chico Gordo


O acusam de ser mau;
Dizem que lhe vá ao lombo
Com famoso varapau.

Primeiro que isto faça,


Quero que o Marcos Rojão .·-.
Saiba que não sou doido
Como pensa - sem razão.

DO ROJAO

Se, amigo, a sua carta,


É à vista do que ela encerra,
Claro está, que agora temos
Um palhaço, em nossa terra.

Com efeito, não há dúvida.


O senhor está perdido !
Está perdido de todo !
Está um doido varrido ...

Na toada em que vai indo,


Além de ser Instrutor.
Será também Presidente
E depois ... Imperador.

Bispo, o senhor já é
(Não na minha opinião) ,
Pois que teve o desafôro
De chamar-me de Rojão.

O pior é que o senhor


Teimou em me perseguir;
Não achou outro sujeito
Com quem se vá divertir.

Já me falta a paciência ..
Para mais tempo o sofrer;
Vacimocê com suas cartas
Quer também m'endoidecer.

UBERABA: HISTÓRIA, FATOS E HOMENS 255

O Diabo que o ature !


Eu vivo muito ocupado.
Se está doido vá brigar
Com quem o pôs neste estado.
Neste instante estou de marcha
Para ver os meus doentes;
Isto, amigo, faz mais conta,
Do que turrar com dementes.
Não fale em meus curativos;
São coisas que não entende;
Quando não, eu vou-lhe às ventas
Se vacimocê não me atende.
A mesma Maria funda,
Que em segrêdo já o namora,
Que lhe diga, meu senhor,
, Quem curou a sua nora.
Eu curei a dropasia
Do amigo Valadão;
O encalhe que lhe resta,
Eu curarei com limão.
Enfim, não falemos nisto.
Já curei a muita gente:
Quem disser-me o contrário,
Falseia, ou vive demente.

Amigo, a sua loucura


Tem-me dado que fazer :
Já me parece o Diabo,
Que me procura perder.

Fiz versos, sem conhecer


Onde tenho o meu nariz;
Nunca meti-me a poeta;
Mas, o senhor, assim o quis ...
Quanto a suas ameaças,
De moer-me as pengaladas,
A resposta que merecem,
São quinhentas gargalhadas.

O senhor não tem vergonha,


Nunca teve educação;
Nunca dei-lhe confianças
Para chamar-me Rojão.
256. BORGES SAMPAIO

Quem tem um pouco de brio,


Jamais a tanto se atreve:
Rojão, senhor malcriado,
l:: o Diabo que o leve.

O senhor, com essa cara,


Bempre foi muito enjoado;
E apesar de ser maluco,
Não tem nada de engraçado.

Feliz foi primo Ricardo,


Por fazer-lhe continência;
Outro tanto não lhe faço,
'Nem lhe tenho reverência.

Amigo, o dito meu primo,


Também gosta de mangar,
E no sério que mostrou-lhe
Há muito que duvidar.

Não pude conter o riso


Ao ler sua narração,
Quando deu-se em espetáculo
A. tôda a povoação.

Custa a crer que se animasse,


Um velho feio e. marmanjo,
A passear pelas ruas,
Preparado como um Anjo !

Vacimocê quando mostrou-se


De barretão e saiote,
Precisava de cadeia;
'Precisava um bom chicote.

A Eva gorda em lhe vendo,


Deitada no seu balcão,
Caiu, de tanto se rir,
Com todo o pêso, no chão.

O senhor, quando falou-me


Que saiu de barretão,
Eu notei-lhe uma injustiça
Que não merece perdão.
UBERABA: HISTÓRIA, FATOS E HOMENS 257

Pois falando no Cazuca,


No Dimas e Trapalhada,
Esqueceu-se da pessoa,
Que deve ser mais lembrada.
Pois, amigo, o primo Vico
Não deve ser desprezado;
~sse primo acompanhou-o
Sempre sério, e desvelado.
Inda por mal de pecados
Deu agora em namorar !
Isso, amigo, é desafôro
Que não se pode aturar.
Amigo, para namoros,
Vacimocê é incapaz;
Deixe pois êsses namoros
Para mim, que sou rapaz.
Vacimocê é tão pateta,
Que até se tem por formoso.
Amigo, tenha juízo;
Isso é muito vergonhoso.
Vacimocê com essa cara,
Vá-se ver n'algum espelho;
Vacimocê perdeu o brio;
Vacimocê precisa rêlho.

Vacimocê é muito feio,


Muito amarelo e carcunda;
Tem pernas de sabiá,
Não tem peito, não tem bunda.
Como um homem tão feio
Há de poder agradar ?
Amigo, deixe de amôres;
Vá cuidar em trabalhar.

Vá namorar a Petisca,
Maria funda, ou Pulquéria;
Vá namorar o Diabo,
Já que quer tanta miséria.
Se eu f ôsse Vacimocê
Ia sumir n'uma loca;
É melhor viver sozinho,
Do que comer tanta moca.
258 BORGES SAMPAIO

Tenho dó de Vacimocê;
Quero dar-lhe alguma cura,
A ver se fica melhor
Dessa maldita loucura.
Tome sulfato de abóbora,
Passeie todos os dias,
E tome, na baixa via,
Oitenta e nove sangrias.
Deixe a farda e o saiote,
Vá vestir a sua roupa,
E se não tem quem o sangre,
Lá irei com minha cnoupa.
Não posso mais escrever-lhe,
Tenho muito em que cuidar;
Se o senhor está vadio,
Não me venha atrapalhar.

Por culpa de Vacimocê,


Já fiquei muito vexado;
Ouvi ler a minha carta
E fiquei desesperado.
A carta que eu lhe escrevi,
Não era para mostrar;
Se o senhor quer ser palhaço,
Eu não o quero imitar.
Por isso muito lhe peço,
Quando esta receber,
Rasque-a logo; pois não quero
Que ela vá aparecer.
Não quero que também esta
Vá depois me envergonhar;
Pois se ela publicar-se
O meu recurso é negar .
..
DO INSTRUTOR

Tive nôjo, senhor Marcos,


De ler tanta porcaria;
Essa carta dos Diabos,
De tanta patifaria,
Tanto insulto, tanta bosta,
Não me merece resposta.

UBERABA: HISTÓRIA, FATOS E HOMENS 259

DO ROJÃO

Estando quase a sair


Seu bilhete recebi;
Ao ler a primeira linha
Larguei-o, pois entendi,
Que é melhor ver meus doentes
Do que brigar com dementes.

A CARIDADE E O SACERDÓCIO

(Oração fúnebre do Padre Manuel Joaquim da Silva Guimarães


ex-Vigário da cidade do Araxá.
1856.)

N. B.

Não obstante o juntar eu a êste manuscrito o exemplar im­


presso em 1856, da Oração Fúnebre de que fiz menção no prin­
cípio, todavia tomei a deliberação a copiar: se desaparecer o fo­
lheto ficará a cópia, para dar testemunho do muito aprêço em
que tive as boas qualidades, pessoais e morais, do Padre Manuel
Joaquim da Silva Guimarães; precedendo-a da - Introdução -
com que a editou F. M. Rapôso d'Almeida.
Meus ilustrados colegas me relevarão êste - excesso de zêlo
-, se assim lhes aprouver qualificar o meu ato.
A. B. Sampaio.
INTRODUÇÃO

Numa época, em que o nosso clero é exageradamente acoima­


do de ignorância e falta de dedicação no desempenho de seu au­
gusto ministério, é um dever da imprensa, justa e imparcial, vul­
garizar as ações meritórias, que essa depreciada e caluniada classe
vai prestando à Religião e à sociedade.
Na quadra de terror e angústia, por que há pouco passamos,
na invasão dessa horrorosa epidemia, dêsse flagelo do cólera, o
clero tornou-se digno de louvor pela sua dedicação evangélica, pe­
las preces que erguia ao trono de Deus das misericórdias, pelo sa­
crifício da própria vida, afrontando a morte junto ao leito dos
malinados.
A sociedade atual, eivada do filosofismo da enciclopédia, tem
julgado o clero pelas exceções escandalosas; e não pelo que êle é,
nem pelo que mostra na ocasião. O clero tornou-se, na última qua­
dra epidêmica, o amigo, a providência viva dos infelizes, o conso­
lador dos aflitos, o protetor dos desvalidos, e o pai do órfão. Era
260 BORGES SAMPAIO

uma epidemia flagrante e contagiosa: - não importa: o padre


caminhava para junto do infeliz, que se retorcia nas últimas e
cruéis agonias da vida com a mesma serenidade com que iria
abençoar dois amantes, ou batizar o recém-nascido.
Muitas vêzes a espada do arcanjo da devastação cortava essa
vida preciosa, cheia de esperanças e de fé : o sacrifício passava
inteiramente desapercebido aos olhos dos homens distraídos ou
aterrados; mas essa dedicação do sacerdote, assim sacrificado,
teve por certo uma recompensa na mansão dos justos.
Os jornais assoalhavam as dádivas interesseiras, a caridade
pretenciosa, os meios plausíveis de obter títulos ou condecorações,
o clero não teve uma palavra de louvor, quando se prosternava
perante os altares do Deus vivo, quando corria a consolar os afli­
tos, quando se inclinava perante o leito de malinado, quando su­
cumbia ao hálito sufocador da peste que recrudescia.
Regozijamo-nos de que uma imprensa aduladora não profa­
nasse com os seus louvores, calculados pela ambição, e aferidos
pelo interêsse, uma das glórias mais edificantes do nosso clero.
A satisfação íntima dos que sobreviveram, e a recompensa dos que
pereceram, manifestou-se de uma maneira digna do sacrifício.
Sem estrondo, sem pretensões, sem desvanecimento o clero
correra, nos dias da conflagração, junto aos altares, ou do leito
das agonias; depois de passado o perigo, o clero fluminense, com
o seu modesto, mas ilustrado pastor, sem aparato profano, sem
arruído, sem desvanecimento, correu também ao templo a orar
pelos mortos : - foi sublime e edificante um tal espetáculo!
Ao Sr. Monsenhor Antônio Pedro dos Reis cabe muita glória
e louvor pela realização dêste nobre, generoso e edificante pensa­
mento. Foi êle quem tomou a iniciativa da idéia, e a levou ao
cabo com plausível resultado.
No dia 20, à tarde cantaram-se as matinas e no dia 21 cele­
brou-se a missa: - orou pelos mortos o jovem e talentoso sa­
cerdote o Sr. Vigário do Araxá Padre M. J. da Silva Guimarães.
A Semana fôlha literária, que se publica nesta cidade, e a
Revista Católica, órgão do Instituto Episcopal Religioso noticia­
ram com louvor esta augusta cerimônia. Aquela disse que êste ato
não só honrava os sufragados, como nobilitava a todos, que tinham
tomado parte na sua realização : esta expressou-se nas seguintes
frases, que se tornam notáveis pela sua simplicidade :
"A cerimônia dos sufrágios foi celebrada com tôda a soleni­
dade e pompa que condizia com o objeto.
"A igreja esteve simples, mas majestosamente decorada. Con­
correram muitos sacerdotes seculares e regulares, pontificou o Sr.
Bispo Diocesano e orou o Sr. Vigário do Araxá Padre Manuel Joa­
quim da Silva Guimarães.
Assistiram, entre outros convidados os Srs. Bispo do Pará, Dr.
Vigário Geral, Provincial de Santo Antônio, e uma deputação do
UBERABA: HISTóRIA, FATOS E HOMENS
261

Inst~tuto Episcopal Re!igioso, com~osta dos Srs. Cônego Paiva,


pre~1de~te,. F. M. Raposo de ~l~e1da, secretário-geral, Joaquim
Jose Teixeira e Dr. Carlos Honório de Figueiredo."
. E!s .aqui em suma o que entendemos dever registrar dessas
cerimonias, que como se acabou de dizer, honra os sufragados e
os sufragantes.
A oração que se vai ler é o monumento modesto mas signi­
ficativo que subsiste dêsse ato. Em honra ao Sr. Mo~senhor An­
tônío Pedr~ dos ReJs, e ªº. esp:,ranç~so orador o Sr. Vigário Ma­
nuel Joaquim da Silva Guimarães, fizemos esta edição que dedi­
camos ao venerável Bispo que pontificou, ao celebrant~ e orador
e a todo o clero secular e regular, que tomou parte na august~
cerimônia pelo repouso eterno dos seus irmãos no sacerdócio.

F. M. Rapôso d'Almeida.
ORACÃO
~

Sancta et salubris est


cogitatio pro defunctis
exorarr,•
Sib. Mach. cap. 12.
Exmo. e Revmo. Sr. - Seria preciso que a natureza do ho­
mem se houvesse inteiramente degenerado, que dentro do peito
já lhe palpitasse o coração tão frio como o de um cadáver, para
que êle se conservasse impassível diante do espetáculo maravi­
lhoso e tocante, apresentado na terra por esta religião celeste, que
lhe é sempre no correr da vida um manancial perene de consola­
ções e de confortos.
Apenas lhe ressoa no mundo o primeiro vagido do homem
que abre os olhos à luz do dia, mãe desvelada, que o recebe cari­
nhosa em seus braços, a religião vai apresentá-lo regenerado aos
olhos do Pai celeste para o fazer participante de sua glória. Sem
perdê-lo jamais de vista, sem abandoná-lo um momento, ela o
acompanha passo a passo em tôdas as fases da existência, ela o
consola em meio das tribulações, ela o defende contra as tempes­
tades do mundo que o assaltam, e depois de confortá-lo na hora
extrema da vida, de prantear sôbre seu corpo inanimado, de se­
gui-lo até sumir-se para sempre no abismo da sepultura, ainda é
ela, Srs., que, ajoelhada sôbre a campa do finado, vem levantar
aos céus as mãos suplicantes para pedir ao Pai das misericórdias
o repouso eterno de sua alma - Sancta et salubris est cogitatio
pro defunctis exorari.
Orando cheia de fervor pelo descanso dos mortos, a religião
vem ainda despertar no espírito dos vivos o pensamento de seus
destinos eternos além da sepultura, e a instabilidade dêsses bens
fementidos, que o mundo lhe apresenta.
262 BORGES SAMPAIO

É então que à face dos túmulos ela vem repercutir com mais
energia aos ouvidos do homem, o brado pavoroso que se levanta de
tôdas as partes da terra contra suas vaidades, - o brado impla­
cável, o brado eterno da morte, que vai baralhando com sua mão
mirrada as cinzas dos filhos do homem sem distinção, nem pie­
dade!
É então que despedaçando êsse véu brilhante de ilusões, de
que o mundo se ornamenta para esconder as misérias de sua nu­
dez, a religião vem ainda lembrar-nos que do meio das cinzas das
gerações, que foram, o homem surge por um momento colocado
entre o nada e o túmulo para logo desaparecer com elas no mar
imenso da eternidade ! ...
Tal é, senhores, tal é o espetáculo que nos ela apresenta na fú­
nebre cerimônia dêste templo, onde, à face dos altares do Deus vivo,
vem levantar fervorosas preces por todos os sacerdotes falecidos,
por todos aquêles ministros de seu culto, que lhe foram arrebata­
dos pelo flagelo da peste.
A caridade, esta filha do céu, que envolve sob o modesto véu
de seus mistérios a história dêsses dignos levitas do Senhor, ape­
nas deixou aparecer ao mundo a lista de alguns nomes obscuros
para noticiar-nos a sua morte, para referir-nos o sacrifício heróico
da existência ante o qual não trepidaram, para acudir à humani­
dade aflita no meio dos horrores da peste que a flagelava.
Mas isto, somente isto, que apenas pôde chegar ao domínio do
público, é bastante para recomendar seus nomes à nossa mais viva
gratidão, e tecer-lhes na terra o seu maior elogio.
A indulgência de um auditório eminentemente cristão releva­
rá por certo tôdas as faltas do orador, que ousa levantar a voz nes­
te recinto para consagrar à 'memória de seus irmãos no sacerdócio
um fraco tributo de reconhecimento e veneração, para o que vos
peço alguns momentos de atenção !
Ainda que eu falasse a linguagem dos homens e dos anjos,
dizia o grande Apóstolo das nações, ainda que eu tivesse o dom da
profecia, o conhecimento de todos os mistérios, de tôda a ciência
possível; ainda que eu possuísse uma fé capaz de transportar mon­
tanhas, que desse aos pobres tôda a minha fortuna, que passasse
enfim pelo martírio das chamas, nada disso me valeria, se me fal­
tasse a caridade.
Sim, a caridade, a rainha das virtudes, a virtude por excelên­
cia, tal é o primeiro, e o mais sublime dos preceitos que o filho de
Deus veio ensinar ao mundo, como a pedra angular do majestoso
edifício que tinha de estabelecer sôbre a terra; como a base ina­
balável, em que se deviam sustentar até a consumação dos sécu­
los, as colunas eternas da sua Igreja.
Abrasada dêste fogo sagrado, que vira resplandecer até o últi­
mo momento na pessoa de seu divino fundador, daquele que não
tinha na vida um pensamento, uma palavra, uma ação, que não
UBERABA: HISTóRIA, FATOS E HOMENS 263

fôssem nascidos desta virtude e sublime, daquele que morreu su­


P!~ciado em uma cruz, pedíndo perdão para seus inimigos, a reli­
-
giao tem atravessado os seculos, e zombado de todos os obstáculos
.
que-os erros e as paixoes do homem ingrato lhe tem procurado '
opor em sua marcha gloriosa.
Foi devorados pelas chamas da caridade que doze pobres pes­
cadores, deixando as praias da Galiléia, correram impávidos a con­
quistar o mundo, e afrontando a tirania dos Césares,' o orgulho
dos filósofos, as perseguições e a morte, conseguiram arvorar glo­
riosa e triunfantemente dentro dos muros da altiva senhora do
mundo, a humilde cruz de Jesus de Nazaré.
Escudada por esta virtude celeste, a religião de J. e. susten­
tou-se incólume no meio dos mais pavorosos cataclismas, e enquan­
to em tôrno dela baqueavam os tronos e desapareciam as nações,
a religião caminhando ilesa por entre as devastações e ruínas ain­
da fumegantes do Império Romano veio abrandar os costumes do
bárbaro, e trazer finalmente ao mundo - efeitos de sua moral
sublime - a civilização e a liberdade.
Grato, consolador e tocante foi o espetáculo que no meio dos
horrores da peste que devastava a nossa pátria acaba de oferecer­
nos esta virtude sublime, que tantos prodígios tem operado no
mundo.
Glória a Deus que em meio do terror, da consternação e do
luto que se derramaram por tantos lugares, não faltaram almas
benfazejas de uma dedicação heróica, corações animados de santa
e ardente caridade, que pressurosos se apresentaram como à por­
fia para socorrer seus irmãos na hora da calamidade ! Pios esta­
belecimentos se levantaram como por encanto, e uma infinidade
de mãos compassivas se estenderam generosas, para acudir ao po­
bre no meio da desgraça.
Glória a Deus que não faltaram nesses dias calamitosas, intré­
pidos heróis da caridade, que souberam elevar-se à altura de sua
missão, dignos ministros de Jesus Cristo, que no cumprimento de
seus deveres sagrados assoberbaram todos os perigos e trabalhos,
para acudir a seus irmãos atribulados, e levar o confôrto da reli­
gião ao leito do moribundo !
Em nome da humanidade agradecida, um tributo de veneração
e reconhecimento à memória de todos os padres que sucumbiram
vítimas de sua dedicação evangélica, dignos ministros desta reli­
gião tôda de amor, e de caridade, que o mundo viu cair cheios de
intrepidez e de glória como verdadeiros heróis, como ardentes e
esforçados lidadores no campo da peleja, afrontando a morte para
cumprir o mais sagrado dos deveres. Oh ! quantos, quantos no
desempenho de sua missão sagrada, pereceram durante a quadra
epidêmica, sem que a notícia da sua morte pude~se chegar ao co­
nhecimento do público! Todavia, senhores, o numero dos sacer­
dotes falecidos, que até hoje pudemos conhecer, é por si só bastante
para honra e glória da religião e elogio do clero brasileiro.
264 BORGES SAMPAIO

Correndo a levar os últimos confortos da religião a um mori­


bundo acometido da epidemia, lá morre na Província da Bahia
cumprindo sua missão de caridade, o Padre Manuel Ramos Bar­
reto, coadjutor de S. Miguel d'Aldeia.
Flagelada horrorosamente pela peste viu-se na mesma pro­
víncia uma povoação inteira, que tomada de terror abandona tudo
o que tem de mais caro e precioso no mundo para furtar-se ao pe-

rigo que a ameaçava.
No meio destas cenas de desolação e de angústia, rodeado de
enfermos agonizantes, e corpos insepultos que aí jaziam abando­
nados, um padre viu-se cheio de intrepidez, de abnegação, e de ca­
ridade, que parecia como que multiplicar-se, e exceder às fôrças da
natureza para socorrer a seus irmãos desvalidos, no meio de tão
dolorosas provações. Correndo de uma parte à outra êle consolava
os enfermos, confortava os moribundos, abria com suas próprias
mãos a terra para dar sepultura aos mortos até que finalmente
caiu por sua vez sem vida no meio dêstes, ferido da mesma epi­
demia.
Êste padre de tão sublime dedicação, de tão ardente caridade,
tão digno de veneração e do reconhecimento da humanidade, foi
o Padre Antônio Gomes de Mendonça.
Foi ainda nessa mesma província, que afrontando todos os
horrores do flagelo que a devastava, tanto se distinguiu por sua
coragem apostólica e belas ações de caridade o Padre José Paulo
de Sousa, êste digno pastor que infatigável nos trabalhos de sua
paróquia, só deixou de preencher os árduos deveres de seu minis­
tério, e de acudir ao gemido do aflito que o chamava nesses dias ca­
lamitosas, quando assaltado da mesma enfermidade, e exausto de
fôrças não podia mais erguer-se de seu leito de dores, onde exalou
o último suspiro pranteado de todos seus paroquianos.
Como verdadeiros heróis de caridade, e dignos ministros da
religião de Jesus Cristo, assim também sucumbiram na Província
de Sergipe o Padre José Luís de Azevedo; na Bahia os Padres João
José de Andrade e Silva, Joaquim Lopes da Costa, Francisco Pi­
nheiro, e Frei Ladislau de Jesus Maria.
Cumprindo os sagrados deveres de sua missão de caridade, as­
sim foram igualmente mortos pela epidemia na Província do Rio
de Janeiro o Padre Fortunato Manuel de Matos, e o Vigário de Ja­
carepaguá Antônio de Oliveira Tôrres, estimável e digno pastor,
que na flor dos anos foi arrebatado pela morte a suas ovelhas,
quando apenas começava a administrar-lhe o pasto espiritual.
Muitos outros sacerdotes sucumbiram em diversos pontos do
Império no desempenho de suas funções evangélicas, durante a
quadra epidêmica : mas nem seus 11omes, nem suas ações, sem dú­
vida marcadas com o sêlo brilhante da mais ardente caridade,
chegaram ao domínio do público, para que eu vô-lo possa referir,
como merecem, na presente ocasião.
UBERABA: HISTóRIA, FATOS E HOMENS
265

. .Ah ! qt1em,. s~!1hores, quem 1:1ais do que o sacerdote, do que O


n:1!n1~tro da religião de J esu_s C~1sto, precisa na vida de uma pa­
ciencia extrema, de uma dedicação a toda a prova e de um coração
animado da m':is ardente caric':_ade, para bem preencher sua missão
sagrada no mero de tantas e tao dolorosas cenas que lhe é forçoso
testemunhar pela natureza de suas funções.
Pastor espiritual de uma porção de ovelhas, quantas vêzes no
mesmo dia, na mesma hora, em que acaba de apresentar a Deus
o recém-nascido regenerado na piscina batismal; em que acaba de
ouvir o cântico festivo da esperança e da alegria pelo desposório
feliz, que em nome do Senhor santifica na terra, corre pressuroso
ao leito do moribundo para confortá-lo na hora extrema da vida
e vai ouvir tristes e fúnebres lamentos da viuvez e da orfandad~
sôbre o frio cadáver de um pai ou de um espôso que a morte acaba
de errebatar.
É principalmente durante estas crises funestas e aterradoras
por que acaba de passar o nosso pais, ,
quando o braço de um Deus'
irritado parece baixar à terra para castigar os crimes do homem
.
que a missão do sacerdote se torna mais. importante no mundo e'
mais urgente são reclamados seus serviços pelos sofrimentos da
humanidade.
Então mais do que nunca cumpre-lhe apresentar-se como ver­
dadeiro ministro desta religião tôda de amor e de caridade, ·por­
que então mais do que nunca se desenrola diante de seus olhos
um teatro imenso ao exercício de suas funções evangélicas.
Nem os raios de um sol abrasador, nem as trevas da noite,
nem as tempestades, nem a distância, nem a morte lhe devem em­
bargar os passos em sua marcha de caridade nesses dias calami­
tosas, em que muitas vêzes lhe é preciso como que multiplicar-se
para acudir ao reclamo de seus irmãos na hora da tribulação.
No meio das provações, e do luto que lhe trouxeram os hor­
rorosos estragos da epidemia a humanidade pôde sentir um doce
bálsamo de consolacão em suas dores, vendo que assim marcha­
vam, que assim tão· caridosamente procedi,a~n todos êsses dignos
ministros da religião, que, afrontando as fúrias de um flagelo de­
vastador, morreram inabaláveis no seu pôsto para preencher sua
missão na terra, e cum prir o mais santo dos deveres.
Religião santa de Jesus Cristo ! só vós sereis capaz de pro­
duzir semelhantes maravilhas, e de apresentar ao mundo tantos
e tão sublimes rasgos de dedicação e caridade. Só em vós, só em
vossas verdades eternas poderia encontrar o homem um doce re­
fúgio para sua alma angustiada, O alvo de seus ardentes desejos,
e o suspirado pôrto de suas esperanças além do túmulo.
Sim, no meio das tribulações desta vida precária, a que abis­
mos de tão medonha profundidade não nos arrastaria o pensamen­
to do nosso nada, do rápido volver de nossos dias sôbre a terra,
esta terra sempre juncada dos troféus da morte; da morte, sem-
266 BORGES SAMPAIO

pre banhada das lágrimas do homem, chorando a morte de outro


homem, se a nossa Religião Santíssima não nos viesse confortar
o coração dilacerado, mostrando-nos além da campa um outro
mundo mais feliz; lá onde resplandece o galardão inefável que é
destinado ao merecimento daqueles que Deus remunera em sua
justiça.
Ah ! possam merecer um galardão tão precioso, possam go­
zá-lo na eterna mansão dos justos todos êsses ministros da reli­
gião que nos foram arrebatados pelo flagelo da peste ! Valham pa­
ra isto, meu Deus, as fervorosas preces da vossa Igreja, as meri­
tórias ações que praticaram, e a sua morte enfim, essa morte he­
róica e sublime, a que se sacrificaram no mundo por vosso amor,
e por amor da humanidade.
Disse.

Nota (a), do editor (F. M. Rapôso d'Almeida)


"
Depois de recitada esta oração chegou-nos à notícia a morte
do Padre João Inácio de Loiola Barros, Vigário da Freguesia do Ma­
cau, na Província do Rio Grande do Norte, que sucumbiu no exer­
cício de suas funções evangélicas na quadra epidêmica, fazendo
os maiores sacrifícios, a ponto de conduzir êle mesmo os corpos
insepultos abandonados pelo povo, para se dar à sepultura. Na
capital da mesma província faleceu igualmente o Padre Joaquim
Francisco de Vasconcelos, que prestou iguais serviços à religião
e à humanidade.
(Original existente no Instituto Histórico
e Geográfico Brasileiro)

..


BARÃO DE PONTE ALTA

Antônio Elói Cassimiro de Araújo, Barão de Ponte Alta, filho


natural de D. Ludovina Clara dos Santos, nasceu no antigo Jul­
gado do Desemboque, no dia 16 de maio de 1816. Eram nove os
seus irmãos, mas dêles apenas lhe sobreviveu um - D. Maria Cas-
simira de Araújo Sampaio.
Tendo aprendido ali as primeiras letras com o Professor Ma­
nuel Vieira Alves da Cunha, foi estabelecer-se por algum tempo,
como negociante, na vila de Catalão, Província de Goiás, onde pra­
ticou algumas estroinices, próprias da idade adolescente.
Voltando ao Desemboque, já consertado, casou-se em 1840 c.om
D. Marcelina Florinda da Silva e Oliveira, filha do abastado pro­
prietário Tenente Joaquim da Silva e Oliveira, concessionário das
três grandes sesmarias, que à margem direita do Rio Grande, lhe
foram demarcadas, em 1816, com as denominações de - Bebedou-
ro, Ponte Alta e Santo Inácio.
Na parte central dessas sesmarias, próximo à foz do Ribeirão
Ponte Alta, do Município de Uberaba, lugar denominado - Cor­
reguinho - meia-légua distante do Rio Grande e quatro e meia
da vila de Uberaba, estabeleceu-se Antônio Elói. Aí construiu
grande casa de morada, paiol, currais, pastos; engenho de serrar
madeira, de fabricar açúcar e aguardente; engenho de pílões, o
infalível monjolo para o fabrico da farinha e outras dependências,
tudo com a famosa aroeira e outras madeiras de primeira quali-
dade, que ali abundavam.
Aberto ao trânsito público o Pôrto de Ponte Alta, no Rio
Grande, entre Uberaba e Franca, foram postas em ccmunicacâo
mais direta e fácil com as praças de Campinas, São Paulo e San­
tos, não só Uberaba, como as capitais de Goiás e Mato Grosso.
Antônio Elói fêz logo construir armazéns às margens do rio, nesse
pôrto, para depósitos de sal, gênero de que, já então, se fazia gran­
de consumo no sertão, aí manteve o comércio do dito gênero em
escala elevada, até a ocasião em que a Companhia Mojiana trans
pôs o Rio Grande, no Jaguara, em janeiro de 1888.
268 BORGES SAMPAIO

Em julho de 1847, já com sua fazenda fundada e armazéns


construídos, à margem direita do rio - foi a primeira vez que vi
e relacionei-me com o Alferes Elói : era casado, tendo já três filhos.
O nome do Alferes Elói era já muito conhecido, acreditado e
considerado, tanto na capital da Província de Goiás, como em tô­
da a Província de São Paulo e no Rio de Janeiro.
Sua fazenda era ponto obrigado para todos quantos procura­
vam o litoral, ou dêle regressavam. Ali receberam pousada mui­
tos presidentes de província, comandantes de armas, senadores,
deputados, chefes de polícia, engenheiros, tropeiros, carreiros, ca­
minhantes, acolhendo a todos com franca hospitalidade, como em
grande hotel - gratuitamente.
Trajava singelamente: vi muitas vêzes viandantes pergun­
tarem-lhe se o Sr. Alferes Elói, ou o Sr. Comendador Elói estava,
devido à simplicidade do seu trajar.

Barão de Ponte Alta


270 BORGES SAMPAIO

Antônio Augusto Cassimiro de Araújo, solteiro.


D. Olímpia Augusta Cassimira de Araújo, casada com o Ca­
pitão Augusto César Bruonswik.
Joaquim Augusto Cassimiro de Araújo, casado com D. Alzira
Alves do Nascimento.
José Augusto Cassimiro de Araújo, solteiro.
Alferes Angelo Cassimiro de Araújo, solteiro.
D. Etelvina Augusta Cassimira de Araújo, casada com o Ca-
pitão Osório da Silva e Oliveira.
Alferes Leopoldo Cassimiro de Araújo, solteiro.
Abadia Cassimiro de Araújo, solteiro.
Marcial Cassimíro de Araúj