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HISTÓRIA DA CRIANÇA, NO BRASIL

MARY DEL PRIORE, ORG.

da criança
no brasil

COLEÇãO
CAMINHOS DA HISTóRIA
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história
da criança
no brasil

Mary Del Priore (org.)


Laura de Mello e Souza/Luiz Mott
Lana Lage da Gama Lima/Renato Pinto Venancio
Kátia de Queirós Mattoso/Mirim Lifchitz Moreira Leite
Esmeralda Blanco Bolsonaro de Moura
Fernando Torres Londono/Edson Passetti

CEDHAL
Copyright (~) 1991 Mary Del Priore
Coleção: CAMINHOS DA HISTóRIA
llustraçao de Capa: Detalhe de desenho infantil
Revisão: Maria Aparecida Monteiro Bessana
e Luiz Roberto Malta
Composição: Veredas Editorial
Impressão: Parrna Gráfica e Editora

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Camara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

História da criança no Brasil / Mary del Priore (orlu). - São


Paulo: Contexto, 1991.--(Caminhos da história)

Bibliografia.

ISBN 85-7244-001-1

1. Crianças--Brasil--Aspectos sociais 2. Crianças - Brasil -


História 1. Del Priore, Mary. Il. Série

91-1015 CDD-362.70981

índices para catálogo sistemático:


1. Brasil: Crianças: História Bem-estar social 362.70981

1991
Proibida a reprodução total ou parcial.
As infrações serão processadas na forma da lei.
Todos os direitos reservados à
EDITORA CONTEXTO (Editora Pinsky Ltda.)
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Fone: (011) 832-5838 - Fax: (011) 832-3561
íNDICE
Introdução ..............

1. O Papel Branco, a Infancia e os Jesuítas na Colônia ..10


Mary Del Priore

2. O Senado da Camara e as Crianças Expostas ............28


Laura de Mello e Souza

3. Pedofilia e Pederastia no Brasil Antigo ..............44


Luiz Mott

4. Abandono de Crianças Negras no Rio de Janeiro ........61


Lana Lage da Gama Lima/Renato Pinto Venancio

5. O Filho da Escrava
Kátia de Queirós Mattoso

6. O óbvio e o Contraditório da Roda ....................98


Miriam Lifchitz Moreira Leite

7. Infancia Operária e Acidente do Trabalho em São Paulo . . 112


Esmeralda Blanco Bolsonaro de Moura

8. A Origem do Conceito Menor ...........................129


Fernando Torres Londono

9. O Menor no Brasil Republicano ........................146


Edson Passetti

Os Autores no Contexto ..................................176


INTRODUÇÃO
Nesta coletanea, os trabalhos de autores, pesquisadores do Centro de
Demografia Histórica da América Latina (CEDHAL), pertencente à
FFLCH/USP, fazem parte integrante de uma pesquisa desenvolvida sob
orientação da profa. dra. Maria Luiza Marcílio e sob os auspícios da FINEP,
sobre a história do menor carente e abandonado no Brasil.
Esta coletanea reúne artigos que procuram esclarecer como vi-
veram ou eram vistas as crianças em vários momentos da história do
Brasil. Seus textos apontam também para o transito entre o anoni-
mato - durante anos elas foram tão-somente crianças -, e o presente,
que pretende reconhecer-lhes seu papel protagônico e sua condição
de cidadãos com direitos e deveres.
Vale lembrar que a história da criança fez-se à sombra daquela
dos adultos. Entre pais, mestres, senhores ou patrões, os pequenos
corpos dobraram-se tanto à violência, à força e às humilhações,
quanto foram amparados pela ternura e os sentimentos maternos.
A trajetória dos pequenos entre os grandes--homens ou mulheres--,
permitiu aos autores vislumbrar o papel que desempenhou a infancia
numa sociedade vincada por contradições econômicas e mudanças
culturais, ao mesmo tempo em que se revelava o comportamento
dessa sociedade em relação à vida e à morte de seus filhos.

No entanto, quem lê adultos, leia também instituições; pois


esta história que contamos, lança luzes sobre crianças prisioneiras da
escola, da Igreja, da legislação, do sistema econômico e, por fim, da
FEBEM, numa linhagem extensa de tarefas e obrigações que as des-
dobravam, no mais das vezes, em adultos. Enfaticamente orientadas
para o aprendizado, o adestramento físico e moral e para o trabalho,
perguntamo-nos se havia entre elas tempo e espaço para o riso e a
brincadeira. Perguntamo-nos se em algum momento elas se sentiam
realmente crianças.

Resgatar a história da criança brasileira é dar de cara com um


passado que se intui, mas que se prefere ignorar, cheio de anônimas
tragédias que atravessaram a vida de milhares de meninos e meninas.
O abandono de bebês, a venda de crianças escravas que eram sepa-
radas de seus pais, a vida em instituições que no melhor dos casos
significavam mera sobrevivência, as violências cotidianas que não
excluem os abusos sexuais, as doenças, queimaduras e fraturas que
sofriam no trabalho escravo ou operário foram situações que empur-
raram por mais de três séculos a história da infancia no Brasil.
Contudo, se é verdade que desta história surge uma imagem do auto-
ritarismo e indignidade impostas por adultos às crianças, surge tam-
bém uma história de amor materno e paterno, de afeto e de humani-
dade das inúmeras pessoas que acima de preconceitos e interesses
mesquinhos, deixaram-se sempre sensibilizar com aqueles que, antes
de tudo, são os mais carentes e indefesos dos seres humanos.

Uma das características marcantes dos trabalhos aqui reunidos


é a busca das vozes dessas crianças através da pesquisa e da revalo-
rização do documento histórico. Uma garimpagem na imensa, frag-
mentária e fascinante massa documental em arquivos e bibliotecas,
levou os autores a empreender a descoberta exaustiva e diligente de
documentos sobre o passado da criança brasileira que Ihes permitiu
ter um outro olhar, uma outra percepção sobre a infancia. As cartas,
memórias, registros e cartilhas trazem, no entanto, a fala do adulto
sobre a criança. Foi preciso ler nas entrelinhas, decifrar lacunas e
apontar temas a serem proximamente desenvolvidos para que o cená-
rio ficasse mais completo. O silêncio, contudo, permanece quanto
aos jogos e brincadeiras, a literatura infantil, a saúde e a educação.
Há ainda pistas sobre os "filhos de criação", estes personagens do
cotidiano no passado e no presente, que apenas tangenciamos.
Por isso, fomos até os primeiros momentos da então colônia de
Santa Cruz para observar a tentativa de adestramento físico e mental
a que foram submetidas as crianças indigenas, pelos jesuítas (Del
Priore). Examinaram-se aspectos da sexualidade infantil, como a pe-
derastia, desnudando a carga de violentos preconceitos que já exis-
tiam nas Minas setecentistas (Mott) bem como também a discrimina-
ção racial na adoção de "enjeitadinhos mulatos" (Mello e Souza).

No século XIX, o sofrimento da criança tornava-se especial-


mente palpável, pois este é o momento por excelência do "enjeita-
mento" que teve entre as crianças negras do Rio de Janeiro as suas
maiores vítimas (Lima/Venancio). Na Bahia, no mesmo período, a
Lei do Ventre Livre modificava as relações parentais e o destino das
crianças filhas de escravos (Mattoso). Já aos finais do século XIX, a
Roda dos Expostos, instituida pela Santa Casa de Misericórdia pro-
movia uma espécie de infanticídio maquiado com as crianças aban-
donadas à sua porta (Moreira Leite). A virada do século acusa a pre-
sença de crianças no trabalho fabril, sofrendo acidentes e distantes
de qualquer proteção da lei (Moura). A Primeira República marca a
entrada em cena do conceito de menoridade e adensam-se as rela-
ções entre Estado e Sociedade para disciplinar o menor (Londono),
até que a FUNABEM e a FEBEM, encarnando o Estado-preceptor,
passam a ditar regras sobre a marginalização do menor abandonado
(Passetti).

Do período colonial à República dos anos 30 assistimos ao de-


senrolar e ao desdobramento desses assuntos complementares, ano-
tando que se a criança é o grande ausente da História, ela é, por um
paradoxo, o seu motor. Ela é o adulto em gestação. Apenas estudan-
do a infancia e compreendendo as distorções a que esteve submeti-
da, teremos condições de transformar o futuro das crianças brasilei-
ras. E de nos transformar através delas.

História da Criança no Brasil quer ser uma contribuição na ta-


refa de reconstituir o dificil caminho que a sociedade brasileira tem
percorrido para reconhecer, na criança, um ser autônomo e digno.
Caminho este, que supõe de nós adultos, a renúncia a nossa natural
onipotência.

Mary Del Priore e Fernando Londono


O SENADO DA CAMARA
E AS CRIANÇAS EXPOSTAS (*)

Laura de Mello e Souza

CONSIDERAÇÕES

No decorrer de uma investigação sobre a vida cotidiana em


Minas na segunda metade do século XVIII, trabalhei com o Livro de
Matnculas de Expostos n° 558, pertencente ao Acervo Documental
da Câmara Municipal de Mariana e que, até o presente momento, foi
consultado pouquíssimas vezes, constituindo um corpus documental
praticamente virgem. Num total de 226 matrículas, ou seja, registros
feitos pelo Senado da Camara com dados referentes a criancinhas
abandonadas nas ruas e logradouros públicos da Cidade de Mariana
entre 1751 e 1779, quatro casos me chamaram a atenção por destoa-
rem completamente do conjunto - no resto, uniforme, repetitivo e
contendo informações secas.

Três dessas matrículas faziam restrições à possível mulatice


que se viesse a constatar nas crianças enjeitadas; uma outra dizia
coisas estranhas acerca da criação de um exposto negro por seu senhor.
Quero ressaltar que, sendo novata no estudo da exposição de crian-

Versão alterada de artigo publicado com o título "O Senado da Câmara e


as CrianSas
Expostas: Minas Gerais no século XVIII", na Revista do Instituto de
Estudos Brasileiros, n° 31, São Paulo, 1 989.

ças no Brasil colonial, decidi publicar os documentos em questão


após consultar colegas que há muito vêm lidando com o assunto,
como Renato Pinto Venancio e Iraci del Nero da Costa- autores de
alguns dos mais significativos estudos demográficos publicados no
Brasil nos últimos anos.1 Queria ainda deixar claro que a descoberta
documental causou estranheza a Jair de Jesus Martins, que trabalha
no projeto como auxiliar de pesquisa: foi ele, portanto, quem primei-
ro percebeu tratar-se de algo diferente, pouco usual, transcrevendo
as matrículas. Apesar de discutidas com os colegas e com o pesqui-
sador, as hipóteses e considerações contidas neste artigo são de mi-
nha inteira responsabilidade.

O grave problema representado pelas crianças abandonadas


remonta à Antiguidade, estendendo-se por toda a Idade Média, con-
forme estuda John Boswell em The Kindness of Strangers.2 Mas foi
na Época Moderna que a preocupação com a infancia abandonada
mostrou-se mais candente, a partir do momento em que a pobreza se
tornou onerosa ao Estado e a idéia de que o aumento populacional
embasava a riqueza das nações tomou contornos definidos.3 Em
Portugal, a legislação deixava às camaras a tarefa de passar o encar-
go da criação dos enjeitados para as Santas Casas de Misericórdia,
procedimento que, como bem viu Charles Boxer, vigorou em todo o
Império Luso, constituindo-se em um de seus pilares.4 Em Salvador
e no Rio de Janeiro os mecanismos de recolhimento de expostos já
estariam delineados na primeira metade do século xvIII, atestando,
segundo Laima Mesgravis, a importancia urbana de tais centros.5
Mas justamente em Minas, no século XVIII a capitania mais urbani-
zada da colônia, a situação permaneceu confusa. Há indícios de que
as Irmandades tomaram a si a tarefa de cuidar das crianças expostas,
conforme consta, por exemplo, do Estatuto da Irmandade de Santa
Ana, Vila Rica, instituição criada em 1730 e preocupada, em seu ar-
tigo 2°, em fundar- tão logo seus recursos o permitissem- "uma
casa de expostos e asilo de menores desvalidos".6 Na prática, en-
tretanto, as evidências pendem mais para que se credite ao nobre
Senado da Camara a função de pôr e dispor da vida das crianças
abandonadas. Em sua célebre Memória Histórica da Capitania de
Minas Gerais, que veio a público em 1781, José Joaquim da Rocha
incluía a criação dos enjeitados entre as despesas de pelo menos três
Camaras Municipais: nas de Vila Nova da Rainha (Caeté), Vila do
Príncipe e São João del Rei.7 O fato de omitir tal encargo quando
tratou das demais vilas deve antes ser creditado a descuido do que à
ausência dos demais senados na criação dos bebês abandonados.

Durante o século xvIII, a exposição de crianças cresceu em


Minas de forma alarmante, assumindo, no final do período, propor-
ções catastróficas. Entre 1724 e 1733, Iraci del Nero da Costa en-
controu quatro casos de crianças enjeitadas entre os assentos de ba-
tismo que consultou; já para o período compreendido entre 1799 e
1808, o número saltou para 167.8 Exaustivamente discutida, a roda
dos expostos de Vila Rica só se concretizaria, ao que tudo indica,
em 1831, apesar de ter sido aprovada pelo Senado e obtido licença
real em 1795.9 No penúltimo lustro do século, já em pleno drama da
decadência aurífera, era a Camara que continuava arcando com a
criação dos enjeitados: ainda em Vila Rica, o Senado aceitava a en-
jeitada Rita, exposta na porta de José Alves Maciel na Fazenda dos
Caldeirões, batizada na capela do Chiqueiro e entregue pelos verea-
dores à crioula forra Filipa Vaz, moradora junto à ponte do Rosário
e, a partir de então, paga com 24 oitavas de ouro por ano durante os
três primeiros anos, os da lactação do bebê; nos quatro anos restan-
tes, a quantia seria de 16 oitavas anuais, conforme estipulado por
lei.10

Maria Beatriz Nizza da Silva fornece elementos importantes


para melhor se entender o papel das camaras municipais na criação
dos expostos durante o período colonial, chamando a atenção para a
alternancia que podia se estabelecer, nesta tarefa, entre o Senado e
as Misericórdias. Sem citar a data, transcreve um documento dirigi-
do à Mesa do Desembargo do Paço por Clara Maria da Conceição,
viúva que morava na vila do Sabará e que tinha sido encarregada
pelos oficiais da mesma vila de criar "vários enjeitados, uns que fo-
ram matriculados, e outros que não o foram, se bem que de todos de
uma e outra classe lhe foi incumbida a dita criação, com a conven-
ção de pagar-se-lhe o estipêndio do estilo, o que agora recusa a dita
Camara".11

Caio Cesar Boschi, por fim, deixa claro que, nas Minas, a cria-
ção dos enjeitados recaía basicamente sobre as irmandades ou sobre
as camaras, estas últimas, muitas vezes, deixando de cumprir o pro-
metido: o pagamento das mensalidades aos criadores ou às amas de
leite. Tais mulheres, por sua vez, não obedeciam às determinações
de apresentar periodicamente as crianças às camaras, e esta mútua
desconsideração explicaria, em parte, o alto número de mortes entre
os enjeitados.12

A súplica da viúva Clara revela, de fato, a desobediência


da Camara ante a lei, e sugere que, desta forma, o nobre Senado
deixava ao desamparo os seres frágeis e pequeninos colocados -
pelo menos em tese - sob sua responsabilidade. Por outro lado, é
inegável que a vereança municipal se preocupava seriamente com as
crianças abandonadas, castigadas, às vezes de forma irreversível,
pela rudeza do clima ou pelos animais domésticos. Na carta com
que, em fevereiro de 1795, o Senado de Vila Rica explicava a ne-
cessidade da roda de expostos ao Ouvidor Geral, ficava dito que as
mães, envergonhadas dos frutos de seus amores ilícitos, "logo que
os dão à luz os mandam levar às portas de casas particulares, aonde
ou os não recebem, ou, se o fazem, é já quando os míseros recém-
nascidos se acham a expirar, tendo até sucedido serem devorados
por animais, sucessos que fazem gemer a humanidade".13 Para
Francisco Antonio Lopes, esses animais seriam sobretudo os porcos
que habitualmente vagavam por Vila Rica e, desde a década ante-
rior, tinham se tornado objeto de seguidas críticas por parte das dis-
posições oficiais.

A dureza da vida cotidiana na capitania do ouro, constante-


mente fustigada pelo Fisco, a difusão dos concubinatos e uniões es-
porádicas, a precariedade das condições de higiene e saneamento
nos aglomerados urbanos - os tais porcos que perambulavam pelas
vias públicas - servem como indicadores de que seria alta a porcen-
tagem de exposição nas Minas. Por outro lado, a fragilidade das Mi-
sericórdias no desempenho das funções assistencialistas, a impossi-
bilidade das Irmandades assumirem totalmente a criação dos expos-
tos e a indefinição legal da Metrópole, vigente até 1775, devem
certamente ter contribuído para que grande parte das crianças ex-
postas morressem antes mesmo de serem matriculadas nos assentos
camerários. Talvez aqui esteja uma possível resposta à questão colo-
cada por Maria Beatriz Nizza da Silva no tocante ao menor número
de enjeitados paulistas e coloniais quando comparados aos europeus
do mesmo período, na Sociedade de Antigo Regime.14 Não quero
com isso afirmar, evidentemente, que fosse boa a situação européia:
basta ler o terrível artigo de Michelle Perrot sobre as crianças confi-
nadas na Petite Roquette, já em pleno século XIX, para afastar tal
possibilidade.15 Quero apenas sugerir que a indefinição de uma po-
lítica com relação a expostos e o fato de muitas crianças sequer se-
rem registradas encobre, talvez, uma taxa de mortalidade mais alta
do que a cogitada até o presente momento.

Foi em 1775, com um famoso Alvará, que o ministro Sebastião


José de Carvalho e Mello regulamentou de forma mais estrita e defi-
nitiva a questão das crianças expostas: é, sem dúvida, a mais impor-
tante lei existente no século XVIII sobre o assunto, mas se volta so-
bretudo para a relação entre enjeitados, Santa Casa de Misericórdia
e Juiz de Órfãos, deixando de lado a questão das Camaras. Até en-
tão, haviam sido elas as principais responsáveis pela criação dos
enjeitados. A partir dessa data-marco, intensificou-se a luta pela
criação das rodas de expostos nas Misericórdias ou mesmo em casas
de particulares, desde que seus habitantes fossem casais honrados e
de bons costumes.16

Voltemos, porém, à documentação dos expostos existente na


Camara de Mariana e abaixo transcrita. Num conjunto de 226 matrí-
culas, 10 foram declaradas sem efeito por se darem a conhecer o pai
e/ou a mãe do exposto, havendo ainda 23 falecimentos. Presume-se
que estes digam respeito aos expostos que continuaram sob encargo
da Camara, portanto os demais 216: seria, assim, de 10,65% a taxa
de mortalidade entre os expostos criados pelo Senado de Mariana-
o que novamente remete à questão de uma presumível taxa de mor-
talidade elevada entre as crianças expostas que não chegavam a ser
matriculadas. Porém, o que mais chama atenção nos documentos
abaixo reproduzidos é a recusa da Camara em criar três dos enjeita-
dos, que se suspeitava serem mulatos, e a devolução de um exposto
escravo ao seu senhor - todos eles, procedimentos inusitados e, pro-
vavelmente, ilegais.

Comecemos pelos presumidos mulatinhos. Todos os três foram


matriculados no mês de maio de 1753, mais de vinte anos, portanto,
antes que Pombal legislasse sobre os expostos em seu Alvará. A to-
dos os três se prometeu pagar 3 oitavas de ouro por mês, perfazendo
36 oitavas anuais - quantia superior à de 24 oitavas que a Camara
de Vila Rica pagavapor ano para a criação da enjeitada Rita, no pe-
núltimo lustro do século XVIII, entre 1790 e 1795 (não temos a data
precisa). Em quarenta anos, o Senado passara a economizar uma oi-
tava mensal no auxílio dado aos expostos durante o período inicial,
o considerado de lactação e que equivalia a três anos. A economia
mineradora entrara em derrocada, mas certamente teria havido tam-
bém alterações legislativas no período - a mais óbvia e evidente
sendo, como já foi dito, o Alvara pombalino. Num momento de cri-
se, a vereança considerara dispendiosa a contribuição anteriormente
estipulada para a criação de menores abandonados. Creio poder
afirmar que, mesmo em 1753, a verba destinada a esse fim não sairia
dos cofres públicos sem peso.

Não foi possível definir qual a legislação seguida pelas Cama-


ras mineiras, em meados do século, no tocante à criação de enjeita-
dos. As leis proibiam discriminação racial no exercício da caridade
camerária ou no das Misericórdias.17 Mas as matrículas de 1753 são
bem claras:

com declaração porém a todo o tempo que se declarar ser o


dito enjeitadinho mulato e não branco lhe não correrá o dito
estipêndio das três oitavas, mas antes será o dito obrigado a
repor tudo o que tiver recebido por conta da mesma criação...
(documento A).

A matrícula B repete a mesma fórmula, praticamente sem alte-


ração, diferindo apenas no fato de ser a criança do sexo feminino; a
matrícula apresenta novidade:

com declaração porém que a todo tempo que se vier no conhe-


cimento ser mulata e não branca lhe não correrá o dito estipên-
dio de três oitavas mas antes será o dito obrigado a repor ao
Senado tudo o que tiver recebido por conta da dita criação

Além de deixar claro - o que não ocorre nas matrículas ante-


riores - que a beneficiada pela devolução é a Camara Municipal,
este documento revela que a mestiçagem do exposto criado com
subvenção pública poderia ser revelada por acusações, por ouvir di-
zer, tal como ocorria nas Devassas Episcopais e nas Visitações do
Santo Ofício, reforçando a idéia de que, nos tempos coloniais, o po-
der se dissolvia nas microestruturas do cotidiano, fazendo da bisbi-
lhotice e da delação práticas corriqueiras e aceitas: "a todo tempo que
se vier no conhecimento" é uma fórmula significativamente diversa
de "a todo tempo que se declarar", pois esta pressupõe um ato vo-
lmtário, direto, sem intermediações. De uma ou de outra forma, a
Camara expressa claramente o seu propósito de não criar mulatos, e
revela que, por ocasião da matrícula, nem sempre se tinha conheci-
mento da cor do enjeitado - seja por não ser o mesmo trazido pe-
rante os vereadores naquele momento, seja por impossibilidade de se
definir a cor de recém-nascidos- como se sabe, é comum que traços
étnicos se mostrem após alguns dias ou mesmo meses -, seja ainda
por estarem cientes os interessados na criação do exposto de que a
legislação vigente ou a prática usual do Senado se furtava à criação
de mestiços de sangue negro.

Por que o "deslize", o ato falho dos camaristas marianenses


que, em três matrículas de expostos, colocaram a nu sua recusa ante
a criação de mestiços? Nas matrículas subseqüentes, retoma-se o tom
neutro, seco, formal adotado em tais registros. Mas as três matrículas
estão lá, como espinho, como nódoa, mas sobretudo como indício
aparentemente-insignificante e, na verdade, digno de exame detido.
Sobretudo quando se recapitula o modo de inserção do aparelho do
Estado nas Minas, muito mais preso a padrões europeus do que em
outros pontos da colônia, muito mais presente devido às necessida-
des de arrecadação do ouro e, também mais do que nunca, atento e
servil ante os interesses da Metrópole e dos segmentos dominantes,
surdo e refratário às especificidades coloniais.18

Isolados e excêntricos no conjunto das matrículas de expostos


existentes na Camara da Leal Cidade de Mariana, estes três docu-
mentos raros devem ser associados a outros tantos, mais numerosos
mas que pareceram igualmente extraordinários aos olhos de A. J. R.
Russell-Wood, o historiador inglês que melhor estudou a instituição
da Santa Casa de Misericórdia no Brasil Colonial e, conseqüentemente,
lançou luz sobre a questão da infancia abandonada naqueles tempos.

Debruçando-se sobre documentos referentes à vida de Manuel


Francisco Lisboa, grande arquiteto que passou para a História antes
como o pai de Aleijadinho do que devido a seu próprio e inegável
talento, Russell-Wood descobriu que aquele criara um enjeitado que
lhe expuseram à porta a 9 de abril de 1759, e que ele, já no dia
seguinte, batizou com o nome de Jacinto, na Matriz de Conceição de
Antonio Dias. O historiador inglês aproveita para frisar a diferença
entre a criação de expostos na Bahia, onde ficavam a cargo da Mise-
ricórdia, e nas Minas, onde recaíam sobre as Camaras; mas o ex-
traordinário é que aponte para a exigência imposta pelo Nobre Se-
nado aos criadores dos bebês abandonados: além da certidão de ba-
tismo, deveriam apresentar uma outra, de brancura. Apesar de exi-
gido pelas Ordens Terceiras do Carmo, de São Francisco, pela Ir-
mandade da Santa Casa de Misericórdia, o estatuto de pureza de
sangue não era demandado no caso da criação de expostos:

No caso de um enjeitado, tal insistência é bem surpreendente,


e nunca foi praticada na Bahia na época colonial, onde enjeita-
dos, fossem brancos, fossem pretos, foram aceitos pela Camara
e pela Santa Casa sem discriminação racial.19

Manuel Francisco Lisboa, que a essa altura já era pai de um


bastardo, um dos maiores gênios que a mestiçagem jamais produziu
em terras brasileiras, apresentou o atestado exigido, passado pelo
médico e cirurgião daquela Camara. Mas o caso de Jacinto não foi
único em Vila Rica: no Primeiro Livro de Enjeitados criados nesta
localidade às expensas do Senado, e que corresponde ao período de
1751-1758, exigiu-se certidão de brancura nos anos de 1757,1758 e
1759. Contraditoriamente, em 1763 a mesma Camara aceitaria a
criação do "enjeitado Domingos, crioulo ou cabra".20

Na década de 50, portanto, nas Minas como um todo ou parti-


cularmente na Comarca de Vila Rica - onde o censo de 1776 acusa-
ria um total de 12.679 brancos, 16.791 pardos e 49.148 negros (con-
siderando-se ambos os sexos), as autoridades camerárias demonstra-
vam, através de medidas restritivas e racistas, um temor ante a mis-
cigenação que tinha raízes nos primeiros decênios do povoamento
das Minas.21

Um após o outro, os governantes coloniais se alarmaram ante o


número crescente de negros - Assumar, que governou Minas entre
1717 e 1721, passou toda a sua gestão aterrado com a possibilidade
de uma insurreição escrava- e desqualificaram das mais diversas
formas a gente mestiça que ia surgindo a partir das inevitáveis
uniões mistas. Quando, no início da década de 30, a Coroa estudava
as possibilidades de se estabelecer nas Minas o imposto da capita-
ção, dirigiu ao governador André de Mello e Castro, conde das Gal-
vêas, uma série de cartas ordenando que examinasse as vantagens e
desvantagens da alforria. O governante respondeu que, apesar de se-
rem meio atrevidos, os forros trabalhavam nas lavras e contribuíam
para o pagamento dos impostos, afirmando, em seguida, que o ver-
dadeiro flagelo eram os mulatos, "porque a mistura que têm de
brancos, os enche de tanta soberba e vaidade que fogem ao trabalho
servil, com que poderiam viver, e assim vive a maior parte deles
como gente ociosa". Alarmado, o rei pediu a Galvêas que opinasse
sobre a necessidade de se "dar alguma providência acerca dos mu-
latos forros que vivem também em grande liberdade".22 Como bem
viu Julita Scarano em trabalho extremamente sensível às contribui-
ções do racismo numa sociedade escravista e mestiça, pardos e for-
ros eram vistos como perturbadores da ordem.23

Pilares do poder metropolitano em Minas, as camaras revela-


ram, em inúmeras representações, temor ante a sociedade mestiça
que se ia inevitavelmente formando na região. Na década de 50, as
autoridades ligadas ao Contrato da Extração de Diamantes no Dis-
trito Diamantino achavam que o contrabando desapareceria com a
destruição dos arraiais de pardos e forros, "porquanto os ladrões que
mais perseguem e roubam as terras dos diamantes são negros forros,
mulatos, cabras, mestiços e outros desta qualidade".24 Em 1775, os
mesmos camaristas de Mariana que, vinte anos antes, recusaram-se a
criar mulatos, criticavam "a muita desenvoltura com que vivem os
mulatos, sendo tal a sua atividade que não reconhecendo superiori-
dade nos brancos, se querem igualar a eles"; diziam ainda aqueles
"homens bons" que os "mulatos gastam em superfluidades e ofensas
a Deus".25

Em 1779, no seu famoso Relatório, o vice-rei marquês do La-


vradio via a mestiçagem colonial como a principal responsável pelos
defeitos da população do Brasil, composta de "tão más gentes". Era
impossível sujeitar e acalmar os "negros, mulatos, cabras, mestiços e
outras gentes semelhantes", pois eram "gentes da pior educação, de
um caráter o mais libertino".26 A reprovação da mestiçagem tomava
assim forma oficial, era endossada pelo vice-rei, que sistematizava
temores difusos e esparsos, tais como os que, em Minas, embasaram
atitude ilegal, racista e discriminatória assumida pela Camara da
Leal Cidade de Mariana no tocante à criação de bebês mulatos.

Resta agora refletir um pouco para a igualmente inusitada ma-


trícula do enjeitado José (documento D). O bebê fora exposto na ca-
sa de Manoel Pires da Costa, que, mediante pagamento das mesmas
três oitavas mensais, apresenta-se ao Senado da Camara com a dis-
posição de criá-lo. Entre esta matrícula e as anteriores, haviam-se
passado sete anos: talvez por isso ela se mostre mais enfática no que
diz respeito à real condição de enjeitado do menino, ou seja, ao fato
de não se conhecerem seus pais carnais: Pires da Costa apresenta
petição com despacho para matricular o pequeno José, "ao qual o
dito Juiz Presidente deferiu o juramento dos Santos Evangelhos em
um livro dele em que pôs sua mão direita sob cargo do qual lhe en-
carregou declarasse se sabia quem eram os pais do dito exposto, e
por declarar não sabiam quem eram, mandaram se matriculasse..."
Os dados secos que se seguem não permitem senão conjecturas: dois
anos depois, constatou-se que o menino era filho de uma escrava de
Antonio de Magalhães Nunes, que passou então a criá-lo. Diz o do-
cumento: "sem efeito este termo por sair dono a este enjeitado, que
é Antonio de Magalhães Nunes..." Camara e senhor passavam por
cima da lei, consciente ou inconscientemente, para recuperarem,
respectivamente, as oitavas gastas e o escravo extraviado.

Maria Beatriz Nizza da Silva chamou a atenção para o fato de


que a questão dos expostos dizia respeito apenas à população livre,
pois, segundo o Alvará de 1775, o exposto de cor negra ou mulata
gozaria automaticamente de liberdade.27

Em seu admirável trabalho, Perdigão Malheiro mostra que re-


monta a Roma a legislação que declara a liberdade dos escravos ex-
postos, mesmo contra a vontade de seus senhores: seria esta a dispo-
sição legislativa incorporada pelo Alvará pombalino: "Por nosso di-
reito, devemos, igualmente, consignar que a liberdade pode vir ao
escravo, mesmo contra a vontade do senhor, por virtude da lei":
dentre tais casos, encontra-se o do "escravo enjeitado ou exposto",
que pelo Alvará ficava livre e ingênuo.28 Não se pode afirmar que o
exposto José tenha de fato sido reescravizado, mas tudo indica que
sim: foram freqüentes os casos de reescravização de forros e libertos
nas Minas, conforme analisei em trabalho anterior.29

Numa capitania em que, conforme já se disse, as Santas Casas


eram praticamente inexistentes, as práticas extravagantes do senado
de Mariana refletem a fluidez das atitudes camerárias ante questões
de assistência social, ou sugerem atitudes arbitrárias e indiferentes
ante a lei que, de resto, devia ser comum a todo o Império colonial
português.
A recusa em criar mulatinhos às expensas do erário público
se insere num contexto geral de horror à mestiçagem: a lei pode-
ria aparecer como justa, mas a prática acusava a mentalidade dis-
criminatória dos colonizadores e colonos brancos, bem situados na
escala social. A situação era tanto mais estranha quando se conside-
ra que a sociedade se tornava cada vez mais mulata, e mais difíceis
de cumprir os estatutos de pureza de sangue que vedavam o acesso
de portadores de sangue impuro às camaras e ao clero: a esquizofre-
nia e a hipocrisia brasileiras no que diz respeito à mestiçagem já se
delineavam e se constituíam nas práticas cotidianas mineiras no
século XVIII.

O caso do enjeitado reescravizado poderia passar como confu-


são. O fato se deu em 1762, antes do Alvará que colocaria na letra a
lei romana, possivelmente já contida nas Ordenações portuguesas ou
no corpo de Leis Extravagantes desde o fim da Idade Média. De
qualquer forma, as quatro matrículas de expostos existentes nos Có-
dices da Camara Municipal de Mariana e a exigência do Senado de
Vila Rica no tocante à apresentação de atestados de brancura para
enjeitados sugerem que teoria e prática andavam apartadas com fre-
qüência maior do que normalmente se imaginou - mesmo na Capita-
nia do Ouro, as Minas Gerais que, por todo o século XVIII, foi pe-
las riquezas que escondia "a pérola preciosa do Brasil"30 e, nesta
qualidade, mais vigiada do que qualquer outra região da Colônia.
Tais deslizes e "atos falhos" vinham ao encontro dos interesses me-
tropolitanos, mas talvez tenham se autonomizado algumas vezes. Por
outro lado, o fato de o senado agir de forma contrária às leis que
passariam a vigorar vinte e dois anos depois pode sugerir hipótese
diversa: a prática confusa e contraditória das camaras, que agiam se-
gundo suas próprias cabeças, teria alertado a metrópole no sentido
de criar uma legislação específica para a matéria - o que, ao fim e
ao cabo, não significa que ela viesse a ser sistematicamente
cumprida.

Não sou estudiosa de demografia nem da infancia abandonada.


As considerações acima devem ser vistas como alerta ou sugestão de
que, pelas camaras do Brasil, talvez existam outros documentos es-
tranhos e sugestivos. O fato de serem poucos ou esparsos não deve
assustar o pesquisador, nem inibir hipóteses: a extravagancia e a ra-
ridade são às vezes mais significativas do que a quantidade e a re-
petição, alertando o historiador para as limitações que envolvem o
esforço de compreensão do passado. Vários significados se perde-
ram para sempre, no decorrer do tempo; outros podem e devem ser
resgatados por investigações que, muitas vezes, não têm outra saída
a não ser a utilização de um paradigma indiciário, assentado em hi-
póteses, conjecturas e intuição.33

TRANSCRIÇÃO DAS
MATRICULAS ANALISADAS

José de Jesus Martins

A) Termo de Matrícula do Enjeitado José (p. 28V).

"Aos dezesseis dias do mês de Maio de mil setecentos e cincoenta e três


anos nesta Leal Cidade e casas de moradas de mim escrivão adiante nomeado
e sendo aí por Domingos Moreira me foi apresentada uma sua pehção com
o seu despacho nela posto pelo Doutor Presidente e mais oficiais da camara
para efeito de se matricular o enjeitado por nome José ao qual assiste este Se-
nado com três oitavas de ouro cada mês para a sua criação com declaração
porém que a todo o tempo que se declarar ser o dito enjeitadinho mulato e não
branco lhe não correrá o dito estipêndio das três oitavas, mas antes será o dito
obrigado a repor tudo o que tiver recebido por conta da mesma criação tudo
na forma do despacho inserto na mesma petição que fica neste cartório e de
como assim o disse e se obrigou por sua pessoa e bens assinou com as teste-
munhas presentes Manoel Coelho Varella e José de Almeida Barreto mora-
dores nesta cidade e reconhecidos de mim escrivão da Camara João da
Costa Azevedo que o escrevi".

Assinaram: Domingos Moreira, Manoel Coelho Varella e José de Al-


meida Barreto.

Consta em baixo: "Faleceu este enjeitado em 15 de agosto de 1753.


Está pago." (Rubricado pelo escrivão da Camara.)

B) Termo de Matrícula da Enjeitada por nome Maria (p. 29V).

"Aos dezenove dias do mês de Maio de mil setecentos e cincoenta e três


anos nesta Leal Cidade Mariana e casas de moradas de mim escrivão adiante

- nomeado e sendo aí por José do Couto Cruz morador nos Camargos me foi
apresentada uma sua petição com o seu despacho nela posto pelo Doutor Pre-
sidente e mais oficiais da camara para efeito de se matricular a Enjeitada por
nome Maria a qual assiste este Senado com três oitavas de ouro cada mês para
a sua criação com declaração porém que a todo o tempo que se declarar ser a
dita enjeitada mulata e não branca lhe não correrá o dito estipêndio de três
oitavas mas antes será o dito obrigado a repor tudo o que tiver recebido por
conta da mesma criação tudo na forma do despacho inserto na mesma petição
que fica neste cartório, e de como assim o disse e se obrigou por sua pessoa e
bens, assinou com as testemunhas presentes Manoel Coelho Varella e José de
Almeida Barreto moradores nesta cidade e reconhecidos de mim escrivão da
Camara João da Costa Azevedo que o escrevi".

Assinaram José do Couto Cruz, Manoel Coelho Varella e José de Al-


meida Barreto.

C) Termo de Matrícula da enjeitada por nome Maria digo por nomee


Clara (pp. 30V e 31)

"Aos vinte e três dias do mês de Maio de mil setecentos e cincoenta e


três anos nesta Leal Cidade Mariana e casas de moradas de mim escrivão
adiante nomeado apareceu presente Manoel Rodrigues Viana morador nesta
cidade e reconhecido de mim escrivão e por ele me foi apresentada uma sua
petição com o seu despacho nela posto pelo Doutor Presidente e mais oficiais
da camara para efeito de se matricular a enjeitada por nome Clara à qual as-
siste o Senado com três oitavas de ouro cada mês para a sua criação, com de-
claração porém que a todo o tempo que se vier no conhecimento ser mulata e
não branca lhe não correrá o dito estipêndio de três oitavas mas antes será o
dito obrigado a repor ao Senado tudo o que tiver recebido por conta da dita
criação tudo na forma do despacho inserto posto na dita petição que fica neste
cartório, e de como assim o disse e se obrigou assinou com as testemunhas
presentes Manoel Coelho Varella e José de Almeida Barreto moradores nesta
cidade e reconhecidos de mim escrivão da camara João da Costa Azevedo que
o escrevi. E declaro que a dita enjeitada a deu a criar a Luiza Rodrigues do
Couto preta forra moradora nesta cidade e reconhecida de mim escrivão a
quem pertence o dito ordenado enquanto criar a dita enjeitada e de como a re-
cebeu assinou/ com uma cruz por não saber ler nem escrever, João da Costa
Azevedo escrivão da camara que o declarei"

Assinaram: Luiza Rodrigues do Couto - com cruz -, Manoel Coelho


Varella e José de Almeida Barreto

Consta em baixo: "Faleceu esta enjeitada em 22 de agosto e até esse dia


se mandou pagar Está pago" (rubricado pelo escrivão da camara.)

D) Termo de Matrícula do Enjeitado por nome José (p. 63V)

"Aos nove dias do mês de novembro de mil setecentos e sessenta anos


nesta Leal Cidade de Mariana e casa de moradas de mim escrivão adiante no-
meado e sendo aí presente Manoel Pires da Costa morador em São Caetano
por ele me foi apresentada uma sua petição com despacho nela posto pelo Juiz
Presidente e mais oficiais da camara para efeito de se matricular o Enjeitado
por nome José que lhe foi exposto, ao qual o dito Juiz Presidente deferiu o
juramento dos Santos Evangelhos em um livro dele em que pôs sua mão di-
reita sob cargo do qual lhe encarregou declarasse se sabia quem eram os pais
do dito exposto, e por declarar não sabia quem eram, mandaram se matricu-
lasse e se lhe assistisse com três oitavas de ouro por mês por tempo de três
anos na forma dos Provimentos do Doutor Corregedor, de que para constar
fiz este termo de Matrícula que assinou e eu João da Costa Azevedo escrivão
da camara que o escrevi".

Assina: Manoel Pires da Costa

Consta: "Sem efeito este termo por sair dono a este enjeitado que é
Antonio de Magalhães Nunes por ser filho de uma sua escrava ao qual se en-
tregou em 2 de janeiro de 1762. Não pagou nada o Senado". (Rubricado pelo
escrivão da camara.)

NOTAS

1. VENANCIO, Renato Pinto. Infancia sem destino: o abandono de crian-


ças no Rio de Janeiro no século XVIII, dissertação de mestrado apresen-
tada na USP, 1988, ex. mimeo. Iraci del Nero da Costa, Vila Rica: Po-
pulação (1719-1826), Coleção Estudos Econômicos, 1, São Paulo, FIPE-
.USP,1979.

2. BOSWELL, John. The Rindness of Strangers - the abandonment of Cha-


dren in Western Europe Fro~n Late Antiquity to the Renaissance, Nova
York, Pantheon Books, 1988. Devo esta referência a minha colega Mary
Del Priore.

3. Ver SILVA, Maria Beatriz Nizza da. "O problema dos expostos na Ca-
pitania de São Paulo", in Anais do Museu Paulista, tomo XXX, São Pau-
lo, 1980/1981, p. 148. Para a sociedade européia, com ênfase no caso
milanês, o artigo interessantissimo de V. Hunecke, "Les enfants trouvés:
contexte européen et cas rnilanais (XVIII-XIX siècles)", in Revue d'His-
toire Moderne et Contemporaine, tomo XXXII, 1985, pp. 3-28.

4. BOXER, Charles Ralph. O Império Colonial Português. Lisboa, Edições


70,1977, cap. 12, "Conselheiros Municipais e Irmãos de Caridade".

5. MESGRAVIS, Laima. A Santa Casa de Misericórdia de São Paulo


(1599?-1884). São Paulo, Conselho Estadual de Cultura, p. 170.

6. MENEZES, Furtado de. Templos e sodalícios - Bi-centenário de Ouro


Preto, Belo Horizonte, Imprensa Oficial de Minas Gerais, 1911, pp. 273-
274.

7. ROCHA, José Joaquim da. "Memória Histórica da Capitania de Minas


Gerais", Revista do Arquivo Público Mineiro, vol. II, 1897, pp. 457, 460 e
470.

8. COSTA, Iraci del Nero da. "Ocupação, povoamento e dinamica popula-


cional", in Minas Colonial: Economia e Sociedade, São Paulo, FIPE-
PIONEIRA, 1982, pp. 27-28.

9. CABRAL, Henrique Barbosa da Silva. Ouro Preto, Belo Horizonte,


1969,pp.61-62.

10. Arquivo Público Mineiro, Câmara Municipal de Ouro Preto, Códice


116,
fL 37. Citado também em Francisco Antonio Lopes, Os Palácios de Vila
Rica - Ouro Preto no ciclo do ouro, Belo Horizonte, 1955.

11. Apud Maria Beatriz Nizza da Silva, op. cit., p. 152.

12. Caio Cesar Boschi, "O assistencialismo na Capitania do Ouro", in Revista


de História (nova série), n° 116, janeiro/junho 1984, p. 35.

13. Apud LOPES, Francisco Antonio, op. cit., p. 188.

14. SILVA, Maria Beatriz Nizza da. op. cit., p. 147-148.


15. PERROT, Michelle. "As Crianças da Petite Roquette", in Revista
Brasileira de História, n-° 17, São Paulo, set. 88/fev.89, pp. 115-128.

16. Cito o Alvará conforme transcrição de Renato Pinto Venancio, op.


cit., pp. 114-118. Em fevereiro de 1795, após resposta positiva do ouvidor à
consulta que a Camara de Vila Rica fizera sobre a possibilidade de se
criar uma roda de expostos na vila, o nobre Senado resolve estabelecer
tal roda na morada de "um casal honrado, e de bons costumes". Apud Fran-
cisco Antonio Lopes, op. cit., p. 188. Tudo indica que a roda só foi
criada no século seguinte, conforme dito acima.
17. O mais importante conjunto de leis sobre o assunto encontra-se em An-
tonio Joaquim de Gouveia Pinto, "Compilação das providências, que a
bem da criação e educação dos expostos ou enjeitados se têm publicado, e
acham espalhadas em diferentes artigos de legislação pátria, a que acres-
cem outras, que respeitando ao bom regimen, e economia da sua admi-
nistração, e sendo contudo filhas das mesmas leis, tem a experiência pro-
vado a sua utilidade". Cito esta obra a partir de Maria Beatriz Nizza da
Silva e Renato Pinto Venancio, pois não tive acesso a ela.

18. Ver a esse respeito FAORO, Raymundo. Os Donos do Poder, 2a ed.,


Porto Alegre/São Paulo, Globo/USP, 1975.

19. RUSSELL-WOOD, A. J. R. Manuel Francisco Lisboa - Juiz de Ofício e


Filantropo, Belo Horizonte; Escola de Arquitetura da UFMG, pp. 31-32.
O grifo é meu.

20. Arquivo Público Mineiro, Camara Municipal de Ouro Preto, cód. 61, fl.
57V, apud Russell-Wood, op.cit., p. 32.

21. "Tábua dos habitantes da Capitania de Minas Gerais e dos Nascidos e


Falecidos no ano de 1776", apud José Joaquim da Rocha, op. cit., p. 511.

22. Carta Régia de 17/6/1733, Arquivo Público Mineiro, Seção Colonial,


Códice 18. No mesmo códice, ver também Carta de 20/5/1732. A respeito
deste assunto, ver MELLO E SOUZA, Laura de. Desclassificados do
Ouro - a pobreza mineira no século xVIII. Rio, Graal, 1982, p. 106. Ver
também SCARANO, Julita. Devoção e escravidão - a Irmandade de
Nossa Senhora do Rosário dos Pretos no Distrito Diamantino no século
XVIII. São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1976, pp. 120-121.

23. SCARANO, Julita, op. cit., p. 116.

24. Arquivo Histórico Ultramarino, cx. 35, "Proposta a Sua Majestade a res-
peito do Contrato da Extração dos Diamantes, 1753-1754, cap. 18". Ver
SCARANO, Julita, op. cit., p. 120.

25. AHU, Minas Gerais, cx. 37, 3-12-1775. Apud Scarano, op. cit., p. 121.

26. "Relatório do Marquês do Lavradio -1779" in Revista do Instituto Histó-


rico e Geográfico Brasileiro, vol. IV, p. 424.

27. Maria Beatriz Nizza da Silva, op. cit., p. 148.

28. MALHEIRO, Perdigão. A Escravidão no Brasil - Ensaio Histórico, Jurí-


dico, Social. 2 VOlS 3a ed., Petrópolis, Ed. Vozes/INL, 1976, VOl. 1, pp.
95-96 para a questão em Roma; p. 98 para o Brasil, inclusive nota 537.

29. MELLO E SOUZA, Laura de, op. cit., cap. 4: "Os protagonistas da mi-
séria".
30. MACHADO, Simão Ferreira, "Prévia alocutória" ao Triunfo Eucarístico
edição fac-simile de Afonso Avila, Resíduos Seiscentistas em Minas -
textos do século do ouro e as projeções do mundo barroco, Belo Hori-
zonte, Centro de Estudos Mineiros, 1967, VOI. 1 , p. 25

31. A problemática dos significados que se perdem para o historiador é ex-


plorada por DARNTON, Robert. O Grande Massacre de Gatos e outros
episódios da história cultural francesa. Rio, Graal, 1986, principalmente
na "Apresentação". É ainda uma problemática cara aos historiadores da
fei~çana, mas não cabe aqui nos determos neste assunto. Para a questão
do paradigma indiciário, remeto a GINZBURG, Carlo. Mitos- Emblemas
- Sinais. São Paulo, Companhia das Letras, 1989. Sobretudo no ensaio
intitulado "Sinais raízes de um paradigma indiciário".
PEDOFILIA E PEDERASTIA NO
BRASIL ANTIGO *

Luiz Mott

"E o Mestre disse:


Deixai vir a mim os pequeninos. . . "
(Lucas, 18:16)

Dentre os tabus sexuais mais repelidos pela ideologia ocidental


contemporanea estão a pedofilia - relação sexual de adulto com
criança pré-púbere - e a pederastia - relação sexual de adulto com
adolescente - também chamada efebofilia (Dynes, 1985: 109-110).
Tendo como pressupostos que o sexo é sinônimo de pecado, que a
sexualidade destina-se à reprodução da espécie e só pode ser prati-
cada dentro do casamento, por seres maduros - considerando-se a
criança como inocente e imatura- aproximá-la dos prazeres eróticos
equivaleria a profanar sua própria natureza. Daí a dessexualização
da infancia e adolescência impor-se como um valor humano funda-
mental de nossa civilização judaico-cristã. Diz nosso Código Penal:
"Corromper ou facilitar a corrupção de pessoa menor de 18 anos e
maior de 14, com ela praticando ato de libidinagem ou induzindo-a a
praticá-lo ou presenciá-lo, incorre o infrator na pena de até 4 anos
de reclusão" (artigo 218).

· TRulo original: "Cupido na Sala de Au la: Pedofilia e Pederastia no


Brasil Antigo".

Mais grave ainda, para a opinião pública, são as relações se-


xuais envolvendo homem adulto com menino ou adolescente, na
medida em que dois tabus cruciais são desrespeitados: o erotismo
intergeracional e a homossexualidade. Sobretudo nos Estados Uni-
dos, um dos maiores preconceitos contra os gays é a acusação de
que representam uma ameaça à integridade física das crianças (chil-
dren molesters), embora pesquisas repetidamente comprovem que
são sobretudo os heterossexuais os responsáveis pelo maior índice
de violência sexual contra os menores de idade (Hoffman, 1970;
Harvey & Gocm~s, 1977).

Alguns historiadores têm mostrado que a dessexualização da


criança é fenômeno recente na história ocidental, e que até meados
do século XVII, meninos e meninas - inclusive nos palácios reais-
viam, falavam, ouviam e agiam com mais soltura em matéria de sexo
do que seus sucessores do período vitoriano (Ariès, 1981; Foucault,
1980; Schérer, 1974). Em outras sociedades, como na Grécia antiga,
a relação sexual entre adultos e jovens fazia parte do próprio proces-
so pedagógico (Dover, 1978), e contemporaneamente, em dezenas
de sociedades tribais da Melanésia, ainda se pratica a pederastia ri-
tual compulsória para todos os adolescentes, através da qual os ho-
mens adultos transmitem seu sêmen, quer por via anal, quer oral,
acreditando que só assim as novas gerações crescerão fortes e pos-
suirão a semente da vida (Herdt, 1984).

O que para muitos é chocante, cruel e considerado como grave


desrespeito à inocência infanto-juvenil, noutras sociedades é con-
duta normal, método pedagógico ou ritual de iniciação no mundo
adulto. Um bom exemplo de como em nossa própria tradição oci-
dental as intimidades físicas entre adulto e criança não causavam es-
panto, é o celebérrimo milagre de Santo Antonio de Pádua, nosso
santinho casamenteiro natural de Lisboa, sempre representado com o
Menino Jesus no braço. Eis um relato: "segundo a prodigiosa e ad-
mirável visão de um seu devoto, (...) espreitando acaso o que o
santo fazia, chegando-se à porta do quarto com silêncio e cautela,
altas horas da noite, reparou pelos resquícios das desunidas táboas
da porta e viu um belo e formosíssimo infante, todo rei na majestade
da presença, toda aurora nos risos da boca, todo Cupido nas nudezas
do corpo, e todo amor na ternura dos afetos, que se entretinha nos
braços de Antonio que venturosamente serviam de setas àquele amor.
Viu que Antonio se regalava com aquele menino entre doces e amo-
rosas cancias com ele nos braços..." (Abreu, 1725: 138). Mesmo pa-
ra um santo, convenhamos, era demasiada a intimidade, embora na
época fosse naturalmente aceita. Ó temporal Ó mores!

Em nossa tradição luso-brasileira, parece que as relações se-


xuais entre adultos e adolescentes, além de freqüentes, não eram
conduta das mais condenadas pela Teologia Moral, pois mesmo
quando realizada com violência, a pedofilia em si nunca chegou a
ser considerada um crime específico por parte da Inquisição. Os dois
episódios que se seguem exemplificam nossa asserção:

Em 1746, chega ao Tribunal do Santo Ofício de Lisboa a se-


guinte denúncia: Maria Teresa de Jesus, mulher casada, moradora na
Vila de Santarém, "saindo de sua casa um seu filho, Manoel, de 5
anos, foi levado por um moço, Pedro, criado, para um porão e usou
do menino por trás, vindo o menino para casa todo ensanguenta-
do.
Em 1752, outro caso semelhante chega à Inquisição: no po-
voado de Belém, junto a Lisboa, um moço de 25 anos, José, mari-
nheiro, agarrou um menino de 3 anos incompletos, João, o levou pa-
ra um armazém, "do qual saiu a criança chorando muito, todo en-
sangüentado e rasgado seu orifício com a pica do moço" 2

Malgrado a perversidade desses atos, a pequenez das vítimas, a


revolta dos pais e a identificação fácil dos estupradores, os reveren-
dos inquisidores não deram a menor importancia a essas cruéis vio-
lências, arquivando as denúncias.

A naturalidade com que esse outro pedófilo confessa seus


"desvios" é estarrecedora: trata-se de um sacerdote brasileiro, resi-
dente em Salvador, o cônego Jácome de Queiroz, 46 anos. Confes-
sou perante o visitador do Santo Ofício, em 1591, que "uma noite,
levou à sua casa uma moça mameluca de 6 ou 7 anos, escrava, que
andava vendendo peixe pela rua, e depois de cear e se encher de vi-
nho, cuidando que corrompia a dita moça pelo vaso natural, a pene-
trou pelo vaso traseiro e nele teve penetração sem polução. E outra
vez, querendo corromper outra moça, Esperanza, sua escrava de
idade de 7 anos, pouco mais ou menos, a penetrou também pelo tra-
seiro".

O remorso do cônego - e seu crime - teria sido a cópula anal


na época referida como "abominável pecado de sodomia". A infan-

46

tilidade e pureza dessas duas meninas, ambas com sete anos, não
provocou qualquer preocupação ou prurido ao pedófilo: seu medo
era unicamente ter cometido "o mais torpe e imundo pecado, a có-
pula anal. A corrupção de menores não constituía motivo sequer de
advertência.

Analisando a farta documentação inquisitorial arquivada na


Torre do Tombo, em Lisboa, encontramos diversas denúncias contra
cidadãos do Reino e Ultramar, acusados de terem mantido relações
homossexuais com meninos e adolescentes. Diversos foram os pro-
fessores de meninos que tiveram seus nomes registrados nos volu-
mosos Cadernos do Nefando, acusados de atos torpes com seus dis-
cipulos. Somente os casos mais graves, quando havia muitas teste-
munhas de repetidos atos sodomiticos, redundaram em prisão do réu,
alguns poucos chegando à fogueira. Em 1510, por exemplo, André
Araújo, 39 anos, professor de viola em Lisboa, é degredado por 10
anos para as galés, como castigo por ter mantido cópulas com vários
de seus alunos com idades variando entre 14 e 15 anos; Antonio
Homem, 60 anos, preso em 1619, famoso mestre de Canones na
Universidade de Coimbra, foi acusado de ter acessos sodomiticos
com mais de vinte estudantes, cujas idades variavam de 11 a
anos: morreu queimado num Auto de Fé, embora sua principal culpa
fosse a prática do judaismo;5 Frei João Bote1ho, 43 anos, ex-frade
Jerônimo, era mestre de música, e entre um solfejo e outro, tinha o
costume de açoitar as nádegas de seus alunos travessos, ocasião em
que os possuia à moda de Sodoma: por ser considerado muito devas-
so e incorrigivel no "mau pecado", foi também condenado a foguei-
ra em 1638;6 Teotônio Bonsucesso, 40 anos, mestre de meninos, em
1723 foi condenado a dez anos de galés por culpas de somitigaria
com seus pupilos, o mais jovem com 9 anos e o mais crescidinho
com 14. Mesmo preso não abandonou a pedofilia, sendo visto no
cárcere com um estudantinho sentado no seu colo "fazendo com o
corpo as mesmas ações que faz o homem quando dorme com uma
mulher.

Em todos esses casos observamos a mesma regularidade: um


dos meninos reclama em casa o assédio do mestre, o pai leva o me-
nor ao Tribunal do Santo Oficio e os inquisidores registram a de-
núncia Nos dias seguintes, espontaneamente ou por convocação, os
demais alunos do nefando professor prestam queixa e somente apos
ouvir uma dezena de testemunhas, entre crianças, seus parentes e vi-
zinhos da escola, é ordenada a prisão do professor. Na maioria des-
ses casos, além do tormento, o pederasta é degredado para as galés,
via de regra por 10 anos.

O fato de serem pré-púberes os parceiros, ou da sodomia ter-se


realizado com violência, não era matéria agravante para o castigo: o
que se levava mais em conta era sobretudo a ocorrência ou não da
sodomia perfeita (penetração com ejaculação) e a repetição dos atos
venéreos, as duas matérias-primas para a punição por parte do Santo
Ofício (Mott, 1988, a).

O episódio que analisaremos a seguir, e que constitui o fulcro


deste ensaio, ocorreu em Minas Gerais no ano de 1752. Pela riqueza
de detalhes, por suas implicações e desdobramentos, constitui peça
importante para apreendermos alguns aspectos estruturais das rela-
ções entre professor e aluno no ambito da sociedade colonial brasi-
leira, assim como para vislumbrarmos a reação dos mais velhos à se-
xualidade infantojuvenil e os mecanismos repressores acionados
pela Igreja Católica na correção dos desvios sexuais.

Trata-se de um swnário contra um professor acusado de ter


mantido repetidas e violentas cópulas anais com seu aluno.8

Francisco Moreira de Carvalho era um proprietário rural resi-


dente nas Lavras da Lagoa, freguesia de São João del Rei, na Co-
marca do Rio das Mortes. Casado, tinha dois filhos: Luiz, com 9 pa-
ra 10 anos e Antonio, com 8. Devia ser homem remediado, tanto que
contratou João Pereira de Carvalho como professor particular de
linguagem e latim para seus filhos. Tais aulas eram ministradas tam-
bém para outros meninos da vizinhança, provavelmente na sala da
frente da casa do mestre, tal qual se observa ainda hoje nas escolas
particulares de nossa zona rural.

A documentação apresenta várias versões para o mesmo episó-


dio. Eis o primeiro relato. Certo dia, o menino Luiz assim dirigiu a
palavra a seu progenitor: "Senhor meu Pai: meu Mestre João Pereira
de Carvalho dormiu comigo por de trás lá na Lagoa". ("Dormir por
de trás", ou "dormir no 6º Mandamento", ou "dormir carnalmente
pelo vaso traseiro" eram eufemismos para descrever a cópula anal
nos tempos da Inquisição.)

A outra variante tem várias vertentes: uma testemunha declarou


que o jovem professor teria enviado ao menino Luiz um bilhete que
inadvertidamente caiu nas mãos do dono da casa. Três testemunhas
dão versões diferentes do mesmo bilhetinho: um roceiro de 42 anos,
Inácio de Souza, declarou que o escrito do professor dizia: "Luiz:
vós, se me quereis bem, eu também Vos quero, e se me quereis mal,
eu também Vos quero". A segunda testemunha, João Gonçalves
~lagro, 25 anos, português de Braga, deu outra redação mais hedo-
nística e não menos romantica: "Luiz, meu amorzinho, minha vidi-
nha! Vinde para o bananal que eu já lá vou, com a garrafinha de
aguardente". A terceira testemunha diferiu pouco da anterior. "Luiz,
minha vida: Vinde para o bananal que lá temos o que comer e
beber".

"Vós" era o tratamento comum nos séculos passados mes-


mo entre um professor e um aluno; as expressões "amorzinho" e
"vidinha" para tratar afetuosamente quem se ama aparecem também
em outras cartas de amor de sodomitas lusitanos e o diminutivo era
forma usual de se manifestar o sentimentalismo amatório (Mott,
1988, b). Mesmo o bananal, como local para encontros amorosos
fortuitos, aparece em outros documentos mineiros da época, lugar
sombrio e asseado, cujas grandes folhas secas, amontoadas, servem
de colchão para amantes clandestinos. O tom apaixonado dos bilhe-
tinhos e a simpática mise-en-scène desses encontros amorosos, en-
tremeados de aguardente e comida - numa zona tradicionalmente
pobre de abastecimento - levam-nos a concluir que a relação entre
mestre e discípulo ia de vento em popa, mostrando que também nas
Gerais havia adeptos da mesma didática helênica, associando a pe-
derastia à pedagogia - postura ressuscitada por alguns teóricos con-
temporaneos, para escandalo e execração dos donos do poder (Sché-
rer, 1974; Lapassade & Schérer, 1976; Pinard-Legry & Papouge,
1980; Sanford, 1987).

Tamanho idílio homoerótico não podia ser tolerado no berço


da "tradicional família mineira", moldada pela moral cristã, tão for-
temente marcada pela homofobia e machismo, onde a violência,
agressividade e dureza constituíam valores inerentes à masculinida-
de, condição necessária para a manutenção da supremacia da raça
branca e da classe dominante, sempre ameaçadas pela rebeldia dos
escravos e gentes de cor. Urgia, portanto, que este nefando romance
fosse exemplarmente castigado, afastando o imoral professor do
convívio de crianças inocentes.
Arma-se então um ardiloso enredo para incriminar o suposto
sodomita: uma enxurrada de fuxicos alastra-se pelas Lavras da La-
goa, chegando tais mexericos até o Tribunal do Santo Ofício de Lis-
boa. Sigamos aboataria.

Ninguém sabia ao certo quem era, de que família procedia e de


que terra viera o tal professor: uns diziam que vinha do Rio de Ja-
neiro, outros que seu pai possuía um engenho. Sua desgraça parece
ter começado quando um moleque escravo, Manoel, crioulo de 12
anos, ladino como ele só, contou à preta forra Bernarda, 25 anos,
que o professor "estava fazendo cousa má com a gente por de trás".
(Cousa má, mau pecado, sodomia, eram alguns dos muitos termos
correntes nos tempos antigos para descrever a cópula anal homosse-
xual - relação que ainda no tempo de Oscar Wilde era chamada de
"o amor que não ousa dizer o nome").

A negra Bernarda ficou espavorida com tal informação, tanto


que logo atalhou: "Cala a boca! Não fale isso, que se o pai do Luiz
o saber, é crime!" Podemos fazer duas leituras desta exclamação: a
negra quis dizer ou que a sodomia era crime, como de fato tinha ra-
zão, merecendo o sodomita a pena de morte, quer pela Justiça do
Rei, quer pelo Tribunal da Inquisição - ou então, quer por razão
desta "cousa má", o pai do menino poderia cometer um crime, justi-
çando com as próprias mãos o professor indecente.

Esta negra forra terá um papel fundamental na divulgação


deste insólito quiproquó: em seu depoimento posterior, disse que por
três vezes fora procurada pelo menino Luiz para tratar de lesões no
anus: "com as vias deitando sangue". Bernarda devia ser uma espé-
cie de curandeira local, quiçá parteira, pois a descrição que fez do
estado mórbido do coitadinho reflete bastante familiaridade no trato
das partes pudendas: além do sangue, observou "na entrada (do
anus) algumas rachaduras e bostelas secas (pequenas feridas com
crosta) que lhe faziam ardores e tinha a via muito larga, tanto que
lhes metia dois dedos - e caberiam três se lhes metesse - e que
quando metia os dedos estes saiam com sangue."

Diagnóstico, diga-se en passant, que só mesmo um bom proc-


tologista seria tão minucioso em realizar, antecedendo de um século
o célebre professor de Medicina Legal de Paris, Dr. Ambroise Tar-
dieu, quem primeiro e melhor qualificou os "traços de violência so-
domítica" (1873: 247).

Solícita, Bernarda tratou do coitadinho "dando-lhe alguns ba-


nhos e colocando algumas pírulas (sic) nas vias do menino". Nas
duas primeiras visitas Luiz não lhe revelou a causa de seu padecer -
só na terceira lhe confiou o segredo, "pois seu mestre o ameaçava
de matar se o revelasse". Imediatamente Bernarda manda chamar a
mãe do menino e lhe conta tal ocorrência. A mãe de Luiz fica muito
irritada "dando algumas bofetadas no filho, queixando-se de não ter-
lhe dito antes". Luiz fica adoentado, e ao perguntarem à senhora
Moreira os motivos da doença, em vez de ocultar a vergonha, res-
pondia encolerizada: "É por causa das velhacadas do mestre!" (Ve-
lhacada e velhacaria são termos usados nos séculos XVII e XVIII
como sinônimos de homossexualidade, embora já no século XIX o
dicionarista Antonio Morais os registre apenas como "ação deso-
nesta"). Velhacadas, segundo corria à boca pequena, que não teriam
poupado sequer o irmãozinho menor, Antonio, 8 anos, o qual acusa-
va também o Mestre de obrigá-lo a praticar descaMções, "tendo po-
lução na mão do menino".

OUtra versão desses episódios informava que tão logo a proge-


nitora de Luiz tomou conhecimento de tais nefandices, ipso facto
entrou em ação o ultrajado pater-familias. Colérico, mandou chamar
o professor João Pereira de Carvalho, conservando-o amarrado com
cordas: "quis pegar umas foices para dar no mestre", sendo contudo
impedido pelos vizinhos. Aqui também as informações das testemu-
nhas são contraditórias: uns dizem que a relação amorosa do profes-
sor João com Luiz tornou-se conhecida do Sr. Francisco quando seu
próprio filho entregou-lhe o bilhetinho "por não saber ler". Aí en-
tão, apenas no dia seguinte o pai do menino teria chamado o mestre
para acertar as contas, dizendo-lhe textualmente: "que tinha sido
chamado em sua casa para ensinar seus filhos, e o fez pelo contrário,
ensinando-os somiticarias". Aqueloutros que referiram a cena mais
violenta - o espavorido mestre manietado e o pai injuriado com foi-
ces na mão - dizem que o professor teria exclamado nesta ocasião:
"Senhor Francisco Moreira de Carvalho, que sua prudência me va-
lha!". ("Prudência", segundo o dicionarista Morais é a virtude que
faz conhecer e praticar o que convém na ordem da vida política ou
moral; circunspecção; gênio cordato.)

A prudência falou mais alto, e o pai de Luiz curvou-se perante


a lei: procurou então a principal autoridade eclesiástica local, o vi-
gário da Vara da Comarca do Rio das Mortes, dando-lhe sua versão
deste nefando imbróglio. Incontinenti, a 10 de abril de 1752, o vigá-
rio manda ofício ao comissário do Santo Ofício, padre Antonio Leite
Coimbra, o qual efetua a prisão do acusado "mantendo-o bem guar-
dado para ser enviado para a Inquisição de Lisboa". No dia seguinte
o infeliz professor já está preso.

Passa-se duas semanas e o Comissário Coimbra inicia o su-


mário, chamando e ouvindo quatro testemunhas, que reconstroem e
acrescentam alguns detalhes à estória contada pelo pai da vítima. No
documento redigido pelo comissário, as velhacarias, velhacadas,
somitigarias e cousas mas referidas pelas testemunhas são agora
traduzidas bombasticamente como "o pecado em que se não pode
falar" - a melhor e mais concisa definição que encontramos nos
processos inquisitoriais como sinônimo de homossexualidade, exa-
tamente com as mesmas palavras como é definido o pecado nefando
pelas Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia (1707). O
Comissário Coimbra revelava ser bom conhecedor da Teologia Mo-
ral e fiel cumpridor das diligências pertencentes ao Santo Ofício.
Envia então as informações coletadas para o Tribunal de Lisboa,
sumariando o disse-que-disse sobre essa nefanda estória das Lavras
da Lagoa. Até ser embarcada sua documentação no Rio de Janeiro,
chegar à Casa do Rocio, ser analisada pelo promotor do Santo Ofí-
cio, passam-se dez meses. Prudentes, e já com mais de duzentos anos
perseguindo os sodomitas, os inquisidores ordenam a 9 de fevereiro
de 1753 que o comissário do Santo Ofício do Rio de Janeiro proce-
desse a um minucioso sumário para elucidar a denúncia. Tudo leva a
crer, portanto, que não havia nessa época comissários inquisitoriais
nas Minas Gerais, caso contrário não teria Lisboa ordenado que as
diligências fossem efetuadas pela Comissaria do Rio de Janeiro.
Gastan-se mais oito meses até que tem início nova inquirição de
testemunhas, inaugurando-se este segundo sumário aos 6 de outubro
de 1753, dia de São Bruno.

O murmúrio contra o desafortunado professor continuava: ne-


nhuma das testemunhas sabia de seu paradeiro - uns diziam que ti-
nha sido mandado para o Rio de Janeiro, outros, que já estava sendo
julgado nos cárceres da Inquisição, no Reino.

Novas testemunhas acrescentam alguns detalhes, alguns deles


em flagrante contradição com as informações originais. Dizem que
o mestre já tinha antes dormido carnalmente com outro crioulo; que
outro menino servira de mensageiro para convidar o "amorzinho"
para o rendez-vous no bananal; confinnam terem sido três as cópulas
do professor com seu pupilo.

Duas inforrnações contraditórias são fundamentais na avaliação


deste caso: o moleque Manoel, quem primeiro contou à negra Ber-
narda que o mestre fazia "cousa má por de trás" com seus alunos,
agora "tira o cu da seringa", minimizando sua primeira denúncia,
dizendo tão-somente ter visto o mestre "agachado no chão junto com
Luiz, na casa do professor". De vítima ele próprio, passou a espec-
tador de ato neutro da ótica da Teologia Moral. O outro delator, o
menino Antonio, agora com 9 anos, também deixa de acusar o pro-
fessor João de tê-lo obrigado a masturbá-lo, nem se reconhece ví-
tima de violência sexual, dizendo perante o Comissário "que seu
mestre desapertando os calções, lhe pedira que com a mão lhe fizes-
se as sacanas, e ele não quis, fugindo". (Fazer as sacanas, sacana-
gem e maganagem eram termos correntes no Brasil e Portugal desde
o século XVII, sinônimos de masturbação recíproca ou alheia, rotu-
lados pelos inquisidores de molicie.) Portanto, também este menor
inocenta o professor de atos sodomiticos, limitando-se a acusá-lo de
solicitacao não consumada. Uma última testemunha dá ainda uma
quarta versão da reação do Sr. Francisco Moreira de Carvalho quan-
do notificado do namoro do mestre com seu filho primogênito - teria
dito: "Venha cá, velhaco! É esse o ensino que dá a meus filhos?!
andando somitigando com eles! E deu-lhe muitas pancadas..."

Terminado o inquérito, o comissário Coimbra envia o sumário


ao Tribunal de Lisboa. Nova travessia do Atlantico, e somente a 22
de julho de 1754 vem o veredicto dos reverendos inquisidores. Cer-
tamente, para decepção dos moradores das Lavras da Lagoa- e sur-
presa dos leitores atuais - mais uma vez a Inquisição mostrou-se
mais tolerante do que usualmente se esperava. Eis o despacho:

"Foram vistos os autos deste sumário de culpas, e parece a to-


dos os votos que as culpas não eram bastantes para proceder à prisão
do delatado. Que seja posto em liberdade imediatamente".

Após dois anos e três meses de prisão, o professor João Pereira


de Carvalho é liberado por ordem da Santa Inquisição: os inquisido-
res não encontraram nas acusações culpas suficientes para abrir pro-
cesso formal e efetuar a prisão do acusado nos Cárceres Secretos do
Rocio.
Raposas velhas na arte de inquirir, tarimbadíssimos no ofício
de desvencilhar mentiras e desmascarar calúnias, farejadores ini-
gualáveis na descoberta de cripto-herejes e sodomitas encobertos, os
inquisidores devem ter rapidamente se dado conta de que o quipro-
quó da distante Lavras da Lagoa não passava de uma réles maquina-
ção de um desconhecido Francisco Moreira de Carvalho contra um
chinfrim professor de primeiras letras com veleidades de latinista.
Algumas falhas e contradições do sumário tornaram-no peça judicial
insustentável, e verdade seja dita, no mais das vezes, o Santo Ofício
só mandava prender um denunciado após rigoroso exame das peças
processuais e evidências sobejas de que as acusações não eram calú-
nias e aleivosias.

Eis algumas das principais falhas processuais dessa denúncia e


que certamente influenciaram o despacho favorável ao suposto réu:

- a má fama do acusado originou-se da fofoca de um moleque


de 12 anos, o crioulinho Manoel, que entre um sumário e outro mo-
dificou completamente sua acusação, que de vítima ele próprio de
atos sodomíticos, passa a observador de certa proximidade física
entre o professor e seu discípulo, ato vago que não constituía em si
matéria suficiente para ser qualificada como sodomia, sequer como
connatus ou molicie (atos próximos à cópula), posto que somente a
sodomia perfeita constituía crime da alçada do Santo Ofício;

- o suposto bilhete do mestre para seu aluno, interceptado


pelo progenitor, caso existisse de fato, deveria ter sido incluído no
processo como peça importante na comprovação da nefanda amizade
entre ambos- o que nunca ocorreu, e além do mais, as três versões
distintas de uma única mensagem sugerem que tal missiva jamais te-
ria existido, acrescido do fato de que segundo uma testemunha, o
estudantinho "não sabia ler", tanto que teria pedido ao pai que o
decifrasse, mais uma evidência abalizadora de que o mestre João
certamente nunca teria rabiscado os tais bilhetes;

- as diferentes versões do desfecho deste nefando imbróglio, a


variação dos diálogos entre o pai ultrajado e o suspeito professor
somítico, a negação do contato sexual do filho mais novo, que num
primeiro momento afirmara ter sido obrigado a "fazer as sacanas" a
seu mestre, e sobretudo, a não acareação dos principais envolvidos
no suposto delito - a vítima e o estuprador- são evidências cabais
de que tudo não deve ter passado de fuxico de crianças e negros, ca-
tegorias sociais que na época eram muito afeitas ao disse-que-disse e
mentirinhas quejandas. A experiência secular dos inquisidores torna-
ra-os escolados em identificar calúnias, maquinações e interposições
de terceiros e segundas intenções nas denúncias destas timoratas
categorias de pessoa;

- quanto ao testemunho da crioula Bernarda, duas hipóteses:


sabedora que sodomia era crime, talvez para vingar-se de algum
malquerer contra o professor forasteiro, inventou toda essa sangrenta
história, tendo a cumplicidade do crioulinho Manoel, ou então, de
fato, o menino Luiz recorreu a seus préstimos para curar-se dalguma
hemorróida ou do famigerado mal-del-culo, doença muito corrente
no Brasil de antanho, hoje diagnosticada como retite ulcerante, con-
secutiva à desinteria. Já em fins do século XVI Fernão Cardim a in-
cluiu entre as doenças mais freqüentes na América portuguesa, cau-
sando "ardor e corrupção do anus com ulceração corrosiva, sem ou
com fluxo doloroso de sangue, corroendo o músculo esfíncter e a
boca das veias hemorroidais, ficando o anus largamente distendido à
moda de cloaca" (Santos Filho, 1977: 193). E a partir deste deplo-
rável estado mórbido, "tendo a veia (do anus) muito larga", arqui-
tetou todo esse enredo.

Não podemos deixar de aventar a hipótese de que, de fato, pro-


fessor e aluno mantiveram relações amorosas, sem bilhetes, sem
sangue derramado, sem garrafinha de aguardente, e que o pai ultra-
jado pela infamia de ter em casa um filho velhaco, aumentou a histó-
ria para vingar-se do indecente mestre e atemorizar para sempre seu
filho afanchonado. Mesmo dando crédito a essa conjectura, somos
obrigados a ter indulgência com esse mestre abusado, pois até agora,
no imaginário do leitor, como ocorreu comigo ao entrar em contato
com esse sumário, e o mesmo com os inquisidores lá em Lisboa, ao
lê-lo de primeira mão em 1753, ficamos todos com a idéia de que o
professor é um adulto, posto não haver no manuscrito qualquer in-
formação ou deixa sobre a idade do mestre. Pesquisando as Efemé-
rides de São João del Rei, de autoria de Sebastião de Oliveira Cin-
tra, localizamos no índice onomástico o nome de nosso professor,
cujo pai tinha o mesmo nome, João Pereira de Carvalho, português,
e a mãe, Ana Maria do Nascimento, mineira também filha de reinóis
das Ilhas. Aí encontramos o registro de batizado do professor João
Pereira de Carvalho, realizado na Capela do Rio das Mortes Peque-
no, filial da Matriz de São João del Rei, aos 23 de fevereiro de
1739. Só então, fazendo as contas, ficamos sabendo que o abusado
professor, ao ser denunciado em 1752, mal acabava de completar 13
anos de idade! Um sodomita acusado de estuprador aos 13 anos!

A omissão no sumário, da idade do professor, a nosso ver foi


proposital, tendo como finalidade tornar ainda mais hedionda a acu-
sação de violência sexual, pois jamais passaria pela imaginação dos
leitores, quer dos reverendos inquisidores, quer da nossa, no século
XX, que o professor João Pereira de Carvalho fosse um rapazote
que nem bigode, nem pentelhos devia ter. Tal omissão reforça nossa
ilação de que todo este imbróglio não passou de uma calúnia e ma-
quinação dos pais dos meninos Luiz e Antonio contra o professorzi-
nho de primeiras letras. É difícil acreditar que um moçoilo de 13
anos, pré-púbere, fosse fisicamente capaz de repetidas violências se-
xuais no anus de um menino de 9 para 10 anos.

O pesadelo em que estivera envolvido o jovem professor em


pouco tempo deve ter se desfeito, tanto que passados sete anos do
final deste sumário, em 1761, João Pereira de Carvalho requer junto
à Cúria Episcopal de Mariana sua "habilitação de génere et móri-
bus", peça indispensável para a admissão de todo candidato ao es-
tado sacerdotal. Em seu processo, com 123 folhas, nenhuma das
testemunhas inquiridas a respeito dos costumes e moral do habilitan-
do refere-se ao episódio das Lavras da Lagoa, nem a qualquer outra
conduta desabonadora de sua retidão e honestidade9, tanto que a 24
de setembro de 1762 nosso professorzinho, agora com 23 anos, é
ordenado padre pelo bispo D. Frei Manoel da Cruz, exercendo o
magistério sacerdotal na vila do Coqueiral até 1769. Até o momento
não localizamos em nenhum dos arquivos pesquisados qualquer in-
dício de que padre João Pereira de Carvalho praticasse o "vício dos
clérigos" - outro eufemismo como desde a Idade Média costumava o
povo rotular a homossexualidade.

1821 é o ano da extinção do Santo Ofício: a sodomia deixa de


ser crime religioso.

1822, a Independência do Brasil.

1823, a promulgação da primeira Constituição do Império: a


homossexualidade deixa de ser crime civil. A rainha Vitória com-
pletava quatro aninhos.

O século XIX, herdeiro do Iluminismo e do liberalizante Códi-


go Napoleônico, transfere o controle dos desvios sexuais da enfra-
quecida Igreja, para as Delegacias de Policia. Os direitos humanos e
o respeito à pluralidade ganham cada vez mais adeptos. A infancia e
a identidade infanto-juvenil adquirem foros de cidadania, tímidos
ainda, porém, crescendo dia a dia Cabe agora ao Estado zelar pela
moral e inocência dos imaturos, tanto que é aos próprios presidentes
das províncias que os cidadãos injuriados se dirigem para exigir jus-
tiça quando suas crianças são alvo de suposta corrupção por adultos.
Estes dois exemplos ocorridos na Província de Sergipe, com os
quais concluimos estas reflexões, mostram claramente a intromissão
do Estado no controle da sexualidade infanto-juvenil, ao mesmo
tempo em que revelam a preocupação do poder civil, muito mais ni-
tido do que ocorria nos tempos inquisitoriais, em proteger a infancia
contra os perigos representados pelos "corruptores de menores".

Em 1845 um morador de Itabaianinha, no agreste sergipano,


Antonio Batista de Fonseca e Oliveira envia um requerimento ao
presidente da provincia, Antonio Joaquim Álvares do Amaral, de-
nunciando o professor de primeiras letras, Francisco José de Barros
Padilha, acusando-o de "atropelar tanto seus dois filhos de 13 e 10
anos, para fins ilícitos, que os puxava para um quarto forçosamente,
para saciar seus ilícitos apetites, os quais não aceitando seus vis
convites, principiou a ser mal afecto aos filhos do representante, que
viu-se obrigado a tirar os filhos da escola, assim como outro pai, pa-
gando 2$000 réis por mês a outro professor".10

Vasculhando a documentação do Arquivo Público de Sergipe


minuciosamente, esta foi a única acusação de pederastia por nós en-
contrada relativamente à primeira metade do século XIX. Outro pes-
quisador, trabalhando com esse mesmo período para a vizinha pro-
víncia da Bahia, localizou tão-somente um episódio em que um
mestre é acusado, em 1830, de ter castigado violentamente um ado-
lescente por surpreendê-lo "em acto torpe consigo mesmo..."11 ne-
nhum caso de homossexualidade intergeracional. Ou as coisas
aconteciam mui sub-repticiamente, ou os pais e tutores dos infantes
não chegavam a denunciar eventuais acessos desonestos por parte
dos docentes, ou então, de fato, o medo da repressão e estigma so-
cial eram tão grandes que os pedagogos não ousavam qualquer pro-
ximidade libidinosa com seus pupilos; exceção feita aos professores
sádicos, rigorosos demais, que açoitavam as nádegas ou davam gol-
pes de palmatória em seus pequenos delinqüentes - como este último
mestre baiano, acusado pelo pai do menino masturbador de ter dado
36 bolos em seu filho de 9 anos! Coitadinho!

Voltemos à denúncia do professor de Itabaianinha: preocupado


com tão grave e insólita representação, o presidente de Sergipe to-
mou a providência de encarregar o inspetor parcial e o juiz de di-
reito da vila de Itabaianinha de investigar a acusação. Após cuida-
doso exame da matéria, sua conclusão foi categórica: "O que o su-
plicante alega não foi provado", encerrando-se aí esse caso sem
qualquer sanção ao delato. Tudo não passara de uma calúnia.

No ano seguinte, 1846, novamente outra ocorrência envolve


um professor com a pedofilia: o chefe de polícia de São Cristóvão,
então capital da província de Sergipe, envia ofício ao presidente
Amaral informando ter recebido despacho da Secretaria de Polícia
da Corte, proibindo o professor José Feliciano Dias da Costa de
exercer perpetuamente o magistério em qualquer casa de educação,
colégio ou qualquer outro estabelecimento onde possa haver alunos
e educandos ou tutelados sob sua guarda "por haver abusado da
confiança que os pais de seus alunos nele haviam depositado, e de
haver concitado a inocência para o vício, pervertendo a moral, que
aliás lhe cumpriria ensinar".l2

Nossas pesquisas no Arquivo Nacional do Rio de Janeiro e


alhures têm redundado infrutíferas na localização de mais informa-
ções sobre esse desafortunado professor pedófilo, cuja licença peda-
gógica fora cassada em todo o Império devido a seu vício e perver-
são. De onde era natural, onde ensinava, que estrepolias cometeu, a
que processos foi submetido, tudo ignoramos e agradecemos a quem
nos der alguma pista desse proscrito mestre José Feliciano Dias
da Costa

A mudança de atitudes por parte dos donos do poder em face


da "corrupção de menores" é evidente: da cruel indiferença dos in-
quisidores aos estupros infantis do século XVI ao XVIII, à vigilan-
cia em todo o território nacional por parte dos chefes de polícia
contra um pedagogo pedófilo na segunda metade do século XIX- à
mesma época em que nosso imperador Pedro II era declarado maior
de idade aos 15 anos - tal mudança de postura pode ser interpretada
sob dois angulos: de um lado a instauração de uma moralidade ultra-
repressora - a vitoriana- que sob o pretexto de proteger a inocência
infanto-juvenil, reprime e dessexualiza completamente os meninos e
adolescentes; de outro, o início dos direitos humanos dos jovens e
crianças, não mais tratados como tábula rasa - como ainda postula-
va o pai da sociologia, Émile Durkheim em 1925 na obra L'Educa-
tion Morale- nem como reles objetos sexuais dos mais velhos, mas
criaturas merecedoras de respeito, capazes da livre orientação sexual
e dos prazeres eróticos, e donas de sua privacidade individual.

NOTAS

Este ensaio faz parte de uma pesquisa mais ampla, "Moralidade e Se-
xualidade no Brasil Colonial", financiada pelo CNPq, a quem renovo meu
agradecimento. Devo também favor aos professores Sebastião de Oliveira
Cintra e Jairo Braga Machado, de São João del Rei, assim como a Luiz Carlos
Villalta e Joaci Pereira Furtado, de Mariana, pelo importante auxílio que me
prestaram na obtenção de dados complementares dessa pesquisa. Este artigo
foi primeiramente publicado nos Cadernos de Pesquisa (Fundação Carlos
Chagas), n° 69, maio 1989.

1. Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Caderno do Nefando n° 20, fl. 40.

2. Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Caderno do Nefando n° 20,


fl. 121.

3. Confissoes da Bahia, 1591-1592, Primeira Visitação do Santo Ofício às


partes do Brasil, Rio de Janeiro, F. Briguiet, 1935: 46-47.

4. Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Inquisição de Lisboa, processo n-°


5720.

5. Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Inquisição de Lisboa, processo n-°


15421 .

6. Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Inquisição de Lisboa, processo n-°


71 18.

7. Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Inquisição de Lisboa, processo n-°


2664.

8. Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Caderno do Nefando n-° 20, fl.


192 e ss, de 24 de abril de 1752; Museu Regional de S. João del Rei, In-
ventário de Francisco Moreira de Carvalho, 1814.
9. Arquivo da Cúria de Mariana, processo de Genere et Moribus n-°885.

10. Arquivo Público do Estado de Sergipe, Pacotilha 594, de 29 de agosto de


1845.

11. Arquivo Público do Estado da Bahia, Maço 3112, de 16 de março de


1830, Requerimento contra o Professor Lázaro da Costa. Devo ao prof.
João José Reis a gentil indicação deste documento.

12. Arquivo Público do Estado de Sergipe, Pacotilha 69, ofício do chefe de


Polícia Henrique Jorge Rebello ao presidente da Província, de 3 de março
de 1846.
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O FiLHO DA ESCRAVA *

Kátia de Queirós Mattoso

Analfabeto por vontade expressa da sociedade dominante, o


escravo brasileiro é, para nós, testemunha silenciosa de seu tempo.
São, de fato, raras as oportunidades que lhe permitem expressar-se
por si próprio: quando escravo, ele fala pela rebelião, pela fuga,
pelo suicídio, e até mesmo pelo crime, falas que são gestos de pro-
testos violentos. mas gestos corajosos, gestos de homens indomáveis
e desesperados. Quando libertável1 ou liberto, o ex-escravo fala
através daqueles documentos que lhe restituíram a liberdade, e que,
tirando-o do anonimato, deram-lhe um rosto e existência própria.
Todavia, parece que a maioria dos 3 milhões e 500 mil escravos tra-
zidos para o Brasil não foi nem rebelde, nem fugtiva, nem suicida,
nem criminosa, e morreu escrava sem nunca ter se libertado das
"malhas do poder" escravista 2.

Anônimo para a sociedade que o oprimia, esse escravo encon-


trava em seu trabalho meios para se expressar, desenvolvendo es-
tratégias de sobrevivência que, como se poderia pensar, nem sempre
fora transigentes e acomodatícias. Lidos com essa intenção, testa-
mentos, inventários e cartas de alforria são documentos reveladores
desse tipo de atitudes que redundam em resistências brandas, mas
qlle são tão significativos e importantes quanto os atos de protesto
violento.

*Este artigo foi publicado na Revista Brasileira de História v. 8 nº


16 1988, com o título "O Filho da Escrava (Em Torno da Lei do Ventre Livre)".

No entanto, qualquer que seja a leitura que possamos fazer da


documentação acima referida, não deixa de ser verdade que nos é di-
fícil encontrar, nesse tipo de material, traços das alegrias e penas
dos escravos ou dos vínculos que estes estabeleciam com o seu Deus
ou com os seus Orixás, com os seus parentes, seus amigos ou mesmo
seus inimigos3. Sua palavra torna-se volátil, seus gestos desvane-
cem-se, no anonimato redutor da escravidão. O que se pode então di-
zer das crianças escravas que são duplamente mudas, e duplamente
escravas, uma vez que, geralmente, entende-se que todo escravo,
mesmo adulto, é criança para o seu senhor, menor perante a lei e
eterno catecúmeno para a Igreja?

Nos relatos dos viajantes estrangeiros, nas estampas e dese-


nhos que alguns deles produziram, vêem-se, em papéis decorativos,
crioulinhos e pardinhos, filhos de mães negras ou mestiças, sempre
acompanhados por mulheres, e, por homens, quase nunca. Quando
novos, brincam na casa de seu senhor, ou então acompanham suas
mães nas suas tarefas do cotidiano; mães sem marido, "Irmãs de So-
lidão", como as apelidou, com tanta propriedade Arlette Gauthier4.
Quando ainda muito novos para correrem nas ruas e nas longas ca-
minhadas, vão os meninos arrimados nas costas de suas mães por
panos bonitos, ricos em cores variadas.

Teresa de Baviera pintou em 1888 uma negra baiana em -todo


seu esplendor: negra que carrega na cabeça um imenso tabuleiro, re-
pleto de bananas, levando nas costas um crioulinho de mais ou me-
nos dois anos de idade, cuja ponta de pé balança-se alegremente fora
de sua cadeira de pano; assim, a mãe tem as mãos totalmente livres
para servir seus fregueses e para segurar seu tabuleiro quando sobe e
desce as íngremes ladeiras da cidade.5 Várias são as gravuras de
Rugendas e de Debret que nos descrevem as mesmas atitudes, o
mesmo porte altivo de mãe9 os mesmos gestos graciosos das crianças
que seus autores querem alegres e felizes.6 Na sua passagem pela
Bahia em 1833, o francês Dugrivel dizia-se impressionado pelo es-
petáculo de negras seminuas sentadas no meio das ruas da cidade a
dar o seio a filhos completamente nus.7 Assim, a criança escrava é
representada ora de maneira avantajada, e então é o anjinho barroco
de cor preta, ora de maneira menos romantica, e então é o menino
nu, um peso a carregar, uma boca a alimentar. Embora no Brasil da
época, e principalmente nas classes dominantes, a criança seja prin-
cipe, na verdade, o que sabemos da criança escrava? É evidente que
a minha indagação refere-se à criança como ser social, como inte-
grante de uma comunidade da qual é membro à part entière, e que
dela recebe proteção ou abandono.8

Minha primeira questão é, entretanto, uma questão de defini-


ção. A que idade, e como o filho da escrava deixa de ser criança e
passa a ser percebido como escravo? Não há dúvida de que tal inda-
gação tem que levar em conta certas precauções antes que se tente
definir o que se entende por criança escrava. Há que considerar,
primeiro, a própria noção de criança que forçosamente remete à no-
ção de idade. Para nós, homens do século XX, o conceito idades de
vida encobre realidades diferentes das do século XIX, e seria puro
anacronismo, por exemplo, utilizar o termo criança para caracterizar
jovens escravos que na época passam por adolescentes.

Como regra geral, as idades de vida que correspondem às cate-


gorias de infancia, adolescencia, idade adulta e velhice são as mes-
mas para a população livre e para a população escrava. Há, porém,
entre uma e outra uma diferença de monta, ligada à função social
desempenhada pelas categorias de idade: a criança branca livre e até
mesmo a criança de cor livre podem ter seu prazo de ingresso na vi-
da ativa protelado, enquanto a criança escrava, que tenha atingido
certa idade, entra compulsoriamente no mundo do trabalho.9 Há,
pois, um certo momento em que o filho da escrava deixa de ser a
criança negra ou mestiça irresponsável para tornar-se uma força de
trabalho para os seus donos.

Através dos documentos que conhecemos, e particularmente


dos testamentos e inventários post-mortem, parece que podemos lo-
go distinguir duas idades de infancia para os escravos: de zero aos
sete para oito anos, o crioulinho ou a crioulinha, o pardinho ou a
pardinha, o cabrinha ou a cabrinha, são crianças novas, geralmente
sem desempenho de atividades de tipo econômico;10 dos sete para os
oito anos até os doze anos de idade os jovens escravos deixam de
ser crianças para entrar no mundo dos adultos, mas na qualidade de
aprendiz, de moleque ou de moleca, termos que designavam outrora
todo pequeno negro ou jovem e que hoje tomaram um sentido um
pouco crítico, um pouco pejorativo, pois passam a designar o jovem,
de sexo principalmente masculino, considerado irresponsável! Na
realidade, toda piramide de idades referente a escravos deve ser

pág 79 Tabela 1 não escaneável

manuseada com cuidado, porque com freqüência o apelido de moleca é


dado a uma moça de seus 20 anos ou a umajovem de 9 para 10 anos.

Essa distinção de duas idades na faixa muito jovem das crian-


ças escravas é, aliás, referendada não somente pelas evidências co-
lhidas em inventários, testamentos e cartas de alforria, mas também
em documentos oficiais dos quais os mais importantes são, sem dú-
vida, os que emanam da legislação civil e eclesiástica.

É por demais conhecido que, para a Igreja, a idade de razão de


todo cristão jovem situa-se aos 7 anos de idade, idade de consciên-
cia e de responsabilidade. Para a Igreja, aos sete anos a criança ad-
quire foro de adulto: de ingênuo torna-se alma de confissão.11 Por
sua vez, na sua parte de direito civil, o Código Filipino mantido em
vigor durante todo o século XIX, fixava a maioridade aos 12 anos
para as meninas, e aos 14 anos para os meninos.12 Finalmente, a lei
de 28 de setembro de 1871 (Lei do Ventre Livre), ao colocar em po-
der e sob a autoridade dos senhores os filhos de escravos nascidos
ingênuos, obriga a estes "crial-os e tratal-os até a idade de oito anos
completos. Chegando o filho de escrava a esta idade, o senhor da
mãe terá a opção, ou de receber do Estado a Indemnização de
600$000, ou de utilizar-se dos serviços do menor até a idade de 21
annos completos".13 Pelo que se infere nos documentos que são os
inventários, e pelas normas e leis da sociedade civil e religiosa, há,
ao lado da maioridade religiosa e civil, uma terceira maioridade, esta
afeta ao início de uma atividade econômica produtiva. Terceira
maioridade que nos parece muito mais importante que as outras duas
porque não somente é própria à condição escrava14 como também
indica claramente que, tratando-se de criança escrava, o divisor de
águas entre infancia e adolescencia colocava-se bem antes dos doze
anos, porque assim exigiam os imperativos de ordem econômica e
social. Mas mesmo encurtada, o que é a infancia para um escravo?

É evidente que todo escravo, até mesmo o mais desprotegido,


foi criança em algum momento de sua vida. Mas em que condições e
por quanto tempo? Eis uma pergunta cuja resposta não pode ser úni-
ca, porque existem vivências e experiências qwe são diversas. Diver-
sas, por exemplo, se o escravo nasceu na África ou se nasceu
crioulo; diversas, também, se o escravo chegou criança no Brasil,
freqüentemente nesta fase de idade que o transforma em jovem tra-
balhador.15

Quantos foram os escravos vindos crianças da África, não sa-


bemos; no entanto, sabemos que, já na idade adulta, quando interro-
gados sobre a sua filiação, vários dentre eles confessaram não mais
se lembrar do nome de seus pais. Como se a violência com que fo-
ram arrancados de seus meios, o esforço em adaptar-se num novo
ambiente, tivessem obscurecido toda e qualquer memória.16

Mas voltemos ao nosso propósito inicial: afinal, até que idade


um escravo é ainda percebido como criança? Como vimos, o escravo
permanece criança até a idade de sete para oito anos. Nas grandes
propriedades de engenhos de açúcar, as crianças escravas passeiam
com toda liberdade, participando das brincadeiras das crianças bran-
cas e das carícias das mulheres da casa, verdadeiros "cupidos de
ébano", como os classificou um viajante ao descrever a admiração
beata dos senhores - inclusive do capelão - ante as cambalhotas dos
negrinhos brincando com cachorros de grande porte.17 Na cidade, a
exigüidade do espaço ocupado pela família do senhor com freqüên-
cia relega os filhos da escrava aos alojamentos reservados aos escra-
vos ou a outras áreas como, por exemplo, pontos de mercado e la-
goas onde se lava a rowpa. A vida dos folguedos infantis é curta. É
nos seus sete para oito anos que a criança se dá conta de sua condi-
ção inferior em relação principalmente às crianças livres brancas. As
exigências dos senhores tornam-se precisas, indiscutiveis. A passa-
gem da vida de criança para a vida de adolescente era o primeiro
choque importante que recebia a criança escrava.18 Embora do nas-
cimento à morte, a vida do escravo tivesse sido sempre uma enfiada
de choques sucessivos, tentaremos cercar aqui os que eram próprios
à infancia.

Nossa fonte serão os inventários; nosso período, os últimos


trinta anos da escravidão; nosso método, transformar em texto corri-
do os dados das inevitáveis tabelas, apenas nesse tipo de estudo.19

Cada criança escrava que nasce é um filho desejado pela mãe


ou mera conseqüência de um ato sexual? É evidente que, por mais
que queiramos encontrar uma resposta clara a essa pergunta, a nossa
documentação não a fornece de modo explícito. Com efeito, nunca
encontrei referências sobre a atitude da escrava em relação à mater-
nidade: se ela alegrava-se ou entristecia-se de ser ou de vir a ser
mãe, não tenho como saber. No entanto, da observação da escrava-
tura feminina, através da análise de dados referentes a sua idade, al-
guns traços interessantes oferecem comentários:

Tabela 2 - Mulheres escravas (1860-1880) - Faixas Etárias

Períodos | 1??? a 40 anos

12 ???~ 20 = 21 (3)*
q 21 a 30 = 29 (15)

31 a 40 = 21 (~)
~

declarada

41 a 50 = 16 (1) moças = 24 (5)


51 a 60 = 7 ainda mocas = 4
61a70= 7 velhas = 15(1) 34(3)

12a20 = 17 (0) 41 a50 = 18(3) mocas = O


1870 79 21 a30 = 16 (2) 51 a60 = 4 aindamoças = O
31a40= 13 (1) 61a70 = I velhas = O
+ de70 = I

-
12a20= 27(7)

188G 89 21aqO--27(10)

TO r r 184 (52)

41 a 50 = 14 (2)
51 a 60 = 9 (3)
61a70 = 1~0)
! de 70 = 1(~)

80 (9)

~ Entre parênteses: n~mero de escravas mães

Apesar de nos encoll~nos nos últimos trinta anos do regime


escravista, o padrãc de reprodução do escravo brasileiro é fraco: das
214 mulheres em idade de procriar, somente 59 ~27,6%) chegam à
condição de mãe, isto é, menos de i/3 da população feminina.20
Mesmo se ampliarmos o niimero de mães escravas incluindo, tam-
bém, ~quelas que per~encem a outras ~aixas et~rias, ou cuja idade é
desconhecida, notamos que seu numero é mais baixo ainda: sanente
19,7% do nosso universo femiII~no é constituído por mães escravas
Porém, se de outro la~o, ~OIIIIOS olhar cada fai~ca elá~ia em separado;
observaremos que pa~a as muiheres cuja idade é compreendida-elltre
12 e 40 anos, há dois compor~nentos que se tornarn perceptíveis:
nos períodos 186(K9 e 188~81 O n~unero de mulhe~es que procriarn
é sensivelrnente superior ao das mulhe~es do período de 1870-79~
35,6 e 34,3~o con~ra 7,5~o. Dir-se-ia que na década que se seguiu à
abolição do tráfico, a vontade de procriar permaneceu firme, mesmo
se o modelo de reprodução é fraco; na década seguinte, teria havido
uma queda devido a um certo retraimento, favorecido pelas próprias
ambigüidades da Lei do Ventre Livre, que na realidade contribuía
em alforriar o escravo nascido ingênuo aos seus 21 anos de idade!
Pelo contrário, o último período da escravidão, sustentado pela pro-
paganda abolicionista, e pela atitude dos senhores escravos em alfor-
riá-los na hora de sua morte,21 é relativamente positivo, vez que
mais de um terço das mulheres têm filhos ou são "peiadas". Posso
ainda acrescentar que a média de crianças por inventário é de 2,8
(1860-69), 2 (1870-79) e ???~.4 (1880-89); há pois mais um elemento
que fortalece a hipótese de uma maior aceitação do papel de mãe sob
a perspectiva de uma próxima liberdade total.22- Mas, como disse,
isto é uma mera hipótese. A resposta só poderá ser satisfatória quan-
do, por uma abordagem comparativa, se estudarem os padrões de
comportamento das mães negras e mestiças, antes e depois da aboli-
ção, e com dados demográficos mais precisos do que os dos inventá-
rios. Mas continuemos a tecer a nossa trama em torno dessa criança
escrava, e procuremos saber como esta criança é vista pela socieda-
de que a observa crescer.

O olhar mais próximo é o olhar da mãe, do pai nada se sabe.


Em Salvador, entre 1870 e 1874, em 85 batismos de crianças escra-
vas, todos, absolutamente todos, são batismos de crianças ilegítimas.
Mas é também verdade que, para o mesmo período a taxa de ilegi-
timidade atinge 62% da população livre.23 Por outro lado, os inven-
tários silenciam sobre o estado civil dos escravos recenseados: todas
as mulheres de nossa amostra são mães solteiras.24 Mas mães soltei-
ras que nem sempre poderão cuidar de suas crianças, ~mesmo as que
estão em tenra idade. Porque a criança escrava não somente se vê
privada da referência paterna, mas freqüentemente falta-lhe também
a materna.

O número de crianças sem filiação, isto e, sem a menção do


nome de sua genitora, é enorme (cf. tabela 3: representa 41,2% das
crianças de menos de 12 anos. ???O3~L1ssão do escrivão que passa um
pouco apressadamente por este problema de filiação? Não acredita-
mos, porque há vários casos em que, no mesmo inventário, o escri-
vão dá a filiação de uma criança e não de outra. Presença entre a es-
cravatura infantil de crianças negras africanas? A hipótese dificil-
mente se sustenta, haja visto que estamos em período de interrupção
do tráfico negreiro, a menos que o tráfico proibido tenha dado prefe-
rência às crianças. O mais plausível é considerar que as mães dessas
Tabela 3 - Crianças com menos de 12 anos sem filiação (1860- 1888)

crianças foram vendidas ou conseguiram alforriar-se, ou, então sim-


plesmente morreram.25 Seja como for, um bom número de crianças
escravas não tem nem pai nem mãe. Quem pois os cria? Quando a
comunidade escrava é numerosa. não há dúvida de que a mãe bioló-
gica é substituída por uma mãe postiça ou até por toda a comunidade
feminina que se encarrega de sua criação. Todavia, o numero de es-
cravos em inventários de pessoas que morriam em cidade não se pode
comparar à escravaria existente nos empreendimentos agrícolas.
Principalmente nesse período, inventarios com ???nh~s de dez escravos
são excepcionais, e quando existem, referem-se às pessoas que são
donas de uma roça no perímetro da cidade ou de algum empreendi-
mento manufatureiro. De modo que não é raro encontrar
crianças em tenra idade que são criadas por escravos do sexo mas-
culino, como é o caso, por exemplo, dos dois cabrinhas Leôncio, de
7 anos, e Zenon, de 4 anos, que vivem em companhia de sua senho-
ra Maria Senhorinha Gomes de Oliveira, e do escravo angolano ân-
gelo, já idoso.26 Aqui, a mulher branca é a única figura feminina,
mas seria temeroso querer ver nela uma referência ao retrato mater-
no Há, também, a situação oposta, onde esses filhos de mães escra-
vas desconhecidas são rodeados por mulheres mais ou menos jovens,
mais ou menos velhas.

Por exemplo, Geraldo, cabra de 10 anos, e Jacob, crioulo de 5


anos, que não são irmãos, vivem no meio de cinco escravas das
quais a mais velha tem 72 anos e a mais moça 21, todas do serviço
de ganho e de casa. Ambas crianças foram leiloadas como, aliás, foi
também o caso das cinco escravas.27 Mas há também crianças escra-
vas completamente solitárias, como é o caso de Satumino, cabra de
4 anos, que vive na companhia de sua dona, Maria do Nascimento
Viana, e Manoel, cabra de 7 para 8 anos, do serviço doméstico, que
acompanha o casal de Francisco José de Oliveira.28 Desta maneira,
todas as situações são possíveis, e não há dúvida de que a criança
escrava fica muito ???cecio sem referências familiares, pelo menos no
sentido em que os ocidentais as entendem.

Porque, se levarmos nossa análise ainda um pouco mais


adiante, descobriremos que, mesmo no caso de crianças que não
perderam suas mães biológicas, o ambiente que as cerca é um am-
biente majoritariamente, quando não exclusivamente, composto por
mulheres, ou, então, quando há escravos do sexo masculino, estes
ou são muito velhos (mais de 50 anos) ou muito moços (12 a 15
anos, para terem desempenhado o papel de genitor com mulheres
cuja idade situa-se entre 18 e 40 anos, e cujos filhos têm idades va-
riando de ???al~c dias de nascido até 11anos.29

Se não encontramos escravas casadas, muito menos encontra-


mo-las amigadas. No decorrer do inventário, algumas das mães con-
seguem libertar-se mas antes de 1880 é raro que consigam levar
seus filhos consigo; mas seria ???inderlte afirmar, generalizando,
que elas abandonam seus filhos à sua triste sorte. Infelizmente, fal-
tam-nos evidências para melhor discutir esse aspecto. Na verdade,
deve ter havido as duas atitudes, a do abandono, e aquela que con-
sistia em uma longa e infindável procura para conseguir a libertação
do filho, como nos ensinam as cartas de alforria.30 De qualquer ma-
neira, o filho da escrava é uma criança cuja mãe biológica é fre-
qüentemente ausente, quando criado sem referencias parentais segu-
ras: da mesma forma que todos os homens da comunidade podem
simbolizar o papel do pai ausente, a comunidade feminina pode tam-
bém simbolizar a mãe ausente, mas, em ambos os casos, a referência
fica imprecisa. Assim, se no ato de seu nascimento o escravo é uma
criança sem pai, a má sorte e má fortuna podem ainda torná-lo órfão,
também, de mãe.
Esses filhos de escravas são geralmente da mesma cor que as
suas mães, principalmente se estas são africanas. Aqui, encontramos
esse traço endogamico tão característico da sociedade baiana do se-
culo XIX.31 Somente oito das 42 mães encontradas no período
1860-1889 têm filhos de cor diferente da sua, e dentre elas, somente
duas são de origem africana Aliás! as mães africanas nesse período
são menos numerosas que, por exemplo, entre 1880 e 1881; mas não
temos nenhuma explicação a fornecer sobre este fato.32

Tabela 5 - 1860- 1869

Pardo
???.Cor da mãe Cor dos filhos: SM SF

_____I

Africana S~ID*
(Preta) 30
Crioula 30 3 -
(Preta) 25 - ~0
S/ID I -- S/ID
Sl'ID -- 3
28
Cabra 30 2 8e5

* SlL~--sem idade declarada. Os números represcntam idade das mães.


* *--os números referem-se à idade dos fiihos

Todavia, para que o quadro dos sangues misturados do período


1860 1869 fique completo, é necessario acrescentar as crianças cuja
filiação é desconhecida, mas cuja cor de pele e mais clara que a do
preto africano e crioulo. Das 61 crianças de sexo maSCUlino9 e das
48 crianças de sexo feminino, respectivamente, dez e treze crianças
são qualificadas nos documentos como pardinhos(as), cabrinhos(as)
e mulatinhos(as); em termos de porcentagens, isso repre-
senta 16,4 e 27,0%- há, pois, uma maior proporção de mestiços do
sexo feminino do que do sexo masculino, sem que isso possa ser ex-
plicado. ???h~as várias dessas crianças têm irmãos e/ou irmãs mais cla-
ros ou mais escuros do que eles. ???E~a rrRsm~ casos em que uma parte
dos irmãos é livre, a outra escrava, situação que ilustra bem a se-
guinte história:

Em 1870, falecera, em Salvador, Diogo Correia da Rocha, de


seu estado viúvo, sem filhos, originario de Pernambuco, e, segundo
tudo indica, pequeno feirante na praça de Salvador. Ao parecer,
Diogo deixoU quatro escravos e a seguinte situação. uma moça afri-
cana nago chamada ???Joa4uma, ja liberta, mãe de Inês, ???muia~inha
que Diogo reconhece como sua filha legítima e universal herdeira Con-
tudo, por parte de mãe, Inês tem tres outros meio-irmãos que são es-
cravos de seu pai No seu testamento, Diogo dá liberdade gratuita à
menina, a crioula Leopoldina, mas obriga os dois ???GU~)S meio-ir-
mãos de sua filha, os crioulos ???Felis e Cosme, ???~n~s oficiais de pe-
dreiro, a trabalharem para a irmã Inês, dando-lhes 300 réis por dia
até qlle esta complete seus quinze anos, apos o que os dois crioulos
ficam livres- Quanto ao quarto escravo, o crioulo Benedito, oficial
de calafate, este poderá ficar livre se no prazo de dois anos pagar à
herdeira Inês a quantia de 400$000 réis. Infelizmente, o documento
não dá nem a idade de Inês, nem a de sua mãe, nem as de seus meio-
irmãos, mas nos poe perante uma situação extremamente pungente,
na qual as obrigações decorrentes da situação escravista sobrepoem-
se e dominam as que naturalmente brotariam do meio das solidarie-
dades familiares- Não tentemos, porém, nem sequer imaginar o que
essa situação podia representar na mente daqueles CUJa mãe biolo-
gica era comum, mães que se achavam do lado de cá, ou do lado de
lá, da divisão livre/escravo.33 Desta maneira, a criança escrava não
somente convivia com irmãos de cores diferentes, como também
convivia com irmãos de pais diferentes, que, legalmente, podiam
tornar- se seus senhores.

Eis aqui, talvez, um ???~em~nto que nos permite entender melhor


porque tanto a mulher escrava africana, como a escrava crioula
mostram-se pouco apressadas de prodigar filhos a esse ???hpo de so-
ciedade. Com efeito, a maioria das mães escravas tem ???duas as toda
sua vida fecunda, no maximo de um a dois filhos, sendo raras as
mães que possuem mais de cinco ou seis filhos.34

Tabela 6 - Origem da mãe e número de filhos

Crianças com mães, crianças sem mães, crianças crioulas, par-


dinhas, cabras ou mulatinhas, todas essas crianças que nascem ou
chegam com essa idade em Salvador são socializadas, não através da
família, como nós a entendemos - família que freqüentemente ine-
xiste, mesmo quando é monoparental - mas através do contato que
para elas estabelecem os que cuidam de sua integração na comuni-
dade escrava e na de seu ssnhor.

Nascido, o escravo nenê é batizado sem muita demora A es-


colha do padrinho e da madrinha é o resultado de estratégias de
promoção social bastante parecidas àquelas encontradas entre os li-
vres e os libertos, porque a responsabilidade dos padrinhos perante a
criança alarga-se também à mãe desta, que se tornará comadre. O
compadrio consolida e estende os indispensáveis laços de solidarie-
dades que permitem aos escravos sobreviver no meio de uma socie-
dade hostil e, às vezes, se libertar.

E por ter sido comadre da já vendida nagô Maria que a africa-


na, nagô, liberta, Mariana Joaquina do Espírito Santo, solteira, com
um filho vivo, que comerciava com fazendas, liberta em testamento
sua afilhada Rosa, crioula, com 13 anos de idade.35
Ainda em 1881, uma outra africana liberta com nome de Ana
Joaquina mostra-se muito generosa na hora de sua morte: ela deixa
liberta uma escrava chamada Carlota e um rosário de ouro de lem-
brança à sua afilhada Umbelina, que é crioula livre.36

Finalmente, ao falecer, em 1882, Antonio Ignácio de Almeida,


branco, solteiro, deixou livres suas três crias Adelaide, Senhorinha e
Joaquina, que ainda receberam legado de 100$000 réis cada e um
escravo com nome de Tomé.37

Os padrinhos são, pois, escolhidos entre a população livre,


liberta e escrava Nota-se, porém, uma nítida preferência na escolha
de pessoas da mesma etnia ou da mesma cor que a mãe.38 Evidente-
mente, estas pessoas devem ser pessoas influentes e mesmo se não
possuem grandes cabedais, devem pelo menos ter bons relaciona-
mentOS e gozar de prestígio, na comunidade.

A lei impõe a todas as mães, livres ou escravas, a obrigação de


alimentar seus filhos até a idade de tres anos. Até que ponto os do-
nos de escravos respeitavam essa exigência legal, não sabemos.
Mas, como já vimos, há entre as crianças sem filiação (cf. tabela 3),
eScravos novos de menos de três anos que não deviam estar apro-
veitandO do aleitamento materno. Porém, não resta dúvida de que,
ultrapassada essa primeira fase da idade infantil, a criança adquire
certa autonomia, que marca para ela uma virada.

Ainda novo, o filho da escrava é olhado como escravo em re-


dução, somente diferente do escravo adulto que mais tarde será, pelo
tamanhO e pela força. É-lhe agora necessário adquirir todos os sabe-
res, conhecer todas as artimanhas que vão lhe permitir, o mais rápi-
do possível, tornar-se aquele escravo útil que dele se espera. Assim,
o curto período na vida da criança que vai dos três aos sete para oito
anos é um período de iniciação aos comportamentos sociais no seu
relacionamento com a sociedade dos senhores, mas também no seu
relacionamento com a comunidade escrava. É, sem dúvida, nessa
tenra idade que o seu senhor vai formar idéia sobre as capacidades e
o caráter da criança. É nessa idade também, que a criança começará
a perceber o que são os castigos corporais, que adentram pela idade
adulta, porque indispensáveis à manutenção do sistema escravista.

Depois, por volta de seus sete para oito anos, a criança não te-
rá mais o direito de acompanhar sua mãe brincando; ela deverá
prestar serviços regulares para fazer jus às despesas que ocasiona a
seu senhor, ou até mesmo à própria mãe, se esta trabalha de ganho e
reside fora da casa de seu dono. Assim, a lavadeira será ajudada a
tranSportar sua trouxa de roupa; a ganhadeira, o tripé em que repou-
sa seu tabuleiro, ou os utensílios que usa para a sua cozinha. O se-
nhor utiliza o pequeno escravo como mensageiro, como carregador
de encomendas, como pajem, etc. No período 1860-1879, das 29
crianças do sexo masculino, com idade de 7 a 12 anos, somente sete
tinham um trabalho qualificado: há um aprendiz de barbeiro, dois
aprendizes de ferreiro, e quatro do serviço doméstico. Quanto às
crianças do sexo feminino, das 29 crianças, cinco eram domés-
ticas, e duas aprendizes de costureiras. Embora seja mais do que
provavel que todas as outras crianças, listadas sem ocupação, tives-
sem também ta-refas regulares a executar, entretanto, é curioso
constatar a pequena quantidade de crianças que seus donos preparam
para a vida de adultos. A rigor, somente o aprendizado de um ofício
qualifica o jovem para o futuro, e na nossa amostra há somente três
aprendizes do sexo masculino e duas do sexo feminino. Mas, desde
então, a escravidão pesa nos ombros do filho da escrava Essa idade
de sua vida que vai dos 7 aos 12 anos, não é mais uma idade de in-
fancia porque já sua força de trabalho é explorada ao máximo, exa-
tamente como o será mais tarde também. Mesmo se seu rendimento é
menor, ele é escravo à part entière, e não mais criança A obediên-
cia que deve como criança, não mais a deve à mãe, mas a seu se-
nhor, mesmo se sua mãe desempenha de vez em quando papel de
intermediário.

É nesta perspectiva que a Lei do Ventre Livre nos parece inte-


ressante de reler. Promulgada pela princesa imperial D. Isabel, Re-
gente do Império na ausência do pai D. Pedro II, essa lei parece dar
liberdade às crianças nascidas no Brasil de mães escravas, enquanto
o costume jurídico brasileiro, consoante com o direito romano, reza-
va que "Partus sequitur ventrem". Até lá, a única exceção admitida:
o filho da escrava com seu senhor, ou outro qualquer livre, tornava-
se livre se, na sua morte, o pai o reconhecesse como filho.39

Essa lei contradiz ou confirma o que nós pensávamos conhecer


sobre as idades da infancia de um jovem escravo? Nesse sentido, já
utilizamos parte dela quando ???f~amos a idade que marca o ingresso
da criança na vida ativa, mas não esgotamos todo o seu conteúdo.

Para a lei, o filho da escrava é um menor até a idade de 21


anos. Essa tomada de posição é aparentemente correta, porque per-
feitamente respaldada nos princípios de direito que a justificam.
Mas, o que, na verdade, esconde essa correção?

Não é nosso propósito falar sobre a habilidade do legislador


em liberar sem libertar esses escravos "menores". No entanto, gos-
tariamos de perceber algumas das ambigüidades e contradições que a
propria lei esconde. As cláusulas restritivas, embutidas umas nas
outras, no intuito de evitar a libertação de "menores", são a propria
evidência de que, apesar de livre, o filho da escrava não deixou de
perder seu valor de mão-de-obra, valor variável segundo sua ida-
de.40 Assim, a lei nos dá três idádes-chave, três ???pa~rares: 8, 12 e
21 anos. Se acrescentarmos o ???pa~nar de três anos, reencontramos
as etapas sugeridas pelos outros textos da época, anteriores à lei
de 1871.
Quando o filho da escrava completa oito anos a lei permite ao
senhor - que tem prazo de um mês para fazê-lo - escolher a modali-
dade de "libertação" que lhe convém. É que nos seus 8 anos a
criança já deu provas de suas capacidades. Sem dúvida, poucos de-
vem ter sido os senhores que não prenderam pelo trabalho os filhos
de suas escravas. Até os 21 anos, são treze anos de trabalho, que
nenhuma indenização oferecida pelo governo podia compensar.41
Finalmente, nenhuma das crianças da Lei do Ventre Livre terá 21
anos em 1888; o destino, mais clarividente que a lei, neles terá reco-
nhecido os escravos disfarçados que foram, e que são liberados da
mesma forma e no mesmo tempo que os outros escravos. Para os re-
datores da lei de 28 de setembro, atrás do "menor" a proteger es-
condia-se o bom trabalhador, útil a seu senhor. A esse respeito, o
parágrafo 6 do artigo 1° da lei é muito instrutivo, porque pretende
limitar os abusos exercidos pelos senhores que castigam duramente
as crianças-ingênuas-escravas e futuras libertas: "se por sentença do
JUÍZO criminal reconhecer-se que os senhores das mães os maltra-
tam... " cessa a prestação de serviços destes !

A idade de 12 anos, que havíamos sugerido como pondo real-


mente fim à infancia, aparece também como uma idade-chave na Lei
do Ventre Livre. De fato, a lei estipula que em caso de alienação de
uma escrava, seus filhos livres, menores de 12 anos, devem acompa-
nhá-la, "ficando o novo senhor sub-rogado nos direitos e obrigações
de antecessor".42 Emília Viotti da Costa mostrou que vários pro-
prietários paulistas utilizavam esse dispositivo para negociar as
crianças, às quais era atribuído um verdadeiro valor.43

Além do que a lei previa que essas crianças de um estilo novo


podiam "remir-se do ônus de servir, mediante prévia indemnização
pecuniária, que por si ou por outrem ofereça ao senhor de sua mãe,
procedendo-se a avaliação dos serviços pelo tempo que lhe restar a
preencher, se não houver acordo sobre o quantum da mesma indem-
nização".44 Teríamos a tendência de pensar que, finalmente, o valor
do escravo criança desaparece com a promulgação da lei de 1871:

até atribuímos a falta de precisão sobre o sexo, o nome, a cor e a


idade ao fato de que a criança ingênua interessava agora menos aos
seus senhores. Na realidade, a falta de dados sobre os ingênuos é
talvez mais uma maneira dos senhores aproveitarem-se de situações
pouco claras. De qualquer maneira, os senhores nunca deixam de
bem conhecer o valor real dessas crianças.

E foi assim que numa epoca onde cada mãe livre sonhava po-
der oferecer a seu filho uma escola, em vez da aprendizagem da vida
cotidiana,45 numa epoca onde começarain a se prolongar a infancia e
os folguedos, o filho da escrava continua tendo uma infancia enco-
lhida, de tempo estritamente mínimo. o balismo, com a segurança
advinda do compadrio protetor, o amor materno dispensado pela mãe
biológica, ou por tias as outras "mães" que a ela substituem, tor-
nam a criança escrava parecida com as outras crianças brasileiras,
mas com as crianças de sua condição de cor, livres, porém escravas
dos preconceitos da sociedade em que vivem. O pai lhe falta, mas
esse pai falta também à maioria das crianças livres ou libertas, de
cor. Todavia, o filho da escrava deve cedo aprender as duras leis da
escravidão: deve trabalhar para existir e para ser reconhecido como
bom escravo, obediente e eficaz. Com a autonomia dos gastos e do
pensamento, com a "idade da razão" não há mais criança escrava,
somente escravos que são ainda muito novos. Para os seus senhores,
somente sua força de trabalho os distingue do resto da escravaria
adulta. Sob suas aparências enganadoras, a Lei do Ventre Livre é
disto a clara confissão, e a mensagem simbólica do ???olhsr que um
corpO social inteiro levanta sobre a criança escrava. A Lei do Ventre
Livre é o triunfo das mentalidades antiquadas e perversas.

NOTAS

1. Estou aqui me referindo aos libertos sob condição.

2. De fato, não existe nenhuma avaliação de ordem quantitativa quando conta


da freqüência e amplitude dos protestos violentos, alem de que, os estudos
que possuímos, dizem respeito principalmente ao fim do periodo escravista
(século XIX). Para os períodos anteriores, nossas informações permane-
cem ainda escassas. Apenas algumas epopeias do tipo, por exemplo, Qui-
lombo dos Palmares têm sido estudadas, mas ficamos ainda à espera de um
possível mapeamento de todas essas ocorrencias, durante os tres séculos
da escravidão.
3. No que se refere ao testador ou ao inventariado, esse tipo de informações
existe e às vezes com bastante abundancia, o que permite apreender os
vários mecanismos de controle social forjados pela sociedade escravista,
pelo menos na Bahia Mas o escravo que não se alforriou não é nem tes-
tador nem inventariado, uma vez que é privado de personalidade jurídica.
Sobre os mecanismos de controle social e relações sociais cf. MATTO-
SO, Kátia M. de Queirós. Au Noveau Monde: une Province d'un IVouvel
Empire: Bahia au XlXe siècle. Paris, Université de Paris - Sorbonne,
1986, 5 vols., 1553 p~gs. (Tese de Doutorado de Estado). Cf. principal-
mente nos livros III, IV, V e VII.

4. GAUTHIER, Arlette. Les Soeurs de Solitude. La condition fémine dans


resclavage aux Antiles du 17e au 19e siècle, Paris, Editions Caribéennes,
lg85.

5. AUGEL, Moema Parente. Visitantes estrangeiros na Bahia oitocentista,


São Paulo, Cultrix/INL/MEC, 1980, p. 205.

6. RUGENDAS, João Maurício, Viagem pitoresca através do Brasil, São


Paulo, Cia. Editora Nacional, 1954; DEBRET, Jean Baptiste, Viagem
pitoresca e histórica ao Brasil, Trad. Sérgio Milliet, São Paulo, 1940.
7. DUG~IVEL, A. Des bords de la Saône à la baie de San Salvador,
ou promenade sentimentale en France et au Brésil, Paris, Libraire
Lecour, 1845.

8. O único trabalho que eu conheço sobre o tema é o de Maria Lúcia Barros


Mott, "A criança escrava na literatura de viagens." In: Caderno de Pes-
quisa da Fundação Carlos Chagas, n° 31: 57-67, dezembro 1972.

9. Esse caráter compulsório de ingresso na vida ativa talvez não tenha


sido próprio somente ao escravo. Nas camadas baixas livres da população a
participação de crianças na vida ativa talvez tenha sido tão importante
quanto a das crianças escravas. Ressalve-se, porém, que teoricamente, tal
ingresso não tinha o mesmo caráter compulsório que quando se tratava de
crianças cativas: a decisão pelo trabalho de uma criança era produto de
um consenso familiar - mesmo no caso de família monoparental - e não
de uma ordem emanada de um senhor e mestre.

10. Maria Lúcia Barros Mott (op. cit., p. 61) escreve: "A idade de 5 a 6 anos
parece encerrar uma fase na vida da criança escrava. A partir dessa idade
ela aparece desempenhando alguma atividade (...) descascar mandioca,
descaroçar algodão e arrancar ervas daninhas". Esse tipo de evidência de
um "aprendizado" precoce não foi encontrado na nossa documentação.
Não descarto, porém, a possibilidade de que esporadicamente tenha havi-
do esse tipo de desempenho por parte de crianças de menos de 7 anos.

Este trabalho fundamenta-se quase exclusivamente nos inventários post-


mortem e abrange o período 1860-1888, portanto, os trinta últimos anos
de escravidão. A utilização dessa documentação coloca problemas de or-
dem metodológica, cuja solução deve ser comentada

No referido período, foram ao todo consultados 493 inventários, porém


somente 209 tinham listas de escravos (cf. tabela n-° 1 no texto). Os pro-
blemas que coloca a coleta de dados são variados e serão aqui rapida-
mente resumidos.

1°--Imprecisão nas descrições dos escrivãos encarregados do arrolamento


dos bens do falecido. Essas imprecisões dizem respeito à origem, cor,

idade e ocupação dos escravos. No caso específico de crianças escravas


notamos que até 1878 os escrivãos têm o cuidado de arrolá-las indicando
nome, cor, idade, filiação - quando conhecida- e ocupação, quando es-
pecificada. Todavia, após 1878 e em conseqüência da Lei n° 2040, de 28
de setembro de 1871, dita Lei do Ventre Livre, as informações sobre
crianças que são agora ingênuas, isto é, livres de nascença, tornam-se de-
finitivamente falhas, e raras são as vezes onde se tem sobre os ingênuos
as mesmas informações que sobre as crianças escravas. De fato, os escri-
vãos passam a anotar o nome da genitora, sua origem, sua idade - se esta
for conhecida, e sua atividade, se for específica; mas, sobre o filho ou os
filhos, em 95% dos casos não há absolutamente nenhuma informação a
não ser a de que são ingênuos. Essa tendência, que se desenvolve a partir
do final da década de 1870, tende a acentuar-se na década seguinte e,
por volta de 1885, o filho ingênuo da mãe escrava é mergulhado num anoni-
mato ainda mais profundo, pois não tem mais nem sexo, nem cor, nem
idade. Esses dados que eram importantes na avaliação do preço da criança
escrava, deixam de ter sentido a partir do momento em que o filho da escrava
perdeu seu caráter de mercadoria Por essa razão, o tratamentoque seráda-
do às crianças escravas será um pouco diferente do relativo aos ingênuos.

2-° - O universo de inventários pesquisados no período 1860-1888, não se


esgota com estes 493 inventarios. Há no Arquivo do Estado da Bahia,
secção judiciária, dezenas de outros inventários referentes a esse
mesmo periodo que não foram pesquisados. No entanto, segundo nossos
calculos, a documentação que utilizamos representa perto de ???3~o da
documenta ção existente para esse período.

11. AZEVEDO, Thales de. Povoamento da Cidade do Salvador, Salvador,


Editora Itapuã, 196.,.

12. MATTOSO, Kátia de Queirós. Família e Sociedade na Bahia do século


XIX. São Paulo, Editora Corrupio, 1988.

13. Actos do Poder Legislativo, Lei n° 2040, de 28 de setembro de 1871,


Artigo 1 § 1°. In Leis do Brasil. Rio de Janeiro, Imprensa Oficial,
1871, pp.147-149.

14. Em nosso conhecimento não existe nenhuma lei referente à população li-
vre compelindo crianças a ingressarem na vida ativa nessa idade. Obser-
vo, porém, que apesar da lei de 28 de setembro de 1871 ter sido feita para
crianças nascidas livres de mães escravas, o parágrafo 1 do artigo 1°, ao
facultar ao senhor da escrava a utilização do trabalho dos ingênuos de
mais de 8 anos, jogava estes, novamente na escravidão.

15. Maria Lúcia Barros Mott afirma que quatro eram as razões pelas quais os
traficantes de escravos davam preferência à importação de crianças: (1)
a facilidade com que estas se adaptavam ao trabalho, (2) a perspectiva
de uma vida longa (3) a diferença no preço, a criança tendo sempre um pre-
ço inferior ao do escravo adulto e (4) a crença de que os escravos crioulos
eram menos dóceis e menos ativos (A criança escrava... op. Cit., p. 59).

16. Esse tipo de informação é encontrado nos testamentos nos quais o testa-
dor é obrigado a declinar sua filiação, mesmo se ela for monoparental.

17. MATTOSO, Kátia M. de queirós. Ser Escravo no Brasil, São Paulo,


Brasiliense, 1982, p. 128.

18. Idem, p. 129.


19. Cf. nota 10.

20. Ao número de mulheres de faixa etária de 12 a 40 anos foram acrescen-


tados os números das incluídas nas rubricas moças e ainda moças.
21. Em sete dos doze inventários que temos para esse período, os senhores
outorgam a liberdade a todos os seus escravos, às vezes sob condição mas
na maioria, sem nenhuma cláusula restritiva Essa liberdade é freqüente-
mente acompanhada por um pequeno pecúlio. Cf. inventários, 39/2640
09/2640, 05/2639,1/1686, 3/7229, 1/7229 por exemplo.

22. Para as médias, cf. tabela I.

23. ATHAYDE, Johildo l opes de. Filhos ilegítimos e crianças expostas


(Notas para o estudo da família baiana no século XIX). Salvador, RALB,
n" 27:9-25, setembro 1979, pp. 14-16.

24. Fiz esse mesmo tipo de constatação quando estudei 323 inventários do
período 1850-1860. 14% de mães escravas encontradas refere-se intei-
ramente a mulheres solteiras. Cf. MATTOSO, Kátia de Queirós. Família
e Sociedade na Bahia do Século XIX, já citado.

25. Há na documentação algum exemplo dessas situações onde a mãe é co-


nhecida mas não faz parte do rol de escravos. Quanto às mães escravas
falecidas, é relativamente raro encontrar informações.

26. AEBa, Secção Judiciária, série inventários, inventário 4/948 (1861).

27. AEBa, Secção Judiciária, série inventários, inventário 4/4650. José Joa-
quim Vieira (1874).

28. AEBa, Secção Judiciária, série inventários, inventários 5/1009


(1870) e 4/1007(1871).

29. Esses comentários são baseados nos 70 inventários que têm listas de es-
cravos no período 1860-1869. Ver especialmente os inventários de n°
4/984, 2/977, 1/925, 4/995, 11977, 6/933 e 6/100, (AEBa, secção judi-
ciária, série inventários).

30. MATTOSO, Kátia M. de Queirós. Ser escravo no Brasil, pp. 181-198.

31. Cf. MATTOSO, Kátia M. de Queirós, Família e Sociedade.

32. Cf. tabela n" 6.

33. AEBa, Sec~cao Judiciária, série inventários, 03/2292 (1872).

34. Na verdade essas mães com filhos únicos ou com dois filhos podem ter
tido filhos em número maior mas que, na ocasião, eram falecidos, haja
vista a alta taxa de mortalidade de crianças escravas.

35. AEBa, Seccao Judiciária, série inventários, inventário 2/1009


(1871).
36. Idem, inventário 05/2639 (1881).

37. Idem, inventário 67/2549 ( 1882).

38. Há vários casos encontrados nos inventários e testamentos, mas esses da-
dos não foram ainda sistematicamente analisados. De qualquer modo, só
os registros paroquiais oferecem um vasto universo documental para o
tratamento dessa questão que deve ser esboçada num prazo de tempo lon-
go, secular. Para a área rural, o estudo de Stuart Schwartz permanece
ainda sem concorrência. Cf. SCHWARTZ, Stuart, Sugar plantation in
the formation of Brazilian society, Bahia 1550 - 1835, London, Cam-
bridge University Press, 1985, pp. 408-412.

39. Cf. Nota 33.

40. Essa constatação em parte contraria a afirmação segundo a qual os ingê-


nuos deixam de ser registrados com minúcias porque perderam o inte-
resse como mercadorias. De fato, o valor de mercadoria não mais existe,
mas foi habilmente substituído pelo valor-trabalho ligado à idade da
criança.

41. Essa indenização era de 600$000 Réis e visava compensar o senhor


pelas despesas que tinha tido para a criação do filho da escrava.

42. Artigo 1-°, § 5 da Lei n-° 2040, de 28 de setembro de 1871. In Leis do Bra-
sil..., p. 148.

43. VIOTTI DA COSTA, Emília Da Senzala à Colônia. São Paulo, Difel,


1966,p.393/394.

44. Artigo 1-° § 2 da Lei n-° 2040 de 28 de setembro de 1871. In Leis do Bra-
sil..., p. 148.

45. Pelo recenseamento de 1872 há na cidade do Salvador daquela época


30% das crianças escolarizadas, sendo que o maior índice de escolariza-
ção se verifica na paróquia semi-rural de Brotas (82,8%) e Santo Antônio
Além do Carmo (66,0%). O índice mais baixo fica com a paróquia de
Santana (14,6%). Cf. MATTOSO, Kátia M. de Queirós. Au Nouveau
Monde..., voL 1-°, pp. 305--311.
O Óbvio e o Contraditório da Roda
Miriam Lifchitz Moreira Leite

Um rápido levantamento entre pessoas que eram crianças de


quatro a seis anos na década de 30 foi o suficiente para revelar como
a Roda estimulava a imaginação das crianças de famílias estrutura-
das. Era usada como ameaça, fonte de mistérios nunca revelados por
inteiro, provocando uma curiosidade temerosa nas crianças que os
adultos se recusavam, temiam ou não tinham condições de satisfazer.
As crianças que moraram perto das Rodas de Salvador, de São Paulo
e do Rio de Janeiro lembram-se de recomendações para que não pas-
sassem por perto delas, nem olhassem muito para quem estava nas
proximidades. As empregadas domésticas se afligiam com as per-
guntas alvoroçadas, sentindo-se atingidas e ameaçadas por aquela
curiosidade malsã. Os pais desviavam enfaticamente a conversa, em
respeito aos tabus vigentes em questões de sexualidade. Por que
aqueles bebês eram deixados na Roda? Não é simples, também, co-
municar a idéia de abandono de filhos pelos pais, ainda que seja
uma situação muito presente em contos infantis tradicionais (do pai
que deixa os filhos perdidos na floresta, por não ter como lhes dar
de comer). Entre si, as crianças trocavam suposições desencontradas
sobre tudo isso. A própria rotação do mecanismo estimulava em sua
imaginação o aparecimento de uma gigantesca máquina de moer car-
ne. Com o pensamento metafórico incendiado, afirmavam para os
irmãos menores que os bebês colocados no vão do muro eram moí-
dos pelo movimento giratório. Os que comunicaram suas lembranças
conservam viva uma sensação de estranheza e temor desencadeada
pelo som da sineta no silêncio da noite e pelo ranger do mecanismo
que abocanhava bebês na rua, para empurrá-los para detrás dos
muros.

A Roda dos Expostos foi uma instituição que existiu e foi ex-
tinta na França, que existiu em Portugal e foi trazida para o Brasil
no século XVIII. Os governantes a criavam com o objetivo de salvar
a vida de recém-nascidos abandonados, para encaminhá-los depois
para trabalhos produtivos e forçados. Foi uma das iniciativas sociais
de orientar a população pobre no sentido de transformá-la em classe
trabalhadora e afastá-la da perigosa camada envolvida na prostitui-
ção e na vadiagem.

Em todos os locais em que existiu, a Roda de Expostos foi


sempre muito discutida. Acreditava-se que o anonimato dos pais do
enjeitado propiciava a licenciosidade e a irresponsabilidade pelo
fruto de seus prazeres. O abandono da criança acabava sendo consi-
derado como resultante da existência da Roda, quando esta procu-
rou, muitas vezes sem êxito, salvar a vida de recém-nascidos cujo
abandono era feito nos adros das igrejas ou no beiral das portas,
muito antes de as Rodas terem sido criadas.

O abandono, a alta mortalidade e a doação de crianças (na me-


dida em que é possível avaliar comportamentos e sentimentos de
outros tempos), não eram sempre vistos como um tráfico de explora-
ção da infancia, mesmo nos países desenvolvidos. Além de origina-
dos pelas dificuldades do aleitamento, pela alimentação artificial ou
pelas más condições de saúde das amas, eram resultantes de fatores
econômicos, sociais e até culturais, entre os quais se destacam as-
pectos da implantação da urbanização. A prática ilegal e quase
aberta do abandono e o fatalismo com que era aceita a mortalidade
infantil revelavam certa indiferença ao valor da criança até o início
do século XIX, quando as escolas começaram a descobri-la e a clas-
se médica passou a insistir na necessidade da criação dos filhos pe-
las mães, pois cada criança achada (depois de abandonada) era uma
criança perdida.

Evidentemente, no Brasil, a situação era agravada pela exis-


tência da escravidão, a exploração sexual das escravas e da explo-
ração da criança ???esc~J As amas-de-leite a quem eram entregues os
recém-nascidos eram quase sempre escravas ou negras livres que
amamentavam os enjeitados com o leite recusado a seus filhos.
Apesar das discussões sobre a imoralidade da instituição e a
alta mortalidade dos internados, que se prolongaram até o século
XX, a instituição sobreviveu, com alterações internas e maior con-
trole estatístico e sanitário de seu funcionamento até 1948, no caso
de São Paulo.

Atualmente, estão sendo elaboradas duas teses sobre as Rodas


de São Paulo e do Rio de Janeiro com pesquisas na documentação
interna da instituição. A documentação que apresento tem outro ca-
ráter: são os muitos olhares de estrangeiros, aguçados pelas diferen-
ças e pelo estranhamento; olhares que se alteraram através de todo o
século XX.

A análise de Viajantes estrangeiros que estiveram no Rio de


Janeiro, me fez recuperar imagens perdidas da Roda da Bahia, que
povoaram a minha infancia Não um Só, mas vários viajantes (Morei-
ra Leite, M. L. 1982) se detiveram diante da Roda, no Rio de Janei-
ro e a descreveram fisicamente, procurando compreender e esclare-
cer oS seuS objetivos. Não ficaram, porém, apenas na descrição:

Esta roda ocupa o lugar de uma janela dando face para a rua e
gira num eixo vertical. É dividida em quatro partes por com-
partimentos triangulares, um dos quaes abre sempre para fora
convidando assim a que dela se aproxime toda mãe que tem tão
pouco coração que é capaz de separar-se de seu filho recém-
nascido. Tem apenas que depositar o exposto na caixa, e por
uma volta da roda fazê-lo passar para dentro, e ir-se embora
sem que ninguém a observe. (Kidder e Fletcher (1851) p. 128).

Acrescentavam à descrição e a dados numéricos, seus valores


culturais diante do observado.

Os fundos do Hospital dos Expostos, que foi instituído em


1738 provêm, atualmente, de Rendas, Caridade e Dívidas a se-
rem cobradas, nas proporções de 29, 48 e 27. Em seus regis-
tros, recebeu 8.509 crianças, das quais 98 morreram, 5 foram
devolvidas a seus pais e, em 1818 havia, no estabelecimento
134. Luccock (1818) p.374).

Diante da morte e do abandono das crianças, os viajantes re-


velaram atitudes muito diferentes. Robert Walsh e o conde de SU-
zannet regiStraram a prátiCa de abortos e infanticídios de escravos
que desejavam livrar OS filhos da escravidão. OS missionários pro-
testantes Kidder e Fletcher condenaram aS mãeS que abandonavam
oS filhos na Roda. Para eles, a Roda era um estímulo à licenciosida-
de e à desumanização. Já o diplomata Andrews, também norte-ame-
ricano, apresentou-a como uma instituição humana, que pretendia
preservar a vida das crianças.

Jean Baptiste Debret, pintor oficial do Primeiro Reinado, fez


uma apresentação visual do que chama de asilo para crianças
abandonadas.

O público é também admitido a visitar, na mesma época, o pe-


queno asilo para as crianças abandonadas, situado na mesma
praça em frente à igreja da Misericórdia. Esse pequeno edifício
de um pavimento é de arquitetura regular. A torre acha-se no
meio da fachada, num corpo um pouco afastado que se asse-
melha a uma porta falsa. Uma escada estreita, de cada lado do
edifício, leva ao primeiro andar composto de três salas unica-
mente destinadas ao aleitamento das crianças. Aí se encontram
três filas de berços guarnecidos de baldaquins brancos unifor-
mes, enfeitados com filão, e cujas cortinas abertas e levantadas
permitem que se vejam os recém-nascidos enfaixados com a
elegancia brasileira e expostos sobre a colcha. Quando muito
pequenos ou gêmeos, são colocados à razão de dois por leito.
A ama senta-se no chão, com as pernas cruzadas, ao lado do
berço. A vestimenta dessas mulheres, sempre muito limpa, va-
ria entretanto quanto à elegancia e à riqueza, pois são em geral
negras alugadas pela administração, que entregam os salários
aos senhores. Por isso, pela elegancia das negras se pode ajui-
zar da fortuna dos senhores a que pertencem.

Muitos órfãos, ao sair da adolescência, são entregues a artífi-


ces reputados, aos quais pagam com sua atividade a alimenta-
ção e os cuidados recebidos. Mais ou menos no fim da oitava
desta festa, um dia é reservado aos dotes anuais criados em fa-
vor das órfãs em idade de casar. (Debret, J. B. (1816) T.II
???~V.~I) 45 49).

Nesta passagem estão reunidas duas instituições que talvez por


volta de 1816 estiveSsem juntas - a Roda de Expostos e o Asilo de
Órfãos - destinadas ao recolhimento de recem-nascidos, no primeiro
caso e de desvalidos "de pé", de 2 oU 3 anoS e maiS, no segundo.
Ao apreSentar aS condições eSpaCiais da inStitUiÇão, Debret revela a
aglomeração das Crianças noS berços e a condição social
das amas-de-leite - escravas alugadas para o aleitamento, que
ficavam na instituição alimentando os internos, em prejuízo dos fi-
lhos que eram, por sua vez, abandonados. Mal conhecido, mas não
menos tenebroso é esse aspecto da escravidão - a alta mortalidade
infantil da população negra provocada, entre outros fatores, pelo
desvio do leite das escravas. Muitos dos expostos eram também fi-
lhos ilegítimos de escravas, que os pais não queriam ou não podiam
sustentar e que, recolhidos na Roda, seriam vítimas de novas lutas
contra a morte.

A escritora e desenhista inglesa Maria Graham, que foi gover-


nanta dos filhos de D. Pedro e da princesa D. Leopoldina analisou,
em 1821, a rede de relações sociais que se desdobrava nessa insti-
tuição fechada:

.. A primeira vez que fui à Roda dos Expostos (parece


Impossível) achei sete crianças com duas amas- nem berços
nem vestuário. Pedi o mapa e vi que em treze anos tinham en-
trado perto de 12 000 e apenas tinham vingado 1000, não sa-
bendo a Misericórdia verdadeiramente onde eles se achavam.
Agora, com a concessão da loteria, edificou-se uma casa pró-
pria para tal estabelecimento, aonde há trinta e tantos berços,
quase tantas as quanto expostos e tudo em muito melhor
administração.

.. 29 de setembro. Fui ao Asilo de Órfãos, que é também hos-


pital dos expostos. Os rapazes recebem instrução profissional
em idade adequada. As moças recebem um dote de 200 mil réis
que, apesar de pequeno, as ajuda a estabelecerem-se e é muitas
vezes acrescido por outros fundos. A casa é extremamente lim-
pa, como também o são as camas para as crianças expostas, das
quais somente três estão agora sendo criadas por amas-de-leite
dentro da casa. As demais estão colocadas fora, no campo. Até
ultimamente têm morrido numa proporção apavorante em rela-
ção ao seu número. Dentro de pouco mais de nove anos foram
recebidas 10 000 crianças; estas eram dadas a criar fora, e de
muitas nunca mais houve notícia. Não talvez porque todas te-
nham morrido, mas porque a tentação de conservar uma mu-
lata como escrava deve, ao que aparece, garantir o cuidado
com sua vida, mas as brancas nem ao menos têm esta possibili-
dade de salvação. Além disso, as pensões pagas para a ali-
mentação de cada uma eram, a princípio, tão pequenas que as
pessoas pobres que as recebiam, dificilmente podiam propor-
cionar-lhes meios de subsistência. Um melhoramento parcial já

foi feito e ainda maiores ampliações deverão ser realizadas. Há


grande falta de tratamento médico. Muitos dos expostos são
colocados na Roda, cheios de doenças, com febre ou, mais fre-
qüentemente, com uma espécie de comichão chamada sarna,
que lhes é freqüentemente fatal. Por outro lado aparecem tam-
bém crianças mortas, a fim de que sejam decentemente enter-
radas. (Moreira Leite, M.L. 1984).

Nenhum outro viajante apresentou um qüadro tão completo das


condições sociais e higiênicas dos abandonados e de suas nutrizes.
Maria Graham e também Kidder e Fletcher revelaram uma institui-
ção em constante ampliação e submetida a inúmeras mudanças, con-
forme os recursos obtidos pelos órgãos mantenedores e a disponibi-
lidade de escravas para o aleitamento adequado, dependente, entre
outros fatores, das alterações por que passou o sistema escravocrata
durante o século XIX.

O relatório do Ministro do Império para o ano de 1859 dá-nos


a seguinte alarmante estatística, com os comentários do Ministro:

"Em 1854, 588 crianças foram recebidas, somadas a 68, já no


estabelecimento. Total 656:--Mortas 435; Restantes, 221.

Em 1853, o número de expostos recebido foi de 630 e mortos


515.

Foi portanto menor a mortalidade, no passado do que nos últi-


mos anos. Todavia o número de mortos ainda é aterrador.

Até o presente não foi possível verificar as causas exatas dessa


lamentável mortandade, que com mais ou menos intensidade
sempre se verifica entre os expostos, não obstante os maiores
esforços empregados para combater o mal".

Bem pode um dos médicos do estabelecimento, em cuja com-


panhia um cavalheiro de minhas relações visitou vários departa-
mentos da instrução exclamar: "Messieur, c'est une boucherie! "

Qual seria a condição moral ou os sentimentos humanos dessas


numerosas pessoas que deliberadamente contribuem para expor
a vida das crianças? Uma circunstancia peculiar ligada a esse
estado de coisas é o facto alegado de que muitos dos expostos
são productos das mulheres escravas, cujos senhores, não de-
sejando os aborrecimentos e as despesas da manutenção das
crianças ou desejando os serviços das mães, como amas-de-
leite, exigem que as crianças sejam enviadas à Enjeitaria onde,
se conseguem sobreviver, serão livres. Um grande edifício para
a acomodação dos expostos está sendo construído no Largo da
Lapa (Kidder & Fletcher, p. 129 e ss.).
Contudo, foi o diário do escritor norte americano Thomas Ew-
bank (1846 p. 288) que me forneceu o desenho de uma mulher bran-
ca, depositando furtivamente um recém-nascido na Roda de Expos-
tos. Um dos fundadores da American Ethnological Society, Ewbank
deixou um riquíssimo diário, ilustrado com bicos-de-pena de sua la-
vra, revelando o cotidiano urbano, do Rio de Janeiro de meados do
século passado.

Tendo ouvido falar muito sobre a exposição diária de crianças,


e as facilidades que se dão a fim de que os que queiram livrar-
se delas possam fazê-lo discretamente, resolvi ir observar o lu-
gar de recepção. E isto, até há pouco, dava-se no Hospital, mas
agora é numa rua quase deserta, para escandalo da Mãe Sagra-
da das Monjas, cujo nome leva. O engenho para receber as
crianças consta de um cilindro oco e vertical, e girando em
torno de um eixo. Um terço dele é aberto para dar acesso ao
interior, e o fundo é coberto com uma almofada. O aparelho é
constituido de tal modo que é impossivel aos de dentro verem
os do lado de fora. Caminhei por toda a extensão da Rua Santa
Teresa sem perceber nada, mas voltando, uma placa, de apenas
algumas polegadas sobre uma porta fechada de um edificio
normal, chamou a minha atenção. A inscrição era clara: EX-
POSTOS DA MISERICORDIA Nº 30. Enquanto a lia, veio de
dentro um rumor de confirmação. A única janela da fachada
era próxima da porta e era, de fato, o receptáculo. O que eu
tomara quando passei pela primeira vez, por um postigo verde,
vi agora que era ligeiramente encurvado. Toquei-o, a sua
abertura girou rapidamente. Hesitei por um momento, mas
quando os moradores de uma casa do lado oposto abriram suas
janelas para ver quem estava abandonando ali um enjeitado à
plena luz do dia, bati rapidamente em retirada (E wbank, 1846).

Entre aS teSes sobre amamentação escritas por doutorandos da

Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, a de José Maria Teixeira,


de 1876, dizia que de 1861 a 1874, 8.086 criançaS entraram na Roda

e 3.545 morreram. Não é aqui um visitante, mas um habitante e en-


gajado no estudo de uma instituição contemporanea que diz:

antes das estatisticas que com ???su" cuidado obtivemos, antes


de procedermos à análise minuciosa dos dados existentes,
guiados unicamente pelo coração, éramos partidários decididos
das rodas; depois do estudo, o nosso espirito vacila e quase

Mulher depositando recém-nascido, na Roda dos Expostos.


(Fonte: diário de Thomas Ewbank)

que afirma a inutilidade delas, se não for possível diminuir a


sua mortalidade excessiva.

O depoimento do diplomata Christofer ColumbuS Andrews é


de 1887. Trinta e Seis anos Se paSsaram desde as condenações taxati-
vas dos missionários e do escritor, revelando como estes viam a es-
cravidão no momento em que o tráfico estava sendo proibido. O di-
plomata, cuja carreira profissional também não o envolvia tão dire-
tamente com a população quanto a dos divulgadores da palavra divi-
na, fez o seu depoimento às vésperas da Abolição. Agora entrara em
cena uma nova presença feminina - a Irmã de Caridade estrangeira,
que passara a participar dos hospitais e asilos brasileiros, trazendo
novos comportamentos no tratamento de doentes e órfãos. Contudo,
se o tratamento se alterou em alguns pontos, as condições físicas dos
internados não parecem ter melhorado.

Passando uma tarde com um amigo pela Rua Evaristo da Vei-


ga, a rua da Igreja Anglicana e que está no sopé do Morro de
Santo Antônio, paralelo à frente do Jardim Público, chegamos
à vista dos Arcos, ao Hospital dos Enjeitados (Casa de Ex-
postos), onde fomos recebidos por uma Irmã de Caridade.
Anualmente cerca de 400 crianças de pais desconhecidos são
entregues secretamente a essa instituição humana, conhecida
popularmente como "a roda". Desde a sua fundação recebeu
400 000 dessas crianças. Toma conta delas por 8 dias e depois
as coloca como pensionistas de famílias particulares, por cerca
de 5 dólares por mês, até um ano e meio, depois do que se pa-
gam 2 dólares por mês. Cerca de 6 000 dólares são pagos pelo
asilo pela pensão externa das crianças. Quando têm idade sufi-
ciente para freqüentar a escola voltam à instituição, onde rece-
bem instrução até os 12 anos e então são enviadas para apren-
der ofíciOS. Recebem um pequeno dote quando casam. Existem
agora 40 crianças que recebem instrução. O edifício dá para a
calçada e nada indica em sua fachada para que serve a não ser,
talvez, o lugar onde as crianças são depositadas; e isso não
chama a atenção do transeunte que não conhece o edifício, por
que o vão na parede mal aparece. O que parece ser um vão es-
treito e ligeiramente oval na parede, numa moldura de pedra, é
a parte exterior da "roda", uma espécie de mecanismo girató-
rio com três lados abertos na parte inferior. O lado externo fe-
cha firmemente e é preciso um puxão firme para girá-lo e abrir
as prateleiras para a rua. Quando se faz isso, um recém-nascido
pode ser colocado numa das prateleiras; e quando a roda gira
de novo, a criança é introduzida no interior do asilo, no que se
poderia chamar de recepção e ao mesmo tempo soa um sino
bem alto. Uma Irmã de Caridade ou uma criada imediatamente
aparece e pega o recém-nascido; e a fim de preservar sua iden-
tidade para alguma finalidade futura, registra imediatamente a

hora exata de recebimento, o sexo, condições físicas e a roupa.


Às vezes, a mãe pregou na roupa o nome que queria lhe dar e
esse desejo é em geral obedecido. Ninguém sabe, nem se im-
porta com quem deixou a criança. A própria construção da ro-
da foi feita para manter o segredo.

Muitos dos recém-nascidos estão doentes quando chegam e 30


a 32% morrem; menor porcentagem que nos anos anteriores. O
número recebido anteriormente também era maior que agora,
sendo de 500 a 600 por ano, mostrando que com o progresso
houve uma redução de nascimentos ilegítimos, apesar do cres-
cimento da cidade. Muitas das crianças são mulatas e as que vi,
num dormitório de trinta e duas camas eram bem pequenas.
Mal parecia haver uma criança saudável entre elas. O quarto
em que estavam era tranqüilo, com duas janelas e, embora
grande, a atmosfera era abafada. As camas eram berços de fer-
ro arrumados com mosquiteiros em cada um. Escravas são em-
pregadas invariavelmente como amas-de-leite, sendo a política
do asilo não empregar para o serviço mães de enjeitados. Um
médico visita diariamente o asilo. Acontece, às vezes, que os
pais desejam retirar os filhos e, em determinadas circunstancias
e fornecendo provas de identidade, podem fazê-lo. Fui infor-
mado pela Superiora que delicadamente nos acompanhou du-
rante a visita, que existem agora 16 Irmãs de Caridade da Or-
dem de São Vicente de Paula que vivem aí e aí prestam servi-
ços. (Andrews, C.C. (1887) 43-46).

A essa altura, a imagem infantil da tenebrosa instituição tinha-


se ampliado e ganhado contrastes através das informações de visi-
tantes que haviam refletido sobre ela, com os recursos de sua forma-
ção cultural e profissional e uma perspectiva basicamente burguesa.

Foi quando a historiadora Maria Lúcia Mott, pioneira em estu-


dos sobre a criança escrava, me sugeriu a leitura de dois volumes
dos Annales de Démographie Historique. O de 1978, sobre "A
Mortalidade do Passado" e o de 1983 sobre "Mães e recém-nasci-
dos". Alguns artigos desses ricos anuários referem-se à situação de
crianças abandonadas na França, na Itália, na Bélgica e na Inglater-
ra, durante o século XIX. E, para grande surpresa minha, as condi-
ções sanitárias e sociais apresentadas não diferiam muito das apon-
tadas por Roberto Machado e seus colaboradores (1978) no Brasil
do século XIX. Não que tenhamos quantidades comparáveis de nas-
cimentos e óbitos. Mas a alta mortalidade e o tratamento dos recém-
nascidos anteriormente à divulgação das descobertas em microbiolo-
gia feitas por Pasteur e à vulgarização da puericultura não diferem
tanto quanto seria de se supor da situação brasileira, a não ser, é cla-
ro, pelo agravamento através da escravidão.

Até mesmo as dificuldades metodológicas para conhecer a si-


tuação aparecem lá como cá. Existem afirmações de que antes de
1850 os registros de óbitos e de nascimentos eram pouco confiáveis.
A falta de clareza entre os dados sobre natimortos e semimortos e a
rarefação de informações tornam falhas todas as contagens. E cá
como lá, durante mais de três quartos do século XIX, as condições
sanitárias faziam com que homens de 30 anos fossem velhos e esti-
vessem alquebrados e decrépitos aos 40 ou 50. Além disso, como em
muitos casos as crianças eram mandadas para aleitam
ento em outras
cidades, a contagem dos mortos acabava sendo alterada. Assim, os
autores europeus verificaram também a necessidade de ultrapassar os
dados numéricos e tratar dos problemas demográficos em termos de
comportamento.

Algumas condições gerais de salubridade davam origem à alta


mortalidade que aqui é apontada na Roda de Expostos. De um lado,
a mobilidade da população de baixa ou nenhuma renda para locais
suJeitos a epidemias ou endemias, que quando se tratava de difteria
disenteria bacilar ou varíola afetava profundamente a população dos
recém-nascidos até 2 anos. Ligada a essas condições, havia a quali-
dade da água de abastecimento da população, às vezes proveniente
de poços rasos facilmente contamináveis e que se tornavam insalu-
bres durante o verão. As águas paradas nas vielas, ao redor das ca-
sas, eram aqui os focos de transmissores da febre amarela, que tantas
vítimas fez em toda a população antes das medidas saneadoras de
Oswaldo Cruz. Outra condição apontada nos estudos europeus dá
conta também da má nutrição das nutrizes, provocada por alimenta-
ção defeituosa e carência de recursos. Forneciam um aleitamento in-
suficiente, num período em que os rebanhos de vacas e cabras ainda
eram reduzidos e o leite animal precisava ser "cortado" com água
impura e conservado em recipientes improprios.

Não se deve também esquecer uma condição agravante, quase


universal. Além de exaustas e subalimentadas, as amas-de-leite do-
minavam as práticas populares de cuidados com crianças, desconhe-
cendo os princípios da puericultura que começaram a ser divulgados
no século XIX e tinham a maior dificuldade para adotar os preceitos
de assepsia no tratamento das crianças. As condições das amas-de-
leite particulares, alugadas ou escravas próprias eram, naturalmente,
diferentes. Dentro da escravaria doméstica tinham uma posição de
destaque, eram muito bem alimentadas e bem vestidas e ganhavam
uma ascendência comentada e lamentada sobre todos os habitantes
da casa- senhores e escravos.

A distinção entre as amas-de-leite não se fazia, portanto, ape-


nas segundo o proprietário, mas também de acordo com a criança
que receberia o leite - se era de família de posses ou um bastardo
enjeitado.

A introdução da mamadeira, na segunda metade do século


XIX, embora fosse um progresso importante na substituição do
aleitamento materno, com as dificuldades de assepsia já citadas
transformou-se num elemento a mais a contribuir para a mortalidade
infantil. Tanto quanto as enfermidades e o aleitamento de várias
crianças pela mesma ama-de-leite, a mamadeira matou muitas crian-
ças por disenteria.

A maioria dos textos dos viajantes que visitou a Roda de Ex-


postos faz referência à limpeza do local e dos berços. Dada a aglo-
meração de crianças e o ar pesado e quente que apontaram nos
quartos, é um pouco surpreendente a limpeza e elegancia descritas
pelos visitantes. Só compreendemos essa questão depois da leitura
dos trechos de Oliver Twist de Charles Dickens, que apresento para
encerrar este trabalho.

Acentuo agora a questão talvez mais abrangente da mortalida-


de dos recém-nascidos, apontada no Brasil como nos historiadores
europeus. Trata-se da aglomeração no que foi a instituição anterior
às atuais creches. A aglomeração urbana sempre provocou surtos
epidêmicos de maior ou menor gravidade. A aglomeração de recém-
nascidos e crianças nas mesmas salas, freqüentemente sem o areja-
mento adequado, propiciava o agravamento de todas as demais con-
dições de intensificação da mortalidade infantil.

Mas nem os relatos dos viajantes, nem os estudos demográficos


europeus conseguiram exprimir outro aspecto da instituição: a explo-
ração e a crueldade dos adultos, dos pequenos funcionários do Esta-
do, com essa infancia indefesa. Esse aspecto vem apresentado com
grande ironia por Charles Dickens, o celebrado escritor inglês em
seu romance de 1839, cujos primeiros capítulos se chamam:
I. CaraCterístiCas do lugar onde Oliver TWist nasceu e das cir-
cunstanciaS em que oCorreU o Seu nascimento e

II. Características da criação, crescimento e educação de Oli-


ver TwiSt.

Nasceu num asilo ao som das palavras de uma ama: "Quando


ela tiver vivido tanto quanto eu, senhor, com treze filhos todos
mortos, à exceção de dois, e estes no asilo, aqui comigo, então
ela saberá melhor o que fazer. (...) Trouxeram-na aqui a noite
passada. Encontraram-na caída na rua. Devia ter vindo de lon-
ge, porque os seus sapatos estavam em tiras. (...) A velha his-
tória, sem anel de casamento (...) A triste situação em que es-
tava, desprovido de leite materno, foi devidamente comunicada
pelas autoridades do asilo às autoridades do município. Essas
autoridades inquiriram, com arrogancia, das autoridades do
asilo se não havia uma mulher domiciliada na "casa". que es-
tivesse em condições de prestar a Oliver Twist a consolação e
o alimento de que ele carecia. As autoridades do asilo respon-
deram com humildade que não havia. Após o que, as autorida-
des municipais resolveram magnanima e humanamente que
Oliver Twist fosse internado numa "quinta" ou por outras
palavras, que fosse despachado para uma sucursal do asilo a
umas três milhas, onde outros vinte ou trinta transgressores ju-
venis das leis dos pobres rolavam pelo chão o dia inteiro, sem

o inconveniente de exigirem muito alimento ou muito vestuá-


rio, sob a superintendência maternal de uma mulher idosa, que
recebia os delinqüentes pelo donativo de sete pence e meio por
cabeça, semanalmente.
(...) no momento preciso em que uma criança havia conseguido
sobreviver com a menor porção possível do mais fraco ali-
mento, sucedia, perversamente, em oito casos e meio em dez
que, ou ela adoecia de fome ou de frio, ou caía no fogo por
negligência, ou ficava meio sufocada com um ataque.

(...) Além disso, o conselho fazia visitas periódicas, mandando


sempre o bedel um dia antes, para avisar que ia. As crianças
apresentavam-se bem arrumadas e limpas aos olhos, quando
eles iam. ???(que mais poderia desejar o mundo?

LIVROS E ARTIGOS CONSULTADOS

ACHARD, Amédée. "La nourrice sur place" in Les Français peints par eux-
meAmes. Paris, Fume et Cie., 1853 (resenha dos Annales de Démographie
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BIDEAU, A., BRUNET, G. et DESBOS, R. "Variations locales de la mor-


talité des enfants: I example de la Chatelanie de Saint-Trevière-en-
Dombes ( 1730-1869)" in Études sur la mortalité. La Mortalité du Passé.
Paris, Annales de Démographie Historique, 1978, 7-30.

BLUNDEN, Katherine. Le travail et la vertu (formes au foyer une mystifi-


cation de la Révolution Industrielle). Paris, Payot, 1982.

DICKENS, Charles. Oliver Twist (The Parish Bot's Progress); trad. de Anto-
nio Ruas. 2a ed. São Paulo, Melhoramentos, 1938.

DONZELOT, Jacques. A Polícia das famílias; trad. M. T. da C. Albuquer-


que, Rio de Janeiro, Graal, 1980.

DUMAZET, Ardouin "Au pays des nourrices" in Voyage en France...


Paris, Berger Levrault, 1893 (resenha dos Annales de Démographie
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FAUYE-CHAMOUX, Antoinette. "La femme devant l'allaitement" (sepa-


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FONSECA, Claudia "Valeur marchande: amour maternel et ???sur~ie: aspects


de la circulation des enfants dans un bidonville brésilien" inAnnales 5,
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FUJITA, Sonoko. "L'abandon d'enfants légitimes à Rennes à la fin du XVIII


siècle" inAnnalesdeDémographieHistorique 1983, 151-162.

GINSBURG, Carlo. Mitos - Emblemas - Sinais (Morfologia e história);


trad. de Frederico Garotti. São Paulo, Companhia das Letras, 1989.

GONÇALVES, Margareth de Almeida "Expostos, roda e mulheres: um es-


tudo sobre o abandono de crianças no Rio de Janeiro (séculos XVIII e
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MACHADO, Roberto etalii. Danação da Norma: a medicina social e cons-


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ou mode de developpement?" in Annales de Démographie Historique
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MONCORVO, Filho. História da Proteção à Infancia no Brasil ( 1500-1922).


Rio de Janeiro, Empresa Gráfica Editora, 1926, 33-45.

MESGRAVIS, Laima. A Santa Casa de Misericórdia de Sao Paulo


(1599-1884). São Paulo, Conselho Estadual de Cultura, 1976.

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VENANCIO Renato Pinto. Infancia sem destino: o abandono de crianças no


Rio de Janeiro, século XVIII; São Paulo, Mestrado em História Social
(USP), 1988.
INFANCIA OPERÁRIA E ACIDENTE DO
TRABALHO EM SÃO PAULO*

Esmeralda Blanco Bolsonaro de Moura

Marco de 1917. Em meio ao contexto de insatisfação generali-


zada que conduziria à greve de julho, o Centro Libertario de São
Paulo, de tendência anarquista, organiza o Comitê Popular de Agita-
ção contra a Exploração dos Menores nas Fábricas. Justificando a
iniciativa, o Comitê, em manifesto "Aos operários em geral", que o
jornal Farífulla publica, sob o sugestivo título de "Una Santa Cam-
pagna", expressa claramente a preocupação com os menores mortos,
feridos, mutilados em acidentes nos estabelecimentos industriais:

Como, humanamente, pode-se tolerar--indaga então--que


menores dos dois sexos sejam obrigados a trabalhar nas má-
quinas, consumindo seu débil organismo em pouco tempo e em
permanente perigo de vida, proveniente dos contínuos aciden-
tes do trabalho?

Semelhante preocupação não é, no entanto, pertinente apenas


ao limiar do século XX, momento no qual o conflito social tende a
se tornar mais agudo. A partir da fase de industrialização incipiente,
a presença de crianças e de adolescentes no trabalho das fábricas e
oficinas em São Paulo, predominantemente no setor têxtil, resulta

Título original do artigo: ???"Infância Operária e Adde nle do Trabalho


em São Paulo. A Máquina, um Brinquedo Perigoso".

em reações de caráter crítico à utilização e exploração dessa mão-de-


obra no trabalho industrial, veiculadas sobretudo através da impren-
sa. Essas reações são, com freqüência, emitidas por médicos e sani-
taristas e se acham fundamentadas principalmente na precariedade
das condições de trabalho - jornada excessiva, trabalho noturno,
falta de segurança no trabalho, insalubridade, baixa remuneração-
às quais essa mão-de-obra é submetida, fundamentando-se também
na idade muitas vezes insuficiente desses menores frente às funções
que exercem.

De fato, na tentativa de equilibrar o parco orçamento familiar,


a prole operária é, às vezes ainda em idade precoce - Bandeira Jú-
nior refere-se a "considerável (...) número de menores, a contar de 5
anos" ocupados "em serviços fabris" no ano de 19012 - conduzida
ao trabalho das fábricas e oficinas onde, ou recebe salários irrisórios
ou, na condição de aprendiz, não tem suas atividades sequer remu-
neradas. Critério de diferenciação da mão-de-obra, o fator idade in-
sere-se na dinamica capitalista, ampliando as perspectivas de lucro
para o empresariado, "visto que, dada a perfeição da maquinaria -
na argumentação do citado Comitê Popular- os pequenos e impro-
visados operários podem produzir tanto quanto os adultos, recom-
pensados, entretanto, com mísero salário".3

Permitindo ao empresariado concretizar uma das metas que


persegue com maior persistência, baixar os custos da produção, o
menor é inserido no mundo do trabalho. Assim, no processo de
acumulação de capital, o menor adquire uma dada função, à medida
que a mecanização torna possível absorver mão-de-obra em idade
ainda precoce - percorrendo, muitas vezes, as etapas iniciais do pro-
cesso de desenvolvimento físico- e, como é fácil prever, profissio-
nalmente inexperiente.

Nesse sentido, já na década de 1870, é possível surpreender a


criança e o adolescente no trabalho industrial em São Paulo, sobre-
tudo nos estabelecimentos têxteis e em pequenas oficinas, como po-
de ser deduzido, por exemplo, de anúncios publicados na imprensa,
solicitando mão-de-obra Essa solicitação tende a crescer durante to-
do o período estudado, sendo o menor requisitado para funções da
mais diversa natureza, conforme permitem concluir os jornais con-
sultados. Bem característico a respeito, o anúncio publicado no jor-
nal A Província de S. Paulo em agosto de 1875, sob o título "A-
prendizes":
112 . 113
Na rua de S. Bento n° 85 admitem-se meninos de 10 anos para
cima, para aprenderem o ofício de empalhador e envernizador
e marceneiro.4

Ou, o anúncio publicado no ???Farz~ulla, anos depois:

Bambini Occorrono per lavorare nella Fabbrica di Biscotti alla Alameda


Barão de Limeira num. 2s.5

É digno de nota que os termos utilizados nesses anúncios, as-


sim como a grande parte dos que permeiam as páginas de classifica-
dos no período, solicitando mão-de-obra menor, são enfatizadores da
inserção precoce desse trabalhador no mercado de trabalho. Expres-
sões como meninos, meninas, crianças e mesmo aprendiz ou aprendi-
zes, pressupõem, sem dúvida, a pouca idade desses trabalhadores.

Na década de 1890, a Repartição de Estatística e Arquivo do


Estado de São Paulo esclarece, em relatório, que os menores repre-
sentam, com relação ao conjunto de atividades consideradas - in-
dústrias do vestuário, de fósforos, de fumo, têxteis, alimentícias,
fundições e oficinas mecanicas, fábricas de móveis, além de serra-
rias, tipografias e olarias entre outros estabelecimentos, num total de
64 -, 15% do total da mão-de-obra empregada, representando, no
têxtil, cerca de 25% do total de mão-de-obra absorvida por esse se-
tor.6

Adentrando o século XX, o Departamento Estadual do Traba-


lho observa que, no ano de 1912, é bastante expressivo o aproveita-
mento de mão-de-obra menor na indústria têxtil do estado de São
Paulo.7 Nos estabelecimentos então visitados na capital - aproxima-
damente 22 -, os menores representam pouco mais de 30~o do total
de operários absorvidos pelo setor, sendo empregados sobretudo na
fiação e na tecelagem, funções nas quais constituem respectivamen-
te, 50% e 30% da mão-de-obra. Em 1919, o mesmo departamento
constata, ainda com relação a esse setor, que os menores correspon-
dem a cerca de 40% do total da mão-de-obra empregada nos 19 es-
tabelecimentos que visita. Com relação aos demais setores, a mão-
de-obra menor corresponde, nos 109 estabelecimentos que o depar-
tamento arrola em seu inquérito, a pouco mais de 15% do total de
trabalhadores empregados na Capital.8

Finalmente, no ano de 1920, a Diretoria Geral de Estatística


apura que a participação dos menores, quer no setor secundário co-
mo um todo - o que corresponde a 4145 estabelecimentos recensea-
dos -, quer nos 247 estabelecimentos pertencentes ao setor têxtil,
ultrapassa os 7% em todo o estado de São Paulo.9

Frente ao modo como se configura nesse contexto de final do


século XIX e princípios deste século, a utilização da criança e do
adolescente como força de trabalho no setor secundário em São
Paulo, muitos desses menores, presentes nos levantamentos que pro-
curam estimar a mão-de-obra empregada nesse setor, já não fariam
parte da população economicamente ativa em estatísticas futuras.
Sua trajetória, enquanto mão-de-obra encontra, muitas vezes, o li-
mite numa outra estatística: a de acidentes do trabalho.

INFANCIA OPERARIA E SEGURANÇA DO TRABALHO:


RELEGADAS QUESTÕES ESSENCIAIS

Na manhã de ontem, pouco depois das 7 horas deu-se um hor-


rivel desastre na fábrica de tecidos Pinotti & Gamba, no Cam-
buci, onde uma desventurada menina, ali empregada, teve um
braço despedaçado por uma máquina.10

Se a quantidade de trabalhadores acidentados nos estabeleci-


mentos industriais da capital é significativa no período em estudo,
essa alta incidência encontra no trabalhador menor um de seus mais
sistemáticos suportes. Assim, a iniciativa do Centro Libertário de
São Paulo permite perceber que a questão da infancia operária é,
juntamente com a questão da segurança do trabalho, prioritária junto
àqueles que se propõem a defesa dos interesses do trabalhador. A
partir do final do século passado, o trabalho do menor e o acidente
do trabalho constituem isoladamente pontos cruciais da questão so-
cial em São Paulo, que, quando associados, adquirem conotação
ainda mais ampla e mais profunda. Um fragmento do debate parla-
mentar em torno do assunto, já no final da década de 1910, ilustra
bem a forma como trabalho do menor e acidente do trabalho são
concebidos no nível do que seria prioritário no que diz respeito à
necessidade de regulamentação:
O Sr. Salles Junior:--que é que V. Ex. pensa sobre a regula-
mentação do trabalho dos menores?

O Sr. Nicanor Nascimento: Acho que aos acidentes do trabalho


deve seguir imediatamente a lei sobre o trabalho dos menores
nas fábricas.

O Sr. Salles Junior:--Estou em desacordo com V. Ex., enten-


do que os assuntos deviam ser tratados conjuntamente.

O Sr. Nicanor Nascimento:--A questão dos menores nas fábri-


cas tem de fato vários aspectos, que determinam o estudo ime-
diato da matéria. Em primeiro lugar, as fábricas devem produ-
zir sem destruir. Devemos procurar aquelas limitações que
permitam o máximo de rendimento do trabalho racional sem
inutilização das forças produtoras.11

Paralelamente, imprime-se, às conseqüências do acidente do


trabalho no que diz respeito ao trabalhador menor - "reserva dos
homens do Brasil", na expressão do deputado Nicanor Nascimen-
to12 -, intensidade maior, porque a projeção futura dos freqüentes
acidentes nas fábricas e oficinas faz prever uma parcela significativa
da população adulta com capacidade de trabalho total ou parcial-
mente comprometida. Isso, num contexto em que o fenômeno, frente
à inexistência, até 1919, de regulamentação específica, surge como
sendo quase de responsabilidade pessoal do trabalhador, que nor-
malmente arca, quando acidentado, com todas as conseqüências que
o acidente possa acarretar.

Por outro lado se, no ambito do Distrito Federal, o Governo


Provisório da República, num momento de "clarividência", confor-
me acentua o Departamento Estadual do Trabalho em 191313, procu-
rando "impedir que, com prejuízo próprio e da prosperidade futura
da pátria, sejam sacrificadas milhares de crianças", estabelece em
janeiro de 1891 medidas que visam regularizar "o trabalho e as con-
dições dos menores empregados em avultado número de fábricas
existentes na Capital Federal"14, em São Paulo, a regulamentação
do trabalho do menor está diluída no conteúdo de uma legislação de
caráter mais amplo, os Códigos Sanitários do Estado, e consta de
medidas restritas.
São fixados limites para a jornada de trabalho e para a idade de
admissão do menor ao trabalho das fábricas e oficinas, havendo
certa preocupação com a saúde e a segurança desse trabalhador. Em
1911, por exemplo, o Decreto Estadual n° 2141- procurando rela-

cionar a idade de admissão do menor ao trabalho industrial à nature-


za da fünção a ser exercida - estabelece precariamente em seu artigo
173 que não seriam "admitidos como operários os menores de dez
anos, podendo os de dez a doze anos executar serviços leves".15 Em
1917, a Lei Estadual n° 1596 - regulamentada no ano seguinte pelo
Decreto Estadual n° 2918 - estabelece nos três primeiros parágrafos
de seu artigo 94, medidas que procuram impedir o trabalho dos me-
nores em "indústrias perigosas ou insalubres", bem como em ativi-
dades que "produzam fadiga demasiada", proibindo-os de "Lidar
com maquinismos perigosos, executar serviços que ofereçam riscos
de acidentes, ou qualquer trabalho que demande da parte deles co-
nhecimento e atenção especiais".16

O confronto entre a legislação estadual em vigor a partir do fi-


nal do século passado e as reais condições de trabalho do menor em
São Paulo revelam, no entanto, "uma fiscalização senão inoperante,
pelo menos ineficaz".17 "Na fábrica de escovas da rua Dr. Clemen-
tino - noticia O Estado de S. Paulo em outubro de 1913 - o menino
Luiz, de 10 anos, (...), apesar de sua idade não lhe permitir a perma-
nência nos serviços daquela oficina, ali trabalhava às 10 e meia da
manhã. Em conseqüência desse abuso - prossegue o jornal - e da
inexperiência do pequeno operário, foi ele vítima de um acidente,
tendo a mão esquerda apanhada pela engrenagem de uma máquina,
sofrendo o decepamento da extremidade do dedo anular da mão es-
querda".18 Em 1916, O Combate, por ocasião de um acidente ocor-
rido com um menor na cervejaria Germania, critica a falta de fiscali-
zação das fábricas e oficinas em São Paulo. "O Serviço Sanitário-
denuncia - que ora tem uma multidão de inspetores, uns em comis-
são, outros "encostados" e todos para nada fazerem, devia estender
suas atribuições aos estabelecimentos fabris, onde são empregados
milhares de empregados de tenra idade, que as necessidades da vida
expõem a acidentes desta origem". E conclui:

Infelizmente isto não se dá e os jornais são obrigados a regis-


trar, quase que diariamente, desastres desta natureza, sem que
os responsáveis diretos sejam punidos como determina o regu-
lamento sanitário.19

Embora para o final do século XIX não tenham sido encontra-


das estatísticas visando estimar a incidência de acidentes do traba-
lho no setor secundário, para a década de 1910 os levantamentos
efetuados pelo Departamento Estadual do Trabalho permitem obser-
var que no período de 1912 a 1919, os trabalhadores inseridos na
faixa etária compreendida entre os 10 e os 20 anos são os que mais
se acidentam, sendo representativos de mais de 40% do total de ope-
rários então acidentados. Além disso, ainda que a organização dos
dados fornecidos por esse departamento não obedecia a critérios
muito precisos, é possível inferir que a quantidade mais expressiva
de menores acidentados no trabalho situa-se justamente entre os 10 e
os 16 anos, período que corresponde ao final da terceira infancia e
ao ingresso pleno na adolescência. Paralelamente, esses dados ten-
dem a se tornar ainda mais expressivos se forem considerados quer
os menores acidentados que o departamento classifica de acordo
com a profissão que exercem (e não como operários--ainda que o
acidente tenha ocorrido em fábricas e oficinas, o que corresponderia
a um acréscimo de aproximadamente 11000 ao total de operários
menores vitimados em acidentes do trabalho); quer os aprendizes -
conforme são arrolados com freqüência esses trabalhadores.20

A provável inexistência de uma estatística sistemática de aci-


dentes do trabalho anterior à década de 1910 - conforme nos faz
presumir a busca até o momento frustrada desses dados - não está,
no entanto, relacionada a uma incidência inexpressiva do fenômeno.
Relacionado ao ritmo de crescimento da indústria, bem como ao au-
mento do emprego operário, o acidente do trabalho está também re-
lacionado à não observancia dos "dispositivos que, embora de forma
ainda pouco incisiva, já se acham voltados para a regulamentação de
alguns aspectos relativos à segurança do trabalho"21, bem como às
condições materiais de vida e de trabalho do operariado, condições
essas que pouco ou nada se alteram no decorrer da última década do
século passado e das duas décadas iniciais deste século, permane-
cendo altamente insatisfatórias. Por outras palavras, sem ser inerente
ao capitalismo, a incidência de acidentes do trabalho relaciona-se à
forma como o modo de produção capitalista tende, então, a se repro-
duzir. Assim, no final do século passado, o acidente do trabalho já
faz parte da rotina nos estabelecimentos industriais, situação que se
mantém durante as primeiras décadas deste século. De fato, o noti-
ciário diário da capital permite concluir que iá nos primeiros anos do
século e os menores estão plenamente incorporados ao processo
produtivo e são vítimas freqüentes de acidentes do trabalho nos es-
tabelecimentos industriais, inclusive em oficinas de pequeno porte,
acidentes cuja gravidade a morte do pequeno operário ou o feri-
mento irremediável permitem constatar de imediato.

A gravidade das lesões sofridas por menores em acidentes no


local de trabalho pode ser constatada no quadro da pagina seguinte -
apenas uma pequena amostragem- no qual são identificados um
acidente ocorrido durante o trabalho noturno e outro num domingo.

A CRIANÇA NO LOCAL DE TRABALHO:


A MÁQUINA, UM BRINQUEDO PERIGOSO

"Ora, por menos trabalhoso que seja lidar com certas máquinas,
por menos esforço muscular que isso exija de uma criança, nunca é
prudente e nunca se justificará (.. .) dar semelhante encargo a wn
operariozinho, cuja inexperiência é mais que de presumir e cuja
imprudência é mais do que natural."22

Esses dados permitem inferir como se reproduz, na dinamica


dos estabelecimentos industriais em São Paulo, o aproveitamento da
mão-de-obra menor e a própria inutilização de sua capacidade de
trabalho. Diretamente relacionada à pobreza da família operária, cor-
respondendo plenamente aos interesses do empresariado porque
permite acentuar ainda mais a exploração da mão-de-obra, o trabalho
do menor generaliza-se a partir do final do século passado em meio
a condições de trabalho realmente deploráveis.23 Ao menor- crian-
ça ou adolescente - são atribuídas as mais diversas funções, inde-
pendentemente do perigo muitas vezes inerente destas ou da idade
insuficiente daquele e de sua inexperiência profissional, sem que
sejam, no geral, observadas as condições mínimas de segurança
Exemplificando, a limpeza das máquinas, função em grande parte
atribuída ao menor é, com muita freqüência, executada sem que se
interrompa a produção, aumentando sobremaneira a ocorrência de
acidentes. Além disso, é possível constatar, sobretudo através do
noticiário da imprensa, que grande parte dos trabalhadores menores
são acidentados em correias, serras circulares, plainas e tornos
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elwouo!sy eu Tedwelsa enap 'oquTzaluaop a oa!lmbeT 'oLI~Tado
ou!uaw o 'm1 a Te sa~1-el~ 'seso~LTad ap sepe~l~!sse1a seu a saTq
-nlesu! seL~s,npuT seu sopednão oes 'apep!naslwoTd 1aA,elsalap s!ew
eu maA!A !le sequeua s~" :an~assold a ·~oLT~Iado Op ap,nes e eTed
souaw eq1o as opnl eled '~a1qeTp el e~, são~eldepe no são~e~elsu! seu
'sew 'euls,npu! elanbe no elsa eled sopel!are solTa!pTed soq1aA oes
~~1161 wa ele~ olepoaa 1eluawe1led o ele1al - são~a~xa sewTssmb
-nod woa 'sea.LTq,e~ sessou sep so!a,y!pa so" oqleqe~ op aluap!~e
op le!aualod wa ewT.llA ewnu o1-,euLTo~suell e wapual leuo!ssyoTd
e!auvaLTadxau! ens a louaw op apep! e~nod e '- alua!al~nsul o~edsa
wa soLI~Tado a seu!nb,ew opue1nwn~e 'sepes!AoTdw! ~Ta~° ou são~
-e~su! woa - openbapeu! OleT oeu oqleqe~ ap olsod wn e Sz'~oe~
-aloTd ap soq1aTede ap elnlosqe asenb e!~lTavsne,, e~ sepewoS

t,z epTa~ ap o!a,LTney;[ opel


-ndap op oem!do eu ~opeLTeTado op epeTo1dxa s!ew a!a,adsa e" 'saz
-!pualde ap apep!lenb eu sazaA sel!nw wuessald°u! s!enb seu 'onau
-a~Tew 'lopeTuapeaua 'onaledes 'o~e~°,od!l ap são~un~ se opua~laxa
'sopeluap!~e aluaweue!p 'saTouaw 'euls,npu! euanbad eu 'oeS ·ap
-epuqnlesu! ap no/a apep!so1naLTad ap ne~° olle waAIoAua s!enb sep
semr~°le 'eSTaA!p eza~eu ap são~un~ Opua~TaXa 'soue 01 ap souaw
ap sun~°le 'epeLIeA apep! wa saTouaw oeS ·seso~°uad aluawlelnal~Ted
owo~ ~sazaA sel!nw 'sep!l seumb,ew wa 'wI~ua 'soTpu!1!a ~soa!ueV~aw

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O ~.

_a~~a~aaa~~a
Dessa forma, "o número cada vez maior de famílias que em-
pregam nas fábricas os filhos menores"28 serve, ao departamento
nesse mesmo ano, para justificar, paralelamente à ausência de preo-
cupação com a proteção do trabalhador em geral, o aumento real dos
acidentes do trabalho verificados a partir do ano anterior. A alta in-
cidência do fenômeno entre os trabalhadores empregados no setor
têxtil, que o departamento constata no decorrer do período de 1913 a
1919, esta relacionada, sem dúvida, ao alto índice de absorção de
mão-de-obra menor por esse setor.
Em 1910, Tavares Bastos estabelece uma estreita relação entre
prevenção do acidente do trabalho e proteção ao trabalhador menor,
fundamentando essa relação com a classificação dos operários de
idade inferior a 15 anos entre as principais vítimas de acidentes,
motivados, estes, "quase sempre, pela imprudência ou temeridade,
qualidades inseparáveis do menino".29 Dois anos depois, o Depar-
tamento Estadual do Trabalho, praticamente inaugurando a estatísti-
ca de acidentes do trabalho que passa a publicar trimestralmente em
seus boletins, argumenta que muitos desses acidentes têm origem na
"imprudência com que se incumbem de serviços não raro perigosos,
os menores incapazes de se conduzirem com o devido cuidado".30

Essas afirmações revertem para a questão da incapacidade do


menor, socialmente concebido como irresponsável, incapacidade que
é institucional, permeando a Constituição de 1891 e a legislação que
lhe é subseqüente e que visa à organização da familia. Revertem,
também, para uma dada imagem da própria infancia, onde fraqueza e
fragilidade são vistas como atributos próprios das crianças, que
contrastam, conforme acentua o deputado Augusto de Lima em ses-
são da Camara Federal no ano de 1918, "com os encargos que sobre
elas pesam nas fábricas".31

Essa imagem, a partir da qual imprudência e incapacidade são


vistas como qualidades inerentes ao comportamento e à condição do
menor, tende a se acentuar no contexto da discussão sobre o aci-
dente do trabalho. Apesar das críticas contundentes ao Serviço Sa-
nitário do Estado, pela fiscalização deficiente das fábricas e oficinas
e ao empresariado pela não adoção de medidas de segurança, há
momentos em que o menor claramente aparece como imprudente. A
notícia a seguir transcrita, publicada no jornal O Combate- jornal
que é regularmente um dos críticos mais incisivos à exploração da

122

mão-de-obra menor nos estabelecimentos industriais em São Paulo -


é, nesse sentido, característica:

A notícia publicada pelos jornais de um desastre ocorrido no


dia 31 de maio na fábrica de doces, estabelecida à Alameda
Barão de Limeira n° 25, levou-nos a fazer uma sindicancia
conscienciosa sobre esse infeliz acontecimento no próprio lu-
gar do desastre.

Iniciamos a nossa sindicancia pedindo aos proprietários do es-


tabelecimento que mandassem acionar a máquina onde foi ví-
tima a desditosa criança e, pelo que vimos, num exame deta-
lhado, chegamos à conclusão de que só uma imprudência da
pobre criança podia ter dado ensejo à dolorosa desgraça noti-
ciada há dias.32
Se, por um lado, na emergência do acidente, o trabalhador-
adulto ou menor - tem, de certa forma, recuperada a sua tão "rele-
gada condição de ser humano",33 no caso específico do menor aci-
dentado, o evento faz aflorar um dado sentimento da infancia e da
adolescência que, de certa forma se diluíra com a inserção desse
segmento no mundo do trabalho. A discussão em torno do acidente
do trabalho, quando a vítima é menor, tende mais do que nunca a
situar-se no ambito do momento que precede o acidente e que confi-
gura mais especificamente, o ato inseguro do trabalhador. Nesse ca-
so, a ênfase recai inevitavelmente sobre a brincadeira no local de
trabalho, eleita como sendo o ato inseguro que com maior freqüência
expõe a vida e a saúde do trabalhador menor. São, de fato, constan-
tes as observações sobre brincadeiras de ou entre menores nos locais
de trabalho, bem como sobre o descuido, a distração, motivando,
muitas vezes, represálias, castigos e agressões por parte quer de
mestres e contramestres, quer dos demais operários. "Nas oficinas
de Graig & Martins, à alameda dos Andradas - noticia O Estado de
S. Paulo em janeiro de 1907 - houve ontem uma desinteligência en-
tre o aprendiz Antonio Garcia e o ajustador de nome Arthur, devido
a um descuido do menor, que dava pouca atenção ao serviço que fa-
zia, auxiliando o ajustador. Irritado com o procedimento do apren-
diz, o ajustador deu-lhe violento empurrão fazendo-o ir de encontro
a um aparelho e sofrer uma contusão (leve) na testa".34

Esse é um exemplo isolado dentre os muitos que relatam os


deslizes dos menores no decorrer do processo de produção, uma

1 23
certa tendência a fazer do local de trabalho um espaço de diversão.
Apesar da ênfase na chamada irresponsabilidade natural da criança e
do adolescente como fator que expõe sua vida e sua capacidade de
trabalho no processo de produção, não há como omitir que o traba-
lhador menor já está exposto ao perigo no momento em que ultra-
passa o limiar da fábrica e se defronta com uma máquina que, pela
falta de experiência profissional não conhece ou não sabe como ope-
rar corretamente e com uma função para a qual não foi adequada-
mente preparado ou não tem idade suficiente para desempenhar.

Philippe Ariès observa que "O sentimento da particularidade


da infancia, de sua diferença com relação ao mundo dos adultos,
começou pelo sentimento mais elementar de sua fraqueza",35 um
sentimento que, como vimos anteriormente, não está ausente de nos-
sa realidade social. Se fraqueza e fragilidade tendem a ser destaca-
dos na criança, como componentes de sua natureza, o lúdico - que
igualmente a compõe - tende a ir de encontro com a responsabilida-
de, a competência, o compromisso que são exigidos na situação de
trabalho. À mercê dos interesses do empresariado, a criança operária
transforma-se num trabalhador como outro qualquer, cuja natureza,
quando vem à tona, como por exemplo, ao transgredir a disciplina
da fábrica, é penalizada com repreensões que atingem, muitas vezes,
os limites do castigo corporal.

A verdadeira prevenção dos acidentes do trabalho no caso do


menor não estaria então, em reconhecer e respeitar suas característi-
cas enquanto criança ou adolescente, condição que precede a condi-
ção de produtor e que fatalmente com ela interfere? A única passa-
gem em que essas características parecem ter sido levadas em conta
pelo empresariado está contida em informação datada do ano de
1912, quando o Departamento Estadual do Trabalho observa que na
fábrica de tecidos "Mariangela" - do grupo Matarazzo - para os
menores, as máquinas são "de tamanho reduzido".36 No entanto,
frente ao conjunto das condições de trabalho a que a mão-de-obra
menor é submetida - o conjunto que em nada difere daquele a que
são submetidos os adultos - essa informação aponta muito mais para
um verdadeiro requinte na exploração desse trabalhador.

Argumentando com Júlio Manuel Pires: "A vivência concreta


da infancia" está "condicionada pelo papel reservado à classe social
em que a criança está hereditariamente inserida".37 Assim, a brinca-

124

deira, natural não só na criança mas, também no adolescente, sem


dúvida um ato inseguro na situação de trabalho, assume, frente à
prole operária absorvida pelo processo de produção, proporções de
ato condenável. Ainda que tenha pouca idade, o menor operário é
incumbido de funções que dele exigem uma responsabilidade e uma
capacidade que a própria organização da sociedade presume que ele
não tem. Espera-se, portanto, do menor operário um comportamento
compatível com sua condição de produtor, condição na qual confun-
de-se plenamente com o adulto. No mundo do trabalho, as atitudes
naturais da infancia e da adolescência transforman-se em compor-
tamento dissonante. E, embora institucionalmente irresponsável, o
menor é, na prática, investido de responsabilidade frente ao processo
de produção e, conseqüentemente, frente ao ato inseguro que o leva
a acidentar-se no trabalho.

Essa contradição resulta, muitas vezes, numa imagem desabo-


nadora do trabalho do menor que, em contrapartida, evoca para o
empresariado uma dada atitude paternalista, por admitir nos quadros
de sua empresa, um tipo de mão-de-obra que, em última instancia,
perturba o ambiente de trabalho e compromete a produtividade, tor-
nando mais freqüentes os acidentes do trabalho. Há, de fato, na épo-
ca, uma tendência a conferir ao trabalho do menor um certo conteú-
do filantrópico, considerando-o quer como instrumento de profissio-
nalização, quer como efetivo controle da vadiagem, da mendicancia,
enfim, da marginalidade social e, ainda, como fator de equilíbrio do
orçamento doméstico da família operária.38
Parte desse discurso desmorona, no entanto, quando, na emer-
gência de um acidente do trabalho, a vítima é uma criança. "O caso
presente - denuncia O Combate em 1916 -, [de um trabalhador
atingido por um cilindro numa oficina] (...), deve merecer a atenção
do Sr. Guilherme Álvaro [diretor do Serviço Sanitário do Estado],
pois além de ser o desastre causado pela incúria dos donos da ofici-
na, a vítima é um menor de 7 anos".39

Na eventualidade do acidente, frente ao pequeno operário Inu-


tilizado no e para o trabalho, frente à vida truncada nos movimentos
de uma engrenagem qualquer, dilui-se muitas vezes, a imagem de
trabalhador, de produtor, construída em torno do menor a partir de
sua inserção no mercado de trabalho. É sobretudo nesse momento
que o pequeno operário emerge do mundo do trabalho como criança

125
ou adolescente. Apesar disso, a integridade do trabalhador, ainda
que, uma criança, sua vida, tendem a ter sua importancia diluída
frente ao processo de consolidação dos interesses do capital. Afinal,
visualizado como mero apêndice da máquina que opera, o trabalha-
dor- adulto ou menor-, acaba, no processo de produção, por ser
despojado de sua condição humana.

Nesse sentido, não há como conceber os discursos e as ima-


gens construídos pelo empresariado da época, em torno do trabalho
do menor, discursos e imagens que procuram suavizar a realidade
das fábricas e oficinas, senão como estratégias no sentido de preser-
var os próprios interesses.

Em 1917, comentando o projeto de Código do Trabalho em


entrevista concedida ao Jornal do Commercio do Rio de Janeiro, o
industrial Jorge Street elabora em torno da "saída dos pequenos ope-
rários das fábricas que dirige, no seu entender, extensiva à maior
parte dos estabelecimentos industriais da Capital",40 uma imagem lí-
rica: "É uma verdadeira revoada alegre e gritante que sai à frente
dos maiores, correndo e brincando".41

Ainda que o brilho literário da frase de Street se anuvie frente


à criança e ao adolescente morto ou inutilizado no trabalho, a afir-
mação - sem dúvida, uma frase de efeito-, adquire sentido quando
nos faz pensar na sensação que o pequeno operário experimenta fora
da opressão dos muros da fábrica, diante do reencontro com a pró-
pria infancia, com a própria adolescência.

NOTAS

1. Fanfulla, 17 de março de 1917, p. 4.

2. BANDEIRA JÚNIOR, Antônio Francisco - A Indústria no Estado de São


Paulo em 1901. São Paulo, Tipografia do Diário Oficial, 1901, p. 13
3. Fanfulla, 7 de abril de 1917, p. 4.

4. A Província de S. Paulo, 24 de agosto de 1875, p. 3.


5. Fanfulla, 23 de fevereiro de 1917, p. 6.

6. Relatório apresentado ao Dr. Alfredo Pujol, Secretário dos Negócios do


Interior do Estado de São Paulo, pelo Diretor da Repartição de Estatística
e Arquivo do Estado de São Paulo, Dr. Antônio de Toledo Piza. São Pau-
lo, Cia. Industrial de S. Paulo, 1896

7. "Condições do trabalho na indústria têxtil do Estado de São Paulo". Bole-


tim do Departamento Estadual do Trabalho, Ano I, n°s 1 e 2, 4° trimestre

8. "Inquérito às condições do trabalho em S. Paulo". Boletim do Departa-


mento Estadual do Trabalho, Ano VIII, n°s 31 e 32, 2° e 3° trimestres de
1919.

9. Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio. Diretoria Geral de Es-


tatística. Recenseamento do Brasil realizado em 1° de setembro de 1920,
V (2ª parte), SALÁRIOS. Rio de Janeiro, Tipografia da Estatística,
1928.

10. Estado de S. Paulo, 15 de maio de 1913, p. 6.

11. Documentos Parlamentares. Legislação Social, v. 1. Rio de Janeiro, Ti-


pografia do Jornal do Commercio, 1919, p. 347.

1 2. Idem.

13. "Um Decreto do Governo Provisório acerca dos Menores nas Fábricas".
Boletim do Departamento Estadual do Trabalho, Ano II, n° 6,1° trimes-
tre de 1913, p. 35.

14. Decreto Federal n° 1313 de 17 de janeiro de 1891. Decretos do Governo


Provisório da República dos Estados Unidos do Brasil. Rio de Janeiro,
Imprensa Nacional. 1891.

15. Decreto Estadual n° 2142 de 14 de novembro de 191 1. Coleção das Leis


e Decretos do Estado de São Paulo de 1911, tomo XXI. São Paulo, Tipo-
grafia do Diário Oficial, 1912.

16. Lei Estadual n° 1596 de 29 de dezembro de 1917. Coleção das Leis e De-
cretos do Estado de São Paulo de 1917, tomo XXVI. São Paulo, Tipo-
grafia do Diário Oficial, 1918.

17. Moura Esmeralda Blanco B. de - Mulheres e Menores no Trabalho In-


dustrial: os fatores sexo e idade na dinamica do capital. Petrópolis,
Vo- zes, 1982, p. 68.

18. O Estado de S. Paulo, 4 de outubro de 1913, p. 4.


19. O Combate, 10 de março de 1916, p. 4.

20. Boletins do Departamento Estadual do Trabalho, 1912/1920. São Paulo.

21. Moura Esmeralda Blanco B. de - O Acidente do Trabalho em São Paulo


(1890-1919). Tese apresentada ao Departamento de História da Faculda-
de de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, para obtenção do
título de Doutor em Ciências (História). São Paulo, 1984.

22. "Os acidentes no trabalho durante o primeiro trimestre de 1913, no mu-


nicípio da Capital". Boletim do Departamento Estadual do Trabalho, Ano
II, n° 6,1° trimestre de 1913, p. 139.

23. V. Moura, Esmeralda Blanco B. de - Mulheres e Menores no Trabalho


Industrial, cit.

24. Documentos Parlamentares. Legislação Social, v. 2. Rio de Janeiro, Ti-


pografia do Jornal do Comércio, 1919, p. 866.

25. "Os acidentes no trabalho, durante o primeiro trimestre de 1913, no mu-


nicípio da Capital", op. cit., p. 133/134.

26. Maia, Deodato - Regulamentação do Trabalho. Rio de Janeiro, Livraria


Editora J. Silva, 1912, p. 6.

27. "Os acidentes no trabalho durante o primeiro trimestre de 1913, no mu-


nicípio da Capital", op. cit., p. 139.

28. Idem, p. 133/ 134.

29. Bastos, José Tavares - Legislação Operária sobre Acidentes Mecanicos e


Proteção à Infancia Operária; estudo necessário dessas teses no Brasil.
Rio de Janeiro, Garnier, 1910, p. 5.

30. "Acidentes no trabalho no município da Capital". Boletim do Departa-


mento Estadual do Trabalho, Ano I, nº 3, 2º trimestre de 1912, p. 286.

31. Documentos Parlamentares. Legislação Social, v. 1, op. cit., p. 533

32. O Combate, 7 de junho de 1917, p. 3.

33. Moura, Esmeralda Blanco B. de - O Acidente do Trabalho em São Paulo


(1890-1919), op. cit., p. 184.

34. O Estado de S. Paulo, 13 de janeiro de 1907, p. 3/4.

35. Ariès, Philippe - História Social da Criança e da Família. Tradução:


Dora Flaksman, 2ª ed., Rio de Janeiro, Guanabara, 1986, p. 181
36. "Condições do trabalho na indústria têxtil do Estado de São Paulo", cit.
p. 45.

37. Pires, Júlio Manuel - Trabalho Infantil: a Necessidade e a Persistência.


Dissertação apresentada à Faculdade de Economia e Administração da
Universidade de São Paulo, para a obtenção do título de Mestre em Eco-
nomia. São Paulo, 1988, p. 12.

38. V. Moura, Esmeralda Blanco B. - Mulheres e Menores no Trabalho In-


dustrial, op. cit.

39. O Combate, 3 de fevereiro de 1916, p. 4.

40. Moura, Esmeralda Blanco B. de - Mulheres e Menores no Trabalho In-


dustrial, op. cit., p. 140.

41. O Estado de S. Paulo, 19 de setembro de 1917, p. 9. Transcrito do Jornal


do Commercio do Rio de Janeiro de 10 do mesmo mês.
A ORIGEM DO CONCEITO MENOR*

Fernando Torres Londono

APRESENTAÇÃO

Ao fazer um levantamento bibliográfico no acervo da Faculda-


de de Direito da Universidade de São Paulo sobre o termo "crian-
ça", uma das questões que chamou a nossa atenção foi o fato de que
a partir do fim do século XIX e começo do XX a palavra menor apa-
recia freqüentemente no vocabulario jurídico brasileiro. Antes dessa
época o uso da palavra não era tão comum e tinha significado res-
trito. A partir de 1920 até hoje em dia a palavra passou a referir e
indicar a criança em relação à situação de abandono e marginalida-
de, além de definir sua condição civil e jurídica e os direitos que lhe
correspondem.

Nasceu ali o interesse de localizar a origem jurídica da expres-


são no Brasil, durante a transição do Império para a Primeira Repú-
blica. Acreditávamos que o surgimento de um novo termo na no-
menclatura jurídica estivesse relacionado ao surgimento de uma no-
va atitude perante a criança em geral e a criança marginalizada em
particular.

Resolvemos fazer um recorte na primeira fase da pesqui-


sa e nos limitamos a levantar o contexto em que aparece a pala-

* Título original: "A origem do Conceito menor no Começo do Século".


vra menor em livros, artigos, conferências, pareceres, relatórios,
projetos que tratam do Menor, a maioria dos quais já registrada no
banco de dados CEDHAL,Criança.
Apresentamos a seguir o percurso da palavra menor e os signi-
ficados que lhe foram sendo atribuídos até se chegar nos anos 20 à
formulação da "Questão do Menor" que levou ao Código de Meno-
res de 1927.

A QUESTÃO DA IDADE

Até o século XIX, a palavra menor como sinônimo de criança,


adolescente ou jovem, era usada para assinalar os limites etários,
que impediam as pessoas de ter direito à emancipação paterna ou as-
sumir responsabilidades civis ou canônicas.

Nesse sentido, no período colonial, a palavra menor aparece


em alguns documentos associada quase sempre à palavra idade. As-
sim, nas Ordenaçoes do Reino a respeito do casamento fala-se de
"orphao ou menor de 25 anos".1 O vínculo destes dois últimos era
feito em relação à sua não-emancipação a não ser "filho de família"
como ficou claro em uma lei de 1784 a propósito dos esponsais onde
se estabelece que "os filhos familias e os menores não poderão con-
traer matrimônio até a idade de 25 annos".2

Depois da proclamação da Independência, os termos menor e


menoridade foram utilizados pelos juristas na determinação da idade,
como um dos critérios que definiam a responsabilidade penal do in-
divíduo pelos seus atos. O Código Criminal do Império de 1830
através de seus artigos definiu, de fato, três períodos de idade antes
dos 21 anos, com respeito à responsabilidade penal e às penas. Pri-
meiro, os menores de 14 anos não têm responsabilidade penal, o que
só terá validade para os escravos a partir de 1885.3 Segundo, os
maiores de 14 e menores de 17 anos que "podera o juiz parecen-
do-lhe justo, impôr-lhe as penas de cumplicidade".4 Terceiro, o li-
mite de 21 anos para a imposição de penas drásticas como as galés
que será estendida também aos maiores de sessenta.

Contudo, estabelecendo-se que os menores de 14 anos atuavam


com discernimento, o código admitia que fossem recolhidos a casas
de correção a critério do juiz, até os 17 anos. Isso permitiria que os
menores de 17 anos fossem condenados, sendo a prisão comum o
destino destas crianças, já que só no fim do século surgem as casas
de correção para menores.6

Esses critérios supunham, pois, uma grande disparidade com


respeito à idade civil, que estabelecia a maioridade a partir dos 21.
Assim, a pessoa ficava submetida ao pátrio poder até os 21 anos,
enquanto sua responsabilidade penal podia começar aos 7 ou 9 anos,
dependendo do juiz. Na prática, a serem essas as idades passavam a
marcar a entrada na vida adulta.7

A partir dessa discrepancia de critérios, o discernimento e a


suposta noção da diferença entre o bem e o mal atribuída às crian-
ças, as transformava, em determinados momentos, em adultos, po-
dendo responder ante a justiça ou assumir responsabilidades, como
no caso da incorporação ao Exército e à Armada.8

No plano civil, a pessoa ficava sob o pátrio poder até os


21 anos. No caso da ausência do pai, esta era confiada, pelo tradi-
cional juízo dos órfãos, a um tutor que cuidava dela e da administra-
ção de seus bens, caso os houvesse.

Assim, mais do que o menor existia o filho de família e o ór-


fão. Este, em caso de abandono, dependia do juiz dos órfãos, fican-
do normalmente aos cuidados das Santas Casas ou de particulares.
Aquelas, por sua vez, encaminhavam os abandonados, ao chegar aos
7 anos, ao Arsenal da Marinha, ao Exército, aos Seminários ou a
Ordens religiosas no caso das meninas.9 Na segunda metade do sé-
culo XIX foi comum a entrega dos órfãos abandonados a familiares
ou a outras pessoas sob o regime que foi conhecido como soldada.10

A República trouxe uma série de alterações na administração e


na composição da justiça, entre elas o esvaziamento do juízo dos ór-
fãos, repartindo-se suas funções entre os juízes singulares. No dis-
trito federal, os pretores juízes da Camara Civil, do Tribunal Cível e
Criminal e do Conselho do mesmo tribunal, assumiram os antigos
encargos das varas dos órfãos e procuradoria.11 No entanto, num
relatório do chefe da polícia do Rio de Janeiro de 1907, ainda apa-
recem a primeira e segunda varas de órfãos, remetendo ou retirando
menores da escola correcional 15 de Novembro.12

O novo Código Penal de 1890 também não contribuiu muito


para melhorar a situação da criança com respeito a sua responsabili-
dade penal. Estabeleceu em 9 anos o limite mínimo da imputabilida-
de do agente do crime. O menor de 14 anos só devia ser punido
quando obrava com discernimento, o que deveria ser perguntado
pelo JUiZ ao jiúri: "o réu obrou com discernimento?"13 - devendo os
maiores de 9 e menores de 14 ficar submetidos a um regime educati-
vo e disciplinar.

A crítica de tais critérios etários foi feita pelo eminente jurista


Tobias Barreto na sua obra clássica Menores e loucos, para quem
o limite de 14 anos, estabelecido pelo Código de 1890, era fruto de
uma má intelecção do Direito romano. Este fixava a puerícia até a
idade de 7 anos, estabelecendo, dessa idade até os 14, duas catego-
rias: as infantice proximi e os pubertate proximi. Mais do que a pró-
pria idade, é a consciência do dever, a consciência do ato que se
executa, a que define se a criança tem condição de responder ante o
JUiZ pela sua conduta. No entender de Tobias Barreto, essa cons-
ciência dependia, em grande parte, do nível de instrução que a
criança tivesse. Comparando assim as idades legais da Itália e do
Brasil, achava que a justiça italiana "tem mais direito de exigir de
um maior de nove anos uma certa consciência do dever, que o faça
recuar do crime, do que o Brasil, com o seu péssimo sistema de en-
sino pode exigi-la de qualquer maior de quatorze" 14

A fé na instrução, na relação direta entre conhecimento e res-


ponsabilidade, leva Tobias Barreto a colocar a instrução como o
criterio que define a responsabilidade penal. Para o jurista o proble-
ma no Brasil não é pois a idade, mas falta de instrução, fato que no
seu entender deveria estender a menoridade penal até os 18 anos
pelas condições deste "país sem gente". O menor surge na obra de
Tobias Barreto definido por sua consciência do bem e do mal, esta
por sua vez, determinada pela instrução.

OS MODELoS AMERICANOS

Nos últimos anos da década de 1890 e nos primeiros anos da


década seguinte a expressão "menor" já fazia parte do vocabulário
Judicial da República. Ela era utilizada nos pareceres dos juristas
nos relatórios dos chefes de polícia, nos projetos apresentados aos
corpos colegiados dos estados. Também o "menor" atravessava o
círculo do judiciário e aparecia nos editoriais e nas manchetes dos
jornais do Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador.

Esse interesse pela menoridade por parte dos juristas coincide


também com a introdução da puericultura por parte dos médicos e
com a importancia que já desde o século XIX vinha cobrando a edu-
cação dos jovens.15 Acreditamos que esse querer saber sobre a
criança, esse querer tratar adequadamente dela, evidenciou-se com
força como subproduto do prestígio que adquiriram entre os setores
ilustrados das classes dominantes as chamadas ciências positivas e o
desejo de copiar a europeus e americanos como uma forma de parti-
cipar dos avanços do progresso ocidental.16 Tudo isso como resulta-
do das transformações desencadeadas a partir de uma vinculação
mais forte do Brasil ao mercado mundial, que trouxe importantes
mudanças econômicas e sociais.

No caso dos juristas, o acompanhamento das transformações da


jurisprudência internacional os levara a procurar na legislação euro-
péia e dos Estados Unidos, modelos e exemplos do que deveria ser a
legislação e as instituições do menor a serem implementadas no Brasil.

Dois pontos interessavam aos juristas: as instituições existentes


para recluir e disciplinar as crianças infratoras ou abandonadas e o
estabelecimento e função dos tribunais da criança.

As primeiras instituições especificamente criadas para atender


aos chamados menores criminosos surgiram nos Estados Unidos a
partir de 1825. Fundadas sob rigorosos preceitos quaker, estende-
ram-se durante o século XIX, primeiro no norte Massachusetts, Fi-
ladélfia, Nova Iorque, e depois no sul e no oeste. Com o tempo, as
casas de correção para as crianças infratoras se diferenciam dos asi-
los para os órfãos e desprotegidos. Ficam marcadas pelo princípio de
regenerar a partir de uma disciplina rigorosa que vigorava nas insti-
tuições de internamento no século XIX, além de adotar o trabalho fí-
sico e manual como elemento reabilitador, educador, disciplinador e
formador das crianças infratoras e abandonadas.17 Nasceram pois as
colônias agrícolas e as escolas industriais onde eram colocadas as
crianças para serem transformadas em cidadãos úteis à sociedade. A
escola, a fábrica e a prisão misturam-se num único espaço e numa
mesma disciplina que regula toda a vida da criança em torno do tra-
balho regenerador.18
Findando o século foi a vez de estabelecer as "children courts"
ou as "juvenil courts" de 1889 que serviram de inspiração para as
leis européias como o "children act" inglês de 1908. Apresentadas
como resultado do triunfo do humanitarismo em relação às crianças
pobres que tanto na Europa como nos Estados Unidos tinham sido,
junto com as mulheres, as principais vítimas do sistema fabril,19 as
leis em nome da proteção da criança e da sociedade concederam aos
juízes o poder de intervir nas famílias, particularmente nas famílias
pobres e nos chamados lares desfeitos, quando se julgava que sob
sua influência as crianças poderiam ser encaminhadas ao crime. Os
pais de família corriam o risco de perder o poder sobre os seus filhos
que deviam ser entregues a instituições que assumiam as funções de
criação que normalmente desempenhavam as famílias. As crianças
infratoras, órfãos ou membros de lares e famílias julgadas desfeitas
ou desaJustadas, deviam pois ser atendidas por especialistas (assis-
tentes sociais, médicos, educadores) considerados substitutos idô-
neos para cumprirem as funções do lar.

Esse novo olhar conduzirá também a superar a tese de que a


criança seria um ser privado de senso moral, no qual estavam pre-
sentes o germe da loucura moral e da criminalidade que deviam ser
"purificados" por meio da educação, como sustentava o conceituado
professor Lombroso. Na nova formulação, as crianças não nasciam
criminosas porém podiam ser afetadas por circunstancias individuais
ou sociais (desagregação familiar, contato com o vício) que inclinam-
na ao crime, podendo ser corrigidas de diversas formas.

A correção poderia ser encabeçada pela escola, por ajuda ex-


terna aos pais, através da separação de filhos e pais, no caso em que
estes as inclinassem ao vício, pela entrega da guarda da criança a
instituições apropriadas e finalmente pela educação moral, social e
religiosa para as crianças.21

A DESCOBERTA DO MENOR

No fim do século XIX, olhando para seu próprio país, os ju-


ristas brasileiros descobrem o "menor" nas crianças e adolescentes
pobres das cidades, que por não estarem sob a autoridade dos seus
pais e tutores são chamadas pelos juristas de abandonadas. Eram,
pois, menores abandonados as crianças que povoavam as ruas do
centro das cidades, os mercados, as praças e que por incorrer em
delitos freqüentavam o xadrez e a cadeia, neste caso passando a se-
rem chamadas de menores criminosos. Candido Nogueira da Motta,
escrevia, em 1895, que visitando a cadeia de São Paulo "notamos
ainda grande número de menores".22 Por sua parte, Evaristo de Mo-
raes, em 1900, diferenciava os tipos de abandono desses menores: os
materialmente abandonados e os moralmente abandonados.23 Tam-
bém os juristas citados assinalavam que aqueles menores eram prin-
cipalmente abandonados pelo Estado, que os ignorava e tratava co-
mo simples caso de polícia O menor não era pois o filho "de famí-
lia" sujeito à autoridade paterna, ou mesmo o órfão devidamente
tutelado e sim a criança ou o adolescente abandonado tanto material
como moralmente.

Partindo dessa definição, através dos jornais, das revistas jurí-


dicas, dos discursos e das conferências acadêmicas foi se definindo
uma imagem do menor, que se caracterizava principalmente como
criança pobre, totalmente desprotegida moral e materialmente pelos
seus pais, seus tutores, o Estado e a sociedade.

Relacionando a origem do abandono com as condições econô-


micas e sociais que a modernização trouxe, os juristas, tanto no co-
meço do século como nos anos 20 e 30, não deixaram porém de
apontar a decomposição da família e a dissolução do poder paterno,
como os principais responsáveis de tal situação. Assim, Evaristo de
Moraes, em 1900, falando a propósito dos menores entre 10 e 20
anos que povoavam as ruas das cidades observava:

Entre esses precoces vagabundos os ha que teem pai e mãi; os


ha que teem apenas um dos progenitores; os ha vivendo appa-
rentemente sob direcção de qualquer membro da familia.

A realidade, porém, é das mais dolorosas: são moralmente


abandonadas, são, na maioria dos casos aquillo que d'elles dis-
se Julio Simon:--orphãos com pais vivos !

Em verdade, a situação delles é peior que a dos materialmente


abandonados e a dos orphãos. Dos materialmente abandonados
os pais quizeram separar-se; no emtanto, dos moralmente
abandonados apenas deixam de cuidar ou si d'elles cuidam é
intermittentemente, muitas vezes com o intuito de abusar da
sua inexperiencia e engajal-os no exercito do mal.
Si é certo que os materialmente abandonados são mais infelizes
do que os expostos, não menos indubitavel é que os moral-
mente abandonados ficam mais subjeitos ao mal do que uns e
outros.

Seguindo o criminalista Lombroso, Evaristo de Moraes se en-


caminha por uma leitura que supõe uma concepção do ser humano
como inclinado às paixões, ao vício, à desordem, à vingança, ao
ciúme, à mentira, à cólera, e que só é freado pela sociedade utilizan-
do a disciplina, a ordem, que começa na família, a partir do exercí-
cio da autoridade paterna. A falta de autoridade deixava as crianças
entregues a sua própria vontade, totalmente dispostas para serem le-
vadas fora da lei, do convívio social, além de ficarem habilitadas pa-
ra o crime. Tal habilitação provinha do fato de os juristas acharem que
nas novas condições de crescimento das cidades o lugar natural das
crianças abandonadas era a rua; por sua vez esta era apontada como
o lugar do crime.

Os juristas faziam eco às vozes que apontavam a rua como o


lugar da desagregação, onde floresciam e se multiplicavam todos os
vícios que ameaçavam a sociedade.25

Alvarenga Neto, já avançado o século, fazendo uma compara-


ção entre a escola e a rua, desenvolvia a seguinte análise a respeito
da relação entre o menor e a rua:

a rua tem justamente influência oposta É nela que, pela convi-


vencia com os maus camaradas, com os meninos já viciosos e
de vocabulario pornográfico, se formam outros tantos espíritos
defeituosos, outros tantos menores de mentalidade propícia aos
pequenos delitos, menores delinqüentes, enfim 26

A rua da cidade com seus espaços múltiplos, onde andam pes-


soas desconhecidas, com seus becos e cortiços onde os pobres se
amontoam e se escondem, é escolhida pelo discurso normalizador
como o lugar onde se evidenciam as marcas de uma modernidade
que para alguns não deixa de ser incômoda.27 Lemos Britto, por
exemplo, ao desenhar o quadro que gera a infancia abandonada,
aponta para uma crise da própria sociedade:

O augmento das populações humanas; a organização industrial,


dando logar á vida em comum, em commodos de reduzida area,

de numerosas pessoas de idade e sexos differentes; a imprensa,


reproduzindo, com o colorido mais vivo, as scenas mais degra-
dantes da sociedade, os crimes mais vis, os suicidios; os maus
livros, disseminados a preços infimos; o cinematographo, pon-
do a nú o bas-fond da sociedade e da familia; o alcoolismo, a
expandir-se por falta de leis correctivas; a chamada educação
moderna, baseada na liberdade mais ampla; o pauperismo, a li-
cença, tudo isto tem contribuido para crear uma situação de tal
modo grave que os governos, os parlamentos, os juristas, os
pedagogos acabaram por se preocupar com esse capítulo im-
pressionante da infancia abandonada 28

A importancia das condições de vida da modernidade no aban-


dono das crianças não serão pois negadas, pelo contrário, serão
aceitas e encaradas como inevitáveis, mas as responsabilidades so-
ciais por essa situação ficarão esvaziadas ante o peso das responsa-
bilidades dos indivíduos. São os pais de família, que cedendo aos
vícios (álcool, jogo, vadiagem), não exercem sua autoridade e aca-
bam corrompendo os filhos, são as mulheres, que aceitando as pro-
postas indecorosas dos homens e trazendo ao mundo filhos sem pai,
estão minando as bases que garantem "a ordem moral da socieda-
de". Todas essas novas situações aportavam dramaticidade ao pro-
blema da infancia abandonada já que para esses juristas como o ex-
pressava Lemos Britto, o abandono tinha existido sempre, mas nas
atuais circunstancias, a criança vivendo à vontade na rua, abandona-
da no material e no moral, necessariamente terminava por se conta-
minar do vício e se transformar num criminoso que ameaçava a so-
ciedade.

Assim, desde 1895 Candido Nogueira da Motta falava do cres-


cimento da criminalidade infantil em São Paulo:

a criminalidade dos menores augmentou a olhos vistos. Em


1894 o numero de criminosos de 9 a 20 annos era apenas de
59, ao passo que neste anno se elevou a 97, isto é a 60% a
mais! E como não ser assim? É extraordinario o numero de
menores que vagam pelas ruas.

Onze anos depois, o mesmo jurista citava um relatório do Se-


cretário da Justiça e Segurança Pública de São Paulo que apontava
1500 menores presos pela polícia por vários motivos, 119 por gatu-
nagem, 182 por embriaguez, 199 por vagabundagem, 458 por desor-
dens e 486 por outros motivos de menor gravidade.30

No entanto, mesmo sendo claro que no discurso dos juristas e


dos novos especialistas em "crianças abandonadas" o "menor aban-
donado" foi definido como um perigo para a futura sociedade, foi
crescendo a convicção de que este era uma vítima. Alfredo Pinto
Vieira de Mello assinalava esta última condição:

São victimas da falta de educação intellectual e affetiva, da mi-


seria dos pais; da ausencia de carinhos maternaes formando-
lhes os corações para o bem; das exigencias do instincto de
conservação individual, que muitas vezes assimillam o homem
aos irracionaes na ferocidade e no egoismo.31

A criança ganha pois importancia não só no campo jurídico,


porque ela passa a ser enxergada como futuro, garantia de que será o
capital humano que o capital industrial precisa para se reproduzir.
Por sua vez espera-se que esta interpretação ganhe força por ela
mesma, na medida em que aparece cada vez mais como a grande le-
gitimadora das ações disciplinadoras que se desenvolvem para velar
pelo progresso do Brasil.

Contudo, a ênfase na restauração da autoridade paterna como


ideal que devia nortear a sociedade brasileira revela quanto este fu-
turo, no qual se pensava, estava impregnado de permanências do
passado. Assim, a preocupação jurídica pelo menor se inscrevia
tanto no projeto de restauração de formas de autoridade tradicionais
onde predominava o paternalismo, como na introdução de formas de
tratamento do menor abandonado coerentes com o reordenamento da
desagregação produzida pela modernização. Mas se as crianças
abandonadas representavam um problema sério, porque ao retorna-
rem criminosas muitas delas colocavam em risco o futuro da socie-
dade, era ainda mais grave a atitude do Estado brasileiro. Para os ju-
ristas da transição do século o Estado em relação à criança abando-
nada ou criminosa não tinha conseguido superar um comportamento
policial, por demais desastroso. Candido Nogueira de Motta chama-
va a atenção em 1895 para o tratamento dispensado aos menores
apanhados pela polícia:

Este anno, visitando a Cadeia, (São Paulo) notamos ainda


grande numero de menores em identicas circumstancias. O pu-

blico clama contra isso, mas que fazer? O chefe de policia


põe à disposição dos juizes dos orfams, mas estes não têm
meios de providenciar e arranjar-lhes collocação. A medida
unica adoptada é a de remettel-os para a marinha; mas essa
medida não nos parece feliz, porque quando muito adia o mal,
não o extirpa.32

Mesmo que o Código de 1890 tivesse cogitado de prisões es-


peciais para menores, dez anos depois Evaristo Moraes diria que:
"não se fundou qualquer estabelecimento destinado ao fim constante
do artigo citado".33 Assim, os visitantes de Casas de Detenção e das
Cadeias das grandes cidades, no começo do século, tinbam que as-
sistir ao espetáculo da convivência de menores com adultos crimino-
sos, o que fazia das cadeias verdadeiros laboratórios do crime e es-
colas para criminosos. Evaristo de Moraes descreveu assim o que
podia ser o futuro e o percurso de um menino de 13 anos apelidado
de Batatinha:

Um rapazinho de 13, 14 ou 15 annos já regularmente iniciado


nos segredos da vida livre e educado ao Deus-dará, é posto às
ordens dos guardas civis, dos soldados e dos outros presos;
corre toda a triste casa, passa pelas portas de todos os cubicu-
los, respira as podridões moraes que de muitos delles se evo-
lam; ouve as propostas mais obscenas e mais criminosas, as
narrações dos gatunos mais audazes e a glorificação dos ho-
mens e dos feitos mais indignos... Posto em liberdade o novo
producto daquelle medonho laboratorio, atirado na rua, não
tem seus passos amparados por uma sociedade de patronato...
Lá, já tinha feito suas relações, que não mais abandonará: cá
fora, logo as procura, bem cedo as encontra nas lobregas ta-
volagens e nos sordidos bordeis. Assim se reatam as conversas,
se completa o ensinamento, se organisam os grupos.34

Mas não será a Casa de Detenção o único destino cruel de va-


dios infratores e abandonados, que sem nenhuma possibilidade de
recuperação são levados às delegacias.

Muitas vezes, passam apenas um dia naquella espera de collo-


cação. Occasiões ha, porém, em que se dá essa cousa horrenda,
que parece incrivel: o menor que vem para juizo afim de ser
dado para a soldada ou ser colocado em algum asylo, volta,
por falta de outro pouso, para o xadrez da delegacia, onde, na
mais terrivel promiscuidade passa a noite, esfaimado ou semi-
nú! Culpados não se pôde dizer, com justiça, sejam os preto-
res, quando se tem assistido às verdadeiras mendicancias com
que taes autoridades procuram collocação para esses miseros
pupillos. Importunam amigos, vexam os escrivães, buscam mil
formas de livrar-se daquelles tristes produtos da miséria; mas,
os resultados não correspondem a tantos trabalhos.

Dados à soldada, eil-os que voltam freqüentemente, por esse


ou por aquelle motivo, tendo de repetir-se a mesma importuna-
ção para com os amigos e conhecidos.

Demais, dessa difficuldade de collocação, nascem abusos, ex-


plorações, violencias, com que são victimadas as creanças.
Não se pode escolher muito para despachar os desgraçadi-
nhos... Succede, por isso, que este vae, por exemplo, entregue
a um desalmado, ainda não desaffeito dos costumes escravo-
craticos e, portanto, prompto a recomeçar com torturação da
creança a faina interrompida a 13 de maio de 1888 Aquelle é
dado a quem não tem capacidade moral para educação da in-
fancia e continua a arruar tão livremente como dantes, a con-
trahir os mesmos vicios, sem nenhuma vantagem individual ou
social, e tudo sob a guarda e garantia judiciaria...35

Assim, a infancia abandonada, que vivia entre a vadiagem e a


gatunice, era tratada, na opinião dos juristas, como um caso de polí-
cia e de simples repressão urbana. Esta era pois confiada às mãos
dos delegados e suas grandes e apavorantes razias, nas que se reco-
lhiam as crianças que vagavam na rua, "limpando" assim praias,
parques e praças dos "pequenos judeus errantes", que representa-
vam um perigo para os comerciantes e os transeuntes.36 Tudo isso
com o aplauso da imprensa, mas sem que as crianças e seu destino
fossem levados em conta.

Sendo esta a situação será postulada pelos juristas a necessida-


de de uma mudança na atuação do Estado, com a criação de uma lei
de proteção ao menor.37 Desde 1902, quando Cardoso de Almeida,
chefe da Polícia de São Paulo, presentou os chamados menores cri-
minosos com o projeto de um Instituto Disciplinar, até 1927 quando
se constituiu o Código de Menores, vários foram os planos e proje-
tos de lei de menores apresentados ao congresso que foram reprova-
dos ou simplesmente não foram discutidos.38

Mas a recusa do Legislativo, quanto à promulgação de uma lei


geral, não impediu que fosse criada por decreto, tanto em nível
federal como estadual, uma série de instituições, destinadas a alber-
gar as crianças abandonadas e as julgadas criminosas.39 A existência
dessas instituições e a contínua pressão, pelo estabelecimento de um
direito do menor, fez com que o debate sobre o menor, como pro-
blema, ganhasse o terreno da discussão do objetivo e da importancia
de tais instituições e do tratamento dado nelas às crianças ali
internadas.

A idéia de destinar as instituições criadas a formar e educar,


como objetivo de prevenir a criminalidade do menor e do adulto,
confrontava-se com a idéia de encaminhar as instituições para o cas-
tigo e punição, com o objetivo de reprimir nos moldes das pessoas
adultas. A prevenção, por meio da assistência aos menores, foi apre-
sentada como uma estratégia mais racional e eficaz do que a simples
repressão, já que na opinião de Astolpho Rezende, secava "uma das
fontes mais fecundas do crime" e enfrentava "corajosamente o
monstruo insaciavel que ameaçava devorar a sociedade contempora-
nia".40 Também, além de estratégica, a prevenção resultava mais ba-
rata, como ponderou Candido Nogueira da Motta:

ora, é innegavel que, protegendo a infancia abandonada,


guiando os seus passos, encaminhando-a para o trabalho ho-
nesto, capaz de assegurar o seu futuro, o Estado, se por um la-
do preserva essa infancia das más tendencias, por outro previ-
ne a sociedade contra os maus elementos. Ha ainda uma razão
de ordem economica para justificar a intervenção do Estado: é
muito mais fácil e menos dispendiosa a função preventiva que
a repressiva. Consultem-se os estatisticos dos reformatorios e
dos institutos industriaes para menores, nos paizes que os pos-
suem, e saltará á vista a enorme porcentagem dos que dalli sa-
hiram perfeitamente encaminhados para as mais recommenda-
veis profissões.41

A prevenção, assim apresentada, supunha que a criança deve-


ria ser tirada da rua e colocada na escola. Afastado o menor dos fo-
cos de contágio, correspondia depois às instituições dirigir-lhe a ín-
dole, educá-los formar-lhe o caráter, por meio de um sistema inteli-
gente de medidas preventivas e corretivas.43 Dita educação, nas pa-
lavras do Diretor da Escola Quinze de Novembro:
é o veneno junto ao contra veneno. A criminalidade não é mais
do que um violento toxico. A educação é o seu antidoto.

Em outras palavras: quando os problemas materiais de hygiene


publica teem, hoje, invariavelmente, a sua prophylaxia, a sua
serotherapia, precisamos ter diante de nossos olhos a verdade
inilludivel de que a prophylaxia das enfermidades moraes de
uma sociedade pôde e deve também fundar-se em outra espécie
de serotherapiae, dentro desta, a verdadeira vaccina preventiva
da criminalidade é a educação. E quanto melhor fôr a qualida-
de do respectivo soro, mais seguros e efficazes serão os seus
effeitos

No entanto, a prevenção, para ter sucesso, exigia um plano de


Assistência e Proteção à Infancia E isso pressupunha necessaria-
mente o aparecimento de uma legislação que lhe desse sustentação e
que removesse empecilhos como a inquestionabilidade da pátrio po-
der, para poder tirar filhos de pais viciosos e o aumento da idade
até 18 anos para a responsabilidade criminal, o que devia afastar os
menores das perniciosas prisões de adultos. Isso começou a ser con-
seguido a partir de 1921, com a lei orçamentária 4.242 de 5/1 que
autorizou o Serviço de Assistência e Protecção à Infancia Abando-
nada e aos Delinqüentes e que foi regulamentado em 20/11/1923
pelo decreto 16.272.44

Assim, a questão da criança abandonada, vadia e infratora,


pelo menos no plano da lei, deixou de ser uma questão de polícia e
passou a ser uma questão de assistência e proteção, garantida pelo
Estado através de instituições e patronatos. A atenção à criança pas-
sou a ser proposta como um serviço especializado, diferenciado,
com objetivos específicos. Isso significava a participação de saberes
como os do higienista, que devia cuidar da sua saúde, nutrição e hi-
giene; os do educador, que devia cuidar de disciplinar, instruir, tor-
nando o menor apto para se reintegrar à sociedade; e os do jurista,
que devia conseguir que a lei garantisse essa proteção e essa
assistência.

Na passagem do século, menor deixou de ser uma palavra as-


sociada à idade, quando se queria definir a responsabilidade de um
indivíduo perante a lei, para designar principalmente as crianças po-
bres abandonadas ou que incorriam em delitos. Para 1923, nas pala-
vras de Lemos Britto, o significado do termo estava claramente,
limitado:

os menores abandonados eram menores de 14 anos que por se-


rem orphãos ou por negligencia, vicios, enfermidades ou falta
de recursos dos pais, tutores ou parentes ou pessoas acargo, fo-
ram entregues às autoridades judiciarias ou policiais, ou foram
encontrados habitualmente na via pública, entregues a si mes-
mos ou desamparados de qualquer assistência natural.45

A condição de desamparo material e moral definia, diferencia-


va e fazia das crianças que viviam em ditas circunstancias, pessoas
que deviam ser tratadas e protegidas pelo Estado. A atuação deste
foi sendo definida no marco da sua própria redefinição como Estado
que se estenderá por toda a primeira República.
A preocupação com a preservação da ordem social aparente-

mente ameaçada e o interesse em assegurar a modernização capita-


lista brasileira determinaram os critérios de eleição do esquema de
proteção da criança, marcado pelo restabelecimento da autoridade e
a confiança nas novas instituições de atendimento à criança, que
eram importadas dos Estados Unidos e da Europa.

NOTAS

1. Ordenações, Livro I, título 88 N-19 em BasTos, José Tavares. Casa-


mento dos Orphaos e Menores na República. Rio de Janeiro, Benja-
min de Aguila, s.d., p. 57.

2. Lei de 6 de outubro de 1784 em José Tavares Bastos, op. cit., p. 41.

3. Código Criminal do Império do Brasil, publicado por Carlos Antonio cor-


deiro, T. Quirino e Irmão 1861, Rio de Janeiro. Parte I do título I, do Cap.
I dos Crimes e dos criminosos, Art. io, p. 6.

4. Idem, cap. III das circunstancias agravantes e atenuantes, secção II, Art.
18, circunstancias atenuantes, n° 10, pág. 13.
5. Idem título II, cap. I, Qualidade das penas, Art. 45 par. 2 E

6. Idem Parte I do título I do cap. I, artigo 13, citado por Octaviano vieira,
Os menores perante o Código penal, S. Carlos Pinhal, s.d., pág. 33. Os
intentos de criar instituições especializadas não saíram do papel e casas
como o Instituto de Educandos Artífices, criado em 1869, foram desapa-
recendo lentamente. ver Candido Nogueira da Motta, Os menores delin-
qüentes e seu tratamento no Estado de São Paulo, são Paulo, ???Ty Diario
Oficial, 1909, pág. 36.

7. Octaviano vieira, op. cit., cita a resolução de 31 de outubro de


1831,p.9.

8. No decreto n° 18 de 7 de março de 1895, que estabelece o Código Penal


para a Armada dos Estados Unidos do Brasil, O artigo 20 determina que
não são criminosos os menores de nove anos e menores de 14, Leis da Re-
pública, 1895.
9. Ver VENANCIO, Renato Pinto. Infancia sem destino: O abandono de
crianças no Rio de Janeiro do século XVIII. Dissertação de Mestrado,
FFLCS, DH USP, 1988.

10. Candido Nogueira da Motta, op. cit., pp. 34-35.

11. Oscar de Macedo Soares, em Carlos Antonio Cordeiro, Consultor Or-


phanologico, Rio de Janeiro, H. Garnier, 1902, p. IX.

12. Alfredo Pinto Vieira de Mello, Relatorio ao Ministro de Justiça,


Imprensa Nacional. 1907, p. 43.

13. Decreto 848 de 11 de outubro de 1890, Art. 88 e decreto 3804 de 5 de


janeiro de 1898, Art. 243 em Octaviano Vieira, op. cit., p. 62.

14. BARRETO, Tobias. Menores e Loucos, reeditado pelo Estado de Sergi-


pe, 1923, p. 25.

15. REIS FILHO, Casimiro dos. A educação e a ilusão liberal. São Paulo,
Cortez, 1981, p. 179.

16. NADAI, Elza. Ideologia do progresso e ensino superior (São Paulo


1889-1934). São Paulo, Loyola, 1987, pp. 23-37.

17. Sobre esse processo nos Estados Unidos e na Europa ver Aztolpho. RE-
ZENDE, Os menores abandonados e delinqüentes. O Direito, Rio de Ja-
neiro, 1911, Vol. 114, p. 400; ver também Evaristo de Moraes, op. cit., p.
23 e Candido Nogueira da Motta, op. cit., p. 29.

18. Ver a respeito FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir. Petrópolis Vozes,


1986 e sua interpretação da prisão do século XIX como a instituição que
é ao mesmo tempo quartel, oficina, escola, p. 208.

19. Sobre as condições de vida das crianças na Inglaterra do século XIX ver
THOMSON, E.P. A formação da classe operária inglesa, A maldição de
Adão, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1987, Vol. II, p. 195-198.

21. A respeito ver a análise que para os tribunais de menores a princípios do


século nos Estados Unidos fez LASCH, CH. A cultura do narcisismo
Rio de Janeiro, Imago Ed., 1983, pp. 195-198.

22. Candido Nogueira da Motta, op. cit., p. 11.

23. MORAES, Evaristo de. Crianças abandonadas e criminosas, Rio de Ja-


neiro, 1900, p. 7.

24. Idem.

25. RAGO, Margareth. Do cabaré ao lar. A utopia da cidade disciplinar, Rio


de Janeiro, Paz e Terra, 1985, p. 21.

26. NETO, Alvarenga. Código de menores, Rio de Janeiro, Freitas Bastos,


s.d., p. 86.

27. FAUSTO, Boris. Crime e cotidiano. A criminalidade em São Paulo


(1880-1924). São Paulo, Brasiliense, 1984, pp. 15 e 33.

28. BRITO, Lemos. As leis de Menores no Brasil, Rio de Janeiro, 1929, pp.
43-44.
29. Candido Nogueira da Motta, op. cit., p. 12.

30. Idem, p. 31.

31. MELLO, Alfredo Pinto Vieira de. Menores abandonados e menores de-
linqüentes. Rio de Janeiro, O Direito, 1910, p. 25.

32. Candido Nogueira da Motta, op. cit., p. 11.

33. Evaristo de Moraes, op. cit.

34. Idem, pp. 65-66.

35. Idem, p. 69.

36. Idem, p. 61. Para o caso da "limpeza" das praias do Rio de Janeiro por
parte do chefe da Polícia Aureliano Leal no começo do século, ver Lemos
Britto, op. cit., p. 78. A propósito das razias para o caso de São Paulo,
Boris Fausto anota que de 1892 a 1916, 83,8% das pessoas detidas o fo-
ram pela prática de convenção ou averiguação, o que revela a preocupa-
ção com a ordem pública "aparentemente ameaçada por infratores das
normas do trabalho, do bem viver, ou simplesmente pela indefinida figura
dos "suspeitos". Ver Boris Fausto, op. cit., p. 33. Ver para o caso da re-
pressão policial em São Paulo, CRUZ, Heloisa de Faria. "Mercado e Po-
lícia - São Paulo 1890/1915", Revista Brasileira de História, São Paulo,
vol. 7, n° 14 e mar./ago. 87 e NETTO, Luis Roberto. "Por debaixo dos
panos - A máquina policial e o problema da infancia desvalida na cidade
de São Paulo (1910-1930)", in Revista Brasileira de História, São Paulo,
Vol. 9, n-° 17, set. 88-fev. 89.

37. Essa mudança tem sido interpretada pelos estudiosos como a origem da
questão do menor. Essa foi a opinião em 1988 de Marisa Correa para
quem se daria nos anos 20 uma transição da criança para menor. Concor-
damos com Boris Fausto, op. cit. p. 80, que acha que o conceito "já se
formara anteriormente" e que o que aconteceu nos anos 20 foi uma con-
solidação em termos de lei do conceito já definido.

38. Entre os projetos estavam os apresentados por Lopes Trovão em 1902,


por Alcindo Guanabara em 1906 e 1917 e por João Chaves em 1912.
Entre os planos e propostas estavam os de Franco Vaz em 1906, Alfredo
Pinto 1909 e Belisário Távora em 1913; ver VAZ, Franco, "Educação e
criminalidades", Annaes de Conferencia Judiciaria Policial, Rio de Ja-
neiro, 1918, p. 458. Ver também NETO, Alvarenga, Código de Menores,
Rio de Janeiro, Freitas Bastos, s.d., prefácio.

39. Destas instituições as mais conhecidas foram a Escola de Preservação 15


de Novembro no Rio de Janeiro, criada em 1903, e o Instituto Disciplinar
de São Paulo, criado em 1902, ver MOTTA, Candido Nogueira da. Os
menores delinqüentes, p. 23.
40. ALTOLPHO, Rezende. Os menores abandonados e delinqüentes, p. 373.

41. MOTTA, Candido Nogueira da. Os menores abandonados, p. 32.

42. VIEIRA, Octaviano. Os menores perante o código penal, São Carlos Pi-
nhal, s.d., p. 7.

43. VAZ, Franco. "Educação e criminalidade", em Annaes da Conferencia


Judiciaria Policial, Rio de Janeiro, 1918, p. 463.

44. NETO, Alvarenga. Código de menores, prefácio.

45. BRITTO, Lemos. As leis de menores no Brasil, p. 44.


O MENOR NO BRASIL REPUBLICANO

Edson Passetti

"De repente me lembro do verde


A cor verde
A cor mais verde que existe
O verde que vestes
O verde que vestistes
No dia em que te vi
No dia em que me viste
De repente vendi meus filhos
Pra uma família americana
Eles têm carro
Eles têm grana
Eles têm casa
E a grama é bacana
Só assim eles podem voltar
E pegar o sol em Copacabana"

(Paulo ???L~mir~ky)

A questão do menor no Brasil republicano somente passou a


ser enfrentada em meados dos anos 70, através de denúncias regula-
res na imprensa contra a situação em que se encontravam as crian-
ças, principalmente após o golpe de 64 e o fracasso do milagre eco-
nômico.

Título original: "Nó Cego: O Menor no Brasil Republicano".

Foi com a indicação de 1978 como Ano Internacional da


Criança que a história da criança no Brasil e de sua repressão come-
çou a ser pesquisada. Isso levou à formação de diversas associações
que articularam-se a outras na defesa dos direitos da criança e que
acabaram influenciando o Estatuto da Criança e do Adolescente
de 1990.
O menor é um nó cego para o Brasil. Esse estudo procura tra-
çar os limites e avanços jurídicos no que diz respeito aos direitos da
criança, enfatizando a política de bem-estar do menor definida em
1964 e que até hoje carece de revisão urgente.

Muito se falou e escreveu - por incrível que possa parecer -


sobre o termo ser utilizado como estigma sobre crianças pauperiza-
das. Mudar o termo menor para criança ainda é pouco porque o pre-
conceito está enraizado na sociedade. Esperar garantias do Estado-
o novo preceptor - de igualdade de condições e que siga a Consti-
tuição, parece ser a mais recente ilusão.

A história politica do Brasil repressivo do pós 64 é também a


história sobre a repressão às crianças, aos menores. Mas o fato de
estarmos numa longa transição democrática nos autoriza a afirmar
que o autoritarismo continua enraizado no cotidiano e contra ele não
bastam passeatas, eleições presidenciais onde o cidadão é obrigado a
votar, nem esperar que a justiça consiga punir os desvios e excessos
policiais.

"As crianças", definiu Bakunin, "não são propriedade de nin-


guém: não são propriedade nem dos seus pais, nem da sociedade.
Elas só pertencem à sua liberdade futura. Mas nas crianças esta li-
berdade ainda não é real mas virtual".

MENORES NA LEI

No Brasil, todo indivíduo desde que nasce até completar 18


anos é considerado juridicamente menor e, portanto, inimputável.

A exclusão da responsabilidade penal, segundo os juristas, de-


veu-se às influências da Revolução Francesa com um novo huma-
nismo que definiu a aplicabilidade de isenções às infrações come-
tidas por menores. Foi na França que, em 1891, o Código Penal
mostrou a necessidade da separação dos infratores da lei penal, le-
vando a cabo os pressupostos do direito romano de discernir as dife-
renças de grau na criminalidade.1 Desde 1850, primeiro na França e,
depois, em toda a Europa, já se instalavam os estabelecimentos cor-
recionais para jovens infratores.

O Código brasileiro de 1820 isentava da criminalidade os me-


nores de 14 anos, quando não era provado o discernimento do fato,
recolhendo-os às casas de correção até completarem 17 anos. No
Código de 1890 ficavam estabelecidas as fases da infancia que mar-
cavam o sujeito no ato da infração penal - os de idade inferior a 9
anos eram considerados inimputáveis; aqueles cujas idades estavam
entre 9 e 14 anos eram recolhidos quando apresentavam discerni-
mento; e os que estavam entre 14 e 21 anos, pelo fato de ainda não
terem chegado à maioridade, eram beneficiados com atenuantes. Es-
se código somente foi alterado com a lei 4242 de 5/1/1921 que pres-
creveu a inimputabilidade até 14 anos, processo especial para os que
estavam na faixa entre 14 e 18 anos e manteve os atenuantes para os
de 18 a 21 anos. Em 7/12/1940, com o Decreto-lei 2848 é que foi
fixada a idade de 18 anos como marco que separa a menoridade da
responsabilidade penal.

No plano do direito constitucional, percebemos que somente a


partir da Constituição de 1934 surgirá a preocupação com o menor,
proibindo o trabalho de menores de 14 anos que não tivessem per-
missão judicial, o trabalho noturno aos menores de 16 anos e, nas
indústrias insalubres, aos menores de 18 anos. A Constituição de
1946, por seu lado, elaborada no período da chamada redemocrati-
zação, manteve as proibições, ampliando para 18 anos a idade de
aptidão para o trabalho noturno. A Emenda Constitucional n° 1 de
1969 vem proibir, no governo militar, o trabalho aos menores de 12
anos e traz a obrigatoriedade do ensino primário público àqueles
entre 7 e 14 anos. Por fim, na Constituição de 1988, na transição
democrática, a idade mínima para o trabalho é aos 14 anos com ga-
rantias trabalhistas e previdenciárias, igualdade na relação proces-
sual e, quando necessária, brevidade para o cerceamento à liberdade
(art. 227, 2º). Mas o artigo 70, XXVII, diz "proibição de trabalho
noturno, perigoso ou insalubre aos menores de 18 anos e de qual-
quer trabalho, a menores de 14 anos, salvo nas condiçoes de apren-
diz" (grifos meus).

É comum considerar-se o trabalho como elemento de integra-


ção social do indivíduo. A criança, também, irá, paulatinamente, re-
ceber as demarcações jurídicas que nortearão a utilização de sua for-
ça de trabalho no mercado. Alguns juristas afirmam que a primeira
medida trabalhista que orientou os limites do trabalho do menor data
de 1825, através de um projeto de decreto elaborado por José Boni-
fácio de Andrada e Silva, proibindo aos escravos menores de 12
anos, o trabalho insalubre e fatigante.

A jornada de 7 horas para a venda da força de trabalho menor


aparecerá estipulada no Decreto 13.113 de 17/1/1891 (meninas de
12 a 15 anos e meninos de 12 a 14 anos, admitindo-se aprendizes a
partir dos 8 anos) que vedava serviços de faxina e em máquinas em
movimento. Foi em 12/10/1927 com o Decreto 17.343/A que o Có-
digo de Menores passou a regulamentar o trabalho do menor, acres-
cido, posteriormente, de legislações complementares. Em 1932, a
partir da participação ativa no setor industrial, a idade mínima é re-
baixada para 12 anos. "A jornada de trabalho para o menor de 14 a
18 anos foi estendida de 6 para 8 horas. O trabalho noturno do me-
nor continuou proibido porém, e para efeitos legais passou-se a con-
siderar como trabalho noturno aquele realizado depois das 22 horas
em lugar das 19 horas, como estipulava a regulamentação anterior,
de 1926."2

Na Constituição de 1946, a idade minima volta a ser 14 anos,


para ser reduzida na de 1967, para 12 anos (art. 158, X) procurando,
dessa forma, solucionar aquilo que os juristas chamam de "hiato
nocivo", a ociosidade, compreendendo o periodo que vai dos 11
aos 14 anos (conclusão do 1º grau até adentrar no mercado de tra-
balho). Do ponto de vista jurídico, conseqüentemente, atende-se a
essa disposição no artigo 175, § 3-°, II que diz: "o ensino primário é
obrigatório para todos dos 7 aos 14 anos, gratuito nos estabeleci-
mentos oficiais". Na Constituição de 1988, é considerado direito do
trabalhador a "assistência gratuita aos filhos e dependentes desde o
nascimento até os 6 anos de idade em creches e pré-escolas"
(art. 7-°, XXV).

A definição jurídica do menor, em linhas gerais, deixa nítida a


preocupação em criar limites possíveis para a sua reprodução no
mercado de trabalho. Atendendo às generalidades da lei, toda e
qualquer ação desencadeada por um menor, em geral, contra a or-
dem, passa a ser definida como desvio. Nesse sentido, o que a le-
gislação faz é adequar as situações limites da força de trabalho in-
fantil no mercado, desconhecendo ou fazendo desconhecer a base de
surgimento dessa força de trabalho e as componentes de sua futura
reprodução.

A SOCIEDADE TUTELADA

Classificando os menores quanto a sua inserção no trabalho e


na conduta anti-social, através de graus de periculosidade determi-
nados, o antigo Código de Menores apenas faz transparecer que se
não há condições para absorver toda a população infanto-juvenil no
trabalho, deve-se garantir a adequação constante dos comportamen-
tos desviantes ao padrão normativo, tomando-os capazes à competi-
ção. A exclusão do mercado de trabalho é, portanto, um dado nor-
mal que em si não explica o desvio de conduta, pois a fonte do des-
vio se ancora na família.

O Estatuto da Criança e do Adolescente, por sua vez, inverterá


a interpretação, definindo a situação sócio-econômica como funda-
mental para entendermos as condições de emergência do contingente
de crianças portando carências. Caberá ao Estado, através de políti-
cas sociais estabelecidas em conjunto com associações e conselhos
populares e de representantes da "sociedade civil", responsabilizar-
se pelas crianças de acordo com a Constituição de 1988.

Deslocado para o ambito social, o problema da infração come-


tida pelo menor passa a ser um problema público. Cabe à educação
estatal obrigatória, responsabilizar-se por suprir, tanto essa deficiên-
cia da família, como desenvolver o conjunto dos valores normativos
integradores na ordem. Garantindo as introjeções dos valores domi-
nantes, acredita-se estar dando um passo à frente no combate à cri-
minalidade infanto-juvenil. O importante, por fim, é nomear a com-
petitividade no mercado como pacífica, deslocando-se para o Estado
e para as legislações, o papel de intervir no conflito.

A Política Nacional do Bem-Estar do Menor, introduzida atra-


vés da lei 4.513 de 1/12/1964, é apresentada em setembro de 1965,
nove meses após a criação da Fundação Nacional do Bem-Estar do
Menor - FUNABEM. A lei invoca a participação das comunidades
para que junto ao governo participem da "tarefa urgente" de procu-
rar encontrar soluções para o problema do menor no Brasil. O arti-
culador dessa "nova" política será o Dr. Mário Altenfelder, pedia-
tra, juntamente com a comissão formada por Eduardo Barlett Games,
D. Candido Padim, Helena kacy Junqueira, Luiz Carlos Mancini,
Maria Celeste Flores da Cunha, Odylo Costa Filho e Pedro José
Meirelles Vieira.

A criação da FUNABEM emerge como imperativo para a dis-


solução do antigo Serviço de Atendimento ao Menor- SAM - do
então estado da Guanabara, devido às sucessivas rebeliões promovi-
das pelos internos e por se considerar obsoletas as então técnicas de
reeducação do menor. A partir de 1968, aparelhada com corpo téc-
nico especializado, a FUNABEM entrará em atividade.

A nova proposta de atendimento ao menor estará ancorada na


idéia de que a FUNABEM, e suas correlatas nos demais estados bra-
sileiros, não serão instituídas dentro de fundamentos paliativos, mas
no de ser uma instituição diferente, onde o importante não será a
internação. "Ao contrário, vai proteger a criança na família: vai es-
timular obras que ajudem neste mister; vai ser auxiliar do juízes de
menores; vai cuidar da formação de pessoal especializado para o
trato com menores; vai dar assistência técnica especializada aos Es-
tados, Municípios e entidades públicas ou privadas que solicitarem;
vai, enfim, atualizar os métodos de educação e reeducação de meno-
res infratores ou portadores de graves problemas de conduta. E, mais
que tudo, vai adotar meios tendentes a prevenir ou corrigir as causas
do desajustamento".3

O chamado problema do menor foi inserido nos aspectos psi-


cossociais da política de segurança. O menor foi pensado como um
dos objetivos nacionais permanentes, isto é, aqueles que se realizam
em "longo processo histórico através da definição dos elementos
fundamentais da nacionalidade como a terra, o homem e as institui-
ções".4 Num país como o Brasil, que, sob essa ótica, se enquadraria
num regime democrático (pois "o grupo dirigente representa a von-
tade do povo quando interpreta suas aspirações e define os Objeti-
vos"5), a FUNABEM teria por função exercer a vigilancia sobre os
menores, principalmente a partir de sua condição, de carenciado,
isto é, próximo a uma situação de marginalização social.
O papel da FUNABEM estaria enquadrado para além da cons-
tatação do problema, preocupando-se com a pesquisa e a invocação
que visasse à "renovação das mentes". Nesse sentido, ela "impreg-
na seus jovens assistidos na mística de um sistema de vida funda-
mentado na harmonia e na ajuda mútua, na solução dos conflitos de
interesses sob a égide do Direito, da Justiça Social, dos Valores Mo-
rais e Espirituais".6

Na relação direta que procura estabelecer entre o bem-estar na-


cional e o do menor, iremos notar que a presença dos Objetivos Na-
cionais Permanentes é o elemento catalisador da estratégia a ser
posta em prática no pós 64.

O povo brasileiro aparecerá definido de forma apriorística, po-


dendo transparecer, à primeira vista, que as percepções dos estratos
sociais se fez aleatoriamente. Muito pelo contrário, há uma base teó-
rica onde se moverá a conceituação de acordo com a concepção da
Escola Superior de Guerra, fundada na percepção harmônica da so-
ciedade, possível pela solução de centralidade dos conflitos e tendo
por base a adequação a valores. "O povo brasileiro com suas quali-
dades básicas de individualismo, sentimentalismo, adaptabilidade,
improvisação, cordialidade, comunicabilidade e vocação pacifista,
mantém como idéia-força o ideal democrático e nele, os bens vitais
da integridade territorial, soberania nacional e paz social".7 O bem-
estar nacional é algo a ser alcançado - analogamente à saída da con-
dição de subdesenvolvimento - tendo por elemento norteador a "i-
déia onipresente de alcançar sempre o melhor da Democracia, no es-
pírito democrático e liberal de cada um".8

Torna-se nítido, numa segunda leitura, que o povo é algo to-


mado, constatado e reconstruído para uma meta futura de criação das
condições de uma democracia de "cunho liberal", tutelado por ora,
para ser reconduzido no futuro.

A estratégia para tal investida ancora-se numa verdade de po-


der que orienta o reequacionamento dos quadros intelectuais do Es-
tado, alheios a partidarismos, para a tarefa de definir para a socieda-
de os benefícios que ela alcançará.

Esta estratégia está ancorada na concepção técnica da política,


própria do pensamento político autoritário, que vem assumindo
grande espaço e influência após 1930. A integração, o desenvolvi-
mento, a segurança somente se tornam metas possíveis e viáveis
quando os oponentes forem alijados do confronto político dentro dos
parametros da democracia representativa, para se tornar tarefa qua-
se-exclusiva do Estado.

No que concerne à proposição e ao pôr em prática essa nova


concepção do bem-estar nacional do menor, procurou-se fundamen-
tos na eliminação da chamada "politicagem", fruto do exercicio
parlamentar múltiplo, para somente a partir daí tornar possível se
chegar à construção da FUNABEM e FEBEMs. Isso porque, para se
lidar com a questão do menor que não pertence a nenhum grupo po-
lítico mas ao governo, foi necessário, segundo Altenfelder, convo-
car-se os técnicos idealistas de profissionalismo honrado.9

O bem-estar nacional se traduz pela penetração dos Objetivos


Nacionais Permanentes na sociedade pois "não podem ser meios de
uma elite, mas fins entendidos e aceitos pelo povo, que para tal deve
ser educado, levado a dar o mais alto grau de aproveitamento aos re-
cursos materiais, às aptidões e aos valores físicos, intelectuais e es-
pirituais-morais do ser humano".10 Por seu lado, o bem-estar do me-
nor está diretamente associado à solução de seu problema, isto é, o
"problema do maior".

O menor, vivendo sob o impacto da marginalização, tem como


causa maior de sua situação, entre "causas múltiplas", a desorgani-
zação da família. É uma questão social, visto que "constitui-se fa-
mília sem a menor preocupação com a estabilidade conjugal". A de-
fesa da família como valor universal passa a ser a única solução para
se chegar ao patamar do bem-estar, "procurando-se a melhor distri-
buição de bens, pois que a distribuição de misérias não leva a nada
que preste e entre nós esta distribuição não é pequena (...); é indis-
pensável educar para o casamento, educar para formar lares consti-
tuídos, estáveis, harmoniosos, onde as crianças cresçam num am-
biente de amor e segurança".11

Portanto, não é difícil, ao se procurar os elementos que se arti-


culam politicamente através dos discursos proferidos, encontrar pas-
sagens literalmente reprisadas, as mesmas idéias repetidas, os con-
ceitos pouco a pouco sendo resumidos até se confundirem com
um termo.

Esse trajeto tornou, por vezes, obscuros alguns conceitos emi-


tidos constantemente pelas autoridades, ao mesmo tempo em que
deixou sempre claro que qualquer crítica ou proposta que não se
apoiasse nos fundamentos da concepção oficial seria antipatriótica.
Os pais passaram a ser considerados incapazes para responder pelo
pátrio poder sobre seus filhos menores e, assim sendo, coube ao Es-
tado justificar-se como agente capaz, criando para as crianças a
FUNABEM e para seus pais bloqueios policiais às reivindicações. A
sociedade dos incapazes caminha sob a instrução do Estado em dire-
ção à maioridade política.

Os espaços no discurso são preenchidos com quantidades, cor-


reções e soluções perfeitas para os problemas. A inserção do futuro
como meta para os projetos é definida antecipadamente: o futuro das
propostas do próprio regime, no sentido de investimento na politiza-
ção de crianças e menores pela tecnificação e segmentação sociais.

De forma diversa dos liberais - por não perceberem que no


fluxo das idéias selecionadas institucionalmente pelo Estado repousa
sua possibilidade, ou sonho de perenidade - os estatistas autoritários
tendem, antes de mais nada, a garantir sua continuidade burocrática
imediata. Dessa maneira, entendem de tudo, principalmente dos
qualificados de diversas formas como dominados, que devem passar
por um processo de correção.

Caberá às instituições do Estado, em comum acordo com as


comunidades das classes dominantes, curá-la. O que se pretende é
curar a pobreza ou minimizar os impactos na oscilação da taxa de
lucro? Importam números, palavras e operacionalização do funcio-
namento institucional como suporte do Estado e de seu regime polí-
tico, na medida em que se torne maleável, como atenuante à dureza
do aparato policial, ampliando suas conexões com as práticas sociais
autoritárias.

O que o Estado pode fazer é o "impossível"; logo, os tromba-


das, marginais e prostitutas acabam reduzidos a delinqüentes voliti-
vos, quando já tiverem passado pelo tratamento biopsicossocial de-
senvolvido pelas FEBEMs. Se não tiverem passado na instituição
são degenerações oriundas de famílias desorganizadas. E as famílias
se desorganizaram porque o pai e a mãe não estavam preparados pa-
ra o casamento. O despreparo para o casamento vem da frágil assi-
milação dos "valores humanistas" que, enfim, estão esperando por
definição.13

É sabido que o Estado passa a considerar como problema na-


cional todo aquele acontecimento que, direta ou indiretamente, acar-
rete possibilidades de abalar a ordem.

1964 pode ser considerado o divisor das águas, posto que os


problemas sociopolíticos passam a ser hierarquizados pelo regime
dentro dos parâmetros da segurança nacional. Inserem-se na estraté-
gia de poder que procura garantir internamente o bloqueio ou incor-
poração das reivindicações no novo quadro de institucionalização.
Na medida em que o problema passa a ter sua vida "viciada" em
Estado, isto é, a dinamica dos acontecimentos é colocada à margem
dos padrões autoritários da intervenção estatal, a institucionalização
do mesmo objetiva atender à demanda de empregos úteis como bus-
ca de ampliar a legitimidade do regime. Procura-se evidenciar para
as camadas médias e para o proletariado ocupado no mercado formal
o bem-estar proposto no sentido de que a necessidade de formação
de valores no indivíduo é o que respalda sua vida social, sendo todo
o resto, deformações. Com isso, o Estado obtém o aval necessário, a
legitimidade para fazer funcionar uma instituição austera: recolocan-
do as condições de funcionamento institucional, bloqueia as críticas
deixando de incorporá-las ao processo normativo, considerando-as
como falsas verdades provenientes de forças políticas contrárias ao
regime ou ao Estado.

A FUNABEM tem por função estudar e pesquisar o problema


do menor, planejar soluções, orientar, coordenar e fiscalizar as ati-
vidades de entidades que executam a PNBM. Para tal expõe sua de-
finição do fenômeno.

O problema do menor, apesar de ser considerado universal,


possui agravantes no plano nacional pelas condições sócio-econômi-
cas do Brasil - um país em vias de desenvolvimento ou uma potên-
cia emergente, convivendo com o fenômeno da marginalidade. Os
menores são aqui entendidos a partir do "seu afastamento progressi-
vo de um processo normal de desenvolvimento e promoção huma-
na", que os leva à "condição de abandono, à exploração ou à con-
duta anti-social".14

Introduz-se os elementos do modelo: urbanização, migração,


desagregação do núcleo familiar e efeitos dos meios de comunicação
de massa

A marginalização é apreendida a partir de como se concebe a


sociedade. Esta tem por estrutura básica, a família.15 Como a socie-
dade vive em processo de intensas transformações, isso acaba ge-
rando uma paulatina desagregação da família monogâmica, levando-a
a perder suas funções consideradas básicas: a de proteção e a de
educação.

A família encontra-se em processo de desorganização, pelo de-


clínio da autoridade paterna, pela independência dos membros da
casa, pela emancipação da mulher, o acentuado desvirtuamento da
religião; enfim, pela decorrência do Brasil entrar na era tecnológica
que acaba colocando as crianças e os jovens frente à indecisão. Per-
de-se paulatinamente a consciência das normas e valores estabeleci-
dos pela civilização ocidental. Há dois grupos: os que progressiva-
mente aceitam a sociedade como ela é e aqueles que não a aceitam,
mostrando-se rebeldes. Estes últimos são de dois tipos: os pacíficos
que se utilizam de atitudes extravagantes para mostrar sua rebeldia e
os não-pacíficos, os subversivos e perigosos.16

Nesse panorama, emerge o menor carenciado, abandonado e o


infrator como menor marginalizado. A marginalização é entendida
"como falta de participação dos indivíduos nos bens, serviços e re-
cursos que uma sociedade produz (forma passiva de participação so-
cial) e por uma falta de participação na elaboração das decisões que
orientam o desenvolvimento da sociedade em seu conjunto (forma
ativa de participação social)".17

O fenômeno da marginalidade decorre tão-somente do distan-


ciamento de segmentos sociais do consumo conforme objetivaram
confirmar os estudos sobre marginalidade desenvolvidos a partir da
década de 20 nos Estados Unidos, utilizados como fundamentação
teórica. Preocupados com a integração dos imigrantes na sociedade
norte-americana, enfocam os efeitos dos conflitos culturais sobre o
quadro psicológico individual. O conflito expressa o embate entre o
universo cultural do imigrante e o mundo novo ao qual deve se inte-
grar, fazendo surgir o homem marginal, aquele não totalmente inte-
grado a sua nova condição.

Passa a ser imperativo aumentar a politização positiva para o


sistema a fim de garantir pelo menos sua reserva de apoio. A politi-
zação é entendida linearmente. Começa na criança e tem na adoles-
cência a fase em que o impacto deve ser mais profundo, estabele-
cendo "as maneiras pelas quais os modelos políticos são apreendi-
dos pelos membros da sociedade que constituem" e os mecanismos
pelos quais esta aprendizagem passa a ser essencial para o sistema,
conseguindo obter apoio necessário. Envolve, por conseguinte, rela-
ções de punição e recompensa dispondo-se dos meios de comunica-
ção de massa para veicular "objetivos e normas a outros (que) ten-
dem a ser repetidos em todas as sociedades". 18

Podemos dizer que dois blocos de variáveis interdependentes


funcionam como motores para melhor entendermos a concepção do
fenômeno. Ao primeiro, chamaremos de o preço a ser pago para ser
desenvolvido e, ao segundo, preço a ser pago para ser moderno.

Com relação à primeira variável, dois fatores se tornarão rele-


vantes: a migração e o processo de urbanização e industrialização A
migração é explicada como resultante do desequilíbrio provocado
entre os setores primário e secundário da economia que acaba ge-
rando o fluxo de mão-de-obra em direção aos centros urbanos onde
se concentram as indústrias, e, conseqüentemente, os melhores em-
pregos. Por sua vez, os processos de urbanização e industrialização
acelerados, compreendidos na imperiosa modernização da sociedade,
acabam não permitindo a emergência de condições de bem-estar fa-
voráveis a toda população. Nesse sentido, essa população migrante
acaba não conseguindo participar do processo de desenvolvimento
(passivo ou ativo) que o país atravessa. A evidência de tal fato apa-
rece na figura do chefe de família que não se integra no mercado de
trabalho. A mulher, conseqüentemente, tem que procurar de alguma
forma obter os proventos necessários à família, o que acaba por co-
locar as crianças expostas aos perigos do abandono, vício, explora-
ção e delinqüência.

No sistema social urbano são caracterizados três tipos de po-


pulação: a integrada, a subintegrada e a em vias de marginalização.
Esta apresenta "características específicas analisáveis dentro de um
processo social marginalizante... tais como: baixos níveis de renda
habitação sub-humana, subalimentação, analfabetismo e baixo nível
de escolaridade, baixos níveis sanitários e de higiene, falta de quali-
ficação profissional e insegurança social... Esses fatores levam à de-
sorganização a estrutura do grupo familiar em suas funções básicas -
alimentação, proteção de saúde, recreação, amor e socialização".19

A segunda variável se funda na idéia de que a sociedade mo-


derna gera desagregação moral, isto é, permissividade. Nesse senti-
do, colaboram não só a irresponsabilidade dos pais como a dos pro-
fessores, fazendo com que as crianças se tornem presas fáceis de
"maus elementos". Por fim, também recai a culpa nos meios de co-
municação de massa, por veicularem mensagens licenciosas e
violentas.20

Os desajustamentos sociais sendo provenientes da falta de


afeto e amor da família, são afastamentos do processo normal de
formação de valores, hábitos e atitudes desejáveis dentro do consi-
derado padrão cultural ocidental.

Para sua implantação, a Política Nacional do Bem-Estar do


Menor compreendeu três aspectos considerados relevantes: a) inte-
gração de programas nacionais de desenvolvimento econômico e so-
cial; b) dimensionamento das necessidades afetivas, de nutrição, sa-
nitárias e educativas; c) racionalização dos métodos a serem utiliza-
dos. No entanto, esta política está delimitada pela opção feita no
planejamento econômico que reduz as possibilidades dos programas
com tônicas sociais diretas. Para isso, a FUNABEM propõe, princi-
palmente, uma mudança de mentalidade, através de um processo de
educação da família e ação comunitária. Apesar de ser uma tentativa
de equacionar o problema sociologicamente, prevalece na prática
a ótica assistencialista da transformação da personalidade individual.

Torna-se relevante conhecer os fundamentos que elegem a co-


munidade como motor de minimização dos efeitos negativos gerados
pela sociedade.

De acordo com o discurso da FUNABEM, a sociedade sofre


um processo de degenerescência em relação aos valores. Isso cor-
responde ao crescimento da população menor carenciada e infratora.
Caberia às comunidades a tarefa de recuperação do chamado menor,
através de organismos oficiais, religiosos e classes mais favorecidas.
Mas o que se entende por comunidade? A imprecisão da definição
levou-nos a emprestar-lhe um sentido amplo (considerado o urbano
como elemento primordial de prevenção ao problema do menor e
opondo comunidade urbana à rural); um sentido estrito (consideran-
do-a uma instituição como igreja, família, ou ainda, associações co-
mo o Rotary); ou até um sentido geográfico localizado (consideran-
do áreas dentro do meio urbano que congregam associações). Em
qualquer desses sentidos, a comunidade é algo que pode ser tomado
isoladamente, apresentando um conjunto de elementos que devem
ser preservados da degenerescência provocada pela modernização da
sociedade.

O pólo moderno, que atua em todos os sentidos da vida social,


não estaria conseguindo absorver toda a população no processo de
produção, ao mesmo tempo em que estaria corroendo os valores
mais sólidos da sociedade, entre eles a família e a religião. É sabido
que o problema não se encontra na capacidade de se absorver popu-
lações locais ou migrantes no processo de produção, mas no fato de
que este libera parte da população alocada no setor produtivo da so-
ciedade, criando o exército industrial de reserva. Assim, não são os
valores que estão sendo corroídos mas a funcionalidade a eles atri-
buída. Ver a sociedade sob o ponto de vista dos valores universais
na dicotomia tradicional-moderno é construir outra fórmula para
continuar sediando no Estado o prolongamento dos problemas sociais.

A técnica de reintegração do menor (ou adulto) marginalizado


é definida como polivalente, ou interdisciplinar, envolvendo os
componentes biopsicossociais que o "paciente" porta. Com relação
às áreas terapêuticas, o pressuposto da ação é que o menor com con-
duta anti-social é antes de tudo um menor carenciado. Para tal tipo
de tratamento, a base de recuperação se ergue nas Unidades Educa-
cionais das Fundações, associando a idéia de inter-relação família e
meio. Opera no ambito individual com o objetivo de interiorização
da situação de conduta desviante para assumir o padrão oficial, e o
da pedagogia terapêutica em grupos, na orientação e transmissão dos
valores, através de atividades profissionalizantes.

Considerando que a diferença entre menores, de modo geral,


seria de comportamento, o fundamento do trabalho estaria, pois, em
elevar o nível de aspirações (valorativas e econômicas) das parcelas
menos favorecidas da população. Ao menor em "processo de margi-
nalização" restará a instituição de recuperação ou, no melhor dos
casos, uma família substitutiva.

A condição de carenciado sócio-econômico é o indicador que


acaba localizando grande parte do proletariado. A decorrência ime-
diata é o seu enquadramento como infrator através da chamada con-
duta anti-social. A pobreza gerando a conduta anti-social. É nesse
sentido que a instituição FEBEM é interposta como elemento que
chama para si o objetivo de evitar o desfecho do circuito pobreza -
práticas anti-sociais - marginalização, alterando-o para pobreza -
conduta anti-social - instituição - reintegração. Eis, pois, a alegada
função supletiva do Estado: ser o preceptor das crianças carenciadas
e infratoras.
O ESTADO COMO PRECEPTOR

Poderíamos dizer que, com a falência da contribuição dos es-


pecialistas estatais em desenvolvimento nacional, até meados da dé-
cada de 60 "fabricado pelo ISEB", Instituto Superior de Estudos
Brasileiros, a Escola Superior de Guerra apressou-se em apresentar
um quadro geral próprio da situação capaz de compreender a vida
sócio-econômica brasileira. Mas não o diremos.

Preferimos, ao examinar a postura da ESG, não considerá-la


como um pensamento sui generis mas inseri-la como pensamento
que procura combinar a teoria da marginalização social (que estava
explícita no ISEB) revestida de justificativas políticas de cunho eco-
nômico-militar.

A ESG irá reconhecer e dar status de problema nacional a de-


terminados fenômenos submetidos aos Objetivos Nacionais Perma-
nentes da Segurança Nacional. A garantia de minimização dos con-
flitos internos é a meta possível quando os inimigos forem "desar-
mados" (moral e politicamente). A redefinição da inserção do Brasil
no estatismo significa impedimentos a determinadas formas de rei-
vindicação operária Permanece inalterada a incorporação burocráti-
ca das lideranças operárias no Estado, até acontecimentos decorren-
tes do mesmo intervencionismo fazerem emergir uma reviravolta sindi-
calista no final dos anos 70.

As lideranças operárias não incorporadas são identificadas po-


licialmente como elementos descartáveis pois são capazes de entra-
var a modernização. Espera-se que o desenvolvimento econômico
venha a garantir, em breve, o desenvolvimento político, com a rein-
trodução da democracia representativa pluralista.

A verdade desenvolvimentista não é nova pois é um suporte


necessário à continuidade. Ela é responsável por estabelecer a dis-
tinção de grau como essencial entre as "nações". Nesse sentido, vi-
sa buscar justificativas no cálculo estatístico (balanço de pagamen-
tos, inflação, PIB, etc.); incutir, através de elementos intrínsecos à
"cultura" brasileira, o sopro da nova harmonia alcançada (futebol e
carnaval como expressões de um país forte e alegre); criar situação
social sem conturbações. retirando da correlação de forças as orga-
nizações operárias, a fim de que se abram possibilidades para supe-
rar a anomia; e enfatizar a participação política sob nova lei restriti-
va. O desenvolvimento somado à segurança fará da ESG a entidade
organica capaz de definir os parâmetros para o agenciamento da
"era desenvolvimentista".

Essa era, no Brasil, não é nova. Viveu sempre ancorada em


fundamentações que ora tendem para as ditaduras, ora para as expe-
riências democráticas, no processo de estatização da vida. A história
politica brasileira neste século aponta para momentos de desenvol-
vimento onde os trabalhadores ou são alijados de participação ou
participam regulados pelo Estado. Independente dos regimes, a ver-
dade desenvolvimentista nunca foi descartada.

No período pós-64, a ESG veiculou o modelo de desenvolvi-


mentista que bloqueou à classe operária a possibilidade de manifes-
tação politica organizada. A justificativa não correu o risco de ser
arranhada, posto que a teoria da marginalidade se mostrará capaz de,
seja qual for o regime, ser um suporte imprescindível para o coman-
do e crescimento da burocracia. A postura do Estado e da ESG, ao
justificá-lo, será a de ampliar gradativamente os limites do raio de
ação da classe trabalhadora. Isso pode ser traduzido como a tentativa
de inseri-la, modernamente, no quadro institucional, ou seja, cir-
cunscrevê-la no limite dentro do que se conhece como a vertente re-
formista da classe operária.

Nos estudos do general Meira Mattos podemos encontrar os


fundamentos que orientarão, dentre outras, a Política Nacional do
Bem-Estar do Menor.

A modernização necessária de uma sociedade somente pode ser


entendida a partir do "impacto da revolução científica e tecnológi-
ca".25 Nesse sentido, a "meta de uma sociedade moderna não é ape-
nas liberdade política, mas liberdade e desenvolvimento cuja síntese
é o bem comum ou o bem-estar comum".26

A modernização exige a comparação com os países mais de-


senvolvidos pois a aspiração é atingir a posição daqueles. No seu
aspecto político, a modernização é entendida como a capacidade de
mobilizar recursos via instituições, visando com isso aumentar a
"participação, organização e benefícios sociais por meio do progres-
so cultural e tecnológico".27

O alcance de tal explicação exaure-se no fato de que alcançar


o nível das nações desenvolvidas torna-se uma questão de posição
ocupada dentro da hierarquia: o que está em jogo é uma distinção de
grau. Nesses termos, jamais chegará a equiparar-se a aqueles, posto
que, se reduzirmos a questão ao efeito econômico, inevitavelmente
nos colocaremos circunscritos ao chamado efeito demonstração. Se
por outro lado, anexarmos a essa observação as implicações políticas
de tal equiparação, o Estado terá de absorver institucionalmente sob
a forma de politicas sociais as reivindicações das classes trabalhado-
ras. Constitui-se dessa maneira um duplo efeito: não há equiparação
econômica ao mesmo tempo em que cresce o Estado; é um ilusio-
nismo econômico e uma burocratização da vida politica e social.

A modernização, em suma, exige do Estado brasileiro (e, por


extensão dos latino-americanos) momentos ditatoriais apresentados
como autoritários (resposta necessária para conter os avanços das
reivindicações operárias) para acelerar o processo de centralizar do
capital a fim de que, posteriormente, ele possa se abrir às reivindica-
ções da base social, ancorado no processo de politização positivo
para o sistema.

A estratégia da modernização pelo chamado autoritarismo - re-


conhecido posteriormente na fase da abertura politica nos anos 70,
mas autodefinido como democrático por não ter suprimido todos os
partidos políticos - exige, de imediato, a identificação do inimigo
interno, objetivando aniquilá-lo. "A noção de segurança nacional é
mais abrangente (do que a de defesa nacional). Compreende, por as-
sim dizer, a defesa global das instituições, incorporando os aspectos
psicossociais, a preservação do desenvolvimento e da estabilidade
política interna; além disso (...) toma em linha de conta a agressão
interna, corporificada na infiltração e subversão ideológicas".28 Es-
sa definição do marechal Castelo Branco fundamenta-se, segundo o
general Meira Mattos, na consideração de Montesquieu de que se
uma república é pequena, vive ameaçada de destruição por um poder
estrangeiro; se é grande, vive ameaçada de desagregação por condi-
ções internas.

O inimigo é a guerrilha (urbana e rural), corporificação interna


do inimigo externo, apresentada como perversão aos direitos demo-
cráticos cuja identificação consiste em por sob suspeita a classe ope-
rária como um todo. Na medida em que a guerrilha é uma estrutura-
ção radicalizante das reivindicações bloqueadas que deságuam na
proposta de ruptura estrutural, a forma de combatê-la é a de associar
lideranças operárias e "simpatizantes" em geral, como veiculadores
de uma ideologia espúria já que o "Brasil tem sido um país feliz,
desde seus primórdios".29

Busca-se no mito do brasileiro dócil e na vocação democrática


a justificativa de que não são os trabalhadores os agentes. No en
tanto, a classe trabalhadora, como um todo, deverá ser o paciente,
para que seja levada a cabo, a cura. Ela precisa ser limpa ideologi-
camente e disciplinada politicamente de acordo com a nova forma de
encaminhar suas reivindicações. O bipartidarismo (estaria à parte)
regulará isso politicamente enquanto o aparato repressivo, incre-
mentado, vai tentando aniquilar os focos insurrecionais.

Formaliza-se o exercício democrático que pode ser traduzido


como ato obrigatório de votar que, por seu lado, não deixa de ser um
mecanismo de controle sobre a força de trabalho (o ato de votar lo-
caliza, identifica e adestra o cidadão). Definitivamente, busca-se a
coesão interna entendida como "os laços de solidariedade comunitá-
rios, dinamizados em termos de lealdade suprema à nação... O na
cionalismo moderno se condensa e cristaliza na sobrevivência da na-
ção como grupo superiormente integrado, em prosperidade e cres-
cente bem-estar social".30

Desenvolvimento e segurança são apresentados como relacio-


nados. Por um lado, o desenvolvimento é favorecido pela industria
lização, ao mesmo tempo em que deve estar de sobreaviso para que
não haja excesso ou discrepancias em relação à concentração de
renda Por outro lado, "o desenvolvimento econômico e social supõe
um mínimo de segurança e estabilidade das instituições. E não só
das instituições políticas, que condicionam o nível e a eficiência dos
investimentos do Estado, mas também de suas instituições econômi-
cas e jurídicas, que garantindo a estabilidade dos contratos e o di-
reito de propriedade, condicionam de seu lado, o nível de eficácia
dos investimentos privados".31

Não fica difícil constatar por que o poder nacional é entendido


como a "soma dos recursos materiais e valores psicológicos de que
dispõe uma nação, tendo em vista os objetivos que pretende alcan-
çar",32 ou seja, o desenvolvimento com segurança.

Por dinamica do Estado entende-se as políticas sociais e eco-


nômicas traçando "os caminhos que levam a esses objetivos e, por
estratégia, as ações empreendidas para, pelo caminho ou caminhos
escolhidos, coroar os objetivos".33 Por fim, ancorado nessa concep-
ção desenvolvida pela ESG teremos que a "política é a arte de go-
vernar um Estado, dirigindo sua ação interna e externa quem go-
verna, coordena as vontades e meios do Estado".34

Está feita a distinção de como deverá ser a articulação institu-


cional da sociedade. A modernização somente se fará possível no
plano econômico, social e político, saldando-se as dívidas que leva-
rão o país ao desenvolvimento através do alinhamento da sociedade
à condução do Estado forte. Tudo o quefora posto anteriormente a
64 não tem mais lugar de ser pois a representação democrática obs-
truiu o desenvolvimento econômico, corrompendo os quadros admi-
nistrativos públicos e criando condições para a ampliação da praxis
marxista, rapidamente propagada pelas organizações guerrilheiras.
O novo meio político para dar continuidade à guerra é a tentativa de
exclusão das forças oponentes.

A ordenação orienta-se, agora, para demonstrar que o Estado é


o único capaz de deflnir, selecionar e escalonar os problemas nacio
nais a partir do momento em que ele identificou as "causas" que le-
varam o país ao "movimento revolucionário de 64". Passa o Estado
a exercer o papel de justiceiro. Para tal, nada melhor do que os fun
damentos ancorados na ESG e desenvolvidos desde sua criação
(1949): desenvolvimento com segurança.

Os militares aparecem na cena política caracterizando, desta


forma, o impasse criado pela incapacidade da burguesia em ter reali-
zado uma revolução política.

O preceptor educado para educar seus pupilos poderá fazê-lo


utilizando pedagogias diversas. Enquanto o preceptor aristocrático
zelava pela continuidade da riqueza entesourada, o Estado como
preceptor moderno não zela pelos filhos do capitalista, mas deve
"levar" esse benefício a todos, governamentalizando a vida: um
número quantitativamente maior deverá inserir-se na hierarquia so
cial, em estratos que os distinguirão entre si, quando essa distinção
não é significativa; os misturarão, quando houver necessidade, di-
fundindo a mobilidade social; os considerarão integrados ou desa-
justados, de acordo com a introjeção dos valores dominantes; os
considerarão responsáveis pela estabilidade política precária. Enfim,
esse preceptor moderno fez-se passar por educador, utilizando-se da
capa e carapuça de algoz: o bem-estar social tem condições de se er-
guer como um belo número de ilusionismo.
A ATIVAÇÃO DA PNBEM
EM SÃO PAULO E A FEBEM

Em São Paulo, desde 1954, a preocupação com o contingente


chamado menor, começa a tomar vulto através do controle dos
infratores.

O Recolhimento Provisório de Menores (RPM) foi criado pela


lei 2.705 de 23/07/1954, objetivando selecionar infratores na faixa
etária entre 14 e 18 anos. Esta lei serviu de base para, em 1959, ser
criado seu correlato, o Centro de Observação Feminina (COF). Es-
ses dois órgãos ficaram sob a orientação da Secretaria de Promoção
Social até 1975. No governo Laudo Natel criou-se o balão de ensaio
do que é a FEBEM até hoje, a Fundação Paulista da Promoção So-
cial do Menor (PRÓ-MENOR), através da Lei 185 de 12112/1973,
seguindo as diretrizes e normas da Política Nacional do Bem-Estar
do Menor.

Os Anais das Semanas de Estudo dos Problemas do Menor re-


velam uma pressão acentuada- por parte de diversos intelectuais
voltados à problemática- no sentido de uma reformulação na prática
paulista de tratar a questão. A FUNABEM do Rio de Janeiro passou
a ser a alternativa ideal na medida em que, pioneira, tinha posto em
funcionamento os imperativos da politica federal, como órgão dire-
tamente vinculado à presidência da República e, depois, subordina-
do ao Ministério da Previdência Social.

Em 1973, o Secretário da Promoção Social, Mario Romeu de


Lucca referia-se à criação da Pró-Menor dizendo: "No encerramento
da XI Semana de Estudo dos Problemas do Menor dissemos que, pa-
ra que não fosse ela apenas o eco monótono de dez outras; para que
não se estiolasse e diluísse na esterilidade das boas intenções; para
que fecundasse ela, através de medidas corajosas, o Poder Executivo
atenderia aos apelos uníssonos das comunidades e técnicos, insti-
tuindo a Fundação Paulista de Promoção Social do Menor:
PRó-MENOR. Não foi aquele o tempo de prometer em vão: esta-
mos hoje no tempo de cumprir".35

Será no governo seguinte, de Paulo Egydio Martins, com a


presença de Mário Altenfelder, secretariando a Promoção Social,
que João Benedito A. Marques presidirá a FEBEM-SP.

Altenfelder, que fora um dos autores intelectuais da PNBEM e


presidente da FEBEM até então, assume a implantação em São
Paulo, evidenciando a gravidade que o problema revelava. Subli-
nhava que "o Governo Federal já tentara anteriormente implantar em
São Paulo sua política de atendimento ao menor, mas não conseguiu
êxito porque a experiência da FUNABEM foi ignorada" e, justifica-
va: "deve-se aos bravos integrantes da Polícia Militar o controle de
uma situação que seria explosiva em quaisquer outras mãos. Eles
agüentaram por todos nós, uma responsabilidade imensa que era
apenas parcialmente deles. A Polícia Militar junta-se a nós para a
realização de um trabalho integrado que devolverá a essa corporação
seu papel promocional do menor, e não a manutenção da falsa quali-
dade carcereira pois, o RPM, um local já por si insuficiente para
conter 120 menores, recolhe hoje mais de 500 em condições que
adjetivos não descrevem, mas o coração sente. Centenas de jovens
padecem ali do desconforto, da falta de educação técnica, do uso do
lazer, do direito à possível privacidade que qualquer ser humano re-
clama como imperiosa. Maltrapilhos, tristonhos, infelizes, chorosos,
agressivos encontram-se centenas de menores que recebem exóticos
apelidos para disfarçar a realidade de que nós, a sociedade inteira,
somos cúmplices e que gerou esses produtos do desamparo, do de-
samor e da miséria".36

Constata-se que o antigo RPM mostrava-se insuficiente para


distribuir, de forma satisfatória, os menores de acordo com o grau de
periculosidade apresentado, pois recebia cerca de 259 menores por
dia, enquanto sua capacidade de absorção não ultrapassava 180.

O COF, por sua vez, estava com 50% de sua capacidade ocio-
sa pela carência de pessoal técnico-administrativo capacitado. Em
síntese, o RPM e o COF forneciam basicamente recursos de alimen-
tação que, segundo se afirmava, facilitavam o regresso do infrator
por não possuir família que obtivesse os meios de subsistência ne-
cessários. Os estudos concluíam "que isso não excluía a sua situação
de vítima dentro de um prisma global: troca da liberdade por alimen-
tos".37 Em linhas gerais, justificava-se a irracionalidade da admi-
nistração fora do círculo orientado pela FUNABEM (excesso de lo-
tação e vagas, ao mesmo tempo em que não havia orientação técnica
adequada", denunciava-se a situação paulista como decorrência do
atraso em se ajustar à PNBEM, ao mesmo tempo em que começavam
a emergir as justificativas para o desencadear de empregos úteis
(construção de prédios, cozinheiras, faxineiras, técnicos de ensino
médio e superior em complexa estrutura hierárquica vertical).

Procurou-se demarcar, em linhas gerais, as causas que levam o


menor à prática de atos anti-sociais, enfatizando a necessidade de
uma análise interdisciplinar que a partir da constatação avançaria pa-
ra além do aspecto legal, trazendo subjacente a necessidade de uma
redefinição ao corpo de técnicas que compõem a instituição. As su-
gestões, por conseguinte, estavam concordes com a proposta da
PNBEM de se examinar o infrator a partir dos componentes biopsi-
cossociais.

Mais uma vez, o Estado responderá como o ser capaz, procu-


rando cooptar as "comunidades" para se integrarem a sua proposta
abrindo, ao mesmo tempo, o caminho para a absorção de técnicas de
nível universitário que se avolumavam, fruto de sua política
educacional.
As diretrizes da PNBEM aprovadas em 1966 pelo seu Conse-
lho Nacional, apontavam para o bem-estar do menor como "atendi-
mento de suas necessidades básicas, através da utilização e criação
de recursos indispensáveis a sua subsistência, ao desenvolvimento
de sua personalidade e a sua integração na vida comunitária".38 As
necessidades básicas são entendidas como funções de saúde, educa-
ção, recreação, amor e compreensão e segurança social. "A segu-
rança do menor consiste na proteção efetiva (social e legal) a sua
família e, bem assim, na preservação e na defesa do próprio menor
contra o abandono, a crueldade, a corrupção ou a exploração. Esse
amparo melhor se dispensará na reintegração ao ambiente fami-
liar".39 No que concerne ao infrator, mais especificamente iremos
encontrar a formulação seguinte: "o desajustamento do menor (de-
corre), principalmente, da indigência ou desórganização do meio
doméstico, (sendo que) a proteção àquele deve integrar-se em pro-
gramas de Proteção Social à Família, constituindo ponto fundamen-
tal em toda política de bem-estar do menor".40
É acionado o saber científico para explicar a condição dos do-
minados. O saber interdisciplinar moderniza a estratégia de domina-
ção na medida em que passa a contar com especialistas universitá-
rios responsáveis por estabelecer formas de controle que sejam efi-
cientes e inibam a repressão policial. Ao mesmo tempo, reformas ar-
quitetônicas e novos prédios são acoplados a essa nova estratégia vi-
sando obter legitimidade pela modernização do atendimento.

A ASSOCIAÇÃO POBREZA-CRIMINALIDADE:
UMA FACA DE DOIS GUMES

Recompor coisas significa compor os mesmos elementos de


forma diferente. Como toda modernização cria marginalização, esta
cria delinqüentes. A resposta dada pelo Estado brasileiro é a criação
das FEBEMs, para crianças, dirigidas pela PNBEM. É a resposta
(não necessariamente a definitiva) que se considera a melhor.

Os Basaglia demonstram a maneira pela qual podemos enten-


der os fundamentos das FEBEMs: "o problema real do marginal se
converte em ideologia da marginalização, que se concretiza, por sua
vez, na sistemática proposta de criação de instituições destinadas a
cuidar do marginal (instituições que cada vez mais estão adequadas
à necessidade de manipulação que, somente na aparência, represen-
tam uma solução) mediante o dilema de sociedade anônima ou co-
munidade terapêutica".41

Esses autores chamam a atenção para o fato de que a moder-


nização da instituição vem sempre acompanhada de um novo discur-
so, não necessariamente o pacto com o novo significa abolição do
antigo mas, o que tornará o velho, novo, será justamente a forma
discursiva. Noutras palavras, a substituição de controles sociais ve-
lhos por novos torna-se impossível quando os velhos são satisfató-
rios na maioria dos aspectos e, quando não se altera o foco de per-
cepção do poder da instituição pelos clientes. Com o novo o que irá
acontecer será uma nova linguagem como forma de garantia à inati-
vidade perfeitamente ajustável a uma opção de política econômica
específica.

Michel Foucault, por sua vez, insiste que o controle tem por
método a disciplina aplicada em direção à docilidade dos corpos,
isto é, à utilidade e obediência.42 A utilidade e a obediência estão
diretamente associadas ao surto industrializante que põe em destaque
o aumento e utilização racional das energias econômicas do corpo
levando à minimização das forças políticas.

A disciplina, sendo a arte de repartir os corpos e extrair e acu-


mular o tempo deles, passa a ser não uma determinação das relações
de produção repercutindo nas instituições mas, pôr em jogo um
conjunto de princípios articulados definindo o exercício político da
vida nas instituições, lugar, gestos, palavras, referências que reafir-
mam a subordinação.

Quando nos remetemos à criação da PNBEM tivemos em


mente examiná-la dentro dos parametros que levaram à criação de
uma "nova" forma de equacionar um problema social- no que inci-
de o princípio de seletividade de demandas, ajustando-se aos dispo-
sitivos de controle acionados pelo Estado, como referendum a uma
determinada forma de organização política.

As diretrizes da PNBEM somente passam a ser efetivas quando


explicita-se a forma de saber que elas enunciam; verificada poste-
riormente em que condições essa forma de saber se ancorou, perce-
bemos a ligação com um poder específico, agenciando um corpo teó-
rico-explicativo; esse corpo, procurou dar conta do problema, er-
guendo-se como verdade de poder que serviu de suporte para a con-
tinuidade institucional.

Dessa maneira, enfatizamos que as instituições procuram a pe-


renidade (a escola, a prisão, o manicômio, as reclusões para meno-
res, os parques nacionais indígenas, etc.) justamente por se adapta-
rem a qualquer forma de regime político no Estado.

Crime e castigo é um "casamento" conhecido; essa parceria


ocorre em todos os níveis sociais, diferindo em natureza e grau, sen-
do conseqüência na sociedade administrada, da formalização jurídica
das relações sociais e da tecnificação das políticas estatais.

À sua maneira, Edmundo de Campos chamou atenção para a


aproximação imediata e perigosa, entre criminalidade e pobreza. Sa-
lienta que essa associação é positiva, pois além de conceder "aval
não apenas às distorções dos dados oficiais mas também - e muito
mais grave - às preservações das práticas políticas que produzem",
- autOritárias e repressivas - acaba restringindo o crime a uma
reaçãO à pobreza, isto é, como estratégia de sobrevivência: enfim,
uma retórica que evidencia "ser reacionária e sociologicamente
perversa".43

O autor procura mostrar que é pouco interessante o pesquisa-


dor prostrar-se perante a evolução das leis penais, ou perante a ação
das agências oficiais, visando descobrir a origem de certos compor-
tamentOs considerados criminosos, quando o relevante deve ser
"desvendar os processos sociais pelos quais respostas institucionais
a comportamentoS desviantes resultam na elaboração da identidade
de carreiras criminosas".44

Não deixa de ser efetiva a indicação de Campos, perversidade


à parte, quando a pobreza for considerada generalidade para estig-
matizar o proletariado. Engels salientou que a lei "não aparece de
modo algum na história como resultado da rapina e da violência;
pelo contrário, existe já, ainda que limitada a certo número de obje-
tos, na antiqüíssima comunidade primitiva de todos os povos civili-
zados, e desde logo, na troca com estrangeiros, na forma de uma
mercadoria".45

Reduzir a tese de associação positiva entre criminalidade e


classes sociais é próprio de uma percepção empiricista da sociedade,
que através do próprio discurso político de uma instituição passa a
dar a justificativa para seu funcionamento. Na verdade, essa asso-
ciação positiva favorece a reprodução das desigualdades na medida
em que estas se erguem na sociedade por diferenciações individuais
eXpressas nos comportamentos dos indivíduos, a partir de uma maior
ou menor introjeção dos valores considerados essenciais. Considera-
se desajustado ou delinqüente todo aquele que fere com sua ação a
ordem, sintetizada no crime contra o patrimônio.

Como o mais importante é minimizar esses impactos crescen-


tes, o erguimento institucional vem se autojustificar no atendimento
aos sujeitos de comportamentos desviantes, apresentando para o
restO da sociedade o seu caráter de bem-estar na medida em que,
como mecanismo de controle social, procura estabilizar o inevita-
velmente desestabilizado. A associação, por fim, torna-se perfeita
para aqueles que acreditaram que a criação da pólvora foi um ato de
violência.

Poderíamos concordar com Campos caso a chamada associa-


ção positiva pobreza-crime revelasse também que ela favorece o
Estado ao colocar sob suspeição a classe operária como um todo.
Para o Código de Menores o reconhecimento da infração está em
violar as garantias contra a propriedade.

Dentro da instituição, no entanto, será através do levantamento


biográfico da vida do infrator que ele será caracterizado como delin-
qüente. É o trabalho dos técnicos institucionais, associando infração
à condição de pobreza que o eleva à condição de delinqüente. A
partir desse momento, por estar disciplinarmente disposto numa ins-
tituição austera, poderemos ter também a ocorrência de constituição
de carreiras criminosas. Os próprios dispositivos disciplinares são
neste caso, por excelência, meios para a criança ou adolescente co-
meterem infrações internas na instituição que serão acrescentadas ao
seu prontuário, mostrando-nos, aí sim, o quanto de infratores se cria
numa instituição e quantos delinqüentes ela acaba liberando. Isso
porque os criminosos conhecem de antemão o que a instituição aus-
tera espera dele como comportamento exemplar, fazendo desse bom
comportamento o meio para ser libertado o mais rápido possível. Ao
mesmo tempo, introduz aquele que desconhece o que dele se espera
numa carreira criminosa.46 É assim que a instituição contribui para
formar carreiras criminosas: propiciando aos técnicos, através da
"elogiada" interdisciplinaridade, criar mecanismos para avaliações
e programas que revertem a sua própria reprodução. Deixando de se
tornar austera, essa instituição somente evitará ser centro de empre-
gos úteis, quando abandonar a disciplina aos corpos e mentes, sa-
bendo lidar com o sentido de liberdade dado pelo infrator e deixan-
do de associar a infração à biografia, ou seja, crime a pobreza.47

José Ricardo Ramalho48 mostra-nos que há uma identificação


arbitrária do "pobre" com o delinqüente, caracterizando a duvidosa
suspeição de que habitar a periferia da cidade em favelas ou blocos
do BNH é meio caminho para a delinqüência. O habitante da perife-
ria está sujeito à analogia com o delinqüente pelo exercício da polí-
cia e da justiça.

O favelado procurará diferenciar-se dos chamados delinqüen-


tes, isolando-se na própria favela. Não obstante, a polícia continuará
a confundi-lo durante as "batidas": a condição de favelado torna-se
fundannental para o exercício policial. Sem chamar atenção para o
exercício da repressão (a localização geográfica do proletariado na
periferia e o erguimento de instituições de bem-estar a partir da po-
lítica econômica estatal como estratégia de poder, beneficiando os
parasitas que a circundam) somente estaremos agindo como pastores
modernos que oferecem o rebanho para o jantar, depois de um banho
perfumado (Saló).

Seria obtuso querer justificar a instituição austera pelo exercí-


cio de classe como um per si, pois é na capacidade de se autojustifi-
car que a instituição reafirma os dispositivos disciplinares visando
sua estabilidade. O que está em jogo não são carreiras criminosas,
capacidade de controle das associações de defesa dos menores, inte-
gração do infrator na sociedade através do trabalho, educar ou escla-
recer pais e famílias. O que está em jogo é a estabilidade institucio-
nal; é o chamado serviço público em defesa da segurança do cida-
dão; é a formação de um cidadão conformista; é o momento do saber
das ciências humanas definindo os rumos possíveis de uma institui-
ção austera no Brasil.
Para a PNBEM o importante foi atacar as causas da marginali-
dade pelos seus efeitos, isto é, o marginal. Nesse sentido, empe-
nhou-se em transformar uma visão tradicionalista do problema em
uma visão moderna (que se estrutura a partir da entrada do país na
era da "potência emergente") e em considerar a clientela a partir de
seus componentes biopsicossociais desviantes. Iniciou-se a era da
construção do objeto como decorrência sociopatológica Atualizou-
se, assim, um saber especializado (substituição do enclausuramento
e da perseguição policial pelo atendimento em unidades especializa-
das, agilizadas por técnicos de instrução superior, substituindo o re-
colhimento carcerário), exigência provocada pelo crescimento da
miserabilidade. Assumiu-se o caráter generalizante de identificação
da pobreza com a criminalidade, com a atenuante de dar empregos
úteis e acelerar um certo controle social, objetivando perpetuar a
instituição para além do regime político. Antes de ser um bem-estar
social, é um bem-estar estatal. Ainda que lhe tenha custado críticas,
pode sempre recorrer ao passado da forma do atendimento como
justificativa para sua ação, expressando o "ruim com, pior sem".

Menor é, portanto, a forma jurídico-social do controle estatal


sobre as crianças e jovens do proletariado que estão condenados ao
estigma pela sua condição de possivel infrator, identificado como
delinqüente pelo saber das instituições austera. Substituir o termo

menor por criança e adolescente pode trazer apenas nova moderni-


zação reconfortante aos técnicos e aos internos políticos de ocasião.

Por outro lado, saber operar com a categoria menor como es-
tigma e, ao mesmo tempo, como elemento de uma política de resis-
tência e enfrentamento ao Estado, passa a ser uma das possibilidades
para que estratégias possam se articular libertariamente.

NOTAS

1. A lei das XII Tábuas distinguia os menores em púberes e impúberes, es-


tando estes últimos sujeitos ao castigatio; a legislação de Justiniano, ainda
dentro do direito romano, estratificava-os da seguinte maneira: os me-
nores de 7 anos (infantes) que estariam isentos de sanções e, os impúberes
(de 7 a 14 anos) que teriam suas infrações verificadas para a aplicação de
sanções que poderiam ir desde pequenas penas corporais, mutilações e até
à morte.

2. RODRIGUES, Leôncio Martins, "Sindicalismo e Classe Operária", in


FAUSTO, Boris (org.) Brasil Republicano. São Paulo, DIFEL, 1977, III.
3,p.515.

3. Apresentação da Lei dos Estatutos da Fundação Nacional do Bem-Estar


do Menor, 30/9/1965, in ALTENFELDER, Mário. Bem-Estar e Promo-
ção Social. São Paulo, Secretaria da Promoção Social, 1977.
4. ALTENFELDER, Mário, "O Menor e a Segurança Nacional", in Segu-
rança e Desenvolvimento, ADESG, Rio, n° 51, 1973.

5. Idem, ibidem.

6. Idem, ibidem. Com relação ao problema do menor e a segurança nacional


é interessante notar que esse tema somente é atacado nos pronunciamen-
tos feitos na ESG e ADESG. Entre eles destacamos: "O Menor e suas
Carências" de 26/6/1976 e "O Problema do Menor no Brasil" de
10/10/1969. Nos demais pronunciamentos feitos fora, a relação seguran-
ça-menor aparece dissolvida, por vezes, na necessidade de se compro-
meter "comunidades", outras, para realçar medidas tomadas pela FU-
NABEM e, outras ainda, para efeitos de discurso.

7. Idem, ibidem, p. 383.

8. Idem, ibidem, p. 384.

9. ALTENFELDER enfatiza por diversas vezes em seus pronunciamentos


que o projeto que criou a FUNABEM esteve orientado pela Ação Arqui-
diocesana que deu suporte à comissão que o criou. A redação final foi
elaborada pelo então ministro Prado Kelly e Milton Campos, encaminha-
da ao presidente Castelo Branco e, "não foi nada fácil fazê-lo (o projeto)
passar na forma original pelo Congresso", devido exclusivamente ao fato
de "haver proprietários na divisão de atribuições administrativas com
propriedades pessoais e alas partidárias". Idem, ibidem, p. 386.

10. Idem, ibidem, p. 384


11. Idem, ibidem, p. 385.
12. Como exemplo dessa evidência bastaria verificar que no conjunto de
dis-
cursos proferidos pelo Dr. Mário Altenfelder, o menor não esteve pre-
sente, assim como suas famílias, com algumas exceções como "Ontem,
Hoje e Sempre Brasil", 6/7/1971, proferido em Quintino, Rio, no en-
cerramento da Semana da Pátria, quando o objetivo era exaltar o Exér-
cito, ou ainda no discurso que está sendo tomado como referência até
agora. Em suma fala-se sobre o menor para os outros.

13. Ver em especial os artigos escritos por GLAUCO CARNEIRO na Re-


vista Brasil Jovem, onde o autor faz a exegese de tal linha de pensamento.

14. ALTENFELDER, Mário "O Menor e a Segurança Social", op. cit. p.


390

15. A este respeito, ver ALTENFELDER, Mário, "Proteger a Família, De-


senvolvimento Social e os Problemas dos Menores"; "A Proteção da Fa-
mília"; e, "Fortalecimento da Família: Uma Tomada de Consciência",
entre outros, in op. cit.
16. Em relação à percepção de família, o estudo mais sistemático é o de
um ex-presidente da FEBEM-SP; MARQUES, João Benedito de Azevedo
Marginalização: O Menor e a Criminalidade, Rio de Janeiro, McGraw-
Hill do Brasil Ltda., 1976.

17. ALTENFELDER, Mário, "O Menor e suas Carências", palestra proferi-


da na ESG em 20/9/1976, in op. cit., p. 82.

18. EASTON, David, "Uma Tentativa de Análise dos Sistemas Políticos" in


EASTON et alii Sociologia e Política II. Rio de Janeiro, Zahar, 1977, p.
40-41

19. ALTENFELDER, Mário, "A Integração do Menor na Família e no Meio


Ambiente", palestra proferida no IX Congresso nacional de S.O.S. em
Ponta Grossa-PR, em 27/8/1976, in op. cit. p. 70.

20. ALTENFELDER, Mário "Criança Americana: 50 Anos de Problemas e


Soluções" discurso pronunciado na sessão de abertura do II Congresso
Interamericano da Criança, Montevideo, 6/6/1977, in op. cit. p. 149-150,
e os já citados discursos de Glauco Carneiro que foi assessor de Altenfel-
der

21. ALTENFELDER, Mário "O Menor e a Segurança Nacional", in op. cit.


p. 394.

22. Idem, ibidem, p. 382.

23. Idem, ibidem.

24. ALTENFELDER, Mário, "O Menor e suas Carências", palestra proferi-


da na ESG em 20/9/1976, in. op. cit., p. 82-83

25. MEIRA MATTOS, A Geopolítica e as Projeções do Poder, Rio de Ja-


neiro, José Olympio, p. 54.

26. Idem, ibidem.

27. Idem, ibidem, p. 55.

28. Castelo Branco, "Aula Inaugural", ESG, 1967.

29. MEIRA MATTOS, op. cit., p. 41.

30. Idem, Geopolítica e Destino, Rio de Janeiro, José Olympio,1975, p.


86.

31. Idem, ibidem, p. 62.

32. MEIRA MATTOS, A Geopolítica e as Projeções do Poder, p. 42.


33. Idem, ibidem.

34. Idem, ibidem, p. 48.

35. Discurso do Secretário de Promoção Social de São Paulo, MARIO RO-


MEU DE LUCCA, in Anais da xVI Semana de Estudos do Menor, 1974,
p. 51.

36. ALTENFELDER, Mário, "Governo Mostra à Imprensa a Triste Condi-


ção do Menor em São Paulo", março/ 1975, in op. cit., p. 124-125.

37. Anais da XI Semana de Estudo do Problema do Menor, São Paulo, 1976,


p.291.

38. Diretrizes Operacionais da FEBEM-SP, Diretoria Administrativa, ju-


nho/ 1980.

39. Idem, art. 2.5.

40. Idem, art. 4.

41. BASAGLIA, Franca & BASAGLIA, Franco. La Mayoria Marginada,


Barcelona, Laia, 1977, p. 105.

42. FOUCAULT, MicheL Vigiare Punir. Petrópolis, Vozes, 1977, 3ª parte.

43. CAMPOS, Edmundo, "Sobre os Sociólogos, Pobreza e Crime", in Re-


vista Dados, vol. 23, n° 3, Rio de Janeiro, IUPRJ, 1981.

44. Idem, p. 379.

45. ENGELS, Friedrich. O Anti-Dühring, Lisboa, Ed. Afrodite, 1971, p.


201.

46. A esse respeito ver QUEIROS, J. J. (org.) O Mundo do Menor Infrator.


São Paulo, Cortez, 1984; VIOLANTE, M. L. V. O Dilema do Decente
Malandro, São Paulo, Cortez, 1982; e ARRUDA, R. S. V. Pequenos
Bandidos, São Paulo, Global, 1983.

47, Ver PASSETTI, E. "Menores: Os Prisioneiros do Humanismo", in Re-


vista Lua Nova, vol. 3 nº 2, out-dez 1986; PASSETTI, E. "Bem-Estar do
menor Apontamentos sobre Genocídio Programado", in Revista São
Paulo em Perspectiva, voL 1, nº 1, abriljunho 1987.

48. RAMALHO, José Ricardo. O Mundo do Crime: a Ordem pelo Avesso,


Rio de Janeiro, Graal, 1979.
OS AUTORES NO CONTEXTO

Mary Del Priore é professora do Departamento de História da


USP e coordenadora de pesquisa do CEDHAL/USP.
Laura de Mello e Souza é professora do Departamento de
História da Universidade de São Paulo.

Luiz Mott é professor do Departamento de Antropologia da


Universidade Federal da Bahia.

Lana Lage da Gama Lima é professora do Departamento de


História da Universidade Federal Fluminense.

Renato Pinto Venancio é professor de História da Universida-


de Federal de Ouro Preto e coordenador de pesquisa do
CEDHAL/USP.

Kátia de Queirós Mattoso é professora da Universidade de Pa-


ris-Sorbonne (Paris IV).

Miriam Lifchitz Moreira Leite é pesquisadora do CAPH/USP e


assessora do CEDHAL.

Esmeralda Blanco Bolsanaro de Moura é professora do De-


partamento de História da USP.

Fernando Torres Londono é professor do Departamento de


História da PUC-SP e pesquisador do CEDHAL.

Edson Passetti é professor do Departamento de Política da


PIJC-SP.