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Olho pela janela…as andorinhas passam em voo rasante, cantando as suas canções do fim do

dia. Voam em movimentos aparentemente desconexos, quase “loucos”, sobem bem acime dos
telhados e descem perigosamente quase até à rua, desafiando os carros que passam,
lembrando aquelas imagens dos aviões de caça nos filmes de guerra, quando picam sobre o
inimigo.

Olho pela janela… e recordo um poema do Ari:

“Então, Ain Soph restringiu-se a Si Mesmo, no Seu ponto médio, precisamente no centro,

E Ele restringiu essa Luz, e afastou-se para longe para os lados que rodeiam aquele ponto

médio.

E lá permaneceu um espaço vazio, o ar vazio e o vácuo

Precisamente do ponto médio.

Eis que essa restrição foi igualmente ao redor desse ponto médio vazio,

Para que o espaço vazio circulasse uniformemente ao seu redor.

E após a restrição, permaneceram um espaço vazio e vago

Precisamente no meio da Luz de Ain Soph,

Um lugar foi formado, onde as Emanações, Criações, Formações e Ações possam residir.

Então da Luz de Ain Soph, uma única linha pendeu do Alto, baixando para aquele espaço.

E através dessa linha, Ele emanou, criou, formou e fez todos os mundos.”

Ha’ Ari “ A Árvore da Vida” Parte Um, Portão Um1

Não deixa de ser interessante a forma como o Há’Ari, em pleno Século XVI, descreve o que
hoje nos propõe a mecânica quântica aliada com as mais arrojadas teorias científicas.
Tudo emana de um “ponto central” e se expande no universo que conseguimos observar,
aparentemente sem um “término” que possamos prever mas, em simultâneo, nos diz que o
“ponto central” é a forma como o Divino, não sendo físico e sendo Eterno, potencia a
manifestação material que conhecemos, não só, como o universo que conseguimos observar,
mas, também, como todos os outros universos que presumimos existir, dependentes (ou
não…) das dimensões que conseguirmos percepcionar. Mas quantas dimensões? Cinco, seis,
dez, mil, milhões? Ou mais?
As últimas investigações dizem-nos que o cérebro pode, pelo menos, apreender onze
dimensões…

Admiro a ciência…procura explicar e racionalizar tudo o que os nossos sentidos nos


transmitem. Procura medir, pesar, teorizar, testar a teoria, verificar os resultados e compará-
los com a teoria. Refazer a teoria se os resultados não são conformes com a mesma…é um

1
Ha’Ari, “O Leão”, nome pelo ficou conhecido o Rabino Isaac Luria, eminente Cabalista do séc. XVI
método “escolástico”, “racional”, “rigoroso”…mas, Aristotelicamente, sem imaginação, sem
“rasgo intelectual”, sem pensamento “out of the box”, como se diz actualmente…depois, de
vez em quando, surge alguém como Dirac, ou Dyson, ou Sagan que dão um “salto quântico” e
nos transportam ao futuro – ainda que no presente…ou Lobachevsky, por exemplo, que nos
demonstra que afinal, duas paralelas não são tão paralelas como postulava Euclides…
Afinal, a ciência, à medida que o tempo passa, aproxima-se, cada vez mais, das belas palavras
do Ari…sim, porque usamos padrões de césio e de rubídio e outros métodos ainda mais
sofisticados, para medir o tempo, mas só medimos desde o “ponto central” (longínquo que
possa ser) para a frente, porque não conseguimos medir o tempo antes de existir tempo, nem
o podemos medir o tempo depois de o tempo acabar…

Por essa razão – e fundamentalmente, por essa – é que não conseguimos aproximar-nos, nem
de muito longe, de entender a eternidade, para a qual no tempo não existe…
O Ain Soph, poderá – eventualmente – ser “interpretado” pelo nosso pensamento “racional”,
mas, apenas, quando não racionalizarmos. O Ain Soph não se “pensa”, “sente-se”.

Antes de escrever as últimas linhas desta crónica, olho, outra vez, pela janela…as nuvens
mesclam-se com a serra em padrões inimagináveis e as andorinhas continuam a voar,
descrevendo trajectórias “impossíveis”, em volutas dignas do mais lendário artesão do ferro e
da forja. Elas, as andorinhas, assim como as nuvens, não “pensam” na geometria, Euclidiana ou
não, nos padrões de césio e de rubídio, nos buracos negros e na lei da gravidade.
Apenas existem, em harmonia com a manifestação do Ain Soph…