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Walter Benjamin e a teoria messiânica da história


RUI BRAGADO SOUSA*

Resumo: Escovar a história a contrapelo. Talvez seja esta expressão, descrita


na sétima tese Sobre o conceito de História, que melhor sintetize o pensamento
benjaminiano acerca da historiografia positivista e historicista dominante no
período entre guerras e de ascensão do fascismo. Através da estética social, da
crítica literária e da arte, Benjamin apreendeu como poucos autores do seu
tempo a realidade sociocultural e política que levavam a Europa rumo à
catástrofe iminente. A partir das premissas apocalípticas, sobretudo para um
judeu, nas décadas de 1920 e 1930, este autor concebeu uma aproximação
original e coerente entre Materialismo Histórico e teologia, entre messianismo
judaico e marxismo, para possibilitar, dessa forma, “mobilizar para a revolução
as energias da embriaguês”. Para romper com a reificação do moderno
trabalhador industrial, com a crença ilimitada no progresso da técnica, com a
concepção de tempo linear, homogêneo e vazio, para recuperar a “aura
perdida”, Benjamin desenvolve o conceito de “interrupção messiânica”. É esse
conceito que este artigo pretende abordar, relacionando-o sempre com os
exemplos empíricos de messianismo e milenarismo.
Palavras-chave: Messianismo; Materialismo Histórico; Filosofia da História.
Abstract: Brushing history against the grain. Perhaps this expression,
described in the seventh thesis On the concept of History, which synthesizes
the best thinking about Benjamin positivist historiography and historicism
dominant between the wars and the rise of fascism. Through the social
aesthetics, literary criticism and art, Benjamin seized as few writers of his time
to social and political reality that led Europe to disaster imminent. From the
apocalyptic assumptions, especially for a Jew, in the 1920s and 1930s, this
author has designed a unique approach and consistent Historical Materialism
and theology, between Jewish messianism and Marxism, to enable, thus “to
mobilize for the revolution energies of intoxication”. To break the reification of
the modern industrial worker, with the belief in unlimited progress of
technology, the design of linear time, homogeneous, empty, to recover the “lost
aura”, Benjamin develops the concept of “messianic interruption”. It is this
concept that this article seeks to address, relating it always with the empirical
examples of messianism and millenarianism.
Key words: Messianism; Historical Materialism; Philosophy of History.
                                                            

*
RUI BRAGADO SOUSA é mestrando em História pela Universidade Estadual de Maringá
(UEM)
 

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Meu pensamento se comporta em compartilhando a opinião de Michael


relação à teologia como o mata- Löwy (2005) e Leandro Konder (1989)
borrão em relação à tinta. Ele está – uma das manifestações mais
todo impregnado dela. Mas se fulgurantes da filosofia política do
fosse ocorrer segundo o mata- século XX.
borrão, aí não sobraria nenhum
resto do que está escrito. (Walter Sua linguagem alegórica e
Benjamin, Passagens) freqüentemente hermética impede que
abordemos algumas obras ainda
enigmáticas como “Origem do drama
Amigo de Bertold Brecht e Ernst Bloch, barroco alemão”. Embora a recente
influenciado por História e Consciência publicação intitulada Benjaminianas de
de Classe, de Lukács e pela mística Olgária Chain Matos traga uma
cabalística de Gershon Scholem, Walter interpretação clara e coerente para a
Benjamin foi o autor que conseguiu Tese de livre docência de Benjamin,
aproximar marxismo e teologia em uma relacionada à cultura capitalista e ao
das filosofias da História mais originais fetichismo contemporâneo, alguns
do século XX. Benjamin escapa a conceitos ainda permanecer obscuros.
qualquer classificação, foi um teólogo, Hannah Arendt qualificou Ursprung des
segundo Scholem; filósofo, para deutschen Trauerspiels1 como “um
Hannah Arendt; foi ainda crítico livro maldito”, pela sua complexidade.
literário e tradutor. Mas foi como Mas o restante de sua produção possui
ensaísta que ele deixou uma herança analistas, comentadores e críticos que
cultural notável. Ensaios como “O nos auxiliam na interpretação desse
Narrador”, “A obra de arte na era de sua autor único; como descreve Romero
reprodutibilidade técnica”, o conjunto
de aforismos e fragmentos descrito por
                                                            
Ernst Bloch como um mosaico 1
A mais recente versão em português traduz
surrealista denominado “Rua de mão “drama barroco” por “drama trágico”.
única”, e as magistrais “Teses sobre o BENJAMIN, Walter. Origem do drama trágico
conceito de História” são – alemão. Tradução João Barrento. Belo
Horizonte: Autêntica Editora, 2011.
 

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Freitas2, em dossiê sobre Benjamin, econômico, “ele vislumbrou a


atualmente seus estudos encontram-se interrupção messiânica do curso da
num nível maduro no Brasil. Desde os história, intervenção redentora para
seus primeiros escritos em 1914 até o arrancar, no último momento a
último de 1940, encontram-se humanidade da catástrofe”: o fascismo
carregados de uma carga utópico- (LÖWY, 2008, p. 192).
messiânica que, na década de 1920 irá
Teologia e Política
se articular com o materialismo
histórico. É justamente esta Em artigo apresentado ao Instituto de
aproximação, articulação, ou mesmo Estudos Avançados da USP, Michael
fusão entre dois conceitos Löwy (2002) reitera que a filosofia da
aparentemente antitéticos que este história de Walter Benjamin bebe em
artigo pretende abordar. três fontes diferentes: o romantismo
Compreendendo, entretanto, que a alemão, o messianismo judeu e o
articulação entre messianismo histórico marxismo. Não é uma combinatória ou
e materialismo histórico pressupõe a “síntese” dessas três perspectivas
superação de algumas antinomias (aparentemente) incompatíveis, mas a
tradicionais como ateísmo e religião, invenção, a partir delas de uma nova
materialismo e espiritualismo, concepção, profundamente original.
romantismo e materialismo3. Löwy adverte quanto ao perigo de
sistematização das obras benjaminianas
A filosofia da história de Benjamin tem
como um todo homogêneo, sem a
como centro a crítica ao progresso, à
influência do marxismo nos anos de
técnica capitalista e à reificação dos
1920. No entanto, paradoxalmente, não
trabalhadores (ou, a perda da aura –
há um corte epistemológico da
conceito benjaminiano) e à concepção
juventude “idealista” e teológica, da
de tempo linear, “homogêneo e vazio”
“materialista” e revolucionária da
da social-democracia4 que entendia a
maturidade, o que ocorre é uma
vitória frente à burguesia como uma
simbiose cultural e política. Citando um
questão de tempo, e como algo que
dos primeiros escritos de peso do jovem
ocorreria inexoravelmente. Para romper
Benjamin, de 1914, “A vida dos
com esse determinismo da II e III
Estudantes”, pode-se compreender a
Internacional, de que a revolução seria o
dimensão imanente e transcendente do
coroamento do progresso técnico e
autor:
                                                            
2
Artefilosofia. Dossiê Walter Benjamin. Ouro Confiante no infinito do tempo,
Preto, n.6, abr. 2009. certa concepção da história
3
Autores como Benjamin tendem a escapar às discerne apenas no ritmo mais ou
distinções tradicionais entre religião e vida menos rápido, segundo o qual
secular, sagrado e profano (Durkheim), natural e homens e épocas avançam no
sobrenatural (Max Weber), transcendente e caminho do progresso. Donde o
imanente (Eliade). O termo ateísmo-religioso – caráter incoerente, impreciso, sem
proposto por Lukács a propósito de Dostoiévski
rigor, da experiência dirigida ao
– permite delimitar essa figura paradoxal e
buscar o ponto de convergência messiânica presente. Aqui, ao contrário, como
entre o sagrado e o profano (LÖWY, 1989). sempre têm feito os pensadores,
4
“Nossa causa está cada dia mais clara e o povo apresentando imagens utópicas,
cada dia mais esclarecido” (Filosofia social- vamos considerar a história à luz de
democrata). uma situação determinada que a
 

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resume em um ponto focal. Os muitas vezes revolucionários, desde a


elementos da situação final não se tradição de Joaquim de Fiore,
apresentam como tendência albigenses, hussitas, Thomas Munzer
progressista uniforme, mas, a título até os anabatistas. Ou, nas palavras do
de criações e ideias em enorme
próprio Marx:
perigo, altamente desacreditadas e
ridicularizadas, incorporam-se de Os princípios sociais do
maneira profunda a qualquer cristianismo tiveram agora dezoito
presente (...). Essa situação só é séculos para se desenvolver (...).
apreensível na sua estrutura Os princípios sociais do
metafísica, como reino messiânico cristianismo justificaram o antigo
ou a ideia revolucionária (apud escravismo, enalteceram a servidão
LÖWY, 2002, p. 02). feudal na Idade Média e
igualmente se prestam para, em
Jeanne-Marie Gagnebin, uma caso de necessidade, ainda que com
especialista em Benjamin, concorda um semblante um pouco
nesse aspecto com Michael Löwy, deplorável, defender a opressão do
afirmando que a originalidade e o brilho proletariado (...). Os princípios
do pensamento benjaminiano estão sociais do cristianismo são servis, e
justamente na “junção perigosa e o proletariado é revolucionário
esplêndida, de motivos materialistas e (...).5
marxistas com temas teológicos e Uma definição do messianismo descrito
messiânicos”. Mas há uma distinção por Ernst Bloch, um importante
entre o religioso e o teológico. interlocutor de Benjamin, também
“Defendo, pois, a hipótese – escreve corrobora com a separação entre
Gagnebin (1998, s/p) – de que o teologia e religião feita por Gagnebin.
pensamento de Benjamin foi Para Ernst Bloch, o filósofo da utopia e
profundamente marcado, impregnado, da esperança, “o messianismo é o sal da
como ele mesmo diz, por motivos terra – e do céu também; para que não
oriundos da tradição teológica”, antes só a terra, mas também o céu
de tudo judaica, mas também cristã; em intencionado não se tornem insípidos. O
contrapartida, seu pensamento mantém que o numinoso prometeu o messiânico
uma distância crítica importante com se dispõe a cumprir” (BLOCH, 2006, p.
relação à religião e ao religioso, no 384, 385).
sentido etimológico da palavra, de
Existem alguns traços do messianismo
religio, de re-ligação ou integração do
judeu6 que se encontram também no
homem com o mundo, isto é, com a
aceitação do sofrimento e da morte por
meio do reconhecimento de um sentido                                                             
transcendente. 5
Obras póstumas, (apud BLOCH, 2006, p. 67 e
68).
A distinção proposta por Gagnebin, 6
Por exemplo, o conceito judaico de Tikkun (na
entre teologia e religião, fica evidente se linguagem cabalística significa a restituição, o
relacionarmos à religião conservadora, restabelecimento da ordem cósmica prevista
atrelada à ortodoxia católica que visa pela providência divina, através da redenção
messiânica), tem seu equivalente cristão no
justificar determinado status-quo. Em Apocatástase. Embora o messianismo cristão,
contrapartida, os movimentos heréticos pela tradição agostiniana seja mais
são contestadores da ordem social e contemplativo que o judaico.
 

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messianismo cristão7 e se estendem ao vontade própria e por si mesmo,


milenarismo8 cristão. Mas para o querer se referir ao messiânico. Eis
messianismo judeu, a redenção acontece por que o Reino de Deus não é o
coletivamente na cena histórica, ela não telos da dinâmica histórica; ele não
pode ser posto como meta. Visto
é concebível no plano puramente
historicamente, ele não é meta, mas
espiritual, na salvação da alma, como no fim. Eis por que a ordem do
cristianismo. Em Walter Benjamin, a profano não pode se edificar
separação rigorosa entre a esfera do segundo o pensamento do Reino de
religioso e a do político aparece, vinte Deus, eis por que a teocracia não
anos antes das “Teses sobre o conceito tem nenhum sentido político, mas
de história” no “Fragmento teológico- tão somente um sentido religioso
político”, de 1920. Neste ensaio, (apud GAGNEBIN, 2009, p. 93).9
publicado em português em 2012, já é Acerca da dimensão política e teológica
possível observar a aproximação da do ensaio de Benjamin, Gagnebin
mística judaica (Gershon Scholem e (1998) conclui que o Messias nos livra
outros sionistas), com certo marxismo justamente da oposição entre o histórico
(em particular com o livro de Ernst e o messiânico, entre o profano e o
Bloch de 1918, o Espírito da Utopia e sagrado, pois a teologia –
com a Teoria do Romance, de Lukács). contrariamente à religião ou à teocracia
No “Fragmento teológico-político” – não é uma construção especulativa
pode-se ler acerca do messias e do dogmática, mas sim um discurso ou
político: saber sobre Deus (theos), consciente de
O próprio Messias, apenas ele, é que o “objeto” lhe escapa por ele se
que perfaz todo o advir histórico, situar muito além (ou aquém) de
no sentido que só ele liberta, qualquer objetividade. Nesse sentido,
cumpre, leva ao cabo a sua relação pode-se dizer que em Benjamin, a
com o próprio messiânico. Eis por realização messiânica é também a
que nada de histórico pode, por realização da felicidade terrestre. Para
                                                             Gagnebin, o uso correto da teologia
7
Algumas definições teórico-metodológicas lembraria assim, contra a hybris dos
sobre o messianismo cristão encontram-se em saberes humanos, que nossos discursos
LANTERNARI, Vittorio, As religiões dos são incompletos e singulares, e vivem
oprimidos, pp. 319 a 339; PEREIRA DE
QUEIROZ, Maria Isaura, O messianismo no
dessa preciosa fragilidade. “Seria o caso
Brasil e no mundo, p. 27; WEBER, Max, de citar Paul Ricoeur afirmando com
Sociologia das Religiões, p. 16 a 18. Em linhas força que a função do referente ‘Deus’
gerais, o Messias é alguém enviado por uma não é a de oferecer uma solução a
divindade, um líder carismático, para trazer a questões insolúveis: ele é muito mais, o
vitória do Bem contra o Mal, restituindo o
paraíso sobre a Terra. Relacionado, segundo                                                             
9
Weber aos povos párias; para Lanternari, aos A tradução portuguesa do “Fragmento” feita
oprimidos. recentemente por João Barrento (2012) está
8
“O milenarismo representa uma das formas ligeiramente modificada daquela transcrita por
assumidas pela frustração da espera messiânica” Gagnebin. Barrento é mais fiel ao alemão, o
(...). “Elas enunciam uma mudança radical, uma traduz “ao pé da letra” mas acaba por sacrificar
salvação coletiva, iminente, total. Afirmam o a poética e o estilo de escrita alegórico de
sentido da história. Apelam ao agir humano”. Benjamin. Por este motivo optamos pelas
DELUMEAU, Jean. Mil anos de felicidade, p. traduções de Gagnebin e de Sérgio Paulo
18. Rouanet, para as “Teses”.
 

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‘ponto de fuga, o índice de engajamento político não exclui a


incompletude de discursos parciais’” paixão que o leva a sonhar com a
(GAGNEBIN, 1998)10. redenção messiânica. Ainda no
Fragmento Teológico-Político,
Na mesma linha interpretativa de Löwy
Benjamin escrevia que “a tarefa da
e Gagnebin, o estudo de Leandro
política na luta pela libertação dos
Konder parece compartilhar de
homens só podia ser a da restitutio in
raciocínio semelhante quando afirma
integrum das experiências vividas pelos
que de maneira alguma o interesse pela
seres humanos no passado – tarefa que
teologia atenua ou desvia a paixão de
provinha, claramente, da religião” (apud
Benjamin pela política revolucionária.
KONDER, 1989, p. 37).
Citando Philippe Ivernel, Konder (1989,
p. 94) pondera que “Benjamin não Messianismo Judaico
buscava a teologia como compensação,
mas como intensificação da luta política Para melhor compreensão da
emancipadora; em sua reflexão, o aproximação entre messianismo judaico
messianismo judaico e a luta de classes e materialismo histórico, presentes
se ajudavam reciprocamente”. desde as primeiras obras de Benjamin
No mesmo sentido, Konder cita uma até a última, as célebres Teses “Sobre o
carta de 1926, onde Benjamin relatava conceito de História”, torna-se
amigo Gershon Scholem sobre sua necessária uma rápida abordagem
vontade de sair da esfera “puramente específica do judaísmo. Através das
teórica”, e esclarecia que a seu ver essa análises de Gershon Scholem, pode-se
superação poderia se realizar, afinal, equacionar a questão mais
tanto na política como na religião. precisamente. No ensaio “Para uma
Religião esta bem entendida no sentido compreensão da ideia messiânica no
teológico, uma vez que Benjamin judaísmo”, Scholem afirma: “O
recusou o convite de Scholem para apocalíptico popular (...) representa um
assumir uma cadeira na Universidade elemento de anarquia no próprio seio do
Hebraica de Jerusalém. Dito de outro messianismo utópico; ele devia
modo, a paixão que o leva ao conduzir à rejeição das antigas
proibições que perdiam sua significação
                                                            
10 no contexto novo da liberdade
Há um ensaio esboçado por Benjamin,
sugestivamente intitulado “O capitalismo como messiânica” (LÖWY, 2008, p. 132).
religião”, que corrobora com a argumentação de
Margarida Neves. “O capitalismo é uma religião Michael Löwy, em Romantismo e
de mero culto, sem dogma. O capitalismo Messianismo e em Redenção e Utopia,
desenvolveu-se no Ocidente de forma busca um “tipo ideal” para o
parasitária sobre o cristianismo – o que não se messianismo judeu, construído por
demonstra apenas com o exemplo do
Calvinismo, mas também com o das outras
Gershon Scholem, Karl Mannhein,
orientações ortodoxas cristãs. De tal modo que a Franz Rosenzweig, Marin Buber, entre
história do cristianismo se tornou outros, na primeira metade do século
essencialmente a do seu parasita, o capitalismo” XX. O messianismo judeu, escreve
(BENJAMIN, 2012, p. 37). Para Walter Löwy, contém duas tendências,
Benjamin, o capitalismo é um culto que não
redime, mas deixa um sentimento de culpa, não
intimamente ligadas e contraditórias ao
visa a redenção portanto. “É o fim da mesmo tempo: uma corrente
transcendência de Deus”, conclui. restauradora voltada para o
 

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restabelecimento de um estado ideal do indivíduo, e resultante de uma


passado, uma idade de ouro perdida, transformação essencialmente interna.
uma harmonia edênica rompida; e uma Para a tradição religiosa judia a chegada
corrente utópica, aspirando a um futuro do Messias é uma interrupção
radicalmente novo, a um estado de catastrófica, “uma teoria da catástrofe.
coisas que jamais existiu. “A proporção Essa teoria insiste no elemento
entre as duas tendências pode variar, revolucionário, cataclísmico, na
mas a ideia messiânica só se cristaliza a transição do presente histórico ao futuro
partir de sua combinação” (LÖWY, messiânico” (LÖWY, 2008, p. 134).
2008, p. 133).
Na tese de doutorado, O conceito de
O elemento utópico do messianismo crítica de arte no Romantismo Alemão,
remonta ao Antigo Testamento. Amós é de 1919, uma análise em torno de
o mais antigo entre os profetas (por Novalis e Schlegel, Benjamin insiste
volta de 750 a.C.) é o que acende o que a real face do verdadeiro
estopim: “Atearei fogo a Judá, e ele romantismo deve ser procurada no
devorará os palácios de Jerusalém (...). messianismo romântico. O vínculo entre
Porque venderam o justo por um romantismo e messianismo surge na
dinheiro e o pobre por um par de compreensão de sua filosofia
sandálias, (...) porque desviam os messiânica da história em gestação,
recursos dos humildes” (Amós 2,5-7). quando opõe uma concepção qualitativa
De maneira semelhante, em Isaías, Javé do tempo, “que provém do messianismo
é invocado como inimigo dos romântico”, e para a qual a vida da
expropriadores dos camponeses e da humanidade é um processo de
acumulação de capital, como vingador e realização e não um simples devenir, à
tribuno do povo: “Eu punirei o mundo concepção vazia e infinita do tempo,
por sua maldade, os ímpios por seus característica da ideologia moderna do
crimes. Porei fim ao orgulho dos progresso. A dimensão messiânica do
insolentes, farei cair a arrogância dos romantismo fica evidente numa
tiranos” (Isaías 13,11). E, num capítulo passagem citada do jovem Friedrich
posterior, “Eis, aqui, eu crio novos céus Schlegel: “O desejo revolucionário de
e uma nova terra; assim, os antigos realizar o reino de Deus é o ponto
serão esquecidos e não voltarão mais ao elástico da cultura progressista e o
espírito” (Isaías 65,17).11 início da história moderna. O que nela
Para Gershon Scholem, no messianismo não apresenta nenhuma relação com o
judeu, contrariamente ao messianismo reino de Deus é apenas algo secundário”
cristão, a redenção é um acontecimento (BENJAMIN, 1993. p. 20 e 21).
que se produz necessariamente na cena Uma carta de Benjamin a Scholem, de
da história, “publicamente” por assim 30 de março de 1918, enquanto
dizer, no mundo visível; ela não é preparava a redação de sua tese, exilado
concebível como processo puramente na Suíça, esclarece a metodologia
espiritual, situado na alma de cada benjaminiana, a relação teoria e práxis,
                                                             entre a crítica de arte e a estética social:
11
Ernst Bloch faz uma análise detalhada do
messianismo judaico e cristão nos três volumes Apenas a partir do romantismo
de “O Princípio Esperança”. BLOCH, Ernst. O passou a dominar a visão de que
Princípio Esperança v.2, pp. 53-55-56. uma obra de arte poderia ser
 

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compreendida em si e para si na pois mistura imagens do desejo, da


contemplação, sem sua ligação infância, do trabalho de escritor e
com a teoria ou a moral, e poderia crítico. Todavia, uma análise mais
atingir suficiência através desta detalhada revela uma tentativa quase
contemplação. A relativa
desesperada de resgatar do inconsciente
autonomia da obra de arte com
relação a arte, ou antes, sua
as energias para a tomada de
dependência pura e simplesmente consciência de que a Europa
transcendental com relação à arte mergulhava numa catástrofe com a
tornou-se a condição da crítica de ascensão do fascismo e a impotência da
arte romântica.12 social democracia e dos movimentos
operários perante a ilusão de que o
Contudo, a teologia messiânica judaica
progresso da técnica levaria
e revolucionária não foi privilégio
mecanicamente à revolução. Logo no
apenas de Walter Benjamin; podem ser
início do ensaio, pode-se ler:
mencionados, num sentido semelhante,
autores como Scholem, Gustav A representação da luta de classes
Landauer, Franz Rosenzweig, Martin pode induzir em erro. (...) Pois,
Buber. O que faz de Benjamin um autor possa a burguesia vencer ou ser
original, aliado ao seu excepcional valor vencida na luta, ela permanece
literário, é justamente a aproximação da condenada a sucumbir pelas
mística cabalística com o materialismo contradições internas que no curso
histórico e dialético. Mas essa do desenvolvimento se tornam
aproximação ocorreu lentamente numa mortais para ela. A questão é
longa marcha que atravessa a década de apenas se ela sucumbirá por si
1920. Como já foi acentuado, esse própria ou através do proletariado.
A permanência ou o fim de um
processo teve forte influência de Lukács
desenvolvimento cultural de três
e Ernst Bloch, bem como de Bertold milênios são decididos pela
Brecht, de quem era amigo; além resposta a isso (BENJAMIN, 1995,
desses, também de Asja Lacis, por meio pp. 45 e 46).
dos encontros e viagens pelo interior da
então União Soviética; e finalmente, já Nesse mesmo escrito, Benjamin previu
na década de 1930, com os diretores do profeticamente, ainda em 1928, através
Instituto para Pesquisa Social da ascensão do fascismo uma provável
(posteriormente conhecido como guerra apocalíptica. “Uma pesada
“Escola de Frankfurt”), Adorno e cortina cobre o céu da Alemanha e não
Horkheimer. vemos o perfil nem dos maiores
O Materialismo Dialético na História homens”. Esse contexto desesperador,
sobretudo para um judeu adepto ao
A articulação, combinação ou fusão materialismo histórico, justifica a
entre a visão messiânica e o marxismo aproximação do “corpo” – o
fica evidente no texto “Rua de mão materialismo histórico –, com a “alma”
única”, publicado em 1928. O – o messianismo –; do imanente com o
documento foi classificado por Ernst transcendente, profano ao sagrado para
Bloch como um “mosaico surrealista”, romper com o filisteismo burguês e com
                                                             a reificação do trabalhador
12
Carta citada nas notas finais de “O conceito
transformado em “autômato”, pois:
de crítica de arte no Romantismo Alemão”.
 

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(...) se a eliminação da burguesia materialista e dialética de Benjamin fica


não estiver efetuada até um evidente na seguinte passagem:
momento quase calculável do “Designei com o conceito de técnica
desenvolvimento econômico e aquele conceito que torna os produtos
técnico (a inflação e a guerra de
literários acessíveis a uma análise
gases o assinalam), tudo estará
perdido. Antes que a centelha
imediatamente social, e portanto a uma
chegue à dinamite, é preciso que o análise materialista”. Ao mesmo tempo,
pavio que queima seja cortado “o conceito de técnica representa o
(BENJAMIN, 1995, p. 46). ponto de partida dialético para uma
superação do contraste infecundo entre
A mesma problemática reaparece no forma e conteúdo” (BENJAMIN, 1994,
artigo de 1930 “Teorias do fascismo p. 122).
alemão”. Como relação de causa e
efeito do fascismo às portas do poder, A ascensão meteórica do fascismo,
Benjamin afirma que “a realidade social sobretudo após o crash de 1929,
não está madura para transformar a justifica o tom apocalíptico dos ensaios
técnica em seu órgão e que a técnica benjaminianos. A organização da classe
não é suficientemente forte para operária foi totalmente desarticulada, os
dominar as forças elementares da sindicatos caíram na ilegalidade com a
sociedade”. No mesmo sentido, a fraude do incêndio no prédio do
“guerra imperialista é codeterminada, Parlamento alemão (Reichstag). Mais
no que ela tem de mais duro e de mais desastroso, para Benjamin, era a
fatídico, pela distância abissal entre os concepção positivista de que “nadavam
meios gigantescos de que dispõe a com a correnteza”, a crença ilimitada no
técnica, por um lado, e sua débil progresso técnico gerou uma
capacidade de esclarecer questões interpretação equivocada da História
morais, por outro” (BENJAMIN, 1994. atrelada a uma crise de experiência e da
p. 61). narrativa, com os traumas da Primeira
Guerra. Essa conjuntura fomentou a
Com lança-chamas e trincheiras, a
produção de nosso Autor através da
técnica tentou realçar os traços
heróicos no rosto do idealismo estética social e do conceito de
alemão. Foi um equívoco. Porque “alegoria”13.
os traços que ele julgava serem Além da profunda crítica à
heróicos eram na verdade traços historiografia “progressista” em vigor
hipocráticos, os traços da morte. na social democracia da República de
Por isso, profundamente
impregnada em sua própria
Weimar, a ideia de um progresso
perversidade, a técnica modelou o inevitável e cientificamente previsível é
rosto apocalíptico da natureza e
reduziu-o ao silencio, embora                                                             
13
“O sentido literal não é o sentido verdadeiro.
pudesse ter sido a força capaz de
Deve-se aprender uma outra leitura que busque
dar-lhe uma voz (BENJAMIN, sob as palavras do discurso seu verdadeiro
1994, p. 70). pensamento, uma prática que os estóicos
No texto “O autor como reprodutor”, chamam de hyponoia (subpensamento) e à qual
Filo de Alexandria dará seu nome definitivo de
conferência pronunciada no Instituto alegoria (de allo, outro e agorein, dizer)”.
para o Estudo do Fascismo, em 27 de GAGNEBIN, Jeanne-Marie. História e
abril de 1934, a metodologia Narração em Walter Benjamin, p. 34.
 

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o exame da historiografia burguesa desmoralizadas que a experiência


daquele período, o historicismo, à estratégica pela guerra de trincheiras, a
concepção de tempo homogêneo e experiência econômica pela inflação, a
vazio, cronológico e linear; “concepção experiência do corpo pela fome e a
que, conforme demonstra Benjamin, experiência moral pelos governantes”,
provoca uma avaliação equivocada do completa ironicamente, “confiança
fascismo e a incapacidade de ilimitada apenas na IG Farben e no
desenvolver uma luta eficaz contra sua aperfeiçoamento pacífico da Luftwaffe”
ascensão”.14 A partir dessas premissas, (BENJAMIN, 1994, p. 124). Portanto,
pode-se compreender o conceito de para este autor houve uma degradação
História para Walter Benjamin. na arte de narrar, que se expressa
através do historicismo e do
O Messias ou o Anjo da História?
positivismo.
“O dom de despertar no passado as
centelhas de esperança é privilégio No ensaio “Experiência e pobreza”,
exclusivo do historiador” (Tese VI)15. Benjamin se pergunta qual é o valor de
Para Benjamin, o historiador todo o patrimônio cultural se a
materialista é capaz de identificar no experiência não mais o vincula a nós?
passado os germes de uma outra Essa pobreza de experiência não é mais
história, capaz de levar em consideração privada, mas de toda a humanidade.
os sofrimentos acumulados e dar uma Surge assim uma nova barbárie. Esse
nova face às esperanças frustradas texto, de 1933, é concluído pelo autor
(redenção). Para tanto, o historiador com uma profecia digna de quem fez a
deve construir uma experiência leitura correta da história no calor dos
(Erfahrung), que não se confunde para acontecimentos: “A crise econômica
ele com a experiência pessoal está diante da porta e atrás dela está
(Erlebnis): enquanto a primeira é o uma sombra, a próxima guerra”
traço cultural enraizado na tradição, a (BENJAMIN, 1994, p. 119).
segunda situa-se em um nível
psicológico imediato que não tem a A grosso modo, todo o pensamento
mesma significação (LÖWY, 2008, p. benjaminiano está sintetizado no seu
192). último escrito, as Teses sobre o conceito
de História. Ensaio de 1940, de caráter
“A experiência que passa de pessoa a profético e apocalíptico, levando-se em
pessoa é a fonte a que recorrem todos os conta que foram escritas no momento
narradores”, no entanto “nunca houve em que a Alemanha nazista dominava a
experiências mais radicalmente Europa e o pacto germano-soviético ou
                                                             Molotov-Ribentrop representou uma
14
GAGNEBIN, Jeanne-Marie. Walter Benjamin verdadeira catástrofe para Benjamin.
ou a história aberta. Prefácio a Obras Para ele, “os políticos nos quais os
Escolhidas, v.1. adversários do fascismo haviam posto
15
As Teses sobre o conceito de História suas esperanças, traíram sua própria
encontram-se em: BENJAMIN, Walter. Magia e
causa”.
técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e
história da cultura. Tradução Sergio Paulo
Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1994, pp. 222
De acordo com Michael Löwy (2002),
a 235. Daqui em diante citadas apenas como contra a visão linear e quantitativa do
“Teses”. positivismo e historicismo, Benjamin
 

108 

 
 

opõe uma visão qualitativa da Para Michael Löwy (2005, pp. 51-52), a
temporalidade, fundada, de um lado na redenção messiânica e revolucionária é
rememoração, de outro, na ruptura uma tarefa que nos foi atribuída pelas
messiânica revolucionária da gerações passadas. “Não há um Messias
continuidade. A revolução é o enviado do céu: somos nós o Messias,
correspondente profano da interrupção cada geração possui uma parcela do
messiânica da história, da parada poder messiânico e deve se esforçar
messiânica do devir, no memento da para exercê-la”. E, mais adiante afirma
ação, de “romper o contínuo da que “Deus está ausente, e a tarefa
história”, uma vez que “nada foi mais messiânica é inteiramente atribuída às
corruptor para a classe operária alemã gerações humanas. O único Messias
que a opinião de que ela nadava com a possível é coletivo: é a própria
corrente” (Tese XI). humanidade, a humanidade oprimida”.
Löwy pondera que
Para reparar essa perda de experiência
ou da “aura”, a humanidade precisaria O poder messiânico não é apenas
de uma redenção ou rememoração que contemplativo – ‘o olhar voltado
só seria possível pela aproximação da para o passado. É também ativo: a
teologia com o marxismo (Tese I). redenção é uma tarefa
“Precisamos da História, mas não como revolucionária que se realiza no
precisam dela os ociosos que passeiam presente. Não é apenas uma
questão de memória mas, como
no jardim da ciência” (Citação de
lembra a Tese I, trata-se de ganhar
Nietzsche, na Tese XII). É doloroso ser a partida contra um adversário
desconhecido e morrer na obscuridade. poderoso e perigoso. ‘Éramos
Clarear essa obscuridade, essa é a honra esperados na terra’ para salvar do
da pesquisa histórica.16 A redenção é esquecimento os vencidos, mas
uma auto redenção, cujo equivalente também para continuar e, se
profano pode ser encontrado em Marx: possível, concluir o combate
os homens fazem sua própria história. emancipador (LÖWY, 2005, p. 52).
A brilhante alegoria do “autômato” na Num sentido semelhante, a Tese II traz
primeira das “Teses...” evidencia a a seguinte passagem: “a imagem da
percepção aguda e desesperada do felicidade está indissoluvelmente ligada
caráter mecânico, uniforme, vazio e à da salvação. O mesmo ocorre com a
repetitivo da vida dos indivíduos na imagem do passado, que a história
moderna sociedade industrial, de transforma em coisa sua”. E, mais
alienação cultural. “O fantoche adiante, “foi-nos concedida uma frágil
chamado ‘materialismo histórico’ força messiânica para a qual o passado
ganhará sempre. Ele pode enfrentar dirige um apelo. Esse apelo não pode
qualquer desafio, desde que tome a seu ser rejeitado impunemente. O
serviço a teologia. Hoje, ela é materialista histórico sabe disso”. Essa
reconhecidamente pequena e feia e não “frágil força messiânica” que Benjamin
ousa mostrar-se” (Tese I). não explicita nas Teses pode ser
compreendida numa parábola contada
por Benjamin a Scholem:
                                                            
16 Para instaurar o reino da paz não é
Citação de M. Horkheimer, In: Michael
Löwy. Aviso de Incêndio, p.51. necessário destruir tudo e dar início
 

109 

 
 

a um mundo completamente novo, logo no início do texto como teologia e


basta afastar só um pouco esta caracteriza-se como ruptura
xícara ou este arbusto ou esta escatológica, como retorno ao passado,
pedra, e assim todas as coisas. Mas observação retroativa e ação presente”.
este pouquinho é tão difícil de
O conceito de ruptura de Benjamin
realizar e tão difícil de encontrar
sua medida que, no que concerne
deriva de sua concepção de tempo
ao mundo, os homens não o fazem histórico.
e é necessário que chegue o
O conceito de tempo histórico para
Messias (apud MATOS, 2010,
p.51).
Benjamin fica claro nas Teses XV a
XVIII. As classes revolucionárias estão,
Walter Benjamin vislumbrou uma não apenas em torno do proletariado
interrupção messiânica do curso da moderno, mas, sobretudo nas revoltas e
história, uma intervenção redentora para revoluções messiânicas e milenaristas.
arrancar no último momento a Nas palavras de Michael Löwy (2005,
humanidade da catástrofe que a p. 123), as guerras camponesas do
ameaçava e a ameaça permanentemente. século XVI, a interrupção do tempo
Sem o “espírito messiânico” a histórico tomou a forma quiliasta ou
revolução não pode triunfar nem o apocalíptica do “final dos tempos” e do
materialismo histórico ganhar a partida, advento do milenarismo. O tempo
tendo em vista que sem a teologia este é cronológico da moderna civilização
apenas um boneco, um autômato, sem industrial, que substituiu o tempo
vida e freqüentemente manipulado pelas natural, tal como foi descrito por
classes dominantes. Edward Thompson em Costumes em
Comum, no capítulo sobre “Tempo,
Nas notas preparatórias para as Teses, disciplina e capitalismo industrial”,
Benjamin anota que “o mundo corroboram a crescente aceitação do
messiânico é o mundo de total e integral tempo apenas do relógio de pulso ou de
atualidade. Apenas nele existe uma bolso, tornando assim o tempo passível
história universal”. Jeanne Marie de uma medida apenas quantitativa e
Gagnebin (2009, p. 106) refere-se ao linear. A Tese XVII sintetiza
conceito de “interrupção” que Benjamin perfeitamente o conceito de tempo
qualifica de “messiânico”, como cesura, histórico benjaminiano:
pois destrói a continuidade que se erige
em totalidade histórica universal e salva O materialista histórico não pode
o surgimento do sentido na intensidade renunciar ao conceito de um
do presente. presente que não é transição, mas
no qual o tempo estanca e ficou
Pedro Paulo Funari, em artigo de imóvel. Pois esse conceito define
considerações em torno das Teses sobre exatamente o presente em que ele
o conceito de História, reafirma que este escreve a história para si mesmo. O
Historicismo arma a imagem
texto “constrói-se como uma resposta “eterna” do passado, o materialista
messiânica e teológica aos dois histórico, uma experiência com o
elementos alienados, na percepção passado que se afirma aí única. Ela
benjaminiana: o historicismo e a social- deixa os outros se desgastarem com
democracia”. Mais adiante, Funari a prostituta “era uma vez” no
pondera que “o messianismo aparece, prostíbulo do Historicismo. Ele
 

110 

 
 

permanece senhor de suas forças: aparece em uma das epístolas de Paulo:


viril o bastante para fazer explodir “Todas as coisas se recapitulam no
o contínuo da história. Messias”. Essa mônada, esse breve
Todavia, a interrupção messiânica, momento coincide exatamente com a
informa Michael Löwy (2005, p. 132), figura que a história da humanidade
“é a ruptura da história mas não o fim ocupa no universo, enquanto história da
da história”. Uma das notas luta dos oprimidos (LÖWY, 2005, p.
preparatórias para as Teses afirma 139). Para exemplificar esse conceito,
explicitamente que “o Messias quebra a Benjamin transcreve uma brilhante
história; o Messias não aparece no fim comparação entre tempo natural e o
de um desenvolvimento”. Do mesmo tempo do relógio, na Tese XVIII:
modo, a sociedade sem classes não é o
fim da história, mas segundo Marx, da os míseros cinqüenta mil anos do
pré-história, da história da opressão e da homo sapiens representam, em
alienação dos humanos. Essa relação à história da vida orgânica
sobre a terra, algo como dois
contextualização temporal fica patente segundos ao fim de um dia de vinte
na Tese XVIIa: “Marx secularizou a e quatro horas. Inscrita nessa
representação do tempo messiânico na escala, a história inteira da
representação da sociedade sem classes. humanidade civilizada perfaz um
E estava bem assim. O infortúnio quinto do último segundo da última
começou quando a social-democracia hora.
alçou essa representação a um ideal.” E
conclui relacionando, assim como no O tempo de agora, no qual “estão
Fragmento Teológico-Político, política incrustados estilhaços do tempo
e teologia: messiânico”, é interpretado por Marcel
A entrada nesse compartimento Proust “contra qualquer espera e
coincide estritamente com a ação contratempo, e faz brilhar como um
política; e é por essa entrada que a relâmpago a possibilidade de realizar
ação política, por mais aniquiladora promessas que a história havia
que seja, pode ser reconhecida enterrado sob os escombros”. O instante
como messiânica. (A sociedade messiânico é “esse instante em suspenso
sem classes não é a meta final do ou essa suspensão do tempo em que se
progresso na história, mas, sim, sua delineia a possibilidade ardente,
interrupção, tantas vezes incandescente e feliz em que, enfim, a
malograda, finalmente efetuada).17
justiça se faz” (LÖWY, 2005, p. 140).
O “tempo de agora” ou Jetztzeit,
enquanto modelo do tempo messiânico Apesar da filosofia da história de
de interrupção, para Benjamin, resume a Benjamin perpassar todas as Teses,
história de toda a humanidade numa explicita ou explicitamente contendo o
prodigiosa abreviação, ou seja, o tempo eixo central, a saber, a dialética do
messiânico que “resume” a história da materialismo histórico com o
humanidade lembra literalmente o messianismo como crítica ao
conceito cristão de “recapitulação”, que positivismo e historicismo, concebendo,
                                                             assim uma nova teoria de tempo e
17
A Tese XVIIa encontra-se apenas na tradução interrupção histórica, é na famosa Tese
de Michael Löwy (2005, p. 134). IX onde todos esses conceitos
 

111 

 
 

encontram-se condensados. Essa Tese tempestade maléfica, a iminência de


merece ser transcrita na íntegra: catástrofes novas” (LÖWY, 2005, pp.
91-92).
Existe um quadro de Klee
intitulado ‘Angelus Novus’. Nele Benjamin nunca perdeu sua desesperada
está representado um anjo, que esperança na Revolução, apesar do
parece estar pronto para afastar-se pessimismo dos seus últimos escritos,
de algo em que crava o seu olhar. mas redefiniu-a através de uma nova
Seus olhos estão arregalados, sua imagem alegórica, nas notas
boca está aberta e suas asas estão preparatórias para as Teses, invertendo
estiradas. O anjo da história tem de os lugares comuns da esquerda
parecer assim. Ele tem seu rosto “progressista”: “Marx disse que as
voltado para o passado. Onde uma
revoluções eram as locomotivas da
cadeia de eventos aparece diante de
nós, ele enxerga uma única história. Mas talvez elas sejam um
catástrofe, que sem cessar amontoa pouco diferente. Talvez as revoluções
escombros sobre escombros e os sejam a mão da espécie humana que
arremessa a seus pés. Ele bem que viaja nesse trem puxando os freios de
gostaria de demorar-se, de emergência”.18
despertar os mortos e juntar os
destroços. Mas do paraíso sopra
Quanto a essa crítica de Benjamin,
uma tempestade que se emaranhou Michael Löwy (2205, p. 95) adverte que
em suas asas e é tão forte que o o vinculo entre a era messiânica e a
anjo não pode mais fechá-las. Essa sociedade sem classes não pode ser
tempestade o impele compreendido unicamente em termos de
irreversivelmente para o futuro, secularização, uma vez que o religioso e
para o qual dá as costas, enquanto o o político conservam, em Benjamin,
amontoado de escombros diante uma relação de reversibilidade
dele cresce até o céu. O que nós recíproca, de tradução mútua, que
chamamos de progresso é essa escapa a qualquer redução unilateral:
tempestade.
“em um sistema de vasos comunicantes,
Esse breve parágrafo sintetiza a o fluido está necessariamente presente
filosofia da história de Walter Benjamin em todos os ramais simultaneamente”.
acerca da crença positivista no “Existe então, em Benjamin, uma
progresso da técnica. Mas como deter dialética do material e do espiritual na
essa tempestade, como interromper o luta de classes que vai além do modelo
progresso em sua progressão fatal? A mecanicista da infra-estrutura e da
resposta de Michael Löwy é
esclarecedora: “a resposta de Benjamin                                                             
18
é dupla: religiosa e profana”. Na esfera LÖWY, Michael. Romantismo e
Messianismo... p. 213. A mesma citação
teológica, trata-se da tarefa do Messias; reaparece em LÖWY, Michael. Walter
seu equivalente ou correspondente Benjamin... pp. 93-94 com tradução
profano é, simplesmente a Revolução. ligeiramente modificada: “Marx havia dito que
“A interrupção as revoluções são a locomotiva da história
messiânica/revolucionária do Progresso mundial. Mas talvez as coisas se apresentem de
maneira completamente diferente. É possível
é, portanto, a resposta de Benjamin às que as revoluções sejam o ato, pela humanidade
ameaças que fazem pesar sobre a que viaja nesse trem, de puxar os freios de
espécie humana a continuação da emergência”.
 

112 

 
 

superestrutura: o que está em jogo na A concepção dialética da história, tal


luta é material, mas a motivação dos como é concebida por autores como
atores sociais é espiritual” (LÖWY, Marx, Engels, Ernst Bloch e Walter
2005, p. 59). Voltada aparentemente Benjamin, torna pertinente a
para o passado, a busca benjaminiana da possibilidade de retornos, rupturas e
experiência perdida se orienta avanços no curso histórico. Como bem
finalmente para o futuro denominou Jeanne Marie Gagnebin
messiânico/revolucionário. Em suma, sobre os ensaios benjaminianos “Walter
uma nota da Tese de doutorado de Benjamin ou a história aberta” ou,
Benjamin, sobre a crítica de arte no conforme os conceitos ontológicos de
Romantismo Alemão, exemplifica esse Ernst Bloch de “ainda-não-consciente”,
pensamento: “O mundo messiânico é o da humanidade ainda-não realizada; o
mundo de total e integral atualidade. conceito de um único marxismo e
Apenas nele existe uma história apenas um cristianismo tornam-se
Universal”. inconcebíveis.
Considerações finais Assim, a obra de Marx pode ser
lida pela ótica do materialismo
Na introdução de O Dezoito Brumário positivista de Kautsky, do
de Luis Bonaparte, citando Hegel, Marx neokantismo de M. Adler, do
adverte quando a possibilidade de hegelianismo voluntarista de
“repetições históricas”, ao retorno de Gramsci ou objetivista de Lukács,
ciclos dialéticos. Essas ponderações são do existencialismo de Sartre, do
relevantes para evitarmos conclusões estruturalismo de Althusser, bem
reducionistas da apreensão histórica como à luz camponesa de Mao
como um processo fechado. De que o Tsé-Tung, da guerrilha cubana, da
materialismo histórico é eternamente realidade peruana de José Carlos
Mariátegui ou da insurreição
incompatível com a teologia, sobretudo
popular sandinista.21
com o modelo cristão. Serve também
para que fujamos das concepções De acordo com Frei Beto e, de maneira
pragmáticas que observam os exemplos geral, com os demais teólogos da
práticos de aproximação entre libertação, isso implica na superação da
marxismo e religião no Brasil e na ótica objetivista, da tendência
América Latina – Teologia da economicista e em reconhecer a
Libertação19 e da Ação Popular20 – subjetividade humana na história,
como simples anomalias estruturais. admitindo a autonomia relativa das
superestruturas. Para Frei Beto, “a
prática revolucionária extrapola e não se
                                                             esgota em análises estritamente
19
São inúmeros autores, mas os trabalhos mais científicas, pois encerra
conhecidos são de Gustavo Gutiérrez, Leonardo necessariamente dimensões éticas,
e Clodovis Boff, Enrique Dussel e Hugo
místicas e utópicas” – tal como
Assmann.
20
Ver os trabalhos de Reginaldo Dias: “Da                                                                                  
esquerda católica à esquerda revolucionária: a experiência da Ação Popular”. (Tese
Ação Popular na história do catolicismo”. Doutorado). Unesp, 2004.
21
Revista brasileira de História das Religiões – Frei Beto, Cristianismo e Marxismo. In: O
Ano I, no. 1. E “A cruz, a foice e o martelo e a marxismo na América Latina, Michael Löwy
estrela: a tradição e renovação da esquerda na (org.).
 

113 

 
 

descrevemos na abordagem heterodoxa das esperanças, sonhos e aspirações dos


de Ernst Bloch e Walter Benjamin. Frei párias e excluídos da história, como
Beto conclui que sem essa relação uma “tradição dos oprimidos”, utópica e
dialética teoria-práxis, o marxismo se subversiva, e como a fonte de uma
esclerosa numa ortodoxia acadêmica visão descontínua da temporalidade.
perigosamente manipulável por quem Contrariamente ao tempo dos relógios
controla os mecanismos de poder (In: ou calendários, vazios e homogêneos, a
LÖWY, p. 516). tradição dos oprimidos está carregado e
preenchido de “tempo atual” ou “o
A afinidade eletiva entre utopia agora” que faz explodir o continuum da
libertária e religião, política e história, no qual há estilhaços do tempo
messianismo tende a chagar ao grau de messiânico, “pois nele cada segundo era
fusão. A forma original em gestação, a a porta estreita pela qual podia penetrar
figura inédita que se esboça nessa o Messias” (Tese XVIII B).
alquimia espiritual complexa na obra
benjaminiana, é a de uma nova
concepção de história e de Referências
temporalidade: messianismo histórico
ou concepção romântico-messiânica da BENJAMIN, Walter. Magia e Técnica, Arte e
Política: ensaios sobre literatura e história da
história. Oposta à concepção cultura. Tradução Sérgio Paulo Rouanet; 7.ed.
estritamente quantitativa da São Paulo: Brasiliense, 1994.
temporalidade, que percebe o
__________. O conceito de crítica de arte no
movimento da história como um Romantismo Alemão. Tradução e prefácio de
continuum de aperfeiçoamento Márcio Seligmann-Silva. São Paulo: Iluminuas,
constante, de evolução irreversível, da 1993.
acumulação crescente, da modernização __________. Rua de mão única. Obras
cujo motor reside no progresso escolhidas volume 2. São Paulo: Brasiliense,
científico, técnico e industrial, em suma 1995.
como contraponto ao paradigma do __________. Passagens. Trad. Irene Aron,
progresso, o messianismo histórico ou Cleonice Mourão. Belo Horizonte: Editora
concepção romântico-milenarista da UFMG, 2006.
história está em ruptura com essa
__________. Ensaios reunidos: escritos sobre
filosofia do progresso e com o culto Goethe. Tradução Mônica Krausz Bornebusch.
positivista do desenvolvimento São Paulo: Duas Cidades; Ed.34, 2009.
científico e técnico. Propõe uma
__________. A origem do drama trágico
concepção qualitativa, não alemão. Edição e tradução João Barrento. Belo
evolucionista do tempo histórico, na Horizonte: Autêntica Editora, 2011.
qual a volta ao passado representa o
__________. O anjo da história. Org. e trad.
ponto de partida necessário para o salto João Barrento. Belo Horizonte: Autêntica, 2012.
em direção ao futuro, em oposição à
visão linear, unidimensional, puramente __________. O capitalismo como religião.
Org. Michael Löwy; trad. Nélio Schneider,
quantitativa da temporalidade enquanto Renato ribeiro Pompeu. São Paulo: Boitempo,
progresso cumulativo (LÖWY, 1989). 2013.
Com uma visão crítica da modernidade, BENSUSSAN, Gérard. O tempo messiânico:
da civilização industrial, o messianismo tempo histórico e tempo vivido. São Leopoldo:
Nova Harmonia, 2009.
é incorporado como expressão milenar
 

114 

 
 
BLOCH, Ernst. O Princípio Esperança. 3 _________. Walter Benjamin: Aviso de
volumes. Tradução Nélio Schneider. Rio de Incêndio, uma leitura das teses “Sobre o
Janeiro: EdUERJ: Contraponto, 2005, 2006. conceito de História”. Tradução Wanda
Nogueira Brant. São Paulo. Boitempo, 2005.
DELUMEAU, Jean. Mil anos de felicidade:
uma história do paraíso. Tradução Paulo Neves. _________. Romantismo e messianismo:
São Paulo: Companhia das Letras, 1997. ensaios sobre Georg Lukács e Walter Benjamin.
Tradução Myrian Veras Baptista. São Paulo:
GAGNEBIN, Jeanne Marie. História e
Perspectiva, 2008.
narração em Walter Benjamin. São Paulo:
Perspectiva, 2009. _________. Redenção e utopia: o judaísmo
libertário na Europa Central: um estudo de
__________. Teologia e messianismo no
afinidade eletiva. Trad. Paulo Neves. São Paulo:
pensamento de Walter Benjamin, IEA-USP,
Companhia da Letras, 1989.
1998, s/p.
MATOS, Olgária Chain. Benjaminianas:
KONDER, Leandro. Walter Benjamin: o
cultura capitalista e fetichismo contemporâneo.
marxismo da melancolia. 2.ed. Rio de Janeiro:
São Paulo, Editora da Unesp, 2010.
Campus, 1989.
QUEIROZ, Maria Izaura Pereira de. O
LANTERNARI, Vittorio. As religiões dos
messianismo no Brasil e no mundo. Prefácio
oprimidos: Um estudo dos modernos cultos
de Roger Bastide. 2.ed. São Paulo: Alfa-Omega,
messiânicos. São Paulo: Perspectiva, 1974.
1976.
LÖWY, Michael (Org). O marxismo na
SCHOLEM, Gershon. Correspondência.
América Latina: uma antologia de 1909 aos
Tradução Neuza Soliz. São Paulo: Perspectiva,
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Abramo, 1999. WEBER, Max, Sociologia das Religiões.
Tradução de Claudio J. A. Rodrigues. São
_________. A guerra dos deuses: religião e
Paulo: Ícone, 2010.
política na América Latina. Tradução Vera
Lucia Mello Joscelyne. Petrópolis: Vozes, 2000.
_________. A filosofia da história de Walter Recebido em 2012-08-29
Benjamin, IEA-USP, 2002. Publicado em 2013-11-30

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