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A IMPOSSIBILIDADE DE HARMONIZAÇÃO ENTRE O SISTEMA PRISIONAL

BRASILEIRO E A DIGNIDADE HUMANA.

Caio Luís Prata


Graduando pela Faculdade de Educação São Luís.

Bem sabemos que o Brasil é subscritor de diferentes tratados internacionais


assecuratórios da dignidade e da integridade dos apenados que compõem o contingente
aprisionado nacional. Documentos como a Convenção Americana Sobre os Direitos
Humanos, da OEA, ou, ainda, a Convenção contra a tortura e outros tratamentos ou penas
cruéis, desumanos ou degradantes, da ONU (1984), são sempre memorados quando este tema
é-nos apresentado. Não bastando estes pactos e declarações, resoluções internas, como a de nº
14 de 11 de novembro de 1994, editada pelo CNPCP, influenciadas por recomendações
internacionais, buscam promover, de modo ainda mais incisivo, estes objetivos, visando
garantir as condições mínimas necessárias à dignidade dos detentos.
Enganam-se, contudo, aqueles que pensam que os documentos acima discriminados
estabelecem proteções excessivas ou, ainda, de tons paternalistas. Em pouco avançam para
além da previsão do mínimo absoluto no que se refere ao respeito à pessoa do detento,
enquanto, justamente, pessoa. Prevendo direitos do apenado como, por exemplo, de ser
chamado por seu nome, ter sua religião respeitada e, ainda, de ser individualmente alojado,
tais documentos consagram, como reflexo da ordem internacional (e em razão desta), a
humanidade como valor primeiro a ser observado na contenção do crime.
Com isso não se pode negar uma coisa: Há, ao menos aparentemente, um esforço
político global, que busca atribuir à pena um caráter de não desconhecedora da dignidade
humana. Tal esforço assenta-se, obviamente, sobre a premissa de que esta [a pena] ainda é
efetiva no bom-combate à criminalidade.
Ocorre que, concomitantemente, nos é apresentada uma realidade díspar, onde o índice
de crescimento da população carcerária desde a década de 90 atingiu 707%. Esta população,
marcada pelo recorte racial, encontra, no sistema prisional, condições tão degradantes que o
próprio Supremo Tribunal Federal se viu obrigado a reconhecê-lo enquanto estado de coisas
inconstitucional. Com um déficiti de 358.663 vagas, a superlotação e o caos generalizado do
sistema penitenciário, denunciam uma realidade absurdamente diversa daquela que pretende
indicar sua planificação racional, responsável por ceder-lhe base de legitimidade. Tal
desconexão, inclusive, já foi levada ao conhecimento da Comissão Interamericana de Direitos
Humanos da OEA, em denúncia feita contra o Brasil, no ano de 2017.
Este fenômeno, porém, não é restrito à terra brasilis, embora as condições econômicas
constitutivas da américa latina, bem como sua situação de dependência, façam com que, aqui,
este alcance um nível superior de tensão. Segundo a Human Rights Watch, no relatório “I
needed a help, instead I was punished”, 50% da população carcerária australiana é composta
por deficientes (que integram apenas 18% da população total do país). Já nos Estados Unidos
da América, pessoas negras são encarceradas quase 5 vezes mais que pessoas brancas.
Fica claro, com isto, não apenas que as condições aviltantes do sistema prisional são
uma realidade generalizada, mas, também, que a sanção, em diferentes países, se reserva com
especial grandeza e violência às camadas menos privilegiadas; atingindo por clientela
preferencial aqueles que se reputam vulneráveis por, simplesmente, serem quem são.
Estes elementos compartilhados pelas instituições de criminalização secundária em
diferentes locais do globo, revelam o entalhe de sua natureza, que, embora se adeque aos
traços constitutivos de cada cultura onde se firma, conserva sua vocação essencial em
qualquer lugar. Se o objetivo do esforço político global, ao qual fez referência o início deste
texto, seria assegurar a dignidade dos detentos de cada nação, a contemplação da realidade
impõe uma questão a ser pressuposta: é possível que as prisões ou, para além, o próprio
Direito Penal, em razão de sua constituição histórica, seja moldado para propiciar o respeito à
dignidade?
A resposta pressupõe, à sua formulação, a consciência de que a forma como a lei penal
se manifesta no mundo concreto diz mais a respeito desta que se imagina. Isto pois, em
tratando dele, tratamos de um ramo jurídico que se define, justamente, por seu caráter
irremediavelmente pragmático. Tendo por objetivo a concretização de propósitos materiais, o
direito penal não se reserva às abstrações e é informado por premissas políticas que buscam
encontrar sua realização através de si. É daí que se pode dizer depreendida sua
funcionalidade. Justamente por isso, a atuação seletiva das agências criminalizantes nos indica
que as premissas que lhes embutem o espírito exigem esta seletividade, de modo a não se
tratar, portanto, de uma desvirtuação de sua natureza primeira. A barbárie prisional pátria não
é mero estado de coisas, mas sim, natureza única de uma condição permanente.
Só no Código Penal Brasileiro, estão contidas mais de 150 condutas típicas. Estima-se
que, ao total, existam mais de 1.600 crimes. Atualmente, apenas os de tráfico de drogas, furto,
roubo e homicídio justificam o encarceramento de mais da metade da população prisional. E
só com a captura destes poucos delitos, o cárcere se encontra como está. A conclusão a qual
se pode chegar, por meio disto, é apenas uma: o direito penal jamais teria condições de
cumprir todo o arsenal que alega dispor, pois isso equivaleria a uma catástrofe social. Não
sendo capaz de fazer recair sua incidência em todas as oportunidades que têm, contra todos os
indivíduos que a provocam, a faz recair, arbitrariamente, sobre certos grupos e práticas.
Isto tudo sem que apontemos que, não bastasse a crítica à atuação das instituições
penais, é criticável a própria pena privativa de liberdade. A dogmática, por meio de suas
produções mais contemporâneas, tem afastado as clássicas teorias que justificam sua
utilização por vieses de prevenção. Em sua exposição de motivos, até o próprio Código Penal
pátrio, ao tratar do livramento condicional, reconhece sua ineficácia. Sabemos todos, não
apenas que a pena falha em reeducar o delinquente ou prevenir o perigo, como, também, que é
impossível humanizar prisões visando este fim. Afinal, como bem pontua Robert Martinson,
em seu consagrado artigo sobre reformas prisionais, a este respeito nada funciona.
É claro contudo que a sanção não é inútil. Embora não sirva para o que se declara, esta
possui, ainda assim, finalidades. Estas, cabe dizer, relacionam-se intimamente com a natureza
que porta o direito penal: disciplinante e organizadora. Sua real missão se dá no controle de
determinados corpos e na estigmatização de certos grupos, como meio de recriação da miséria
e perpetração da pobreza; a prática repressiva não é, apenas, incidental, como, também, se
converte em seu aporte de legitimidade.
As razões disso tudo se relacionam com a própria forma como se desenvolvem
historicamente as prisões e o Estado, no capitalismo. Estes atuam simbioticamente; o último
como núcleo material do primeiro, e, este, como aparelho que atua em prol da reprodução das
relações que dão causa de existência ao último. Assim, podemos dizer que a pena,
inexoravelmente, se destinará tanto ao controle, quanto à produção das mazelas sociais,
sendo, inclusive, criminogênica e, consequentemente absolutamente ineficaz no combate à
criminalidade.
De antemão se pode dizer que é contraproducente a criação de mecanismos de reforma
prisional, quando tomados per si, sem possuir, por horizonte, a derrocada das atuais formas de
punição. Muito mais útil seria, tanto no combate ao delito, quanto no trato com os detentos, o
esforço intelectual no sentido de encontrar soluções alternativas ao sistema prisional. Isto pois
é impossível a harmonização do sistema prisional brasileiro (e, no limite, de qualquer outro
lugar), com os princípios de preservação da dignidade humana consignados nos tratados
internacionais aos quais se vincula o país, uma vez que os órgãos de criminalização
secundária e a própria criminalização primária, trazem, em seu ânimo, a violação destes.
A manutenção das dinâmicas produtivas que, historicamente, lhe ensejam a existência,
depende de atentados constantes à dignidade das populações marginais. Obviamente, isto não
significa que não deve haver a utilização destes estandartes formais, quão menos significa que
não são relevantes. Pelo contrário: sua utilização é plenamente legítima para dar cabo à uma
política de redução de danos, que busque atender demandas de humanidade mínimas nas
prisões. Contudo, há de se ter consciência que a permanência das propostas nos termos de
retribuição delitiva que foram, até hoje, construídas, reputam-se, por sua própria razão de ser,
incompatíveis com a emancipação e plenitude humanas. O descalabro do sistema prisional
brasileiro, hoje, que o autoriza ser classificado como o maior crime contra a humanidade em
curso neste país, deriva não, unicamente, da má-gestão pública, mas da expressão da sua
própria natureza e do cumprimento de seus peculiares propósitos.

REFERÊNCIAS:

BARATTA, Alessandro. Criminologia Crítica E Crítica Do Direito Penal: Introdução À


sociologia do direito penal. 3.ed. Tradução Juarez Cirino dos Santos. Editora Revan, Instituto
Carioca De Criminologia. Rio de Janeiro. 2002.

DEPEN – Departamento Penitenciário Nacional. INFOPEN: Levantamento Nacional de


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emhttps://www.hrw.org/report/2018/02/06/i-needed-help-instead-i-was-punished/abuse-and-
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Disponível em: http://www.sentencingproject.org/publications/color-of-justice-racial-and-
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SANDROVAL HUERTAS, Emiro, Las funciones no declaradas de laprivación de


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ZAFFARONI, E. Raúl. Em busca das penas perdidas: a perda de legitimidade do sistema


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Disponível em: http://www.pbpp.pa.gov/research_statistics/Documents/Martinson-
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