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ciências atmosféricas y

Perigo no
céu de São Paulo
Poluição do ar diminuiu nos últimos
30 anos, mas os níveis de alguns compostos
ainda são superiores ao aceitável

Diego Freire

P
esquisadores que estudaram a à gasolina e do aumento do número de
qualidade do ar na Região Me- carros flex, que já compõem mais da me-
tropolitana de São Paulo (RMSP) tade da frota de veículos leves da Região
ao longo das últimas três décadas Metropolitana de São Paulo. O etanol
afirmam que a concentração total de po- emite menos monóxido de carbono (CO),
luentes emitidos por carros, caminhões hidrocarbonetos (HC) e óxidos de nitro-
e indústrias diminuiu e o paulistano res- gênio (NOx) do que a gasolina e, desde
pira hoje um ar mais limpo do que nos 1993, é adicionado ao derivado de pe-
anos 1980. A qualidade melhorou porque tróleo em proporções crescentes – hoje
baixaram as concentrações dos princi- cada litro de gasolina contém 27% de eta-
pais componentes da poluição, tanto os nol. Contribuíram ainda para melhorar a
gases como as partículas microscópicas. qualidade do ar do paulistano a adoção
A má notícia é que, apesar das reduções, de processos de produção mais limpos
os níveis de alguns dos poluentes ainda pela indústria, como a substituição de
são quase duas vezes mais altos que os caldeiras a óleo por caldeiras a eletrici-
aceitos pela Organização Mundial da dade, e a mudança nos anos 1980 e 1990
Saúde, a OMS (ver gráfico na página 58). de muitas fábricas para outras cidades.
Os níveis de poluentes lançados na De 1988 a 2015, os carros que circulam
atmosfera caíram em consequência da por São Paulo passaram a emitir 20 vezes
implementação de políticas públicas de menos CO, NOx e material particulado e
controle da poluição por veículos auto- 40 vezes menos HC. Já as emissões dos
Vista aérea motores, que levou ao desenvolvimento mesmos poluentes por veículos pesados
de motores mais eficientes e menos po- (caminhões e ônibus), para os quais a re-
léo ramos chaves

do Parque do
Ibirapuera, região
luentes (ver Pesquisa FAPESP nº 224). gulamentação surgiu mais tarde, caíram
de tráfego intenso
na zona Sul da Parte dessa queda também se deveu ao três vezes, segundo análises feitas por
capital paulista efeito combinado da adição do etanol pesquisadores do Instituto de Astrono-

pESQUISA FAPESP 259  z  57


mia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da quase 7 bilhões, em 2014, segundo dados
Universidade de São Paulo (IAG-USP), da Agência Nacional do Petróleo.
apresentadas em três artigos publicados Vapores de Dos principais poluentes avaliados
este ano nas revistas Atmospheric En- pelo grupo do IAG-USP, só um não di-
vironment, Atmospheric Chemistry and combustível minuiu de modo consistente: o ozônio,
Physics e Journal of Transport & Health. um poluente secundário, resultado de
Dados da Companhia Ambiental do Es-
liberados no reações de compostos produzidos pelos
tado de São Paulo (Cetesb), que monitora abastecimento motores com substâncias da atmosfera e
a qualidade do ar na RMSP, mostram, no a radiação solar. As concentrações desse
entanto, que, apesar do aprimoramento podem gás, que causa irritação nas vias respi-
dos motores e do uso de etanol puro ou ratórias e aumenta o risco de infecções,
associado à gasolina, os veículos leves contribuir de baixaram até meados da década passa-
(carros e motos) e os pesados continuam da, mas, em seguida, voltaram a subir,
sendo as principais fontes poluidoras da
modo relevante embora não tenham atingido níveis tão
atmosfera na metrópole. para a formação elevados quanto os da metade dos anos
A principal razão de a qualidade do ar 1990. Além dos gases lançados ao ar pe-
não ter melhorado ainda mais nos últi- de ozônio e lo escapamento dos veículos, vapores de
mos anos foi o aumento substancial no combustível liberados durante o abas-
número de veículos na região, que sal- outros poluentes tecimento parecem contribuir de modo
tou de 1 milhão, em 2000, para quase 7 relevante para a formação de ozônio e
milhões, em 2014. “Apesar de os veícu-
secundários outros poluentes secundários. É que, a
los estarem mais eficientes e poluírem cada litro despejado nos tanques, alguns
menos, a frota cresceu muito”, lembra mililitros sobem na forma de vapor para
a física Maria de Fátima Andrade, do a atmosfera. Parece pouco, mas, segundo
10.000
IAG-USP, coordenadora dos três estu- a pesquisadora do IAG, o impacto final
dos. Com mais carros nas ruas, o volume pode ser importante – superior ao dos
de combustível consumido cresceu 25% gases liberados pelo escapamento de car-
em menos de uma década: passou de 5,5 CO ros e caminhões –, dado o volume total
bilhões de litros por ano, em 2007, para de combustível abastecido na RMSP. “Os
processos evaporativos não são dimen-
sionados adequadamente”, afirma Maria
de Fátima. “É possível que o impacto des-
O ar de uma megacidade ses vapores esteja sendo subestimado.”
1.333 Hoje o componente da poluição que
Concentração dos principais poluentes monitorados mais preocupa os especialistas, por re-
na Região Metropolitana de São Paulo presentar um maior risco para a saúde
humana, é o chamado material particu-
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lado ou MP: uma mistura de partículas
n Valores médios registrados sólidas ou líquidas muito pequenas. Elas
pela Cetesb em 2016
são produzidas diretamente pelos mo-
O3 n Valores aceitos pela OMS tores durante a queima do combustível
[Valores em microgramas ou formadas na atmosfera a partir de
por metro cúbico (µg/m3)]
certos gases. Seu tamanho é inversamen-
100 te proporcional à capacidade de causar
problemas à saúde: quanto menores suas
dimensões, mais tempo elas permane-
NO2 cem em suspensão no ar e maiores os
potenciais efeitos danosos. Por serem
MP10 tão pequenas, elas penetram facilmente
MP2.5 SO2 no trato respiratório e ali se acumulam,
40
37 podendo provocar inflamações pulmo-
29
nares, agravar doenças como a asma e
20
17 20 até causar problemas em outros órgãos.
10
Na RMSP, a Cetesb monitora tanto a
3
concentração das maiores, as partículas
Ozônio Partículas Partículas Dióxido de Dióxido Monóxido inaláveis com até 10 micrômetros de diâ-
inaláveis inaláveis finas nitrogênio de enxofre de carbono
metro (MP10), como a das partículas inalá-
veis finas, de até 2,5 micrômetros (MP2,5).
Fonte Qualidade do Ar no Estado de São Paulo – 2016 – Cetesb; ANDRADE,
M.F. et al. Atmospheric Environment. 2017; WHO – Air Quality Guidelines Os níveis de ambas vêm diminuindo, em-

58  z  setembro DE 2017


bora continuem superiores aos recomen- Marginal do rio Pinheiros, te público, como o uso de combustíveis
dados pela OMS. Mas a Cetesb não mede uma das vias mais mais limpos e a aplicação de novas tecno-
movimentadas da cidade
os níveis de partículas ainda menores – as logias para reduzir o tempo de viagem, a
de São Paulo
chamadas ultrafinas, com diâmetro da fim de que baixem os níveis de poluentes
ordem de nanômetros –, produzidas em para os valores recomendados pela OMS.
maior quantidade por veículos movidos “A exposição prolongada à poluição nos
a gasolina do que a álcool. inflige um risco difícil de evitar, porque
Um estudo realizado com a colabo- morte. “Existem vários níveis de vul- ela reproduz no organismo o que o ci-
ração de pesquisadores do Instituto de nerabilidade das pessoas à poluição do garro faz a um fumante”, afirma. “Eu
Física (IF) da USP e publicado em ju- ar e uma parte delas morre por conta decido se fumo ou não, mas não tenho
lho deste ano na revista Nature Commu- dos problemas de saúde causados pela como fazer esse tipo de escolha ao res-
nications relatou um aumento de 30% poluição, especialmente dos provoca- pirar o ar de São Paulo.” n
na concentração de partículas ultrafinas dos por partículas tão pequenas”, conta
(menos de 50 nanômetros de diâmetro) Saldiva, coordenador de um estudo que
na cidade de São Paulo entre janeiro e estimou que a cada ano cerca de 3,5 mil Projetos
maio de 2011. Nesse período, houve alta pessoas morrem na cidade de São Pau- 1. Narrowing the uncertainties on aerosol and clima-
considerável no preço do etanol e os mo- lo por causa da poluição (ver Pesquisa te changes in São Paulo State: NUANCES-SPS (nº
08/58104-8); Modalidade Projeto Temático; Programa
toristas de carros bicombustível passaram FAPESP nº 129). “Elas se depositam nos Mudanças Climáticas (PFPMCG); Pesquisadora respon-
a consumir mais gasolina do que álcool. alvéolos pulmonares e, de lá, chegam sável Maria de Fátima Andrade (USP); Investimento R$
Os dados de poluição foram coletados na facilmente ao sistema nervoso central 3.297.909,37.
2. GoAmazon: Interação da pluma urbana de Manaus
estação do Instituto de Física e usados e a outras partes do organismo”, conta com emissões biogênicas da Floresta Amazônica (nº
para alimentar modelos estatísticos que Saldiva, líder na FM-USP de uma equi- 13/05014-0); Modalidade Projeto Temático; Programa
consideraram o tráfego, as informações pe que atualmente investiga se há uma Mudanças Climáticas (PFPMCG); Pesquisador respon-
sável Paulo Eduardo Artaxo Neto (USP); Investimento
meteorológicas e o comportamento do conexão entre a exposição prolongada à R$ 4.290.930,31.
consumidor. “A modelagem indicou que, poluição e o desenvolvimento da doença
quando os preços do etanol voltaram a de Alzheimer em seres humanos. Tem- Artigos científicos
cair, o consumo de gasolina baixou e a pos atrás seu grupo havia observado que ANDRADE, M. F. et al. Air quality in the megacity of São
Paulo: Evolution over the last 30 years and future per-
concentração dessas partículas medida filhotes de roedoras expostas à poluição spectives. Atmospheric Environment. v. 159, p. 66-82.
na atmosfera também diminuiu”, conta o ambiental da cidade nasciam com bai- jun. 2017.

físico Paulo Artaxo, professor do IF-USP xo peso, por problemas na placenta que PACHECO, M. T. et al. A review of emissions and concen-
trations of particulate matter in the three major metro-
e um dos autores do estudo. dificultariam a passagem de nutrientes. politan areas of Brazil. Journal of Transport & Health. v.
Os pesquisadores também obtiveram 4, p. 53-72. mar. 2017.

Da gestação à velhice indícios de que a exposição prolongada VARA-VELA, A. et al. Impact of vehicular emissions on
the formation of fine particles in the Sao Paulo Metro-
Para o patologista Paulo Saldiva, da Fa- aos poluentes – em especial às partículas politan Area: A numerical study with the WRF-Chem
léo ramos chaves

culdade de Medicina (FM) da USP, di- finas e ultrafinas – prejudica o desenvol- model. Atmospheric Chemistry and Physics. v. 16 (2),

minuir a concentração de partículas vimento dos pulmões. p. 777-97. jan. 2017.


SALVO, A. et al. Reduced ultrafine particle levels in São
finas e ultrafinas de poluição no ar é, Para Saldiva, é urgente que se adotem Paulo’s atmosphere during shifts from gasoline to ethanol
literalmente, uma questão de vida ou iniciativas para melhorar o transpor- use. Nature Communications. jul. 2017.

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