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28/03/2018 A Doença Infantil de Lenin… e a Terceira Internacional

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Jan 3 · 19 min read

A Doença Infantil de Lenin… e a Terceira


Internacional
por Franz Pfemfert [1]

Monumento à III Internacional

Introdução

Em abril de 1920, quando Lenin estava dando os toques nais ao seu


livro Esquerdismo: A Doença Infantil do Comunismo, ele ainda não sabia
da fundação do KAPD[2], o que reforçaria seu empenho em liquidar
uma tendência política que parecia para ele ser uma negação da
realidade. Para não perder o contato com as massas, se deve ir aonde
elas se encontram. Este é o eixo em torno do qual todos os argumentos
no livro de Lenin giram, tornando o livro uma teoria de manipulação:
devemos tirar proveito da discórdia nas leiras dos inimigos, devemos

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desmascarar os líderes do Labour Party diante dos olhos de seus


membros fazendo propostas que eles não podem cumprir, devemos
usar o espaço fornecido a nós pela democracia burguesa contra essa
democracia…

O KAPD, por meio de Gorter, que publicou sua Carta Aberta ao


Camarada Lenin em julho, ainda tentou abrir um diálogo. Gorter
destacou que, diferentemente da situação da Rússia, nos países da
antiga burguesia com tradições democráticas enraizadas
profundamente, nenhum método poderia transformar os parlamentos
em armas e que não era necessário desmascarar uma social democracia
e um punhado de sindicatos que, ao invés de realizar “traições”,
cumpriam uma função especí ca.

A Carta Aberta foi uma tentativa de provar aos Bolcheviques que eles
estavam equivocados em seus esforços para que os comunistas em
todos os lugares o imitassem. Gorter argumentou como se o KAPD
tivesse uma consciência maior dos interesses reais da Internacional e
do Estado Russo que Lenin, Trotsky, ou Zinoviev. Até o meio e inclusive
até o m de 1920, os comunistas de esquerda alemães não se
consideravam realmente uma oposição aos bolcheviques; pelo
contrário, era a liderança Espartaquista que parecia a eles ser in el aos
princípios que eles pensavam ter em comum com os bolcheviques.
Pfemfert argumenta de um ponto de vista evidentemente diferente já
que, como Rühle, rejeita qualquer papel positivo para um partido. Ele
argumenta, no entanto, como Gorter e ainda mais explicitamente,
como se uma situação revolucionária estivesse em processo de
amadurecimento e como se tudo que fosse necessário fosse um slogan
adequado a ser lançado por uma minoria determinada no lugar
correto: a fábrica, “a célula reprodutora da nova sociedade”.

A estabilização política, que estava cada vez mais distintamente


estabelecida após 1920, privou a “auto-iniciativa” defendida por Gorter
e Pfemfert de seu escopo prático. Para citar um exemplo, ao contrário
das esperanças dos apoiadores de um boicote eleitoral, a abstenção foi
de pouca importância. Neste período confuso e turbulento, as massas
estavam longe de demonstrar seu ódio pela urna eleitoral,
especialmente no momento das eleições para a Assembleia Constituinte
que decidiria o regime político que sucederia ao Império (26 de janeiro
de 1919). Votou-se em massa: duas vezes e meia mais eleitores do que
em 1912, dois terços deles votando pela primeira vez.

A Carta Aberta ao Camarada Lenin de Gorter foi deixada sem qualquer


refutação pública. Dez anos se passaram antes que sua primeira edição

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francesa visse a luz do dia, publicada pelo Groupes ouvriers


communistes[3], e mais trinta e nove anos antes que a segunda edição
francesa fosse publicada.

Gilles Dauvé

Denis Authier

I
A Terceira Internacional deveria ser a associação do proletariado
revolucionário de todos os países na luta contra a ditadura do
capitalismo, contra o Estado burguês, pelo poder da humanidade
trabalhadora, pelo comunismo. Ter se originado em um país em que os
trabalhadores já conquistaram esse poder por meio de grandes esforços
ajudou a Terceira Internacional a conquistar as simpatias do
proletariado mundial. Entusiasmo com essa nova associação mundial
dos explorados caminha de mãos dadas com o entusiasmo com a Rússia
soviética e o combate incomparavelmente heroico do proletariado
Russo. Mas a nova estrutura da III Internacional ainda não teve o
tempo nem a oportunidade de obter resultados morais como uma
organização.

A III Internacional pode e vai ser uma força moral se ela representar a
expressão do desejo do proletariado revolucionário do mundo, e então
será indestrutível e insubstituível como a Internacional da classe
proletária em luta. Mas a III Internacional seria uma impossibilidade e
uma expressão vazia caso ela queira ser o instrumento de propaganda
de um ou mais partidos.

Se a III Internacional realmente fosse a associação do proletariado


revolucionário do mundo, estes teriam, então, a sensação de
pertencerem a ela, independentemente de liação normal. Mas se a III
Internacional se apresentar como o instrumento do poder central de
um determinado país, então ela trará dentro de si mesma a semente da
morte e será um obstáculo à revolução mundial.

A revolução é uma questão do proletariado como classe; a revolução


não é uma questão do partido.

Devemos ser ainda mais precisos:

A Rússia soviética perecerá sem a ajuda de todos os combatentes


revolucionários. Todos os trabalhadores que têm consciência de classe
(e os sindicalistas, por exemplo, também são parte incondicional desta

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categoria!) estão prontos para vir em sua ajuda. A III Internacional


agiria de modo criminoso e contrarrevolucionário se, nos interesses do
partido, zer algo que possa apagar a chama sagrada de solidariedade
fraterna pela Rússia soviética (e ainda não pela III Internacional como
organização separada!) que arde nos corações de todos os proletários.

Isso é tão difícil de compreender? É tolice, camarada Lenin, nós


gritarmos com você: não somos nós que precisamos da III Internacional
neste momento, mas a III Internacional que precisa de nós?

II
Lenin pensa que isso é, de fato, tolice. Em sua obra Esquerdismo: Doença
Infantil do Comunismo, que ele acabou de lançar contra o proletariado
revolucionário, Lenin pensa que a III Internacional deve obedecer aos
estatutos do Partido Comunista Russo (Bolchevique) e que o
proletariado revolucionário de todos os países deve se submeter à
autoridade da “III Internacional” e, portanto, às táticas dos
bolcheviques. Os bolcheviques devem determinar quais armas o
proletariado do resto do mundo deve usar. E apenas os proletários que
obedecerem incondicionalmente serão escolhidos para pertencer a esta
associação mundial. Nos Princípios do Segundo Congresso da III
Internacional, Lenin formulou este postulado de uma maneira ainda
mais clara: ele não apenas deu instruções gerais, mas todos os detalhes
das táticas, da organização, e inclusive determinou o nome que deveria
ser adotado pelos partidos em todos os países. E o toque nal:

“Todas as diretrizes e as decisões dos órgãos dirigentes do Partido são


obrigatórias para as organizações subordinadas e para os diferentes
membros”.

Mesmo que isso seja metódico, ainda assim é loucura!

Em um país tão pequeno como a Alemanha, temos experiência


repetida, mais recentemente em março de 1920, do fato de que uma
tática que leva a vitória, por exemplo, no Ruhr, é impossível em outro
lugar; que a greve geral dos trabalhadores industriais na Alemanha
central foi uma piada para o Vogtland, onde o proletariado foi
condenado ao desemprego desde novembro de 1918. E Moscou deveria
ser o Estado-maior supremo nosso e de todos os outros países?

O que nos atrai em direção a III Internacional é o objetivo


compartilhado da revolução mundial: a ditadura do proletariado, o
comunismo. A III Internacional deve estar lado a lado dos proletários

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em luta de todos os países, instruindo-os em relação às várias situações


e tipos de guerra civil revolucionária. Os combatentes seriam bens ao
invés de combatentes, caso eles não quisessem ter nada a ver com a
tarefa de examinar as armas usadas pelos camaradas lutando aqui e em
outros lugares. Mas eles seriam ovelhas caso eles falhassem em parar
de se arrastar por caminhos que eles há muito haviam reconhecido
como inviáveis para eles e que consequentemente abandonaram.

O ataque de Lenin contra nós é, em sua tendência e detalhes,


simplesmente monstruoso. Seu texto é super cial. Ele não é compatível
com os fatos. É injusto. Apenas em sua fraseologia ele demonstra
qualquer rigidez. Não se encontra um traço do rigor do pensador Lenin,
que comumente se manifestava principalmente em suas polêmicas.

O que Lenin quer? Ele quer dizer ao KAPD e ao proletariado


revolucionário de todos os outros países que este é imbecil, idiota e,
pior ainda, que não está se ajoelhando docilmente perante a sabedoria
dos bonzos, uma vez que não estão se deixando ser conduzidos de um
modo extremamente centralizado por Moscou (por meio de seus
intermediários, Radek e Levi). Quando a vanguarda revolucionária da
Alemanha rejeitou participar em parlamentos burgueses, quando esta
vanguarda começou a demolir as instituições sindicais reacionárias,
quando deu as costas aos partidos políticos de líderes, de acordo com a
palavra de ordem, a emancipação dos trabalhadores deve ser obra dos
próprios trabalhadores, então esta vanguarda era composta de imbecis,
então ela cometeu “esquerdismos”, então a ela tinha de ser
necessariamente negado o direito de se associar à III Internacional
(esse foi o resultado do pan eto de Lenin)! Os trabalhadores do KAPF
só poderão se associar à III Internacional quando retornarem, como
pecadores arrependidos, à Liga Espartaquista, a única mensageira da
salvação. Então é assim que ca: De volta ao parlamentarismo! Entrem
nos sindicatos de Legien[4]! A liem-se ao KPD[5], aquele partido de
líderes em agonia. Isso é o que Lenin está gritando para o proletariado
alemão consciente!

Como eu disse acima: um livro monstruoso! Também devo chamar


atenção para a futilidade dos argumentos dos anos 1880 que Lenin
rejeita para convencer os esquerdistas alemães que sabe como usar
aspas contra eles.[6] Todas suas explicações a respeito do centralismo e
o parlamentarismo estão no nível do USPD[7]. E o que Lenin escreve a
favor de trabalhar nos sindicatos é tão incrivelmente oportunista que os
bonzos dos sindicatos não se impuseram tarefa mais urgente do que
reproduzir e distribuir esta seção do pan eto de Lenin como um
pan eto!

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A polêmica que Lenin dirige ao KAPD é escandalosamente super cial e


imperdoavelmente inadequada. Em uma passagem, por exemplo, ele
diz:

“Em primeiro lugar, os ‘esquerdistas’ alemães, como se sabe, já


consideravam em janeiro de 1919 que o parlamentarismo havia
‘caducado politicamente’, malgrado a opinião de destacados dirigentes
políticos como Rosa de Luxemburgo e Karl Liebknecht. Está claro que os
‘esquerdistas’ se equivocaram. Tal fato é su ciente para destruir de golpe e
radicalmente a tese de que o parlamentarismo ‘caducou politicamente’”.

É isso o que o lógico Lenin escreve! De que modo, diga-me, está “claro”
que estávamos equivocados? Talvez no fato de que, na Assembleia
Constituinte nacional, Levi e Zetkin não se sentaram próximos ao
pessoal de Crispien.[8] Talvez no fato de que esta dupla comunista
agora está sentada no Reichstag? Como Lenin pode, tão
irre etidamente e sem oferecer a menor sombra de provas, escrever
que nosso “equívoco” está claro e então adicionar a a rmação de que
“tal fato é su ciente para destruir [ess]a tese, etc.? Monstruoso!
Também monstruosa é a maneira com que Lenin responde
a rmativamente à questão, “Devemos participar nos parlamentos
burgueses?”:

“A crítica — a mais implacável, violenta e intransigente — de deve dirigir-se


não contra o parlamentarismo ou a ação parlamentar, mas sim contra os
chefes que não sabem — o mais ainda contra os que não querem — utilizar
as eleições e a tribuna parlamentares de modo revolucionário, comunista”.

É Lenin que escreve isso! Lenin, de repente, quer “utilizar a


democracia”, um método com o qual ele havia acertado as contas ao se
referir a ele como “a demanda dos renegados” (em O Estado e a
Revolução, em O Renegado Kautsky, e em A democracia burguesa e a
ditadura do proletariado)!

O proletariado revolucionário da Alemanha se distanciou do


“parlamentarismo venal e corrupto da sociedade burguesa”, aquele
“sistema de ilusão e enganação”. Esse proletariado reconheceu
completamente o grito de guerra: “Todo poder aos conselhos!”
Compreendeu que não pode “utilizar” o parlamento burguês.
Reconheceu os sindicatos como instituições que necessariamente levam
a uma comunidade de trabalho entre exploradores e explorados, e por
essa razão sabotam a luta de classes, e é de pouca importância se seus
membros criticam isso ou aquilo. O proletariado revolucionário da
Alemanha teve que redimir-se por sua submissão aos líderes com

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hecatombes de cadáveres de trabalhadores. O infame Comitê Central


da Liga Espartaquista destruiu essa ilusão. O proletariado está
certamente farto de tudo isso!

E agora Lenin vem e tenta nos fazer esquecer as lições amargas que da
revolução alemã bem como as lições que ele mesmo ensinou? Ele está
tentando nos fazer esquecer que Marx ensinou que não são os
indivíduos que são responsáveis? E que é contra o parlamentarismo que
se deve lutar e não os parlamentares!

Vários meses se passaram desde que os “comunistas” assumiram seus


primeiros assentos no Reichstag. Leia as minutas das sessões
parlamentares, agora que Levi-Zetkin “utilizaram” esta tribuna “de um
modo revolucionário, comunista” (na verdade, nada mais que
palavreado jornalístico insigni cante)! Você leu as minutas, camarada
Lenin. Onde está “sua crítica implacável, violenta e intransigente”?
Você está satisfeito com eles?…

É fácil provar: o KAPD tem utilizado mais efetivamente a “luta eleitoral”


no sentido de realizar a agitação revolucionária, e tem sido capaz de
utiliza-la mais efetivamente que os parlamentares comunistas
precisamente porque não tem nenhum “candidato” buscando vitória
eleitoral. O KAPD desmascarou a fraude parlamentar e trouxe as ideias
dos conselhos locais mais remotos. Mas os caça-votos con rmaram, nos
últimos meses de atividade no parlamento, que estávamos certos em
sermos contra o parlamentarismo. Camarada Lenin, nunca lhe ocorreu,
essa ideia leninista, de que em um país com 40 anos da baboseira
parlamentar da socialdemocracia (aquele partido também queria, no
começo, “utilizar” aquela tribuna apenas para propaganda!), entrar no
parlamento é uma atitude completamente reacionária? Você
compreende que em um país caracterizado por cretinismo parlamentar,
o parlamentarismo apenas pode ser estigmatizado por meio de boicote?
Não há nenhuma estigmatização mais violenta, que penetre mais fundo
na consciência dos trabalhadores! Um parlamento desmascarado por
um boicote realizado por proletários nunca seria capaz de enganar e
iludir os proletários. Mas um discurso “programático” correto, que a
Clara Zetkin entrega com a aprovação dos jornais burgueses e
socialdemocratas, e do qual a impressa pega o que parece adequado, tal
discurso engendra respeito no parlamento burguês! Se os chefes do
USPD não tivessem ido à Assembleia Constituinte, a consciência dos
proletários alemães estaria muito mais desenvolvida hoje.

III

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Lenin prefere “a centralização mais rígida” e “disciplina de ferro”. Ele


quer que a III Internacional endosse suas opiniões e expulse todos
aqueles que, como o KAPD, se opõem criticamente a liderança
onipotente.

Lenin quer que a autoridade de estilo militar vigore nos partidos de


todos os países.

As instruções do Primeiro Congresso da III Internacional eram um


pouco diferentes! Naquelas instruções, dirigidas contra os
Independentes cujo espírito de luta era incerto, recomendava-se:

“(…) separam os elementos revolucionários do ‘Centro’, algo que apenas


pode ser realizado por meio da crítica rigorosa e impiedosa aos líderes do
‘Centro’”.

Também disseram:

“Além disso, é necessário formar uma aliança com aqueles elementos do


movimento revolucionário dos trabalhadores que, embora anteriormente
não fossem membros do partido socialista, agora estão completamente no
terreno da ditadura do proletariado em sua forma de sovietes, isto é,
primeiro de tudo com os elementos sindicalistas do movimento dos
trabalhadores”.

Mas, agora, uma tática diferente prevalece. Ao contrário, o slogan é:


Abaixo os sindicalistas! Abaixo com os “idiotas” que não se submetem
aos bonzos! O comitê executivo está no comando, e suas ordens são a
lei.

Lenin pensava que podia citar Karl Liebknecht contra os “esquerdistas”.


Citarei Karl Liebknecht contra Lenin:

“O círculo vicioso no qual as grandes organizações centralizadas operam,


repletas de funcionários que recebem seus salários e, considerando sua
origem social, são muito bem pagos, consiste não apenas do fato de que
estas organizações estão criando, nesta burocracia pro ssional, uma
camada social diretamente hostil aos interesses revolucionários do
proletariado, mas também do fato de que eles conferem poder a um líder,
que facilmente se torna tirano e é escolhido dentre aqueles que têm um
grande interesse em se opor à política revolucionária do proletariado,
enquanto a independência, o desejo, a iniciativa e ação autônoma moral e
intelectual das massas são reprimidas ou completamente eliminadas. Os
parlamentares pagos também pertencem a esta burocracia”.

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“Não há outro remédio, no nível organizacional, para este mal que não a
supressão da burocracia paga ou sua exclusão de todos os processos de
decisão, e a limitação de sua atividade ao trabalho técnico administrativo.
Proibição da eleição de todos os funcionários após dado m do mandato,
que deve ser estabelecido de acordo com a disponibilidade de proletários
que, no meio tempo, se tornaram especialistas na administração técnica; a
possibilidade de revogar seus mandatos a qualquer momento; limitação da
competência dos vários escritórios; descentralização; consulta de todos os
membros em relação a questões importantes (veto ou referendo). Na
eleição de funcionários a maior importância deve ser dada às provas que
eles oferecem a respeito de sua determinação e disponibilidade na ação
revolucionária, de seu espírito de luta revolucionário, de seu espírito de
sacrifício ilimitado no compromisso ativo de sua existência. A educação
das massas e de cada indivíduo na autonomia intelectual e moral, em sua
capacidade de questionar autoridade, em sua rigorosa auto-iniciativa, em
sua prontidão irrestrita e capacidade de ação, em geral constituem a base
única para garantir o desenvolvimento de um movimento de trabalhadores
igual a suas tarefas históricas e também incluem as condições essenciais
para extirpar os perigos da burocracia”.

“Toda forma de organização que obstrui a educação em espírito


revolucionário internacional, a capacidade autônoma para a ação e a
iniciativa das massas revolucionárias deve ser rejeitada (…). Nenhum
obstáculo a livre iniciativa. A tarefa educacional mais urgentemente
necessária na Alemanha, um país de obediência cega e passiva em massa, é
favorecer esta iniciativa entre as massas; e este problema deve ser resolvido
inclusive com o risco de ser exposto ao perigo de que, momentaneamente,
toda ‘disciplina’ e todas as ‘sólidas organizações’ podem ir pelo ralo (!).
Deve ser dada ao indivíduo uma margem de liberdade muito maior do que
a que lhe foi atribuída até o momento pela tradição na Alemanha. Não
deve ser dada importância à pro ssão de fé em palavras. Todos os
elementos radicais dispersos resultarão em um determinado todo de
acordo com as leis imanentes do internacionalismo se intransigência for
praticada com todo oportunista e tolerância com todos os esforços feitos
em nome de um espírito de luta revolucionário no processo de
fermentação”.

IV

Sei que Lenin não se tornou um “renegado” ou um socialdemocrata,


embora o Esquerdismo: doença infantil do comunismo tenha um efeito
puramente socialdemocrata (os líderes alemães estavam dizendo quase

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as mesmas coisas em 1878). Como, então, a publicação deste texto


contra a revolução mundial pode ser explicada?

Os monarquistas tem o costume de, para justi car as parvoíces (ou os


crimes de seus monarcas), sempre alegar que suas majestades estavam
“desinformadas”. Os revolucionários não podem (eles não têm o direito
de) usar tal desculpa. Estamos bem conscientes, é claro, de que Karl
Radek e a Liga Espartaquista, para desviar a atenção de Lenin das
causas de seu fracasso político, lhe contaram, propositalmente, mentiras
acerca da situação e do proletariado revolucionário na Alemanha. A
carta insolente de Radek dirigida aos membros do KAPD mostra como
as coisas foram apresentadas ao camarada Lenin. Mas isso de modo
algum serve de justi cativa para Lenin! Em todo caso, tal desculpa é
inútil: permanece o fato de que, Lenin, com seu estúpido pan eto,
complicou a luta do proletariado revolucionário na Alemanha, embora
não tenha abolido tal luta.

É verdade que mentiram descaradamente a Lenin a respeito da questão


da Liga Espartaquista e do KAPD, mas ele deveria, não obstante, ter
dito que é um grave erro identi car a situação alemã com a situação
russa. Lenin era perfeitamente capaz, apesar de Radek, de enxergar a
diferença entre os sindicatos alemães, que sempre tiveram uma
existência contrarrevolucionária, e os sindicatos russos. Lenin sabia
perfeitamente bem que os revolucionários russos não tinham que lutar
contra o cretinismo parlamentar porque o parlamento não tinha nem
uma tradição nem qualquer crédito com o proletariado russo. Lenin
sabia (ou deveria saber) que na Alemanha os líderes do partido e dos
sindicatos necessariamente provocaram o 4 de agosto de 1914 ao
“utilizar” o parlamento! Que o caráter autoritário e militarista do
partido, acompanhado por obediência cega, tem abafado as forças
revolucionárias no movimento dos trabalhadores alemães por décadas.
Lenin deveria ter considerado todas estas coisas antes de empreender
sua batalha contra os “esquerdistas”. Caso ele o tivesse feito, um senso
de responsabilidade teria evitado que escrevesse este pan eto
imperdoável.

Para convencer o proletariado mundial que o Esquerdismo: doença


infantil do comunismo indica o caminho correto para a revolução em
todos os países, Lenin apresenta o caminho que os bolcheviques
seguiram e que levou à sua vitória, porque ele foi (e é) o caminho
correto.

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Aqui também, Lenin se encontra em uma posição completamente


insustentável. Quando cita a vitória dos bolcheviques como prova de
que seu partido trabalhara “corretamente” durante os quinze anos de
sua existência, ele está alucinando! A vitória dos bolcheviques em
novembro de 1917 não se deveu apenas à força revolucionária do partido!
Os bolcheviques assumiram o poder e conquistaram a vitória graças ao
slogan paci sta-burguês de “Paz”! Apenas este slogan derrotou os
mencheviques, e permitiu que os bolcheviques conquistassem o
exército para seu lado!

Assim, não é sua vitória exclusivamente que pode nos convencer de que
os bolcheviques trabalharam “corretamente” no sentido de manter a
rmeza de seus princípios. É, ao contrário, o fato de que eles sabem
como defender esta vitória agora, depois de quase três anos!

Mas — e esta é uma questão posta pelos “esquerdistas” — os


bolcheviques sempre conduziram sua ditadura do partido do modo que
Lenin exige, no Esquerdismo: doença infantil do comunismo, que o
proletariado revolucionário da Alemanha o faça em seu partido? Ou a
situação dos bolcheviques foi tal que eles não precisaram acatar a
“condição” de Lenin, que exige que o partido revolucionário “seja capaz
de se misturar com, e fraternizar com e, se assim o desejar, em certa
medida, se unir com as massas mais amplas dos trabalhadores,
principalmente com as massas proletárias, mas também com as massas
não-proletárias” (Esquerdismo: doença infantil do comunismo).

Até agora, os bolcheviques foram capazes de pôr em prática, e apenas


tiveram sucesso em pôr em prática, uma coisa: a disciplina estritamente
militar do partido, a ditadura de “ferro” do centralismo do partido.
Foram capazes de “se misturar com, fraternizar com e, se [eles] assim o
[desejarem], em certa medida, se unir com” as “massas mais amplas”
das quais Lenin fala?

VI

As táticas empregadas pelos camaradas russos são da conta deles. Nós


protestamos, e tivemos que tratar o Sr. Kaustky como
contrarrevolucionário, quando ele se permitiu difamar as táticas dos
bolcheviques. Nós devemos defender os camaradas russos na questão
de sua escolha das armas. Mas sabemos uma coisa: na Alemanha, uma
ditadura do partido é impossível; na Alemanha, apenas uma ditadura da
classe, a ditadura dos conselhos dos trabalhadores revolucionários, é
capaz de vitória (e será vitoriosa!), e (é o mais importante) será capaz
de defender sua vitória.

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Eu podia escrever agora, seguindo a receita de Lenin no Esquerdismo,


que isso “está claro”, e então mudar de assunto. Mas não precisamos
fugir da questão.

O proletariado alemão está organizado em diferentes partidos políticos


que são partidos de líderes com características distintamente
autoritárias. Os sindicatos reacionários, controlados pela burocracia
sindical devido à natureza estritamente centralizada de suas estruturas,
são a favor da “democracia” e a recuperação do mundo capitalista, sem
a qual eles não poderiam existir. Uma ditadura do partido nessa
Alemanha signi ca: trabalhadores contra trabalhadores (a era
Noske[9] começou com a ditadura do partido do SPD!). Uma ditadura
do partido (e Lenin não propõe nenhum outro tipo) da Liga
Espartaquista-KPD teria de ser imposta contra os trabalhadores do
USPD, os trabalhadores do SPD, os sindicatos, os sindicalistas, e as
Organizações de Fábricas, bem como contra a burguesia. Karl
Liebknecht nunca aspirou tal ditadura de partido com a Liga
Espartaquista, bem como o corpus de sua obra revolucionária
demonstra (e como é demonstrado nas passagens que citei acima).

É incontestável que todos os trabalhadores (incluindo os trabalhadores


a pronto serviço de Legien e Scheidemann![10]) devem ser apoiadores
da nova ordem comunista garantindo que sua divisão interna não torne
a repressão da burguesia impossível. Devemos esperar o julgamento
nal, quando todos os proletários, ou mesmo apenas uns poucos
milhões deles, são membros do KPD (que hoje é composto de nada
mais que um punhado de funcionários e um pequeno número de
pessoas de boa fé)? Talvez a III Internacional venha a ser o incentivo
que compelirá os trabalhadores revolucionários a se liarem ao KPD
(como Radek e o Sr. Levi imaginaram)? O egoísmo de seus líderes pode
permanecer ignorante do fato que, neste exato momento, a maioria dos
trabalhadores industriais do mundo e do proletariado rural está
madura e pronta para ser convencido para uma ditadura de classe?

Precisamos de um slogan para convocar a união do proletariado


alemão. Nós o temos: “Todo poder aos conselhos operários!”.
Precisamos de um lugar para recrutamento em que todos os
trabalhadores com consciência de classe possam se encontrar sem a
interferência dos bonzos do partido. Nós temos tal lugar: é o local de
trabalho. O local de trabalho, a célula reprodutora da nova
comunidade, também é a base do recrutamento. Para a realização
vitoriosa da revolução proletária na Alemanha, não precisamos de
bonzos, mas proletários conscientes. Aqueles que no momento se
chamam de sindicalistas ou independentes compartilham conosco o

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objetivo de destruir o Estado capitalista e realizar a comunidade


humana comunista e, portanto, são parte de nós, e nós devemos “nos
misturar, fraternizar e nos unir com” eles nas organizações das
Organizações de Fábrica revolucionárias!

O Partido Comunista Operário da Alemanha não é, portanto, um


partido no mau sentido da palavra, porque não é um m em si mesmo!
Ele faz propaganda pela ditadura no seu sentido da palavra, pois essa
ditadura não é um m em si mesmo! Faz propaganda pela ditadura do
proletariado, pelo comunismo. Treina seus combatentes nas
Organizações de Fábrica, onde todas as forças que vão abolir o
capitalismo, estabelecer o poder dos conselhos e permitir a construção
da nova economia comunista estão concentradas. As Organizações de
Fábrica são reunidas na União. As Organizações de Fábrica saberão
como garantir o regime do proletariado como classe contra as
manipulações dos chefes do partido, contra todos os traidores. Apenas o
poder da classe oferece uma fundação rme e ampla (como o
capitalismo prova!).

O Partido Comunista Operário da Alemanha teve que enfrentar o


Esquerdismo de Lenin, as maldições de Radek, e as calúnias da Liga
Espartaquista e de todos os partidos de líderes, pois está lutando pelo
regime de classe do proletariado, porque compartilha as visões de Karl
Liebknecht a respeito do centralismo. O KAPD sobreviverá bem ao
Esquerdismo e tudo mais. E, Radek compreenda ou não, Lenin escreva
ou não um pan eto contra nós (e contra ele mesmo): a revolução
proletária na Alemanha tomará caminhos diferentes dos da Rússia.
Quando Lenin nos trata como “imbecis” não somos nós o alvo, mas ele,
uma vez que nesta questão somos nós os leninistas. Sabemos
perfeitamente: mesmo que congressos nacionais ou internacionais
prescrevam os itinerários mais detalhados para a revolução mundial,
ela, não obstante, seguirá o caminho imposto pela história! Mesmo que
o Segundo Congresso da III Internacional pronuncie um julgamento
condenando o KAPD em favor de um partido de líderes, os comunistas
revolucionários da Alemanha saberão como lidar facilmente com isso e
não vão choramingar como os bonzos do USPD. Somos parte da III
Internacional, pois a III Internacional não é Moscou, não é Lenin, não é
Radek, é o proletariado mundial lutando por sua libertação!

[1] Publicado no Die Aktion em 7 de agosto de 1920.

[2] Kommunistische Arbeiter-Partei Deutschlands (Partido Comunista


Operário da Alemanha). (Nota do tradutor)

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28/03/2018 A Doença Infantil de Lenin… e a Terceira Internacional

[3] Grupo dos Trabalhadores Comunistas. (Nota do tradutor)

[4] Carl Legien, sindicalista e social democrata moderado alemão,


primeiro presidente da Fédération Syndicale Internationale. (Nota do
tradutor)

[5] Kommunitische Partei Deutschlands (Partido Comunista Alemão),


também chamado de Espartaquistas. (Nota do tradutor)

[6] Ele está claramente falando da oposição antiparlamentar no SPD,


especialmente em Berlim que, entretanto, não se tornou organizada até
1889–1892 em torno do grupo “A Juventude”. Tendências análogas
surgiram durante o mesmo período na Dinamarca, Inglaterra (William
Morris) e Holanda (D. Nieuwenhuis). Foi também neste momento que
a divisão “Marxismo”/”Anarquismo” foi consumada.

[7] Unabhängige Sozialdemokratische Partei Deutschlands (Partido


Social-Democrata Independente da Alemanha).

[8] Clara Zetkin (1857–1933), membro da esquerda do SPD, depois


Espartaquista, apoiou Levi. Arthur Crispien (1875–1946), deixou o
SPD para se liar a ala direita do USPD. Compareceu ao Segundo
Congresso da Internacional Comunista, mas se opôs a associar-se a ela
e depois retornou ao SPD.

[9] Noske (1868–1946), Ministro de Guerra do SPD em dezembro de


1918, colaboração organizada entre os socialistas e os Freikorps.
Arquiteto e símbolo da subsequente repressão sangrenta.

[10] Legien (1865–1939), socialista do governo, Ministro em


novembro de 1918, Chanceler da República em 1919, um dos
arquitetos, com Noske e Ebert, da repressão anti-Espartaquista.

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