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Visão do período de acordo com a APE

A literatura de Análise de Política Externa (APE) referente ao período tende a


atribuir a guinada em direção ao Norte global no governo Collor quase exclusivamente
ao presidente, enfatizando a influência do personalismo deste na Política Externa do
Brasil na época (BATISTA, 1993; LIMA, 1994; HIRST; PINHEIRO, 1995;
VIGEVANI; CEPALUNI, 2011). Exceção digna de nota é o estudo de Casarões e Stolle
(2012) que defende a importância da atuação do Itamaraty no governo em questão, e
afirma que “a aproximação do Primeiro Mundo foi uma saída possível dentro de um
conjunto mais amplo de jogadas” (CASARÕES; STOLLE, 2012, p. 142). O autor
defende, além disso, a existência de um “americanismo mitigado” em oposição ao
extremo de subordinação aos Estados Unidos, devido em grande parte à um contexto
que impossibilitava o alinhamento automático (CASARÕES; STOLLE, 2012, p. 150).
Essa subordinação aos interesses dos países centrais, em relação à política de
comércio exterior, costuma ser associada, por análises críticas, às reformas neoliberais
implementadas durante o governo Collor (BOITO JR, 1999; FILGUEIRAS, 2000).
Nesse caso, a posição contrária pode ser encontrada em Sallum Jr. (2011), para quem o
reformismo liberal “tinha em vista, ao invés, a afirmação nacional pela elevação da
capacidade de competição do país” (SALLUM JR, 2011, p. 283).
No geral, apesar da ideia de ruptura associada ao período, que, por exemplo, a
ideia de mudança de paradigma da análise conceitual paradigmática sugere (CERVO,
2003), houve continuidade em certos aspectos, devidas em parte à influência do
Ministério de Relações Exteriores (MRE), como argumentam Casarões e Stolle (2012).
Alguns autores apontam para a dificuldade de identificar um curso de ação claramente
definido na política externa do governo Collor (DE CRUZ; CAVALCANTE; PEDONE,
1993, p. 122).
Os mesmos autores fazem referência às ambiguidades na relação com os Estados
Unidos, que é historicamente uma das mais vantajosas e, ao mesmo tempo, uma das
mais conflituosas, com exemplos destas em certas disputas comerciais comerciais
(desacordo em relação à Rodada Uruguai do GATT e políticas protecionistas
estadunidenses), mas com a manutenção de um tom cooperativo, como demonstrado
pela "Enterprise for the Americas Initiative (EAI)” (DE CRUZ; CAVALCANTE;
PEDONE, 1993, p. 131). A Europa também observou um padrão similar, com disputas
comerciais a respeito de políticas protecionistas e subsídios e a assinatura de acordos de
cooperação institucional entre a Comunidade Europeia e o MERCOSUL (DE CRUZ;
CAVALCANTE; PEDONE, 1993, p. 135). Ainda assim, o interesse a necessidade do
Brasil à época de reduzir sua vulnerabilidade econômica provocou um esforço maior de
aproximação dos países industrializados (DE CRUZ; CAVALCANTE; PEDONE, 1993,
p. 139).
Conclusão
Por meio da análise da literatura relevante sobre o tema, chegamos à conclusão
de que a mudança de política no governo Collor, ainda que apresente continuidades em
relação aos períodos anteriores, foi marcada pela ruptura do ponto de vista do sistema,
com a emergência de uma ordem pós-Guerra Fria. A inserção nessa nova ordem foi vista
como parte do interesse nacional e transmitida como tal para a opinião pública. Os
esforços dessa inserção deram-se em grande parte no âmbito econômico, seja pelo
estreitamento de laços comerciais com os países industrializados ou pela implementação
de reformas neoliberais, apesar dos atritos que possam ter existido, solucionados em
geral por concessões brasileiras.
Quer tenham um caráter de autonomia ou de subordinação, as mudanças na
política externa foram influenciadas tanto pela visão do então presidente e pela situação
econômica interna, quanto pelo Itamaraty e pelo cenário internacional. Collor optou
pela via neoliberal, diante das necessidades domésticas de adquirir credibilidade
internacional e atrair investimento estrangeiro e tecnologia, em um contexto de sucessão
de crises nos países do dito Terceiro Mundo e de reformas no modelo do Consenso de
Washington, e apesar de discordâncias dentro do MRE entre liberais e nacionalistas
(CASARÕES; STOLLE, 2012).
Bibliografia:
BATISTA, Paulo Nogueira. “A Política Externa de Collor: modernização ou
retrocesso?”. Política Externa, vol. 1, no. 4, 1993.
BOITO JR, Armando. A política neoliberal no Brasil. Política neoliberal e
sindicalismo no Brasil. São Paulo: Xamã, 1999.
CASARÕES, Paixão E.; STOLLE, Guilherme. O papel do Itamaraty na definição da
política externa do governo Collor de Mello. Revista Brasileira de Política
Internacional, v. 55, n. 1, 2012.
CERVO, Amado Luiz. Política exterior e relações internacionais do Brasil: enfoque
paradigmático. Revista Brasileira de Política Internacional, v. 46, n. 2, p. 5-25, 2003.
DE CRUZ JUNIOR, Ademar Seabra; CAVALCANTE, Antonio Ricardo F.; PEDONE,
Luiz. Brazil's foreign policy under Collor. Journal of Inter-American Studies and
World Affairs, p. 119-144, 1993.
FILGUEIRAS, Luiz. História do plano real. São Paulo: Boitempo, p. 84, 2000.
HIRST, Monica e PINHEIRO, Letícia. “A Política Externa do Brasil em dois tempos”.
Revista Brasileira de Política Internacional, vol. 38, no. 1, 1995.
LIMA, Maria Regina Soares de. “Ejes Analíticos y Conflicto de Paradigmas en la
Política Exterior Brasileña”. América Latina/Internacional, vol. 1, no. 2, 1994.
SALLUM JR, Brasilio. Governo Collor: o reformismo liberal e a nova orientação da
política externa brasileira. Dados-Revista de Ciências Sociais, v. 54, n. 2, 2011.
VIGEVANI, Tullo; CEPALUNI, Gabriel. A política externa brasiliera: a busca da
autonomia de Sarney a Lula. Editora Unesp, 2011.