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RESENHAS BOOK REVIEWS 833

RETRATOS DA FORMAÇÃO MÉDICA NOS NOVOS de ver a morte imediatamente – por meio do hospital
CENÁRIOS DE PRÁTICA. Nogueira MI. São Paulo: – e procurar ver a vida, ficou representada principal-
Editora Hucitec; 2012. 157p. mente nas disciplinas de Trabalho de Campo Supervi-
ISBN: 978-85-64806-05-4 sionado (TCS I e II, que aconteciam nos dois primeiros
anos), coadjuvadas pelas de Saúde e Sociedade e Epi-
O livro de Maria Inês Nogueira vem em boa hora. A demiologia. Tendo o princípio da integralidade como
despeito de estar acontecendo uma grande discussão arcabouço analítico, a autora elegeu o “olhar” como
na área da epistemologia, capitaneada pelas ciências categoria central de análise, e os conceitos de “estilo de
hard em alguns meios acadêmicos (embora ainda se- pensamento/coletivo de pensamento” de Fleck para
jam poucos, e tal discussão seja praticamente ignorada desenvolver a etnografia que se propôs por intermédio
nas ciências sociais), muito pouco se vê aqui no Brasil. das técnicas de análise documental, observação parti-
Este livro trata, na verdade, de uma discussão episte- cipante e entrevistas. Essas foram feitas com alunos e
mológica que se coloca por meio da formação do pro- preceptores/professores dos grupos observados.
fissional em medicina. Com base no conceito de estilo A Construção de um Olhar Ampliado, o capítulo 3,
de pensamento desenvolvido por Fleck, a autora enca- relata as falas dos alunos entrevistados em relação ao
minhou seu trabalho para a possibilidade de pensar-se novo currículo da UFF, especialmente no que se refere
em transformações epistemológicas. Na prática, só por à ausência de Anatomia no primeiro semestre – disci-
meio dessas poderão verdadeiramente se fazer valer os plina presente senão em todos, mas em quase todos
preceitos constitucionais de 1988 consubstanciados os cursos de medicina no Brasil. Trabalho de Campo
no Sistema Único de Saúde. Palavras suas: “para que Supervisionado I e Saúde e Sociedade I foram as disci-
se possa modificar um estilo de pensamento médico, plinas que mais chamavam a atenção dos alunos pelo
há que se modificar a compreensão do processo saúde- fato de serem as mais diferentes, as que não existiam
doença e o modo de fazer clínica” (p. 16). Isso é episte- em outras escolas de medicina. Assim, nesse primeiro
mologia. Este livro, resultado de estágio pós-doutoral, semestre já ficava clara a opção pelo polo ético-huma-
é leitura obrigatória para todos aqueles preocupados nístico. O olhar ampliado se dava pelo acréscimo da in-
com o tema saúde em geral. corporação de saberes não biomédicos.
No capítulo 1, A Reorientação da Formação Médica: Um Olhar sobre o Sujeito: Aprendizagem em Cená-
De um Olhar Anatomoclínico para um Olhar Ampliado, rios da Vida Real, o capítulo 4, relata a experiência dos
a autora apresenta seu quadro teórico, partindo dos es- alunos em transporem o aprendizado feito em sala de
tudos de Michel Foucault. Esse autor chamou de ana- aula para os cenários da vida real. Isso foi possível pela
tomoclínico o olhar que passou a existir quando se dei- inclusão de Trabalho de Campo Supervisionado I (no
xou de lado a vida para ver a morte, e o hospital passou primeiro e no segundo semestres). À época da pesqui-
a ser o centro não só do tratamento de doenças, como sa, foram trabalhados os temas do envelhecimento no
também da produção de verdades. No Brasil, aponta primeiro semestre e aids para o segundo período, as-
a autora, diferentemente do que acontece em outros suntos escolhidos entre tantos outros. A disciplina de
países, a clínica, por meio da Saúde Coletiva, tornou- TCS desenvolve-se da seguinte forma: inicialmente são
se objeto de investigação. O debate que se coloca aqui feitas discussões sobre metodologia da pesquisa social,
procura dar conta de compreender a construção de seguidas por trabalho com textos voltados para ca-
práticas de cuidado integrais no sentido de que o tra- da temática específica. Assim, referindo-se apenas ao
balho em saúde seja realmente humanizado. Assim, os primeiro semestre, foram desenvolvidas as seguintes
conceitos de “tecnologias leves” (que dizem respeito às atividades: discussões de texto sobre o tema, apresen-
relações) e “necessidades de saúde” (condições físicas, tação de entrevistas realizadas pelos alunos com ido-
emocionais e sociais dignas de viver) vão ao encontro sos próximos, preparação de roteiro de entrevista com
de outro olhar, de outra compreensão do processo de idosos nas visitas aos asilos, visitas a espaços que ofere-
adoecimento humano que procura fugir do paradigma cem cursos e atividades para idosos, discussão do tema
cartesiano tão bem representado no modelo flexneria- sexualidade na terceira idade (com dramatização final
no de organização da formação médica. desenvolvida pelos alunos) e visita a um centro de con-
No capítulo 2, O Quadro Metodológico da Investi- vivência que oferece atividades artísticas para idosos.
gação, é apresentado o campo de pesquisa, a Escola Um Olhar sobre a Produção do Cuidado em Saúde
Médica da Universidade Federal Fluminense (UFF). na Atenção Básica, o capítulo 5, relata a experiência dos
A escolha deveu-se ao processo de mudança curricu- alunos em Trabalho de Campo Supervisionado II, que
lar desenvolvido por essa instituição desde 1992, cuja ocorre no terceiro e no quarto semestres. A proposta,
intenção era articular as relações entre universidade e em acordo com TCS I, é proporcionar contato, vivên-
sociedade por meio do serviço de saúde. O novo cur- cia e reflexão dos estudantes de medicina nos espaços
rículo, implantado em 1994, privilegiava a inserção do institucionais voltados para a produção do cuidado de
aluno, desde o início do curso, na rede de serviços e saúde na Atenção Básica. Nesse segundo ano do curso
práticas comunitárias, retirando-o, nesse primeiro mo- de medicina, o aluno está dentro de uma unidade de
mento, da estrutura hospitalar. Tal inversão, ao deixar saúde, em contato com a complexidade do ato de cui-

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dar, fazendo rodízio para conhecer sua demanda e seu zado por Madel T. Luz e Nelson Filice de Barros, o livro
funcionamento, desde a sala de curativos até o sistema traz importantes reflexões sobre o Campo da Saúde Co-
de informação. letiva e a construção do conhecimento em racionalida-
O capítulo 6, Discussão dos Resultados, trata das des médicas/práticas integrativas em saúde.
conclusões que puderam ser tiradas da inclusão das A primeira parte referente à racionalidade médi-
disciplinas de Trabalho de Campo Supervisionado I e cas apresenta conclusões teóricas, além de um estudo
II. Sobre a primeira, embora no dizer da autora tenha empírico que evidencia a contribuição deste conceito
se ampliado o olhar sobre o adoecimento humano, para o campo da saúde coletiva. O conceito de raciona-
proporcionado pelo referencial das ciências humanas, lidades médicas é construído como um tipo ideal we-
críticas foram apontadas pelos alunos, como o exces- beriano, o qual descreve/interpreta um conjunto de fe-
so de carga horária. Em relação à TCS II, observou-se nômenos observáveis de acordo com um modelo ideal
que os objetivos foram alcançados, já que se entendia logicamente definido, que é a posteriori comparado
o sujeito em seu contexto social numa ampliação da com realidades empíricas particulares específicas para
clínica por meio da construção de vínculos e trabalho estabelecer se estas se enquadram ao conceito ideal-
em equipe multidisciplinar. Uma crítica à disciplina se típico. Isso difere do conceito clássico grego, em que
destacava entre os alunos: o número reduzido de pre- procura-se explicar um fenômeno por uma operação
ceptores. lógica a priori, o que supõe o paradigma da causalida-
Integração Curricular: Limites e Possibilidades, o de, no qual busca-se uma lei que representaria o real.
capítulo 7, relata as dificuldades enfrentadas para a im- O tipo ideal é, portanto, um constructo lógico que
plantação do novo currículo. Entre outras, destacam-se traz como principal benefício a desnaturalização da su-
a tripla cisão na formação por conta de uma divisão do perioridade do conhecimento científico ocidental, co-
corpo docente: professores da área da Saúde Coletiva, locando a medicina ocidental contemporânea em igual
professores do Instituto Biomédico (responsáveis pelas patamar de análise com os demais sistemas médicos
disciplinas básicas) e professores das áreas clínicas. Es- que coexistem no mundo.
sa divisão praticamente invalida os esforços para mu- Racionalidades médicas é, assim, todo o sistema
danças efetivas. Por outro lado, há possibilidades de médico complexo construído sobre seis dimensões:
melhoria mediante investimento no Programa de Pós- uma morfologia humana, uma dinâmica vital, uma
graduação em Saúde Coletiva. doutrina médica (o que é estar doente ou ter saúde),
Nas considerações finais, a autora pontua sobre o um sistema diagnóstico, uma cosmologia e um sistema
modelo de formação profissional do médico inserido terapêutico.
no estilo de pensamento biomédico, e o desafio de toda Essas seis dimensões, ao serem aplicadas à reali-
ordem que se coloca para quem deseja ampliar a ideia dade, permitem tecer estudos comparativos entre sis-
de clínica. Pode-se concluir com a autora que sementes temas médicos de origens culturais diferentes como
foram plantadas. O tempo será de fundamental impor- as medicinas tradicionais chinesa e ayurvédica, a ho-
tância para que frutos/flores venham a ser colhidos/as meopatia e a medicina ocidental contemporânea, situ-
pela sociedade. Não há como fazer colheita sem o ato ando-as no contexto sócio-histórico contemporâneo,
de plantar. Este foi feito. pois os sistemas médicos, principalmente os saberes
tradicionais, não existem sem história e têm a capaci-
Fátima Cristina Vieira Perurena
dade de estarem sempre sendo modificados pelos ato-
Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, Brasil.
perurena@terra.com.br res sociais, apresentando continuidade teórico-prática
entre passado e presente.
É possível a partir daí traçar paralelismos e con-
RACIONALIDADES MÉDICAS E PRÁTICAS INTE- vergências entre as racionalidades médicas orientais
GRATIVAS EM SAÚDE: ESTUDOS TEÓRICOS E e a homeopatia, que são sistemas que enxergam o ser
EMPÍRICOS. Luz MT, Barros FB. Rio de Janeiro: Ins- humano em sua relação com seus pares e seu meio,
tituto de Medicina Social, Universidade do Estado buscando a promoção do equilíbrio dinâmico de sua
do Rio de Janeiro/ABRASCO; 2012. 452p. (Cole- energia vital, que varia de acordo com sentimentos/
ção Clássicos para Integralidade em Saúde). pensamentos, as relações familiares e sociais e os com-
ISBN: 978-85-89737-71-5 portamentos dos indivíduos, estando embasados, por
tanto, no chamado paradigma vitalista, que enxerga o
Este livro é fruto de 20 anos de trabalho do grupo lide- corpo como uma totalidade bioenergética.
rado por Madel T. Luz, conhecido atualmente como Em contrapartida a medicina ocidental contem-
Grupo Racionalidades Médicas e Práticas de Saúde, do porânea possui como cosmologia a mecânica clássica
Diretório de Grupos de Pesquisa do Conselho Nacional e sua noção cartesiana de universo e corpo humano
de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Consti- como máquinas, em que prevalece a proposição de leis
tuído por 16 capítulos de diferentes autores, o livro se de aplicação geral e ignora-se a multicausalidade em
divide em duas partes, Racionalidades Médicas e Prá- benefício de causas lineares (as patologias seriam cau-
ticas Integrativas em Saúde, respectivamente. Organi- sadas por um micro-organismo, um vírus ou um defei-

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to genético na “máquina”). Essa racionalidade assume sa e a homeopatia, que propõem um novo modelo de
como foco central a diagnose das doenças (dos defeitos atenção em contraponto ao modelo alopático que é
da máquina), tendência crescente com os avanços tec- eficiente em manter o paciente alienado de sua própria
nológicos dos últimos 50 anos, deixando a terapêutica situação; isto decorre do fato da biomedicina conceber
para segundo plano: “trata-se de uma medicina de má- a doença como agente externo, o que gera uma falta de
quinas para (preservação de) máquinas” (p. 235). consciência e autorresponsabilidade do indivíduo so-
Conclui-se assim que “racionalidades médicas é bre sua própria saúde, retirando-lhe a oportunidade de
um operador conceitual que permite analisar ou com- autoconhecimento e o poder pessoal de autotransfor-
parar sistemas médicos complexos em perspectiva teóri- mação que o processo saúde/doença oferece. Diferen-
ca, analítico-descritiva, ou empírica, seja globalmente, temente, a medicina vitalista tem como premissa esse
como um todo, seja dimensão a dimensão” (p. 219). Por- processo como um desequilíbrio da energia vital que
tanto, essa ferramenta teórica abriu um campo fecun- pode ser restituída pela tomada de consciência e auto-
do de conhecimento que permite estudar as relações transformação. O movimento político das racionalida-
entre distintos sistemas médicos e suas representações des médicas/práticas integrativas em saúde tem cres-
de corpo, saúde, doença e tratamento e a aplicabilida- cido nestas últimas décadas devido à falta de confian-
de das práticas integrativas nos serviços públicos de ça na medicina contemporânea, no poder de cura de
saúde. seus agentes oficiais e insatisfação no relacionamento
A segunda parte deste livro é composta por oito médico-paciente; contudo devido a este crescimen-
artigos que abordam as práticas integrativas em saúde, to e institucionalização das racionalidades médicas/
sua metodologia, institucionalização, paradigma, base práticas integrativas em saúde, sua proposta inicial de
sociológica e discute algumas pesquisas do respectivo mudança de modelo de cuidado está ameaçada devido
tema. Doravante, a metodologia de pesquisa em PIS é à incorporação destas práticas ao modelo biomédico
levantada a questão de sua validação por meio de es- hegemônico.
tudos clínicos randomizados, já que estes visam a uma A relação com o corpo também marca a cultura
homogeneização do tratamento para indivíduos dife- das práticas integrativas em saúde, os autores contam
rentes; as práticas integrativas em saúde, por sua vez, a história do bodybuilding e realizam uma crítica de
possuem uma abordagem altamente subjetiva que como tornar um corpo forte com caráter obediente e
considera outros fatores além do biológico, como o dócil é o reflexo da articulação do biopoder e da biopo-
emocional, social e energético, quando se busca validá- lítica. Em contraponto a essa cultura do bodybuilding,
las por estudos clínicos randomizados esvazia-se toda os autores apresentam outra pesquisa com práticas
a sua lógica de funcionamento e os resultados são osci- corporais terapêuticas aplicadas a pacientes com fibro-
lantes e discordantes. mialgia, demonstrando como estas podem proporcio-
Isso demonstra que a pesquisa em práticas inte- nar elementos que a biomedicina negligencia, como a
grativas em saúde exige uma pluralidade científica que dimensão dos sentidos e a relação com o corpo e a do-
valide outros modos de saber, como, por exemplo, a ença, proporcionando aos participantes novos valores
pesquisa qualitativa que inclui a experiência subjetiva por meio da gestualidade e da consciência corporal, es-
do indivíduo. Outro contraponto para a validação por timulando o autoconhecimento corporal e o reencon-
meio da realização de estudos clínicos convencionais tro do sujeito consigo.
é de estes necessitarem da separação entre objeto e A pesquisa em racionalidades médicas/práticas
observador para serem considerados válidos, o fato de integrativas em saúde anuncia o alvorecer de um novo
se utilizar este instrumento na validação das práticas paradigma em saúde, permitindo o aprofundamento
integrativas em saúde desvirtua a lógica das mesmas, do estudo comparativo de distintos sistemas médicos
por estas estarem apoiadas em uma fenomenologia e sua aplicabilidade no sistema público de saúde, con-
profunda, na qual há uma conexão entre observador e tribuindo assim para o desenvolvimento de um novo
objeto em que o observador interfere diretamente no modelo de assistência que promove a integralidade do
objeto observado. Portanto, os resultados provenientes cuidado e a pluralidade dos saberes.
da aplicação das práticas integrativas em saúde estão
diretamente ligados à relação terapeuta/doente. Pedro Mourão Roxo da Motta
Universidade Estadual de Campinas, Campinas, Brasil.
Uma forma alternativa de validação das raciona-
terapeutapedromotta@hotmail.com
lidades médicas/práticas integrativas em saúde é por
meio do processo sociopolítico, que teve início com a Ricardo de Almeida Marchiori
contracultura nas décadas de 1960/1970, e trouxe de Universidade Anhembi Morumbi, São Paulo, Brasil.
ric.marchiori@gmail.com
volta as medicinas vitalistas como a medicina chine-

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