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:omo o con ceit o de t e e n a g e r e v o l u c i o n o u o século XX

JON SAVAGE

A CRIAÇÃO DA JUVENTUDE
Como o conceito de teenage
revolucionou o século XX

Tradução de
Talita M. Rodrigues

ROCCO
SUMÁRIO

Introdução 11
PARTE UM | 1875-1904

1 Céu e inferno 19
Marie Bashkirtseffe Jesse Pomeroy
2 Nacionalistas e decadentes 32
A contrarrevolução europeia
3 Hooligans e Apaches 49
Delinqüência juvenil e a mídia de massa
4 “Uma súbita visão do Paraíso” 65
L. Frank Baum e a Terra dos Sonhos de Oz
5 O século americano 79
G. Stanley Hall e Adolescence
PARTE DOIS | 1904-1913

6 Peter Pan e os Boy Scouts 93


Juventude imperial britânica
7 Calouros da escola secundária e alimento para a fábrica 107
Adolescência americana e a indústria
8 Wandervogel e Neopagãos 118
Movimentos de regresso à natureza na Europa
9 Nickelodeons e danças imitando animais 130
A economia do sonho americano
PARTE TRÊS | 1912-1919

10 Invocação 147
O abismo entre gerações na Europa
11 Sacrifício 156
Os mortos de guerra e jovens contra velhos
12 A classe de 1902 174
Delinqüência juvenil e a Grande Guerra
13 Bandas de jazz e os soldados de infantaria 187
A juventude americana entra na Europa
PARTE QUATRO | 1919-1929

14 Choques do pós-guerra 201


Os Fascisti, o Bunde alemão e o Woodcraft Folk
15 Sheiks e Shebas 218
O mercado jovem americano
16 0 complexo de Cinderela 239
Os problemas da cultura de massa americana
17 Em busca do prazer 256
Os Bright Young People
PARTE CINCO | 1930-1939

18 Os soldados de uma ideia 277


A Juventude Hitlerísta
19 0 exército infantil e o New Deal 299
Adolescentes americanos na Depressão
20 Os Biff Boys e a ameaça vermelha 319
A polarização da juventude britânica
21 Jitterbugs e Ickies 340
O swing americano e o consumismo dos jovens
PARTE SEIS | 1939-1943

22 Conquistadores e senhores feudais 361


A Juventude Hitlerista na guerra e em casa
23 Recrutas relutantes e heróis socialistas 371
A juventude britânica na guerra
24 Subdebs e GIs 387
Adolescentes americanos na escola e de uniforme
25 Garotos alemães do swing e os Zazous franceses 403
O swing na Europa nazista
26 Os Zoot-Suiters e as Victory Girls 419
A inquietação americana em 1943

PARTE SETE | 1942-1945

27 Os invasores pacíficos 441


Os soldados americanos e a juventude britânica
28 Helmuth Hübener, A Rosa Branca e Anne Frank 453
A resistência na Europa nazista
29 A chegada do teenager 472
O lançamento de Seventeen
30 O ano zero 486
O teenager triunfante
Agradecimentos 499
Notas 501
CARTÃO-POSTAL COMERCIAL, INÍCIO DOS ANOS 1900
INTRODUÇÃO

A América costumava ser o lugar da juventude na imaginação de todos.


A América tinha teenagers e o resto do mundo, só pessoas.
- John Lennon, nascido em 1940, entrevistado em 1966

ESTE LIVRO TERMINA com um começo.


Em 1944, os americanos começaram a usar a palavra teenager para descrever
a categoria de jovens com idade entre 14 e 18 anos. Desde o início, foi um ter­
mo de marketing usado por publicitários e fabricantes que refletia o poder de
consumo recentemente visível dos adolescentes. O fato de que, pela primeira
vez, os jovens se tornaram um público-alvo também significava que eles tinham
se transformado num grupo etário específico com rituais, direitos e exigências
próprios.
A invenção do teenager coincidiu com a vitória dos americanos na Segunda
Guerra Mundial, evento histórico decisivo para a criação do império que ainda
detém o controle no século XXI. Na verdade, a definição do jovem como um
consumidor era uma excelente oportunidade para uma Europa devastada. Nos
últimos sessenta anos, esta imagem do adolescente pós-guerra dominou o modo
como o Ocidente vê os jovens e tem sido exportada com sucesso para o mundo
todo. Como a nova ordem mundial que prenunciava, ela precisa ser redefinida.
Mas a cultura jovem do pós-guerra não é tao nova como pode parecer.
Desde o último quartel do século XIX houve muitas tentativas conflitantes de
imaginar e definir o status do jovem - fosse mediante esforços combinados para
arregimentar adolescentes usando políticas nacionais, fosse a partir de visões
proféticas, artísticas, que refletiam o desejo dos jovens de viverem segundo suas
próprias regras. A narrativa começa em 1875, com os escritos autobiográficos de
Marie Bashkirtseff e Jesse Pomeroy, e termina em 1945; durante esse período,
cada um dos temas agora associados ao teenager moderno teve um precedente
vivido e volátil.
Esta, portanto, é a pré-história do teenager.

* * *

INTRODUÇÃO | 11
Em janeiro de 1980, envolvi-me no projeto de uma possível série para televisão
sobre a história de culturas jovens marginais. Naquela época, eu era um pesquisa­
dor da Granada Television, em Manchester, empresa então muito conhecida por
suas programações inovadoras e socialmente conscientes. Com o suporte do meu
produtor na época, Geoff Moore, montamos uma proposta que visava contar a
história de todos os ‘modismos pós-guerra”: teds, beats, mods, rockers, hippies,
skinheads, glitterboys, punks, assim como Rude Boys e rastafáris.
O estímulo para a ideia da Granada veio da obra de Dick Hebdige, Subcul-
ture: The Meaning ofStyle, que, publicada em 1979, havia merecidamente redu­
zido a distância entre a academia e uma platéia mais ampla. Subculture foi um
produto da abordagem interdisciplinar iniciada pelo Centro para Estudos Cultu­
rais Contemporâneos da Universidade de Birmingham. Misturando sociologia
com interpretação literária e teoria francesa, o livro de Hebdige oferecia uma si­
nopse histórica dos muitos modismos britânicos dos jovens no pós-guerra, embora
sem ignorar fatores como classe e raça.
A abordagem alusiva de Hebdige concordava com as minhas próprias obser­
vações do cenário punk londrino, onde, em 1976, os pioneiros deste movimento
sobre o qual pouco se falou até agora juntaram quase todos os estilos da cultura
jovem, prenderam tudo com alfinetes e, depois, orgulhosamente, exibiram os
resultados. Uma jaqueta dos anos 1960 podia ser usada com calças mot-suit e
creepers no estilo dos Teddy Boys: sapatos enormes, de sola grossa, não muito di­
ferentes daqueles usados pelos Zazous parisienses na década de 1940. O efeito
era ao mesmo tempo surpreendente, alucinante e assustador.
Esta bricolagem viva revelou-se, fora sugerida pelas roupas vendidas nas
várias encarnações do número 430 da Kings Road, a loja dirigida por Malcolm
MacLaren e Vivienne Westwood. Entre 1971 e 1975, o nome da loja mudou
diversas vezes, de Let It Rock (roupas no estilo teddy boy) para Too Fast To Live,
Too Young to Die (roupas de roqueiro e zoptist), para Sex (roupas fetiche) e Se-
ditionaries (“roupas de heróis” do rock punk desenhadas por estilistas). Cada
fase foi marcada por um raro grau de pesquisa e atenção aos detalhes.
Mas a colagem histórica do punk também marcou o momento em que o
movimento linear foi substituído pelo loop, o que ocorreu a partir da década de
1960. De repente, todas as épocas da cultura pop estavam acessíveis no mesmo
plano, disponíveis de uma só vez. Em retrospectiva, este processo havia começa­
do em 1966 - no auge do modernismo pop -, mas levara dez anos para se tornar
uma parte viva da cultura jovem. Levado ainda mais adiante no início da década
de 1980 pela corrente jovem mais recente, os New Romantics, este mergulho no
passado reafirmou o fato de que havia uma longa e mal documentada história
da juventude datando de uma época bem anterior à Segunda Guerra Mundial.

12 | INTRODUÇÃO
No decorrer dos 18 meses seguintes, o material sobre a cultura jovem que
meu produtor e eu escrevemos para a Granada Television tornou-se um piloto
para uma potencial série de documentários. Com o nome Teenage, o primeiro
programa com duração de uma hora cobriu a cultura jovem britânica entre
1945 e 1957: a transição entre a austeridade do pós-guerra, a primeira aparição
dos eduardianos, mais tarde chamados de Teddy Boys, e o impacto do roclcnroll
durante 1956 e 1957. Por várias razões, entretanto, o piloto ficou inacabado e a
série de TV foi cancelada.1
Mas o meu interesse pelo assunto se manteve. Nos dez anos seguintes, mais
ou menos, continuei colecionando qualquer material que se relacionasse com o
tema da cultura jovem - particularmente aqueles marcados com o jargão teenager.
Quanto mais eu lia, mais percebia haver toda uma história anterior à Segunda
Guerra Mundial. Lendo sobre os Wandervogel ou o mercado universitário ame­
ricano dos anos 1920, percebi que havia uma história inédita que não batia com
a visão geralmente aceita de que os teenagers começaram a existir nos meados da
década de 1950.
Essa ideia cristalizou-se ainda mais quando descobri um exemplar de Ado-
lescence, de G. Stanley Hall, no início da década de 1990. O prefácio de Hall
continha um manifesto profético a favor da cultura jovem do pós-guerra escrito
com meio século de antecedência. Sua visão da adolescência como uma fase dis­
tinta da vida sujeita a enormes quantidades de estresse e tensão - e que, portanto,
devia ser tratada com especial cuidado e atenção - estava baseada, pela primeira
vez, numa definição de idade muito específica. Dentro dos dois volumes daquele
livro gigantesco, pelo visto, estava um começo da história.
Adolescence também se harmonizava com dois outros documentos funda­
mentais do século XX: O mágico de Oz, de L. Frank Baum, e Peter Pan, de J. M.
Barrie. Ambos eram incrivelmente românticos, extraordinariamente proféticos,
e esforçavam-se para definir algo que estava no ar, mas que ainda não possuía
um nome definitivo. Na virada do século, a ideia de que a juventude podia ser
definida como uma fase distinta da vida estava engatinhando, mas essas obras
cheias de imaginação exploravam as várias possibilidades de um sentimento, se
não de toda uma sociedade, baseadas na promessa de juventude, transitória ou
eterna.
Esta promessa estava personificada na América, o poder em ascensão no
novo século. Hall explicitamente associou o seu país, “uma nação com autorida­
de”, com a fase da vida que ele estava tentando definir: “O próprio fato de nos

1 Para algumas das razões do cancelamento de Teenage, ver Mary Harron, “Teen Dream That Wont Fade Away \
Guardian, 13 de julho de 1982.

INTRODUÇÃO | 13
julgarmos jovens fará da fé no futuro algo curativo, e um dia nós não só atraire­
mos os jovens do mundo por nossas inigualáveis liberdade e oportunidade, como
desenvolveremos uma formação mental, moral e emocional que será a melhor
preparação para explorá-las ao máximo e para ajudar a humanidade a alcançar
um estágio mais elevado.”
Ao mesmo tempo, a estirpe europeia, sintetizada pelos românticos e a juven­
tude revolucionária do fim do século XVIII, permanecia poderosa. Os impérios
ocidentais do fim do século XIX estavam passando por problemas de desenvol­
vimento semelhantes —urbanização, industrialização e rearmamento —que resul­
taram num enfoque maior ao tema da juventude. O diálogo entre os Estados
Unidos, o Reino Unido e o norte da Europa sobre a delinqüência juvenil havia
começado em meados do século XIX e compôs a maior parte dos dados de
pesquisa fartamente citados por G. Stanley Hall.
A pré-história do teenager, portanto, não podia ser contada simplesmente
através da América, era preciso acrescentar a Grã-Bretanha, a França e a Alemanha.
Eu originalmente incluí material da Itália e da Rússia - juntando a fascinante
história dos bensprizornU a juventude itinerante da década de 1930 —, mas ele
teve de ser abandonado por falta de espaço. As mesmas considerações inicialmente
inspiraram a minha decisão de encerrar o livro nos meados do século XX. Entre­
tanto, quanto mais eu me adiantava, percebi que a narrativa tinha de terminar
com a quase simultânea cunhagem da palavra teenager e a explosão das bombas
atômicas que mudaram a noção de futuro.
O livro, portanto, conta a história da tentativa, por dois continentes diferentes
e por mais de meio século, de conceitualizar, definir e controlar a adolescência.
Além do diálogo entre América, Grã-Bretanha, França e Alemanha, ele contém
vários elementos diferentes que resumem a tensão entre a fantasia e a realidade
da adolescência, e entre as muitas e variadas tentativas de exaltar ou capturar este
fugaz e transitório estado.
O testemunho pessoal - na forma de diários escritos na época por adolescentes
de verdade procurando entender a si mesmos e o mundo —é colocado ao lado de
notícias veiculadas na mídia e de políticas governamentais. O ideal de juventude
como uma classe separada, grupai, contrasta com as realidades da classe econômica
e social. As muitas diferentes tentativas de sociólogos, criminologistas e psicólo­
gos de normalizar a juventude - como uma fase da vida pela qual todos têm de
passar - são contrapostas por narrativas de adolescentes extraordinários, aqueles
que parecem personificar uma era ou apontar para um futuro que ainda precisa
acontecer.
Acima de tudo, a atenção que essas sociedades passaram a dar ao tema re­
forçou na juventude a ideia de si mesma como algo importante. É fascinante
notar, com o avançar do século XX, como as vozes dos jovens tornaram-se menos

14 | INTRODUÇÃO
encurraladas pelos adultos e ouvidas com mais frequência nos seus próprios
termos. Em outro nível, este livro contém a narrativa de como os jovens lutaram
para se fazerem ouvir, se não totalmente de acordo com seus próprios termos, ao
menos como aqueles em que podiam se reconhecer e acomodar. O sucesso do
teenager como um conceito dominante deveu-se em grande parte a este delicado
equilíbrio.

* * *

Embora este livro cubra um período do qual não tenho nenhuma experiência
pessoal, ele contém elementos autobiográficos disfarçados - no mínimo na seleção
do material. Nasci em setembro de 1953, perto do fim do primeiro baby boom.
Meu pai servira com afinco na Segunda Guerra Mundial, sobre a qual raramente
falava, enquanto o início da adolescência de minha mãe tinha sido dominado por
aqueles seis anos. Seu subsequente amor por viagens internacionais foi em parte
inspirado pelo desejo de se libertar de anos de racionamento e restrições.
Nos primeiros 13 anos da minha vida, fui criado em Ealing, um subúrbio
da parte oeste de Londres: um ambiente quase destinado a oferecer uma tábula
rasa depois de anos de sofrimento e horror. Minha reação de adolescente contra
tudo que se referia à vida nos subúrbios hoje é temperada pela compreensão de
que esta mudança foi uma reação natural, se não a única racional, por parte da
geração que passou pela guerra. As áreas mais antigas da cidade ainda estavam
gravemente danificadas - os locais bombardeados no centro de Londres permane­
ceram assim até meados da década de 1980 -, mas os subúrbios eram seguros,
confortáveis e, pensando bem, um excelente lugar para passar os meus primeiros
13 anos de vida.
Cada geração tem sua própria tarefa. Tentar anular a experiência de uma
outra geração é inútil e potencialmente perigoso. Tendo experimentado os tumul­
tos e tensões de um adolescente das décadas de 1960 e 1970, acabei percebendo
que parte da minha tarefa no grupo era ajudar a lidar com danos da guerra so­
fridos por nossos pais. O horror sem solução daquele período e a imensa questão
existencial proposta pela bomba H inspiraram as manifestações extremas da cul­
tura jovem dentro da qual eu mergulhei totalmente.
Bem mais tarde, fui capaz de falar com meu pai sobre sua juventude nas dé­
cadas de 1930 e 1940, o que me ajudou a compreender o que ele passou. Por sor­
te, também tive um bom relacionamento com meu avô materno, que nasceu em
janeiro de 1904. Suas histórias sobre a vida nas décadas de 1920 e 1930 incen­
tivaram a minha imaginação, enquanto seu amor pelo jazz e pela música popular
americana - ele foi ver a Original Dixieland Jazz Band, em 1920 - estimulou e
legitimou as minhas próprias obsessões musicais.

INTRODUÇÃO | 15
As experiências da minha família, portanto, foram um meio de me orientar
na primeira metade do século XX. Ao mesmo tempo, tentei ser o mais meticuloso
possível no tratamento do material, e espero não ter deixado nenhum movimento
ou manifestação importantes totalmente inexplorados. Se há alguma omissão, a
responsabilidade é toda minha. Entretanto, é preciso lembrar que minha tendência
foi de produzir uma obra da história popular e não um trabalho acadêmico de
múltiplos volumes.
Tem uma última coisa. Podem dizer que eu me concentrei demais no extra­
ordinário e não no comum, o exagero à custa da rotina. Eu diria o contrário,
que esses jovens vão de encontro às tentativas de acadêmicos, especialistas em
jovens e governos de padronizar a juventude, e à juventude predominante da
época. Por exemplo, a pequena minoria de jovens alemães que resistiram a Hider
é contrastada com os milhões de seus contemporâneos que ingressaram na orga­
nização do estado nazista, a Juventude Hiderista.
Existe uma dialética no livro, portanto, entre o extraordinário e o ordinário.
Mas, se tenho escolha, será sempre a de encontrar o extraordinário dentro do
que é comum. Isto é inspirado tanto pelo meu temperamento como pelo próprio
assunto. É um argumento que data da primeira publicação de Adolescence. Numa
crítica do livro, em abril de 1905, um tal de J. M. Greenwood acusou G. Stanley
Hall de dar prioridade ao “que se pode chamar de aberrações da raça, sem dar
peso suficiente para a média dos disciplinados que compõem a grande maioria
da humanidade”.
É um comçntário justo, mas que considero incorreto. Por sua própria natu­
reza, a juventude tem sido acusada de representar o futuro: a perene tipificação
do adolescente pela mass-media como um gênio ou um monstro continua codi­
ficando as esperanças e os temores dos adultos com relação ao que vai acontecer.
Ignorar aqueles que se destacam como precursores em favor daqueles que se
apegam ao status quo é recusar envolver-se com o futuro, se não interpretar mal
a própria juventude. Como G. Stanley Hall, orgulho-me de ser um romântico
neste assunto, no mínimo porque tenho esperanças de um mundo melhor.

16 | INTRODUÇÃO
CAPÍTULO 1

Céu e inferno
Marie Bashkirtseff e Jesse Pomeroy
* * *

O homem não está destinado a permanecer criança. Ele deixa para trás
a infância na época determinada pela natureza; este momento crítico,
muito breve, tem conseqüências de longo alcance. Como o ribombar das ondas
precede a tempestade, o mesmo acontece com o murmúrio de paixões em
sobressalto; uma excitação reprimida nos alerta do perigo iminente.
- Jean-Jacques Rousseau, Emílio, livro 4 (1 762)

MARIE BASHKIRTSEFF, DÉCADA DE 1870

JESSE POMEROY, 1874


“EU ESTAVA VOANDO, muito acima da terra, e com uma das mãos segurava uma
lira. As cordas estavam constantemente frouxas, e eu não podia fazê-las produzir
um som que fosse. Continuei subindo, vendo horizontes imensos, nuvens - azuis,
amarelas, vermelhas, misturadas, douradas e prateadas - esfarrapadas, estranhas.
Então tudo ficou cinza e estonteantemente luminoso, e eu continuava subindo
até chegar a uma altura assustadora, mas não tinha medo. As nuvens pareciam
descoradas, cinzentas e brilhantes, como chumbo. Depois tudo foi se apagando.
Eu continuava segurando a minha lira com as cordas frouxas. E bem lá embaixo,
sob meus pés, pendia uma bolha avermelhada - a terra.”
Marie Bashkirtseff acordou deste sonho na madrugada de segunda-feira, 27
de dezembro de 1875. A jovem de 17 anos havia bebido vinho demais no jantar
e era impossível continuar dormindo. Ela resolveu livrar-se de seus pensamentos
agitados e se preparou para um ritual de confissão. “Agora que são duas horas da
manhã”, ela começou, “e estou trancada no meu quarto, vestindo um longo pe-
nhoar branco, descalça, os cabelos soltos como uma mártir virgem, posso muito
bem me dedicar a pensamentos melhores.”
A confissão de Marie, entretanto, não foi aos padres de sua religião católica,
mas ao caderno de anotações que era o seu refugio: “Este diário contém toda a
minha vida; meus momentos mais tranqüilos são aqueles em que estou escreven­
do. Eles são provavelmente os únicos de calma que tenho. Queimar tudo, ficar
exasperada, chorar, sofrer tudo e viver, e viver! Por que me deixam viver? Oh, es­
tou impaciente. Minha hora virá. Eu certamente quero acreditar nisso. Mas algo
me diz que ela jamais virá, que passarei toda a minha vida esperando, esperando.”
O diário não era só uma válvula de escape, mas um pedido de imortalidade
secular. Marie queria atenção e fama. “Se eu tiver de morrer jovem”, ela continuou
naquela noite, “queimarei este diário; mas se viver até ficar velha, as pessoas o
lerão. Eu acredito, se posso dizer assim, que não existe ainda a fotografia da
existência de uma mulher, de todos os seus pensamentos. Sim, todos, todos. Será
interessante. Se eu tiver de morrer jovem em breve, e se por azar este diário não
for queimado, dirão: ‘Pobre criança, ela estava apaixonada por Audiffret, e todo
o seu desespero vem disso/”
Esta explosão apaixonada acontecia no fim de um ano turbulento. Retor­
nando para a cidade de Nice adotada por sua família naquela primavera, Marie
transferiu a sua paixão de estudante pelo inatingível duque de Hamilton para o
jovem de 24 anos, Emile Audiffret. Nos meses seguintes, ela obsessivamente
registrou o progresso do seu primeiro caso de amor real. No dia 26 de dezem­
bro, Audiffret cancelou um encontro, uma grave desfeita. A mãe de Marie tinha
feito o convite, uma interferência materna que deixou a filha irascível furiosa.
No outono de 1875, Marie tinha completado 17 anos. Isso provocou uma
explosão ainda maior: “Estou cansada da minha obscuridade”, ela escreveu. “Eu

20 | 1875-1904
mofo nas sombras. O sol, o sol, o sol! Vamos —coragem. Desta vez é só uma
passagem que me levará para onde eu estarei bem. Estou louca? Ou predestina­
da? De um jeito ou de outro, estou enfastiada!” Ela estava sempre enfastiada:
com a lentidão da sua mãe, com o tédio dos feriados familiares, com a inércia do
mundo. A vida não vinha rapidamente o bastante para uma jovem que se encon­
trava numa corrida contra o tempo.
Como a filha preferida de abastados refugiados russos, Marie era impaciente
e mimada. Seus vestidos eram feitos à mão em Paris segundo seus próprios de­
senhos extravagantes. Ela acompanhava a família nas suas viagens pela Europa,
divertindo-se com seus contatos com o beau monde. Tinha uma ala de quartos
inteira na propriedade dos Bashkirtseff, situada no Promenade des Anglais, em
Nice, na qual o santuário secreto era o quarto de dormir que, revestido de cetim
azul-celeste e com um candelabro de porcelana de Sèvres no teto, parecia “o in­
terior de uma caixa de luvas”.
Embora muito mimada, Marie tinha a responsabilidade de um destino espe­
cial. Quando ainda era bem pequena, uma cartomante dissera à sua mãe que a
filha seria “uma estrela”. Desde então, Marie tinha sido criada para ser “a mais
bela, a mais inteligente, a mais magnífica”, sendo incentivada em seus caprichos.
Esta sensação de ser especial lhe deu uma confiança compartilhada com pou­
quíssimas jovens da sua idade e época. Quando começou a registrar seus pensa­
mentos e emoções num diário, tinha poucas dúvidas sobre o seu impacto sobre
a posteridade: ele seria, é claro, “o livro mais interessante de todos”.
As primeiras anotações traziam muita preocupação com a sua aparência:
um dia ela se sentia “muito bonita”, no seguinte “um corpo que nem Satanás re­
conheceria”. Ela se sentia um Frankenstein: “Nós sabemos que eu tenho uma boa
postura, que tenho ombros largos, um peito alto, coxas e traseiro curvilíneos e
proeminentes e pés pequenos. Em cinco minutos, virei um monstro chato, ma­
gricela, com peito murcho, um ombro mais alto do que o outro, o que tira tudo
o mais do lugar. Meus pés estão chatos e compridos, meus olhos, encovados e
meus dentes, pretos.”
A consciência do próprio corpo, entretanto, era o menor dos seus problemas.
Quando começou a freqüentar a sociedade, Marie percebeu que sua família
tinha péssima reputação. O tio e o irmão mais novo, Paul, estavam em constantes
dificuldades com a Justiça. Sua mãe era separada do pai, enquanto tia Sophie vi­
via o tormento de um demorado processo judicial. A própria Marie era suspeita,
graças ao seu entusiasmo e extraordinária noção de moda: uma roupa de patinação
com uma cauda de penas de avestruz era avançada demais para os costumes pro­
vincianos de Nice.
O efeito desses escândalos foi a não aceitação dos Bashkirtseff pela socieda­
de local. Marie sentia intensamente os desaforos: “Meu nome está manchado, e

CÉU E INFERNO | 21
isso me mata”, ela escreveu depois que sua família foi caluniada pelos Tolstói,
refugiados russos como eles. “Chorei como um animal, desanimada, humilhada.”
Aos 14 anos, Marie tinha acrescentado o sentimento de vingança ao seu ímpeto
já considerável: “Eu serei recebida na sociedade porque não serei uma celebrida­
de vinda dé uma classe inferior ou uma rua suja”, ela proclamou em março de
1873. “Sonho com a celebridade, com a fama.”
Impulsionada pela profecia da cartomante e inflamada mais ainda pelas
censuras da provinciana Nice, Marie vertia todo o seu ressentimento e sua frustra­
ção em seus cadernos. Quase todos os dias, escrevia sobre si mesma e a sua famí­
lia com extrema franqueza, como para se purgar de toda a falsidade que a rodeava.
Ela não via sentido em “mentir ou fingir”. Tudo estava exposto ali na página: as
suas variações de humor, a rivalidade com o irmão Paul, as suas primeiras expe­
riências com álcool e tabaco, a sua rebeldia contra os adultos e suas instituições,
a obsessão com a sua aparência.
Não era isso que se esperava de uma jovem nos anos de 1870. Como o bió­
grafo de Marie, Dormer Creston, comentou mais tarde, essa foi a época em que
“grandes segmentos das classes altas e médias, e em particular as mulheres, foram
educados com uma falsa noção de piedade”. Marie conscientemente reagia contra
os ideais femininos contemporâneos de “autorrepressão, resignação e intensa
domesticidade”. Como desdenhosamente ela observou: “Ora, eles se divertem —
os homens. A mulher é sempre a vítima. Eu gostaria de ser um homem. Eu su­
peraria cada um desses senhores.”
Já ardente de impaciência e frustração, Marie recebeu um golpe mortal no
verão de 1875. “Tenho dores no peito”, ela revelou naquele mês de junho. “Parece
que estou com tuberculose. Mas esta dor no peito me preocupa, e nos últimos
cinco dias cuspi sangue. É terrível.” Este autodiagnóstico não se confirmaria por
mais sete anos, mas Marie ficou chocada ao descobrir que a sua retórica mais me­
lodramática - “a morte para mim é um parente próximo”, ela declarara naquela
primavera - havia se tornado uma probabilidade. O tempo era cada vez mais
precioso.
O sonho de Marie em 1875 vinha de uma imagem arquetípica da sua fé e
do seu nome: a Assunção da Virgem Maria Abençoada. Mas também evocava a
mesma sensação de possibilidades ilimitadas que os românticos já tinham atri­
buído ao jovem na puberdade. Aos 16 anos, Jean-Jacques Rousseau acreditara
que “podia fazer qualquer coisa, conseguir tudo”. Como ele lembrou nas suas
Confissões: “Eu precisava apenas me lançar para a frente, montar e voar pelos
ares. Eu entrava no vasto mundo com uma sensação de segurança; ele se enche­
ria com a fama das minhas realizações.”
Entretanto, Marie estava atenta demais para não perceber as notas ameaça­
doras emanando do seu subconsciente; a lira com as cordas frouxas, as nuvens

22 | 1875-1904
de chumbo. Ela tinha toda a vida pela frente, no entanto, em contraste com esta
imponderabilidade havia graves restrições. Embora ela quisesse romper as frontei­
ras de classe, gênero, família e até as do seu corpo físico, sabia que o seu tempo
estava passando “muito rápido”. O sonho terminou em nauseante suspensão:
ela mergulharia em direção a terra, como ícaro, ou continuaria subindo com a
sua lira de cordas magicamente frouxas?

* * *

Enquanto Marie lutava contra a sua doença, outro jovem ocupava-se com uma
autobiografia. Como Marie, Jesse Pomeroy estava enfrentando uma luta de vida
ou morte, mas no seu caso ele era quem a tinha provocado. No verão de 1875,
estava preso na Suffolk County Jail, a penitenciária municipal do estado ameri­
cano de Massachusetts, por ter sido condenado no último dezembro por assassi­
nato em primeiro grau. Embora tivesse apenas 15 anos —quase exatamente um
ano menos que a refugiada russa -, ele enfrentava a pena de morte obrigatória.
Pomeroy já havia adquirido fama ou, para ser mais preciso, sua sombria no­
toriedade. Quase imediatamente depois de ter sido preso pela morte de Horace
H. Millen, em abril de 1874, seu nome passou a ser o apelido de uma forma de
depravação até aquele momento inconcebível. A sua vítima de quatro anos de
idade fora encontrada gravemente mutilada na costa pantanosa do sul de Boston:
Pomeroy a esfaqueara várias vezes no peito, furara-lhe os globos oculares, cortara
sua garganta tão profundamente que a cabeça quase se soltou do pescoço e, para
finalizar, divertiu-se numa tentativa de castração. Não por acaso ele ficou conhe­
cido em toda a América como o “menino demônio”.
A histeria aumentou quando a sua sádica enxurrada de raptos e mutilações
se revelou. As suas dez vítimas tinham sido, com uma exceção, meninos entre
quatro e oito anos de idade, e todos tinham sido submetidos a uma horrenda
lista de humilhações, espancamentos e facadas. Num dos casos, Joseph Kennedy
tinha sido chicoteado no rosto, nas costas e coxas, e depois obrigado a esfregar
água salgada nas feridas abertas. Quando o corpo de Katie Curran, a primeira
vítima assassinada por Pomeroy, foi descoberto em julho de 1874, o menino de­
mônio teria sido rasgado de “membro a membro” se já não estivesse na prisão.
Embora tivesse sido condenado em dezembro de 1874, Pomeroy recebera
um adiamento da execução enquanto se decidia o que fazer com ele. A sua ju­
ventude, combinada com a extrema atrocidade de seus crimes, já havia despertado
um feroz debate nacional sobre a pena de morte.1Apesar de o juri ter recomen­

1A pessoa mais jovem executada anteriormente na América tinha 18 anos na década de 1830.

CÉU E INFERNO | 23
dado que sua punição fosse comutada para prisão perpétua, a opinião da maioria,
expressa em editorais nos jornais e em centenas de cartas e petições, era a de que
Pomeroy devia ser enforcado.
No dia 2 de julho de 1875, a sentença de morte de Pomeroy foi confirmada
pelo conselho executivo do governador do estado: tudo que restava entre o jovem
e o patíbulo era a assinatura do governador. Enquanto a sua vida pendia na ba­
lança, Pomeroy era mantido na solitária. Em vez de um candelabro de Sèvres,
paredes cobertas de cetim azul-celeste e uma cama em forma de concha pousada
sobre patas de leão esculpidas, ele tinha um catre sobre uma estrutura de ferro,
uma cadeira de madeira e dois baldes de água suja. Sua condição de extremo
isolamento, combinada com a perspectiva de iminente execução, exacerbavam o
desejo de justificar suas ações.
Ele teve duas oportunidades naquele verão. A primeira foi proporcionada
pelo Boston Times, que imprimiu uma “autobiografia” em duas partes do “monstro
moral”. Em vez de reconhecer a sua inegável culpa, Pomeroy fugiu do assunto.
“Estas são as razões pelas quais EU PENSO QUE, SE FIZ ESSAS COISAS, EU
ESTAVA LOUCO ou não pude deixar de fazê-las”, ele escreveu, antes de concluir,
“mas, não obstante tudo isso, como eu disse, EU NÃO ACHO QUE FIZ ESSAS
COISAS.” Em outro trecho ele insultou as testemunhas do julgamento e os ju­
rados, a quem chamou de “12 imbecis”.
O verdadeiro Jesse revelou-se, entretanto, numa série de cartas que escreveu
na prisão. Durante o mês de junho de 1875, um menino de 14 anos chamado
Willie Baxter foi preso por roubo e se viu na cela vizinha à do notório assassino.
Embora o contato entre os prisioneiros fosse rigidamente proibido, os dois jovens
deram um jeito de manter uma correspondência que durou até Baxter ser julga­
do semanas depois. Pomeroy ficou felicíssimo com o contato humano: “Vamos
trocar longas cartas e assim enganar o nosso cativeiro, mas sem fazer muito
barulho.”
Pomeroy estava fascinado com a sua fama: “Diga-me tudo que ouviu a meu
respeito, tudo que for ruim, e acho que não vou me zangar.” Ele também confes­
sou os assassinatos que havia negado no tribunal: “A moça entrou na loja uma
manhã e pediu papel. Eu lhe disse que tinha uma loja no andar de baixo. Ela
desceu, e eu a matei. Ah, Willie, a pena que tenho dela e também do menino. O
que eu disse para o garoto não me alembro [sic]y mas você sabe que eu o matei
também. Sinto muita pena dele e, acredite-me, não sei lhe dizer por que fiz essas
coisas.”
Este foi o elemento extra a alimentar a notoriedade de Pomeroy: os fortes
ímpetos para os quais não existe um vocabulário na América dos Anos Dourados.
O que agravava a crueldade dos seus crimes era a aparente impossibilidade de
explicação: não só ele se recusava a assumir a responsabilidade, como não falava

24 | 1875-1904
outra coisa que não fosse a linguagem mais simples de compulsão: “Algo me fez
fazer.” O máximo que ele conseguia era descrever uma dor, quase uma descarga
elétrica, que atravessava a cabeça de um lado ao outro e detonava os ataques.
Pomeroy irrompeu na consciência americana como um novo tipo horrendo.
Não havia nada na legislação existente que explicasse a sua insensível selvageria,
apesar do fato de o crime juvenil ter sido discutido e definido ao longo do século
XDC O termo “delinqüente juvenil” era da década de 1810 e, em 1824, a primeira
legislação definindo “delinqüentes juvenis” fora aprovada na cidade de Nova
York Esta sustentava que os delinqüentes tinham de ter menos de 21 anos de
idade, a divisão da lei consuetudinária entre criança e adulto.
Com a crescente urbanização, formou-se uma base de dados transatlântica
sobre crimes praticados por jovens. No seu influente livro Juvenile Delinquents:
Their Condition and Treatment, de 1853, Mary Carpenter sugeriu que “crianças”
menores, como aqueles na sua segunda década de vida ainda eram chamados, de­
veriam ser tratadas diferentemente dos adultos com vinte e poucos anos, já crimi­
nosos empedernidos. Esta nódoa de corrupção, somada à redução da responsa­
bilidade imputada às crianças, começou a empurrar mais para baixo a definição
legal de menoridade, chegando a 16 anos em alguns casos. ,
Pelas definições existentes, Pomeroy ainda era uma criança —14 anos quan­
do cometeu os seus crimes - e, no entanto, estava enfrentando uma sentença de
adulto. Não obstante a sua idade sugerir uma responsabilidade reduzida, as au­
toridades e o público estavam diante de um jovem que parecia saber muito bem
o que estava fazendo e que era capaz de distinguir entre o certo e o errado. Na
verdade, seu comportamento durante os interrogatórios pela polícia e no tribu­
nal não mostravam nada além de uma compostura precoce, obstinada.
No hiato entre a chocante realidade dos crimes de Pomeroy e os conceitos
sobre delinqüência juvenil então existentes, havia espaço para muitas explicações
diferentes. A solução mais popular para o mistério da motivaçao do jovem assas­
sino veio da frenologia, uma disciplina muito em moda na epoca. Com ela se
afirmava que os criminosos eram retornos a um estágio mais primitivo do desen­
volvimento humano, e que seus atavismos fisiológicos eram marcados por irre­
gularidades no formato do crânio, rostos desfigurados e outras deformações.
Embora Pomeroy fosse de estatura mediana, sua cabeça era nitidamente grande
para o corpo, e seu olho direito era coberto por uma película leitosa. Para um jor­
nalista, “um simples olhar para a expressão do garoto” bastava para “ver como lhe
era possível perpetrar as atrocidades pelas quais estava sob custódia”. Seus olhos
eram “obstinada e brutalmente malvados”, com um olhar “frio, impiedoso”. Com

2 O primeiro trabalho defintivo sobre o assunto, Vuomo delinqüente, de Cesare Lombroso, foi publicado em
1876.

CÉU E INFERNO | 25
“a palidez da sua pele” e “o caminhar desajeitado de alguém cujos pensamentos
são do tipo mais baixo”, ele representava um retrocesso genético de livro didático.
Outra solução possível foi encontrada no seu ávido consumo de romances
de folhetim, as narrativas de aventuras em edições baratas então populares entre
os jovens americanos da época. Títulos como Rangers of the Mohawk e Calamity
Jane, the Heroine ofWhoop-Up descreviam em detalhes sangrentos as batalhas
entre os índios e os robustos americanos da fronteira. Jesse era particularmente
atraído pelas atividades dos índios americanos, identificando-se com o famoso
renegado branco Simon Girty e se divertindo com as descrições de torturas e
assassinatos.
Esta linha de indagação deu origem a um diálogo bastante obtuso entre o
jovem prisioneiro e o famoso editor James T. Fields. Quando lhe perguntaram
se as suas paixões homicidas tinham sido incentivadas pelos folhetins, Pomeroy
mencionou com aprovação “as ilustrações de sangue e trovões, machadinhas dos
peles-vermelhas e escalpelos”. Entretanto, ele hesitava em admitir que eles influen­
ciaram seu comportamento: “Pensei muito nisso e me parece agora que eles in­
fluenciaram. Não posso dizer com certeza, claro, e talvez, se voltasse a pensar,
diria que foi outra coisa.” “Que outra coisa?” “Bem, senhor, realmente não sei.”
O enigma representado pelas ações de Pomeroy ditou os termos do seu jul­
gamento por assassinato. A única maneira de evitar a sentença de morte era
decidir que ele era ruim da cabeça. Seu advogado chamou dois “especialistas em
loucos” como testemunhas chaves. Dr. John E. Tyler pensava que o réu sofria de
um “distúrbio mental” compulsivo e, portanto, “não era responsável por suas ações”.
Dr. Clement Walker foi mais além e culpou uma forma obscura de epilepsia
pela “falta de controle” do assassino.
O testemunho pioneiro dos alienistas não surtiu efeito junto à opinião públi­
ca. No que lhe dizia respeito, os crimes de Jesse Pomeroy resultavam de uma “hor­
rível monomania”. Para a maioria das pessoas, ele era apenas um “jovem demônio”
ou um “cão raivoso” que devia ser liquidado. O American Law Review deu ao
assunto um brilho retórico: “Se o impulso do garoto está sob o seu controle, sem
dúvida não há razão para que sua vida seja poupada. Se não está, em que ele di­
fere de um lobo, exceto pelo fato de que teria a inteligência de um homem, e
que, portanto, seria ainda mais perigoso?”
Era conveniente aos americanos pensar no jovem assassino como algo subu-
mano. Entretanto, a unica linha de indagaçao que mal foi considerada na época
teria lançado uma luz dura sobre a sociedade em geral. Pomeroy era um produto
dos bordéis urbanos do continente, as cidades espalhando-se no ritmo acelerado
da imigração. Neste ambiente brutal, os jovens tinham muitas vezes de se virar
sozinhos. Havia muito pouca escolaridade, o trabalho infantil endêmico e a

26 | 1875-1904
puberdade marcavam o momento em que a luta pela sobrevivência começava
pra valer.
Em meados do século, o reformador pioneiro Charles Loring Brace havia
comentado a respeito do “imenso número de meninos e meninas soltos nas
ruas, que mal tinham um lar ou ocupação a que se pudesse chamar assim, e que
continuamente inchavam a multidão de criminosos, prostitutas e vagabundos’ .
As crianças dos bairros pobres eram rotineiramente demonizadas nos jornais
que ressaltavam o inexorável crescimento de gangues organizadas: os jovens in­
disciplinados que o New York Times, em 1873, chamou de semibêbados, pre­
guiçosos, inúteis vagabundos”.
Pomeroy foi criado em Chelsea, um distrito pobre de Boston. O casamento
de seus pais foi marcado pela violência alcoolizada do pai, expulso de casa em
1872, mais ou menos na época em que o menino cometeu o seu primeiro ata­
que sério. Enquanto a mãe trabalhava para pagar as contas, Jesse ficava peram-
bulando pelas ruas. Com o seu olho leitoso, ele parecia estranho, e era alvo de
provocações. A insegurança a respeito da sua aparência revelou-se em uma das
suas cartas a Willie Baxter: “O que você acha de mim?”, ele perguntou. “Pareço
um menino mau? A minha cabeça é grande?”
Entretanto, foram as furiosas surras que recebeu do pai que deixaram a cica­
triz mais profunda. Suas cartas na prisão mostraram uma obsessão com “chicota­
das”. “Vou lhe contar a pior sova que recebi”, ele escreveu a Baxter. “Eu matei
aula e roubei dinheiro da minha mãe. Meu pai me levou para o depósito de
lenha e tive de despir o meu casaco e colete, e as duas camisa [sic\ para deixar as
minhas costas nuas. Papai pegou um chicote e me deu uma chicotada muito forte.
Doeu muito e sempre que penso nisso parece que estou sendo açoitado de novo.”
Desconhecidas por mais de um século, essas cartas talvez tivessem ajudado a
solucionar a exasperante questão que Jesse Pomeroy apresentava para a América
dos Anos Dourados. Simplesmente ele havia aprendido muito bem com o exem­
plo dos adultos. Naquelas circunstâncias, ele foi desumanizado e resumido a um
símbolo de pura maldade. Em contraste com os malcriados mas adoráveis perso­
nagens travessos dos “romances para meninos da época como Rãgged Dick> de
Horatio Alger, ou The Story of a Bad Boy, de Thomas Bailey Aldrich, Pomeroy
era uma rajada de pavor de dar calafrios: um Frankenstein saído diretamente de
um laboratório urbano.
Como a famosa criação de Mary Shelley, Pomeroy não podia retornar à so­
ciedade. Ele previu o seu destino: “Se dizem que devo morrer, eu estou morto.
Se me mandam para a prisão perpétua, estou morto também. Depois que o seu
confidente Willie Baxter deixou a Suffolk County Jail no verão de 1875, o
jovem assassino padeceu mais um ano ate a sua sentença de morte ser substituí­
da por prisão perpétua na solitária. Embora sempre se recusando a aceitar o seu

CÉU E INFERNO | 27
cativeiro, ele permaneceria desligado de qualquer contato humano pelos próxi­
mos 41 anos.

* * *

Durante o ano de 1887, enquanto Jesse Pomeroy fazia as suas quinta, sexta e
sétima tentativas sérias de escapar da prisão, o diário de Marie Bashkirtseff foi
publicado. Os anos que se seguiram a 1875 tinham visto alguns dos seus desejos
satisfeitos. Aos 18, ela se desligou do provincianismo de Nice e se mudou para
Paris a fim de estudar para ser uma artista. Apesar dos constantes tratamentos, a
sua tuberculose avançava inexoravelmente. Em contrapartida, ela pintava como
se sua vida após a morte dependesse disso. Expondo no Salon, conquistou o
reconhecimento pelo seu retrato de crianças dos bairros miseráveis, Un meeting.
Marie finalmente morreu aos 25 anos, em abril de 1884. Antes, naquele
mesmo ano, ela escreveu um prefácio para o que esperava ser o seu testamento
para a eternidade: “Quero que o meu diário seja publicado. Ele não pode deixar
de ser interessante. A minha expectativa de que seja lido estraga ou tira o seu
mérito? Nem um pouco. Eu o escrevi durante muito tempo sem sonhar com
isso. E só agora, porque espero que o leiam, é que sou totalmente sincera. Se
este livro não é a exata, absoluta e estrita verdade, ele não tem razão de ser.”
Foi esta sinceridade que ajudou a fazer do diário um campeão de vendas na
sua primeira publicação francesa. Ao retratar com franqueza e exaustivamente
a sua jovem psique, Marie Bashkirtseff expôs uma espécie de percepção que a
cultura e a mídia da época não reconheciam. Seu livro foi comparado a Confissões,
de Rousseau, mas havia duas diferenças cruciais: Marie escreveu do ponto de
vista feminino, registrando seus sentimentos e experiências conforme aconteciam
em vez de se lembrar deles no fim da vida.
Oferecendo um relato íntimo sem precedentes da vida na adolescência, o
impacto do diário espalhou-se por toda a Europa, América e Grã-Bretanha.
Foram publicados artigos a seu respeito em revistas como a Womaris World e The
Nineteenth Century, onde o primeiro-ministro britânico, William Gladstone,
chamou a autora de “um verdadeiro gênio, um desses seres anormais que neste
ou naquele país parecem vir ao mundo uma ou duas vezes a cada geração”. Ma­
rie havia finalmente conquistado a fama que tão ardentemente buscara, como
uma verdadeira “liberadora da mente”.
Como ela havia previsto, entretanto, este sucesso tinha o estigma da ironia.
O diário foi um pacto faustiano com sua mortalidade: foi o conhecimento da
sua vida encurtada que dera força aos seus escritos, mas esse material, tão íntimo
e iconoclástico, só pôde ser publicado depois da sua morte. Sua natural intensidade
havia sido freada por um diagnóstico fatal, mas esta atmosfera mais intensa foi

28 | 1875-1904
o que tornou o livro tão atraente para os jovens. Marie personificava a visão ro­
mântica de uma vida acelerada que a morte prematura selou.

* * *

Marie Bashkirtseff e Jesse Pomeroy tiveram em comum mais do que a sua época.
A seu próprio modo, eles forçaram as suas respectivas sociedades a reconhecerem
que os rituais existentes entre infância e idade adulta estavam obsoletos. A fase
física da puberdade, em geral começando por volta dos 12 ou 13 anos e terminan­
do aos 18 ou 19, permanecia constante. Entretanto, o “verdadeiro gênio” e o
“menino demônio” mostraram que não era mais adequado pensar que a idade
adulta vinha imediatamente após a infância: eles foram os precursores de um
novo estado intermediário que ainda não tinha um nome.
Não que tivessem chegado totalmente sem se fazer anunciar. Já existia um
conjunto considerável de obras sobre o tema. Na verdade, tanto Marie como
Jesse sintetizaram o “momento crítico” para o qual Rousseau havia alertado
mais de cem anos antes. Em Emílio, um tratado tão escandaloso que foi queimado
quando da sua publicação, em 1762, Rousseau argumentava que a puberdade
tinha efeitos mentais e emocionais tão elementares que representava um “segundo
nascimento”. Os sintomas eram “uma mudança de temperamento, freqüentes
explosões de raiva, uma perpétua agitação mental”.
As ideias de Rousseau foram desenvolvidas dez anos depois em Os sofrimentos
dojovem Werther, o clássico romance no estilo romântico alemão Sturm undDrang
que mapeava a desintegração emocional de um rapaz talentoso, mas suicida. As
cartas fictícias de Werther exibiam muito da patologia pubescente que Marie
demonstraria cem anos depois - as extremas oscilações de humor, a sensibilidade
às desfeitas sociais e a retórica autocomiserativa: “Não vejo outro fim para a tris­
teza do que o meu túmulo.” Embora Werther tivesse a “sagrada e inspiradora
habilidade para criar novos mundos” em torno de si mesmo, ele era um homem
fora do seu tempo.
O sucesso internacional do romance de Goethe, publicado em 1774, selou
a visão romântica da juventude como assediada por um fervilhar de ideias e in­
quietações, tanto que a morte prematura - por suicídio ou acidente - era sinto­
mática. Esta tendência alcançou seu apogeu na obra dos românticos britânicos,
cujo avatar foi um jovem poeta e ferreiro chamado Thomas Chatterton. Depois
da sua morte por envenenamento com arsênico aos 17 anos, foi lembrado por
Shelley, Wordsworth, Coleridge e Keats numa seqüência de poemas que o cele­
bravam como um gênio incompreendido cuja juventude, eternizada pela morte,
não perderia o viço jamais.

CÉU E INFERNO | 29
O conceito ocidental de juventude também foi alterado pelo turbilhão eco­
nômico e político do fim do século XVIII. A Revolução Industrial deu início a
enormes migrações do campo para a cidade e inaugurou uma nova sociedade
baseada no materialismo, no consumismo e na produção em massa. Nas cidades
anônimas, fervilhantes, estruturas tradicionais de trabalho, vizinhança e família
se romperam. Os jovens e as crianças sofreram o impacto dessa revolução, traba­
lhando em tarefas perigosas e repetitivas, ou vagando soltas na imundície evocada
por Henry Mayhew e Charles Dickens.
Ao mesmo tempo, havia novos governos que proclamavam a verdadeira de­
mocracia. Após se livrar energicamente do “despotismo” do rei britânico, os 13
estados unidos da América fizeram a sua Declaração de Independência no dia 4
de julho de 1776: “Consideramos essas verdades como evidentes por si mesmas,
de que todos os homens são criados iguais, que eles são dotados por seu Criador
de certos Direitos Inalienáveis, dentre os quais estão a Vida, a Liberdade e a
busca da Felicidade.” Comparando-se com o feudalismo da velha Europa, o
jovem continente americano estava aberto a todos.
Estes ideais democráticos foram reafirmados na Declaração dos Direitos do
Homem que a revolucionária Assembleia Nacional da França publicou em agosto
de 1789. Explicitamente baseada no modelo americano, ela afirmava que “Os
homens nascem e permanecem livres e iguais em seus direitos”. Quatro anos de­
pois, o Conselho Nacional acrescentou mais 18 codicilos. O artigo 28 dizia que
“uma geração não pode submeter à sua lei as gerações futuras”. Dentro de uma
revolução dominada pelos jovens, o sentido era claro: a ideia da diferença de
gerações começou aqui.
As conseqüências destes acontecimentos estenderam-se por todo o século
XIX. Amarrados a uma nova política radical de igualdade, os jovens passaram a
ser uma fonte de esperança e símbolo do futuro, por um lado, mas por outro
eram um grupo instável e perigoso. Num extremo, a sua participação nos movi­
mentos revolucionários como chartismo, socialismo e, seguindo o exemplo dos
russos, anarquismo e niilismo, mostrava que a consciência de gerações converti­
da em ideologia radical podia ser uma ameaça à ordem social.
Ao mesmo tempo, a juventude era associada à tendência para a inclusão da
massa, se não à verdadeira democracia. O pleno início da era da massa na segunda
metade do século XIX deu origem à ideia de que nenhum segmento da popula­
ção deveria ser desprezado na nova ordem social. Isso resultou na recente atenção
dada às classes até então negligenciadas como os pobres trabalhadores urbanos e
a própria juventude. O crescimento da mass-media acelerou esse processo. Na
década de 1870, os jovens podiam ler a respeito deles mesmos e comprar produ­
tos, como romances em folhetins ou para meninos, que tinham como alvo prin­
cipal a sua faixa etária.

30 1875-1904
O anonimato nas grandes cidades também oferecia as suas próprias chances.
Numa idade em que, para a maioria dos jovens, a vida era rigidamente limitada,
os mais determinados poderiam tentar a vida definida pela primeira vez em
Cenas da vida boêmia, de Henri Murger. Focalizando um grupo de artistas em di­
ficuldades e moças trabalhadoras na Paris da década de 1840, as histórias de
Murger promoviam a ideia de uma zona urbana onde a moral prevalecente era
relaxada e na qual jovens dissidentes e artistas podiam sair em busca de suas
visões e retardar a idade adulta. Trinta anos depois, esses enclaves boêmios ti­
nham se espalhado até Berlim, Londres e Nova York.
Essas mudanças nem sempre foram vistas de forma positiva, na medida em
que os jovens comprovavam os temores dos adultos. A Revolução Industrial e as
revoluções políticas, suas contemporâneas, haviam colocado em ação forças que
dificilmente estavam sob o controle dos homens e dos seus governos. As crian­
ças das áreas miseráveis, os meninos assassinos, os anarquistas: todos eles repre­
sentavam um futuro que poderia estar sujeito a forças selvagens, atávicas. Assim
como a criatura de Frankenstein se virou contra o seu criador, do mesmo modo
poderiam os jovens do Ocidente se virar contra seus pais e instituições.
Com extraordinária empatia pelos jovens, Rousseau havia reconhecido o
potencial pubescente para o exagero em Emílio, e concluiu que o intervalo entre
infância e idade adulta deveria ser prolongado: “O período em que a educação
em geral terminou é exatamente a hora de começar.” Na década de 1870, suas
recomendações estavam sendo levadas a sério: depois que a chocante realidade
da existência de crianças rebeldes foi exposta igualmente por repórteres, refor­
madores e romancistas, os governos da América e da Europa começaram a criar
as instituições de educação compulsória.
Mas Rousseau não falava apenas de uma escola ideal. Ele propunha um
tipo de educação mais profunda, que reconhecesse a puberdade como uma fase
distinta da vida e lhe oferecesse uma orientação compreensiva, poupando a socie­
dade de suas manifestações mais virulentas. Nos meados da década de 1870,
Marie Bashkirtseff e Jesse Pomeroy simbolizaram os dois polos da juventude:
gênio e monstro, criador ou destruidor de mundos. Os impulsos furiosos expos­
tos pela jovem diarista e o jovem assassino levariam as mentes questionadoras a
aceitar as propostas de Rousseau. Em jogo estava o futuro: ele seria um sonho
ou um pesadelo, céu ou inferno?

CÉU E INFERNO | 31
CAPITULO 2

Nacionalistas e decadentes
A contrarrevolução europeia
* * *

Eu visualizo uma guerra, de justiça ou força


De uma lógica além de toda a imaginação.
E tão simples como uma frase musical.
- Arthur Rimbaud, "G uerre" (1 874)

POR PAVOR, PREENCHA E DEVOLVA O FORMULÁRIO


NA PÁGINA AO LADO.
FOLHETO DA BRIGADA DOS CHURCH LADS, DÉCADA DE 1890
OS TRADICIONALISTAS DA EUROPA sabiam o que fazer com todo esse excesso de
energia pubescente. Nada de se preocupar em dar aos jovens tempo para se de­
senvolverem, o que estes selvagens precisavam era de educação escolar baseada em
esportes e em seguida o alistamento em organizações pré-militares para cadetes.
Durante a década de 1870, este impulso recebeu um ímpeto extra com a ascen­
dência industrial da Alemanha, um novo Estado-nação agressivo que desestabi-
lizou a velha ordem europeia e começou o que viriam a ser quarenta anos de
corrida armamentista.
Ao mesmo tempo, houve uma forte reação contra o novo militarismo por
parte de artistas, escritores e pensadores que assumiram a visão romântica e boê­
mia da juventude como uma fase distinta da vida. Eles buscavam ao mesmo
tempo escapar das exigências materialistas da sociedade de massa do século XIX
e sondar as regiões mais profundas da psique juvenil. Os chamados decadentes,
embora não tenham dado origem ao seu nome, divertiam-se com suas doenças
morais e físicas enquanto simultaneamente exploravam como seria ser eternamen­
te jovem.
Com a aproximação do prazo final para o novo século, os decadentes e os
nacionalistas travaram entre si uma luta para imprimir as suas visões do futuro
na juventude europeia. A batalha poderia ter sido tão mortal quanto foi desigual,
mas ambos os lados tinham em comum um romantismo que enaltecia a juven­
tude, congelando-a no seu zênite. Seja na forma do herói, caído em batalha no
auge do seu vigor físico, ou a estrela cadente representada pelo prodígio pubes­
cente, a juventude eterna era o Santo Graal; morta ou autoimolada, ela jamais
chegaria à idade adulta.
A exposição mais clara da visão militarista da juventude foi a de um tenente-
coronel de quarenta anos de idade, o barão Colmar von der Goltz. No seu livro
publicado em 1883, The Nation in Arms, von der Goltz previu com exatidão,
como uma das “mudanças revolucionárias” na ciência da guerra, que toda a po­
pulação se veria envolvida em algum conflito nacional. Tendo como seu objeti­
vo a total submissão do inimigo”, a nova condição de guerra total exigiria pleno
compromisso e grandes sacrifícios igualmente de soldados e de não combatentes.
Von der Goltz observou que “a fase dos 18 aos 24 anos” era a mais adequada
para o serviço militar. Com muita sagacidade, sugeriu como explorar os atributos
físicos e psicológicos deste grupo etário: “O corpo está então com vigor suficiente
para suportar dificuldades, e o soldado ainda está livre e sem grilhões. A despreo­
cupação, uma qualidade peculiar do frescor juvenil, é um excelente incentivo
para realizações marciais. Um exército jovem, em particular um uniformemente
jovem, é em muito superior a qualquer outro.”
Sua visão era tanto pragmática quanto mística: “Só os jovens despedem-se
da vida sem angústias. Eles ainda não estão presos a esta terra pelos milhares de

NACIONALISTAS E DECADENTES | 33
fios que a vida civil tece à nossa volta. Eles ainda não aprenderam a poupar
horas de vida. O enigma que estão curiosos para resolver ainda está diante deles
como um livro fechado. Eles escalam a montanha sem perceber a descida abrupta
do precipício que há do outro lado. O seu amor pela aventura excita a sua ansie­
dade pela batalha.” Como ele concluiu, “a força de uma nação está na sua juven­
tude [em itálico no original]”.
A Alemanha estava bem adequada para o nacionalismo militar. Era um país
recentemente unificado, uma casa de força industrial que era o prodígio da Eu­
ropa, no entanto ainda presa ao sistema de dinastias. No lugar da revolução bur­
guesa que havia transformado a Grã-Bretanha, a França e os Estados Unidos,
estava uma estrutura social autoritária atrelada a ideais prussianos medievais,
que insistiam na “lealdade ao imperador, o amor apaixonado pela terra natal, a
abnegação e o alegre sacrifício”. Durante a década de 1860, o recrutamento
universal espalhou-se pelo país.
O ideal alemão de “vitória absoluta” já se justificara com a total humilhação
da França na Guerra Franco-Prussiana de 1870-71. Embora a França fosse o
primeiro país no mundo a introduzir o recrutamento - em 1793, quando o go­
verno revolucionário precisou se defender das tropas monarquistas -, este tinha
sido feito por meio de uma loteria que não funcionava. Com as deficiências no
seu sistema militar tão brutalmente expostas, a Terceira República introduziu
regras mais rígidas em 1872 para cobrir o grupo dos vinte aos quarenta anos.
O outro importante poder imperial europeu, a Grã-Bretanha, estava protegi­
do pelo mar e não tinha um grande exército permanente. Em vez do recrutamento
universal, o país encorajava um ideal de aspiração destinado a preparar os jovens
para o serviço militar. As qualidades desejadas foram resumidas no Bookfor Boys,
de W. H. Davenport Adams, de 1888, como “entusiasmo, sinceridade, infatigável
perseverança, pureza de mente e corpo, disciplina do pensamento, julgamento
cauteloso, aspirações elevadas, religiosidade e estabilidade de propósitos”.
Durante o último terço do século XIX, as escolas públicas britânicas - que,
apesar do nome, eram estabelecimentos exclusivos, pagos —desenvolveram um
etos educacional que fundia religião, disciplina, cultura, adetismo e o espírito de
serviço num sistema poderoso abrangente. A nova ideologia educacional foi inau­
gurada por Thomas Arnold, na Rugby School, durante a década de 1830, con­
centrando-se “primeiro nos princípios morais e religiosos, em segundo lugar na
conduta cavalheiresca; e em terceiro, na habilidade intelectual”.
Atuando para reformar os maus-tratos e as intimidações expostos pelo roman­
ce dos meados do século, Tom Browns Schooldays, de Thomas Hughes, Arnold
tentava “formar homens cristãos, pois meninos cristãos dificilmente eu posso
fazer”. Em vez do antigo sistema de escolas públicas, onde na falta de controles
adultos os adolescentes podiam decidir o que fazer com boa parte do seu próprio

34 | 1875-1904
tempo, o novo regime de Arnold gerou um respeito mútuo entre professores e
alunos que, não obstante, colocava o poder definitivo nas mãos do professor.
Este não era o idílio rousseauniano de uma escola livre.
Depois da década de 1860, este equilíbrio idealista ficou subordinado a um
culto à masculinidade que enfatizava a bravura física e não o desenvolvimento
intelectual. Isto se encaixou na estratégia britânica durante o último terço do
século XIX, quando o mais necessário era a manutenção e a extensão do império.
A Grã-Bretanha não se envolvera em nenhum grande conflito europeu desde as
Guerras Napoleônicas e, dentro desta Pax Britannica, o modelo da escola pública
era vital para fazer de adolescentes das classes médias e altas fortalecedores da or­
dem imperial.
A individualidade bucaneira do início do século XIX tinha se tornado obsole­
ta: escapara, através do Adântico, para a fronteira americana. No lugar do conquis­
tador imperial pirata entrou o ideal do jogador em grupo. Jogos de equipe como
futebol, críquete e rúgbi tornaram-se o principal teste de caráter, o novo rito de
passagem institucional. Pois, apesar do status social dos seus alunos, a educação
na escola pública envolvia um sistema holístico, quase panótico, que se equipa-
rava à severidade, se não à brutalidade, de ritos tribais.
Os meninos eram afastados de casa aos 12 ou 13 anos e colocados em so­
ciedades de pares semelhantes a casernas, em geral chamadas de casa, amplamente
administradas por meio de um eficiente sistema de monitores. Ao mesmo tempo,
cada minuto do dia era acompanhado por meio de uma meticulosa escala de ho­
rários que permitia ao diretor descobrir onde cada jovem estava a qualquer hora.
Isto era intencional: citando Davenport Adams, “ociosidade” era o “pecado de
Sodoma”.
De que este sistema imprimia com sucesso a sua marca não havia dúvida.
Como um estudante anônimo dos meados da década de 1890 escreveu: “Uma
fiiria adética/Tomou conta dos marlburianos de todas as idades/Agora, enfure­
cidos, críquetes todos jogarão/Agora nas nossas conversas à mesa só se fala do
‘jogo’.” A prática religiosa somava-se a esta obsessão pelo atletismo e esportes
em equipe; conforme disse um diretor: “Em cada grande internato público a ca­
pela é o centro da vida escolar.”
O produto ideal da escola pública era o cristão musculoso, que combinava
autodisciplina, bravura física, observação religiosa e o espírito de serviço num
novo tipo de masculinidade moral. Na definição de Davenport, o autoaprimora-
mento, a perseverança e o dever eram os primeiros passos numa “vida pura,
honrada e trabalhadora”. A lealdade para com a casa entrelaçava-se com a lealdade
para com a escola e, depois, para com o país - uma submissão voluntária que
durava até a morte e além dela, até a vida eterna merecida pela morte pro patria.

NACIONALISTAS E DECADENTES 35
Entretanto, o império precisava de mais corpos do que o sistema de escolas
públicas podia oferecer. A falta de recrutamento universal significava que havia
menos incentivo para os jovens da classe trabalhadora ingressarem no exército,
exceto como uma forma de escapar da pobreza ou ir em busca de aventuras.
Com tramas que apresentavam meninos aplicados como heróis enfrentando figu­
ras históricas famosas como Moisés, Anibal ou Napoleão, os romances imperiais
de G. A. Henty poderiam ter promovido a ideia de que o serviço militar era ex­
citante, mas lá pela década de 1880 as exigências do império e os desafios da
nova Europa inspiravam uma ação mais concreta.
Com o alistamento militar tornando-se um problema urgente, os reforma­
dores começaram a civilizar as selvas urbanas. Seguindo o exemplo de Toynbee
Hall, os descendentes das escolas públicas e das universidades mudaram-se para
os distritos pobres numa missão de melhoria social. Montando clubes para jovens
e centros comunitários, o movimento de colonização tinha como objetivo incul-
car atitudes de classe média; como os fundadores da Oxford Working Mens and
Lads Institute afirmavam: “As classes mais avançadas da sociedade têm o poder
de mostrar àqueles abaixo delas como viver.”
Ao mesmo tempo, novas organizações voluntárias refinaram o evangelismo
arregimentado da Associação Cristã de Moços, fundada em 1844, e o Exército
da Salvação, do general Booth, fundado em 1878, num programa direcionado
mais especificamente aos jovens. A pioneira foi a Boy s Brigade de William Smith,
formada em Glasgow durante o ano de 1883. Combinando a disciplina da pra­
ça de armas com os ensinamentos da escola dominical, a Boys Brigade tinha como
objetivo específico “o aperfeiçoamento do Reino de Cristo entre os meninos, e a
promoção de hábitos de Reverência, Disciplina e Respeito por si mesmo, e tudo
que tende para uma verdadeira masculinidade cristã”.
Smith aproveitou-se do fato de todo um segmento da juventude não estar
coberto pelas organizações voluntárias existentes. Como um membro original
da Brigade mais tarde lembrou: “Com 13 anos de idade, a maioria de nós se
achava grande demais para a escola dominical, e havia um hiato de alguns anos
até podermos ingressar na ACM, aos 17.” A disciplina militar era predominante
nas atividades da Brigade. Cada reunião começava com um desfile em formação,
sem desculpas para os retardatários, e um uniforme constando de um chapéu
sem abas, cinto e uma mochila era distribuído para usar sobre as roupas do dia
a dia. O lema da Brigade era “Seguro e Firme”.
Com o seu etos de rígida pontualidade, disciplina e obediência às ordens, a
Boys Brigade oferecia não só uma base pré-militar ideal mas também uma boa
referência embutida para qualquer futuro empregador. No fim da década de
1880, a Brigade tinha mais de 10 mil membros e ramificações por toda a Grã-
Bretanha. Seu sucesso foi copiado por outras organizações como a Jewish Lads’

36 | 1875-1904
Brigade e a Catholic Boy s Brigade. A Church Lads’ Brigade foi um rebento da
Band of Hope, o popular grupo de abstinência infantil. Todos estes enxertaram
“o broto religioso no tronco militar”.
Ao mesmo tempo, houve um aumento no número de unidades de cadetes,
uma ideia pioneira de escolas públicas como Charterhouse e Dulwich College.
Em 1889, a Southwark Cadet Corps foi fundada no sul de Londres, fundindo-
se com a unidade de Toynbee Hall num batalhão completo dois anos depois. A
associação ajudaria os meninos da jovem classe operária a evitarem as tentações
da “ilegalidade” e os “music hall de baixa categoria”. O visível crescimento destes
grupos, quando marchavam uniformizados pelas ruas, levou um jornal a comen­
tar que em 1889 a sociedade britânica estava “correndo livremente para o mili­
tarismo”.
Levar a “civilização” aos “mal-educados, sujos e brigões” selvagens da classe
operária urbana era outra expressão de valores coloniais. Todos os países imperiais
pensavam que a sua soberania era o produto inevitável de uma superioridade
racial. Na época da última grande divisão continental - da África na década de
1880 —, o elo entre nacionalismo e as ciências genéticas havia se congelado em
ortodoxias tão poderosas que governavam a política das nações. No que dizia
respeito à África, a superioridade europeia era predestinada pelo sangue.

* * *

Dentro deste sistema de crenças, o objetivo de cada nação não era apenas o pro­
gresso evolucionário, mas a realização de seu próprio destino racial único. A as­
cendente formulação de von der Goltz reverberou no meio dos aliados e inimigos
da Alemanha igualmente. Se a força da nação estava de fato na sua juventude,
então a juventude como um todo - não apenas aquela com idade para o serviço
militar, seus grupos mais jovens também - estava investida de uma nova impor­
tância. Se o destino nacional, como no caso da Alemanha, era definido pela ex­
pansão militar, então não poderia haver nenhum contra-argumento.
O jovem que não estivesse à altura não só era fraco ou pouco patriota,
como significava uma ameaça para o futuro da raça. O efeito foi reduzir os ad­
versários do militarismo a selvagens subumanos. O pioneiro a dar nome para
esses divergentes foi o psiquiatra francês B. A. Morei, que em 1857 cunhou o
termo “degeneraçao” para definir humanos defeituosos vivendo em ambientes
degradados, e ele criou raízes ao longo das décadas seguintes. Na visão naciona­
lista, quem se recusasse ou fizesse objeção ao serviço militar era um degenerado,
pura e simplesmente.
Entretanto, havia um pequeno segmento de jovens que fazia objeções. Com
base no suicídio do irmão, Frank Wedekind, extrapolando, escreveu SpringAwake-

NACIONALISTAS E DECADENTES | 37
ningy em 1891, uma raivosa polêmica contra um estabelecimento alemão que
cruelmente arregimentava seus jovens, mas deixava de oferecer uma verdadeira
orientação para a vida. A peça irritou por conter descrições de sexualidade e sui­
cídio juvenis. Este último era visto como um grande problema social na Alemanha
da década de 1890: segundo livros do psiquiatra Emil Kraepelin e do sociólogo
Émile Durkheim, escritos na época, o suicídio era diretamente causado pelas
tensões e exigências da civilização industrial.1
- O fato de os jovens da nação mais avançada e triunfal do mundo estarem
inclinados a se matarem tinha um tom sinistro em meio ao militarismo triunfan­
te. Os jovens costumam ser um reflexo para os adultos dos valores dominantes
da sociedade e esses suicídios adolescentes levavam ao pressentimento de colapso
que jazia sob a robusta superfície da Europa dos anos 1890. Enquanto seus
exércitos e esquadras varriam o globo, os grandes impérios eram assediados por
temores com relação à nova era da massa e à conseqüente involução da socieda­
de humana.
Em The Crowd, de 1892, o filósofo francês Gustave Le Bon proferiu uma
influente polêmica sobre a era de massa. Na nova sociedade tecnológica, o “direito
divino dos reis” fora subsituído pelo “direito divino das massas”. Por sua própria
natureza, as multidões eram atávicas: a sua “impulsividade, irritabilidade, inca­
pacidade de raciocinar” e o seu “exagero de sentimentos” eram exatamente aquelas
qualidades “observadas em seres pertencentes a formas inferiores de evolução -
mulheres, selvagens e crianças”. A era moderna era “um período de transição e
anarquia”, na qual o controle social da massa seria a questão-chave.
Dentro desta distopia, a posição do jovem seria de vital importância: não só
porque as crianças de hoje seriam os cidadãos de amanhã, como também porque
a condição social degradada havia criado uma geração de degenerados. O futuro
da raça estava em jogo. Havia o temor disseminado de que, se não fosse purificada,
a raça se extinguiria e a Europa, ela mesma, pereceria num violento cataclismo.
Como estes temores baseavam-se na possibilidade da guerra total que reforçava
a lógica impiedosa do militarismo, eles começaram a gerar o seu próprio mo-
mentum.
Este anseio pelo apocalipse era o impulso central por trás tanto da decadência
quanto do militarismo. Tinha sido também havia muito tempo, como Goethe e
Wedekind notaram, uma forte manifestação da raiva adolescente. Mas o mundo
de quem ia terminar? Uma torrente de retóricas apocalípticas jorrou tanto dos
nacionalistas como dos decadentes na década de 1890, na medida em que eles
rivalizavam para definir o novo século. Coincidindo com a corrida armamentista

1 Emil Kraepelin: Psychiatrie (1893); Émile Durkheim: O suicídio (1897). SpringAwakening não foi levada ao
palco até o século XX.

38 1875-1904
em aceleração prenunciada pelo influente livro de von der Goltz, este conflito
ideológico politizou o status da juventude no norte da Europa.

* * *

Civilizações morrem. Essa era a mensagem bombardeada pelos teóricos raciais


radicais e os vanguardistas da época. Essa era a mensagem do quadro que causou
sensação no Salão de Paris, em 1891, Les demiers jours de Babylone, de George
Antoine Rochegrosse. Em A rebours, Joris-Karl Huysmans previu “o vasto lupanar
da América transportado para o continente europeu”. Embora odiasse “a ilimi­
tada, inimaginável e imensurável mesquinhez do financista e do homem que se
fez por si mesmo”, ele derrubava o materialismo deles como uma praga: “Ora,
desmorone então, sociedade! Pereça, velho mundo!”
Não era de surpreender que as manifestações mais exageradas desta retórica
de fin-de-siècle tivessem se originado na França, um país que nas últimas duas
décadas do século XIX ainda era abalado pela instabilidade política que marcara
a sua história desde 1789. A juventude havia representado um papel importante
nessa revolução e tinha permanecido proeminente nos golpes e rebeliões de 1830,
1848 e 1871. Embora a Terceira República tivesse ampliado o recrutamento, a
série de clamores anarquistas na década de 1890 significava que os jovens con­
tinuavam num estado politizado muito intenso.
O messias do novo estado de espírito apocalíptico tinha sido, num sentido
muito direto, o poeta dos dias mais sombrios do seu país. Durante o inverno de
1870-71, Arthur Rimbaud viveu na linha de frente da Guerra Franco-prussiana,
na pequena cidade de Charleville, perto da fronteira com a Bélgica. Na véspera
de Ano-Novo, sua família se protegia dentro de casa enquanto as bombas prussia­
nas pulverizavam a fortaleza medieval vizinha de Mézières, do outro lado do rio
Meuse, em frente a Charleville. Aos 16 anos, Rimbaud estava rodeado de detritos
de guerra: soldados aleijados, cidades esmagadas, paisagens desfiguradas.
Ele se divertia com a destruição. “Vi um mar de chamas e fumaça alçando-se
aos céus”, ele escreveu mais tarde, “e à esquerda e à direita toda a riqueza explo­
dia como um bilhão de raios.” Como o segundo filho de um coronel do exército
francês que abandonara a família dez anos antes, Rimbaud tinha razões mais do
que suficientes para não gostar das forças armadas. Quando seu irmão mais
velho, Frederick, entusiasmado, se alistou, ele achou a atitude “desprezível”: quan­
do a França foi derrotada ele saiu por Charleville dizendo a todos que o seu país
tinha tido sorte. Era como se a queda da França o tivesse libertado.
Aos 16 anos, Rimbaud era o arquétipo do jovem provinciano que havia
muito transcendera a sua família e a sua cidade natal. Ele mal podia esperar para
ir embora. O caos criado pela Guerra Franco-prussiana externalizava a sua furia

NACIONALISTAS E DECADENTES | 39
interior e lhe dava uma oportunidade
para testar a si mesma. Naquele in­
verno, ele fugiu de casa e, em al­
gum lugar no meio da terra de­
serta da linha de frente prussiana,
teve uma revelação: “N a estrada
aberta em noites de inverno, sem
teto, com frio e faminto, uma
voz apossava-se do meu coração
congelado: ‘Fraqueza ou força,
você existe, isso é força.’”
Dois meses depois, Rimbaud
viu suas fantasias se tornarem
realidade, quando os pobres da
cidade capital ergueram-se junto
com milhares de estudantes e tra­
balhadores na efêmera Comuna
de Paris. Por um breve período,
de abril a maio de 1871, os anar­
quistas tomaram conta da capital
ARTHUR RIMBAUD, AOS 17 ANOS, e jovens poetas dirigiam a força po­
POR ÉTIENNE CARJAT
licial. Rimbaud foi um entre milha­
res de jovens vagabundos que afluíram
em bando para a revolucionária Paris como mariposas em direção à luz: eram
tantos que a Comuna formou dois batalhões: as “Pupilles de la Commune” e os
“Enfants perdus”.
Embora a Comuna tenha sido esmagada semanas depois da visita de Rim­
baud, o rapaz de 16 anos aproveitou a sensação de liberdade que havia experimen­
tado para aplicá-la ao seu próprio trabalho e vida. Os dois se tornaram indivisíveis.
N o dia 13 de maio de 1871, ele escreveu ao amigo Paul Demeny: “O problema
é alcançar o desconhecido desorganizando todos os sentidos. O sofrimento é
enorme, mas você precisa ser forte e ter nascido poeta.” Ele insistia que “je suis
un autre": sua retórica em breve se traduziria em ação.
Para Rimbaud, a poesia era uma vocação mística. Ele acompanhou a linha
visionária sombria que teve início com os românticos, passando por Edgard
Allan Poe e Charles Baudelaire até a sua conclusão. Depois de 1871, seus poemas
estavam repletos de tumultos revolucionários, invectivas contra a burguesia,
misticismo pagão e ferozes profecias, tudo misturado numa cosmologia coerente.
Acima de tudo, suas visões eram apocalípticas: “Esta é a hora do banho de suor,

40 1875-1904
de oceanos fervendo, de explosões subterrâneas, do planeta afastando-se num
redemoinho, de exterminações certas a seguir.”
Foi como uma presença que ele causou o maior impacto sobre os seus contem­
porâneos. Convidado pelo poeta Paul Verlaine para ir a Paris naquele outono,
Rimbaud foi elogiado na capital da boêmia literária como o mais recente prodígio.
Em vez da atitude correta de respeito pelos mais velhos, o rapaz de 17 anos rea­
giu com uma saraivada de expletivos escatológicos, e coisa pior, ao que via como
sendo uma atitude paternalista. Ele interrompia as leituras, aterrorizava seus an­
fitriões, despejou ácido sulfurico na bebida de um amigo e, numa ocasião, feriu
o fotógrafo Étienne Carjat.
As duas fotos de Rimbaud feitas por Carjat que restaram mostram um
rapaz com cara de bebê de queixo travado, boca fina e cruel, cabelos desalinhados
e olhos pálidos adamantinos - o modelo do jovem fanático. Paul Verlaine o cha­
mava de “Casanova menino”, cujo queixo “bonito, severo, parece dizer ‘cai fora’
para qualquer ilusão que não seja o resultado do mais irrevogável ato de vontade”.
Com sua “cabeleira soberba” e um “desdém extremamente viril por roupas”, o
rapaz sintetizava uma “beleza literalmente diabólica”.
Nos quatro anos seguintes, Rimbaud dedicou-se a uma folie à deux com
Verlaine que passava pelo deboche, pela pobreza e o ostracismo para terminar
em violência e exaustão. “O tédio deixou de ser o meu amor”, ele escreveu em
Uma temporada no inferno: “Ira, perversão e loucura, cujo próprio impulso e de­
sastre eu conheço - minha carga está assentada por inteiro.” Aos 21 anos, ele
parou de escrever; quando um amigo lhe perguntava sobre sua poesia, ele respon­
dia: “Je ne pense plus à ça? Logo depois, emigrou para a África e abandonou a
sua antiga vida.
A trajetória vertiginosa da carreira de Rimbaud foi alimentada por uma ex­
ploração retórica dos seus pensamentos e sentimentos explosivos - uma nova
sensibilidade sintomática do que ele chamou, em “Jeunesse”, de “O eterno egoís­
mo da juventude”. Quando escrevia, no início da década de 1870, os jovens não
tinham direitos, uma “posição extralegal” da qual ele estava muito consciente.
Seus versos refazem tropos românticos existentes com uma maciça dose de pato­
logia masculina púbere. Colocando-se na pessoa de um príncipe estilo Calígula
no poema “Conte”, ele perguntou: “O êxtase é possível na destruição? Pode al­
guém tornar-se jovem na crueldade?”
Com seu desaparecimento, ele se tornou uma criatura mítica, congelada no
seu zênite jovial tão certamente quanto Werther ouThomas Chatterton. Rimbaud
já previra o seu destino. No seu manifesto de maio de 1871, ele descreveu o que
aconteceria depois que o profeta surgisse: “Ele alcança o desconhecido e mesmo
que, enlouquecido, ele acabe por perder toda a compreensão de suas visões, ele
as viu! Se ele morrer depois deste salto para coisas inaudíveis, inomináveis, mais

NACIONALISTAS E DECADENTES | 41
operários da vontade terrível virão; eles começarão nos horizontes onde o outro
entrou em colapso!”
O status de Rimbaud como o avatar da decadência francesa foi selado quan­
do, no ano de 1883 —o mesmo de The Nation in Arms -, Paul Verlaine publicou
uma seleção dos seus poemas na antologia de Les poetes maudits. Com a sua “fé
no veneno” e “insanidades“ extáticas, Rimbaud definiu o modelo para um mo­
vimento que associava sexo e morte numa nova revelação, definida por Verlaine
como “o colapso nas chamas das raças exaustas pela sensação do som invasor das
trombetas inimigas”. No fundo da África Oriental, o messias ficou estarrecido
com a fama que não buscava.
Entretanto, o estilo espalhou-se inexoravelmente por toda a Europa e até o
outro lado do Adântico. Conforme sucessivas gerações de decadentes elevaram a
aposta ao mais alto grau, a sua ambição cresceu. Na década de 1890, eles haviam
construído um mundo hermético que englobava absinto, morfina, gurus barbu­
dos, sessões espíritas, resenhas que apresentavam “contribuições de falsos Rim-
bauds de arrepiar os cabelos” e editoriais que proclamavam uma missão “para
destruir a velha ordem e preparar os elementos embrionários da grande literatura
nacional do século XX”.

* * *

Graças à sua proximidade com a França, a Grã-Bretanha foi o terreno europeu


mais fértil para a exportação de decadência, mas havia outros fatores. Na última
década do século XIX, as certezas do alto vitorianismo tinham sido minadas pela
crítica científica da religião e os efeitos aceleradores da era das massas. Havia
também um aumento de atividade política extraparlamentar: o início do socia­
lismo de massa, a ascensão da nova mulher e do sufrágio feminino e as primeiras
discussões sobre os direitos dos homossexuais. Ao mesmo tempo, as atrocidades
urbanas cometidas pela juventude operária estavam ficando mais visíveis.
Nas próprias escolas públicas, o arquétipo do cruzado sofria ataques. Os es­
tudos clássicos foram durante muito tempo a matéria-prima do sistema da escola
pública e, a partir da década de 1870, aqueles que tinham enjoado do cristianismo
muscular reinterpretavam o roteiro latino e grego numa nova estética que repre­
sentava a verdadeira alternativa para Deus e o esporte. Um dos mais influentes
helenizadores, Goldsworthy Lowes Dickinson, lembrou que os seus dias de es­
tudante estiveram “imersos em barbarismos”: “Não há dúvida quanto à miséria,
à futilidade, mais do que o desperdício de anos preciosos.”
No início da década de 1890, a principal luz do esteticismo britânico propôs
outra definição para juventude. Quando o seu primeiro romance foi publicado,
Oscar Wilde já se estabelecera como um provocador e autor. Embora casado e

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com dois filhos, ele tinha uma outra vida no mundo homossexual. Parte parábola,
parte roman à clefsobre Wilde e seu círculo, O retrato de Dorian Gray redistribui
os papéis do mito faustiano para a era moderna: neste caso, o acordo foi selado
com a promessa de juventude eterna.
A gênese do romance datava de junho de 1884, quando Wilde visitou Paris
em lua de mel. Ele já havia sido apresentado à exuberância da decadência rim-
baudiana, na forma do protégé aturdido pelo ópio de Sarah Bernhardt, o poeta
Maurice Rollinat, mas o texto que mais o impressionou foi A rebours. Wilde
identificou-se tanto com des Esseintes que o esteta hermético de Huysmans
“tornou-se para ele uma espécie de prefiguração de si mesmo. E, na verdade, o
livro inteiro lhe parecia conter a história da sua própria vida, escrita antes que
ele a vivesse”.
Wilde oscilava constrangido entre o deboche decadente e a utopia socialista,
mas via essas tensões como uma fonte de energia. Em 1891, publicou dois livros
importantes que codificavam os dois pólos do seu caráter: o ensaio filosófico
“The Soul of Man under Socialism” e o romance de corpo inteiro O retrato de
Dorian Gray. Se o primeiro proclamava que “é pela desobediência que o pro­
gresso se fez”, então o último sacramentava a intensidade jovial: “Viva! Viva a
maravilhosa vida que existe em você! Juventude! Juventude! Não há nada no
mundo senão a juventude!”
O mais chocante na excursão de Oscar Wilde pelo demimonde da época -
os estúdios de artistas, os salões musicais, os antros de ópio - não foi a total amo-
ralidade com que ele destruía a vida de todos aqueles de quem se aproximava.
Pelo contrário, foi o retrato da total dissolução do seu filho mimado dentro de
“sonhos que tornariam a sombra do seu mal real”. Este perverso júbilo estava
claramente viciado pela conclusão moralista do romance, da mesma forma que
o contrato faustiano cobrava o seu preço. Em lugar da beleza jovial havia um
defunto irreconhecível, “murcho, enrugado e de expressão nojenta”.
Wilde era por demais cauteloso para propor a juventude eterna como uma
suposição séria: a queda de Gray no tédio e na insanidade deixava bem óbvios
os perigos desse estado. Entretanto, suas ambivalências o desmascararam. Em­
bora uma crítica da decadência, o seu romance efervescente ajudou ainda mais a
popularizar o estilo. Wilde forçou a balança um pouco mais acrescentando uma
série de aforismos preliminares - como “vício e virtude são para o artista o
material de que se faz a arte” - que tinham a garantia de enfurecer aquilo que
Huysmans chamava de “pesada atmosfera militarista” da Inglaterra.
Se tivesse expressamente planejado isto, Wilde não poderia ter escolhido
uma linha de ataque mais perturbadora para o inglês imperial. Os valores que
ele promovia —os pecados gêmeos de Sodoma e socialismo —eram diametralmente
opostos aos do cristianismo muscular. No lugar de espírito de equipe, ele sugeria

NACIONALISTAS E DECADENTES | 43
o individualismo exuberante: “Perceber a própria natureza com perfeição —é
para isso que cada um de nós está aqui.” Em vez do rígido guerreiro, ele definia
o homem como “uma criatura multiforme complexa”. Principalmente através
da sua cada vez mais declarada homossexualidade, ele expunha a falha no sistema
educacional britânico exclusivo para meninos ou para meninas.
Wilde dispôs-se a influenciar os jovens. “É absurdo falar sobre a ignorância
da juventude”, ele escreveu. “As únicas pessoas cujas opiniões eu escuto com res­
peito são as pessoas muito mais jovens do que eu!” Como o sumo sacerdote do
esteticismo, Wilde era um ímã para jovens fãs como o estudante de Oxford,
Lord Alfred Douglas, que correu para conhecer o autor logo depois da publicação
de Dorian Gray. Wilde vinha levando uma vida homossexual secreta há vários
anos, mas o relacionamento que os dois tiveram abertamente conduziu a um
confronto direto com a sociedade inglesa.
Num artigo intitulado “Frases e filosofias para uso dos jovens”, publicado
na edição de dezembro de 1894 de uma nova revista de Oxford, a Chamaleon,
Wilde contradizia dogmas profundamente respeitados sobre religião, tempo, arte
e história, e o relacionamento entre gerações. “Os idosos acreditam em tudo”, ele
escreveu; “os de meia-idade desconfiam de tudo; os jovens sabem tudo.” Embora
Wilde não escrevesse nada sexualmente explícito, outros colaboradores o fizeram
—mais notadamente Lord Alfred, que celebrava “o amor que não ousa dizer o
seu nome”. Quando o escândalo explodiu, Wilde foi execrado por associação.
No tortuoso drama legal que se desenrolou no Londons Central C r i m in al
Court durante os meses de abril e maio de 1895, a influência de Wilde sobre os
jovens foi uma questão central. Ferido pelo assédio do pai de Lord Alfred, o
marquês de Queensberry, ele o processou por difamação. Seus amigos o aconselha­
ram a não fazer isso, e seus piores temores se realizaram quando o réu apresen­
tou um pedido de justificação que acusava Wilde de sodomia com 12 jovens. A
acusação sustentava que estes deboches já tinham sido publicados em 0 retrato
de Dorian Gray, uma obra “calculada para subverter a moralidade e encorajar o
vício anormal”.
A confusão estabelecida entre romance e autor aumentou durante os três
julgamentos, com Wilde no papel de corruptor de Gray, Lord Henry Wotton. A
determinação punitiva do establishment resultou numa sentença de dois anos de
trabalhos forçados por falta de decoro e sodomia. Resumindo, o juiz disse a
Wilde que ele havia sido “o centro de um círculo de extensa corrupção do tipo
mais hediondo entre os rapazes”. Esta primeira condenação bem-sucedida de
acordo com o Criminal Law Amendment Act de 1885 apresentou a homossexu­
alidade ao público nos termos mais negativos: “Uma chaga que com o tempo
não deixará de corromper e manchar tudo!”

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O veredicto foi um desastre pessoal náo apenas para Wilde, cujas obras fo­
ram proibidas e cuja figura permaneceu difamada publicamente durante décadas
depois da sua morte, em 1900, mas também para os estetas e homossexuais cuja
recente visibilidade a sua presença anunciou. As metáforas médicas usadas no
tribunal e na imprensa para descrever estas criaturas doentes concordava r.n com
as teorias genéticas popularizadas pela devastadora crítica de Max Nordau ao es-
teticismo, Degeneration, publicada pela primeira vez em alemão em 1892, mas
que esteve em moda por um breve período na Grã-Bretanha.
Dedicado a Cesare Lombroso, o livro de Nordau identificava a ameaça repre­
sentada por artistas que, como Baudelaire, Nietzsche e Wilde proclamavam as
virtudes do individualismo contra a moral tradicional.2 Nordau destacava Wilde
como “a aberração patológica de um instinto racial”. O tratamento que ele pen­
sava ser mais “eficaz” contra este “estado de espírito fin-de-siècle” foi decretado nos
julgamentos na primavera de 1895: “Caracterização dos principais degenerados
como mentalmente doentes: desmascarando e estigmatizando seus imitadores como
inimigos da sociedade; advertindo o público para as mentiras destes parasitas.”
Wilde ofendeu principalmente porque fez em público o que acontecia fre­
quentemente por trás da fachada da classe governante. Como observou o jorna­
lista W. T. Stead depois do veredicto: “Enquanto isso, aos meninos das escolas
públicas é permitido entregar-se impunemente a práticas que, ao saírem da escola,
irão enviá-los para os trabalhos forçados.” O drama também distraiu a atenção
de um escândalo envolvendo o primeiro-ministro, Lord Roseberry, e outro herdei­
ro dos Queensberry, o visconde Drumlanrig - relacionamento que terminou com
o suicídio do mais jovem.
Com essas tendências ocultas, não é de surpreender que o julgamento de
Wilde representasse uma tentativa determinada pelo sistema vitoriano de rejeitar
qualquer exame da causa e acusar, em vez disso, o sintoma. Os filhos dos burgue­
ses, tão vitais para o futuro do país, tinham sido seduzidos por este flautista de Ha-
melin alquebrado, e suas almas estavam em jogo. Uma notícia no jornal deixou
claro que eram os “rapazes das universidades, meninos inteligentes do sexto ano
das escolas públicas” que “deviam avaliar dentro de si mesmos as uoutrinas e a
carreira do homem que agora tem de sofrer a justa sentença da lei”.
Havia alguma base para esta acusação. Na década de 1890, já havia dois
grupos de jovens que se recusavam a prestar reverência ao materialismo imperial:
o que, escrevendo dentro de um contexto americano, Thorstein Veblen mais
tarde chamaria de “classe de lazer hereditária” e “delinqüentes das classes baixas”.

2 Nordau escolheu Marie Bashkirtseff para insultos em especial: “Uma menina degenerada que morreu de tísica,
uma vítima da loucura moral, com um toque de megalomania e mania de perseguição, assim como mórbida
exaltação erótica.”

NACIONALISTAS E DECADENTES | 45
Na Gra-Bretanha, a elas se juntaram a classe média ou média alta boêmia: gra­
ças, em parte, aos próprios esforços de Wilde, o estilo de vida estético do roman­
tismo havia se entrincheirado dentro da burguesia britânica como um terceiro
caminho entre militarismo e revolução.
O veredicto de Wilde interrompera o modernismo britânico na sua trajetória.
A exploração de Edward Carpenter do relacionamento entre feminismo e homos­
sexualidade, Loves Corning ofAge, foi enterrada quando da sua publicação, em
1896. A obra pioneira de Havelock Ellis, Sexual Inversion, revelando casos de
adolescentes com desvios sexuais, foi proibida um ano depois. Ex-colaborador
de Wilde, Aubrey Beardsley observou o momentum desta “reação”: “O purita-
nismo raivoso chega como uma onda alta e é imediatamente seguido por uma
maré constante de brutal grosseria.”
Por toda a Europa, a decadência recuou diante de uma nova normalidade
agressiva. Em Degeneration, Nordau equacionara a aptidão física com saúde
mental e psíquica. Ele definiu as qualidades que eram o extremo oposto da
decadência: força de vontade, dever e trabalho, submissão diante da lei imutável
da evolução. Próximo ao final do livro, ele pedia aos leitores para imaginar uma
“competição” entre os decadentes, os estéreis habitantes do “hospital, do asilo de
loucos e da prisão”, e os “homens que levantam cedo, e não estão cansados antes
do pôr do sol, e têm cabeças lúcidas, estômagos sólidos e músculos firmes”.
Na França, houve um ataque intelectual combinado contra os decadentes.
Num discurso em julho de 1899, um jovem populista radical chamado Albert
Mathiez atacou “esses jovens que vivem apenas para si mesmos” e “que se perfu­
mam e vivem como mulheres”. A suprema estupidez deles era o fato de se pro­
clamarem “desarraigados”. Esta era a individualidade pulverizada que o escritor
Maurice Barrès chamou de “o imenso eu que os esconde do resto do mundo”.
Embora Barrès tivesse bebido da fonte decadente,3 a sua trilogia de 1897 Les
déracinés explorava esta desconexão.
Traçando a migração de sete adolescentes provincianos de Lorraine para
Paris, a narrativa de Les déracinés era árida: “Isolados de suas comunidades de
nascimento, e treinados apenas para competir entre eles mesmos, os adolescentes
adotam a mais lamentável visão da vida.” Na falta de qualquer provisão adulta
ou valores estáveis, o individualismo levava ao assassinato. A crítica de Barrès a
um sistema moribundo lentamente o empurrou para a ativa agitação política,
conforme ele buscava arregimentar a geração que havia despertado, seus “prínci­
pes da juventude”, num novo nacionalismo místico.
Remodelar o nacionalismo também passava pela cabeça de um eminente
vitoriano inglês. Henry Newbolt era um advogado, romancista e editor que

3 Ele foi um dos primeiros entusiastas dos diários de Bashkirtseff.

46 | 1875-1904
acreditava na “Inglaterra como uma potência mundial e orientadora do mun­
do”. Ele descreveu com entusiasmo um jantar em 1898 na sua universidade, Clif-
ton College. “Às três da manha eu ainda estava sentado na cama de um homem
que eu nunca tinha visto antes, lendo trechos do seu diário do Sudão. Ele é um
capitão da R.A. e foram seus obuses que derrubaram os muros de Omdurman.
Ele veio para Clifton no ano em que saí!”
Newbolt acreditava que “para moldar o caráter nacional e seu componente,
o caráter individual, as guerras às vezes foram um instrumento muito perfeito’”.
Mais tarde, em 1898, publicou uma coleção de poesias chamada This IslandRace.
Em “Vitai Lampada”, ele venerou a associação entre esportes e cavalaria que era
a essência do domínio global pela Grã-Bretanha. Dentro da pragmática Albion,
o misticismo era demarcado em saldos, e o poema sonante definitivamente afir­
mava qual era a visão imperial sobre a juventude britânica:

Há um silêncio ofegante no Close esta noite -


Dez para fazer e a partida para vencer -
Uma estrada acidentada e uma luz ofuscante,
Uma hora para brincar e o último homem dentro.
E não é por causa de um casaco com fitas,
Ou a egoísta esperança da fama de uma estação,
Mas a mão do seu capitão no seu ombro bate -
“Aproveitem! Aproveitem! E joguem!”

A areia do deserto é vermelha encharcada -


Vermelha com os destroços de um quadrado que quebrou —;
O Gatling está congestionado e o coronel, morto,
E o regimento, cego de poeira e fumaça.
O rio da morte encheu até a borda,
E a Inglaterra está longe, e Honra é um nome,
Mas a voz de um estudante anima as fileiras:
“Aproveitem! Aproveitem! E joguem!”

Esta é a palavra que ano a ano,


Enquanto no seu lugar a Escola é colocada,
Cada um dos seus filhos deve ouvir,
E ninguém que a escuta ousa esquecer.

Isto eles todos com uma mente alegre


Suportam a vida como uma tocha em chamas,

NACIONALISTAS E DECADENTES | 47
E rápido para o exército que está atrás —
“Aproveitem! Aproveitem! E joguem!”

Os ecos desse mantra militarista ainda reverberavam duas décadas depois,


quando a juventude da Europa ia para a guerra. Como Degeneration e Les déra-
cinés, “Vitai Lampada” foi parte de uma contrarrevoluçao muito eficaz que pa­
recia banir para sempre o fantasma da decadência doentia. Apesar de todo o seu
vigor, entretanto, o poema de Newbolt era assombrado pela morte;4 apesar de
fazerem a pose de quem está cansado do mundo, os decadentes celebravam uma
paixão juvenil pela vida que se reafirmaria depois do holocausto para o qual seus
adversários “saudáveis” haviam se preparado com tanto entusiasmo.

4 Depois da Grande Guerra, Newbolt empalidecia à sua menção.

48 | 1875-1904
CAPÍTULO 3

Hooligans e Apaches
Delinqüência juvenil e a mídia de massa
* * *

Os melhores entre os pobres nunca são agradecidos. Eles são ingratos,


descontentes, desobedientes e rebeldes. Eles têm razão de ser assim.
- Oscar W ilde, "The Soul o f Man Under Socialism" (1891)

'OS GUARDAS DE MONTGOMERY: UMA G R O W LER ' GANG REUNIDA",


C. 1890, DE JACOB RIIS

1 Espécie de jarra onde se bebia cerveja barata.


NAS METRÓPOLES do fim do século XIX, muitas crianças e adolescentes eram
deixados à própria sorte. Na falta de uma estrutura imposta por adultos, eles se
organizavam em gangues que mal podiam ser controladas. Jacob Riis descobriu
isso quando, na virada da década de 1890, deparou com um grupo de jovens
valentões no sul de Manhattan. Embora estivesse acostumado a lidar com crianças
de rua, ele descobriu que tinha de se aproximar deste bando de “malandros” com
mais cautela. Foi só apelando para a vaidade deles - pediu que fizessem pose de
“fotos de cigarro” diante da sua câmera - é que evitou receber uma surra.
A gangue “aceitou a oferta com muita prontidão, arrastando para o grupo
uma ovelha de aparência indecorosa (o matadouro ficava ali perto) como mais
um membro do bando. O rufião mais sem graça do grupo, que insistiu em ser
fotografado com a cerveja na sua caneca’, aproveitou a oportunidade para jogar
o que restava garganta abaixo, causando um certo desagrado, mas, a não ser por
isso, a performance foi um sucesso. Enquanto eu aprontava a câmera, fiz uma
leve sugestão de fotografias para cigarros, e ela pegou logo. Agora eu era obriga­
do a registrar os espíritos mais ousados da companhia a caráter”.
Eles representaram seus crimes diários. “Um deles se jogou sobre um abri­
go, como se estivesse dormindo, enquanto outros dois se inclinaram por cima
dele, vasculhando os seus bolsos com uma habilidade que era altamente suges­
tiva. Isto, eles explicaram para me favorecer, era para mostrar como eles ‘faziam
o truque’. O resto do bando ficou tão impressionado com a importância da exi­
bição que insistiu em se aglomerar dentro da foto subindo no abrigo, sentando
no telhado com os pés dependurados no beirai, colocando-se à vista de todas as
maneiras possíveis de se imaginar, como eles pensavam.”
A foto que resultou dali, “Uma Growler Gang reunida”, estabeleceu um
novo padrão na iconografia delinqüente. Numa zona urbana com abrigos e pá­
tios de baixa densidade, sete membros dos Montgomery Guards anunciavam a
mentalidade do seu grupo com roupas e gestos. Carrancudos contra a luz do sol
desbotada, todos portam chapéus, roupas escuras e uma expressão de desafio.
Sua insolência é personificada pelo ar de sarcasmo no rosto do rapaz que está no
centro e pela determinação do bebedor mais jovem abaixando a cabeça para
esvaziar a caneca cheia até a borda. Diante desta visão, você sairia correndo.
Os jornais de Manhattan havia muito tinham noticiado as façanhas das
gangues locais. No verão de 1857, o New York Times tinha intercedido publica­
mente no temível conflito entre os Bower Boys e os Dead Rabbits. Com seus
chamativos nomes de grupos e com um jeito de arrepiar os cabelos, os jovens
gângsteres ofereciam pautas perfeitas para os jornalistas da cidade. Os primeiros
queriam publicidade, os últimos ficavam com exemplares pitorescos - tramas
vivas de romances baratos —que, no entanto, combinavam esses dois ideais da
imprensa: excitação e censura.

50 | 1875-1904
Na última década do século XIX, o problema da delinqüência juvenil tinha
se tornado mais premente. Mas só com a publicação, em 1890, da foto da “Gro-
wler Gang” e outras no How the Other HalfLives de Jacob Riis é que os ameri­
canos viram amplamente divulgadas evidências documentais da sua juventude
urbana. Repórter da polícia que virou cruzado, Riis descobriu que a câmera com
flash recentemente inventada era o instrumento perfeito para registrar as vidas
de párias da sociedade de quem se falava muito, mas que raramente eram vistos:
nesse caso, ele expôs um mundo jovem distinto, se não autônomo.
Como os teóricos da degeneraçao, o objetivo de Riis era mostrar que as
condições degradadas resultavam em vidas degradadas, e que os jovens eram os
mais vulneráveis: “Das 82.200 pessoas presas pela polícia em 1889”, ele escreveu,
“ 10.505 tinham menos de vinte anos de idade.” Entretanto, o seu propósito
não era consignar os jovens pobres de Manhattan à sombria periferia, mas jogar
uma luz sobre o problema. Integração, e não eugenia, era o estilo de Riis: o su­
cesso galopante de How the Other Half Lives foi a sua chance de influenciar a
política nacional na reforma das condições habitacionais, espaços públicos e
educação pública.
Riis foi um dos muitos escritores a relatar o crime juvenil durante a última
década do século XIX. Conforme o seu número crescia no mesmo ritmo que a
sua asserção, as crianças nas áreas miseráveis apresentavam um problema mais
visível. Se a sociedade das massas urbana e tecnológica ia funcionar, entao todos
tinham de estar de acordo com as normas burguesas de frugalidade, dever e dis­
ciplina. O caos urbano não era mais aceitável. O movimento de reforma na Amé­
rica tornou a delinqüência um dos seus principais alvos, ao mesmo tempo em
que os escândalos na Grã-Bretanha e na França eram as principais manchetes
nacionais.
Esses comentaristas não levavam em conta o impacto que suas reportagens
sensacionalistas tinham no grupo que objetivavam. O jovem era um assunto
emocionante, mais ainda se associado ao crime e a hábitos estranhos e bárbaros.
Aparecer na imprensa dava status. Aparecendo aos olhos do público ao mesmo
tempo que a imprensa popular flexionava pela primeira vez os seus músculos, o
selvagem dos bairros pobres era uma amostra para o século seguinte. Exibindo
uma alarmante, se não estranha, independência, o hooligan e o Apache anuncia­
ram o relacionamento simbiótico entre os meios de comunicação e a juventude.
Esta súbita atenção refletia o fato de que, na década de 1890, muitos jovens
urbanos estavam determinados a viver a vida a seu modo. Não importava o que
reformadores e jornalistas pensassem, eles iam ter o que queriam por bem ou
por mal: substâncias tóxicas, armas, roupas. Do mesmo modo que o seu vestuá­
rio extravagante chamava a atenção do público, novos tipos como os hooligans e
os Apaches usavam sua aparência surpreendente como um distintivo de honra.

HOOLIGANS E APACHES | 51
Ao fazer isso, irradiavam a própria rebeldia emplumada que sua exposição estava
tentando cercear.

* * *

Foi no Novo Mundo que a delinqüência juvenil se mostrou mais radical. Entre
1880 e 1910, o total da população urbana triplicou - de 14 para 42 milhões. Este
enorme crescimento teve duas origens: de dentro do continente, quando um
número estimado de 11 milhões de pessoas trocou o campo pela cidade, e de
fora, quando a imigração da Europa ocidental e oriental alcançou o seu auge por
volta do novo século. Esta migração maciça convulsionou a América no que o
educacionista John Dewey chamou de “uma revolução tão rápida, extensa e
completa como nenhuma outra na história”.
Os jovens estavam no extremo dessa revolução. Grupos como os Montgomery
Guards eram um lembrete visível de que as instituições e a infraestrutura do con­
tinente não estavam acompanhando a atordoante velocidade das mudanças. Na
falta de uma intervenção do Estado, as reportagens sociais de reformadores como
Riis e Jane Adams, junto com a ficção realista de Theodore Dreiser e Stephen
Crane, descreviam com uma urgência maior do que nunca as difíceis escolhas que
a juventude americana enfrentava. Elas podem ter sido visões de pesadelos, mas
com um objetivo prático: a melhoria do cotidiano da população pobre das cidades.
As crianças dos bairros urbanos onde proliferavam os bordéis controlavam
este novo enfoque sobre as condições sociais americanas. Como não aparentavam
problemas e, na verdade, porque personificavam os principais valores americanos,
os adolescentes das classes média e alta não eram tão visíveis nos novos meios de
comunicação de massa. Os árabes nas ruas e as gangues de valentões eram um lem­
brete vivo de que, apesar de todo o desejo de forjar uma nova sociedade indepen­
dente das tradições europeias, e apesar da sua retórica de liberdade para todos, a
iniqüidade estava inserida, não promovida, nos seus sistemas econômicos e sociais.
Apesar da propaganda voltada para as aspirações, o seu sucesso —com raras
exceções —dependia de como você nascia. Se fosse numa família de classe média
aparentemente estável, tinha mais probabilidade de ter aspirações e ideais tra­
dicionais; se fosse homem, ingressar nos negócios da família ou num emprego
adequado; se mulher, fazer o melhor casamento possível, ou então, entrar para a
advocacia ou a medicina. Para os rapazes, em particular, havia uma escala já
pronta de sucessos a ascender; educação primária e secundária, depois a universi­
dade e a entrada para o comércio, a indústria ou uma profissão liberal.
As crenças instiladas na juventude americana de classe média refletiam a po­
sição estratégica do país. Embora a Guerra Civil tivesse erradicado a atração pelo
conflito por uma geração, na década de 1890 houve uma nova belicosidade, vene­

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rada na pessoa do comissário de serviço civil, Theodore Roosevelt, que concordava
com o desejo do país de atuar no cenário internacional. No seu best-seller de 1885,
Manifest Destiny, John Fiske havia profetizado que em um século a América
seria “uma agregação política superando imensuravelmente em poder e dimensões
qualquer império que jamais existira”.
Os governantes do futuro, portanto, deveriam ter inculcadas as habilidades
e atitudes necessárias para transformar essa visão em realidade. Mesmo antes da
Guerra Hispano-Americana de 1898, o militarismo já estava inserido na vida
dos americanos. O que Roosevelt chamou de “qualidades rudes que precisam
combinar com a verdadeira masculinidade” foi reforçado tanto por um ideal
espiritual de “cristianismo muscular” como por uma cultura de esportes altamen­
te desenvolvida: beisebol, futebol e musculação, as principais atividades de lazer
dos machos de classe média do país. Na América pré-imperialista, entretanto, o
objetivo máximo desse treinamento não era a guerra, mas os negócios.
Do mesmo modo que as escolas públicas treinavam os jovens britânicos para
governarem o Império Britânico, o esporte ao mesmo tempo disciplinava o jovem
selvagem e o preparava para o “difícil e perigoso empenho” que Roosevelt consi­
derava necessário para a América alcançar a sua “verdadeira grandeza nacional”.
Esta ideologia não dava nenhuma ideia de que os jovens de classe média formas­
sem uma corte distinta. Embora houvesse a noção de que “juventude” era um
período de fluxo, isto estava desaparecendo com a crescente estratificação da
educação e do lazer, o que significava que os rapazes estavam sob uma supervisão
por parte dos mais velhos maior do que antes.
Embora a asserção por parte de rapazes privilegiados fosse considerada como
pertencente à ordem natural das coisas, ela não se baseava em nenhuma defesa de
gerações. Os adultos comandavam. No épico “Estado da nação” de Theodore Dreiser,
Sister Carne, de 1893, o morador da mansão, George Hurstwood Jr., poderia
bem ter “manifestado uma sensibilidade e um exagero ainda maiores na questão
de seus direitos individuais, e tentado fazer com que todos sentissem que ele era
um homem com privilégios de homem”. Mas esta era “uma hipótese que, de todas
as coisas, era a mais sem fundamento e absurda num jovem de 19 anos”.
Nessa idade, muitas crianças dos bairros pobres estavam chegando ao fim
de suas vidas. Nos cáusticos ambientes dos laboratórios metropolitanos da Améri­
ca, a luta pela sobrevivência desgastava corpos e almas com especial intensidade.
Graças aos seus níveis muito altos de imigração e seu ambiente peculiarmente
comprimido, Manhattan era muito dura com seus jovens. Crianças abandonadas
nas ruas eram uma rotina: muitas morriam, enquanto aquelas com mais sorte
encontravam empregos sem definição como jornaleiros ou vendedores de flores,
ingressavam em gangues ou eram recrutadas pela Fagin local. Não havia infra-
estrutura de previdência social, nenhuma rede de segurança.

HOOLIGANS E APACHES 53
Esta modalidade primária de organização social dos jovens era local e ter­
ritorial. Também refletia a cidade onde viviam. Nova York era uma cidade escan­
carada, “a moderna Gomorra”. Como eles poderiam ter resistido a se fazerem à
sua imagem? As gangues vinham se desenvolvendo em sofisticação e número
desde os meados do século XIX. Na década de 1890, segundo o cronista Herbert
Asbury, “Manhattan ao sul de Times Square estava dividida em gangues com
reinos claramente definidos, e as fronteiras eram fortificadas e tão cuidadosamen­
te guarnecidas como as fronteiras de nações civilizadas”.
Dentro dessa zona de batalha urbana, as divisões étnicas de Manhattan - de
rua para rua, de bairro para bairro - eram expressas em batalhas campais e con­
flitos raciais. Entretanto, o crime e a proteção de pares eram os motivos mais co­
muns. Compreendendo membros com idades entre dez e vinte anos, as novas
gangues incluíam grupos menores que defendiam seu produto principal - em
geral a atividade ilegal associada com o seu bairro - e travavam guerras pelo
controle de áreas a fim de estabelecer a superioridade de mercado. Era a delin­
qüência reestruturada num eco que nitidamente parodiava a consolidação cor­
porativa que começava a dominar a vida empresarial americana.
A conseqüente distribuição criou um mapa alternativo de Manhattan. Os
Five Pointers comandavam a área ao redor da Broadway e da Bowery; o território
da Eastman ia da Bowery até o East River. Em outra parte, a Gas House Gang,
os Gophers, os Fashion Plates, os Marginais e os Pearl Buttons - todos disputavam
pelo seu respectivo pedaço de terra. Com uma alta rotatividade, as gangues re­
crutavam seus membros nos muitos clubes de rapazes que proliferavam por
todos os lados a leste e oeste de Manhattan; organizados por chefes de bairros
locais, eles também tinham nomes excitantes como os Bowery Indians e os Go-
Aheads.
Este era um mundo inteiro em si mesmo. Todas as regras usuais eram revira­
das de cabeça para baixo, mas a desgraça recaía sobre aqueles que contrariavam
as novas leis. A gangue mais bem-sucedida do início dos anos de 1890, os Whyos,
oferecia uma lista detalhada de preços para extorsão e assassinatos por encomen­
da —“socos” custavam apenas dois dólares, mas “fazer o serviço todo” ia “a partir
de cem dólares”. Os Baxter Street Dudes dirigiam a sua própria casa de jogos no
porão, sarcasticamente chamada de Grand Duke Theater. Jovens e moradores
dos bairros miseráveis (“caçadores de elefantes”) vinham de todas as partes da ci­
dade para desafiar as gangues rivais e assistir a peças encenadas com cenários e
adereços roubados.
Uma grande atração deste mundo é a sua permissividade sexual - um adicio­
nal, sem dúvida, dentro da moralidade puritana americana —, mas isso só funcio­
nava para os homens. O escandaloso romance de Stephen Crane, de 1896, Mag-
gie: The Girl ofthe Streets traçou o inexorável momentum desta transação desigual.
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Florescendo “numa poça de lama”, a sua heroína tem apenas a sua juventude:
“Ela começou a ver o rosado em suas faces como algo valioso.” Repugnada com
a perspectiva de trabalho escravo em lojas que exploravam seus funcionários,
Maggie inicia um relacionamento com um gângster local. Depois que ele obteve
dela tudo o que queria, ela não tem outra coisa a fazer exceto tornar-se membro
dos “grupos pintados da cidade”.
Embora a prostituição fosse uma das principais indústrias das gangues, mu­
lheres jovens e valentes podiam também viver segundo os seus próprios termos.
Fora as inevitáveis cafetinas e gerentes de salão, havia gangues femininas que sur­
giram a partir de clubes como a Lady Locust, a Lady Liberties of the Fourth Ward
e a Lady Truck Drivers’ Association. A Battle Row Ladies’ Social and Athletic
Club era afiliada à Gophers: sob a liderança da feroz Battle Annie, as Lady Go-
phers, como elas eram também conhecidas, tinham provado o seu valor em “fre­
qüentes combates com a polícia”.
Mas praticamente todos os líderes de gangues eram homens: “homens gran­
des” como Paul Kelly, o chefe dos Five Pointers, e seu capanga Biff Ellison, Dan-
dy Johnny Dolan, dos Whyos, e Monk Eastman, tão poderoso que sua gangue
adotou seu sobrenome. Muitos líderes de gangues de sucesso proclamavam a
sua ascendência pela maneira de se vestir: Asbury notou que “o gângster realmente
perigoso, o assassino, estava mais propenso a ser uma espécie de dândi”. Kelly
era “garboso, de fala macia”, enquanto que Ellison “adorava se borrifar de perfume,
de uma marca que mandava fazer especialmente para ele por um boticário sob
juramento de manter segredo”.2
Dentro dos cortiços de Manhattan, esta sociedade subterrânea era uma teatral,
porém mortal, inversão de valores tipicamente americanos. O líder de gangue bem-
sucedido era, para todos os efeitos, a imagem espelhada do adeta universitário
de sucesso, o príncipe do seu próprio domínio. O seu poder estava no fato de
que muitos jovens valentões procuravam imitar tudo o que ele dizia e fazia. No
fim da década de 1890, Eastman tornou-se “um dos cidadãos mais celebrados
do East Side, e inúmeros rapazes começaram a imitá-lo no discurso e nas atitu­
des, e assim existia uma escola Monk Eastman de jovens arruaceiros e briguentos”.
Este heroísmo servia para mascarar as brutais realidades do mundo das gan­
gues. Para cada chefe bem-sucedido, havia milhares de jovens valentões desor­
deiros. Embora o seu capitão pudesse ter sido “um grande homem”, seus segui­
dores eram, literalmente, o oposto. Asbury observou que “com o passar dos anos,
a miséria e o congestionamento da vida nos cortiços cobrou o seu tributo, e re­
gistros policiais e das penitenciárias mostram que os membros de gangue na

2 Ellison também dirigia um salão que atendia homossexuais apelidado de Paresis Hall devido aos efeitos médi­
cos da sífilis.

HOOLICANS E APACHES | 55
época dos Gophers, dos Eastmans e dos Five Pointers tinham em média no má­
ximo l,60m de altura, e pesavam entre 54 e 61 quilos.”
Esses pesos-leves combinavam os efeitos da desnutrição e das más condições
de moradia com o seu pronto apetite pelo álcool e outros estimulantes e o simples
perigo da profissão escolhida. Tendo a violência como motivação principal, eles
estavam mais do que propensos a morrer com uma facada, um tiro ou de tanto
apanhar antes de atingir a maioridade. Na verdade, esta probabilidade estatís­
tica significava que muitos estavam determinados a experimentar o que Luc Sante
chama de “todas as ordens de altas e baixas sensações adultas” durante a sua se­
gunda década de vida. Na faixa dos vinte anos, estavam mortos, na prisão ou
exauridos.
Riis captou esta intensidade na sua fotografia de 1890. Seus temas não eram
estáticos mas captados num breve intervalo entre uma “batida policial” e outra.
A sua valentia era sustentada pela sua depravação aleatória. O reformador teve o
cuidado de observar, “para que o leitor não se iludisse achando que eles fossem
jovens inofensivos”, que não se passou mais de meia hora do seu encontro e três
membros do Montgomery Guards tinham sido presos por assalto violento a um
camelô judeu idoso. Eles haviam tentado decapitá-lo com uma serra, “só para se
divertirem. O judeu apareceu e a serra estava ali, então nós o atacamos”.
Vindos de distritos como Poverty Row, um quarteirão de cortiços na West
28^ Street, jovens como os Montgomery Guards tinham poucas chances de so­
breviver a não ser organizando-se em bandos, e, uma vez unidos, reproduzir a
ética de “poder é lei”, que era a realidade social deles. Eles viam na abordagem
do homem de meia-idade uma forma de reforçar a sua identidade grupai como
fonte de orgulho e não de vergonha. Esperavam que, ao contrário da brutalidade
da foto policial, que seria o seu único outro encontro com uma câmera, a fotogra­
fia de Rii convenceria o mundo de que eles eram grandes homens e não pequenos
rufiões homicidas.
Suas bravatas cruéis, entretanto, reforçavam a urgência da polêmica lançada
pelos reformadores. Em 1893, o historiador FrederickJacksonTurner argumentou
num discurso influente com o título “A importância da fronteira na história ame­
ricana” que os espaços selvagens do continente tinham sido finalmente domesti­
cados. A migração para o oeste em busca de terras e desenvolvimento que havia
alimentado grande parte da prosperidade do continente durante o século XIX ti­
nha chegado ao limite. Quase não havia mais terras livres e, depois do fracasso
da rebelião “Dança do Fantasma” dos Sioux, no inverno de 1890, não havia qua­
se mais nenhum índio americano fora de suas reservas.
O espírito da fronteira selvagem tinha encontrado o seu novo lar nos desertos
metropolitanos e, sem uma válvula de escape socialmente aproveitável, tornara-
se maligno. Era como se, depois de finalmente perderem o continente que fora

56 | 1875-1904
deles por milhares e milhares de anos, os índios tivessem entrado nas almas das
selvagens crianças de rua. “A Growler Gang in Session” revelou a incômoda ver­
dade:, o continente tinha um novo conjunto de nativos que precisavam ser domes­
ticados. Os jovens gângsteres estavam saindo das sombras: milhares e milhares
de Jesse Pomeroys piscando na luz a que não estavam acostumados.

* * *

Na virada do século, a delinqüência juvenil havia chamado a atenção do mundo


inteiro como um grave problema social. Em Juvenile Offenders, publicado em
1898, o criminologista W. Douglas Morrison observou que “quer olhemos para
casa ou para o exterior, quer consultemos as estatísticas criminais do Velho Mundo
ou do Novo, invariavelmente encontramos a criminalidade juvenil exibindo uma
forte tendência a aumentar. É um problema que não se limita a uma única co­
munidade: ele está confrontando toda a família de nações; ele está surgindo de
condições que são comuns à civilização”.
Na Grã-Bretanha, o crime juvenil tornou-se uma questão nacional quando
as crianças da classe operária urbana forçaram passagem para a conscientização
pública. Como uma notícia de jornal em 1898 dizia: “Quem lê os jornais de
Londres, Liverpool, Birmingham, Manchester e Leeds sabe que o jovem rufião
e vagabundo de rua, com seu cinto pesado, sua faca traiçoeira e sua perigosa pis­
tola está entre nós. A dúvida de todo homem que se preocupa com a segurança
das ruas quando anoitece, que elas sejam decentes quando já está escuro, e não
desgraçadas por gritos obscenos e atos brutais, é saber o que deve ser feito com
este novo desenvolvimento do menino da cidade e cidadão dos bairros pobres?”
Entretanto, este ainda não era o resultado da indisciplina no estilo americano,
mas um subproduto da longa, lenta e parcial marcha da prosperidade imperial. Em­
bora um terço da população vivesse abaixo da linha de pobreza, para as classes ope­
rárias mais altas as coisas estavam melhorando - com moradias e dietas melhores,
mais instalações dedicadas ao lazer (futebol, estâncias para passar as férias, o music
hall) e o aumento da produção de artigos de consumo para o novo mercado de
massa. A crescente visibilidade e a maior liberdade da juventude urbana desafiavam
uma burguesia ansiosa e determinada a ver prevalecer a sua visão de sociedade.
O jovem urbano rebelde tinha sido um problema desde os meados do século
XIX. Depois do pânico do início dos anos de 1860, a imprensa relatou com re­
gularidade a ocorrência de assaltos, carnavais nos feriados bancários e brigas de
gangues durante as décadas de 1870 e 1880. Essas “explosões de arruaças”, como
o crítico Matthew Arnold as chamou, “tendem a se tornar cada vez menos insig­
nificantes, para ser mais freqüentes em vez de menos freqüentes”, ameaçando “a
profunda ordem da ordem estabelecida e da segurança”. A reforma havia acom­

HOOLICANS E APACHES | 57
panhado o ritmo desta curva, com a instituição, na década de 1850, de reforma-
tórios separados e escolas industriais para criminosos com menos de 16 anos.
A educação era o que mais preocupava os adultos durante os anos de 1870
e 1880, no que se referia à juventude. Para muitas crianças, as novas escolas esta­
duais, a insistência no ensino religioso, as atividades esportivas compulsórias e os
castigos corporais transformaram a frequência num campo de batalha. O Ato Edu­
cacional de 1880 foi muito impopular porque mantinha as crianças na escola até
a idade de 11 anos: a principal carga financeira agora recairia sobre os jovens com
mais idade, que eram muitas vezes o principal, se não o único, meio de sustento.
A frequência sob a nova lei começou bem: cerca de 60% durante a década
de 1880. Entretanto, na década seguinte a vadiagem foi o segundo delito mais
comum cometido pelos jovens, quando a sobrevivência da família era mais impor­
tante do que a educação. A profusão de empregos não especializados para os gru­
pos de 14 a 18 anos de idade afirmava a sua importância econômica: porteiros,
garotos de recado, vendedores de rua. Até um certo ponto, isto dava independên­
cia e dinheiro no bolso, e ao mesmo tempo novos produtos de consumo tinham
como alvo os jovens assalariados: roupas, diversões, revistas e histórias em qua­
drinhos.
A frequência compulsória às escolas resultou numa crescente reserva de crian­
ças alfabetizadas, aumentando consequentemente o mercado de jovens leitores
de todas as classes. Este tinha sido durante muito tempo um campo de batalha
entre “policiais baratos”, com suas histórias de moleques, assassinos, vagabundos
e índios americanos, e produtos mais aperfeiçoados como o Boys Own Paper (1879),
publicado pela Religious Tract Society. Acompanhando o sucesso do irreverente
Ally Slopers HalfHoliday (1884), um novo gênero de histórias em quadrinhos
como Comic Cuts e Chips tinha como alvo tanto alfabetizados quanto “semialfa-
betizados”.
Estes dois semanários tinham como atração piadas, observações sociais, vaga­
bundos diversos e ilustrações de qualidade. Sua circulação combinada chegou a
meio milhão em 1890, estimulando um dilúvio de imitadores. Em 1893, o pri­
meiro exemplar de Larks publicou um artigo de primeira página sobre o Balls Pond
Banditti, cuja logomarca incluía um laço, uma máscara e uma estaca: em seis
etapas, a narrativa seguia “o alistamento de recrutas”, “o juramento de fidelidade”
e “o conselho de guerra”. Esta gangue de adolescentes metidos a valentões, des­
bocados, refletia e invertia a sociedade militarista: a guerra não era contra um
poder estrangeiro, mas contra a autoridade dos adultos.
Esses relatos, embora chocantes para muitos pais, encontraram um mercado
pronto porque refletiam a atividade preferida de seus leitores adolescentes: sair
para as ruas, formar gangues e incomodar os adultos. O que para seus participan­
tes era “farrear”, a experiência de grupo que às vezes - por tédio, desespero ou

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mutuo incentivo —descambava para o vandalismo mesquinho e coisa pior, era
para muitos adultos burgueses o colapso dos “sólidos hábitos feudais de subor­
dinação e deferência”. Seus filhos pensavam diferente.
Surgia um novo tipo de gangue dos bairros mais pobres das cidades. Num
notorio incidente em 1890, os Scuttlers de Manchester sustentaram uma luta
livre em que estiveram envolvidos quinhentos jovens. O termo veio originalmente
de Lancashire, onde “scuttling designava as lutas territoriais travadas por gangues
vizinhas. Durante a década de 1890, ele passou a denotar um novo estilo jovem
nacional, com suas roupas características e terminologia horripilante, que saiu
de Manchester (o Forty Row, o Bengal Tiger) para Birmingham (o Peaky Blin-
ders), Liverpool (o High Rip) e o leste de Londres (o Monkeys Parade e o Bow-
ry Boys).
Segundo relatórios da época, o “Scut-
tler profissional” usava “boné de pugilista”,
calças “de boca larga”, sapatões com pon­
teira de metal e bico fino, cintos pesados
e personalizados com desenhos, ressaltados
com pinos de metal, que incluíam serpen­
tes, estrelas e corações perfurados. O “espe­
cialista em meninos”, Charles Russel, ob­
servou que a variante de Manchester usava
“um cachecol branco frouxo”, os cabelos
“bem gomalinados caídos sobre a testa”,
um “boné pontudo um pouco tombado
sobre o olho” e calças “cortadas - como
as de um marinheiro —com ‘bocas de si­
no’”. A namorada dele “em geral usava
sapatões, um xale e uma saia com listas
verticais”.
Observadores como Russel talvez te­
nham tentado inserir o Scuttler na tradi­
ção do bom humor jovial, mas os relató­
rios da imprensa na época contam uma
"AOS 17 ANOS, UM PERFEITO HOOLIGAN", história mais sombria. Em 1892, houve
DO JORNAL DAILY GRAPHIC um caso de assassinato sensacional em
Manchester tendo como protagonistas três
adolescentes da gangue Lime Street que “apagaram” um membro da gangue
rival com uma facada nas costas. O assassino, William Willan, foi retirado do
tribunal descalço, gritando: “Oh, senhor, não, tenha piedade de mim, só tenho
16 anos, estou morrendo.” A violência era também racialmente direcionada:

HOOLIGANS E APACHES | 59
num famoso caso de 1897, um imigrante armênio foi assassinado por uma
gangue do sul de Londres.
Em agosto de 1898, estes distúrbios explodiram num escândalo nacional. Era
um verão atipicamente quente, como o Times publicou no seu editorial: Sera que
o forte calor incendeia o sangue do desordeiro de Londres ou árabe das ruas as­
sim como o clima sulino faz com o italiano ou o provençal de sangue quente?”
As celebrações do feriado bancário de agosto resultaram numa onda de prisões
na capital por ofensas públicas: embriaguez, brigas, roubos nas ruas e agressões
contra a polícia. Achando seus epítetos tradicionais inadequados, a imprensa
inventou um novo nome: o hooligan?
Com sua pejorativa associação irlandesa, este termo oferecia uma forma
simplificada de definir um urgente social. Todos os distúrbios provocados por
gangues naquele verão foram marcados pela nova expressão, fossem os Lion
Boys e a Pistol Gang de Clerkenwell, os Drury Lane Boys, ou os Fulham Boys.
Os próprios participantes prontamente adotaram a opinião da imprensa a respeito
de suas atividades. Em um incidente muito comentado, membros do Somers Town
Boys derrubaram um carrinho de sorvete de um vendedor italiano e agrediram a
polícia. Na fuga, correndo, eles gritavam: “Cuidado com a gangue dos Hooligans.”
Pela primeira vez os jornais ingleses fizeram uma associação explícita entre a
maneira de se vestir e delinqüência. O Daily Graphic descreveu em detalhes um
réu com cabelos no estilo moicano no verão de 1898: “Seus cabelos estavam
cortados quase até o couro cabeludo, com exceção de uma pequena tira no co­
curuto da cabeça, puxada para baixo sobre a testa para formar uma franja.”
Pouco depois, o mesmo jornal dissecou o uniforme dos Hooligans: “Todos eles
têm um cachecol peculiar enrolado no pescoço, um boné colocado jocosamente
para frente, bem caído sobre os olhos, e calças muito justas nos joelhos e muito
folgadas na altura dos pés.”
No seu romance de 1899, The Hooligans Nights, Clarence Rook definiu o
seu herói, Alf, de 17 anos, como “preparado para o conflito” pela maneira como
se vestia. Neste novo tipo, o requinte do dândi coexistia com a violência. “Enrola­
do no pescoço ele usava o lenço azul, salpicado de branco, que na minha memó­
ria sempre o traduzirá; por baixo dele uma camiseta leve.” O “forte cinto de

3 A origem exata do termo é um mistério. Escrevendo em 1899, Clarence Rook isolou um indivíduo, Patrick
Hooligan, como sendo o “Buda” ou “Maomé” deste “culto” e fez um breve esboço biográfico de um fanfarrão de
Lambeth que matou um policial e em seguida morreu na prisão: “Pouca coisa há de notável em sua carreira. Mas
o homem deve ter tido uma personalidade vigorosa, pitoresca, um fascínio, que fez dele um tipo... de qualquer
modo, embora a sua individualidade possa ser obscurecida pela lenda, ele viveu, morreu e deixou atrás de si uma
grande tradição.” Parece justo considerar isto mais como uma mitificação do que uma autobiografia. Pesquisando
a origem do termo, GeofFrey Pearson cita várias possibilidades: uma corruptela do americano hoodlum (arruacei­
ro); dois irmãos chamados Hoolehan que eram pugilistas profissionais; uma adaptação do nome de um vigarista
- Mr. Edward Hooley - que freqüentava as manchetes dos jornais na época.

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couro” do Scutder não era a sua única arma: “Colocando a mão no bolso interno
do paletó, e olhando cautelosamente ao redor, sacava um cutelo de manejo apa­
rentemente fácil que sustentava na mão por um momento, como se tranqüili­
zando a si mesmo quanto ao seu contrapeso.”
Rook descreveu um novo tipo urbano que não combinava com o bruto
rufião da imaginação popular. Alf “tem l,70m de altura. É leve, ativo e muscu­
loso. Seu rosto não é nada brutal; é inteligente e torna evidente uma natureza
muito sensível. Os olhos são o seu traço mais notável. Eles parecem olhar tudo
em volta da sua cabeça, como os olhos de um pássaro; quando está zangado,
cintilam com uma fiiria quase demoníaca”. Lidando “desde a infância com reali­
dades”, Alf era um rapaz teimoso, dissimulado, camaleônico, perfeitamente adap­
tado às exigências da vida metropolitana contemporânea.
Publicada meses depois do pânico de 1898, a descrição de Rook deste jovem
do sul de Londres “fiel às tradições Hooligan” era extraordinariamente equilibrada.
O seu propósito era oferecer “uma fotografia do rapaz que anda de um lado para
outro no mesmo ambiente que você, pronto para enfiar a mão no seu bolso,
saquear a sua casa e até espancá-lo num canto escuro se achar que vale a pena”.
Para aqueles que se queixavam de que ele estava apresentando o crime “em cores
fascinantes”, ele ofereceu a defesa de reportagem: “Não recomendo os modos do
meu jovem amigo, nem mesmo os desculpo. Simplesmente eu o coloco na frente
dos senhores como um fato com o qual é preciso lidar.”
Do ponto de vista deles, os Hooligans e os Scuttlers estavam tentando ser
donos do seu próprio destino. Unir-se em bandos e envolver-se em disputas terri­
toriais era um modo de se afirmar, de ver um pouquinho de excitação e trans­
cender um estilo de vida sem saída. Entretanto, nem todos os adultos eram tão
compreensivos como o amanuense de Alf. Demonizados pela imprensa, os Scut-
ders e os Hooligans receberam o merecido castigo no futuro. Uma vez apanhados,
eles apareciam, conforme notou um observador, “aos bandos nos tribunais, muitas
vezes para receber selvagens sentenças”.
O Hooligan brilhou na imprensa no fim da década de 1890 como uma
ameaça para a sociedade, mas este era um tipo que refletia os valores de seus go­
vernantes através de um prisma fracamente distorcido. O jovem herói de Clarence
Rook espancava a sua namorada e pensava que os estrangeiros eram “uma classe
de gente” a ser “desprezada”. Num eco direto da exortação à escola pública de
Henry Newbolt, Alf também achava que o policial, embora pudesse ser o inimi­
go natural, “faz o jogo, e tem o direito de ser tratado de acordo”. Como ele con­
cluiu: “Você não deve matá-lo, desde que ele faça o jogo, e o jogo não tem vidas
para apostar.”
Entretanto, o escândalo do Hooligan conferiu uma urgência extra aos pedidos
de reforma da política britânica para a juventude delinqüente. A doutrina salva-
HOOLIGANS E APACHES | 61
cionista do general Booth, que sugeria o embarque em massa dos bairros pobres
para as colônias, não era uma opção viável. No fim do século, este era um pro­
blema tão urgente, que até o fictício Alf foi investigado para saber a sua opinião
de especialista. Ele aconselhou caçar “o jovem criminoso”: “Tirá-lo do seu ambien­
te e ensinar-lhe uma profissão. Fazer dele um marinheiro, um soldado, ensinar-
lhe as artes da carpintaria, da colocação de tijolos, qualquer coisa que lhe der
um emprego e um salário regulares.”
***
Dois anos depois do verão dos Hooligans, outro tipo de jovem vilão muito visí­
vel tomou conta do cenário nacional. Em dezembro de 1900, um jornalista cha­
mado Henry Fourquier anunciou sarcasticamente no Le Matin que Paris tinha
a sorte de ter uma tribo de apaches que, pelo visto, trocara as Montanhas Rochosas
pelo distrito particularmente insalubre da capital. Ele os definiu como jovens se-
minômades, sem qualquer influência paterna óbvia, que estavam ajudando a
formar o que a polícia chamava de um exército de criminosos.
Os Apaches apareceram pela primeira vez na imprensa durante o verão como
a mais recente de várias gangues de áreas pobres com nomes chamativos como Les
Coeurs d’Acier, Les Aristos e Les Riffaudes. A origem do nome era obscura, mas,
segundo o historiador criminalista Claude Dubois, era o produto inevitável de
um fascínio francês pelos índios e pela cultura americanos que tivera início com
o romance de James Fenimore Cooper, de 1826, The Last of the Mohicans. Na
década de 1860, o termo peaux rouges era usado para descrever os jovens habi­
tantes mais visíveis do submundo parisiense.
Era possível que o termo “Apache” fosse um jogo de palavras com Paris, a sua
cidade de origem, mas foram as suas roupas extravagantes que deram destaque
aos Apaches. Elas consistiam de um paletó preto com uma camisa colorida por
baixo, às vezes usada com um cachecol foulard. O elemento mais surpreendente
dos seus trajes eram as calças “dor de estômago”. Eram calças de feltro de confecção
grosseira com relógios de bolso grandes o suficiente para os valentões amontoá-
los, como se todos tivessem graves doenças estomacais. Todo o conjunto era com­
pletado com uma boina, tatuagens e um sarcástico ar de superioridade burguesa.
Até o inverno de 1901, os Apaches foram um fenômeno local. Mas o sensacio­
nal julgamento de Joseph Pleigneur, também conhecido por Manda, pelo esfa-
queamento de Dominique Leca ajudou a divulgar o tipo para um público mais
amplo. Não era uma história edificante: Manda e Leca eram ambos cafetoes pa­
risienses, e a briga foi por causa de uma jovem prostituta, Amelie Helie, também
conhecida como Casque d’Or, que tinha sido namorada e empregada dos dois
homens. A imprensa parisiense gastou uma dinheirama com o assunto, e mesmo
62 | 1875-1904
que os Apaches nao tenham participado diretamente, eles foram envolvidos neste
escândalo do submundo.
Durante os primeiros meses de 1902, esses selvagens das áreas pobres da
cidade quase não saíam do LeMatin e do LeJournal, diários com uma circulação
de mais de um milhão de exemplares. O termo “Apache de Paris” passou a servir
para todas as maldades dos jovens. Paródias dos Apaches surgiram nos clubes de
Montmartre, falando no jargão dos índios: “Casque à Manda casqua; plaqua
Leca, Tapache.” Quando o julgamento de Manda começou no fim de maio, o
caso tinha se tornado um tamanho circo que Amelie Helie explodiu no tribunal:
“Les Apaches! Les Mohicans! Casque d’Or! Tout ça cest des invention des jour-
nalistes. Entre nous, on s’appelle des copains!”4
Como os Hooligans, os Apaches eram essencialmente uma criação da mídia,
que ampliava as atividades de um pequeno segmento da juventude francesa num
clima generalizado de medo. Entretanto, o furor teve um resultado inesperado.
Embora ambos, Manda e Leca, fossem despachados para as colônias penais fran­
cesas na Guiana —para nunca mais voltarem —, o estilo com o qual tinham sido
associados começou a se espalhar das áreas pobres para os subúrbios, dos pobres
urbanos privados de direitos civis ou privilégios para o jovem operário descontente.
O que a imprensa tinha visto como um escândalo picante, os jovens desconten­
tes viram como uma convocação.
Na sua vivida reconstrução, Michelle Perrot descreve o Apache como “um
rapaz, com 18 ou vinte anos, que vive na cidade com um grupo. Ele é um jovem
operário das periferias urbanas, principalmente parisienses; a sua gangue ou grupo
recebe o nome do seu bairro, e ele está em conflito com a sua família. Ele rejeita
o trabalho assalariado e a situação proletária de seus pais, assim como a ideia de
ser um “derrotado”. Fábricas e pobreza são o seu pesadelo; ele tem desejos insa­
tisfeitos de consumo. Ele gosta de vagar, passear pelos grandes bulevares; um
forasteiro, vindo dos subúrbios, ele quer estar no coração da cidade.
Ele se veste bem com um cachecol de seda e boné, e, o mais importante, está bem
calçado. Uma elegância afetada faz com que seja rotulado de efeminado pelos ope­
rários dos arredores da cidade. Está sempre pronto para saltar para dentro de um
automóvel, sendo um carro a sua suprema ambição. O apache sonha com passeios,
amigos e amor. Ele gosta de dançar e de garotas. Nas gangues apaches, o status das
mulheres é ambíguo, ao mesmo tempo livres - trocam de homem à vontade se não
estiverem satisfeitas - e submissas. Os homens brigam pelas mulheres, as mulheres
se vendem para os homens - que agem em parte como cafetões.

4 “Apaches! Moicanos! Cabeças de Ouro! Tudo isso é invenção dos jornalistas. Nós nos chamamos de compa­
nheiros.”

HOOLICANS E APACHES | 63
O dinheiro conta, mas não apenas o dinheiro. A atração tem um papel impor­
tante na formação dos casais. O apache é sentimental, um dândi que entende do
assunto, tem uma noção de dignidade e um gosto pela distinção. Ele não se con­
forma com nada. Ele quer ver o seu nome nos jornais. Um anarquista por instinto,
ele considera o roubo a justa restituição e pratica a “recuperação individual” com
os burgueses, ou “tolos”, que caem nas suas mãos. Passar uns tempos na prisão de
Fresnes, a grande penitenciária parisiense inaugurada em 1898, é praticamente
um rito de iniciação.
Como o escândalo dos Hooligans, a chegada do apache foi usada pelos de­
fensores da lei e da ordem para se oporem ao que chamaram de “crise na puni­
ção”. Personificando uma assustadora ascensão da delinqüência juvenil, só se
podia lidar com estes voyotts com o chicote ou outras formas de castigo corporal.
Eles foram até invocados quando se quis impedir a abolição da pena de morte
na França. Durante a década depois do caso Casque d’Or, os Apaches tornaram-
se menos associados com um tipo particular, mas o termo se generalizou - como
o Hooligan do outro lado do canal - para denotar qualquer tipo de rufião ou
pequeno criminoso.
Embora destinada a chamar a atenção para um problema social e, portanto,
tornar possíveis as soluções, a publicidade em torno do crime juvenil na Grã-
Bretanha, na América e na Europa na última década do século XIX teve um efei­
to ambíguo. Do ponto de vista dos repórteres, a delinqüência era um novo fe­
nômeno perturbador que trazia a selvageria, se não a guerra de verdade, bem
para o coração da comunidade. Dependendo do lado da cerca em que você se
encontrasse, a solução era a melhoria das condições das áreas pobres da cidade,
um rápido despacho para o exército ou, melhor ainda, para os mais sombrios
confins coloniais.

64 | 1875-1904
CAPÍTULO 4

“Uma súbita visão do Paraíso”


L. Frank Baum e a Terra dos Sonhos de Oz

Um pensamento durante o dia pode muito bem fazer o papel


do entrepreneur de um sonho; mas o entrepreneur, que, como dizem
as pessoas, tem a ideia e a iniciativa de realizá-lo, nada pode fazer
sem capital; ele precisa de um capitalista capaz de arcar com a despesa,
e o capitalista que provê os gastos físicos para o sonho é invariável
e inegavelmente, sejam quais forem os pensamentos
do dia anterior, um desejo do inconsciente.
- Sigm und Freud, A interpretação dos sonhos (1900)

A N N A LAUGHLIN C O M O DOROTHY N O MUSICAL


FANTÁSTICO 0 M ÁG ICO DE OZ, 1902
N O VERÃO DE 1893, Helen Keller visitou a Worlds Columbian Exposition, a
enorme feira montada nos arredores de Chicago para comemorar o quarto cente­
nário da descoberta da América. Ela se lembrou “com autêntico prazer daqueles
dias quando milhares de fantasias infantis tornaram-se belas realidades. Todos
os dias na minha imaginação eu fazia uma viagem ao redor do mundo, e via
muitas maravilhas das partes mais distantes da terra —maravilhas da invenção,
tesouros da indústria e da habilidade e todas as atividades da vida humana”.
Na América da Era de Ouro, a juventude estava inextricavelmente entrelaçada
com a fantasia, a ilusão e os devaneios comercializados. Helen Keller personificava
esta conexão num grau mais intenso: sem audição, voz e visão, ela estava trancada
dentro dos seus sentidos e forçada a confiar, consideravelmente, na sua imagina­
ção. Na década de 1890, graças à sua corajosa superação dessas adversidades, ela
havia se tornado uma das jovens mais conhecidas da América: foi recebida em
audiência pelo presidente e ajudou o amigo, dr. Alexander Graham Bell, inventor
do telefone.
Esta visita à exposição foi um ponto alto em sua vida. Assimilando as ‘glórias
da feira através das pontas dos seus dedos”, Helen Keller ficou extasiada: “Era
uma espécie de caleidoscópio tangível, esta cidade branca do oeste. Tudo me fas­
cinava, especialmente os bronzes franceses. Eram tão reais que pensei que fossem
visões de anjos que o artista captara e aprisionara em formas terrenas.” Seu en­
tusiasmo foi ecoado por outros jovens visitantes, que ficaram fascinados com as
exibições e as concessões para venda de suvenires, pipocas, hambúrgueres e refri­
gerantes. Para eles “foi como ter uma súbita visão do paraíso”.
Com 50 mil expositores de cinqüenta países, o tamanho e a abrangência da
Exposição de Chicago não tinham precedentes. Entre o início de maio e o fim
de outubro de 1893, o local foi visitado por um quarto da população total dos
Estados Unidos na época. Como nenhum outro evento fizera antes, ele oferecia
um retrato instantâneo e completo de um continente no seu momento de auto-
definição. Este foi, acima de tudo, o lançamento internacional da América, da
sua indústria, da sua cultura e da sua percepção como um estilo de vida para a
rival Europa. Foi, segundo o viajante e diarista Henry Adams, “a primeira expres­
são do pensamento americano como uma unidade”.
Com sua reluzente arquitetura branca estilo Belas Artes e imponente escala,
o local com 2,56km2 no Jackson Park era uma ilusão encenada que tinha o po­
der de transformar a realidade pela simples força de vontade. Para alguns europeus,
parecia uma alucinação: um visitante alemão observou que tinha medo de fechar
os olhos porque tudo “desapareceria como num sonho”. A maioria dos ameri­
canos tinha esta mesma sensação de assombro. Como lembrou Henry Adams:
“Aqui havia uma quebra de continuidade - uma ruptura na seqüência histórica!
Era real, ou apenas aparente?”
66 | 1875-1904
Depois da Expo 1893, a América seria definida não apenas pela incrível
fertilidade de sua destreza comercial e tecnológica, mas também por sua capacida­
de de criar sonhos tangíveis a partir do nada. Um senso jovial de inocência fazia
parte deste truque de empresário de espetáculos; na verdade, era exatamente
aquele elemento que lhe dava o ingrediente de sinceridade vital. Estava também
afinado com a própria autodefiniçao da América como um país jovem. Dentro
de um continente que seria definido pelo seu apetite pelo prazer, a intensidade
da juventude foi elevada a um princípio nacional.
***
Entre os 27 milhões de visitantes da exposição, estava um caixeiro viajante de
37 anos. Em 1893, L. Frank Baum já havia passado por várias carreiras como
dramaturgo, dono de loja e editor de jornal. Dois anos antes ele se mudara com
a mulher e quatro filhos, da agreste Dakota do Sul para Chicago. Quando inau­
guraram a Cidade Branca, Baum visitou o lugar várias vezes. Com sua enorme
admiração pelo fantástico e o infantil, ficou fascinado com a cidade murada
onde “todos pareciam felizes, contentes e prósperos”.
Ao mesmo tempo, um jovem ilustrador chamado W. W. Denslow estava
ocupado capturando as maravilhas da exposição: “É literalmente assombrosa a
imensidade da coisa”, ele escreveu no seu diário. Segundo Michael Hearn,
“Denslow passou quase todos os dias da exposição na Cidade Branca, desenhando
cenas e personagens para o Chicago Herald”. Denslow também ficou fascinado
com a natureza artificial, eclética e transitória dos prédios aparentemente monu­
mentais do local. “A primeira coisa em que pensei, sabendo que o seu uso seria
apenas de seis meses, foi na magnífica ruína que eles se tornariam quando tudo
estivesse terminado.”
Ambos arquivaram essas impressões para utilização futura. Com o seu inte­
resse pelo credo holístico teosófico, Baum tinha bastante consciência “do anseio
inato de nossas naturezas de desvendar o misterioso; buscar alguma explicação,
embora fictícia, para o inexplicável na natureza e na nossa existência diária”. No
fim da década, ele descobriu uma nova vocação como autor: depois da publicação
de Mother Goose in Prose, em 1897, resolveu escrever um novo tipo de conto para
crianças que tentaria também captar a América num momento crucial de sua
história.
Em novembro de 1899, a equipe por trás do livro infantil de maior sucesso
do ano, Father Goose, apresentou o seu novo projeto ao editor George M. Hill.
The Emerald City seria ilustrada por Denslow e escrita por Baum. Publicado em
agosto como The Wonderful Wizard ofOz , o livro continha 24 pranchas coloridas
e mais de uma centena de ilustrações dentro de uma capa atraente verde e verme­
“UMA SÚBITA VISÃO DO PARAÍSO” 67
lha. A primeira tiragem foi vendida em duas semanas e se tornou o best-seller
infantil para o Natal de 1900.
Oz estava destinado a romper com a tradição. Baum escreveu na sua introdu­
ção: “A educação moderna inclui moral; portanto, a criança moderna busca ape­
nas o entretenimento nos seus contos de fadas e dispensa muito satisfeita qualquer
incidente desagradável. Com esta ideia em mente, a história do Mágico de Oz
foi escrita apenas para o prazer das crianças de hoje. Ela pretende ser um conto
de fadas moderno, no qual a alegria e o espanto são mantidos, e os pesadelos e
tristezas ficam de fora.” Este era um conto americano, cheio de “aventuras exci­
tantes”, “dificuldades inesperadas” e “fugas maravilhosas”.
No seu objetivo de superar “o conto de fadas antiquado”, Baum iniciou e en­
cerrou sua história dentro de uma América reconhecível do fim do século XIX:
“os grandes campos cinzentos” do Kansas nas garras da depressão agrocultural.
No início do livro, Dorothy é uma órfã que mora com a tia e o tio; seu cachorro
Totó é a única luz em sua vida. Apanhada por um ciclone, ela “de repente é ar­
rancada do seu próprio país e colocada no meio de uma terra estranha”. Oz é fan­
tástica, saturada de cores, cheia de gente pequenina, animais antropomórficos e
bruxas todo-poderosas: a trama gira em torno de atos de magia e transformação.
Essa terra imaginária, entretanto, estava enraizada na atualidade americana.
Assim como os campos cinzas do Kansas foram tirados da dura vida de Baum em
Dakota do Sul, a Cidade de Esmeralda, que deu ao livro o seu primeiro título,
foi inspirada pela então atual Cidade Branca da Expo 1893. Denslow tinha
ficado muito impressionado com sua arquitetura fantástica, e as edições originais
de Oz continham uma ilustração de abertura de capítulo trazendo minaretes e
cúpulas revestidos de esmeraldas, com a única entrada na forma de um rosto de
olhos de esmeralda, assim como uma vista a distância da silhueta da cidade com
torres e cúpulas.
Esta conexão era reforçada pela descrição que Baum fazia da cidade com
seus guardas, lojas movimentadas vendendo “doces verdes e pipocas verdes” e o
conforto tecnologicamente projetado. Aqui a ilusão virava percepção: como o
Mágico finalmente reconheceu: “Só para me divertir, e manter o povo ocupado,
mandei que construíssem esta cidade e o meu palácio; eles fizeram tudo isso de
boa vontade e bem. Em seguida eu pensei, como o país era tão verde e belo, eu
o chamaria de Cidade de Esmeralda e, para o nome ser mais adequado, coloquei
óculos verdes em todas as pessoas, para que tudo que vissem fosse verde.”
Fascinando de imediato as crianças, O mdgico de Oz também agradou aos
adultos como uma obra de profundidade psicológica. Publicada meses depois de
A interpretação dos sonhos, de Sigmund Freud, a narrativa de Baum era sustentada
por poderosas evocações de voos e quedas: um estado de sonho arquetípico no
qual, segundo Freud, “os sentimentos agradáveis associados a estas experiências
68 1875-1904
transformavam-se em ansiedade”. Apesar da declarada intenção de Baum de
deixar de fora os pesadelos rançosos dos contos folclóricos europeus, Oz estava
cheio de trapaças, mutilações e um medo difuso.
Freud acreditava que os sonhos eram o produto do conflito entre as forças
inconscientes - impulsos primitivos de natureza sexual ou destrutiva —e os con­
troles conscientes exigidos pela civilização. “Visto que nosso pensamento durante
o dia produz rejeições psíquicas de vários tipos —julgamentos, inferências, rejei­
ções, expectativas, intenções e outras coisas mais —, por que durante a noite ele
deveria ser obrigado a se restringir à produção de desejos apenas? Não existem,
pelo contrário, inúmeros sonhos que nos mostram atos psíquicos de outros tipos
—preocupações, por exemplo —transformados em sonho?”
Os sonhos eram, portanto, não apenas fantasias aleatórias, mas pistas psíqui­
cas para o que estava reprimido pela civilização moderna. “O que antes dominava
a vida em vigília, enquanto a mente ainda era jovem e incompetente, parece
agora ter sido banido para a noite - assim como as armas primitivas, os arcos e as
flechas, que foram abandonadas pelos homens adultos, aparecem mais uma vez
no quarto das crianças.” A palavra-chave, entretanto, era “parece”. A simples inci­
dência das várias patologias discutidas por Freud revelava que este atavismo esta­
va longe de ser extirpado: na verdade, ela ameaçava explodir a qualquer momento.
“O inconsciente é a verdadeira realidade psíquica”, Freud escreveu em 1900.
A sua conclusão teria muitas aplicações diferentes. Tanto o O mágico de Oz como
A interpretação dos sonhos foram publicados no momento em que a vida comercial
americana buscava ativamente dar forma física, na verdade transformando-os
em mercadoria, a impulsos e visões inconscientes. Isto serviria à nova ordem so­
cial e econômica de emulação materialista que o sociólogo de Chicago, Thorstein
Veblen, no seu polêmico The Theory ofthe Leisure Class, de 1899, chamou de
“consumo conspícuo”.
* * *

Durante o fim do século XIX, o apetite público pela palavra impressa aumentou
rapidamente, fosse por livros, revistas, jornais ou anúncios. As imagens pictóri­
cas ou verbais tornaram-se parte integrante da nova paisagem urbana e peça vital
para a nova psicologia de massa. Como Gustave Le Bon alertara: “A multidão
pensa em imagens, e a própria imagem imediatamente evoca uma série de outras
imagens, sem nenhuma conexão lógica com a primeira. Podemos facilmente con­
ceber este estado pensando na fantástica sucessão de ideias a que somos às vezes
conduzidos pela evocação em nossas mentes de um fato qualquer.”
A imagem tinha sido aquilo mesmo que os ensinamentos puritanos haviam
denunciado e a sua produção em massa marcou o declínio da religião fundadora
“UMA SÚBITA VISÃO DO PARAÍSO" | 69
da América e a sua substituição por um novo panteão secular. Os anos de 1890
assistiram a uma profunda mudança de valores, resumida por T. J. Jackson Lears
e Richard Wightman Fox como “a troca da salvação protestante no outro mundo
pela autopercepção terapêutica neste aqui”. Dentro desta nova moralidade, os
velhos ideais de abnegação e transcendência forám substituídos por “novos ideais
de autorrealização e gratificação imediata”.
As antigas certezas não bastavam mais. No impulso para o materialismo, as
experiências e desejos dos migrantes internos do país, fugindo da sombria depres­
são de uma economia rural em colapso, e seus imigrantes de segunda geração,
libertados do mundo estático europeu de seus pais, foram de importância vital.
A Cidade Branca de 1893 afirmava que o gênio americano estava no senso tea­
tral, no espetáculo, na acumulação e na instantânea satisfação do prazer: um novo
tipo de visão imaginativa elevada a um princípio nacional que uniria numa
coisa só todas essas pessoas diferentes.
Satisfazendo tanto o credo econômico quanto uma necessidade desesperada,
os sonhos acabaram definindo a América. As visões viraram dinheiro, ganhando
forma tangível em parques temáticos, cinetoscópios, tabloides, livros de sucesso,
partituras e a cornucópia de bens de consumo encontrados em lojas de departa­
mentos ou catálogos distribuídos pelo correio. Todos estes novos produtos ofere­
ciam um passo imediato para fora das exigências da realidade cotidiana, um
consolo para as liberdades perdidas e uma celebração do estilo de vida metropo­
litano. A salvação seria encontrada pelo consumo: você se tornava o que com­
prava. Você comprava os seus sonhos.
Graças ao grande empresário de espetáculos teatrais/embusteiro P. T. Barnum,
tornar um produto irresistível já estava estabelecido como um talento particular­
mente americano. Na virada do século, entretanto, os anunciantes começaram a
trabalhar com novas tecnologias nos filmes e na imprensa, e com a nova psicolo­
gia, para irem mais adiante - dar forma a desejos conscientes e inconscientes. Sub­
jacente a este etos havia uma atitude na identidade que refletia a experiência de
muitos americanos, separados do passado: essa identidade não era simples e fixa,
mas fluida e socialmente construída - um vir a ser pessoal, assim como nacional.
De uma moralidade vitoriana que valorizava a prudência e a cautela em
épocas de escassez originou-se um etos terapêutico, luxuriante, que exaltava a
nova fartura de objetos. Os americanos já consumiam enormes quantidades de
remédios patenteados, que se proclamavam como tônicos para todos os males
debaixo do sol: “Todos os distúrbios nervosos, queixas biliosas, perda de apetite
e debilidade em geral.” O óleo de cobra e a sabedoria dos índios americanos fo­
ram apenas a versão rústica de anúncios mais populares, que desde a década de
1890 promoviam seus produtos em termos de “força e energia” para um país
obcecado com saúde e vitalidade.
70 | 1875-1904
Baseada na riqueza futura, e não na escassez, este novo vitalismo prometia
nova energia em fluida identidade, com o desenvolvimento pessoal e a autorrea-
lização como seu objetivo máximo, e a intensidade do momento como a sua tô­
nica. Isto combinava com a criaçáo de uma percepção americana autenticamente
nova em ambientes urbanos futuristas, comprimidos, como o Loop, o distrito
comercial de Chicago.1 Enquanto o tempo para os europeus era visto como
uma seqüência de acontecimentos, com o presente seguindo-se ao passado, para
mais e mais americanos o tempo representava uma total instantaneidade, um
infinitamente prolongável AGORA!
Dentro destes vórtices fabricados pelo homem, os jovens, com seus córtices
cerebrais superiores e maior força física, acabariam prevalecendo. Na verdade,
uma grande parte do que o filósofo francês Henri Bergson chamou este élan vital
foi a atração da juventude. Se bom condicionamento físico e saúde eram desejáveis
para a sociedade americana, então a juventude, que naturalmente personifica
estas qualidades, passou a ser o ideal sedutor para todas as idades. Na década de
1900, os anunciantes usavam universitários da classe média alta para promover
roupas da moda e artigos esportivos, no etos de aspiração que Veblen havia tão
bem definido como “emulação pecuniária”.
As mulheres tiveram um papel importante neste novo etos guiado por pressões
internas. Com a demarcação do lar como a “esfera feminina”, a maioria das de­
cisões sobre o consumo ficava nas mãos da “soberana dona” da casa. A expansão
dos empregos em escritórios oferecia liberdades para as mulheres até então in­
concebíveis na Europa. Os anunciantes usavam mulheres jovens e atraentes para
vender cosméticos, roupas e fogões a gás. Numa campanha da Aveia Quaker na
virada do século, o desenho de uma jovem mulher robusta vinha acompanhado
do slogan “Afasta a velhice nutrindo todo o organismo”.
***
Uma parte importante da economia do sonho vitalista americano foi a florescen­
te indústria musical. Depois do sucesso sem precedentes do campeão de vendas
“After the Bali” de Charles K. Harris, em 1892, o mundo de compositores e edi­
tores de músicas populares começou a se expandir rapidamente: em 1900, foram

1Ver a evocação, de 1891, do Loop pelo autor americano Charles King: “Colisões, choques, mergulhos furiosos
por chapéus que vão sumindo sob o tropel de passos; desastres nas ruas, rodas travadas, chicotes estalando,
cavalos arremetendo, policiais retóricos, motoristas blasfemando, gíria, linguagem grosseira, alvoroços, tumulto,
gritos de furar os ouvidos... Clang lang, lang. ‘Quem você está empurrando?’ Clang lang, lang. Bang, bang,
bang. Berros. Gritos. O clamor furioso de alarmes. Corridas, tumulto. Ei! Ei ali! Cuidado! CUIDADO! Bang,
bang. Clang. SAI DA FRENTE! Corre-corre.” Isto parece uma partitura futurista de vinte anos depois.

“UMA SÚBITA VISÃO DO PARAÍSO” | 71


vendidos dois bilhões de cópias de partituras. A canção popular passou a fazer
parte da nova identidade nacional americana. Dentro deste estilo vulgar, a real
competência musical não tinha importância diante da intensa expressão emocional
e a excitação rítmica. Como os próprios anúncios, as canções populares ameri­
canas encaixavam-se na autodefinição do país como uma “democracia pugnaz,
assertiva”.
A própria canção popular, desde o início, foi alvo de agressiva publicidade.
Charles K. Harris pagou pessoalmente para ter “After the Bali” inserida no show
de sucessos A Trip to Chinatown. Num folheto chamado Como escrever uma can­
çãopopular, ele aconselhava seus leitores a “procurarem nos jornais o seu enredo”,
para “se familiarizarem com o estilo em voga” e “conhecerem as leis de direitos
autorais”. Com uma equipe de imigrantes recentes e crianças da classe média bai­
xa, a indústria de músicas populares rapidamente afinou-se com sua platéia bási­
ca, sem medo de emoções rudes, sentimentalismos e cenários de partir o coração.
Entretanto, para muitos jovens americanos, peças lacrimosas como “After
the Bali” não davam conta do recado. Eles queriam algo que acentuasse melhor
suas crepitantes sinapses e começaram a encontrá-lo na nova música que ouviam
por toda a parte, mesmo que ela ainda fosse ignorada pela indústria da música.
Em Maggie, a heroína de Stephen Crane e seu amante gângster entram num
salão no centro da cidade, onde uma “orquestra tocava melodias negras e um
baterista batia, chicoteava, retinia e raspava numa dúzia de máquinas para fazer
barulho”. O som flutuante da música “fez a moça sonhar”.
A música popular oferecia um meio para os negros poderem começar a en­
trar na sociedade americana. Apesar dos esforços de políticos como Booker T.
Washington, que foi convidado para ir à Casa Branca por Theodore Roosevelt,
em 1901, para a maioria dos negros a vida era sombria. As estatísticas de lincha­
mentos - mas de uma centena por ano na década de 1890 - eram apenas a
ponta do iceberg. “A maioria não tinha futuro nem esperança de ter”, escreve o
biógrafo de Louis Armstrong, James Lincoln Collier. “Não podiam esperar nada
além de trabalho, pobreza, doenças e morte. Uma filosofia de carpe diem [era] a
única posição razoável em tais circunstâncias.”
Um núcleo de resistência concentrava-se no prazer, nas sensações intensifica­
das do momento, nos bairros com luz vermelha encontrados nas cidades por toda
a América: Chicago, St. Louis, Kansas, New Orleans. Durante o último quartel do
século XIX, a expansão destes distritos proporcionou emprego regular para a gran­
de reserva de músicos itinerantes. Tocar nos salões e clubes passou a ser um ritual
de passagem viável para muitos homens e mulheres jovens negros.2 O gosto do
2 Ver as memórias de Louis Armstrong e Jelly Rol! Morton.

72 | 1875-1904
público americano mais amplo pela música negra já havia sido aguçado pela
popularidade dos menestreis e, no fim da década de 1890, estava pronto para
algo menos artificial.
Em 1898, o ragtime explodiu como uma loucura nacional. Um tipo de mú­
sica que unia os ritmos desiguais dos honky tonks com o pulsar em dois tempos
da clássica marcha de John Philip Sousa, ele acabou incluindo uma dança como
estilo de vida (a novidade chamada de cakewalk), moda e até linguagem. Como
uma canção observava, “Got ragtime habits and Italk that way / 1 sleep in ragtime
and I rag ali day / Got ragtime troubles with my ragtime wife / Fm certainly living
a ragtime life”. Comparando o velho com o novo numa sincopação ambidestra,
ela captava o fervilhante tumulto de um continente em transição.
O ragtime fora ouvido na Expo 1893: não na cidade murada, mas nos in­
ferninhos ao redor. A primeira publicação rag por um bandleader (um regente
de banda de música popular) branco, em janeiro de 1897, foi seguida por mais
rags de músicos negros. Destes, “Maple Leaf Rag”, de Scott Joplin, em 1899, foi
o melhor e mais conhecido. Com seus ritmos contrastantes e melodias hipnóticas,
o ragtime rapidamente cruzou as fronteiras de classe e raça. Um instantâneo de
1903 mostra Joplin tocando ao vivo numa festa de brancos, onde a multidão jo­
vem simplesmente adorou e, quando a festa acabou... queriam saber o seu nome
para poder dar um baile e convidá-lo para tocar”.
Entretanto, havia uma desconfortável barganha na exposição dessa forma mar­
ginalizada ao sistema. Jovens fãs brancos reagiam à selvageria enfatizada pelo
novo jargão, “hot” (quente), que denotava sexo, roupas glamurosas e, acima de
tudo, a simples intensidade do momento. Ao mesmo tempo, um sistema cultural
indignado, estarrecido com a ameaça de miscigenação, chamava o ragtime de “ve­
neno virulento, que, na forma de uma epidemia de malária, está entrando nos
lares e cérebros dos jovens a ponto de levantar suspeitas quanto à sanidade deles”.
O problema era que os americanos não podiam fazer outra coisa a não ser
levar a sério as promessas da Constituição. Se esse era um país que cultuava a
igualdade - na verdade, se a música popular era realmente do povo -, então deve­
ria estar disponível para todos a despeito de credo, nacionalidade ou raça. A sim­
ples persuasividade da propaganda popular exaltada pelas artes populares ameri­
canas significava que elas se tornariam irrevogavelmente carregadas, e não pouco,
com o impulso libertador. Isto se estenderia não apenas aos negros, mas a todos
os outros grupos de estranhos, junto dos quais os jovens começariam a se iden­
tificar.
***

UMA SÚBITA VISÂO DO PARAÍSO” | 73


Embora alimentando este surto de cultura popular, o talento americano para a
organização de espetáculos acobertava urgentes problemas sociais. A Expo 1893
foi um exemplo perfeito, uma cidade branca tremeluzente, obscurecida pela sua
gêmea, a monolítica cidade negra a poucos quilômetros da beira do lago. Na
época da feira, Chicago havia dobrado de tamanho em uma década. Apesar de
ser o cadinho de inovações como o arranha-céu, o elevador e a linha de montagem,
ela possuía todas as cicatrizes da expansão irrestrita. Com seu ar poluído e odo­
res pútridos de currais, ela havia superado Manhattan na sua imundície e na sua
ultramodernidade.
A maioria dos recém-chegados era de imigrantes: 78% da população da ci­
dade eram os filhos de pais nascidos fora dos Estados Unidos —na Italia, Irlanda,
Alemanha, no Leste Europeu. As condições de vida para a maioria destes novos
cidadãos eram duras. As pressões de adaptação de um passado europeu para a
cidade do futuro pesavam especialmente sobre as crianças imigrantes. Presos
entre dois continentes, os americanos da segunda geração ansiavam instintiva­
mente por romper com aquilo que a assistente social e escritora Jane Addams
chamou de “costumes do Velho Mundo”, mas não tinham o apoio dos pais para
se tornarem cidadãos atuantes.
A alienação que existia entre a criança que não conhecera nada além da
América e os pais que ainda estavam sempre lembrando do país que tinham dei­
xado - muitas vezes a ponto de mal falarem o inglês - só podia aumentar durante
a puberdade. Assim, elas seguiram o seu próprio caminho. Era este repúdio de
todas as amarras conhecidas que preocupava Jane Addams; a partir dos meados
da década de 1890, ela começou a registrar os seus procedimentos com os jovens
atormentados de Chicago. “O industrialismo reuniu multidões de jovens criaturas
ansiosas de todos os cantos da Terra”, ela escreveu, mas não havia como atender
às suas necessidades mais profundas.
Pertencente à primeira geração de mulheres americanas a se formar numa
faculdade, Jane Addams recusou a medicina, o magistério e o trabalho missionário,
que na época eram as opções de carreira femininas disponíveis. Em Londres, ela
visitou o Toynbee Hall e assimilou o seu fervor missionário. Ao voltar para os
Estados Unidos, Addams montou a Hull House dentro de um bairro onde os imi­
grantes predominavam para dar um suporte prático e estético às mulheres do
distrito. Embora o enfoque inicial do estabelecimento fosse cultural, as condições
em Chicago logo colocaram Jane Addams em confronto direto com os graves
problemas sociais da cidade.
Ela descobriu que o eterno problema da disciplina na adolescência exacerbava-
se com o fato de que os jovens começavam a trabalhar aos 14 anos, ou menos.
“Em vastas regiões da cidade que são totalmente dominadas pela fábrica”, ela
74 | 1875-1904
observou, “é como se o desenvolvimento da indústria tivesse deixado para trás
todos os acordos sociais e educacionais”. A esterilidade e a sujeira do ambiente
de trabalho coagulava a “alegria espontânea” do jovem em solidão, ou o niilismo
expresso por Jimmy, de Stephen Crane: “Depois de um tempo, era tamanho o
seu desdém que ele voltava o seu olhar feroz para tudo. Ele ficava tão alerta que
não acreditava em nada.”
Entretanto, os salários davam aos jovens trabalhadores a liberdade para “gasta­
rem como quisessem em meio ao vício intencionalmente disfarçado de prazer”.
A juventude era um período “difícil” em toda parte, Jane Addams escreveu no
livro que reuniu seus escritos sobre o assunto, The Spirit ofYouth and the City
StreetSy “mas é como se às vezes uma grande cidade quase que deliberadamente
aumentasse os seus riscos”. Dentro do sensorium metropolitano de um continente
que estava começando a se definir pela aptidão para o prazer e sua produção in­
dustrial, o eterno desejo dos jovens por excitações era intensificado, se não ativa­
mente estimulado em excesso.
Com seus bares cheios de crueldade e seus imensos salões de dança que re­
cendiam a solidão, os bairros pobres de Chicago ofereciam luzes fortes em vez
de uma comunidade real, exploração em vez de valores. “Os sentidos recém-des-
pertos são atraídos por tudo que é espalhafatoso e sensual”, Jane Addams escreveu,
“pela música irreverente tocada nas ruas, os cartazes de teatro muito coloridos,
as histórias de amor ordinárias, os chapéus emplumados, o heroísmo barato dos
revólveres exibidos nas vitrines das lojas de penhor. Esta suscetibilidade funda­
mental é assim evocada sem o correspondente alvoroço de uma imaginação supe­
rior, e o resultado é tão perigoso quanto possível.”
Em alguns casos, a “imaginação ardente” dos jovens da cidade levava-os a
um território ainda mais perigoso. Jane Addams observou que “este mesmo
amor pela excitação, o desejo de escapulir da monotonia da vida, também induz
os garotos a experimentarem bebidas e drogas, num grau surpreendente”. A co­
caína em particular estimulava o “desejo de sonhar e ter visões”. Um usuário lhe
disse que “nos seus sonhos ele via salas pavimentadas com moedas de ouro e
prata, as paredes revestidas de notas de dólar, e que ele levou embora aos baldes
tudo que pôde carregar”.
As drogas eram uma parte integrante da vida americana: os tônicos ideais
para os cidadãos de um país que exigia qualidades sobre-humanas na sua corrida
para o crescimento econômico. A Guerra Civil introduzira o uso da morfina em
todo o país, enquanto que os chineses haviam trazido o ópio para os bairros mais
pobres. A cocaína, na época, era considerada um narcótico ainda mais pobre,
uma reserva para uso próprio das prostitutas, gângsteres e crianças dos bairros
miseráveis. Oferecendo efeitos ao mesmo tempo estimulantes e analgésicos, exci­
“UMA SÚBITA VISÃO DO PARAÍSO” | 75
tando-os e tornando-os insensíveis à dor, era um droga bem adequada para as
suas duras condições de vida.3
Entretanto, a droga na época não era associada à ideologia de uma geração
crítica: pelo contrário, fazia parte de uma cultura urbana pobre, de profunda
dissolução, que aderia aos valores tipicamente americanos como através de um
vidro escuro. As visões materialistas descritas pelo informante de Jane Addams
correspondiam aos paraísos artificiais evocados pela canção folclórica contem­
porânea “Willie the Weeper”. Esta era um Kubla Khan expresso em termos do
Novo Mundo: “Got a rubi bush> a diamond-mine, / An emerald-tree, a sapphire-
vine, / Hundreds ofrailroads that run for miles, / A thousand dollars worth of coke
stacked up in piles ”
Embora deixando o público em geral muito alarmado, este gosto ilegal ecoava
a obsessão da América por remédios patenteados. No início da década de 1890,
o refrigerante Coca-Cola, que tinha como ingrediente básico a cocaína, era anun­
ciado como uma bebida estimulante. Ao mesmo tempo, remédios populares
vendidos legalmente sem receita como Rynos Hay Fever e Catarrh Remedy
eram quase 100% cocaína pura. Seus consumidores, sem saber disso, ficavam
viciados: “Está acabando com nossos meninos”, um pai escreveu para as autori­
dades do US Bureau of Chemistry. “Tenho um filho que vem usando e desde o
ano passado tento fazer com que ele largue, mas não adianta, já que ele conse­
gue arranjar.”
O uso de drogas fortes combinava com o ambiente excessivamente estimu­
lado da metrópole americana, assim como reforçava os anseios do novo conti­
nente por sonhos de qualquer tipo. Ao mesmo tempo, o uso exagerado encurtava
as vidas dos jovens gângsteres, já reduzida pela pobreza e o perigo inerente ao seu
estilo de vida. A cocaína era mais perturbadora do que a morfina porque seus
efeitos eram eufóricos. Exigindo um reabastecimento quase instantâneo, ela trans­
formava os jovens criminosos nos consumidores mais ávidos, ao mesmo tempo
que os deixava travados num eterno presente.
Esta concentração exaustiva no momento cruzava classes e mercados. Era a
marca registrada da sensibilidade boêmia que fora inspirada pelo exemplo tenaz
de Edgard Allan Poe e recebera um empurrão estético com a controvertida turnê
de um ano de Oscar Wilde pela América, em 1882. O sucesso sem precedentes
de Trilby, de George du Maurier, em 1894, com a conseqüente comercialização
3 Herbert Asbury observa que uma gangue chamada Hudson Dusters tornou-se a preferida da imprensa na
virada do século. Sua fama estava diretamente relacionada com o consumo de drogas: “Embora não fossem
lutadores como os Eastmans, os Five Pointers e os Gophers, eram uma rara coleção de rufiões, e grande parte da
sua fama era merecida. Talvez 90% dos Dusters fossem viciados em cocaína, e quando sob a influência da drogas
eles eram muito perigosos, porque ficavam insensíveis aos castigos comuns e ficavam possuídos de grande,
embora artificial, bravura e ferocidade.”

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de lingüiças, sorvetes, charutos e o famoso chapéu, transformou a boêmia num
estilo. Ele atraía em especial as mulheres jovens, que, segundo Luc Sante, “extraí­
ram dele a coragem de se dizerem artistas e moças solteiras, fumar cigarros e
beber Chianti”.
A boêmia era a vitrine para um novo tipo de aristocracia baseada no talento
e na fama, e não no nascimento. Esta era a premissa central de Trilby e do best-
seller de Theodore Dreiser, Sister Carrie. Nesses romances moralistas, entretanto,
havia um preço a pagar por esta elevação: o corte dos vínculos com o ambiente
que nutria o talento, somado às cicatrizes deixadas por anos de pobreza e luta.
Du Maurier fez questão de que Trilby, prematuramente envelhecida pela hipnose
que fizera dela uma estrela, tivesse uma morte tão terrível quanto a do jovem
Werther. Ela tinha vivido muito intensamente, tinha se consumido.
Ao mesmo tempo, estes estilos de vida extremados eram diluídos e promo­
vidos para o consumo de massa na América. “Enquanto os boêmios da avant-
garde dramatizavam o apelo da vida ao extremo”, Jackson Lears observa, “os
capitães de uma nascente ‘indústria do ócio’ representavam o anseio de intensas
experiências de todos os níveis sociais. Eles transformavam a excitação em merca­
doria nos cabarés e parques de diversões; atendiam ao ansioso homem de negó­
cios assim como à entediada mocinha da loja; eles assimilavam imigrantes e
WASPs numa nova platéia de massa. Montanhas-russas, dançarinos exóticos e
moças rebolando, tudo prometia fugas temporárias.”
Havia uma contracorrente neste etos derivado do prazer que não podia ser
ignorada. A intensidade poderia ter sido jovial e romântica, mas não durou
muito. O nexus de valores entre uma indústria do entretenimento em expansão,
a avant-garde e os despojados estava cheio de armadilhas em potencial. A nova
mídia encorajava o pensamento a curto prazo, a concentração no instantâneo e
as soluções fantásticas atribuídas na época às crianças e jovens na puberdade, ao
mesmo tempo que excitavam impulsos humanos fundamentais. Eles prometiam
uma forma atraente, mas instável de controle da massa.
A nova metrópole absorvia milhares e milhares de pessoas de toda a América
rural e da velha Europa. Elas chegavam fugindo de grandes campos cinzentos
ou, pior, vinham em busca de uma vida onde podiam estar livres da luta pela
simples sobrevivência. Para serem cidadãs plenas nestes ambientes murados, en­
tretanto, elas não apenas tinham de vencer a ameaça da morte por violência ou
narcose, mas também ser coniventes com a percepção dos governos locais. Ten­
do navegado por todas estas tentações e perigos, elas descobriam que viviam
num mundo mágico que nada mais era do que o truque de feiticeiro.
Elas só precisavam tirar os óculos de esmeralda, mas, como Baum compreen­
deu muito bem, o trapaceiro só tem sucesso quando acerta nos sonhos e desejos
“UMA SÚBITA VISÃO DO PARAÍSO" | 77
do seu alvo. É quando o falso se torna real. Não por acaso o seu livro recebeu o
título de O mágico de Oz. Embora o seu personagem central fosse uma fraude,
ele também era a personificação desta nova terra, resumindo o mecanismo de
troca americano: “Neste país, todos devem pagar por tudo que têm.” Na verdade,
com a sua lógica popular - “Sou apenas um homem comum” - o Mágico definia
aquele novo personagem capitalista: o magnata da mídia.
O século XX exigia novos mitos, e Oz não foi só um dos primeiros, mas
seria um dos mais duradouros. Junto com A interpretação dos sonhos, ele ocupou
um momento crucial na concepção ocidental de juventude. Se a nova economia
do desejo tinha começado a escavar a mina do mundo infantil, então Freud co­
meçava a escancarar a área até então oculta da sexualidade infantil, o impulso
em geral associado com a puberdade e o tabu mítico no coração do sistema fa­
miliar. Se estes anseios fundamentais, explosivos, fossem detonados, então haveria
uma quimera até então inesperada.
Assim como a aparente inocência de Oz - definindo a sensação infantil de
encantamento que continua fazendo parte da psique americana - foi se atenuando
em complexas correntes subterrâneas, o nascer de uma sociedade baseada em
mercadorias de sonho tinha começado a revelar forças sombrias que jaziam ocultas.
Os anunciantes poderiam muito bem ter buscado, conforme T. J. Jackson observa,
“liberar a vida instintiva negando o seu lado sombrio”, mas era impossível ignorar
“a crescente furia e os insaciáveis anseios no subconsciente humano”. Apetites,
uma vez estimulados, são difíceis de saciar: uma vez erguida a tampa da caixa de
Pandora, não há mais volta.

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CAPÍTULO 5

O século americano
G. Stanley Hall e Adolescence
***
A adolescência é um novo nascimento.
- G. Stanley Hall, prefácio de Adolescence (1904)

G. STANLEY HALL, A N O S 1890


ENQUANTO L. FRANK BAUM preparava o manuscrito chamado The Emerald City,
o estado de Illinois aprovava uma lei com profundas implicações para a juventude
americana. Decretada em julho de 1899, “para regulamentar o tratamento e o
controle de crianças dependentes, negligenciadas e delinqüentes”, a Lei do Juizado
de Menores definia como delinqüente “qualquer criança com menos de 16 anos”
que violasse “qualquer lei deste estado ou cidade ou postura municipal” ao mes­
mo tempo que autorizava a instituição de um tribunal juvenil separado. Era um
passo crucial na construção da adolescência como um estágio de vida distinto.
Era conveniente que se criasse um juizado de menores na Chicago da virada
do século, não só devido ao ambiente futurista da cidade, mas por causa do vi­
goroso movimento de reforma. A instituição do tribunal veio depois de anos de
lobby por parte de organismos como Hull House e o Chicago Womens Club.
Em contraste com a abordagem puramente punitiva - que havia falhado em er­
radicar o problema —o tribunal via a delinqüência como resultado de más condi­
ções sociais, uma visão progressista que se opunha às explicações deterministas
apresentadas pelos sociólogos criminologistas da época.
Os males de Chicago também tiveram a sua parte. Visitando a cidade du­
rante o ano da Expo, o jornalista britânico e defensor ardente das próprias idéias,
W. T. Stead, achou o desenvolvimento forçado dos seus jovens um verdadeiro
escândalo público. “Respeitam-se muito pouco as crianças em Chicago”, ele ob­
servou em 1893. “Mensageiros com não mais do que 14 anos entram e
das celas policiais a todas as horas da noite ganhando intimidade com bêbados
e classes degradadas, o que não se pode dizer que seja uma tendência à edificação.”
Ele ficou admirado que “crianças pequenas fossem apresentadas tão cedo às abo-
minações de uma cidade grande”, e que ninguém parecesse se importar com isso.
Esta forte nódoa de corrupção ajudava a concentrar a atenção sobre como
as medidas legais para a juventude eram ambíguas na América. Segundo o direito
civil, os jovens eram considerados crianças até os 21 anos de idade, conceito pre­
servado pelo mais antigo reformatório juvenil americano, o New York House of
Refuge. Entretanto, delinqüentes de 19 e vinte anos eram muito difíceis de con­
trolar, e outras instituições, tais como o New York Juvenile Asylum, começaram
a se concentrar num grupo etário mais novo. Jovens com mais idade eram, por­
tanto, tratados como adultos, mesmo se ainda fossem “crianças” pela lei.
Com a precocidade juvenil identificada como o principal problema, as defi­
nições de idade existentes tinham se tornado inadequadas para lidar com as com­
plexidades da vida na cidade. Visando a proteger os infratores mais jovens dos
criminosos empedernidos, o Ato do Juizado de Menores oferecia um ponto de
corte entre a infância e a idade adulta. Iniciava também uma abordagem flexível
e preventiva ao tratamento da delinqüência. Jesse Pomeroy continuava sendo
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um testemunho vivo, embora sepultado, do princípio de que a punição condig­
na não resultava em reforma, mas em obstinação ainda maior: durante o ano de
1899 ele fez as suas vigésima e 21? tentativas de fuga.
O tribunal foi um grande sucesso. Durante o seu primeiro ano, o juiz presi­
dente, Richard S. Tuthill, ouviu quase 1.500 casos. Destes, a quantidade esmaga­
dora era de meninos acusados de infrações como roubo (quase 45% do total),
“conduta irregular” e “incorrigibilidade”. Este último era um termo “aparente­
mente cunhado do desespero” para cobrir uma multidão de delitos urbanos do
dia a dia: “ficar ocioso pelas ruas e usar linguagem vulgar”, “recusar-se a trabalhar
ou ir para a escola, vagar pelas ruas tarde da noite”, “andar com más companhias,
recusar-se a obedecer aos pais, e afastar-se de casa”.
Representando apenas 8% dos casos, as meninas eram mais comumente
acusadas de “imoralidade”, “conduta irregular”, “incorrigibilidade” e de se associa­
rem com “pessoas más”. A maioria das jovens que se apresentavam diante do tri­
bunal corria o risco de perder, ou já tinha perdido, a sua “virtude”. Jane Addams
foi insistente neste tópico: “As meninas trazidas para o juizado de menores eram
em geral filhas daquelas famílias de imigrantes mais pobres morando no pior
tipo de cortiço da cidade.” Ela observou que “um número surpreendente de me­
ninas envolveu-se na maldade pelas mãos de homens de suas próprias casas .
Setenta por cento dos jovens que passaram pelo juizado eram filhos de imi­
grantes. Como uma agência de integração de fato, o tribunal tomava medidas
revolucionárias para lidar com estes novos cidadãos. Crianças “dependentes e
negligenciadas” deviam ser colocadas em instituições ou num lar de adoção, ou
ficariam no seu próprio lar “sujeitas a visitas do funcionário da justiça”. A última
opção foi elevada a um grau surpreendente: Judge Tuthill era firme na crença de
que a liberdade condicional era a melhor maneira de se lidar com um jovem
transgressor.
Ao avaliar o que deveria acontecer com cada delinqüente, o juiz exigia que
os oficiais do juizado encarregados da vigilância levassem em conta três considera­
ções: “o bem-estar e os interesses das crianças”, “o bem-estar da comunidade e
“a inteligência e os sentimentos de pais e parentes”. Este era um programa extra­
ordinariamente holístico que proporcionava visitas domiciliares freqüentes pelos
funcionários de justiça ao mesmo tempo que visava a prevenir o crime antes que
ele acontecesse. “É desejo do Tribunal salvar a criança da negligência e da cruel­
dade”, Tuthill escreveu; “também salvá-la do perigo de se tornar um criminoso
ou dependente.”
O tribunal foi manchete nacional. Embora na prática falhasse em erradicar
as condições sociais que geraram a delinqüência, ele introduziu uma abordagem
progressista que elevava a influência da educação, e não da natureza, sobre o
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comportamento humano. Nisto ele entrou em descompasso com os cientistas
sociais da época, muitos deles fiéis ao determinismo de Cesare Lombroso e Herbert
Spencer. O seu sucesso não apenas incentivou uma nova geração de sociólogos,
mas também inspirou uma definição mais precisa do que perturbava a segunda
década da vida. Nitidamente, chamar um rapaz de 16 anos de “criança” não era
mais adequado.
No fim dos anos 1890, as autoridades estavam buscando ativamente encur­
ralar a juventude americana. Fossem as gangues urbanas selvagens, os jovens as­
sassinos monomaníacos ou a simples incidência de delinqüência juvenil, a ques­
tão do controle tinha se tornando premente. Ao mesmo tempo, investidos como
estavam de projeções adultas para o futuro, os jovens tinham começado a receber
um nível de atenção positiva sem precedentes. Em vez de serem enviados para o
trabalho ou deixados à vontade, eles eram incentivados a continuar na escola, a
retardar a sua entrada na idade adulta. Se observassem as regras do jogo, teriam
uma independência circunscrita.
Entretanto, ainda não havia um conceito generalizado para descrever esta
mudança. Durante o século XIX, a puberdade não era considerada uma fase dis­
tinta da vida. Embora os homens alcançassem a idade adulta ao entrar no mundo
do trabalho, do exército ou do casamento, o tempo passado para alcançar esta
meta variava. Os rapazes oscilavam entre ficar na casa dos pais ou morar afastados,
quando ingressavam num sistema de aprendizado ou de educação mais adiantada.
Este período sem nome era reconhecido como um tempo de flutuação, até de
“semidependência”: se era chamado de alguma coisa, era de “juventude”.
O termo definitivo para o longo hiato entre infância e idade adulta foi
cunhado por um psicólogo chamado G. Stanley Hall. Durante o ano de 1898,
ele lutou para completar o seu imenso compêndio sobre a segunda década da
vida. Ele vinha coletando dados havia no mínimo cinco anos e, numa conferência
naquele verão, ele deu a sua primeira definição de idade para o que chamou de
“adolescência”. A sua grande realização foi perceber que, na sociedade americana
e ocidental, o estado intermediário que Rousseau havia ao mesmo tempo exaltado
e feito advertências a respeito, não era só determinado biologicamente, mas so­
cialmente construído.
“Adolescência é mais do que puberdade”, Hall declarou, “estendendo-se por
um período de dez anos desde os 12 ou 14 até os 21 ou 25 anos nas meninas e
nos meninos, respectivamente, mas culmina nos 15 ou 16.” Notando a importân­
cia dos costumes que “nações selvagens” empregavam para marcar este período,
ele lamentou a falta destes rituais na América. A transição correta era ainda mais
importante porque a adolescência era “um período de impulsos sexuais”; era
também “a época do maior número de prisões por crime nos Estados Unidos,
na Inglaterra, França e Alemanha”.
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Hall propunha nada menos do que a criação de uma nova, geralmente re­
conhecida, fase da vida que aumentaria a dependência e retardaria a entrada no
mundo de trabalho: “Conforme avança a civilização, a educação se amplia. Os anos
escolares se alongam inevitavelmente à medida que a comunidade fortalece seus
ideais.” Qualquer tentativa de restringir o tempo que se passa na escola ou na fa­
culdade era “uma tentativa para retornar às condições selvagens, enquanto os ideais
são mais altamente civilizados. A avaliação de qualquer sistema educacional deve
se basear no seu sucesso em fazer os jovens atravessarem a adolescência com [o]
desenvolvimento o mais perfeito possível”.
Diante disso, o Hall barbudo e de meia-idade era um profeta improvável da
juventude. Ele havia sido indicado recentemente para uma nova universidade
americana, a Clark, em Worcester, Massachusetts - a culminação de uma longa
carreira acadêmica. O seu ar já bastante remoto não havia melhorado com a as­
fixia acidental da mulher e da filha no início dos anos 1890. Dominado pela
culpa e pela depressão, Hall passou por uma grande crise aos cinqüenta anos.
Sofrendo com “os sintomas psíquicos precoces da velhice”, ele buscava ansioso
um novo entusiasmo acadêmico.
Durante o último quartel do século XIX, a tendência dominante na vida in­
telectual americana tinha sido a teoria evolucionária. Na década de 1890, o dar-
winismo dividira-se numa variedade de disciplinas, desde a criminologia deter­
minista de Cesar Lombroso até a sociologia do laissez-faire de Herbert Spencer,
que acreditava que, dentro da sobrevivência do mais apto sugerida por Darwin,
a competição levaria ao progresso. Qualquer tentativa de interferir nesse processo,
como reforma, estava condenada ao fracasso. O corolário era que se deveria dei­
xar as crianças dos bairros pobres da cidade em paz para se afogarem ou nadarem.
Hall tinha sido um dos alunos preferidos de William James, o fundador da
psicologia americana. Entretanto, Hall rompeu com o establishment psicológico
no início da década de 1890. Embora austero na aparência, ele insistia na pri­
mazia dos sentimentos que pensava terem sido negligenciados por James e seus
acólitos. “O estudo da evolução da alma está apenas começando”, ele escreveu
em 1894, “mas já está se tornando a chave mestra para todos que estiverem ten­
tando solucionar os problemas da vontade, das emoções e dos sentimentos huma­
nos. O intelecto era o começo e o fim da velha filosofia. O coração é o começo
da nova.”
Buscando uma outra maneira de integrar a biologia evolucionária à psicolo­
gia, Hall fixou-se no livro de Henry Drummond, de 1894, Ascent of Man. Neste
darwinismo mais delicado, a evolução era “a revelação final da unidade do mun­
do”: em vez do mundo brutal da seleção natural, oferecia-se o conceito do “amor
altruísta”, no qual a mãe humana era o produto supremo da evolução. Drum­
mond também lançou a ideia de que os seres humanos desenvolveram-se de
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acordo com a lei da recapitulação, que dizia que “cada indivíduo em seu de­
senvolvimento recapitula a forma através da qual a raça evoluiu”. Isto estava de
acordo com as próprias tendências visionárias de Hall. Adaptando a fusão de bio­
logia evolucionária e o desenvolvimento pessoal de Drummond, ele decidiu que
a alma individual era um microcosmo de todo o mundo vivo, uma “câmara de
ressonância” dentro da qual a evolução de gerações passadas ressoava. A psique
individual estava portanto associada ao desenvolvimento da raça. Uma conseqüên­
cia natural disto era que a correta evolução de cada indivíduo tinha profundas
implicações para o seu país, na verdade para a sua raça como um todo. O desen­
volvimento incorreto resultaria na morte de uma civilização.
Para implementar esta nova descoberta, ele retornou à área de pesquisa, o
movimento Child Study, que já havia ajudado a inaugurar nos meados dos anos
1880. Hall tinha estudado na Alemanha com o fundador da psicologia experi­
mental, Wilhelm Wundt, e procurado aplicar as técnicas da pesquisa de campo
ao estudo detalhado das características emocionais e mentais básicas do comporta­
mento infantil. Sob esta motivação estava a crença de que, como o próprio Hall
diz no seu estilo à la Rousseau, “Toda criança é um pequeno selvagem”: se ela ia
evoluir corretamente, esta pesquisa profunda era vital.
Ao contrário do método tradicional de ensino por repetição e organização,
os progressistas do movimento Child Study buscavam descobrir o que as próprias
crianças pensavam e sentiam. Usando observação e questionários, eles procuraram
mapear uma ampla gama de emoções e processos mentais das crianças: seu cresci­
mento físico, sua saúde, sua associação com colegas, seu medo e sua raiva, sua arte
e a natureza dos seus jogos. Coincidindo com o crescimento da consciência pú­
blica sobre a educação como um todo, o movimento Child Study rapidamente
influenciou a política social voltada para suas crianças.
O maior sucesso de Hall com o movimento tinha ocorrido durante a Expo
1893. Convidado a organizar um dos muitos congressos públicos que marcaram
o aspecto educacional do evento,1 ele rasgou o seu resumo e iniciou uma nova
conferência sobre o tópico de “Psicologia experimental e educação”, durante a
qual os três dias inteiros foram dedicados ao Child Study. Entretanto, Hall não
descansou sobre os louros. Sempre insatisfeito, ele anunciou em 1894 que estava
considerando todo um novo campo de pesquisa, concernente ao estágio seguinte
acima da infância na escala evolucionária, que ele definia como adolescência.
Na elisão contemporânea entre infância e puberdade, dados sobre adolescên­
cia já faziam parte do material do Child Study, mas não tinham sido explicados
ou identificados como algo distinto. Entretanto, o período de dependência outro-
ra associado com a criança estava aumentando. Uma quantidade cada vez maior
1 Foi em outra que Frederick Turner deu a sua palestra “O significado da fronteira na história americana

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de americanos púberes continuava na escola, na medida em que o número de
colégios de ensino secundário subira mais de 750% entre 1880 e 1900. Com um
maior percentual de jovens americanos sob o controle e a observação de profes­
sores, foi possível ampliar para cima o encaminhamento para o Child Study.
A pesquisa da puberdade harmonizava-se com o próprio entusiasmo de Hall.
Ele tinha ficado fascinado com o diário de Marie Bashkirtseff —que chamou de
um ‘precioso documento psicológico” - e com os crimes sem motivos de Jesse Po­
meroy. Estimulado ainda mais por suas observações de gangues urbanas, ele co­
meçou a colecionar material relacionado com o que chamou de “teens” (a idade
“entre os 12 e 19 anos). Levaria dez anos para as suas constatações serem publica­
das, mas nesse meio-tempo ele viajou por toda a América, assistindo a conferências
e dando palestras, sempre discutindo e aprimorando a sua compreensão dessa
fase mal mapeada.
O apoio de Hall à causa dos adolescentes também se encaixava com a sua
própria psicologia e a particular fase de desenvolvimento da América como uma
nova nação. Enquanto pesquisava para o seu livro, ele tirou férias e explorou as
fazendas onde tinha vivido quando garoto. Publicado em 1899 com o título
“Note on Early Memories”, seu relato do período entre os primeiros anos da sua
infância e o início da puberdade aos 14 anos estava repleto de impressões e notas
anedóticas detalhadas sobre a mecânica da memória. Para um psicólogo, entre­
tanto, ele foi extraordinariamente opaco quanto aos seus próprios sentimentos
durante este período.
Foi nas entrelinhas que a realidade emocional da adolescência de Hall pôde
ser detectada. A visita a um túmulo detonou “uma deprimente sensação de soli­
dão” e “um estranho tipo de medo”. Nascido num meio puritano, com um violen­
to pai calvinista, Hall cresceu com um forte sentido da sua própria inadequação
pessoal e intensa culpa sexual. Como Bashkirtseff, ele havia se obrigado a sair de
uma situação insustentável. Ele se lembrava de escalar um pico distante quando
ficava furioso: jurava “em voz alta que superaria muitos obstáculos reais e seria
algo no mundo”.
Mergulhando no tema da adolescência, Hall podia revisitar e tornar bom
um período infeliz e não realizado da sua própria vida. Certamente, sua apaixona­
da identificação com o adolescente ia além do dever de realizar um desejo. “Quem
fez a história?”, ele perguntava. “Não os grandes intelectuais do mundo, mas os
grandes corações - Wesley, Loyola, Buda, Cristo, os grandes corações do mundo,
os seus profetas. Rapazes e moças —especialmente os rapazes, conforme aprendi
com a minha experiência como professor durante todos estes anos - precisam
primeiro sentir emoção. Eles precisam sentir o formigamento, queimar.
Como o elemento chave da nova psicologia era “a intensidade, a variedade
e o alcance do que nós sentimos”, não surpreende que Hall tenha ido buscar
0 SÉCULO AMERICANO | 85
inspiração no diário de Bashkirtseff. Como ele sabia a partir das suas próprias
tentativas, homens que revisitavam a sua adolescência escreviam “com menos
abandono” do que as mulheres. Eles “tendiam mais a caracterizar suas metamor­
foses públicas mais tarde na vida, quando elas estavam um pouco pálidas, e tal­
vez por isso sentissem menos necessidade do confessionário”.2 Mulheres, por
outro lado, superavam os homens “no seu poder de reproduzir e descrever gran­
des, mas com muita frequência evanescentes, ebulições desta idade”.
O que Hall sugeria era o extremo oposto da rígida masculinidade represen­
tada pelos jovens homens de negócios americanos e as gangues jovens. Ele era,
entretanto, uma mistura contraditória, ao mesmo tempo visionário e reacionário,
e a sua solução para o excesso de energia dos rapazes era simples: “Muito se pode
dizer a favor de banhos frios e natação nesta idade.” Suas prescrições para a edu­
cação das meninas baseavam-se na elevação da mãe ao mais alto estágio de evo­
lução. Ele criticava severamente o que chamava de “evangelho das feministas”: a
vigorosa agitação na época por direitos iguais da Nova Mulher.
Entretanto, seu tema o levava inexoravelmente para o futuro. Hall acreditava
que a adolescência estava associada inextricavelmente à ascensão de um continente
jovem. Conforme ele afirmou em 1898: “Nós americanos somos uma raça mista.
Isto toma o período da adolescência na América único. Onde a natureza se man­
tém pura, este período de efervescência é concluído rapidamente e com poucos
problemas, como entre os judeus e os alemães. O período de adolescência prolon­
ga-se na América devido à mistura de sangues e, se sobrevivermos às provações
e perigos deste período, seremos os maiores homens e mulheres que o mundo já
conheceu.”
Nascido antes do holocausto da Guerra Civil, Hall havia assistido à vida
americana se acelerar e aglutinar numa potência como o mundo nunca rinh a
visto. O seu país era sinônimo de juventude: “Na era atual de rápida transição e
expansão da nossa raça, o futuro e o ideal devem ser mais dominantes do que
nunca ou encolheremos como nação. Esta é uma boa era para ser jovem.” Hall
começou a reformar as expressões dos românticos num novo mito para um novo
século. “Juventude é profecia”, ele previa. “O melhor ainda não aconteceu, e o
homem é a larva do que ele será.”
O novo conceito de juventude ficou cristalizado em 1904, com a publicação
de Adolescence. Hall havia anunciado o projeto como “terminado” em 1898, mas
a mentira foi revelada pela descrição que ele fez da sua metodologia. “Minha
intenção tem sido a de coletar todo o material e toda literatura disponíveis”, ele
escreveu, “e depois incluir numa simples descrição uma montagem fotográfica
Na verdade, como Freud estava descobrindo em Viena ao mesmo tempo, a nova psicologia estava mais bem
servida com a disposição das mulheres de expressarem suas emoções, se não até de sentirem prazer n ^ c

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do procedimento.” De fato, com o volume sempre crescente de dados somado à
inata prolixidade do autor, quando o livro foi lançado havia assumido propor­
ções monolíticas.
Um verdadeiro armazém vitoriano de informações, Adolescence compreendia
meio milhão de palavras espalhadas por uma edição em dois volumes com quase
1.500 páginas. Todo o seu tom refletia a multifrenia que o autor atribuía ao seu
tema: “É a era de sentimento e religião, de rápida flutuação de humor, e o
mundo parece estranho e novo.” O tempo todo, Hall, o remoto, o firme educador,
competia com o romântico visionário que ainda era capaz, como um dos seus
colegas atestou, de encontrar um prazer infantil na versão local de Coney Island.
Hoje, grande parte do material parece trancado no tempo, mas o livro ainda
crepita com uma energia mal contida que ilumina as paginas de dados mal
resumidos como um relâmpago difuso: é um clássico de literatura vitalista. Ape­
sar de todas as suas peculiaridades, Hall foi o primeiro a mostrar uma definição
sistemática de adolescência, e ele definiu esta idade com clareza: o período entre
os 14 e 24 anos.3 Adolescence foi também um dos primeiros livros americanos a
citar Freud com aprovação e, na verdade, ele oferecia uma defesa coerente da
psicologia como a única disciplina adequada para a compreensão desta época de
“embriaguez mental e moral”.
Hall pensava que “as atividades psíquicas da infancia, da juventude e da
média dos homens comuns” eram merecedoras da mais alta atenção científica.
A sua explícita conexão da juventude, como um estado, a America, como
nação, tornava urgente esta linha de indagação: Efebite e o termo que os cientistas
usam, mas poderíamos chamar no nosso pais de americanite, pois somos uma
nação na adolescência.” Ele reconhecia a concentração juvenil do momento que
iria definir a percepção do continente e sua indústria de sonhos: Ansiamos pelo
máximo da vida. Nós a queremos em toda a sua profundidade e amplitude,
agora e sempre.”
Sua intenção era “coletar estados mentais e, para Hall, a adolescencia era,
acima de tudo, uma condição volátil: “Os teens são emocionalmente instáveis e
fáticos. É a idade da embriaguez espiritual. É um impulso natural para experimen­
tar estados psíquicos ardentes e fervorosos, e caracteriza-se pela emotividade.” Aler­
tado pela descoberta da primeira literatura jovem de exploração sexual, ele notou
logo que o “sexo afirma o seu domínio em todas as áreas e faz o seu estrago na
forma de vícios secretos, deboche, doenças e hereditariedade debilitada .
A puberdade marcava o início desta condição: O alvorecer da adolescencia
é marcado por uma especial conscientização do sexo. Citando Studien über Hys-
3 Citado por Hall com base numa definição de puberdade, em 1898, do psicólogo alemão Wille, contida no seu
Die Psychosen des Pubersalters.

O SÉCULO AMERICANO | 87
terie, de Freud e Breuer, de 1895, Hall resumiu: “Psicoses e neuroses abundam
nos primeiros anos da adolescência mais do que em qualquer outro período da
vida. Isto provoca grande tensão emocional, que alguns descreveram como um
tipo de insanidade reprimida.” Concentrando-se nos extremos de comportamen­
to, ele parecia sugerir não ser possível definir nenhuma norma de comporta­
mento em se tratando de adolescentes.
Agravando esta neurastenia adolescente inata havia o fato de que “a vida da
cidade moderna, num grau difícil de perceber, é artificial e pouco natural para a
juventude”. Hall adotou Jacob Riis como seu guia: “No East Side de Nova York,
cada esquina tem uma gangue com um programa de desafio da lei e da ordem,
onde o jovem valentão, que é um covarde sozinho, se toma perigoso quando
com a matilha. Ele ambiciona ser ‘apanhado’ ou preso, e posar de herói.” Os
registros dos tribunais americanos mostravam que a adolescência era a época em
que mais ocorriam as prisões. Hall concluiu que a estufa urbana tendia “a ama­
durecer tudo antes do témpo”.
Reagindo contra Lombroso, Hall propôs que as exigências cada vez mais
complexas da vida americana pioravam ainda mais os aspectos inerentemente
negativos do caráter adolescente. Como a era de massa exigia restrições sociais
ainda maiores, a vida ficava mais difícil para seus jovens impetuosos e egoístas.
Já que eles iam na contramão, tornavam-se mais visíveis: “O aumento do crime
juvenil, tão deplorado, não se deve totalmente à vida na cidade ou à crescente
depravação dos jovens, mas também às crescentes exigências éticas da sociedade.”
Ao mesmo tempo, Hall reiterava que “estes anos são a melhor década da
vida. Nenhuma época é tao sensível a todos os melhores e mais sábios empenhos
dos adultos . Suas próprias prescrições misturavam o conservadorismo com o
bom senso progressista. Ele era favorável a solidariedade, apreço e respeito ao
tratar com esta idade , ao mesmo tempo em que endossava o sistema de escola
secundária em expansão. Pensava que a idade de deixar a escola devia ser prolon­
gada por mais dois anos, até os 16, e que os alunos das universidades deveriam
ficar isentos das exigências da vida adulta: “O estudante deve ter liberdade para
ser preguiçoso.”
Mais importante, ele defendia a prolongação socialmente sancionada da
adolescencia. Notando a tendencia para um aprendizado e especialização mais
longos e severos , ele defendia um período probatório sempre ampliado”. Primi­
tivas ou desenvolvidas, todas as sociedades tinham seus ritos de passagem, seus
“regimes objetivos” para marcar a pausa entre a infância e a idade adulta, mas,
na América do século XX, o aumento deste intervalo seria “mais um índice do
grau de civilização . Adolescencia, na verdade, deveria oferecer um porto seguro
para as insistentes demandas da sociedade industrial.
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Hall recomendava que as instituições americanas deveriam notar o fato de
que ‘para o completo aprendizado da vida os jovens precisavam de repouso, lazer,
arte, lendas, romance, idealização e, em resumo, humanismo”. Estas proposições,
cheirando à educação ideal de Rousseau, lentamente infiltraram-se na política
social da América. Pois Adolescence foi um sucesso surpreendente quando final­
mente foi publicado: um dos alunos de Hall, quando esteve na Brentanos em
Nova York, ouviu dizer que ele ‘estava tendo uma venda extraordinária para um
livro tão caro”.
Com um forte impacto acadêmico e vendas intermediárias, Adolescence acele­
rou a demanda para ampliação das oportunidades educacionais e abriu os olhos
da América para este estado onipresente, porém, mal definido. Ao mesmo tempo,
Hall apresentou à América uma visão de si mesma como um país jovem que
seria um farol para o próximo século: “O próprio fato de pensarmos que somos
jovens tornará a fé em nosso futuro curativa, e um dia atrairemos os jovens do
mundo por nossas incomparáveis liberdades e oportunidades.”

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CAPÍTULO 6

Peter Pan e os Boy Scouts


Juventude imperial britânica
***
O que Van Cheele viu nesta tarde em particular foi, entretanto, algo muito
distante do que ele estava acostumado a ver. Numa saliência de rocha lisa,
projetando-se sobre uma piscina profunda no oco de um bosque de carvalhos,
um garoto de uns 16 anos jazia estatelado, secando seus membros morenos
voluptuosamente ao sol. Os cabelos molhados, divididos por um mergulho
recente, estavam colados na cabeça e os olhos castanho-claros, tão claros
que havia quase um brilho de tigre neles, voltavam-se para Van Cheele
com certa atenção preguiçosa. Era uma imagem inesperada, e
Van Cheele se viu na nova experiência de pensar antes de falar.
De onde vinha este menino de aparência rebelde?
- Saki, "Gabriel-Ernest" (1909)

PETER PAN SOBRE A PEDRA, UMA ILUSTRAÇÃO


DE F. D. BEDFORD, 1911
N O ÚLTIMO A N O da Segunda Guerra Mundial, um editor de meia-idade começou
a compilar a história da sua família. Peter Llewelyn Davies referia-se ao manuscrito
como o Morgue, um título adequado para uma narrativa marcada por morte
prematura e obsessão psíquica. Seu infortúnio não foi apenas compartilhar o
nome de batismo com o herói eternamente jovem de Peter Pan> mas também
o de ser o terceiro de cinco irmãos que haviam inspirado “essa terrível obra de
arte”. Peter sentia que a sua alma fora roubada e que o Morgue era uma desespe­
rada, mas condenada, tentativa de exorcismo.1
Os fragmentos que restaram, entretanto, são uma janela para uma adolescên­
cia dourada de classe média alta. Para muitos bretões, a era eduardiana representa
a última era de ouro, antes de duas guerras mundiais cataclísmicas e do fim do
império: uma era de aparente estabilidade e inocência prelapsariana. O que Peter
Llewelyn conta sobre as férias de verão que passou em New Forest caçando bor­
boletas com o irmão George, em 1908, parece confirmar isto. Lembrava-se de
“muitos dias felizes com ele vagando nos bosques e parques armados de rede e
garrafa, e sanduíches para o almoço”.
Mas as nuvens já se aglomeravam sobre o menino de 11 anos, Peter, e o ir­
mão de 15. Na primavera do ano anterior, o pai, Arthur Llewelyn Davies, tinha
morrido com um tumor canceroso na mandíbula. Com a mãe, Sylvia, como chefe
de família, eles eram sustentados pelo autor de meia-idade, J. M. Barrie. Para as
crianças, a vida seguia despreocupada. Peter lembrava que em 1908 eles viviam
“num mundo de meninos, excluindo todos os outros, e pouco nos incomodamos
com o desaparecimento de Arthur de nossas vidas ou com a tristeza que a Sylvia
empobrecida sem dúvida fez de tudo para ocultar de nós”.
Um encontro casual na New Forest revelou que, mesmo neste aparente pa­
raíso, havia forças incontroláveis e fortes pressentimentos de morte. Uma tarde,
George e Peter encontraram uma companhia de soldados numa estrada remota
da floresta. Peter mais tarde lembrou que “eles pararam e saíram de forma por
uns minutos, desafivelando seus equipamentos e estirando-se à beira da estrada
nas atitudes relaxadas de homens cansados, e George e eu começamos a conversar
com um sargento e um ou dois soldados rasos na retaguarda da pequena coluna”.
Os adolescentes ficaram fascinados. Como acontecia com os rapazes, eles
imitaram a marcha uniforme do soldado: “Nós seguimos atrás deles, divertindo-
nos com o ritmo dos pés marchando, e imperceptivelmente emocionados por
uma sensação de unidade com os soldados suados, praguejando e tagarelando.”
O incidente ficou gravado na mente de Peter “como um trecho de filme mudo”:
“Foi um estranho presságio romântico das verdadeiras marchas de seis anos depois,
1 Peter Llewelyn Davies abandonou-a em 1951. Nove anos depois, ele se jogou debaixo de um trem de metrô,
inspirando a manchete “Peter Pan comete suicídio”: nem na morte ele conseguiu escapar da associação.

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para as quais os soldados do regimento escocês estavam mais ou menos conscien­
temente se preparando, [embora] nada poderia ter parecido mais distante do
destino dos dois meninos.”
Os primeiros anos do século XX estavam longe de ser o eterno verão doura­
do da lembrança folclórica, conforme os países da Europa imperial expandiam
as suas influências globais ao ponto de um conflito irreversível. Na Grã-Bretanha,
as certezas vitorianas eram minadas pela Guerra dos Bôeres e pelos pressenti­
mentos de uma guerra maior a caminho, ao mesmo tempo que eram desafiadas
pelos movimentos sufragistas femininos, os direitos sindicais e a reação domés­
tica ao modernismo europeu. O grupo de jovens mais bem-sucedido do século,
os Escoteiros, foi formado em resposta às crescentes exigências da nação e do
império.
Guerra e morte jaziam sob a aparência de ordem eduardiana, no mínimo
como num impulso irracional, vivificante. Em nenhum outro lugar isto está
mais evidente do que em PeterPan, que, encenado pela primeira vez em dezembro
de 1904, havia se tornado um arquétipo do século XX.2 Como o seu contemporâ­
neo O mágico de Oz, Peter Pan era um conto para crianças, mas os adultos foram
atraídos por sua profunda complexidade psicológica. Ele continua tão expressivo
geração após geração que é fácil esquecer que possui uma origem em uma época,
um lugar e uma biografia determinados.
O relato que Peter Llewelyn fez do seu encontro com os soldados escoceses
foi filtrado através das terríveis experiências que teve dez anos depois, mas a his­
tória da sua família ilustrou o fatal entrelaçamento de fantasia e realidade que
marcou o período. Quando Sylvia Llewelyn morreu, no fim do verão de 1910,
Peter e seus irmãos foram confiados aos cuidados do autor que havia arrasado
suas vidas para a peça que o fez famoso. J. M. Barrie aludiu a este ato de transfe­
rência, se não de posse, ao escrever sobre os Darling em Peter e Wendy\ “Nunca
houve uma família mais simples e feliz até o advento de Peter Pan.”
Quando conheceu a família Llewelyn, em 1897, Barrie já estava bem estabe­
lecido, mas, sob a fachada de sucesso, ele vivia atormentado por dúvidas e medos
mórbidos. De baixa estatura, assombrado pela perda do irmão David durante a
infância, aprisionado num casamento a que se referia como um “horrendo pesa­
delo”, Barrie tinha perdido a mãe e o irmão em 1896. Nas suas longas caminhadas
em Kensington Gardens, ele começou a procurar consolo nos filhos dos outros.
Isto foi não só um substituto para a paternidade, mas um reflexo do seu próprio
dilema autodiagnosticado: “Ele era um menino que não conseguia crescer.”
2 Depois do seu sucesso contemporâneo, PeterPan tem sido sempre fonte de inspiração para livros dej)sicologia
popular (como o best-seller de dr. Dan Kiley, de 1983, Síndrome de Peter Pan), para filmes de orçamentos
elevados (como The Wiz, 1978, e E. 77, 1982), e a Neverland, propriedade particular do superastro mais bizarro
da música pop, Michael Jackson.

PETER PAN E OS BOY SCOUTS 95


Um encontro casual com George deu origem a uma amizade com toda a
família. Um ano depois, ele começou a trabalhar numa história infantil sobre as
semelhanças com os passarinhos que via nos bebês em geral e no irmão mais
novo, Peter, em particular. Tirando a ideia de uma peça da época,3 ele concebeu
um personagem chamado Peter Pan que foge do seu quarto de criança e tenta
viver como um pássaro. Tendo se isolado da sociedade humana - um ‘meio a
meio”, nem uma coisa nem outra - ele se torna um proscrito. Quando tenta
voltar para o seu quarto, as janelas estão trancadas: “Não existe uma segunda
chance, não para a maioria de nós.”
A ideia foi mais bem desenvolvida no romance de 1902, O pequeno pássaro
branco, onde Peter Pan aparece como uma trama secundária importante. Depois
do seu sucesso, Barrie dispõe-se a expandir o personagem numa “peça de fàdas”
inteira: um primeiro rascunho feito às pressas ficou pronto em abril de 1904, e os
ensaios começaram seis meses depois. Quando estreou, no dia 27 de dezembro,
Peter Pan foi um sucesso imediato tanto entre os adultos como junto às crianças.
Daphne du Maurier mais tarde escreveu a respeito do desempenho do seu pai,
George, no papel principal masculino: “Quando [o Capitão] Gancho caminhou
pelo seu tombadilho superior no ano de 1904, as crianças foram retiradas da
platéia aos berros.”
Apenas um crítico, Max Beerbohm, notou a fusão por demais perfeita do
adulto com a criança: “Mr. Barrie não cresceu. Ele ainda é absolutamente uma
criança.” Na aparência, Peter Pan é uma peça infantil: como O mágico de Oz>ela
exige uma suspensão do ceticismo adulto e do pensamento linear, e brinca com
os temores arquetípicos de estar perdido e órfão. Mas se Oz é afável e esperançoso
- cheio do otimismo de um novo continente —,Peter Pan é assombrado e assom­
broso: se, para Dorothy e as crianças Darling, nada se compara ao lar, então para
Peter Pan o lar não existe.
O impulso dominante da história de Barrie foi quase exatamente aquele
que Oscar Wilde usou para O retrato de Dorian Gray\ o ideal da eterna juventude
e a natureza faustiana do seu contrato contra naturam. Desde o momento da sua
chegada, quando volta a se unir à sua sombra perdida, Peter deixa claro seu status
de proscrito: “Fugi no dia em que nasci”, ele declara. “Porque ouvi meu pai e
minha mãe falarem sobre o que eu ia ser quando me tornasse um homem. Eu
quero ser sempre um menininho e me divertir: então fugi para Kensington Gar-
dens e vivi muito tempo entre as fadas.”
Peter está em estado de suspensão, de permanente vir-a-ser. Com a sua
capacidade de voar à vontade —lembrança dos sonhos visionários dos românticos
e de Marie Bachkirtseff —, ele transporta a si mesmo e a família Darling para um
3 Chamada Pan and the Young Shepherd, de Maurice Hewlett, (1898).

96 | 1904-1913
reino fantástico, a Terra do Nunca. Um verdadeiro Sonnenkind>4 ele é dotado de
ilimitada autoconfiança e usa sua flauta de Pa para atrair seus seguidores —os
Meninos Perdidos —, que procuram nele, entre os perigos da Terra do Nunca, a
liderança que na verdade nunca chega. Pois, apesar da sua magia, ele não tem
outra moral que não a do interesse próprio. “No meio de uma briga, Peter sem­
pre mudará de lado.”
Apesar da idade que aparenta - ainda tem dentes de leite —, Peter está crio-
genicamente congelado na infância: mas ele se comporta como quem tem idade
para estar na adolescência. Peter parece oferecer intimidade, mas sempre se retrai.
Desejado por vários personagens femininos - Tiger Lily, Sininho e Wendy -,
Peter não pode nem ser tocado: todo o seu ser é “um assustador desdém das leis
da natureza”. Ele pensa que no seu reino mágico pode evitar a idade adulta que
mais teme: no seu mundo, nada pode ser pior do que se tornar “um homem”.
Entretanto, existe um preço a ser pago por esta juventude eterna na maldição
do desenvolvimento contido. No final da peça, Peter está distanciado dos seus
Meninos Perdidos - agora adultos amadurecidos - e da família Darling reunida:
“Não poderia haver visão mais encantadora, mas não havia ninguém para vê-la
exceto um menino estranho olhando pela janela. Ele teve êxtases incontáveis
que outras crianças jamais conhecerão: mas ele via pela janela a única alegria da
qual deverá estar para sempre excluído.”
Tanto PeterPan quanto O retrato de Dorian Gray profetizaram fantasticamente
o século que estaria centrado na juventude. Ambos exploraram elementos auto­
biográficos para apresentar a juventude como um princípio abstrato e explorar o
seu inconsciente explosivo. Mas Wilde foi colocado no ostracismo, enquanto Bar­
rie tornou-se a figura mais homenageada de Londres, e não era difícil ver por quê.
Wilde escreveu o livro para adultos, ambientado num presente reconhecível, e
ficava feliz, como um importante decadente, que as pessoas pensassem o pior dele.
Sendo Barrie um autor para crianças, a explícita fantasia o isentava de críticas,
enquanto a sua vida pessoal ficava intocada por qualquer sugestão de escândalo.
Se a perversidade de Wilde era direta - e solucionada num conto nitidamente
moral -, então a de Barrie estava obstruída, mas onipresente, fluindo pela narra­
tiva como o seu herói misterioso. Escrevendo ao mesmo tempo que as primeiras
investigações sobre a sexualidade infantil, Barrie não podia deixar de reproduzir
um dos princípios centrais de Freud: a insistência de que a infância não é um
estado do qual se transcende com a idade e é descartado como a pele de cobra,
mas que persiste até a vida adulta. Um corolário disto é que estes impulsos in­
conscientes - uma vez tendo sido reprimidos na idade adulta —são passíveis de
vir à tona com violência.
4 Filho do sol.

PETER PAN E OS BOY SCOUTS | 97


A imagem final de Barrie para Peter, para sempre excluído do mundo dos
seus amigos jovens, expressava de maneira fantástica sua própria condição: ele se
sentia proibido de ser quem queria. Havia algo que não estava muito certo na
apaixonada intimidade do autor com as crianças da família Llewelyn Davies,
mas, ao contrário de Wilde, foi ao mesmo tempo controlado e cauteloso para en­
cenar a sua peça de um modo que revestia essas ambigüidades em tradição tea­
tral. Não por acaso Peter Pan foi representado por uma atriz com seus trinta
anos de idade: desejo sublimado em forma aceitável. Este deslize de idade e
gênero foi importantíssimo.
Ao fazer o seu herói ser representado por um adulto com aparência jovem,
Barrie garantiu que a sua mensagem fosse relevante não apenas para as crianças,
mas para os adultos, e que por implicação o desenvolvimento interrompido que
Peter personificava pudesse continuar até a meia-idade. A própria adolescência
está implícita tanto na sensibilidade estouvada, solipsística, quanto na então
contemporânea elisão de todos os estados pré-adultos: este era o período em que
os jovens entre os 14 e 19 anos ainda eram chamados de “meninos”. Embora a
sexualidade explícita esteja ausente, sugestões edipianas afloram no status abjeto
das figuras paternas na peça: Mr. Darling no seu canil, e o Capitão Gancho mu­
tilado, liquidado.
A escolha de alguém do outro sexo para o papel central enfatizou ainda mais
a permanência de Peter na fase anterior à idade adulta: ele não poderia jamais
ser um homem porque já era uma mulher adulta. Isto também colocava a peça
firmemente dentro das tradições da pantomima, com o travestismo da sua atriz
principal (menino principal) e ator protagonista (a dama). Apesar de ser apresen­
tado como um desvio radical, com seu espetáculo tecnológico, Peter Pan era
uma continuação direta do teatro de pantomima de magia e transformação, acres­
cido de um toque freudiano: os outros mundos explorados não eram externos,
mas internos.
O paganismo original da pantomima sobreviveu intacto em Peter Pan. O
herói não ganhou o seu nome à toa. Pã era uma divindade grega famosa, o deus
bode da natureza que, abandonado quando criança, simbolizava a dança e a
música —com a sua flauta de Pã, era a origem do mito do Flautista de Hamelin
europeu. Somado ao seu poder de profecia havia um violento erotismo e uma
aparência de pesadelo. Sendo “o instigador de violento e súbito terror”, Pã talvez
fosse a divindade certa para se ter ao lado num conflito imperial. Havia um pro­
blema, entretanto: Pã foi a única divindade olímpica a morrer no seu tempo,
exatamente como um mortal.
Esta foi uma estranha propaganda imperial. Um dos momentos mais assus­
tadores em Peter Pan, ressaltado pela famosa ilustração de F. D. Bedford, ocorre
quando Peter espera para submergir na lagoa das Sereias. Ele escuta “um tambor
98 | 1904-1913
que soa dentro de si” repetindo a frase: “Morrer será uma incrível aventura.” Em­
bora George Llewelyn Davies tenha sido quem na verdade pronunciou este famoso
epigrama —em 1900, durante a Guerra dos Bôeres —, foi Barrie quem plantara
a ideia na sua cabeça, graças às suas incansáveis descrições de crianças mortas e
da paradisíaca Terra do Nunca para onde elas voavam.
Isto é o que continua a perturbar em Peter Pan. Barrie não podia deixar de
trazer a sua própria psique prejudicada para as suas relações com as crianças da
família Llewelyn Davies. É como se ele as programasse, no estilo Svengali, com
a sua própria fixação na morte. Depois de George, que foi morto em abril de
1915, o preferido de Barrie era o quarto filho, Michael: o relacionamento extraor­
dinariamente intenso dos dois terminou com a morte de Michael em maio de
1921, aos vinte anos, num aparente pacto suicida. Com a infância dos irmãos as­
sim sutilmente contaminada, é difícil discordar da crença de Peter Llewelyn Da­
vies de que Barrie roubou as suas almas.
Mas Peter Pan não afetou apenas uma família: um sucesso estrondoso, tanto
nos Estados Unidos como no Reino Unido, ele foi revivido ano após ano e ra­
pidamente tornou-se elemento básico para a diversão das crianças. A peça inseria
a exploração de gêneros característica da pantomima no novo mercado da juven­
tude, ajudando a fazer da androginia um dos principais símbolos de uma cultura
adolescente em formação. Dentro de um contexto britânico, ela iniciava um novo
paganismo e remodelava a eterna juventude dos românticos em termos de morte
prematura. Ela também condensava as ambíguas visões de juventude que domi­
naram a primeira década do século XX.
A juventude era vista como um arauto elétrico do futuro, uma força da na­
tureza capaz de revificar ou destruir velhas tradições. Se fosse esse o caso, então
seriam necessários esforços maiores para domesticar esta imprevisível e selvagem
besta. Na Grã-Bretanha, o ideal da escola pública continuava sendo o modelo
juvenil perfeito porque personificava o autossacrifício inconseqüente que o impé­
rio exigia de suas crianças. “Estas são as minhas últimas palavras”, Wendy declama
no navio pirata do Capitão Gancho. “Sinto que tenho uma mensagem para vocês
de suas mães verdadeiras, e é esta: ‘Esperamos que nossos filhos morram como
cavalheiros ingleses/”
***
Um dos fãs mais fervorosos de Peter foi um homem solteiro de uns 45 anos de
idade. Robert Stephen Smyth Baden-Powell ficou tão emocionado com a peça de
Barrie que voltou no dia seguinte para assistir a ela de novo, recomendou-a aos
seus amigos e cultivou um relacionamento com a atriz que fazia o papel de Mrs.
Darling, Dorothea Beard. Isto poderia parecer estranho para um soldado de
PETER PAN E OS BOY SCOUTS | 99
carreira e herói nacional, mas, segundo o biógrafo Piers Brendon, Baden-Powell
foi, durante a sua vida inteira, um “eterno menino do coro da escola, um perene
adolescente assobiador, um caso de desenvolvimento interrompido com brio. Ele
era despudoradamente um ‘menino-homem’”.
Nascido em 1857, Baden-Powell foi criado pela mãe depois que o pai morreu,
em 1860. Educado na escola pública de Charterhouse, aderiu ao etos esportivo
da época como um patinho na água: sua bravura nos jogos e atividades militares
mais do que compensava seus fracos registros acadêmicos. Ele também desenvol­
veu um talento para o palco assim como um apreço pela natureza, estimulado
por suas solitárias incursões por áreas rurais remotas. Recusado pela Universidade
de Oxford, alistou-se na cavalaria e foi mandado para a índia, o primeiro de uma
série de postos que o levariam ao Afeganistão e à África do Sul.
O Império Britânico exigia constante vigilância e atividade nas quais os in­
divíduos ficavam subordinados às exigências militares de aquisição e manutenção
imperial. Os livros infantis eduardianos como Our Impire Story, publicado em
1908, ofereciam relatos detalhados do heroísmo que acompanhava os britânicos
ao redor do mundo desde a América do Norte até a Austrália e a índia. A in­
crível resistência de exploradores era combinada com constantes lutas coloniais
contra enxames de nativos, como os bravos “cem” que resistiram às hordas de
zulus em Rorkes Drift.
Em 1900, a Grã-Bretanha era um país com 40 milhões de habitantes e
193.080 quilômetros quadrados tentando controlar uma população de 345 mi­
lhões de pessoas espalhadas por mais de 11,5 milhões de milhas quadradas. Com
esta disparidade, um tom assediante começou a penetrar na ideologia imperial:
cada rebelião era um problema sério para um exército e uma marinha que já ti­
nham chegado ao seu limite. Baden-Powell literalmente personificou esta mentali­
dade, mantendo-se firme durante o longo cerco de Mafeking na Guerra dos Bôeres.
O resgate da cidade foi uma rara notícia boa numa campanha em geral desastrosa:
quando ela chegou, em maio de 1900, provocou manifestações de rua selvagens
e espontâneas.
A Guerra dos Bôeres marcou o momento em que o humor do império mu­
dou de autoconfiante para paranoico. O medo não era apenas de que as conquistas
coloniais estivessem perdidas, mas de que a própria Grã-Bretanha estivesse su­
jeita a invasões. Estas preocupações eram promovidas por revistas juvenis como
Boys Friends e Boys Herald> que publicavam histórias em série de arrepiar os ca­
belos sobre invasões feitas por franceses, russos, alemães. Como dizia um editorial:
“Os meus leitores acreditam que, no atual momento, existem não mais do que
umas centenas de soldados neste país capazes de resistir ao ataque que uma
nação estrangeira antagonista resolva fazer sobre a nossa pequena ilha?”

100 | 1904-1913
O crescente nível de alfabetização por toda a Grã-Bretanha tornava sua ju­
ventude mais suscetível à enxurrada de propagandas alarmistas nestas revistas e
em best-sellers como The Riddle ofthe Sands, de Erskine Childers, e The Invasion
of 1910, de William Le Queux. O tradicional inimigo tinha sido a França, mas
depois da Entente Cordiale, de 1904, o foco mudou para a Alemanha. Os meni­
nos das escolas públicas e os membros da Boys’ Brigade tinham recebido durante
muito tempo o treinamento pré-militar, mas agora a juventude da Grã-Bretanha
como um todo estava sendo preparada para o conflito. Mas, embora a maioria
das novas classes de colarinho-branco e as classes operárias fosse patriótica e rea­
lista, o corpo não estava sempre à altura do espírito nacionalista.
O pânico com os hooligans de 1898 tinha deixado visível a existência de uma
subclasse de jovens em grande parte independente, viciada em cigarros, álcool e
casas de show. Quando estes jovens habitantes urbanos se alistaram para lutar
na Guerra dos Bôeres, o primeiro grande conflito durante trinta anos, foram con­
siderados fisicamente abaixo dos padrões. Em algumas áreas pobres, dois terços
de todos os voluntários foram rejeitados de imediato. Quando se tornou neces­
sário um exército britânico de 450 mil pessoas para sufocar uma rebelião de 40
mil fazendeiros holandeses, ficou evidente que a grande massa da população
masculina do fim da era vitoriana estava longe do ideal musculoso cristão.
O futuro do Império Britânico estava na sua juventude, e ela não estava à
altura da tarefa. Segundo os “Boys Experts” que proliferaram depois da Guerra
dos Bôeres, a culpa era da vida urbana, com seus “males causados pela embriaguez
e o jogo, e outras formas de vício”. Com os hooligans frescos na memória, e com
as histórias de horror da Guerra dos Bôeres tais como o vício de soldados no “po­
deroso narcótico” cordite, a administração da juventude britânica deveria basica­
mente se preocupar com o seu condicionamento físico para a batalha. A primeira
ação foi uma série de leis que pretendiam retirar os jovens do limbo, que eles tão
bem haviam explorado, para a esfera pública.
. Num eco transatlântico da instituição do tribunal juvenil de Illinois, a prisão
de menores de 16 anos no mesmo prédio em que os criminosos mais velhos foi
proibida durante o ano de 1899, enquanto que o Education Act de 1902 pela
primeira vez autorizava o Estado a sustentar a educação secundária. Entretanto,
estas leis não começaram a tratar de problemas mais profundos do ambiente
urbano. Reformadores filantrópicos e grupos de igreja tinham apenas um im­
pacto limitado. Quando a Boys’ Brigade e a Church Lads’ Brigade marchavam
pelos distritos da classe operária, eram muitas vezes recebidos com vaias, pedra­
das e epítetos obscenos.
A deferência indispensável estava desaparecendo. O jovem trabalhador Char­
les Russell observou que “o menino da classe operária é um crítico e de modo al­
gum gentil. Ele é incisivo e rígido. Ele não vê por que deve fazer alguma concessão
PETER PAN E OS BOY SCOUTS | 101
à fraqueza daqueles que fingem controlá-lo, e não faz nenhuma”. Dentro deste
rude ambiente, o “menino” poderia muito bem se tornar um “ikê\ o sucessor
do scuttlen “O ike é um sujeito idiota, que, diante da constante indulgência em
vícios de muitos tipos, perdeu o controle sobre suas paixões mais brutais, e as
deixa livres assim que surge uma oportunidade.”
Má postura e tendências violentas andavam de mãos dadas com uma distinta
falta de entusiasmo imperial. Russel concluiu que “ninguém que tenha tido con­
tato com o menino médio das classes operárias em Manchester pode deixar de se
surpreender com a quase total falta de esprit de corps como a que existe entre os
garotos criados nas grandes escolas públicas”. Se estes eram o ideal britânico, então
o rapaz da classe operária era um exemplo da degeneração que ameaçava a estabi­
lidade imperial com o enfraquecimento da raça. O seu mau estado físico signi­
ficava que ele não poderia satisfazer as “sempre crescentes responsabilidades de
ampliar o Império”.
Como na América, as primeiras ideias sobre adolescência focalizavam o con­
trole dos pobres do meio urbano. O “Comitê Sobre a Deterioração Física” identi­
ficou o problema apresentado pelo rapaz das “classes mais rudes” que escorregava
pela rede da igreja, da escola ou da organização voluntária. Embora notando
com aprovação grupos de jovens existentes como a Boys’ Brigade, a comissão re­
comendava um período mais ajustado de treinamento, com o lugar proeminente
conferido aos “exercícios físicos e disciplinares”, de modo que “o adolescente do
sexo masculino” possa “pegar em armas com muito pouca disciplina suplementar”.
Baden-Powell viu ali sua oportunidade. Em abril de 1904, ele assistiu à ins­
peção e revista de treinamento anual da Boys’ Brigade em Glasgow. Desafiado
pelo fundador da Brigade, William Smith, a “reescrever o livro de escoteiros do
exército para que se adequasse aos meninos”, o ex-coronel lembrou-se do Mafe-
king Cadet Corps, uma organização quase militar de todos os meninos abaixo
da idade militar na cidade sitiada. Entre nove e 18 anos, esses cadetes proporcio­
navam um modelo já pronto de herói: como ele escreveu em Scoutingfor Boys, eles
“não ligavam a mínima para as balas. Estavam sempre prontos para cumprir or­
dens, embora isto significasse arriscar as suas vidas todas as vezes”.
Cinco dias antes da estreia de Peter Pan, este Flautista da Paz revelou o seu
manifesto no Chronicle do Etton College: uma escolha reveladora. Sua carta co­
meçava com a premissa do cerco: “Na Inglaterra, nós somos um pequeno país
cercado de nações muito mais fortes em armamentos, que podem nos esmagar a
qualquer hora. A questão é como nos prevenir contra elas?” Invocando os cavalei­
ros da Idade Média, Baden-Powell propôs um teste para “todos os meninos in­
gleses”: “perguntar a si mesmo todo o primeiro dia do mês - ‘O que fiz para o
bem do país, além do que tenho feito para a minha própria diversão pessoal ou
aprimoramento?5”
102 | 1904-1913
Baden-Powell decidiu formar uma série de grupos locais, incentivados com
a leitura de histórias de aventuras, que em seguida aprenderiam “a atirar com ri­
fles em miniatura”, “a treinar e tomar parte em escaramuças” e a ser escoteiros.
Estes “corpos” seriam explicitamente encarregados de uma litania de deveres ca­
valheirescos: “1. Temer a Deus. 2. Honrar o rei. 3. Ajudar os fracos e atormenta­
dos. 4. Reverenciar as mulheres e ser bondoso com as crianças. 5. Treinar o uso
de armas para defender o seu país. 6. Sacrificar a si mesmo, os seus divertimentos,
a sua propriedade, e, se necessário, as suas vidas pelo bem de seus compatriotas.”
O primeiro teste sério dessas ideias aconteceu em 1907 com o acampamento
de escoteiros inaugural, onde 21 meninos entre nove e 17 anos foram instruídos
na ética e nos aspectos práticos do movimento: lealdade ao rei e ao império,
técnicas de acampamento, culinária, marchar e rastrear. Baden-Powell estava
muito satisfeito com a mistura de turmas, o seu grupo de teste tendo sido cuida­
dosamente selecionado para incluir tanto os meninos da escola pública como os
da classe operária. “Os garotos mais grosseiros subiam perceptivelmente de nível
em questão de comportamento, limpeza etc.”, ele escreveu, “eles observavam e
imitavam os outros e melhoravam num grau notável em muito pouco tempo.”
O escotismo tinha passado por muitas mudanças desde o manifesto de 1904.
Baden-Powell tirava as suas ideias de muitas fontes: literatura clássica, as teorias
de educadores como Johann Heinrich Pestalozzi e Frederick Jahn, assim como de
rituais dos espartanos, dos antigos britânicos e do bushido japonês. Entretanto,
a sua maior influência veio dos American Woodcraft Indians, um grupo criado
nos primeiros anos do século por Ernest Thompson Seton. Baden-Powell conhe­
ceu Seton na sua visita à Grã-Bretanha em 1906: para mortificação deste, ele
adaptou o ideal woodcraft numa forma mais regimentada.
Incentivado por sua fama de herói de Mafeking, Baden-Powell atraiu o
apoio do editor e patrocinador C. Arthur Pearson, cujo principal periódico era o
Daily Express, lançado em 1900 como um jornal para o mercado de massa com
uma programação explicitamente patriótica: “Nossa política é o Império Britâ­
nico.” Como parte desta visão de mundo, Pearson já havia instituído um Fresh
Air Fund para mandar crianças pobres para o campo, e, durante o ano de 1907,
ele deu à campanha de Baden-Powell um imenso estímulo com turnês de palestras
e uma publicidade relâmpago. Ele também assumiu a publicação da revista do
movimento.
Dando destaque a histórias de aventuras e competições, The Scout foi um
sucesso imediato, atingindo uma circulação semanal de mais de 100 mil exem­
plares no fim de 1908. Pearson também ajudou a cunhar o nome do movimento:
“Não acho que Escoteiros Imperiais seja um bom nome”, ele escreveu em 1907.
“Parece-me que deveríamos certamente usar a palavra menino’. Não penso que
PETER PAN E OS BOY SCOUTS | 103
você irá superar Meninos Escoteiros (Boy Scouts).” Com uma campanha pela
mídia, com artigos nos jornais, palestras e publicações, o mercado foi preparado
para o lançamento do escotismo com a primeira aparição em série do livro de
Baden-Powell, em janeiro de 1908.
Este manifesto foi um instantâneo e duradouro sucesso. Baden-Powell tinha
um talento para a intensidade que correspondia de perto às sensações intensificadas
na adolescência. As suas descrições de técnicas de trecking tinham uma densidade
quase alucinatória, enquanto a sua insistência na observação minuciosa da natu­
reza aproximava-se do total envolvimento com o aqui e agora, que é a marca re­
gistrada da religião oriental. Acima de tudo, ele a fazia parecer divertida: “Acampar
é a parte divertida da vida do Escoteiro... viver ao ar livre, entre as colinas e as ár­
vores, entre pássaros e animais ferozes, o mar e os rios - isso, viver com a natureza.”
Scoutingfor Boys estava organizado em torno de 26 “contos ao redor da fo­
gueira” que cobriam tópicos relevantes como “cozinhar no acampamento”, “seguir
pistas” e “aperfeiçoamento pessoal”. A maioria das explicações práticas baseava-
se firmemente no bom senso e contém uma riqueza de detalhes —como dar
nove tipos de nós diferentes, por exemplo - que continua a formar a base dos
manuais de sobrevivência atuais. Dentro deste vivido formato, Baden-Powell
citava inspirações para o movimento: os Cavaleiros de São Jorge, os gaúchos da
América do Sul, os Zulus e os índios americanos.
Baden-Powell também citou indíviduos famosos como o presidente dos Es­
tados Unidos, Theodore Roosevelt, e modelos cavalheirescos do etos escotista, como
o de um rapaz escocês de 18 anos, “chamado Currie”, que tentou salvar uma me­
nina de um trem que se aproximava. O ideal era o autossacrifício e o altruísmo.
Baden-Powell encontrou o seu menino perfeito na pessoa de Robert Hindmarsh,
um jovem pastor que detectou um assassino andarilho através da experiência da
vida nas florestas e de sua observação: “Você deve se lembrar de que seus atos
podem estar sendo observados por outras pessoas e tomados como exemplo,
também. Portanto, tente cumprir com os seus deveres corretamente em todas as
ocasiões.”
Cada escoteiro estava ligado por promessas que incluíam “lealdade ao rei,
ao seu país, a seus colegas escoteiros, a seus pais, a seus empregadores e àqueles
subordinados a ele”. Estas também insistiam em que “um escoteiro obedece a
ordens dos seus pais, do líder da patrulha ou do mestre escoteiro sem questio­
nar”. Baden-Powell ecoou Henry Newbolt no seu discurso à “geração mais jo­
vem de bretões que estão agora crescendo para ser homens do Império”: “Não
sejam desgraçados como os jovens romanos que perderam o império de seus
avós por serem fracos e indolentes sem nenhuma energia ou patriotismo. Divir­
tam-se! Cada homem no seu lugar, e joguem segundo as regras!”
104 | 1904-1913
Tais exortações revelavam que o manifesto de Baden-Powell não era tão desti­
tuído de ideologia como afirmava. Scoutingfor Boys estava imerso no etos imperial
do cristianismo muscular das escolas públicas. Havia ilustrações caricaturadas
grosseiras que inferiam características essenciais a partir da aparência exterior. Gente
e roupas “parecendo estrangeiras” eram alvos automáticos de suspeitas: isto numa
época em que se dizia, num documento da Royal Commission, que os imigrantes
acolhiam entre si “criminosos, anarquistas, prostitutas e pessoas de mau caráter,
num número além do percentual comum da população ativa”.
Baden-Powell reproduziu ainda mais as teorias da degeneração da época com
suas freqüentes injunções contra o fumo, a bebida, a masturbação e os indolentes:
“Não há espaço para o malandro e o resmungão.” Tendo como alvo o “rapaz” da
classe operária a quem os especialistas em meninos tinham identificado como sen­
do um problema, o escotismo teve uma recepção variada. Alguns jovens das áreas
pobres ficaram encantados em jogar este novo jogo excitante e se juntar a um
grupo de colegas que oferecia aventura, viagens no campo e alguma liberdade
das exigências de pais, professores ou patrões.
Em 1910, o escotismo ainda
não era o movimento que viria a Ho. 8 ,__________ THE "MAÕHET* LIBBABY___________________ HÍ

ser a partir da década de 1920, mas CAPA DA PRÓXIMA TERÇA-FEIRA


já era o maior grupo de jovens no
Reino Unido, com mais de 100 mil . de
membros. Como a Boys’ Brigade The MAGNET Librar?
e outros grupos de jovens, entre­
tanto, era composto principalmen­
te de jovens da classe média baixa
e da classe operária alta. Deixou
de atingir uma grande parte dos
judeus dos bairros pobres que es­
tavam ameaçando o império por
duas razões principais: o uniforme
e a matrícula eram caros demais, e
muitos jovens eram hostis à insis­
tência do movimento na discipli­ ELE SENTIA M U I­
na e nos exercícios militaristas.
O etos da escola pública foi TO, MAS NÃO PÔDE
implantado nos jovens urbanos po­ DEIXAR DE RIR.
bres por um outro caminho, ines­
perado. O gosto de todas as clas­
ses por histórias em quadrinhos e ANÚNCIO NO PRIMEIRO NÚMERO
DE MACNET, 1908
revistas ilustradas estava bem defi-
PETER PAN E OS BOY SCOUTS | 105
nido na época em que Magnet foi lançada, em 1908, no mesmo ano de Scouting
for Boys. O primeiro número apresentava um “um conto escolar completo”, es­
crito por Frank Richards, contando como um jovem rebelde é despedido por
um “velho soldado bronzeado, de rosto severo”. Tendo descoberto que seu sobri­
nho estava “levando uma vida desregrada”, Colonel Wharton o manda para um
colégio interno numa tentativa de curar a sua natureza “voluntariosa e teimosa”.
As lutas de Hariy Wharton eram uma leitura irresistível, em parte porque a
sua indubitável “garra” estava temperada por sua hostilidade de pavio curto. Dentro
do primeiro número de Magnet, havia pelo menos cinco lutas sangrentas dignas
do nome: muita selvageria para satisfazer o scuttler mais assíduo. Seu retrato de
uma sociedade fechada, dominada pelos pares, onde os meninos se comporta­
vam mal mas acabavam sendo recebidos de volta no rebanho, fazia de Magnet e
suas estórias do Greyfriars um sucesso instantâneo, não apenas junto aos meninos
das escolas públicas, mas entre os habitantes dos bairros pobres da cidade.
Nas suas memórias da vida em Salford, na década de 1900, The Classic Slum,
Robert Roberts lembrou que ele e seus colegas eram viciados: “Os padrões de con­
duta observados por Harry Wharton e seus amigos no Greyfriars definiam normas
sociais diante das quais os estudantes e alguns jovens adolescentes lutavam espas-
modicamente para se adaptarem. Lutas - na teoria, pelo menos - aconteciam
segundo regras do Greyfriars: não bater no adversário se ele estivesse caído, não
chutar, de fato não usar nenhuma arma exceto o punho viril. Na Old School
aprendemos a admirar coragem, integridade, tradição; nós zombávamos do glu-
tão, do americano e do francês.”
Comparada com a sua própria escola triste, este estabelecimento fictício
“tornou-se para alguns de nós a nossa verdadeira Alma Mater, à qual nos sentía­
mos ligados por uma lealdade sonhadora”.5 Roberts reconheceu que “o etos da
escola pública, distorcido em mito e vendido entre nós em publicações baratas,
para o bem ou para o mal, definia ideais e padrões. Nisto, nossos próprios tu­
tores, religiosos e seculares, falharam. Numa estimativa final, pode muito bem ser
que Frank Richards, durante o primeiro quartel do século XX, tenha tido mais
influência sobre as mentes e perspectivas da jovem classe operária inglesa do que
qualquer outra pessoa isolada, não excluindo Baden-Powell”.

^ Roberts lembrou que havia meninos tão ávidos por números atuais do Magnet e Gem que viajavam num dia
de semana até a estação de trem da cidade para pegar o carregamento que vinha de Londres e comprar os
primeiros exemplares nas bancas de livros. Um rapaz entre nós adotou um jeito de andar aos saltos tentando
imitar o passo adédco, elástico de Bob Cherry. Timidamente, incorporamos a gíria incompreensível à nossa
própria maneira de fàlar, cheia de imprecações - ‘Yaro-oh!’, ‘Minha santa tia, ‘Leggo!’ e uma dezena de outras.
Os Famous Five eram para nós como jovens cavaleiros, sans peur et sans reproche".

106 | 1904-1913
CAPÍTULO 7

Calouros da escola secundária e alimento para a fábrica


Adolescência americana e a indústria
>jc íjí

A jovem geração praticamente se criou sozinha. A disciplina nas escolas,


desde a abolição do castigo corporal, tornou-se quase nominal; a disciplina
da Igreja é praticamente nula; e até a disciplina dentro de casa, embora
retenha as formas, nada mais é do que uma casca vazia. A criança
moderna a partir dos dez anos é quase o seu próprio “chefe”.
- Randolph S. Bourne, "The Two Generations", Atlantic Monthly, m aio de 1911

C IN C O M EN IN O S AMERICANOS, A N O S 1900
ENQUANTO OS PAÍSES europeus imperiais disputavam posição, a América come­
çava a afirmar os seus direitos como a potência financeira e industrial do novo
século. Suas intenções foram declaradas no início de 1901, com a criação da
United States Steel Corporation. Capitalizada em 1,4 bilhão de dólares, a nova
companhia uniu num só cartel quase todos os produtores de aço americanos,
num acordo montado pelo banqueiro J. P. Morgan. Fazendo encolher até a Stan­
dard Oil Company de Nova Jersey, de John D. Rockefeller, ela era a maior com­
panhia do mundo.
A América tinha as suas próprias ambições imperiais na década de 1900,
mas elas excluíam a intervenção direta nas disputas europeias. A influência do
país seria exercida através da indústria. Temporariamente livres da corrida arma-
mentista que começava a consumir seus concorrentes mais próximos, a América
perseguia o seu próprio Destino Manifesto. Isto era capitalismo rigoroso, que se
definia não apenas pela produção industrial, mas pela sua utilização, mediante o
fluxo de dinheiro, em corporações ainda maiores —instituições que eram verdadei­
ras personificações do tamanho e do potencial do país.
O lugar da juventude dentro deste projeto nacional era importantíssimo.
Assim como os jovens do norte da Europa estavam sendo programados para
lutar na guerra prestes a acontecer, a juventude da América iria representar o seu
papel dentro do ideal dos negócios. Este imperativo teve um considerável im­
pacto sobre a política educacional americana, que retirava cada vez mais adoles­
centes do trabalho nas fábricas conforme uma nova classe empresarial e de serviços
começava a ser moldada. Com a crescente urbanização, os velhos tempos de in­
dividualismo da fronteira, sede de viagens e autossuficiência tinham acabado.
Homens de negócios exigiam segurança, força física, obediência inquestio­
nável e capacidade de trabalhar em grupo —de desenvolver, no jargão educacional
da época, “uma disposição socializada”. Como na escola pública britânica, este
etos era mais bem inculcado nos jovens com o esporte, e as atividades em equipe
passaram a ter importância primordial nas escolas e universidades. Entretanto, a
América precisava de mais potencial humano para o seu Destino Manifesto do
que as classes média e alta poderiam proporcionar. Assim como o continente
havia sido domado, tornava-se necessário treinar todos os jovens americanos para
que abandonassem o seu comportamento “atávico”.
O crescente foco na adolescência durante a década de 1900 assumiu a forma
de preocupação oficial e pública com a manifestação mais visível dos jovens: as
classes miseráveis selvagens que viviam tão desregradamente nas áreas pobres das
cidades que ameaçavam contaminar os filhos dos burgueses. Num manual contem­
porâneo intitulado Boys As They Are Made and How to Handle Them, F. H. Briggs
afirmava que o delinqüente não vinha “do lar onde a indústria, a inteligência e a
frugalidade prevalecem”, mas era “o menino do outro lado da cerca dos fundos”.
108 | 1904-1913
* * *

Em Adolescence, G. Stanley Hall havia definido com sucesso a puberdade como


uma fase distinta da vida, mas esta definição agora era usada pelas classes comer­
ciais para impor seus valores sobre a juventude americana como um todo. Desde
1905, o problema da juventude era assunto principal nos jornais e revistas voltados
para o mercado de massa. A Harpers Bazaar, a Good Housekeeping e a campeã
de vendas Ladies’ Home Journal publicavam artigos sobre “Como e quando ser
franco com os meninos”, “Com que meninos meu filho deve brincar”, e “Manten­
do na linha um menino da cidade”. Artigos sobre “meninos” e “delinqüência ju­
venil” eram dez vezes mais numerosos do que na década anterior.
O recém-desenvolvido mercado para a classe média foi levado a pensar que
os jovens valentões urbanos representavam uma séria ameaça social, que a delin­
qüência era contagiante e poderia passar para os seus próprios jovens. Como o
m ais famoso especialista em jovens do país, Stanley Hall foi empurrado para este
debate nacional. Ele revelou que tinha recebido centenas de cartas de pais e ami­
gos preocupados: “A questão em todas estas cartas é: ‘O que fazer?’ Os pais ou
parentes estão desnorteados e dispostos a qualquer solução desesperada.” Ele con­
cluiu que “nunca, nem mesmo o menino americano, foi tão rebelde como agora”.
Numa entrevista em janeiro de 1906, Hall declarou num escândalo nacional
que, de 27 milhões de jovens americanos entre cinco e 21 anos, apenas 12 mi­
lhões freqüentavam a escola. Mesmo num sistema de educação em tempo integral,
estas crianças - os meninos particularmente - estavam sendo arruinadas por
deficiência de currículo: “O trabalho com muita frequência degenera num tipo
de brincadeira.” O pior de tudo era que os alunos podiam escolher “suas próprias
matérias para estudar”: “Isto mais uma vez depende do princípio dos direitos in­
dividuais do cidadão e até da criança, nos quais as possibilidades de serem presi­
dentes jamais são esquecidas.”
Na sua maneira de ver, a educação americana comparava-se favoravelmente
com o sistema alemão, que não apenas mantinha cada criança na escola por um
maior número de horas mas também tornava seus alunos mais adequados às
exigências da indústria. Até a língua funcionava a favor dos alemães, com o seu
“vocabulário técnico” que uma criança era capaz de entender. A comparação foi
de importância vital pois “pergunta-se muito por que os alemães estão se diri­
gindo tão rapidamente para as áreas industriais, mercantis, técnicas e administra­
tivas”. Educação era a chave para esta “regeneração”, sustentada por uma cons­
ciência nacional de objetivo que envergonhava a América.
A “efeminação” das escolas americanas tinha sido responsável por criar uma
geração de adolescentes rebeldes. Num artigo de 1908, Hall criticava a situação
CALOUROS DA ESCOLA SECUNDÁRIA E ALIMENTO PARA A FÁBRICA | 109
causada pela “feminilização rapidamente progressiva da força de ensino”: “A per­
suasão moral prevalece, o castigo está banido, e um espírito de açucarada benig-
nidade que não produz a melhor têmpera na alma dos meninos impregna a
escola.” No gráfico que acompanhava o artigo, grupos jogando futebol e andando
de trenó eram contrapostos com um único jovem esteta, de cabelos longos, rou­
pas de veludo e punho de renda: o espectro da decadência.
Hall não era um completo vitoriano, mas era um homem da sua era, e o seu
foco nas inadequações das escolas secundárias fazia parte de uma indagação na­
cional mais ampla que, basicamente, dizia respeito ao status internacional da Amé­
rica. O “vandalismo” que Hall interpretava como um problema de disciplina tinha,
para muitos educadores e homens de negócios, uma conseqüência mais profunda.
A nova era de massa americana não favorecia o indivíduo ou o dissidente. Todos
tinham o seu papel a representar, e esse papel não era, como na Europa, predes­
tinado pela classe, mas pela economia.
As comparações entre América e Alemanha —ambos países novos-ricos —
não eram feitas levianamente. Com a sua expansão sem precedentes, a Alemanha
era ao mesmo tempo inspiração e motivo de preocupação. O problema dos Es­
tados Unidos era que níveis maiores de produção não correspondiam a um con­
sumo equivalente. As conseqüentes deficiências deixaram a economia vulnerável
às desastrosas depressões dos meados da década de 1870 e início dos anos de 1890.
A saída para este impasse não era cortar a produção, mas expandir o mercado
potencial para uma variedade mais ampla de produtos.
O primeiro sinal desta solução foi um impulso agressivo para as exportações:
depois de a vitrine da América ser exposta ao público na Expo 1893, estava na
hora de expedir e vender. Durante o ano de 1902, o banqueiro sênior Frank
Vanderlip celebrou a “invasão comercial da Europa” pelos americanos: o país
tinha “enviado carvão para Newcasde, algodão para Manchester, talheres para
Sheffield, batatas para a Irlanda, champanhes para a França, relógios para a Suíça
e vinho do Reno’ para a Alemanha”. O Destino Manifesto estava ganhando da
isolacionista Doutrina Monroe.
Ao contrario dos seus sósias alemães, não se esperava dos jovens americanos
que se unissem em defesa contra “inimigos de todos os lados”. A tarefa deles era
trabalhar nas fábricas que haviam começado a rejeitar. Para os homens de negó­
cios, a equação era simples: cada delinqüente, cada menino feminilizado estava
se recusando a preencher a sua definição de masculinidade adequada. Exatamente
quando a América precisava produzir como nunca antes, muitos dos seus jovens
nativos recusavam-se a participar do processo de manufatura. Em vez de examina­
rem as más condições nas fábricas, os empregadores preferiam culpar as escolas.
Na década de 1900, as matrículas nas escolas secundárias tinham atingido
níveis sem precedentes graças às sucessivas campanhas de reforma. Isto tirou
110 | 1904-1913
muitos adolescentes do mercado de trabalho, mas os filhos dos novos imigrantes
ocuparam logo o lugar deles. Entretanto, os industriais não demoraram a desco­
brir que esta nova fonte de alimento para a fábrica não era inexaurível. Muitos
novos cidadãos americanos trouxeram do Velho Mundo suas políticas socialistas
e, com isso, promoviam agitações para conseguir um maior reconhecimento
sindical. O sistema de aprendizado estava sob o controle da American Federation
of Labor, que tentava aumentar os salários dos jovens.
O movimento contra o trabalho infantil já avançava: antes de 1900, 28
estados aprovaram leis regulamentando sua prática. Um de seus líderes, Florence
Kelly, formou o National Child Comittee, que saiu em defesa de controles federais
mais rígidos sobre o “poder de trabalho dos jovens”.1Em 1906, o escoriante estu­
do de John Spargo, The Bitter Cry ofthe Children (O Grito Amargo das Crianças),
foi publicado. Jane Addams, inspirada pelo Adolescence de Hall a dar atenção ao
problema dos adolescentes urbanos, escreveu uma série de observações e recomen­
dações que foram reunidas no seu livro de 1909, Youth and the City Streets.
Uma de suas chocantes histórias falava de um menino de 15 anos que traba­
lhava numa usina de aço: sua função era “acionar uma alavanca quando um pe­
queno tanque estivesse cheio de metal derretido. Durante os poucos instantes em
que o tanque enchia, ele tinha o costume tolo de pegar o reflexo do metal num
pedaço de espelho e lançar o pontinho de luz na direção dos olhos de seus cole­
gas de trabalho. Apesar de um capataz exasperado privá-lo duas vezes do seu espe­
lho, com um terceiro fragmento ele estava um dia fazendo a luz piscar no ambiente
sombrio da oficina quando o tanque esquecido transbordou, calcinando quase
instantaneamente as suas duas pernas.”
Addams foi tão acusada de impor valores da sua própria classe aos jovens
das áreas pobres quanto qualquer outro reformador, mas, além da eficácia prática
do seu trabalho e do seu despertar de consciências, o seu desejo de melhorar as
condições de vida correspondiam aos desejos e necessidades das massas. O princí­
pio de melhoramento estava enraizado na psique americana. Tendo sido levados
a acreditar que todos os homens são iguais, muitos imigrantes novos viam a es­
cola secundária como o primeiro passo nesse sentido, se não para eles mesmos,
mas para seus filhos, que aprenderiam a ser verdadeiros cidadãos do Novo Mun­
do. Ela oferecia uma forma de sair da fábrica.
Perdendo constantemente jovens trabalhadores para a matrícula na escola,
os empregadores reagiram. Eles achavam que se gastava muito tempo em assuntos
1Depois de anos de lobby pelo National Child Labor Committee, foi aprovada uma lei federal, o Keating-Owen
Act, em 1916, com rígidias cláusulas sobre as condições de emprego dos jovens: a idade mínima para trabalhar
era 14 anos, até 16 nas minas e pedreiras, e ninguém com menos de 16 anos podia trabalhar durante a noite. A
semana de trabalho não podia passar de 48 horas, com um máximo de oito horas diárias. Embora o Supremo
Tribunal declarasse o ato inconstitucional em 1918, ele estruturou muitas leis estaduais individuais.

CALOUROS DA ESCOLA SECUNDÁRIA E ALIMENTO PARA A FÁBRICA I 111


gerais, como latim, álgebra e história, e que a escola secundária havia instituído
com sucesso uma educação de colarinho branco. Durante o ano de 1905, a sua
organização lobista, a National Association of Manufactures (NAM), instituiu
o seu próprio Committee of Industrial Education. Seu objetivo fundamental era
combater as ameaças da Alemanha —a crescente potência industrial na Europa
—e do crescente poder dos sindicatos criando um novo sistema de educação que
daria prioridade às necessidades da indústria.
Tendo como modelo o sistema alemão de educação técnico-industrial, a co­
missão de donos de indústrias procurava treinar “meninos americanos” para in­
gressarem nas fábricas com aptidões especializadas e de supervisão. Com outro
grupo lobista chamado National Society for the Promotion of Industrial Educa­
tion, eles promoviam agressivamente um sistema segregado de instrução. Era tem­
po, como observou o decano da Escola de Educação da Universidade de Stanford
em 1909, de “desistir da ideia excessivamente democrática de que todos são iguais,
e que a nossa sociedade é destituída de classes”.
Sob este novo sistema, as crianças seriam graduadas na fase elementar. Aquelas
mais bem classificadas receberiam uma educação secundária generalista orientada
para os clássicos. O resto teria uma instrução vocacional que, segundo a convenção
da National Education Association, de 1908, incluiria “contabilidade, aritmética
comercial, estenografia e datilografia, correspondência comercial e legislação co­
mercial. No treinamento manual, os estudantes podiam estudar desenho mecâni­
co, trabalhos em madeira, em ferro, modelagem e metalurgia avançada”. Haveria
cursos de ciência doméstica para as meninas, incluindo “culinária, corte e costura,
confecção de vestidos, economia doméstica”.
Embora rapidamente integradas dentro dos currículos das escolas secundárias,
estas reformas não tiveram aprovação unânime. O problema era que “as massas”,
depois da oferta de uma escada educacional para sair da fábrica, não entendiam
por que deveriam voltar para lá, especialmente se as condições de trabalho ainda
eram brutais e desumanas. Muito pior era que este sistema graduado de ensino
estava começando a resultar num tipo de segregação já praticada contra os negros:
para cada dólar gasto na educação de uma criança negra, mais de 33 dólares iam
para a educação da sua correspondente branca.
Ao mesmo tempo, a segregação de gênero estava se tornando parte da prática
educacional, defendida por muitos daqueles que atacavam a “feminilização”. Na
década de 1900, zombava-se das meninas que se saíssem bem academicamente.
Para as filhas das “massas”, o casamento era a vocação aprovada. Se não, elas se­
riam educadas para trabalhos de serviço na indústria. “Quem se formasse em eco­
nomia doméstica podia ensinar culinária, costura, bacteriologia, química ou quais­
quer dos seus vários ramos. Ela podia supervisionar os alimentos e a higiene de
112 | 1904-1913
instituições tais como hospitais, hospícios, estabelecimentos mercantis, usinas
de algodão e casas de correção.”
Insistindo neste sistema, os homens de negócios e os educadores americanos
encontraram resistência tanto por parte de pais quanto de professores. Eles não
percebiam que o sistema prussiano não era produto de uma democracia, mas de
um império feudal. Como a quantidade de escolas secundárias continuava a au­
mentar no início da década de 1910, a batalha entre acadêmicos e vocacionalis-
tas crescia. Se os primeiros estavam empenhados na “obrigação da comunidade
e do Estado para um desenvolvimento superior e melhor do indivíduo”, os últimos
estavam simplesmente preocupados em tornar “cada empregado individual subor­
dinado à produção da sua instituição particular”.
***
Este conflito ideológico impediu a aceitação da educação secundária durante a
década de 1910. Embora o número de adolescentes de 14 a 17 anos na escola
dobrasse, isto era apenas um pouco mais de 30% do total no fim da década. E
o índice de abandono permanecia alto nas cidades grandes. No seu levantamento
de 1914, The High SchoolAge, Irving King notou que em algumas áreas urbanas
pobres, um total de 88% dos alunos em idade escolar não se formavam, porque
“não achavam possível, ou talvez não valesse a pena, continuar estudando”.
As escolas secundárias podiam atrair mais alunos, mas não os mantinham.
O currículo talvez fosse o responsável, mas a questão de classe era uma razão mais
forte. Seja por necessidade ou temperamento, muitos jovens pobres não viam
razão para ficar no ambiente escolar e saíam para o mundo dos empregos tempo­
rários, de bancos salários, ou para a delinqüência. No que lhes dizia respeito, até
alguns centavos no bolso davam status e permitiam um certo controle sobre suas
próprias vidas.
Ao mesmo tempo, a escola secundária estava no caminho de ser considerada
uma instituição de aspirações. A sua imagem idealizada, promovida pela ficção
popular tal como o romance de H. Irving Hancock, publicado em 1910, The High
School Freshmen, era de cidade pequena e classe média: ainda mais do que as his­
tórias de Frank Richards para a Magnet, ela estava perfeitamente sintonizada com
os valores do mundo dos negócios. Entretanto, tendo recebido mais liberdade do
que suas companheiras britânicas, as crianças pobres americanas eram menos
influenciadas por estes documentos melhoradores.
Ambientado numa “típica cidade pequena americana, com uns 30 mil habi­
tantes”, The High School Freshmen coloca Dick Prescott, o filho certinho de um
dono de livraria, contra o corrupto e vingativo Fred Ridley. Enquanto “todos os
amigos de Dick eram meninos de famílias de condições econômicas medianas”,
CALOUROS DA ESCOLA SECUNDÁRIA E AUMENTO PARA A FÁBRICA | 113
o “advogado Ridley dava a Fred muito mais dinheiro do que o rapaz esnobe
sabia utilizar”. Apesar de ser um calouro humilde de 14 anos, Prescott se distin­
gue na escola por sua coragem e habilidade nos esportes. O seu prêmio é ser
convidado para o baile dos veteranos.
Dando destaque a brigas com socos e proezas escusas saídas direto de Tom
Brotvrís Schooldays ou Magnet, High School Freshmen está bem dentro da tradição
europeia das histórias de estudantes, com as quais também divide uma inclinação
propagandista. Como Dick roga ao seu inimigo mortificado: “Vamos, Fred, seja
um cara diferente. Decida-se a vencer na escola secundária e depois na vida, li­
dando com todo mundo na praça. Seja agradável e honesto —seja um cara de clas­
se alta - e todos gostarão de você e vão querer a sua amizade.” A estima de pares
não é conferida pelo dinheiro, mas pela habilidade nos esportes e capacidade de
jogar em equipe.
O romance de Hancock compartilhava os mesmos valores dos “livros para
meninos” que haviam influenciado a opinião da América sobre crianças e adoles­
centes desde o sucesso do The Story of a BadBoy, de Thomas Bailey Aldrich, e
A Boys Town, de William Dean Howells. Nestas obras do fim do século XIX, a
natural travessura de meninos levados era no final domada com atividades ao ar
livre e moralidade prática, de cidade pequena. Elas eram publicadas em série em
revistas infantis como Youth’s Companion and Harpers Young People, junto com
guias explicitamente dedicados a meninos, como o Boy Scouts of America, de Er-
nest Thompson.
O etos por trás dos livros para meninos - resumido no romance de Seton,
em 1903, Two Little Savages - seguia a teoria de recapitulação explorada em Ado­
lescence. Para o autor John T. Trowbridge, o menino era “um bárbaro. Ele herda
não só as moderadas possibilidades dos pais, mas também os traços felinos ou ti-
grescos que permitiam aos seus progenitores, no obscuro passado, lutar pela exis­
tência. Às vezes é como se sua humanidade fosse tão fina quanto o seu casaco, e
caísse nele da mesma forma frouxa. O animal selvagem está disfarçado; desnu­
de-o e você encontrará as listras.”
Estes livros ofereciam soluções práticas para lidar com a selvageria dos me­
ninos de oito a 14 anos. Elas incluíam esportes, pais alertas e educação vocacional.
A atividade física e os esforços práticos também eram inculcados pelo grupo de
jovens lançado por Ernest Thompson Seton, o American Woodcraft Indians.
Apesar de todos os seus subtons místicos, esta era uma organização que não to­
lerava dissensões: como Seton escreveu em How to Play Indian: “Não se rebele.
A rebelião contra qualquer decisão do Conselho é punível com a expulsão. A obe­
diência absoluta é sempre imposta.”
O ideal humano de Seton incluía o autocontrole e a responsabilidade. Com
a sua limpeza, liderança e altruísmo, o chefe shaumee, Tecumseh, era “o persona­
114 1904-1913
gem mais parecido com Cristo apresentado nas páginas da história americana;
ele, portanto, é o modelo de perfeita masculinidade que escolho para orientar o
jovem homem da América”. O primeiro manifesto completo do movimento,
The Birch Bark Roll ofthe Woodcraft Indians, foi publicado em 1906. Com a sua
natureza autogestora, seu sistema de prêmios e hierarquias, regras e juramentos,
e a mística da vida ao ar livre, ele oferecia um modelo definitivo para o movi­
mento escoteiro.
A instituição voluntária mais bem-sucedida que buscava canalizar de forma
produtiva as energias da juventude americana foi o Boy Scouts of America, fun­
dada por um editor de Chicago chamado William D. Boyce, em 1910. Embora
inspirado em Seton, Boyce era melhor organizador e observou o sucesso de Ba-
den-Powell: em poucos anos, seu grupo havia absorvido o American Woodcraft
Indians assim como outros grupos de escoteiros como os Sons of Daniel Boone.
Tendo como alvo “meninos” entre 11 e 17 anos, o Boy Scouts of America estava
organizado segundo as mesmas coordenadas de seu correspondente inglês.
Em 1911, o BSA publicou o seu manual, Handbook for Boys, que incluía o
Juramento do Escoteiro Americano: “Juro pela minha honra dar o melhor de
mim, cumprir meus deveres para com Deus e o meu país, obedecer à Lei do
Escoteiro, ajudar os outros sempre, manter-me fisicamente forte, mentalmente
desperto e moralmente correto.” A Lei do Escoteiro delineava as qualidades que
exigia de seus membros: “Um escoteiro é digno de confiança, leal, prestativo,
amigo, cortês, bondoso, obediente, bem-disposto, econômico, bravo, limpo e
reverente.” Os escoteiros organizavam-se segundo ordens hierárquicas rígidas,
desde o grupo básico, chamado Patrol, até o maior Pack Troop.
A organização rapidamente se tornou uma força nacional. A revista do BSA,
Boys Life, começou a ser publicada em 1912, no ano em que Juliette “Daisy”
Low formou o American Girl Scouts, depois de conferir em primeira mão o Bri-
tains Girls Guides. A ênfase em ambas as organizações estava na vida ao ar livre,
nos acampamentos e nos trabalhos em madeira: méritos eram conferidos pelo
conhecimento das habilidades de escotismo num programa progressivo destinado
a incentivar a responsabilidade pessoal, as qualidades de liderança e o serviço à
comunidade. Em 1916, o Congresso deu ao BSA uma carta federal, quando já
havia mais de 250 mil escoteiros por toda a América.
Apesar de todos os seus problemas iniciais, entretanto, a escola secundária
ainda era a melhor resposta para a delinqüência juvenil e o trabalho infantil. No
entanto, romances como The High School Freshmen, que visavam explicitamente
a um grupo etário mais velho —“meninos de todas as idades abaixo dos sessenta”
- combinavam a verdadeira instituição com a sua contraparte ficcionalizada. As
histórias de arrojos juvenis de Hancock mascaravam a propagação de valores do
mundo dos negócios. “Não é só brincadeira na escola”, Hancock concluiu. “Uma
CALOUROS DA ESCOLA SECUNDÁRIA E ALIMENTO PARA A FÁBRICA | 115
vasta quantidade de estudos precisa ser dominada. Existem exames exasperantes.
É uma vida tremendamente ocupada, apesar dos esportes.”
A escola secundária era projetada como uma máquina de assimilação desde
o início. Devido à necessidade de integrar muitas raças e nacionalidades diferentes,
a América desenvolveu uma estrutura social conformista altamente conservadora.
A sala de aula tinha se tornado um instrumento homogeneizante importantíssimo.
O educador progressista John Dewey a considerava o lugar ideal para preparar
os jovens para as exigências e padrões éticos particulares da sociedade americana;
uma vez que o indivíduo se tornasse “um participante ou parceiro” de atividades
de grupo, suas crenças e ideias “assumiriam uma forma similar às dos outros no
grupo”.
Entretanto, a total integração através da educação ainda era um sonho ilusório
na década de 1910. Ao se desenvolver num sistema verdadeiramente de massa,
a escola secundária faria malabarismos com as abordagens vocacionais e acadêmi­
cas ao mesmo tempo que encobria a disparidade entre os ideais americanos e a
realidade. Proclamando iguais oportunidades para todos e, na verdade, represen­
tando com esta retórica o seu papel na criação de um grupo de jovens pares, a
escola secundária continuava sendo uma instituição dominada por valores de
classe média. Não era um verdadeiro nivelador social.
Os debates acirrados sobre o currículo nacional também ressaltavam o relacio­
namento irritado da juventude americana com a indústria. A exploração cruel
de crianças e adolescentes estava, era o que Jane Addams pensava, “colocando em
risco o fogo divino da juventude”. A tentativa de industrializar a educação não
tivera êxito: em 1912, apenas 7% dos que freqüentavam a escola secundária fa­
ziam cursos industriais e comerciais. Ser um “produto” ou homem-máquina não
satisfazia adequadamente ao papel social que já havia sido atribuído à juventude
americana, que era o de personificar a coalescente latência da nação.
Assim como a própria América, a terra da liberdade, estava no processo de
“vir a ser”, sua juventude merecia o reconhecimento do seu status icônico especial,
muito diferente do papel destrutivo e de sacrifício confiado aos adolescentes na
Europa. Havia uma outra maneira de atrelar os jovens a um projeto nacional de
América. A solução viria de um casamento muito pragmático, embora casual,
da produção industrial com uma sagaz compreensão da psique americana emer­
gente - aquela fusão de teimosia com a visionária qualidade já definida e atribuída
aos jovens por Hall, Baum e outros pioneiros.
O jovem operário siderúrgico de Addams não servira para o trabalho mecâni­
co por causa da necessidade biológica da sua idade de brincar e sonhar. No fim
do seu detalhado levantamento do sistema educacional americano, Irving King
concluiu que “o adolescente é por tradição um sonhador. Ele anseia por aquilo
que não consegue expressar nem para si mesmo. Sente de alguma forma que
116 | 1904-1913
está face a face com uma grande ideia que, até agora, nenhum homem jamais
compreendeu: sente que está prestes a solucionar o enigma da existência, que
até então deixou frustrados até mesmo os maiores intelectuais do mundo”.
Apesar das melhorias estruturais feitas nas condições de vida dos jovens, era
o sonho da economia que iria inspirar os adolescentes, não apenas na América
mas na Europa. Não foi pouco irônico o fato de que, quando os produtos ame­
ricanos começaram a viajar pelo oceano, a implícita promessa de igualdade do
seu país estivesse sendo minada pelos imperativos da indústria. Foi como se os
ideais fundadores da América, no momento em que estavam a ponto de ser lan­
çados ao mar, tivessem sido canalizados para a essência dos próprios produtos
em si, como uma minúscula dose homeopática de liberdade.

CALOUROS DA ESCOLA SECUNDÁRIA E ALIMENTO PARA A FÁBRICA | 117


CAPÍTULO 8

Wandervogel e Neopagaos
Movimentos de regresso à natureza na Europa
íj; :{c
Em pleno verão, de noite, faremos novamente um solene sacrifício
aos deuses da Eterna Juventude, para encerrar o ciclo e celebrar
dignamente o seu parto e nascimento. Estou imaginando mesmo
agora o ritual: precisa ter fogo; e água, água de fonte límpida vertida
de uma taça de cristal virgem ao nascer do sol; e guirlandas
de rosas-de-cão e madressilvas; e deve haver um pássaro na gaiola
para ser libertado ao alvorecer e uma prece para cantar enquanto
dançamos de mãos dadas ao redor da fogueira crepitante.
- Jacques Raverat, carta a Katherine Cox, 19 de janeiro de 1 9 10

WANDERVOGEL, EM LÜNEBERG HEATH, 1909


N O IN ÍC IO DE 1903, uma estudante de 17 anos chamada Karen Horney registrava
no seu diário uma torrente de emoções: “Sinto-me como se fosse um capitão que
salta da segurança do seu navio para o mar, que se agarra a uma prancha de ma­
deira e se deixa levar pelo tumulto do mar, agora aqui, agora ali. Ele não sabe para
onde está indo.” Entrando no centro do turbilhão, ela tenta expressar seus senti­
mentos com um “poema louco” que a via presa numa “antiga cidadela de pedra
que milhares de anos haviam construído para mim. Era sombrio e fechado —eu
ansiava por liberdade”.
Embora quase sepultada, ela escapuliu cavando com as mãos nuas: “Eu res­
pirava vida. A claridade da luz quase me cegou —mas logo me acostumei com o
seu brilho. Olhei ao redor. A paisagem era quase ampla em excesso, minha vista
podia vagar a distâncias sem fim. Quase opressivos, o Novo, o Belo me invadiam.
Nisso um anseio onipotente tomou conta de mim, quase explodindo o meu peito,
e me fez avançar vagando para ver, apreciar e conhecer o Todo.” Esta nova liber­
dade, entretanto, não trazia integração, mas alienação ainda maior: “Sem lar eu
estou. Sem moradia para me abrigar eu perambulo de um lado para o outro.”
Impedida por um professor do sexo masculino de participar de uma aula
sobre dissecação animal, Karen Horney resolveu na sua furia dissecar a si mesma:
“Isto provavelmente será mais difícil, mas também mais interessante.” Ela também
estava perturbada por causa de uma conversa com a sua amiga, Alice, que admitiu
que às vezes “ia” com “cavalheiros estranhos”. Ela relatou o diálogo: “Eu: ‘Pensei
que estas coisas não aconteciam nos nossos círculos.5Alice ri: ‘Aos montes. Uma
menina da sua turma fez isso —e até com o pai dela/ Fiquei muda de horror.”
Com a cabeça cheia de literatura romântica e moral tradicional, Horney
lutava contra estas realidades. Criticando o casamento como uma farsa, ela sentia
que “toda a nossa moral e moralidade ou são absurdas’ ou são imorais”, decidindo
que “não era imoral se dar a um homem a quem realmente se ama”. Ela concluiu
a anotação no seu diário projetando o futuro: “Mudarei um dia? E como? E quan­
do? O alvorecer de uma nova era está despontando. Espero com todas as forças da
minha jovem esperança. Talvez até a próxima geração não conhecerá estas batalhas.”
Nascida numa família próspera de classe média, Horney foi uma das primei­
ras mulheres alemãs a tirar vantagem das novas oportunidades educacionais. Na
sua cidade de Hamburgo, as mulheres só foram aceitas no ginásio, o sistema es­
colar de elite, depois de 1901, enquanto as universidades só aceitaram mulheres
nas suas escolas de medicina depois de 1900. Uma boa parte do seu diário está
ocupada com a questão dos direitos das mulheres. Horney era uma grande admi-
radora da feminista sueca Ellen Key, que defendia a igualdade para as mulheres
em livros como The Century ofthe Child.
Horney foi uma das muitas jovens de classe média do norte da Europa a ten­
tarem forjar uma “nova moralidade” na primeira década do novo século. “Novas
WANDERVOGEL E NEOPAGÃOS | 119
batalhas convocam os nossos esforços agora”, ela escreveu. “Queremos esta liber­
dade para a nossa vida emocional e para a sua expressão, liberdade e não licença,
pois nos sentimos amarradas às exigências da natureza.” Este desejo de mudança
não se limitava às mulheres, embora elas ainda fossem consideradas cidadãos de
segunda classe. O feminismo era apenas parte da rebelião dos jovens contra o
mundo do século XIX de seus pais, que eles percebiam como um pesadelo mate­
rialista, hipócrita e idiotizante.
Durante a década de 1900, novos movimentos juvenis surgiram na Grã-
Bretanha e na Alemanha em reação ao militarismo e ao industrialismo. Seus jo­
vens adeptos sentiam que o único caminho para frente era para trás: para o paga­
nismo da adoração da natureza. Entretanto, na busca de se livrarem das restrições
dos adultos, se expunham aos demônios que jaziam sob a superfície ordenada,
aparentemente racional, da vida europeia.
Esta reação juvenil teve um ônus em particular na Alemanha imperial, onde,
no início da década de 1900, os filhos da burguesia não gozavam das comparativas
liberdades disponíveis para suas contrapartes na Grã-Bretanha, França e América.
Dentro de um sistema que expressava e favorecia a rígida ideologia nacionalista
das classes altas alemãs, estes jovens viam o seu progresso na vida bloqueado pelo
telhado de vidro dos privilégios prussianos. A estas tensões somava-se em todas
as classes o relacionamento irritado entre pais e filhos.
O ideal prussiano do exercício da paternidade foi sintetizado na história do
príncipe Frederick, de 18 anos. Rebelando-se contra um pai militar severo e dis-
ciplinador, o rei Frederick William I, o jovem príncipe de inclinações estéticas
tentou fugir, mas foi traído e capturado; seu castigo foi assistir à execução do seu
melhor amigo, Hans Hermann von Katte, que havia fugido com ele. Só diante
desta severa atitude ele amadureceu para se tornar a lenda nacional da Prússia,
Frederico, o Grande. Esta caprichosa crueldade ajudou a alimentar a assassina
hostilidade entre pais e filhos que se espalhou por toda a Alemanha.
Ao mesmo tempo, o sistema de educação semi-interna, com a sua ênfase na
estufa acadêmica, a disciplina rígida e a falta do apoio do grupo que marcava as
escolas públicas britânicas produziam alunos angustiados. Este era o autoritarismo
hipócrita que Frank Wedekind havia exposto em SpringAwakening, e a enxurrada
de suicídios de meninos em idade escolar não cessou. No seu estudo O suicídio,
o sociólogo Émile Durkheim comparou índices na França, Itália e Alemanha; os
mais altos no grupo de 16 a vinte anos de idade ficavam na Saxônia e na Prússia.
A intensidade do descontentamento entre os jovens alemães revelou-se na
extraordinária popularidade do recém-redescoberto escritor Friedrich Hõlderlin.
O seu romance de 1797, Hiperion, ou o eremita na Grécia foi escrito na primeira
pessoa como Os sofrimentos do jovem Werther. o seu modo direto de falar contri­
buiu para que ele se tornasse um sucesso nos meios culturais durante a década
120 | 1904-1913
de 1900. A mensagem deste romântico condenado era inflexível: “Não posso
imaginar gente mais desmembrada do que os alemães.” Para ele, “jovens” não
eram “seres humanos”: para atingir a integridade, o jovem não podia confiar em
mais ninguém a não ser nele mesmo.
A falta de habilidade da educação prussiana para lidar com “energias juvenis
em turbilhão” foi explorada por Robert Musil no seu romance sobre a escola
militar, de 1905, Young Torless. Atormentado pela atração física que sentia por
outro menino, Torless se vê privado de suas “sólidas, burguesas” certezas, “nas
quais tudo acontecia de forma ordenada e racional”. Sob a superfície ordenada
da vida europeia jaziam demônios irreconhecíveis: “Do mundo de claridade diur­
na, que era tudo que ele conhecia até então, havia uma porta que levava para
outro mundo, onde tudo era abafado, fervilhante, apaixonado, nu e destrutivo.”
Se a luta das moças pretendia obter igualdade social e sexual, então a dos ra­
pazes era para encontrar outro tipo de identidade longe da chave de braço solda­
do/atleta. Depois de Wilde e da Degeneration de Nordau, o esteta decadente era
obsoleto e caluniado. A única opção era explorar a sensibilidade masculina de
outra forma. Organizado em vários agrupamentos, este impulso exaltava a espon­
taneidade do instinto e da expressão emocional, e o misticismo voltado para a
natureza que se podia encontrar na vida ao ar livre. Esta foi a “febre” inflamada
pelo século XX.
Esta ânsia de criar um novo mundo juvenil, discreto, teve a sua primeira es­
trutura coerente na Alemanha imperial. O Wandervogel oferecia uma fuga bá­
sica, mas disponível de imediato, de um regime opressivo. A ideia era simples e
resumida no seu nome, que significa “pássaro errante”: longas caminhadas em
grupo e excursões para acampar no campo. Como um dos primeiros adeptos
lembrou: “A essência do Wandervogel era fugir dos limites da escola e da cidade
para o mundo aberto, afastar-se dos deveres acadêmicos e da disciplina da vida
cotidiana para a atmosfera de aventuras.”
O movimento começou no ginásio de Steiglitz, perto de Berlim, onde um
jovem estudante e professor em regime de meio expediente, chamado Herman
HofFman, começou a excursionar com seus alunos durante a primavera de 1896.
Com fogueiras, cantos comunitários e pouco tempo para o sono, estas longas
caminhadas rapidamente atraíram adeptos entre os estudantes. Em 1900, as ex­
cursões ficaram tão populares que foram organizadas numa instituição nacional:
em 1901, o carismático e esforçado Karl Fischer assumiu a liderança e fundou
um novo grupo oficial de jovens chamado Ausschuss fíir Schülerfahrten.
A Alemanha imperial era hostil ao movimento moderno e a terminologia
deste novo grupo traía suas fascinações arcaicas. Fischer recebeu o título de Ober-
bachant, o nome dado ao líder de estudantes medievais que viajavam, e exigia
total obediência de seus membros. Havia um sistema probatório e um uniforme
WANDERVOGEL E NE0PAGÃ0S | 121
de insígnias e bonés que lembravam a era pré-industrial. Fischer acrescentou
vontade de poder ao misticismo da natureza de Hoffman. Ele tratava o exercício
da caminhada como “uma ideia que podia ser transformada em propaganda”:
“Salve-se, agarre o seu bastão de caminhada e busque o homem que você perdeu,
aquele simples e natural.”
Apesar da mentalidade controladora do seu líder, o Wandervogel atraía porque
oferecia liberdade. Um de seus primeiros membros, Hans Bluher, acabara de en­
trar na puberdade quando ingressou em 1901. Ele via o movimento quase como
uma rebelião instintiva, romântica, que envolvia o abandono de convenções de
classe média: as brigas de rua e, graças à popularidade dos romances ambientados
no oeste americano de Karl May, as brincadeiras de fingir que eram índios ame­
ricanos eram importantes elementos de apelo do movimento. Fumar, beber e
associar-se a verdadeiros vagabundos eram a cobertura do bolo.
Apesar de toda esta sedução, a vida simples era a essência das atividades do
Wandervogel. As jornadas eram feitas com o mínimo de luxo e dinheiro: as re­
feições eram preparadas em fogões de campanha e fogueiras, enquanto as acomo­
dações eram em celeiros e tendas. Os membros eram incentivados a registrar suas
impressões da caminhada e do campo em prosa ou em ilustrações, e os resultados
eram reunidos em pequenas revistas. Uma parte vital da experiência era a desco­
berta e a cantoria em grupo de antigas baladas e áreas, acompanhadas de violões
e alaúdes, que ajudavam a criar um renascer do cancioneiro folclórico alemão.
Ao contrário dos Boy Scouts, os grupos Wandervogel se organizavam sozi­
nhos, embora em torno de um líder mais velho. A unidade básica compreendia
cerca de sete ou oito membros. Mais tarde emergiu uma estrutura piramidal,
que se expandiu para cobrir uma divisão local, compreendendo todos os grupos
de uma determinada cidade, e depois uma divisão provincial chamada Gau.
A maioria dos membros era de adolescentes do sexo masculino: com menos de
12 anos, eles eram crianças demais para suportar os rigores das expedições, e com
mais de 19 os rapazes, em sua maioria, estavam se alistando no exército ou já
eram estudantes.
No início, não havia identificação de grupo. Isto foi acontecendo aos poucos,
com o uso de emblemas e broches e outras modas, como o uso de chapéus vis­
tosos. As atividades em grupo concentravam-se num clube, o Heim, que era uma
cabana ou sala adequada decorada com insígnias do clube e contendo uma peque­
na biblioteca. O evento Wandervogel mais importante era a grande expedição
pelo campo. Em geral ela ocorria durante o verão, mas havia acampamentos e
caminhadas mais curtos nos fins de semana e feriados. Não havia uma rede de
albergues para a juventude; portanto, a maioria dessas viagens estava literalmente
abrindo um novo caminho.
122 | 1904-1913
Os Wandervogel tentavam fugir das realidades contemporâneas para um
idílio prelapsariano, mas eles não podiam deixar o mundo lá de fora esperando.
Como todos os outros grupos de jovens alemães, tinham uma desconcertante
tendência de se dividirem em facções. Era como se a tensão entre seus confessos
ideais de liberdade e a educação autoritária fosse demais. Ou, quem sabe, fosse
apenas o prazer alemão de formação e cisões de grupos. Havia também outras
conotações que resultaram da política de recusa explícita dos Wandervogel.
A falta de um programa concreto inicialmente funcionou a favor do movi­
mento: com suas roupas medievais, a sinceridade e a desafiante união de grupos de
pares, seus primeiros seguidores chocaram a sociedade da época, que os via como
rebeldes e sexualmente promíscuos. Este romantismo arcaico fez do movimento
uma expressão exata de uma classe média alemã surpreendida entre um proletaria­
do cada vez mais militante e a elite prussiana. Entretanto, ele também acirrava
o medo implícito do modernismo que foi em seguida acoplado às ideias Vdlkische
de sangue e raça.
Conforme o movimento ganhava popularidade, ia se tornando mais diverso
e ideológico. Novos grupos dissidentes surgiram em um espectro político variando
desde a direita, como os Jungwandervogel, até o de perfil mais urbano e cultural,
o Hamburg Wanderverien. Num extremo estavam os visionários que se reuniam
na aldeia de Ascona, nas montanhas da Suíça, e criaram a comuna que praticava
o vegetarianismo, as curas naturais e o amor livre. Este “eleitorado sensível” ofe­
recia um porto seguro para anarquistas, intelectuais e os Wandervogel igualmente.
A nova tendência, mais difusa, entretanto, foi estimulada pela popularidade
do romance de Hermann Popert, de 1910, Helmut Harringa, a história de um
rapaz que declara guerra não só às organizações estudantis prussianas da Alemanha
como também ao álcool e ao sexo antes do casamento. Tendo contraído uma
doença venérea, Harringa comete suicídio porque desperdiçou a matéria-prima
racial “na imunda dupla intoxicação de um quarto de hora”: “Não ouso mais
levantar os olhos para meus avós.” Associada à pureza racial, a abstinência tor­
nou-se palavra de ordem entre os Wandervogel na virada do século.
Dois anos depois, Hans Bluher publicou o primeiro fascículo da sua con­
trovertida história dos Wandervogel, em três volumes, que ajudou ainda mais a
disseminar as ideias do movimento. No terceiro volume, Bluher revelou uma
das principais falhas da fraternidade. Ele tinha ficado furioso com a expulsão do
presidente Alt-Wandervogel, Willi Jansen, acusado de homossexualidade. Com
base em Freud, no pioneiro em sexologia Magnus Hirschfeld, na revista que de­
fendia os direitos dos gays, Die Eigene, Bluher retaliou, sugerindo que a união
entre os homens do movimento mantinha-se pelo erotismo homossexual.
Esta parte da sua história causou sensação quando foi publicada em 1913,
no mínimo por causa dos escândalos homossexuais —mais notadamente, o caso
WANDERVOGEL E NE0PAGÃ0S | 123
Harden-Eulenberg, de 1907 - que haviam exposto as paixões ocultas sob a fa­
chada prussiana. Entretanto, o furor obscureceu a crença de Bluher de que o Wan­
dervogel compreendia um intervalo necessário antes das plenas responsabilidades
da idade adulta. Karl Fischer tinha, afinal de contas, imaginado “um estado de
colegiais”, um “Lebensraum onde os meninos podem, têm permissão e devem
ser meninos, para se tornarem homens de verdade”.
Entretanto, a hostilidade de Bluher com relação às mulheres abria a ferida
maior dentro do Wandervogel: o fato de ser um clube exclusivamente para meni­
nos. Nos primeiros anos do movimento, as mulheres não eram aceitas por uma
questão de política. Esta exclusão continuou vigorando até a bem-sucedida forma­
ção de uma organização alternativa para moças, o Wandervogel Deutscher Bund.
Outros grupos aceitavam a participação limitada das meninas se estivessem acom­
panhadas de suas mães, enquanto outros, como o conservador Jungwandervogel,
recusava-se até a pensar nisso.
Mas foi impossível conter a pressão: em 1911, muitos líderes de grupos ju­
venis concordaram com que as moças deveriam ter um lugar igual no movimento.
Mesmo assim, houve disputas sobre se os sexos deveriam ser mantidos separados.
Surpreendentemente, o sexo promíscuo não era um problema para o Wandervo­
gel. Uma observadora contemporânea, Elizabeth Busse-Wilson achava que o
movimento de jovens estava inundado de “uma multidão de moças sem preten­
dentes”, que haviam se castrado e tinham “encontrado homens, se não um homem
no movimento”.
Como Hall declarou, a adolescência era a fase da vida “em que o sexo afirma
o seu domínio em todas as áreas”, e aqui estava um grupo de Peter Pans, longe
dos limites paternos, tentando negar a conexão mais óbvia entre si. O avanço da
abstinência impunha enormes pressões sobre cada indivíduo. Estas tensões foram
vigorosamente expressas no diário de Karen Horney. Embora esforçando-se para
se livrar “da moralidade cotidiana”, ela estava, não obstante, limitada pelas fortes
convenções da época.
A sua solução foi se “libertar da sensualidade”. Ela sentia que o celibato dava
um grande poder a uma mulher: “Só assim ela será independente de um homem.
De outro modo ela sempre o desejará e, no exagerado anseio de seus sentidos,
ela será capaz de abafar todos os sentimentos quanto ao seu próprio valor.” En­
tretanto, ao mesmo tempo em que buscava a independência, ela alimentava fan­
tasias de si mesma como uma “rameira”. Como ela reconhecia: “No desejo de
prostituição há sempre oculto um desejo masoquista: renunciar à própria persona­
lidade, submeter-se a outro.” Sob o desejo declarado de liberdade jazia um desejo
mais profundo de subjugação.
Os jovens alemães podem ter desejado a liberdade com todo o seu coração,
mas a dimensão de realidade do seu objetivo era perturbadora para adolescentes

124 1904-1913
criados num país repressivo. A natureza cada vez mais linha-dura do Wandervogel
era testemunho deste paradoxo. De um grupo descontraído de jovens que gos­
tava de apreciar a natureza, ele passou a ser um movimento cindido por lutas
mutuamente destrutivas. Em 1912, a influência dominante era o grupo Vortrupp,
de Hermann Popert, que promovia a higiene racial ao mesmo tempo que con­
denava a decadência, o álcool, o tabaco e a sociedade de massa.
Era como se as implicações fundamentais da adoração à natureza fossem
por demais assustadoras para ser consideradas. Seguir os instintos pagãos pode­
ria trazer acusações de homossexualidade aos homens e prostituição, se não nin-
fomania, às mulheres. O Wandervogel compartilhava objetivos e meios com os
Boy Scouts —o gosto pela vida ao ar livre, a promessa de união entre pares —,mas,
na falta de uma liderança imposta de cima para baixo pelos adultos, os jovens da
Alemanha preferiram policiar a si mesmos. Suas tentativas de viver fora das res­
trições dos adultos foram subvertidas de dentro para fora pelo próprio autorita­
rismo que tentavam rejeitar.

* * *

Não havia um paralelo exato para o Wandervogel na Grã-Bretanha. Para a maioria


dos jovens do país, liberdade foi uma quimera distante durante a década de 1900.
Nas classes alta e média, os pais tentavam navegar no abismo entre o vitorianismo
e os primeiros sinais de independência. Mesmo assim, peças como The Younger
Generation, de Stanley Houghton, mostravam uma limitada tolerância para com
a rebeldia juvenil. Ainda se esperava que os rapazes se conformassem com a car­
reira escolhida pelos pais, enquanto que as moças ainda eram preparadas para o
casamento certo. Qualquer encontro entre eles era rigidamente controlado por
um acompanhante adulto.
Na maioria dos lares de classe média, o pai permanecia sendo a autoridade
absoluta. Em The Classic Slum, Robert Roberts lembrou que durante a década
de 1900 os adolescentes, “especialmente as meninas, eram mantidas sob rédea
curta. O pai fixava o número de noites em que elas poderiam sair e exigiam
saber exatamente onde e com quem elas passavam o seu tempo livre. Ele definia,
também, a hora exata da volta para casa: poucas ousavam desobedecer à regra. A
filha de um vizinho, uma menina de 19 anos, foi espancada quando voltou para
casa dez minutos atrasada depois do ensaio do coro”. As restrições não eram
apenas físicas.
Roberts lembrou que, em Salford, “qualquer interesse por música, livros ou
artes em geral, aprendizado ou até cortesia ou inteligência poderia fazer de alguém
um suspeito”. A “associação de homossexualidade com cultura” atingiu todas as
classes quando o impacto do julgamento de Wilde produziu um corte profundo.

WANDERVOGEL E NEOPAGÃOS 125


Somente dentro do anonimato de uma cidade imensa poderia o jovem expressar
as opiniões expostas no escandaloso romance de H. G. Wells, Ann Verônica: “Se
individualidade significa alguma coisa, esta é romper fronteiras - aventura. Você
será moral e a sua espécie, ou imoral e você mesmo? Nós decidimos ser imorais.”
Se bem que a preservação de uma boêmia dedicada, se não privilegiada, de
poucos, continuava sendo uma das poucas válvulas de escape para o jovem não
conformista, relativamente privilegiado. Outro era o envolvimento com o socia­
lismo “científico” da Sociedade Fabiana. Para as moças de todas as classes, a es­
colha mais radical era o envolvimento na luta pelo sufrágio feminista através do
Women Social and Political Union. Entretanto, nenhum destes grupos estava
organizado em torno de uma ideia de juventude, seja como um ideal ou como
um programa prático.
O único grupo que agiu assim oferecia uma variante de foco moderado da
adoração à natureza praticada pelos movimentos dos escoteiros e o Wandervogel.
Para o pequeno bando de elite dos Neopagãos, esta se expressava em acampamen­
tos, discussões socialistas e banhos de sol nus e um fascínio intelectual pelo sexo.
Como uma do grupo, Gwen Darwin lembrou mais tarde: “Nós costumávamos
nos refestelar em poltronas e falar exaustivamente sobre arte, suicídio e o problema
sexual.” Para ela, pelo menos, a rebeldia era um impulso importante: “Às vezes
penso que todo mundo deveria morrer aos quarenta, quando vejo o tormento que
todos os pais são para os filhos.”
Os Neopagãos eram um grupo de uns vinte intelectuais, escritores e artistas
aglomerados ao redor de Rupert Brooke, Jacques e Gwen Raverat e as quatro
irmãs Oliver. Embora se encontrassem devido a um interesse mútuo pelo socialis­
mo fabiano, eles desenvolveram uma consciência juvenil estudada que buscava
desafiar as censuras vitorianas, ao mesmo tempo que celebrava a intensidade do
momento. A sua livre mistura era bastante excitante na era da chaperone, a acom­
panhante. Mas eles estavam tão inebriados com a sua vitalidade, talento e beleza
que foram mais longe ainda: como eles poderiam, como fariam o tempo parar?
No verão de 1909, Rupert Brooke sugeriu o plano que se tornaria o manifesto
neopagão. Ele começou com a premissa de que o mundo estava “imperfeitamen­
te organizado. Um erro, um grande erro nele é que seus habitantes envelhecem”.
A pior parte disto não era a decadência do corpo, mas do espírito. Assim, com im­
pressionante presunção, ele projetou o grupo para o futuro: “Temos vinte e poucos
anos. Em 1920 teremos trinta e poucos. Em 1930, teremos quarenta e poucos, fa­
lando com gente mais ou menos gorda, mais ou menos próspera, mais ou me­
nos pesada, casada, conservadora, desconfiada que um dia foi jovem como nós.”
Ele observou que Londres estava cheia de “fantasmas mortos de cartola” da­
queles que já foram jovens, “assombrando a civilização que foi a sua ruína”. Mas
“suponha que no passado um grupo de jovens esplêndidos tivesse feito um plano

126 | 1904-1913
para escapar do grande destruidor, para continuar jovem, e suponha que tenha
conseguido - não teria sido um maravilhoso, inigualável, triunfo?” Brooke con­
vocou o grupo para se encontrar na Basle Station “no dia l 2 de maio de 1933,
no café da manhã . So assim eles poderiam permanecer para sempre jovens.
Nos seremos crianças de setenta anos, em vez de sete. Nós viveremos o Romance,
não falaremos dele.”
O entusiasmo de Brooke rapidamente se espalhou para o resto do grupo. “A
ideia, o esplendor desta fuga de volta para a juventude, nos fascinava”, ele mais
tarde escreveu. Imaginávamos um número de pessoas jovens, trabalhando juntas
de forma esplêndida, jurando viver csta ideia, partindo para fazer o seu ‘trabalho
no mundo por uns tempos e então, vinte anos depois, encontrando-se em algu­
ma estrada sinuosa, numa manha de primavera pré-combinada, renascidas para
fazer e encontrar juntas um novo mundo, desaparecendo do conhecimento de
homens e coisas que conheciam antes, ressurgindo no sol e na chuva - Estamos
determinados a ser essas pessoas.”
Brooke sugeria o abandono, pela simples decisão de se encontrarem dali a
24 anos, de todas as responsabilidades e cuidados adultos numa tentativa de apa­
gar os anos intermediários. Em vez de serem pessoas de meia-idade, eles pode­
riam, como num passe de mágica, voltar à graça e à beleza de seus eus adolescen­
tes. Este era um novo desvio dentro da concentração romântica na criança, uma
filosofia de vitalismo e ação que ecoava as eternas obsessões tanto de Peter Pan
quanto de O retrato de Dorian Gray e cultuava o imperativo pagão tão difundi­
do entre a geração 00.
Como o menino de ouro do grupo - nas palavras de Francês Darwin, “um
jovem Apoio” -, Brooke era inquieto, compulsivo, futil e carismático. Filho de
um diretor de escola pública, ele começou a se rebelar contra a sua educação na
adolescência. Tendo sido obcecado por Peter Pan, cedeu aos encantos de Wilde e
Baudelaire aos dezessete anos. Na Universidade de Cambridge, recebeu o crédito
por lançar um novo estilo: cabelos longos, sapatos macios e camisas abertas, co­
larinhos frouxos. Farejando a revolta antivitoriana, Brooke passou rapidamente
da faux-decadence para o vegetarianismo e o socialismo fabiano.
Com estes elementos coexistindo desconfortavelmente na composição da
sua fachada, a concentração de Brooke em um instante eterno ajudou a dissolver
suas contradições. Como ele concluiu: “Nós herdamos o mundo. Por que devemos
ir chorando além dele? O presente é surpreendentemente nosso.” Entretanto, na
falta de uma atividade concreta além do fascínio do despertar de consciência
fabiano - como uma “caravana”, no verão de 1910, em protesto contra a antiqua­
da Lei de Assistência Social —,o programa neopagão era bastante vago. Juventude,
privilégios e natureza podem ter sido o que os manteve unidos, mas nada disso
bastava em si como um princípio organizador.

WANDERVOGEL E NEOPAGÃOS | 127


Apesar da exuberância de Brooke, os Neopagãos estavam presos a um dilema.
Por um lado eles tinham a influência do paganismo e a licença sexual promovidas
por pensadores influentes como H. G. Wells; por outro, ainda se apegavam à in­
sistência moral da classe média de que o período antes do casamento deveria ser
uma zona sexual proibida. Como David Garnett mais tarde lembrou: “Adormecer
a um ou dois metros de distância de uma menina encantadora sem nem pensar
em tentar fazer amor com ela era natural para mim aos 18 anos. Fazia parte do
clima social em que fui criado.”
Havia, entretanto, considerações práticas. As sanções eram particularmente
severas para as mulheres, visto que um erro poderia resultar em gravidez, bem
diferente da perda da reputação. Os Neopagãos faziam da necessidade uma virtude
e pregavam a abstinência. Entretanto, esta moratória sexual significava que eles
precisavam desviar os instintos selvagens que tinham esperado invocar para vários
cortejos prolongados que, com os inevitáveis ciúmes e anseios reprimidos, ajuda­
vam a separar o grupo em um ou dois anos.
Como a figura de proa neopagã, Rupert Brooke personificava estas tensões.
O seu status icônico mascarava um rapaz que no íntimo ardia de frustração e in­
segurança. Em poucos anos, ele perseguiu três mulheres neopagãs, Noel, Brynhild
Oliver e Ka Cox, ao mesmo tempo que flertava com a androginia e a homossexua­
lidade. Depois que muitos Neopagãos juntaram-se ao movimento Bioomsbury,
mais velho e mais ideológico, com a sua fácil aceitação da homossexualidade,
Brooke mudou de repente. A sua curiosa passividade o havia levado a circunstân­
cias que o fizeram recuar.
Em janeiro de 1912, ele sofreu um colapso nervoso quase fatal que arruinou
o seu equilíbrio e a fácil camaradagem do grupo. A ilusão de Peter Pan, voando
livre de todos os limites morais, não podia continuar. Em poucos meses, os Neo­
pagãos se dissolveram com um certo azedume acrimônia. Este evento tinha sido
previsto pelo único homem casado do grupo, Jacques Raverat, que escreveu: “A ju­
ventude é uma coisa muito enganadora; ela faz pensar que tanta gente é tão mais
bonita do que é na realidade, só por causa desse indolente fluir de sangue jovem.
A meia-idade os encontra a todos expostos na sua nudez de alma - e de corpo.”
A partir de 1912, Rupert Brooke começou a se encolher num conservado­
rismo estético e social. Ele repudiou totalmente o seu antigo radicalismo. Quando
visitou a moderníssima Berlim e se viu rodeado pelos boêmios da cidade, reagiu
escrevendo este adeus arcadiano, “The Old Vicarage, Grantchester”, em que
tudo se resumia às tradições das regiões rurais inglesas. Começou a desejar a
morte como a solução para os seus problemas: “Aqueles que me conhecem me­
lhor (a saber, eu mesmo) pensam que vou morrer. Nem eu quero muito viver.”

* * *

128 | 1904-1913
O impacto dos Neopagãos e dos Wandervogel foi simbólico, não estatístico: eles
foram comparativamente insignificantes para as organizações juvenis oficiais ou
políticas do período. Na Grã-Bretanha, o número de Boy Scouts excedeu o des­
ses filhos do sol. Na Alemanha, os grupos socialistas e religiosos de jovens absorve­
ram a juventude operária que o Wandervogel não conseguiu atrair. Muitos das
classes médias juntaram-se ao novo Jungdeutschlandbund, um grupo dirigido
por adultos baseado em esportes militares, ou a versão alemã dos Escoteiros que
foi formada em 1911.
Entretanto, estes dois grupos pseudopagãos, obcecados pela natureza, ofere­
ciam apenas tentativas organizadas de definir a independência adolescente que
eles achavam ser necessária para a vida no novo século. Embora já anunciada
por uns poucos visionários, a exata natureza do que seriam estas liberdades ju­
venis não estava clara, para dizer o mínimo. No seu desejo instintivo de prolongar
o estado de inocência infantil evitando o sexo e o envolvimento emocional, os
Neopagãos e os Wandervogel se permitiram ficar expostos à morbidez que é a
conseqüência inevitável da eterna juventude.
Esse instinto de morte, anunciado por Wilde e Barrie, foi a imagem espelhada
de toda a conversa sobre sol e luz. Como G. Stanley Hall, os pioneiros dos anos
1900 perceberam que as complexidades da vida moderna exigiam um prolonga­
mento desse estado recém-definido, a adolescência. Entretanto, ao mergulharem
em cultos que recendiam a irracionalidade, privilégios e escapismos, eles deixa­
ram de levar consigo a grande massa de seus pares, e eles mesmos caíram vítimas
das tensões entre as restrições do século anterior e a fracamente prefigurada sel-
vageria do século juvenil que se aproximava.

WANDERVOGEL E NEOPAGÃOS | 129


CAPÍTULO 9

Nickelodeons e danças imitando animais


A economia do sonho americano

* * *

A sede de experiências da juventude é que ela quer simplesmente


ser tudo, fazer tudo e ter tudo que se apresenta à sua imaginação.
A juventude de repente se tornou consciente da vida.
Ela comeu da árvore do conhecimento do bem e do mal.
- R a n d o lp h Bourne, Youth a n d Life (1 9 1 3 )

IN D O A O "CINEMA", 14:30, JERSEY CITY, NOVA JERSEY, DE LEWIS HINE, 1912


DURANTE A DÉCADA DE 1900, os jovens da Europa e da América adotaram novos
símbolos de independência para si. Alguns vinham do então existente mercado ju­
venil para revistas e livros, enquanto outros eram retirados da mídia de massa em
rápida expansão. O novo foco americano na juventude coincidiu com o crescimen­
to da psicologia comercial e da indústria cinematográfica. Os filmes encontraram
o seu primeiro mercado entre os adolescentes, que, segundo Stanley Hall, compu­
nham um terço de toda a população americana. O seu entusiasmo fez deles
cobaias involuntárias para a emergente sociedade de consumo.
Conforme ela se espalhava por toda a Europa, a imagem mais icônica da
cultura americana era a do índio americano. Esta criatura mitológica foi promovi­
da por muitos meios: o espetáculo Oeste Selvagem de Buffalo Bill; contos de “peles-
vermelhas” como aqueles escritos por Edward Sylvester Ellis; romances westerns
de enorme popularidade de Zane Grey e, na Alemanha, Karl May; até a loucura
por canções indígenas que acompanhou o sucesso de “Hiawatha”, de Charles N.
Daniels. Exatamente quando o continente estava sendo domado, havia índios por
toda a parte, um nítido lembrete do individualismo que avançava a todo vapor
acionado pela nova sociedade de massa.
Um elemento básico na leitura infantil havia muito tempo, o índio americano
passou a ser um símbolo identificador do apelo adolescente no início da década
de 1900. Apesar do fato de que em geral eles levavam a pior nas batalhas fictícias
com os caubóis, os “peles vermelhas” eram selvagens e livres. Eles compartilhavam
tendências atávicas com a adolescência em geral, e seu status de vítimas da socie­
dade rimava com uma classe de jovens emergente em busca de uma metáfora
para a sua própria situação. Ainda sem direitos à cidadania, mas constantemente
lembrados de seus deveres para com a nação, os jovens urbanos na América e na
Europa viam na figura fugitiva do índio um símbolo de espaço escancarado,
assim como de dignidade sob pressão.
Isto foi observado com mais clareza na vida em gangues do início do século
XX. Na sua história do Wandervogel, Hans Bluher celebrou a rejeição dos limites
da classe média conquistada através das brincadeiras de índio. Na França, os Apa­
ches parisienses transformaram esta identificação num escândalo nacional. Do
outro lado do espectro, Ernest Thompson Seton e Baden-Powell buscaram apro­
priar-se deste apelo para seus próprios fins. Scoutingfor Boys ressaltava as habili­
dades com a madeira e a vida nas florestas dos escoteiros Red Indian, que “costu­
mavam amarrar nas costas a pele de um lobo e caminhar de quatro, rondando
pelo acampamento durante a noite, imitando o uivar de um lobo”.
Outros estilos de fora cruzaram o Atlântico. A arte dos menestréis tinha sido
popular na Grã-Bretanha durante o século XIX, e o cakewalk chegou no início
da década de 1900. A conquista completou-se com o esmagador sucesso, em 1912,
do teatro de revista Hullo Rag-time. Apresentando canções como “Alexander s

NICKEL0DE0NS E DANÇAS IMITANDO ANIMAIS | 131


Ragtime Band”, escrita pelo compositor branco Irving Berlin, este espetáculo atre­
vido tipicamente americano hipnotizava a platéia com a música e a dança no
estilo selvagem dos negros. O futuro tinha chegado. Para o escritor J. B. Priesdey,
os adeptos do ragtime estavam “nos convocando para um outro tipo de vida no
qual tudo podia acontecer”.
Essa noçao de possibilidades era a grande atração da economia do sonho ame­
ricano. Esqueça carvões, trens, aço e cutelaria —o que os europeus queriam da
América era o seu senso de espaço, a sua selvageria, a sua energia, os seus ritmos
sincopados, misturados, que aceleravam o tempo da vida num eterno presente.
Entretanto, havia um enigma nesta equação. Se a América estava tão identificada
com a juventude, então supostamente tinha qualidades juvenis - e estas eram ao
mesmo tempo atraentes e perigosas. A juventude podia oferecer energia e excita­
ção, mas podia facilmente extravasar em barbarismos e violência.
Na América, a exploração comercial e a tentativa de controle simultâneas
dos jovens deram origem a um paradoxo. A profunda escavação da psique incen­
tivada por anunciantes começou a colocar para fora aquelas mesmas características
atávicas que estavam tentando canalizar com a criação de uma sociedade baseada
em torno da acumulação de objetos e confortos. O controle social por meio do
consumismo pode ter sido mais benigno do que por métodos mais totalitários,
mas causou tipos diferentes de distorções, cada vez mais representadas na intensa
oscilação entre hedonismo e puritanismo.

* * *

Anunciada pela Expo 1893, a economia do sonho americano começou a se de­


senvolver como uma importante indústria durante a década de 1900. Transformar
a fantasia em dinheiro vivo adequava-se muito bem ao caráter nacional e às exi­
gências de uma nação ainda em formação. Nascida a partir das desesperadas ne­
cessidades dos novos imigrantes e desenvolvida por corporações em processo de
consolidação, uma nova cultura de massa foi criada fundindo a psicologia básica
humana com as inovações tecnológicas futuristas. Não era apenas uma cultura,
mas um novo jeito de ver o mundo que rapidamente se tornou uma força in-
controlável.
A perícia técnica da América era a maravilha do mundo. A década de 1900
assistiu à primeira aparição de muitos futuros produtos básicos do século XX.
Entre eles o primeiro disco de 10 polegadas para gramofone (1901); o primeiro
voo equipado com motor (1903); a disponibilidade comercial da litografia em
offset (1904); o primeiro toca-discos automático, os nickelodeons (1905); os pro­
gramas radiofônicos regulares (1906) e a criação do primeiro carro projetado para
as massas - o Modelo T, da Ford Motor Company (1908). A um grau conside­

132 | 1904-1913
rável, estes produtos de massa ajudaram na tendência padronizadora pressionada
pelo comércio. A mão de obra tornava-se cada vez mais pulverizada.
Em 1913, a popularidade do Modelo T deu origem à primeira operação de
linha de montagem completa nas instalações da Ford, em Highland Park: o
princípio da mão de obra reduzida às tarefas mais básicas - uma torcida num
parafuso, um puxão numa alavanca - e infinitamente repetidas. O trabalhador
individual era um dente na engrenagem. Apesar das contínuas agitações sindicais,
o sistema econômico e social americano estava rapidamente se tornando um as­
sunto liquidado. Se não era possível mudar coletivamente o mundo externo, então,
no que dizia respeito aos produtores e anunciantes, a paisagem interna, individual,
seria o foco do desenvolvimento.
Este projeto era atraente para uma nação em crescimento. No lugar do pas­
sado europeu, haveria o presente americano, tão vivido que pareceria durar para
sempre. Os espasmódicos cortes entre cenas diferentes no filme inovador de Ed-
win Porter, O grande roubo do trem,, de 1903, comprimiam a percepção em si:
como o próprio Porter comentou sobre a extasiada recepção ao seu filme: “O fu­
turo não tem fim.” Esta intensidade, entretanto, seria atrelada aos imperativos do
comércio: cada pessoa podia ser transformada, não pela atividade artística ou
política, mas pela aquisição do produto indispensável.
A psicologia seria o ingrediente ativo neste processo alquímico de transformar
objetos inanimados em talismãs com carga reforçada, produzidos em massa. Esta
não era, entretanto, a psicologia acadêmica praticada por Hall, ou pela psicaná­
lise de Freud, mas uma variante simplificada oferecida pelos novos mediadores
entre produtor e comprador: o homem de marketing. A indústria publicitária
expandira-se dez vezes mais durante as últimas décadas e, com o crescimento, veio
uma ambição maior. Buscando a penetração direta no subconsciente, os anuncian­
tes começaram a fatiar a disciplina psicologia de acordo com a sua marca particular
de feitiço.
Nos meados da década de 1890, a revista de comércio Printers Ink estava na
expectativa do momento em que “o redator de anúncios, como o professor, es­
tudará psicologia. Pois, por mais diversas que suas ocupações possam à primeira
vista parecer, o redator de anúncios e o professor têm um grande objetivo em
comum —influenciar a mente humana”. Este processo “esclarecido” de educação
de massa ganhou velocidade no novo século: o seu defensor mais influente, o pro­
fessor Walter Dill Scott, insistia em 1906 em que “o anunciante mais bem-suce­
dido deve estudar psicologia e deve fazer isso logo”.
Scott defendia nada menos do que a exploração total dos desejos humanos
atávicos. “Nós temos reações instintivas para agir pela preservação e favorecimento
de (1) nossos corpos, roupas, lares, propriedades particulares e família (também os
instintos de caça e construção que são mais complexos do que outros desta classe);

NICKELODEONS E DANÇAS IMITANDO ANIMAIS | 133


(2) nós mesmos como existimos nas mentes dos outros; (3) nossas faculdades
mentais. Vimos que para garantir a ação de acordo com estas normas não é ne­
cessário mostrar o valor de tal ação ou a necessidade dela, mas simplesmente apre­
sentar o estímulo adequado, e a ação se dará imediatamente.”
Os novos anúncios iam além da simples transmissão de informações. Na
nova terapia de fartura, não bastava que remédios patenteados ou flocos de mi­
lho tivessem propriedades específicas: agora eles eram apresentados, explícita ou
implicitamente, como tendo o poder de transformar o cotidiano. Portanto, os
flocos de arroz Rice Krispies não eram vendidos como tendo valor nutritivo, mas
porque praticavam uma série de eventos dramáticos: “Ele explode! Ele salta! Ele
estala!” A famosa série de campanhas “Reason Why”, de Claude Hopkins, ven­
deu com sucesso pastas de dentes e automóveis ao sugerir que a compra destes
itens levaria por si só a uma vida mais plena, mais rica.
Estas técnicas tinham as mulheres como alvo principal, mas o processo come­
çava mais cedo na vida. No seu influente livro The Psychology ofAdvertising, Scott
fez a associação entre consumismo e juventude: “O homem jovem parece com­
pelido a se mostrar da melhor maneira possível para uma jovem dama, mas nem
sabe como. O rapaz sempre tenta “se mostrar” na presença das mocinhas. Muitas
vezes isso é ridículo, mas ele não sabe por que faz essas coisas. Quando ele está
diante da moça, parece compelido a fazer algo bizarro que tem certeza de que
vai atrair a sua atenção.”
A “emulação pecuniária” de Veblen havia se tornado uma indústria multi­
milionária que, segundo admitia Scott, estava enraizada na psicologia social dos
adolescentes: “Sofremos todos como o rapaz e o menino. Consultamos não apenas
a nossa preferência, mas também as opiniões dos outros ao comprar nossas rou­
pas ou nossas casas e ao escolher nossos amigos e profissões. Parecemos compeli­
dos a lutar por essas coisas que nos farão subir na estima dos outros e, ao com­
prar e escolher, selecionamos aquelas coisas que são aprovadas por aqueles cuja
estima mais ambicionamos.”
No fim da década de 1900, já havia um surpreendente número de produtos
cujo alvo era a mulher jovem. Num artigo chamado “The Budding Girl and the
Boy in His Teens”, Stanley Hall observou a inclinação do adolescente do sexo
feminino por “belos adornos”. Esta era a “estação de mechas caídas na testa, ca­
chos, rolos, pompadours, babados, fitas, possivelmente rouges e pós, saltos altos,
chapéus espalhafatosos, sombrinhas, bolsas ornamentais, braceletes, luvas muito
longas - modas que afetam favoravelmente o observador; isto é, essas coisas agora
avultam no centro da consciência. As vitrines são um sonho”.
Hall foi atraído para as aplicações populares da psicologia do adolescente
quase a despeito da sua própria vontade. Em outubro de 1908, ele endossou uma
nova estrutura de artigos regulares no Womaris Home Companion chamada “Teens

134 | 1904-1913
and Twenties” e escritos pela jovial Lucy Norman. Seu artigo era claramente
voltado para fazer de meninas adolescentes esposas úteis: “Nossos livros são bem
aceitos, tenho certeza, para ficar ali em fila apreciando o espetáculo das recém-
formadas Teens and Twenties manejando a agulha, cuidando da casa, vendo se o
jardim está aconchegado’ para o inverno e se as plantas dentro de casa estão
bem aquecidas.”
A compreensão popular da psicologia recebeu um impulso com a visita de
Sigmund Freud à América e do seu então colega Carl Jung, no fim do verão de
1909, convidados por Stanley Hall para dar uma palestra na Clark University.
O intercâmbio funcionou nos dois sentidos. Hall buscava um apoio extra para
o status acadêmico da psicologia, enquanto que Freud estava ansioso pela oportu­
nidade de falar fora da Áustria e, na verdade, queria a validação acadêmica que,
apesar da publicação de Sobre a psicopatologia da vida cotidiana, ele ainda não
tinha recebido. Apesar dos acadêmicos que o acharam um “homem sujo, nojento”,
Freud ficou muito satisfeito com a recepção que teve.
Sua platéia foi respeitosa, como foi a maioria das notícias subsequentes nos
jornais. Ele mais tarde escreveu: “Quando subi na plataforma em Worcester
para dar as minhas Cinco lições de psicanálise parecia a realização de um sonho
incrível: a psicanálise não era mais um produto de delírio, tinha se tornado uma
parte valiosa da realidade.” A visita em 1909 tornou Freud famoso e ajudou a
divulgar ainda mais suas ideias: a importância do sexo, o complexo de Édipo,
a repressão, a existência do inconsciente na vida cotidiana, a importância da psi­
canálise no tratamento da neurose.
Estas teorias tiveram uma aceitação acadêmica e outra popular, fosse com a
fundação, em 1911, da American Psychoanalytic Association ou com a cunhagem
do termo “lapso freudiano”. As ideias de Freud seriam, mais adiante, adaptadas
ao contexto americano pelo seu sobrinho Edward Bernays, o fundador da indústria
das relações públicas e promotor da “psicologia de massa” como um agente de
controle social. A insistência de Freud na psicopatologia do cotidiano reforçou a
noção de que poderia haver psicologia na vida cotidiana, uma mensagem que
anunciantes, produtores e compradores igualmente levaram a sério.

* * *

A década anterior à entrada da América na Primeira Guerra Mundial assistiu à


crescente popularidade do entretenimento de massa. O avanço mais dramático
se deu no cinema, uma indústria que nasceu como resultado do espantoso sucesso
dos nickelodeons —as salas de cinema baratas em que se pagava um níquel para
entrar. Em 1910, seu poder sobre o público americano havia aumentado a ponto
de atrair entre 10 e 20 milhões de visitantes semanalmente. Muitos eram crianças

NICKELODEONS E DANÇAS IMITANDO ANIMAIS | 135


e adolescentes, atraídos às centenas de milhares para um ambiente diferente,
futurista, que eles podiam chamar de seu.
Um subproduto do trabalho infantil tinha sido o primeiro início do consu-
mismo juvenil, que se alimentava diretamente do florescente comércio cinema­
tográfico. No seu romance sobre a vida antes da Grande Guerra, Laços humanos
—Uma árvore cresce no Brooklyn, Betty Smith escreveu a respeito de como a sua
heroína de 11 anos de idade, Francie Nolan, sentia-se ao receber os seus salários:
“Francie tem um centavo, Francie tem poder.” Chegando a uma loja popular de
variedades que vendia artigos entre cinco e dez centavos na Broadway, “ela ia e
vinha pelos corredores tocando em todos os objetos que aguçavam sua imaginação.
Que sensação maravilhosa pegar uma coisa, segurá-la por uns instantes, sentir o
seu contorno, passar a mão sobre a sua superfície e depois recolocá-la cuidado­
samente no lugar. A sua moedinha lhe dava este privilégio”.
Criada para pensar que “dinheiro era uma coisa maravilhosa”, a juventude
americana associava independência a gastos. No fim do século XIX, pequenos
jornaleiros, comerciantes de rua e estudantes paravam nas lojas de doces e lancho­
netes para comprar balas, hambúrgueres e sorvetes. Entretanto, o destino mais
popular eram as galerias de máquinas automáticas para jogar ou os salões de en­
tretenimento: fachadas de lojas ou salões que continham máquinas caça-níqueis
e, depois do início da década de 1890, cinetoscópios, máquinas que exibiam fil­
mes por um pequeno orifício, o peephole.
Desde o início, a juventude americana ficou extasiada diante dos “filmes”.
Havia a novidade da mídia, mas o atrativo era o fato de que os mundos de so­
nho na tela correspondiam muito de perto à psique do adolescente em desenvolvi­
mento. Segundo G. Stanley Hall, este período “é marcado por uma intensificação
muito emocional da vida de sonhos, e em nenhuma outra idade a sua influência
é tão marcante sobre os humores e disposições da consciência desperta”. Ele
sentia que a puberdade era marcada por uma “absorção interior e por sonhos”
que poderiam acabar em “narcose”.
Quando o peephole foi substituído pelo projetor, os filmes cresceram em
popularidade. Era mais agradável, e muitas vezes mais barato, ver imagens numa
tela grande: também dava aos jovens um lugar sancionado para estarem juntos,
no escuro. A natureza comunitária da ida ao cinema foi acentuada pela introdução
dos nickelodeons em meados da década de 1900. Estes teatros mais formalizados
eram tão populares que, para observadores como Jane Addams, pareciam ter
“surgido de repente, de algum modo, ninguém sabe por quê”. Estimava-se que
crianças e jovens formassem entre um quarto e metade da “nova platéia de cinema”.
A maioria era composta por filhos de novos imigrantes, visto que os nicke­
lodeons quase sempre eram montados nos distritos das classes operárias e pobres.
No cinema, os jovens americanos podiam ver sua própria experiência refletida

136 1904-1913
como em nenhum outro lugar. Os “caça-níqueis”, particularmente nas apresen­
tações à tarde e no início da noite, também conferiam uma certa liberdade em
relação à supervisão dos adultos. Addams notou que “jovens freqüentam teatros
de cinco centavos em grupos, com algo do instinto de gangue’, gabando-se dos
filmes e façanhas no nosso teatro’”.
Eles podiam fazer isso porque muitos ainda ganhavam. A frequência compul­
sória às escolas secundárias ainda não impedira a mão de obra adolescente. Um
estudo da década de 1910 sobre estudantes de Iowa descobriu que mais de dois
terços dos rapazes em idade escolar recebiam salários fora das horas de estudo. O
número era menor para as moças, pouco menos de um quarto. Assistir a “pro­
gramas de cinema” era um de seus modos de entretenimento preferidos: pouco
menos da metade dos meninos e dois terços das meninas da pesquisa viam entre
um e seis filmes por mês.
Em 1910, as novas imagens em movimento atraíam uma platéia semanal
de 10 milhões de pessoas. Muitos reformadores pensavam que os filmes tinham
um efeito perturbador sobre os jovens. Jane Addams citou “um eminente alienista
de Chicago” que afirmava ter atendido a “muitos pacientes entre crianças neuró­
ticas” que haviam “se tornado vítimas de alucinações e distúrbios mentais” depois
de freqüentarem regularmente os teatros. Ainda mais alarmante eram as “crianças”
que moldavam seriamente “suas condutas segundo os padrões definidos diante
delas nestes palcos mímicos”.
Addams citou o caso de três meninos entre nove e 13 anos de idade que,
tendo visto um assalto a uma diligência na tela, tentaram “laçar, assassinar e
roubar” o leiteiro local: “Felizmente para ele, quando jogaram o laço, o cavalo se
assustou.” Num sensacional julgamento, em 1912, no qual um adolescente era
acusado de assassinar a sangue-frio o seu amigo durante um assalto frustrado a
um trem, o famoso filme O grande roubo do trem, de Edwin Porter —na época em
exibição na localidade -, foi citado nos noticiários pela imprensa como a causa
da violência: a tragédia era “uma reprodução exata do filme”.
Casos como estes, onde o criminoso citava os filmes como inspiração para
seus crimes, só alimentavam a condenação desta nova forma pelos adultos. Entre­
tanto, tentativas de controlar a indústria fracassaram pelo fato de que ela se ex­
pandia mais rapidamente do que as instituições montadas para administrá-la.
Em 1909 criou-se o National Board of Censorship, mas até 1914 ele aprovou
95% de todos os filmes submetidos à sua censura. O resultado foi uma liberdade
considerável não apenas para deslumbrar a América mas também para examinar
os seus pontos fracos: a década de 1910 viu uma variedade de filmes que retrata­
vam as falhas na sociedade americana.
A experiência de ir ao cinema foi desencadeada por um quadro de exploração.
Nas guerras declaradas entre empresas estabelecidas, como a Biograph, e os novos

NICKELODEONS E DANÇAS IMITANDO ANIMAIS | 137


independentes, as iniciantes começaram a exibir filmes mais longos, de longa-
metragem, nos antigos teatros de vaudeville. O poder de atração destes locais
maiores, com sua capacidade de audiência aumentada e mais luxuosos, foi de­
monstrado pelo inesperado sucesso de uma das primeiras apresentações, Traffic
in Souls, de 1913. Esta dramatização do “comércio de escravas brancas” foi uma
sensação: 30 mil pessoas viram o filme na primeira semana, muitas delas moças
com idades entre 16 e 18 anos.
Naquele mesmo ano, a delinqüência juvenil fez sua aparição em Saved by
theJuvenile Court- uma interpretação do trabalho de reabilitação realizado pelo
juiz reformador Ben Lindsey. Este primeiro filme colocava de maneira firme a
juventude delinqüente dentro da estrutura do controle legal, mas as gangues de
rua adolescentes e seus correspondentes mais maduros foram amplamente exibidos
em Regeneration, de Raoul Walsh, filmado com gângsteres de verdade nas ruas
do Bowery e no Lower East Side. Baseado nas memórias de um líder de gangue do
Bowery, Owen Kildare, o filme captou os bairros pobres de judeus da década de
1890, época em que estavam desaparecendo.
Outros filmes naquela fase inicial tratavam de problemas dos jovens com
um brilho reformador. O vício e a embriaguez entre os adolescentes foram mostra­
dos na adaptação por Jack London, em 1914, do seu romance Memórias de um
alcoólico: John Barleycom: com suas cenas de crianças bêbadas, foi saudado como
“um forte apelo à abstinência”. Naquele mesmo ano, The Drug Traffic ressaltou
a necessidade de maior controle sobre narcóticos, retratando a morte de um tí­
pico jovem americano relacionada com o uso da morfina. Entretanto, eles eram
a exceção e não a regra: os filmes nunca foram concebidos como uma forma pu­
ramente documental ou socialmente consciente.
Eram uma distração: mesmo quando lidavam com assuntos contemporâneos,
os filmes muitas vezes estavam atrasados ou eram de um sensacionalismo grosseiro.
Não estavam ali para refletir a realidade, eram um “téâtro” onde se representavam
os dramas fictícios. Embora uma certa confusão entre os dois talvez fosse inevitável
nos seus primórdios, era óbvio, na década de 1910, que o cinema representava
uma “terra encantada” que industrializou o gosto americano pela fantasia numa
nova mídia cujo poder não tinha precedentes. O mágico de Oz tinha encontrado
o modo perfeito de fascinar a percepção dos cidadãos da Cidade de Esmeraldas.
A relação dos filmes com a juventude americana era psicologicamente íntima.
Por um lado, eles representavam um mundo de fantasia que oferecia uma pausa
no cotidiano. Por outro, começaram a produzir imagens que refletiam aspectos
da vida adolescente que, sutilmente ficcionalizadas, realimentavam psiques férteis.
A conseqüência foi uma sofisticada dança entre platéia e produtores: os estúdios
podiam ter a chave na medida em que faziam o produto, mas a platéia tinha o

138 | 1904-1913
poder de conceder ou negar o sucesso. Com frequência, como no caso de Traffic
in Souls, isso podia ser inesperado.
O que os jovens freqüentadores de cinema queriam era uma versão intensi­
ficada da realidade, com a qual pudessem se identificar e que, ao mesmo tempo,
os transportasse para um outro mundo. Estas aspirações fundiram-se num novo
tipo de figura pública criada por estímulo da imprensa. Até a década de 1910,
os atores de cinema tinham gozado de baixo status. Geralmente anônimos, quando
citados eram os representantes da empresa - a “Moça da Biograph”. No início
de 1910, para negar boatos intencionalmente vazados de sua morte num acidente
de carro, a Biograph citou a sua “moça” como sendo Florence Lawrence.
Duas semanas depois, Florence foi anunciada num artigo de jornal que
dizia: “Os produtores estão começando a entrar em acordo sobre a exigência do
público de informações sobre seus atores e vêm reconhecendo o valor de suas per­
sonalidades.” Foi previsto que “vai chegar a hora em que estes atores exigirão os
serviços de assessores de imprensa como qualquer outra atração estelar”. Ao mes­
mo tempo, a Variety descrevia Florence Lawrence, de vinte anos, como a “estrela
do cinema”. No início de 1912, ela era a “Moça de um milhão de rostos”.
Como uma das primeiras estrelas citadas, Florence Lawrence simbolizava
um corpo celestial - uma estrela infantil no estilo Pã de Oscar Wilde, materiali­
zada numa forma feminina jovem, atraente, que era em seguida reproduzida
eletronicamente mil vezes, ampliada além do seu tamanho natural na tela e fi­
nalmente consumida pelas massas. Nesta nova religião pagã,1 o astro era o deus
ou a deusa. Não demoraria muito e seus personagens emergiriam como a versão
do século XX do Olimpo na Grécia Antiga: um intricado sistema de valores de
impulsos humanos abstraídos que podia ser aplicado tanto à vida nacional quanto
às necessidades individuais.
A adolescência foi importantíssima para este sistema, exemplificando a atração
sexual e a inocência idealizada. Congelada no celulóide, a juventude do astro
podia parecer tão eterna quanto aquelas aceitas nos fictícios Dorian Gray ou Pe­
ter Pan, uma qualidade que podia ser atribuída às suas vidas reais. O romancista
Booth Tarkington observou a respeito do protagonista mais popular da época, o
elegante e musculoso Douglas Fairbanks: “Ele nunca envelhecerá - a não ser
que o mercúrio possa envelhecer.” Na verdade, a juventude era um prêmio tão
grande que seria induzida por meios artificiais, principalmente nos primórdios
do sistema estelar.

1 Esta qualidade pagã foi reforçada pelo primeiro sucesso de bilheteria, o filme Intolerance, de D. W. Griffith, em
1916. Embora baseado na história bíblica de Belsazar, ele fez da decadência babilônica algo sensacional graças ao
enorme cenário, espetacularmente decorado. Essa era a visão de Rochegrosse de Les demiersjours de Babylone.

NICKELODEONS E DANÇAS IMITANDO ANIMAIS | 139


Os filmes tinham o poder de embaçar a distinção entre realidade e fantasia.
Uma das atrizes mais populares da época, Theda Bara, depois do sucesso de
A Fool There Was, de 1915, tornou-se o modelo clássico da mulher fatal: olhos
delineados a kohl e chamejantes, de “desenfreado erotismo”. O departamento de
imprensa do seu estúdio a descrevia como a “filha de uma princesa, amamentada
com o sangue de serpentes, dada em casamento místico a uma Esfinge”, mas na
verdade ela era Theodosia Goodman, filha de um alfaiate de Ohio. A máscara
funcionou perfeitamente: quando mudou de tipo, sua carreira acabou.
Esta era apenas uma das armadilhas do novo sistema. As demandas por
estes deuses industrializados estavam começando a aumentar. Além da necessária
reforma para transformar uma pessoa real numa abstração, e a correspondente
confusão psicológica que isso gerava, as identidades eram totalmente construídas
segundo as determinações do estúdio. Em contraste com a inocente menina de
12 a 16 anos, de cachos resplandecentes, que ela representava, a Mary Pickford
da vida real tinha vinte e poucos anos, estava separada do marido, tinha um
caso, gostava de usar unhas longas e fumar cigarros. A estrela estava se tornando
um monstro de Frankenstein.
A elisão de idade verdadeira e fictícia também era personificada na figura de
Charlie Chaplin, que transformou o vagabundo num arquétipo cômico. Para o
crítico Parker Tyler, o vestuário famoso de Chaplin, com calças folgadas e paletó
justo, representava “um paradigma de como o adulto era visto pela criança a seus
pés que olhava para a altura invejada lá em cima”. Chaplin começou a fazer fil­
mes em 1914, pouco antes do seu primeiro grande sucesso, O vagabundo, que eter­
nizou sua imagem. Ao escolher esta figura de rejeitado como um “Deus da Máfia”,
Chaplin intencionalmente representou um dos maiores pesadelos da burguesia.
O fechamento da fronteira significava a demonização do viajante. Nos mea­
dos da década de 1910, o vagabundo era uma perturbadora lembrança de um pas­
sado selvagem que muitos americanos estavam ansiosos para esquecer. Histórias
escandalosas sobre um tumulto provocado pelos sem-teto em Nova York, durante
o inverno de 1914, reafirmou a ameaça que o vagabundo sugeria ao tecido or­
denado da vida social americana. Assumindo a figura desta que era a mais des­
prezada de todas, utilizando todo o talento e recursos técnicos à sua disposição,
Charlie Chaplin trouxe à luz o submundo disfarçado de entretenimento.
A ideia de que os astros podiam tornar atraentes pessoas estranhas ao meio
acrescentava mais um gostinho ao fascínio exercido pelo cinema. Proscritos foram
durante muito tempo heróis americanos e nada podia ser mais atraente para os jo­
vens do que uma figura que seus pais odiavam. Em Morte nafamília, James Agee
descreveu a reação da sua mãe puritana ao ver pela primeira vez O vagabundo:
Chaplin “num movimento rápido segurou a bengala pela ponta e, com a outra ex­
tremidade curva enganchada na saia dela (da atriz), ergueu-a até o joelho, exata­

140 | 1904-1913
mente do jeito que desagradou a mamãe, olhando com muita ansiedade para as
suas pernas, e todo mundo caiu na gargalhada, mas ela fingiu não ter notado”.
Com a sua dança de equilibrismo entre exploração e moralidade, estes pri­
meiros filmes personificavam perfeitamente a característica americana que Rupert
Brooke definiu como a “combinação de selvageria total e regulamento total”.
Quando o “distrito do vício” em San Francisco foi fechado em 1913, um jovem
operador de câmera chamado Hal Mohr filmou os festejos finais. Os anúncios
para The Last Night ofthe Barbary Coast promoviam o estilo de vida da zona do
prazer no momento do seu desaparecimento: “Veja os famosos Turkey Trot, Te­
xas Tommy, Bunny Hug. Veja os salões de baile negros com seus próprios estilos
de dançar jamais vistos antes.”

* * *

Ainda mais do que o cinema, a música popular americana colidiu com o ir e vir
entre hedonismo e puritanismo vivido pela sociedade dos pais. Durante os primei­
ros anos do século XX, a indústria musical continuou a se expandir rapidamente;
entre 1890 e 1909, a receita proveniente de partituras mais do que triplicou, en­
quanto que nesse último ano mais de 27 milhões de discos e cilindros para fo-
nógrafos foram produzidos. Em 1914, o número tinha subido para 31 milhões.
Ansiosas por novos produtos, as editoras e gravadoras continuaram lançando o
que tivessem nas mãos.
Enquanto os best-sellers do período eram as grandes baladas sentimentais, o
ragtime continuava crescendo em popularidade. Sua expansão cultural teve a
ajuda de uma forte migração interna. Com a imigração europeia seriamente li­
mitada depois da deflagração da guerra em 1914, industriais do norte começaram
a procurar ativamente à sua volta uma nova fonte de mão de obra, chamando
negros do sul para preencherem os empregos criados pelas demandas da produção
de guerra. Em poucos anos, quase um milhão de negros mudaram do sul para os
principais centros urbanos como Nova York, Chicago e Detroit, levando consigo
seu estilo de vida.
Com muito mais artistas negros encontrando uma platéia pronta fora do
sul, o ragtime e o blues continuaram a sair dos círculos viciados das cidades po­
bres. Esta diáspora aumentou sua popularidade entre os jovens brancos. O ragtime
pode ter sido filtrado através dos guetos negros desde os meados de 1890, mas o
primeiro milhão de vendas do estilo foi alcançado por Irving Berlin, com o su­
cesso de 1911, “Alexanders Ragtime Band”. Foi preciso um homem branco para
realmente vender música negra, à medida que estilos anteriormente subterrâneos
chegavam à sociedade como loucuras exploráveis. Este era o acordo: o novo mé­
todo de intercâmbio.

NICKELODEONS E DANÇAS IMITANDO ANIMAIS | 141


O sucesso do cruzamento do ragtime estimulou comentários desfavoráveis, na
certa por causa do fascínio que exercia sobre os jovens. O MusicalAmerican achava
que o ragtime era como uma droga que viciava. Em 1913, o Musical Courier afir­
mou que a América estava “sendo vítima da alma coletiva dos negros através da
influência do que popularmente se conhece como música ‘ragtime ”. Isto nada
mais era do que “um desastre nacional”, visto que o ragtime era “símbolo da mo­
ralidade primitiva e das perceptíveis limitações morais do tipo negro. Ali a res­
trição sexual é quase desconhecida, e se concede a mais selvagem amplitude de
incerteza moral”.
O vínculo entre música, raça e sexualidade confirmava-se aos olhos dos mo­
ralistas pelas “danças imitando animais” que inundavam os bairros pobres depois
do sucesso de “Alexander s Ragtime Band”. Começando com o sucesso do turkey
trot, uma dança muito rápida e animada que evoluiu do cakewalk comunitário
do século XIX, todo um bestiário irrompeu nas pistas de dança da nação com o
acompanhamento do ragtime: danças como o bunny hug, o grizzly bear, o monkey
glide, o possum trot e o kangaroo dip. Como Irving Berlin observou no seu su­
cesso de 1911: “Todo mundo está fazendo isso agora.”
Nas danças de animais, os participantes inventavam seus movimentos na
hora. Em vez de se abraçarem a distância decorosa de um braço na formalidade
da valsa ou da polca, os dançarinos giravam pela pista com braços e pernas en­
trelaçados. No turkey trot, a metade inferior do corpo da mulher, da cintura até
o joelho, ficava enfiada nas pernas do seu parceiro. O grizzly bear consistia de
um abraço de corpo total que passava longe dos padrões anteriores da decência.
Este deslizar e trepidar era uma atividade associada com os artistas do teatro
burlesco e com os negros, não com jovens brancos bem-educados.
Os jovens americanos não se importavam. Como a terra de sonhos ofereci­
da pelo cinema, as danças de animais eram feitas sob medida para a sua psique.
“Adolescência é o período de ouro para o nascimento do ritmo”, Stanley Hall
havia notado. “Dançar é umas das melhores expressões de pura recreação e das
necessidades motoras dos jovens.” Mais praticamente, os salões de dancing que
haviam surgido para satisfazer a loucura representavam lugares públicos onde os
adolescentes trabalhadores da América podiam se encontrar longe da supervisão
dos adultos, e onde podiam fazer a corte nos seus próprios termos.
As moças assumiram o comando. Num levantamento realizado em 1911
sobre o entretenimento em Nova York, descobriu-se que 88% das meninas ad­
mitiam saber dançar; quase todas diziam que gostavam. Algumas moças operárias
de Manhattan, segundo a terapeuta de jovens Ruth True, passavam “várias noi­
tes por semana nos salões de baile”. Muitas moravam em lares para moças que,
conforme notou Ruth, “não eram lugares muito propícios para entretenimentos

142 | 1904-1913
e diversões. São muito apertados e muitas vezes miseráveis”. Em particular, “visitas
de amigos do sexo masculino” eram “malvistas”.
No salão de baile, as mulheres podiam dançar independentemente. Um re­
latório de 1911 feito por dois reformadores adultos captou o ritual: “Uma grande
maioria de moças chegava sozinha, assim como os rapazes, cada um encontrando
parceiros no salão. Poucas apresentações eram vistas; duas moças dançam juntas
e dois rapazes, a cujo gosto elas convêm, tiram-nas para dançar. Alguns indivíduos
conversam com elas depois da dança, e outros não.” Eles concluíram que, embora
as moças “fossem inteligentes, felizes e gostassem de se divertir”, não pareciam
se importar com o “tipo de rapaz que encontravam”.
A loucura tomou conta da cidade. A revista Life relatou em 12 de fevereiro
que as danças de animais prosperavam “em cima, embaixo e no meio. O círculo
dançante na nossa cidade deve ter a força de meio milhão”. No seu guia da vida
noturna de Nova York, de 1913, Julian Street observou que a dança havia criado
uma “mistura social jamais sonhada neste país - uma miscelânea heterogênea de
pessoas em que respeitáveis mulheres jovens, casadas e solteiras, e até debutantes,
dançam, não apenas sob o mesmo teto, mas na mesma sala, com mulheres da
cidade. Liberté —Egalité - Fraternité”.
As implicações revolucionárias de uma loucura que parecia estimular a mis­
tura de classes e raças provocaram uma forte reação negativa. Grupos reformadores
tais como a Commission on Amusements, de Nova York, e o Vacation Resources
for Working Girls já haviam criticado os salões de baile por promoverem “licen-
ciosidade e deboche”, e mandaram seus investigadores a hotéis requintados e so­
ciedades dançantes. Manchetes como “Movimento começa a proibir turkey trot’
e grizzly bear na Quinta Avenida” exploravam o pânico maior de uma vertigi­
nosa queda dos padrões morais.
Isto foi resumido num artigo histérico no exemplar de agosto de 1913 do
Current Opinion, que fervilhava: “Soou a Hora do Sexo na América: uma onda
de histeria sexual e discussões sobre sexo parece ter invadido este país.” As danças
imitando animais foram associadas ao aumento da escandalosa prostituição e à
difusão do comércio de escravas brancas: o rapto e a intoxicação com drogas de
moças para propósitos sexuais. Não há muitas dúvidas de que ambos ocorriam
nos salões de taxi-dance - salões onde os clientes pagavam uma taxa para dançar,
em geral com uma moça —, mas nada como a horripilante dimensão promovida
pela imprensa e por filmes como Traffic in Souls? No entanto, a publicidade teve
o efeito desejado.

2 O Congresso já havia aprovado o White Slave Traffic Act de 1910, mais tarde conhecido como o Mann Act,
que proibia, inter ãliã, o transporte de mulheres com menos de 16 anos nas fronteiras estaduais. Isto foi usado
para cortar as asas do campeão mundial de boxe negro da categoria de pesos-pesados, Jack Johnson, preso sob
uma falsa acusação em 1913.

NICKELODEONS E DANÇAS IMITANDO ANIMAIS | 143


“Os salões de baile hoje em dia são, notoriamente, grandes fatores na derru­
bada da moralidade”, escreveu o criminalista William Healy no seu estudo enciclo­
pédico The Individual Delinquent, de 1915. Os reformadores e as autoridades
fizeram o máximo para policiar a loucura. Incapazes de fechar totalmente os sa­
lões ou acabar com a mania de dançar, eles se voltaram para as zonas urbanas de
onde esse vício havia se originado. Exatamente no momento em que a música
negra americana encontrava uma audiência maior, nacional e internacionalmente,
os antros em San Francisco e St. Louis foram segregados e, em seguida, total­
mente fechados.
Mas já era tarde demais pois, desafiando os reformadores e os legisladores, mi­
lhares de jovens americanos continuaram a se aglomerar nos salões de baile todas
a noites da semana. Eles votavam com seus pés. A popularidade das danças de
animais ilustrava o fato de que, durante as primeiras duas décadas do século XX,
os adolescentes estavam começando a encontrar a sua própria cultura nos entre­
tenimentos urbanos exuberantes e gregários. Longe de serem respeitáveis, estes
divertimentos originaram-se daqueles grupos proscritos aos quais foram atribuí­
das as mesmas qualidades atávicas, por assim dizer.
Conforme a juventude tornava-se uma parte integrante da cultura de massa
americana, ela dava aos adolescentes um novo incentivo para explorarem aquela
mesma selvageria que outras instituições americanas - a escola em particular -
tentavam domar. Se não bastasse essa contradição, o projeto nacional de associar
a juventude ao prazer teve outra conseqüência. “Este tipo de juventude é transitó­
rio”, escreveu o radical especialista em jovens, Randolph Bourne. “O prazer tra­
ma para se exaurir muito rapidamente, e a juventude se vê deixada prematuramen­
te com as cinzas da meia-idade.”
A rápida rotatividade de astros, moda e estilos de dança que marcaram a
nova economia de consumo cultuava os transitórios entusiasmos da adolescência
ao mesmo tempo que proporcionava um modelo industrial ideal de veloz obso­
lescência. Eles também desviavam com êxito a grande maioria dos jovens ame­
ricanos daquilo que radicais como Bourne pensavam ser a sua verdadeira tarefa:
desafiar a agenda natural dos adultos. Entretanto, estes privilégios tinham um
preço. A jovialidade industrializada da cultura popular americana, ao atualizar
com eficiência a intensidade dos românticos, também bebia em grandes goles
do seu poço de morbidez.

144 | 1904-1913
PARTE III

1912-1919
CAPÍTULO 10

Invocação
O abismo entre gerações na Europa

* * *

A reprodução é sempre sacrificial.


- G. Stanley Hall, Adolescence (1904)

FRANCÊS CORNFO RD EM ATITUDE E TÚNICA NEOPAGÃS, AG OSTO DE 1914


DURANTE O A N O DE 1912, dois jovens intelectuais franceses chamados Henri Mas-
sis e Alfred de Tarde fizeram um estudo de todos os parisienses do sexo mascu­
lino, entre 18 e 25 anos de idade, que estivessem recebendo educação de nível
médio ou superior. A amostragem não era representativa da população, mas
captava o modo como um segmento influente da juventude metropolitana pen­
sava a respeito de si mesmo e do seu lugar na sociedade. Por sua vez, a amostragem
teve uma ressonância mais ampla porque, na expectativa do momento em que
assumiria o poder, esta elite tinha mais probabilidade do que seus contemporâ­
neos de se considerar uma classe de jovens diferente.
O estudo tinha a sua própria tendência. Massis e de Tarde eram tradiciona­
listas quando se tratava de educação. Na opinião deles, a substituição do estudo
clássico por sociologia “teutônica” era apenas um exemplo de um currículo que
deixava de satisfazer às necessidades espirituais da juventude francesa. Massis já
tinha publicado uma monografia em homenagem a Maurice Barrès, a quem re­
conhecia o mérito de ter dado à sua geração, cética e em busca de uma doutrina
“que nos devolveria a energia que vem da vontade”, um propósito com sentido
renovado. Conforme ele concluiu: “No dia que descobrimos Barrès, nós nos des­
cobrimos também.”
Tendo revelado um novo tipo de jovem, que rejeitava o sistema liberal, tec­
nológico e cosmopolita prevalecente, Massis e de Tarde decidiram, como muitos
futuros pesquisadores de mercado, fazer uma pesquisa com um resultado pré-confi-
gurado. Coletado no ano seguinte no livro Lesjeunes gens daujourd’hui e publica­
do sob o pseudônimo clássico de Agathon —que na história grega foi discípulo de
Sócrates, “bravo na guerra” -, o estudo alcançou plenamente seu objetivo. Como
um daqueles que foi pesquisado queixou-se amargamente: “Tudo no ensino deles
nos forçava a servir como escravos apáticos ou a nos exasperar em rebeldia.”
Agathon descobriu um abismo entre gerações. A enquête comparava os rapazes
de 1912 com os que chegavam à maioridade em 1885. A geração anterior tinha
sido pessimista, exageradamente intelectual, relativista e agnóstica —qualidades
que a haviam levado, ela mesma, à decadência, e a própria França à sua abjeta
posição durante a década de 1870. Cansada do que enxergava como o recente
caos na França, a geração que surgia adotou a posição contrária. O rapaz de 1912
tinha “exilado a falta de autoconfiança”: era “sua característica criar ordem e hie­
rarquia, assim como os mais velhos do que ele tinham criado desordem e ruínas”.
Isto dava um novo rumo ao choque de gerações: os filhos rebelavam-se con­
tra pais que não eram conservadores, mas liberais, até decadentes. Era como se
Rimbaud, em vez de ser uma testemunha traumatizada da guerra, fosse diretamen­
te responsável, por meio da poesia, pela ignóbil derrota da Franca em 1871. Ha­
via nisto uma história pessoal: Massis era amigo do sobrinho de Maurice Barrès,
Charles Demange, que se suicidou em 1909. Para Massis, Demange “tinha

148 | 1912-1919
muita pressa de viver; e esta sua febre tinha algo de assustador. Ele tinha nervos
excelentes, mas abusou deles”.
Buscando uma saída desta intensidade adolescente e do “culto do eu”, Massis
e de Tarde foram atrás de exemplos heroicos para confirmar o nacionalismo de
Barrès. Encontraram o modelo perfeito no escritor Ernest Psichari, na época
com vinte e tantos anos: no fim da adolescência ele flertara com o socialismo e,
em 1903, chegara à beira do suicídio. Neste ponto de crise, Psichari ingressou
no serviço militar compulsório e decidiu alistar-se como soldado regular. Pelo
resto da década, serviu nas regiões mais remotas da África - um eco do desapa­
recimento de Rimbaud.
Publicado em 1913, no mesmo ano que o estudo de Agathon, o romance
de Psichari, Uappel des Armes, dramatizava o choque de gerações ao inverter a
“relação normal nas atitudes” ao apresentar um pai progressista e um filho conser­
vador. Enviado para a África no serviço militar, Maurice Vincent fica fascinado
com um capitão que é “uma grande autoridade do passado”: “puro, ilibado, não
contaminado pela modernidade”. Progresso é uma forma de americanismo, e o
“americanismo o desagradava”. No final do livro, Vincent é o soldado perfeito,
“a própria personificação da França”.
Como a religião, o serviço militar cultuava a renúncia ao ego pelo bem maior,
definido neste caso como a pureza e a fé de uma França esquecida. A associação
de religião e militarismo era reforçada por outra importante influência sobre Aga­
thon, o escritor Charles Péguy, que em 1910 publicou o polêmico Notrejeunesse.
Péguy expressou uma desilusão apocalíptica: “Somos os últimos. Quase aqueles
depois do último. Imediatamente depois de nós começa o mundo que chamamos
de... o mundo moderno. O mundo que tenta ser mais esperto. O mundo dos in­
teligentes, dos avançados... Isto é: o mundo daqueles que não acreditam em nada.”
A principal mensagem de Agathon era a de que a geração de 1912 havia as­
sumido naturalmente as qualidades pelas quais precursores como Psichari e Péguy
tiveram de lutar. Aqueles com 18 a 25 anos na época eram homens de ação, in­
teressados em aeroplanos e esportes em vez de livros. Atraídos pelo catolicismo,
eles eram mais sexualmente conservadores do que a geração de 1885 e mais rá­
pidos em aceitar responsabilidades adultas. Desgostosos com a corrupção da
Terceira República, eles buscavam a redenção na futura guerra com a Alema­
nha. A combinação de “batalha misturada com orações” levava inexoravelmente
a um martírio típico de Cruzada.
Lesjeunes gens daujourdyhui foi um sucesso midiático. Um romancista daquela
mesma classe de 1885 que havia sido execrada como “incapaz” retrucou afirmando
que o jovem típico da nova geração estava “intensamente apaixonado pelo prazer
e por jogos violentos, sendo facilmente iludido pela retórica do seu tempo, incli­
nado pelo vigor de seus músculos e pela preguiça de sua mente às brutais doutrinas

INVOCAÇÃO | 149
da Action Française, nacionalista, realista e imperialista”. Maurice Barrès, entre­
tanto, pensava que “a nova geração agora ascendente anunciava-se como uma
das melhores que o nosso país já conheceu”.

* * *

O estudo de Agathon foi uma das muitas tentativas europeias de delinear novos
movimentos juvenis no período imediatamente anterior à guerra. Estas buscavam
traduzir a vitalidade do jovem e a sua nova importância social num programa
artístico e/ou social. Até então, a juventude tinha sido um estado definido princi­
palmente pelos adultos: agora os sujeitos destas definições clamavam para ter
sua própria voz. Abstraída nestes tratados, a juventude tornou-se uma religião
em si mesma, uma apoteose que se materializou em 1911, quando o místico de
16 anos, Jiddu Krishnamurti, levado para Londres pelos teosofistas, foi anunciado
como o primeiro messias adolescente.
Estes anos foram a primeira era dourada do manifesto, conforme ondas su­
cessivas de jovens irados anunciavam a sua chegada em ambiciosas invocações do
“eterno alvorecer” por vir e em sonoras denúncias de seus pais. Havia muitas ra­
zões para isso: o progresso do ensino superior; o aperfeiçoamento nas comunica­
ções e na mobilidade social; a frustração com o lento ritmo das mudanças sociais.
Havia também forças psicológicas mais profundas em jogo. Embora o conflito
entre pai e filho já fosse um tropo literário, a criação do termo “complexo de
Édipo” por Freud, em 1910, inflamou ainda mais o conflito entre gerações que
vinha cozinhando em fogo brando.
O manifesto é o estilo clássico do adolescente sem paciência. Vivendo num
mundo governado pelos mais velhos, é claro que os jovens veem tudo que está er­
rado, mas são impotentes para realizar mudanças. Em vez disso, têm de continuar
vivendo segundo as regras que sabem com todas as suas fibras serem obsoletas.
A frustração extravasa numa retórica polarizadora que não admite tons acinzen­
tados, só o preto e o branco. Como o escritor expressionista de 21 anos de idade,
Hans Leybold, escreveu no seu manifesto Revolution, de 1913: “Vocês, pessoas
respeitáveis! Vocês, os bem-educados! Vocês, os mandachuvas! Devíamos colocar
a língua pra fora para vocês! Meninos, vocês dizem. Velhos! Vamos responder.”
Essa foi também a era dos “istas”: os cubistas, os expressionistas, os futuristas,
os vorticistas. Na medida em que um grupo rivalizava com o outro para ser o mais
radical, o mais controverso, aderir significava mais do que simplesmente fazer
parte de um movimento: era a rendição total dentro de um etos tão poderoso que
era como se fosse uma religião. Isto mais correspondia à visão de adolescência de
Stanley Hall: ele achava que a conversão religiosa era “um processo normal, uni­
versal e necessário” nesta fase da vida. Numa era em que alguns membros da avant-

150 1912-1919
garde pensavam que Deus tinha morrido, ser um extremista era um substituto
mais que satisfatório.
Estas ideologias de formas mais nítidas foram marcadas pela mudança de
sentido de uma palavra-chave. Nos meados do século XIX, o termo “geração”
era usado para descrever “todos os homens que viviam mais ou menos na mesma
época”. Na América, ele descrevia a assimilação de imigrantes na sociedade: pri­
meira ou segunda geração. Em 1900, a palavra assumiu uma conotação juvenil:
termos como “a nova geração” eram comuns, uso que devolveu a palavra à sua
raiz latina —literalmente “vir a ser”. Também afinava-se com o discurso prevale-
cente na década de 1890 de degeneração e regeneração: aquela luta pelo futuro
da corrida das nações na qual os jovens ocupavam a linha de frente.
A definição de juventude como uma classe em destaque ocorreu ao mesmo
tempo que o uso geral do sufixo “geração” como controlador de ideias sociais. En­
tretanto, os adultos também haviam promovido a autoconsciência daquela classe
recém-iluminada —com imprevisíveis resultados, da mesma forma com que o
monstro de Frankenstein virou-se contra o seu criador. Consciente ou inconscien­
temente, os novos partidários da juventude perceberam que o primeiro passo na
reivindicação do poder era anexar a palavra ao núcleo de todas aquelas disciplinas
adultas. Durante a década de 1900, portanto, “geração” deixou de ser uma pala­
vra controladora, tornando-se, ao contrário, o toque de um clarim extremista.
“Sempre que uma geração se apresenta no terraço da vida parece que a sin­
fonia do mundo vai atacar um novo tempo”, escreveu o polêmico italiano Gio-
vanni Papini na sua autobiografia publicada em 1912, Un uomo finito. Esta foi
uma das mais puras expressões do impulso generacional deste período: “Para o
homem de vinte anos, todo velho é um inimigo; todas as ideias são suspeitas; todo
grande homem deve ir a julgamento; a história passada parece uma longa noite
quebrada apenas por lâmpadas, uma espera cinzenta e impaciente, um eterno
alvorecer daquela manhã que emerge hoje finalmente conosco.”
Entretanto, neste início, a busca pela liberdade foi dificílima. Tendo forçosa­
mente se divorciado da experiência de seus antepassados e se afastado do que era
conhecido, estes jovens extremistas tiveram de aguentar as conseqüências desse
distanciamento. Implícito na ideia do abismo entre gerações havia o forte senti­
mento de que a geração que surgia era, como escreve Robert Wohl em The Gene-
ration o fl9 l4 , “única, sacrificada e perdida”. Dentro deste vácuo, muitos destes
extremistas acabariam por espelhar os valores que tão violentamente rejeitaram.

* * *

As primeiras utilizações desta retórica generacional foram estéticas. Em 1906, os


pintores alemães da escola Die Brücke, A Ponte, convocaram “todos os jovens a

INVOCAÇÃO | 151
se reunirem” a fim de “criar espaço para se movimentar e liberdade existencial
contra as forças estabelecidas dos mais velhos”. Na prática, entretanto, o resultado
foi um mero refinamento de estéticas expressionistas e fauvistas existentes. Os
futuristas na Itália, entretanto, se apresentavam como uma ruptura radical. No
seu jornal Leonardo, Giovanni Papini já havia convocado os jovens italianos a
jogarem para o alto a prudência e viverem em busca de aventuras, sonhos e
“programas eternos”.
Influenciado por esta retórica generacional e pela prática, em seu país, da
polêmica violenta pessoalmente direcionada chamada la stroncatura, o artista
F. T. Marinetti, em fevereiro de 1908, anunciou sua visão de um mundo do
futuro dominado pelo princípio da juventude. “Os mais velhos entre nós têm
trinta anos”, ele declamou no manifesto futurista, “portanto, temos pelo menos
uma década para terminar nosso trabalho. Quando estivermos com quarenta,
outros homens mais jovens e mais fortes provavelmente nos jogarão na lata de
lixo como manuscritos inúteis - queremos que isto aconteça!”
Entretanto, o mais importante no manifesto de Marinetti foi sua incorpora­
ção da tecnologia. Com a evolução do automóvel, do aeroplano, do rádio e do
cinema, os homens agora rompiam os limites de seus corpos e se lançavam no
tempo e no espaço como nunca antes. “Nós afirmamos que a magnificência do
mundo enriqueceu-se com uma nova beleza”, escreveu Marinetti, “a beleza da
velocidade. Um carro de corrida cuja capota é adornada com grandes cilindros,
como serpentes de fôlego explosivo - um carro roncando que parece montado
numa bala de metralhadora é mais belo do que a Vitória de Samotrácia.”
Este foi um rompimento significativo com a adoração à natureza do Wan­
dervogel ou dos Neopagãos: em vez de algo que se devia abominar, o homem-
máquina devia ser celebrado. Conforme Marinetti alertava: “Já vivemos no ab­
soluto, porque criamos a velocidade onipresente, eterna. Nós glorificaremos a
guerra —a única higiene do mundo -, o militarismo, o patriotismo, o gesto des­
trutivo dos que trazem a liberdade, ideias belas que merecem que se morra por
elas, e desprezo pela mulher. Nós destruiremos os museus, as bibliotecas, as aca­
demias de todos os tipos, combateremos o moralismo, o feminismo, todas as co-
vardias oportunistas ou utilitárias.”
Os futuristas viraram a manivela da aceleração estética e intelectual que
informaria tantas coisas na vida do século XX. O preço foi muito alto, entretanto,
à medida que Marinetti e seus pares na belicosa “Jovem Itália” lançavam-se num
território desconhecido. Na sua reação contra a percebida “feminilidade” da deca­
dência, eles exaltavam as rígidas certezas do nacionalismo, as exigências da dis­
ciplina externamente imposta, e a violência gratuita que marca uma patologia
masculina particular e defendida. Não havia lugar para o sexo feminino no
novo mundo jovem de Marte.

152 | 1912-1919
A retórica de Marinetti cultuava a combinação de paganismo com tecnologia
que entremeava o período: o “barbarismo com luzes elétricas” de Stanley Hall.
A sua brutal polêmica, entretanto, deu frutos numa visita a Londres, em junho
de 1914, quando ele foi atacado pelos adeptos de um novo movimento artístico.
Apesar da sua forte influência futurista, os vorticistas e seu líder, Percy Wyndham
Lewis, não eram avessos a uma pitada de parricídio. Diante de um grupo tão
ruidoso e demolidor quanto qualquer outro convocado pela sua retórica, Marinetti
entrou numa discussão progressiva sobre velocidade que o quebrou “numa cen­
tena de pedaços cheios de ódio”.
Os vorticistas lançaram sua primeira publicação em junho de 1914, uma
grande revista marrom arroxeada que codificava sua posição no título - Blast.
Escritos pelo pugilista Wyndham Lewis, os opostos maniqueístas do manifesto,
tipograficamente organizados em páginas encabeçadas com “BLAST” e “BLESS”,
injetaram uma nova e dura nota na vida cultural britânica. Rejeitando a polidez
do grupo de Bloomsbury, os vorticistas buscavam sintetizar modernismo europeu
com escultura polinésia, e empurravam o encanto futurista com a tecnologia e o
urbanismo em direção a uma estética dura: “Somos mercenários primitivos no
mundo moderno.”
A vitalidade da juventude era uma parte integrante da sua estética. O
introdutório “Longa Vida ao Vórtice” pronunciava: “NÓS QUEREMOS QUE
O MUNDO VIVA e sentir sua crua energia fluindo dentro de nós.” Wyndham
Lewis amaldiçoava “O esteta britânico” e anunciava “ENORMES JOVENS, EX­
PLODINDO POR TODA PARTE ATRAVÉS DAS ROUPAS PESADAS E JUSTAS”.
Celebrando as correntes contraditórias e explosivas da vida pré-guerra, eles mes­
mos permaneceriam calmos no centro do redemoinho:

Nosso vórtice não teme o passado: ele esqueceu a sua existência.


Nosso vórtice considera o Futuro tão sentimental quanto o passado...
Com nosso vórtice, o presente é a única coisa ativa.
Vida é o Passado e o Futuro.
O Presente é Arte.

Havia uma sensação distinta, em 1912, 1 9 1 3 el9 l4 , de que tudo convergia


para um ponto. O vórtice começava a arrastar tudo dentro do seu irresistível mo-
mentum, conforme as certezas do século XIX iam se desfazendo. O lugar da juven­
tude neste novo mundo selvagem foi dramatizado por um dos Gesamtkunstwerk1
mais sensacionais do período, tão novo que provocou uma quase rebelião na sua

1 Obra de arte total.

INVOCAÇÃO | 153
estreia em maio de 1913.2 Tendo como astro Vaslav Nijinsky,3 o bailarino que
desafiava a força da gravidade, e com uma partitura de Igor Stravinsky que exe­
cutava o som de máquina numa repetição mecânica dissonante, o mais recente
balé russo, A sagração da primavera, exaltava nada menos do que o sacrifício tribal.
Os Ballets Russes de Sergei Diaghilev eram famosos tanto por suas produções
inovadoras e caras como por sua capacidade de provocar escândalos: o orgasmo
simulado no palco por Nijinski na apresentação de Prelúdio para a tarde de um
fauno, em 1912, já havia causado indignação em Paris. As produções de Diaghilev
eram muito modernistas no seu fascínio pelo primitivo, sua hostilidade para
com a nova civilização de massa e sua exaltação da vitalidade jovial. A sagração
da primavera sintetizava a arte visual, a música, o texto e a dança num ataque
sem reservas à percepção contemporânea - como um salto para o futuro.
O impulso por trás do tecnopaganismo revelou-se na narrativa que Stravinsky
concebeu para evocar “o poder criativo da primavera”. O balé começava com
flautas de Pan e um ritual de regeneração primaveril, antes de passar para “O
Grande Sacrifício”: “A noite inteira as virgens celebram jogos misteriosos, cami­
nhando em círculos. Uma das virgens é consagrada como a vítima e é duas vezes
apontada pelo destino, sendo apanhada duas vezes na dança perpétua. As virgens...
invocam os ancestrais e confiam a escolhida aos sábios anciãos. Ela se sacrifica
na presença dos anciãos à grande dança sagrada, o grande sacrifício.”
O primeiro título de Stravinsky para a peça - A vítima —sublinhava a ideia
de que não haveria regeneração sem violência. Embora A sagração da primavera
caminhasse na direção oposta à de Peter Pan no espectro artístico, ele oferecia a
mesma previsão brutal. A juventude estava sendo energizada para o conflito,
para participar voluntariamente do sacrifício “necessário para que o mundo do
século XX tivesse início”. Em julho de 1914, o crítico Maurice Dupont chamou
o balé de “uma orgia dionisíaca sonhada por Nietzsche e evocada pelo seu desejo
profético de ser o farol de um mundo lançando-se para a morte”.
O paganismo escapista da geração anterior não teve chances contra estas se­
veras exigências. Cinco meses depois da sensacional estreia de A sagração da pri­
mavera, o Wandervogel fez o que pretendia ser uma reunião culminante no Hohe
Meissner, perto de Kassel. O movimento havia crescido em tamanho e âmbito e
se estendido para fora das fronteiras alemãs, atraindo grupos de jovens de todos
os tipos, com visões políticas que iam do anarquismo ao anti-industrialismo e
ao racismo. Tinham decidido unir todos estes grupos disparatados, ou Bunde,
numa organização global chamada Freideutsche Jugend.

2 O crítico teatral americano Carl Van Vechten assistiu à estreia do balé no fim de maio de 1913. Ele relatou que
“os franceses ficaram tão surpresos e ofendidos com esta novidade que vaiaram quase sem interrupção”.
3 Segundo a autobiografia deTamara Karsavina: “Perguntaram a Nijinsky se era difícil ficar no ar como ele fàzia
quando saltava: ele não compreendeu logo, mas depois, muito gentilmente: ‘Não! Não! Não é difícil. Você só
tem de pular e dar uma paradinha lá em cima.’”

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Este Freideutsche Jugendtag (dia da juventude alemã livre) também tinha a
intenção de neutralizar as muitas concentrações patrióticas realizadas durante o
ano de 1913, o ano centenário da vitoriosa batalha de Leipzig, tão amada pelos
militaristas alemães. Em contraste com este chauvinismo de cervejaria socialmente
sancionado, eles queriam liberdade “para dar feitio e forma às suas vidas” separados
“dos hábitos indolentes antigos e das leis de odiosas convenções”. Entretanto,
espalhar-se por si só não era o suficiente para conter todas as muitas ideologias
e teorias mundiais que o movimento estava tentando incluir.
Muitos dos oradores proferiam mensagens contraditórias, variando desde
exortações belicosas até a elaborada recusa esquerdista do fascínio nacionalista
exercida pelo fundador do movimento Free School, Gustav Wyneken. “Devemos
ousar”, ele afirmou no discurso culminante na reunião, “manter uma certa distân­
cia da pátria e do patriotismo irracional em que fomos educados.” Entretanto, a
mensagem não bateu fundo. Ao contrário de seus objetivos declarados, quase
todos os discursos no Freideutsche Jugendtag foram pronunciados por adultos, e
a platéia simplesmente não deu atenção.
Apesar da sensação geral de sucesso, o encontro Hohe Meissner terminou sem
um claro acordo ou plano definido para juntar todos os diferentes grupos de jo­
vens alemães. Logo depois começaram as cisões, conforme o movimento se divi­
dia em orientações políticas de esquerda e de direita mais tradicionais. Ao mesmo
tempo, alarmadas com a influência do Wandervogel, as autoridades criaram gru­
pos de jovens controlados por adultos que buscavam encurralar a adoração à na­
tureza e a mentalidade de grupo da juventude alemã em formatos mais aceitáveis.
O mais bem-sucedido foi o Jungdeutschlandbund nacionalista, organizado
na Prússia, em 1911, para dar à juventude alemã o treinamento militar adequado.
Com seus fortes vínculos com o exército, este novo grupo aprovado pelo Estado
oferecia um misto de exercícios ao ar livre e “jogos de guerra”: atividades que in­
cluíam treinos, prática de primeiros socorros e manobras completas, fundidas
com uma ideologia explicitamente marcial. Depois do seu sucesso inicial, o exér­
cito e o funcionalismo público tentaram unir todos os outros movimentos juvenis
sob a sua bandeira.
Em 1914, o Jungdeutschlandbund havia absorvido muitos dos grupos Wan­
dervogel. As suas noções de Lebensraum e união masculina não eram, afinal de
contas, muito diferentes da tendência prussiana para expansão e império. O sa­
crifício substituiu a adoração à natureza na revista do movimento: “A guerra é
bela. Sua grandeza ergue o coração de um homem acima das coisas terrenas, aci­
ma da rotina diária. Essa hora nos aguarda... que esse seja o paraíso para os jovens
alemães. Por conseguinte, desejamos bater à porta do nosso Deus.” Concen­
trando cerca de 750 mil membros, o Jungdeutschlandbund havia se tornado o
maior grupo de jovens do mundo.

INVOCAÇÃO | 155
CAPÍTULO 11

Sacrifício
Os mortos de guerra e jovens contra velhos

* * *

A natureza arma a juventude para o conflito


com todos os seus recursos sob seu comando.
- G. Stanley Hall, prefácio, Adolescence (1904)

RUPERT BROOKE, 1913, POR SHERRIL SCHELL


N IN G U ÉM SABIA QUANDO, ou onde, a guerra ia começar, mas as massas que afluíam
às ruas das cidades europeias no auge do verão de 1914 estavam inundadas pelo
que Wyndham Lewis, comentando sobre a multidão em Londres, chamou de
“uma apática eletricidade”. Quando finalmente a tempestade se desencadeou no
dia 28 de junho, o catalisador foi parricida: o tiro desferido contra o herdeiro do
Império Habsburgo, o arquiduque Franz Ferdinand, pelo jovem sérvio de 19
anos Gravrilo Princip, do grupo nacionalista Miada Bosna (Jovem Bósnia).
Com a evolução da crise, a demanda por uma guerra, apesar dos protestos,
varria tudo diante de si num paroxismo de sentimentos nacionalistas. Gustave
Le Bon avisou em 1895 que “as reivindicações das massas estão se tornando cada
vez mais nitidamente definidas, e significam nada menos do que uma determi­
nação de destruir totalmente a sociedade como ela existe agora”. A era tecnológica,
como já havia sido profetizado, irrompia no primeiro conflito verdadeiramente
de massa, que mataria milhões de combatentes e civis da mesma forma.
Depois de seis semanas de incertezas, a guerra foi detonada pela invasão da
Bélgica pela Alemanha, na segunda-feira, 3 de agosto. Na Grã-Bretanha, o fim
de semana anterior tinha sido um feriado público e, conforme noticiou o The
Times, muitos “turistas tinham sido atraídos a Londres por um desejo de estar
presentes na capital neste momento de grave crise”. Na noite de segunda-feira,
milhares de pessoas estavam reunidas nos espaços públicos londrinos: “A demons­
tração de patriotismo e lealdade ficou quase extática até que, por fim, a enorme
multidão se dispersou.”
“De tarde, fui até a cidade e fiquei andando em frente ao palácio de Bucking-
ham e pelo Mall”, lembrou um londrino de 17 anos da classe operária, Vic Cole.
“Havia uma grande multidão do lado de fora do palácio e outras pessoas con­
gregavam-se em Whitehall e dirigiam-se para Westminster. Mais tarde, pouco
antes da meia-noite, correu a notícia de que, tendo expirado o ultimato, estáva-
mos agora em guerra contra a Alemanha. Eu fiquei excitadíssimo; aquilo de que
as pessoas vinham falando havia anos finalmente tinha acontecido e, a qualquer
momento (eu pensei), teria início a invasão da Inglaterra.”
Aos dez anos de idade, Vic Cole havia assistido a uma exibição no palácio
de Cristal em Londres chamada “A Invasão”, que “mostrava um vilarejo inglês
completo, em tamanho natural, com igreja e pub. Os habitantes saíam a pé,
lentamente, da primeira e, na segunda, ficavam bebendo cerveja. Nesta pacífica
cena rural, de repente surgia um aeroplano alemão (ele deslizava por um fio de
arame) e deixava cair bombas que explodiam com o devido barulho e muita fu­
maça. Quando o ar limpava, via-se que soldados alemães ocupavam a aldeia. Tudo
terminava bem quando o Exército Territorial chegava e expulsava o inimigo”.
Embora não tivesse alcançado a idade mínima para o serviço militar, Cole
estava impaciente para se alistar: “Eu queria estar no exército com uma arma na

SACRIFÍCIO I 157
mão, como os meninos sobre os quais eu tinha lido tantas vezes em livros e
revistas.” Depois de se alistar, ele foi para casa dar a notícia para a família. “Eu
ainda não tinha fechado a porta, quando gritei: ‘Alistei-me no exército!’ ‘Oh,
querido! Oh querido!’, disse a vovó. ‘Meu pobre menino.’ Nenhum deles foi
efusivo, mas, quando eu me sentei, vovó passou os seus velhos braços sobre os
meus ombros por um momento. Minha tia derramou uma lágrima e depois dis­
se: ‘Bem, acho que você gostaria de uma xícara de chá agora.”’
Sem nenhuma ideia do que estava por vir, os jovens do norte da Europa
alistaram-se cheios de entusiasmo. Os franceses viram o conflito como uma opor­
tunidade de compensar a humilhação que o país sofrerá com a guerra franco-
prussiana e reclamar a província de Alsácia, perdida em 1871. A resposta ao to­
que de mobilização no fim de julho foi esmagadora, tanto que, quando o líder
do Partido Socialista Francês, Jean Jaurès, convocou um esforço combinado da
classe operária contra o conflito iminente, foi assassinado por um nacionalista
fanático. No dia 2 de agosto, a Alemanha cruzou a fronteira da França pela pri­
meira vez desde 1870.
Ali havia uma chance para reescrever a história. Ernest Psichari sentiu que o
conflito havia “chegado na hora e do modo como precisávamos”. A juventude
burguesa da França concordou. Robert Poustis, então um estudante em Paris,
lembrou que em agosto de 1914 “todo mundo estava gritando e querendo ir
para o front. Os carros, os vagões de trem lotados de soldados estavam cheios de
bandeiras tricolores e inscrições: ‘a Berlim, a Berlim’. Queríamos ir para Berlim
imediatamente, com baionetas e lanças, correndo atrás dos alemães. A guerra,
nós pensávamos, ia durar dois meses, talvez três”.
Da sua parte, os alemães viam a guerra como uma chance de flexionar seus
músculos num palco internacional. O seu lema, contido num best-seller contem­
porâneo, era “ Weltmacht oder Untergang - Dominar o Mundo ou Declinar. Isto
era sustentado pelo comportamento tempestuoso da multidão no fim de julho:
a razão escapara pela janela. Como Ernst Junger, 19 anos quando do seu alista­
mento em 1914, observou mais tarde: “Um interesse pelo medonho fazia parte,
sem dúvida, do complexo de desejos que nos arrastava tão irresistivelmente para
a guerra. Um período de lei e ordem longo como aquele que a nossa geração
tinha atrás de si gerava um verdadeiro anseio pelo extraordinário.”
Anos de agitação e preparação militarista por grupos como o Jungdeustch-
landbund haviam transformado a guerra numa espécie de experiência religiosa.
O dramaturgo e ex-Wandervogel prussiano, Walter Flex, escreveu em 1914: “Não
sou mais eu mesmo. Eu era. Agora faço parte da horda sagrada que se sacrifica
por ti - pátria.” A primeira edição de Der Wandervogel durante a guerra afirmava:
“Nada divide o Wandervogel da humanidade. Não somos especiais. Desejamos
ser considerados como todos os outros, homens no mais pleno sentido do termo.”

158 | 1912-1919
A juventude alemã alistou-se num êxtase de autoimolação. Ernst Junger,
um dos mais articulados expoentes do militarismo, lembrou mais tarde nas suas
memórias, The Storm o f Steel, que “havíamos crescido numa era material, e em
cada um de nós havia o anseio de mais experiências, tais como nunca conhecêra­
mos. A guerra havia entrado em nós como vinho. Partimos numa chuva de flores
em busca da morte dos heróis. A guerra era o nosso sonho de grandeza, poder e
gloria. Era um trabalho de homem, um duelo nos campos onde as flores se
manchariam de sangue. Não havia morte mais encantadora no mundo”.

* * *

Os jovens da Alemanha e da França estavam bem preparados. Em agosto de 1914,


os exércitos de ambos os países chegavam a 3,6 milhões cada um. Em comparação,
o exercito britânico tinha sido negligenciado e mal financiado, com pouco menos
de 250 mil oficiais e homens regulares. Com reservistas e voluntários em tempo
parcial, a Grã-Bretanha podia concentrar uma força militar completa de pouco
menos de 750 mil homens, mais ou menos um quarto de seus companheiros
combatentes. Sem recrutamento, a folga seria completada por voluntários, mas
o entusiasmo popular era tal que 300 mil homens se alistaram nas primeiras
semanas de guerra.
Entre eles estavam os protegidos de J. M. Barrie, George e Peter Llewelyn
Davies. Aos 21 anos de idade, George já freqüentava Cambridge, com Peter, en­
tão com 17 anos, prestes a ingressar também. Na primeira semana de agosto, os
dois receberam uma carta do adjunto do Corpo de Treinamento para Oficiais da
Universidade de Cambridge, “chamando atenção para o fato de que era um de­
ver óbvio de todos os estudantes oferecerem seus serviços sem demora”. Eles
descobriram que sua experiência escolar era suficiente para garantir uma patente.
Quando o coronel presidente descobriu que George tinha jogado críquete por
Eton, ele “se tornou visivelmente mais cordial”.
Não surpreendeu ver rapazes das classes alta e média alta aglomerando-se nas
salas de recrutamento. Eles tinham sido treinados para guerra nos campos de
esportes, em suas sociedades de pares autorregulamentadas, através do etos de cris­
tianismo muscular. Robert Graves, então na Charter House (o convento dos car-
tuxos), lembrou que quando um general do exército visitou seu campo de trei­
namento na escola, em 1913, “infundiu em nós que a guerra com a Alemanha
deveria inevitavelmente estourar dentro de dois ou três anos, que devíamos estar
preparados para assumir o nosso papel como líderes das novas forças que sem
dúvida seriam criadas”.
Pouco tempo depois, Graves participou de um debate escolar sobre a proposta
“de que esta casa aprova o serviço militar compulsório”. Ele lembrou que “apenas

SACRIFÍCIO | 159
seis votos em 119 foram contra. Fui o principal orador da oposição, tendo re­
centemente renunciado ao Corpo de Treinamento para Oficiais, indignado com
a teoria da obediência implícita às ordens”. Graves era uma distinta minoria de
uns 5% que preferiram reagir contra o etos militarista da época, visto que a
assombrosa maioria de seus pares preferiu aderir.
Outros rapazes da Boys Brigade ou do Boy Scouts alistaram-se imediatamen­
te e descobriram que, como tinha sido a intenção, seu treinamento arregimentado
os favorecia. Como Richard Hawkins lembrou, “havia quatro sargentos de pelotão
que tinham de ser escolhidos entre seus homens e, por Deus, se um deles tivesse
estado no Boy Scouts, ora, ele era um cabo imediatamente”. Jack Davis, na
época com 19 anos, alistou-se no início de setembro: “Eu estava na Boys Brigade
e era membro de um clube de atletismo também, portanto aceitava a disciplina
e ao mesmo tempo tinha uma vida organizada. Por isso, a convocação para o
exército naturalmente me atraiu.”
Assim como o Wandervogel, os British Scouts adaptaram-se rapidamente às
exigências da guerra. Desde o início da década de 1910, eles haviam cada vez mais
se filiado ao movimento Dever e Disciplina, destinado a neutralizar o “grave ris­
co social” da “atual indisciplina juvenil”. Este organismo aprovado pelo sistema
deu novo ímpeto às convocações de recrutamento já emanando da Liga de Serviço
Nacional. Para militaristas como lorde Roberts e coronel Baden-Powell, o trei­
namento militar universal para todos os homens entre 18 e 23 anos de idade era
“a solução para a decadência moral da Grã-Bretanha”.
Quando a guerra estourou, Baden-Powell pensou que ela dava ao movimen­
to dos escoteiros “a sua melhor oportunidade”. Além de obter o reconhecimento
oficial para o uniforme dos escoteiros, ele também fundou um Corpo de Defesa
dos Escoteiros para jovens de 15 a 17 anos, no qual eles receberiam treinamento
especial em técnicas militares básicas como tiro, sinalização e construção de trin­
cheiras. Com a vantagem de saber como penetrar na mente infantil, ele reconheceu
a atração dos adolescentes pela guerra: “Portanto, também, quando estourou a
guerra, as mentes dos meninos estavam obcecadas com ideias guerreiras. Não
adianta lutar contra isto se a febre tomou conta deles.”
Seja como for, 60% dos adolescentes britânicos não tinham tido contato
com qualquer tipo de treinamento pré-militar, e foram influenciados não ape­
nas por uma febre de guerra mas por vários outros fatores. Alguns estavam en-
tediados com seus empregos e buscavam aventuras. Segundo a prática de recru­
tamento na época, forças de trabalho e áreas inteiras alistavam-se juntas. Dessa
forma era possível continuar com seus colegas de trabalho e amigos no mesmo
regimento. Era impensável ficar em casa quando todos os seus amigos estavam
arriscando suas vidas.

160 | 1912-1919
Em 1914, a isenção era conferida a trabalhadores em atividades essenciais e
àqueles com menos de 19 anos. Entretanto, a exigência de uma idade mínima
era muitas vezes ignorada. Nesta temporada de febre de guerra, o londrino Re-
ginald Haine foi se alistar: “Meu amigo me apresentou ao sargento, que disse:
‘Está disposto a se alistar?’ Eu disse: ‘Sim, senhor.’ Ele disse: ‘Quantos anos você
tem?’ Eu disse: ‘Tenho 18 anos e um mês.’ Ele disse: ‘Você quer dizer 19 anos e
um mês?’ Então eu pensei um segundo e disse: ‘Sim, senhor.’ Ele disse: “Certo,
então assine aqui, fazendo o favor.”’
Para aqueles cuja ansiedade era menos imediata, as atrações da vida no exér­
cito aumentavam na medida em que o desemprego crescia durante o outono de
1914. Nos primeiros meses de guerra, meio milhão de homens perderam seus em­
pregos em conseqüência do bloqueio de rotas comerciais e da instabilidade econô­
mica. A saúde da classe operária pobre não havia melhorado significativamente
desde que fora identificada como um escândalo nacional durante a Guerra dos
Bôeres. Para uma grande parte dos jovens das áreas pobres da Grã-Bretanha, as
rações do exército representavam uma grande melhora nas condições de vida. A
promessa dos sargentos do recrutamento de “carne todos os dias!” teve repercussão.
Robert Roberts lembrou que recrutas retornando a Salford de licença estavam
“uns seis quilos mais gordos, mais altos, confiantes, esguios e eretos”. “Quase irre­
conhecíveis como os homens que partiram”, eles encorajavam outros a se alistarem
imediatamente. O oficial Charles Carrington lembrou que, “quando eles nos
procuravam, eram crianças fracas, desanimadas, magras e assustadas - o refugo
do nosso sistema industrial - e estavam em condições muito ruins por causa da
escassez de alimentos durante a guerra. Mas, depois de seis meses de boa ali­
mentação, ar puro e exercícios físicos, mudavam tanto que suas mães não os
reconheceriam.”
A pressão social para se alistar era tremenda. No início da guerra, isto era
policiado por milhares de moças que iam de um lado para o outro estendendo
penas brancas para todos os rapazes não uniformizados, num gesto que caracte­
rizava covardia. A ideia fora sonhada por um marechal aposentado, que criou a
Ordem da Pena Branca especificamente com este propósito, e era apoiado por
campanhas com cartazes que perguntavam: “O seu ‘namorado’ está usando cáqui?
Se não está, VOCÊ NÃO ACHA que deveria estar? Se ele não acha que você e o
seu país merecem que se lute por eles, você acha que ele é DIGNO de você?”
Tendo em mente que a atração sexual de um uniforme do exército era um
fator nas mentes de muitos rapazes, esta era uma campanha brutalmente eficaz.
Independentemente de ser menor de idade ou já ter se alistado, cada aparente
“desertor” era uma vítima em potencial. Um londrino de 16 anos de idade, Nor-
man Demuth, ficou “pasmo” ao receber uma pena branca: “Eu tinha tentado con­
vencer os médicos e oficiais do recrutamento de que tinha 19 anos e pensei: ora,

SACRIFÍCIO | 161
isto me dá um incentivo maior, porque devo parecer que tenho, portanto fui
procurar as agências de recrutamento com mais fervor.”
Um jovem professor de arte chamado Harry Ogle lembrou que “uma onda
de temor parecia ter se espalhado sobre o país e rapazes sem uniforme eram pre­
senteados com penas brancas por moças (também não uniformizadas). Os homens
de mais de quarenta anos, achando-se seguros por trás de empregos ‘importantes’,
insistiam para que se alistassem aqueles que eram jovens demais para perder mais
do que suas vidas. O casal de idosos e extremamente religioso do qual eu era
inquilino me tratava com frieza, louvando em alta voz Ted Pullen que, segundo
os jornais, havia galantemente colocado sua jovem vida a serviço da Nação’”.

* * *

Estas manobras eram apenas a versão de rua de uma repressão muito mais ampla
de sentimentos antiguerra. A oposição estava ali desde o início, em discursos de
socialistas independentes, editoriais de revistas de esquerda, intelectuais de Cam-
bridge como Bertrand Russell e o grupo de Bloomsbury. A lei era imediatamente
invocada para suprimi-los, depois que a Defense of the Realm Act (conhecida
como DORA) foi aprovada em 8 de agosto de 1914. Políticos e escritores proemi­
nentes defendiam a guerra como um “excelente desinfetante” contra uma “po­
dridão nacional”, da qual o movimento moderno era o sintoma mais mórbido.
Na sua belicosa peça Der Tag,1 que estreou em dezembro de 1914, J. M.
Barrie escreveu que “a Grã-Bretanha ficou insípida e preguiçosa: terra que é um
ventre, ela jaz superalimentada, sem sonhos tais como os de manter vivos os Po­
deres”. Num discurso de outubro de 1914 com o título de “Arte, Moral e a Guerra”,
o professor de belas artes de Oxford, Selwyn Image, afirmou que “nós precisamos
de um purgante, um despertar abrupto, um novo chamado para a sanidade, para
um reajuste de nossas avaliações das coisas”. Para ele, a guerra era um “choque
salutar”. Outro editor populista simplesmente expressou sua esperança quanto
aos modernistas: “Que pereçam todos na guerra.”
Dentro desta arrasadora mobilização de mentes e corpos —3 milhões de
homens nos primeiros 18 meses de guerra-, foram poucos os opositores conscien­
tes: pouco mais de 16 mil durante todo o período de quatro anos. Era preciso uma
considerável convicção para ser um OC (opositor consciente). Embora 80%
recebessem a isenção do serviço militar, uma proporção significativa foi mandada
para trabalhar no front em equipes médicas e ambulâncias, onde continuava
sendo desprezada por seus compatriotas. Os mais rigorosos na recusa estavam

1 O brinde à vitória dos alemães.

162 | 1912-1919
entre os mais ou menos 6 mil OCs enviados para a prisão, onde os que tinham
menos sorte eram obrigados a vestir camisas de força e eram espancados.
Mas isso não quer dizer que muitos rapazes não se alistassem sem receios. Sob
a atitude de bravata, muitos se assustavam com um futuro desconhecido. Peter
Llewelyn Davies lembrou que, no caminho para o alistamento, seu irmão George
“teve uma daquelas estranhas alterações, algo entre um ataque de desmaio e uma
enxaqueca, a que era propenso desde criança, e precisou se sentar por uns minu­
tos num banco fora do quartel. Eu de bom grado teria dado meia volta e retornado
a Londres, humilhado mas livre. George, entretanto, assim que se recuperou, me
fez entrar com ele por aqueles escuros portões”.
No dia que os irmãos Llewelyn Davies chegaram ao enorme quartel Sheerness
para o treinamento militar, descobriram que “oito jovens oficiais” que tinham in­
gressado uma ou duas semanas antes estavam indo para a França “substituir as
baixas nos Batalhões no Marne e no Aisne. Esta confrontação um tanto abrupta
com as exigencias do serviço teve, temporariamente, um efeito depressivo, e me
lembro de George, ao nos despirmos na nossa tenda naquela noite, rompendo
um silêncio bastante longo com as palavras: ‘Bem, jovem Peter, pela primeira vez
em nossas vidas vamos enfrentar algo realmente grave, **** se não vamos/”
Estes receios não eram infundados. Todos os soldados sonham com uma cam­
panha curta e rápida, e neste conflito europeu não era diferente. Em agosto, quase
todos pensavam que ele acabaria no Natal. Conforme as listas de baixas cresciam,
e os dois exércitos ficavam estagnados ao redor da saliência de Ypres, lentamente
ficou claro para os militares, se não para o público, que isto não ia acontecer. Em
vez de campanhas travadas por unidades de cavalaria pequenas e de grande mobili­
dade, forças imensas começaram a se enfrentar num sistema de trincheiras imóveis.
Esta não seria uma guerra de heroísmos individuais, mas de lento atrito de massas.
Esta mudança, fundamental na natureza dos conflitos armados, foi um imenso
choque para os voluntários e recrutas idealistas de 1914. Muitos já tinham achado
difícil a transição entre a paz e a guerra: esta, afinal de contas, era um rito de pas­
sagem tradicional entre a juventude e a idade adulta, e nem todos deixavam de
ser jovens sem alguma resistência. Como o jovem de Yorkshire, F. B. Vaughan,
lembrou: “Foi muito difícil começar a obedecer a ordens, mas gradualmente sa­
bíamos como formar quatros, voltar para a direita, voltar para a esquerda e todo o
resto. Nós nos tornamos, em outras palavras, um grupo disciplinado de homens.”
Mesclando ordens para marchar, armar baioneta e cavar trincheiras, o processo
de treinamento da infantaria inglesa eliminava a individualidade e mergulhava
o recruta nos principais valores do exército: obedecer às ordens de superiores a
qualquer custo e suspender o tabu dos tempos de paz contra matar um outro ser
humano. Ao mesmo tempo, a rebeldia e a vitalidade juvenis eram subordinadas

SACRIFÍCIO | 163
a um mundo onde os mais velhos, os oficiais superiores, inquestionavelmente
governavam. Em si, isto não era diferente do clássico treinamento para o exército,
mas antes outras guerras já tinham sido travadas por um pequeno percentual da
população jovem.
Nesta guerra em grande escala, milhões de adolescentes estariam juntos en­
volvidos na renúncia à juventude, se não à vida: o holocausto de uma geração
que teria imprevisíveis e duradouras conseqüências. Servindo na primeira gran­
de campanha da guerra, o combate pelo porto belga de Antuérpia, Rupert Brooke
foi testemunha das novas condições de conflito. “É uma coisa sangrenta”, ele es­
creveu para um amigo americano, “metade dos jovens da Europa soprados através
do sofrimento para o nada, na incessante matança mecânica destas batalhas mo­
dernas.” Ele havia acabado de fazer 27 anos, mas continuava a se definir por sua
juventude.
Quando a guerra estourou, Brooke tinha usado seus influentes contatos,
como Winston Churchill, para conseguir uma rápida patente. Finalmente havia
encontrado sua especialidade. Num breve artigo autobiográfico escrito logo após
a declaração de guerra, “Um rapaz incomum”, ele revelou que era o rapaz do tí­
tulo porque, apesar de todos os horrores que estavam por vir, “sentia-se extraor­
dinariamente feliz”. O serviço militar e a probabilidade de uma morte gloriosa
ofereciam uma solução inflexível para as emoções irrevogavelmente confusas de
Brooke. Como ele escreveu: “Espero que será a melhor coisa para todos se uma
bala perdida me encontrar no ano que vem.”
Depois de Antuérpia, Brooke procurou colocar sua paixão pela guerra como
a causa justa num longo poema chamado 1914. Neste trecho explicitamente vol­
tado para os jovens —“Agora, graças a Deus / Que nos adequou à Sua hora, / E
apreendeu nossa juventude, e nos acordou do sono” —, Brooke converteu os sa­
crifícios rituais com que os neopaganistas haviam brincado no sacrifício militar
exigido pela guerra. Na terceira parte, chamada “Morte”, ele celebrou os caídos:
“e aqueles teriam sido, / Seus filhos, eles deram a sua imortalidade.” Esta era “a
herança” na qual ele e, por implicação, sua geração, haviam finalmente se trans­
formado.
Esta seqüência tocou imediatamente num nervo sensível quando da sua pu­
blicação no início de março de 1915. Era a primeira de muitas coleções que pro­
curariam definir uma experiência quase inconcebível numa linguagem íntima,
mais contemplativa do que se via nos noticiários censurados ou comunicados mi­
litares. Como afirmou o Times Literary SupplemenP. “Estes sonetos são pessoais
- nunca sonetos foram mais pessoais desde que Sidney morreu2 - e no entanto

2 O famoso soldado-poeta do século XVI. No dia 3 de maio, o Sphere escreveu que Brooke “era o único poeta
inglês de algum respeito que havia dado a vida nas guerras do seu país desde que Philip Sidney fora ferido de
morte nos muros de Zutphen, em 1586”.

164 | 1912-1919
o próprio sangue e a juventude da Inglaterra parecem encontrar neles expressão.
Eles não falam a um coração apenas, mas a todos a quem o seu chamado veio na
hora da necessidade e que foram encontrados instantaneamente disponíveis.”
Estas frases floreadas, entretanto, não combinavam com a verdadeira expe­
riência da guerra em grande escala. Em março de 1915, George Llewelyn Davies
escreveu para J. M. Barrie das trincheiras. Ele havia visto um soldado colocar
sua cabeça sobre o parapeito: “O topo da sua cabeça foi explodido com um tiro,
portanto ele nada sentiu. Mas foi uma visão medonha.” Respondendo com a
notícia de que o tio de George, Guy de Maurier, tinha acabado de ser morto,
Barrie concluiu: “Perdi toda a noção de que a guerra é gloriosa, agora ela é in­
descritivelmente monstruosa.” Três dias depois, Llewelyn Davies levou um tiro
na cabeça; ele tinha pensado que “esta era a melhor morte que se podia ter”.
No início de abril, o decano da catedral de St. Paul leu em voz alta parte de
1914 no seu sermão do domingo de Páscoa. Àquela altura, entretanto, Brooke
estava de cama com febre alta e, no dia 23 de abril, morreu de septicemia. Já re­
conhecido como um importante poeta da guerra, sua morte selou o pacto em
mármore. Os tributos choveram: “Ele é o símbolo da juventude da nossa raça”
{Star). “Ele foi parte da juventude do mundo” (Daily News). O Times publicou
um longo obituário sem assinatura redigido por Edward Marsh, que lhe atribuiu
“a tristeza da juventude prestes a morrer, e o consolo triunfante garantido de um
espírito sincero mas valente”.
Este não era o Rupert Brooke por completo, como seus amigos tentaram mostrar
em vão: como o New Statesman expressou: “Criou-se um mito, mas ele cresceu em
torno de uma figura imaginária muito diferente do homem real.” Mas estas quei­
xas ficaram submersas numa enxurrada de sentimentos nacionais. Ajudado pelo
perfil clássico e pela boa aparência de garoto captados nas famosas fotografias
registradas por Sherril Schell, Brooke tornou-se o garoto propaganda morto que
representava cada um dos milhares de rapazes cujas mortes eram noticiadas com
crescente velocidade na Lista de Honra do Times.
Os alemães também celebraram este etos necrótico de imortalidade juvenil.
No início da guerra, muitos da primeira leva de voluntários morreram na aldeia
flamenga de Langemarck. Nos noticiários dessa ação ocorrida em novembro,
milhares de tropas ainda inexperientes, compostas de aprendizes, estudantes uni­
versitários e alunos de liceus, encontraram suas mortes num ataque sem esperanças
a posições fortemente defendidas. Na fábula, uma voz jovem começou a cantar
- o famoso brado nacionalista, “Deutschland, DeutschlandüberAlies' - e a melodia
foi adotada por sucessivas ondas de jovens alemães.
Dessa matança inútil nasceu um mito poderoso, que exaltava o princípio do
autossacrifício até a morte. Muitos dos mortos eram ex-Wandervogel: a irracio­
nalidade atávica com que o movimento havia brincado fora facilmente desviada

SACRIFÍCIO | 165
da natureza para o misticismo de batalha. Como um jovem voluntário afirmou:
“Víamos o sentido da guerra nesta liberação interna de toda a nação de suas
convenções obsoletas, neste grande avanço’ para o desconhecido, para alguma
aventura heróica, não importa quem ele devorasse. Isso é que inflamava o nosso
entusiasmo.”
Esta transição foi captada num famoso romance dos tempos da guerra. Escrito
por um oficial de serviço chamado Walter Flex, Um andarilho entre dois mundos
celebrava o amigo de Flex, Ernst Wurche, que pensava que “toda a glória e saú­
de da futura Alemanha vinha dos Wandervogel”. Segundo Flex, Wurche “perso­
nificava este espírito do puro e luminoso”. Da natureza eclética das leituras
Wandervogel - “um pequeno volume de Goethe, Zaratustra, e uma edição de
campanha do Novo Testamento” —, Wurche oferecia uma parábola sobre a vida
no exército: “Nas trincheiras, todos os tipos de espíritos estranhos são forçados
a ficar lado a lado. É o mesmo com os livros, assim como com as pessoas.”
Quando Wurche foi morto, Flex tentou imortalizar o amigo colocando os
seus pensamentos na boca do fantasma de Wurche, que aparecia exatamente
quando Flex estava perdendo o ânimo: “Isso não é velhice, como você pensa,
mas amadurecimento. Seus feitos e seus mortos estão fazendo você amadurecer
e se manter jovem. É a vida que ficou velha e gananciosa, a morte continua
sempre a mesma. Você não sabe nada sobre a eterna juventude da morte? E a
vontade de Deus que a vida que envelhece se torne jovem de novo na eterna jo­
vialidade da morte. Esse é o sentido e o mistério da morte.”
Na sua fusão de romantismo, misticismo da natureza dos Wandervogel e
rendição à ideologia militar, o pensamento de Flex oferecia uma consistente
“convicção moral que pode se realizar tanto na derrota como no heroico sacrifício
de uma nação”. Publicado no fim de 1917, pouco depois da morte de Flex, Um
andarilho entre dois mundos ajudou a dar sentido ao que não tinha sentido. O
autor tinha permanecido fiel à sua visão até o fim. Como escreveu na sua última
carta: “Tenho o tranqüilo e íntimo conhecimento de que tudo que acontece e
pode acontecer comigo faz parte de uma evolução da vida sobre a qual nada que
está morto tem qualquer poder.”
As obras de Walter Flex e Rupert Brooke deram um brilho idealista ao que
estava se tornando nada menos do que matança em massa. Foi na primavera de
1915 que o horror dessa guerra ficou evidente. A ofensiva britânica em Neuve
Chapelle falhou, resultando em 7 mil mortos. Os alemães lançaram seu primeiro
ataque com gás de cloro. Ocorreram os primeiros ataques a Londres com zepelins.
Os combatentes no front Ocidental ficaram atolados no sistema de trincheiras
que ia do Canal da Mancha até a fronteira com a Suíça.
Durante o outono de 1915, 80% das forças de ataque britânicas na batalha
de Loos acabaram mortas ou feridas. Este era o horror daquilo que os generais

166 | 1912-1919
alemães chamaram de Stellungskrieg, guerra de posição: um novo tipo de estra­
tégia defensiva em que batalhões inteiros caíam “como uma porção de Charlies
Chaplins”. Ernst Junger observou que “aqui a cavalaria desaparecia para sempre.
Como todos os nobres e pessoais sentimentos, ela deu lugar ao novo tempo de
batalha e à lei da máquina”. Os constantes golpes de artilharia ofereciam nada
além da morte instantânea e anônima: a maioria dos mortos nunca foi identi­
ficada.
Para os que sobreviviam, a experiência nas trincheiras era uma total agressão
aos sentidos. Muito além dos incansáveis bombardeios, as tropas também tinham
de lutar contra lança-chamas, gás, atiradores de tocaia e as condições de existência
no dia a dia: sujeira, frio, enchentes, lama, ratos, moscas e todos os outros tipos
de praga. Neste inferno, os homens envelheciam drasticamente. Robert Graves
achava que os oficiais estavam “na sua melhor forma” entre três e quatro semanas
no front. Depois disso a “neurastenia se instalava”. Havia uma idade ótima para
a sobrevivência: “Os oficiais entre 23 e 33 anos de idade podiam contar com
uma vida útil mais longa do que aqueles mais velhos ou mais moços.”
A disparidade entre o idealismo de 1914 e a realidade da guerra era tão
grande que combatentes e não combatentes igualmente tinham de encontrar
mitos que dessem sentido ao sem sentido. A elevação de Brooke e Flex ao status
de heróis marcou a volta daquele poderoso nexus romântico de juventude - morte
e imortalidade mas não como uma expressão de liberdade. Na verdade, ambos
são vítimas clássicas de infanticídio, Isaac de Abraão —mas desta vez regozijando-
se voluntariamente no seu sacrifício. No entanto, embora a guerra fosse um
jogo de rapazes, ela era combatida nos termos definidos por homens mais velhos:
os jovens não tinham outra escolha que não fosse obedecer.

* * *

Conforme a guerra continuava sem qualquer guinada decisiva, a própria juventu­


de tornou-se um campo de batalha ideológico. Este conflito em particular, pela
alma de toda uma geração, foi encenado em forma verbal, mas não menos amarga.
Quase tão logo tinham sido cultuadas, as cristalinas abstrações de 1914 tornavam-
se obsoletas. Em reação à morte de Brooke, um oficial de vinte anos de idade
chamado Charles Sorley criticou a sentimental representação que ele fizera do
seu serviço militar “como uma proeza muito intensa, notável e sacrificial, quando
ela é meramente a conduta que exigem dele (e de outros) conforme as circuns­
tâncias”.
Mais tarde, naquele mesmo ano, outro oficial e ex-aluno de escola pública
escreveu sobre a vida nas trincheiras de Loos para sua incompreensiva noiva.
Roland Leighton descreveu “os ossos descarnados, enegrecidos de homens simples

SACRIFÍCIO | 167
que verteram o seu vermelho e doce vinho da juventude inconscientemente, por
nada mais tangível do que a Honra ou a Glória do seu País ou outra Ânsia [de]
Poder”. Tendo se alistado com o típico idealismo, Leighton sarcasticamente convo­
cava aqueles que promoviam a guerra a “perceber que coisa magnífica e gloriosa
é ter destilado toda a Juventude, Alegria e Vida num monte fétido de hedionda
putrescência”.
A importância essencial da juventude se confirmou quando o governo inglês
finalmente recorreu ao recrutamento. O índice de atrito era tamanho que a de­
manda de sangue fresco era incansável. Em agosto de 1915, um registro nacional
fora instituído, obrigando todos os homens e mulheres entre 16 e 65 anos a for­
necerem detalhes de suas vidas. Um outro esquema de voluntariado em outubro
nao produziu os números necessários, e o recrutamento de todos os homens
solteiros entre 18 e 41 anos de idade foi introduzido em fevereiro de 1916. Com
isto foram lançados mais 2 milhões de soldados, aos quais juntaram-se outros
tantos depois de maio, quando foram recrutados também os homens casados.
Nesse mesmo mês, os alemães deram um golpe decisivo em Verdun, o início
de um holocausto que durou nove meses e tirou a vida de meio milhão de fran­
ceses. Em junho, teve início a ofensiva no Somme, resultando no primeiro dia
em 60 mil baixas britânicas. Mas a retórica idealizada de juventude continuava,
em volumes como A busca da verdade. Publicado em agosto de 1916, o livro era
uma coleção de poemas de H. Rex Freston, um estudante de Oxford morto dez
dias depois de chegar ao front. “Melhor morrer”, ele havia escrito, “enquanto os
membros são fortes e jovens, / Antes do fim do dia, / Antes que seja entoada a
vigorosa canção da juventude.”
Para alguns poucos combatentes, este tipo de tropo romântico não passava
de uma abominável mentira. Durante o ano de 1916, foram feitas as primeiras
tentativas de oposição ao etos de sacrifício prevalecente. Quase irreconhecíveis
na época, elas foram o indício de uma mudança de ânimo por parte da classe
que tinha sido educada para o conflito. Na Grande Guerra, a classe de oficiais
liderados do front, uma prática militar que resultou numa proporção maior de
oficiais morrendo do que em qualquer outra patente: um número desproporcio­
nal de ex-alunos de escola pública.3 Alguns deles começaram a questionar a dis­
paridade entre a imagem idealizada de juventude e a sua esmagadora realidade.
A réplica mais direta à retórica de autossacrifício de Freston veio de um jo­
vem oficial chamado Arthur Graeme West, que interpretou sua experiência na
linha de frente em termos de “imponente horror”. Entretanto, ele não tinha o
“caráter de mártir” para agir de acordo com suas tendências pacifistas. Não

3 Harrow registrou 516 ex-alunos mortos durante a guerra, só em um ano, e uma média de um a cada três dias.

168 | 1912-1919
querendo retornar ao front, responde com uma réplica mordaz à “busca da ver­
dade” de Freston. Em apenas cinqüenta linhas, seu poema “Deus! Como eu vos
odeio, vós rapazes alegres!” vertia escaldante desprezo pelo romantismo da guer­
ra, pelas “elegias sentimentais” da propaganda do front doméstico e pelo próprio
sistema de escolas públicas obcecadas por esportes.
West permaneceu inédito até 1918, o ano seguinte a sua morte em Bapaume,
mas a sua foi uma ressalva prematura no que os soldados em serviço viam como
uma guerra pela verdade. Recrutas e oficiais igualmente sabiam que a linguagem
oficial de guerra - as frases vangloriosas dos poetas da guerra mais publicados
ou a sentimental belicosidade de documentos populares como “Resposta de uma
mãe a um soldado comum” - não fazia qualquer sentido na insensatez do hor­
ror de 1917. Este foi o ano de quase inanição no front interno e o ano de Pass-
chendaele, uma ofensiva de três meses que terminou com 250 mil baixas britâ­
nicas e 400 mil alemãs.
Com os jovens das escolas públicas ainda exaltados como o ícone oficial de
sacrifício, o livro britânico mais sensacional de 1917 tentava destruir o ideal
cristão muscular. Escrito por um oficial em serviço, Alec Waugh, O assomar da
juventude foi o resultado, como seu autor mais tarde admitiu, de “um estado de
espírito de rebeldia. O sistema de escolas públicas era venerado como um pilar
do Império Britânico e, dessa veneração, surgira o mito do garoto de escola pú­
blica ideal - o menino dom de Kipling. Em nenhum sentido tinha eu encarna­
do tal mito e ele tinha sido responsável, eu sentia, por metade dos meus proble­
mas. Eu queria expô-lo.”
Em um nível, O assomar da juventude mantinha-se firme na tradição das
histórias de escolas de grupos de pares da década de 1900 como Stalky & Co., de
Rudyard Kipling, e The Hill, de Horace Vachell. Entretanto, a ira de Waugh
transformou este gênero em excesso. Entrando na fictícia Fernhurst, em 1911, o
protagonista Gordon Caruthers logo aprende as ideologias opressoras da sua
nova escola: “ao atleta, tudo é perdoado”; o sistema de Escolas Públicas (...) ama
a mediocridade, gosta de ser aceito inquestionavelmente como foi o Velho Tes­
tamento.” O sentimento opressivo do novo menino é o seu “medo de fazer a
coisa errada”.
Os meninos são fustigados pelas forças contraditórias do “militarismo” e
pelos fragmentos de dissonância fornecidos por Oscar Wilde e o ragtime america­
no. O amigo de Caruthers, Tester, oferece o credo decadente: “Eu vou fàzer o que
quiser com a minha vida. O certo e o errado não passam de termos relativos.”
Preferindo seguir suas próprias inclinações em vez daquelas “de uma hipócrita
civilização do século XX”, os meninos mais rebeldes organizam várias ações para
atrapalhar os adetas. Eles representam a Younger Generation, de Stanley Houghton,

SACRIFÍCIO | 169
com um texto parricida: “Para cortar as algemas do pensamento amadurecido
que estáo tolhendo os membros da juventude.”
Quando a guerra estoura, todos se alistam, mas se iludem com a propaganda
vigente. Como Tester afirma: “Toda a nossa geração foi sacrificada; claro que é
inevitável. Mas é muito duro. Os homens mais velhos viram algumas de suas
esperanças realizadas: nós não veremos nenhuma. Não sei quando esta guerra
vai terminar; não agora, eu penso. Mas, quando isto acontecer, no que nos diz
respeito, os dias em que tudo são rosas terão acabado.” Nada resta a não ser ci­
nismo: “No início, fomos enganados pelos ouropéis da guerra; o romantismo
teima em não morrer. Mas agora sabemos. Não nos interessam mais os contos
de fadas. Não há nada de glorioso na guerra.”
O sacrifício era promovido como um ideal nacional, mas o que ele significava
para aqueles que estavam sendo sacrificados? Como aqueles que sobreviveram o
entenderam? Os prognósticos de Waugh eram sombrios. Ele sentia que não resta­
ria mais nada para sua geração depois da guerra. Mesmo que a civilização retornasse
às suas antigas glórias em algum futuro, à suposta paz, ele e seus pares seriam cas­
cas secas e ocas, sua juventude teria sido roubada. “Nós só vivemos uma vez”,
Tester conclui. “Só uma vez nos ufanamos no vento, e no mar, e no amor, e no
êxtase de estar vivos. E está tudo despedaçado; nunca teremos realmente vivido.”
A primeira obra a contrapor explicitamente o ideal de uma geração com a
realidade do sacrifício, The Loom ofYouth, provocou uma tempestade. Entretanto,
não foi a crítica desse ideal que suscitou a ira do público, mas as leves sugestões
de homossexualidade. Esta foi, é claro, a principal falha no sistema de ensino
exclusivo para um ou outro sexo e, vinte anos depois de Oscar Wilde, ainda era
o maior de todos os tabus. Embora alguns oficiais de serviço achassem o livro
“exagerado”, ele ainda tinha força para ser um problema nacional no fim de
1917. Ele inspirou um volume em resposta, The Dream ofYouth, que promovia
o “cavalheirismo” como um antídoto para a “impiireza”.
Em 1918, o quarto ano de guerra, qualquer traço do idealismo de 1914 já
tinha desaparecido havia muito tempo. Nesse estágio, o exército britânico estava
aceitando um número sem precedentes de recrutas adolescentes, que tinham so­
frido com a escassez dos tempos de guerra. Eles foram lançados num inferno. O
êxito da revolução bolchevique de novembro de 1917 levou a Rússia a se retirar
da guerra. Meio milhão de soldados alemães foram liberados do front Oriental
e, com esse novo exército, os alemães planejavam um ataque definitivo ao front
Ocidental que mal saíra das suas posições originais de 1915.
O ataque alemão começou em março com o mais feroz bombardeio de ar­
tilharia da guerra, e os mais jovens aguentaram o rojão. Como um cabo lembrou:
“Na minha seção havia quatro jovens que tinham acabado de fazer 18 anos, que

170 | 1912-1919
estavam na nossa companhia havia apenas três semanas e cuja primeira experiência
de fogo de artilharia foi essa, e QUE experiência. Eles choravam e um não parava
de chamar mãe e quem podia culpá-los, um tal INFERNO transforma covardes
nos mais fortes e nenhum nervo ou corpo humano foi feito para suportar tamanha
tortura, barulho, horror e sofrimento mental.”
Nitidamente, sob tamanha pressão, uma dura disciplina militar era necessária
para manter firmes esses jovens recrutas. William Holmes, um soldado raso num
regimento londrino, lembrou-se da chegada de dois recrutas muito jovens, “entre
16 e 17 anos de idade”. Quando receberam ordem de atacar, começaram “a cho­
rar desesperados”. Apanhados enquanto tentavam fugir, foram acusados de deser­
ção, privados de suas insígnias e fuzilados. Para Holmes, isso era coerente com
os “fatos da guerra”: “Todos os homens tinham vindo lutar. Pela mera desobediên­
cia a um oficial, você poderia ser morto com um tiro. E, assim, nós aceitávamos
o castigo como um fato da vida.”
Estes incidentes eram relativamente raros. Embora o índice de deserção fosse
estimado em 10,26 a cada mil homens, apenas 266 foram executados por este
crime. Os combatentes ficavam no lugar porque tinham de ficar. Esta compulsão
era imposta pelo medo de ser executado ou colocado em ostracismo pelos seus
pares. Entretanto, muitos homens da linha de frente davam uma interpretação
positiva para suas razões para continuar comprometidos com uma guerra insana.
Os meninos das escolas públicas ainda se mantinham fiéis à ideologia “Vitai
Lampada” de jogar conforme as regras, enquanto, para muitos operários, o ser­
viço militar era visto, em termos práticos, como “um trabalho a cumprir”.
A maior motivação era o vínculo entre todos as patentes. Conforme Charles
Carrington lembrou: “Os homens numa trincheira são como marinheiros sobre­
viventes de um naufrágio numa jangada, totalmente comprometidos com seu
grupo social, de modo que ninguém poderia ter qualquer dúvida sobre as fraque­
zas morais ou físicas de seus companheiros porque a vida de todo mundo dependia
da confiabilidade de cada um.” Estes “vínculos de companheirismo”, de uma
forma crucial, cruzavam as anteriormente rígidas fronteiras de classe no exército
britânico, que, até 1916, haviam sido uma força tão estratificada quanto a socieda­
de em geral. Só na segunda metade da guerra é que oficiais foram tirados do
meio da tropa.
No caldeirão do combate, as classes encontravam-se umas com as outras e
aprendiam a se entender: não havia outra escolha. Os meninos das escolas públicas
que nunca tinham se defrontado com o proletariado descobriram que ele não só
existia no mesmo plano, como na verdade aprenderam muito com aqueles que
em outras circunstâncias teriam repudiado. Na verdade, as habilidades de mineiros
e operários braçais eram valorizadas no duro mundo físico das trincheiras. Como
Harry Ogle foi aconselhado por um de seus soldados rasos: “Você é um mestre-

SACRIFÍCIO | 171
escola e sabe algumas coisinhas que não servem de nada nesta droga de lugar,
mas se é para usar a pá e a picareta, deixa comigo.”
Esta “confiança entre homens” funcionava nas duas mãos. Um soldado raso
de Lancashire pensava que “nossos oficiais e subalternos eram maravilhosos no
cumprimento do seu dever. Estavam sempre nos vigiando e vendo se recebíamos
algo quente para beber”. Obviamente, nem sempre era assim que acontecia: a
guerra não erradicou o ressentimento entre as classes. Mas a ideia dos vínculos
entre todas as patentes tornou-se o ideal mais forte e viável nos últimos anos do
conflito. Substituindo a ideia romântica de sacrifício e honra, este ideal pragmático
fundiu-se com a retórica de pares que começava a aparecer com mais intensidade
no último ano da guerra.
Poetas como Siegfried Sassoon, Wilfred Owen e Richard Aldington começa­
ram a remodelar o ideal de sacrifício de uma geração em outros termos. Impregna­
dos com este novo ideal de amor profundo entre companheiros de luta, poemas
como “O Sangue dos Rapazes” e “Hino à Juventude Condenada” não ofereciam
floreadas generalidades, mas denúncias amargas —não a respeito dos alemães,
mas da geração mais velha. Aqui, os mais velhos, um dia respeitados e autoritá­
rios, reapareciam como maníacos infanticidas que, como o pai em “A Parábola
do Velho e do Jovem”, “matou o filho, / e metade da descendência europeia, um
por um”.
Estas ainda eram vozes de uma minoria, raramente publicadas, mas cresceriam
em estatura por fortes motivos emocionais e demográficos. No último ano da
guerra, a Grã-Bretanha estava chegando ao fundo do poço do seu efetivo. A ida­
de para o serviço militar havia sido estendida tanto para cima - até 55 anos -
quanto para baixo. A partir da primavera de 1918, muitas divisões eram “em
grande parte compostas de soldados que poderiam muito bem estar na escola”.
No inverno, cerca de metade de todos os 1,85 milhão de soldados britânicos ser­
vindo na França e na Bélgica tinham 18 anos de idade. Os exércitos franceses e
alemães continham uma faixa etária semelhante.
Dentro das culturas militares que acentuavam o vínculo entre pares em opo­
sição aos limites de classes, não é de estranhar que surgisse uma nova identificação
de geração. Era como se a polêmica de Agathon, em 1912, falando de uma “ge­
ração sacrificada”, tivesse se tornado uma realidade estatística, porém, em 1918
ela não envolvia apenas os poucos escolhidos mas a grande massa de homens en­
tre a adolescência e a meia-idade. Os sonhos de 1914 eram meras cinzas: como
os britânicos, os combatentes alemães e franceses tinham de dar sentido ao vasto
vácuo moral e espiritual conseqüente da profunda desilusão.
Na França, a “geração de 1914” do início da guerra havia sido substituída
por um grupo mais jovem, como uma ruptura que aparece após um tremor de
terra. Os mais francos expressavam sua raiva visceral por generais incompetentes

172 | 1912-1919
e ideólogos da juventude nacionalistas. Outros usavam o humor negro niilista,
como o oficial Jacques Vaché: “Fico satisfeito em viver beatificamente, como
câmeras 13x18”, ele escreveu no verão de 1918. “É muito parecido com qualquer
outro modo de esperar pelo final que virá. Eu ganho forças e me guardo para
atos futuros. Vocês verão que maravilhosa confusão será o nosso futuro e como
ele nos permitirá matar pessoas!!!”
Os jovens na Alemanha também eram desafiados pelo misticismo de guerra
sintetizado pelo herói-errante de Walter Flex. No romance proibido de Fritz von
Unruh de 1917, O caminho do sacrifício, a “sagrada comunhão” da geração sa­
crificada foi colocada a serviço de um futuro socialista, idealizado. Na verdade,
von Unruh imaginou a inversão do poder dos antigos para os jovens unidos:
“Aqueles que no passado sentaram-se em tronos, hoje sentam-se diante de tele­
fones, pálidos e trêmulos, e nos servem. Somos o fator decisivo. A iniciativa é
nossa! Ninguém nunca mais vai manter cativos os nossos corações! Em nós vive
a juventude! Atrás de nós jazem os velhos!”
Mesmo antes do seu fim, a Grande Guerra havia destruído para sempre a
obediência automática que os mais velhos esperavam dos jovens. O mito do sa­
crifício havia se tornado uma faca de dois gumes. Soldados jovens esperavam
cumprir seu dever, mas, se sobrevivessem, sentiam que haviam conquistado o
direito de ditar seu próprio mito. Se fossem sacrificados, então não seria em
nome dos mais velhos que permaneceriam em casa. Não, o sacrifício deles seria
oferecido no altar da nova classe de jovens, da geração cujos membros combate­
ram aos milhões uns contra os outros, sofrerá em conjunto e que estaria para
sempre unida por essa terrível experiência.

SACRIFÍCIO | 173
CAPÍTULO 12

A classe de 1902
Delinqüência juvenil e a Grande Guerra

Ah, eu sei. Eu sei. Todos vocês acham que estou louco — olhando
para mim assim. [Ele havia se descontrolado totalmente; suas palavras
explodiam num crescendo constante.] Mas há milhões fazendo isso — milhões.
Os jovens fazendo isso, e os velhos sentindo-se dignos por causa disso.
- M ile s M a lle son , Black 'Eli (1 9 1 6 )

JOVENS NUMA REBELIÃO CONTRA O S ALEMÃES, POPLAR, LESTE DE LONDRES, 1915


EM JANEIRO DE 1916, um soldado de 19 anos do exército canadense se viu diante
de um enigma. Francis Chester havia fugido do Canadá para Nova York aos 16
anos, onde trabalhava como mensageiro. Ele ficou sendo o “fiel sargento” de um
homem de meia-idade que vendia cocaína e morfina, e começou a provar as
mercadorias. Aos 17 anos, estava viciado em morfina e traficando para sustentar
o seu vício. Entretanto, a droga não eliminara de todo seu gosto por aventuras.
Convencido pelo amigo “Snuffy”, Chester, graças a um blefe, conseguiu entrar
para o exército canadense no verão de 1915.
O único problema era que ambos ficaram isolados dos seus usuais fornece­
dores. Como porcos farejando trufas, Chester e seu parceiro logo encontraram o
caminho para a Chinatown de Londres. Ali eles se satisfizeram não com a suas
costumeiras injeções de morfina, mas fumando “ópio”. Embora essa droga ainda
não fosse ilegal, “os chineses não se arriscavam. Costumavam nos fazer entrar e
sair às escondidas”. Chester ficou tão seduzido que se tornou “perito nas delícias
da cachimbada, e durante três semanas vivi num quarto de uma casa chinesa,
entregando-me ao ópio”.
Essa negligência para com seus deveres militares resultou no seu retorno à
base em Shorncliffe, em Kent. Entretanto, a atração pelo vício era mais forte do
que qualquer ameaça de disciplina militar. Ajudado por Snuffy, cujas especiali­
dades incluíam roubo e trapaças, Chester imediatamente adquiriu um passe para
deixar a base e os dois foram direto para a cidade mais próxima, Folkestone. Con­
seguir drogas era algo prioritário na agenda deles, e para isso fariam uso da força,
se necessário. Chester lembrou que “Snuffy tinha uma pistola que havia com­
prado de alguém no acampamento. Até hoje acho que aquele negócio não ia
atirar realmente”.
Falsa ou não, a arma de fogo parecia bastante real para servir a seu propósito:
“Enfiamos bolas de papel laminado no tambor da pistola para parecer que estava
carregada e entramos numa farmácia. Um garoto com um jaleco branco estava
do outro lado do balcão. Apontei a arma para ele do bolso da minha túnica. ‘Es­
cuta, garoto’, eu disse. ‘Não queremos machucar você. Só queremos um pouco
dzjunk! ‘Junte O que é isso?’, ele perguntou, intrigado e aterrorizado. ‘Toda a
cocaína e morfina que você tiver.’ ‘Tudo bem, soldado’, ele disse. E estendeu o
braço para uma prateleira e nos deu duas ou três garrafas. Deixamos o garoto de
olhos arregalados.”
Este incidente das memórias de Chester, Shot Full, revela os perturbadores
efeitos da Grande Guerra sobre o Jront europeu. A reação do jovem farmacêutico
é crucial: não só ele não conhecia a palavra norte-americana para morfina, junk,
como ficou “de olhos arregalados” porque tinha acabado de presenciar algo que
nunca tinha visto antes. Depois de uns 16 meses de conflito, os civis começaram
a perceber, assim como os soldados, que nada voltaria a ser como antes, que as

A CLASSE DE 1902 | 175


pessoas estavam começando a se comportar de um jeito como nunca tinham fei­
to antes, isso ainda não tinha um nome.
Conforme a Grande Guerra passava, os valores essenciais do ocidente entra­
vam em questão. Para o eurófilo G. Stanley Hall, observando obsessivamente a
sua trajetória nos Estados Unidos, a única interpretação era a de uma “esquizo­
frenia” coletiva. Seguindo a recente cunhagem1da palavra, Hall definiu-a como
um termo “usado pelos psicólogos para descrever uma mente dividida, da qual a
personalidade Jekyll-Hyde é um dos tipos”. O barbarismo havia retornado na
medida em que a civilização involuía. A guerra havia arrancado “o verniz superfi­
cial da cultura” para mergulhar o “homem na categoria das emoções primitivas”.
Nada era mais sintomático das novas condições de morte em massa do que
o “ZUIIIIN, CRASH, CLANGUE! ZUIIIIIG, CRASH! CRASH! CLAAANGUE!” dos
constantes bombardeios. “Com o primeiro estrondo do fogo de artilharia, uma
parte do nosso ser se arremessa a mil anos atrás”, o romancista Erich Maria Re­
marque mais tarde observou. “Nós partimos como soldados, e poderíamos estar
resmungando ou poderíamos estar animados - chegamos à zona onde começa a
linha de frente e viramos animais humanos.” A esmagadora pressão desta tempes­
tade de aço teve devastadores efeitos psicológicos.
A nova loucura da guerra foi definida pelo psicólogo Charles Myers, que
em fevereiro de 1915 a chamou de “neurose de guerra”. Os médicos logo notaram
um aglomerado de sintomas que “se seguiam ao choque de uma bomba explodin­
do”: paralisia, estupor, amnésia, um incontrolável sacudir de braços e pernas num
eco demente das danças de Nijinsky de antes da guerra. Em julho de 1915, o
professor de medicina em Oxford registrou uma “orgia de neuroses e psicoses,
modos de andar e paralisias. Não posso imaginar o que deu no sistema nervoso
central dos homens... mudez histérica, cegueira, muita perda de sensibilidade”.
Esses sintomas eram universais. Na Alemanha, houve mais de 600 mil casos
de “neuroses de guerra” de 1914 até 1918. Entre abril de 1915 e abril de 1916,
cerca de 24 mil casos de neurose de guerra foram mandados de volta para a In­
glaterra. Esta era uma “neurastenia” em massa que apenas os especialistas em
psicologia - reconhecida como uma prática médica legal em 1913 - podiam in­
terpretar. Com a sanidade do norte da Europa cada vez mais em questão, a Gran­
de Guerra tornou-se a primeira guerra psicológica. O tratamento com psiquiatras
era um modo de aliviar as paralisações sistêmicas sem precedentes causadas pela
neurose de guerra.

1 Pelo famoso psiquiatra de Zurique, professor Blueler, em 1911. Sua definição do estado descrevia um distúrbio
mental “caracterizado por pensamentos autistas”. Os sintomas incluíam: “perda de conexão emocional com o
ambiente, negativismo ou obediência automática e alucinações.”

176 | 1912-1919
Entretanto, a psicologia permanecia uma disciplina especializada, aplicável
apenas aos combatentes. Aqueles que ficavam esperando em casa não tinham
esse alívio. Dentro da perplexidade emocional da época, mostrar tristeza e até
medo era considerado tabu: como uma jovem britânica que perdeu o noivo
lembrou: “Eu só queria me esconder em algum lúgar quieto e não me preocupar
em falar com ninguém.” O que os britânicos chamaram de “stiffupper lip”—lá­
bio superior firme, que não treme para se referir ao ato de “não perder a cora­
gem” ou “não chorar”, passou a ser um princípio de sobrevivência, um necessário
abafar de emoções explosivas que poderiam, de outra forma, desestabilizar socie­
dades que já estavam chegando aos limites do suportável.
Entretanto, o medo sem disfarces demonstrado pelas vítimas da neurose de
guerra revelava que esta estratégia era eficaz apenas em parte. No front interno,
o rígido controle de emoções avassaladoras em geral funcionava, mas também
tinha como conseqüência uma série de sintomas mal explicados que iam da imersão
no ocultismo ao consumo de drogas, à delinqüência juvenil e a uma “sexualidade
incontrolável”. A violenta investida da guerra plena precipitou uma revolução
social e moral: como Magnus Hirschfeld mais tarde escreveu, “O prazer do mo­
mento era o que decidia a ação do indivíduo, pois o presente era a única coisa de
que se tinha certeza”.

* * *

Esta concentração no presente representava, entre outras coisas, mais um prego


no caixão da religião organizada. Na França, na Alemanha e na Grã-Bretanha,
igualmente, o endosso incondicional da Igreja à guerra gerou ressentimentos a
partir de 1916. Na Grã-Bretanha, os civis recorriam cada vez mais aos espiritua­
listas, que pareciam oferecer uma conexão direta com os jovens parentes mortos.
Assim como os imperativos do capitalismo americano começaram a minar o es­
pírito de sacrifício promovido pelo cristianismo, do mesmo modo a experiência
da guerra acentuava a total imersão no presente já definida como dominante na
psique dos adolescentes.
Em guerras anteriores, o status do soldado e o do não combatente tinham
se mantido bastante distintos. A primeira guerra europeia de massa destruiu essa
distinção. O simples número das baixas na linha de frente significava que muito
poucos civis estavam imunes ao impacto da guerra. Porém, mais importante
ainda, os civis eram considerados como alvos militares legítimos. Na França, na
Alemanha e na Grã-Bretanha, o número de civis mortos (por desnutrição, doença
e ações militares) girava em torno de 10% do total de baixas militares. Na Fran­
ça, o número era de aproximadamente meio milhão, na Grã-Bretanha, quase
300 mil, e na Alemanha, ultrapassava os 620 mil.

A CLASSE DE 1902 | 177


Este alargamento da esfera de ação da guerra significava que o front interno
tornava-se sujeito às suas próprias tensões e pressões. Entre os mais afetados es-
tavam as mulheres jovens e o grupo mais vulnerável da Europa, definido por
Ernst Glaeser como “A classe de 1902”, os adolescentes mais jovens que tinham
conhecido pouca coisa além da guerra e estavam indefesos contra suas psicoses.
Mesmo no início da adolescência, o fato de o recrutamento e a probabilidade de
servir na linha de frente parecerem importantes como um treinamento militar
regular tornou-se parte do currículo padrão, e assim a juventude era bombarde­
ada com a propaganda em prol do sacrifício.
Com a crescente mobilização, os adolescentes da classe operária também eram
recrutados para o mundo do trabalho adulto. Leis previamente rígidas regulamen­
tando o trabalho infantil foram flexibilizadas com a continuação da guerra: na
Alemanha, até 300 mil homens e mulheres jovens estavam empregados em fábri­
cas em 1917. Na Grã-Bretanha, o número foi estimado em 600 mil. Muitos es­
colares saíam antes da idade legal de 14 anos, ou recebiam dispensa para trabalhar
33 horas por semana se freqüentassem a escola em “meio período”. Em algumas
áreas rurais, até metade dos adolescentes em idade escolar eram levados para
trabalhar na tarefa cada vez mais vital de produzir alimentos.
Ao mesmo tempo, as figuras de autoridade que davam aos jovens estrutura
e disciplina começaram a desaparecer, quando pais, professores, irmãos mais ve­
lhos e policiais eram convocados. Com as escolas frequentemente fechadas e os
parentes envolvidos no esforço de guerra, números nunca vistos de adolescentes
eram deixados à própria sorte. Desde 1915, eles tinham começado a viver num
mundo de pares em grande parte sem a supervisão dos adultos. Junto com os
efeitos adversos da desnutrição e da agressão sancionados pela declaração de
guerra, esta falta de controle montou o cenário para mais comportamentos anor­
mais entre os jovens.
Um dos primeiros indícios disso foi visto na Grã-Bretanha depois que o na­
vio de passageiros, Lusitania> afundou em maio de 1915. Segundo um jornal das
áreas mais pobres da cidade, “multidões de jovens e mulheres congregavam-se
nas vizinhanças da lojas que pertenciam a pessoas com nomes alemães e as ata­
cavam com algum grau de violência”. Estas explosões de violência xenofóbica
repetiram-se nas principais cidades de todo o país: em Hull, Londres e Liverpool.
Embora socialmente sancionadas, elas apontavam para uma incidência maior
de delinqüência juvenil.
Nas 17 principais cidades britânicas, o número de jovens com menos de 16
anos acusados de crimes subira 33% durante o ano de 1915. Isso despertou o
interesse do governo: como o comissário de polícia de Londres escreveu num rela­
tório para o Ministério dos Negócios Interiores, “o que mais cresce é, sem dúvida,
a ausência de controle paterno. Em inúmeros casos, o pai está longe, servindo, e

178 | 1912-1919
a mae está empregada numa fábrica de munição ou trabalha em outro tipo de
emprego, e assim não há nenhum adulto para cuidar das crianças; este é um
fator de gravíssima importância”.
Este padrão repetia-se na Alemanha, onde o número de crimes juvenis subira
60% entre 1914 e 1916. O crime mais comum era a vadiagem: com trabalho
assalariado disponível e um futuro militar à vista, a escola parecia inútil. Um
estudo sobre o problema realizado em Berlim revelou que 90% dos delinqüentes
tinham mães que trabalhavam ou estavam ausentes. Na falta de controle pelos
adultos, os adolescentes formavam clubes juvenis informais que muitas vezes
não se distinguiam das gangues criminosas. As autoridades ficaram tão preocupa­
das com essa “dissolução moral” da juventude que tentaram desviar suas energias
para atividades relacionadas com a guerra.
É difícil fugir à ideia de que esses jovens estavam apenas representando o
que fazia a sociedade em geral. Exatamente na idade em que estavam para entrar
no mundo fora de casa, eles descobriam que esse mundo havia explodido em vio­
lência. Como membro daquela geração nascida nos meados da década de 1900,
o berlinense Sebastian Haffner sentiu que o conflito tinha um apelo obsessivo:
“Era um jogo escuro, misterioso, e o seu fascínio interminável, perverso, eclipsava
tudo o mais, fazendo o cotidiano parecer banal. Era viciante, como a roleta e o
ópio. Meus amigos e eu o jogamos durante toda a guerra: quatro longos anos,
impunes e sem que ninguém nos perturbasse.”
Na Grã-Bretanha, isto encontrou eco nas gangues de rua. Os hooligans tinham
retornado, sob um novo e mais vicioso disfarce. Entre os mais notórios estavam
os Anderston Redskins, de Glasgow, uma das muitas gangues que aterrorizavam a
cidade durante o ano de 1916. Num artigo intitulado de “Os terroristas de Glas-
gow”, o Sunday Chronicle pintou um quadro assustador: “Uma gangue rivaliza
mais do que a outra em selvageria e horror. Senhoras são pegas e roubadas; poli­
ciais recebem cacetadas e cortes com cacos de garrafa quando tentam levar alguns
dos rufiões para a prisão; e homens idosos são espancados e deixados no chão
depois de seus bolsos serem esvaziados.”
Durante os primeiros anos da guerra, uma gangue de Manchester chamada
Napoo praticava a sua própria versão das histórias dos índios americanos: “Eles
perseguiam furtivamente meninas e moças nas ruas”, um de seus contemporâneos
lembrou, “e aí agarravam os longos cabelos trançados que pendiam nas costas,
que era o estilo da época, e com um par de tesouras afiadas cortavam a trança e
saíam correndo com ela como suvenir.” Eles estavam “cada vez mais ousados”:
“Alguns costumavam subir nos bondes tarde da noite e, se uma mulher estava
sentada sozinha, cortavam os cabelos dela, e depois, como um raio, saíam em
disparada sem ser apanhados.”
Originários do distrito industrial de Ancoats, os Napoo foram logo identi­
ficados pelo lenço de pescoço cor-de-rosa, que era o uniforme do grupo. Com

A CLASSE DE 1902 | 179


seus “escalpelos” muito públicos, rapidamente ganharam uma temível reputação.
“Eles se tornaram notórios e todos falavam deles”, uma criança de Manchester
daquela época lembrou. “Faziam de tudo, quebravam vidraças, lutavam contra
todo mundo que fosse possível e tinham navalhas enfiadas nos bolsos dos coletes,
navalhas para cortar pescoços, esse tipo de coisa. Mas nunca se viam realmente
as coisas acontecerem. Era sempre algo de que as pessoas falavam.”
A delinqüência juvenil aumentou na Grã-Bretanha durante a Grande Guerra,
mas a percepção pública da ameaça era maior do que a realidade, conforme as
histórias assustadoras nos jornais faziam efeito. O crime entre os adolescentes não
era apenas o sintoma de um mundo enlouquecido, mas, como o criminologista
e reformador Cecil Leeson escreveu em seu panfleto de 1917, A criança e a guer­
ra, “um desperdício de vida que a nação, situada como está agora, não pode ad­
mitir”. Na totalidade da guerra, todos tinham seu papel: “A verdade nua e crua
é que o Estado não pode se dar o luxo de ter criminosos adolescentes com uma
população dizimada pela guerra.”
Leeson reconhecia que “as condições em que as crianças agora são obrigadas
a viver impossibilitam o saudável desenvolvimento moral”. A escalada de vandalis-
mos, furtos e vários crimes relacionados com a desordem pública tinha muitas ex­
plicações. Graças ao recrutamento havia muito menos policiais: seus substitutos,
todos homens mais velhos, lutavam para conter seus jovens e ardilosos adversários.
A iluminação restrita das ruas ajudava a criminalidade, visto que “a maldade ama
o escuro”. A falta do cuidado paterno adequado e a interrupção dos estudos tam­
bém tiveram seu papel. O “presente estado anormal da sociedade” também teve
sua parcela de culpa, com sua “conversa característica da guerra, de malícia, per­
fídia e vingança”.
Os adolescentes da classe operária sempre suportaram o impacto do pânico
da delinqüência juvenil, mas durante a guerra o fato de muitos estarem emprega­
dos em tempo integral significava que tinham mais dinheiro para gastar e, por
sua vez, isso trazia uma autoconfiança maior. “Esses garotos ganham como ho­
mens adultos”, Leeson escreveu, “e são tratados como homens, embora lhes falte
a experiência. Por conseguinte, tentam escapar de vez em quando e, neste perío­
do de reação, cometem-se crimes”. Uma vez ingressado no mundo do trabalho,
adolescentes de 14 anos deveriam poder participar de prazeres adultos.
Isso não era possível na Grã-Bretanha dos tempos da guerra, regulada por
infindáveis DORA antiquados. O futebol, o críquete e as corridas foram proibidos
nos primeiros anos da guerra e, durante o ano de 1917, beber em bares era se­
veramente restringido.2 Num país cada vez mais cheio de regulamentos, os adoles­

2 Liderado por David Lloyd George, um ex-defensor da abstinência, o governo havia muito estava de olho nas
horas de funcionamento dos bares - até 18 por dia - e, em 1917, elas foram restringidas a três ou quatro horas
diariamente em todo o país.

180 | 1912-1919
centes que desejavam diversão eram vistos como um grande problema de segu­
rança. O crescente foco na juventude também surgia do fato de que uma grande
população de homens estava fora, na guerra: adolescentes e mulheres assumiram
uma visibilidade sem precedentes, com resultados ambíguos.

* * *

Guerra era trabalho para homens: o secretário de guerra britânico, lorde Kitchener,
tinha deixado claro que “não aprovava mulheres lutando”. As moças que desejas­
sem fazer mais do que entregar penas brancas descobriam que lhes eram oferecidos
papéis de apoio e não de atuação na linha de frente. Entretanto, elas ainda vi­
nham em bando se alistar. Para aquelas que queriam participar, ser enfermeira era
a opção mais popular. Quase 50 mil moças - algumas abaixo da idade mínima
de 19 anos - afluíam para se alistarem nos Destacamentos de Ajuda Voluntária.
Para muitas jovens da classe média, criadas em meio a um ideal de igualdade, essa
era a opção preferida.
Para as meninas das áreas pobres, o trabalho nas fábricas gerava mais dinheiro
para gastar e um certo grau de independência. Robert Roberts lembrou que sua
irmã mais velha, que trabalhava em engenharia, “usava cosméticos escondido, até
que uma noite o velho a pegou com uma bolsa ‘dorothy (que as senhoras carre­
gavam pendurada no pulso) cheia dessas coisas. Ele jogou tudo no fogo. A casa,
nós compreendíamos, tinha sido profanada. Joe Devine (um vizinho) explodiu,
não ‘havia colocado as filhas na rua por usar esta imundície?\ Nunca mais ela
deveria ousar... Jenny não se perturbou: ‘Ou eu continuo usando’, ela disse, ‘ou
você me expulsa também’”.
Na outra ponta da escala de classes, Vera Brittain descobriu que cuidar de
soldados gravemente feridos a ajudava a ter uma “liberdade precoce” das inibi­
ções vitorianas. “Eu nunca tinha visto o corpo nu de um homem adulto”, ela es­
creveu, mas isso mudou rapidamente. “Exceto ir para cama com eles, quase não
havia nenhum serviço íntimo que eu não prestasse a um ou outro no decorrer
de quatro anos, e ainda tenho motivos para ser grata ao conhecimento do funcio­
namento masculino que esse cuidado me deu.”
A maior mistura entre os sexos ampliou a liberação de restrições que a própria
guerra causava. O ano de 1914 havia, segundo Magnus Hirschfeld, representa­
do “um surto de instinto em forma sancionada” que permitiu às massas fazerem
tudo “que o Estado proibia ao indivíduo”. As sanções contra assassinato e irrestrita
sexualidade tinham sido derrubadas. Para os rapazes que iam morrer, a necessidade
de se divertirem era importantíssima. Do lado feminino, o efeito sexualmente
provocante de um uniforme militar e o desejo de aproveitar ao máximo o mo­
mento tiveram a sua própria influência.

A CLASSE DE 1902 | 181


Ainda que não chegasse perto da loucura presente nos bordéis da linha de
frente, essa exuberante liberdade sexual espalhou-se para o front doméstico. En­
tretanto, houve conseqüências. Casos de gravidez extraconjugal aumentaram ao
mesmo tempo que os índices de prostituição e de infecções por doenças venéreas.
O problema foi considerado tão sério que se tornou um escândalo nacional: em
1916, a Royal Comission estimou que cerca de 10% dos homens nas áreas de
Londres ocupadas pela classe operária sofriam de sífilis, com muitos mais infec­
tados com gonorreia. *
Com o passar da guerra, as “meninas” ficaram mais jovens: o número de mu­
lheres com menos de 21 anos recrutadas para a prostituição subiu acima de 50%.
Leeson citou o exemplo de “Caso D ”, uma menina de 14 anos “presa recente­
mente por vadiagem numa estação de trem junto com soldados”. Em 1918, o
capelão da principal prisão feminina de Londres, Holloway, viu “uma grande
deterioração” no tipo de prostituta consignada lá: “As meninas na sua maioria
são muito jovens e ignorantes, muito viciadas e corruptas. Frequentemente elas
vêm de cidades provincianas e de distritos rurais. São evidentemente um produto
da guerra.”
O comportamento das moças passava por exames minuciosos. Fossem sexual­
mente ativas ou não, muitas meninas de todas as classes estavam adotando as
modas antes associadas às prostitutas: fumar cigarros e usar maquiagem de tons
fortes em público. Confrontados com estes novos fenômenos, muitos adultos
achavam que onde havia fumaça havia fogo. Já que a saúde dos rapazes da nação
era algo de suma importância, publicavam-se histórias assustadoras sobre cente­
nas de moças aglomerando-se nos portos movimentados, nos bares e nos centros
de diversões de todas as principais cidades.
O processo para encontrar um bode expiatório começou cedo na guerra. Na
Grã-Bretanha, a preocupação com o comportamento feminino estava associada
a outra questão moral: a persistente existência de vida noturna em Londres, ape­
sar das rígidas proibições de DORA. No outono de 1915, o artigo de um jornal
nacional apontou para as “Meninas que jantavam fora” amontoando-se no West
End de Londres: “Antes, ela jamais faria uma refeição de noite na cidade se não
estivesse acompanhada por um amigo do sexo masculino. Mas agora, com di­
nheiro e sem homens, ela está começando a jantar fora cada vez mais.” Londres
tornava-se “um verdadeiro Eldorado para homens com dinheiro para torrar”.
Como parte do movimento da moralidade contra a vida noturna debochada
de Londres, as moças da “West End Bohemia” estavam associadas às drogas. Numa
coluna publicada em janeiro de 1916, um jornalista chamado Quex observou a
prevalência “dessa excitante droga, a cocaína”: “É tão fácil de tomar - é só aspirar
pelo nariz; e ninguém parece saber como as meninas que sofrem deste hábito des­
truidor de corpos e almas têm tanta facilidade para obter a droga. No vestuário

182 | 1912-1919
das senhoras de um certo estabelecimento, dois baldes cheios de caixinhas de
papelão circulares descartáveis foram encontrados pelas faxineiras outro dia —
caixas de cocaína descartadas.”
O escândalo aumentou quando, em fevereiro de 1916, o Daily M ail noti­
ciou o caso de uma Francis Kingsley, apanhada vendendo cocaína para um cabo
canadense disfarçado: Francis Chester não era o único soldado canadense com
problemas de fornecimento. A cocaína tornou-se muito mais do que a reserva
de moças amantes da boa vida que já eram chamadas de “melindrosas”: tornou-
se um espectro que ameaçava afetar o esforço de guerra. As autoridades foram
obrigadas a agir. No fim de julho de 1916, DORA fez da “posse de cocaína ou
ópio” um crime.
Nos dois últimos anos de guerra, DORA - a essa altura antropomorfizada
numa provocante reformadora feminina —estava por toda a parte. Para combater
a “febre cáqui”, mais de duas mil unidades do Serviço Policial Feminino patrulha­
vam todos os lugares públicos onde moças “tontas” pudessem se tornar “prosti­
tutas amadoras”. Organizações patrocinadas por igrejas como o Movimento de
Pureza Social instauraram uma campanha em conjunto contra o hábito de beber
entre as mulheres. A prostituição foi tratada por uma regulamentação da DORA,
número 40D, que tornava crime uma mulher infectada com doença venérea ter
relações sexuais com qualquer membro das forças de Sua Majestade.
O moralismo vigilante atingiu o seu auge no verão de 1918 com o caso de
difamação de Pemberton Billing. O réu era um membro dissidente do Parlamento
que acreditava “na promoção da pureza na vida pública”. No início de 1918, a
sua revista, o Imperialist, aludia a uma lista imaginária de “47 mil” figuras
públicas cuja perversão sexual as havia levado à traição: muitas podiam ser encon­
tradas no teatro onde era encenada a peça Salomé, de Oscar Wilde. No julga­
mento, Pemberton Billing chamou Wilde de “lepra social” que “tinha fundado
um culto da sodomia neste país, e viajava de uma extremidade a outra perver­
tendo os jovens onde fosse possível”.
Este bizarro julgamento foi apenas um dos muitos exemplos de comporta­
mento anormal que prosperavam no norte da Europa durante o último ano da
Grande Guerra. As campanhas de 1917 não haviam causado um grande avanço,
mas uma paralisação ainda mais letal. Ao mesmo tempo, o clima na Europa en­
tre junho de 1917 e maio de 1918 piorou ainda mais as condições desesperado-
ras do front doméstico. Com suprimentos e potencial humano forçados até o
limite^ a desnutrição era freqüente. O desespero veio em seguida. Na Grã-Breta­
nha, um jornal nacional publicou no seu editorial: “O espírito da nação está fi­
cando sombrio. Sua solidariedade está desmoronando.”
O ano de 1918 foi de greves, motins e rebeliões conforme as conseqüências
da revolução bolchevique de novembro de 1917 se faziam sentir. A “gripe espa­

A CLASSE DE 1902 | 183


nhola” dizimou as populações já enfraquecidas. Naquela altura, já era óbvio para
muitos europeus que o continente não poderia retornar às certezas do mundo de
antes da guerra, que já estava começando a assumir as características de uma era
dourada. Como Robert Roberts observou, “1917 foi o ano em que o século XX
realmente começou. Novas ideias circulavam pelo mundo: homens faziam pro­
jetos para o futuro”.

* * *

Essa convulsiva mistura de loucura de guerra e revolução vermelha deu forma


ao único movimento de arte jovem europeu do período. Com a oposição organiza­
da à guerra quase impossível em todos os países combatentes,3 muitos dissidentes
haviam fugido para a neutra Suíça. Tanto quanto os revolucionários como Vla-
dimir Lênin, jovens artistas de toda a Europa afluíam em bando para o porto
seguro de Zurique. Segundo o historiador Hans Richter, “para compreender o
clima em que teve início o movimento Dadá, é necessário lembrar a extensão da
liberdade em Zurique, mesmo durante a guerra mundial”.
O dadaísmo foi proclamado num anúncio pela imprensa em 2 de fevereiro
de 1916: “Cabaret Voltaire. Sob este nome formou-se um grupo de jovens artistas
e escritores com o objetivo de ser um centro de entretenimento artístico. O Ca­
baret Voltaire será dirigido segundo o princípio de reuniões diárias nas quais ar­
tistas visitantes tocarão suas músicas e recitarão suas poesias.” O anúncio foi
colocado por um grupo de artistas da Alemanha, Romênia e França: Hugo Bali,
Emmy Hennings, Hans Arp, Mareei Janco e Tristan Tzara. Embora com idades
variando entre vinte e trinta anos, nenhum deles havia trocado sua juventude
por um uniforme.
Os eventos na noite de estreia, três dias depois, excederam todas as expectati­
vas: como Bali escreveu, “o lugar estava explodindo de gente; muitos não conse­
guiram entrar”. O que a platéia apinhada experimentou foi uma nova e avassa­
ladora sinestesia. Esta foi descrita como “música barulhenta, poemas simultâneos
recitados por quatro a sete pessoas falando ao mesmo tempo, danças bizarras
com máscaras grotescas e roupas à fantasia, tudo interrompido por leituras em
voz alta em alemão e francês que soavam como algo completamente diferente”.
Isto foi, para citar o poema Dadá de Richard Huelsenbeck “O fim do mundo”.

3 Na Alemanha, a socialista radical Rosa Luxemburgo foi presa em abril de 1915 por liderar um protesto público;
na Grã-Bretanha, inflamados membros de DORA tornaram ilegais, puníveis com multas, prisão e ostracismo
social a expressão pública de sentimentos antiguerra. O cofiindador do No-Conscription Fellowship, ClifFord
Allen, foi julgado, condenado a trabalhos forçados e, em seguida, imediatamente preso de novo após ser solto.
Em janeiro de 1918, o escrupuloso opositor Henry Firth morreu devido ao seu regime na prisão; três dias de­
pois, Bertrand Russell foi condenado a seis meses por defender abertamente as negociações de paz.

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De fato, como os movimentos que iria inspirar, o dadaísmo não foi uma
ruptura tão radical com o passado como teria gostado de parecer. Mas a guerra
deu ao seu obsessivo paganismo e provocação uma urgência louca: “Pandemônio,
destruição, anarquia, antitudo - por que reprimir? E o pandemônio, a destruição,
a anarquia, o antitudo da Guerra Mundial?” As performances no Cabaret Voltaire
dramatizavam um fato que muitos europeus estavam começando a compreender.
A guerra não havia só destruído ilusões, vidas e regimes, ela havia pulverizado
totalmente línguas, sentidos e razão.
Os dadaístas transcreveram o “mundo de barulho” do front ocidental em
convulsivos ataques verbais, enquanto imitavam a linguagem estridente dos esqui­
zofrênicos: “zimzim urallala zimzim urallala zimzim zanzibar zimzella zam ali-
fantolim brussala bulomen brussala bulomen. ”Até o seu nome representava pertur­
bação: a repetição sem sentido do dada combinava com a cega regressão, um dos
principais efeitos psicológicos da guerra, descrita por Ben Shephard como uma
volta “à infância”. A palavra “dada” também soa exatamente como a voz da criança
chamando pelo pai: neste caso, entretanto, não era um chamado, mas uma mal­
dição.
Tudo tinha de ser destruído. “Estávamos prontos para semear inquietude
até o limite do nosso poder”, escreveu Hans Richter, “e esta inquietude surgiu de
várias fontes. Alguns sentiam a possibilidade ou a certeza de um novo caminho;
com outros era falta de fé na sociedade, na nação, na arte, na moralidade e, em
último recurso, no homem em si, homem, a irrecuperável besta selvagem, homem,
a aposta perdida. Com outros era simplesmente a sua própria inquietude interior,
fosse ela um reflexo da inquietude que nos rodeava, ou apenas a rebeldia juvenil.
Com cada um de nós era juventude assim como uma mistura de todos estes ele­
mentos.”
A influência do dadaísmo na guerra foi muito pequena. Entretanto, o mo­
vimento captou uma realidade subjacente do lugar e tempo aos quais pertencia.
A guerra havia mesmo causado “O fim do mundo” e as estilhaçantes conseqüên­
cias seriam representadas em todos os países combatentes. Por toda a Europa, a
guerra havia inexoravelmente arruinado populações no front doméstico. A bruta­
lidade em grande escala penetrara na alma das pessoas: era como se elas também
tivessem se tornado máquinas. A grande causa de 1914 revelara-se uma mentira,
e no lugar do idealismo surgiram “uma irresponsabilidade e uma indiferença
entre as pessoas, de um tipo que elas nunca tinham conhecido antes”.
Entretanto, o objetivo dos mitos pagãos de sacrifício é o início de um novo
ciclo, quando o fim de um mundo pressagia o começo de outro. Do sistema im­
perial degenerado do século XIX surgiu a ideia regeneradora de uma sociedade
de massa mais justa. A guerra havia destruído para sempre a irrefletida deferência
em que tinham se baseado os respectivos sistemas de classe dos países europeus

A CLASSE DE 1902 185


combatentes. Tendo ingressado no esforço de guerra, segmentos até então desva­
lorizados da população ganharam algum grau de confiança e autodeterminação.
A Grande Guerra destruiu para sempre a obediência automática que os mais
velhos esperavam de seus filhos. Fosse a geração de 1914 ou a classe de 1902,
um grupo maciço compreendendo milhões de jovens europeus tinha compartilha­
do experiências semelhantes. Obrigados prematuramente a enfrentar responsabi­
lidades adultas, eles não iriam retornar ao seu estado invisível de antes. A guerra
criou e brutalizou a nova sociedade de massa da juventude.

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CAPÍTULO 13

Bandas de jazz e os soldados de infantaria


Ajuventude americana entra na Europa
* * *

“Não quero viver até fica r velho”, disse William com convicção.
“Prefiro fazer o que me agrada agora e morrer um pouco mais cedo. ”
- Booth Tarkington, Sevenfeen (1916)

ADOLESCENTE AMERICANO, DÉCADA DE 1910


DOIS A N O S DEPOIS do início da Grande Guerra, a América ainda preservava sua
neutralidade. Um pequeno percentual de seus jovens já estava lutando, entretan­
to. Em setembro de 1915, Theodore Roosevelt convocara “todos os rapazes que
estivessem saindo da faculdade” para irem para a Europa “tentar ajudar”. Vinte
e cinco mil jovens colegiais ingressaram em organizações como a Legião Estrangei­
ra Francesa, a Esquadrilha Lafayette ou o American Field Service, que atraiu fi­
guras tão diversas como John Dos Passos, Ernest Hemingway e Harry Crosby.
Para muitos, o motivo era a excitação. Um de seus representantes mais ex­
pressivos, o poeta Alan Seeger, escreveu ao se preparar para um ataque em julho
de 1916: “Estou feliz por ir na primeira leva. Se você se mete nisto é melhor que
seja até o limite. E esta é a suprema experiência.” Seeger morreu pouco depois, na
batalha do Somme, o ataque dos aliados que aniquilou o exército de voluntários
da Grã-Bretanha: no primeiro dia da campanha aconteceram 60 mil baixas.
Flandres ficou saturada com o fedor de corpos desmembrados, apodrecendo.
A um oceano de distância desse inferno negro, os jovens da América vinham
sendo idealizados num “cenário de fadas”, saído direto de Peter Pam “Do outro
lado da cerca, formas luminosas passavam deslizantes, tremeluzentes, ondulantes
sobre uma plataforma branca, enquanto lá no alto a jovem lua pulverizava uma
luz mais tênue através das folhas de bordo, para onde procissões de glóbulos ro­
sados pendiam flutuantes na noite azul.” Este era o idílio de inocência prelap-
sariana propagada pelo livro juvenil mais vendido no continente naquele ano,
Seventeen, de Booth Tarkington.
Já bastante conhecido como romancista, Tarkington tinha visto sua fama
crescer depois da publicação em 1914 do seu best-seller para meninos Penrod.
Ao aumentar a idade do seu herói neste novo romance, ele estava tentando re­
capturar o que era ser adolescente: “Aos olhos do jovem, o tempo não está real­
mente fugindo”, ele escreveu mais tarde; “o tempo é longo —tão longo que, para
fins práticos, o presente parece ser eterno.” Com o subtítulo Um conto dejuventude
e de verão, a natureza episódica de Seventeen era destinada tanto para um seriado
publicado em revista quanto para a percepção de seus jovens leitores.
Booth Tarkington congelou sua arcadia adolescente num clássico cenário ame­
ricano: a pequena cidade do Meio-Oeste livre de guerras, angústias ou mesmo de
qualquer noção do mundo exterior. Dentro deste ambiente hermeticamente fecha­
do, o maior problema do jovem William Sylvanus Baxter, de 17 anos, é a sua
perseguição frustrada à visitante Lola Pratt, um pesadelo tatibitate de vestido
branco. A trama, tal como ela é, consiste das tentativas de William para vencer
os complicados rituais de cortejo impostos por uma srta. Pratt caprichosamente
desinteressada.
Em vez de hinos para autossacrifício em massa, William escreve poesias de
amor ruins. Ele é um clássico sonhador americano, habitando o que Tarkington

188 | 1912-1919
chama de um mundo “róseo diáfano”. Ele fantasia que é um poeta e um ator, e
imagina-se subindo ao cadafalso, como Sydney Carton em Um conto de duas ci­
dades, a fim de provar a trágica sinceridade de seu amor não correspondido. A rea­
lidade é um tanto diferente. Sua irmã mais nova e suas colegas do sexo feminino
riem dos seus elevados sentimentos, enquanto que o vizinho, o sr. Parcher, forçado
a observar os cortejos de William, cai de cama com náuseas.
Estas parábolas domésticas de etiqueta de cidade pequena mascaravam um
agudo comentário social. Tarkington apontou com precisão na figura meio-
menino, meio-homem, de William Baxter aquela idade que personificava a de­
finição ainda não padronizada de adolescência. Ao definir este ano central, ele
também localizou o que se tornaria um tema perene na cultura juvenil que viria
em seguida. Os 17 anos marcariam o momento em que os adolescentes se liberta­
vam do controle dos pais e imergiam plenamente no mundo de pares, sua ma­
neira de alcançar a independência.1
Tarkington também inseriu material psicologicamente preciso para sensibi­
lizar seus leitores adolescentes. A instabilidade emocional de William é um dom:
como uma de suas colegas observa, ele “não gosta muito de nada. Tem 17 anos
de idade”. Ele está sempre correndo atrás da maturidade: como lembra aos pais,
“vou fazer 18 anos”, e, no que lhe diz respeito, isto é idade suficiente para se ca­
sar e ser um adulto. Isso não tem nenhuma importância. Seus pais podem ceder
a seus caprichos, mas a palavra deles é a lei: como diz seu pai, ao lhe recusar o
terno que conferiria maturidade ao filho, “você é jovem demais, Willie”.
Sejá lá o que imaginasse, William ainda habitava a ambígua zona entre in­
fância e idade adulta: independente na sua cabeça, mas na realidade por demais
dependente de seus pais. Tarkington definiu isso como “a época da vida em que
é insuportável não parecer perfeito em tudo que for exterior: na posição mundana,
nos aparatos de riqueza, na família e na graça, elegância e dignidade de todas as
aparições em público. E, no entanto, o jovem está sempre sendo traído pela crian­
ça que ainda persiste intermitentemente dentro dele e pela criança que pessoas
pouco diplomáticas com constância supõem que ele seja.”
Com uma espirituosidade delicada, tímida, Tarkington ridiculariza e simpati­
za com seu jovem herói. Seventeen foi um documento de transição, mas influente,
que expandia as definições contemporâneas dos anos entre os 13 e os 19 (os teens)
ao mesmo tempo que divulgava a ideia de que os adolescentes de classe média

1 Na verdade, 17 seria aquela idade que marcaria os relatos juvenis definidores de geração no futuro. Note o
romance juvenil mais popular de 1942, Seventeenth Summer, de Maureen Daly. Note também, fora da estrutura
de tempo deste livro, “I Saw Her Standing There” dos Beades, também intitulada “Seventeen”, e o “Seventeen”
dos Sex Pistols. Preste atenção à idade de Pinkie no livro Brighton Rock (1938), de Graham Greene: “Havia
veneno em suas veias, embora ele suportasse estoicamente. Ele fora insultado: eles achavam que era por que tinha
17 anos.”

BANDAS DE JAZZ E OS SOLDADOS DE INFANTARIA | 189


habitavam um mundo só deles. O livro ampliava a noção de que a juventude
era uma raça à parte, que poderia compreender um mercado distinto, que na
verdade poderia ser um objeto de aspiração, em vez de ser apenas um problema
social ou uma peça defeituosa de máquina que precisava ser consertada.
Mais do que tudo, era um olhar profundamente nostálgico para uma era e
um gênero que, em 1916, estava prestes a desaparecer - independentemente do
que acontecia na Europa. Depois de temporadas em Paris e Nova York, quando
Tarkington retornou em 1911 para a sua cidade natal de Indianápolis, encon­
trou-a marcada pela poluição industrial. Vituperando contra os grandes negócios,
que chamou de “os selvagens do mundo”, o autor preferiu ignorar a fuligem e a
fumaça acre e colocou seus personagens no Meio-Oeste pré-industrial, intacto,
da sua própria adolescência nos meados de 1880: “os tranqüilos dias do passa­
do”, que se “foram para sempre”.
Ao avaliar a sua autobiografia como um período perdido, já dourado, Tar­
kington escrevia de acordo com as normas da categoria dos livros para meninos -
voltados não para crianças e adolescentes, mas também para a próspera meia-
idade. Seventeen pode ter aumentado a idade padrão do gênero para 14 anos, mas
omitiu intencionalmente qualquer menção sobre a sexualidade adolescente que
Freud já havia exposto e que o comércio americano em breve procuraria explo­
rar. Baxter e seus colegas são apanhados bem na cúspide da autoconscientização
de geração que viria em breve.
Em um nível, Seventeen estava obsoleto quando foi publicado. Não levava
em conta a cultura juvenil urbana, as danças de animais, o ragtime ou o cinema.
Entretanto, não estava destinado a ser um documentário, mas uma fantasia, e
com o seu sucesso reforçou a natureza particular da adolescência americana: um
estado definido não só pelo seu prazer, ou facilidade, em sonhar, mas também
por insaciáveis entusiasmo e inocência. Como a própria América, Willie Baxter
ainda não carregava o peso da experiência e olhava confiante para um futuro
que, de tão garantido, o deixava livre para viver somente no presente.

* * *

Esta jovial espontaneidade pôde ser ouvida num outro tipo de best-seller que, no
início de 1917, personificou o sistema nervoso do adolescente urbano america­
no. Apesar das campanhas moralistas, a música negra e as danças que ela ins­
pirava continuavam a se espalhar por todo o país e por todas as classes. Assim como
os artistas começaram a se fechar em torno do distrito da luz vermelha de Nova
Orleans, em Storyville, a música que havia se originado ali - tão nova que mal
tinha um nome —começou a se espalhar com seus praticantes por todo o país.

190 | 1912-1919
Em março de 1917, a Victor Talking Machine Company, na época a maior
gravadora do mundo, lançou o disco da Original Dixieland Jass Band, de 78 ro­
tações e dupla face, contendo “Dixie Jass Band One Step” e “Livery Stable Blues”.
Foi um golpe e tanto para o grupo branco de Nova Orleans, que acabara de se
mudar para Nova York em janeiro. Outros grupos de Nova Orleans já tinham
tocado em Nova York, mas como parte de um show de vaudeville-. em contraste,
os ODJB eram atrações principais, trazidos para divertir os dançarinos que ainda
enchiam a vida noturna de Manhattan.
Nova York nunca tinha escutado nada como as apresentações no Reinsen-
werber, um estabelecimento elegante no Upper West Side: a pista de dança ficou
logo repleta de “colegiais animados e gente aventureira”. A cidade ainda era o cen­
tro da indústria musical, e um mês depois da sua chegada a ODJB foi convidada
para uma audição para a Columbia Graphophone Company. A sua música era
tão alta e estridente que a sessão terminou em mútua incompreensão entre o gru­
po e os engenheiros de som. Gravando para a Victor quatro semanas depois, eles se
entenderam quando ambos os lados cristalizaram o ataque sem reservas do novo
estilo jass.
O termo, como a música, originara-se do bairro da luz vermelha em Nova
Orleans, derivando de uma palavra africana para relações sexuais. Jass estava em
uso nos meados da década de 1910, embora a música viesse se desenvolvendo
havia cerca de duas décadas: como seu nome sugeria, era muito mais solto e sel­
vagem do que o ragtime. No lugar das arcaicas marchas de Sousa que deram ori­
gem aosrags no século XIX, o jass, ou jazz, como foi logo chamado, era formado
por vários instrumentos de sopro tocando ao mesmo tempo e contra a melodia,
com o piano rag sendo a base e os ritmos tribais, dissonantes, crescendo em ní­
veis de intensidade de tirar o fôlego.
O cornetista da ODJB, Nick LaRocca, e o trombonista, Larry Shields, esta­
vam ambos com quase trinta anos e tinham tocado com Jack “Papa” Laine, im­
portante bandleader branco de Nova Orleans. Eles tinham se inspirado nas prin­
cipais bandas negras como a Brownskin Band, de Kid Ory, e na Olympia, que
apresentava Sidney Bechet e King Oliver. Como muitos músicos de Nova Orleans,
eles tinham começado a viajar para fora da cidade, mudando-se no ano anterior
para Chicago, onde formaram a ODJB: a ida para Nova York foi resultado do
patrocínio do artista de vaudeville Al Jolson.
Para os americanos de meia-idade, a “Dixie Jass Band One Step” deve ter soa­
do como um caos, uma cacofonia de terreiro. LaRocca e Shields tocavam com
uma exuberância borbulhante, enquanto que o escorregadio trombone de Eddie
Edwards proporcionava um irresistível momentum. Sustentando este inexorável
avanço para o futuro estava a proeminente e ruidosa bateria de Tony Sbarbaro,
de 19 anos. O grupo foi promovido como um desvio radical, com slogans como

BANDAS DE JAZZ E OS SOLDADOS DE INFANTARIA | 191


“Músicos desafinados tocando ‘melodias picantes’” e citações de LaRocca afirman­
do que eles eram anarquistas musicais e que o jazz era o “assassinato da melodia”.
O jazz apenas começara a receber atenção da mídia —uma fase de transição
marcada pela ortografia da ODJB que logo iria se tomar obsoleta —, mas ele
levou a mania de dançar a um novo patamar: segundo a Variety daquele mês de
março, “esta música ritmada, picante, é o que os dançarinos querem”. Com o as
companhias de cinema, a indústria musical estava sempre sujeita às influências
dos ditames do gosto popular. Embora o Tin Pan Alley, como era chamado
o centro da indústria de músicas populares, ficasse mais contente controlando o
mercado com a sua patenteada mistura de canções sentimentais e nostálgicas,
ele estava sempre interessado em novidades —que é como o ragtime e os blues
foram apresentados pela primeira vez.

Parecia que esse novo estilo vinha do nada, mas assim que chegou à Costa
Leste rapidamente virou uma nova mania. Dixie Jass Band One Step pode não
ter sido o primeiro disco de jazz, mas foi o primeiro a entusiasmar o público.
Expressamente destinado a dançar, ele sumia das lojas: no fim de abril de 1917, o
mês em que Scott Joplin morreu, ele havia vendido um milhão de cópias. Havia
uma ótima razão para seu sucesso: apesar das dificuldades para sua criação, o
disco tinha a excitação e o frescor da exuberância inovadora.

192 1912-1919
O sucesso dos ODJB coincidiu com a entrada da América na Grande Guerra:
no dia 2 de abril de 1917, depois de três anos de muito lobby e debates, o Con­
gresso declarou-se contra os Poderes Centrais. A opinião pública tinha levado
um certo tempo para aceitar a guerra. Entre as forças reunidas contra o envolvi­
mento estavam os fortes lobbies da Alemanha e da Irlanda, os pacifistas como
Henry Ford e os isolacionistas que aderiram à Doutrina Monroe. E não era só
isso, a América estava indo muito bem com sua neutralidade: no fim de 1916,
suas fábricas forneciam 40% das munições britânicas.
A América teve de criar um exército maciço a partir do nada. Na falta dos
dez anos de preparação para o conflito que tanto exercitou a Europa, o continente
não tinha visto nenhuma necessidade de um grande exército permanente: na
época da declaração, ele era composto apenas de 125 mil oficiais e soldados. En­
tretanto, a determinação empresarial do país era forte: o recrutamento foi logo
introduzido quando, em maio de 1917, o Congresso aprovou o Ato de Serviço
Seletivo para o registro e a classificação de todos os homens disponíveis dos 21
aos trinta anos de idade.
Quase 10 milhões de homens nesta faixa etária se apresentaram em junho
de 1917, com mais 15 milhões registrando-se em junho, agosto e setembro de
1918 —quase a metade de toda a população masculina da América. Esta espan­
tosa e instantânea mobilização em massa, entretanto, não se traduziu imediata­
mente em tropas no solo. Apenas 10% de todos os inscritos foram na verdade
alistados na Força Expedicionária Americana, e antes eles tinham de passar por
seis meses de treinamento nos Estados Unidos; depois, passavam mais dois me­
ses na França.
A guerra não era popular entre todos os jovens americanos, mas a maioria
acompanhou o passo. Eles foram ajudados na sua decisão pelo implacável fogo
de artilharia da propaganda. Quase todos os jornais e revistas apoiavam a guerra.
Hollywood iniciou a produção de filmes como The Beast ofBerlin, enquanto o
Tin Pan Alley trombeteava melodias de guerra como “Over There”, de George
M. Cohan, que vendeu um milhão de cópias na primavera de 1917. Stanley Hall
pensava que a guerra era o purgativo necessário para uma nação preguiçosa, ma­
terial”: ele aceitou bem o fato de que 10 milhões de rapazes americanos enfren­
tavam a sua “prova de fogo”.
Houve oposição. Na primeira convocação, 50 mil homens pediram isenção
e 250 mil não se inscreveram. Os que mais protestavam eram aqueles que se re­
cusavam por motivos religiosos e/ou políticos. Dissidentes tambem eram encon­
trados entre os imigrantes recentes, assim como delinqüentes juvenis e boêmios.
Gangues como a Hudson Dusters ressentiam-se da intromissão do recrutamento
em suas atividades, enquanto que, para os intelectuais socialistas que contribuíam

BANDAS DE JAZZ E OS SOLDADOS DE INFANTARIA | 193


para o jornal socialista Masses, a guerra era nada menos que “uma feia loucura
das multidões”.
Todos os dissidentes foram tratados de forma sumária. Reuniões antiguerra
eram violentamente interrompidas e figuras proeminentes como Emma Goldman
e o líder socialista Eugene Debs foram presos. Expurgos daqueles que trapaceavam
no recrutamento, como a “batida contra os preguiçosos” no verão de 1918, em
Nova York, que pegou 16 mil homens, eram reforçados pela humilhação pública.
Livros alemães foram queimados e cidadãos alemães foram cobertos de alcatrão
e penas. No leste de St. Louis, a chegada de trabalhadores negros detonou uma
rebelião racial em julho de 1917: uma centena deles foi morta.
As campanhas reformistas do início da década de 1910 foram apenas um
ensaio geral para a onda de repressões que se seguiu a abril de 1917. Capitali­
zando com a sua xenofobia e estado de espírito restritivo, a proibicionista Anti-
Saloon League atrelou o patriotismo à sua crescente cruzada. O influente Wayne
Wheeler conseguiu convencer o secretário do ministro da guerra a “proteger os
rapazes que estavam no exército dos desastrosos efeitos das bebidas alcoólicas
durante a guerra”. A ASL continuou patrocinando o “Worldwide Prohibition
Congress , em Columbus, Ohio, em meados de novembro de 1918, quando a
proibição de bebidas alcoólicas na América era uma decisão já tomada.
Entretanto, o Velho Mundo não viu esta face da América em 1917 e 1918.
Na chegada dos soldados de infantaria, os europeus esgotados de guerra preferiam
ler sobre riqueza, vitalidade e esperança. No front ocidental, sua simples presença
física, intocada pelos quatro anos de guerra, foi vista como nada menos do que
milagrosa. Segundo um oficial francês, “todos tivemos a mesma impressão de
que estávamos para ver uma maravilhosa transfusão de sangue. A vida estava
chegando em torrentes para reanimar o corpo moribundo da França”.
Esses padrões de excelencia amigaveis, sorridentes”, os primeiros americanos
que a maioria dos europeus via em carne e osso, eram a esperança que se pensava
perdida para sempre. Era como se, finalmente, a guerra pudesse ser ganha “Então
esses eram nossos libertadores, enfim, marchando pela estrada”, escreveu Vera
Brittain assim que viu os soldados de infantaria, em abril de 1918. “Parecia ha­
ver centenas deles e, na destemida arrogancia da sua orgulhosa força, eles davam
a impressão de ser um formidável baluarte contra o perigo que vinha de Amiens.”
Além do efetivo e dos equipamentos importantíssimos - que, no verão de
1918, começaram a forçar a balança a pender contra a Alemanha - , a entrada
dos americanos na Europa trouxe todo um conjunto de novas idéias, práticas e
costumes que imediatamente passaram a transformar a vida das pessoas destruídas
pela guerra. Na sua combinação de poder industrial, vitalidade cultural e confiança
física, a América personificava o futuro para muitos europeus, ainda mais porque

194 | 1912-1919
o armistício de novembro de 1918 revelou um aterrorizante vácuo dentro dos
países combatentes.
O cessar-fogo oficial ocorreu na l l â hora do l l â dia do l l fí mês de 1918,
números místicos adequados para uma guerra tão estatística. Enquanto os Poderes
Centrais perderam 3,5 milhões de soldados no campo de batalha, os aliados per­
deram mais de 5 milhões de homens. Em média, morriam 5.600 homens a cada
dia de guerra. Refletindo a falta de consciência contemporânea tratando-se de
jovens, não havia uma lista discriminatória por idade dessas baixas. Ao supor que
os rapazes de 14 a 24 anos de idade representassem até um terço dos mortos de
guerra estimados - mais ou menos uns 9 milhões - isso significa que 3 milhões
de adolescentes foram assassinados.2
Esta foi a destruição de uma geração inteira: uma vasta cicatriz psíquica que
não se curou. As celebrações que seguiram ao 11 de novembro pouco fizeram
para preencher tal vazio. Embora multidões se aglomerassem nas ruas das capitais
aliadas, muitos combatentes sentiam-se irados, vazios ou arrasados pela perda.
“Este já era um mundo diferente daquele que eu conhecera durante os perpétuos
quatro anos.” Vera Brittain percebeu “um mundo no qual as pessoas seriam se­
renas e despreocupadas, no qual elas mesmas, suas carreiras e diversões apagariam
ideais políticos e grandes questões nacionais”.
Os jovens alemães não tiveram nem mesmo o consolo da vitória. Em Berlim,
o inválido George Grosz encontrou uma válvula de escape para seu “ódio” no
dadaísmo alemão, um movimento que “era totalmente niilista. Nós cuspíamos
em tudo, inclusive em nós mesmos. Nosso símbolo era o nada, o vácuo, o va­
zio”. Para Sebastian Haffner, de 11 anos de idade, a derrota significou o colapso
instantâneo de todo o seu sistema de valores. “Onde poderíamos achar estabilidade
e confiança, se o que acontecia no mundo podia ser tão enganador?”, ele lem­
brou. “Eu olhava para um abismo. A vida era um horror.”

* * *

O pós-guerra chegou instantaneamente com uma série de espasmos de eletro-


choque. Na Alemanha, 11 cidades hastearam a bandeira vermelha da revolução
socialista: nas ruas de Berlim, radicais combatiam com os Freikorps de direita
no vácuo de poder criado pelo desaparecimento do Kaiser. Em Londres, a morte
de uma atriz de 22 anos, Billie Carleton, por overdose de drogas logo depois de
aparecer no imenso Victory Bali, no Albert Hall de Londres,3 iniciou um novo

2 Este número não leva em conta todos os feridos em mente e corpo, nem as centenas de milhares de mortes de
civis causadas não só pela guerra, mas pela pandemia de gripe que a guerra facilitava.
3 Marek Kohn, em Dope Girls, observa que a causa mais provável da morte de Carleton tenha sido o Veronal que
ela tomara para se recuperar depois de ingerir uma prodigiosa dose de cocaína.

BANDAS DE JAZZ E OS SOLDADOS DE INFANTARIA | 195


pânico na imprensa sobre “cigarros de cocaína” e uma tentativa alemã de sub­
verter a nação com narcóticos.
Na primeira semana de janeiro de 1919, Jacques Vaché morreu em Nantes
de overdose de ópio. Três dias depois do armistício, ele havia escrito ao seu amigo
André Breton: “Sairei da guerra ligeiramente perturbado, talvez como um desses
maravilhosos idiotas de aldeia (e até desejo que isto aconteça)... ou então... ou
então... que papel no cinema eu farei! - Com automóveis fabulosos, você conhece
o tipo, com pontes que cedem e mãos gigantes que rastejam pela tela para que
documento!... Inútil e insignificante!”
O Velho Mundo fora destruído e o Novo entrou correndo. Com seus soldados
de infantaria, seus filmes e sua música, a América cruzara o Atlântico e a Europa
dançaria ao som de uma flauta diferente. Em janeiro de 1919, o Tatlerde Londres
observou: “Dizem que cabarés estão sendo abertos um atrás do outro, as costurei­
ras falam que estão tontas com as encomendas de vestidos para dançar que não
param de chegar. E simplesmente não se conseguem negros em número suficiente
para tocar a música do jazz, e eu soube que estão pensando em contratar esqua­
drões de “lunáticos” para fazer os ruídos loucos do jazz até que haja mais navios
disponíveis para trazer de Nova York os melhores músicos’ negros de jazz.”
Três meses depois, a Original Dixieland Jazz Band chegou a Londres para
uma longa temporada que possibilitou aos europeus a sua primeira experiência
de autêntico jazz americano. Sua estreia no início de abril no London Hippodrome
foi antecipada num artigo de jornal que falava sobre o jazz em termos de “selvagens
peles-vermelhas, negroides e africanos ocidentais” antes de garantir aos leitores
que “os intérpretes são todos brancos —brancos como possivelmente poderiam
ser”. Quando eles finalmente tocaram, a recepção foi tão frenética que o astro
da casa, o comediante George Robey, ameaçou se demitir se o grupo não fosse
posto no olho da rua.
Apesar da controvérsia, a OJDB tocou em temporadas de sucesso no London
Palladium e no Hammersmith Palais: a ideia de que eles se consideravam a
vanguarda de um novo estilo era ilustrada pela presença de um dançarino, Johnny
Dale, para exibir os passos de jazz mais recentes. Suas perfomances eram, segundo
o gosto, “espertas e maravilhosamente ágeis” ou “como uma enguia filetada pres­
tes a entrar na panela de um ensopado”. Sua recepção revelou um abismo entre
gerações: de um lado, os críticos de meia-idade, que achavam o jazz “impertinen­
te”; de outro, os jovens fãs entusiasmados, em número maior por causa dos
soldados de infantaria sob licença.
A juventude estava em alta no início de 1919. Dentro do vazio criado pelos
quatro anos de morte e destruição, não se podia olhar para trás. A única coisa
que restava era seguir em frente, o impulso natural da adolescência amplamente

196 | 1912-1919
representado pela chocante novidade do jazz. A América simbolizava a inocên­
cia e o entusiasmo da juventude e, para os jovens da Europa, não havia dúvida
quanto ao seu apelo. O continente se tornaria a nova arcádia, um mundo de
prazeres tecnopagãos mais estimulante do que qualquer coisa oferecida pelas
ideologias juvenis da década de 1900 —ainda mais fascinante porque só podia
ser experimentada de uma só vez.

BANDAS DE JAZZ E OS SOLDADOS DE INFANTARIA | 197


CAPÍTULO 14

Choques do pós-guerra
Os FascistL o Bunde alemão e o Woodcraft Folk
* * *

23 de fevereiro [1919]. Ventoso e nevoento. Ansioso, fico atento a qualquer


sinal de primavera. Isso me anima. Mas o desenlace da guerra é sombrio.
O futuro é incerto —a vida é oscilante. Aqui estão alguns pontos.
(1) A Liga da Nações fo i lançada na conferência de Paris e outros problemas
tratados. Um verdadeiro espírito fo i ativado. (2) O finado inimigo, alemão,
está exausto, mas recuperando-se rapidamente. Prevalece a indiferença, mas
o bolchevismo não tem grande influência. (3) A Rússia é a úlcera da Europa.
Caos e escuridão ali. (4) Neste país as greves são a ordem do dia.
Uma greve de mineiros é a ameaça atual. Isto pode significar bolchevismo.
(5) E a nova terra? O mundo inteiro vai se tornar uma Rússia?
- U m m enino, Eighteen: A Diary of the Teens (1 9 4 7 )

FAMÍLIA D O S KIBBO KIFT MEMBERS N O ACAMPAMENTO, 1928


OS ADOLESCENTES DE 1919 estavam no limiar de um mundo incerto. Apesar de
toda a matança, o conflito não se resolveu de forma decisiva: como o comandante
da Força Expedicionária Americana, general Pershing, observou na época, o
fracasso dos aliados em destruir o exército alemão tornou a paz temporária. Ao
mesmo tempo, 1919 foi marcado por mais agitações em toda a Europa: mais
motins, greves de operários de indústrias essenciais, rebeliões de populações urba­
nas enfrentando escassez de alimentos e a crescente polarização política. Os novos
agrupamentos de jovens seriam marcados por essa extrema instabilidade.
O Tratado de Versalhes poderia ter marcado o fim oficial do conflito, mas não
curou as cicatrizes físicas e psíquicas. Nem os muitos memoriais, entre os quais
estava a cerimônia realizada em homenagem ao único rapaz que, aos olhos do
público britânico, simbolizou a geração condenada da guerra. Os Collected Poems
de Rupert Brooke já tinham sido publicados com um índice enorme de vendas. Em
março de 1919, sua morte foi comemorada com a apresentação pública de uma
medalha com seu retrato na capela da Rugby School. O modelo para esta imagem
idealizada foi uma foto em perfil do jovem Apoio nu feita por Sherril Schell.
Era mais fácil idolatrar um jovem deus eternamente belo do que lidar com
um neurastênico abatido. Brooke encarnava a pessoa que os civis gostariam que
os veteranos retornando para casa fossem: os rapazes de rostos frescos, idealistas,
de 1914. A realidade era muito diferente. O primeiro-ministro britânico David
Lloyd George achava que “o mundo todo” estava ‘ sofrendo de neurose de guerra”,
uma safra de sintomas que variavam desde a amnésia até a total catatonia. A neu­
rose de guerra era ao mesmo tempo real —como evidenciada por muitos veteranos
perturbados - e metafórica, dentro de uma Europa que oscilava entre o esqueci­
mento e o hedonismo frenético, fora do lugar.
O jornalista Philip Gibbs escreveu que os veteranos que voltavam para casa
“vestiam roupas civis de novo e, para suas mães e esposas, eram muito parecidos
com os rapazes que iam para o trabalho nos dias pacíficos antes de agosto de 1914.
Mas eles não tinham voltado os mesmos homens. Alguma coisa havia mudado
neles. Estavam sujeitos a súbitas mudanças de humor e estranhas impaciências,
surtos de profunda depressão alterando-se com um inquieto desejo de prazer”.
Vera Brittain notou “uma afoita sensação de liberdade e anticlímax combinados”
entre os seus contemporâneos, tentando recapturar “a juventude perdida que a
guerra roubara”.
Robert Graves achou a abrupta transição da guerra para a paz um choque
enorme: “Não só eu não tinha experiência da vida civil independente, tendo saí­
do direto da escola para o exército: eu ainda estava mental e nervosamente orga­
nizado para a guerra. Bombas costumavam chegar explodindo na minha cama à
meia-noite... estranhos durante o dia assumiam os rostos de amigos que tinham
sido mortos.” Este choque retardado era um indício da perturbação psicológica

202 | 1919-1929
comum aos veteranos: porque não podia ser publicamente admitido, levaria anos
para ser curado.
Dentro dos pólos de espasmo e paralisação, os jovens sofreram outra definição.
Na sua crítica dos anos 1920, Doom ofYouth, Percy Wyndham Lewis observou
que, com o fim da guerra, “todos queriam ser, por assim dizer, recém-nascidos.
Apagar o passado, especialmente a ‘pré-guerra - essa era a ideia”. Entretanto,
isto era mais fácil de imaginar do que conseguir. Embora homens jovens até de
18 anos estivessem voltando do front, eles poderiam muito bem ter oitenta pelo
peso de suas experiências. Muitos buscavam obliterar suas lembranças num he­
donismo obsessivo, mas o passado estaria sempre ali.
Embora a juventude fosse mais uma vez idealizada como a perfeita personifi­
cação desta tábula rasa, a geração nascida tarde demais para servir na guerra se
viu numa posição contraditória. Eles não puderam participar do conflito que
dominava tudo ao mesmo tempo em que estavam sendo apagados da memória.
Embora os mais velhos e os contemporâneos próximos que tinham servido fossem
considerados modelos, a realidade do soldado voltando para casa não aparecia
como uma imagem heróica. Havia uma linha divisória imensa, que gerava hosti­
lidade de ambos os lados.
A geração pós-guerra, a “classe de 1902” de Ernst Glaeser, tinha passado
por graves privações durante os quatro anos anteriores - doenças, fome e negligên­
cia. Tendo crescido sem pais e estudos, eles se sentiam compensados por um grau
de liberdade anteriormente impensável. A reestruturação em 1919 não foi fácil.
Depois de anos de ausência, os pais eram “como estranhos para nós, imensas
figuras assustadoras e despóticas com sombras pesadas, opressivas como monu­
mentos. O que eles sabiam de nós? Sabiam onde morávamos, mas o que pensá­
vamos ou éramos eles não sabiam mais”.
Estas tensões foram exacerbadas pelo novo valor afirmativo dado à juventude
e pelo fato de que a guerra parecia ter confirmado as profecias da radical retórica
antiadultos da década anterior. O ano de 1919 anunciava a chegada da adolescên­
cia como uma poderosa força social e política dentro da Europa. Como um prin­
cípio positivo, embora abstrato, a juventude encarnava o voo arrojado em direção
ao futuro. E isso poderia ter sido menos importante do que aquilo que não era:
as certezas do século XIX, aquele mundo pré-guerra que tinha iludido com suas
ideias de estabilidade e progresso liberal.
A juventude tornou-se um conceito abstrato, distinto da biologia. Segundo
Robert Wohl, em 1920, a palavra “só tinha uma tênue relação com a idade cro­
nológica. Ser ‘jovem’ significava apenas possuir uma receptibilidade ao que era
novo e a vitalidade necessária para enfrentar e dominar o ordálio da crise”. Juven­
tude parecia compreender um novo tipo de força revolucionária que talvez ofere­
cesse um terceiro caminho entre capitalismo e comunismo. “A civilização estava

CHOQUES DO PÓS-GUERRA I 203


prestes a morrer”, pensava o jovial idealista Leslie Paul, “e o futuro somente a
nós pertencia, os jovens, que iam construir um outro melhor.”
Isso era sustentado por uma profunda raiva. O que um dia fora um valor de
uns poucos poetas dissidentes estava rapidamente se tornando a história aceita
do conflito. Em 1920, o ano em que os poemas de Wilfred Owen foram coletados,
Philip Gibbs publicou um relato revisionista prematuro, As realidades da guerra,
no qual revelava seus verdadeiros sentimentos a respeito “daqueles cinco anos de
sacrifício de meninos do qual eu fui uma testemunha”. E de quem era a culpa?
“Os homens velhos dirigiam o seu sacrifício, e os aproveitadores enriqueciam, e
as chamas do ódio eram estocadas em banquetes patrióticos e cadeiras editoriais.”

* * *

A juventude tinha sido traída pela geração anterior e era hora do ajuste de con­
tas. Nos anos imediatamente após a guerra houve uma rápida incidência de agres­
sividade adolescente por toda a Europa: fosse na política radical em todas as
classes do novo Partido Fascista, nos dramas expressionistas como Vatermord (Par­
ricídio), de Arnolt Bronnen, ou nas indagações sociológicas que tentavam definir
estes abismos. Ser pai em 1919 e 1920 significava fazer parte da geração que ti­
nha sido enviada jovem para a guerra. Os veteranos de guerra e seus grupos mais
jovens buscavam virar as mesas e reescrever as lendas infanticidas.
Com a palavra “geração” tornando-se cada vez mais popular e emotiva, veio
a necessidade de uma definição mais exata. Em 1920, o sociólogo francês de 43
anos François Mentre publicou uma atualização do estudo pré-guerra de Agaton,
que ele chamou de Les générations sociales. Ele pretendia falar do problema cen­
tral da teoria generacional: bebês nasciam todos os dias, portanto o movimento
da população é contínuo e ininterrupto. Não havia nenhuma ruptura biológica
óbvia. Então, por que um grupo de pessoas deveria conceber uma identidade
diferente de outra baseado na idade, e como esta ruptura ocorre?
A resposta de Mentre foi formular a ideia de uma geração social, definida
como duradoura por cerca de trinta anos, o espaço de tempo que marcava a total
resolução da eterna luta entre pais e filhos. Esta ideia envolvia explicitamente
grupos coletivos de autoconsciência: “Quando um homem se refere à sua geração,
usa uma expressão que é perfeitamente clara, embora não seja cronológica. Ele a
designa por aqueles que são mais ou menos da mesma idade que ele, seus com­
panheiros, e que dividem com ele esferas de atividades e influências.”
Este era um conceito francamente elitista: “A maioria dos homens representa
papéis mudos no grande coro humano e é um pano de fundo para o grande baile
à fantasia da história.” Mentre acreditava que cada período tinha seu grupo ge­
neracional dominante, uma vanguarda que moldava os desejos subjacentes de

204 | 1919-1929
seus contemporâneos e a nação como um todo. Este grupo era como um exército:
“uma massa profunda” de “existências masculinas que não são rigorosamente con­
temporâneas, mas que obedecem a um único impulso e são animadas pelas mes­
mas ambições e as mesmas esperanças.”
Embora um ponto de partida útil, o problema desta teoria era que ela não
levava em conta a diferença entre gerações na França do pós-guerra. Trinta anos
eram muito tempo para responder pelo rápido índice de mudanças. Mentre admi­
tia que, depois da guerra, as gerações sociais tinham se fragmentando em dois,
três ou quatro segmentos. Isto tinha ocorrido, ele observou, “porque os jovens
estão muito ansiosos para que se fale deles e passam facilmente por cima dos di­
reitos dos mais velhos!”
A guerra representou uma ruptura tão fundamental que várias gerações com­
petiam pela proeminência. Havia os que tinham nascido na década de 1880,
Geração A, os ideólogos conservadores que tinham alimentado a febre da guerra
de 1914. Havia uma segunda geração, B, que, nascida por volta de 1890, tinha
entrado na guerra no início da vida adulta. A Geração C, nascida poucos anos
depois, tinha saído direto da escola para o combate, enquanto que a Geração D,
a Classe de 1902, era muito jovem para lutar durante o período de 1914-18, mas
tinha idade suficiente para disputar o seu lugar na sociedade.
Todos afirmavam a sua primazia na experiência dos tempos de guerra. En­
quanto a Geração A talvez tivesse sido a inimiga óbvia das Gerações B, C e D,
o relacionamento dos três grupos mais jovens era desconfortável. A Geração B
sobrevivera a uma espantosa experiência, mas tinha retornado sem nenhuma
glória. A sua desilusão foi expressa pelo seu porta-voz mais eloqüente, Pierre
Drieu La Rochelle, nascido em 1893. Em contraste com os sonhos de orgulho e
glória de 1914, ele sentia que os veteranos que retornavam eram “pobres crian­
ças, fascinadas e perdidas”. Eles estavam “fora de tudo”.
As gerações mais extremas eram a C e a D, aquelas que não tinham conhecido
nenhuma vida adulta antes da guerra. De início, os mais expressivos foram os
jovens artistas e escritores do dadaísmo internacional. A ala francesa do movimento
tornou-se pública com o show de variedades em março de 1920, no Théâtre de
TOeuvre. Para uma platéia aglomerada, rebelde, o jovem de 23 anos de idade
André Breton declamou o Manifeste Cannibale Dada: “Dadá sozinho não cheira:
é nada, nada, nada. É como as suas esperanças: nada. Como o seu paraíso: nada.
Como os seus ídolos: nada. Como os seus políticos: nada. Como os seus heróis:
nada.”
Este niilismo estético encontrou um foco político com a Mise en accusation
etjugement de M. Maurice Barres, um ataque direto ao líder espiritual da Geração
A. O julgamento foi levado a sério, com acusação, defesa e testemunhas, mas a
encenação precipitou o rompimento do grupo francês. Seu problema era simples:

CHOQUES DO PÓS-GUERRA | 205


o que é o positivo depois do negativo? Se não há nada, então a energia negativa
se volta para dentro. O manifesto do movimento em 1919, Dada prophétie, já
havia previsto isto: “O dadaísmo sobreviverá apenas deixando de existir.”
A análise mais sensacional da divisão de gerações foi oferecida pelo romance
de Raymond Radiguet, de 19 anos, em 1923, Le Diable au corps, criado para
ofender com sua trama a respeito do romance de um escolar durante a guerra
com a mulher de um soldado. Protegido de Jean Cocteau, o precoce Radiguet
foi elogiado como o maior prodígio desde Arthur Rimbaud. Seu romance exage­
rava na hipérbole com sua mordaz declaração de abertura: “Que aqueles que já
me são hostis considerem o que a guerra significou para muitos rapazes: quatro
anos de férias.”
Brincando com o pior temor dos soldados de serviço, a infidelidade da esposa
idealizada, Radiguet retratou seu protagonista de 16 anos de idade como alguém
totalmente desinteressado pela guerra. Pelo contrário, ele fica obcecado por Mar-
the, de 18 anos: “Eu sonhava com o tipo de vida pela qual se espera quando se
é mais velho. Nós viveríamos no campo; seriamos eternamente jovens.” A guerra
não se choca com esta fantasia, que é destruída apenas quando a gravidez de Mar-
the revela “as milhares de contradições da juventude às voltas com a aventura de
um homem”.
Enquanto as gerações que serviram lamentavam seu fracasso em progredir
no mundo pós-guerra, a Geração D tentava entender o apocalipse que não tinha
chegado. O succès de scandale de Radiguet foi seguido por vários autoexames que
desenvolveram seus temas de maturidade precoce e falta de controle dos pais.
Escritores como Mareei Arland, André Chamson, André Malraux e Pierre
Luchaire, todos nascidos por volta da virada do século, se viram mutilados pela
promessa de uma revolução que nunca aconteceu.
Como os dadaístas, eles tinham mais certeza daquilo a que se opunham do
que daquilo que defendiam. Para Luchaire, a guerra tinha sido “uma escola de
fatos” que tornou seus pares cínicos mas, acima de tudo, realistas. Arland achava
que o negativismo de sua geração, combinado ao seu desesperado desejo de ação,
levaria ao extremismo. Malraux se perguntava o que seria da sua violenta geração,
“tão maravilhosamente armada contra si mesma e livre da vulgar vaidade de
chamar de grandeza o que, na verdade, é desdém pela vida à qual não sabe como
se ligar?”

* * *

Este conflito de gerações foi também encenado na Grã-Bretanha. Muitos solda­


dos achavam que o seu lugar na sociedade tinha sido usurpado por aqueles que
eram muito jovens para servir. Como Frank Hardy, o veterano desempregado

206 | 1919-1929
no romance de Philip Gibbs, Young Anarchy, afirma com amargura: “Você vê,
nos que tínhamos passado por tudo isso estávamos quatro anos mais velhos sem
ter aprendido nada de útil para os empregos em tempos de paz. Perdemos o
barco, por assim dizer. A turma mais jovem ocupou todos os lugares e nos dei­
xou encalhados. Com a recessão pos-guerra, o desemprego aumentou inexora­
velmente durante o início da década de 1920, alcançando um pico de 2,5 milhões
de desempregados no verão de 1921.
Até veteranos privilegiados sentiam que não recebiam o devido respeito.
Retornando a Oxford em 1919, Vera Brittain observou o fundamental antago­
nismo “entre aqueles que sofreram profundamente com a guerra, e os outros
que escaparam de seus impactos mais violentos”. Ela se deu conta sensivelmente
das muitas possibilidades de desentendimento que amarguraram as relações da
geração da guerra e a imediatamente mais jovem - um tipo de desentendimento
que é talvez inevitável sempre que um grupo passou por uma profunda experiência
que o outro não teve”. Para os seus “mais jovens”, a guerra já estava “fora de
moda”.
Os jovens não se intimidavam mais. Em setembro de 1920, o irmão mais
novo de Alec Waugh, Evelyn, exaltava “a extraordinária explosão de juventude”:
“Todo menino está escrevendo sobre a sua escola, toda criança sobre a sua casa
de boneca, todo bebê sobre a sua mamadeira. Os muito jovens ganharam um
monopólio quase total do livro, da imprensa e da galeria de quadros. A juventude
esta ganhando fama. Em 1921, ele notou que “uma nova geração cresceu; entre
eles e os rapazes de 1912 existe o grande golfo da guerra. O que eles representam
e o que farão?”
J. M. Barrie observou esse conflito de gerações e tomou notas para uma peça
sobre o assunto durante 1920. “Velhice e Juventude são dois grandes inimigos”,
ele escreveu, “os dois lados (realmente velho & jovem - isto é, Antes e Depois
da Guerra) não compreendem (admitem) que têm diferentes visões do que seja
imoralidade. Tão diferente da nossa quanto de, digamos, uma tribo africana (este
realmente é o resultado da guerra) que de início não parecia se mostrar. Não são
aqueles que lutaram contra os mais velhos, mas aqueles que cresceram desde a
guerra contra a opinião dos outros”.
Estava declarada a guerra entre gerações. Os jovens sentiam-se justificados
na rebelião pelo vazio moral dos mais velhos que os haviam mandado para a guer­
ra ou, pelo menos, frustrado a sua adolescência. Apesar de tensões subjacentes, as
três gerações da guerra conseguiram se unir em duas questões. A primeira era a
sua aversão compartilhada pelos homens velhos, a segunda era a sua insistente
demanda de satisfação. Do ponto de vista dos veteranos, esta era uma tentativa
de recapturar sua juventude perdida: do ponto de vista daqueles que eram jovens

CHOQUES DO PÓS-GUERRA | 207


demais para servir, ela representava uma tentativa combinada de ter uma juven­
tude digna do nome.
Os mais velhos não viam as coisas desse jeito. A guerra fora vencida. Eles,
portanto, não viam razão para alterar a moral do século XIX, baseada no dever,
na autoridade e na obediência. Mas toda a pressão da retórica sobre gerações pós-
guerra era no sentido de expor a hipocrisia que havia na presunção de autoridade
automática dos mais velhos. Quando não obtinham dos jovens a obediência cega
que pensavam ser a sua prerrogativa automática, as autoridades reagiam furiosas.
A polícia, as comissões de vigilantes e a imprensa popular foram reunidas, pri­
meiro para definir, depois para agir contra uma notória maré de imoralidade.
Uma onda de penalidades resultou do costume de beber, dançar e freqüentar
clubes: qualquer coisa que as gerações mais jovens definissem como agradáveis.
Infinitamente refinadas durante a guerra, as milhares de restrições de DORA ha­
viam transformado a diversão pública num campo minado. As duas gerações que
serviram na guerra olhavam espantadas. Esta era a moral vitoriana que elas tinham
reconhecido como inimiga durante o conflito: vê-la novamente imposta era de­
mais. Uma boa parte do ressentimento vinha do fato de se pensar que as restrições
de DORA fossem temporárias, uma esperança que estava longe de ser o caso.
A reação de seus irmãos e irmãs mais jovens foi ainda mais básica: se era as­
sim que as autoridades iam se comportar quando eles só estavam se divertindo
um pouco, então iam realmente fazer as coisas para valer e lhes dar algo de que se
queixar. Já caracterizados pelos mais velhos como cínicos e friamente realistas,
os rapazes e as moças de 1922 tinham encontrado a sua causa, algo para se de­
finirem contra. Se o ato de beber, a dança e o jazz tinham de ser exorcizados por
bispos, generais e até políticos, então essas atividades seriam o seu padrão. O he­
donismo virou uma ideologia.
Se o prazer ia se tornar a preocupação mais visível da nova geração, então a
política só teria um papel ocasional. Apesar de as principais inquietações do pe­
ríodo logo após a guerra incluírem rebeliões, greves, motins e níveis sem prece­
dentes de desemprego, a Grã-Bretanha como um todo permanecia imune ao
bolchevismo. Os socialistas revolucionários continuavam sendo uma pequena
m i n oria, embora a versão de centro-esquerda do socialismo ganhasse força com a
eleição do primeiro governo do partido trabalhista, em 1924. Numa política de
partidos, a juventude ainda não era definida como uma classe.
No lugar dos políticos, havia outros movimentos para absorver o idealismo
dos jovens que não eram cínicos. Formado no início da década de 1920, o Ox­
ford Group, do dr. Frank Buchman, instituiu uma renovação religiosa sem fi­
liações. Sem lista de membros ou normas, o Oxford Group praticava um novo
tipo de cristianismo: seus jovens, principalmente adeptos da classe média, freqüen­
tavam festas de fim de semana em casas de campo onde compartilhavam publi-

208 | 1919-1929
camente seus pecados. A seita buscava tanto o rearmamento moral como o paci­
fismo, assim como a sua doutrina de quatro pontos, de absoluta honestidade,
absoluta pureza, absoluto altruísmo e absoluto amor.
Ao mesmo tempo, a Liga das Nações visava a ajudar na reconstrução de
países destruídos. Em 1923, ela possuía 52 Estados-membros e real influência
internacional. Embora o principal propósito da fundação da Liga tivesse sido o
de prevenir qualquer retorno do poder da Alemanha, ela era um modelo ideal
para futuro governo do mundo. A simples ocorrência da Grande Guerra havia
aumentado a consciência global e, para os jovens idealistas que ingressaram na
União da Liga das Nações, ela representava a melhor chance de paz mundial.
As organizações britânicas mais explicitamente defensoras dos jovens foram
influenciadas pelos Boy Scouts e o Wandervogel alemão anterior à guerra. O con­
flito tinha sido bom para o movimento de Baden-Powell. Os escoteiros tinham
sido úteis no esforço de guerra, trabalhando na agricultura, ajudando durante
os alarmes antiaéreos e nas cantinas. Com a diminuição da influência de Baden-
Powell, os Boy Scouts adaptaram-se bem às condições pós-guerra. No lugar do
imperialismo, eles promoviam a harmonia de classes, a reconstrução nacional e
o internacionalismo. Em 1925, o seu quadro de membros era quase o dobro do
que era em 1913, com pouco menos de 300 mil escoteiros.
Entretanto, a história desses grupos foi marcada por rupturas e separações.
Crítico do militarismo de Baden-Powell, Ernest Wesdake tinha fundado a Order
of Woodcraft Chivalry em 1916. Influenciado pelos Woodcraft Indians of America
e o Adolescence de Stanley Hall, Wesdake tinha a intenção de colocar em prática
a teoria de recapitulação com cerimônias, rituais e treinamento de vida nas flo­
restas. Os Woodcraft Indians tinham em mente a utopia do Emile de Rousseau:
uma busca panteísta de liberdade individual através da apreciação da natureza.
Entretanto, o grupo não conseguiu ir além da sua base de classe média alta.
Outro grupo oferecia uma alternativa mais radical. Expulso do movimento
dos escoteiros por “deslealdade”, John Hargrave formou o Kindred of the Kibbo
Kift, em 1920: o nome do grupo foi inspirado no inglês arcaico para dizer “Pro­
va de Grande Força”. Para um dos primeiros membros, Leslie Paul, o seu mani­
festo “foi como uma aragem soprando em nosso jovem país. Sob a influência de
H. G. Wells, ele defendia intensamente a paz, a unidade mundial e um governo
mundial”. O KK era fortemente utópico: “Se imaginássemos uma nova sociedade,
ela deveria ser mais ou menos como a que William Morris descreve em New from
Nowhere.”
Apesar da idealística mistura de medievalismo e socialismo liberal de esquerda
do movimento, o Kindred of the Kibbo Kift era acima de tudo um culto à perso­
nalidade, dominado pelo forte carisma do seu líder. A ficha de guerra de Hargra­
ve como carregador de macas e artista da guerra em Gallipoli fez dele um “típico

CHOQUES DO PÓS-GUÉRRA | 209


‘herói5 escoteiro”, e os membros do KK foram redesenhados segundo sua mag­
nética imagem. Paul pensava que “ele falava especialmente àqueles milhões de
rapazes que, como eu mesmo, tinham crescido desde a mais tenra infância no
movimento dos escoteiros do qual tínhamos absorvido esperanças e sonhos sobre
a vida que nossos pais nao poderiam ter compreendido”.
Entretanto, as tensões no movimento ficaram logo aparentes. Apesar do seu
pacifismo, o grupo celebrava o samurai como um ideal marcial. Enérgico e ca­
rismático na mesma medida, Paul logo se desentendeu com Hargrave. Ele se
concentrou no fato de que o líder do KK tinha fetiches, modelos do deus egípcio
com cabeça de cachorro Anubis: “eles me faziam lembrar que no novo movimento
havia uma ala crédula pronta para manipular o oculto. Talvez isso ocorreu por
causa dos muitos teosofistas que estavam associados com o seu nascimento, mas
eu senti na época o absurdo desta coisa de criadinha como um movimento ao ar
livre, tosco.”
Em fevereiro de 1925, Paul rompeu com o Kindred of the Kibbo Kift para
formar o seu próprio grupo. O Woodcraft Folk foi montado segundo os ideais
socialistas e utópicos originais que o KK professava: reconstrução social e regene­
ração espiritual aliadas ao ensinamento de habilidades práticas de vida na floresta.
Aos 19 anos de idade, Paul planejou um “pequeno grupo experimental” no qual
ele e seus auxiliares “testariam de novo o que todos nós chamávamos na época
de teorias educativas de ‘treinamento tribal’”.
Este objetivo foi proclamado na sua carta de fundação: “É nosso desejo de­
senvolver em nós mesmos, para servir às pessoas, a saúde física e mental e a res­
ponsabilidade comunitária, acampando ao ar livre e vivendo em íntimo contato
físico com a natureza, usando todo o potencial, tanto de nossas mentes quanto
de nossas mãos, e sendo sinceros em todas as nossas condutas com nossos vizinhos:
declaramos que é nosso desejo nos familiarizar com a história mundial, e o de­
senvolvimento do homem na lenta marcha da evolução, para que possamos
compreender e reverenciar o Grande Espírito, que conclama todas as coisas para
que se aperfeiçoem.”
Nas memórias que escreveu mais tarde, Angry Young Man, Paul citou a in­
fluência central de Emile e Adolescence na sua nascente ideologia de grupo. A “gran­
de moda” deste deveu-se principalmente à teoria de recapitulação de Hall. Paul
pensava que a transição entre “o menino selvagem e o homem civilizado” só era
possível se “o menino recapitulasse tudo. Ele tinha que sentir a emoção e o pe­
rigo da guerra moderna deitando em trincheiras molhadas e jogando pedras nas
gangues adversárias: ele tinha de ter permissão para fumar e beber, assim como
adquirir compostura aprendendo a dançar e conhecendo meninas socialmente”.
Aliada a estes preceitos havia uma saudável dose de socialismo utópico mis­
turada a pacifismo: Paul pensava que “o bem-estar da comunidade” só poderia

210 | 1919-1929
estar garantido “quando a produção de tudo aquilo que direta ou indiretamente
destrói a vida humana deixar de existir”. O Woodcraft Folk estava destinado a
representar um papel central na guerra santa contra o capitalismo e o industria-
lismo: “Somos a revolução. Com a saúde, que é nossa, e com o intelecto e o fí­
sico que serão a herança daqueles que treinamos, estamos pavimentando a estrada
para aquela reorganização do sistema econômico que marcará o renascimento
da raça humana.”
O Woodcraft Folk lentamente formou sua lista de participantes a partir de
pequenos começos: pouco mais que uma centena em 1926. Fiéis ao teor inter-
nacionalista da época, eles fizeram contato com o jovem Bunde na Alemanha,
na Áustria e na Tchecoslováquia. Eles tentaram envolver adolescentes da classe
operária. Como Paul lembrou, “não há dúvida de que esta vida ao ar livre e de
acampamentos que promovíamos, que dava a uma criança a oportunidade de tes­
tar sua energia e engenhosidade para solucionar problemas práticos, funcionou
como uma maravilha para as crianças dos bairros pobres mal desenvolvidas fisi­
camente”.
Entretanto, havia problemas nesta utopia juvenil. A orientação socialista do
grupo era “decorativa, comprazendo-se inconscientemente em satisfazer o pre-
valecente clima ‘de esquerda daqueles anos. Nós pertencíamos a uma fraternidade
de sangue reunida ao redor da fogueira do acampamento. Nós perseguíamos
um ideal de resistência que nos fazia desdenhosos do conforto e da respeitabilida­
de e nos envolvia num ódio aos fracos, aos doentes e, acima de tudo, aos idosos”.
Por trás desta visão espartana havia o medo de que “a nossa juventude estivesse
fugindo, que, se não vivêssemos agora a vida que deveríamos viver, a chance em
breve teria desaparecido para sempre”.
O rígido programa do Woodcraft Folk mascarava uma profunda sensação
de deslocamento. Paul mais tarde admitiu que ele e seus ajudantes estavam “na
realidade legislando a favor de nós mesmos. Sentíamos que tínhamos sido preju­
dicados pelo processo de crescer e que a vida ficara desfigurada para nós por
causa das suas misérias emocionais, sexuais e econômicas. Como era fácil para
os outros, também, recuar às cegas da maturidade por causa delas. Nós sentíamos
o peso do dever de dar um fim a esta coisa intolerável, e era isto que nos fazia ler
e teorizar a respeito da pedagogia. De algum modo, em algum lugar devia ser
possível encontrar um jeito de crescer graciosamente”.
Paul externalizava toda sua angústia na organização do seu grupo, o que se
tornou um fim em si mesmo. Foi essa focalização acanhada que impediu o Wood­
craft Folk de se tornar uma importante força na Grã-Bretanha. Como outros
generacionalistas do pós-guerra, Paul e seus companheiros se definiam demais
por aquilo a que se opunham. Eles também descobriram que, como princípio
dominante, a juventude tinha as suas desvantagens. Os líderes do Woodcraft

CHOQUES DO PÓS-GUERRA | 211


Folk poderiam ter saído vitoriosos com relação aos adultos, mas até eles eram vul­
neráveis ao seu próprio culto: atrás deles havia “as crianças, que argumentavam
ferozmente contra a tirania dos velhos de 18 anos”.

* * *

Estas questões eram ainda mais nítidas na Alemanha do pós-guerra. O Wander­


vogel rejeitara a civilização industrial e os valores burgueses, mas o colapso do
país após a derrota fez o mundo exterior colidir com a fantasia de uma fraternidade
juvenil livre. A rendição militar da Alemanha introduziu mudanças sociais e po­
líticas com tamanha velocidade que, mesmo antes do armistício, grupos de solda­
dos irados, trabalhadores insatisfeitos e jovens intelectuais idealistas —encorajados
pela revolução russa - haviam se tornado entusiastas soviéticos em várias cidades
importantes.
Deste caos surgiu o primeiro governo democrático da Alemanha, dirigido
pelo Partido Social Democrático, o PSD. Entretanto, a nova República de Weimar
foi imediatamente corrompida quando seus líderes alistaram os Freikorps, a mi­
lícia de veteranos, para sufocar os soviéticos. Os líderes da insurreição de Berlim,
Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo, foram assassinados a sangue frio. A recons­
trução não se faria simplesmente mudando de regime. Havia alemães em demasia
que, como lembrou George Grosz, “não conseguiam se adaptar a um mundo que
não era mais normal, que estava em processo de desintegração”.
Não havia empregos: “as ruas fervilhavam de desempregados.” Nesses mares
desconhecidos, “prevalecia o barbarismo. A moral não existia mais. Uma onda de
prostituição e obscenidades varria o país. ‘Je mem fous, gritavam todos. Dançar
o shimmy era a moda”. Como seus correlatos britânicos, os jovens alemães desem­
pregados procuravam inspiração na música do Novo Mundo, formando “peque­
nas bandas que tocavam uma espécie de imitação do jazz americano por alguns
centavos jogados em seus chapéus. Superficialmente, tudo isto parecia muito
alegre, mas por baixo havia ódio e desespero”.
A juventude estava na extremidade mais aguda de um colapso nacional, con­
forme o nacionalismo belicoso dos quatro anos anteriores se voltou para dentro.
Os adolescentes alemães trouxeram a guerra para casa, na medida em que trava­
vam batalhas campais nas ruas justificadas por ideologias extremistas. George Grosz
lembrou como “os jovens da Alemanha agrupavam-se em unidades políticas frou­
xas, marchando em mangas de camisa e cantando ‘Morra, judeu, enquanto atrás
deles outro grupo cantava ritmicamente: ‘Salve, Moscou/ Conflitos ocorriam
inevitavelmente. Muitos crânios eram quebrados, mandíbulas fraturadas, e até,
uma vez ou outra, estômagos ficavam crivados de buracos de bala”.

212 | 1919-1929
Esta polarização contaminou o Wandervogel. A cisão entre militaristas e pa­
cifistas, esquerdistas e direitistas, já se fixara, e a revolução de novembro de 1918
politizou-a ainda mais. O resultado foi uma desconjuntada colcha de retalhos de
cultos e células dentro do movimento juvenil. O mais poderoso agrupamento
anterior à guerra, o Freideutsch Jugend, voltou-se para a esquerda. Sua reunião
no outono de 1920, em Hofgeismar, organizada em torno da proposta de estabe­
lecer “uma frente unida de jovens”, terminou em desentendimentos fundamen­
tais entre socialistas e comunistas comparáveis às lutas corpo a corpo praticadas
por seus correspondentes adultos.
A desilusão com o nacionalismo e a guerra, junto com as notícias que chega­
vam da Rússia revolucionária, fizeram do socialismo revolucionário um ímã para
muitos jovens idealistas. Como eles sabiam, o capitalismo inevitavelmente termi­
nava em conflito, na medida em que a economia da produção em massa se re­
duzia inexoravelmente à produção em massa de armamentos. Eram os jovens e a
classe operária que suportavam o impacto desta opressão, e para que isso não acon­
tecesse, a sociedade tinha de ser transformada. A única maneira de fazer isso era
a ascensão do povo ao poder e ao governo do país. Em vez de uma elite naciona­
lista, exploradora, a massa estaria no comando.
Com sua insistência na uniformidade social e na ação coletiva, os comunistas
estavam tentando instituir uma nova sociedade para a era de massa. O processo
que tinha começado com a Revolução Francesa estava se consumando, na medida
em que a multidão reforçava o seu poder —não mais os governados, mas os go­
vernantes. Embora materialista, o comunismo estava impregnado com outro tipo
de misticismo. No seu entusiasmo inicial, adeptos como George Grosz acredita­
vam que um novo tipo de homem-máquina estava nascendo: “Destinos indivi­
duais não são mais importantes.”1
Notando a existência de um apoio internacional a seu regime, os novos go­
vernantes da Rússia fundaram a Internacional Comunista, o Comintern, em março
de 1919. Dirigidos por Moscou, os membros do Comintern trabalhavam ativa­
mente para fomentar a revolução na Europa, e a Alemanha era o alvo específico.
Embora pequenas em número, estas células dormentes tiveram uma influência
desproporcional. O comunismo tornou-se um novo e poderoso ideal da juven­

1 O regime comunista na Rússia não havia perdido tempo fazendo planos para a juventude do seu continente.
Em outubro de 1918, o Komsomol (por extenso YLommunisticheskiy Soyuz Mo\odiozhi'. União da Juventude
Comunista) foi fundado como a ala jovem do partido: seu objetivo era absorver a vasta maioria de russos de 14
a 28 anos de idade. Na segunda Conferência Komsomol, em maio de 1922, decidiu-se erradicar qualquer
organização juvenil remanescente, como os escoteiros russos, e criar um novo grupo para adolescentes mais
jovens de dez a 15 anos de idade - inicialmente chamados de Jovens Pioneiros Spartak. Sob a égide da mulher de
Lênin, Nadezhda Krupskaya, os Jovens Pioneiros ofereciam uma rígida hierarquia de graduação etária ano a ano
antes da total participação no Komsomol a partir da idade exigida. Ambas as organizações refletiam o desejo do
regime de estabelecer uma estrutura do berço-ao-túmulo de total envolvimento com o comunismo.

CHOQUES DO PÓS-GUERRA | 213


tude, celebrado por artistas e intelectuais em novas instituições como o Bauhaus,
encenado nas ruas das cidades alemãs por grupos como o KPD (o Partido Co­
munista Alemão).
Apesar desta arrepiante polarização, muitos veteranos do Wandervogel espe­
ravam um retorno à inocência do movimento de antes da guerra. Entretanto, a
neutralidade não era mais possível: na primeira grande reunião do Wandervogel
realizada apôs a guerra em Coburg no ano de 1919, 3 mil membros testemunha­
ram rixas entre a direita e a esquerda. Assim como alguns grupos jovens preferiam
o socialismo radical, outros optavam pelo militarismo de direita dos Freikorps.
Numa subsequente reunião do Wandervogel, nas montanhas Fichtel, o progresso
não linear dos andarilhos antigos foi desbancado pela maioria dos membros ca­
minhando a passos militares.
Novos grupos de jovens tentaram se aproveitar da fraternidade de força dos
Freikorps. Em 1918, um oficial chamado Otger Graff formou um grupo de
pessoas disfarçadas de cavaleiros medievais. O seu Jungdeutsche Bund favorecia
a expansão alemã, denunciava o capitalismo judeu e o cristianismo e propunha
um renascer nacional “sob o signo da suástica”. Outro grupo, o Neupfadfinder
injetou uma ideologia de “educação tribal” e uma filosofia nacionalista derivada
do Kindred of the Kibbo Kift e do poeta Stefan George e seu círculo.
O conceito de George para o Bunde - um grupo hermético de fiéis hostis à
sociedade de massa do século XX com suas “crenças banais em igualdade e pro­
gresso - foi refinado pelos Cavaleiros Brancos de Martin Voekel. Tendo o cava­
lheirismo como seu objetivo, os rapazes libertariam a população alemã de suas
cadeias para as glórias do futuro “Terceiro Reich”. Este tipo de misticismo me­
dieval dava mais tempero ao cozido cada vez mais autoritário do Bunde domi­
nado pelos homens. As lições de dever e sacrifício pessoal por uma causa maior
tinham sido bem aprendidas com os quatro anos de guerra.
O regime de Weimar deixou insatisfeita grande parte da juventude alemã.
Com a confusa política da época, os jovens da Alemanha tendiam tanto a tomar
uma posição à esquerda quanto à direita. Este conflito de gerações começou a
ser encenado em termos de jovens contra velhos. Os velhos propriamente ditos
que mandaram os jovens para a guerra tinham desaparecido depois de novembro
de 1918. No lugar do Kaiser Guilherme, a figura paterna era representada pela
República de Weimar, e era contra esta frágil democracia que a hostilidade dos
filhos seria direcionada.
Sebastian Haffner lembrou que, depois do malsucedido Kapp Putsch, “o
interesse pela política diminuiu entre os meninos. Todos os partidos tinham che­
gado a um acordo e o assunto perdera a sua atração”. Neste vácuo, o extremis­
mo entrou correndo. “Só uns poucos permaneceram fiéis à política, e me ocorreu
pela primeira vez que, por estranho que pareça, eles eram os mais estúpidos, mais

214 | 1919-1929
grosseiros e repulsivos dos meus companheiros de escola. Eles começaram a in­
gressar no tipo certo’ de ligas, a Associação Nacional de Jovens Alemães ou a Liga
Bismarck e em pouco tempo exibiam soqueiras de metal, bastões e até cassetetes
de borracha na escola.”
Haffner viu um desses valentões “rabiscar um desenho estranho no seu cader­
no”: “O estranho desenho se repetia cada vez mais. Algumas pinceladas combi­
nadas num jeito agradável, inesperado, para formar um ornamento simétrico
parecido com uma caixa. Fui imediatamente tentado a copiá-lo. ‘O que é isto?’,
perguntei num sussurro porque estávamos no meio de uma aula, embora muito
entediante. ‘Signo antissemita, ele sussurrou de volta em staccato telegráfico. A
Brigada Ehrhardt a usava nos seus capacetes. Significa ‘Fora com os judeus.
‘Você devia saber, e ele continuou rabiscando. Foi quando conheci a suástica.”

* * *

No alvorecer político daquela geração, tornava-se claro que a juventude por si só


não era progressiva nem reacionária. Podia ser uma coisa ou outra, as duas, ou
pior. Enquanto o Comintern tramava para influenciar a juventude europeia, a
ala da direita já tinha conseguido atrair os jovens para um novo tipo de política
extremista. Apesar de fazer parte da coalizão dos Aliados contra os Poderes Cen­
trais, a Itália sofrerá o mesmo colapso de valores do pós-guerra. Como o veterano
Adolfo Omodeo escreveu ao voltar para casa na primavera de 1919, “parece que
estou vivendo num mundo que perdeu toda a sua consciência moral, seja na es­
fera nacional, internacional ou privada”.
Formado na primavera de 1919, o novo partido chamado Fasci di combatti-
mento tinha como objetivo concentrar num partido político maciço a raiva dos
veteranos que voltavam. Um dos fatores principais que os distinguia dos outros
grupos milenares competindo pela atenção dos veteranos, a futurística insistência
na vitalidade dos jovens tornou-se a parte central do programa fascista. Como o
fundador do movimento, Benito Mussolini, afirmou em julho de 1919: “Nos
fasci não existem o bolor das velhas ideias, a barba venerável dos homens idosos,
a hierarquia dos valores convencionais, mas existe juventude, existem impetuo­
sidade e fé.”
Escasso em detalhes, o programa fascista era grande em retórica e espetáculo.
Usando eventos encenados como a reunião de novembro de 1919, em Milão, que
começou com uma “magnífica explosão de foguetes” e terminou com uma procis­
são à luz de archotes, os fascistas atrelavam a mentalidade de combattentismo dos
veteranos ao impulso revolucionário de muitos jovens burgueses. Como um fu­
turista romano escreveu em 1919: “O amanhã pertence aos jovens. Vamos nos

CHOQUES DO PÓS-GUERRA | 215


ajoelhar diante da ousada formação militar que retorna. Seu dinamismo ditará
as leis que disciplinarão o mundo. O mundo está em suas mãos.”
Tendo unido as gerações sob a bandeira da canção que era a marca registrada
dos fascistas, “Giovinezza! Giovinezza!” (Juventude! Juventude!), Mussolini - ape­
sar de quase ter a idade do pai odiado - foi elevado ao poder em outubro de 1922.
Embora osfascisti não fossem de início tão totalitários quanto seus sucessores, o
precedente estava aberto. No início da década de 1920, Mussolini havia provado
que a juventude, como um princípio abstrato e uma realidade energética, podia ser
atrelada a novos partidos que, celebrando a tecnologia e o espetáculo pagão, con­
tornariam os polos tradicionais de liberalismo e conservadorismo do século XIX.
A conseqüência foi uma aparentemente nova política de poder e luta que
recorria à violência insaciável da geração dos tempos de guerra, ao mesmo tempo
que ativava a crueldade ainda não testada de seus grupos mais jovens. Para mui­
tos radicais, a brutalidade maciça de 1914-1918 havia comprovado a verdade da
famosíssima frase de Nietzsche. Se Deus estava morto, então podia ser substituí­
do pelas religiões seculares do comunismo e do fascismo. Com seu apetite inato
pelo que Stanley Hall chamou de “conversão religiosa”, muitos jovens da Euro­
pa iriam aderir a elas.

* * *

Esta política polarizada se mostraria cada vez mais atraente na Alemanha confor­
me piorava o caos do pós-guerra. Quando, em 1923, o exército francês ocupou
o coração industrial do país, o Ruhr, o marco alemão entrou em queda livre.
Como lembra Sebastian Haffner, “o custo de vida entrara numa espiral fora de
controle. Os comerciantes seguiam no calcanhar do dólar. Uma libra de batatas
que ontem custava 50 mil marcos hoje custa 100 mil. O salário de 65 marcos
trazido para casa na sexta-feira não era suficiente para comprar um maço de ci­
garros na terça”.
Esta espetacular desvalorização foi a gota d’água. Depois de 1923, entraram
no espírito alemão uma “imaginação cínica, incontida, o prazer niilista no impos­
sível pelo simples prazer e a energia que tinha se tornado um fim em si mesma.
Naquele ano toda uma geração de alemães teve um órgão espiritual removido: o
órgão que dá aos homens estabilidade e equilíbrio, mas também uma certa
inércia e impassibilidade. Ele pode aparecer de várias maneiras como consciência,
razão, experiência, respeito, moral ou o temor a Deus. Toda uma geração aprendeu
então —ou pensou que aprendia —a se virar sem esse lastro”.
Durante a década de 1920, os agrupamentos ideológicos juvenis foram apa­
nhados numa fenda fatal. Rejeitando os valores dos mais velhos, eles pensavam

216 | 1919-1929
que a juventude por si só seria o bastante para transformar o mundo. Entretanto,
ao se separarem de quase todos os vínculos conhecidos, eles se projetaram num
território perigoso. “Era um novo paganismo o que nós buscávamos, e um novo
barbarismo o que conseguimos alcançar”, Leslie Paul mais tarde reconheceu,
com o benefício de uma percepção tardia. “Negar a civilização tornou-se por
toda a parte um culto e uma organização, e muito da história europeia depende
do estado de espírito que o meu movimento juvenil tipificava na época.”

CHOQUES DO PÓS-GUERRA | 217


CAPÍTULO 15

Sheiks e Shebas
O mercado jovem americano

Uso cabelos curtinhos, o distintivo das melindrosas. (E, ah, como é confortável!),
empoo o meu nariz. Uso saias com franjas e suéteres bem coloridos, echarpes,
corpetes com gola Peter Pan e sapatos de salto baixo estilo “finale hopper”.*
Adoro dançar. Passo um bom tempo em automóveis. Freqüento arrasta-pés,
bailes de estudantes, jogos de bola, competições de remo e outros
programas nas faculdades masculinas.
- Ellen W elles Page, "Apelo de um a m elindrosa ao s pais", Outlook, 12 de junho de 1922

JOVEM MELINDROSA AMERICANA, INICIO DA DECADA DE 1920

‘ Jovem que chegava para dançar nos salões depois de encerrada a venda de tíquetes. (N . da T.)
EM ESTE LADO DO PARAÍSO , F. Scott Fitzgerald tabulou um novo tipo de jovem
que marcou “a primeira ruptura real com a hipocrisia da tradição escolar. O es­
pertalhão era um elemento de sucesso, diferenciando-se intrinsecamente do gran-
de homem’ da escola preparatória”.

“O ESPERTALHÃO” “O GRANDE H O M EM ”
1. Agudo sentido de valores sociais. 1. Inclinado à estupidez e inconsciente
dos valores sociais.
2. Veste-se bem. Finge que roupa 2. Pensa que a roupa é superficial, e está
é superficial - mas sabe que não é. inclinado a não se preocupar com isso.
3. Participa de tantas atividades nas quais 3. Empenha-se em tudo por um
for possível brilhar. senso de dever.
4. Freqüenta a faculdade e é, num sentido 4. Freqüenta a faculdade e tem um futuro
mundano, bem-sucedido. problemático. Sente-se perdido...
5. Cabelos lisos e brilhantes. 5. Cabelos não alisados.

Publicado em 1920, o primeiro romance de Fitzgerald anunciava a adoles­


cência americana como plenamente formada, traçando sua história através dos
idílios de BoothTarkington até o estado pós-guerra decadente daquele momento:
“Inquieta como o diabo.” Concentrado no mundo de pares da escola e da faculda­
de e com abordagem ousadamente moderna, Este lado doparaíso era uma narrativa
sobre a entrada na maioridade que tipificava uma geração que tomava consciência
de si mesma e do seu poder social. O livro também captava a obsessão com a ju­
ventude, o aspecto atraente da América, exatamente quando sua cultura come­
çava a circular velozmente pelo mundo ocidental.
Embora a inocência, de um tipo claramente americano, fosse o elemento mais
importante neste ideal, tanto Este lado do paraíso quanto o outro romance sobre
a chegada à maioridade de grande sucesso na época, A verdade de cada um —Wi-
nesburg, Ohio, de Sherwood Anderson, reconheciam que a pureza do continente
já estava corrompida. Escrevendo sobre a “revolução” do industrialismo, Anderson
observou que “uma boa parte da antiga ignorância brutal que havia nela, uma
espécie de bela inocência, também se foi para sempre”. Enquanto o herói de Booth
Tarkington permanecia no Meio-Oeste, o herói de Anderson, George Willard,
deixou Ohio assim que pôde: aos 18 anos de idade.
Este lado do paraíso levou o livro para meninos ao próximo estágio, da arcádia
do Meio-Oeste para a metrópole corrompedora. Fitzgerald delineou as ativida­
des sociais do jovem americano de classe média alta em detalhes nunca vistos: os
mundos da escola e da faculdade fechados em si mesmos, as experiências sexuais,
o frenesi de dançar e beber, a morte súbita em desastres automobilísticos. Como

SHEIKS E SHEBAS | 219


as referências a Huysmans, Brooke e Wilde deixavam claro, estes espasmos de
embriaguez, sexo e velocidade ofereciam um novo tipo de romantismo atualiza­
do para uma era de ilusões destruídas pela guerra.
A entrada da América no conflito havia instigado um novo tipo de antagonis­
mo encenado na Grã-Bretanha, Alemanha e França. Como o soldado de 22 anos
de idade, John Dos Passos, escreveu do front em 1918: “Todos os rapazes são as­
sustadoramente decentes. Se fôssemos nós a governar o mundo em vez dos velhos
arrogantes de sobrecasaca!” Outro jovem soldado, Walter A. Hafener, escreveu a
Stanley Hall, em janeiro de 1919: “Tudo que queremos é despir as roupas mi­
litares e entrar nas roupas civis e depois nos esconder, e se alguém tentar nos dizer
o que fazer, vai haver um assassinato.”
Fossem eles soldados voltando para casa ou estudantes universitários, nada
afligia mais os jovens americanos no início da década de 1920 do que a restrição
à sua liberdade de, como disse Hafener, “tomar um drinque ou dois no Biltmore,
no Knickerbocker ou no Frolic”. No período entre a preparação e a publicação
de Este lado do paraíso foi aprovada a 19â Emenda da América. O Volstead Act
proibia o consumo, a publicidade e a produção de bebidas alcoólicas e tornou-se
lei em 17 de janeiro de 1920. Desobedecer à lei seria um ritual para uma gera­
ção que reagia contra “os velhos arrogantes”.
A lei seca pode ter sido uma conclusão lógica para o movimento de Reforma
iniciado antes da guerra, mas também marcou o ápice da intolerância que chegara
junto com o conflito. Os poderes radicais trazidos para ajudar na guerra expandi­
ram-se numa campanha contra pacifistas, dissidentes e especialmente contra a
mão de obra organizada. Os Estados Unidos estavam determinados a eliminar o
vírus bolchevique. O julgamento em massa dos 113 ativistas da International
Workers of the World, em agosto de 1918, foi seguido, no fim de 1919, por uma
seqüência de batidas policiais e deportações em massa, em parte arquitetadas
por um ambicioso e jovem advogado de nome J. Edgard Hoover.
Exatamente no ponto em que as liberdades tornavam-se um farol para a
Europa do pós-guerra, a América fechava-se como unia concha. Resultado do
intensivo lobby das minorias, o Volstead Act foi impopular desde o início. Ele
representava o freio da moral religiosa no momento em que grande parte do
país corria na direção dos valores mais seculares do consumismo. Ele também
marcou um limite arbitrário para a licença promovida por esse novo sistema e
foi, com toda a razão, considerado hipócrita pelos jovens. Na verdade, muito da
angústia em Neste lado do paraíso é resultado das mensagens ambíguas que a ju­
ventude recebe dos mais velhos sobre apetites e desejos.
Ao mesmo tempo em que era instituída a Lei Seca, o consumismo tornava-
se um elemento importante da política econômica americana. Era, como escreve
Elizabeth Stevenson, “a primeira vez que, numa escala gigantesca, uma sociedade

220 | 1919-1929
desenvolvia um conjunto de procedimentos, uma provisão de desejos e necessida­
des e uma fé a partir da compra e venda de mercadorias”. Ainda com o peso de
representar o futuro, a juventude era o alvo preferido de produtores e comercian­
tes. Como o jornal do ramo publicitário Printerslnk observou em 1921: “Se você
convencer os jovens da região, vai, ao mesmo tempo, convencer os mais velhos.”
Em 1918, a receita total de anúncios nas revistas em geral foi de 58,5 milhões
de dólares; dois anos depois, ele chegou a 129,5 milhões. Uma boa parte tinha
como alvo os jovens, que eram, conforme opinou um guru da publicidade, os
“radicais do mercado”. Entre os produtos voltados para os jovens estavam roupas,
revistas, cosméticos, filmes, fonógrafos e cigarros. A revista Photoplay fez um es­
tudo revolucionário sobre os hábitos de consumo relacionados com a idade em
1922, no qual se revelou que os artigos mais populares na faixa etária dos 18 aos
trinta anos eram meias, roupas íntimas, fonógrafos e discos.
Depois das partidas anuladas e das experiências fracassadas das duas décadas
anteriores, aos jovens da América foi concedido o novo status de vanguarda da
revolução consumista. Durante a década de 1920, as escolas secundárias dobraram
de número e o ingresso nas faculdades tornou-se uma aspiração nacional, não mais
algo reservado a uma elite. Os anúncios começaram agressivamente a mirar a
nova e destacada classe panjuvenil criada pela introdução finalmente bem-suce­
dida da educação de massa. Para muitos jovens americanos, a educação passou a
ser não apenas um método de aprendizado como um treinamento para o status
social como “os consumidores de amanhã”.
As contradições americanas em torno de juventude e idade, liberdade e auto­
ridade, escolha e coerção foram exploradas no romance de Sinclair Lewis, Babbitt,
de 1923. Ambientado no Meio-Oeste da literatura para meninos, ele retratava a
mudança ocorrida no continente do idílio pré-industrial para uma sociedade
uniforme, mecanicista. George Babbitt, o herói de meia-idade do romance, pode
ter fantasiado “a criança dos contos de fadas, um sonho mais romântico do que
pagodes escarlates à beira de um mar de prata”, mas a sua paisagem interior,
subjetiva, ainda estava mais atrelada cientificamente ao consumismo na medida
em que se tornava uma religião secular de individualidade de massa.
Peter Pan transformara-se no consumidor adolescente, dinâmico, na medida
em que a juventude era vista em termos materialistas. Este lado do paraíso captou
esta perda de inocência causada pela prematura, se não precoce, experiência. “Sua
geração está ficando difícil”, diz Monsignor Darcy, um dos poucos adultos soli­
dários num livro onde eles estão em grande parte ausentes; “muito mais difícil
do que a minha jamais chegou a ser, nutrida como foi nas coisas dos anos no­
venta”. Ao mesmo tempo, o romance de Fitzgerald era parte desse processo de
embaçamento; embora criticando a cultura jovem americana, ele mostrava o fe­
nômeno para um público mais amplo.

SHEIKS E SHEBAS | 221


Apesar de se divertir com as descrições de festas em que a garotada ficava se
agarrando e das corridas de carro em que todos estavam bêbados, Fitzgerald es­
tava muito consciente dos riscos da exaltação da juventude como um ideal social.
Nas palavras do seu protagonista, Amory Blaine, “juventude é como ter um gran­
de prato de doces. Os sentimentais pensam que querem estar no puro e simples
estado em que viviam quando comiam o doce. Não estão. Eles só querem a di­
versão de comê-los de novo. A matrona não quer repetir a sua meninice —ela quer
repetir a sua lua de mel. Eu não quero repetir a minha inocência. Quero o pra­
zer de perdê-la novamente”.
Não foi por acaso que a plena chegada da juventude à sociedade ocidental
tenha ocorrido no ponto de descontinuidade histórica criada pela guerra: com
sua explícita divisão etária, a ideia de gerações cultuava a sensação de estar perdi­
do, evocada com tanta eloqüência em Este lado do paraíso. Mas esta sensação de
estar perdido é inevitavelmente endêmica à adolescência: solta num mundo feito
pelos adultos, não para ela. Os jovens no romance de Fitzgerald representam o
insaciável anseio de seu autor: a atriz Rosalinde Fuller sentia que “era uma des­
tas pessoas que nunca estavam satisfeitas com a vida”. Mas havia um outro lado
da equação.
Fitzgerald escreveu seu romance aos 23 anos de idade num desespero para
satisfazer um desejo - transcender o fracasso do seu pai e da sua própria adolescên­
cia, e conquistar a garota dos seus sonhos. Esse desejo foi satisfeito quando, uma
semana depois da publicação do livro, casou-se com uma moça de 19 anos cha­
mada Zelda Sayre. O livro foi um succes dyestime imediato e fez de ambos jovens
celebridades. Scott mais tarde observou que, apesar da sua ignorância, “foi empur­
rado para a posição não só de porta-voz da época, mas de típico produto daquele
momento”. Para Zelda, a Nova York de 1920 “era apenas muita juventude”.

* * *

Os Fitzgerald se mantiveram ocupados comentando o símbolo mais visível do


novo jovem consumidor. O primeiro livro de contos de Scott, publicado em
1920, chamou-se Melindrosas e filósofos. Em junho de 1921, Zelda Fitzgerald
escreveu um “Elogio à melindrosa”, no qual declarava com firmeza que as liberda­
des pelas quais as “primeiras melindrosas” como ela haviam lutado, isto é, cortar
bem curtos os cabelos, colocar “muita audácia e rouge” e flertar “porque era di­
vertido”, tinham sido aceitas como padrão da primeira geração adolescente femi­
nina em massa.
A grande mídia tinha refletido e moldado as vidas de mulheres americanas
desde os últimos anos do século anterior, quando a dona de casa foi instituída
como modelo de consumidor. Durante a década de 1920, os anúncios começaram

222 | 1919-1929
a usar como alvo um grupo mais jovem de mulheres que trabalhavam fora, que
representavam 20% do total empregado. “Se eu fosse um fabricante de aviamen­
tos”, escreveu uma “compradora de aviamentos” da grande loja nova-iorquina Gim-
bel Brothers, em 1922, “certamente atrairia as jovens de 17 ou 18 até 26, 27 anos,
idades em que estão formando hábitos de consumo para toda a vida.”
Como um tipo, a melindrosa explicitamente associava a juventude à tradição
do consumidor do sexo feminino. Como Stanley Hall observou muito bem num
artigo de 1922 intitulado “A novíssima americana melindrosa”, a guerra havia
acelerado tal processo. Ela “já se emancipara da dama de companhia, e passou ser
patriótico falar, distribuir bandeirolas, distintivos e guloseimas aos rapazes na
rua e, talvez, às vezes, travar conhecimento com eles se estivessem de uniforme.
Seus modos tornaram-se um pouco descontraídos e qualquer vestígio de certas
restrições antigas desapareceram”.
O termo surgiu pela primeira vez na Europa durante a década de 1890 para
se referir a uma prostituta muito jovem. Isso tinha mudado pouco antes da guer­
ra para descrever o que os alemães (e Stanley Hall) chamavam de Backfisch -
uma adolescente com físico de menino. Durante a guerra, a melindrosa foi re­
definida na Grã-Bretanha como uma mulher jovem, independente, em busca de
prazer, louca por roupas cáqui. Embora as associações mais escandalosas do tipo
—que incluíam o vício da cocaína - desaparecessem depois de 1918, a melin­
drosa manteve traços do papel que havia ensaiado em sua jornada às margens da
sociedade após tornar-se definidora de tendências.
A moda seguia de mãos dadas com a mudança na moral. A crescente afirma­
ção sexual das mulheres jovens, casada com a androginia das jovens ou das per­
versas, foi reforçada pela lenta expansão dos cabelos curtos da Paris anterior à
guerra e a lenta ascensão das saias para logo abaixo dos joelhos nos meados da
década. Em 1920, Hollywood apresentou uma das suas mais brilhantes e novas
estrelas, Olive Thomas, em The Flapper, uma comédia ligeira. O filme tornou
oficial a aparição americana do tipo que logo se tornou o objeto de um nível de
definição obsessivo, sem precedentes, nos anos que se seguiram.
Escrevendo em 1922, Stanley Hall posicionou o tipo na faixa que vai dos
13 aos 19 anos, e não na casa dos vinte, mas ele também observou uma ampla
variedade de produtos e hábitos associados com essa “chic” e moderna estudante.
Entre eles, roupas, refrigerantes, perfumes, filmes e qualquer coisa associada com
a dança “quase celestial”. Ele sentiu que a popularidade e a disponibilidade des­
tes artigos de consumo, junto com a autoconfiança da melindrosa, marcavam
um novo tipo de ritual social para as moças que lhes permitia atravessar a adoles­
cência com sucesso.
Do ponto de vista de alguém que está por dentro, Zelda Fitzgerald observou
que os estilos da melindrosa originavam-se nas escolas de elite e eram depois imi-

SHEIKS E SHEBAS | 223


tados por “milhares de balconistas na cidade grande”. Por sua vez, estas eram
imitadas por “milhares de beldades das cidades pequenas”, que recebiam os estilos
mais recentes “via ‘lojas de novidades’ das suas respectivas cidadezinhas”. Citando
um editorial chocante que colocava a culpa das doenças sociais da América “na
cabeça da Melindrosa”, ela refutou a acusação de que o tipo era amoral. Pelo
contrário, estava ensinando a juventude da América “a capitalizar os seus recursos
naturais e receber o seu valor em dinheiro”.
À medida que o tipo se generalizava, seu elemento característico era uma
franca e desinibida sexualidade. Hollywood foi rápida em criar novas estrelas
para saciar os desejos deste novo tipo, aparentemente descontraído. O filme
mais sensacional de 1921 foi O sheik, uma tórrida história sobre um romance
proibido entre uma nobre inglesa e um sádico árabe. E. M. Hull, a jovem autora
deste best-seller imediato, inventou uma fantasia impetuosa de sexo exótico, gros­
seiro, legitimado pelo desenlace, quando se revela que o sheik é na verdade um vis­
conde do reino - e, portanto, de boa origem para um casamento.
Estreando :em novembro daquele ano, o filme tinha no elenco Rodolfo Valen-
tino, um italiano de 26 anos e que já tinha causado sensação em Os quatro ca­
valeiros do Apocalipse. Moreno e mimado, roteirizado e modelado por mulheres,
Valentino oferecia uma nova masculinidade totalmente diferente que tinham os
americanos. Seu efeito sobre ambos os sexos foi eletrizante: no fim de 1921, ele
recebia novecentas cartas por semana de sua obsessiva base de fãs femininas. O
filme foi tão popular que deu o seu nome a um novo estilo jovial masculino, o
sheik, que imitava os cabelos partidos ao meio, a cintura apertada e o fascínio
sexual encapuzado de Valentino.
Este era um novo mundo pagão. Os anúncios para O sheik diziam:

VEJA
o leilão de belas moças para
os senhores de haréns argelinos

VEJA
cenas inigualáveis de deslumbrante
colorido e a vida e o amor selvagens livres
na suprema emoção do ano nas telas
- 3 mil no elenco

Valentino era a divindade principal. A atração que exercia foi definida na


primeira entrevista que deu à imprensa para a Motion Picture, em julho de 1920.
Nesta hipérbole produtora de astros e estrelas, ele foi descrito como “um jovem
fenomenal” com qualidades divinas: “a vitalidade de Don Juan que corteja; a

224 | 1919-1929
extravagância de Don Quixote que exagera; a coragem de D ’Artagnan que ousa...
o desejo de d’Annunzio que realiza; a força de Vulcano que excede e a filosofia
de Omar, cujo ‘ontem está morto e o amanhã nunca vem’.”
A exploração do prazer pagão foi ainda mais desenvolvida no best-seller de
1923, Flaming Youth. N a introdução, Warner Fabian apresentava o livro como
um espelho para a mulher moderna. Ele definia suas leitoras-alvo como “inquietas,
sedutoras, gananciosas, desconten­
tes, ansiosas por sensações, sem cons­
trangimentos, um pouco mórbidas,
mais do que um pouco egoístas, in­
teligentes, sem educação, sibaríticas,
seguidoras de instintos básicos e fan­
tasias perversas, tão relaxadas inte­
lectualmente quanto cuidadosas
com o corpo, neuróticas e vigoro­
sas, adoradoras de deuses de lante-
joulas em altares perfumados, pares
adequados para o homem apressa­
do, inquieto e cínico como o diabo”.
O pseudônimo no estilo sheik
“Warner Fabian” mascarava um
jornalista itinerante de meia-idade
determinado a dar às suas leitoras
exatamente o que elas queriam. Fla­
ming Youth expunha o sexo extra-
conjugal, o aborto, as festas à beira
da piscina sem roupa, bebidas ile­
gais e a perda da virgindade de me­
ninas adolescentes nas mãos de ho­
mens mais velhos. Dentro deste rol
JOVEM SHEIK AMERICANO DE TERNO, de choques, a juventude era o prin-
DÉCADA DE 1920 cípio governante: “Você não gosta­
ria de ser jovem outra vez?”, pergun­
tava um dos poucos adultos. “Ser um facínora de vinte anos! Eles são todos
facínoras, estes meninos, todos eles sem nenhuma vida em suas veias; as meni­
nas, assim como os garotos; talvez mais do que os garotos.”
Visando diretamente às mulheres modernas, fossem elas jovens ou desejosas
de juventude, esta excitante bobajada era perfeita para Hollywood, e a versão do
romance de Fabian para o cinema foi lançada naquele mesmo ano. A sua estrela
era Colleen Moore, de 23 anos, escolhida para o papel principal porque no teste

SHEIKS E SH EBAS 225


usava um corte de cabelo à holandesa, com “mechas caídas na testa, como o
corte das meninas japonesas”. O filme foi ousadamente anunciado no mercado
com slogans do tipo “agarramentos, carícias, beijos inocentes, beijos lascivos, fi­
lhas loucas por prazer, mães ansiando por sensações”. Flaming Youth cimentou a
ousada nova feminilidade na imaginação pública.
O filme teve um impacto extraordinário. Scott Fitzgerald mais tarde escreveu:
“Eu fui a centelha para Flaming Youth e Colleen Morre foi a tocha. Que coisas
insignificantes somos para causar tanta confusão.” O filme também fez dos cabelos
curtinhos o símbolo da mulher moderna. No seu estudo sobre a “Jane Melindrosa”
arquetípica, de 1925, Bruce Bliven notou que o corte mais recente a deixara
“quase sem nenhum cabelo na nuca, e 20% mais do que isso na frente - quase
tanto quanto está sendo usado nesta estação por um tocador de violoncelo (ho­
mem); menos do que um pianista e muito, muito menos do que um violinista”.

* * *

No início dos anos 1920, a economia do sonho americano tinha se tornado uma
imensa, complexa e lucrativa indústria. O cinema superara tanto o vaudeviüe quanto
o teatro como a forma de entretenimento mais popular do país durante os mea­
dos da década de 1910 e tinha entrado em sua “década de ouro” de sucesso ar­
tístico e comercial. Durante o ano de 1922, pelo menos 45% dos adolescentes
americanos iam ao cinema uma vez por semana. Ao mesmo tempo, a receita
obtida com a venda de discos alcançava um pico de mais de 100 milhões de dó­
lares, enquanto que o rádio expandia-se nacionalmente - 20 milhões de ouvintes
durante 1923 e 1924.
A maior sofisticação e a crescente interligação dessas indústrias em flor foi
ilustrada pela promoção que todas as mídias fizeram de filmes como Flaming
Youth. Em 1923, estilos jovens eram observados, reproduzidos e depois dissemina­
dos por todo o continente com filmes, revistas, programas de rádio, anúncios ou
pela indústria musical. O processo era tão rápido, e a manipulação tão bem-feita,
que em geral parecia que estes veículos transmissores é que, na verdade, definiam
os estilos. De fato, eles só estavam capitalizando a realidade adolescente.
Os jovens da América foram cúmplices perfeitos nesse processo: flexionando
seus músculos generacionais ao tirar vantagem de suas novas liberdades e vendo
seu comportamento ser reforçado na tela ou em quadrinhos populares como
Harold Teen, de Carl Ed, que começou em 1919. Tendo absorvido totalmente os
valores dominantes de sua sociedade, os adolescentes da América ingressaram numa
tal dança ritual com a mídia que ficava difícil definir onde começavam e onde
terminavam os estilos de comportamento e de moda. Na verdade, tipos juvenis

226 | 1919-1929
divulgados, como a melindrosa, estavam, segundo Zelda Fitzgerald, “simples­
mente aplicando métodos comerciais à juventude”.
Esta atenção industrial não só aumentava o abismo entre a geração madura
e a jovem, ela também significava que os adolescentes sofisticavam-se cada vez
mais cedo, aos 12 ou 13 anos. Entretanto, isto não se devia apenas à influência
sensacionalista de Hollywood. A escola secundária estava se tornando um sistema
educacional de massa conforme números cada vez maiores de adolescentes ameri­
canos se matriculavam: 37% dos jovens de 14 a 17 anos em 1920. Combinado
com a tendência educacional da homogeneização etária em graus, isto significava
que mais jovens do país estavam aderindo a uma destacada sociedade de pares.
O filho de Babbitt, Ted, sintetizava o estudante como produto industrial:
“Seu terno, a última moda nos trajes Old Eli, era colado à pele, com calças es­
treitas no alto das botas marrom-claro polidas, uma cintura de dançarino de tea­
tro revista, um padrão de xadrez agitado e um cinto cruzando as costas que não
prendia nada. Sua echarpe era um enorme chumaço de seda preta. Seus cabelos
cor de linhaça eram lisos como gelo, penteados para trás com gomalina e não
eram repartidos.” Apesar desta roupa extravagante, Ted era um ultraconformista:
um verdadeiro crente nos valores comerciais americanos.
A despeito dessa uniformidade, os adolescentes da América tinham muito a
ganhar com essa incipiente cultura de pares. Com o rádio, os gramofones, o ci­
nema, as revistas e o importantíssimo automóvel, eles tinham mais oportunidades
para se divertirem longe dos olhos curiosos dos adultos. Entretanto, ir aos salões
de baile, comprar roupas, freqüentar cinemas —tudo isto custava dinheiro, e era
aqui que ocorriam as verdadeiras tensões entre gerações. Embora dependendo
economicamente dos pais, o jovem não se submetia mais tão facilmente à autori­
dade deles.
Pela primeira vez, também, as moças tiveram uma chance de igualdade. A
crescente educação mista juntamente com os limites etários também favoreciam
as meninas: com frequência elas eram mais desenvolvidas e mais confiantes do
que seus colegas do sexo masculino. Stanley Hall notou que a “Novíssima Melin­
drosa Americana” tratava o menino “como se não existissem diferenças de sexo.
Com relação a ele, ela às vezes parece quase agressiva. Ela vai a shows e caminha
com ele de noite e, nos corredores da escola, ela bate familiarmente nas suas cos­
tas, segura-o pela lapela e lhe dá cotoveladas de um jeito familiar e até de-haut-
en-bas\
Para muitos adultos, a franqueza sexual da melindrosa era uma característica
incômoda da nova cultura adolescente. Não só a sexualidade declarada era parte
do chàmariz comercial da juventude como era incansavelmente promovida por
revistas de “aventuras sexuais” como True Story, revistas de fãs do cinema como
a Photoplay e filmes importantes como Flaming Youth. Uma notícia publicada

SHEIKS E SHEBAS | 227


num jornal do Meio-Oeste captou a estreia de um filme em 1924: “‘Sheiks e
suas ‘shebas sentaram-se imóveis e mudos durante toda a apresentação. Foi uma
verdadeira exibição de relação sexual.”
Apesar de todo esse estímulo, a plena atividade sexual antes do casamento
ainda era um grande tabu. Os jovens da década de 1920 tinham muito mais
oportunidades para experimentar do que seus correspondentes da década de
1890, mas ainda existiam limites. Houve um aumento no sexo extraconjugal
entre os adolescentes, mas a nova cultura de pares, com seus complicados testes
e rituais, dava um certo controle àquela mesma melindrosa cuja maquiagem,
comportamento descontraído, saias cada vez mais curtas e enérgicos passos de
jazz pareciam libertar todo um mundo de pecados proibidos.
De fato, a escola secundária oferecia um teatro seguro onde o complicado
contrato de namoro podia ser representado a salvo. Ele começava com o ritual
das implicâncias e dos risinhos e era seguido pela franca abordagem, quando a
parte feminina tomava a iniciativa. Como uma menina de escola secundária es­
creveu, “meninos, é justo fazer as meninas irem a uma diversão da escola desa­
companhadas? Até agora, não estive em nenhum entretenimento sem ver três
quartos das garotas chegarem sem companhia. O mais desagradável nisto é que
os meninos agem como se não percebessem a difícil situação em que eles coloca­
ram as meninas”. *
As moças tomavam as rédeas nos encontros, que em geral começavam com
a apresentação aos pais, depois um programa noturno que terminava com a volta
para casa lá pelas 23 horas. Compreendia-se que um encontro era uma boa ma­
neira de ficar conhecendo amigos em potencial, e até namorados, mas ele não
representava nenhum tipo de contrato de compromisso. Como uma menina de
Minneapolis se queixou: “Só porque um garoto é cavalheiro o suficiente para
levar uma menina para casa, isso não quer dizer que ele esteja apaixonado por
ela. Tudo que nós queremos é simples cortesia, não maridos.”
Embora não houvesse a figura da acompanhante nos encontros, havia freios
do sistema. A necessidade de envolvimento dos pais significava que os prováveis
encontros com homens eram examinados com atenção. Para os rapazes, a atração
dos encontros era a perspectiva de sexo, mas isso também era governado pelas
regras do que se chamavapetting. os vários níveis de beijos e carícias que chegavam
quase à verdadeira relação sexual. Na essência da questão, entretanto, ainda es­
tava a velha hipocrisia moral, com a moça sexualmente ativa suportando o impac­
to da crítica rigidamente imposta.
Esses encontros cultuavam a popularidade como o ideal central da vida na
escola secundária. Encaixar-se nas qualidades desejadas pelos seus colegas de
escola passou a ser uma questão competitiva. Enquanto pesquisava a vida em

228 | 1919-1929
Muncie, Indiana, durante os anos de 1924 e 1925, Robert S. Lynd e Helen
Merrel Lynd entrevistaram uma estudante popular que afirmou que as qualida­
des que ela buscava nos meninos era “fazer parte do time de basquete ou de fu­
tebol. Um colega que é apenas bom aluno tem um valor muito baixo. Ser bonito,
dançar bem e a família ter um carro, tudo isso ajuda”.
Os Lynd concluíram que a educação “parece ser desejada quase sempre, não
por seu conteúdo específico, mas por ser um símbolo - pela classe operária
como um abre-te sésamo que misteriosamente admitirá seus filhos num mundo
fechado para eles, e pela classe de comerciantes como uma ajuda fortemente
sancionada para ter mais sucesso econômico ou social no mundo”. Este sistema
de graduação social de pares expandiu-se para cima nas universidades americanas.
Apesar de seus professados ideais escolásticos, para muitas faculdades, a excelência
acadêmica não era o importante: o homem médio, não o estudioso de projeção,
era o ex-aluno desejado.
Entre 1919 e 1922, o número de alunos universitários duplicou. Este impulso
para a educação de terceiro grau foi facilitado por famílias menores, um grande
grupo de 15 a 24 anos, e a crescente sofisticação dos negócios americanos. A cor-
poratização precisava de toda uma nova classe de executivos, conforme o número
daqueles que trabalhavam na administração triplicava entre 1899 e 1929. Em
Middletown, em uma geração o gerente-geral de uma fábrica de vidro tinha sido
substituído por um “gerente de produção”, um “gerente de vendas”, uni “gerente
de publicidade” e um “gerente de escritório”.
A educação universitária tornou-se o pré-requisito para ingressar nesta nova
elite, e o principal propósito de ir à faculdade era subir um degrau na escada de
carreira. Devido à natureza móvel e ascendente da sociedade americana, seu
atrativo era para todas as classes. Embora a classe empresarial esperasse que seus
filhos fossem para a faculdade, algumas famílias da classe operária decidiram
fazer os sacrifícios necessários para alguns anos que sairiam caro. Como um pai
trabalhador de Middletown se queixou, “não sei como vamos sustentar as crianças
na faculdade, mas nós vamos. Um menino sem educação, hoje em dia, simples­
mente não vai a lugar algum”.
Este imperativo industrial refletia-se nos novos cursos como negócios e econo­
mia doméstica e numa nova cultura de consumo que promovia estilos e modas
universitários não apenas para estudantes, mas para os jovens em geral. Com
Este lado do paraíso, Scott Fitzgerald tinha iniciado uma avalanche. As atividades
e os costumes dos estudantes universitários tinham fascinado o público america­
no desde a virada do século, mas com o enorme crescimento proporcional -
mais de 400% entre 1890 e 1924 - elas se tornaram uma grande indústria na
década de 1920.

SHEIKS E SHEBAS | 229


Com mais dinheiro nos bolsos proveniente de trabalhos de meio expediente
ou de pais indulgentes, os estudantes anunciavam sua diferença do resto da
população lançando moda com o estilo de roupas e de atividades sociais. “Se
você convencer o universitário, vai convencer muitos rapazes mais jovens que
estão tomando como seu ideal o herói universitário”, observou a revista Sales
Management nos meados dos anos 1920: “O país segue a ordem do estudante
universitário em questões de vestuário.” Estudos contemporâneos realizados com
estudantes revelaram a amplitude de suas exigências materiais.
Uma análise dos anos 1920 sobre jovens estudantes de Harvard revelou que
eles compravam anualmente de seis a oito camisas, oito gravatas, seis pares de
roupas de baixo, 12 lenços, 12 pares de meias, dois pares de ligas e três pares de sa­
patos. Todos os 35 estudantes da amostra tinham fonógrafos, e a maioria tinha
máquinas de escrever. Cerca de 85% do total da população estudantil fumava
cigarros. Na Universidade da Pennsylvania, as moças estudantes compravam sete
vestidos, cinco suéteres, três saias, um casaco, três chapéus, quatro pares de sapa­
tos, 25 pares de meias, 12 itens de lingerie e quatro pares de luvas por ano. Este
padrão de consumo das universidades da Ivy League, as mais importantes do
nordeste dos Estados Unidos, respingou nas instituições menos elitistas.
Entre os estilos associados ao mercado universitário estavam, para as mulheres,
as variantes da trindade melindrosa dos cabelos curtos, cigarros e saias mais cur­
tas: os vestidos tubulares, as galochas abertas, as capas de chuva amarelas, as meias
de seda e as bandanas amarradas na cabeça e na cintura. Algumas mulheres até
adotaram itens normalmente associados com o sexo oposto: coletes, gravatas e
calções presos na altura dos joelhos, os chamados knickerbockers. Pavões masculi­
nos usavam enormes casacos de racoon, os knickerbockers, meias de golfe e “calças
à la Valentino”, muito largas, enquanto seus pares mais conservadores usavam
camisas de colarinho mole, sapatos oxford clássicos de salto baixo e meias sem ligas.
Os colegiais também eram grandes consumidores de mídia. Em média, cada
estudante ia ao cinema uma vez por semana - especialmente depois que os fil­
mes começaram a refletir a vida universitária. O gênero de filmes colegiais foi
simbolizado pela bem-sucedida dramatização, em 1925, do escandaloso romance
sobre calouros de Percy Marks, ThePlasticAge, em que estrelava a futura “It Girl”,
Clara Bow. Música e dança estavam no top da lista, com o jazz “quente” do pe­
ríodo, fosse o de King Oliver, o Hot Five de Louis Armstrong, ou o das bandas
locais de estudantes fazendo a trilha sonora mais popular.
Os colegiais tinham estado entre os primeiros defensores do hotjazz, e as
faculdades foram um terreno fértil tanto para entusiastas quanto para pratican­
tes. Na Universidade de Indiana, o grupo mais popular foi a Wolverine Orchestra,
apresentando o cornetista Bix Beiderbecke. O rapaz de vinte anos já tinha estuda­
do bastante jazz, encontrando-se com Louis Armstrong e freqüentando a famosa

230 | 1919-1929
casa noturna de negros em Chicago, o Lincoln Gardens. Ele se tornou uma pre­
sença constante no campus, com seu velho suéter azul e a caneca cheia de bebida
alcoólica contrabandeada, enquanto seu grupo fazia serenatas nos grêmios estu­
dantis femininos na traseira de um caminhão.
O mercado colegial da década de 1920 representou a primeira vez em que
estilos juvenis foram agressivamente definidos e vendidos à nação como um
todo. O fato de que este era o costume de uma nova elite, ou suposta elite, não
impediu muitos adolescentes da classe operária de se tornarem o que o romancista
James T. Farrell descreveu como “falso colegial, um desses caras que compravam
ternos de colegiais a prestação”. Entretanto, a vida no campus oferecia liberdade
dentro de limites altamente circunscritos. “Vocês vestem seus corpos e mentes
de acordo com algum modelo estabelecido”, praguejou um dos personagens em
The Plastic Age.
Com muita frequência, a padronização de massa do consumismo americano
era reproduzida nas psiques de suas jovens cobaias. Apesar de todas as liberdades
dos adolescentes, as faculdades eram dirigidas segundo fronteiras muito rígidas
de delimitação de grupos semelhantes. “Um homem não escapa nunca das conse­
qüências da sua escolha de pessoas com quem ele se associa”, uma revista colegial
lembrou a seus leitores em 1922. “Um homem é julgado por seus companheiros
e suas organizações.” Outro observador relacionou as qualidades necessárias para
a popularidade: ser bonito, ter dinheiro e um carro. Assim como na escola secun­
dária, fazer parte do time de futebol era mais importante do que tirar dez nas
matérias.
Apesar da presença de alunos da classe operária, o ritmo da vida nas faculdades
ainda vinha de cima para baixo. A sociedade do campus era implacavelmente
imposta pelo sistema de fraternidades. Estas sociedades com suas iniciais gregas
atuavam sobre o estudante desde o momento em que ele, ou ela, chegava, come­
çando com o “trote” de calouros. Uma seleção havia sido feita, havia o voto e de­
pois a iniciação. Este importante ritual era marcado pelo que se chamava de trote,
a difamação e humilhação do réu, que em geral envolvia violência física e tortura
mental.
Incentivadas pelas autoridades da universidade, as fraternidades ofereciam
muitos benefícios àqueles dentro do sistema: status garantido e uma vida social
já pronta. Entretanto, sua rígida formalidade tornava a vida no campus insupor­
tável para os excluídos. “Eles se vestem igual, fazem as mesmas coisas ao mesmo
tempo, pensam e falam nos mesmos termos e têm praticamente os mesmos
interesses”, um visitante europeu notou em 1923. “O padrão parece ser uma
uniformidade. Quem é diferente é maluco’, talvez uma traça de livro ou coisa
parecida.”

SHEIKS E SHEBAS | 231


A vida no campus não era assim tão boa como se dizia: um terço de todos
os estudantes abandonava a faculdade antes de se formar. Num sistema tão com­
petitivo, nem todo mundo podia ser um vencedor, e estudantes de grupos étnicos
—tais como os judeus - e de grupos de baixa renda estavam em desvantagem.
Conhecidos como “mouros” ou “os esforçados”, estudantes muito estudiosos ou
intelectuais tinham pouco status: o editor da revista de uma faculdade alertava
os calouros de que eles tinham de decidir se queriam ser estudiosos “isolados da
massa de estudantes” ou “popular entre seus colegas”.
Embora formada por “ávidos capitalistas”, a pragmática geração universitária
da década de 1920 não era totalmente destituída de capacidade crítica. Como seus
companheiros mais jovens no ensino secundário, ela saboreava o poder da sua
geração. Uma pequena mas significativa minoria gostava de testar os limites do
sistema universitário e, por implicação, o mundo dos adultos. Com heróis cultu­
rais reconhecidos e díspares como Emma Goldman, Theda Bara, Rodolfo Valen­
tino e F. Scott Fitzgerald, eles aspiravam no mínimo a algum nível de não con­
formidade, e isso era expresso principalmente com muita diversão.
Graças à propagação do jazz, os salões de dança continuavam proliferando
por todo o país no início da década de 1920 e ficavam cheios de “rapazes uni­
versitários cujo propósito era ‘fazer estripulias”’, assim como de “meninos e me­
ninas da escola secundária em busca de sofisticação”. Nesta “atmosfera emocional­
mente carregada”, a juventude americana poderia deixar as coisas acontecerem
sem se aborrecer com a interferência dos adultos. Entretanto, assim como a ma­
nia das danças de animais tinha provocado a ira dos reformadores no início da
década de 1910, o jazz e as danças continuaram atraindo comentários adversos.
No início dos anos 1920, o jazz era um divisor de gerações. A Ladies Home
Journal lançou uma “cruzada” antijazz: “Quem diz que ‘jovens de ambos os sexos
podem se misturar num abraço íntimo’ - com braços e pernas entrelaçados e os
troncos em contato -, sem sofrer danos, mente. Acrescente a esta posição o mo­
vimento oscilante e o sensual estímulo da abominável orquestra de jazz com seus
acordes de origem vodu e seu direto apelo ao centro sensorial, e se você é capaz de
acreditar que a juventude é a mesma depois desta experiência, então que Deus
tenha piedade do seu filho.”
A “atitude pagã com relação ao amor em si” da melindrosa já era chocante.
Entretanto, o fato de o jazz e as suas danças, mais notadamente o charleston, que
estreou no musical de 1923, Running Wild, terem sua origem na sociedade negra
só aumentava o perigo percebido pela sociedade americana. Ao adotar a cultura
negra, os estudantes universitários eram acusados de trazer para a vida de classe
média americana as atividades mais usualmente associadas com os “bairros negros
e morenos de Chicago ou o East Tenderloin em Nova York”. Entretanto, a his­
teria dos moralistas só serviu para aumentar a atração do jazz.

232 | 1919-1929
Cada vez mais garotas ficavam aos beijos e carícias livremente com os rapazes
- um estudo de 1924 revelou que isto era praticado por 92% das alunas de es­
colas mistas —, mas a crítica dos mais velhos só deixava claro aos jovens até que
ponto os adultos estavam desinformados. Até a popularidade das “festas depetting,
tão escandalosas para a geração mais velha, representava uma “forma de exploração
limitada por hábitos tradicionais de pares. Ninguém podia ir longe demais: como
um jovem estudante universitário do estado de Ohio escreveu, em 1922, que a
menina universitária “está segura nas situações mais críticas - ela conhece os
limites e, por causa da sua segurança em tal conhecimento, ela é capaz de passar
por quase toda a gama de experiências” [em itálico no original].
Graças aos incansáveis esforços de Margaret Sanger, a contracepção tinha se
tornado mais aceita em geral nas classes comerciais em relação à sua prole univer­
sitária. Entretanto, apesar do que os Lynd chamaram de “um certo relaxamento
experimental” entre a geração mais jovem, o sexo extraconjugal ainda era um forte
tabu. Para as meninas universitárias, a perda total da virgindade era uma grande
preocupação, enquanto que os estudantes do sexo masculino tendiam mais a so­
lucionar este problema tendo “sessões obscenas” ou freqüentando prostitutas.
Ser “uma mulher rápida” ou “um mau elemento com mulheres” era o bastante
para incorrer no ostracismo dos pares, se não a expulsão total do grupo.
O campo de batalha central para os estudantes universitários da década de
1920, como para muitos da sua geração, era a Lei Seca. A bebida ilegal era ao
mesmo tempo aceitável e desejável. Se um estudante não mostrasse pelo menos
“uma tendência à intemperança”, era considerado “antiproibicionista”, mas ele
não era antiproibicionista se praticasse a intemperança “em excesso”. A Anti-
Saloon League tinha em mira especificamente a classe operária urbana e os pobres,
mas sua impopularidade significava que a bebida ilegal, segundo um jornal
universitário, passou “dos salões e dos cabarés vulgares para os círculos sociais e
os salões de dança dos clubes de carteado”.
Imposta ao país por um grupo de pressão em minoria, a Lei Seca colocou
em descrédito a própria norma da lei. A atitude colegiada foi resumida pelo jor­
nal de estudantes de Cornell, que a chamou de uma “piada” sem “acordo popular
necessário à sua imposição”. Este desrespeito à lei teve um lento efeito radicalizante
na medida em que a economia ilegal colocava os estudantes em contato com ideias,
atitudes e pessoas que seus irmãos e irmãs mais velhos não conheciam. Este es­
tado de espírito se solidificaria tanto na aceitação de “um novo pluralismo no com­
portamento” como nas críticas mais óbvias ao mundo dos adultos.

* * *

SHEIKS E SHEBAS | 233


Apanhada entre a exploração e a condenação, entre o prazer e o puritanismo, a
geração da década de 1920 foi vítima precoce das atitudes contraditórias de seu
país. A juventude era um tema volátil para um experimento de massa não compro­
vado. Sob a imagem picante, pagã, pluralista do sheik e da sheba, havia impulsos
selvagens, indomados: o preconceito e as violentas iniciações nas fraternidades
universitárias, o dano físico causado pelas bebidas contrabandeadas, a violência
do gatilho ágil de jovens gângsteres competindo pelo controle do vasto mercado
ilegal de bebidas alcoólicas.
Em abril de 1924, o principal contrabandista da época assumiu o controle
sobre o subúrbio de Cicero, em Chicago, numa “assustadora exibição pública
de poder”. Al Capone, de 25 anos de idade, não sofreu oposição por parte da
polícia nem dos políticos. Um mês depois, as forças ocultas que estavam por trás
da obsessão juvenil americana foram desnudadas por um dos casos de assassinato
mais sensacional do século. Começou em 21 de maio com o pedido de resgate
feito a um rico homem de negócios de Chicago chamado Jacob Franks, dizendo
que haviam seqüestrado seu filho mais novo e que o devolveriam em troca de 10
mil dólares.
No dia seguinte, o corpo nu de Bobby Franks, de 14 anos, foi descoberto
num pântano remoto nos arredores da cidade. A imprensa enlouqueceu, alardean­
do “o risco que as crianças de Chicago corriam”. Depois de perseguir inutilmente
os usuais suspeitos, a polícia localizou os criminosos por um par de óculos deixa­
dos na cena do crime e a impressão característica da máquina de escrever usada
para redigir o pedido de resgate. Revelou-se que as pessoas que tinham cometido
esse crime horrível e sem precedentes eram dois estudantes universitários, ambos
adolescentes com menos de vinte anos chamados Nathan Leopold e Richard
Loeb.
O choque não poderia ter sido maior. Leopold e Loeb não eram criaturas
desfiguradas de bairros miseráveis como Jesse Pomeroy. Eram representantes
bonitos e ricos da classe juvenil de elite, saídos diretamente dos livros de Scott
Fitzgerald com suas roupas elegantes e cabelos lisos penteados para trás no estilo
sheik. Eles pareciam ter tudo que uma pessoa jovem numa sociedade dominada
pelos jovens poderia querer: carros, garotas, diversão e até as emoções que uma
cidade sem lei oferecia. Mas, tendo se achado acima da lei e superiores aos seus
companheiros, haviam cruzado os limites para o assassinato num instante.
A polícia descobriu logo que a dupla vinha havia muito planejando o crime
perfeito: depois de pesquisar locais para dispor do corpo e receber o resgate, eles
começaram a procurar uma vítima no subúrbio de alto nível de Kenwood. Bobby
Franks estava no lugar errado, na hora errada, no dia 21 de maio: conhecido de
Leopoldo, ele entrou no Willys-Knight alugado da dupla e recebeu logo um soco
quando começou a gritar. Como não parava, os dois forçosamente o estrangu­

234 | 1919-1929
laram. Depois de dirigir sem rumo até escurecer, eles derramaram ácido clorídri­
co no rosto do rapaz morto e o jogaram num bueiro.
No primeiro momento de choque com a descoberta, Leopold e Loeb foram
apresentados como monstros: “pessoas normais” não cometeriam “um ato tão
revoltante”. O caso provocou enorme interesse na imprensa e no público pelas
razões citadas pelo Chicago Sunday Tribune: “o espírito diabólico evidenciado no
seqüestro e assassinato planejados; a riqueza e importância das famílias envolvi­
das; os altos níveis mentais dos jovens; as sugestões de perversão; as estranhas
sutilezas indicadas na confissão de que o menino tinha sido morto por um res­
gate, pela experiência e para satisfazer o desejo de realizar uma trama secreta.”
Leopold e Loeb tinham cometido um novo tipo de crime: abstrato, quase
intelectual e, acima de tudo, aleatório. Eles representavam um enigma, um que­
bra-cabeça que virou uma obsessão nacional. A incessante cobertura pela imprensa
iniciou um debate nacional sobre o relacionamento da América com seus jovens.
A dupla tornou-se o símbolo da “má orientação” de uma geração. Como o juiz
Bem Lindsey, especialista em delinqüência juvenil, escreveu no início de junho
de 1924, “é um novo tipo de crime com um novo tipo de causa. Essa causa en­
contra-se na moderna mentalidade e na moderna liberdade da juventude”.
Como as personificações do lado sombrio da juventude, Leopold e Loeb fo­
ram estudados e documentados num grau nunca visto antes. Toda essa atenção
os deixou mais arrogantes, transformando-os numa versão niilista dos astros de
cinema: “imaculadamente vestidos —a classe da moda e a graça da forma”, como
uma colunista observou. “Dickey anda de um lado para o outro com toda a graça
e porte de um Valentino passeando pela tela.” Enquanto as colunistas sentimentais
humanizavam os “réus sheiks\ multidões aglomeravam-se ao redor das residências
das famílias Leopold, Loeb e Frank, nos subúrbios de classe alta de Kenwood.
O julgamento foi um grande evento midiático, como uma estreia de Holly­
wood, ou mesmo, como um jornal sugeriu, uma competição de gladiadores ro­
manos. A natureza “pão e circo” dos procedimentos foi conveniente para o advo­
gado de Leopold e Loeb, o legendário Clarence Darrow, contratado pelas famílias
da dupla para salvá-los da execução judicial. Afinal de contas, não havia dúvidas
de que eles eram culpados - mesmo que nenhum dos dois tivesse confessado o
crime. Darrow insistiu em basear sua defesa na atenuação da sentença, evitando
assim um julgamento pelo júri.
Focalizando a questão de distúrbio mental, ele também evitou as rígidas
definições legais de insanidade, que seus clientes, ocupados informando a im­
prensa sobre a cor e textura exatas de suas roupas, obviamente não preenchiam.
O distúrbio mental não tinha uma definição legal clara e, portanto, oferecia a
chance de atenuação para prisão perpétua em vez de morte. Darrow usou três
dos mais eminentes psicólogos do país como testemunhas astros. O resultado

SHEIKS E SHEBAS | 235


foi uma discussão de teorias psicológicas dentro do sistema jurídico americano e
da mídia de massa como não ocorria desde o julgamento de Jesse Pomeroy.
Muita coisa havia mudado nos cinqüenta anos de intervalo entre um e ou­
tro caso. Ao contrário dos tradicionalistas contratados para a acusação, as teste­
munhas de Darrow, os doutores William White, William Healy e Bernard Glueck
conheciam muito bem e defendiam as teorias do inconsciente de Freud. Ao
mesmo tempo, a equipe de defesa contratou dois médicos, Harold S. Hulbert e
Karl M. Bowman, para examinar a dupla, o que fizeram em 14 dias, compilando
um relatório com 80 mil palavras que investigou detalhes de família, inteligência
e o estado físico-emocional deles. Isto proporcionou todo um novo parque de
diversões para uma imprensa ávida de assunto.
Os jornais encheram suas páginas com psicologia popular, astrologia e ilustra­
ções frenológicas no estilo Lombroso das características criminosas da dupla. Loeb
era dominado por um “grande amor por sexo”, enquanto Leopold tinha um “ins­
tinto destrutivo” e uma “personalidade dinâmica”. William Randolph Hearst até
ofereceu a Freud um navio especialmente fretado se ele quisesse ir aos Estados Uni­
dos e escrever sobre o julgamento, enquanto que o rival Tribune dava a Freud 25
mil dólares por um estudo psicanalídco da dupla. Já doente, e sem disposição para
viajar para um país de que não gostava, o fundador da psicanálise recusou.
Entretanto, os psicólogos contratados pela defesa revelaram o que havia sob
a fachada delicada da dupla. Ambos tinham uma rixa com suas famílias e seus
pares. Foram criados à distância pelos pais - ambos tinham governantas - e seus
QIs estavam acima de 160. Loeb havia completado o ensino fundamental aos
17 anos, Leopold aos 18. Dividindo um quarto na Universidade de Chicago, eles
eram um par estranho: Loeb encantador e popular, Leopold intelectualmente
arrogante, um convicto nietzschiano. Os colegas gostavam muito de Loeb, mas
a maioria achava Leopold desconcertante e esquisito.
A dupla havia se conhecido em 1920. Jogados num mundo de pares onde
quase todos eram mais velhos, expostos às tentações da liberdade, começaram a
se divertir roubando carros, o que rapidamente progrediu para incêndios preme­
ditados e assaltos. Loeb, em particular, buscava em vão a cobertura da imprensa
para estes crimes. Depois de um roubo malsucedido, eles se desentenderam, mas
concordaram em refazer a amizade sob determinadas restrições: Loeb precisava
de Leopold como assistente nas suas atividades criminosas, enquanto Leopold
podia contar com Loeb para o “companheirismo”. Ambos consideraram o suicídio
antes de se decidirem por assassinato.
Este curioso contrato mascarava um relacionamento sexual e emocional
complicado, quase sadomasoquista. Como dr. White testemunhou, a vida inte­
rior de Loeb incluía fantasias de ser preso: “Ele via gente que o espiava do outro
lado das grades e comentava que ele era um grande criminoso, examinando-o com

236 | 1919-1929
curiosidade. Estas pessoas eram com frequência moças.” Foi exatamente isso que
aconteceu. A dupla foi cercada por mulheres jovens no tribunal, como Maureen
McKernan notou: “O horror do crime parecia não ter efeito sobre os sentimen­
tos de estouvadas pequenas melindrosas, que imploravam para entrar.”
Havia um clima de frenesi no julgamento, já marcado pelo extremo calor e
os meses de constante cobertura dos jornais: nos meados de agosto, os dois “ti­
nham começado a emergir quase como heróis folclóricos”. Como celebridades,
eles posavam para uma série de fotografias, com a polícia, com Clarence Darrow,
onde sua elegante modernidade cintilava destacando-se dos rostos desfigurados
dos adultos. Eles se tornaram astros: “A atitude dos garotos durante todo o jul­
gamento intrigou todos que os observavam. Todos os dias os jornais publicavam
fotos deles sorrindo no tribunal. Quando a multidão ria, eles riam.”
Dentro do clima de carnaval, Clarence Darrow começou seu discurso de
encerramento: três dias de uma aula de mestre sobre filosofia nietzschiana, o efei­
to brutálizante da Primeira Guerra Mundial sobre as jovens mentes e a natureza
da própria adolescência. Darrow argumentou que “estes dois garotos estavam
no período mais difícil da vida de uma criança”. Ele definiu esta como “a idade
dos 15 aos vinte ou 21 anos” quando “a criança tem o peso da adolescência, da
puberdade e do sexo jogado em cima dela. As meninas são mantidas em casa e
vigiadas atentamente. Os meninos sem instrução são deixados para vencer este
período sozinhos”.
Darrow concluiu que “não há um ato em toda esta horrível tragédia que não
seja o ato de uma criança”. Mas nem Leopold nem Loeb eram crianças. A infân­
cia deles pode muito bem ter demorado a passar, mas se dois marcos da adoles­
cência são as expressões de sexualidade e de independência dos pais, eles tinham
alcançado ambos. Darrow, sem querer, realçou a lacuna no tratamento que a
América dava aos seus jovens: a ainda popular elisão entre infância e idade adulta.
No início da década de 1920, as definições de idade ainda não estavam padroni­
zadas: meninos podiam ser homens, e adolescentes, crianças.
A eloqüência do famoso advogado venceu. O juiz Caverly recapitulou esco­
lhendo a prisão perpétua em vez de morte: “O tribunal comoveu-se principalmen­
te pela consideração da idade dos réus, meninos de 18 e 19 anos.” Ele decidiu
que estava dentro da “competência do tribunal recusar-se a impor a sentença de
morte a pessoas que ainda não haviam atingido a maioridade”. A dupla foi rapi­
damente embarcada para a prisão Joliet, onde não havia repórteres do sexo femini­
no para comentar sobre seus chapéus de feltro coloridos. Um longo silêncio
seguiu-se ao olhar da publicidade.
O caso Leopold/Loeb tirou o viço da cultura juvenil dos anos 1920. Apesar,
ou talvez exatamente devido ao seu QI, a dupla não se encaixara na cultura uni­

SHEIKS E SHEBAS | 237


versitária que era o ideal da juventude americana. O assassinato aleatório que
cometeram foi alimentado pelo desejo de vingança contra uma sociedade da qual
sentiam-se totalmente desassociados. Esta não era a ira convulsiva de Jesse Pome­
roy, mas uma fria e gelada alienação. Para Leopold e Loeb, os outros não eram
de carne e osso, mas cifras. Nesse sentido, eles absorveram bem demais o impulso
industrial desumanizador que estava por trás da sociedade de massa da década
de 1920.

238 | 1919-1929
CAPÍTULO 16

O complexo de Cinderela
Os problemas da cultura de massa americana
* * *

Menino: “Ospais não sabem nada sobre


seus filhos e o que eles estão fazendo. ”
Menina: “Eles não querem saber. ”
Menino: “Não vamos deixar que saibam. ”
Menina: “O nosso é um mundo veloz, e eles são velhos. ”
- Robert S. Lynd e H elen M errell Lynd,
Middletowri: A Study in American Culture (1 9 2 9 )

RODOLFO VALENTINO C O M O SEU CONTATO ESPIRITUAL,


PENA PRETA, M EADO S DA DÉCADA DE 1920
N O S MEADO S DOS A N O S 1920, estava ficando claro para muitos escritores, aca­
dêmicos e pensadores na Europa e na América que a revolução profetizada por
A turba tinha começado. Por definição, a massa não era sensível à racionalidade,
mas, graças à sua contagiante suscetibilidade, ela personificava os próprios ins­
tintos que a civilização procurava domar. Le Bon havia alertado que a multidão
pensa apenas “em imagens”: ela necessitava de “um deus antes de tudo”. Uma vez
congregada num estado de fervor quase religioso, a massa estava pronta para de­
sencadear seu pleno poder destrutivo.
Os futurólogos começaram a imaginar como a sociedade poderia controlar
estas erupções. Escrevendo na década de 1890, Le Bon deixara escapar um elemen­
to essencial da nova era. As máquinas é que tinham tornado possíveis a matança
da Grande Guerra e a produção em massa de itens de consumo, e o relacionamen­
to do homem com a máquina era o tema da fantasia científica dos anos 1920.
O homem tinha de ser uma máquina para se encaixar na sociedade de massa,
mas ele também era vulnerável aos efeitos brutalizantes deste novo e inflexível
ideal, assim como da sua capacidade de ocasionais enguiços.
Estreando na Grã-Bretanha durante o ano de 1923, a peça de Karel Capek,
R. U.R., introduziu a palavra “robô” com sua trama sobre seres operários produ­
zidos em fábricas transformando-se em senhores humanos. A coerção distópica
de sociedade por meio de uma mescla de controle de instintos e domínio tecno­
lógico foi plenamente explorada pelo romance de Evgueny Zamiatin, de 1924,
Nós. Com cenários saídos de uma colagem dadaísta, o elegante filme, de 1926,
de Fritz Lang, Metrópolisyatualizou A máquina do tempo numa luta de poder ca­
taclísmica entre operários do tipo Morlok e uma elite tipo Eloi, fomentada por
um monstruoso robô metálico, um Frankenstein do sexo feminino.
O homem-máquina também chegou aos métodos de trabalho cada vez mais
desumanizados adotados tanto pelas indústrias capitalista e fascista quanto comu­
nista. Em meados dos anos 1920, o sistema de produção em massa de Henry Ford
afirmou-se como o salvador em potencial da própria América. Edward A. Filene,
o pioneiro das lojas em cadeia e ideólogo dos negócios, pediu “a aplicação do
princípio de massa à indústria americana”. Ele proclamou que o consumo de
massa, corolário da produção de massa, elevaria os padrões de vida de todos os
americanos.
Entretanto, a fusão americana de comércio e profundas necessidades emo­
cionais teve sua violenta contracorrente. O caso Leopold Loeb e a conquista de
Cicero por Al Capone revelaram que aquilo que Freud definira em 1923 como
“Id” - inspirado no “das es” de Nietzsche - não estava sujeito a controles racionais.
Ao estimular desejos e temores primitivos fundamentais, as empresas americanas
estavam enchendo de munição uma arma que já estava carregada. Freud susten­
tava que o Id podia ser dividido em dois elementos: Eros e Tanatos. O primeiro

240 | 1919-1929
era o instinto de vida, o segundo, o instinto sádico de morte: “A vida em si seria
um conflito e um compromisso entre estes dois mundos.”
Todas as distopias ficcionais dos anos 1920 retratavam sociedades ideais
destruídas pelo profundo instinto de morte, muitas vezes invocado pela juventude.
A sociedade de consumo estava criando seus próprios monstros, e aqui entrava
a “psicologia de massa” promovida por Edward Bernays. A Lei Seca oferecia um
modelo rude e autoritário de controle social e, como Bernays notou, ela era mo­
ralista demais para ser realmente eficaz no século XX. Enquanto a Lei Seca só
induzia a “um desrespeito à lei”, ele buscava controlar a “mente de massa” por
meio de técnicas psicológicas e sugestivas que estavam mais sintonizadas com a
nova era da máquina.
Como Filene, que comparou a “revolução social inclusiva” da América com
a “experiência russa”, Bernays tinha consciência de que havia mais de um modelo
para a sociedade de massa. Ele tentou definir uma alternativa para o totalitarismo
explorado pelos fiiturólogos. No seu manual de 1928, Propaganda, ele propunha
uma nova superclasse, um “governo invisível” que organizaria “a manipulação
consciente e inteligente dos hábitos organizados e das opiniões das massas”. Ele
não estava defendendo o controle social pela força, mas por uma indústria de
percepção que moldaria o consumidor ideal.
Se o ideal de Bernays era o “conselho de relações públicas” que ficava nos
bastidores orquestrando a percepção das massas, o lugar da juventude na cons­
trução desta Cidade de Esmeralda em particular era central. Como a primeira
geração de “seres humanos” na era da máquina produzida em massa, eles eram
“radicais no mercado”, principais alvos da publicidade e as primeiras andorinhas
no que seria certamente um radiante verão do consumo. Sua importância, além
do mais, não se limitava apenas aos que estavam ingressando nas universidades
e estudantes de escolas secundárias.
Oferecendo mão de obra barata e dócil, os descendentes das classes operárias
poderiam entrar no novo mercado jovem. Com “rapidez e resistência” como bô­
nus, a juventude estava teoricamente adequada às acelerantes exigências da pro­
dução em massa. Os Lynd notaram que “um garoto de 19 anos pode, depois de
umas poucas semanas de experiência numa máquina, produzir muito mais do
que o seu pai de 45”. Entretanto, apesar dos seus ambientes de trabalho, diversões
e educação cada vez mais padronizados, uma parte dos jovens americanos recu­
sava o convite de renunciar à sua individualidade.
Dependente como era da manipulação do Mágico, o novo sistema de con­
trole de massa provocou profundas questões a respeito da sociedade americana.
Implicitamente, a Constituição havia prometido igualdade a todos: na nova de­
finição deste contrato, a inclusão social viria através do consumismo de massa
imaginado pelos governantes invisíveis. Segundo Edward Filene, a nova era da

0 COMPLEXO DE CINDERELA | 241


máquina não estava “padronizando a vida humana”, mas “libertando as massas
da luta pela existência humana”. Esta promessa seria levada a sério e teria impre­
visíveis efeitos.

* * *

Nem todos seriam admitidos na Cidade de Esmeralda. Sua atração dependia,


em parte, de sua exclusividade. Enquanto os universitários e os estudantes da es­
cola secundária eram privilegiados pela cultura comercial da juventude dos anos
1920, os adolescentes das áreas mais pobres permaneciam ignorados. Eles não viam
razão, entretanto, para não participar da sociedade de consumo. Com o desejo
instilado, mas sem recursos, buscavam a inclusão por meios justos ou injustos.
O cinema, como um delinqüente condenado contou à acadêmica Alice Miller,
“faz você querer coisas, e você pega”.
A Lei Seca deu recursos a muitos deles. Numa sociedade que incentivava o
consumismo, o fato de o álcool não poder ser consumido legalmente abriu uma
brecha filosófica bem no meio da Nineteenth Amendment. A ilegalidade do
álcool não impedia as pessoas de beberem; ele só adquiria um valor de escassez
ainda maior. Uma indústria criminosa bilionária cresceu em torno deste forne­
cimento, uma indústria que, apesar dos seus efeitos deformadores sobre a vida
social, política e moral do país, era tacitamente tolerada pela maioria dos cidadãos
americanos.
O centro desta indústria foi o laboratório urbano da América, Chicago, “a
cidade mais corrupta e ilegal do mundo”. A dimensão de sua ilegalidade foi de­
monstrada pelo sucesso de Al Capone ao tomar o poder em Cicero, que rapida­
mente se encheu de “gângsteres arrogantes, barulhentos e fanfarrões, ficando
apinhada de bares e casas de jogos”. Era como estar de volta ao Oeste Selvagem.
Capone tornou-se o gângster mais famoso da América e sua ostentação de astro
de cinema fez dele um objeto de emulação: o moderno herói fora da lei.
Um observador contemporâneo notou que o típico criminoso da década de
1920 “era um garoto que tinha copiado o modelo do gângster de sucesso, o mo­
delo que o rodeava. Ele não estava em descompasso. Era o cara comum. Ele tinha
visto o que era avaliado como sucesso na sociedade para a qual fora empurrado
- o Cadillac, muito dinheiro no banco e o apartamento elegante. Como ele po­
deria alcançar este tipo reconhecível de status? Ele era quase sempre um garoto
de destacada iniciativa, imaginação e habilidade: ele era o tipo de garoto que, em
outras condições, teria sido um capitão da indústria ou uma figura política chave
do seu tempo”.
O Volstead Act era desrespeitado com tanta persistência que criou o seu pró­
prio mundo paralelo: uma imagem espelhada dos valores americanos. O jovem

242 | 1919-1929
criminoso da década de 1920 “não teve oportunidade de ir para Yale e se tornar
banqueiro ou corretor: não havia passagem para ele para um diploma de advogado
em Harvard. Havia, entretanto, um caminho relativamente fácil para adquirir
esses bens que lhe diziam incessantemente estar disponíveis para ele como ci­
dadão americano e que, sem os quais, ele não poderia se considerar um cidadão
americano. Ele podia ser um gângster”.
Para muitos dos jovens da segunda geração, o contrabando que prosperava
em suas comunidades pobres representava uma estrutura de carreira válida. Como
capitalistas especuladores, a profissão que escolhiam era de alto risco; como todos
os produtores, estavam apenas suprindo o público com uma mercadoria que ele
queria comprar. Ao contrário dos grupos de jovens dissidentes europeus, sua re­
beldia não rejeitava a moderna sociedade de massa tecnológica, mas, tendo assimi­
lado seus valores, simplesmente os invertia. Pois a selvagem violência dos seus mé­
todos de negócios expunha as forças brutais subjacentes à economia do laissez-faire
na América.
O poder estava certo, e o resultado foi desastroso. Muito diferente do seu
incentivo ao crime organizado, a Lei Seca havia servido para tornar a reforma
muito impopular, e os previdentes planejadores sociais da década de 1890 foram
deixados secando num duro ambiente desconexo. Ainda trabalhando na Hull
House, em Chicago, nos meados da década de 1920, Jane Addams observou como
o seu bairro pobre havia se deteriorado num desordenado conjunto de prédios
que abrigava bêbados, famílias em desintegração, adolescentes imitadores de gângs-
teres, policiais corruptos e contrabandistas armados.
O escritor de Chicago James T. Farrell mapeou essa devastação na sua trilogia
Studs Lonigan, que ele “concebeu como a história da educação de um menino
americano normal neste período. As instituições importantes na educação de Studs
Lonigan eram a casa e a família, a Igreja, a escola e o playground. Estas instituições
ruíram e não serviam à sua função desejada. As ruas passaram a ser um forte
fator educativo na vida do menino”. A violência e a dissipação tinham se tornado
uma parte rotineira da vida cotidiana, uma inversão profundamente irônica do
modelo de abstenção e moralidade pretendido pela Lei Seca.

* * *

Com a juventude tornando-se o para-raios para problemas mais amplos da Amé­


rica dos anos 1920, novos métodos de medição eram necessários. Em maio de
1924, G. Stanley Hall escreveu um ensaio chamado “Podem as massas governar
o mundo?” no qual ele reafirmava sua visão mística. Ele sentia que uma causa
para se ter esperança na sociedade de massa era um movimento jovem quase mun­
dial que “estava lutando por uma nova religião, nova luz, novo homem, nova

0 COMPLEXO DE CINDERELA | 243


era, novo Estado, novas relações econômicas e paz”. No mês seguinte ele morreu,
aos 81 anos: seus muitos obituários prestaram testemunho da sua paixão pela
“juventude, liberdade e novo conhecimento”.
Entretanto, a visão romântica de juventude de Hall tinha se tornado algo
insustentável. Graças a seu trabalho pioneiro, a adolescência se tornara uma
imensa indústria comercial, assim como uma classe distinta dentro das sociedades
ocidentais. Com o volume de novos dados sobre a juventude, entretanto, não
era mais possível chegar a conclusões sobre gerações. Quando Hall começou seu
trabalho, era um pioneiro solitário, mas nos trinta anos intermediários a sua
metodologia seria superada por novas abordagens acadêmicas que refletiam a
realidade adolescente muitíssimo diversa que havia ajudado a revelar.
A mais influente teve origem na fiiturópolis americana. Inaugurado em
1921, o Departamento de Sociologia da Universidade de Chicago desenvolveu
um empirismo radical. Sua primeira grande publicação, On Hobos and Home-
lessnessy de Nels Anderson, acrescentou uma “observação participante” ao envol­
vimento pessoal com o rigor acadêmico. Sendo ele mesmo um ex-vagabundo,
Anderson sustentava que os vagabundos eram os últimos remanescentes do espí­
rito pioneiro original: “Quem nunca sentiu aquela necessidade de se livrar de
todas as responsabilidades e partir para lugares desconhecidos? Nenhum adulto
pode sentir isso melhor do que o garoto de sangue quente comum.”
O próximo livro do departamento mergulhou ainda mais fundo na vida do
adolescente das cidades. Publicado em 1926, The Gang, de Frederic M. Thrasher,
analisou centenas de jovens com idades entre 11 e 25 anos. Ele concluiu que o
ambiente estava associado ao comportamento, visto que a grande maioria das
gangues urbanas cresciam “numa ampla zona crepuscular de estradas de ferro e
fábricas, de vizinhanças em deterioração e populações em deslocamento”. Esta
zona era o sintoma de um problema maior: “As cidades industriais americanas
não tiveram tempo para se estabelecerem e se autocontrolarem; elas são joviais e
estão vivenciando as lutas e instabilidades da juventude.”
Estes espaços vazios eram explorados por adolescentes urbanos: “Os meninos
da terra das gangues gozam de uma inusitada liberdade das restrições impostas
pelas agências controladoras normais nas melhores áreas residenciais da cidade.”
Eles viviam uma outra versão do mito pioneiro: “Sob alguns aspectos, estas re­
giões de conflito são como uma fronteira; sob outros, como uma “terra de nin­
guém”, sem lei, sem deus, selvagem.” Thrasher citou o romantismo como um
fàtor importante na vida de gangue: “As fantasias dos adolescentes lançam sobre
o mundo - frequentemente vulgar e feio para o adulto - a luz rósea da novidade
e do romance.”
A natureza básica da gangue havia mudado pouco desde a época de Riis. A
maioria se congregava ao longo de linhas étnicas e de vizinhanças. Entretanto,

244 1919-1929
elas haviam crescido em tamanho, número, organização, sofisticação e agressão.
Isto era encenado em violência e predação sexual, em mortes e orgias realizadas
por gangues como os Knight Riders. Uma das causas era a nova mídia. Um en­
trevistado contou a Thrasher que “ele costumava passar horas no cinema para
ver como os assaltos eram ‘realizados’, e julgando-se pelo tipo de romance policial
ou ‘de sexo’, que compõe o grosso do entretenimento, há outras atrações também”.
O que havia tornado as gangues tão viciosas? Thrasher identificou vários
fatores. O estímulo de impulsos fundamentais pela mídia de massa serviu para
arrancar a moral de todos os limites conhecidos. Conforme ele observou, “padrões
sociais desmoralizantes vindos de todos os lados apresentam-se diante do garoto
de gangue; eles estão nas ruas e vielas; eles vêm de gangues mais velhas e clubes
e do submundo”. Isto tinha uma força extra porque havia “padrões conflitantes
com referência a sexo, proibição de bebidas alcoólicas, jogo e outros mais. Isto
torna mais difícil para o garoto uma definição conclusiva da situação”.
Entretanto, a verdadeira razão estava na soleira da porta: “Bebidas alcoólicas
ilícitas, jogo e vício têm dado as maiores oportunidades para o tipo de gangue
organizada em Chicago.” Os lucros em potencial, a idolatria de gângsteres e, na
verdade, a prática de crimes graves “com base na eficiência nos negócios” tornou
ainda mais provável a transição de gangues locais para a organização criminosa
de âmbito nacional. Thrasher terminou seu levantamento com uma série de re­
comendações concretas que incluíam o trabalho social mais ativo e a monitoração
da estrutura familiar. Ele conservava sua confiança de reformador de que a socie­
dade americana podia ser melhor.
O impulso reformador não havia morrido com a Lei Seca, apenas mudado
de natureza. Em vez de agressiva moralização, ele ressuscitou a concentração em
questões sociais que havia marcado progressistas pioneiros como Jane Addams.
Acreditando que o ambiente influenciava o comportamento, a nova geração de
reformadores defendia uma abordagem mais sinóptica. No seu influente livro
sobre o tratamento de delinqüentes e criminosos, Delinquents and Criminais, os
criminologistas William Healy e Augusta E Bronner, assim como Thrasher, re­
comendavam que cada jovem infrator devesse passar por um estudo ambiental e
psicológico completo.
Esta renovada concentração na formação levou diretamente a uma crítica
mais ampla da sociedade americana. The Gang coincidiu com a obra de outro
grande reformista, You Cant Win, de Jack Black, o sensacional relato de um
criminoso reabilitado por um tratamento sensível. Black tinha começado sua
carreira ainda adolescente na década de 1890, e o atrativo do livro era sua exposi­
ção de um mundo antes oculto de “arrombadores de cofre”, “viciados” e “falsários”.
Com o sucesso da publicação, Black excursionou pelos Estados Unidos dando

O COMPLEXO DE CINDERELA 245


palestras sobre reforma penal ou, como ele dizia, ‘ propaganda contra o excesso
de leis e punições”.
Com seu histórico mapa das subclasses de criminosos juvenis, You Carít
Win também ajudou a esclarecer os problemas cada vez mais incômodos do pre­
sente. Durante o ano de 1926, aconteceram 66 assassinatos por gangues apenas
em Chicago, conforme os “ditadores dos bairros miseráveis” lutavam pela supre­
macia. Ainda mais nociva era a composição das bebidas contrabandeadas: em
1926, 750 pessoas morreram dos seus efeitos em Nova York. Uma análise feita
em 1927 mostrou que 98% das bebidas alcoólicas testadas continham compos­
tos como metanol, que causa cegueira e paralisia. Muitos dos seus consumidores
morreram jovens do que James T. Farrell chamou de “veneno de rato”.
Mentes investigadoras começaram a se perguntar se os problemas dos jovens
com a vida em gangues, a falta de um teto para morar e a delinqüência não se­
riam sintomas da natureza místico-mecânica da própria vida americana. Como
Robert Herrick escreveu em sua introdução a You Carít Win, “A vida moderna
oferece aos jovens suficiente estímulo mental? O carro a motor, o cinema, a be­
bida contrabandeada e o sexo —estes são os grosseiros estímulos com os quais a
juventude tenta infundir alguma cor e movimento à tirânica monotonia de uma
vida industrial padronizada”. O próprio Jack Black não tinha dúvidas: “A socie­
dade era uma máquina acionada para me triturar.”

* * *

Durante a década de 1920, os adolescentes se tornaram “os consumidores de


amanhã”: cobaias da sociedade de consumo. Entretanto, esta experiência social
não estava comprovadamente se saindo conforme o planejado. Segundo a antro­
póloga Margaret Mead, a delinqüência juvenil era apenas um sintoma de uma
doença americana maior. “Se os adolescentes só se veem imersos em dificuldades
e tristezas devido às condições do seu ambiente social”, ela escreveu, “então, por
favor, deixem-nos modificar esse ambiente de forma a reduzir este estresse e eli­
minar esta tensão e angústia de adaptação.”
O primeiro livro de Mead, Corning ofAge in Samoa>foi uma sensação quando
lançado em 1928, mas o furor público provocado por suas descrições da vida
sexual livre de culpas do povo de Samoa distraiu as atenções da sua devastadora
crítica à “Civilização Ocidental”. Seguindo o seu mentor Franz Boas, Mead
criticava “a grande massa de teorizações sobre a adolescência”. Rejeitando aberta­
mente a caracterização de Stanley Hall desta idade como sendo “o período durante
o qual as dificuldades e os conflitos são totalmente inevitáveis”, ela se perguntava:
“Estas dificuldades originavam-se do fato de ser adolescente ou de ser adolescente
na América?”

246 | 1919-1929
A sua resposta foi “ir a uma civilização diferente e fazer um estudo de seres
humanos sob condições culturais diferentes em alguma outra parte do mundo”.
Viajando para Samoa a fim de pesquisar adolescentes do sexo feminino da ilha,
Mead descobriu uma sociedade em que as crianças tinham “total conhecimento
do corpo e das suas funções”. A atividade sexual dos adolescentes não era reprimi­
da, mas encorajada. Além disso, uma atitude mais comunitária com relação aos
cuidados com os filhos parecia “proteger a criança de atitudes deformadoras que
têm sido chamadas de Complexos de Édipo, Complexos de Electra e outros mais”.
As conclusões de Mead chegaram ao auge numa coruscante polêmica: confor­
me ela escreveu mais tarde, o seu livro falava tanto dos “Estados Unidos de 1926­
1928” quanto de Samoa. Reconhecendo que a “puberdade psicológica será ne­
cessariamente cheia de conflitos”, ela não obstante achava que o estilo de vida
americano era o culpado pelas neuroses de seus adolescentes. “Uma sociedade que
está clamando por opções”, ela escreveu, “que está cheia de tantos grupos articula­
dos, cada um insistindo com o seu próprio modo de salvação, a sua própria va­
riedade de filosofia econômica, não dará paz a cada nova geração até que todas
tenham fracassado, incapazes de suportar as condições de escolha.”
Mead pensava que a maior fonte de todas as tristezas juvenis era a “natureza
essencialmente pecuniária” da sociedade americana, com sua “florescência de uma
doutrina de atalhos para a fama”. A mídia piorava a situação ainda mais: “O ci­
nema, as revistas, os jornais, tudo reitera a história da Cinderela de um modo
ou de outro.” Filmes como It propagavam a ideia de que qualquer um, até uma
“balconista de loja”, podia se tornar a “principal compradora” da loja e se casar
com o patrão. Explorando o que Mead chamou de “nossa teoria americana de
infinitas possibilidades”, o complexo de Cinderela criado por estas visões produ­
zidas em massa criava uma confusão de desejos conflitantes.

* * *

Enquanto Mead finalizava sua pesquisa sobre Corning ofAge in Samoa, o crime
organizado tomou conta de Manhattan. O detonador foi a morte de Rodolfo
Valentino, logo depois do meio-dia numa segunda-feira, 23 de agosto de 1926.
Sua súbita doença tinha sido um evento da mídia na semana anterior, com fãs
fazendo vigília na porta do hospital. Milhares de pessoas começaram a se reunir
no local onde Valentino estava sendo velado, a Frank E. Campbell Funeral Chapei,
localizada na Broadway com a rua 65, onde o caixão do seu herói fortemente
embalsamado estava envolto em incenso fumegante. De noite, a area estava api­
nhada de gente e a polícia tinha dificuldade para manter a ordem.
No mês de novembro anterior, as fãs tinham cercado Valentino e rasgado suas
roupas, mas as cenas que se seguiram à sua morte eclipsaram tudo que já se vira

0 COMPLEXO DE CINDERELA | 247


antes. Ao meio-dia de 24 de agosto, a multidão já era de 10 mil pessoas e con­
tinuava aumentando. Aos madrugadores predominantemente do sexo feminino
somou-se uma multidão turbulenta de jovens sheiks ‘vestindo boleros e chapéus
de gaúcho” assim como “as calças balão, as polainas, os cabelos gomalinados e as
longas costeletas popularizadas” pelo ator morto. No início da tarde, a multidão,
agora de 20 mil pessoas “psicologicamente cegas”, invadiu os portões da casa
funerária.
Foi o caos. A polícia insistiu para que o prédio fosse aberto. Conforme o
público entrava em fila, muitas moças beijavam o caixão. Entretanto, o ritmo
relativamente lento do acesso não saciava a multidão, que no meio da tarde já era
de 180 mil pessoas: mais perturbações ocorreram quando as portas foram final­
mente fechadas à meia-noite. Isso se repetiu no dia seguinte, quando a polícia
tentou fechar a Funeral Chapei depois de já terem entrado 90 mil: as milhares
de pessoas chorando do lado de fora lutavam para entrar, e a conseqüente bata­
lha campal continuou até de madrugada.
A imprensa ainda bombardeava histórias sensacionalistas e a situação conti­
nuava muito carregada. O ofício fúnebre de Valentino, no dia 30 de agosto, foi
caótico. Quando o corpo do ator foi finalmente removido da casa funerária,
a agitação do público tinha baixado, mas o frenesi acompanhou o caixão, que
viajou de um lado a outro do país. Apesar da forte chuva, pelo menos 50 mil
pessoas se aglomeraram na estação de La Salle, em Chicago, durante uma breve
parada, enquanto em Los Angeles outros milhares aguardavam do lado de fora
do cemitério de Hollywood para participarem do enterro.
Esta não foi uma explosão totalmente espontânea. A morte súbita de Valen­
tino tinha criado um grande problema para seu estúdio. Com dois filmes de Va­
lentino no mercado, A águia e Ofilho do sheik, a United Artists ia perder muitos
milhões de dólares a não ser que o nome do astro pudesse ser mantido vivo.
Mais tarde veio a público que todo o drama daquela multidão em Nova York
fora estimulado por Frank Campbell e o homem encarregado da publicidade da
United Artits, Harry C. Klemfuss, que ficou 24 horas na casa funerária para
garantir que tudo saísse segundo planejado.
A campanha teve um sucesso muito além dos seus mais ousados sonhos.
Em poucos dias, os dois filmes tinham uma bilheteria sem precedentes. No mundo
inteiro, qualquer filme de Valentino ainda nas mãos de distribuidores foi aceito
imediatamente e exibido para salas superlotadas. O extraordinário volume de
cartas enviadas pelo público para o seu estúdio não diminuiria por uma década.
A indústria cinematográfica descobriu pela primeira vez o que os jornais já sabiam:
morte vende. Preservado no auge da sua juventude em celulóide, Rodolfo Valen­
tino não envelheceria nunca.

248 | 1919-1929
Era o romantismo modernizado para a era do consumismo: a crença, já
aplicada aos jovens mortos da Grande Guerra, de que os deuses favoreciam
quem morresse jovem. Embora já tivesse completado trinta anos em 1926, Va-
lentino ainda estava associado à virilidade, à potência e ao fogo da sexualidade
reprimida imitados pelos jovens sheiks e shebas. Sua morte fixou isso para sem­
pre, como a mosca num pedaço de âmbar. Para os chefes do estúdio, era o ideal.
Nunca mais seu astro impediria o fluxo constante dos negócios com seu mau
humor e exigências de controle criativo. Vivo, Valentino era um problema; morto,
ele era o produto industrial perfeito.
Atraindo manchetes gritantes, as rebeliões de agosto de 1926 foram uma
demonstração gráfica para as autoridades americanas do poder maciço da juven­
tude. Em Manhattan, o tumulto de pessoas por causa de um corpo morto tornou
o comportamento delas, no mínimo, ainda mais irracional para os adultos, mas
de fato era uma conseqüência lógica de uma economia de sonho que usava de-
tonadores psicológicos para moldar e controlar a massa. Tendo sido incentivados
a pensar no astro como um deus, os jovens fãs de Valentino estavam realizando
as mais medonhas profecias de Le Bon sobre o poder destrutivo das multidões -
o momento em que Eros se entrelaçava com Tanatos.
Estas cenas de multidões também revelavam que o consumismo era uma
cola social instável. Os entretenimentos de massa como o cinema, com seu apelo
particular para a juventude, talvez tivessem oferecido ideais de inclusão e partici­
pação, mas eles também evocavam esperanças de que, por ser tão tipicamente
consumistas, estivessem fadados à destruição. Muitos reformadores e sociólogos
dos anos 1920 comentaram a respeito do intenso impacto psicológico do cinema
sobre a juventude americana. Edward Bernays chamou o “cinema americano de
o maior veículo de propaganda inconsciente no mundo hoje em dia”.
Entretanto, o complexo de Cinderela funcionava nos dois sentidos. Se a
platéia não poderia nunca esperar ter a vida de Hollywood, muitos dos Deuses-
das-Multidões descobriam que a realidade desse ideal olímpico não estava à
altura das expectativas. Valentino, por exemplo, havia suposto que o estrelato
eliminaria os anos de pobreza e dificuldades. Quando chegou ao topo, entretanto,
encontrou um plateau estéril. Embora, para seus fervorosos fãs, ele fosse uma di­
vindade sobre-humana, para o estúdio ele era um bem móvel; apesar das multi­
dões de mulheres frenéticas, seus dois casamentos não deram certo. Ele era ao
mesmo tempo divindade e ser humano, mestre e escravo, adorado e desprezado.
Essas contradições tinham transbordado em julho de 1926, quando o Chicago
Tribune publicou um maldoso ataque pessoal, com a manchete “Baforadas de
pó rosa”. Ele começava com a horrorizada descrição de ter encontrado “uma má­
quina automática para vender pó de arroz! Num banheiro masculino!”: “Nós
vimos pessoalmente dois ‘homens’... entrarem, inserirem uma moeda, segura­
0 COMPLEXO DE CINDERELA | 249
rem um lenço sob a torneira, puxarem a alavanca, depois pegarem o pozinho
rosa e passarem nos seus rostos diante de um espelho.” Como “o protótipo do
macho americano”, Valentino foi considerado responsável por “esta degeneração
efeminada”. O insulto perseguiu o ator até a morte.
A mesma coisa aconteceu com a principal estrela daquela época. Em 1927,
Clara Bow estrelou um filme que marcou para sempre a figura da melindrosa,
tão arquetípica que Mead citou a trama na sua crítica ao complexo de Cinderela:
a adaptação pela Paramount do best-seller de Elinor Glyn, It. Acreditando-se
nos títulos de estreia do filme, a “força magnética” denotada por It era definida
pela sexualidade elementar que Clara Bow personificava. Ela era, segundo Scott
Fitzgerald, “a realidade”. O público certamente pensava assim: o filme fez dela
uma das principais atrações de Hollywood e um “cintilante exemplo da despreo­
cupação da juventude flamejante”.
Os próprios impulsos que lançaram Clara Bow ao estrelato a tornaram parti­
cularmente vulnerável depois que ela alcançou aquele estado de sonho. Como
Valentino, a moça do It estava fugindo de uma infância terrível: “Nunca tive
roupas”, ela mais tarde lembrou. “E muitas vezes não tinha o que comer. Nós só
vivíamos e isso era tudo. As meninas me evitavam porque eu me vestia muito
mal.” Depois de vencer um concurso de talentos aos 16 anos, ela foi para Holly­
wood e descobriu o sucesso em filmes como The Plastic Age. Clara Bow tinha
apenas 22 anos quando It a transformou numa estrela: seus problemas não es­
tavam resolvidos, mas exacerbados.
Como a personificação da nova sexualidade, direta e sem rodeios, Clara
Bow era o repositório das esperanças e preconceitos da sua platéia. A acadêmica
Alice Miller citou uma variedade de reações juvenis ao seu mais famoso filme.
Um “escoteiro de 14 anos escreve a respeito do filme chamado It: Acredito que
It, com Clara Bow, seja uma ameaça total à comunidade. Filmes deste tipo não
deveriam ser permitidos na comunidade/ Um menino mais velho, de 17 anos,
escrevendo sobre o mesmo filme, diz: ‘Eu gostei de It. Foi uma maravilhosa in­
terpretação de uma fascinante jovem mulher/”
Na primavera de 1928, Clara Bow estava cotadíssima: as cartas de fãs aumen­
taram para mais de 35 mil por mês. Entrevistando-a no auge da fama, a jornalista
e escritora de roteiros para cinema Adela Rogers St. Johns notou que “parece não
haver nenhum padrão, nenhum propósito em sua vida. Ela oscila de uma emoção
para outra, mas não ganha nada, não acumula nada para o futuro. Vive totalmente
no presente, nem mesmo para hoje, mas apenas para o momento”. Falando para
outra revista, ela contou a verdade: “Não me sinto feliz há muitos meses. A pes­
soa que vocês veem na tela não é o meu verdadeiro eu; é o meu eu das telas.”
Clara Bow buscava consolo em gastos extravagantes e sexo: na verdade, ela
vivia o papel de sereia com um entusiasmo um pouco exagerado para a “Kansas
250 | 1919-1929
moral” de Hollywood. Aqui a hipocrisia não era pouca: no caso dos astros mascu­
linos, a promiscuidade era considerada meramente um acréscimo ao seu fascínio.
Não tanto para as mulheres, de quem se exigia mais discrição. Sua grosseira fran­
queza era vista como uma grave ruptura com a etiqueta. Sem o apoio do estúdio,
Clara virou um desastre. Incapaz de se adaptar às novas exigências do som, sua
reputação e psique ficaram em farrapos depois de um escandaloso processo judicial
em 1931. Aos 25 anos, sua carreira chegara ao fim.
Esses dois melodramas muito divulgados representaram os paradoxos do
complexo de Cinderela. Nem todos os astros sucumbiram: Colleen Moore, a
protagonista em Flaming Youth, viveu uma velhice amadurecida e feliz. Porém,
quanto mais alto o zênite, maior a queda. ícones definidores de uma era como
Clara Bow e Valentino podem muito bem ter escapado de antecedentes amaldiçoa­
dos para um reino cintilante, mas a um considerável custo pessoal. A sexualidade
que eles invocavam com tanto sucesso despertava emoções que incluíam hostili­
dade assim como adoração. Como qualquer outro produto industrial, eles estavam
sujeitos à lei da obsolescência planejada.
No entanto, sua presença luminosa ajudava a introduzir novos arquétipos:
no caso deles em particular, uma confusão de gênero que evocava a androginia
associada em muitas sociedades a divindades jovens e atores talismânicos. Eles
transformavam o sistema à sua imagem e, ao fazer isso, davam esperança. Encar­
regado de representar uma platéia de milhões de pessoas, o cinema oferecia um
modelo de progresso social. Esta era uma arena onde os párias podiam, por mais
fantástico que fosse o cenário, ver-se na tela, onde o estrelato individual parecia
representar a ascensão de um grupo antes marginalizado.
***
Uma conseqüência não intencional da cultura de massa foi a de que a massa achou
que deveria participar mais da sociedade. Tendo recebido um grau sem precedentes
de atenção na década de 1920, os adolescentes estavam particularmente inclinados
a esta suposição. Fossem as melindrosas, os gângsteres conquistando segmentos
inteiros de cidades americanas ou os estudantes universitários despertando para
o potencial do seu grupo, os jovens do país começaram a transformar a participa­
ção por meio do consumismo em ideias de emancipação muito diferentes.
Em 1923, uma revista ativista chamada New Student havia se queixado da
natureza apolítica dos universitários americanos: “Nós somos quase que o único
segmento da população com tempo livre e oportunidade para estudar as controver­
tidas questões do dia e agir de acordo. O poder do presente está nas nossas mãos.
Mas nós estudamos as questões industriais, econômicas e internacionais e as ex­
plicamos com simplicidade ao homem na rua, o que deveria ser a função natural
0 COMPLEXO DE CINDERELA | 251
do estudante? Não. E em grande parte porque somos imaturos demais para ver
isto como nosso papel. Nós temos o poder mas não o usamos.”
Depois dos meados da década, os estudantes americanos começaram a fazer
exatamente isso. Seu principal alvo era a Lei Seca, e os editores de revistas uni­
versitárias começaram a se agitar para modificá-la. Numa votação realizada em
1926 na Universidade de Princeton revelou-se que 87% de seus alunos era a
favor da revogação. O Daily Princetonian sustentava que a Lei Seca havia “amea­
çado seriamente as melhores tradições das faculdades. Enquanto antes os alunos
limitavam-se a beber no Nassau Inn, agora as bebidas alcoólicas são levadas para
os quartos e ali guardadas, ou buscadas em restaurantes de beira de estrada. A lei
é muito pouco respeitada”.
Reagindo contra esta hipocrisia dos adultos, os estudantes americanos come­
çaram a ampliar seu âmbito político. Durante o ano de 1925, a National Student
Federation foi formada em Princeton num encontro de 245 faculdades reunidas
para discutirem a Corte Internacional de Justiça que fora instituída pela Liga
das Nações. Como parte desta agenda pacifista, os protestos contra a natureza
compulsória do ROTC - o Reserve Officer s Training Corps, a unidade de treina­
mento de oficiais da reserva - tornaram-se mais estridentes. Enquanto a grande
maioria dos estudantes continuava convencida de que o treinamento militar era
desejável, muitos pensavam que o alistamento na unidade deveria ser voluntário.
Entretanto, suas sensibilidades políticas não iam além das suas próprias ne­
cessidades de mudar uma sociedade mais ampla. Os estudantes universitários,
por exemplo, tendiam a papaguear atitudes normativas com relação à raça. Isto
ocorria a despeito do seu forte gosto pelo hot jazz e das freqüentes visitas aos
bares em que predominavam os negros e eram chamados de “Black and Tans”.
Com a crescente proliferação de grupos de jazz brancos - formados na sincera,
se não fanática, emulação de seus ídolos negros —, não havia muita necessidade
para o aluno universitário comum se preocupar demais com uma das questões
mais espinhosas da América: a segregação.
No fim da década de 1920, o jazz tinha se tornado um grande negócio. Seu
foco mudara de pequenos conjuntos instrumentais para enormes organizações
como a orquestra de trinta instrumentos de Paul Whiteman, que excursionava
pelo país e atraía a histeria dos fãs já concedida a astros do cinema como Valentino.
Numa apresentação em junho de 1929 realizada em uma estação de trem em
Nebraska, a orquestra foi cercada por uma multidão de 5 mil pessoas antes mes­
mo que os músicos desembarcassem. Até o nome de marca fora adequado para
o filme sonoro pioneiro, de 1927, O cantor de jazz, apresentando o definitiva­
mente nada sensual Al Jolson.
Não passou despercebido que o jazz havia se tornado a língua franca da ju­
ventude americana. A popularidade da música oferecia uma base comum entre
252 1919-1929
as raças. Tendo visto a popularidade da música e da dança negra entre os jovens
brancos e sua crescente divulgação pela mídia de massa, um grupo de jovens ar­
tistas e intelectuais negros decidiu investir numa certa emancipação recíproca.
Com o jazz tornando-se um símbolo internacional de modernidade e diante
daquilo que o escritor Alain Locke chamou de “a nova democracia na cultura
americana”, eles achavam que já era hora de finalmente sair da era da escravatura.
O ideal americano de transformação parecia oferecer a autêntica inclusão de
todos os excluídos. A revolucionária antologia de Locke, em 1925, The New
Negro, visava a dar estrutura ao novo “Renascimento Negro”. A coleção era um
mostruário de uma “nova geração” de jovens escritores como Claude McKay,
Langston Hughes e Countee Cullen, que utilizavam o ultramodernismo, o patois
tradicional e uma nova certeza em sua mágica conversão de pária em orgulho
nacional. Se a ideia era promover “um nova estética e filosofia de vida”, então o
cenário central seria o Harlem.
Esse bairro, dois terços da parte norte da ilha de Manhattan, compreendia
um distrito de 25 quarteirões e 175 mil habitantes. Com negócios empreendidos
por negros, locais de entretenimento e uma vida social e política diversa, o Har­
lem oferecia um mundo fechado em si mesmo a ponto de, como Janes Weldon
Johnson observou, personificar “uma experiência de laboratório em larga escala
para o problema racial”. Foi aqui que, como afirmou Locke, a vida dos negros
estava “aproveitando as suas primeiras chances de autoexpressão e autodetermi­
nação em grupo”. A juventude era um elemento básico para este ideal de um
“capital racial”.
Em maio de 1926, Langston Hughes declarou no jornal The Natiom “Nós
- artistas negros mais jovens que criam - pretendemos agora expressar nossos
eus individuais de pele escura sem medo ou vergonha. Se agradar aos brancos,
ficaremos felizes. Se não agradar, não tem importância.” A única edição de Fire>
“Uma publicação trimestral dedicada aos artistas negros mais jovens”, publicada
naquele novembro, exibia escritores que tinham, como Hughes, entre vinte e 25
anos. As contribuições incluíam “Smoke, Lilies and Jade”, uma ode em prosa à
homossexualidade de Richard Bruce Nugent, e o exultante poema de Lewis
Alexander, “Little Cinderella”.
O Harlem não só foi um farol sinalizador para negros de todas as partes da
América, ele também atuou como um ímã para os brancos. O entretenimento
era a atração: o Cotton Club foi inaugurado em 1923 e, três anos depois, surgiu
o Savoy Ballroom, mais voltado para a comunidade. Graças à moda do jazz e da
dança de jazz, o Harlem e a negritude estavam virando moda não apenas entre
os universitários, mas na alta sociedade de Manhattan. Quase tão logo foi anun­
ciado pelos escritores negros, o Renascimento do Harlem foi divulgado para um
0 COMPLEXO DE CINDERELA | 253
círculo mais amplo de leitores por um crítico e criador de tendências branco e de
meia-idade.
Publicado no fim de 1926, Nigger Heaven, de Carl Van Vechten, foi um
clássico livro popularizante que oferecia o mapa turístico de um mundo antes ocul­
to e que tinha autenticidade suficiente para agradar aos que viviam lá dentro.
Apesar do sincero interesse de Van Vechten pela cultura negra, o romance causou
muitas controvérsias quando da sua publicação. Muito diferente da palavra tabu
contida no título, o fato de o homem branco ter lucrado com um movimento
que se supunha celebrar a paridade negra era difícil de suportar. Mesmo que “o
negro e todas as coisas negroides tenham virado moda”, o tráfego de inclusão ne­
gra, pelo visto, ainda era de mão única.
Entretanto, um dos resultados deste succès de scandale foi a publicação, no
fim dos anos 1920, de vários romances escritos por jovens escritores negros que
revelavam a complexidade de suas vidas vista de dentro, um mundo que parodiava
os valores da América branca como através de um espelho. O romance de Wallace
Thurman, The Blacker the Berry, descrevia a vida numa faculdade só para negros,
onde a sua heroína “negra demais”, Emma Lou Brown, é colocada em ostracismo
por seus pares de pele mais clara. Como Home to Haflem, de Claude McKay, ele
também revelava o nível de ódio pessoal e dúvida que muitas vezes resultava em
dissipação e autodestruição.
Apesar da ilusão da harmonia racial, a realidade do Renascimento do Harlem
foi de apenas uma segregação atenuada. Langston Hughes comentou com morda-
cidade que o famoso Cotton Club “era um bar Jim Crow para gângsteres e bran­
cos cheios do dinheiro”: enquanto “aos estranhos eram dadas as melhores mesas
de pista para ficarem sentados olhando os clientes negros - como animais diverti­
dos, num zoológico” —,isso não funcionava no sentido inverso. “Os negros diziam:
‘Não podemos ir ao centro da cidade e ficar olhando para vocês nos bares. Vocês
nem nos aceitam em seus bares/”
O Renascimento do Harlem mostrou os limites do complexo de Cinderela.
As imagens pluralistas da mídia de massa ofereciam a esperança de inclusão, mas
os alvos dessa atenção tinham pouco controle sobre o modo como eram retratados.
Em troca desse acesso enviesado à estrutura de poder, eles também estavam su­
jeitos à distorção e exploração. Muitos relatos de pessoas de dentro desse círculo
sobre o Renascimento do Harlem estavam salpicados com a amargura daqueles
que testemunharam um prolongado processo de emancipação transformado em
novidade - só mais uma mania a ser explorada e depois descartada quando a
maré virasse.
***

254 | 1919-1929
Para aqueles que se importaram em estudar os termos, isto sempre fizera parte
do acordo. Durante a década de 1920, as imagens de juventude promovidas pela
mídia americana eram o pregáo dos vendedores itinerantes de remédios patentea­
dos para a sociedade consumista. Eles as faziam parecer novas, atraentes e sensuais,
mas, no que dizia respeito ao seu verdadeiro poder, eram um placebo: tinham pou­
co ou nenhum impacto direto sobre as estruturas legais e sociais da América. En­
tretanto, a liberdade que elas continham como uma parte necessária de seu apelo
ajudava a dar início a novas percepções e novas ideias que gerariam frutos nas
próximas décadas.
O aumento da independência da juventude na década de 1920 não foi uma
total ilusão. Num país que prescrevia a agitação radical, ela se expressava em ter­
mos de atitudes e não de políticas. Enquanto a geração universitária e os jovens
gângsteres desafiavam a Lei Seca, seus correspondentes mais jovens começavam
a afirmar independência em relação a seus pais. Robert S. Lynd e Helen Merrell
Lynd ofereceram uma ilustração de como esta rebeldia respingou para uma cidade
americana do Meio-Oeste onde, segundo um pai aturdido, “crianças de 12 ou
14 anos de idade hoje em dia agem como adultos”.
Publicado em 1929, Middletown retratava uma cidade americana do Meio-
Oeste onde o equilíbrio de poder havia pendido firmemente na direção dos jovens:
“Depois dos 12 ou 13 anos, o lugar ocupado pela família tende a recuar diante
de uma combinação de outras influências formativas, até que, antes dos vinte
anos, a criança é considerada uma espécie de adulto júnior, cada vez mais inde­
pendente da autoridade dos pais.” Eles citavam uma “garota popular da escola
secundária” que, desencorajada a sair com um “jovem impetuoso num carro bonito
e veloz”, explodiu com o pai: “O que vocês querem que eu faça? Fique sentada
em casa a noite inteira?”
Durante a década de 1920, a juventude começou a se ver não apenas como
um mercado, mas como uma classe distinta. Como as outras tribos sem privilé­
gios do país, os jovens americanos sentiam que a atenção que haviam recebido lhes
dava o direito de exigir mais da sua sociedade. Esta política de grupo se expressaria
em termos da promessa de igualdade universal feita no país. Entretanto, o fato
de confundirem o seu status como consumidores de vanguarda com o verdadeiro
poder político baseava-se numa prosperidade que era tão febril quanto frágil.

O COMPLEXO DE CINDERELA 255


CAPÍTULO 17

Em busca do prazer
Os Bright Young People
***
BUNTY: Você está ficando velha.
NICKY: Poxa, é mesmo; isso não é horrível?
BUNTY: Um inferno, minha querida.
NICKY: Engraçado é que a geração da minha mãe sempre quis ser mais velha
quando era jovem, e nós fazemos tudo para continuar jovens.
- Noêl Coward, The Vortex (1924)

BRENDA DEAN PAUL


DURANTE O S A N O S LOUCOS
N O AUGE DOS A N O S 1920, Brenda Dean Paul foi a uma festa em Mayfair reali­
zada para o elenco de The Blackbirds, o espetáculo negro que na época fazia o
maior sucesso em Londres. Oferecendo aos britânicos a primeira fatia autêntica
do Harlem com suas danças e seu hot jazz selvagens, The Blackbirds penetrou
nos mais altos níveis da sociedade. Durante todo o ano em que o espetáculo es­
teve em cartaz, a estrela Florence Mills e outros “pássaros negros” foram os con­
vidados de honra de muitas festas dadas pela juventude dourada de Londres, que
ficou fascinada desde o início “com os cantos e as danças dessas pessoas de cor”.
Para a londrina de 19 anos, essa noite radiante foi uma revelação. Enquanto
uma pequena e seleta multidão dançava ao som de dois “soberbos pianistas”, ela
fazia amizade com Florence Mills, de quem se lembrava como a “personificação
de charme e postura natural”. Tendo sabido por Mills que ela poderia ter “nascido
no Harlem”, Dean Paul aspirava a se tornar uma “dançarina de cor”: “Eu me senti
tão à vontade com essas pessoas encantadoras que todas as outras pessoas bran­
cas na sala pareciam simplesmente gentis e quase indecentemente refinadas.”
A festa dos Blackbirds foi só o começo, conforme Dean Paul ia a muitos
outros eventos: “Bailes à fantasia em grande escala” e “festas bizarras.” Algumas
destas tinham temas obsessivamente promovidos, como “Venha como você era
vinte anos atrás”, de David Tennant, que resultou numa festa infantil maluca:
“Até a banda estava vestida com ternos, colarinhos e bonés escolares de Eton.”
Outras festas bizarras se seguiram: “Festas do pijama, festas gregas, festas russas,
festas do marinheiro, festas americanas, festas de assassinato, festas de banho e
daí por diante.”
Relembrando essas noites de roupas extravagantes, coquetéis e jazz em alto
volume, Dean Paul escolheu a mais exagerada de todas: a festa americana na
qual pedia-se aos convidados para “virem como ‘vagabundos’, ‘cavadores de ouro’,
‘mendigos’, ‘fazendeiros ricos’, ‘homens doces’, ‘gângsteres’, ‘homens sim, ‘cronis­
tas sentimentais’ etc. etc.”. Amaciada por “bufês regados com champanhe , a
multidão se desinibia totalmente: “A banda tinha sido importada especialmente
do Harlem, e os ritmos eram inebriantes sem o estímulo adicional do álcool.”
Era uma vida feita sob medida para uma jovem mulher que tinha escorre­
gado por entre as fendas das camadas sociais. Filha de um baronete, Dean Paul
sofrerá a indignidade do divórcio de seus pais no início da adolescência. Aos 17
anos, disseram-lhe que sua mãe não tinha dinheiro para apresentá-la como uma
debutante. Dean Paul decidiu ficar no estúdio da sua mãe e, com os contatos
que fez ali, passou a fazer parte de um novo tipo de sociedade, aquela mistura de
classes boêmia e alta e com os clubes menos favorecidos do bairro de St. James,
em Londres, que atraía os Bright Young People, a cultura jovem mais visível da
Grã-Bretanha na década de 1920.
EM BUSCA DO PRAZER | 257
Para essas criaturas da mídia, a aparência, o charme e a graça eram tudo, e
Dean Pául as tinha ao extremo. Com sua natural beleza e uma certa irresponsa­
bilidade, ela se tornou uma figura permanente nos jornais, um daqueles indivíduos
cuja presença parecia definir o espírito de uma era. “Durante anos eu não ia para
cama antes das quatro ou cinco horas da manhã”, ela mais tarde lembrou, e bus­
car o prazer frenético sem pensar no amanhã estava na moda. No redemoinho de
uma festa bizarra, o tempo acelerava e parava, congelado como uma das muitas
fotografias tiradas dos convivas em suas roupas fantásticas.
***
Os Bright Young People foram apenas um exemplo da cultura jovem inclinada
ao prazer que se espalhou por toda a Europa na década de 1920. Concentrando-
se na diversão e no momento, as festas eram um estilo de vida totalmente oposto
ao da moral cristã do século XIX. Era também o modo ideal de sinalizar a fla­
grante e pública rejeição que a geração pós-guerra nutria pelos valores de seus ante­
passados. Idealismo tinha virado palavrão. Todos os grandes temas haviam se
pulverizado com a Grande Guerra, e no lugar deles chegava um hedonismo im­
prudente e afoito.
Assim como os americanos continuavam rotineiramente a fundir “infância”
com “adolescência”, a exata definição de juventude na Grã-Bretanha e na Europa
continuava elástica. A geração festeira da década de 1920 incluía adolescentes de
verdade junto com gente de 25, quase 30 anos. Muitos, como Nancy Cunard e
Harry Crosby, eram ricos o suficiente para não precisar trabalhar. Mas também
haviam sido prejudicados com a guerra, a ponto de ficar congelados em 1917 e
1918, quando ainda eram adolescentes. Freqüentar festas era o modo perfeito de
redescobrir a juventude que a guerra roubara. Juventude não era uma idade, mas
um estado de espírito.
As festas também se adequavam aos novos estilos que vinham se infiltrando
através do Adantico. Para os jovens europeus, dançar o Charleston era uma no­
vidade excitante; personificava também a modernidade que eles perseguiam per­
sistentemente. Definido como um animal social e comercial, o jovem da década
de 1920 decidiu celebrar a liberdade nos seus próprios termos. Em Adolescence,
Stanley Hall observou o quão “selvagens são quase todos grandes dançarinos,
imitando todos os animais que conhecem, dançando as suas próprias lendas, com
rituais tão precisos que um erro significa morte”. Apesar da sua aparência super­
ficial, as festas nada mais eram do que o ritual de uma geração.
Os países combatentes haviam exigido um nível sem precedentes de com­
promisso e sacrifício, e, depois de 1919, as pessoas começaram a insistir na re­
tribuição. Estruturas de classe antes rígidas começaram a se dissolver conforme
258 | 1919-1929
a antiga deferência morria. O início da década de 1920 viu o começo de uma
sociedade de massa na Europa. Com o espectro de uma Alemanha desestabilizada
e politicamente polarizada, a necessidade de oferecer um sistema social viável à
Rússia soviética e à Itália fascista tornou-se de suma importância, e a América
tinha o antídoto perfeito.
As finanças americanas tinham custeado a guerra: agora sua mídia e cultura
jovem dariam o tom da paz. Esse processo foi incentivado pela nova migração
para o leste, conforme centenas de escritores, músicos e boêmios americanos atra­
vessavam o Atlântico. Isso foi particularmente visível em Paris, onde a vantajosa
taxa de câmbio —um dólar comprava quase 27 francos, ou um mês de pão - sig­
nificava que era possível viver barato numa cultura solidária a experiências estéticas
e sexuais. Com a bebida proibida em casa, jovens americanos expatriados festeja­
vam num prazer sem culpas.
Eles iam a locais como Boeuf sur le Toit, onde Jean Cocteau tinha a sua corte.
No início da década de 1920 havia um forte culto a Cocteau, com rapazes que
vinham de todas as partes da França para conhecer o avatar da adolescência. Seu
mais famoso protegido até aquela época era Raymond Radiguet, que, tendo cho­
cado Paris com o seu provocador primeiro romance, Com o diabo na carne, mor­
reu de tifo e envenenamento aos vinte anos de idade. Esta foi uma générationfichue,
conforme o editor americano Robert McAlmon descobriu quando conheceu a
modelo de moda Sari no Le Boeuf: aNão há graça em ter 16 anos , ela o informou
com gravidade, “e saber demais sobre a vida.”
Para aqueles que viviam sem restrições, Paris era uma festa, com eventos
privados e acontecimentos anuais no calendário social como le Bal Nègre. O mais
agitado de todas era o baile anual das Quatro Artes, encenado sempre no mês de
junho pelos estudantes de arte da cidade. Um dos participantes do baile de 1927
lembrou-se de ter invadido o Claridges Hotel com uma multidão de jovens es­
tudantes: “Seminus, atravessamos os corredores aos gritos, entramos na sala de
jantar puxando os hóspedes pelo nariz, roubando seus drinques, interrompendo
a dança e até correndo para os quartos lá em cima para abrir as portas que não
estivessem trancadas.”
Realizadas todos os anos entre 1923 e 1929, essas bacanais eram irresistíveis.
O poeta Harry Crosby, que residia em Paris para se livrar de um ambiente bos-
toniano repressor, deleitava-se com o caos. Para o baile de 1927, sua fantasia era
sete pombos mortos e dez serpentes vivas num saco. “A uma hora estava UMA
LOUCURA”, ele escreveu depois: “Homens e mulheres nus em pelo, gente que
dançava correndo de uma lado para o outro... do nosso camarote eu abri o saco
e dele caíram as dez serpentes. Gritos e berros. Mais tarde, naquela noite, eu me
sentei ao lado de uma garota roliça que estava amamentando uma das serpentes.
Meu Deus!”
EM BUSCA DO PRAZER 259
Depois da desastrosa desvalorização do marco em 1923, Berlim ficou ainda
mais barata para os americanos, além de ser um ímã para outros migrantes.
Sebastian HafFner lembrou que a capital alemã tornou-se uma “cidade interna­
cional”. Ele e seus amigos “não éramos apenas gentis com os estrangeiros, mas
entusiasmados com eles. Como era muito mais interessante, como a vida ficava
mais bela e rica porque o mundo não era povoado exclusivamente por alemães!
Nossos hóspedes eram todos bem-vindos, viessem eles voluntariamente, como
os americanos e os chineses, ou como refugiados, como os russos. Nossas portas
estavam escancaradas”.
Berlim era famosa como cidade cosmopolita, mas no início da década de
1920 ela era uma casa aberta para todos os tipos de pessoas em busca de prazer.
Isto foi acelerado pelos acontecimentos de 1923, quando, como Haffner observou,
a vertiginosa deflação do marco ajudou os jovens a criarem uma tomada de
poder temporária: “Os jovens e rápidos de raciocínio se deram bem. Da noite
para o dia eles estavam livres, ricos e independentes. Era uma situação em que a
inércia mental e a confiança em experiências do passado eram punidas com
fome e morte, mas a rapidez na avaliação de novas situações e na hora de reagir
era recompensada com súbitas e vastas fortunas.”
Haffner lembrou que “o diretor de banco com 21 anos de idade apareceu
no cenário, e também o ex-aluno da sexta série que ganhava a vida com as dicas
sobre a bolsa de valores de seus amigos ligeiramente mais velhos. Ele usava gra­
vatas no estilo de Oscar Wilde, organizava festas regadas a champanhe e susten­
tava o seu constrangido pai. Em meio a toda tristeza, desespero e pobreza, havia
um ar de despreocupada jovialidade, licenciosidade e um clima carnavalesco.
Agora, pelo menos, os jovens tinham dinheiro e os velhos, não. Além do mais, sua
natureza havia mudado. Seu valor só durava umas poucas horas. Ele era gasto
como nunca”.
Embora esse “filme de Hollywood” se desvalorizasse com a estabilização do
marco, o status de Berlim como a capital do entretenimento na Alemanha estava
estabelecido. Assim como os restaurantes temáticos e os clubes de dança de jazz,
havia enormes palácios do prazer como o Haus Vaterland, ocupando um quartei­
rão inteiro e com capacidade para acomodar 6 mil clientes por hora. No seu
Rhineland WineTerrace, um calmo e ensolarado panorama do Reno era substituí­
do, de hora em hora, por uma violenta tempestade que durava cinco minutos. Este
era o Yoshiwara, o narcótico auditório da Metropolis de Fritz Lang ressuscitado.
Berlim era uma atração internacional por outra razão: era a capital mundial
do sexo. Durante os anos 1920, ela oferecia cabarés íntimos, shows eróticos e
bares para encontros rápidos como o famoso Resi. E havia os clubes sociais para
lésbicas, os bailes de travestis, e os milhares de bordéis. A natureza aberta da vida
noturna de Berlim e a prostituição masculina de adolescentes, os Doll Boys e os
260 | 1919-1929
Line Boys, perambulando por hotéis e galerias, fez dela um ímã para homosse­
xuais britânicos e americanos. A partir de 1923, jovens alemães afluíam em
bando para a capital para andar naquilo que um ex-Line Boy chamou de “louco
carrossel”.
Esta ousadia era um sintoma, não de colapso, mas de estabilidade. Depois
de 1924, Weimar era governada pelo seu ministro do exterior, Gustav Stresemann,
que introduziu o que Haffner chamou de “o único período autêntico de paz que
a minha geração na Alemanha experimentou”. O regime misturava socialismo
com consumismo: “Havia ampla liberdade, paz e ordem, por toda a parte a men­
talidade liberal mais bem intencionada, bons salários, boa comida e um pouco
de tédio político. Todos eram cordialmente convidados a se concentrarem em
suas vidas pessoais, arrumar seus negócios segundo sua própria vontade.”
Haffner fez 21 anos em 1928 e se lembrava desse período como mergulha­
do em “algo muito bom e auspicioso” que estava “silenciosamente amadurecendo
entre os melhores da juventude alemã”. Este novo liberalismo caracterizava-se
pelo rompimento das barreiras entre as classes: “Havia muitos estudantes que
eram trabalhadores e muitos trabalhadores que eram estudantes. O preconceito
de classe e a mentalidade do colarinho engomado estavam simplesmente fora de
moda. As relações entre os sexos estavam mais livres e francas do que nunca.”
Entretanto, ele achava que muitos alemães estavam mal equipados para
lidar com a liberdade de Weimar. “Acostumado com todas as variadas sensações
de desordem”, o país começou a seguir a liderança de seus jovens, prejudicados
pela guerra e a revolução que haviam vivenciado na idade de formação. Criados
dentro de um sistema autoritário, os alemães nunca aprenderam a viver com
independência e estabilidade: “Eles consideravam o fim da tensão política e o
retorno a uma liberdade privada não como um presente, mas como uma privação.
Estavam entediados, suas mentes divagavam em pensamentos tolos, e começa­
ram a se aborrecer.”
* * *

A Grã-Bretanha também foi transformada pelo alcance do consumismo ameri­


cano. Embora vitorioso, o Reino Unido estava atrelado a seu antigo aliado. O
verdadeiro jogo de poder entre as duas nações foi posto às claras pela questão da
devolução do empréstimo de guerra: os Estados Unidos tinham um crédito de
900 milhões de libras e, no início da década de 1920, insistiam num esquema
usurário de devolução. O controle econômico estava entrelaçado com o imperia­
lismo cultural. Isto alimentava a hostilidade do sistema para com a América,
que era vista por alguns críticos como responsável por ter deixado a Grã-Bretanha
pior do que Roma nos dias da sua decadência.
EM BUSCA DO PRAZER | 261
A era do materialismo tinha chegado. No início dos anos 1920, as tradicio­
nais indústrias manufatureiras de artigos pesados da Grã-Bretanha foram suplan­
tadas pela fabricação de artigos para lazer como carros, aparelhos de rádio, gra­
mofones, cosméticos e tecidos artificiais. Grandes segmentos do público estavam
empregados em serviços de escritório, como guarda-livros e contabilidade, venda
e publicidade - a última era uma indústria que popularizou com sucesso a psi­
cologia no montante de 100 milhões de libras circulando em 1921. No ano
seguinte, a British Broadcasting Corporation - BBC - começou a oferecer um
serviço de rádio nacional.
Os filmes americanos dominavam o cinema, com ícones como Charlie Cha­
plin e Mary Pickford, enquanto o jazz e suas diversas danças —o passo do camelo,
o shimmy e o blues —suplantavam o ragtime. Embora sem visar explicitamente
a um mercado adolescente, os filmes e as músicas americanos foram adotados
com entusiasmo pela juventude britânica, em todas as classes. Querendo novidade
e diversão - e qualquer coisa que não fosse guerra-, os jovens sem querer atuavam
como a ponta de lança do consumo de massa ao estilo americano, o seu código
moral mais relaxado e o clima social mais descontraído, o que causava um impacto
corrosivo nas hierarquias britânicas.
Mulheres jovens estavam na vanguarda do novo modernismo. Este padrão
americano foi acentuado por um fator demográfico brutal: com um em cada sete
homens solteiros em idade para casar morto na guerra, havia um excedente de um
milhão de mulheres. Casamento não era mais uma coisa automática. Visões de
Suffragettes tinham se tornado realidade com a emancipação parcial concedida
em 1918. As mulheres haviam conquistado uma independência maior com a sua
contribuição para o esforço de guerra: isso foi ratificado por leis mais flexíveis re­
gulamentando o emprego e o divórcio, assim como por uma maior conscienti­
zação, graças às campanhas de Marie Stope, de métodos de controle de natalidade.
Um vasto influxo de jovens mulheres descomprometidas de todas as classes
invadiu as principais cidades. Aquelas por volta dos vinte anos de idade podiam
encontrar empregos como jornalistas, balconistas, garçonetes ou secretárias. As
meninas da classe operária que tradicionalmente ingressavam no serviço domés­
tico aos 14 anos começavam a rejeitar o que consideravam como um sistema de
semiescravidão em favor de ‘qualquer tipo de emprego em oficinas e fábricas,
ou até um lugar com salários mínimos como a Woolworth, e liberdade —acima
de tudo, liberdade para se encontrarem facilmente com homens”.
Essa “jovem emancipação” encontrou sua expressão mais flagrante nas novas
melindrosas: “cheias de creme, perfumadas e empoadas como a atriz “imoral” de
1910, a filha pós-guerra do operário comum certamente brilhava na nova permis-
sividade.” Modas como saias e cabelos curtos podem ter chocado os adultos, mas
262 1919-1929
foi no surto “explosivo” de danças no pós-guerra que a profundidade da nova
cultura jovem pôde ser plenamente experimentada, conforme a mania se espalhou
de lugares londrinos como o Hammersmith Palais para todo o país.
Em Salford, Robert Roberts lembrou que “jovens de 16 a 25 anos de idade
afluíam aos salões de dança às centenas de milhares”, “alguns gingando* até seis
vezes por semana. Um grande celeiro1 que freqüentávamos como aprendizes
continha pelo menos uns mil. Quase todas as noites, exceto sexta-feira (dia de
faxina em casa), ele ficava apinhado de rapazes e moças, sem segregação de classe
pela primeira vez. Pagando seis pence (um xelim aos sábados), jovens de todos os
níveis da classe de trabalhadores manuais, desde o aprendiz de encadernador até
a escória da escória’, dançavam o foxtrote satisfeitos um nos braços do outro”.
A maioria dos salões de baile aderia aos rígidos passos lançados em 1910
por Irene e Vernon Castle: entretanto, eles ainda aceitavam um nível sem prece­
dentes de contato pessoal. Os novos salões de baile eram construídos como des­
tacados mundos jovens, domos do prazer com luzes cintilantes e decoração exótica.
Roberts lembrou que “no interior do nosso paraíso havia um leve ar mourisco,
devido talvez ao papel de parede, com seus minaretes, e um estreito caramanchão
pousado alto num ângulo de uma parede superior. Dali, uma excelente banda
produzia ritmos quase sem cessar”.
Ao mesmo tempo, assalariados mais jovens encontravam escoadouros para
os seus trocados. Embora no início dos anos 1920 tivesse havido tentativas de
limitar o que na época se chamou de “trabalho infantil”, os adolescentes das áreas
mais pobres das cidades ainda tinham vários empregos temporários e aprendizados
para escolher. Quanto mais velhos fossem esses “nômades industriais”, menos eles
tendiam a dar a maior parte do que ganhavam aos seus pais, portanto, mais ou
menos a partir dos 16 anos eles podiam gastar o seu dinheiro em novas revistas
como Boys Cinema (lançada em 1919) ou Girl’s Cinema (1920).
Enquanto os cinemas exibiam em suas telas filmes como Echo of Youth e
Blindness ofYouth, essas revistas ofereciam uma ampla gama de material de interes­
se para seus jovens leitores. Em um exemplar de amostra de dezembro de 1920,
a Boys Cinema tinha anúncios de um composto para frisar cabelos, um modelo
de trem para montar, um gramofone, luvas de boxe e da sua publicação irmã,
GirVs Cinema. A revista também incluía artigos de interesse geral, com conselhos
para rapazes (entre os 17 anos e meio até os 25) sobre como conseguir uma car­
reira adequada, entremeados com fofocas e informações sobre as principais figuras
femininas da época: Mabel Normand, “a popular e vistosa comediante do cinema”
ou Colleen Moore, “uma elegante mocinha” de 18.
A cultura americana era muito popular entre os jovens trabalhadores. Ela com­
binava com os novos valores a partir dos quais eles buscavam viver: mais igualdade
EM BUSCA DO PRAZER | 263
de classes, menos controle dos pais, mais liberdade pessoal e sexual, mais mobi­
lidade. Conforme diminuía o respeito pelos adultos, havia mais adolescentes
bebendo, mais jovens à toa pelas esquinas. Isto por sua vez alimentava temores
quanto ao crime juvenil, tipificados pelo levantamento de Cyril Burt, em 1922,
The Young Delinquent. Na página oposta à do título do livro havia uma fotogra­
fia icônica de “B.I. (IDADE 15 7/ 12)”, um retrato perfeito da insolência juvenil
com seu cigarro pendurado entre os lábios e
o olhar mal-humorado.
* * *

O princípio de inclusão pelo consumo fun­


cionou na Grã-Bretanha durante o início da
década de 1920 aliado às novas medidas que
visavam a trazer a juventude pobre para den­
tro das instituições sociais. O aumento da es­
colaridade mínima para 14 anos, em 1918, foi
acompanhado por um forte movimento po­
pular para criar espaços abertos para os jovens
das áreas pobres. A prova estava nos números
de crimes juvenis, conforme o número dos
acusados em tribunais caiu 40% entre 1917
e 1924. Até a greve geral de 1926, não houve
nenhum grave tumulto de trabalhadores, e
isso expressou-se mais em termos marxistas do
que juvenis.
A modernidade que dava a muitos jovens
da classe operária um certo grau de independência e que, na verdade, absorveu
uma energia que poderia ter sido politicamente direcionada, tornou-se, para
uma pequena mas claramente visível minoria dos privilegiados, uma sinalização
de rebeldia. O hedonismo já havia sido elevado à ideologia, mas depois da indica­
ção de Sir William Joyson-Hicks em 1924, ele se tornou o secretário de negócios
internos mais repressor do século. Sob a sua autoridade, o controle do prazer
passou a ser uma cruzada do tipo Lei Seca. As festas passaram a ser politizadas.
Nascido em 1865, Joyson-Hicks —ou Jix, como foi logo apelidado —veio
daquela mesma geração que tinha enviado jovens britânicos para a morte. Quando
declarou guerra ao sexo em geral, à homossexualidade em particular e à vida dos
clubes londrinos, um segmento da juventude aceitou o desafio com gosto. A re­
tórica generacional dos poetas de guerra já fora assumida pelos jovens modernistas

264 I 1919-1929
da Grã-Bretanha e, meses antes da publicação de “A terra desolada”, de T. S. Eliot,
dois adolescentes de Eton, Harold Acton e Brian Howard, editaram uma revista
com a intenção de anunciar uma revolução artística.
Publicada em março de 1922, a Eton Candle continha trabalhos dos irmãos
Sitwell, de Osbert e Sacheverell, assim como do jovem romancista Aldous Huxley.
Harold Acton escreveu “A Note on Jean Arthur Rimbaud”, enquanto o poema de
Brian Howard, “To The Young Writers ans Artists Killed in The War: 1914-18”
criticava a “parcela de velhos malditos” que haviam assassinado “uma excelente
Geração Jovem”: “Oh, nós lutaremos por nossos ideais - nós, que éramos jovens
demais para ser assassinados por vocês... E nós não nos esquecemos de vocês.”
Esses dois adolescentes anglo-americanos personificavam as ideias que haviam
defendido.1Surpreendentes cada um a seu modo - Acton robusto e inescrutável,
Howard esguio e com uma expressão ousada —, o par usava a elegância para pro­
clamar sua diferença. Acton foi responsável por diversas novas modas, inclusive
as calças coloridas, muito largas e pregueadas, que ficaram conhecidas como Oxford
Bags. Ele também ficou famoso por declamar poesias modernistas, como The
Waste Land, num megafone. Acton e Howard eram o que se pode chamar de al­
guém que é de fora da estrutura, mas que está por dentro: educados com a elite,
mas basicamente párias por nascimento e temperamento.
O fato de serem ambos homossexuais numa sociedade que perseguia essa
opção sexual dava à sua rebelião uma força extra: em vez de se ocultar, eles pre­
feriram a descarada exposição. O ar de “menino colegial” assumido pelas meninas
da classe operária podia insinuar uma homossexualidade, mas aqui a coisa era real.
Em outros tempos, a sua brutal afetação talvez tivesse passado despercebida,
mas na década de 1920 ela chamou atenção. A matança havia dizimado a masculi­
nidade britânica: o rígido vigor físico e o cristianismo marcial do fim do século
XIX não foram páreo para a realidade do bombardeamento em massa.
As mulheres tinham ficado mais poderosas, não só porque eram mais nume­
rosas, mas também por causa do seu status de vanguarda no novo consumismo.
Assumindo diferentes papéis, experimentando diferentes ideias e atitudes, Acton
e Howard mostraram que os homens podiam escorregar direto para dentro deste
etos maleável. Antes, os homens das escolas públicas haviam se preparado para a
guerra ou para o serviço nas colônias. Na década de 1920, duas das figuras pós-
guerra mais influentes dessa classe preparavam-se para experiências artísticas e,
no caso de Howard, para festas.

1 A mãe de Harold Acton era americana, o pai era inglês. Os pais de Brian Howard eram ambos americanos,
vivendo no Reino Unido desde que ele nasceu.

EM BUSCA DO PRAZER | 265


A nova masculinidade foi popularizada pela peça de Noêl Coward, The Vor-
tex, escrita em 1924, que causou sensação ao explorar o uso excessivo de drogas.2
Mas este era apenas o gancho mais óbvio. Coward divertia-se com o status do seu
principal personagem como um neurótico fixado na mãe, reconhecendo que
estes eram os novos parâmetros da juventude. Dos vorticistas ao The vortex havia
um abismo de sensibilidade e sexualidade: na década de 1920, o mais novo tipo
de jovem não seria o agressivo futurista/pugilista, mas o andrógino Peter Pan de
língua afiada e superestimulado.
Isso funcionava nos dois sentidos. A rebelde feminina mais visível do início
da década de 1920 foi outra anglo-americana, Nancy Cunard, filha única do
então atual chefe da famosa família da marinha mercante. Nascida no finzinho
do século XIX, Cunard tinha sido criada para uma vida de privilégios mas teve
que assistir a ela desintegrando-se com a guerra. Depois de um desastroso casa­
mento, mergulhou numa perpétua busca de novidades, satisfações e vinganças
contra a sua odiada mãe. Magérrima, graças a uma delicada constituição não
melhorada pela “embriaguez incessante”, causou um impacto inesquecível em
todos que a conheceram.
Sua rebeldia era sustentada por um olhar firme, azul gélido, passos flutuantes
e postura alerta. Embora não sendo atraente da forma convencional, ela apre­
sentava um novo e surpreendente tipo, com olhos enormes, cabelos bem curtos,
cintura de vespa e, como Wyndham Lewis a retratou em 1922, roupas masculinas.
Um de seus amantes, Aldous Huxley, pensava que ela tinha “a indiferença mas­
culina. Ela pode separar seu apetite do resto da sua alma”. Apesar do seu retrato
como uma vamp corrosiva nos romances de Huxley, ela se caracterizava como “a
perfeita estranha, exilada e banida das regras da vida”.
A vida nos clubes de Londres que Cunard freqüentava começou a assumir
uma importância não prevista quando se tornou a fonte de um novo estilo de
juventude. Durante o início da década de 1920, os cabarés proliferavam na ca­
pital, fosse em locais no West End como o Café Royal e o Embassy, o Eiffel To-
wer no norte do Soho, o boêmio Ye Old Ham Bone no St. Jamess ou o famoso
clube “43”, de Mrs. Meyrick, no Soho. Nestes clubes, a cultura que se originara
nos tempos de guerra espalhou-se mais: essa mistura de boêmios, aristocratas,
coristas/prostitutas e a transatlântica influência trazida por soldados canadenses
e americanos.

2 Fiel à forma modernista, Coward vivia de acordo com a pior percepção que o público tinha dele, representando
o papel do personagem principal numa seqüência de artigos escandalosos na imprensa. No Sketch, ele foi retra­
tado na cama “vestindo uma camisola chinesa e com uma expressão de avançada degeneração”. Como ele contou
ao Evening Standard, “nunca estou fora de antros de ópio, antros de cocaína e de outros lugares infernais. Minha
mente é uma mistura de corrupções”.

266 | 1919-1929
Michael Arlen observou o vazio subjacente a esse mundo no seu best-seller
de 1924, The Green Hat, um roman à clefsobre o café society que oferecia um
retrato de Cunard, como a personagem íris Storm, em sua essência. Apesar de
todas as luzes fortes, os jovens festeiros “ignoravam tudo que não fosse eles mes­
mos, nos quais não estavam muito interessados”. “Entediada com o tédio”, esta
geração do início dos anos 1920 submergia sua perplexidade em danças negras
lentas, como os blues. “Ele tinha um ritmo como a batida de um coração agoni­
zante perdido numa artéria do submundo”, Arlen escreveu. “Você chorava a pre­
sença dos mortos. Você chorava a memória dos vivos.”
Os freqüentadores dos clubes procuravam se soltar, mas, como Arlen observou
com muita perspicácia, a busca de prazer era ao mesmo tempo uma religião
secular e uma quimera. íris Storm fala apaixonadamente de “o-desejo-do-não-
sei-o-quê. Eles o encontrarão um dia quando estivermos mortos e todas as coisas
pelas quais vivemos hoje estiverem mortas. Eles o encontrarão quando tudo
estiver morto, menos os sonhos para os quais não temos palavras. Não é choco­
late. Não é cigarro, não é cocaína, nem ópio, nem sexo. Não é comer, beber,
voar, lutar, amar”. O maior dom da vida, ela conclui, “é a capacidade de sonhar
uma vida melhor”.
O fato de esses impulsos devoradores serem alimentados por bebidas e dro­
gas só aumentava a hostilidade das autoridades. No início dos anos 1920, algumas
restrições de DORA tinham sido retiradas, e os freqüentadores de clubes podiam
gozar de liberdades impensáveis na América. Entretanto, o escândalo que se se­
guiu à overdose de cocaína da corista Freda Kempton, em março de 1922, asso­
ciada à indicação de Jix, resultou numa grande punição. Isto não interrompeu a
popularidade da vida noturna de Londres, e o secretário para assuntos internos
ficou intrigado ao descobrir que, em vez de serem freqüentados por prostitutas
e viciados em drogas, esses clubes estavam repletos de “sociedade”.
As campanhas moralistas de Jix ajudaram a ampliar a atitude inquieta, irres­
ponsável, da geração mais jovem que estava começando a ingressar no mundo
dos clubes londrinos. A primeira visão pública dos Bright Young People ocorreu
em julho de 1924, quando o Daily Mail publicou uma reportagem com a man­
chete “Em busca de pistas, Jogo da nova sociedade, Caça à meia-noite em Lon­
dres, Cinqüenta carros motorizados, os Bright Young People”. Este pequeno
grupo era liderado por um número de jovens mulheres das classes alta e média
alta: especializando-se em se vestir bem, promover brincadeiras e realizar anár­
quicas caças ao tesouro, ele representava “um movimento que havia capturado
toda a Londres elegante”.
Estas atividades aparentemente triviais mascaravam a profunda mudança
social que, segundo Brenda Dean Paul, poderia ser atribuída à “taxação, à recém-
encontrada liberdade das mulheres e ao relaxamento social em geral. Uma nova
EM BUSCA DO PRAZER | 267
classe ou ramo da sociedade inglesa havia nascido, havia brotado da convulsão
dos tempos de guerra, os ‘Novos Pobres’”. Sua geração “não estava disposta a se
conformar com bailes privados estereotipados e outras inovações sociais formais,
e gradualmente se libertou, formando pequenos grupos ou ‘coteries que ficaram
conhecidas pela imprensa como os jovens animados”’.
Dean Paul citou o maciço excedente de mulheres jovens como uma das
razões para que o antigo mundo formal de debutantes, bailes privados e acom­
panhantes tivesse ruído com o surgimento de “um novo tipo de anfitrião e an­
fitriã”. Entre eles estava Alec Waugh, autor de Loom ofYouth, a quem se credita
ter inventado as festas de coquetel, ou DavidTennant que, em 1925, inaugurou
uma das casas noturnas de maior duração no Soho, a desafiadoramente modernis­
ta Gargoyle. Segundo concluiu Dean Paul: “Uma nova camaradagem de jovens
surgiu, uma independência, uma igualdade, que deu origem a um novo código
de condutas sociais.”
A bebida foi o principal desintegrador de fronteiras entre as classes e, como
Evelyn Waugh registrou exaustivamente em seus diários, dos usuais limites de com­
portamento civilizado. Uma festa não era uma festa se não fosse uma orgia. Em
setembro de 1926, por exemplo, ele foi a um evento oferecido por algumas lés­
bicas conhecidas suas: “Lulu Waters-Welch veio. Ele está vivendo em pecado com
Effingham. Brian 0 ’Brien veio; também o líder do sindicato. Alistair e eu ficamos
muito bêbados mesmo. Acho que fui rude com Bobbie. Dois homens brigaram.
Também havia uma policial que assustou todo mundo e deixou Joan muito
irritada.”
Faltava a esta geração mais jovem a angústia de seus antepassados dos tempos
de guerra, e o jazz proporcionava a trilha sonora perfeita para sua estridente exu­
berância. O americanismo estava por toda a parte. ‘“Rhapsody in Blue, de George
Gershwin, acompanhava todas as brincadeiras no sofá”, Harold Acton lembrou:
“Parecia conter toda a intoxicação em negro e cromo dos bares de coquetel.” Eve­
lyn Waugh registrou uma visita a The Blackbirds e um ator americano “mons­
truoso” que “andava com pacotinhos de pó dentifrício que ele dizia ser heroína
e que todo mundo tomava”.
Mudanças na mídia britânica fizeram com que esse pequeno grupo tivesse
uma proeminência desproporcional na imprensa. Nos meados dos anos 1920,
os jornais nacionais estavam criando um novo tipo de artigo: a coluna de fofo­
cas assinada. O primeiro diarista a assinar o seu nome foi um membro do reino,
lorde Casderosse, e ele foi rapidamente seguido por colunistas como Tom Driberg,
Charles Graves e Evelyn Waugh. Esse era um mundo novo, consciente: os rapazes
iam a festas com seus amigos e escreviam sobre ambos. Por sua vez, a publicidade
incentivaria a emulação. Isso não acontecia sem as críticas dos adultos.
268 | 1919-1929
O estilo dos Bright Young People era uma fusão de modernidade e antipatia
edipiana organizada em torno do que parecia um prazer sem sentido. Muitos
dos principais jovens animados relacionavam-se mal com seus pais. Evelyn Waugh
havia produzido uma memorável xilogravura intitulada That Grim Act Parricide,
retratando um rapaz apontando um revólver para a garganta do pai idoso. Brian
Howard recusou-se a falar com o pai depois de 1928, enquanto Nancy Cunnard
provocou um escândalo em 1930 ao publicar um panfleto tornando pública sua
discussão com a mãe. Beverley Nichols tentou assassinar seu pai em 1929.
A rebelião das antigas fortunas e a nova burguesia eram ainda mais chocan­
tes porque vinham daquela mesma classe que havia liderado o ataque e que so­
frerá na mesma medida. No que dizia respeito ao sistema, transformar os irmãos
mais jovens dos heróis de guerra em vamps ou em coisa pior era procriar uma
geração de traidores. Ao mesmo tempo em que as colunas de fofocas trombetea­
vam caças ao tesouro, as páginas de editorial publicavam denúncias irritadas con­
tra a juventude moderna, como o ataque, em 1925, do Daily Express, ao “Irmão
da garota moderna”, esse “cãozinho de estimação de casaco de seda”.
Num grau considerável, entretanto, isso reforçava o privilégio tradicional.
Jovens trabalhadores tinham seus próprios prazeres nos grandes salões de baile que
haviam surgido no país inteiro, mas eles não eram percebidos pela imprensa ou
considerados elegantes. A emancipação não tinha ido tão longe. Se os Bright Young
People começaram com alguma ideologia, foi a atitude hedonista e amoral captu­
rada pelo famoso versinho de pé-quebrado de James Laver: “Apesar de Mr. Joynson
Hicks / Somos gente do pós-guerra / Somos garotas de 1926.” Entretanto, os
acontecimentos daquele ano mostraram que elas eram essencialmente tradicionais.
Os Bright Young People poderiam muito bem estar associados a verdureiros
ambulantes, tagarelando uns com os outros em cockney como parte do seu reper­
tório e posando com operários no caminho de casa ao sair de uma de suas festas
à fantasia, mas, quando a situação era precária, eles seguiam os imperativos da
sua classe. Durante a greve geral de 1926, muitos desses freqüentadores de feiras
entraram na briga apoiando o governo como fura-greves, mantendo em funcio­
namento os serviços essenciais. Quando a greve terminou em meados de maio,
o movimento trabalhista ficou com o coração esfrangalhado por uma geração.
Sua verdadeira contribuição foi insignificante mas, como vitoriosos contrar-
revolucionários, os Bright Young People espalharam seu estilo mais amplamente
pela juventude burguesa: como o comentarista Beverley Nichols lembrou, depois
de 1926, “Oxford foi tomada por uma alegria ética. Havia um sentimento de
après moi le délugê\ As festas ficaram mais selvagens: como um diarista da Vogue
comentou em 1927: “Em Hampden House havia mais ruge para os lábios como
eu nunca tinha visto antes. Lorde Portarlington e seu filho, lorde Carlow, pare­
EM BUSCA DO PRAZER | 269
ciam-se, respectivamente, com uma mãe vitoriana e sua filha debutante; estavam
asfixiados por isso.”
O ano de 1927 foi o auge do verão dos Bright Young People, e a sua mais
recente estrela contribuiu com a sua parcela de ultrajes. O mais novo herdeiro de
uma fortuna de Glasgow, Stephen Tennant, estava por toda parte no ano em que
completou 21 anos: nas colunas de fofocas vestido de “Rainha da Romênia”, ou
coberto de “trapos verdes” numa “personificação de mendigos”. Posando para
Cecil Beaton, ele simbolizava a última palavra em modernidade com seu casaco
de borracha e uma aparência no estilo das atrizes americanas que tanto admirava
- cabelos frisados, brilho nos lábios e maquiagem no rosto.
Tennant fez de tudo para ficar à altura da sua reputação. Na primavera de
1928, ele e Brenda Dean Paul foram coanfitriões de uma festa no Gargoyle para
o casamento do seu irmão David Tennant. Com uma lista de convidados da
qual constavam Brian Howard, Harold Acton e os Sitwells, ele roubou o espetá­
culo chegando “numa berlinda elétrica do período eduardiano”. No mês seguinte,
David Tennant deu uma festa do pijama na qual esteve presente J. M. Barrie: Ste­
phen escreveu “cetim branco, mas trocado no meio do caminho por verde”; em
junho, ele foi visto no Chelsea Arts Bali “em trapos fantásticos de chifon e ve­
ludo, mostrando o esquema Picasso de cores”.
O problema com o ultraje, entretanto, é que ele precisa ser trombeteado sem­
pre. Os Bright Young People começaram a se chocar com a lei dos rendimentos
decrescentes. O que tinha começado espontaneamente tornou-se constrangedor
em vez de alegre. Brenda Dean Paul pensava que o movimento “morria de duas
causas, publicidade e septicemia social’. “As festas eram cada vez mais freqüentes,
cada vez mais sem originalidade e diversão”, ela lembrou, “até se tornarem imensas
orgias de embriaguez, freqüentadas por uns poucos jovens animados pioneiros e
desmoralizados, de olhos turvos, muito cansados, por demais envolvidos para se
afastarem dali”.
O prazer já não era suficiente. “Estou enojado de Londres e das festas de Lon­
dres”, Brian Howard declarou, “que continuam exatamente as mesmas de cinco
anos atrás. Em Londres NADA muda.” Seu amigo Allanah Harper lembrou estes
tumultos como “um inferno de Jerome Bosch”: “A última festa a que fui com
Brian”, ele lembrou, “resultou na minha roupa praticamente arrancada do corpo
e tufos dos meus cabelos erguidos no ar como troféus.” Como Norah C. James
escreveu no seu romance proibido, Sleeveless Errand, “a multidão se reunia por
puro tédio. Eles fogem de si mesmos para isto. Nós nos detestamos mutuamente,
mas não podemos ficar longe uns dos outros”.
* * *

270 | 1919-1929
Como os colegiais americanos, os Bright Young People alimentavam a nova ob­
sessão da mídia com a juventude. Foram a primeira tendência cultural de jovens
britânicos a se definir em termos de aspiração, ao proclamar a aplicação da ado­
lescência como um ideal além da biologia. No fim da década de 1920, os anún­
cios e os jornais estavam promovendo a “Inocência infantil aos quarenta anos de
idade ou discutindo os conflitos entre as gerações da guerra e do pós-guerra. “Não
há nada que os grandes negociantes não vejam em termos de £.s.d”, Wynd-
ham Lewis observou. “E ele olhou para a ‘Juventude’ e não a achou linda, mas
lucrativa.”
Ao contrário de seus correspondentes americanos, os Bright Young People
não eram cinderelas, não eram exemplos de inclusão social. Suas estripulias não
eram apenas mais uma amostra da licença tradicionalmente concedida à juven­
tude dourada. Se os jovens da classe operária tivessem causado tantos distúrbios,
logo teriam sido presos. Até os colunistas de fofocas observaram a “condescendên­
cia” com figuras importantes como Stephen Tennant. E, apesar de estar ali para
serem copiados, eles também atraíam hostilidade, sendo importunados e escarne­
cidos pelo público ao chegar fantasiados em mais outro baile.
Desconectados da sociedade, os Bright Young People tiveram, no final da
década, pouca coisa a mostrar com as suas festas. Sua dissolução foi cuidadosa­
mente mapeada. Veja a nossa geração”, Norah C. James indagou. “E a próxima;
por próxima quero dizer pessoas que nasceram pouco antes ou durante a guerra.
Elas não lhes parecem irremediavelmente desnorteadas?” Evelyn Waugh achava
que a geração dos anos 1920 tinha tido “uma chance depois da guerra que ne­
nhuma geração jamais teve. Havia toda uma civilização para ser salva e refeita —
e eles só pareciam estar bancando os tolos.”
Esta dura avaliação foi instigada pela rajada de livros e peças que vieram à
tona no fim da década, conforme a geração dos anos de 1890 finalmente encon­
trava a sua voz. Muitas destas obras tinham um tom amargo, catártico: Journeys
End, de R. C. Sherriff; Death of a Hero, de Richard Aldington; A Subaltems
War, de Charles Carrington; Goodbye toAll That, de Robert Grave; Nada de novo
no front, de Erich Maria Remarque. Estas memórias coincidiram com o esgota­
mento dos Bright Young People por um acaso, mas as comparações não ofereciam
nenhum consolo.
O corolário da alienação dos veteranos em relação ao presente foi a celebra­
ção dos anos do pós-guerra como uma era dourada, uma arcádia de inocência,
uma época de verões perfeitos e juventude ainda não destruída. A geração da dé­
cada de 1890 retratava-se como triplamente perdida: se a vida antes da guerra pa­
recia tão distante quanto um conto de fadas, então a sua experiência durante a
guerra permanecia tão vivida como nunca. Por sua vez, o frenesi materialista da

EM BUSCA DO PRAZER | 271


década de 1920 não oferecia nada além de desilusão. Este tropo influente, en­
tretanto, baseava-se na realidade: à ausência de camaradas mortos na guerra
somava-se a abdicação da vida pública pelos sobreviventes.
Estivessem escondendo-se ou festejando como adolescentes dez anos mais
jovens, eles se sentiam perdidos. “Somos supérfluos para nós mesmos , Remarque
admitiu; “vamos envelhecer, uns poucos se adaptarão, outros farão ajustes, e
muitos de nós não saberão o que fazer.” A necessidade de tranqüilidade e abrigo
dos veteranos também criou um vácuo que, por sua vez, explicava a inquietude
dos festeiros do pós-guerra, a quem faltava qualquer compromisso expressivo
com aqueles imediatamente mais velhos do que eles. O desvairado hedonismo
havia fracassado em erradicar a sombra da guerra: no mínimo, tinha se tornado
mais profundo e mais sombrio.
Alguns veteranos foram altamente críticos a respeito da geração da década
de 1920. No fim de 1929, um ex-voluntário da Freikorps chamado Hans Zehrer
argumentou na influente revista alemã de direita Die Tat que sua “jovem geração”
de veteranos de guerra compreendia duas ondas. A primeira havia se queimado
em dissipação, mas a segunda - que vivera tranquilamente e ganhara experiência
do mundo - estava agora a postos para revolucionar a Alemanha. Zehrer concluiu
que a Alemanha seria reconstruída por estes “homens do froni\ não por aqueles
americanizados de vinte e poucos anos com seu “comportamento apalhaçado”.
Essas comparações revelavam uma irada reaçao contra a cultura jovem dos
anos 1920 que seus adeptos absortos em si mesmos pouco podiam fazer para
enfrentar. O ajuste de contas havia chegado e os encontrara esperando. O proble­
ma para esses eternos adolescentes era que eles não queriam nunca crescer, por­
que crescer significava que eles se tornariam o pai odiado. O fim da guerra fora
uma ruptura tão decisiva que representara uma espécie de tábula rasa permitindo
aos movimentos juvenis da década de 1920 pensarem que poderiam construir
um mundo totalmente distinto do dos adultos.
No seu romance de 1920, Les enfants terribles, Jean Cocteau ofereceu a me­
táfora perfeita para essa desconexão, fazendo do quarto de dormir um santuário
adolescente arquetípico dos órfãos Paul e Elizabeth: “O chão estava coberto de
caixas vazias, com toalhas e várias peças de roupas íntimas. Cada espaço disponível
na parede tinha alfinetes prendendo folhas de jornal, páginas rasgadas de revistas,
programas, fotografias de astros de cinema, assassinos, lutadores de boxe.” En-
casulados dentro dessa célula, Paul e Elizabeth encenam “a lenda da eterna juven­
tude” até sua morte prematura com um tiro de revólver e overdose de ópió.
Os correspondentes do par na vida real foram Jean e Jeanne Bourgoint, que
estavam seguindo o mesmo caminho de Raymond Radiguet: indo para o túmulo
antes da hora. Convertendo o par em Paul e Elizabeth, Cocteau observou como
a exploração íntima da adolescência, sem o controle dos adultos, está condenada
272 | 1919-1929
ao fracasso, pois “olhar para dentro exige autodisciplina, e isto eles não tinham.
A escuridão primordial - fantasmas de sentimentos - foi tudo o que eles encon­
traram.”
Partindo de uma experiência amarga, Cocteau compreendeu a contracorrente
sedutora, autodestrutiva, do culto excessivo à juventude: o efeito deformador da
infância prolongada, a atração romântica da morte, a incapacidade de fazer a
transição para a idade adulta. Les enfants terribles foi uma parábola de advertência
que também encorajava a emulação de seus entusiasmados leitores jovens. Apesar
de estar condenados, Paul e Elizabeth eram também magnéticos: “Espíritos de­
licados como a superfície dos cardos, trágicos, de partir o coração em sua eva-
nescência, eles seguem flutuando para a perdição. E, no entanto, tudo começou
inocentemente, em jogos e risos infantis.”
Por volta de 1929, muitos líderes da cultura jovem hedonista tiveram mortes
prematuras. Bebidas e drogas foram responsáveis: ambas tinham sido usadas em
excesso numa tentativa de eternizar as festas, congelar a parábola para sempre
no seu zênite. Venenos ilegais acabaram com muitos jovens americanos, mais
notadamente o astro cornetista Bix Beiderbecke, enquanto o vício da heroína
transformou Brenda Dean Paul na drogada mais famosa da Grã-Bretanha. Jeanne
Bourgoint morreu de uma overdose de barbitúricos em dezembro de 1929, en­
quanto muitos outros, como Scott Fitzgerald e Brian Howard, iniciaram uma
eterna batalha contra o alcoolismo.
Ainda mais dramático foi o destino daqueles que não podiam mais acom­
panhar a constante aceleração. Sejam de Brenda Dean Paul, Jean Cocteau, Scott
Fitzgerald, Michael Arlen ou Evelyn Waugh, quase todos os principais livros
sobre jovens do período incluem desastrosos acidentes de carro. Se a destruição
não era física, era mental. Como a Agatha Runcible de Waugh, Zelda Fitzgerald
terminou a década num sanatório, seu sistema nervoso engasgado numa marcha
forçada. Talvez o tombo mais dramático tenha sido o de Harry Crosby, que mor­
reu com sua amante num duplo pacto de suicídio em dezembro de 1929.
Naquela época, a cultura das festas havia sido superada pelos acontecimentos.
A queda do mercado americano de ações em outubro de 1929 foi uma conclusão
lógica da especulação maciça inspirada pelo governo. Uma febril valorização tor­
nou-se um vértice negativo que começou a atrair a América e a Europa para suas
próprias garras implacáveis. Entretanto, o mundo ocidental não mudou da noite
para o dia. Levou tempo para a economia causar impacto no dia a dia e, como
não havia precedentes para a Depressão, não havia expectativas de que ela fosse
ocorrer. Conforme a escritora britânica Ethel Mannin observou, “o espírito dos
anos 1920 continuou até o início dos 1930”.
A base econômica da sociedade de massa americana tinha sido muito abalada,
mas continuava potente. Na última das grandes distopias da era, Admirável mundo
EM BUSCA DO PRAZER | 273
novo, Aldous Huxley imaginava um pesadelo futuro dependendo da sedução e
do determinismo biológico e não da coerção brutal. Huxley pensava que o capita­
lismo no estilo americano prevaleceria, no mínimo porque explorava os gatilhos
psicológicos inerentes em todos os seres humanos. Assim como Bernays havia
sugerido, o punho de ferro do controle social total estava revestido com a luva
de veludo do prazer.
O capitalismo, entretanto, permaneceria em estado latente durante os próxi­
mos anos, enquanto os piores efeitos da queda eram sentidos: fascismo e comunis­
mo viriam correndo preencher o vazio. Depois da morte de Gustav Stresemann,
em outubro de 1929, a primeira arena nesta batalha seria uma Alemanha cada
vez mais desestabilizada. A juventude americanizada do país tinha sido desmasca­
rada como “os meninos de recados de uma era moribunda”, e o palco ficou aberto
para grupos de jovens pagãos e radicais políticos - os vários tipos de Bunde e*Wan-
dervogel a quem nunca agradaram o modernismo em geral e a República de
Weimar em particular.
Fossem os estudantes universitários americanos, os Bright Young People ou
o Woodcraft Folk, todos os movimentos juvenis da década de 1920 tinham sido
bem-sucedidos ao criar seus próprios mundos. Com isso, haviam lembrado a
indústrias, governos e ideólogos que a juventude era uma força social importante
demais para ser deixada por sua própria conta. Com osfasciti italianos, a juventu­
de já havia sido utilizada como a vanguarda de um novo tipo de política nacional.
Tendo demonstrado sua capacidade para determinar o futuro de nações, a juven­
tude se tornaria cada vez mais politizada no futuro.

274 | 1919-1929
FARTE V

1930-1939
CAPÍTULO 18

Os soldados de uma ideia


A Juventude Hitlerista
***
Com nossos estandartes hasteados, venha a nós Juventude
do Operariado Alemão, lutem conosco contra o velho sistema,
contra a antiga ordem, contra a velha geração. Nós somos os últimos
combatentes pela independência, lutem conosco pelo
socialismo, pela liberdade e por pão!
- Folheto emitido pela divisão Kiel da Juventude Hitlerista, verão de 1932

ADO LF HITLER INSPECION AN DO UMA FORMAÇÃO DA JUVENTUDE HITLERISTA


EM NUREMBERG, ALEMANHA, EM 1938, C O M RUDOLF HESS (DE GRAVATA)
E 0 LÍDER DA JUVENTUDE HITLERISTA, BALDUR VO N SCHIRACH (À DIREITA DE HESS)
N O D IA 30 DE JA N EIR O DE 1933, uma menina alemã chamada Melita Masch-
mann foi com os pais assistir a um desfile à luz de archotes que marcou a in­
dicação de Adolf Hitler para chanceler do Reich. A “sinistra sensação” daquela
noite em Berlim ficaria com ela para o resto dos seus dias: “As passadas com os
pés batendo no chão, a sombria pompa das bandeiras vermelhas e pretas, a luz
bruxuleante dos archotes nos rostos e as canções com melodia que eram ao mes­
mo tempo agressivas e sentimentais. Durante horas as colunas passaram em mar­
cha. Repetidas vezes, víamos entre elas grupos de meninas e meninos pouco mais
velhos do que nós mesmos.”
Escrevendo trinta anos depois, Melita Maschmann lembrou-se de si mesma
aos 15 anos de idade como buscando um “propósito fundamental”: “Naquela
idade, a gente vê uma vida de deveres escolares, passeios com a família e convites
para aniversários deploravelmente vazia de significado. Não se dá crédito a nin­
guém por estar interessado em mais do que essas ridículas trivialidades. Ninguém
diz: ‘Você é necessário para algo mais importante; venha!’ Quando se trata de
assuntos sérios, a gente nem conta. Mas os meninos e meninas das colunas em
marcha contavam. Como os adultos, eles carregavam estandartes onde estavam
escritos os nomes dos seus mortos.”
Melita fora criada para reverenciar os mortos pela guerra e amar a Alemanha
como algo misteriosamente ameaçado pela tristeza, algo infinitamente querido
e em perigo”, e os nacional-socialistas estavam “em harmonia” com este espírito.
Ela tambem foi atraída pela inclusão do povo”, personificado pela costureira
corcunda da família: Pois, desde que a conheci, ela usava uma suástica de metal
em relevo sob a lapela do seu casaco. Naquele dia ela a usava abertamente pela
primeira vez e seus olhos escuros brilhavam ao falar da vitória de Hider. Minha
mae não gostou. Ela achava muita pretensão pessoas pouco instruídas se preocu­
parem com política. Mas era exatamente por ser uma pessoa do povo que essa mu­
lher me atraía. Eu me sentia atraída por ela pela mesma razão que, no íntimo,
frequentemente eu tomava o partido das criadas contra a minha mãe. Percebo
agora que meu antagonismo a todas as manifestações de esnobismo burguês, que
adquiri cedo na vida, era alimentado por uma reação contra a minha educação
autoritária.”
A mãe de Melita “esperava de seus filhos a mesma inquestionável obediência
que exigia das criadas ou do motorista do meu pai. Esta atitude me levou a uma
rebeldia que ia além da rebelião puramente pessoal da adolescência e era direcio­
nada contra os valores burgueses que meus pais representavam”. O fato de seus
pais assistirem a este desfile com “uma rajada gélida” de reserva só duplicou seu
desejo de seguir um caminho diferente daquele conservador prescrito para mim
pela tradição familiar”.
278 | 1930-1939
Entretanto, essas razões reconhecidas abertamente empalideciam diante das
avassaladoras emoções evocadas pelo evento. “Eu queria me atirar naquela cor­
rente, submergir nela e ser transportada junto com ela”, Melita lembrou mais
tarde. “‘Pela bandeira estávamos prontos para morrer’, os portadores dos archotes
tinham cantado. Não era uma questão de roupas, alimento ou redações escola­
res, mas de vida e morte. Para quem? Para mim também? Não sei se me fiz esta
pergunta naquele momento, mas sei que fu.i tomada por um ardente desejo de
pertencer a esse povo para quem isso era uma questão de vida e morte.”
Essa era exatamente a reação que Hitler desejava. Como os fascisti de Mus-
solini, os nazistas subiram ao poder evocando uma abstração de juventude como
um agente ativo de mudança e realmente mobilizando os jovens por meio da
mística de conflito, ação e pertencimento. Grandes montagens como o desfile
de 30 de janeiro eram destinadas a influenciar as emoções de jovens descontentes
como Melita Maschmann: “Eu queria escapar da minha estreita vida infantil e
me apegar a algo que fosse grande e fundamental. Este anseio eu compartilhava
com inúmeros outros contemporâneos meus.”
No fim de 1933, quase 3,5 milhões de jovens alemães ingressariam na Ju­
ventude Hitlerista. Isto em parte devido ao sistema de coerção montado pelo novo
regime, mas os nazistas também aproveitaram “o antagonismo entre as gerações”.
O ingresso na Juventude Hitlerista dava aos adolescentes sem objetivo da Alema­
nha um propósito na vida e poder contra seus pais, que estavam, provavelmente,
identificados com a desprezada República de Weimar. Como o líder da Juventude
Hitlerista Baldur von Schirach afirmou: “De um ponto de vista nacional-socia-
lista, o jovem está sempre certo.”
Pois a juventude estava na essência da visão revolucionaria dos nacional-so-
cialistas. Em uma entrevista, em janeiro de 1933, o novo governante da Alemanha
expôs seus planos para o futuro: “Estou começando com os jovens. Nós que so­
mos mais velhos estamos desgastados. Estamos apodrecidos até a medula. Não
nos resta nenhum instinto incontrolável. Somos covardes e sentimentais. Estamos
carregando o peso de um passado humilhante e temos no nosso sangue o melan­
cólico reflexo da servidão e da subserviência. Mas os meus magníficos jovens! Exis­
tem melhores em algum outro lugar do mundo? Vejam estes rapazes e meninos!
Que material! Com eles eu posso construir um novo mundo.”
***
O craque de 1929 acelerou a chegada da sociedade de massa no norte da Europa.
Os defensores do capitalismo haviam trombeteado a capacidade da produção
em massa de mudar “toda a ordem social , mas deixaram de prever o seu inverso.
Quando funcionava, tudo estava ótimo: os salários eram mais altos, os preços
OS SOLDADOS DE UMA IDEIA | 279
mais baixos, os padrões de vida em massa subiam. Mas, quando as coisas não
funcionavam, as conseqüências eram desastrosas. Conforme cresciam as filas de
desempregados durante o ano de 1931, ficou evidente que o prejuízo era sistêmico.
Dali por diante, a inclusão em massa iniciada pela explosão da década de 1920
seria conduzida pela política.
O fato mais importante na “vida pública na Europa” no início da década de
1930 foi, como José Ortega y Gasset observou no seu polêmico A rebelião das
massas, a ascensao das massas ao total poder social”. Entretanto, esta nova era
tinha o seu próprio impulso totalitário: “Como dizem nos Estados Unidos, ser
diferente é ser indecente. A massa esmaga tudo que é diferente, tudo que é ex­
celente, individual, qualificado e seleto. Qualquer um que não seja todo mundo,
que não pense como todo mundo, corre o risco de ser eliminado.”
Como as distopias para as quais a década anterior havia alertado, os anos
1930 exaltariam o indivíduo que se submetesse à massa. Eu não era mais eu, mas
apenas um entre milhões: o ideal da Juventude Hiderista, como Baldur von Schi-
rach afirmou em 1934, era o soldado individual de uma ideia”. Embora o povo
parecesse estar dominando a política na Europa, as verdadeiras alavancas do po­
der continuavam nas mãos de uma elite, que começava a usar os princípios da
propaganda desenvolvidos durante a década de 1920 para dar um brilho populista
a autocracia. Ao mesmo tempo, os métodos de controle social desenvolvidos nos
anos 1920 continuaram num nível constante.
Apesar do descredito do capitalismo americano, o consumismo continuava
sendo extremamente útil para regimes de todos os matizes: ajudando a acalmar
inquietações maiores nas democracias ocidentais, adoçando a pílula de terror
nos Estados totalitarios. Mas sob a ilusão de poder das massas jazia a subjugação
das massas, com os concomitantes efeitos psicológicos de infantilismo, raiva e
violência. Na verdade, muitos acontecimentos da década exemplificariam a mal­
dição de Gustave Le Bon: A multidão é um rebanho servil incapaz de viver sem
um mestre.”
A política passou a ser a nova religião de massa e a polarização, â sua comu­
nhão. A luta entre comunismo e fascismo tornou-se a “luta entre as forças do
bem contra as forças do mal no mundo. Pensamentos em branco e preto vêm
facilmente à mente adolescente, não corrompida pela morte, pela idade ou por
compromissos, e na verdade oferecem a certeza bem-vinda do impulso religioso.
Em muitos relatos contemporâneos e histórias de jovens na década de 1930 da
Alemanha, Grã-Bretanha, França - e até da América todos faziam a mesma
pergunta: de que lado você está?
Os membros mais visíveis da geração da década de 1920 tinham sido céti­
cos, movidos pelo prazer e materialistas. Em contraste, aqueles que atingiram a
maioridade na década de 1930 foram mobilizados por uma agenda massacrante:
280 | 1930-1939
derrubar o capitalismo. Entretanto, estes impulsos juvenis teriam sérios e perma­
nentes efeitos: conforme utopias contrastantes tornavam-se ideologias nacionais,
os riscos eram maiores e impiedosamente impostos. As grandiosas ideias anteriores
a 1914, tao desacreditadas pela Grande Guerra, retornavam, vingativas.
Fosse de esquerda ou de extrema direita, a política tinha uma qualidade mís­
tica no início da década de 1930, exigindo a submersão do ego individual no ideal
coletivo: o sacrifício descrito pelo poeta Louis MacNeice como “realização pessoal
pela abnegação do eu”. Este impulso sincero e idealista, entretanto, seria canalizado
para as duas ideologias totalitárias opostas da era. A ironia era que estes inimigos
mortais teriam a mesma crença fundamental: nós queremos a mesma coisa... um
novo sistema.
Em nenhum país europeu estas escolhas foram mais severas do que na Alema­
nha. Com a economia em queda livre e o desemprego crescendo, o governo de
Weimar estava arrasado. O ressentimento público encontrou sua expressão nas
eleições para o Reichstag em setembro de 1930, onde os social-democratas go­
vernantes foram superados em número pelos comunistas e nacional-socialistas.
Esta eleição anunciou a chegada dos nazistas como um partido político sério e
deu legitimidade ao que tinha sido anteriormente considerado como pouco mais
do que um grupo terrorista marginal.
Antes do craque, as tentativas dos nacional-socialistas de organizar a geração
mais jovem não haviam tido muito êxito. Instituída nos meados dos anos 1920,
a Juventude Hitlerista não tinha se integrado com o Bunde predominante: eram
pouco mais do que pugilistas de rua. Depois da indicação de Baldur von Schirach
para líder em 1928, a Juventude Hiderista atraiu a classe média recém-empobre-
cida. Ela se tornou uma organização paramilitar dedicada a conquistar o apoio pú­
blico com amplos desfiles pelas grandes cidades, com a violência suscitada por esses
acontecimentos oferecendo um grande incentivo para os jovens e os inquietos.
O fracasso do capitalismo tinha deixado o palco livre para seus rivais no tea­
tro do controle de massa. Dirigidos por Moscou, os comunistas alemães visavam
a nada menos do que uma declaração óbvia de intenções com o capitalismo. No
outro polo, os nacional-socialistas estavam fortemente influenciados pelo governo
fascista de Mussolini que já durava uma década.1“A camisa marrom provavelmen­
te não teria existido sem a camisa negra”, Hitler afirmou em 1932, e ele copiou
muita coisa dos fascisti: a construção do Estado com um só partido, os uniformes
codificados por cores militaristas, a simultânea arregimentação da juventude.

1 Mussolini havia prestado juramento como o primeiro-ministro mais jovem da Itália em outubro de 1922, aos
39 anos de idade.

OS SOLDADOS DE UMA IDEIA | 281


Combinando xenofobia e misticismo racial com o poder hipnótico da mídia
de massa, o líder do partido, Adolph Hider, começou a sua campanha para con­
quistar a geração mais jovem da Alemanha. Depois da eleição de 1930, o pro­
grama de envolvimento nacionalista dos nacional-socialistas, embalado como
um movimento de massa quase religioso, oferecia o compromisso em oposição à
alienação. Os suicídios entre os jovens estudantes secundários continuavam sendo
um problema nacional como tinham sido na década de 1890, e o apelo do par­
tido para a ação direta atraía um grande segmento da juventude alemã que se
mostrava hostil à democracia e entediado com a falta de esperança.
Diante dessa polarização, os pretensos líderes do movimento juvenil tentaram
em vão estabelecer um contrapeso democrático ou centrista. O maior de todos
os Bunde independentes, o Deutsche Freischar, falhou em criar um partido de
centro forte nas eleições de 1930. Além das organizações políticas de partido de ex­
trema esquerda e direita, havia muitos grupos paramilitares que, em sua confiança
na disciplina militar, na teoria võlkische e na retórica contrária a Weimar, tendiam
para a direita do espectro, como por exemplo os jovens protestantes e os escoteiros.
Esse momento crucial foi analisado pelo grupo conservador Die Tat num
panfleto de 1931 intitulado Ondefica a jovem geração? Scu autor, Ernst Wilhelm
Eschmann, criticava a obsessão política da Alemanha com a juventude como
“uma fórmula mágica”. Mas este misticismo juvenil era em última análise um
ardil da parte dos idosos do país para negar aos jovens o seu lugar por direito na
vida nacional. Esta disparidade entre retórica e realidade tinha causado um conflito
entre gerações que deixara “uma grande quantidade de jovens desorganizados”.
O impulso antidemocrático que sustentava uma boa parte do movimento
juVenil alemão começou a dar seus amargos frutos. Incentivados pelo sucesso
eleitoral de 1930, os nazistas realizaram uma bem-sucedida campanha de terror
contra o filme produzido pelos americanos baseado no livro de Erich Maria Re­
marque, Nada de novo nofront. Com suas firmes descrições do horror da guerra,
esta história revisionista era um anátema para a extrema direita. Em dezembro
de 1930, um grupo de nazistas interrompeu a estreia. Temendo mais violência,
as autoridades proibiram o filme: para os observadores alarmados, esta capitulação
à força bruta abriu um sinistro precedente.
***
Violência funcionava. Para muitos jovens alemães, a guerra era preferível à paz:
segundo Sebastian Haffner, Hider prometia “o renascer do jogo da Grande Guerra
de 1914-1918”, e o apelo a esta grande experiência tocou numa corda ressonante.
Durante aquele ano, os números referentes ao desemprego chegaram a 5 milhões,
e os adolescentes foram seriamente afetados. Somando um total de 7 milhões de
282 | 1930-1939
eleitores em potencial, os jovens da Alemanha tinham um poder político sem
precedentes. A corrida ia conquistar seus corações. Visitando a Alemanha logo
depois das eleições de agosto de 1932, o jornalista francês radical Daniel Guerin
sentiu que o país já tinha se “passado para o lado dos nazistas. A epidemia havia
se espalhado”.
Guerin partiu para sua longa excursão de mochila nas costas pela Alemanha
naquele momento crucial. Como um socialista revolucionário com quase trinta
anos, ele começava a ter esperanças: “Talvez eu finalmente me encontrasse no
centro da ação nesta jovial, moderna e dinâmica Alemanha que eu havia admirado
sem cessar desde a infância. Era aqui que o socialismo triunfaria, ou em nenhum
outro lugar mais. Foi aqui que a melhor e mais educada classe operária do mun­
do tinha adquirido forma. Aqui as tensões econômicas e sociais tinham chegado
a um ponto de extrema tensão.”
O francês foi atraído pela camaradagem despreocupada do Wandervogel
que ainda persistia no início da década de 1930. Na sua primeira noite na Ale­
manha, ele entrou num albergue da juventude cheio de “jovens entre 15 e vinte
anos, de cabelos louros, vozes viris e rostos determinados. Camisas esporte cáqui
ou verdes, de mangas arregaçadas, revelavam antebraços bronzeados. Joelhos es­
culpidos emergiam de shorts de veludo cotelê ou de couro, muitas vezes sustenta­
dos por um par de suspensórios tiroleses com uma larga tira retangular de couro
formando uma espécie de ponte entre os peitorais. As pernas eram fortemente
bronzeadas, os músculos, tensos e duros”.
Havia tendências ocultas, entretanto. Guerin pegou o livro de visitantes do
albergue e encontrou “esta nota ignorada: ‘Favor manter longe deste livro as suas
opiniões políticas/ No entanto, folheando o livro, a política jorrava de todas as
páginas. A política atormentava esses jovens a ponto de serem incapazes de re­
sistir, apesar do ambiente neutro do albergue. Alguém havia escrito: ‘Trabalha­
dores do mundo, uni-vos!’ Mas outra mão obliterara o apelo com um violento
golpe de caneta. Em outra página, as três setas socialistas perfuravam a suástica”.
A comunidade juvenil de andarilhos anteriormente apolítica havia rachado
irrevogavelmente. A grande sala comum do albergue girava em torno de duas
facções adversárias, cada uma cantando para a outra, “como se às vésperas de
uma batalha”. Um dos combatentes explicou: “No fundo queremos a mesma
coisa... um novo mundo, radicalmente diverso do mundo de hoje, que não des­
trua mais café e trigo enquanto milhões de pessoas passam fome, um novo sistema.
Alguns acreditam firmemente que Hider proporcionará isto, enquanto outros
acham que será Stálin. Esta é a única diferença entre nós [itálicos no original].”
Continuando sua viagem, Guerin percebeu que a juventude alemã estava
perdida e amargamente dividida. O ideal Wandervogel havia se convertido em
irremediável vagabundagem: “Meio milhão de jovens desempregados vagavam
OS SOLDADOS DE UMA IDEIA | 283
pelas estradas. Eles não tinham direito a assistência social, na maioria das vezes
porque pelo menos um da sua família ainda estava trabalhando. Cansados de
ficar girando os polegares sem nada para fazer nos seus tristes bairros de classe
operária e de ser um peso para suas famílias, partiam todas as primaveras e an­
davam pelos bosques até o fim do outono. Alguns vinham perambulando assim
havia vários anos.”
Apesar de suas crenças políticas, Guerin sentia que o “paciente argumento”
de esquerdistas e centristas, igualmente, tinha poucas chances entre as agitadas
forças elementares num país “dilacerado”. Isso era ilustrado de forma dramática
pela tribo de jovens mais surpreendente que ele viu durante os seus dois meses
de viagem: “uma trupe estranha” encontrada por acaso nos arredores de Berlim.
Apesar de superficialmente se parecer com o usual Wandervogel, esse “Grupo
Selvagem de jovens sem teto era muito valentão’. Eles tinham a expressão de­
pravada e perturbada de desordeiros”.
Eles usavam uma roupa bizarra com chapéus coco ao estilo de Chaplin, “cha­
péus de velhas com as abas viradas para cima à moda das amazonas, enfeitados
com plumas de avestruz e medalhas”, e “lenços ou echarpes em cores berrantes”.
Suas orelhas eram furadas com “pingentes ou anéis enormes”, enquanto seus cal­
ções curtos de couro eram “transpostos por imensos cintos triangulares - também
de couro —, ambos manchados com as cores do arco-íris, números esotéricos, per­
fis humanos e inscrições como Wildfrei [selvagens e livres] ou Rãuber [bandidos]”.
Os Grupos Selvagens tinham começado no caos da Grande Guerra e se mul­
tiplicado com a inflação do pós-guerra e o desemprego pós-craque. Completa­
mente livres do controle dos adultos, essas “Gangues de Jovens do Anel” cresciam
como mato nos distritos localizados na parte externa de Berlim e ligados por um
anel concêntrico de avenidas. Conforme o número de milhares de jovens sem
teto inchava, esses adolescentes - na maioria com idades entre 16 e 18 anos -
organizavam-se numa sociedade tribal que rejeitava totalmente a moral civilizada.
Eles voltaram o seu ódio para a sociedade que os havia abandonado.
Os nomes que os Grupos Selvagens escolhiam ilustravam seu “instinto desen­
freado”: “Sangue dos Tártaros, Sangue dos índios, Sangue dos Cossacos, Crime
Selvagem, Terror das Garotas, Apaches Vermelhos, Amor Negro, Carcaças San­
grentas, Piratas da Floresta e Beberrões de Schnapps.” Sem nenhum salário legal
ou sustento do Estado, estes Wildfrei viviam da prostituição homossexual, do rou­
bo de carros e do roubo em geral. Compostos de ambos os sexos - “caras selvagens”
e “vaca da gangue” -, os grupos cobravam contribuições financeiras regulares
para sustentar camaradas em dificuldades com a polícia.
Ritos de iniciação secretos —violentas e sádicas orgias grupais —expunham
a verdadeira selvageria dos Grupos Selvagens. Vivendo totalmente à margem da
sociedade, eles podiam dar livres rédeas à exuberante sexualidade adolescente para
284 | 1930-1939
a qual sucessivas gerações de especialistas em jovens haviam alertado. Guerin
concluiu que eles representavam um “retorno espontâneo ao barbarismo. Civili­
zação, afinal de contas, não passa de um verniz muito fino, recente e frágil”. Ele
sentiu “uma verdadeira ansiedade: quem soubesse como disciplinar estes apaches
mascarados poderia fazer deles verdadeiros bandidos”.
Os Grupos Selvagens representavam apenas a forma mais extrema do abando­
no coletivo da racionalidade empreendido por sua geração. As raízes da demo­
cracia não eram profundas: a República de Weimar tivera 13 anos de existência,
e, com os 17 governos durante esse tempo, raramente alcançara a estabilidade.
Mesmo durante a relativa calma da era Stresemann, ela havia visivelmente falhado
em conquistar o apoio de um segmento significativo de jovens da Alemanha, que
tinham crescido viciados em crise e conflito.
Weimar falhara em erradicar estruturas e atitudes imperiais. As universidades
eram inequivocamente hostis à democracia, como eram os agrupamentos juvenis
militaristas e religiosos tradicionais. Como três quartos de toda a juventude ale­
mã haviam passado por um ou outro desses grupos, sua influência era enorme.
Educados numa dieta cultural de nacionalismos metafísicos e sacrifício quase re­
ligioso, ansiando por uma ressurgência da grandeza imperial da Alemanha, a
ressentida classe de 1918 se preparava para vingar a derrota que havia acompa­
nhado seu nascimento.
A propaganda nazista era projetada para explorar esse anseio de arregimen-
tação mística, vingativa. O partido especializou-se em espetaculares comícios de
massa, como o evento triunfal de outubro de 1932, em Potsdam. Em vez da es­
perada multidão de 20 mil pessoas, mais de 100 mil rapazes e moças se congre­
garam nos arredores de Berlim, abarrotando as agências de viagem. Eram tantos
que a revista de tropa dos meninos durou das 11 horas da manhã até as seis da
tarde. Até os observadores não partidários ficaram impressionados, enquanto que
os participantes ficaram enaltecidos ao ver que faziam parte de um todo inespe­
radamente grande.
O encanto que a natureza ultrarritualizada dos eventos nacional-socialistas
exercia sobre o jovem foi resumido no popular romance nazista Hitlerjunge Quex.
Atravessando a pé uma clareira na floresta, o jovem herói depara com “um círcu­
lo de pessoas jovens” que parecia se estender “até o fim do mundo. Bem em frente
dele, enfileirados, havia jovens como ele. Cada um portava um longo mastro com
um penacho, subindo verticalmente até o céu, penachos negros e vermelhos bri­
lhantes, com símbolos recortados no campo do pano. Cada um dos jovens parecia
igual a todos os outros”. Em vez de horrível, o narrador achou isso inspirador.
A bem-sucedida versão desse romance para o cinema reforçou tal impulso
de sacrifício. Recriando a ascensão dos nazistas ao poder durante o ano de 1932,
o filme dramatizava a história do menino de 12 anos Herbert Norkus, preso
OS SOLDADOS DE UMA IDEIA 285
pelos comunistas no distrito de classe operária de Wedding “Vermelho” quando
estava colando panfletos nazistas. Seus atacantes o esfaquearam cinco vezes nas
costas, duas no peito e mutilaram seu rosto a ponto de deixá-lo irreconhecível.
Isso se converteu na parábola de um mártir: as últimas imagens de Hitlerjunge
Quex mostravam o jovem moribundo reafirmando a sua fé antes que a câmera
cortasse para as ondas da Juventude Hitlerista em marcha.
Apesar do seu reconhecido ódio pelo modernismo, os nazistas haviam estuda­
do cuidadosamente as experiências americanas com o controle de massa: Guerin
observou em 1932 que “toda a Alemanha havia perdido a cabeça com ilusões de
grandeza no estilo americano”. Eles não deixaram de desenvolver melhor as teo­
rias sobre a propaganda de massa de Bernay: na verdade, eles elevaram o conceito
ao de um fundamental agente de controle social, criando um ministério para tratar
do assunto. Esta seria uma das peculiaridades do seu regime que personificava
um aparente paradoxo: a combinação de tecnologia de ponta junto com noções
bárbaras de raça e coerção social.
A propaganda nacional-socialista dispôs dos pontos que os pioneiros da
manipulação de massa americana foram obrigados a colocar no lugar pelo seu
sistema democrático. A invocação pura e simples de emoções nacionalistas e for­
ças místicas pelo partido dava-lhe uma vantagem na amarga luta pelo poder no
fim de 1932 e início de 1933, pelo menos em relação ao apelo que exercia jun­
to à juventude. O fascínio ilegal que atraía os jovens foi aumentado pelas proi­
bições de Weimar às organizações nacional-socialistas, inclusive a Juventude
Hitlerista. A ideologia deu aos seguidores da classe operária do partido um tem­
pero extra nas suas brigas territoriais de rua com os comunistas.
No início de 1933, a Juventude Hitlerista, com mais de 100 mil membros,
era numericamente mais forte do que as organizações juvenis comunistas e social-
democratas combinadas —com uns 80 mil, mais ou menos - mas era de longe
superada pelos grupos conservadores de jovens, que podiam reunir mais de um
quarto de milhão de membros. Se os grupos de jovens não nazistas tivessem se
unido, a Juventude Hitlerista teria tido uma luta nas mãos. Mas houve um lento
desvio de agrupamentos de jovens protestantes e de direita para a Juventude
Hitlerista. Para muitos jovens alemães, o comunismo era abominável: os nazistas
eram a escolha menos pior.
Eles também ofereciam esperança e estrutura para uma geração de adolescen­
tes que havia crescido dentro de uma instabilidade social e política que parecia
permanente. A retórica de autossacrifício e disciplina dos nacional-socialistas
também se inspirava nos fortes arquétipos alemães: o mito do guerreiro de Fre­
derico, o Grande; o medievalismo do Bunde cultuado por muitos grupos Wander-
vogel; o autossacrifício até a morte dos cruzados exaltados pela batalha de Lan-
gemarck. Se românticos como Hõlderlin haviam lamentado o desmembramento
286 | 1930-1939
dos jovens alemães, então os nazistas tornariam fortes e íntegras tanto a nação
quanto a juventude.
Em circunstâncias desesperadoras, o fascínio da irracionalidade e do simples
poder era muito forte. Quando Hitler chegasse ao poder, não haveria dissidentes:
não haveria lugar para aqueles que não compartilhassem da sua visão para esse
novo mundo que, como o de muitos adolescentes e fanáticos religiosos, era co­
lorido estritamente em termos de branco e preto: a favor ou contra. Depois do
incêndio do Reichstag, em fevereiro de 1933, que muitos acreditaram ter sido
provocado pelos próprios nazistas, os nacional-socialistas lançaram uma blitzkrieg,
uma guerra-relâmpago, que, em julho, teria conseguido tornar ilegal e intimidar
quase toda a oposição.
Em março, foram conferidos a Hitler poderes de emergência que, segundo
Sebastian Haffner, “aboliam a liberdade de expressão e o sigilo de correio e te­
lefone de todos os indivíduos e dava à polícia direitos irrestritos de busca e aces­
so, confisco e prisão”. Depois de uma nova bateria de eleições, Hitler aboliu o
partido comunista do Reichstag e aprovou o Ato Institucional, a lei dos plenos
poderes, que efetivamente matou a democracia alemã. Uma semana depois, no
dia lfi de abril, o boicote e o pogrom de judeus começou. Ao mesmo tempo, a
polícia secreta do regime, a Gestapo, foi se formando.
Durante a primavera e o início do verão, sindicatos trabalhistas foram ocupa­
dos, as greves, proibidas e, finalmente, o partido social-democrata foi abolido.
O Instituto de Ciências Sexuais do dr. Magnus Hirschfeld foi saqueado e todo o
seu conteúdo, incluindo milhares de livros, queimado em imagens que correram
o mundo. Esses atos oficiais foram acompanhados por uma sistemática campanha
de terror: espancamentos, fuzilamentos, prisões sem julgamento e campos cons­
truídos às pressas. Áreas inteiras ocupadas pela classe operária foram isoladas
com cordões e limpas, mais notadamente distritos esquerdistas como Altona,
em Hamburgo, e Wedding, em Berlim.
Essa combinação de legalidade e violência era sustentada pela tecnologia
recente. O rádio foi o principal instrumento do ministro da Propaganda Joseph
Goebbels e era incansável, com “uma interminável música de marchas e tambo­
res” trombeteando pelos alto-falantes colocados nas esquinas das ruas. Meses
depois da ascensão de Hitler ao poder, tornava-se evidente que a Alemanha
nazista era um novo tipo de Estado que visava ao controle total sobre todos os
seus súditos. Deveria haver um completo compromisso público com a comunida­
de nacional em todos os momentos e nenhuma vida permitida fora das incessantes
exigências do regime.
A maioria dos alemães concordou logo: o ótimo tempo e as constantes celebra­
ções de março de 1933 levaram tanta gente para o partido que elas foram ironi­
camente chamadas por saudosistas, de “Violetas de Março”. Em uma postura de
OS SOLDADOS DE UMA IDEIA 287
crescente oposição, Haffner analisou as razões para esse “colapso nervoso elevado
a um milhão de vezes”: “A razão mais simples e, olhando melhor, quase sempre a
mais básica, era o medo. Una-se aos bandidos para não apanhar. Não tão evidente
era um tipo de excitação, a embriaguez de unidade, o magnetismo das massas.” No
final, havia o desejo de “fazer parte de um notório sucesso”.
Quando Daniel Guerin voltou à Alemanha, em abril de 1933, viu confirma­
dos os seus maiores temores. Entrando num albergue da juventude “repleto de
filhos e filhas do proletariado de Esse”, ele foi “tratado com um arrogante desdém”.
Em vez das velhas cantigas de liberdade ouviam-se hinos militaristas que falavam
de “tropas de assalto em marcha”. Ele conheceu alguns resistentes do Wandervogel
que lhe disseram que os nazistas iam “perseguir os músicos e mendigos sem mise­
ricórdia”. Era, ele mais tarde escreveu, o fim de um sonho: “Em breve, o rouxinol
emudecerá na sua gaiola: na Alemanha ocidental, só se ouvirá o som das botas.”
***
Este prognóstico foi realmente preciso. A juventude teve um lugar especial na ideo­
logia nazista. Percebendo que havia muitos nascidos e criados durante a Weimar
que não entregariam o seu “mais íntimo ser” à revolução nazista, Hider partiu para
doutrinar a geração seguinte, aquela cujos valores ainda não estavam formados.
Como ele afirmou em 1933: “Quando um adversário diz ‘Não vou para o seu
lado’, eu calmamente digo ‘Seu filho já nos pertence... Vocês passarão. Seus descen­
dentes, entretanto, estão agora num novo campo. Em pouco tempo eles não co­
nhecerão outra coisa a não ser esta nova comunidade1.”
Assim como as tropas de assalto calaram à força toda a oposição política, do
mesmo modo a Juventude Hitlerista começou a atacar o movimento juvenil ale­
mão antes vibrante e diverso. Inicialmente, muitos jovens líderes pensaram que
seria possível se entender com o novo regime. No dia 27 de fevereiro de 1933,
duzentos representantes de grupos jovens de todo o espectro político - nazistas,
comunistas, escoteiros vermelhos e juventude socialista - encontraram-se na es­
tação Stettiner, em Berlim, para tentar encontrar algum modus vivendu Mas isso
foi logo cortado pela raiz pela repressão que se seguiu ao incêndio do Reichstag
naquela mesma noite.
O objetivo imediato do líder da Juventude Hitlerista, Baldur von Schirach,
era atrair o maior número possível de adolescentes alemães para o sistema de Es­
tado monopolista. Muitos dos agrupamentos juvenis apolíticos tentaram resistir
a essa ação formando uma nova organização mista chamada Grande Liga Alemã,
mas até esta foi dissolvida em junho. Só o religioso Bunde se manteve: as organiza­
ções protestantes fundiram-se com a Juventude Hiderista em dezembro de 1933,
288 | 1930-1939
enquanto, graças a um acordo com o Papa Pio XI, os grupos de jovens católicos
permaneceram paralisados, embora sob forte pressão, até 1939.
Sob sua aparência epicena, von Schirach era um bom organizador. Em junho
de 1933, foi promovido de líder juvenil da Juventude Hitlerista para líder juvenil
da Alemanha. A implicação era intencional. A Juventude Hitlerista tinha se tor­
nado a única atividade permitida para os adolescentes alemães, e qualquer ato
contra a organização juvenil e oficial do Estado era um ato contra o Estado. Ao
mesmo tempo, o ingresso era algo obrigatório para várias profissões - como a de
professor ou de advogado - e uma preferência para empregos em geral. Num país
onde grassava o desemprego, as necessidades econômicas eram tão convincentes
quanto a ideologia política.
Havia muitas razões para ingressar na Juventude Hitlerista: a coerção de pares
e do Estado, as pressões financeiras, a crença na ideologia nazista, ou então o sim­
ples desejo de pertencer. E os jovens alemães ingressaram, em massa: os números
subiram de 108 mil, no início de 1933, para quase 3,6 milhões no fim do ano.
Baldur von Schirach imediatamente se dispôs a criar uma nova estrutura para a
organização que se expandia. Ambos os sexos foram agrupados por idade: meninos
com menos de dez anos eram Pimpfs, dos dez aos 14 eram Jungvolk, entre 14
e 18 eram Hitlerjugend. As meninas dos dez aos 14 estavam na Jungmãdel, e
entre os 14 e 18, no Bund Deutscher Mãdel.
A liderança da Juventude Hitlerista tinha uma hierarquia piramidal, com
von Schirach no topo. Abaixo dele ficavam cinco Obergebiete regionais, e mais
abaixo 21 Gebiete, subdivididos em seis níveis. Na base ficavam os Schafts, grupo
de 15 jovens que respondiam ao seu líder, que por sua vez respondia ao nível logo
acima dele. Este sistema era uma réplica da hierarquia mais ampla do partido
nazista: uma ordem lógica e imposta impiedosamente na qual os jovens eram
treinados desde pequenos. Quando chegavam à maioridade, ela estaria tão enrai­
zada a ponto de tornar a resistência impensável, se não impossível.
Tanto Hider quanto von Schirach imaginaram um sistema de controle do
berço-ao-túmulo para os jovens da Alemanha. A Juventude Hitlerista enxertou
no militarismo arregimentado dos primeiros escoteiros de Baden-Powell a mania
do país por categorizações e a tendência nazista ao totalitarismo. Cada recruta fi­
cava preso à organização por um juramento que, ao invocar Deus, tornava a trans­
gressão ainda mais grave. Depois da iniciação, o neófito submetia-se a um período
de testes que durava de dois a seis meses e terminava com um exame incluindo
esportes, luta corpo-a-corpo e um questionário sobre a história do partido.
Uma vez iniciado, o jovem hitlerista recebia uniformes que reforçavam a
homogeneização que o regime exigia de seus participantes. A vestimenta básica
masculina parecia o uniforme do soldado da tropa de ataque com sua camisa
marrom e braçadeira com a suástica, calções pretos, sapatos pretos e boné de
OS SOLDADOS DE UMA IDEIA | 289
trincheira. As meninas calçavam sapatos pesados para marchar, vestiam blusas
brancas, saias azuis e lenços de pescoço de algodão com argolas trazendo a insígnia
do grupo. As únicas diferenças permitidas eram os distintivos de privilégio e as
insígnias que variavam de acordo com o ramo das forças armadas a que o grupo
em particular estivesse ligado.
Horas de esportes, exercícios físicos e treinamento militar diárias eram a es­
sência da vida da Juventude Hitlerista. No seu livro Schoolfor Barbarians, Erika
Mann citou um manual de 1933 incluído no currículo da Juventude Hitlerista
que incluía “esporte pacífico” como “o lançamento de bombas”. Daniel Guerin
alertou que “uma geração está abertamente se preparando. Livre do serviço mili­
tar compulsório, ela acha divertido brincar de soldados marchando pelas estradas,
de mochila nas costas, avançando como se fosse para um conflito, abraçando o
chão em exercícios de campo e batendo em panelas velhas para alertar a população
urbana para ataques aéreos”.
A doutrinação militar começava cedo. Como um escolar lembrou, “grande
parte das nossas leituras nas aulas de alemão era literatura sobre guerra mundial.
Mas nós também a devorávamos por nossa própria conta”. Ele lembrou que a
maioria desses livros tratava da “camaradagem no fironf e das mortes heróicas
em ação, mas havia variações: “O herói do movimento juvenil, o sensível anda­
rilho entre dois mundos’; o incansável lutador das ‘bestiais hordas bolcheviques;
ou o que despreza a humanidade, o cavalheiro em armadura tecnológica, o
aristocrático herói da pirataria do século XX de Storm of Steel”
Os nazistas acrescentaram uma constante rotina de atividades esportivas a
um currículo que se baseava no aprendizado por repetição e na obediência cega.
A base racional para isto foi declarada no manifesto de Hitler, em 1927, Mein
Kampfi “O Estado Võlkisch tem de ajustar seu trabalho educacional não apenas
para a doutrinação do conhecimento mas, em primeiro lugar, para a produção
de corpos fisicamente sadios até a medula. O desenvolvimento de capacidade
intelectual é secundário. Mas aqui, outra vez, deve se dar prioridade ao desenvol­
vimento da força de vontade e decisão, combinado com um treinamento em pron­
tidão para assumir responsabilidades.”
A expressão perfeita deste ideal foi vista no filme de Leni Riefenstahl sobre
a Olimpíada de Berlim de 1936, Olympia. Numa sucessão de surpreendentes
tableaux, fileiras e fileiras de jovens louros, vestidos elegantemente com roupas
esportivas, bronzeados de sol, flexionados às centenas como um único corpo
musculoso, cintilante, idêntico. A doutrinação física começava para os jovens
alemães aos dez anos de idade, quando o futuro Jungvolk passava por um perío­
do de provação de seis meses marcado por testes difíceis que incluíam correr 60
metros em 12 segundos e participar de uma caminha de 36 horas. Isso era só o
começo.
290 | 1930-1939
O mito estava atrelado ao serviço do militarismo. O mais crucial era a ba­
talha de Langemarck. Cultuando a ideia de que a obediência às ordens era im­
portantíssima e que o autossacrifício era o ideal supremo, esta lenda foi adotada
ansiosamente pelos jovens educados no nazismo. O regime especializou-se na
pompa dramática e mística, e Triunfo da vontade atestava seu sucesso em criar
um ambiente onde marchas, cantos, música, iluminação, encenações e retórica
de grande intensidade combinavam-se num espetáculo do outro mundo, com
uma sobrecarga de energia.
Essas técnicas eram usadas também nas regulares iniciações para receber jo­
vens Pimpfs de ambos os sexos na Juventude Hitlerista. Esses importantes rituais,
que marcavam o fim da infância e da individualidade, eram com frequência rea­
lizados no dia 20 de abril, aniversário de Hitler, e em geral encenados num gran­
de edifício público ou castelo enfeitado com tochas, bandeiras, velas e quadros
de heróis alemães. Ali as crianças de dez anos juravam: “Prometo, na Juventude
Hitlerista, cumprir sempre com o meu dever no amor e fidelidade para ajudar o
Führer - que Deus me proteja.”
Não havia espaço para dúvidas, moleza ou boa-vida que haviam prejudicado
a geração de Weimar: para Hitler, toda a juventude alemã tinha de ser “resistente
como couro, rápida como galgos, dura como aço Krupp”. Estas palavras foram
tomadas como evangelho pelos ardentes jovens do regime. Melita Maschmann
compreendeu “que a ‘resistência’ exigida de nós era uma resistência para ‘aceitar
punições’. Eu pensava que deveríamos aprender a ser resistentes para suportar
privações, castigos ou dor”. O amor pela Alemanha era superior, e era no serviço
a este amor que os jovens nazistas desejavam se fazer ‘resistentes, rápidos e duros”’.
Assim que pôde, Melita deixou a escola e ingressou no departamento de
imprensa e propaganda do Bund Deutscher Mádel: “Eu queria educar as pessoas
politicamente e, na verdade, em linhas expressamente nacional-socialistas.” Ela
foi uma das poucas privilegiadas; na ideologia nazista, as mulheres eram “intrin-
secamente” diferentes dos homens e, portanto, teoricamente limitadas a cuidar
da casa, ter filhos e trabalhar na terra. A estrutura e atividades da Jungemádel e
do Bund Deutscher Mádel eram subdesenvolvidas. Não havia formações espe­
cializadas ou de elite para meninas - as meninas deviam apenas servir e reproduzir.
A vida em todos os ramos da Juventude Hitlerista era implacável: o constante
estado de alerta satisfazia à necessidade de ação dos adolescentes. O ideal era preen­
cher cada momento do dia. Fosse treinamento físico, trabalho cultural, orientação
social ou mesmo o Heimabend obrigatório, as noites passadas em casa quando os
objetivos do partido eram discutidos num ambiente informal, tudo era uma com­
petição. O resultado desse incessante torneio era o de reduzir qualquer vida in­
terior ou individual. A noção de arregimentação aumentava com a política de von
OS SOLDADOS DE UMA IDEIA | 291
Schirach de dar um nome a cada ano segundo o programa desejado: 1934, o
primeiro, foi o “Ano do Treinamento”.
Outra faceta vital da organização era o fato de os jovens serem liderados por
jovens. Mais de dois terços dos líderes juvenis nazistas em 1932 estavam na faixa
dos vinte anos. Com o cotidiano da Juventude Hiderista dirigido por pares do
grupo e não por superiores hierárquicos mais velhos, os jovens ocupavam uma
posição de central importância no novo regime, não apenas como sementes ati­
vas do futuro Reich, mas como pilares centrais do seu sistema social. Os nacional-
socialistas, como von Schirach nunca se cansava de reiterar, eram “o partido da
juventude”.
De um só golpe, o relacionamento entre as gerações se inverteu. A juventude
agora estava no comando e expressava a sua superioridade com “um ar de indife­
rente arrogância”. Imediatamente depois que Hider conquistou o poder, esta arro­
gância foi útil para o novo regime: agora que chegara “o momento da juventude”,
muitos jovens hideristas sentiam-se estimulados a dar o troco aos “burgueses li­
berais hipócritas”. Eles destruíam a vida escolar no estilo das “batalhas nas cerve­
jarias”, quebravam as janelas dos professores que lhes tinham dado notas ruins e
ajudavam no expurgo de socialistas e comunistas que ocorria tanto na educação
primária como secundária.
Com seu ódio pela razão e desconfiança da inteligência, a política nazista de
educação era simples. Todos os jovens deviam ser doutrinados no culto ao Führer
e à política racial darwinista social do Volksgemeinschaft, com o seu ideal ariano de
“fundadores da cultura” e seu ódio aos judeus como “destruidores da cultura”.
Em todos os pontos, a ideologia nazista era martelada em casa, fosse em poemas
ilustrando o princípio de que poder era justiça ou em questões matemáticas
sobre judeus como alienígenas. Matérias abordando os clássicos, a arte e a maio­
ria das ciências foram rapidamente abandonadas, e a diferença entre os sexos im­
placavelmente imposta.
Sob esta política explícita de reprogramação, o relacionamento entre pais e
filhos se deteriorou. Melita Maschmann teve de ingressar no Bund Deutscher Mâ-
del escondida dos pais porque eles não concordavam. Pais dissidentes ou cautelosos
ainda podiam, por uns tempos, impedir seus filhos de ingressarem na Juventude
Hiderista, mas em geral o tráfego era no sentido inverso. Se os pais conservassem
seus filhos fora da Juventude Hiderista, poderiam sofrer multas ou possíveis pri­
sões. Alguns pais também viam seus filhos retirados da sua guarda por ser “poli­
ticamente pouco confiáveis” - definição que incluía serem amigos de judeus.
Isto resultou numa imagem espelhada do mundo onde os filhos, e não os pais,
é que exerciam o controle. Denúncias de pais feitas por filhos fanáticos eram
comuns. Um jovem líder da Juventude Hiderista chamado Walter Hess conquis­
tou notoriedade e uma promoção ao denunciar o pai diretamente à Gestapo.
292 | 1930-1939
Um ex-comunista, Herr Hess, chamou o Führer de “maníaco sanguinário” e
castigou o filho por suas atividades nazistas. Ele foi preso na mesma noite e mais
tarde morreu em Dachau. Os informantes da Juventude Hiderista constantemente
relatavam conversas na escola, no trabalho e em casa. A suspeita tornou-se a
tônica da vida familiar.
O ostracismo era outra arma poderosa contra os que não aderiam, ainda
mais fácil de impor visto que os uniformes da Juventude Hitlerista tinham de
ser usados o tempo todo. Os apóstatas eram alvo das implicâncias de seus colegas,
humilhações dos professores, e sofriam penalidades na vida adulta: por exemplo,
pertencer à Juventude Hitlerista era obrigatório para qualquer emprego relacio­
nado com ensino ou funcionalismo público. A seus pais também seria negada
promoção. Os casos mais obstinados eram visados pela força policial especial da
Juventude Hitlerista, a Streifendienst, fundada em julho de 1934 para combater
a delinqüência, o crime e o comportamento indisciplinado juvenis.
No centro desta estrutura estava o próprio Führer, que para muitos substituía
o pai biológico. Num comício em Nuremberg, em 1934, a parada juvenil foi
realizada num clima frenético. Hitler aproveitou a oportunidade para reafirmar
o lugar do jovem na nova ordem mundial: “Queremos um povo que não seja de­
licado, mas duro como sílex, e queremos que vocês desde bem jovens aprendam
a superar dificuldades e privações. Não deve haver classes ou distinções de classes
entre o nosso povo, e vocês não devem jamais permitir que a ideia de distinção
de classe lance raízes entre vocês. Tudo que esperamos da Alemanha do futuro,
esperamos de vocês.”
A identificação entre Hitler e seus filhos escolhidos era recíproca e total. Ela
era incentivada por von Schirach em pronunciamentos como: “Seu nome, meu
Führer, é a felicidade da juventude, o seu nome, meu Führer, é para nós a vida
eterna.” A divindade de Hitler era reforçada num fluxo incansável de propaganda
juvenil: os programas de rádio da Juventude Hitlerista e as revistas tinham como
alvo todas as faixas etárias, colocando no mercado brinquedos nazistas, e pelo
busto do deus ele mesmo, um acessório quase ubíquo nos quartos de dormir das
crianças. A verdadeira experiência para aqueles que conheciam o grande líder
era assoberbante.
***
Apesar do peso do Estado e do agressivo culto a Hitler, alguns jovens ainda se re­
cusavam a aderir. Havia muito poucas estruturas alternativas para a resistência,
entretanto. Um jovem ex-comunista, J. Georgi, sentiu “o inesquecível desaponta­
mento quando, em 1933, uma grande parte da liderança do movimento juvenil
OS SOLDADOS DE UMA IDEIA | 293
capitulou humilhantemente diante dos nacional-socialistas”. A nova lei era: adap­
tar-se ou morrer. Esta vaporização era uma tática nazista deliberada. Num clima
de medo, suspeitas e denúncias, até os relacionamentos cotidianos eram incertos.
A dissidência era dificílima, se não fatal. Segundo Karma Rauhut, uma jo­
vem alemã que conseguiu evitar o serviço no Bund Deutscher Mádel, “era como
se você estivesse numa teia de aranha e a aranha sempre notasse se algo vibrava
em algum lugar e não soava verdadeiro. As pessoas diziam: cJa, pode-se fugir.’
Fugir para onde? Você só podia fazer resistência se levasse a morte em considera­
ção. Ou tortura terrível ou tortura para toda a sua família, e morte e KZ (cam­
pos de concentração). E não somos todos heróis. Borrávamo-nos nas calças de
medo. Nem todos nascem para ser heróis”.
Aqueles que se recusavam a se submeter eram obrigados a viver num per­
manente estado de ansiedade. Como Georgi lembrou, “alguns de nós que não
concordávamos com esta insuportável tensão também capitulavam, embora não
sem destruir o seu íntimo ser”. A resistência podia ser vista como uma saída
deste beco sem saída: nas palavras do dissidente Arno Klonne, “era uma saudável
rejeição da organização aprisionante imposta à juventude”. Nos primeiros anos
do regime, os nazistas tiveram de lidar com adolescentes que tinham sido criados
durante a Weimar: não querendo renunciar à sua liberdade, eles causaram consi­
deráveis problemas para as autoridades.
Remanescentes dos antigos grupos juvenis tentaram continuar com suas
atividades, mas eles eram fáceis de localizar e abater. No primeiro ano do regime,
um jovem estudante chamado Rudolf Kustermann formou uma organização
socialista ilegal de jovens chamada Rote Stosstrupp que, tarde demais, unia gru­
pos de jovens comunistas e social-democratas. Baseada em Berlim, ela ativou ou­
tros grupos pequenos em cidades principais, mas logo foi descoberta pela Gestapo.
Mais duradoura foi a continuação ilegal do grupo no estilo samurai d.j.I.II, que
continuou em várias cidades durante toda a década.
Alguns se rebelavam seguindo para as áreas rurais a céu aberto como o ve­
lho Wandervogel, mas eram grupos informais. Esses tiveram mais sucesso porque
eram mais difíceis de detectar. Adolescentes fugiam às escondidas da cidade e
montavam abrigos clandestinos ou refúgios nas montanhas. Pela frequência dos
noticiários policiais - as principais fontes de informação sobre essas atividades -,
a continuação do velho espírito andarilho e livre parece ter sido uma opção po­
pular, com 150 dissidentes em Frankfurt cercados em uma só investida, depois
de uma viagem bem-sucedida à remota região de Taunus.
A filiação da classe operária foi reacionária. Na área do Reno-Ruhr, resistentes
da Juventude Operária Socialista, os Falcões Vermelhos, o Bunde e grupos cató­
licos uniam-se ad hoc em grandes grupos delinqüentes chamados os Nerother ou
os Kittelsbach Pirates. Com sua dimensão e seu conhecimento do local a seu
294 | 1930-1939
favor, eles abertamente desafiavam a Juventude Hitlerista a ponto de a organização
se tornar “virtualmente morta” em algumas áreas. O que mais irritava os nazistas,
entretanto, era as organizações de jovens católicos, que se recusavam a se integrar
com a Juventude Hitlerista mesmo depois de ser expressamente ordenadas a
fazê-lo.
Havia também problemas de disciplina dentro da própria Juventude Hitle­
rista. Como muitos monopólios bem-sucedidos, ela havia temporariamente se
expandido para além das suas capacidades organizacionais. O fato de a juventude
ser liderada por jovens revelava várias falhas estruturais. A cooptação forçada dos
ex-grupos juvenis causou às autoridades consideráveis preocupações quanto à
existência de elementos subversivos dentro do coração do sistema. Alguns desses
infiltrados conduziam uma campanha de desinformação e desobediência que
provocou violentas “rebeliões Jungvolk” em várias cidades grandes durante o in­
verno de 1934.
A falta de controle pelos adultos também resultou em freqüentes delitos se­
xuais. Casos de homossexualidade eram severamente punidos: em um grave “lapso
moral”, 16 jovens da Juventude Hitlerista de Aachen se entregavam à mas-
turbação mútua coletiva. A promiscuidade heterossexual da organização era to­
lerada pelo regime: como um dos assistentes de von Schirach afirmou, “para que
servem as meninas do Bund Deutscher Màdel exceto para ser levadas para a
cama? É necessário, senão elas se tornarão lésbicas”. Os excessos de grupos locais
davam aos pais a impressão de existir dentro da Juventude Hitlerista “uma certa
degeneração”.
No entanto, a dissidência ainda continuava, explodindo como um incêndio
florestal: abafada em uma cidade, inflamando-se em outra. Von Schirach decidiu
fazer de 1936 o “ano da Jungvolk alemã”, com o objetivo de que todos os me­
ninos e meninas nascidos em 1926 - completando dez anos naquela data - se
“apresentassem como voluntários” no grupo mais jovem da Juventude Hitlerista
a tempo do aniversário do Führer. Tendo conseguido o quase total alistamento
desse grupo etário, von Schirach buscou ampliar essa inclusão abrangente até a
idade de 18 anos, quando seus membros entravam para as forças armadas, a AS
ou SS, ou para o serviço em terra compulsório.
O resultado foi a “Lei referente à Juventude Hitlerista” aprovada em dezembro
de 1936, que fez de von Schirach “Líder Jovem do Reich Alemão”, respondendo
apenas a Hitler. As cláusulas eram simples: “I: Toda a juventude alemã dentro
das fronteiras do Reich está organizada na Juventude Hitlerista. 2: Toda a juven­
tude alemã deve ser educada, fora do lar paterno e da escola, na Juventude Hi­
tlerista física, intelectual e moralmente no espírito do nacional-socialismo para
servir à nação e à comunidade.” Este decreto abrangente representou o zênite da
política juvenil nazista.
OS SOLDADOS DE UMA IDEIA 295
A Juventude Hitlerista já estava cimentada na hierarquia nazista, mas, de­
pois do decreto, os vínculos da organização com o escalão de elite nazista, a SS
(Schutzstaffel) ficaram mais fortes. Heinrich Himmler havia sido recentemente
nomeado Chefe da Polícia Nacional e visava a um influxo anual entre 25 mil e
30 mil Jovens Hitleristas, uns 10% do grupo recrutável a cada ano. Centenas de
jovens com 18 anos começaram o serviço na SS-Verfiigungstruppe, a tropa especial
da SS, ou na SS-Totenkopfverbãnde, as Formações Cabeça da Morte, destinadas
especificamente aos trabalhos nos acampamentos penitenciários.
Ao mesmo tempo, os vínculos se estreitaram entre a Gestapo, a polícia se­
creta do Estado e a Streifendienst, a força policial da Juventude Hitlerista, à qual
foram concedidos poderes de fiscalização sobre “todas as atividades políticas e
criminosas entre os jovens alemães” na primeira metade de 1937. A organização
podia levar acusações aos tribunais da Juventude Hiderista e fornecer informações
aos tribunais civis comuns. Um ano depois, o âmbito da Streifendienst ampliou-
se da supervisão de Juventudes Hideristas para todos os adolescentes alemães: os
dois eram considerados sinônimos nessa fase, e o grupo tornou-se o principal
alimentador da SS.
***
Na época do decreto de 1936, a Juventude Hiderista tinha se tornado respeitável,
burguesa até, com dois terços do corpo de líderes vindo de formações secundárias
e/ou universitárias: estes substituíam os trabalhadores, camponeses, desordeiros
e estudantes dos tempos da revolução. A organização era servida ainda por um
novo sistema escolar de elite. Este sistema foi criado no fim da década de 1930
com a instituição do Nationalpolitische Erziehungsanstalten, e das escolas Adolf
Hitler, onde o esporte reinava e a ideologia nazista era martelada 24 horas por
dia, sete dias por semana.
A fase heróica da Juventude Hiderista tinha acabado, a batalha estava vencida.
Depois de 1936, havia muito poucas chances para alguém com menos de 18 anos
escapar das exigências do regime. Entretanto, durante os últimos anos da década,
este grupo juvenil nacional sofreria tensões imprevistas. Tendo sido a onda de
choque da revolução, ela havia se tornado o novo establishment, com a sua própria
burocracia e estrutura de carreira. Houve uma sensação de anticlímax, na medida
em que se enrijecia numa política de atividade pela atividade que se tornava cada
vez mais militarista. Enfrentando mais apostasias, o regime buscava uma sub­
missão ainda maior.
Pois, apesar do seu apelo místico e dos métodos totalitários de coerção, o re­
gime nazista não conseguira alcançar o controle total sobre os adolescentes ale­
mães. No fim da década de 1930, gangues das principais cidades como Dresden,
296 | 1930-1939
Hamburgo e Munique continuavam vivendo no velho estilo do Wandervogel,
enquanto que o Leipzig Meuten coletava dados críticos sobre o regime e especulava
a respeito de sua violenta derrocada. Sua saudação era uma versão truncada do
slogan dos pioneiros russos: “Esteja preparado.” Seu tamanho —uns 1.500 —e
sua excessiva simpatia pelo comunismo fizeram desse grupo um importante
alvo para uma imposição maciça de regulamentos.
Parte do problema estava na retórica de autogoverno juvenil dos nazistas,
como um relatório de exilados alemães notou em 1938: “Os jovens são mais
facilmente influenciados em termos de estado de espírito do que os adultos. Este
fato torna mais fácil para o regime conquistar os jovens nos primeiros anos de­
pois de uma tomada de poder. Parece que por esse mesmo fato o regime está ten­
do dificuldade em manter os jovens escravizados.” Citando um estado de espírito
geral de “desencanto”, o relatório concluiu que “os jovens têm razao para estar
desapontados. Fizeram-lhes muitas promessas que, na sua maior parte, eram im­
possíveis de cumprir”.
Essa desilusão deu origem a uma nova onda de repressões. Em dezembro de
1938, Hitler deu a mais assustadora expressão à estratégia do berço-ao-túmulo
para a juventude alemã, que começava com o ingresso no Jungvolk aos dez anos.
Ao deixar a Juventude Hitlerista aos 18 anos, eles eram levados para a Frente de
Trabalho, a AS, ou a SS. Caso se recusassem, eram obrigados a ingressar no Ser­
viço de Mão de Obra. Qualquer “consciência de classe” persistente seria tratada
mais adiante com dois anos de serviço militar, depois do qual “nós os levamos
imediatamente de volta ao AS, à SS e assim por diante para evitar a recaída, e
eles nunca mais estariam livres pelo resto de suas vidas”.
A partir de 1938, quase não havia dúvidas de que a Alemanha estava se pre­
parando para um conflito ainda mais amplo, no qual sua juventude representaria
um papel vital. Durante aquele ano, 1,25 milhão de jovens hitleristas foram dou­
trinados em “prontidão de defesa” e “capacidade de defesa” com práticas de tiro
ao alvo explicitamente militaristas e exercícios de manobras em terra. Também
durante 1938, o número de membros da Juventude Hitlerista ficou em 8,7 mi­
lhões, muitos mais do que o dobro do que tinha sido no fim de 1933. Confor­
me alertou Baldur von Schirach: “Todos que tiverem sangue alemão pertencem
ao nosso grupo. Sob esta bandeira de juventude, todos são iguais.”
No ano seguinte, só 1,6 milhão dos 8,2 milhões de adolescentes alemães
deixaram de se alistar, mas até este nível de submissão não foi o bastante. Em
março de 1939, Hitler emitiu um decreto que tornava o serviço militar juvenil
compulsório para todos os jovens de 16 a 18 anos e dava aos líderes da Juventude
Hitlerista poderes específicos sobre todos os aspectos da vida desse grupo etário.
O decreto tornava a não aquiescência extremamente difícil: a polícia podia forçar
o alistamento e exigir obediência ao líder local. A visao de Hider estava perto de
OS SOLDADOS DE UMA IDEIA | 297
dar frutos: para todos os jovens da Alemanha entre dez e 18 anos, cada aspecto
de suas vidas estava sujeito ao controle do regime.
A Alemanha nazista seguiu o exemplo da Rússia soviética ao aplicar os prin­
cípios de controle de massa à sua juventude. Mantendo-se fiel ao seu desejo de
criar um tipo de sociedade totalmente novo, ela privilegiava a juventude nas suas
instituições e, na verdade, para muitos adolescentes essa política oferecia liberdades
antes impensáveis. Inebriados com esta revolução, entretanto, eles não perceberam
o avesso deste contrato faustiano: o que parecia ser liberdade era escravidão, e
no final eles seriam entregues, amarrados e amordaçados, nas mãos de uma má­
quina de guerra sofisticada e impiedosa.

298 | 1930-1939
CAPÍTULO 19

O exército infantil e o N ew Deal


Adolescentes americanos na Depressão
^ ^
Ele andava esfarrapado desde o segundo ano da Depressão.
Seus alegres jovens antecessores dirigiam carros velozes. Ele anda de vagão
de carga. Sua família se mudou de uma casa para um apartamento de um só
quarto, que, até ganhar a estrada, ele divide com todas as gerações do seu clã.
Provavelmente ele passa fins de noites cansativos num vagão de carga fechado
num desvio da estrada de ferro. Ele não tem nada com que sonhar.
Nenhum passado, nenhum presente, nenhum futuro.
- C lin ch C alk in s, Youth Never Comes A gain (1 9 3 3 )

'ESTE GAROTO ESTÁ NA ESTRADA HÁ QUATRO A N O S";


FOTOGRAFIA DE THOMAS MINEHAN, 1932
“24 DE AGOSTO DE 1932. Briga com o velho. Ele não manda em mim. Peguei umas
roupas e saí. Arrumei uma carona num caminhão cheio de móveis que ia para
Louisville. Dois homens dirigindo. Bons sujeitos, pagaram as minhas refeições.
Dormi no caminhão. Os homens se revezavam no volante. Roubamos uns melões
e maçãs de um fazendeiro.” Esta anotação em staccato num diário redigida por
um menino vagabundo chamado Blink tipificava o destino compartilhado por um
quarto de milhão de “meninos e meninas dos vagões de trem” vagando pela Amé­
rica conforme a Depressão se aprofundava. Como seus semelhantes na finada
Alemanha de Weimar, eles não tinham lar, emprego, dinheiro e nenhum controle
pelos adultos.
O lapidar documento de efemeridade de Blink foi copiado para a posteridade
por um jovem sociólogo da Universidade de Minnesota chamado Thomas Mi-
nehan, que em 1932 decidiu registrar “a reação dos jovens às mudanças sociais”
na América. Ele mergulhou no mundo hermético dos jovens sem teto, disfarçan­
do-se “com roupas velhas” para compartilhar da vida deles. Ficou chocado ao ver
quantos meninos e meninas vagabundos existiam: “Onde estavam as suas famí­
lias? Para onde iam? Havia quanto tempo estavam na estrada? Por que tinham
saído de casa?”
Esses diários não eram efiisões literárias de sentimentos ou ideias. Eram do­
cumentos de sobreviventes. Conhecer as condições na estrada poderia significar
a diferença entre vida e morte. Como Minehan observou, as impressões eram mi­
nimizadas e os fatos enfatizados, tais como “mulher gorda numa grande casa branca
me deu três salsichas de porco, quatro xícaras de café e todas as panquecas que eu
quis para o café da manhã... Um grandalhão me socou quando eu estava saindo
do pátio. Cidade hostil... Não adianta servir a Jesus na... Missão. Nada além de
feijões e tristeza”.
Um menino holandês da Pensilvânia, Blink, estava a caminho de Seattle
quando Minehan o encontrou em Ohio. Seu diário era um registro árido de con­
dições durante a sua odisséia sem rumo pelo Meio-Oeste. Algumas pessoas eram
boas, outras pães-duras”. Em uma cidadezinha, os católicos lhe deram comida
mas o fizeram “comer do lado de fora na varanda”. Um fazendeiro lhe ofereceu
trabalho, mas uma remuneração irrisória: “Oferece só 25 centavos. Só isso. Não
gostei dele, mesmo.” O tempo todo ele era assediado pela polícia. “Shelbyville.
O guarda me pegou. Me mandou para a prisão, tinha de trabalhar duas horas pelo
jantar e a ceia. Fiquei na prisão a noite toda. Éramos seis caras. Nada bom.”
O alívio de Blink ao se livrar de sua família o havia sustentado nos primeiros
meses de estrada. Depois de um ano sob condições brutais, ele não pensava mais
que o mundo “era uma ostra”. Estava marcado com cicatrizes mentais e físicas. Mi­
nehan registrou que “ele tinha dois bons olhos quando deixou a fazenda do pai.
Agora só tem um. Uma órbita sanguinolenta forma uma cova pequena e sempre
300 | 1930-1939
lacrimejante do lado esquerdo do seu rosto. As lágrimas escorrem pela face, ris­
cando a sujeira e a fuligem de carvão, deixando uma estranha cicatriz úmida ao
longo do nariz. Ele perdeu o olho quando uma fagulha voou para dentro dele
no Santa Fé.”
Minehan foi um dos primeiros escritores a expor a total extensão da vagabun­
dagem juvenil na América dos anos de 1930: publicada em 1934 como Boy and
Girl Tramps of America, sua pesquisa aprofundava a compreensão de um grave
problema nacional. O “Problema dos Jovens” apresentado pelo “Exército Infantil”
havia chegado às manchetes durante o outono de 1932, com artigos em grandes
revistas como “Duzentas mil crianças vagabundas”, de Maxine Davis. Relatos
como esse anunciavam uma nova geração, emblemática do período, que não
poderia ser mais diferente do confiante jovem consumidor dos anos 1920.
Adolescentes como Blink, ou o constante companheiro de Minehan, Texas,
representavam um novo tipo de adolescente selvagem, agrupado em tribos disper­
sas. Ao contrário dos Grupos Selvagens de Berlim, entretanto, eles não tiveram
oportunidade de dramatizar sua selvageria. As duras condições de sem-teto os im­
pedia de se organizarem e roubava sua juventude. “Em um ano eu vi Texas mu­
dar não apenas física como mentalmente”, Minehan escreveu. “Suas orelhas con­
geladas e dedos enrijecidos eram símbolos evidentes de uma mudança interior.
Do estudante inteligente, espirituoso, cheio de sonhos e vigor, ele se transformou
numa pessoa predadora, dissimulada.”
Em meados da década de 1920, uma estudante universitária chamada Barbara
Starke tinha decidido vagar pela América em busca de realização pessoal. Sua
experiência foi única o suficiente para virar um livro de sucesso: Bom in Captivity.
O que para ela tinha sido um ultrajante ato de inconformidade, para muitos da
geração seguinte foi uma triste necessidade. Não havia chance de ser único nessa
massa, e a solidariedade humana tornou-se logo racionada. Sem a intervenção do
governo, esses jovens vagabundos enfrentavam uma existência tão dura quanto a
que os reformadores do início do século XX tinham se esforçado tanto para colo­
car no centro das atenções.
Para jovens radicais como Minehan, isto era um escândalo que colocava em
questão toda a natureza da sociedade americana: “Eu tinha visto fotografias das
crianças selvagens na Rússia assolada pela revolução. Eu tinha lido sobre a juven­
tude livre da Alemanha depois da Guerra Mundial. Eu sabia que em todas as na­
ções, após uma praga, invasão ou revolução, as crianças que ficavam sem pais e
lares viravam vagabundas. Antes das minhas experiências, eu sempre acreditara
que na América nós organizávamos melhor as coisas. E, no entanto, diante da de­
sorganização econômica e da mudança social, a nossa própria juventude foi para
a estrada.”
0 EXÉRCITO INFANTIL E 0 NEW DEAL | 301
A busca do jovem sociólogo aconteceu nas profundezas de um desastre nacio­
nal sem precedentes. As depressões dos anos de 1870 e 1890 haviam sido graves,
mas nada na escala do que aconteceu depois do Grande Craque. Entre o outono
de 1929 e o verão de 1932, acionistas perderam 74 bilhões de dólares no mercado
em queda livre, o equivalente a 616 dólares para cada americano, e quase 5 mil
bancos quebraram, dando fim a 3,26 bilhões de dólares em depósitos. E era só
o começo. O mais assustador na Grande Depressão é que ela não parava, conti­
nuava cada vez pior.
O desemprego aumentava ano a ano no início da década de 1930, afetando
de início os segmentos mais vulneráveis e em desvantagem da sociedade: negros,
trabalhadores braçais e mulheres - um quinto de toda a força de trabalho feminina
passou a ser desnecessária em 1930. Na primavera de 1932, ele estava firmemente
inserido nas classes médias. Ninguém ficou imune. Em julho, o New York Times
noticiou que nos cinco bairros havia 10 mil desempregados com diploma das mais
prestigiadas universidades da América.
Para aqueles que ainda estavam trabalhando, os padrões de vida eram dizima­
dos pelos cortes nos salários: em um levantamento, a média anual de salários caiu
de 1.499 dólares em 1929 para 960 dólares em 1932. Nesse mesmo tempo, a
renda profissional caiu 40%. A América era um país em estado de choque. A
prolongada explosão do fim da década de 1920 não se deu apenas no aspecto
financeiro, mas no de identidade nacional. A indústria e o comércio tinham se
tornado atributos místicos na América do século XX. A Grande Depressão passou
a ser vista como uma crise não apenas na economia, mas também no sistema
central de crenças do continente.
A América começou a olhar para fora ao mesmo tempo que iniciava um do­
loroso processo de autoexame. O efeito da Depressão em outros países não ti­
nha passado despercebido. Durante os anos de 1931 e 1932, falar de revolução
era comum. Alimentada por novas histórias como aquela que relatava 100 mil
potenciais emigrantes para 6 mil empregos na Rússia, os comentaristas discutiam
o bolchevismo enquanto americanos de todas as classes expressavam a aprovação
de um sistema social diferente. Muita gente pensou que o capitalismo havia en­
trado totalmente em colapso e que uma violenta revolução surgiria das fileiras de
desempregados e sem-teto.
A Depressão atingiu com força os adolescentes. Entre aqueles com idade para
estar no ensino secundário, 40% não estavam na escola, enquanto subiam os
números dos que abandonavam os estudos antes de se formar. Ao mesmo tempo,
o desemprego entre jovens subia vertiginosamente. Quatro milhões de jovens ame­
ricanos dos 16 aos 24 anos estavam na rua procurando trabalho: cerca de 40%
eram adolescentes. Em 1932, o “Exército Infantil” tinha 200 mil andarilhos e
302 | 1930-1939
esse número subia rápido, uma proporção muito pequena mas altamente visível
dos 14 ou mais milhões de americanos com idades entre 10 e 20 anos.
A desintegração começava em casa. No seu estudo The Family and the Depres-
sion, Ruth Cavan observou que a conseqüência do desemprego era “desorgani­
zadora\ As famílias mudavam-se para apartamentos menores, o que significava
que pais e filhos “viam-se uns aos outros muito mais do que antes e ficavam en­
gaiolados num espaço pequeno. Havia pouca privacidade e os atritos aumenta­
vam”. Monehan descobriu que a maioria dos vagabundos saía de casa por causa
das “dificuldades”. Como Texas lhe contou, “surgiram os grandes problemas e
ninguém tinha dinheiro”.
Bem mais de 90% do grupo de amostragem de Minehan com jovens vaga­
bundos vinham de um lar onde pais ou irmãos estavam desempregados ou dispen­
sados. Vinte e cinco por cento dos meninos tinham recebido “freqüentes chicota­
das”. Enfrentando um ambiente claustrofóbico onde quase sempre eram o bode
expiatório mais próximo, os adolescentes americanos pegavam a estrada em bando.
Este impulso ocorria em todas as classes. Como o político democrático Newton
D. Baker escreveu em 1932, “o jovem errante médio de hoje, nos dizem os as­
sistentes sociais e outros que estão diariamente em contato com ele, é um garoto
normal de uma família substancial”.
Esta reação estava de acordo com o etos de um país construído por uma mão
de obra móvel e guiado por um sonho da fronteira que ainda era recente. Como
afirmou a redatora do Harpers, Lillian Symes, no fim de 1933, a América tinha
“uma tradição radical, até violentamente radical. O bucaneiro individual, não o
líder de causas impopulares, tem sido o herói americano. O anarquismo é in­
dubitavelmente a filosofia mais inata ao nosso temperamento, como é a mais
futil num mundo industrial complexo. O país atrai o individualista inquieto”.
***
Os jovens americanos não foram os únicos a ser afetados pela Depressão: muitos
homens e mulheres mais velhos foram para as ruas, e sua quantidade inchou de­
pois de vários anos sucessivos de estiagem no Meio-Oeste e nas planícies do sul.
Mas muitos vagabundos eram meninos tipicamente americanos inflamados com
as visões de liberdade oferecidas pelo cinema e pelo automóvel. Aos 16 anos, Jim
Mitchell decidiu fugir do seu lar em Wisconsin, em 1933: “O meio mais rápido
e fácil de sair dali era pular num trem e ir para algum outro lugar”, ele lembrou.
“Nós achávamos que era o tapete mágico - o clique dos trilhos —, romance.”
A aparente razão para partir era a busca por trabalho. Migrações sazonais
eram detonadas pela disponibilidade de emprego casual. No verão, havia um mo­
vimento no sentido oeste para a época da colheita de frutas. No outono, havia
0 EXÉRCITO INFANTIL E 0 NEW DEAL | 303
um movimento geral de ida do campo para as cidades maiores. Graças a seu cli­
ma quente, a Califórnia era o destino preferido. O “Jardim do Éden” de Woody
Guthrie, com mil adolescentes sendo despejados em Hollywood por mês no fim
de 1933. A cidade ficou tao popular que “declarou guerra” a todos os temporá­
rios, bloqueando a fronteira por várias semanas durante o ano de 1936.
A arrasadora maioria pegava a estrada de ferro: pelo menos nos trens havia
a possibilidade de proteção mútua. Mesmo dentro dessa comunidade primitiva,
entretanto, havia uma hierarquia. No topo ficavam os aristocráticos “passageiros
pedantes”, jovens obcecados com a velocidade dos trens expressos. A grande maio­
ria dos vagabundos de estrada andava nos trens de carga. Aqueles que viajavam
pelo Califórnia Fruit Express estavam um degrau abaixo dos passageiros pedantes,
seguidos por aqueles que escolhiam os trens de seda, depois os trens de carga com
passageiros, os trens paradores e, finalmente, a maioria que andava em gôndolas,
vagões de carga fechados ou vagões de transporte de granito.
Havia muitos riscos. Os trens eram perigosos, principalmente se não tinham
sido reformados para transportar passageiros. A precariedade da segurança dos
jovens transeuntes os deixava sujeitos a cair do trem e ficar expostos ao tempo
frio ou à mercê dos solavancos. Milhares morriam anonimamente e sozinhos.
Ao mesmo tempo, os notoriamente violentos guardas das estradas de ferro, cha­
mados de bulls, touros, legislavam da forma que achassem conveniente. Quan­
do o trem parava numa cidade pequena, o jovem vagabundo enfrentava a pos­
sibilidade de ser jogado na prisão, recrutado para trabalhos forçados ou receber
choques elétricos e a ordem de deixar a cidade.
Muito mais seguras eram as cidades grandes, onde o simples número de recém-
chegados tornava necessária uma certa reação coerente. O primeiro porto de es­
cala era a fila do pão, que poderia ser numa missão, num albergue do Exército da
Salvação ou num posto da previdência social do município. Depois de se registrar,
o jovem vagabundo recebia uma papeleta de identificação, que em geral dava a
seu portador o direito a pelo menos uma refeição. E isso era tudo. As cidades
talvez fossem mais seguras, mas a competição por empregos e dinheiro era ainda
maior. Encontrar um lugar para descansar também era difícil. Nos primeiros
tempos da Depressão, milhares dormiam em parques e lugares públicos.
Sempre exaustos, os jovens fujões logo descobriam que a sua estrada não era
a de tijolos amarelos. Jim Mitchell tinha “pensado que seria uma vida glamurosa.
‘Por Deus, nós vamos encontrar a nossa fortuna. Alguém lá fora precisa de nós/
O inferno, que precisavam”. Nesta ferrenha competição por qualquer emprego
que fosse, a exploração e os maus tratos eram freqüentes. Alguns garotos da es­
trada até trabalham, não por dinheiro, mas por comida. O trabalho que havia dis­
ponível era temporário, em geral na agricultura, e oferecia salários muito baixos
por horas estafantes.
304 | 1930-1939
Os jovens itinerantes envelheciam prematuramente. Um estudo contemporâ­
neo realizado por um assistente social de Ohio concluiu que eles “não conheciam
segurança financeira, vinham de lares destruídos por essa razáo, eram molestados,
chutados e aturdidos por coisas que fugiam ao seu controle. Perdidos, ressentidos
por terem envelhecido rápido demais, eles clamam por algo que não conseguem
obter do seu próprio grupo. Eles estão velhos demais e, no entanto, são tão jo­
vens. Viram muita coisa e sabem demais - pensaram muito pouco. Podem ter 17
até 21 anos de idade, mas em algumas coisas eles têm trinta e, em outras, dez”.
Alguns jovens fujões preferem se unir em bandos em busca de apoio mútuo
e proteção. Grupos de até 12 viajam juntos e se estabelecem em seus próprios
acampamentos de vagabundos. Locais longe de habitações humanas eram os pre­
feridos. Fosse perto do escoadouro de um esgoto do Mississippi ou numa clareira
deserta próxima à estrada de ferro, até cinqüenta jovens itinerantes viviam numa
microssociedade autopoliciada. Minehan descobriu “que as crianças mendigas,
deixadas por sua própria conta e vivendo como párias da sociedade, desenvolvem
regras e regulamentos, elegem líderes e impõem seus castigos sem a ajuda dos
mais velhos”.
Conflitos irrompiam por qualquer razão. Os mais comuns giravam em torno
de fronteiras raciais. Os negros compunham um pequeno percentual de jovens
itinerantes, quase um quarto de todo o grupo etário que ia de 15 a 24 anos em
um levantamento realizado em 1935. Para muitos de seus colegas brancos, era
sua primeira experiência sem segregação: o clima era de tolerância, na melhor
das hipóteses. Jovens negros eram altamente vulneráveis. Havia sempre o com­
ponente do ciúme sexual - Minehan relatou um grupo de “meninos negros, 17
anos”, vangloriando-se de suas “relações com meninas ou mulheres brancas” - e
naquele mundo transitório e ilegal essa era uma mistura explosiva.
O grau dessa vulnerabilidade ficou evidente em 1932, quando um grupo de
nove negros, entre 12 e 20 anos de idade, foi preso no Alabama. Para os Scotts-
boro Boys, a vagabundagem terminou num pesadelo eterno. “Todos nós estáva-
mos pegando carona no trem pela mesma razão, ir a algum lugar e encontrar
trabalho”, lembrou Haywood Patterson. “Nossas famílias estavam sem dinheiro.
Os únicos que eu conhecia eram os outros três de Chattanooga. Nossos pais não
podiam nos sustentar, e nós queríamos ajudar, ou pelo menos colocar comida na
nossa própria barriga. Estávamos pegando carona até Memphis quando a briga
aconteceu.”
A confusão começou quando quatro dos nove embarcaram numa gôndola,
parcialmente cheia de cascalho moído, que também abrigava duas jovens mulheres
brancas, vestidas com macacões masculinos, e sete outros rapazes. O xingamen-
to teve início: “Negro filho da mãe, este é um trem de homem branco. Cai fora.
Todos vocês negros filhos da mãe, fora!” Patterson devolveu o insulto na mesma
0 EXÉRCITO INFANTIL E 0 NEW DEAL | 305
moeda e os brancos recuaram. Eles voltaram mais tarde, mas Patterson havia
encontrado reforço em outros “caras de cor” e os agressores foram dispersados.
Patterson até resgatou um dos brancos que estava para cair do trem em alta ve­
locidade.
Quando o trem parou na estação seguinte, entretanto, todos os jovens iti­
nerantes envolvidos na briga foram recebidos por um pelotão armado e levado
para a prisão de Scottsboro. Ali os nove negros descobriram que duas garotas
brancas, Ruby Bates e Victoria Price, os haviam acusado de estupro. Patterson
pensou que fosse porque “os caras brancos tinham ficado muito machucados
com a surra que nós lhes demos”. Esta acusação foi como dinamite no interior
do Alabama. Desde o primeiro momento da sua prisão, os Scottsboro Boys en­
frentaram violências próximas ao linchamento e uma sentença de morte quase
certa.
Depois de um julgamento - uma farsa -, durante o qual o promotor exortava
o júri, “culpados ou não culpados, vamos nos livrar destes negros”, os nove fo­
ram considerados culpados e condenados à morte. Apesar de uma tempestade
de protestos, os jurados de Alabama entrincheiraram-se e, na primeira revisão do
processo, outra vez os condenaram à morte. Desta vez, o linchamento judicial
tinha virado um escândalo internacional: o apoio de personalidades tão diversas
como Nancy Cunard, Albert Einstein e o autor Thomas Mann foi seguido de
uma série de demonstrações na Europa e na América, culminando na imensa
marcha em protesto de maio de 1933.1
O caso dos Scottsboro Boys expôs o lado obscuro das relações raciais na
América e a vida de cão de seus adolescentes andarilhos. Dividindo o mesmo es­
paço com os habitantes do submundo, algumas crianças da estrada começaram
a imitar os gângsteres portando armas e extorquindo dinheiro. Ainda mais preo­
cupante para as autoridades era a sua ira contra o sistema que os traíra. Como
outros especialistas em jovens, Minehan pensava que o bolchevismo estava em
ascensão: “Praticamente todos os meninos e meninas na estrada, comunistas ou
não, acreditam que em breve haverá uma revolução na América, se as coisas não
melhorarem.”
Na década de 1920, os adolescentes da América tinham recebido uma atenção
sem precedentes como os porta-estandartes do novo consumismo de massa: eles
tinham sido apontados como “compradores embriônicos” e “os clientes de ama­

1 Depois desta marcha, as autoridades do Alabama foram forçadas a ordenar um terceiro julgamento, com o
mesmo resultado para Patterson e Clarence Neems. Embora as condenações fossem derrubadas pela Corte Su­
prema dos Estados Unidos, Patterson foi julgado uma quarta vez em janeiro de 1936 e sentenciado a 75 anos de
“morte em vida” numa prisão do Alabama. Enquanto quatro dos nove foram finalmente libertados no verão de
1937, Patterson viu ambos os pais morrerem. “Nada parecia certo depois disso, eu odiava acreditar em alguma
coisa, odiava todo mundo.”

306 | 1930-1939
nhã”. Depois do craque da bolsa, este privilégio se evaporara: nas palavras de um
andarilho de classe média, era como ser “rebaixado do posto de príncipe”. Em­
bora tornar-se um vagabundo fosse uma reação extrema, os meninos e meninas
mendigos representavam, numa nação que idealizava a juventude, um lembrete
desagradavelmente direto do desastre que havia acometido o continente.
Isso não fora previsto. A simples existência de jovens vagabundos, sem falar
da sua aparência e de seu comportamento, servia como uma polêmica chocante-
mente pública: não havia, eles pareciam dizer, nenhum futuro, seja para nós,
seja para o nosso país. Boy and Girl Tramps of America encamparam essa defesa,
anunciando o novo estado de espírito de reforma depois do Grande Craque. O
impulso que havia murchado depois da Lei Seca reacendeu-se com o súbito
retorno a um panorama da cidade que estava “tomada por grupos de desordeiros
e predadores”.
Com um olhar desconfiado para o que acontecia na Rússia e na Alemanha,
os reformadores estavam muito preocupados com a possibilidade de uma revolu­
ção. Entretanto, a natureza individualista da tradição americana - personificada
pela busca de uma fronteira ilusória por parte dos andarilhos - pesava contra a
ação coletiva. Apesar da crescente escalada de violência das disputas trabalhistas
do país, como a marcha fatal contra a fábrica da Ford Motor, em março de 1932,
o comunismo falhou em se afirmar como um movimento de massa. Havia jovens
comunistas, mas eles continuavam sendo uma pequena minoria entre seus pares.
Entretanto, especialistas em jovens e pais igualmente notaram um novo es­
pírito de intransigência até entre a vasta maioria de jovens que ainda definiam
seu futuro em termos de trabalho e carreira (meninos) e casamento ou vida do­
méstica (meninas). Ao voltarem a Muncie, em junho de 1935, Robert e Helen
Merrell Lynd descobriram que nos dez anos que se seguiram a sua primeira
visita “uma subcultura juvenil mais consciente de si mesma tinha crescido”. Eles
observaram que “limites de obediência aos pais, à escola e à opinião pública im­
postos pelos adultos tinham enfraquecido ainda mais conforme o mundo adulto
desmoronava sob a depressão”.
Os adolescentes nascidos no fim da década de 1910 estavam emergindo
num mundo muito diferente daquele que lhes haviam prometido. Em vez de
uma explosão de consumismo jovem, eles estavam enfrentando o desemprego.
Isto os predispunha a um severo escrutínio do mundo adulto, que só se exacerbava
com o modo como todas as classes e todas as idades rotineiramente zombavam
do Volstead Act. A Lei Seca tinha, no início dos anos 1930, erodido o respeito
à lei e a toda autoridade. Como um grupo de ginasianos contou à revista Parents
em 1932: “Vocês não podem nos acusar de desconfiar dos seus padrões, quando
alguns deles... têm se mostrado tão obviamente tolos.”
0 EXÉRCITO INFANTIL E 0 NEW DEAL | 307
Neste clima, as antigas premissas de deferência deixaram de ser válidas. No
seu livro de 1931, Personality in Its Teens, o assistente social cristão W. Ryland
Boorman citou um de seus informantes ginasianos: “Você pega um rapaz de 17
anos, controla-o com mão de ferro. O que vai acontecer? Não vai demorar mui­
to para você ter um rapaz mal-humorado, agressivo, teimoso, se ele for como
eu. Este garoto pode ir à escola dominical, freqüentar a igreja e comungar. Por
quê? Porque é obrigado. Não muito tempo depois, ele pode quebrar todos os
vínculos e pegar uma carona num trem’ atrás de uma atmosfera mais livre há
muito desejada.”
Isto nada mais era do que um choque entre gerações. “Nossa impressão é a
de que nunca duas gerações de americanos se viram mutuamente diante de um
abismo tão grande em suas atitudes e comportamentos costumeiros como está
acontecendo com pais e filhos americanos desde a Guerra Mundial”, os Lynd
concluíram. “A crescente rapidez das mudanças sociais, incluindo todos os setores
de vida desde a indústria e o comércio até a religião, educação, sexo e vida fa­
miliar, está ampliando, como algo semelhante a uma progressão geométrica, o
abismo entre as coisas que eram “certas” ontem e aquelas que fazem sentido
para a nova geração de hoje.”
A juventude americana mais uma vez se tornava um problema, e não um
mercado. Durante a primeira metade da década de 1930, o entusiástico incen­
tivo da juventude que havia florescido durante a década anterior foi substituído
por uma série de indagações preocupadas e críticas. O futuro da nação estava
em jogo. Thomas Minehan concluiu seu exaustivo levantamento de jovens iti­
nerantes com uma arrebatada polêmica pór uma maior participação do Estado:
“A juventude americana de amanhã precisa ser liderada. Ela precisa ser liderada
por homens que saibam para onde estão indo, para onde está indo o país, e para
onde querem que seus jovens vão.”
***
Enquanto o Exército Infantil chegava às manchetes, muitos adolescentes ameri­
canos prosseguiam com sua educação. Embora reduzido pela Depressão, o número
de americanos com 17 anos que permaneciam na escola secundária tinha multi­
plicado pelo menos umas cinco ou seis vezes desde 1900. No sistema de classifi­
cação da escola secundária, a imersão do adolescente no seu mundo de pares era
total e imediata. Assim como a juventude universitária da década de 1920 havia
experimentado a noção de ser um importante grupo social, seus irmãos mais
novos, em idade para estar na escola secundária, começaram a sentir a mesma
coisa.
308 | 1930-1939
A instituição da juventude como uma classe distinta começou a colher uma
safra inesperada. Os Lynd notaram que, no Central High de Middletown, “toda
variedade de tolerâncias e intolerâncias culturais atritavam-se umas contra as outras:
a filha de pais que acham “engraçadinho” e “atraente” que ela pinte as unhas, use
ruge, faça “permanente” e aprenda a “lidar com os meninos” senta-se ao lado da
filha de uma família na qual os pais estão envolvidos numa tranqüila mas deter­
minada campanha para contornar a influência do cinema e conservar sua filha
“simples”, “sem afetações” e “mentalmente saudável”.
Para Ryland Boorman, o mundo de pares da escola secundária americana,
embora personificando toda a esperança no futuro, também minava “a influência
do lar e da Igreja”. Ele observou que “o aumento do tempo de lazer, muitas vezes
acompanhado por grandes quantidades de dinheiro para gastar, está abrindo ca­
minho para novas formas de malícia. O grau de loucura pela caça ao prazer a que
chegou à presente geração é desconcertante para muitos adultos. A nova liberdade
na relação de meninas e meninos também é a causa de uma confusão nada des-
considerável”.
O forte fascínio acerca da pressão que os adolescentes faziam uns sobre os
outros foi uma das questões tratadas por toda uma série de novas revistas com as
quais a Igreja e os grupos de escoteiros tentavam atingir os adolescentes ameri­
canos durante o início da década de 1930: American Girl, Everygirl e Scholastic.
“Como uma menina pode ser bonita e popular”, uma estudante secundária per­
guntou à Everygirl, se era forçada pelos pais a usar “roupas de baixo de lã, meias
de algodão, sapatos de salto baixo masculinos?” Em vez de reprovar ou negar
essas pressões, as revistas ofereciam conselhos sensatos, supondo que as adolescen­
tes compartilhariam o bom senso e os valores conformistas que elas promoviam.
A existência dessas revistas refletia até que ponto os pais tinham cedido o con­
trole sobre as vidas de seus filhos. Elas expunham a verdadeira preocupação, de
que havia pouca base comum entre as gerações, mas resolviam conflitos ao rea­
firmar expectativas tradicionais. Para os meninos, a questão mais urgente era o
emprego. Revistas como American Boy reforçavam a ética competitiva: “Você
vai trabalhar para se sustentar e lutar por uma carreira numa competição tão in­
tensa, impiedosa e sutil como você jamais conhecerá.” As meninas, em contraste,
estavam sendo preparadas para casar e ser rainhas do lar.
A maior fonte de tensões entre pais e filhos era o sexo. Como a manchete do
número de janeiro de 1932 de Ladies’ Home Journal dizia: “UMA MENINA
TEM QUE FICAR DE AGARRAMENTOS PARA SER POPULAR?” A moça que
tinha feito esta perguntava não tinha encontrado ajuda nos pais: “Eles, arrepen­
didos da sua própria juventude, sem dúvida, estavam determinados a que eu fosse
doce, casta e pura.” O seu dilema era se deveria gozar a sua juventude “enquanto
a tinha” ou “virar as costas para o Caminho da Popularidade, desistir de fumar
O EXÉRCITO INFANTIL E 0 NEW DEAL | 309
e de todo o resto, para ficar em casa todas as noites olhando com carinho e ar
sonhador para o telefone à espera de que tocasse um dia”.
A responsabilidade por impor limites sexuais era colocada não sobre os me­
ninos, mas sobre as meninas. Vendo que os pais oscilavam entre confusão e ordens,
as moças se viravam para as colunistas conselheiras como tia Cheriy, da Everygirl,
que aconselhava a abstinência: “É só dizer para si mesma: Ainda não é hora.’”
Entretanto, isto nem sempre funcionava. Como a gravidez adolescente continuava
a ser o maior de todos os tabus, os pais de classe média em particular eram in­
centivados a colaborar com estes novos especialistas em jovens na moldagem das
expectativas de seus filhos em vez de dar ordens contraproducentes.
Um método era o de se envolverem na vida social de seus filhos a fim de
analisar futuros pretendentes. Como um correspondente da Parents observou,
era possível isolar o indivíduo inadequado apresentando a sua filha à turma “cer­
ta” e deixando “a inexorável intolerância dos jovens por aquele que não se encai­
xa” fazer a sua parte. Este mesmo tipo de sugestão podia ser usado para outras
questões controvertidas, como o fumo e os cosméticos. Os pais americanos esta­
vam sendo encorajados a consultar especialistas em vez de exercer um controle
autoritário.
Esta mudança foi imposta por vários fatores. Um problema era a inexistência
de educação sexual disponível nas escolas: “Nossa escola secundária não faz nada
a respeito de educação sexual porque não ousamos”, uma professora “bem-infor-
mada” contou aos Lynd. A interdição cabal também podia gerar rebeldia, como
no caso de uma menina de 16 anos que, depois de alertada pelos pais, teve rela­
ções sexuais sem proteção com o inevitável resultado. Quando ela começou a
andar com um garoto de 15 anos, “o fato de achar que estava fazendo algo que
os pais não aprovariam a satisfazia pelo sentimento de independência que isso
lhe dava”.
Ao mesmo tempo, métodos tradicionais de controle concorriam com uma
mídia que continuava a estimular impulsos humanos básicos. A Depressão não
havia erradicado o consumismo: os Lynd notaram que, na Muncie dos meados
da década de 1930, os “mais passivos, mais formais, mais organizados, mais me­
canizados e mais comercializados” padrões de lazer da década de 1920 continua­
vam a passo acelerado. Destes, o mais perturbador eram os filmes: freqüentado
por 28 milhões de adolescentes americanos por semana, o cinema era visto por
reformadores e moralistas igualmente como “uma ameaça à vida mental e moral
da futura geração”.
O poder psíquico do cinema foi reconhecido pela pesquisa conduzida pelo
governo Hoover durante o ano de 1932. Em “The Agencies of Communication”,
Malcolm Willey e Stuart A. Rice relataram que editores de revistas de cinema
populares recebiam um “dilúvio” de cartas de espectadoras que estavam 4cheias
310 | 1930-1939
de revelações pessoais que indicam, às vezes deliberadamente, com mais frequên­
cia inconscientemente, a influência da tela sobre hábitos, modos de se vestir e
assuntos românticos. Elas mostram o grau em que estereótipos de ego podem
ser moldados pelas estrelas de cinema”.
***
Um caso importante em questão foi o sucesso de bilheteria de Hollywood em
1931, O inimigo público n°l> uma “história essencialmente verídica” de um jo­
vem irlandês que migra da vida das gangues de rua para o mundo do contrabando
e do crime organizado. No seu papel decisivo como Tom Powers, James Cagney
estava eletrizante como um novo demônio americano. Aqui estava o nervoso e
niilista jovem gângster, com um toque de efeminação estilizada sob a aparência
de valentão, cuja vida - sintetizada na famosa cena em que ele joga um grapefruit
cortado na cara da namorada Mae Clarke - foi um longo espasmo orgiástico de
violência e sadismo.
O simples júbilo e a energia presentes no desempenho de Cagney enfraque­
ceram a premeditada moral do final do filme: de que o crime não compensa.
Até seu término bailado, arrastado, foi glamuroso. Sua principal parceira de
cena, Jean Harlow, destacava-se de maneira parecida. Ao contrário das outras
protagonistas femininas - a petulante boa companheira retratada por Joan Blon-
dell, ou o capacho lamuriento representado por Mae Clarke -, Harlow era igual
a Cagney. Os cabelos loiros e platinados e os movimentos sinuosos, junto com
seu sotaque de taquara rachada, abstraíam-na de um tipo familiar de jovem para
o de uma deusa do sexo nervosamente assertiva: a encarnação da Garota Má.
Eram exatamente as linhas indistintas entre fantasia e realidade que tornavam
filmes como O inimigo público nQl tão preocupantes. Os pesquisadores descobri­
ram que os jovens espectadores desprezavam os dizeres moralistas que apareciam
na abertura e assimilavam o que queriam dos filmes. Um jovem delinqüente,
vestido no estilo Cagney, aprovava o ator mas não o seu desaparecimento: “‘Esta
é a conversa fiada que te dão nos filmes. Eles sempre morrem ou vão presos. Isso
não é verdade. Olha o Joe Citro, o Pedro Salami e Tony Vendetta. Os nomes
que ele mencionou eram os daqueles caras importantes, ou gângsteres, do seu
próprio bairro que pareciam prosperar impunes.”
O gângster contrabandista de bebidas alcoólicas da década de 1920 havia
retornado como um herói. Os reformadores também se concentraram no desem­
penho memoravelmente sinistro de Edward G. Robinson como Rico no filme
da década de 1930 Little Caesar, que “arrebatou certos grupos de meninos da re­
gião como um ciclone”. Os filmes de gângsteres tornavam o crime “fascinante e
criminalmente distinto” para os jovens pobres: “Quase todos aqueles neste grupo
O EXÉRCITO INFANTIL E 0 NEW DEAL | 311
usavam o amistoso jogo de esquerda seguido da direita na costela, no queixo e
no ombro. Eles imitavam os seus passinhos, o seu ar Cagney arrogante. Eles sor­
riam como Cagney e até vestiam camisas iguais às de Cagney.”
A “produção em massa de juventude flamejante” dos filmes tornou-se o ob­
jeto de ativa condenação, conforme os moralistas buscavam um novo alvo depois
da Lei Seca. O reformador Henry Forman sustentava que os filmes promoviam
a pronta aceitação entre os jovens “de que luxo, extravagância, dinheiro fácil são
os direitos inalienáveis de todos. A recente depressão econômica tem nos mostra­
do um dos resultados do conceito quase universalmente aceito de que é fácil ficar
rico. O estudo de vários jovens delinqüentes mostra até que ponto o mesmo con­
ceito derivado dos filmes tem devastado as vidas juvenis”.
Publicado em 1934, o livro de Forman, Our Movie-Made Children, coletou
a pesquisa conduzida no início da década de 1930 pelo Motion Picture Research
Council, um grupo de pressão dedicado à censura de filmes. Uma das plataformas
centrais do seu argumento era a quantidade de películas que tratavam de sexo e
violência. Um pesquisador identificou 16 “metas” retratadas em 115 filmes; en­
tre os dez principais estavam “vingança”, aparecendo em quinto, e “crime para
lucro”, em sétimo. Em 1930, outro especialista julgou que 72% de todos os fil­
mes tratavam dos três principais temas - “crime, sexo e amor”.
Forman pensou que isso era como um veneno entrando no sistema de distri­
buição de água: “Se ninguém prestar atenção, é muito provável que surja uma
consciência nacional desordenada, promíscua e indesejável.” A partir de um le­
vantamento realizado com quinhentos estudantes secundários, um terço relatou
“imitação definitiva dos filmes no modo de fazer amor”. Num apanhado geral
com 250 meninas delinqüentes, mais da metade declarou que “elas sentiam como
se um homem estivesse fazendo amor com elas” depois de assistirem a um filme
quente como The Pagan. “Quando vejo filmes que me excitam, sempre quero ir
para casa e fazer a mesma coisa que os vi fazendo”, uma menina de 16 anos
admitiu.
Obviamente, Hollywood não estava interessada em ganhar dinheiro com
documentários. Mas, então, era conveniente para os moralistas apresentarem a
juventude como uma lousa em branco rabiscada com os sujos grafites de Holly­
wood. De fato, a jovem audiência era muito mais seletiva do que eles reconhe­
ciam. Uma transcrição literal de uma conversa entre quatro moças universitárias
mostrou que elas compreendiam muito bem a capacidade do cinema para mol­
dar a realidade:
- A ideia que ela tem de faculdade se resume a Bebe Daniels e Richard Dix.
- One Minute to Play?
- Sim, isso combinado com Flaming Youth.
312 | 1930-1939
- Bem, você sabe que muitas de nós estamos pensando nisso quando vamos
para a faculdade.
—Mas náo demora muito para a gente abandonar a ideia. Mas as que nunca
chegam lá são as que idealizam a farra. Elas realmente acreditam que a faculda­
de não passa de uma grande festa.
O verdadeiro problema era que o comportamento exagerado dos delinqüentes
analisados em Our Movie-Made Children era apenas uma ampliação de valores
culturais americanos. O colapso do país parecia estar refletido no comportamento
da sua juventude, e em vez de procurar a causa, os moralistas preferiam atacar o
sintoma. Eles achavam que a indústria do cinema tentava divulgar distorções
eróticas e violentas do comportamento juvenil com habilidade hipnótica: utiliza­
do com sucesso, este argumento gerou renovados pedidos de censura dos filmes
que resultaram, em 1934, num Código de Produção extremamente reforçado.
Temores de que os jovens estivessem sendo excessivamente estimulados pela
mídia de massa americana eram alimentados pela florescente indústria de revistas
sensacionalistas. “Esmagando o Ring Opium de Cleveland para salvar escravas
brancas” foi como Jim Jam Jems, publicada em Minnesota, promoveu a sua ex­
posição de “drogas, afrodisíacos e monstros orientais” num improvável cenário
de Meio-Oeste. Desde 1932, Exposed fazia uma denúncia ainda mais direta de
uma “Geração Louca”: “Raptores aos 18 anos! Assassinos eletrizantes aos 16! Tem
algo de errado numa civilização que conduz tantos meninos para vidas crimi­
nosas! O QUE PODEMOS FAZER?”
***
Se a reação da América a uma crise coletiva acompanhou o espírito fronteiriço
que fundou a nação, então seu inquieto individualismo alimentou novos tipos de
infração à lei. Tendo se estabelecido durante a Lei Seca, o invisível governo do
crime organizado não estava prestes a debandar: em vez disso, ele diversificou-se
em esquemas desonestos de proteção, drogas ilegais, sequestros e roubos a bancos.
Estas duas últimas atividades foram os sinais mais visíveis da mudança no cenário
da Lei Seca conforme, segundo a imprensa, o Meio-Oeste fervilhava com gangues
perigosas, como aquelas chefiadas por Ma Barker, John Dillinger, Machine Gun
Kelly e Pretty Boy Floyd.
Os antigos modelos de gangues e organizações étnicas haviam sido suplan­
tados por uma nova ética: móvel, pulverizada e aleatoriamente letal. Assassinos
eletrizantes haviam proliferado na década desde o julgamento de Leopold/Loeb.
Em 1933, o índice de crimes explodiu: houve 12 mil assassinatos nos Estados
Unidos, 3 mil sequestros e 150 mil roubos. Os mais famosos jovens criminosos
0 EXÉRCITO INFANTIL E 0 NEW DEAL | 313
do início da década de 1930 encaixavam-se bem no seguinte padrão: dirigindo
milhares de milhas pelas estradas pouco freqüentadas do Texas, de Oklahoma,
do Arizona e do Novo México - uma nova fronteira interna - e matando à von­
tade durante uma série de assaltos a banco frustrados.
Nascidos em 1909 e 1910, respectivamente, Clyde Barrow e Bonnie Parker
não foram os criminosos mais bem-sucedidos do período, mas foram os mais
celebrados. Sua história foi de uma simplicidade clássica: uma folie à deux fatal
entre um jovem delinqüente empedernido e uma inteligente mas exibicionista
moça. Nos 18 meses desde que entraram em atividade no fim do verão de 1932,
Bonnie e Clyde mataram 12 pessoas. Eles eram ladrões e assassinos mas, graças aos
seus freqüentes boletins na mídia, viraram lendas com suas fugas ousadas, sua ve­
locidade de tirar o fôlego e sua violência psicopática.
Seja com os versos de pé-quebrado de Bonnie, “Suicide Sal”, com suas foto­
grafias posando com uma arma na mão ou mesmo com o insolente endosso ao
V8 —“velocidade constante e isenção de problemas” —enviado por Clyde Barrow
ao próprio Henry Ford, os dois eram entendidos em mídia como nunca se tinha
visto. Eles até previram sua própria morte: “A estrada vai ficando cada vez mais
indistinta”, Bonnie escreveu em “The Story of Bonnie and Clyde”, o poema au-
tomitologizante que circulou na mídia nacional depois que o casal foi finalmen­
te interceptado e morto pela polícia em maio de 1934.
O que era mais exasperante para as autoridades, já incapacitada pelas leis
que impediam a polícia de perseguir fugitivos do outro lado das fronteiras esta­
duais, era o fato de que tanta gente celebrava este par de violentos assassinos
como heróis folclóricos. Houve cenas de multidões que faziam lembrar aquelas
do funeral de Rodolfo Valentino quando seus corpos foram velados em Arcadia,
Louisiana: quando milhares de pessoas se aglomeraram no salão da funerária, o
proprietário foi obrigado a pulverizar neles fluido para embalsamar.2 Estarrecido,
o diretor do Federal Bureau of Investigation, o FBI, armou uma campanha
combinada para eliminar esse perigoso glamour.
Depois dos muito divulgados extermínios de Bonnie e Clyde, John Dillinger
e Pretty Boy Floyd, em 1934, J. Edgar Hoover assumiu os poderes federais no
ano seguinte, retirando de um golpe as antiquadas restrições legais. Nesse mesmo
ano, ele lançou toda uma nova estirpe de super-homens exterminadores do crime
sobre o público americano: os G-men. Com livros como Ten Thousand Public Ene-
miesy de Courtney Ryley Cooper, Hoover transformou o medo do crime numa
indústria. Em 1936, milhões de crianças americanas consumiam produtos G-men

2 O V8 destruído no qual o casal morreu ainda era exibido quarenta anos depois. Ele foi vendido em 1973 por
175 mil dólares para a revista Time: 20 mil dólares mais caro do que a Mercedes de Hider.

314 | 1930-1939
especificamente voltados para os jovens: distintivos, metralhadoras de brinquedo,
pijamas e até revistas.
Alarmados com as “explosões mentais” da juventude, reformadores como Will
Hays e J. Edgar Hoover buscavam controlar os adolescentes americanos do modo
tradicional e moralista ainda que a Lei Seca tivesse mostrado que esse era um ca­
minho perigoso. A nova geração de progressistas também acreditava que os jovens
da América eram, como os “produtos de um período psicopático”, vulneráveis
demais à “mídia evasiva do cinema, ao rádio, aos motores velozes e ao álcool”.
Entretanto, eles buscavam curar os efeitos da Depressão influenciando a reforma
da estrutura e política juvenis.
Os rebeldes andarilhos e os gângsteres psicóticos eram um severo alerta: as
técnicas de controle de massa estavam falhando. A abordagem laissez-faire do
presidente Hoover tinha conduzido o país à beira do desastre, e um novo princípio
social motivador se fazia necessário. Em agosto de 1932, o historiador e econo­
mista George Soule observou que os americanos estavam “no meio de uma gran­
de revolução social”. O capitalismo tinha se mostrado precário, mas seria reforma­
do por uma nova classe empresarial que rejeitava seu etos competitivo “fora de
moda”. Era hora de injetar algum socialismo no coração do individualismo.
A profecia de Soule de que “uma mudança nos poderes governantes terão
lugar, provavelmente por meios constitucionais”, foi confirmada pela eleição de
um novo presidente, Franklin Delano Roosevelt, em 1932. Com uma chapa que
garantia “um novo acordo para o povo americano”, Roosevelt instituiu todo um
conjunto de novos programas durante os produtivos “cem dias” da sessão especial
do Congresso em 1933. Com medidas que iam desde cotas agrícolas a novos di­
reitos trabalhistas, causando verdadeiro alívio, o New Deal foi visto como nada
menos do que uma forma de “capitalismo do Estado”.
O New Deal imediatamente reduziu o número de desempregados em um
quarto durante a primavera e o verão de 1933. Ao ampliar o alcance do Estado
no cotidiano, Roosevelt reduziu qualquer ameaça imediata de ruptura política e
social. Com a revolução desse modo evitada, o capitalismo continuou, mas com
um rosto diferente. Em vez do princípio de “materialismo crasso” da década de
1920, os anos 1930 seriam o seguimento de uma visão pioneira de trabalho duro
para o bem coletivo no futuro. Entretanto, isso não significou uma mudança
total nas aspirações americanas: o consumidor ideal não havia sido totalmente
suplantado, apenas adiado.
Uma das primeiras tarefas da nova administração foi lidar com a juventude
itinerante. Um mês depois de assumir a presidência, Roosevelt criou o Civilian
Conservation Corps, disponível para homens solteiros entre 18 e 25 anos, que ofe­
recia 30 dólares por mês em troca de trabalho em projetos públicos. Em três
meses, 250 mil rapazes estavam assentados em quase 1.500 acampamentos. Em
O EXÉRCITO INFANTIL E O NEW DEAL | 315
geral, a experiência foi positiva: como um agradecido Jim Mitchell lembrou, o
esquema “moldou a minha vida, que não tinha direção”.
A unidade oferecia alimentação adequada, estrutura de equipe e um sentimen­
to de realização, inestimáveis para rapazes que tinham se visto antes como rejei­
tados pela sociedade. Os projetos incluíam construção de parques, plantio de
árvores, limpeza de praias e construção de diques. Embora entusiastas como Jim
Mitchell encontrassem “uma maravilhosa mistura social”, o esquema tinha suas
limitações. Estabelecendo os 18 anos como a idade mínima, ele deixava de atrair
mais do que uma pequena proporção de jovens itinerantes, e alguns deles - acos­
tumados à liberdade - torciam o nariz para a arregimentação desses “poleiros de
Roosevelt”.
Outras medidas do New Deal começaram a aliviar os piores aspectos da
vida transitória. O Temporary Emergency Relief Act, de 1933, incentivava as
comunidades locais a oferecerem aos itinerantes pelo menos “uma refeição grátis,
trabalho pela segunda refeição, uma cama no chão e despejo depois do segundo
ou terceiro dia”. Ao mesmo tempo, o governo estabelecia o Transient Relief
Service, provendo centenas de centros transitórios que funcionavam para embar­
car os fujões de volta para casa, para colocá-los num trabalho assalariado ou em
campos do Civilian Conservation Corps.
O governo incentivava os jovens americanos a ficarem na escola, onde estavam
sob um certo grau de controle pelos adultos. Robert e Helen Merrell Lynd obser­
varam que “num mundo onde a busca por trabalho tornou-se - e talvez continue
- mais difícil do que no passado, as escolas devem efetivamente retardar esta
participação e se tornar um lugar onde adolescentes e jovens adultos possam, de
modo satisfatório, e Middletown realmente espera por isso, ficar o mais tempo
possível.” Em 1936, quase dois terços de todos os americanos em idade escolar
estavam estudando, embora o número de itinerantes demorasse a baixar.
Isso não foi universalmente popular: muitos adolescentes americanos queriam
nada mais do que ingressar no mundo dos adultos. Como um jovem de 16 anos
contou a uma audiência de rádio, “a maioria das pessoas da nossa idade quer
crescer o mais rápido possível, mas seus pais não querem isso”. Talvez por causa
desta acusação, ser pai na década de 1930 tornou-se mais “democrático”: uma
tendência parodiada no romance Prodigal Parents, de Sinclair Lewis, no qual os
adultos curvavam-se sob as insaciáveis exigências de seus filhos. A maior fre­
quência às escolas secundárias, entretanto, teve o efeito de retardar a idade adulta
e aumentar a força da sociedade de adolescentes.
A primeira-dama Eleanor Roosevelt também fez dos jovens a sua preocupação
específica. Ela patrocinou a formação do American Youth Congress, no fim de
1934, que se tornou, segundo um dos seus líderes, Joseph Lash, o “cérebro es­
tudante do New Deal”. Solidária à política dos estudantes, Mrs. Roosevelt conse-
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guiu convencer os esquerdistas do AYC a trabalharem juntos com a Casa Branca
em vez de ridicularizarem a política estabelecida e o New Deal. Por sua vez, o
patrocínio da esposa do presidente ajudou em parte a difundir a ameaça da in­
quietação juvenil.
Eleanor Roosevelt estava muito consciente de que as medidas da América
para a juventude não iam muito longe. “Tenho momentos de verdadeiro terror,
quando penso que podemos estar perdendo esta geração”, ela escreveu em 1935.
“Temos de trazer estas pessoas para a vida ativa da comunidade e fazê-las sentir
que são necessárias.” Cinco anos depois da Depressão, a ameaça de uma revolução
não desaparecera. Além do mais, um novo tipo de política juvenil fascista de massa
havia emergido depois da posse de Roosevelt. Como Maxine Brown escreveu no
seu estudo cruzadista de The Lost Generation, “a situação alemã está sempre na
nossa frente”.
Este fracasso do New Deàl em melhorar a vida para mais do que uma pe­
quena porcentagem da geração perdida da América foi testemunhado pelos Lynd
no Meio-Oeste. Tenha tomado ou não a forma de cinismo, crime banal ou “re­
belião latente”, “o problema da juventude ociosa estava enfaticamente presente
em Middletown, em 1935”. Os filhos das classes trabalhadoras eram os mais
desiludidos, mas eles também relatavam a “tranqüila amargura” de “um distinto
diplomado da faculdade local” que lhes contou que “nosso grupo sentia que es­
tava totalmente impedido. Simplesmente não há futuro para nossa geração”.
Esta situação repetia-se por todo o continente: em maio de 1935, havia
2.877.000 jovens de 16 a 24 anos de idade recebendo auxílio financeiro do go­
verno. Os espigões da polarização política estavam aguardando nos bastidores.
Na esquerda, vários grupos de estudantes radicais fundiram-se na American Stu-
dent Union. Joseph Lash lembrou que a formação da ASU coincidiu com as novas
instruções de Moscou, que, “diante da crescente ameaça da Alemanha hiderista,
deu meia-volta e entrou na Liga das Nações e instruiu todos os seus comunistas
a se organizarem em frentes populares”.
Nos meados da década, a política fascista estava sendo trombeteada para
milhões de lares americanos por intermédio de agências de radiodifusão do padre
católico Charles E. Coughlin. Tendo sido um fanático defensor do New Deal,
Coughlin seguira a linha populista até a extrema direita, louvando Mussolini e
o governador da Louisiana, Huey Long. A América também tinha a Ku Klux
Klan, que começou a forjar vínculos com os vários grupos simpatizantes dos na­
zistas formados por americanos de origem alemã depois da ascensão de Hider ao
poder - em breve reunidos no Amerika-Deutscher Volksbund.
Para os adeptos do New Deal, como Charles W. Taussig, esta polarização
tornou ainda mais urgente a intervenção do Estado. “Vendedores de ouro falso
encontram voluntários a se converterem a credos sociais e políticos nocivos a
0 EXÉRCITO INFANTIL E 0 NEW DEAL | 317
muitos valores que esta nação representa”, ele escreveu. “Agora, ou nunca, devemos
invocar nossos princípios de livre pensamento, livre expressão e livre educação.
Sob a adequada direção e liderança, nossa juventude pode e desenvolverá uma
filosofia de vida mais definida e esperançosa. Se não educarmos nossa juventude
de hoje para funcionar com inteligência numa democracia moderna, o governo
democrático estará condenado.”
O presidente Roosevelt tinha, até então, evitado gastar mais dinheiro governa­
mental com os adolescentes americanos. Ele também expressou a preocupação
de que “uma agência juvenil federal, como tal, pode ser confundida como um passo
no sentido da organização política ou arregimentação dos jovens”. Entretanto,
com 6 milhões de jovens americanos com menos de 18 anos vivendo da assistência
social do governo,3 ele mudou de ideia. Depois de persistentes tentativas de Elea-
nor Roosevelt e Charles W. Taussig para influenciar as autoridades competentes,
em junho de 1935 Roosevelt estabeleceu a National Youth Administration e des­
tinou 50 milhões de dólares para seu uso no ano fiscal seguinte.
A National Youth Administration visava a dar ajuda financeira aos alunos
de nível secundário, universitários e diplomados entre 16 e 25 anos de idade. Mas
suas medidas não incluíam a assistência financeira do governo: como o Mágico
de Oz, o presidente Roosevelt ateve-se à norma americana de que, “neste país,
todos devem pagar pelo que têm”. Na prática, os projetos de trabalho da organi­
zação aceitavam jovens solteiros entre 18 e 24 anos e encontrava empregos para
eles em troca de um pagamento mensal médio de 15,73 dólares. No fim, eram
mais de 150 empregos diferentes em oferta, variando de serviços de escritório
até os de conservação.
A formação desse organismo marcou uma mudança significativa no tratamen­
to que a América dava a seus jovens. Em vez de largados para se defenderem so­
zinhos, como acontecera na década de 1890, os adolescentes americanos não eram
mais ignorados e se tornaram uma parte importante dos objetivos e das políticas
governamentais. Assim como a Depressão havia lhes ajudado a ter uma voz - em
muitos inquéritos que buscavam descobrir seus sentimentos e inclinações políticas
—, ela também selou seu status como um grupo valioso na vida americana. En­
tretanto, isto só faria inchar a maré de jovens insatisfeitos, na medida em que o
que era oferecido como um privilégio começaria a ser visto como um direito.

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CAPÍTULO 20

Os B iff Boys e a ameaça vermelha


A polarização da juventude britânica
^^%
Todos os anos novas gerações de colegiais surgem, cada uma empurrando
a anterior um pouco mais para perto daquele incrível abismo da
maioridade e da assistência social. Ora, o suprimento de meninos
era inesgotável: havia milhões deles nas escolas; Marlowe’s poderia continuar
para sempre. O que aconteceria com eles depois de cumprido seu aprendizado?
Onde estariam as oportunidades se todas as firmas estavam fazendo o jogo
de Marlowe’s? Se! Uma horrível suspeita apoderou-se dele. Suponha que este
presente fosse uma nova ordem estabelecida, que, uma vez tendo cumprido
seu tempo de estudo, o sujeito permanecesse para sempre desempregado!
- W alter G re e n w o o d , Love on the D ole (1 9 3 3 )

JOVENS DESEMPREGADOS, NORTE DA INGLATERRA, 1935


DURANTE O A N O DE 1935, um escritor de esquerda encontrou um grupo de
jovens britânicos chamado “The Unemployed Gang”. Um deles contou exatamen­
te como se viu obsoleto aos 17 anos: “DESPEDIDO aos 16 anos porque o gover­
nador queria contratar um menino de recados que faria o meu trabalho por
menos... Num fruteiro, ele ajudava no balcão, limpava a loja, fazia entregas de
bicicleta, das 8:30 às 19h, ah, e nos sábados, quando começávamos às 8:30 e
trabalhávamos... até terminar. Salários de 10 xelins por semana. Eu sofri um
acidente de bicicleta fora do expediente e o emprego não estava mais lá quando
saí do hospital... Nunca mais vou conseguir outro emprego: estou velho demais!”
Assim como Thomas Minehan fizera na América, W. E Lestrange viajou
milhares de quilômetros por toda sua terra natal, a Inglaterra e o País de Gales,
para encontrar as histórias dos jovens devastados pela Depressão. Ele mal conteve
a sua ira com o que descobriu: “Espero que este livro os faça perceber que al­
guns milhões de jovens que o Estado (e isto significa vocês) está maltratando e
desperdiçando praticamente não se distinguem - exceto pelo fato de que muitos
deles estão subnutridos - de seus próprios filhos e filhas, irmãos e irmãs.”
A exposição de Lestrange, Wasted Lives, combinava estatísticas do governo e
testemunhos orais. Ele lembrou um caso típico: “Pouco tempo atrás eu estava
nas Salas dos Desempregados (como um membro honorário na época). Eu jogava
tênis de mesa com Trevor. Trevor tem quase 18 anos. Eu o venci no quarto game
(ele ganhara os outros três). Para adular a minha vaidade ferida (pois eu acho
que sei jogar tênis de mesa), eu disse: ‘Você é muito bom, Trevor.’” O rapaz
tinha trabalhado como garoto de entregas, mas foi despedido ao completar 16
anos: seus enormes olhos castanhos “eram enfatizados pelo rosto encovado”.
“A entonação monótona do galês perdeu-se num tom irritado quando ele
respondeu: ‘Tenho que ser. Estou aqui todos os dias às lOh e jogo até a hora do
jantar a não ser que eu vá ao Bureau. Não tem nada para se fazer de tarde, tam­
bém, portanto eu venho aqui e jogo sempre que a mesa está livre. Pingue-pon­
gue: batendo - bolinhas de celulóide de um lado para o outro! Essa é a minha
vida. Tudo que eu vou fazer na vida é jogar pingue-pongue. Quando eu era crian­
ça achei que seria... queria ser...* Ele saiu correndo da sala e me deixou tentando
entender as coisas. Acho que ele estava chorando.”
Tratando de política educacional, das iniquidades do sistema de aprendizado
e da mão de obra infantil, a polêmica de Lestrange tinha a intenção, como o Boy
and Girl Tramps of America, de Minehan, de chocar seus leitores e depois causar
um impacto na política governamental. Este não era o projeto de uma pessoa
totalmente estranha ao meio. Trabalhando com a assistência da Liga Socialista,
um pequeno grupo de esquerda filiado ao Partido Trabalhista, Lestrange entrou
em contato com ministérios do governo, sindicatos, grandes fábricas, jornais
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nacionais e câmaras municipais a fim de apresentar um quadro completo da
falta de esperança da juventude britânica.
Como parte do seu diagnóstico, Lestrange prestou atenção em particular ao
que era chamado eufemisticamente de “Áreas Especiais”, os antigos centros indus­
triais da Grã-Bretanha, como o sul do País de Gales e o nordeste, que tinham
sido mais atingidos pela Depressão. Suas fotografias expunham a sujeira e os de­
tritos deixados para trás por uma economia totalmente arrasada, mais devasta­
doramente numa seqüência que mostrava as ruas ocupadas por moradores de
Tyneside —o local sombrio que produziria o protesto dos desempregados mais
famoso da década, a marcha Jarrow, de 1936.
Estas não eram “Áreas Especiais”, mas “Áreas Abandonadas”, onde condições
de vida degradadas andavam lado a lado com “as reminiscências do horror —
fundições de aço abandonadas, minas de carvão abandonadas —ferrugem e pilhas
de escória - prédios em ruínas e maquinarias paralisadas, arruinadas. É a desolação
abominável - e é no meio disso tudo que as criancinhas estão vivendo a sua he­
rança, que meninos e meninas estão consumindo seus corações em desespero,
que os homens e as mulheres mais velhos estão perguntando a Deus por que Ele
lhes permitiu nascer —por que Ele os deixou ter filhos cuja herança é a morte
em vida”.
Com seus esboços inovadores e incansável concentração nos aspectos som­
brios da Grã-Bretanha, Wasted Lives era um produto da sua década. Durante os
anos 1920, as atenções da mídia na juventude tinham se voltado para as elites e
as várias formas de prazer, fossem incentivadas ou condenadas. Durante a década
de 1930, o foco estava sobre a não elite, sobre os que estavam em desvantagem:
os valores da década anterior estavam desacreditados e obsoletos. Este foi um re­
sultado inevitável do craque da bolsa, mas também ressaltava uma preocupação
muito real de que estas condições desesperadoras pudessem ajudar a incentivar
ainda mais a polarização política.
Os sinais estavam por toda parte. Na América, os jovens desempregados iam
para a estrada, uma reação que exemplificava a energia de um país móvel, jovial:
mesmo assim, eles eram vistos como os incubadores em potencial de sentimen­
tos revolucionários. Na Alemanha, eram a matéria bruta para a arregimentação
fascista disfarçada de autogoverno. No Reino Unido, se tivessem ânimo, iam fazer
caminhadas. Ou então ficavam à toa em grupos rebeldes nas esquinas desertas.
As fotografias de Lestrange os capturou congelados nas suas atitudes de tédio e
bravata, em silhueta contra um panorama urbano deteriorado. Eram eles uma
revolução aguardando para acontecer?
***

OS BIFF BOYS E A AMEAÇA VERMELHA | 321


O impacto inicial do Grande Craque na Grã-Bretanha fora abafado. O desem­
prego tinha permanecido por volta da marca do milhão no fim da década de
1920. Mas, conforme os números subiam ao pico final dos 3 milhões em 1933,
as condições que antes tinham estado confinadas às “Áreas Especiais”, espalharam-
se por todo o país. Desemprego e pobreza tornaram-se sistêmicos durante a dé­
cada de 1930. Má alimentação e condições de vida insalubres geravam doenças
como sarampo, gripe e difteria, enquanto a depressão e as doenças mentais prospe­
ravam: os suicídios eram comuns.
Os jovens sofriam uma grande parte dos insultos dirigidos aos desempregados,
por ser considerados pelas autoridades como responsáveis pelo seu próprio des­
tino. Como o Times pronunciou em janeiro de 1930, “um grande percentual de
meninos e meninas atualmente estão quase sendo treinados para ficar ociosos na
vida, avessos ao trabalho e intolerantes ao controle, tendo nada mais do que um
morno interesse por qualquer coisa além dos espetáculos promovidos nos campos
de futebol e no cinema”. Entretanto, conforme os escritores começaram a expor
o escândalo dos mortos-vivos da Grã-Bretanha, descobriu-se que a realidade era
muito diferente.
Enquanto livros sobre trabalhadores tinham sido pouco numerosos durante
a década de 1920, um súbito dilúvio do que o comentarista Ethel Mannin cha­
mou de “romances sociológicos” seguiu-se ao craque: Miner, de E C. Boden;
Love on the Dole, de Walter Greenwood; Hatters Castle, de A. J. Cronin; Boy, de
James Hanley; No Mean City, de Alexander McArthur e H. Kingsley Long. Ao
mesmo tempo documentos sociais realistas e apaixonadas polêmicas, eles ajudaram
a definir o estilo e as preocupações da nova década - do tédio ao envolvimento,
de Mayfair a Salford. Os jovens não eram mais animados, mas desperdiçados.
Como se condenada por uma década de negligência, esta enxurrada de livros
revisitava toda uma geração de histórias sobre a classe operária. Eles abarcavam
a primeira onda de desemprego no início da década de 1920, o efeito de uma
prolongada e amarga greve de mineradores e a subcultura urbana da violenta
vida de gangues urbanas. Não tinham apenas “o selo da verdade”, também con­
densavam passado e presente numa poderosa indiciação de uma sociedade onde
não importava se você estivesse realmente empregado ou não. O resultado era o
mesmo: como Harry Hardcasde, o herói de Love on the Dole, acabou entendendo:
“Ah, podia muito bem estar numa prisão desgraçada.”
Love on the Dole dramatizava um problema institucional muito freqüente
na década de 1930: o trabalho informal ou o “aprendizado” que acabava quando
começava a proteção legal aos 16 anos. Entretanto, o sistema de aprendizado
estava encolhendo rapidamente durante a década de 1930, exatamente quando
os empregadores começaram a reduzir as horas de trabalho e a ignorar os direitos
dos trabalhadores. Novas tecnologias de automação foram outro fator importante,
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combinado com os imperativos de “tempo e movimento” introduzidos sob o
disfarce de “racionalização”. “Um punhado de homens trabalhando, multidões de
desempregados olhando”, foi como Greenwood resumiu o “progresso moderno”.
Tecnologia e administração combinadas para criar autômatos humanos: o
robô de Metropolis, os Epsilons de Admirável mundo novo, de Huxley. A nova
técnica mais notória foi iniciada na América com Frederick W. Taylor e intro­
duzida na Grã-Bretanha durante a década de 1930. A constante supervisão do
sistema de Bedaux —um estudo “científico” de “tempo e movimento” onde qual­
quer tarefa podia ser dividida em unidades de medida que eram usadas para de­
finir metas de hora em hora e dia a dia - resultava em condições ainda mais
desumanas. Como o Trade Union Congress de 1932 afirmou, “o trabalhador
sob tal sistema é obrigado a se sentir como um dente na engrenagem para produzir
cada vez mais. A tendência é obliterar a individualidade e a perícia, e transfor­
mar o trabalhador em simples máquina”.
Um dos primeiros atos do novo governo nacional foi a introdução do teste
de recursos no fim de 1931: o objetivo era negar “benefícios transicionais” aos
reivindicantes com economias e apoio de parentes. A política de redução de be­
nefícios fora sugerida pelo May Reporf, que recomendava cortes nos gastos pú­
blicos no valor 96 milhões de libras, dois terços dos quais sairiam dos pagamen­
tos de assistência social. O teste era aplicado “sem misericórdia” por localidade.
Pouco mais de dois meses após sua implementação, mais de 250 mil homens e
mulheres tiveram cortados os seus benefícios.
O teste de recursos também reduzia a motivação para trabalhar, visto que
qualquer dinheiro extra seria retirado do benefício reivindicado por outros mem­
bros da família. W. F. Lestrange observou que este foi “um peso esmagador sobre
os ombros” dos jovens que deviam sustentar suas famílias. Ele citou a história
de Joe, um londrino:
Como um bom cidadão, ele tinha sustentado sua família por quatro anos; na épo­
ca, estava com 19. Não, ele não era um pai esmerado: sua família consistia do seu
pai (fora do mercado de trabalho indefinidamente depois de um ferimento pelo
qual não recebeu indenização), da mãe, de um irmão e de uma irmã ainda na escola.
Joe era comparativamente filosófico a respeito da sua incapacidade de comprar
um terno novo para si, visto que o resto da família —um ou outro —precisava sem­
pre de novos trajes com mais urgência do que ele.
Joe e eu discutimos casamento. Ele disse (menos filosoficamente):
- Poucas chances de um dia eu ser fisgado, com uma família já pronta para
cuidar. Talvez Bernie consiga um emprego numa loja no ano que vem, talvez acon­
teça um milagre e eu receba um aumento.
OS BIFF BOYS E A AMEAÇA VERMELHA | 323
O milagre aconteceu dias depois. Joe foi promovido e recebeu um aumento
de 10 xe